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MEDICINA DO TRABALHO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever as principais características da gestão organizacional na medicina do trabalho. > Reconhecer os elementos que compõem o PCMSO e seus objetivos. > Caracterizar os exames laborais, as atividades educativas e as demais ações prevencionistas do médico do trabalho. Introdução A saúde e a segurança no trabalho são condições imprescindíveis para o sucesso das relações trabalhistas. A empresa tem o dever de proporcionar ao trabalha- dor condições adequadas para a realização de suas funções, e, por sua vez, o trabalhador deve seguir todas as orientações de segurança para proteger sua saúde e sua vida. Ao longo dos anos, muitos foram os avanços que garantiram direitos ao tra- balhador. Entre eles, estão os serviços e programas de saúde institucionais, que são grandes aliados das empresas e dos trabalhadores na busca por qualidade de vida e segurança no trabalho. Neste capítulo, você vai conhecer alguns dos profissionais envolvidos na organização dos serviços de saúde, especialmente do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), e poderá aprender um pouco mais sobre os principais exames e ações necessários na saúde ocupacional. Organização dos serviços de saúde do trabalho Talita Guerreiro Rodrigues Húngaro Gestão da saúde no trabalho A saúde e a segurança no ambiente ocupacional são condições garantidas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Isso se dá a partir da regulamentação das relações e da imposição do dever de se zelar pela saúde física, mental e social dos trabalhadores no país (BRASIL, 1977). Atualmente, existe um conjunto de normas e procedimentos obrigatórios para empresas e trabalhadores a fim de prevenir distúrbios, disfunções e acidentes relacionados ao trabalho e de proteger a integridade física e psíquica do trabalhador. No Brasil, profis- sionais especializados no atendimento ao trabalhador são responsáveis por garantir que as normas de saúde e segurança sejam corretamente aplicadas nas empresas e organizações (DELGADO, 2017). O gerenciamento dos serviços médicos e de saúde de uma empresa de- pende de diversos fatores, principalmente da atividade realizada por essa empresa e do seu tamanho. Sendo assim, não existe uma regra única de dimensão quanto aos trabalhadores participantes dos grupos de trabalho ou quanto ao espaço físico para a realização dessas atividades de saúde. A Norma Regulamentadora nº 4 (NR-4), que dispõe especificamente sobre os Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT), apresenta dimensionamento vinculado ao número de empregados da organização e ao maior grau de risco entre as atividades econômicas no estabelecimento; porém, em qualquer caso, a participação do médico do trabalho é essencial em todo o processo (BRASIL, 1978a). Observe sempre as atualizações das resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM), que dispõe sobre normas específicas para médicos que atendem o trabalhador. A medicina do trabalho atua na gestão de riscos, no tratamento e, prin- cipalmente, na prevenção de problemas que comprometem a integridade física e mental dos colaboradores. Essa área tem como principal objetivo preservar a saúde dos profissionais que trabalham nas empresas e, para isso, deve promover a qualidade de vida no ambiente laboral e garantir suporte em casos de doenças ocupacionais (LADOU, 2016). São exemplos desse tipo de doença os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) e a lesão por esforço repetitivo (LER), além de outros problemas que podem acometer o trabalhador, como os relacionados ao estresse e a sobrecargas físicas e psíquicas, os distúrbios auditivos ou visuais, entre outros. Organização dos serviços de saúde do trabalho2 Dessa forma, o médico do trabalho e as demais especialidades médicas que atendem o trabalhador, independentemente de atuarem no próprio local das atividades laborais ou em clínica específica, devem dar assistência ao traba- lhador, fazer os encaminhamentos necessários e elaborar prontuário médico (LADOU, 2016). Sempre que necessário, também devem fornecer atestados e pareceres para o trabalhador e considerar que o repouso, o afastamento e o acesso a terapias podem fazer parte de um tratamento. No contexto da saúde ocupacional, existem diversos programas para controle de riscos, prevenção e promoção da saúde, entre os quais está o PCMSO (SANTOS et al., 2019). As empresas/organizações devem indicar, entre os médicos do SESMT, um responsável pelo PCMSO. Nesse programa, o mé- dico tem a função de coordenador, devendo participar, com a regularidade necessária e previamente