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Ementa e Acórdão 25/06/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) :MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) :GUILHERME CARVALHO FARIAS PROC.(A/S)(ES) :DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. :MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) :CARINA QUITO ADV.(A/S) : JULIANO JOSE BREDA ADV.(A/S) :BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE EMENTA Recurso extraordinário com agravo. Julgamento sob a sistemática da repercussão geral. Constitucional. Processual penal. Aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime. Acesso à agenda telefônica, aos registros de chamadas e às fotografias arquivadas no aparelho sem prévia autorização judicial. Condenação em primeira instância. Acórdão recorrido em que se reconheceu a ilicitude da prova. Violação do sigilo das comunicações (CF, art. 5º, inciso XII). Aplicação da teoria dos frutos da árvore envenenada. Absolvição do recorrido por insuficiência de provas. Alteração considerável do contexto fático e normativo. Transformação tecnológica. Superveniência do MCI, da LGPD e da EC nº 115, de 2022. Direito à proteção dos dados pessoais nos meios digitais. Autodeterminação informacional. Proteção jurídica especial e autônoma. Direitos fundamentais à vida privada e à intimidade. Superação do entendimento firmado no HC nº 91.867/PA. Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Supremo Tribunal FederalSupremo Tribunal Federal Inteiro Teor do Acórdão - Página 1 de 219 Ementa e Acórdão ARE 1042075 / RJ Necessidade de consentimento ou de prévia autorização judicial para acesso aos dados contidos no aparelho celular apreendido em prisão em flagrante. Contemporização desse entendimento nas situações de encontro fortuito do aparelho no local do crime. Identificação do autor do fato ou do proprietário do aparelho celular. Licitude da prova. Restabelecimento da condenação. Possibilidade de preservação cautelar dos dados. Recurso provido. I. CASO EM EXAME 1. No caso dos autos, o aparelho celular foi encontrado fortuitamente no local dos fatos e apreendido pela autoridade policial (CPP, art. 6º, inciso II). A identificação do autor do delito decorreu do exame da agenda telefônica, dos registros de chamadas e de fotografias constantes do aparelho celular pelos agentes policiais, sem consentimento de quem de direito ou prévia autorização judicial, o qual permitiu a coleta de evidências que nortearam a realização de diligências que culminaram na identificação e na prisão do autor do fato (flagrante impróprio) e em sua posterior condenação, em primeira instância, pelo crime de roubo. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A controvérsia constitucional posta nos autos consiste em saber se a autoridade policial pode acessar, sem prévia autorização judicial, os dados armazenados em aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime e apreendido nos termos do art. 6º, inciso II, do CPP. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. Os smartphones já eram realidade no país em 2013. Tais aparelhos multifuncionais, além de servirem de instrumento para os serviços ordinários de telefonia móvel, permitem a produção, o armazenamento, a transmissão e a reprodução de arquivos dos mais diversos formatos (textos, imagens, áudios e vídeos) e – mais que isso – viabilizam o acesso amplo e irrestrito à internet e, por conseguinte, às redes sociais, aos provedores de e-mail, às plataformas bancárias e de e-commerce, a uma miríade de sites e blogs e aos inúmeros aplicativos de mensagens instantâneas, inclusive gratuitamente. Graças aos smartphones, “o mundo passou a caber na palma da mão”. Mas, à medida que isso 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Necessidade de consentimento ou de prévia autorização judicial para acesso aos dados contidos no aparelho celular apreendido em prisão em flagrante. Contemporização desse entendimento nas situações de encontro fortuito do aparelho no local do crime. Identificação do autor do fato ou do proprietário do aparelho celular. Licitude da prova. Restabelecimento da condenação. Possibilidade de preservação cautelar dos dados. Recurso provido. I. CASO EM EXAME 1. No caso dos autos, o aparelho celular foi encontrado fortuitamente no local dos fatos e apreendido pela autoridade policial (CPP, art. 6º, inciso II). A identificação do autor do delito decorreu do exame da agenda telefônica, dos registros de chamadas e de fotografias constantes do aparelho celular pelos agentes policiais, sem consentimento de quem de direito ou prévia autorização judicial, o qual permitiu a coleta de evidências que nortearam a realização de diligências que culminaram na identificação e na prisão do autor do fato (flagrante impróprio) e em sua posterior condenação, em primeira instância, pelo crime de roubo. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A controvérsia constitucional posta nos autos consiste em saber se a autoridade policial pode acessar, sem prévia autorização judicial, os dados armazenados em aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime e apreendido nos termos do art. 6º, inciso II, do CPP. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. Os smartphones já eram realidade no país em 2013. Tais aparelhos multifuncionais, além de servirem de instrumento para os serviços ordinários de telefonia móvel, permitem a produção, o armazenamento, a transmissão e a reprodução de arquivos dos mais diversos formatos (textos, imagens, áudios e vídeos) e – mais que isso – viabilizam o acesso amplo e irrestrito à internet e, por conseguinte, às redes sociais, aos provedores de e-mail, às plataformas bancárias e de e-commerce, a uma miríade de sites e blogs e aos inúmeros aplicativos de mensagens instantâneas, inclusive gratuitamente. Graças aos smartphones, “o mundo passou a caber na palma da mão”. Mas, à medida que isso 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Inteiro Teor do Acórdão - Página 2 de 219 Ementa e Acórdão ARE 1042075 / RJ acontecia, as informações pessoais também se concentraram nos aparelhos celulares. Hoje, as múltiplas funcionalidades dos aparelhos celulares geram dados e metadados que são registrados na memória física do aparelho, ou “em nuvem”, e podem ser facilmente acessados, rastreados e/ou recuperados. 4. Examinados em conjunto, dados e metadados revelam um espectro enorme de dados pessoais, o que torna possível uma investigação completa e – diga-se de passagem – muito eficiente acerca das preferências pessoais, das relações familiares e interpessoais, dos hábitos de vida, de trabalho e de consumo e, em última análise, da forma de pensar, de agir e de decidir de determinado indivíduo. Isso sem falar, obviamente, das facilidades que o acesso proporciona para a intrusão indevida e “para o futuro”,em aparelho celular abandonado pelo acusado no local do crime”, o processo foi destacado pelo Ministro Flávio Dino. Plenário, Sessão Virtual de 21.2.2025 a 28.2.2025. Composição: Ministros Luís Roberto Barroso (Presidente), Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Luiz Fux, Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Nunes Marques, André Mendonça, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Carmen Lilian Oliveira de Souza Assessora-Chefe do Plenário Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 027A-9EE4-EB3E-941B e senha 63E5-DC2A-7901-C848 Inteiro Teor do Acórdão - Página 15 de 219 Relatório 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) :MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) :GUILHERME CARVALHO FARIAS PROC.(A/S)(ES) :DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. :MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) :CARINA QUITO ADV.(A/S) : JULIANO JOSE BREDA ADV.(A/S) :BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE RELATÓRIO O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro interpõe agravo contra decisão mediante a qual não se admitiu o recurso extraordinário com o fundamento de que o caso demandaria o reexame das provas constantes dos autos (Súmula nº 279/STF). O apelo excepcional, por sua vez, foi interposto com base no art. 102, inciso III, alínea a, do texto constitucional, por suposta ofensa ao seu art. 5º, incisos XII e LVI, e impugna acórdão mediante o qual o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, reconhecendo a ilicitude de prova e a incidência da teoria dos frutos da árvore envenenada, absolveu o recorrido por insuficiência de provas (CPP, art. 386, inciso VII), nos termos da seguinte ementa: “APELAÇÃO CRIMINAL – PENAL E PROCESSUAL Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Supremo Tribunal Federal 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) :MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) :GUILHERME CARVALHO FARIAS PROC.(A/S)(ES) :DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. :MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) :CARINA QUITO ADV.(A/S) : JULIANO JOSE BREDA ADV.(A/S) :BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE RELATÓRIO O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro interpõe agravo contra decisão mediante a qual não se admitiu o recurso extraordinário com o fundamento de que o caso demandaria o reexame das provas constantes dos autos (Súmula nº 279/STF). O apelo excepcional, por sua vez, foi interposto com base no art. 102, inciso III, alínea a, do texto constitucional, por suposta ofensa ao seu art. 5º, incisos XII e LVI, e impugna acórdão mediante o qual o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, reconhecendo a ilicitude de prova e a incidência da teoria dos frutos da árvore envenenada, absolveu o recorrido por insuficiência de provas (CPP, art. 386, inciso VII), nos termos da seguinte ementa: “APELAÇÃO CRIMINAL – PENAL E PROCESSUAL Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Inteiro Teor do Acórdão - Página 16 de 219 Relatório ARE 1042075 / RJ PENAL – ROUBO DUPLAMENTE CIRCUNSTANCIADO PELO EMPREGO DE ARMA DE FOGO E PELO CONCURSO DE AGENTES – EPISÓDIO OCORRIDO NO BAIRRO DA TIJUCA, COMARCA DA CAPITAL – AGENTE QUE, NA COMPANHIA DE UM INDIVÍDUO NÃO IDENTIFICADO E MEDIANTE O EMPREGO DE GRAVE AMEAÇA, EXERCIDA COM O MANEJO DE ARMA DE FOGO, BEM COMO DE VIOLÊNCIA, CONSISTENTE EM EMPURRÃO E EM BATIDAS DA CABEÇA DA VÍTIMA APARECIDA CONTRA O CHÃO, SUBTRAIU DESTA UMA BOLSA CONTENDO 02 (DOIS) APARELHOS DE TELEFONIA CELULAR DAS MARCAS APPLE E SONY ERICSSON, BEM COMO, DIVERSOS DOCUMENTOS, CARTÕES BANCÁRIOS, FOLHAS DE CHEQUE, ALÉM DA QUANTIA DE R$ 5.550,00 (CINCO MIL, QUINHENTOS E CINQUENTA REAIS) EM ESPÉCIE – MECÂNICA DELITIVA QUE SE INICIOU QUANDO A ESPOLIADA SAÍA DE DETERMINADA AGÊNCIA DO BANCO CITIBANK E FOI ABORDADA POR GUILHERME, QUEM APRESENTOU O ARTEFATO VULNERANTE E ANUNCIOU O CRIME, O QUE FEZ COM QUE APARECIDA INICIALMENTE RESISTISSE, SEGURANDO A BOLSA QUE PORTAVA E DISPUTANDO A POSSE DESTA COM O RAPINADOR, QUEM EMPURROU AQUELA, FAZENDO COM QUE A MESMA CAÍSSE AO CHÃO E APÓS O QUE GUILHERME PASSOU A BATER COM A CABEÇA DESTA AO SOLO, ATÉ LOGRAR SUBTRAIR A MENCIONADA BOLSA, EMPREENDENDO FUGA EM SEGUIDA, A PARTIR DO EMBARQUE EM UMA MOTOCICLETA CONDUZIDA PELO SEU COMPARSA, QUEM O AGUARDAVA – DURANTE A FUGA, O IMPLICADO DEIXOU CAIR UM APARELHO DE TELEFONIA CELULAR, O QUAL FOI ARRECADADO POR POLICIAIS CIVIS, QUE VERIFICARAM A EXISTÊNCIA DE FOTOGRAFIAS DO IMPLICADO NA MEMÓRIA DO APARELHO, O QUE NORTEOU A REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIAS QUE POSSIBILITARAM A IDENTIFICAÇÃO E 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ PENAL – ROUBO DUPLAMENTE CIRCUNSTANCIADO PELO EMPREGO DE ARMA DE FOGO E PELO CONCURSO DE AGENTES – EPISÓDIO OCORRIDO NO BAIRRO DA TIJUCA, COMARCA DA CAPITAL – AGENTE QUE, NA COMPANHIA DE UM INDIVÍDUO NÃO IDENTIFICADO E MEDIANTE O EMPREGO DE GRAVE AMEAÇA, EXERCIDA COM O MANEJO DE ARMA DE FOGO, BEM COMO DE VIOLÊNCIA, CONSISTENTE EM EMPURRÃO E EM BATIDAS DA CABEÇA DA VÍTIMA APARECIDA CONTRA O CHÃO, SUBTRAIU DESTA UMA BOLSA CONTENDO 02 (DOIS) APARELHOS DE TELEFONIA CELULAR DAS MARCAS APPLE E SONY ERICSSON, BEM COMO, DIVERSOS DOCUMENTOS, CARTÕES BANCÁRIOS, FOLHAS DE CHEQUE, ALÉM DA QUANTIA DE R$ 5.550,00 (CINCO MIL, QUINHENTOS E CINQUENTA REAIS) EM ESPÉCIE – MECÂNICA DELITIVA QUE SE INICIOU QUANDO A ESPOLIADA SAÍA DE DETERMINADA AGÊNCIA DO BANCO CITIBANK E FOI ABORDADA POR GUILHERME, QUEM APRESENTOU O ARTEFATO VULNERANTE E ANUNCIOU O CRIME, O QUE FEZ COM QUE APARECIDA INICIALMENTE RESISTISSE, SEGURANDO A BOLSA QUE PORTAVA E DISPUTANDO A POSSE DESTA COM O RAPINADOR, QUEM EMPURROU AQUELA, FAZENDO COM QUE A MESMA CAÍSSE AO CHÃO E APÓS O QUE GUILHERME PASSOU A BATER COM A CABEÇA DESTA AO SOLO, ATÉ LOGRAR SUBTRAIR A MENCIONADA BOLSA, EMPREENDENDO FUGA EM SEGUIDA, A PARTIR DO EMBARQUE EM UMA MOTOCICLETA CONDUZIDA PELO SEU COMPARSA, QUEM O AGUARDAVA – DURANTE A FUGA, O IMPLICADO DEIXOU CAIR UM APARELHO DE TELEFONIA CELULAR, O QUAL FOI ARRECADADO POR POLICIAIS CIVIS, QUE VERIFICARAM A EXISTÊNCIA DE FOTOGRAFIAS DO IMPLICADO NA MEMÓRIA DO APARELHO, O QUE NORTEOU A REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIAS QUE POSSIBILITARAM A IDENTIFICAÇÃOE 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Inteiro Teor do Acórdão - Página 17 de 219 Relatório ARE 1042075 / RJ PRISÃO DO RECORRENTE, NA MANHÃ DO DIA SEGUINTE AOS FATOS – IRRESIGNAÇÃO DEFENSIVA DIANTE DO DESENLACE CONDENATÓRIO, PLEITEANDO A MITIGAÇÃO DA SANÇÃO, A PARTIR DA FIXAÇÃO DA PENA BASE EM SEU PATAMAR MÍNIMO LEGAL, ALÉM DA APLICAÇÃO DA MENOR FRAÇÃO PREVISTA CORRESPONDENTE AO RECONHECIMENTO DA DÚPLICE CIRCUNSTANCIAÇÃO DO ROUBO – PROCEDÊNCIA DO RECURSO DEFENSIVO – IDENTIFICAÇÃO DO AUTOR QUE SE DEU EXCLUSIVAMENTE A PARTIR DO ILÍCITO E DESAUTORIZADO MANUSEIO PELOS POLICIAIS CIVIS, DO APARELHO DE TELEFONIA CELULAR, SUPOSTAMENTE DE PROPRIEDADE DO IMPLICADO E QUE TERIA CAÍDO AO CHÃO DURANTE A FUGA DESTE, VINDO A SER ARRECADADO PELA VÍTIMA E ENTREGUE POR ESTA EM SEDE POLICIAL – DEPOIMENTO PRESTADO PELO POLICIAL CIVIL MAYKE QUE ESCLARECE QUE APÓS O DESAUTORIZADO MANEJO DAQUELE APARELHO E COM OS DADOS NELE COLHIDOS, FOI POSSÍVEL A REALIZAÇÃO DA POSTERIOR INVESTIGAÇÃO PARA SE DETERMINAR A IDENTIDADE DO IMPLICADO, BEM COMO OS ENDEREÇOS DO SEU DOMICÍLIO E DE SUA NAMORADA, PARA QUEM AQUELE TERIA EFETUADO A ÚLTIMA LIGAÇÃO CONSTANTE DA AGENDA DO APARELHO, O QUAL AINDA TEVE VIOLADO O HISTÓRICO DE CHAMADAS E O ARQUIVO DE ARMAZENAMENTO DE FOTOGRAFIAS – FLAGRANTE E INDISFARÇÁVEL QUEBRA DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL INCIDENTE SOBRE A INVIOLABILIDADE DO SIGILO DOS DADOS E DAS COMUNICAÇÕES TELEFÔNICAS ALI EXISTENTES, O QUE APENAS PODERIA SE DAR, POR EXCEÇÃO, MEDIANTE EXPRESSA AUTORIZAÇÃO JUDICIAL PARA TANTO, MAS O QUE FOI IGNORADO E DESRESPEITADO PELOS AGENTES DA LEI, MUITO EMBORA NÃO ENCERRASSE MAIOR DIFICULDADE A OBSERVÂNCIA DA EXIGÊNCIA LEGAL, 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ PRISÃO DO RECORRENTE, NA MANHÃ DO DIA SEGUINTE AOS FATOS – IRRESIGNAÇÃO DEFENSIVA DIANTE DO DESENLACE CONDENATÓRIO, PLEITEANDO A MITIGAÇÃO DA SANÇÃO, A PARTIR DA FIXAÇÃO DA PENA BASE EM SEU PATAMAR MÍNIMO LEGAL, ALÉM DA APLICAÇÃO DA MENOR FRAÇÃO PREVISTA CORRESPONDENTE AO RECONHECIMENTO DA DÚPLICE CIRCUNSTANCIAÇÃO DO ROUBO – PROCEDÊNCIA DO RECURSO DEFENSIVO – IDENTIFICAÇÃO DO AUTOR QUE SE DEU EXCLUSIVAMENTE A PARTIR DO ILÍCITO E DESAUTORIZADO MANUSEIO PELOS POLICIAIS CIVIS, DO APARELHO DE TELEFONIA CELULAR, SUPOSTAMENTE DE PROPRIEDADE DO IMPLICADO E QUE TERIA CAÍDO AO CHÃO DURANTE A FUGA DESTE, VINDO A SER ARRECADADO PELA VÍTIMA E ENTREGUE POR ESTA EM SEDE POLICIAL – DEPOIMENTO PRESTADO PELO POLICIAL CIVIL MAYKE QUE ESCLARECE QUE APÓS O DESAUTORIZADO MANEJO DAQUELE APARELHO E COM OS DADOS NELE COLHIDOS, FOI POSSÍVEL A REALIZAÇÃO DA POSTERIOR INVESTIGAÇÃO PARA SE DETERMINAR A IDENTIDADE DO IMPLICADO, BEM COMO OS ENDEREÇOS DO SEU DOMICÍLIO E DE SUA NAMORADA, PARA QUEM AQUELE TERIA EFETUADO A ÚLTIMA LIGAÇÃO CONSTANTE DA AGENDA DO APARELHO, O QUAL AINDA TEVE VIOLADO O HISTÓRICO DE CHAMADAS E O ARQUIVO DE ARMAZENAMENTO DE FOTOGRAFIAS – FLAGRANTE E INDISFARÇÁVEL QUEBRA DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL INCIDENTE SOBRE A INVIOLABILIDADE DO SIGILO DOS DADOS E DAS COMUNICAÇÕES TELEFÔNICAS ALI EXISTENTES, O QUE APENAS PODERIA SE DAR, POR EXCEÇÃO, MEDIANTE EXPRESSA AUTORIZAÇÃO JUDICIAL PARA TANTO, MAS O QUE FOI IGNORADO E DESRESPEITADO PELOS AGENTES DA LEI, MUITO EMBORA NÃO ENCERRASSE MAIOR DIFICULDADE A OBSERVÂNCIA DA EXIGÊNCIA LEGAL, 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Inteiro Teor do Acórdão - Página 18 de 219 Relatório ARE 1042075 / RJ BASTANDO PARA TANTO QUE O POLICIAL CIVIL QUE RECEBEU O REFERIDO APARELHO TELEFÔNICO, DE IMEDIATO, ENCAMINHASSE ESTE AO DELEGADO DE POLÍCIA INFORMANDO A RELEVÂNCIA DO OBJETO, DE MODO A QUE TAL AUTORIDADE POLICIAL REPRESENTASSE JUNTO AO PLANTÃO JUDICIÁRIO DE MODO A OBTER A AUTORIZAÇÃO PARA O ACESSO E VERIFICAÇÃO DOS DADOS PRETENDIDOS – PANORAMA OBTIDO DE CONFIGURAÇÃO DA ILICITUDE, TANTO ORIGINÁRIA, COMO DERIVADA, QUANTO À PROVA COLHIDA NA DETERMINAÇÃO DE AUTORIA, SEGUNDO OS ESCUSOS MEIOS UTILIZADOS PARA TANTO, DE MOLDE A NULIFICAR TUDO O QUE DAÍ ADVINDO, O QUE, NO CASO EM COMENTO, ALCANÇA A INTEGRALIDADE DO CONTINGENTE PROBATÓRIO – MANUTENÇÃO DA CONDENAÇÃO DO RECORRENTE QUE EQUIVALERIA A SE COONESTAR COM A COMPROVADA OCORRÊNCIA DE VIOLAÇÃO A ESPECÍFICA GARANTIA CONSTITUCIONAL, ALÉM DE AGASALHAR COMO VÁLIDA A INFAME ‘LEI DE GÉRSON’, SIMPLESMENTE UMA VERSÃO MAIS ATUALIZADA DE QUE ‘OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS’, MAS O QUE PASSA AO LARGO DE SE COADUNAR COM OS PRINCÍPIOS ATINENTES A UM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, NÃO PODENDO SER CHANCELADO SOB QUALQUER PRETEXTO – INDIGÊNCIA PROBATÓRIA ASSIM INSTALADA E QUE TRAZ COMO ÚNICA SOLUÇÃO POSSÍVEL A ABSOLVIÇÃO DAQUELE, COM FULCRO NO ART. 386, INC. Nº VII DO C.P.P. – PROVIMENTO DO APELO DEFENSIVO” (e-doc. 4, fls. 232-236). Em preliminar, o recorrente sustentou a repercussão geral da matéria com os argumentos de que (i) “a correta aplicação do princípio constitucional da inviolabilidade do sigilo das comunicações telefônicas apresenta nítida relevância social e jurídica”; e (ii) a tese discutida – referente à possibilidade de acesso a registros e informações contidos em 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ BASTANDO PARA TANTO QUE O POLICIAL CIVIL QUE RECEBEU O REFERIDO APARELHO TELEFÔNICO, DE IMEDIATO, ENCAMINHASSE ESTE AO DELEGADO DE POLÍCIA INFORMANDO A RELEVÂNCIA DO OBJETO, DE MODO A QUE TAL AUTORIDADE POLICIAL REPRESENTASSE JUNTO AO PLANTÃO JUDICIÁRIO DE MODO A OBTER A AUTORIZAÇÃO PARA O ACESSO E VERIFICAÇÃO DOS DADOS PRETENDIDOS – PANORAMA OBTIDO DE CONFIGURAÇÃO DA ILICITUDE, TANTO ORIGINÁRIA, COMO DERIVADA, QUANTO À PROVA COLHIDA NA DETERMINAÇÃO DE AUTORIA, SEGUNDO OS ESCUSOS MEIOS UTILIZADOS PARA TANTO, DE MOLDE A NULIFICAR TUDO O QUE DAÍ ADVINDO, O QUE, NO CASO EM COMENTO, ALCANÇA A INTEGRALIDADE DO CONTINGENTE PROBATÓRIO – MANUTENÇÃO DA CONDENAÇÃO DO RECORRENTE QUE EQUIVALERIA A SE COONESTAR COM A COMPROVADA OCORRÊNCIA DE VIOLAÇÃO A ESPECÍFICA GARANTIA CONSTITUCIONAL, ALÉM DE AGASALHAR COMO VÁLIDA A INFAME ‘LEI DE GÉRSON’, SIMPLESMENTE UMA VERSÃO MAIS ATUALIZADA DE QUE ‘OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS’, MAS O QUE PASSA AO LARGO DE SE COADUNAR COM OS PRINCÍPIOS ATINENTES A UM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, NÃO PODENDO SER CHANCELADO SOB QUALQUER PRETEXTO – INDIGÊNCIA PROBATÓRIA ASSIM INSTALADA E QUE TRAZ COMO ÚNICA SOLUÇÃO POSSÍVEL A ABSOLVIÇÃO DAQUELE, COM FULCRO NO ART. 386, INC. Nº VII DO C.P.P. – PROVIMENTO DO APELO DEFENSIVO” (e-doc. 4, fls. 232-236). Em preliminar, o recorrente sustentou a repercussão geral da matéria com os argumentos de que (i) “a correta aplicação do princípio constitucional da inviolabilidade do sigilodas comunicações telefônicas apresenta nítida relevância social e jurídica”; e (ii) a tese discutida – referente à possibilidade de acesso a registros e informações contidos em 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Inteiro Teor do Acórdão - Página 19 de 219 Relatório ARE 1042075 / RJ aparelho de telefone celular apreendido como instrumento ou objeto de conduta delitiva sem o respectivo mandado judicial ou a autorização do proprietário – é, em tese, aplicável a todo e qualquer indivíduo que venha a ser preso em idênticas circunstâncias. No pleito extraordinário, aduz o recorrente, em síntese, que não há violação de sigilo na apreensão de objetos e instrumentos ligados à conduta delitiva, porquanto é dever da autoridade policial retê-los. Da mesma forma, sustenta ser dispensável a obtenção de mandado de busca e apreensão para se acessarem as informações e os registros constantes do aparelho celular encontrado na cena do crime, já que não há quebra do sigilo da comunicação telefônica ou dos dados. Alega que o celular, após cair no local do crime e ser arrecadado pela vítima e entregue às autoridades, foi utilizado para acessar os dados ali armazenados como linha investigativa hábil a identificar o agente, o que classifica como inegável cumprimento do dever policial, não existindo nenhuma ilicitude em tal forma de proceder. Afirma, ainda, que a jurisprudência dominante no Supremo Tribunal Federal sobre o tema pode ser aferida a partir do entendimento sufragado no HC nº 91.867/PA (Segunda Turma, Rel. Min. Gilmar Mendes, DJe de 20/9/12) e no RE nº 418.416/SC (Tribunal Pleno, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de 19/12/06). Nessa esteira, assevera que o acórdão recorrido teria vilipendiado o art. 5º, incisos XII e LVI, da Constituição Federal, haja vista que a simples verificação de registros gravados no próprio aparelho não configuraria prejuízo ao direito ao sigilo das comunicações telefônicas, mas simples acesso a dados contidos em objeto apreendido na cena do crime, cuja apreensão pela autoridade policial seria obrigatória. Ao final, o Ministério Público do Rio de Janeiro pugna pelo conhecimento e pelo provimento do recurso extraordinário, “cassando-se o acórdão recorrido e afastando-se a alegação de ilicitude da prova, com retorno dos autos ao Tribunal de Origem para prosseguimento do julgamento do recurso de apelação defensivo”. 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ aparelho de telefone celular apreendido como instrumento ou objeto de conduta delitiva sem o respectivo mandado judicial ou a autorização do proprietário – é, em tese, aplicável a todo e qualquer indivíduo que venha a ser preso em idênticas circunstâncias. No pleito extraordinário, aduz o recorrente, em síntese, que não há violação de sigilo na apreensão de objetos e instrumentos ligados à conduta delitiva, porquanto é dever da autoridade policial retê-los. Da mesma forma, sustenta ser dispensável a obtenção de mandado de busca e apreensão para se acessarem as informações e os registros constantes do aparelho celular encontrado na cena do crime, já que não há quebra do sigilo da comunicação telefônica ou dos dados. Alega que o celular, após cair no local do crime e ser arrecadado pela vítima e entregue às autoridades, foi utilizado para acessar os dados ali armazenados como linha investigativa hábil a identificar o agente, o que classifica como inegável cumprimento do dever policial, não existindo nenhuma ilicitude em tal forma de proceder. Afirma, ainda, que a jurisprudência dominante no Supremo Tribunal Federal sobre o tema pode ser aferida a partir do entendimento sufragado no HC nº 91.867/PA (Segunda Turma, Rel. Min. Gilmar Mendes, DJe de 20/9/12) e no RE nº 418.416/SC (Tribunal Pleno, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de 19/12/06). Nessa esteira, assevera que o acórdão recorrido teria vilipendiado o art. 5º, incisos XII e LVI, da Constituição Federal, haja vista que a simples verificação de registros gravados no próprio aparelho não configuraria prejuízo ao direito ao sigilo das comunicações telefônicas, mas simples acesso a dados contidos em objeto apreendido na cena do crime, cuja apreensão pela autoridade policial seria obrigatória. Ao final, o Ministério Público do Rio de Janeiro pugna pelo conhecimento e pelo provimento do recurso extraordinário, “cassando-se o acórdão recorrido e afastando-se a alegação de ilicitude da prova, com retorno dos autos ao Tribunal de Origem para prosseguimento do julgamento do recurso de apelação defensivo”. 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Inteiro Teor do Acórdão - Página 20 de 219 Relatório ARE 1042075 / RJ Instado a se manifestar, o Ministério Público Federal, em parecer da lavra da Subprocuradora-Geral da República Dra. Cláudia Sampaio Marques, opinou pelo provimento do agravo e do respectivo recurso extraordinário. Em 31 de outubro de 2017, reconheci a existência de repercussão geral da matéria aqui em discussão, tendo o Plenário Virtual desta Corte referendado essa decisão (DJe de 12/12/17). É o relatório. 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Instado a se manifestar, o Ministério Público Federal, em parecer da lavra da Subprocuradora-Geral da República Dra. Cláudia Sampaio Marques, opinou pelo provimento do agravo e do respectivo recurso extraordinário. Em 31 de outubro de 2017, reconheci a existência de repercussão geral da matéria aqui em discussão, tendo o Plenário Virtual desta Corte referendado essa decisão (DJe de 12/12/17). É o relatório. 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código DA20-68B1-1BE7-854F e senha 3CAB-A5EF-8ADF-4402 Inteiro Teor do Acórdão - Página 21 de 219 Esclarecimento 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO ESCLARECIMENTO O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Doutor Bruno, gostaria de manter um diálogo com Vossa Senhoria e colher uma comparação. Vossa Senhoria citou um caso julgado em 2014, nos Estados Unidos, Riley vs Califórnia. Nesse caso, uma pessoa havia sido parada por um delito de trânsito, uma infração de trânsito, e o policial deu busca e apreensão no celular, examinou, devassou o celular e, com base nesta prova, foi instaurado um processo criminal por um fato que não tinha nada a ver com a infração de trânsito, descobriram que ele tinha participado de outro crime. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Sim. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Portanto, foi uma busca e apreensão. Ele foi no bolso desse indivíduo e apreendeu o celular. O caso da relatoria do Ministro Toffoli é bem diferente, porque foi imediatamente após um crime, no celular não houvebusca e apreensão, ele foi deixado pelo criminoso no local. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Sim. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Vossa Senhoria não acha que há uma diferença relevante entre uma situação e outra? O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Acredito que sim, Excelência. Eu mencionei esse caso apenas nesse sentido preciso de que é mencionado que o aparelho celular hoje revela um verdadeiro portal da intimidade do indivíduo. Apenas nesse sentido argumentativo, Excelência. Agradeço. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Supremo Tribunal Federal 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO ESCLARECIMENTO O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Doutor Bruno, gostaria de manter um diálogo com Vossa Senhoria e colher uma comparação. Vossa Senhoria citou um caso julgado em 2014, nos Estados Unidos, Riley vs Califórnia. Nesse caso, uma pessoa havia sido parada por um delito de trânsito, uma infração de trânsito, e o policial deu busca e apreensão no celular, examinou, devassou o celular e, com base nesta prova, foi instaurado um processo criminal por um fato que não tinha nada a ver com a infração de trânsito, descobriram que ele tinha participado de outro crime. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Sim. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Portanto, foi uma busca e apreensão. Ele foi no bolso desse indivíduo e apreendeu o celular. O caso da relatoria do Ministro Toffoli é bem diferente, porque foi imediatamente após um crime, no celular não houve busca e apreensão, ele foi deixado pelo criminoso no local. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Sim. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Vossa Senhoria não acha que há uma diferença relevante entre uma situação e outra? O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Acredito que sim, Excelência. Eu mencionei esse caso apenas nesse sentido preciso de que é mencionado que o aparelho celular hoje revela um verdadeiro portal da intimidade do indivíduo. Apenas nesse sentido argumentativo, Excelência. Agradeço. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Inteiro Teor do Acórdão - Página 22 de 219 Esclarecimento ARE 1042075 / RJ (PRESIDENTE) - Obrigado, Doutor Bruno. O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN – Presidente, Vossa Excelência me permite? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Pois não. O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN - Cumprimento o ilustre advogado e o defensor que também compareceu à tribuna e Sua Excelência o Relator, o Ministro Dias Toffoli e os eminentes Pares. Eu também tive a minha atenção atraída pela situação do caso, pois este é um caso clássico em que se debate os limites e as possibilidades do respeito à autodeterminação informativa, ou seja, este acesso a essa espécie de casa imaterial cibernética que se tornou o aparelho celular nos dias contemporâneos. Mas neste caso - e eu, obviamente, não votei ainda, estou aqui a ouvir as sustentações e virá o voto de Sua Excelência o Relator - há uma referência específica que a regra geral é esta mesma que foi defendida da tribuna. Porém, no julgamento faz-se referência a exceções, tanto que ali se conclui - por isso, o que eu quero dizer é que, às vezes, uma citação é uma boa companhia, outras vezes, quiçá, nem tanto - porque, nesse julgamento, defere-se a possibilidade de existir situações que justifiquem o acesso imediato da polícia. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Sim. O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN - E na falta de uma justificativa desta exceção, a regra é a determinação judicial. Só estou acrescentando isso, Presidente, porque acompanhava aqui ambas as sustentações orais, como todos nós, e Vossa Excelência teve a sua atenção atraída pelo discrímen que agora o ilustre advogado também está a assentir na tribuna. Apenas faço essa observação. