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Glomerulonefrite rapidamente progressiva, glomerulonefrite crescêntica: quadro comparativo Os 3 tipos podem causar o mesmo quadro clínico geral: hematúria glomerular, cilindros hemáticos, proteinúria, queda rápida da função renal e formação de crescentes na biópsia. O que muda é o mecanismo imunológico e, principalmente, o padrão da imunofluorescência renal. Tipo I, Linear, Anti-MBG (anti-membrana basal glomerular) Mecanismo: autoanticorpos dirigidos contra a MBG (membrana basal glomerular). Na forma clássica, o alvo é um componente do colágeno tipo IV da membrana basal. Imunofluorescência: padrão linear, como se a membrana basal tivesse sido “desenhada com uma linha contínua” de imunoglobulina. Esse é o grande marcador desse tipo. Sorologia: pesquisa de anti-MBG no sangue. Na prática, também se pesquisa ANCA (anticorpo anticitoplasma de neutrófilos), porque existe paciente duplo-positivo, com anti-MBG e ANCA ao mesmo tempo. Clínica típica: síndrome nefrítica rapidamente progressiva e, em alguns casos, hemorragia alveolar. Quando há acometimento renal e pulmonar, pensa-se na síndrome de Goodpasture. Complemento: em geral, não é o principal marcador alterado aqui. O padrão laboratorial típico não é o de consumo exuberante de complemento como se vê em muitas glomerulonefrites por imunocomplexos. Tratamento que costuma cair: glicocorticoide + ciclofosfamida + plasmaférese (troca plasmática), iniciados sem demora quando a suspeita é forte. Frase para decorar: Linear = anti-MBG. Tipo II, Granular, por imunocomplexos Mecanismo: deposição de imunocomplexos antígeno-anticorpo no glomérulo, com inflamação secundária. Esse é o mecanismo clássico da nefrite lúpica e da GNPE (glomerulonefrite pós-estreptocócica) mostradas no slide. Imunofluorescência: padrão granular, em “grumos”, porque os imunocomplexos se depositam de forma irregular. Exemplos clássicos de prova: lúpus e glomerulonefrite pós-infecciosa, especialmente a pós-estreptocócica. A GNPE é uma glomerulonefrite imunocomplexo-mediada e frequentemente cursa com deposição dominante de C3 (componente 3 do sistema complemento). Complemento: costuma ser a pista importante. Em muitas glomerulonefrites por imunocomplexos, sobretudo as pós-infecciosas, ocorre redução do C3, e em lúpus pode haver consumo de complemento de forma variável. Clínica: pode ter síndrome nefrítica, síndrome nefrótica ou quadro misto, dependendo da doença de base e da localização dos depósitos. Em nefrite lúpica, a localização dos imunocomplexos influencia bastante a gravidade e o padrão da lesão. Frase para decorar: Granular = imunocomplexos = lúpus/GNPE. Tipo III, Pauci-immune, vasculites, ANCA+ Mecanismo: lesão inflamatória glomerular com poucos ou nenhum depósito detectável de imunoglobulina ou complemento na imunofluorescência. “Pauci-immune” significa justamente isso, pobre em depósitos imunes visíveis. Imunofluorescência: praticamente negativa ou com depósitos mínimos. Esse é o dado que diferencia esse grupo do tipo I e do tipo II. Associação clínica principal: vasculites de pequenos vasos associadas a ANCA, especialmente GPA (granulomatose com poliangiite) e MPA (poliangiite microscópica). O KDIGO (Kidney Disease: Improving Global Outcomes) destaca a investigação com MPO (mieloperoxidase) e PR3 (proteinase 3), que são os principais alvos do ANCA. Sorologia: geralmente ANCA positivo, contra MPO ou PR3, embora existam casos ANCA-negativos. Se o quadro clínico for compatível e a sorologia vier positiva, o KDIGO orienta que não se atrase o início da terapia só esperando a biópsia em paciente com deterioração rápida. Complemento: em geral, não é a principal pista laboratorial, ao contrário do que costuma ocorrer nas formas por imunocomplexos. Frase para decorar: Pauci-immune = vasculite ANCA. Como diferenciar os 3 em prova 1. Olhe a imunofluorescência ● Linear: anti-MBG. ● Granular: imunocomplexos. ● Pauci-immune: quase sem depósitos, típico de ANCA-vasculite. 2. Olhe a sorologia ● Anti-MBG positivo: favorece tipo I. ● ANCA positivo, MPO ou PR3: favorece tipo III. ● ANA (anticorpo antinuclear), anti-DNA, complemento baixo, ou evidência infecciosa: favorecem tipo II, dependendo do contexto clínico. 3. Olhe as pistas clínicas ● Pulmão + rim, com hemorragia alveolar: pensar forte em anti-MBG, embora AAV (vasculite associada a ANCA) também possa acometer pulmão. ● Lúpus conhecido: pensar em tipo II. ● Sinusite, hemoptise, púrpura, mononeurite múltipla, quadro sistêmico vasculítico: pensar em tipo III. Pegadinhas clássicas de prova Pegadinha 1 O quadro clínico pode ser parecido nos 3 tipos. O que realmente separa é o mecanismo imunológico e o padrão da biópsia com imunofluorescência. Pegadinha 2 Crescente não define sozinho a etiologia. Ele mostra gravidade da agressão glomerular, mas não diz se a causa é anti-MBG, imunocomplexo ou ANCA. Pegadinha 3 Pode existir dupla positividade, com anti-MBG + ANCA. Pegadinha 4 “Pauci-immune” não significa ausência total de inflamação. Significa ausência ou escassez de depósitos imunes detectáveis. A lesão renal pode ser gravíssima mesmo assim. Macete de memorização ● Tipo I: Linear, Linha contínua, Liga com anti-MBG. ● Tipo II: Granular, Grumos, GN por imunocomplexos. ● Tipo III: Pauci-immune, Poucos depósitos, Pequenos vasos com ANCA. Resumo final, do jeito que cai Tipo I: linear, anti-MBG, pode ter hemorragia alveolar. Tipo II: granular, imunocomplexos, exemplos clássicos lúpus e GNPE. Tipo III: pauci-immune, vasculites de pequenos vasos, geralmente ANCA positivo.