definida, das atividades na empresa e em suas filiais. Além disso, a Norma Regulamentadora nº 7 (NR-7) especifica que, para coordenar o PCMSO, o médico deverá estar inscrito nos conselhos regionais de medicina dos estados onde atuar. Ainda, ele deverá conhecer as condições e os riscos envolvidos em todas as atividades laborais e proteger a saúde integral do trabalhador (CAMISASSA, 2015). Nesse sentido, sempre que necessário e com o conhecimento do em- pregado, o médico do trabalho poderá discutir o caso clínico com outros médicos especialistas e, a partir daí, propor mudanças relacionadas às fun- ções laborais visando ao melhor resultado no tratamento do paciente — por exemplo, ajustando as atividades exercidas pelo trabalhador e/ou o próprio ambiente de trabalho. Ou seja, o médico também é o profissional competente para avaliar as condições de saúde de um profissional para exercer funções específicas ou trabalhar em ambientes específicos, sendo possível propor a realocação do trabalhador para funções compatíveis com o seu estado de saúde naquele momento (CAMISASSA, 2015). Como exemplo, podemos pensar em avaliações ergonômicas, que são capazes de identificar diversos pontos de ajuste em um ambiente ou fluxo de trabalho, permitindo uma melhor execução da atividade profissional e proporcionando melhor qualidade de vida, saúde e segurança ao trabalhador (KROEMER; GRANDJEAN, 2007). É importante compreender que a saúde no ambiente profissional vai além do profissional médico e que, quanto maior for a gama de profissionais de diversas especialidades, maior será a possi- bilidade de sugestões e projetos que promovam mudanças organizacionais importantes. Na equipe de saúde do trabalho, também podemos incluir os fisiotera- peutas e psicólogos do trabalho, além de diversos outros profissionais de Organização dos serviços de saúde do trabalho 3 saúde, de acordo com a característica de cada trabalho e com as condições da empresa em questão. Vale lembrar que profissionais de diversas áreas da saúde e da engenharia podem cursar uma pós-graduação em ergonomia, que poderá lhes oferecer visões distintas e complementares que agregam no combate aos riscos e na garantia da saúde do trabalhador (KROEMER; GRANDJEAN, 2007; SANTOS et al., 2019). Atendimento médico no ambiente de trabalho De forma geral, a legislação não exige que as empresas tenham um ambu- latório ou uma enfermaria dentro de suas dependências. A exceção ocorre somente no caso da construção civil, quando há mais de 50 trabalhadores, conforme especificado pela Norma Regulamentadora nº 18 (NR-18). Apesar disso, toda empresa com mais de 50 trabalhadores precisa instituir o SESMT (SEGURANÇA..., 2021). No caso de empresas ou organizações onde os funcionários são regular- mente expostos a algum tipo de risco, o SESMT também é exigido, indepen- dentemente do número de trabalhadores. Os ambulatórios e enfermarias inseridos dentro das empresas podem contar com enfermeiros, técnicos de enfermagem e médicos do trabalho. A capacidade de atendimento vai variar de acordo com a estrutura do local, permitindo mais ou menos procedi- mentos e exames. De forma geral, as empresas costumam adotar uma sala individualizada, que permita atendimento ao trabalhador com a privacidade necessária e que possibiliteorientações sobre saúde ocupacional e geral (SEGURANÇA..., 2021). A regulamentação do SESMT é orientada pela NR-4. Nos ambulatórios corporativos, a existência de medicamentos é permi- tida apenas quando há um médico disponível na empresa. O intuito dessa restrição é coibir a automedicação e diversas outras consequências possí- veis, como, por exemplo, alergias e intoxicações. Somente o médico pode prescrever medicação ao trabalhador, e, na ausência daquele, este deve ser encaminhando a um hospital ou unidade de atendimento especializada. De acordo com a Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986, também é permitido ao enfermeiro prescrever medicamentos, mas somente aqueles estabelecidos em programas de saúde pública e cuja rotina seja aprovada por uma instituição de saúde (BRASIL, 1986). Organização dos serviços de saúde do trabalho4 Apesar de muitos atendimentos médicos serem realizados de forma on-line na atualidade, especialmente após o início da pandemia de covid-19, o art. 6º da Resolução CFM nº 2.297, de 5 de agosto de 2021, ratifica as resoluções anteriores e veda ao médico que presta assistência ao trabalhador que realize exames médicos ocupacionais somente com os recursos da teleme- dicina, ou seja, sempre é necessário o exame físico presencial do trabalhador (CFM, 2021). Nesta seção, vimos que o médico tem papel fundamental nos processos relacionados à saúde e à segurança do trabalhador. Além de ser o responsável pelo atendimento clínico, ele participa da organização e gestão de serviços, podendo atuar desde a prevenção até o tratamento, passando pelas diver- sas fases do controle da saúde ocupacional. Entre os serviços e programas voltados à saúde no trabalho, está o PCMSO, que você vai conhecer mais detalhadamente a seguir. Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional O PCMSO foi desenvolvido como ferramenta ativa no intuito de preservar e proteger a saúde dos trabalhadores no ambiente ocupacional, sendo parte de um amplo conjunto de inciativas que visam à saúde e à segurança no trabalho. Conforme descrito na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), os riscos ocupacionais existentes em um ambiente de trabalho devem ser identificados a partir de uma avaliação técnica ampla e da elaboração de um programa de gerenciamento de riscos (PGR) (BRASIL, 1978c). Diversas normas regulamentadoras visam a implementar condições de segurança e padrões exigidos para atividades específicas. Uma dessas normas, a NR-7, discorre especificamente sobre o PCMSO, caracterizando o programa, suas exigências e os profissionais responsáveis por sua implementação. Uma das principais diretrizes do PCMSO é identificar e rastrear de forma precoce os agravos à saúde relacionados ao trabalho. Porém, é fundamental compreender que a identificação de questões de saúde não pode ser utilizada como critério para a seleção de um trabalhador. De todo modo, as avaliações possibilitam que se identifiquem aptidões de um empregado para executar determinadas tarefas ou funções (CAMISASSA, 2015). Ainda faz parte do PCMSO a avaliação do estado de saúde de trabalha- dores em atividades críticas, conforme definido na NR-7, considerando-se os Organização dos serviços de saúde do trabalho 5 riscos envolvidos em cada atividade. Também é preciso investigar distúrbios e disfunções que possam comprometer o exercício da atividade laboral com segurança (CAMISASSA, 2015). No Quadro 1, estão listadas as 12 diretrizes do PCMSO. Quadro 1. Diretrizes do PCMSO 1 Rastrear e detectar precocemente os agravos à saúde relacionados ao trabalho 2 Detectar possíveis exposições excessivas a agentes nocivos ocupacionais 3 Definir a aptidão de cada empregado para exercer suas funções ou tarefas determinadas 4 Subsidiar a implantação e o monitoramento da eficácia das medidas de prevenção adotadas na organização 5 Subsidiar análises epidemiológicas e estatísticas sobre os agravos à saúde e sua relação com os riscos ocupacionais 6 Subsidiar decisões sobre o afastamento de empregados de situações de trabalho que possam comprometer sua saúde 7 Subsidiar a emissão de notificações de agravos relacionados ao trabalho, de acordo com a regulamentação pertinente 8 Subsidiar o encaminhamento de empregados à Previdência Social 9 Acompanhar de forma diferenciada o empregado cujo estado de saúde possa ser especialmente afetado pelos riscos ocupacionais 10 Subsidiar a Previdência Social nas ações de reabilitação profissional 11 Subsidiar ações de readaptação profissional 12 Controlar a imunização ativa dos empregados, relacionada a riscos ocupacionais, sempre que houver recomendação do Ministério da Saúde Fonte: Adaptado de Brasil (1978b). O PCMSO inclui também as vigilâncias passiva e ativa da saúde do traba- lhador. A vigilância passiva se dá por meio de informações obtidas de forma espontânea, quando um empregado procura o serviço de saúde da empresa por iniciativa própria. Já a vigilância ativa é realizada mediante os exames médicos previstos, além da coleta de dados individuais relativos a sinais e sintomas específicos apresentados por um trabalhador (CAMISASSA, 2015). Organização dos serviços de saúde do trabalho6 Os microempreendedores individuais (MEI), as microempresas (ME) e as empresas de pequeno porte (EPP) não são obrigados a elaborar o PCMSO. Conforme descrito na NR-1, nesses casos o empregador deve solicitar e pagar pelos exames médicos ocupacionais de seus empregados, sendo exi- gidos os exames admissionais, os demissionais e, a cada dois anos, os exames periódicos (BRASIL, 1978c). O controle dos dados e das informações obtidos a partir do PCMSO pode ser feito de forma individual ou coletiva. Quando ele é feito de forma individual, todos os dados provenientes de exames clínicos e/ou complementares devem ser registrados em um prontuário médico individual do trabalhador, sob res- ponsabilidade do médico coordenador do PCMSO, ou do médico responsável pelo exame, quando a empresa estiver dispensada da obrigatoriedade do programa. Além disso, o prontuário de cada empregado deve ser mantido pela empresa