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Ministro Fachin, novamente, o caso foi trazido justamente nesse sentido de que os dados contidos e armazenados em celular são uma espécie de portal da vida privada, apenas trazendo essa 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ (PRESIDENTE) - Obrigado, Doutor Bruno. O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN – Presidente, Vossa Excelência me permite? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Pois não. O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN - Cumprimento o ilustre advogado e o defensor que também compareceu à tribuna e Sua Excelência o Relator, o Ministro Dias Toffoli e os eminentes Pares. Eu também tive a minha atenção atraída pela situação do caso, pois este é um caso clássico em que se debate os limites e as possibilidades do respeito à autodeterminação informativa, ou seja, este acesso a essa espécie de casa imaterial cibernética que se tornou o aparelho celular nos dias contemporâneos. Mas neste caso - e eu, obviamente, não votei ainda, estou aqui a ouvir as sustentações e virá o voto de Sua Excelência o Relator - há uma referência específica que a regra geral é esta mesma que foi defendida da tribuna. Porém, no julgamento faz-se referência a exceções, tanto que ali se conclui - por isso, o que eu quero dizer é que, às vezes, uma citação é uma boa companhia, outras vezes, quiçá, nem tanto - porque, nesse julgamento, defere-se a possibilidade de existir situações que justifiquem o acesso imediato da polícia. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Sim. O SENHOR MINISTRO EDSON FACHIN - E na falta de uma justificativa desta exceção, a regra é a determinação judicial. Só estou acrescentando isso, Presidente, porque acompanhava aqui ambas as sustentações orais, como todos nós, e Vossa Excelência teve a sua atenção atraída pelo discrímen que agora o ilustre advogado também está a assentir na tribuna. Apenas faço essa observação. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Ministro Fachin, novamente, o caso foi trazido justamente nesse sentido de que os dados contidos e armazenados em celular são uma espécie de portal da vida privada, apenas trazendo essa 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Inteiro Teor do Acórdão - Página 23 de 219 Esclarecimento ARE 1042075 / RJ dimensão de intimidade na contraposição à necessidade de comunicação de dados e puxando a necessidade da proteção dos dados em si. Muito obrigado, Ministro Fachin. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Obrigado, Doutor Bruno. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Muito obrigado. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Presidente? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Pois não, Ministro Alexandre.O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Cumprimento Vossa Excelência, a Ministra Cármen, os Colegas. Presidente, só a título de esclarecimento, porque a questão é muito importante, na verdade, os projetos de leis que hoje correm no Congresso Nacional para aumentar a pena de furto ou roubo de celular não têm nenhuma ligação - nenhuma ligação - com os dados que os celulares armazenam. Na verdade, os dois projetos se dão porque é furtado ou roubado um celular no Brasil a cada 35 segundos. Então, em um minuto são roubados ou furtados dois celulares no Brasil. É o país com maior número de roubos e furtos de celulares, 11,5% da população brasileira já teve pelo menos uma vez um celular roubado ou furtado, até porque o Brasil é, lamentavelmente, o maior mercado de receptação de celular. É por isso. A razão é essa, até porque uma vez furtado ou roubado o aparelho celular, imediatamente, o receptador apaga todos os dados para já passar para frente. Só para que não haja essa confusão de discussão. Obrigado, Ministro! O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Obrigado, Ministro Alexandre! Eu ontem recebi, por acaso, o Governador do Estado do Rio de Janeiro. Por acaso, pela coincidência de tema, não que eu o tenha recebido por acaso. Eu ontem recebi o Governador do Estado do Rio de Janeiro lá no Conselho Nacional de Justiça e a queixa que ele tinha, preocupante e 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ dimensão de intimidade na contraposição à necessidade de comunicação de dados e puxando a necessidade da proteção dos dados em si. Muito obrigado, Ministro Fachin. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Obrigado, Doutor Bruno. O SENHOR BRUNO TADEU PALMIERI BUONICORE (ADVOGADO) - Muito obrigado. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Presidente? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Pois não, Ministro Alexandre. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Cumprimento Vossa Excelência, a Ministra Cármen, os Colegas. Presidente, só a título de esclarecimento, porque a questão é muito importante, na verdade, os projetos de leis que hoje correm no Congresso Nacional para aumentar a pena de furto ou roubo de celular não têm nenhuma ligação - nenhuma ligação - com os dados que os celulares armazenam. Na verdade, os dois projetos se dão porque é furtado ou roubado um celular no Brasil a cada 35 segundos. Então, em um minuto são roubados ou furtados dois celulares no Brasil. É o país com maior número de roubos e furtos de celulares, 11,5% da população brasileira já teve pelo menos uma vez um celular roubado ou furtado, até porque o Brasil é, lamentavelmente, o maior mercado de receptação de celular. É por isso. A razão é essa, até porque uma vez furtado ou roubado o aparelho celular, imediatamente, o receptador apaga todos os dados para já passar para frente. Só para que não haja essa confusão de discussão. Obrigado, Ministro! O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Obrigado, Ministro Alexandre! Eu ontem recebi, por acaso, o Governador do Estado do Rio de Janeiro. Por acaso, pela coincidência de tema, não que eu o tenha recebido por acaso. Eu ontem recebi o Governador do Estado do Rio de Janeiro lá no Conselho Nacional de Justiça e a queixa que ele tinha, preocupante e 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Inteiro Teor do Acórdão - Página 24 de 219 Esclarecimento ARE 1042075 / RJ delicada, é que, em caso de roubo de celular e outros furtos, não propriamente roubo, segundo ele me disse, na audiência de custódia, como é furto, frequentemente, o juiz relaxa a prisão e, no dia seguinte, a mesma pessoa, no mesmo local, comete outro furto, é presa novamente e relaxa-se a prisão. Evidentemente, a audiência de custódia deve evitar as prisões desnecessárias e, em caso de crimes de menor potencial ofensivo, às vezes, a prisão não se justifica, mas, no caso de habitualidade criminosa - porque senão é um incentivo; o sujeito, 24 horas depois, está no mesmo lugar, praticando a mesma atitude delituosa -, mesmo na hipótese de crimes leves, se é criminoso habitual, eu acho que não se aplica o relaxamento de prisão na segunda, terceira, quarta vez, por evidente. Pois não, Ministra Cármen. A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - Apenas lembrando, Presidente, na linha do que Vossa Excelência enfatiza, que o Ministro Pertence aqui usava muito a expressão "quando o crime é meio de vida, este é um meio que o Direito não valida". Podem ser pequenos furtos, mas ele faz disso um meio de viver. Então, o que é habitual e, muitas vezes, se demonstram fichas enormes de representações, prisões etc., não se pode nem aplicar o princípio da insignificância, porque é o insignificante diário que faz com que seja realmente um meio de vida. Pega aqui, pega acolá, e há alguém que passa a não confiar no sistema de justiça, digo, no próprio Direito. Apenas para lembrar essa ênfase, essa diferença entre a eventualidade... Até pode haver um ou outro caso, mas há aquele que faz do furto, de uma atuação delituosa um meio de vida. Não, isso não é meio de vida válido e legítimo. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Exatamente. Sempre boa lembrança do Ministro Pertence, de saudosa memória para todos nós. Mesmo em caso de crimes de bagatela, crimes em que se aplicaria o princípio da insignificância, nos casos de reincidência, a jurisprudência do Tribunal é bastante restritiva. E é preciso não desconsiderar, Ministra 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ delicada, é que, em caso de roubo de celular e outros furtos, não propriamente roubo, segundo ele me disse, na audiência de custódia, como é furto, frequentemente, o juiz relaxa a prisão e, no dia seguinte, a mesma pessoa, no mesmo local, comete outro furto, é presa novamente e relaxa-se a prisão. Evidentemente, a audiência de custódia deve evitar as prisões desnecessárias e, em caso de crimes de menor potencial ofensivo, às vezes, a prisão não se justifica, mas, no caso de habitualidade criminosa - porque senão é um incentivo; o sujeito, 24 horas depois, está no mesmo lugar, praticando a mesma atitude delituosa -, mesmo na hipótese de crimes leves, se é criminoso habitual, eu acho que não se aplica o relaxamento de prisão na segunda, terceira, quarta vez, por evidente. Pois não, Ministra Cármen. A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - Apenas lembrando, Presidente, na linha do que Vossa Excelência enfatiza, que o Ministro Pertence aqui usava muito a expressão "quando o crime é meio de vida, este é um meio que o Direito não valida". Podem ser pequenos furtos, mas ele faz disso um meio de viver. Então, o que é habitual e, muitas vezes, se demonstram fichas enormes de representações, prisões etc., não se pode nem aplicar o princípio da insignificância, porque é o insignificante diário que faz com que seja realmente um meio de vida. Pega aqui, pega acolá, e há alguém que passa a não confiar no sistema de justiça, digo, no próprio Direito. Apenaspara lembrar essa ênfase, essa diferença entre a eventualidade... Até pode haver um ou outro caso, mas há aquele que faz do furto, de uma atuação delituosa um meio de vida. Não, isso não é meio de vida válido e legítimo. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Exatamente. Sempre boa lembrança do Ministro Pertence, de saudosa memória para todos nós. Mesmo em caso de crimes de bagatela, crimes em que se aplicaria o princípio da insignificância, nos casos de reincidência, a jurisprudência do Tribunal é bastante restritiva. E é preciso não desconsiderar, Ministra 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Inteiro Teor do Acórdão - Página 25 de 219 Esclarecimento ARE 1042075 / RJ Cármen, como todos nós consideramos, que hoje a criminalidade passou a ser o item um das preocupações da sociedade brasileira, e a interpretação não pode ser indiferente a essa circunstância também. Publicado sem revisão. Art. 95 do RISTF. 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Cármen, como todos nós consideramos, que hoje a criminalidade passou a ser o item um das preocupações da sociedade brasileira, e a interpretação não pode ser indiferente a essa circunstância também. Publicado sem revisão. Art. 95 do RISTF. 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 966D-86BF-EB74-CFA6 e senha 6FE6-FED9-0974-1747 Inteiro Teor do Acórdão - Página 26 de 219 Debate 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO DEBATE O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Senhor Presidente, eu gostaria de fazer algumas reflexões antes de entrar no voto, até diante do debate muito proveitoso. Eu começaria por essa questão do meio de vida. Eu penso que, realmente, nós devíamos deixar mais claro o princípio da insignificância, porque, muitas vezes, nós julgamos individualmente cada caso que nos chega e, com isso, naquele caso, é algo realmente insignificante, mas nós não temos o conjunto da obra. Em regra, quando há elementos no sentido de que é uma situação reiterada, eu tenho mantido a condenação, mas eu penso que talvez nós pudéssemos, Senhor Presidente, verbalizar isso em uma súmula ou algo assim. Estou só aproveitando o debate que surgiu a partir das falas de Vossa Excelência e da Ministra Cármen Lúcia ‒ iluminados, como sempre ‒ para pensar nisso. Talvez essa questão que foi trazida a Vossa Excelência ontem pelo governador seja uma questão também do juiz da custódia, que analisa aquele caso que está ali, naquele momento ali, não tem o conjunto. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Muitas vezes ele não tem nenhum histórico, porque não é reincidência em sentido técnico e, portanto, ele nem sabe. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Talvez a própria Presidência, com aquele setor de análise prévia de processos, poderia destacar algum procedimento para uma análise a respeito. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Em casos de habitualidade, não há insignificância. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - Se Vossa Excelência me permite, Ministro Toffoli, os tribunais às vezes têm precedentes, mas Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO DEBATE O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Senhor Presidente, eu gostaria de fazer algumas reflexões antes de entrar no voto, até diante do debate muito proveitoso. Eu começaria por essa questão do meio de vida. Eu penso que, realmente, nós devíamos deixar mais claro o princípio da insignificância, porque, muitas vezes, nós julgamos individualmente cada caso que nos chega e, com isso, naquele caso, é algo realmente insignificante, mas nós não temos o conjunto da obra. Em regra, quando há elementos no sentido de que é uma situação reiterada, eu tenho mantido a condenação, mas eu penso que talvez nós pudéssemos, Senhor Presidente, verbalizar isso em uma súmula ou algo assim. Estou só aproveitando o debate que surgiu a partir das falas de Vossa Excelência e da Ministra Cármen Lúcia ‒ iluminados, como sempre ‒ para pensar nisso. Talvez essa questão que foi trazida a Vossa Excelência ontem pelo governador seja uma questão também do juiz da custódia, que analisa aquele caso que está ali, naquele momento ali, não tem o conjunto. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Muitas vezes ele não tem nenhum histórico, porque não é reincidência em sentido técnico e, portanto, ele nem sabe. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Talvez a própria Presidência, com aquele setor de análise prévia de processos, poderia destacar algum procedimento para uma análise a respeito. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Em casos de habitualidade, não há insignificância. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - Se Vossa Excelência me permite, Ministro Toffoli, os tribunais às vezes têm precedentes, mas Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 27 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ também emitem mensagens. Eu tenho muito pudor com relação a firmar- se a tese da insignificância, porque ela tem vários aspectos. Então, por exemplo, eu fui promotor no interior, uma farmácia que só vendia poucos produtos. Então, ali pode haver um furto de pouca significância numa grande capital, mas muito expressivo naquela comarca. Por outro lado, tornar um delito insignificante, se ele está plasmado na lei como delito, também é uma mensagem ruim da Suprema Corte para o juízo em Primeiro Grau. Quer dizer, é a insignificância de uma figura penal plasmada pelo legislador. Então, encontrar um critério para a insignificância tem de analisar também esses outros aspectos. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Sim, é que nós já temos repercussão geral, mas eu penso que talvez não tenha ficado tão clara a questão relativa a esse aspecto da reiterabilidade. A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - Até porque, Ministro Toffoli, a impressão que eu tenho é que temos que perguntar, e eu acho que o juiz, numa pequena cidade ou em São Paulo, haverá de colocar o que a Ministra Rosa também lembrava, "eu e o meu contexto". Porque o que é insignificante, às vezes, para um grande empresário, para uma rede em determinados locais, não é para um pequeno comerciante, mas principalmente para a comunidade. Quer dizer, eu tenho para mim que a democracia vive sob um princípio, o da confiança. Quando a comunidade vê, todo dia, o fulano solta, e vemos policiais, isso que o Ministro Alexandre falou quando estávamos falando da questão do porte ou criminalização da maconha, que dizia, se pusermos tanto e for um cigarro, mas ele tem não sei quantos, e todo dia naquele ponto, ele estávendendo, isso não é insignificante nem bagatela para ninguém. Isso precisa ser posto num contexto no qual se examine rigorosamente, que nós estamos falando como uma sociedade que precisa acreditar no Direito, a força do Direito está na eficácia que ele produz. E eu acho que é isso que o Ministro Toffoli talvez queira dizer. O que é insignificante e para quem? O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Ministro 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ também emitem mensagens. Eu tenho muito pudor com relação a firmar- se a tese da insignificância, porque ela tem vários aspectos. Então, por exemplo, eu fui promotor no interior, uma farmácia que só vendia poucos produtos. Então, ali pode haver um furto de pouca significância numa grande capital, mas muito expressivo naquela comarca. Por outro lado, tornar um delito insignificante, se ele está plasmado na lei como delito, também é uma mensagem ruim da Suprema Corte para o juízo em Primeiro Grau. Quer dizer, é a insignificância de uma figura penal plasmada pelo legislador. Então, encontrar um critério para a insignificância tem de analisar também esses outros aspectos. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Sim, é que nós já temos repercussão geral, mas eu penso que talvez não tenha ficado tão clara a questão relativa a esse aspecto da reiterabilidade. A SENHORA MINISTRA CÁRMEN LÚCIA - Até porque, Ministro Toffoli, a impressão que eu tenho é que temos que perguntar, e eu acho que o juiz, numa pequena cidade ou em São Paulo, haverá de colocar o que a Ministra Rosa também lembrava, "eu e o meu contexto". Porque o que é insignificante, às vezes, para um grande empresário, para uma rede em determinados locais, não é para um pequeno comerciante, mas principalmente para a comunidade. Quer dizer, eu tenho para mim que a democracia vive sob um princípio, o da confiança. Quando a comunidade vê, todo dia, o fulano solta, e vemos policiais, isso que o Ministro Alexandre falou quando estávamos falando da questão do porte ou criminalização da maconha, que dizia, se pusermos tanto e for um cigarro, mas ele tem não sei quantos, e todo dia naquele ponto, ele está vendendo, isso não é insignificante nem bagatela para ninguém. Isso precisa ser posto num contexto no qual se examine rigorosamente, que nós estamos falando como uma sociedade que precisa acreditar no Direito, a força do Direito está na eficácia que ele produz. E eu acho que é isso que o Ministro Toffoli talvez queira dizer. O que é insignificante e para quem? O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Ministro 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 28 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ Toffoli, permite em relação à questão dessa insignificância e também ao que o Ministro Fux disse? Eu fui promotor em Aguaí, interior de São Paulo, 30 mil habitantes, não havia audiência de custódia à época. Mas havia um furtador contumaz no mesmo estabelecimento. Havia dois mercadinhos, e ele furtava dia sim, dia não, até que foi preso e ficou. Veja, numa cidade de 30 mil habitantes, se os furtadores contumazes, lamentavelmente isso vem ocorrendo em várias, são sempre soltos na audiência de custódia, a população perde realmente a confiança na Justiça, porque é uma vez, duas vezes, três vezes, e, naquela comunidade menor, isso é visível. Na questão do celular, é mais grave, é mais grave, Presidente, inclusive em relação a grandes cidades, porque furtadores, hoje, como fazem? Chegam de moto, quando não é roubo, é furto mesmo, pegam rápido e saem. São presos. No dia seguinte, soltos. Eles voltam para o mesmo local, para a mesma região. Por que isso? Porque é uma quadrilha que leva ao receptador. Isso realmente diminui a credibilidade da Justiça Penal. Então me parece, dentro do que o Ministro Toffoli começou a dizer e os demais falaram, é que seria importante, mesmo que não sejam critérios rígidos, mas até balizas para a audiência de custódia. Quando secretário de segurança, aí vários anos após, já havia a audiência de custódia, numa cidade, numa comarca do interior, um furtador, 76 vezes, foi solto na audiência de custódia em um ano. Não é razoável isso! Então, seria importante mesmo, Vossa Excelência tocou na questão do Rio de Janeiro, mas isso é no Brasil todo. Obrigado, Ministro Toffoli! O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Senhor Presidente, eu farei aqui algumas reflexões para todos nós ‒ aproveitando o intervalo. Eu mesmo, no primeiro voto que proferi, votei pelo provimento do recurso extraordinário do Estado do Rio de Janeiro, do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, para, então, restabelecer a sentença condenatória do juiz de primeira instância. 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Toffoli, permite em relação à questão dessa insignificância e também ao que o Ministro Fux disse? Eu fui promotor em Aguaí, interior de São Paulo, 30 mil habitantes, não havia audiência de custódia à época. Mas havia um furtador contumaz no mesmo estabelecimento. Havia dois mercadinhos, e ele furtava dia sim, dia não, até que foi preso e ficou. Veja, numa cidade de 30 mil habitantes, se os furtadores contumazes, lamentavelmente isso vem ocorrendo em várias, são sempre soltos na audiência de custódia, a população perde realmente a confiança na Justiça, porque é uma vez, duas vezes, três vezes, e, naquela comunidade menor, isso é visível. Na questão do celular, é mais grave, é mais grave, Presidente, inclusive em relação a grandes cidades, porque furtadores, hoje, como fazem? Chegam de moto, quando não é roubo, é furto mesmo, pegam rápido e saem. São presos. No dia seguinte, soltos. Eles voltam para o mesmo local, para a mesma região. Por que isso? Porque é uma quadrilha que leva ao receptador. Isso realmente diminui a credibilidade da Justiça Penal. Então me parece, dentro do que o Ministro Toffoli começou a dizer e os demais falaram, é que seria importante, mesmo que não sejam critérios rígidos, mas até balizas para a audiência de custódia. Quando secretário de segurança, aí vários anos após, já havia a audiência de custódia, numa cidade, numa comarca do interior, um furtador, 76 vezes, foi solto na audiência de custódia em um ano. Não é razoável isso! Então, seria importante mesmo, Vossa Excelência tocou na questão do Rio de Janeiro, mas isso é no Brasil todo. Obrigado, Ministro Toffoli! O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Senhor Presidente, eu farei aqui algumas reflexões para todos nós ‒ aproveitando o intervalo. Eu mesmo, no primeiro voto que proferi, votei pelo provimento do recurso extraordinário do Estado do Rio de Janeiro, do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, para, então, restabelecer a sentença condenatória do juiz de primeira instância. 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teordo Acórdão - Página 29 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ Depois, eu acabei reformulando o voto pelo fato de que, entre o meu voto e a devolução do feito para julgamento, sobreveio a emenda, a citada Emenda Constitucional nº 115, de 2022. Aí, eu entendi que, diante daquela situação da emenda, que trouxe uma proteção constitucional ao sigilo de dados digitais, portanto, aquela, digamos assim, invasão é como uma invasão domiciliar, mutatis mutandis, aquela invasão que ocorreu ao celular teria de ter sido precedida de uma autorização judicial. Por outro lado, nós estamos, realmente ‒ e o debate é sempre muito proveitoso ‒ vivendo diante de uma situação em que a preocupação número um da sociedade brasileira é a segurança pública, é andar nas calçadas. E esses furtos de moto... Vejam que esse era um assaltante com arma de fogo, violento, porque agrediu fisicamente a vítima, e que faz a fuga com a intermediação de um comparsa que estava já, adrede, aguardando com uma motocicleta em frente à casa bancária. Realmente, nós temos que estar atentos a essa realidade, até que ponto houve um excesso ou não da ação policial em uma situação que, no caso concreto, é de flagrante, de ter ido atrás de informações, de localização desse autor incontroverso do crime. Eu fico aqui a refletir, porque, para o caso concreto, temos três saídas, Ministra Cármen: ou damos provimento ao recurso extraordinário, ou negamos provimento e vamos numa radicalidade que, em razão de excessos que ocorreram e ocorrem ‒ como sabemos ‒ por parte de agentes de Estado, que levou, por exemplo, a uma grande reflexão, e foram anos até que definimos aquela ADPF, de relatoria do Ministro Edson Fachin, em que, ao fim e ao cabo, por uma decisão dispositiva per curiam, chegamos a uma unanimidade na Corte, não são situações simples de serem colocadas do ponto de vista do regramento. Se, de um lado, nós sabemos da história de um país que já passou por governos de exceções e que, no dia a dia, muitas vezes, ainda há uma violência exagerada contra o cidadão; por outro lado, é um fato que a sociedade não pode ficar desprotegida. É uma situação muito difícil de nós colocarmos numa síntese de tese. 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Depois, eu acabei reformulando o voto pelo fato de que, entre o meu voto e a devolução do feito para julgamento, sobreveio a emenda, a citada Emenda Constitucional nº 115, de 2022. Aí, eu entendi que, diante daquela situação da emenda, que trouxe uma proteção constitucional ao sigilo de dados digitais, portanto, aquela, digamos assim, invasão é como uma invasão domiciliar, mutatis mutandis, aquela invasão que ocorreu ao celular teria de ter sido precedida de uma autorização judicial. Por outro lado, nós estamos, realmente ‒ e o debate é sempre muito proveitoso ‒ vivendo diante de uma situação em que a preocupação número um da sociedade brasileira é a segurança pública, é andar nas calçadas. E esses furtos de moto... Vejam que esse era um assaltante com arma de fogo, violento, porque agrediu fisicamente a vítima, e que faz a fuga com a intermediação de um comparsa que estava já, adrede, aguardando com uma motocicleta em frente à casa bancária. Realmente, nós temos que estar atentos a essa realidade, até que ponto houve um excesso ou não da ação policial em uma situação que, no caso concreto, é de flagrante, de ter ido atrás de informações, de localização desse autor incontroverso do crime. Eu fico aqui a refletir, porque, para o caso concreto, temos três saídas, Ministra Cármen: ou damos provimento ao recurso extraordinário, ou negamos provimento e vamos numa radicalidade que, em razão de excessos que ocorreram e ocorrem ‒ como sabemos ‒ por parte de agentes de Estado, que levou, por exemplo, a uma grande reflexão, e foram anos até que definimos aquela ADPF, de relatoria do Ministro Edson Fachin, em que, ao fim e ao cabo, por uma decisão dispositiva per curiam, chegamos a uma unanimidade na Corte, não são situações simples de serem colocadas do ponto de vista do regramento. Se, de um lado, nós sabemos da história de um país que já passou por governos de exceções e que, no dia a dia, muitas vezes, ainda há uma violência exagerada contra o cidadão; por outro lado, é um fato que a sociedade não pode ficar desprotegida. É uma situação muito difícil de nós colocarmos numa síntese de tese. 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 30 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ E uma terceira opção seria nós fixarmos a tese em primeiro lugar e, depois, analisarmos o caso concreto à luz da tese. Ou, então, fixarmos a tese e, à luz da tese fixada, determinar que o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro revolva a questão fática ali, que, por exemplo, foi trazida pelo representante da Defensoria Pública, dizendo que houve um exagero. Isso não cabe a nós, enquanto juízes constitucionais, que, nessa questão, estamos em sede recursal de repercussão geral, não cabe a nós analisar a matéria fática e seus detalhes. Mas é incontroverso que o recorrido foi o autor. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Ministro Toffoli, refletindo junto com Vossa Excelência, no mínimo, deveríamos fazer uma distinção entre a busca e apreensão do celular sem ordem judicial e o encontro fortuito do celular, como foi o caso aqui. Quer dizer, neste caso, não se fez uma busca corporal no indivíduo para obter o celular. Ele estava caído na calçada, no chão, no momento da fuga. Portanto, não é uma situação de busca e apreensão, mas uma situação de encontro fortuito - vamos usar essa palavra -, porque penso ser uma distinção relevante entre busca e apreensão e encontro fortuito. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): A partir dessa análise de Vossa Excelência, proporia aos eminentes colegas uma dinâmica com metodologia diferente. A questão fática está bem clara para todos, até porque já houve a discussão. Penso que poderíamos ir direto ao ponto. E minha sugestão seria a seguinte: partirmos da tese que trago, em vez de focarmos a análise a partir do caso concreto para chegarmos à tese, até porque há inúmeras outras questões relativas a isso, conforme Vossa Excelência ressaltou. O Ministro André Mendonça gentilmente também lembrou situações fáticas, por exemplo, o assassinato de uma pessoa. Essa pessoa tem um celular, que é dado por alguém ‒ pai, irmão, filha, filho do assassinado ‒ à polícia, para que possa tentar achar os autores do crime. Há uma ilicitude no acesso policial sem autorização judicial ao celular? Porque aí já é outro lado, o lado da vítima, dos familiares da vítima. 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ E uma terceira opção seria nós fixarmos a tese em primeiro lugar e, depois, analisarmos o caso concreto à luz da tese. Ou, então, fixarmos a tese e, à luz da tese fixada, determinar que o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro revolva a questão fática ali, que, por exemplo, foi trazida pelo representanteda Defensoria Pública, dizendo que houve um exagero. Isso não cabe a nós, enquanto juízes constitucionais, que, nessa questão, estamos em sede recursal de repercussão geral, não cabe a nós analisar a matéria fática e seus detalhes. Mas é incontroverso que o recorrido foi o autor. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Ministro Toffoli, refletindo junto com Vossa Excelência, no mínimo, deveríamos fazer uma distinção entre a busca e apreensão do celular sem ordem judicial e o encontro fortuito do celular, como foi o caso aqui. Quer dizer, neste caso, não se fez uma busca corporal no indivíduo para obter o celular. Ele estava caído na calçada, no chão, no momento da fuga. Portanto, não é uma situação de busca e apreensão, mas uma situação de encontro fortuito - vamos usar essa palavra -, porque penso ser uma distinção relevante entre busca e apreensão e encontro fortuito. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): A partir dessa análise de Vossa Excelência, proporia aos eminentes colegas uma dinâmica com metodologia diferente. A questão fática está bem clara para todos, até porque já houve a discussão. Penso que poderíamos ir direto ao ponto. E minha sugestão seria a seguinte: partirmos da tese que trago, em vez de focarmos a análise a partir do caso concreto para chegarmos à tese, até porque há inúmeras outras questões relativas a isso, conforme Vossa Excelência ressaltou. O Ministro André Mendonça gentilmente também lembrou situações fáticas, por exemplo, o assassinato de uma pessoa. Essa pessoa tem um celular, que é dado por alguém ‒ pai, irmão, filha, filho do assassinado ‒ à polícia, para que possa tentar achar os autores do crime. Há uma ilicitude no acesso policial sem autorização judicial ao celular? Porque aí já é outro lado, o lado da vítima, dos familiares da vítima. 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 31 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ Então, eu penso que seria muito mais útil, para a metodologia do julgamento, discutirmos todas essas análises do que analisar o caso concreto. E, depois, à luz de uma decisão sobre várias hipóteses possíveis, decidiríamos o caso concreto. Eu tenho dúvida sobre o caso concreto. Neste momento, eu tenderia inclusive a acompanhar Vossa Excelência pelo provimento, porque realmente não parece ter havido excesso, neste caso concreto, da ação policial. Só que não tenho outros elementos para saber se transbordaram para outras situações. Mas, nessas outras situações, a Defensoria poderia alegar algum tipo de nulidade, porque teria havido invasões para outras situações. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - O caso concreto, tal como Vossa Excelência descreveu, foi uma cena de roubo à mão armada, na saída de um banco, em que se arrancou a bolsa de uma senhora, ela caiu no chão e houve fuga numa motocicleta. Colhido o celular, identificou-se a autoria, e ele foi condenado por esse delito, por esse roubo. Os fatos me parecem muito claros nesse caso, porque no exemplo que eu dei do caso Riley, que mencionei, usaram o celular para a persecução penal de outros delitos. Aí, eu levantaria alguma dúvida. Mas, pelo próprio delito específico, em relação ao qual o celular caiu no chão, os fatos me parecem bem claros. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Presidente, para uma reflexão: se o caso fosse idêntico, mas, ao invés do celular, deixasse cair no chão um envelope com uma carta escrita. A polícia não poderia olhar para tentar localizar? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Não seria violação de correspondência. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Não seria violação de correspondência. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): A conta de luz, o endereço... O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - A conta, 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Então, eu penso que seria muito mais útil, para a metodologia do julgamento, discutirmos todas essas análises do que analisar o caso concreto. E, depois, à luz de uma decisão sobre várias hipóteses possíveis, decidiríamos o caso concreto. Eu tenho dúvida sobre o caso concreto. Neste momento, eu tenderia inclusive a acompanhar Vossa Excelência pelo provimento, porque realmente não parece ter havido excesso, neste caso concreto, da ação policial. Só que não tenho outros elementos para saber se transbordaram para outras situações. Mas, nessas outras situações, a Defensoria poderia alegar algum tipo de nulidade, porque teria havido invasões para outras situações. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - O caso concreto, tal como Vossa Excelência descreveu, foi uma cena de roubo à mão armada, na saída de um banco, em que se arrancou a bolsa de uma senhora, ela caiu no chão e houve fuga numa motocicleta. Colhido o celular, identificou-se a autoria, e ele foi condenado por esse delito, por esse roubo. Os fatos me parecem muito claros nesse caso, porque no exemplo que eu dei do caso Riley, que mencionei, usaram o celular para a persecução penal de outros delitos. Aí, eu levantaria alguma dúvida. Mas, pelo próprio delito específico, em relação ao qual o celular caiu no chão, os fatos me parecem bem claros. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Presidente, para uma reflexão: se o caso fosse idêntico, mas, ao invés do celular, deixasse cair no chão um envelope com uma carta escrita. A polícia não poderia olhar para tentar localizar? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Não seria violação de correspondência. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Não seria violação de correspondência. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): A conta de luz, o endereço... O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - A conta, 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 32 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ dentro do envelope, não seria. Porque, conforme Vossa Excelência disse, diferentemente dos precedentes da Suprema Corte e de outros casos, aqui a situação que permitiu a apreensão foi provocada pelo agressor. Ou seja, ele se colocou numa situação que passa a permitir a possibilidade do encontro fortuito de qualquer documento. Se cai a carteira dele, com a identidade - aquelas carteiras que fecham com zíper -, a polícia não pode abrir também, tem que pedir autorização judicial para abrir a carteira e ver a identidade. Agora, é diferente de usar aqueles dados para qualquer outra coisa. Mas me parece que nós temos que pensar nesse caso do celular uma evolução de qualquer outro documento fortuito que poderia ser encontrado no momento da prática do crime, sem apreensão, não houve um movimento da autoridade policial para a apreensão. O próprio agressor se colocou naquela situação de risco. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): É o art. 6º do CPP que permite a ação imediata. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Mas aí é a apreensão. Nós estamos falando de apreensão, que é uma discussão; e a outra coisa é o acesso a dados. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Por isso que eu pensoque, no caso concreto, refletindo aqui em voz alta, eu tendo agora a dar provimento ao recurso extraordinário. Mas eu não queria, Senhor Presidente, eu acho que atrapalharia o debate se nós começássemos pelo caso concreto. Eu apresentaria a tese, até porque esse caso já entrou várias vezes no Virtual, eu mesmo já alterei voto, o próprio Ministro Flávio Dino, que já tinha votado, pediu o destaque. É uma questão realmente complexa a que a sociedade está atenta. Nesses dias, acho que todos nós tivemos notícias relativas aos furtos de alianças que estão ocorrendo. E agora não é só celular, Ministro Alexandre, na rua há furto de alianças. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Isso não é desculpa, Ministro Toffoli? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO 7 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ dentro do envelope, não seria. Porque, conforme Vossa Excelência disse, diferentemente dos precedentes da Suprema Corte e de outros casos, aqui a situação que permitiu a apreensão foi provocada pelo agressor. Ou seja, ele se colocou numa situação que passa a permitir a possibilidade do encontro fortuito de qualquer documento. Se cai a carteira dele, com a identidade - aquelas carteiras que fecham com zíper -, a polícia não pode abrir também, tem que pedir autorização judicial para abrir a carteira e ver a identidade. Agora, é diferente de usar aqueles dados para qualquer outra coisa. Mas me parece que nós temos que pensar nesse caso do celular uma evolução de qualquer outro documento fortuito que poderia ser encontrado no momento da prática do crime, sem apreensão, não houve um movimento da autoridade policial para a apreensão. O próprio agressor se colocou naquela situação de risco. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): É o art. 6º do CPP que permite a ação imediata. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Mas aí é a apreensão. Nós estamos falando de apreensão, que é uma discussão; e a outra coisa é o acesso a dados. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Por isso que eu penso que, no caso concreto, refletindo aqui em voz alta, eu tendo agora a dar provimento ao recurso extraordinário. Mas eu não queria, Senhor Presidente, eu acho que atrapalharia o debate se nós começássemos pelo caso concreto. Eu apresentaria a tese, até porque esse caso já entrou várias vezes no Virtual, eu mesmo já alterei voto, o próprio Ministro Flávio Dino, que já tinha votado, pediu o destaque. É uma questão realmente complexa a que a sociedade está atenta. Nesses dias, acho que todos nós tivemos notícias relativas aos furtos de alianças que estão ocorrendo. E agora não é só celular, Ministro Alexandre, na rua há furto de alianças. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Isso não é desculpa, Ministro Toffoli? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO 7 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 33 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ (PRESIDENTE) -Às vezes, é encomendado. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - O furto de aliança não é desculpa? É furto também? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Infelizmente, é uma realidade. O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Senhor Presidente, minha saudação aos Ministros, Ministra Cármen Lúcia, Ministro-Relator. Apenas um ponto para reflexão, à luz do que já foi trazido neste rico debate. O Ministro Alexandre citou a questão de uma carteira. Mas vamos citar, por exemplo, também o celular. Então, a motivação inicial foi para aquele crime específico. Agora, logicamente, às vezes as questões se revelam a partir daquela motivação inicial, ou seja, é natural que, a partir de uma motivação legítima, surjam elementos relacionados a outras infrações penais. Então, não havendo aí uma motivação que nós consideremos ilícita, o que corresponde aos demais crimes que estão ali, não é porque inicialmente a motivação não foi por aquela razão, que isso posteriormente vai ser invalidado. Vou dar o exemplo da carteira. Foi um furto, e o autor da conduta se evadiu. Mas, se descobrem ali, por exemplo, notas de dinheiro falsas ou droga, não será ilícita essa prova, simplesmente porque a motivação inicial não foi essa. A prova obtida não se torna inválida pelo simples fato de a motivação inicial não estar relacionada a esses delitos. Apenas deixar isso consignado, porque, às vezes, a motivação foi justificável e não havia uma previsibilidade de outras circunstâncias que se descobrem depois. Também não poderíamos invalidar essa prova por essa razão. Havendo justa causa para a diligência originária, eventuais descobertas posteriores, ainda que não previsíveis, não podem ser desconsideradas como ilícitas. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - O Ministro Toffoli vai conduzir a proposta de tese. A única observação que faria é que, se nós agregarmos muitas complexidades, vai ficar uma tese difícil. Eu proporia, Ministro Toffoli, na nossa reflexão, que fosse uma tese voltada para este encontro fortuito de celular na cena do crime, porque eu acho que há muita diferença, como o 8 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ (PRESIDENTE) -Às vezes, é encomendado. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - O furto de aliança não é desculpa? É furto também? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Infelizmente, é uma realidade. O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Senhor Presidente, minha saudação aos Ministros, Ministra Cármen Lúcia, Ministro-Relator. Apenas um ponto para reflexão, à luz do que já foi trazido neste rico debate. O Ministro Alexandre citou a questão de uma carteira. Mas vamos citar, por exemplo, também o celular. Então, a motivação inicial foi para aquele crime específico. Agora, logicamente, às vezes as questões se revelam a partir daquela motivação inicial, ou seja, é natural que, a partir de uma motivação legítima, surjam elementos relacionados a outras infrações penais. Então, não havendo aí uma motivação que nós consideremos ilícita, o que corresponde aos demais crimes que estão ali, não é porque inicialmente a motivação não foi por aquela razão, que isso posteriormente vai ser invalidado. Vou dar o exemplo da carteira. Foi um furto, e o autor da conduta se evadiu. Mas, se descobrem ali, por exemplo, notas de dinheiro falsas ou droga, não será ilícita essa prova, simplesmente porque a motivação inicial não foi essa. A prova obtida não se torna inválida pelo simples fato de a motivação inicial não estar relacionada a esses delitos. Apenas deixar isso consignado, porque, às vezes, a motivação foi justificável e não havia uma previsibilidade de outras circunstâncias que se descobrem depois. Também não poderíamos invalidar essa prova por essa razão. Havendo justa causa para a diligência originária, eventuais descobertas posteriores, ainda que não previsíveis, não podem ser desconsideradas como ilícitas. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - O Ministro Toffoli vai conduzir a proposta de tese. A única observação que faria é que, se nós agregarmos muitas complexidades, vai ficar uma tese difícil. Eu proporia, Ministro Toffoli, na nossa reflexão, que fosse uma tese voltadaa partir da instalação de softwares “espiões”. 5. A possibilidade de se acessar, por meio de aparelhos celulares, bem mais que metadados relativos à comunicação telefônica desloca a discussão travada nos autos para a questão da inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem (CF/88, art. 5º, inciso X), do direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF/88, art. 5º, inciso LXXIX, introduzido pela Emenda Constitucional nº 115, de 2022), e do direito à autodeterminação informacional, os quais conferem proteção jurídica especial e diferenciada aos dados pessoais armazenados e justificam a superação do entendimento firmado no HC nº 91.867/PA para se construir uma solução mais condizente com a nova realidade. 6. Após revisitar os precedentes sobre a matéria, verifica-se que a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal acabou encampando, ao menos em parte, o texto seminal do Professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior, para quem, “[o] sigilo, no inciso XII do art. 5º, está referido à comunicação, no interesse da defesa da privacidade”. Isso não significa, contudo, que o texto constitucional asseguraria proteção jurídica apenas e tão somente à “comunicação de dados”, isto é, ao “fluxo comunicacional”, ou aos “dados em trânsito”. Como lembrou Ferraz Júnior, os “dados estáticos”, ou seja, os “dados armazenados” também 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ acontecia, as informações pessoais também se concentraram nos aparelhos celulares. Hoje, as múltiplas funcionalidades dos aparelhos celulares geram dados e metadados que são registrados na memória física do aparelho, ou “em nuvem”, e podem ser facilmente acessados, rastreados e/ou recuperados. 4. Examinados em conjunto, dados e metadados revelam um espectro enorme de dados pessoais, o que torna possível uma investigação completa e – diga-se de passagem – muito eficiente acerca das preferências pessoais, das relações familiares e interpessoais, dos hábitos de vida, de trabalho e de consumo e, em última análise, da forma de pensar, de agir e de decidir de determinado indivíduo. Isso sem falar, obviamente, das facilidades que o acesso proporciona para a intrusão indevida e “para o futuro”, a partir da instalação de softwares “espiões”. 5. A possibilidade de se acessar, por meio de aparelhos celulares, bem mais que metadados relativos à comunicação telefônica desloca a discussão travada nos autos para a questão da inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem (CF/88, art. 5º, inciso X), do direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF/88, art. 5º, inciso LXXIX, introduzido pela Emenda Constitucional nº 115, de 2022), e do direito à autodeterminação informacional, os quais conferem proteção jurídica especial e diferenciada aos dados pessoais armazenados e justificam a superação do entendimento firmado no HC nº 91.867/PA para se construir uma solução mais condizente com a nova realidade. 6. Após revisitar os precedentes sobre a matéria, verifica-se que a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal acabou encampando, ao menos em parte, o texto seminal do Professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior, para quem, “[o] sigilo, no inciso XII do art. 5º, está referido à comunicação, no interesse da defesa da privacidade”. Isso não significa, contudo, que o texto constitucional asseguraria proteção jurídica apenas e tão somente à “comunicação de dados”, isto é, ao “fluxo comunicacional”, ou aos “dados em trânsito”. Como lembrou Ferraz Júnior, os “dados estáticos”, ou seja, os “dados armazenados” também 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Inteiro Teor do Acórdão - Página 3 de 219 Ementa e Acórdão ARE 1042075 / RJ são passíveis de proteção jurídica e, embora não se revistam sempre e incondicionalmente de caráter sigiloso, podem alcançar tal qualidade a depender das circunstâncias, encontrando guarida, por exemplo, no disposto no art. 5º, inciso X, do texto constitucional. 7. A Emenda Constitucional nº 115, de 2022, ao introduzir no art. 5º da Constituição o inciso LXXIX, segundo o qual “é assegurado, nos termos da lei, o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais” e, antes dela, as Leis nº 12.695/14 e nº 13.709/18, que instituíram no ordenamento jurídico brasileiro, respectivamente, o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados, passaram a conferir proteção jurídica especial e autônoma aos dados pessoais. Assim, enquanto o primeiro diploma legal elevou ao patamar de direito dos usuários de internet a inviolabilidade e o sigilo de suas comunicações privadas armazenadas e o não fornecimento de seus dados pessoais, a segunda lei alçou a proteção jurídica dos dados pessoais a uma categoria autônoma com relação aos direitos à privacidade e à intimidade (CF, art. 5º, inciso X). 8. Não se pode olvidar, ainda, que o direito à privacidade, apesar de relativamente recente, passou – e ainda passa – por considerável ressignificação. É dizer, no contexto da sociedade atual, a possibilidade de o indivíduo proceder ao controle dos dados que dizem respeito à própria pessoa – porque eles consistem em manifestação de sua personalidade – é conditio sine qua non para a preservação de sua personalidade e para o desenvolvimento pleno de sua autonomia. Isso porque é o direito à privacidade que assegura a cada indivíduo um espaço próprio de experimentação, no qual é possível a cada qual expressar “sentimentos, reflexões, visões de mundo e experiências pessoais sem medo de estar sendo observado por órgãos estatais” (GRECO, Luís; GLEIZER, Orlandino. A infiltração online no processo penal – Notícia sobre a experiência alemã. Revista Brasileira de Direito Processual Penal. Porto Alegre, v. 5, n. 3, set./dez. 2019, p. 1495). IV. DISPOSITIVO E TESE 9. Recurso extraordinário com agravo ao qual se dá provimento para 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ são passíveis de proteção jurídica e, embora não se revistam sempre e incondicionalmente de caráter sigiloso, podem alcançar tal qualidade a depender das circunstâncias, encontrando guarida, por exemplo, no disposto no art. 5º, inciso X, do texto constitucional. 7. A Emenda Constitucional nº 115, de 2022, ao introduzir no art. 5º da Constituição o inciso LXXIX, segundo o qual “é assegurado, nos termos da lei, o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais” e, antes dela, as Leis nº 12.695/14 e nº 13.709/18, que instituíram no ordenamento jurídico brasileiro, respectivamente, o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados, passaram a conferir proteção jurídica especial e autônoma aos dados pessoais. Assim, enquanto o primeiro diploma legal elevou ao patamar de direito dos usuários de internet a inviolabilidade e o sigilo de suas comunicações privadas armazenadas e o não fornecimento de seus dados pessoais, a segunda lei alçoupara este encontro fortuito de celular na cena do crime, porque eu acho que há muita diferença, como o 8 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 34 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ Ministro Zanin falou, entre busca e apreensão e encontro na cena do crime. Então, fazer uma proposta tão próxima do caso concreto quanto possível seria a minha sugestão. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Minha sugestão seria, em vez de eu fazer a leitura do voto, eu já iria direto a uma proposição de tese e abriria o debate entre os colegas e, provavelmente, não encerraríamos hoje esse julgamento e deixaríamos, como em outros casos, para um amadurecimento maior, e a critério do tempo do Plenário, que Vossa Excelência regula, como Presidente da Corte, e da relatoria, porque realmente tenho várias dúvidas ainda. Só que chega um momento em que o tempo chega e, como dizia também o nosso saudoso Ministro Sepúlveda Pertence, você tem que trazer algo a julgamento. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - Ministro Toffoli, só uma sugestão. Em casos desses em que há possibilidades de surgirem teses periféricas inadequadas, talvez seja ideal o minimalismo, ficar adstrito ao caso concreto. Porque, por exemplo, como é que nós vamos estabelecer que o policial que acha, na cena do crime, o celular, até que limite ele pode acessar os dados? Sabemos que hoje no celular cabe muita coisa. Como é que vamos estabelecer isso? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Eu vou fazer a leitura, depois do intervalo, da tese que eu proponho, agora também com os aprimoramentos que o Ministro Zanin trouxe ‒ mais uma vez, agradeço Sua Excelência, como em outro caso. Eu vou fazer leitura da tese diretamente. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Acho ótima ideia. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Dizer as razões e passamos ao debate da tese, sem compromisso de terminar esse julgamento hoje. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Mas se terminar também não tem problema. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): 9 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Ministro Zanin falou, entre busca e apreensão e encontro na cena do crime. Então, fazer uma proposta tão próxima do caso concreto quanto possível seria a minha sugestão. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Minha sugestão seria, em vez de eu fazer a leitura do voto, eu já iria direto a uma proposição de tese e abriria o debate entre os colegas e, provavelmente, não encerraríamos hoje esse julgamento e deixaríamos, como em outros casos, para um amadurecimento maior, e a critério do tempo do Plenário, que Vossa Excelência regula, como Presidente da Corte, e da relatoria, porque realmente tenho várias dúvidas ainda. Só que chega um momento em que o tempo chega e, como dizia também o nosso saudoso Ministro Sepúlveda Pertence, você tem que trazer algo a julgamento. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - Ministro Toffoli, só uma sugestão. Em casos desses em que há possibilidades de surgirem teses periféricas inadequadas, talvez seja ideal o minimalismo, ficar adstrito ao caso concreto. Porque, por exemplo, como é que nós vamos estabelecer que o policial que acha, na cena do crime, o celular, até que limite ele pode acessar os dados? Sabemos que hoje no celular cabe muita coisa. Como é que vamos estabelecer isso? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Eu vou fazer a leitura, depois do intervalo, da tese que eu proponho, agora também com os aprimoramentos que o Ministro Zanin trouxe ‒ mais uma vez, agradeço Sua Excelência, como em outro caso. Eu vou fazer leitura da tese diretamente. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Acho ótima ideia. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Dizer as razões e passamos ao debate da tese, sem compromisso de terminar esse julgamento hoje. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Mas se terminar também não tem problema. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): 9 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 35 de 219 Debate ARE 1042075 / RJ Se terminar, melhor, inclusive para mim. Evidentemente. Obrigado, Senhor Presidente! O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Acho que, dessa reflexão coletiva, essa é uma sinalização importante, nós não consideramos que a prática habitual de crime, ainda que de furto, seja insignificante e que justifique a liberação imediata e repetidas vezes do indivíduo. Penso que é uma sinalização para os juízes de custódia essa circunstância: habitualidade não justifica o relaxamento de prisão. Publicado sem revisão. Art. 95 do RISTF. 10 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Se terminar, melhor, inclusive para mim. Evidentemente. Obrigado, Senhor Presidente! O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Acho que, dessa reflexão coletiva, essa é uma sinalização importante, nós não consideramos que a prática habitual de crime, ainda que de furto, seja insignificante e que justifique a liberação imediata e repetidas vezes do indivíduo. Penso que é uma sinalização para os juízes de custódia essa circunstância: habitualidade não justifica o relaxamento de prisão. Publicado sem revisão. Art. 95 do RISTF. 10 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 5803-F696-7A53-D8AC e senha DC02-28F7-D368-CC0F Inteiro Teor do Acórdão - Página 36 de 219 Debate II 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO DEBATE II O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Senhor Presidente, renovando os cumprimentos a todas e a todos, eu penso que a definição que o Ministro Flávio Dino compartilhou comigo ao sairmos para o intervalo da sessão é bem apropriada para o caso. Ou seja, este parece ser um daqueles casos em que a tese não se aplica especificamente à solução do caso concreto. Por isso que, mesmo antes, Ministro Gilmar, eu já havia proposto usar uma metodologia, até porque os votos são conhecidos, os já proferidos, o meu, o de Vossa Excelência, o do Ministro Zanin e de outros colegas, no sentido de irmos, independentemente da solução do caso concreto, diretamente à discussão da tese. E, a partir da discussão da tese, já que os fatos, os dados e a temática de repercussão geral já estão bem apresentados, nós fazermos um debate que seja um debate construtivo. Eu estou absolutamente aberto às diversas compreensões e a tentarmos, talvez, uma solução per curiam para o caso concreto, seja por meio de uma tese mais geral, seja, como o Presidente propôs ao final da primeira parte da sessão, mais específica para o caso fático em questão. Eu procurei fazer uma tese mais geral e vou fazer sua leitura. Eu sei que há adendos outros, para além daquele voto quejá foi proferido pelo Ministro Zanin e que eu acatei aqui em minha tese. Também há ‒ como eu disse na primeira parte da sessão ‒ a questão relativa à situação hipotética de a vítima ser assassinada, e um familiar entregar o celular dela. Qual é a situação, então, desse celular perante a recolha de elementos contidos nele sem autorização judicial? Penso em ler para os eminentes colegas a propostas, a partir da ordem que o Presidente estabelecer para os demais, para as discussões, e sempre num debate aberto. Então, a proposta atual, Ministro Flávio Dino, Ministro André, é a seguinte. Aderindo à proposta do Ministro Cristiano Zanin, que também Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO DEBATE II O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Senhor Presidente, renovando os cumprimentos a todas e a todos, eu penso que a definição que o Ministro Flávio Dino compartilhou comigo ao sairmos para o intervalo da sessão é bem apropriada para o caso. Ou seja, este parece ser um daqueles casos em que a tese não se aplica especificamente à solução do caso concreto. Por isso que, mesmo antes, Ministro Gilmar, eu já havia proposto usar uma metodologia, até porque os votos são conhecidos, os já proferidos, o meu, o de Vossa Excelência, o do Ministro Zanin e de outros colegas, no sentido de irmos, independentemente da solução do caso concreto, diretamente à discussão da tese. E, a partir da discussão da tese, já que os fatos, os dados e a temática de repercussão geral já estão bem apresentados, nós fazermos um debate que seja um debate construtivo. Eu estou absolutamente aberto às diversas compreensões e a tentarmos, talvez, uma solução per curiam para o caso concreto, seja por meio de uma tese mais geral, seja, como o Presidente propôs ao final da primeira parte da sessão, mais específica para o caso fático em questão. Eu procurei fazer uma tese mais geral e vou fazer sua leitura. Eu sei que há adendos outros, para além daquele voto que já foi proferido pelo Ministro Zanin e que eu acatei aqui em minha tese. Também há ‒ como eu disse na primeira parte da sessão ‒ a questão relativa à situação hipotética de a vítima ser assassinada, e um familiar entregar o celular dela. Qual é a situação, então, desse celular perante a recolha de elementos contidos nele sem autorização judicial? Penso em ler para os eminentes colegas a propostas, a partir da ordem que o Presidente estabelecer para os demais, para as discussões, e sempre num debate aberto. Então, a proposta atual, Ministro Flávio Dino, Ministro André, é a seguinte. Aderindo à proposta do Ministro Cristiano Zanin, que também Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 37 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ agrega propostas feitas no voto do eminente Ministro Gilmar Mendes e a anteriormente feita por mim, hipóteses não contempladas inicialmente, mas de extrema importância prática, eu sugiro a tese geral de repercussão geral nos seguintes termos: 1) O acesso a dados obtidos a partir de aparelhos celulares depende do consentimento do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (arts. 7º, inciso III, e 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção de dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da Constituição da República Federal/88). Lembrando que esse inciso LXXIX é exatamente aquele que foi introduzido pela Emenda Constitucional nº 115, no ano de 2022. 2) A apreensão do aparelho celular nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito não está sujeita à reserva de jurisdição. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Perdão, pode repetir, Ministro Toffoli? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): O que, no caso concreto, levaria realmente ao provimento do recurso. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Essa última frase qual foi? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): A apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP, ou em flagrante delito não está sujeita à reserva de jurisdição. Talvez fosse interessante fazer a leitura. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Caso fortuito também. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Sim. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Aí não foi flagrante delito, não é? No caso concreto, não chegou a ser flagrante. 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ agrega propostas feitas no voto do eminente Ministro Gilmar Mendes e a anteriormente feita por mim, hipóteses não contempladas inicialmente, mas de extrema importância prática, eu sugiro a tese geral de repercussão geral nos seguintes termos: 1) O acesso a dados obtidos a partir de aparelhos celulares depende do consentimento do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (arts. 7º, inciso III, e 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção de dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da Constituição da República Federal/88). Lembrando que esse inciso LXXIX é exatamente aquele que foi introduzido pela Emenda Constitucional nº 115, no ano de 2022. 2) A apreensão do aparelho celular nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito não está sujeita à reserva de jurisdição. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Perdão, pode repetir, Ministro Toffoli? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): O que, no caso concreto, levaria realmente ao provimento do recurso. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Essa última frase qual foi? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): A apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP, ou em flagrante delito não está sujeita à reserva de jurisdição. Talvez fosse interessante fazer a leitura. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Caso fortuito também. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Sim. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Aí não foi flagrante delito, não é? No caso concreto, não chegou a ser flagrante. 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 38 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Não. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Local do crime. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Foi caso fortuito, não é? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - No local do crime. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - No local do crime. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): É, o art. 6º. Eu acho que é interessante fazer a leitura doart. 6º. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Isso, talvez fique melhor. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): O art. 6º do Código de Processo Penal está assim escrito, com as atualizações que ocorreram ao longo do tempo: "Art. 6º - Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial deverá: I - dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais. II - apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais. III - colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias. IV - ouvir o ofendido. V - ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no Capítulo III do Título VII, deste Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas testemunhas que lhe tenham ouvido a leitura; VI - proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a acareações; VII - determinar, se for caso, que se proceda a exame de 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Não. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Local do crime. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Foi caso fortuito, não é? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - No local do crime. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - No local do crime. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): É, o art. 6º. Eu acho que é interessante fazer a leitura do art. 6º. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Isso, talvez fique melhor. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): O art. 6º do Código de Processo Penal está assim escrito, com as atualizações que ocorreram ao longo do tempo: "Art. 6º - Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal, a autoridade policial deverá: I - dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais. II - apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais. III - colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias. IV - ouvir o ofendido. V - ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no Capítulo III do Título VII, deste Livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas testemunhas que lhe tenham ouvido a leitura; VI - proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e a acareações; VII - determinar, se for caso, que se proceda a exame de 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 39 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ corpo de delito e a quaisquer outras perícias; VIII - ordenar a identificação do indiciado pelo processo datiloscópico, se possível, e fazer juntar aos autos sua folha de antecedentes; IX - averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de vista individual, familiar e social, sua condição econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e depois do crime e durante ele, e quaisquer outros elementos que contribuírem para a apreciação do seu temperamento e caráter. X - colher informações sobre a existência de filhos, respectivas idades e se possuem alguma deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa." Esse é o art. 6º. Evidentemente, vários desses dispositivos estão decaídos em razão da Constituição de 1988, inclusive já com decisões do Supremo. A leitura que eu fiz foi da letra fria do artigo de acordo com a página da legislação do Palácio do Planalto, organizada pelo então subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República Gilmar Ferreira Mendes ‒ já se vão alguns poucos anos ‒ e que é a melhor fonte primária da atualização das leis que nós temos. Evidentemente que a identificação do ponto de vista das digitais já foi superada, se há uma identificação civil, ou seja, vários desses dispositivos e incisos estão declinados e superados. Aqui, para o que interessa, são os primeiros. Depois, poderíamos delimitá-los na tese. Em vez de colocar genericamente (art. 6º, incisos II e III), como sugere o Ministro Zanin. E já aderiria a isso. Quais seriam? Apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais; colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Ministro Toffoli, apenas uma pergunta a Vossa Excelência. Eu propus até essa alusão ao art. 6º, como Vossa Excelência acaba de indicar, mas o art. 6º trata de apreensão. Em relação à apreensão, eu creio que não resta muita dúvida. A questão é o ato subsequente, é o acesso. E 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ corpo de delito e a quaisquer outras perícias; VIII - ordenar a identificação do indiciado pelo processo datiloscópico, se possível, e fazer juntar aos autos sua folha de antecedentes; IX - averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de vista individual, familiar e social, sua condição econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e depois do crime e durante ele, e quaisquer outros elementos que contribuírem para a apreciação do seu temperamento e caráter. X - colher informações sobre a existência de filhos, respectivas idades e se possuem alguma deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa." Esse é o art. 6º. Evidentemente, vários desses dispositivos estão decaídos em razão da Constituição de 1988, inclusive já com decisões do Supremo. A leitura que eu fiz foi da letra fria do artigo de acordo com a página da legislação do Palácio do Planalto, organizada pelo então subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República Gilmar Ferreira Mendes ‒ já se vão alguns poucos anos ‒ e que é a melhor fonte primária da atualização das leis que nós temos. Evidentemente que a identificação do ponto de vista das digitais já foi superada, se há uma identificação civil, ou seja, vários desses dispositivos e incisos estão declinados e superados. Aqui, para o que interessa, são os primeiros. Depois, poderíamos delimitá-los na tese. Em vez de colocar genericamente (art. 6º, incisos II e III), como sugere o Ministro Zanin. E já aderiria a isso. Quais seriam? Apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais; colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Ministro Toffoli, apenas uma pergunta a Vossa Excelência. Eu propus até essa alusão ao art. 6º, como Vossa Excelência acaba de indicar, mas o art. 6º trata de apreensão. Em relação à apreensão, eu creio que não resta muita dúvida. A questão é o ato subsequente, é o acesso. E 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.aspsob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 40 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ daí a pergunta a Vossa Excelência. Na proposta de voto que eu fiz, aderindo ao de Vossa Excelência, eu sugeri essa distinção e que os atos administrativos - chamemos assim - fossem até a preservação dos dados e metadados, mas não ao acesso. E usei, por simetria, o Marco Civil da Internet, a Lei nº 12.965, o art. 13. Ou seja, como é muito difícil particularizar - o Ministro Fachin, há pouco, usou a expressão casa virtual, algo assim -, de fato, talvez, o celular seja mais similar à casa do que ao envelope. O que nós tínhamos na casa das nossas mães e avós? Álbum de fotografia, arquivos, armários. Nada disso existe mais. Para acessar o álbum de fotografia, os arquivos e armários, preteritamente, era preciso ordem judicial. O Ministro Barroso trouxe o tema da serendipidade. Eu tenho muito receio desse cipoal, porque quando a tese não dá conta do cipoal, em vez de resolver problema, ela os cria. Então, eu prefiro um parâmetro objetivo. E essa é a pergunta a Vossa Excelência. Quando Vossa Excelência alude ao artigo 6º, isso iria no sentido da apreensão e do acesso, ou só até a apreensão, como modestamente eu propus em reflexão de Vossa Excelência? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Eu penso que nós deveríamos debater isso. Por exemplo, eu sei que o Ministro Zanin vai sugerir, porque ele comentou sobre a possibilidade da deliberação diferida, com eventuais excessos que tenham ocorrido pela autoridade policial numa circunstância. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Vossa Excelência me permite? Eu queria retomar a minha ideia de uma tese bem singela focada mais no caso concreto, que seria alguma coisa assim: a apreensão de celular no local do crime e o acesso a dados que permitam a identificação do seu autor não configuram prova ilícita. Porque, aí é bem recortado para o caso. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Com ou sem serendipidade? E se tiver lá a prova de um sequestro, homicídio, a autoridade policial não pode usar. 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ daí a pergunta a Vossa Excelência. Na proposta de voto que eu fiz, aderindo ao de Vossa Excelência, eu sugeri essa distinção e que os atos administrativos - chamemos assim - fossem até a preservação dos dados e metadados, mas não ao acesso. E usei, por simetria, o Marco Civil da Internet, a Lei nº 12.965, o art. 13. Ou seja, como é muito difícil particularizar - o Ministro Fachin, há pouco, usou a expressão casa virtual, algo assim -, de fato, talvez, o celular seja mais similar à casa do que ao envelope. O que nós tínhamos na casa das nossas mães e avós? Álbum de fotografia, arquivos, armários. Nada disso existe mais. Para acessar o álbum de fotografia, os arquivos e armários, preteritamente, era preciso ordem judicial. O Ministro Barroso trouxe o tema da serendipidade. Eu tenho muito receio desse cipoal, porque quando a tese não dá conta do cipoal, em vez de resolver problema, ela os cria. Então, eu prefiro um parâmetro objetivo. E essa é a pergunta a Vossa Excelência. Quando Vossa Excelência alude ao artigo 6º, isso iria no sentido da apreensão e do acesso, ou só até a apreensão, como modestamente eu propus em reflexão de Vossa Excelência? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Eu penso que nós deveríamos debater isso. Por exemplo, eu sei que o Ministro Zanin vai sugerir, porque ele comentou sobre a possibilidade da deliberação diferida, com eventuais excessos que tenham ocorrido pela autoridade policial numa circunstância. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Vossa Excelência me permite? Eu queria retomar a minha ideia de uma tese bem singela focada mais no caso concreto, que seria alguma coisa assim: a apreensão de celular no local do crime e o acesso a dados que permitam a identificação do seu autor não configuram prova ilícita. Porque, aí é bem recortado para o caso. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Com ou sem serendipidade? E se tiver lá a prova de um sequestro, homicídio, a autoridade policial não pode usar. 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 41 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Esse não é o caso. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Isso eu entendo, mas vai surgir. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Mas veja a minha proposta, Ministro Alexandre. A apreensão do celular no local do crime e o acesso a dados que permitam a identificação do seu autor não configuram prova ilícita. Portanto, a tese é restrita à identificação do autor. Pois não, Ministro Alexandre. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Presidente, eu queria fazer três rápidas considerações envolvendo isso. Nós temos que tomar cuidado para não usar o termo apreensão do art. 6º para um encontro fortuito, porque não se trata de uma apreensão efetiva. Então, nós temos que englobar, me parece, as duas situações. Um segundo ponto, Ministro Flávio, para simplesmente poder apreender, seja na forma do art. 6º, seja em caso fortuito, nós não precisamos de tese, porque isso já é possível. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Concordo, sem dúvida. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - E um terceiro ponto, eu gostaria de recordar a todos que o Supremo Tribunal Federal - até com base na doutrina italiana -, entende que a prova de crimes fortuitos, encontrado fortuitamente, desde que não haja desvio de finalidade, é lícita. E eu explico aqui, dou um exemplo que nós já julgamos. Se há uma interceptação judicial para um determinado crime, uma interceptação judicial para uma organização criminosa de tráfico ilícito de entorpecentes - autorizada judicialmente para tráfico ilícito de entorpecentes - e se encontra, fortuitamente, a prova de um homicídio, nós admitimos isso, isso é admitido. Então, fazendo paralelo, se nós fixarmos, me parece, a tese de que a prova é lícita nesses fins para o crime, pegando o exemplo do caso concreto, seria lícita para identificação do autor do roubo, mas, fortuitamente, se achar um outro crime, também é lícita, porque foi um 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Esse não é o caso. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Isso eu entendo, mas vai surgir. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Mas veja a minha proposta, Ministro Alexandre. A apreensão do celular no local do crime e o acesso a dados que permitam a identificação do seu autor não configuram prova ilícita. Portanto, a tese é restrita à identificação do autor. Pois não, Ministro Alexandre. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - Presidente, eu queria fazer três rápidas considerações envolvendo isso. Nós temos que tomar cuidado para não usar o termo apreensão do art. 6º para umencontro fortuito, porque não se trata de uma apreensão efetiva. Então, nós temos que englobar, me parece, as duas situações. Um segundo ponto, Ministro Flávio, para simplesmente poder apreender, seja na forma do art. 6º, seja em caso fortuito, nós não precisamos de tese, porque isso já é possível. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Concordo, sem dúvida. O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES - E um terceiro ponto, eu gostaria de recordar a todos que o Supremo Tribunal Federal - até com base na doutrina italiana -, entende que a prova de crimes fortuitos, encontrado fortuitamente, desde que não haja desvio de finalidade, é lícita. E eu explico aqui, dou um exemplo que nós já julgamos. Se há uma interceptação judicial para um determinado crime, uma interceptação judicial para uma organização criminosa de tráfico ilícito de entorpecentes - autorizada judicialmente para tráfico ilícito de entorpecentes - e se encontra, fortuitamente, a prova de um homicídio, nós admitimos isso, isso é admitido. Então, fazendo paralelo, se nós fixarmos, me parece, a tese de que a prova é lícita nesses fins para o crime, pegando o exemplo do caso concreto, seria lícita para identificação do autor do roubo, mas, fortuitamente, se achar um outro crime, também é lícita, porque foi um 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 42 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ encontro fortuito sem desvio de finalidade. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu entendo. Eu só colocaria em dúvida se devemos avançar. Mas, diante da observação do Ministro Alexandre, eu mudaria a minha proposição para ficar assim: o recolhimento de celular no local do crime e o acesso a dados que permitam a identificação do seu autor não configuram prova ilícita. Eu botei recolhimento em vez de apreensão para não ter dúvida de que não estamos falando de busca e apreensão. Eu estou insistindo nesse ponto, porque acho que é uma tese restrita, estreita ou narrow, como se diria na doutrina estrangeira, que resolve o caso do concreto e não abre para outras discussões que possamos querer amadurecer mais à frente. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Eu só fico na dúvida diante de situações concretas que já se colocam. E aí vêm hipóteses as mais diversas, por exemplo, a imediatidade do uso de dados, tendo em vista, por exemplo, uma situação de sequestro em que se precisa reagir. A mim me parece que dá mais conforto a posição trazida pelo Ministro Zanin, e acho que incorporada pelo Ministro Toffoli, quando fala que apenas, excepcionalmente, será possível a... O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): É que eu nem consegui terminar minha tese. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Desculpe. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Mas continue, Ministro Gilmar. É só para lembrar que eu gostaria de fazer o meu voto. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Claro. Desculpe. Só para dizer que a tese do Ministro Zanin incorpora essa excepcionalidade. E aí até um juízo de proporcionalidade pode permitir que se faça essa avaliação para não sermos mais realistas do que o rei diante de fatos que não podem ser deferidos no tempo. O Ministro André, salvo engano, na proposta que formulara, até admitia uma ratificação posterior, uma decisão judicial posterior. Então, mantinha a ideia de reserva de jurisdição, tal como decorre do sistema, a 7 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ encontro fortuito sem desvio de finalidade. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu entendo. Eu só colocaria em dúvida se devemos avançar. Mas, diante da observação do Ministro Alexandre, eu mudaria a minha proposição para ficar assim: o recolhimento de celular no local do crime e o acesso a dados que permitam a identificação do seu autor não configuram prova ilícita. Eu botei recolhimento em vez de apreensão para não ter dúvida de que não estamos falando de busca e apreensão. Eu estou insistindo nesse ponto, porque acho que é uma tese restrita, estreita ou narrow, como se diria na doutrina estrangeira, que resolve o caso do concreto e não abre para outras discussões que possamos querer amadurecer mais à frente. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Eu só fico na dúvida diante de situações concretas que já se colocam. E aí vêm hipóteses as mais diversas, por exemplo, a imediatidade do uso de dados, tendo em vista, por exemplo, uma situação de sequestro em que se precisa reagir. A mim me parece que dá mais conforto a posição trazida pelo Ministro Zanin, e acho que incorporada pelo Ministro Toffoli, quando fala que apenas, excepcionalmente, será possível a... O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): É que eu nem consegui terminar minha tese. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Desculpe. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Mas continue, Ministro Gilmar. É só para lembrar que eu gostaria de fazer o meu voto. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Claro. Desculpe. Só para dizer que a tese do Ministro Zanin incorpora essa excepcionalidade. E aí até um juízo de proporcionalidade pode permitir que se faça essa avaliação para não sermos mais realistas do que o rei diante de fatos que não podem ser deferidos no tempo. O Ministro André, salvo engano, na proposta que formulara, até admitia uma ratificação posterior, uma decisão judicial posterior. Então, mantinha a ideia de reserva de jurisdição, tal como decorre do sistema, a 7 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 43 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ posteriori para situações que tais. Mas, assim, eu tentaria fazer a separação que Ministro Flávio Dino fez entre o recolhimento ou a apreensão e o acesso. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Ministro Toffoli, me permite? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Pois não. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Depois posso fazer a sugestão, mas, na linha do que o Ministro Gilmar acaba dizer, eu imagino um estado de necessidade probatório, mais ou menos com os requisitos do art. 24 do Código Penal. Quer dizer, nós teríamos situações em que seria possível o acesso, por conta de um estado necessidade probatório para se preservar alguns bens da vida, com a posterior análise judicial. Acho que isso podemos cogitar também. O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Acho que até por questões tecnológicas, Ministro Zanin. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Exato. Destruição de dados. O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Não sei Vossa Excelência quer falar, porque conversamos sobre isso. Acho que vale, talvez, trazer à elucidação, mas eu não queria me apropriar dos comentários de Vossa Excelência. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Não, imagina. Temos situações realmente em que equipamentos hoje permitem a destruição imediata de dados a partir de, por exemplo, o celular saindo de um determinado local, a destruição, ou até um acesso remoto que permite a destruição de dados de outra pessoa. Então nós temos que levar em consideração também essa realidade. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Gente, tese confusa demais, complexa demais, não vinga.Tem que ser mais simples. Achou o celular no local do crime, o que ele pode fazer? Acho que isso que temos de decidir. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - A repercussão geral é a 8 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ posteriori para situações que tais. Mas, assim, eu tentaria fazer a separação que Ministro Flávio Dino fez entre o recolhimento ou a apreensão e o acesso. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Ministro Toffoli, me permite? O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Pois não. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Depois posso fazer a sugestão, mas, na linha do que o Ministro Gilmar acaba dizer, eu imagino um estado de necessidade probatório, mais ou menos com os requisitos do art. 24 do Código Penal. Quer dizer, nós teríamos situações em que seria possível o acesso, por conta de um estado necessidade probatório para se preservar alguns bens da vida, com a posterior análise judicial. Acho que isso podemos cogitar também. O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Acho que até por questões tecnológicas, Ministro Zanin. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Exato. Destruição de dados. O SENHOR MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA - Não sei Vossa Excelência quer falar, porque conversamos sobre isso. Acho que vale, talvez, trazer à elucidação, mas eu não queria me apropriar dos comentários de Vossa Excelência. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - Não, imagina. Temos situações realmente em que equipamentos hoje permitem a destruição imediata de dados a partir de, por exemplo, o celular saindo de um determinado local, a destruição, ou até um acesso remoto que permite a destruição de dados de outra pessoa. Então nós temos que levar em consideração também essa realidade. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Gente, tese confusa demais, complexa demais, não vinga. Tem que ser mais simples. Achou o celular no local do crime, o que ele pode fazer? Acho que isso que temos de decidir. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - A repercussão geral é a 8 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 44 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ seguinte: saber se é possível o acesso pela autoridade policial aos dados armazenados em aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime, sem autorização judicial. Eu acho que o ideal seria o minimalismo diante de tantas hipóteses. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - É o que eu estou propondo. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - E o item do Ministro Toffoli, o primeiro, é a regra geral. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - O acesso que está na tese de Vossa Excelência é com ordem judicial ou sem ordem judicial? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Sem ordem judicial, porque precisamente a repercussão geral é para decidir se pode sem ordem judicial. Então, a minha proposta é: o recolhimento de celular no local do crime e o acesso a dados que permitam a identificação do seu autor não configuram prova ilícita. Essa é a resposta à pergunta que está posta na repercussão geral. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - E limita o acesso a esse objetivo. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu não estou especulando nada além disso, entendeu? Parei aqui. O SENHOR MINISTRO NUNES MARQUES: Um comentário rápido, Presidente. A minha preocupação é com o Marco Civil, em razão de que, com esse desiderato, para identificar o autor, pode-se acessar as fotos, os diálogos de WhatsApp, todos os aplicativos, aplicativos de banco, tudo. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu acho que, para identificar o autor, basta você saber quem está mandando as mensagens. O SENHOR MINISTRO NUNES MARQUES: Sim, mas abre, de qualquer forma, vai... O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu estou dizendo que é legítimo usar para identificar o 9 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ seguinte: saber se é possível o acesso pela autoridade policial aos dados armazenados em aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime, sem autorização judicial. Eu acho que o ideal seria o minimalismo diante de tantas hipóteses. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - É o que eu estou propondo. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - E o item do Ministro Toffoli, o primeiro, é a regra geral. O SENHOR MINISTRO CRISTIANO ZANIN - O acesso que está na tese de Vossa Excelência é com ordem judicial ou sem ordem judicial? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Sem ordem judicial, porque precisamente a repercussão geral é para decidir se pode sem ordem judicial. Então, a minha proposta é: o recolhimento de celular no local do crime e o acesso a dados que permitam a identificação do seu autor não configuram prova ilícita. Essa é a resposta à pergunta que está posta na repercussão geral. O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX - E limita o acesso a esse objetivo. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu não estou especulando nada além disso, entendeu? Parei aqui. O SENHOR MINISTRO NUNES MARQUES: Um comentário rápido, Presidente. A minha preocupação é com o Marco Civil, em razão de que, com esse desiderato, para identificar o autor, pode-se acessar as fotos, os diálogos de WhatsApp, todos os aplicativos, aplicativos de banco, tudo. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu acho que, para identificar o autor, basta você saber quem está mandando as mensagens. O SENHOR MINISTRO NUNES MARQUES: Sim, mas abre, de qualquer forma, vai... O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu estou dizendo que é legítimo usar para identificar o 9 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 45 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ autor. Eu não disse nada além disso. O SENHOR MINISTRO NUNES MARQUES: Quais os meios pelos quais, a partir do manuseio de um celular, se busca identificar o autor? Os diálogos, não é? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Certo, os meios são muito simples, só saber quem é que manda as mensagens, são as que aparecem em verde. Se vasculhar dados, caímos em situações como as com que o Ministro Flávio e o Ministro Alexandre demonstraram preocupação. Eu deixei essa discussão de fora porque ela não faz parte deste caso. Por isso, minha proposta é não especularmos sobre o que não se está discutindo no caso, porque acho que podemos ter mais dificuldade de consensos e talvez precisar de mais reflexão. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Presidente, com todo o respeito que lhe tenho e ao eminente Relator - eu sou insuspeito de ter algum tipo de aversão à polícia, não tenho, nem à estadual, nem à federal, nem nada -, a questão é a fronteira, como o Ministro Nunes Marques acaba de dizer. No momento em que nós dissermos "recolhimento". Imaginemos uma situação que todos nós julgamos, crime permanente,depósito de droga, de cocaína, em que a polícia está autorizada a lá entrar porque há um flagrante delito. Entra sem ordem judicial. Lá haverá um celular - ou dois, ou dez -, ele vai ser recolhido, e a autoridade policial não vai ter nenhum controle, a não ser que nós eliminemos a serendipidade, não haverá fronteira, como o Ministro Nunes Marques acabou de dizer. Então, particularmente neste caso, eu me inclino por uma resposta clara. Pode apreender? Pode. Pode recolher? Pode. Pode mandar conservar os dados? Pode e deve, por conta do apagamento remoto, mas acessar, só com ordem judicial. Eu acho que é uma resposta mais clara, mais nítida. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Então Vossa Excelência nega provimento ao recurso extraordinário? 10 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ autor. Eu não disse nada além disso. O SENHOR MINISTRO NUNES MARQUES: Quais os meios pelos quais, a partir do manuseio de um celular, se busca identificar o autor? Os diálogos, não é? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Certo, os meios são muito simples, só saber quem é que manda as mensagens, são as que aparecem em verde. Se vasculhar dados, caímos em situações como as com que o Ministro Flávio e o Ministro Alexandre demonstraram preocupação. Eu deixei essa discussão de fora porque ela não faz parte deste caso. Por isso, minha proposta é não especularmos sobre o que não se está discutindo no caso, porque acho que podemos ter mais dificuldade de consensos e talvez precisar de mais reflexão. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Presidente, com todo o respeito que lhe tenho e ao eminente Relator - eu sou insuspeito de ter algum tipo de aversão à polícia, não tenho, nem à estadual, nem à federal, nem nada -, a questão é a fronteira, como o Ministro Nunes Marques acaba de dizer. No momento em que nós dissermos "recolhimento". Imaginemos uma situação que todos nós julgamos, crime permanente, depósito de droga, de cocaína, em que a polícia está autorizada a lá entrar porque há um flagrante delito. Entra sem ordem judicial. Lá haverá um celular - ou dois, ou dez -, ele vai ser recolhido, e a autoridade policial não vai ter nenhum controle, a não ser que nós eliminemos a serendipidade, não haverá fronteira, como o Ministro Nunes Marques acabou de dizer. Então, particularmente neste caso, eu me inclino por uma resposta clara. Pode apreender? Pode. Pode recolher? Pode. Pode mandar conservar os dados? Pode e deve, por conta do apagamento remoto, mas acessar, só com ordem judicial. Eu acho que é uma resposta mais clara, mais nítida. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Então Vossa Excelência nega provimento ao recurso extraordinário? 10 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 46 de 219 Debate II ARE 1042075 / RJ O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - A proposta processual que ia fazer depois ao Relator era nós fixarmos a tese para frente e, neste caso, nós julgarmos com base nele próprio. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Neste caso, com todo o respeito a quem pensa diferentemente, não darmos provimento é dizer que o sujeito pode roubar uma velhinha, jogá-la no chão e fugir, e a polícia não pode fazer nada. Vão me desculpar! O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Por isso eu defendo o provimento e a tese daqui para frente. Essa é a saída. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu chegaria ao ponto de não fixar tese nenhuma, mas julgar aqui e dar o provimento, porque eu vou ficar, com todas as vênias, envergonhado de dizer que não podemos, neste caso, prender essa pessoa. 11 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - A proposta processual que ia fazer depois ao Relator era nós fixarmos a tese para frente e, neste caso, nós julgarmos com base nele próprio. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Neste caso, com todo o respeito a quem pensa diferentemente, não darmos provimento é dizer que o sujeito pode roubar uma velhinha, jogá-la no chão e fugir, e a polícia não pode fazer nada. Vão me desculpar! O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Por isso eu defendo o provimento e a tese daqui para frente. Essa é a saída. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Eu chegaria ao ponto de não fixar tese nenhuma, mas julgar aqui e dar o provimento, porque eu vou ficar, com todas as vênias, envergonhado de dizer que não podemos, neste caso, prender essa pessoa. 11 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código E77B-8BDA-5BA0-50F2 e senha C1AB-E04B-A729-2874 Inteiro Teor do Acórdão - Página 47 de 219 Antecipação ao Voto 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO ANTECIPAÇÃO AO VOTO O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Senhor Presidente, até tenho uma tese no mesmo sentido daquilo que pensou Vossa Excelência, mas, de maneira rápida, para fins de proclamação, para o caso concreto, meu voto é pelo provimento do recurso extraordinário do Ministério Público e pela retomada da sentença condenatória, confirmando-se a sentença condenatória do Juiz de Primeiro Grau. Em relação ao caso concreto, já se poderia registrar meu voto nesse sentido. Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 576C-5F8A-F5B3-423F e senha 1A4C-963A-2349-28AE Supremo Tribunal Federal 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO ANTECIPAÇÃO AO VOTO O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Senhor Presidente, até tenho uma tese no mesmo sentido daquilo que pensou Vossa Excelência, mas, de maneira rápida, para fins de proclamação, para o caso concreto, meu voto é pelo provimento do recurso extraordinário do Ministério Público e pela retomada da sentença condenatória, confirmando-se a sentença condenatória do Juiz de Primeiro Grau. Em relação ao caso concreto, já se poderia registrar meu voto nesse sentido. Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 576C-5F8A-F5B3-423F e senha 1A4C-963A-2349-28AE Inteiro Teor do Acórdão - Página 48 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO VOTO O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): 1. INTRODUÇÃO Conforme relatado, trata-se de recurso extraordinário com agravo julgado sob a sistemática da repercussão geral mediante o qual se questiona a necessidade de prévia autorização judicial para se acessarem os dados contidos no aparelho celular encontrado no local do crime apreendido pela autoridade policial, conforme determinao art. 6º, inciso II, do CPP. No caso em apreço, o recorrido foi denunciado como incurso nas penas do art. 157, § 2º, incisos I e II, do Código Penal e condenado, em primeiro grau de jurisdição, à pena de 7 (sete) anos de reclusão e 16 (dezesseis) dias-multa. Interposta apelação pela defesa, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro reconheceu a ilicitude da prova colhida e, por conseguinte, deu provimento ao recurso, absolvendo o réu com base no art. 386, inciso VII, do Código de Processo Penal. O fundamento central do acórdão é o de que “a identificação do autor do fato se deu a partir do ilícito e desautorizado manuseio, pelos policiais civis, do aparelho de telefonia celular, supostamente de propriedade daquele e que teria caído ao chão durante a fuga do implicado, vindo a ser arrecadado pela vítima e entregue por esta em sede policial” (e- doc. 4, fl. 237). Registra, ainda, o voto condutor do acórdão o seguinte: “[A]pós a vítima ter entregue o aparelho de telefonia Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO VOTO O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): 1. INTRODUÇÃO Conforme relatado, trata-se de recurso extraordinário com agravo julgado sob a sistemática da repercussão geral mediante o qual se questiona a necessidade de prévia autorização judicial para se acessarem os dados contidos no aparelho celular encontrado no local do crime apreendido pela autoridade policial, conforme determina o art. 6º, inciso II, do CPP. No caso em apreço, o recorrido foi denunciado como incurso nas penas do art. 157, § 2º, incisos I e II, do Código Penal e condenado, em primeiro grau de jurisdição, à pena de 7 (sete) anos de reclusão e 16 (dezesseis) dias-multa. Interposta apelação pela defesa, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro reconheceu a ilicitude da prova colhida e, por conseguinte, deu provimento ao recurso, absolvendo o réu com base no art. 386, inciso VII, do Código de Processo Penal. O fundamento central do acórdão é o de que “a identificação do autor do fato se deu a partir do ilícito e desautorizado manuseio, pelos policiais civis, do aparelho de telefonia celular, supostamente de propriedade daquele e que teria caído ao chão durante a fuga do implicado, vindo a ser arrecadado pela vítima e entregue por esta em sede policial” (e- doc. 4, fl. 237). Registra, ainda, o voto condutor do acórdão o seguinte: “[A]pós a vítima ter entregue o aparelho de telefonia Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 49 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ celular em sede policial, o agente da lei MAYKE ‘tomou a liberdade’ de acessar os dados ali armazenados e referentes não só a fotografias guardadas pelo implicado, como também à agenda de telefones e ao histórico de ligações ali construído e no qual estaria armazenada a última ligação telefônica efetuada por GUILHERME, que foi para sua namorada, após o que se desenvolveu aquela narrada investigação, que culminou com a identificação do implicado, bem como com a localização, tanto do domicílio do mesmo, quanto de sua namorada e para onde rumaram os agentes da lei, acabando por efetuar a prisão do rapinador. Neste contexto, tem-se por inequívoca a constatação de que a identificação do autor dos fatos foi alcançada unicamente mercê do indevido, desautorizado e ilegal manuseio daquele aparelho de telefonia celular, o que importou na flagrante e indisfarçável quebra da proteção constitucional incidente sobre a inviolabilidade do sigilo dos dados e das comunicações telefônicas ali existentes, o que apenas poderia se dar, por exceção, mediante expressa autorização judicial para tanto, mas o que foi ignorado e desrespeitado, muito embora não encerrasse maior dificuldade a observância da exigência legal, bastando para tanto que o policial civil que recebeu o referido aparelho telefônico, de imediato, encaminhasse este ao Delegado de Polícia informando a relevância do objeto, de modo a que tal Autoridade Policial representasse junto ao Plantão Judiciário de modo a obter a autorização para o acesso e verificação dos dados pretendidos” (e-doc. 4, fls. 238-239 – grifo nosso). Em síntese, o cerne da controvérsia constitucional posta nos autos consiste em saber se a autoridade policial pode acessar, sem prévia autorização judicial, os dados armazenados em aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime e apreendido nos termos do art. 6º, inciso II, do CPP. 2. MÉRITO 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ celular em sede policial, o agente da lei MAYKE ‘tomou a liberdade’ de acessar os dados ali armazenados e referentes não só a fotografias guardadas pelo implicado, como também à agenda de telefones e ao histórico de ligações ali construído e no qual estaria armazenada a última ligação telefônica efetuada por GUILHERME, que foi para sua namorada, após o que se desenvolveu aquela narrada investigação, que culminou com a identificação do implicado, bem como com a localização, tanto do domicílio do mesmo, quanto de sua namorada e para onde rumaram os agentes da lei, acabando por efetuar a prisão do rapinador. Neste contexto, tem-se por inequívoca a constatação de que a identificação do autor dos fatos foi alcançada unicamente mercê do indevido, desautorizado e ilegal manuseio daquele aparelho de telefonia celular, o que importou na flagrante e indisfarçável quebra da proteção constitucional incidente sobre a inviolabilidade do sigilo dos dados e das comunicações telefônicas ali existentes, o que apenas poderia se dar, por exceção, mediante expressa autorização judicial para tanto, mas o que foi ignorado e desrespeitado, muito embora não encerrasse maior dificuldade a observância da exigência legal, bastando para tanto que o policial civil que recebeu o referido aparelho telefônico, de imediato, encaminhasse este ao Delegado de Polícia informando a relevância do objeto, de modo a que tal Autoridade Policial representasse junto ao Plantão Judiciário de modo a obter a autorização para o acesso e verificação dos dados pretendidos” (e-doc. 4, fls. 238-239 – grifo nosso). Em síntese, o cerne da controvérsia constitucional posta nos autos consiste em saber se a autoridade policial pode acessar, sem prévia autorização judicial, os dados armazenados em aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime e apreendido nos termos do art. 6º, inciso II, do CPP. 2. MÉRITO 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 50 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ 2.1 Da necessária contextualização do presente julgamento Primeiramente, não se podeolvidar que, entre a data dos fatos e o presente julgamento, transcorreram mais de 12 (doze) anos. Nesse período, experimentamos inúmeros avanços tecnológicos, entre os quais destaco a popularização dos smartphones e o crescente desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial, em todos os campos e para as mais diversas finalidades. Uma revolução tecnológica tão acelerada – como não poderia deixar de ser – ocasionou a transformação completa das formas de vida, de trabalho e de interação social no país e no mundo. Consequentemente, surgiram novos desafios e assistimos a uma gradual – mas muito importante – alteração da percepção geral e institucional sobre os riscos sistêmicos – e ocultos – que essas tecnologias e suas potencialidades acarretam aos direitos fundamentais. Observo também que os smartphones já eram realidade no país em 2013. Esses aparelhos multifuncionais, além de servirem de instrumento para os serviços ordinários de telefonia móvel, permitem a produção, o armazenamento, a transmissão e a reprodução de arquivos dos mais diversos formatos (textos, imagens, áudios e vídeos) e – mais que isso – viabilizam o acesso amplo e irrestrito à internet e, por conseguinte, às redes sociais, aos provedores de e-mail, às plataformas bancárias e de e- commerce, a uma miríade de sites e blogs e aos inúmeros aplicativos de mensagens instantâneas, inclusive gratuitamente. Aliás, graças aos smartphones, “o mundo passou a caber na palma da mão”. Mas, à medida que isso acontecia, as informações pessoais também se concentraram nos aparelhos celulares. Aliás, hoje, as múltiplas funcionalidades dos aparelhos celulares geram dados e metadados que são registrados na memória física do aparelho, ou “em nuvem”, e podem ser facilmente acessados, rastreados e/ou recuperados. Examinados em conjunto, esses dados e metadados revelam muito mais sobre nós do que somos capazes de imaginar. Por meio deles, é 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ 2.1 Da necessária contextualização do presente julgamento Primeiramente, não se pode olvidar que, entre a data dos fatos e o presente julgamento, transcorreram mais de 12 (doze) anos. Nesse período, experimentamos inúmeros avanços tecnológicos, entre os quais destaco a popularização dos smartphones e o crescente desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial, em todos os campos e para as mais diversas finalidades. Uma revolução tecnológica tão acelerada – como não poderia deixar de ser – ocasionou a transformação completa das formas de vida, de trabalho e de interação social no país e no mundo. Consequentemente, surgiram novos desafios e assistimos a uma gradual – mas muito importante – alteração da percepção geral e institucional sobre os riscos sistêmicos – e ocultos – que essas tecnologias e suas potencialidades acarretam aos direitos fundamentais. Observo também que os smartphones já eram realidade no país em 2013. Esses aparelhos multifuncionais, além de servirem de instrumento para os serviços ordinários de telefonia móvel, permitem a produção, o armazenamento, a transmissão e a reprodução de arquivos dos mais diversos formatos (textos, imagens, áudios e vídeos) e – mais que isso – viabilizam o acesso amplo e irrestrito à internet e, por conseguinte, às redes sociais, aos provedores de e-mail, às plataformas bancárias e de e- commerce, a uma miríade de sites e blogs e aos inúmeros aplicativos de mensagens instantâneas, inclusive gratuitamente. Aliás, graças aos smartphones, “o mundo passou a caber na palma da mão”. Mas, à medida que isso acontecia, as informações pessoais também se concentraram nos aparelhos celulares. Aliás, hoje, as múltiplas funcionalidades dos aparelhos celulares geram dados e metadados que são registrados na memória física do aparelho, ou “em nuvem”, e podem ser facilmente acessados, rastreados e/ou recuperados. Examinados em conjunto, esses dados e metadados revelam muito mais sobre nós do que somos capazes de imaginar. Por meio deles, é 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 51 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ possível saber não só com quem falamos, mas também o que falamos e quando; o que temos feito na internet e fora dela (v.g., o que e em quais plataformas compramos, com qual frequência e quanto gastamos; como administramos, ou não, nossos compromissos financeiros; os lugares que frequentamos; o trajeto que fizemos na ida ao trabalho ou no passeio no shopping, etc); e, até mesmo, nossos receios, preferências e expectativas. De fato, no contexto atual, franquear o acesso ao aparelho celular de alguém implica, na prática, liberar, autorizar, conceder – ou, ao menos – desobstruir o acesso a um espectro enorme de dados pessoais e não pessoais, o que torna possível uma investigação completa e – diga-se de passagem – muito eficiente acerca das preferências individuais, das relações familiares e interpessoais, dos hábitos de vida, de trabalho e de consumo e, em última análise, da forma como determinada pessoa pensa, age e decide. Isso sem falar, obviamente, das facilidades que esse acesso proporciona para a intrusão indevida e “para o futuro”, a partir da instalação de softwares “espiões”. Por tais motivos, a meu ver, a realidade e a percepção atuais ampliam e deslocam a discussão original, centrada pelo próprio recorrente na suposta inviolabilidade do sigilo das comunicações (CF/88, art. 5º, inciso XII), para a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas (CF/88, art. 5º, inciso, X) e, mais precisamente, para o novel “direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais” (CF/88, art. 5º, inciso LXXIX, incluído pela EC nº 115, de 10/2/22) e para o direito à autodeterminação informacional. 2.2 Revisitando a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal Na primeira análise dos autos, compreendi que o caso em apreço se amoldava ao entendimento jurisprudencial formado a partir da análise do RE nº 418.416/SC, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, julgado pelo Plenário em 2006, identificando-se, sobretudo, com o HC nº 91.867/PA, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado pela Segunda Turma em 2012. Todavia, ao revisitar os precedentes da Suprema Corte sobre a matéria e confrontá-los 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ possível saber não só com quem falamos, mas também o que falamos e quando; o que temos feito na internet e fora dela (v.g., o que e em quais plataformas compramos, com qual frequência e quanto gastamos; como administramos, ou não, nossos compromissos financeiros; os lugares que frequentamos; o trajeto que fizemos na ida ao trabalho ou no passeio no shopping, etc); e, até mesmo, nossos receios, preferências e expectativas. De fato, no contexto atual, franquear o acesso ao aparelho celular de alguém implica, na prática, liberar, autorizar, conceder – ou, ao menos – desobstruir o acesso a um espectro enorme de dados pessoais e não pessoais, o que torna possível uma investigação completa e – diga-se de passagem – muito eficiente acercadas preferências individuais, das relações familiares e interpessoais, dos hábitos de vida, de trabalho e de consumo e, em última análise, da forma como determinada pessoa pensa, age e decide. Isso sem falar, obviamente, das facilidades que esse acesso proporciona para a intrusão indevida e “para o futuro”, a partir da instalação de softwares “espiões”. Por tais motivos, a meu ver, a realidade e a percepção atuais ampliam e deslocam a discussão original, centrada pelo próprio recorrente na suposta inviolabilidade do sigilo das comunicações (CF/88, art. 5º, inciso XII), para a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas (CF/88, art. 5º, inciso, X) e, mais precisamente, para o novel “direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais” (CF/88, art. 5º, inciso LXXIX, incluído pela EC nº 115, de 10/2/22) e para o direito à autodeterminação informacional. 2.2 Revisitando a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal Na primeira análise dos autos, compreendi que o caso em apreço se amoldava ao entendimento jurisprudencial formado a partir da análise do RE nº 418.416/SC, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, julgado pelo Plenário em 2006, identificando-se, sobretudo, com o HC nº 91.867/PA, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado pela Segunda Turma em 2012. Todavia, ao revisitar os precedentes da Suprema Corte sobre a matéria e confrontá-los 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 52 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ com os panoramas fático e jurídico atuais, percebo a necessidade de verticalizar a análise das premissas ali estabelecidas para, só então, enfrentar o caso concreto. No citado recurso extraordinário, a discussão girava em torno da alegação defensiva de que a condenação por crimes tributários se baseava em prova obtida por meio ilícito “consubstanciada na decisão que autorizou a busca e apreensão, de cuja execução também teria resultado a violação à proteção constitucional ao sigilo das comunicações de dados”. Embora, no caso, a medida extrema de busca e apreensão tivesse sido previamente autorizada pelo juízo competente e contivesse autorização expressa para a apreensão de “equipamentos de informática (computadores e disquetes) interessantes à investigação”, a defesa sustentava a impossibilidade de decodificação dos registros contidos no computador apreendido, invocando o que foi decidido pela Suprema Corte na AP nº 307. Sobre esse ponto, no voto condutor do acórdão, o Ministro Sepúlveda Pertence, então Relator do referido recurso extraordinário, ponderou que a tese da inviolabilidade absoluta de dados contidos em computador não poderia ser tomada como consagrada pelo Colegiado na aludida ação penal, “dada a interferência, naquele caso, de outra razão suficiente para a exclusão da prova questionada — o ter sido o microcomputador apreendido sem ordem judicial e a consequente ofensa da garantia da inviolabilidade do domicílio da empresa — este segundo fundamento bastante, sim, aceito por votação unânime, à luz do art. 5º, XI da Lei Fundamental”. O julgado recebeu a seguinte ementa: “I. Decisão judicial: fundamentação: alegação de omissão de análise de teses relevantes da Defesa: recurso extraordinário: descabimento. Além da falta do indispensável 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ com os panoramas fático e jurídico atuais, percebo a necessidade de verticalizar a análise das premissas ali estabelecidas para, só então, enfrentar o caso concreto. No citado recurso extraordinário, a discussão girava em torno da alegação defensiva de que a condenação por crimes tributários se baseava em prova obtida por meio ilícito “consubstanciada na decisão que autorizou a busca e apreensão, de cuja execução também teria resultado a violação à proteção constitucional ao sigilo das comunicações de dados”. Embora, no caso, a medida extrema de busca e apreensão tivesse sido previamente autorizada pelo juízo competente e contivesse autorização expressa para a apreensão de “equipamentos de informática (computadores e disquetes) interessantes à investigação”, a defesa sustentava a impossibilidade de decodificação dos registros contidos no computador apreendido, invocando o que foi decidido pela Suprema Corte na AP nº 307. Sobre esse ponto, no voto condutor do acórdão, o Ministro Sepúlveda Pertence, então Relator do referido recurso extraordinário, ponderou que a tese da inviolabilidade absoluta de dados contidos em computador não poderia ser tomada como consagrada pelo Colegiado na aludida ação penal, “dada a interferência, naquele caso, de outra razão suficiente para a exclusão da prova questionada — o ter sido o microcomputador apreendido sem ordem judicial e a consequente ofensa da garantia da inviolabilidade do domicílio da empresa — este segundo fundamento bastante, sim, aceito por votação unânime, à luz do art. 5º, XI da Lei Fundamental”. O julgado recebeu a seguinte ementa: “I. Decisão judicial: fundamentação: alegação de omissão de análise de teses relevantes da Defesa: recurso extraordinário: descabimento. Além da falta do indispensável 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 53 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ prequestionamento (Súmulas 282 e 356), não há violação dos art. 5º, LIV e LV, nem do art. 93, IX, da Constituição, que não exige o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas apresentadas pelas partes, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão; exige, apenas, que a decisão esteja motivada, e a sentença e o acórdão recorrido não descumpriram esse requisito (v.g., RE 140.370, 1ª T., 20.4.93, Pertence, DJ 21.5.93; AI 242.237 - AgR, 1ª T., 27.6.00, Pertence, DJ 22.9.00). II. Quebra de sigilo bancário: prejudicadas as alegações referentes ao decreto que a determinou, dado que a sentença e o acórdão não se referiram a qualquer prova resultante da quebra do sigilo bancário, tanto mais que, dado o deferimento parcial de mandado de segurança, houve a devolução da documentação respectiva. III. Decreto de busca e apreensão: validade. 1. Decreto específico, que somente permitiu que as autoridades encarregadas da diligência selecionassem objetos, dentre aqueles especificados na decisão e na sede das duas empresas nela indicadas, e que fossem ‘interessantes à investigação’ que, no caso, tinha pertinência com a prática do crime pelo qual foi efetivamente condenado o recorrente. 2. Ademais, não se demonstrou que as instâncias de mérito tenham invocado prova não contida no objeto da medida judicial, nem tenham valorado qualquer dado resultante da extensão dos efeitos da decisão determinante da busca e apreensão, para que a Receita Federal e a ‘Fiscalização do INSS’ também tivessem acesso aos documentos apreendidos, para fins de investigação e cooperação na persecução criminal, ‘observado o sigilo imposto ao feito’. IV. Proteção constitucional ao sigilo das comunicaçõesa proteção jurídica dos dados pessoais a uma categoria autônoma com relação aos direitos à privacidade e à intimidade (CF, art. 5º, inciso X). 8. Não se pode olvidar, ainda, que o direito à privacidade, apesar de relativamente recente, passou – e ainda passa – por considerável ressignificação. É dizer, no contexto da sociedade atual, a possibilidade de o indivíduo proceder ao controle dos dados que dizem respeito à própria pessoa – porque eles consistem em manifestação de sua personalidade – é conditio sine qua non para a preservação de sua personalidade e para o desenvolvimento pleno de sua autonomia. Isso porque é o direito à privacidade que assegura a cada indivíduo um espaço próprio de experimentação, no qual é possível a cada qual expressar “sentimentos, reflexões, visões de mundo e experiências pessoais sem medo de estar sendo observado por órgãos estatais” (GRECO, Luís; GLEIZER, Orlandino. A infiltração online no processo penal – Notícia sobre a experiência alemã. Revista Brasileira de Direito Processual Penal. Porto Alegre, v. 5, n. 3, set./dez. 2019, p. 1495). IV. DISPOSITIVO E TESE 9. Recurso extraordinário com agravo ao qual se dá provimento para 4 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Inteiro Teor do Acórdão - Página 4 de 219 Ementa e Acórdão ARE 1042075 / RJ se reconhecer a licitude da prova e se restabelecer a sentença condenatória proferida em primeiro grau de jurisdição, fixando-se a seguinte tese de repercussão geral: “1. A mera apreensão de aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. Contudo, o acesso aos dados nele contidos deve observar as seguintes condicionantes: 1.1 Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular, o acesso aos respectivos dados para o fim exclusivo de se esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou quem seja o proprietário do aparelho, não depende de consentimento ou de prévia decisão judicial, desde que justificada posteriormente a adoção da medida. 1.2 No caso de aparelho celular apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados está condicionado ao consentimento expresso e livre do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (cf. art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da CRFB/88). Nesses casos, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. 2. A autoridade policial poderá adotar as providências necessárias para a preservação dos dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido antes da autorização judicial, justificando posteriormente a adoção da medida. 3. As teses acima enunciadas só produzirão efeitos prospectivos, ressalvados os pedidos eventualmente formulados pelas defesas até a data do encerramento do presente julgamento". ACÓRDÃO O Tribunal, por unanimidade, apreciando o Tema nº 977 da 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ se reconhecer a licitude da prova e se restabelecer a sentença condenatória proferida em primeiro grau de jurisdição, fixando-se a seguinte tese de repercussão geral: “1. A mera apreensão de aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. Contudo, o acesso aos dados nele contidos deve observar as seguintes condicionantes: 1.1 Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular, o acesso aos respectivos dados para o fim exclusivo de se esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou quem seja o proprietário do aparelho, não depende de consentimento ou de prévia decisão judicial, desde que justificada posteriormente a adoção da medida. 