por, no mínimo, 20 anos após o seu desligamento. Esse período pode ser maior em alguns casos e funções (CAMISASSA, 2015). Os prontuários também podem ser armazenados de forma eletrônica, desde que atendam às especificações e exigências do CFM. Quando esse controle é feito de forma coletiva, o médico responsável pelo controle do PCMSO deve elaborar um relatório anual analítico do programa. Esse relatório deve conter o número de exames clínicos realizados no período (considerado desde a data do último relatório do PCMSO, que deve ser anual); o número e a descrição de exames complementares realizados; as estatísticas (por exame, unidade, setor ou função) dos resultados anormais identifica- dos em exames complementares; a incidência e a prevalência de doenças, distúrbios ou disfunções relacionadas ao trabalho, também categorizados por unidade, setor ou função; número, tipo de evento e doenças informadas nas comunicações de acidentes de trabalho (CAT) emitidas pela empresa; e a análise comparativa em relação ao relatório anterior, além de discussão sobre as variações nos resultados (CAMISASSA, 2015). As ações preventivas de saúde são cada vez mais essenciais na medicina ocupacional, envolvendo profissionais de diversas áreas e disseminando informação aos trabalhadores (SANTOS et al., 2019). A análise profunda dos dados por meio do relatório do PCMSO é fundamental para que novas ações preventivas sejam planejadas visando à redução de danos à saúde do tra- balhador e minimizando os riscos existentes no trabalho. Organização dos serviços de saúde do trabalho 7 O texto das normas regulamentadoras é frequentemente atualizado. O acompanhamento dessas alterações é de suma importância para garantir a correta aplicação das legislações trabalhistas e assegurar as condições de saúde e segurança no trabalho. Para conhecer em detalhes o texto principal das normas, bem comoos seus anexos e as portarias que as modificam, acesse o site do Governo Federal. O PCMSO oferece uma forma estruturada de controle da saúde ocupacional, pois permite que sejam detectadas de forma precoce as possíveis causas de danos à saúde do trabalhador, além de garantir o acesso ao tratamento adequado e às reformulações necessárias no trabalho. Por meio da vigilância ativa e passiva da saúde, juntamente às ações preventivas e à análise de dados, esse programa garante um controle amplo e preciso da saúde dos trabalhadores. A seguir, veremos como os exames clínicos e os dados epide- miológicos contribuem nesse processo. Exames laborais, atividades educativas e ações prevencionistas Ao considerarmos que a empresa deve garantir o levantamento e o geren- ciamento de riscos ocupacionais, o PCMSO entra como um recurso essencial no controle de possíveis agravos à saúde do trabalhador, incluindo o pla- nejamento de exames médicos, básicos e complementares, de acordo com os riscos identificados. O PCMSO deve conter critérios para interpretação e planejamento das condutas médicas e deve ser conhecido por todos os profissionais médicos que realizam os exames ocupacionais dos empregados (CAMISASSA, 2015). Os exames médicos obrigatórios que fazem parte do PCMSO são os exames admissionais, os exames periódicos, os exames de retorno ao trabalho, os exames de mudança de riscos ocupacionais e os exames demissionais. Todos esses exames clínicos devem obedecer, obrigatoriamente, a periodicidade e prazos específicos, de acordo com a NR-7 (SEGURANÇA..., 2021). Exame admissional É o exame realizado antes de o trabalhador dar início às suas atividades laborais, como parte do processo de contratação. De forma geral, o exame admissional inclui uma breve entrevista para coleta de histórico médico, Organização dos serviços de saúde do trabalho8 aferição da pressão arterial, batimentos cardíacos, ausculta pulmonar e afe- rição da massa corpórea. É importante salientar que, em algumas atividades, são necessários exames admissionais e regulares específicos, conforme a exigência e os riscos inerentes à função. Exame periódico É o exame realizado com intervalos específicos conforme os riscos ocupa- cionais que foram identificados e as doenças prévias que o trabalhador eventualmente apresente, podendo ser anual ou com intervalos menores, de acordo com a determinação do médico do trabalho responsável pela avaliação. No caso de profissionais expostos a condições hiperbáricas (exercício de atividade sob pressão atmosférica elevada), o anexo IV da NR-7 apresenta especificações direcionadas, com a exigência de exames extras. Nesses casos, o atestado de aptidão do trabalhador para a função é válido por seis meses, devendo ser atualizado. Para os demais trabalhadores, não portadores de doenças crônicas espe- cíficas que possam ser agravadas pela atividade laboral ou em funções nas quais não foram detectados riscos ocupacionais, o exame clínico periódico deve ser realizado a cada dois anos. Exame de retorno ao trabalho Nesse exame, o trabalhador é avaliado clinicamente antes de reassumir as suas funções. Isso deve ocorrer sempre que o trabalhador se ausentar por motivo de saúde ou doença, tendo ou não relação com o trabalho, por 30 dias ou mais. É no exame de retorno ao trabalho que o médico avalia a capacidade de retorno à função e indica se esse retorno deve ser total ou gradativo. Exame de mudança de riscos ocupacionais Esse exame deve ser realizado sempre que houver mudança dos riscos ocu- pacionais na atividade desempenhada pelo trabalhador e, portanto, deve ser feito obrigatoriamente, antes da data da mudança, para que sejam possíveis o controle médico e as adequações necessárias aos novos riscos de exposição. Organização dos serviços de saúde do trabalho 9 Exame demissional Esse exame clínico deve ser realizado, obrigatoriamente, em até 10 dias após o término do contrato de trabalho. Somente é possível a dispensa desse exame no caso de exame clínico ocupacional recente do trabalhador — a norma regulamentadora orienta que organizações com graus de risco classificados em 1 ou 2 podem dispensar o exame demissional no caso de exame prévio com menos de 135 dias e que organizações com graus de risco 3 ou 4 podem dispensá-lo caso haja um exame prévio com menos de 90 dias. Até o momento, a NR-7 tem cinco anexos. Em cada um deles, são descritas as atividades com exigências de exames complementares, acompanhamento e condições específicas em casos de funções consideradas de risco extra. Veja no Quadro 2 os cinco anexos dessa norma. Quadro 2. Os cinco anexos da NR-7, que dispõem sobre o controle médico em casos de funções consideradas com risco extra à saúde Anexo I Monitoramento da exposição ocupacional a agentes químicos Anexo II Controle médico ocupacional da exposição a níveis de pressão sonora elevados Anexo III Controle radiológico e espirométrico da exposição a agentes químicos Anexo IV Controle médico ocupacional de exposição a condições hiperbáricas Anexo V Controle médico ocupacional da exposição a substâncias químicas cancerígenas e a radiações ionizantes Fonte: Adaptado de Brasil (1978b). Em todos os exames apresentados, os médicos realizam avaliação clínica e, quando necessário, solicitam exames complementares. Esses exames são realizados de acordo com as especificações da NR-7 e das outras normas regulamentadoras que tratam de atividades específicas (CAMISASSA, 2015). Sempre que um exame é feito, os trabalhadores devem ser informados, antes ou durante sua realização, sobre o objetivo de cada um deles. Além disso, o médico deve explicar ao trabalhador os resultados obtidos em cada um dos exames realizados e informar a ele se há necessidade de tratamento ou não (SANTOS et al., 2019). Organização dos serviços de saúde do trabalho10 Sempre que for realizado um exame clínico ocupacional, o médico deverá emitir um atestado de saúde ocupacional (ASO), que deverá ser disponibilizado ao trabalhador. O ASO deve conter, no mínimo (CAMISASSA, 2015): � razão social e CNPJ (ou CAEPF) da empresa; � nome completo, CPF e função do empregado; � descrição de fatores de risco identificados e classificados no PGR que necessitem de controle médico, ou a sua inexistência; � data de realização dos exames clínicos e complementares; � indicação de aptidão ou inaptidão do empregado para a realização de sua função; � nome e número do registro profissional do médico responsável pelo PCMSO, quando houver; � data, número do registro profissional e assinatura do médico respon- sável pela realização do exame clínico. Um dos intuitos desses exames, ao avaliar as condições de saúde do trabalhador, é evitar que surja ou se agrave algum distúrbio ou disfunção relacionada à atividade laboral (SANTOS et al., 2019). Se algum desses exames sinalizar o surgimento ou agravamento de uma condição de saúde do trabalhador, primeiramente o médico responsável pelo PCMSO deverá, conforme disposto na NR-7 e em suas atualizações, informar a empresa ou organização sobre o ocorrido. Em seguida, a empresa deverá emitir a CAT e, quando necessário, afastar o empregado da função ou do trabalho. Se houver a necessidade de afastamento do trabalho por mais de 15 dias, o trabalhador deverá ser encaminhado à Previdência Social, para que seja realizada a avaliação de incapacidade e haja a conduta previdenciária cabível. Além disso, a empresa deve reavaliar os riscos ocupacionais da função/atividade exercida pelo trabalhador, bem como reavaliar