1.2 No caso de aparelho celular apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados está condicionado ao consentimento expresso e livre do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (cf. art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da CRFB/88). Nesses casos, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. 2. A autoridade policial poderá adotar as providências necessárias para a preservação dos dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido antes da autorização judicial, justificando posteriormente a adoção da medida. 3. As teses acima enunciadas só produzirão efeitos prospectivos, ressalvados os pedidos eventualmente formulados pelas defesas até a data do encerramento do presente julgamento". ACÓRDÃO O Tribunal, por unanimidade, apreciando o Tema nº 977 da 5 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Inteiro Teor do Acórdão - Página 5 de 219 Ementa e Acórdão ARE 1042075 / RJ Repercussão Geral, deu provimento ao recurso extraordinário com agravo para reconhecer a licitude da prova e, por conseguinte, restabelecer a sentença condenatória de primeiro grau. Foi fixada a seguinte tese: "1. A mera apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. Contudo, o acesso aos dados nele contidos deve observar as seguintes condicionantes: 1.1 Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular, o acesso aos respectivos dados para o fim exclusivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou quem seja o proprietário do aparelho, não depende de consentimento ou de prévia decisão judicial, desde que justificada posteriormente a adoção da medida. 1.2 No caso de aparelho celular apreendido na forma do art. 6º do CPP ou por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados será condicionado ao consentimento expresso e livre do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (cf. art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz de direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da CRFB/88). Nesses casos, a celeridade se impõe,de dados - art. 5º, XII, da CF: ausência de violação, no caso. 1. Impertinência à hipótese da invocação da AP 307 (Pleno, 13.12.94, Galvão, DJU 13.10.95), em que a tese da inviolabilidade absoluta de dados de computador não pode ser tomada como consagrada pelo Colegiado, dada a interferência, naquele caso, de outra razão suficiente para a exclusão da prova questionada - o ter sido o microcomputador apreendido sem ordem judicial e a consequente ofensa da garantia da 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ prequestionamento (Súmulas 282 e 356), não há violação dos art. 5º, LIV e LV, nem do art. 93, IX, da Constituição, que não exige o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas apresentadas pelas partes, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão; exige, apenas, que a decisão esteja motivada, e a sentença e o acórdão recorrido não descumpriram esse requisito (v.g., RE 140.370, 1ª T., 20.4.93, Pertence, DJ 21.5.93; AI 242.237 - AgR, 1ª T., 27.6.00, Pertence, DJ 22.9.00). II. Quebra de sigilo bancário: prejudicadas as alegações referentes ao decreto que a determinou, dado que a sentença e o acórdão não se referiram a qualquer prova resultante da quebra do sigilo bancário, tanto mais que, dado o deferimento parcial de mandado de segurança, houve a devolução da documentação respectiva. III. Decreto de busca e apreensão: validade. 1. Decreto específico, que somente permitiu que as autoridades encarregadas da diligência selecionassem objetos, dentre aqueles especificados na decisão e na sede das duas empresas nela indicadas, e que fossem ‘interessantes à investigação’ que, no caso, tinha pertinência com a prática do crime pelo qual foi efetivamente condenado o recorrente. 2. Ademais, não se demonstrou que as instâncias de mérito tenham invocado prova não contida no objeto da medida judicial, nem tenham valorado qualquer dado resultante da extensão dos efeitos da decisão determinante da busca e apreensão, para que a Receita Federal e a ‘Fiscalização do INSS’ também tivessem acesso aos documentos apreendidos, para fins de investigação e cooperação na persecução criminal, ‘observado o sigilo imposto ao feito’. IV. Proteção constitucional ao sigilo das comunicações de dados - art. 5º, XII, da CF: ausência de violação, no caso. 1. Impertinência à hipótese da invocação da AP 307 (Pleno, 13.12.94, Galvão, DJU 13.10.95), em que a tese da inviolabilidade absoluta de dados de computador não pode ser tomada como consagrada pelo Colegiado, dada a interferência, naquele caso, de outra razão suficiente para a exclusão da prova questionada - o ter sido o microcomputador apreendido sem ordem judicial e a consequente ofensa da garantia da 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 54 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ inviolabilidade do domicílio da empresa - este segundo fundamento bastante, sim, aceito por votação unânime, à luz do art. 5º, XI, da Lei Fundamental. 2. Na espécie, ao contrário, não se questiona que a apreensão dos computadores da empresa do recorrente se fez regularmente, na conformidade e em cumprimento de mandado judicial. 3. Não há violação do art. 5º, XII, da Constituição que, conforme se acentuou na sentença, não se aplica ao caso, pois não houve ‘quebra de sigilo das comunicações de dados (interceptação das comunicações), mas sim apreensão de base física na qual se encontravam os dados, mediante prévia e fundamentada decisão judicial’. 4. A proteção a que se refere o art. 5º, XII, da Constituição, é da comunicação de dados; e não dos dados em si mesmos, ainda quando armazenados em computador. (cf. voto no MS 21.729, Pleno, 5.10.95, red. Néri da Silveira - RTJ 179/225, 270). V. Prescrição pela pena concretizada: declaração, de ofício, da prescrição da pretensão punitiva do fato quanto ao delito de frustração de direito assegurado por lei trabalhista (C. Penal, arts. 203; 107, IV; 109, VI; 110, § 2º e 114, II; e Súmula 497 do Supremo Tribunal)” (RE nº 418.416, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, Tribunal Pleno, julgado em 10/5/06, DJ de 19/12/06). Vale consignar que, no presente caso, o acesso ao conteúdo do celular pelos agentes policiais não foi precedido de mandado de busca e apreensão ou de autorização judicial específica. Ao contrário. O aparelho foi encontrado fortuitamente pela vítima no local do crime e, ato contínuo, entregue aos agentes policiais, os quais, na sequência, devassaram seu conteúdo em busca de evidências que permitissem estabelecer uma linha investigatória para a elucidação do fato. Como resultado, o celular foi apreendido pela autoridade policial, por interessar à investigação, e as diligências encetadas lograram a identificação do autor do fato e sua prisão em flagrante (flagrante impróprio). Já o HC nº 91.867, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado pela Segunda Turma, guarda mais semelhança com o caso destes autos. Nele, discutiu- se a suposta ilicitude da prova produzida no inquérito policial em 7 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ inviolabilidade do domicílio da empresa - este segundo fundamento bastante, sim, aceito por votação unânime, à luz do art. 5º, XI, da Lei Fundamental. 2. Na espécie, ao contrário, não se questiona que a apreensão dos computadores da empresa do recorrente se fez regularmente, na conformidade e em cumprimento de mandado judicial. 3. Não há violação do art. 5º, XII, da Constituição que, conforme se acentuou na sentença, não se aplica ao caso, pois não houve ‘quebra de sigilo das comunicações de dados (interceptação das comunicações), mas sim apreensão de base física na qual se encontravam os dados, mediante prévia e fundamentada decisão judicial’. 4. A proteção a que se refere o art. 5º, XII, da Constituição, é da comunicação de dados; e não dos dados em si mesmos, ainda quando armazenados em computador. (cf. voto no MS 21.729, Pleno, 5.10.95, red. Néri da Silveira - RTJ 179/225, 270). V. Prescrição pela pena concretizada: declaração, de ofício, da prescrição da pretensão punitiva do fato quanto ao delito de frustração de direito assegurado por lei trabalhista (C. Penal, arts. 203; 107, IV; 109, VI; 110, § 2º e 114, II; e Súmula 497 do Supremo Tribunal)” (RE nº 418.416, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, Tribunal Pleno, julgado em 10/5/06, DJ de 19/12/06). Vale consignar que, no presente caso, o acesso ao conteúdo do celular pelos agentes policiais não foi precedido de mandado de busca e apreensão ou de autorização judicial específica. Ao contrário. O aparelho foi encontrado fortuitamente pela vítima no local do crime e, ato contínuo, entregue aos agentes policiais, os quais, na sequência, devassaram seu conteúdo em busca de evidências que permitissem estabelecer uma linha investigatória para a elucidação do fato. Como resultado, o celular foi apreendido pela autoridade policial, por interessar à investigação, e as diligências encetadaslograram a identificação do autor do fato e sua prisão em flagrante (flagrante impróprio). Já o HC nº 91.867, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado pela Segunda Turma, guarda mais semelhança com o caso destes autos. Nele, discutiu- se a suposta ilicitude da prova produzida no inquérito policial em 7 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 55 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ decorrência de os agentes policiais, após a prisão em flagrante do corréu, terem realizado a análise dos últimos registros telefônicos de dois aparelhos celulares apreendidos. Na ocasião, entendeu a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, por unanimidade dos votos, que não estaria configurada a alegada ilegalidade, tendo em vista que “não se confundem comunicação telefônica e registros telefônicos”. Reafirmou-se, então, a orientação de que “a proteção constitucional é da comunicação de dados e não dos dados” propriamente ditos, concluindo-se que “a autoridade policial, cumprindo seu mister, buscou, unicamente, colher elementos de informação hábeis a esclarecer a autoria e a materialidade do delito” e que, ainda que assim não se entendesse, “o curso normal das investigações conduziria a elementos informativos que vinculariam os pacientes ao fato investigado”. As razões contidas no voto condutor do acórdão foram sintetizadas na seguinte ementa: “HABEAS CORPUS. NULIDADES: (1) INÉPCIA DA DENÚNCIA; (2) ILICITUDE DA PROVA PRODUZIDA DURANTE O INQUÉRITO POLICIAL; VIOLAÇÃO DE REGISTROS TELEFÔNICOS DO CORRÉU, EXECUTOR DO CRIME, SEM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL; (3) ILICITUDE DA PROVA DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS DE CONVERSAS DOS ACUSADOS COM ADVOGADOS, PORQUANTO ESSAS GRAVAÇÕES OFENDERIAM O DISPOSTO NO ART. 7º, II, DA LEI 8.906/96, QUE GARANTE O SIGILO DESSAS CONVERSAS. VÍCIOS NÃO CARACTERIZADOS. ORDEM DENEGADA. 1. Inépcia da denúncia. Improcedência. Preenchimento dos requisitos do art. 41 do CPP. A denúncia narra, de forma pormenorizada, os fatos e as circunstâncias. Pretensas omissões – nomes completos de outras vítimas, relacionadas a fatos que não constituem objeto da imputação –- não importam em prejuízo à defesa. 2. Ilicitude da prova produzida durante o inquérito policial - violação de registros telefônicos de corréu, executor do crime, sem 8 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ decorrência de os agentes policiais, após a prisão em flagrante do corréu, terem realizado a análise dos últimos registros telefônicos de dois aparelhos celulares apreendidos. Na ocasião, entendeu a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, por unanimidade dos votos, que não estaria configurada a alegada ilegalidade, tendo em vista que “não se confundem comunicação telefônica e registros telefônicos”. Reafirmou-se, então, a orientação de que “a proteção constitucional é da comunicação de dados e não dos dados” propriamente ditos, concluindo-se que “a autoridade policial, cumprindo seu mister, buscou, unicamente, colher elementos de informação hábeis a esclarecer a autoria e a materialidade do delito” e que, ainda que assim não se entendesse, “o curso normal das investigações conduziria a elementos informativos que vinculariam os pacientes ao fato investigado”. As razões contidas no voto condutor do acórdão foram sintetizadas na seguinte ementa: “HABEAS CORPUS. NULIDADES: (1) INÉPCIA DA DENÚNCIA; (2) ILICITUDE DA PROVA PRODUZIDA DURANTE O INQUÉRITO POLICIAL; VIOLAÇÃO DE REGISTROS TELEFÔNICOS DO CORRÉU, EXECUTOR DO CRIME, SEM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL; (3) ILICITUDE DA PROVA DAS INTERCEPTAÇÕES TELEFÔNICAS DE CONVERSAS DOS ACUSADOS COM ADVOGADOS, PORQUANTO ESSAS GRAVAÇÕES OFENDERIAM O DISPOSTO NO ART. 7º, II, DA LEI 8.906/96, QUE GARANTE O SIGILO DESSAS CONVERSAS. VÍCIOS NÃO CARACTERIZADOS. ORDEM DENEGADA. 1. Inépcia da denúncia. Improcedência. Preenchimento dos requisitos do art. 41 do CPP. A denúncia narra, de forma pormenorizada, os fatos e as circunstâncias. Pretensas omissões – nomes completos de outras vítimas, relacionadas a fatos que não constituem objeto da imputação –- não importam em prejuízo à defesa. 2. Ilicitude da prova produzida durante o inquérito policial - violação de registros telefônicos de corréu, executor do crime, sem 8 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 56 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ autorização judicial. 2.1 Suposta ilegalidade decorrente do fato de os policiais, após a prisão em flagrante do corréu, terem realizado a análise dos últimos registros telefônicos dos dois aparelhos celulares apreendidos. Não ocorrência. 2.2 Não se confundem comunicação telefônica e registros telefônicos, que recebem, inclusive, proteção jurídica distinta. Não se pode interpretar a cláusula do artigo 5º, XII, da CF, no sentido de proteção aos dados enquanto registro, depósito registral. A proteção constitucional é da comunicação de dados e não dos dados. 2.3 Art. 6º do CPP: dever da autoridade policial de proceder à coleta do material comprobatório da prática da infração penal. Ao proceder à pesquisa na agenda eletrônica dos aparelhos devidamente apreendidos, meio material indireto de prova, a autoridade policial, cumprindo o seu mister, buscou, unicamente, colher elementos de informação hábeis a esclarecer a autoria e a materialidade do delito (dessa análise logrou encontrar ligações entre o executor do homicídio e o ora paciente). Verificação que permitiu a orientação inicial da linha investigatória a ser adotada, bem como possibilitou concluir que os aparelhos seriam relevantes para a investigação. 2.4 À guisa de mera argumentação, mesmo que se pudesse reputar a prova produzida como ilícita e as demais, ilícitas por derivação, nos termos da teoria dos frutos da árvore venenosa (fruit of the poisonous tree), é certo que, ainda assim, melhor sorte não assistiria à defesa. É que, na hipótese, não há que se falar em prova ilícita por derivação. Nos termos da teoria da descoberta inevitável, construída pela Suprema Corte norte- americana no caso Nix x Williams (1984), o curso normal das investigações conduziria a elementos informativos que vinculariam os pacientes ao fato investigado. Bases desse entendimento que parecem ter encontrado guarida no ordenamento jurídico pátrio com o advento da Lei 11.690/2008, que deu nova redação ao art. 157 do CPP, em especial o seu § 2º. 3. Ilicitude da prova das interceptações telefônicas de conversas dos acusados com advogados, ao argumento de que essas gravações ofenderiam o disposto no art. 7º, II, da Lei n. 8.906/96, 9 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ autorização judicial. 2.1 Suposta ilegalidade decorrente do fato de ospoliciais, após a prisão em flagrante do corréu, terem realizado a análise dos últimos registros telefônicos dos dois aparelhos celulares apreendidos. Não ocorrência. 2.2 Não se confundem comunicação telefônica e registros telefônicos, que recebem, inclusive, proteção jurídica distinta. Não se pode interpretar a cláusula do artigo 5º, XII, da CF, no sentido de proteção aos dados enquanto registro, depósito registral. A proteção constitucional é da comunicação de dados e não dos dados. 2.3 Art. 6º do CPP: dever da autoridade policial de proceder à coleta do material comprobatório da prática da infração penal. Ao proceder à pesquisa na agenda eletrônica dos aparelhos devidamente apreendidos, meio material indireto de prova, a autoridade policial, cumprindo o seu mister, buscou, unicamente, colher elementos de informação hábeis a esclarecer a autoria e a materialidade do delito (dessa análise logrou encontrar ligações entre o executor do homicídio e o ora paciente). Verificação que permitiu a orientação inicial da linha investigatória a ser adotada, bem como possibilitou concluir que os aparelhos seriam relevantes para a investigação. 2.4 À guisa de mera argumentação, mesmo que se pudesse reputar a prova produzida como ilícita e as demais, ilícitas por derivação, nos termos da teoria dos frutos da árvore venenosa (fruit of the poisonous tree), é certo que, ainda assim, melhor sorte não assistiria à defesa. É que, na hipótese, não há que se falar em prova ilícita por derivação. Nos termos da teoria da descoberta inevitável, construída pela Suprema Corte norte- americana no caso Nix x Williams (1984), o curso normal das investigações conduziria a elementos informativos que vinculariam os pacientes ao fato investigado. Bases desse entendimento que parecem ter encontrado guarida no ordenamento jurídico pátrio com o advento da Lei 11.690/2008, que deu nova redação ao art. 157 do CPP, em especial o seu § 2º. 3. Ilicitude da prova das interceptações telefônicas de conversas dos acusados com advogados, ao argumento de que essas gravações ofenderiam o disposto no art. 7º, II, da Lei n. 8.906/96, 9 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 57 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ que garante o sigilo dessas conversas. 3.1 Nos termos do art. 7º, II, da Lei 8.906/94, o Estatuto da Advocacia garante ao advogado a inviolabilidade de seu escritório ou local de trabalho, bem como de seus instrumentos de trabalho, de sua correspondência escrita, eletrônica, telefônica e telemática, desde que relativas ao exercício da advocacia. 3.2 Na hipótese, o magistrado de primeiro grau, por reputar necessária a realização da prova, determinou, de forma fundamentada, a interceptação telefônica direcionada às pessoas investigadas, não tendo, em momento algum, ordenado a devassa das linhas telefônicas dos advogados dos pacientes. Mitigação que pode, eventualmente, burlar a proteção jurídica. 3.3 Sucede que, no curso da execução da medida, os diálogos travados entre o paciente e o advogado do corréu acabaram, de maneira automática, interceptados, aliás, como qualquer outra conversa direcionada ao ramal do paciente. Inexistência, no caso, de relação jurídica cliente-advogado. 3.4 Não cabe aos policiais executores da medida proceder a uma espécie de filtragem das escutas interceptadas. A impossibilidade desse filtro atua, inclusive, como verdadeira garantia ao cidadão, porquanto retira da esfera de arbítrio da polícia escolher o que é ou não conveniente ser interceptado e gravado. Valoração, e eventual exclusão, que cabe ao magistrado a quem a prova é dirigida. 4. Ordem denegada” (HC nº 91.867, Rel. Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 24/4/12, DJe de 19/9/12). Ressalto que, apesar de o julgado ser de 2012, os fatos remontavam ao ano de 2004, época na qual os aparelhos celulares basicamente instrumentalizavam os serviços móveis de telefonia, não possuindo tantas funcionalidades quanto os celulares de 2013 (já smartphones, na grande maioria dos casos) e os aparelhos mais atuais. Ressalto, ainda, que o modo como é feita a análise dos dados extraídos de aparelhos celulares também mudou significativamente desde então, sobretudo em razão da incorporação de ferramentas de inteligência artificial, tornando possível a extração de uma grande 10 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ que garante o sigilo dessas conversas. 3.1 Nos termos do art. 7º, II, da Lei 8.906/94, o Estatuto da Advocacia garante ao advogado a inviolabilidade de seu escritório ou local de trabalho, bem como de seus instrumentos de trabalho, de sua correspondência escrita, eletrônica, telefônica e telemática, desde que relativas ao exercício da advocacia. 3.2 Na hipótese, o magistrado de primeiro grau, por reputar necessária a realização da prova, determinou, de forma fundamentada, a interceptação telefônica direcionada às pessoas investigadas, não tendo, em momento algum, ordenado a devassa das linhas telefônicas dos advogados dos pacientes. Mitigação que pode, eventualmente, burlar a proteção jurídica. 3.3 Sucede que, no curso da execução da medida, os diálogos travados entre o paciente e o advogado do corréu acabaram, de maneira automática, interceptados, aliás, como qualquer outra conversa direcionada ao ramal do paciente. Inexistência, no caso, de relação jurídica cliente-advogado. 3.4 Não cabe aos policiais executores da medida proceder a uma espécie de filtragem das escutas interceptadas. A impossibilidade desse filtro atua, inclusive, como verdadeira garantia ao cidadão, porquanto retira da esfera de arbítrio da polícia escolher o que é ou não conveniente ser interceptado e gravado. Valoração, e eventual exclusão, que cabe ao magistrado a quem a prova é dirigida. 4. Ordem denegada” (HC nº 91.867, Rel. Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 24/4/12, DJe de 19/9/12). Ressalto que, apesar de o julgado ser de 2012, os fatos remontavam ao ano de 2004, época na qual os aparelhos celulares basicamente instrumentalizavam os serviços móveis de telefonia, não possuindo tantas funcionalidades quanto os celulares de 2013 (já smartphones, na grande maioria dos casos) e os aparelhos mais atuais. Ressalto, ainda, que o modo como é feita a análise dos dados extraídos de aparelhos celulares também mudou significativamente desde então, sobretudo em razão da incorporação de ferramentas de inteligência artificial, tornando possível a extração de uma grande 10 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 58 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ quantidade de dados e sua confrontação eficiente, mesmo que possuam naturezas distintas. Diante disso, até mesmo os dados que antes pareciam não ter nenhuma utilidade ganham potencialidade e permitem conclusões plausíveis e sobre quase tudo, extrapolando (ou podendo extrapolarfacilmente) o objeto da própria investigação. Apesar de ser possível identificar pontos de divergência e particularidades que distinguem os dois precedentes acima entre si e que também os afastam, de certo modo, do caso ora analisado, é importante realçar que ambos os precedentes partem de uma premissa comum, qual seja, a de que a inviolabilidade do sigilo das comunicações, prevista no art. 5º, inciso XII, do texto constitucional, diz respeito à “comunicação de dados”, e não aos “dados” per se. Essa premissa foi aventada pela primeira vez por ocasião do julgamento do MS nº 21.729, sendo apresentada pela Procuradoria-Geral da República e parcialmente adotada pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal. Tratava-se de mandado de segurança impetrado pelo Banco do Brasil contra ato do Procurador-Geral da República, o qual, por ofício, demandou daquela instituição financeira a lista dos beneficiários de recursos públicos destinados ao setor sucroalcooleiro, bem como solicitou dados específicos quanto à existência de débitos e a sua natureza. Naquela oportunidade, o Vice-Procurador-Geral da República, valendo-se de artigo publicado pelo Professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior em 1993 sob o título de “Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado”, sustentou a tese de que a inviolabilidade do sigilo das comunicações se refere à “comunicação de dados” (isto é, aos ”dados em trânsito”), e não aos “dados estáticos” ou armazenados. O mandado de segurança foi indeferido pelo Supremo Tribunal Federal, por maioria de 6 votos a 5. A partir disso, a tese ali sustentada passou a iluminar o exame de casos correlatos. Contudo, como anotam Rafael Mafei Rabelo Queiroz e Paula Pedigoni Ponce em artigo publicado quase trinta anos depois, só dois dos votos vencedores no referido julgado fizeram expressa menção ao artigo de Ferraz Júnior, enquanto os outros quatro votos vencedores 11 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ quantidade de dados e sua confrontação eficiente, mesmo que possuam naturezas distintas. Diante disso, até mesmo os dados que antes pareciam não ter nenhuma utilidade ganham potencialidade e permitem conclusões plausíveis e sobre quase tudo, extrapolando (ou podendo extrapolar facilmente) o objeto da própria investigação. Apesar de ser possível identificar pontos de divergência e particularidades que distinguem os dois precedentes acima entre si e que também os afastam, de certo modo, do caso ora analisado, é importante realçar que ambos os precedentes partem de uma premissa comum, qual seja, a de que a inviolabilidade do sigilo das comunicações, prevista no art. 5º, inciso XII, do texto constitucional, diz respeito à “comunicação de dados”, e não aos “dados” per se. Essa premissa foi aventada pela primeira vez por ocasião do julgamento do MS nº 21.729, sendo apresentada pela Procuradoria-Geral da República e parcialmente adotada pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal. Tratava-se de mandado de segurança impetrado pelo Banco do Brasil contra ato do Procurador-Geral da República, o qual, por ofício, demandou daquela instituição financeira a lista dos beneficiários de recursos públicos destinados ao setor sucroalcooleiro, bem como solicitou dados específicos quanto à existência de débitos e a sua natureza. Naquela oportunidade, o Vice-Procurador-Geral da República, valendo-se de artigo publicado pelo Professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior em 1993 sob o título de “Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado”, sustentou a tese de que a inviolabilidade do sigilo das comunicações se refere à “comunicação de dados” (isto é, aos ”dados em trânsito”), e não aos “dados estáticos” ou armazenados. O mandado de segurança foi indeferido pelo Supremo Tribunal Federal, por maioria de 6 votos a 5. A partir disso, a tese ali sustentada passou a iluminar o exame de casos correlatos. Contudo, como anotam Rafael Mafei Rabelo Queiroz e Paula Pedigoni Ponce em artigo publicado quase trinta anos depois, só dois dos votos vencedores no referido julgado fizeram expressa menção ao artigo de Ferraz Júnior, enquanto os outros quatro votos vencedores 11 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 59 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ sustentaram a necessidade de se aplicar o princípio da publicidade às operações envolvendo recursos públicos. Vide o que dizem os autores: “MS nº 21.729/DF: tratava-se de mandado de segurança impetrado pelo Banco do Brasil contra ato do Procurador-Geral da República, que demandava, por ofício, lista de nomes dos beneficiários de liberação de recursos públicos ao setor sucroalcooleiro, além de dados específicos sobre existência de débitos e naturezas das operações que os originaram. A argumentação do impetrante não chegava a mencionar o artigo 5º, inciso XII, da Constituição, mas limitava-se a insistir na necessidade de ordem judicial para o acesso a tais informações, que equivaleria a quebra de sigilo. A autoridade coatora prestou informações, confirmando os fatos e alegando que havia questionamentos quanto à autoridade do Ministério Público para requerer os dados em questão. Alegaram suspeitar de violação tanto da Lei Complementar (LC) nº 75/1993, quanto do art. 129, inciso VI, da Constituição Federal. Em extenso parecer, o Vice Procurador Geral da República introduziu a discussão sobre o inciso XII, juntamente com trecho do artigo de Ferraz Júnior (Vice Procuradoria Geral da República, 1994). Foi a primeira aparição de 'Sigilo de dados' nos autos do caso. O parecer da PGR argumentava que o sigilo bancário não teria guarida constitucional, nem a partir de interpretação do artigo 5º, inciso X, nem a partir do inciso XII. Nesse sentido, sem natureza constitucional, as exceções estabelecidas ao sigilo bancário seriam válidas enquanto motivadas pela salvaguarda de interesses constitucionalmente protegidos – como seria o caso do art. 8º da LC 75, em sintonia com o art. 129, inciso VI da Constituição Federal. Segundo o parecer, o inciso XII do art. 5º não protegia o sigilo bancário, porque blindaria, através do sigilo, apenas as comunicações de dados – e não os dados em si, uma vez recebidos e armazenados. Por maioria de 6 a 5, o STF indeferiu o mandado de segurança. A tese encampada pela PGR, da inviolabilidade do 12 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ sustentaram a necessidade de se aplicar o princípio da publicidade às operações envolvendo recursos públicos. Vide o que dizem os autores: “MS nº 21.729/DF: tratava-se de mandado de segurança impetrado pelo Banco do Brasil contra ato do Procurador-Geral da República, que demandava, por ofício, lista de nomes dos beneficiários de liberação de recursos públicos ao setor sucroalcooleiro, além de dados específicos sobre existência de débitos e naturezas das operações que os originaram. A argumentação do impetrante não chegava a mencionar o artigo 5º, inciso XII, daConstituição, mas limitava-se a insistir na necessidade de ordem judicial para o acesso a tais informações, que equivaleria a quebra de sigilo. A autoridade coatora prestou informações, confirmando os fatos e alegando que havia questionamentos quanto à autoridade do Ministério Público para requerer os dados em questão. Alegaram suspeitar de violação tanto da Lei Complementar (LC) nº 75/1993, quanto do art. 129, inciso VI, da Constituição Federal. Em extenso parecer, o Vice Procurador Geral da República introduziu a discussão sobre o inciso XII, juntamente com trecho do artigo de Ferraz Júnior (Vice Procuradoria Geral da República, 1994). Foi a primeira aparição de 'Sigilo de dados' nos autos do caso. O parecer da PGR argumentava que o sigilo bancário não teria guarida constitucional, nem a partir de interpretação do artigo 5º, inciso X, nem a partir do inciso XII. Nesse sentido, sem natureza constitucional, as exceções estabelecidas ao sigilo bancário seriam válidas enquanto motivadas pela salvaguarda de interesses constitucionalmente protegidos – como seria o caso do art. 8º da LC 75, em sintonia com o art. 129, inciso VI da Constituição Federal. Segundo o parecer, o inciso XII do art. 5º não protegia o sigilo bancário, porque blindaria, através do sigilo, apenas as comunicações de dados – e não os dados em si, uma vez recebidos e armazenados. Por maioria de 6 a 5, o STF indeferiu o mandado de segurança. A tese encampada pela PGR, da inviolabilidade do 12 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 60 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ sigilo de comunicações, mas não dos dados armazenados, elaborada com apoio no texto de Ferraz Júnior, sagrou-se vencedora. Em dois votos vencedores, dos Ministros Sepúlveda Pertence e Francisco Rezek, o texto foi expressamente citado. A ratio comum da maioria do Tribunal, entretanto, extraída dos votos dos Ministros Octavio Gallotti, Sidney Sanches, Néri da Silveira, Moreira Alves e Sepúlveda Pertence, fundamentou-se na aplicação do princípio da publicidade às operações envolvendo recursos públicos. Tratava-se, afinal, de um caso envolvendo financiamentos rurais concedidos pelo Banco do Brasil. Os votos vencidos, quais sejam, os Ministros Marco Aurélio, Maurício Corrêa, Celso de Mello, Ilmar Galvão e Carlos Velosos, de forma geral, argumentaram que o sigilo bancário teria status constitucional em decorrência dos incisos X e XII do artigo 5º e que, portanto, sua quebra necessitaria de ordem judicial. Os votos dos Ministros Sepúlveda Pertence e Francisco Rezek foram os únicos a se contrapor a tal afirmação, recuperando o texto de Ferraz Júnior e indicando que entendiam que o sigilo de dados ali mencionado se referia tão somente ao sigilo da comunicação de dados e que, consequentemente, não seria aplicável ao sigilo bancário. É curioso notar que os votos vencidos, embora não tenham invocado o texto de Ferraz Júnior, poderiam ter igualmente se valido dele para amparar seu argumento: afinal, ‘Sigilo de dados’ é explícito em afirmar que dados armazenados, embora não acobertados pelo sigilo do inc. XII do art. 5º, podem ser protegidos pela regra geral da privacidade, quando fosse o caso. Mas não o fizeram” (QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo; PONCE, Paula Pedigoni. Tércio Sampaio Ferraz Júnior e sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado: o que permanece e o que deve ser reconsiderado. Revista Internet & Sociedade, n. 1, v. 1, fev. 2020, p. 64-90). Seja como for, fato é que, gradualmente, a jurisprudência do 13 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ sigilo de comunicações, mas não dos dados armazenados, elaborada com apoio no texto de Ferraz Júnior, sagrou-se vencedora. Em dois votos vencedores, dos Ministros Sepúlveda Pertence e Francisco Rezek, o texto foi expressamente citado. A ratio comum da maioria do Tribunal, entretanto, extraída dos votos dos Ministros Octavio Gallotti, Sidney Sanches, Néri da Silveira, Moreira Alves e Sepúlveda Pertence, fundamentou-se na aplicação do princípio da publicidade às operações envolvendo recursos públicos. Tratava-se, afinal, de um caso envolvendo financiamentos rurais concedidos pelo Banco do Brasil. Os votos vencidos, quais sejam, os Ministros Marco Aurélio, Maurício Corrêa, Celso de Mello, Ilmar Galvão e Carlos Velosos, de forma geral, argumentaram que o sigilo bancário teria status constitucional em decorrência dos incisos X e XII do artigo 5º e que, portanto, sua quebra necessitaria de ordem judicial. Os votos dos Ministros Sepúlveda Pertence e Francisco Rezek foram os únicos a se contrapor a tal afirmação, recuperando o texto de Ferraz Júnior e indicando que entendiam que o sigilo de dados ali mencionado se referia tão somente ao sigilo da comunicação de dados e que, consequentemente, não seria aplicável ao sigilo bancário. É curioso notar que os votos vencidos, embora não tenham invocado o texto de Ferraz Júnior, poderiam ter igualmente se valido dele para amparar seu argumento: afinal, ‘Sigilo de dados’ é explícito em afirmar que dados armazenados, embora não acobertados pelo sigilo do inc. XII do art. 5º, podem ser protegidos pela regra geral da privacidade, quando fosse o caso. Mas não o fizeram” (QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo; PONCE, Paula Pedigoni. Tércio Sampaio Ferraz Júnior e sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado: o que permanece e o que deve ser reconsiderado. Revista Internet & Sociedade, n. 1, v. 1, fev. 2020, p. 64-90). Seja como for, fato é que, gradualmente, a jurisprudência do 13 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 61 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ Supremo Tribunal Federal acabou encampando – ao menos em parte – o texto seminal do Professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior, para quem, “[o] sigilo, no inciso XII do art. 5º, está referido à comunicação, no interesse da defesa da privacidade”. Conforme explica referido autor, “[i]sto é feito, no texto, em dois blocos: a Constituição fala em sigilo ‘da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicação telefônicas’. Note-se, para a caracterização dos blocos, que a conjunção e une correspondência com telegrafia, segue-se uma vírgula e depois, a conjunção de dados com comunicações telefônicas. Há uma simetria nos dois blocos. Obviamente o que se regula é comunicação por correspondência e telegrafia, comunicação de dados e telefonia. O que fere a liberdade de omitir pensamento é, pois, entrar na comunicação alheia, fazendo com que o que devia ficar entre sujeitos que se comunicam privadamente passe ilegitimamente ao domínio de um terceiro. Se alguém elabora para si um cadastro sobre certas pessoas, com informações marcadas por avaliaçõesnegativas, e o torna público, poderá estar cometendo difamação, mas não quebra sigilo de dados. Se estes dados, armazenados eletronicamente, são transmitidos, privadamente, a um parceiro, em relações mercadológicas, para a defesa do mercado, também não estará havendo quebra de sigilo. Mas se alguém entra nesta transmissão, como um terceiro que nada tem a ver com a relação comunicativa, ou por ato próprio ou porque uma das partes lhe cede o acesso indevidamente, estará violado o sigilo de dados. A distinção é decisiva: o objeto protegido no direito à inviolabilidade do sigilo não são os dados em si, mas a sua comunicação restringida (liberdade de negação). A troca de informações (comunicação) privativa é questão que não pode ser violada por sujeito estranho à comunicação. Doutro modo, se alguém, não por razões profissionais, ficasse sabendo legitimamente de dados incriminadores relativos a uma pessoa, ficaria impedido de cumprir o seu dever de denunciá-los!” 14 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Supremo Tribunal Federal acabou encampando – ao menos em parte – o texto seminal do Professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior, para quem, “[o] sigilo, no inciso XII do art. 5º, está referido à comunicação, no interesse da defesa da privacidade”. Conforme explica referido autor, “[i]sto é feito, no texto, em dois blocos: a Constituição fala em sigilo ‘da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicação telefônicas’. Note-se, para a caracterização dos blocos, que a conjunção e une correspondência com telegrafia, segue-se uma vírgula e depois, a conjunção de dados com comunicações telefônicas. Há uma simetria nos dois blocos. Obviamente o que se regula é comunicação por correspondência e telegrafia, comunicação de dados e telefonia. O que fere a liberdade de omitir pensamento é, pois, entrar na comunicação alheia, fazendo com que o que devia ficar entre sujeitos que se comunicam privadamente passe ilegitimamente ao domínio de um terceiro. Se alguém elabora para si um cadastro sobre certas pessoas, com informações marcadas por avaliações negativas, e o torna público, poderá estar cometendo difamação, mas não quebra sigilo de dados. Se estes dados, armazenados eletronicamente, são transmitidos, privadamente, a um parceiro, em relações mercadológicas, para a defesa do mercado, também não estará havendo quebra de sigilo. Mas se alguém entra nesta transmissão, como um terceiro que nada tem a ver com a relação comunicativa, ou por ato próprio ou porque uma das partes lhe cede o acesso indevidamente, estará violado o sigilo de dados. A distinção é decisiva: o objeto protegido no direito à inviolabilidade do sigilo não são os dados em si, mas a sua comunicação restringida (liberdade de negação). A troca de informações (comunicação) privativa é questão que não pode ser violada por sujeito estranho à comunicação. Doutro modo, se alguém, não por razões profissionais, ficasse sabendo legitimamente de dados incriminadores relativos a uma pessoa, ficaria impedido de cumprir o seu dever de denunciá-los!” 14 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 62 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ (JÚNIOR, Tércio Sampaio Ferraz. Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, v. 88, p. 439-459, 1993). Prossegue Ferraz Júnior detalhando o âmbito de proteção da inviolabilidade do sigilo das comunicações telefônicas no texto constitucional: “[T]oma seu correto sentido o disposto no inciso XII do art. 5º da CF, quando ali se admite, apenas para a comunicação telefônica e, assim mesmo, só para fins de investigação criminal ou instrução processual penal, por ordem judicial, a quebra do sigilo. Conquanto haja quem caminhe para uma interpretação literal deste texto, não nos parece razoável aceitá-la na sua inteira singeleza. Note-se, antes de mais nada, que dos quatro meios de comunicação ali mencionados – correspondência, telegrafia, dados, telefonia – só o último se caracteriza por sua instantaneidade. Isto é, a comunicação telefônica só é enquanto ocorre. Encerrada, não deixa vestígios no que se refere ao relato das mensagens e aos sujeitos comunicadores. É apenas possível, a posteriori, verificar qual unidade telefônica ligou para outra. A gravação de conversas telefônicas por meio chamado ‘grampeamento’ é, pois, uma forma sub[-]reptícia de violação do direito ao sigilo da comunicação, mas, ao mesmo tempo, é a única forma tecnicamente conhecida de preservar a ação comunicativa. Por isso, no interesse público (investigação criminal ou instrução processual penal), é o único meio de comunicação que exigiu, do constituinte, uma ressalva expressa. Os outros três não sofreram semelhante ressalva porque, no interesse público, é possível realizar investigações e obter provas com base em vestígios que a comunicação deixa: a carta guardada, o testemunho de quem leu o nome do endereçado e do remetente, ou de quem viu a destruição do documento, o que vale também para o telegrama, para o telex, para o telefax, para a recepção da mensagem de um 15 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ (JÚNIOR, Tércio Sampaio Ferraz. Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, v. 88, p. 439-459, 1993). Prossegue Ferraz Júnior detalhando o âmbito de proteção da inviolabilidade do sigilo das comunicações telefônicas no texto constitucional: “[T]oma seu correto sentido o disposto no inciso XII do art. 5º da CF, quando ali se admite, apenas para a comunicação telefônica e, assim mesmo, só para fins de investigação criminal ou instrução processual penal, por ordem judicial, a quebra do sigilo. Conquanto haja quem caminhe para uma interpretação literal deste texto, não nos parece razoável aceitá-la na sua inteira singeleza. Note-se, antes de mais nada, que dos quatro meios de comunicação ali mencionados – correspondência, telegrafia, dados, telefonia – só o último se caracteriza por sua instantaneidade. Isto é, a comunicação telefônica só é enquanto ocorre. Encerrada, não deixa vestígios no que se refere ao relato das mensagens e aos sujeitos comunicadores. É apenas possível, a posteriori, verificar qual unidade telefônica ligou para outra. A gravação de conversas telefônicas por meio chamado ‘grampeamento’ é, pois, uma forma sub[-]reptícia de violação do direito ao sigilo da comunicação, mas, ao mesmo tempo, é a única forma tecnicamente conhecida de preservar a ação comunicativa. Por isso, no interesse público (investigação criminal ou instrução processual penal), é o único meio de comunicação que exigiu, do constituinte, uma ressalva expressa. Os outros três não sofreram semelhante ressalva porque, no interesse público, é possível realizar investigações eobter provas com base em vestígios que a comunicação deixa: a carta guardada, o testemunho de quem leu o nome do endereçado e do remetente, ou de quem viu a destruição do documento, o que vale também para o telegrama, para o telex, para o telefax, para a recepção da mensagem de um 15 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 63 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ computador para outro, etc. Como isto é tecnicamente possível, o constituinte não permitiu absolutamente a entrada de terceiros, ainda que em nome do interesse público. Esta proibição, porém, não significa que, no interesse público, não se possa ter acesso a posteriori à identificação dos sujeitos e ao relato das mensagens comunicadas. Por exemplo, o que se veda é uma autorização judicial para interceptar correspondência, mas não para requerer busca e apreensão de documentos” (JÚNIOR, Tércio Sampaio Ferraz. Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, v. 88, p. 439-459, 1993). Isso não significa que, para o Professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior, o texto constitucional asseguraria proteção jurídica apenas e tão somente para a “comunicação de dados”, isto é, para o “fluxo comunicacional”, ou para os “dados em trânsito”. Os “dados estáticos”, ou seja, os “dados armazenados”, segundo ele, também são passíveis de proteção jurídica e, embora não se revistam sempre e incondicionalmente de caráter sigiloso, podem alcançar essa qualidade a depender das circunstâncias, encontrando guarida, por exemplo, no disposto no art. 5º, inciso X, do texto constitucional. Nessa esteira, explica o autor que, “[n]o que tange à intimidade, é a informação daqueles dados que a pessoa guarda para si e que dão consistência à sua pessoalidade — dados de foro íntimo, expressões de auto- estima, avaliações personalíssimas com respeito a outros, pudores, enfim, dados que, quando constantes de processos comunicativos, exigem do receptor extrema lealdade e alta confiança, e que, se devassados, desnudariam a personalidade, quebrariam a consistência psíquica, destruindo a integridade moral do sujeito. Em termos do princípio da exclusividade, diríamos que esta é, nesses casos, de grau máximo. Em 16 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ computador para outro, etc. Como isto é tecnicamente possível, o constituinte não permitiu absolutamente a entrada de terceiros, ainda que em nome do interesse público. Esta proibição, porém, não significa que, no interesse público, não se possa ter acesso a posteriori à identificação dos sujeitos e ao relato das mensagens comunicadas. Por exemplo, o que se veda é uma autorização judicial para interceptar correspondência, mas não para requerer busca e apreensão de documentos” (JÚNIOR, Tércio Sampaio Ferraz. Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, v. 88, p. 439-459, 1993). Isso não significa que, para o Professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior, o texto constitucional asseguraria proteção jurídica apenas e tão somente para a “comunicação de dados”, isto é, para o “fluxo comunicacional”, ou para os “dados em trânsito”. Os “dados estáticos”, ou seja, os “dados armazenados”, segundo ele, também são passíveis de proteção jurídica e, embora não se revistam sempre e incondicionalmente de caráter sigiloso, podem alcançar essa qualidade a depender das circunstâncias, encontrando guarida, por exemplo, no disposto no art. 5º, inciso X, do texto constitucional. Nessa esteira, explica o autor que, “[n]o que tange à intimidade, é a informação daqueles dados que a pessoa guarda para si e que dão consistência à sua pessoalidade — dados de foro íntimo, expressões de auto- estima, avaliações personalíssimas com respeito a outros, pudores, enfim, dados que, quando constantes de processos comunicativos, exigem do receptor extrema lealdade e alta confiança, e que, se devassados, desnudariam a personalidade, quebrariam a consistência psíquica, destruindo a integridade moral do sujeito. Em termos do princípio da exclusividade, diríamos que esta é, nesses casos, de grau máximo. Em 16 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 64 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ consequência, o emissor pode comunicar tais dados, se o desejar, mas a ninguém é dado exigir dele a informação transmitida, salvo em casos especialíssimos em que a intimidade de alguém venha a interferir na intimidade de outrem: o direito de não ser obrigado a revelar situações íntimas é limitado pelo direito de o receptor recusar informações íntimas que lhe firam a própria intimidade. Por isso, em processos que versem situações íntimas, a lei garante o sigilo. A inexigibilidade desses dados, salvo quando alguém se vê por eles ferido na sua própria intimidade, faz deles um limite ao direito de acesso à informação (art. 5º, XIV, da CF.). No que diz respeito à vida privada, é a informação de dados referentes às opções da convivência, como a escolha de amigos, a frequência de lugares, os relacionamentos civis e comerciais, ou seja, de dados que, embora digam respeito aos outros, não afetam, em princípio, direitos de terceiros (exclusividade da convivência). Pelo sentido inexoravelmente comunicacional da convivência, a vida privada compõe, porém, um conjunto de situações que, usualmente, são informadas sem constrangimento. São dados que, embora privativos — como o nome, endereço, profissão, idade, estado civil, filiação, número de registro público oficial, etc. —, condicionam o próprio intercâmbio humano em sociedade, pois constituem elementos de identificação que tornam a comunicação possível, corrente e segura. Por isso, a proteção desses dados em si, pelo sigilo, não faz sentido. Assim, a inviolabilidade de dados referentes à vida privada só tem pertinência para aqueles associados aos elementos identificadores usados nas relações de convivência, as quais só dizem respeito aos que convivem. Dito de outro modo, os elementos de identificação só são protegidos quando compõem relações de convivência privativas: a proteção é para elas, não para eles. Em consequência, simples cadastros de elementos identificadores (nome, endereço, R.G., filiação, etc.) não são protegidos. Mas cadastros que envolvam relações de convivência privadas (por exemplo, nas relações de clientela, desde quando é cliente, se a relação foi interrompida, as razões 17 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ consequência, o emissor pode comunicar tais dados, se odesejar, mas a ninguém é dado exigir dele a informação transmitida, salvo em casos especialíssimos em que a intimidade de alguém venha a interferir na intimidade de outrem: o direito de não ser obrigado a revelar situações íntimas é limitado pelo direito de o receptor recusar informações íntimas que lhe firam a própria intimidade. Por isso, em processos que versem situações íntimas, a lei garante o sigilo. A inexigibilidade desses dados, salvo quando alguém se vê por eles ferido na sua própria intimidade, faz deles um limite ao direito de acesso à informação (art. 5º, XIV, da CF.). No que diz respeito à vida privada, é a informação de dados referentes às opções da convivência, como a escolha de amigos, a frequência de lugares, os relacionamentos civis e comerciais, ou seja, de dados que, embora digam respeito aos outros, não afetam, em princípio, direitos de terceiros (exclusividade da convivência). Pelo sentido inexoravelmente comunicacional da convivência, a vida privada compõe, porém, um conjunto de situações que, usualmente, são informadas sem constrangimento. São dados que, embora privativos — como o nome, endereço, profissão, idade, estado civil, filiação, número de registro público oficial, etc. —, condicionam o próprio intercâmbio humano em sociedade, pois constituem elementos de identificação que tornam a comunicação possível, corrente e segura. Por isso, a proteção desses dados em si, pelo sigilo, não faz sentido. Assim, a inviolabilidade de dados referentes à vida privada só tem pertinência para aqueles associados aos elementos identificadores usados nas relações de convivência, as quais só dizem respeito aos que convivem. Dito de outro modo, os elementos de identificação só são protegidos quando compõem relações de convivência privativas: a proteção é para elas, não para eles. Em consequência, simples cadastros de elementos identificadores (nome, endereço, R.G., filiação, etc.) não são protegidos. Mas cadastros que envolvam relações de convivência privadas (por exemplo, nas relações de clientela, desde quando é cliente, se a relação foi interrompida, as razões 17 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 65 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ pelas quais isto ocorreu, quais os interesses peculiares do cliente, sua capacidade de satisfazer aqueles interesses, etc.) estão sob proteção. Afinal, o risco à integridade moral do sujeito, objeto do direito à privacidade, não está no nome, mas na exploração do nome, não está nos elementos de identificação que condicionam as relações privadas, mas na apropriação dessas relações por terceiros a quem elas não dizem respeito. Pensar de outro modo seria tornar impossível, no limite, o acesso ao registro de comércio, ao registro de empregados, ao registro de navio etc., em nome de uma absurda proteção da privacidade. Por último, a honra e a imagem. A privacidade, nesse caso, protege a informação de dados que envolvam avaliações (negativas) do comportamento que, publicadas, podem ferir o bom nome do sujeito, isto é, o modo como ele supõe e deseja ser visto pelos outros. Repita-se que o direito à privacidade protege a honra, o direito à inviolabilidade do sigilo de dados protege a comunicação referente a avaliações que um sujeito faz sobre outro e que, por interferir em sua honra, comunica restritivamente, por razões de interesse pessoal. É o caso, por exemplo, de cadastros pessoais que contêm avaliações negativas sobre a conduta (mau pagador, devedor impontual e relapso etc). No tocante à imagem, para além do que ela significa de boa imagem, assimilando-se, nesse sentido, à honra, a proteção refere-se a dados que alguém fornece a alguém e não deseja ver explorada (comercialmente, por exemplo) por terceiros” (JÚNIOR, Tércio Sampaio Ferraz. Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, v. 88, p. 439-459, 1993). Também é verdade que o artigo de Tércio Sampaio Ferraz Júnior se referia a um contexto muito diferente do delineado nos autos. Investigavam-se os limites da atuação fiscalizatória dos agentes estatais, tendo em vista a recorrente solicitação de dados pela Receita Federal a instituições financeiras públicas e privadas e a administradoras de cartão 18 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ pelas quais isto ocorreu, quais os interesses peculiares do cliente, sua capacidade de satisfazer aqueles interesses, etc.) estão sob proteção. Afinal, o risco à integridade moral do sujeito, objeto do direito à privacidade, não está no nome, mas na exploração do nome, não está nos elementos de identificação que condicionam as relações privadas, mas na apropriação dessas relações por terceiros a quem elas não dizem respeito. Pensar de outro modo seria tornar impossível, no limite, o acesso ao registro de comércio, ao registro de empregados, ao registro de navio etc., em nome de uma absurda proteção da privacidade. Por último, a honra e a imagem. A privacidade, nesse caso, protege a informação de dados que envolvam avaliações (negativas) do comportamento que, publicadas, podem ferir o bom nome do sujeito, isto é, o modo como ele supõe e deseja ser visto pelos outros. Repita-se que o direito à privacidade protege a honra, o direito à inviolabilidade do sigilo de dados protege a comunicação referente a avaliações que um sujeito faz sobre outro e que, por interferir em sua honra, comunica restritivamente, por razões de interesse pessoal. É o caso, por exemplo, de cadastros pessoais que contêm avaliações negativas sobre a conduta (mau pagador, devedor impontual e relapso etc). No tocante à imagem, para além do que ela significa de boa imagem, assimilando-se, nesse sentido, à honra, a proteção refere-se a dados que alguém fornece a alguém e não deseja ver explorada (comercialmente, por exemplo) por terceiros” (JÚNIOR, Tércio Sampaio Ferraz. Sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, v. 88, p. 439-459, 1993). Também é verdade que o artigo de Tércio Sampaio Ferraz Júnior se referia a um contexto muito diferente do delineado nos autos. Investigavam-se os limites da atuação fiscalizatória dos agentes estatais, tendo em vista a recorrente solicitação de dados pela Receita Federal a instituições financeiras públicas e privadas e a administradoras de cartão 18 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 66 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ de crédito, mantenedoras de bancos de dados, para fins de verificação da regularidade tributária. Além do mais, o panorama geral era outro. Nas duas últimas décadas, a popularização dos smartphones e a ampliação do acesso à internet por meio de tais aparelhos eletrônicos, além do surgimento de novas tecnologias digitais e de novas aplicaçõespara as tecnologias já existentes, a partir do desenvolvimento e da aplicação de ferramentas de inteligência artificial, levaram à intensificação da transformação digital. 2.3 Da superveniência da EC nº 115/22: o direito fundamental à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais Em 2022, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional nº 115/22, a qual introduziu no art. 5º da Constituição o inciso LXXIX, segundo o qual “é assegurado, nos termos a lei, o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais”. Na doutrina, já havia vozes nesse sentido mesmo antes da referida emenda constitucional. Rafael Mafei Rabelo Queiroz e Paula Pedigoni Ponce, por exemplo, há algum tempo defendem que “[j]á não faz sentido distinguir entre dados em trânsito e dados estáticos como critério para maior ou menor proteção à privacidade”. Para os autores, “o barateamento do armazenamento de dados e a migração das comunicações humanas para serviços providos pela Internet, com opções de armazenamento de segurança em servidores (‘backups na nuvem’), torna o indivíduo, por seu considerável volume e abrangência temporal, mais sensível em sua intimidade do que conversas telefônicas interceptadas. A hierarquia protetiva que coloca dados em trânsito acima de dados armazenados simplesmente é anacrônica diante das mudanças na tecnologia e nas práticas comunicativas deste 1993 até os dias atuais (Sidi, 2016; Quito, 2018)” (QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo; PONCE, Paula Pedigoni. Tércio Sampaio Ferraz Júnior e sigilo de dados: o direito à privacidade e os 19 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ de crédito, mantenedoras de bancos de dados, para fins de verificação da regularidade tributária. Além do mais, o panorama geral era outro. Nas duas últimas décadas, a popularização dos smartphones e a ampliação do acesso à internet por meio de tais aparelhos eletrônicos, além do surgimento de novas tecnologias digitais e de novas aplicações para as tecnologias já existentes, a partir do desenvolvimento e da aplicação de ferramentas de inteligência artificial, levaram à intensificação da transformação digital. 