as medidas de prevenção pertinentes (CAMISASSA, 2015). Conforme apresentado na NR-1, o trabalhador deve receber informações sobre riscos relacionados ao seu local de trabalho, além de informações claras sobre os meios para prevenir e controlar tais riscos. Por meio de inúmeros programas e iniciativas de saúde e segurança do trabalho, todo trabalhador deve conhecer também os procedimentos indicados nos casos de emergência.Esse conjunto de informações pode ser transmitido ao trabalhador por meio de diálogos de segurança, documentos físicos ou eletrônicos e, principalmente, durante a realização de treinamentos específicos de segurança. Organização dos serviços de saúde do trabalho 11 Neste capítulo, você pôde compreender a importância do médico na gestão de programas ocupacionais, especialmente o PCMSO, e na solicitação e execução de exames relacionados à saúde do trabalhador. Também vimos quando esses exames são realizados e como os dados obtidos auxiliam no controle da saúde do trabalhador e de toda a empresa. Por fim, pudemos observar que a prevenção e a redução dos riscos são fundamentais quando se trata de saúde e segurança ocupacional e devem estar entre os principais objetivos de todos os programas e iniciativas voltados à saúde no trabalho. Referências BRASIL. Lei n. 6.514, de 22 de dezembro de 1977. Altera o Capítulo V do Título II da Consolidação das Leis do Trabalho, relativo a segurança e medicina do trabalho e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 1977. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6514.htm#capV. Acesso em: 27 dez. 2022. BRASIL. Lei n. 7.498, de 25 de junho de 1986. Brasília: Presidência da República, 1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da enfermagem, e dá outras providências. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7498.htm. Acesso em: 27 dez. 2022. BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência. NR 4: serviços especializados em en- genharia de segurança e em medicina do trabalho. Brasília: Ministério do Trabalho e Previdência, 1978a. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/ pt-br/composicao/orgaos-especificos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca- -e-saude-no-trabalho/normas-regulamentadoras/nr-04-atualizada-2022.pdf. Acesso em: 27 dez. 2022. BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência. NR 7: Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO. Brasília: Ministério do Trabalho e Previdência, 1978b. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/composicao/or- gaos-especificos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca-e-saude-no-trabalho/ normas-regulamentadoras/nr-07-atualizada-2022-1.pdf. Acesso em: 27 dez. 2022. BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência. NR 1: disposições gerais. Brasília: Minis- tério do Trabalho e Previdência, 1978c. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e- -previdencia/pt-br/composicao/orgaos-especificos/secretaria-de-trabalho/inspecao/ seguranca-e-saude-no-trabalho/normas-regulamentadoras/nr-01-atualizada-2020. pdf. Acesso em: 27 dez. 2022. CAMISASSA, M. Q. Segurança e saúde no trabalho: NRs 1 a 36 comentadas e descom- plicadas. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2015. CFM. Resolução n. 2.297, de 5 de agosto de 2021. Dispõe de normas específicas para médicos que atendem o trabalhador. Brasília: CFM, 2021. Disponível em: https://in.gov. br/en/web/dou/-/resolucao-cfm-n-2.297-de-5-de-agosto-de-2021-338989320. Acesso em: 27 dez. 2022. DELGADO, M. G. Curso de direito do trabalho. 16. ed. São Paulo: LTr, 2017. KROEMER, K.; GRANDJEAN, E. Manual de ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2007. LADOU, J.; HARRISON, R. Medicina ocupacional e ambiental. Porto Alegre: AMGH, 2016. Organização dos serviços de saúde do trabalho12 SANTOS, S. V. M. et al. Saúde do trabalhador. Porto Alegre: Grupo A, 2019. SEGURANÇA e medicina do trabalho. São Paulo: Saraiva, 2021. Leituras recomendadas BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência. Normas Regulamentadoras – NR. Bra- sília: Gov.br, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-previdencia/pt-br/ composicao/orgaos-especificos/secretaria-de-trabalho/inspecao/seguranca-e-saude- -no-trabalho/ctpp-nrs/normas-regulamentadoras-nrs. Acesso em: 27 dez. 2022. CFM. Resolução n. 2.323, de 6 de outubro de 2022. Dispõe de normas específicas para médicos que atendem o trabalhador. Brasília: CFM, 2022. Disponível em: https://siste- mas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2022/2323. Acesso em: 27 dez. 2022. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Organização dos serviços de saúde do trabalho 13