2.3 Da superveniência da EC nº 115/22: o direito fundamental à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais Em 2022, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional nº 115/22, a qual introduziu no art. 5º da Constituição o inciso LXXIX, segundo o qual “é assegurado, nos termos a lei, o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais”. Na doutrina, já havia vozes nesse sentido mesmo antes da referida emenda constitucional. Rafael Mafei Rabelo Queiroz e Paula Pedigoni Ponce, por exemplo, há algum tempo defendem que “[j]á não faz sentido distinguir entre dados em trânsito e dados estáticos como critério para maior ou menor proteção à privacidade”. Para os autores, “o barateamento do armazenamento de dados e a migração das comunicações humanas para serviços providos pela Internet, com opções de armazenamento de segurança em servidores (‘backups na nuvem’), torna o indivíduo, por seu considerável volume e abrangência temporal, mais sensível em sua intimidade do que conversas telefônicas interceptadas. A hierarquia protetiva que coloca dados em trânsito acima de dados armazenados simplesmente é anacrônica diante das mudanças na tecnologia e nas práticas comunicativas deste 1993 até os dias atuais (Sidi, 2016; Quito, 2018)” (QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo; PONCE, Paula Pedigoni. Tércio Sampaio Ferraz Júnior e sigilo de dados: o direito à privacidade e os 19 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 67 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ limites à função fiscalizadora do Estado: o que permanece e o que deve ser reconsiderado. Revista Internet & Sociedade, n. 1, v. 1, fevereiro de 2020, p. 64-90 – grifo nosso). Nesse sentido, concluem Rafael Mafei e Paula Pedigoni que, “[s]e não é possível ignorar a distinção entre os incisos X e XII do art. 5º da Constituição, tampouco há razão para impor uma proteção menos efetiva à nossa intimidade apenas porque estejam em dados armazenados, e não em trânsito. Essa particular leitura de ‘Sigilo de dados’, que não é a única possível de ser feita do texto e nem é necessariamente a melhor, deve ser descartada em favor de outra que equalize a proteção de dados armazenados e dados em trânsito pelo critério que substantivamente importa: o grau de exclusividade que se deve reconhecer às informações contidas nos dados e seu impacto sobre a privacidade de seu titular. O inc. X, art. 5º, da Constituição dá conta desta fundamentação sem dificuldades” (QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo; PONCE, Paula Pedigoni. Tércio Sampaio Ferraz Júnior e sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado: o que permanece e o que deve ser reconsiderado. Revista Internet & Sociedade, n. 1, v. 1, fevereiro de 2020, p. 64- 90). A argumentação dos autores foi premonitória, sobretudo quando se considera o uso acentuado de aplicativos de mensagens instantâneas, com o envio e a recepção de mensagens de voz ou em vídeo, em substituição ao serviço telefônico convencional. Vivemos tempos de comunicação assíncrona, a qual, em regra, deixa vestígios em equipamentos eletrônicos. Como, então, assegurar menor proteção constitucional a esse tipo de comunicação? Antes mesmo da citada Emenda Constitucional nº 115/22, o Poder Legislativo deu o primeiro passo em direção à proteção de dados pessoais ao editar a Lei nº 12.695, de 23 de abril de 2014, apelidada de “Marco 20 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ limites à função fiscalizadora do Estado: o que permanece e o que deve ser reconsiderado. Revista Internet & Sociedade, n. 1, v. 1, fevereiro de 2020, p. 64-90 – grifo nosso). Nesse sentido, concluem Rafael Mafei e Paula Pedigoni que, “[s]e não é possível ignorar a distinção entre os incisos X e XII do art. 5º da Constituição, tampouco há razão para impor uma proteção menos efetiva à nossa intimidade apenas porque estejam em dados armazenados, e não em trânsito. Essa particular leitura de ‘Sigilo de dados’, que não é a única possível de ser feita do texto e nem é necessariamente a melhor, deve ser descartada em favor de outra que equalize a proteção de dados armazenados e dados em trânsito pelo critério que substantivamente importa: o grau de exclusividade que se deve reconhecer às informações contidas nos dados e seu impacto sobre a privacidade de seu titular. O inc. X, art. 5º, da Constituição dá conta desta fundamentação sem dificuldades” (QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo; PONCE, Paula Pedigoni. Tércio Sampaio Ferraz Júnior e sigilo de dados: o direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado: o que permanece e o que deve ser reconsiderado. Revista Internet & Sociedade, n. 1, v. 1, fevereiro de 2020, p. 64- 90). A argumentação dos autores foi premonitória, sobretudo quando seconsidera o uso acentuado de aplicativos de mensagens instantâneas, com o envio e a recepção de mensagens de voz ou em vídeo, em substituição ao serviço telefônico convencional. Vivemos tempos de comunicação assíncrona, a qual, em regra, deixa vestígios em equipamentos eletrônicos. Como, então, assegurar menor proteção constitucional a esse tipo de comunicação? Antes mesmo da citada Emenda Constitucional nº 115/22, o Poder Legislativo deu o primeiro passo em direção à proteção de dados pessoais ao editar a Lei nº 12.695, de 23 de abril de 2014, apelidada de “Marco 20 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 68 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ Civil da Internet”, para estabelecer princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no país e, ao fazê-lo, assumindo protagonismo no cenário jurídico internacional por algum tempo, elevou ao patamar de direito dos respectivos usuários a “inviolabilidade e [o] sigilo de suas comunicações privadas armazenadas, salvo por ordem judicial”, e o “não fornecimento a terceiros de seus dados pessoais, inclusive registros de conexão, e de acesso a aplicações de internet, salvo mediante consentimento livre, expresso e informado ou nas hipóteses previstas em lei” (art. 7º, incisos III e VII). Por oportuno, transcrevo na íntegra o art. 7º da Lei nº 12.695/14: “Art. 7º O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao usuário são assegurados os seguintes direitos: I - inviolabilidade da intimidade e da vida privada, sua proteção e indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; II - inviolabilidade e sigilo do fluxo de suas comunicações pela internet, salvo por ordem judicial, na forma da lei; III - inviolabilidade e sigilo de suas comunicações privadas armazenadas, salvo por ordem judicial; IV - não suspensão da conexão à internet, salvo por débito diretamente decorrente de sua utilização; V - manutenção da qualidade contratada da conexão à internet; VI - informações claras e completas constantes dos contratos de prestação de serviços, com detalhamento sobre o regime de proteção aos registros de conexão e aos registros de acesso a aplicações de internet, bem como sobre práticas de gerenciamento da rede que possam afetar sua qualidade; VII - não fornecimento a terceiros de seus dados pessoais, inclusive registros de conexão, e de acesso a aplicações de internet, salvo mediante consentimento livre, expresso e informado ou nas hipóteses previstas em lei; VIII - informações claras e completas sobre coleta, uso, armazenamento, tratamento e proteção de seus dados pessoais, 21 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Civil da Internet”, para estabelecer princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no país e, ao fazê-lo, assumindo protagonismo no cenário jurídico internacional por algum tempo, elevou ao patamar de direito dos respectivos usuários a “inviolabilidade e [o] sigilo de suas comunicações privadas armazenadas, salvo por ordem judicial”, e o “não fornecimento a terceiros de seus dados pessoais, inclusive registros de conexão, e de acesso a aplicações de internet, salvo mediante consentimento livre, expresso e informado ou nas hipóteses previstas em lei” (art. 7º, incisos III e VII). Por oportuno, transcrevo na íntegra o art. 7º da Lei nº 12.695/14: “Art. 7º O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao usuário são assegurados os seguintes direitos: I - inviolabilidade da intimidade e da vida privada, sua proteção e indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; II - inviolabilidade e sigilo do fluxo de suas comunicações pela internet, salvo por ordem judicial, na forma da lei; III - inviolabilidade e sigilo de suas comunicações privadas armazenadas, salvo por ordem judicial; IV - não suspensão da conexão à internet, salvo por débito diretamente decorrente de sua utilização; V - manutenção da qualidade contratada da conexão à internet; VI - informações claras e completas constantes dos contratos de prestação de serviços, com detalhamento sobre o regime de proteção aos registros de conexão e aos registros de acesso a aplicações de internet, bem como sobre práticas de gerenciamento da rede que possam afetar sua qualidade; VII - não fornecimento a terceiros de seus dados pessoais, inclusive registros de conexão, e de acesso a aplicações de internet, salvo mediante consentimento livre, expresso e informado ou nas hipóteses previstas em lei; VIII - informações claras e completas sobre coleta, uso, armazenamento, tratamento e proteção de seus dados pessoais, 21 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 69 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ que somente poderão ser utilizados para finalidades que: a) justifiquem sua coleta; b) não sejam vedadas pela legislação; e c) estejam especificadas nos contratos de prestação de serviços ou em termos de uso de aplicações de internet; IX - consentimento expresso sobre coleta, uso, armazenamento e tratamento de dados pessoais, que deverá ocorrer de forma destacada das demais cláusulas contratuais; X - exclusão definitiva dos dados pessoais que tiver fornecido a determinada aplicação de internet, a seu requerimento, ao término da relação entre as partes, ressalvadas as hipóteses de guarda obrigatória de registros previstas nesta Lei e na que dispõe sobre a proteção de dados pessoais; (Redação dada pela Lei nº 13.709, de 2018) XI - publicidade e clareza de eventuais políticas de uso dos provedores de conexão à internet e de aplicações de internet; XII - acessibilidade, consideradas as características físico- motoras, perceptivas, sensoriais, intelectuais e mentais do usuário, nos termos da lei; e XIII - aplicação das normas de proteção e defesa do consumidor nas relações de consumo realizadas na internet.” Conquanto referidos direitos criem obrigações diretas para os provedores de internet, não se pode ignorar que carregam normatividade suficiente para se imporem a outros atores, incluindo-se nesse universo os agentes do próprio Estado, em especial os órgãos de fiscalização e de persecução penal. Assim, se nem mesmo para esses agentes e mediante requisição formal estariam os provedores de aplicações de internet legitimados a entregar dados protegidos independentemente de ordem judicial ou do consentimento livre e expresso do(s) usuário(s) envolvido(s), ou, ainda, fora das hipóteses legais, como admitir que agentes estatais possam contornar o óbice legal por seus próprios meios, acessando o conteúdo armazenado (e legalmente protegido) do aparelho telefônico encontrado fortuitamente na cena do crime e apreendido com fundamento no art. 6º, inciso II, do CPP? 22 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.aspdevendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. 2. A autoridade policial poderá adotar as providências necessárias para a preservação dos dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido antes da autorização judicial, justificando posteriormente a adoção da medida. 3. As teses acima enunciadas só produzirão efeitos prospectivos, ressalvados os pedidos eventualmente formulados pelas defesas até a data do encerramento do presente julgamento", nos termos do voto do Ministro Dias Toffoli (Relator). Não votou na tese o Ministro Gilmar Mendes, ausente ocasionalmente. Presidência do Ministro Roberto Barroso. 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Repercussão Geral, deu provimento ao recurso extraordinário com agravo para reconhecer a licitude da prova e, por conseguinte, restabelecer a sentença condenatória de primeiro grau. Foi fixada a seguinte tese: "1. A mera apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. Contudo, o acesso aos dados nele contidos deve observar as seguintes condicionantes: 1.1 Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular, o acesso aos respectivos dados para o fim exclusivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou quem seja o proprietário do aparelho, não depende de consentimento ou de prévia decisão judicial, desde que justificada posteriormente a adoção da medida. 1.2 No caso de aparelho celular apreendido na forma do art. 6º do CPP ou por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados será condicionado ao consentimento expresso e livre do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (cf. art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz de direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da CRFB/88). Nesses casos, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. 2. A autoridade policial poderá adotar as providências necessárias para a preservação dos dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido antes da autorização judicial, justificando posteriormente a adoção da medida. 3. As teses acima enunciadas só produzirão efeitos prospectivos, ressalvados os pedidos eventualmente formulados pelas defesas até a data do encerramento do presente julgamento", nos termos do voto do Ministro Dias Toffoli (Relator). Não votou na tese o Ministro Gilmar Mendes, ausente ocasionalmente. Presidência do Ministro Roberto Barroso. 6 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Inteiro Teor do Acórdão - Página 6 de 219 Ementa e Acórdão ARE 1042075 / RJ Brasília, 25 de junho de 2025 Ministro Dias Toffoli Relator 7 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Brasília, 25 de junho de 2025 Ministro Dias Toffoli Relator 7 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 1481-5202-FF81-AB21 e senha BC91-5E0D-756D-F250 Inteiro Teor do Acórdão - Página 7 de 219 Extrato de Ata - 11/11/2020 PLENÁRIO EXTRATO DE ATA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 PROCED. : RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) : GUILHERME CARVALHO FARIAS PROC.(A/S)(ES) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (00000/DF) Decisão: Após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que dava provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário, de modo que, cassando-se o acórdão recorrido, se determine ao Tribunal de origem que prossiga no julgamento da apelação criminal, conforme de direito, julgando prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF nº 38990/2018 e nº 77244/2017, e fixava a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): "É lícita a prova obtida pela autoridade policial, sem autorização judicial, mediante acesso a registro telefônico ou agenda de contatos de celular apreendido ato contínuo no local do crime atribuído ao acusado, não configurando esse acesso ofensa ao sigilo das comunicações, à intimidade ou à privacidade do indivíduo (CF, art. 5º, incisos X e XII)"; e dos votos dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, que negavam provimento ao recurso interposto e propunham a fixação da seguinte tese: “O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações e dados dos indivíduos (CF, art. 5º, X e XX)”, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falou, pelo recorrido, o Dr. Pedro Paulo Lourival Carriello, Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. Plenário, Sessão Virtual de 30.10.2020 a 10.11.2020. Composição: Ministros Luiz Fux (Presidente), Marco Aurélio, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Rosa Weber, Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes. Carmen Lilian Oliveira de Souza Assessora-Chefe do Plenário Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 3F82-B6A1-2399-34C7 e senha 3440-D892-6FCE-6F94 Supremo Tribunal Federal PLENÁRIO EXTRATO DE ATA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 PROCED. : RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) : GUILHERME CARVALHO FARIAS PROC.(A/S)(ES) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (00000/DF) Decisão: Após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que dava provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário, de modo que, cassando-se o acórdão recorrido, se determine ao Tribunal de origem que prossiga no julgamento da apelação criminal, conforme de direito, julgando prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF nº 38990/2018 e nº 77244/2017, e fixava a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): "Ésob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ que somente poderão ser utilizados para finalidades que: a) justifiquem sua coleta; b) não sejam vedadas pela legislação; e c) estejam especificadas nos contratos de prestação de serviços ou em termos de uso de aplicações de internet; IX - consentimento expresso sobre coleta, uso, armazenamento e tratamento de dados pessoais, que deverá ocorrer de forma destacada das demais cláusulas contratuais; X - exclusão definitiva dos dados pessoais que tiver fornecido a determinada aplicação de internet, a seu requerimento, ao término da relação entre as partes, ressalvadas as hipóteses de guarda obrigatória de registros previstas nesta Lei e na que dispõe sobre a proteção de dados pessoais; (Redação dada pela Lei nº 13.709, de 2018) XI - publicidade e clareza de eventuais políticas de uso dos provedores de conexão à internet e de aplicações de internet; XII - acessibilidade, consideradas as características físico- motoras, perceptivas, sensoriais, intelectuais e mentais do usuário, nos termos da lei; e XIII - aplicação das normas de proteção e defesa do consumidor nas relações de consumo realizadas na internet.” Conquanto referidos direitos criem obrigações diretas para os provedores de internet, não se pode ignorar que carregam normatividade suficiente para se imporem a outros atores, incluindo-se nesse universo os agentes do próprio Estado, em especial os órgãos de fiscalização e de persecução penal. Assim, se nem mesmo para esses agentes e mediante requisição formal estariam os provedores de aplicações de internet legitimados a entregar dados protegidos independentemente de ordem judicial ou do consentimento livre e expresso do(s) usuário(s) envolvido(s), ou, ainda, fora das hipóteses legais, como admitir que agentes estatais possam contornar o óbice legal por seus próprios meios, acessando o conteúdo armazenado (e legalmente protegido) do aparelho telefônico encontrado fortuitamente na cena do crime e apreendido com fundamento no art. 6º, inciso II, do CPP? 22 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 70 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ Também antes da Emenda Constitucional nº 115/22, a Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018, conhecida como Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e nitidamente inspirada na General Data Protection Regulation (GDPR) (Regulamento 2016/679 da União Europeia), alçou os “dados pessoais” a uma categoria dotada de autonomia com relação aos direitos à privacidade e à intimidade, previstos no art. 5º, inciso X, da Constituição Federal, a qual, por ser emanação da personalidade do indivíduo e estar intrinsecamente relacionada aos direitos da personalidade, seria merecedora de proteção jurídica diferenciada. Afinal, protegendo-se os dados pessoais, assegura-se a privacidade (ou a intimidade) do titular desses dados. Destaco os arts. 1º, 2º e 6º do aludido diploma legal, cuja redação transcrevo: “Art. 1º Esta Lei dispõe sobre o tratamento de dados pessoais, inclusive nos meios digitais, por pessoa natural ou por pessoa jurídica de direito público ou privado, com o objetivo de proteger os direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade da pessoa natural. Parágrafo único. As normas gerais contidas nesta Lei são de interesse nacional e devem ser observadas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios” (Incluído pela Lei nº 13.853, de 2019). “Art. 2º A disciplina da proteção de dados pessoais tem como fundamentos: I - o respeito à privacidade; II - a autodeterminação informativa; III - a liberdade de expressão, de informação, de comunicação e de opinião; IV - a inviolabilidade da intimidade, da honra e da imagem; V - o desenvolvimento econômico e tecnológico e a inovação; 23 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Também antes da Emenda Constitucional nº 115/22, a Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018, conhecida como Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e nitidamente inspirada na General Data Protection Regulation (GDPR) (Regulamento 2016/679 da União Europeia), alçou os “dados pessoais” a uma categoria dotada de autonomia com relação aos direitos à privacidade e à intimidade, previstos no art. 5º, inciso X, da Constituição Federal, a qual, por ser emanação da personalidade do indivíduo e estar intrinsecamente relacionada aos direitos da personalidade, seria merecedora de proteção jurídica diferenciada. Afinal, protegendo-se os dados pessoais, assegura-se a privacidade (ou a intimidade) do titular desses dados. Destaco os arts. 1º, 2º e 6º do aludido diploma legal, cuja redação transcrevo: “Art. 1º Esta Lei dispõe sobre o tratamento de dados pessoais, inclusive nos meios digitais, por pessoa natural ou por pessoa jurídica de direito público ou privado, com o objetivo de proteger os direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimento da personalidade da pessoa natural. Parágrafo único. As normas gerais contidas nesta Lei são de interesse nacional e devem ser observadas pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios” (Incluído pela Lei nº 13.853, de 2019). “Art. 2º A disciplina da proteção de dados pessoais tem como fundamentos: I - o respeito à privacidade; II - a autodeterminação informativa; III - a liberdade de expressão, de informação, de comunicação e de opinião; IV - a inviolabilidade da intimidade, da honra e da imagem; V - o desenvolvimento econômico e tecnológico e a inovação; 23 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 71 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ VI - a livre iniciativa, a livre concorrência e a defesa do consumidor; e VII - os direitos humanos, o livre desenvolvimento da personalidade, a dignidade e o exercício da cidadania pelas pessoas naturais.” “Art. 6º As atividades de tratamento de dados pessoais deverão observar a boa-fé e os seguintes princípios: I - finalidade: realização do tratamento para propósitos legítimos, específicos, explícitos e informados ao titular, sem possibilidade de tratamento posterior de forma incompatível com essas finalidades; II - adequação: compatibilidade do tratamento com as finalidades informadas ao titular, de acordo com o contexto do tratamento; III - necessidade: limitação do tratamento ao mínimo necessário para a realização de suas finalidades, com abrangência dos dados pertinentes, proporcionais e não excessivos em relação às finalidades do tratamento de dados; IV - livre acesso: garantia, aos titulares, de consulta facilitada e gratuita sobre a forma e a duração do tratamento, bem como sobre a integralidade de seus dados pessoais; V - qualidade dos dados: garantia, aos titulares, de exatidão, clareza, relevância e atualização dos dados, de acordo com a necessidade e para o cumprimentoda finalidade de seu tratamento; VI - transparência: garantia, aos titulares, de informações claras, precisas e facilmente acessíveis sobre a realização do tratamento e os respectivos agentes de tratamento, observados os segredos comercial e industrial; VII - segurança: utilização de medidas técnicas e administrativas aptas a proteger os dados pessoais de acessos não autorizados e de situações acidentais ou ilícitas de destruição, perda, alteração, comunicação ou difusão; VIII - prevenção: adoção de medidas para prevenir a ocorrência de danos em virtude do tratamento de dados 24 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ VI - a livre iniciativa, a livre concorrência e a defesa do consumidor; e VII - os direitos humanos, o livre desenvolvimento da personalidade, a dignidade e o exercício da cidadania pelas pessoas naturais.” “Art. 6º As atividades de tratamento de dados pessoais deverão observar a boa-fé e os seguintes princípios: I - finalidade: realização do tratamento para propósitos legítimos, específicos, explícitos e informados ao titular, sem possibilidade de tratamento posterior de forma incompatível com essas finalidades; II - adequação: compatibilidade do tratamento com as finalidades informadas ao titular, de acordo com o contexto do tratamento; III - necessidade: limitação do tratamento ao mínimo necessário para a realização de suas finalidades, com abrangência dos dados pertinentes, proporcionais e não excessivos em relação às finalidades do tratamento de dados; IV - livre acesso: garantia, aos titulares, de consulta facilitada e gratuita sobre a forma e a duração do tratamento, bem como sobre a integralidade de seus dados pessoais; V - qualidade dos dados: garantia, aos titulares, de exatidão, clareza, relevância e atualização dos dados, de acordo com a necessidade e para o cumprimento da finalidade de seu tratamento; VI - transparência: garantia, aos titulares, de informações claras, precisas e facilmente acessíveis sobre a realização do tratamento e os respectivos agentes de tratamento, observados os segredos comercial e industrial; VII - segurança: utilização de medidas técnicas e administrativas aptas a proteger os dados pessoais de acessos não autorizados e de situações acidentais ou ilícitas de destruição, perda, alteração, comunicação ou difusão; VIII - prevenção: adoção de medidas para prevenir a ocorrência de danos em virtude do tratamento de dados 24 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 72 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ pessoais; IX - não discriminação: impossibilidade de realização do tratamento para fins discriminatórios ilícitos ou abusivos; X - responsabilização e prestação de contas: demonstração, pelo agente, da adoção de medidas eficazes e capazes de comprovar a observância e o cumprimento das normas de proteção de dados pessoais e, inclusive, da eficácia dessas medidas.” Feitas essas considerações, por fim, passo a tecer breves comentários a respeito do direito à privacidade. 2.4 Do direito fundamental à privacidade e sua recente ressignificação Há de se ter em mente, em primeiro lugar, que é muito tênue a linha divisória entre privacidade (ou vida privada) e intimidade. Nesse sentido, explica Mikhail Vieira de Lorenzi Cancelier o seguinte: “No Brasil, tanto o constituinte quanto o legislador ordinário, ao elaborarem a Constituição 1988 e o Código Civil de 2002 (Lei nº 10.406) optaram por não fazer uso do termo privacidade, mas das expressões vida privada e intimidade, sem oferecer conceitos a nenhuma delas. Na Constituição de 1988 fala-se, também, em sigilo (de correspondência, das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas) e na inviolabilidade da casa. Fica claro que é possível fazer uso de qualquer um dos termos para referenciar a mesma situação. Por exemplo, fala-se em vida privada ou vida íntima para tratar do mesmo espaço da vida sobre a qual se fala. Algo secreto, sigiloso ou íntimo pode ser relacionado ao mesmo aspecto que se deseja manter em segredo. O privado pode ser íntimo, o íntimo pode ser secreto, o secreto pode ser privado. Ao mesmo tempo, cada um deles poderá assumir — de forma bastante subjetiva — a depender do sujeito da fala, 25 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ pessoais; IX - não discriminação: impossibilidade de realização do tratamento para fins discriminatórios ilícitos ou abusivos; X - responsabilização e prestação de contas: demonstração, pelo agente, da adoção de medidas eficazes e capazes de comprovar a observância e o cumprimento das normas de proteção de dados pessoais e, inclusive, da eficácia dessas medidas.” Feitas essas considerações, por fim, passo a tecer breves comentários a respeito do direito à privacidade. 2.4 Do direito fundamental à privacidade e sua recente ressignificação Há de se ter em mente, em primeiro lugar, que é muito tênue a linha divisória entre privacidade (ou vida privada) e intimidade. Nesse sentido, explica Mikhail Vieira de Lorenzi Cancelier o seguinte: “No Brasil, tanto o constituinte quanto o legislador ordinário, ao elaborarem a Constituição 1988 e o Código Civil de 2002 (Lei nº 10.406) optaram por não fazer uso do termo privacidade, mas das expressões vida privada e intimidade, sem oferecer conceitos a nenhuma delas. Na Constituição de 1988 fala-se, também, em sigilo (de correspondência, das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas) e na inviolabilidade da casa. Fica claro que é possível fazer uso de qualquer um dos termos para referenciar a mesma situação. Por exemplo, fala-se em vida privada ou vida íntima para tratar do mesmo espaço da vida sobre a qual se fala. Algo secreto, sigiloso ou íntimo pode ser relacionado ao mesmo aspecto que se deseja manter em segredo. O privado pode ser íntimo, o íntimo pode ser secreto, o secreto pode ser privado. Ao mesmo tempo, cada um deles poderá assumir — de forma bastante subjetiva — a depender do sujeito da fala, 25 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 73 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ um significado específico. Assim, nem sempre o íntimo será secreto ou o assunto sigiloso será privado. O que se quer dizer é que o significado do discurso irá variar conforme quem o profere, possibilitando cada um dos termos aqui apresentados usos variados. Juridicamente, a mesma possibilidade é aventada. Privacidade, então, deve ser vista antes de tudo como exercício de uma liberdade da pessoa, uma necessidade humana. Parte-se para uma visão da privacidade que é interna ao sujeito, faz parte dele, formando-o como ser humano. Seja trabalhando a privacidadecomo o estar só ou numa perspectiva mais contemporânea de controle informacional, não se pode perder o vínculo com a pessoa, como forma de manifestação da personalidade. Ter privacidade é fundamental ao indivíduo, não apenas em oposição ao público, mas numa relação interna, visto que não será possível a assunção de seus desejos sem a construção de seu espaço íntimo. Lafer (1988, p. 239), fazendo uso da expressão ‘direito à intimidade’, caracteriza-o como ‘[...] direito do indivíduo de estar só e a possibilidade que deve ter toda pessoa de excluir do conhecimento de terceiros aquilo que a ela só se refere e que diz respeito ao seu modo de ser no âmbito da vida privada’. Malta (2007, p. 28) acompanha a corrente que vê no direito à intimidade a proteção dos pensamentos e emoções mais restritos da pessoa. Machado (2014, p. 73) aponta a intimidade como o ‘núcleo essencial da pessoa’. Zanon (3013, p. 48), sem a intenção de cravar uma definição absoluta, situa a intimidade num local exclusivo que o sujeito reserva a si mesmo. Ardenghi (2012, p. 238) coloca o direito à intimidade como o poder conferido à pessoa de se resguardar de intromissões ao espaço mais reservado de sua existência, assim como ‘a faculdade de fazer concessões nesse terreno’. Para nós, apesar de considerar importante a diferenciação entre os termos privacidade e intimidade, não se enxerga impedimentos no uso da expressão direito à privacidade para tratar do direito à intimidade, afinal este está 26 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ um significado específico. Assim, nem sempre o íntimo será secreto ou o assunto sigiloso será privado. O que se quer dizer é que o significado do discurso irá variar conforme quem o profere, possibilitando cada um dos termos aqui apresentados usos variados. Juridicamente, a mesma possibilidade é aventada. Privacidade, então, deve ser vista antes de tudo como exercício de uma liberdade da pessoa, uma necessidade humana. Parte-se para uma visão da privacidade que é interna ao sujeito, faz parte dele, formando-o como ser humano. Seja trabalhando a privacidade como o estar só ou numa perspectiva mais contemporânea de controle informacional, não se pode perder o vínculo com a pessoa, como forma de manifestação da personalidade. Ter privacidade é fundamental ao indivíduo, não apenas em oposição ao público, mas numa relação interna, visto que não será possível a assunção de seus desejos sem a construção de seu espaço íntimo. Lafer (1988, p. 239), fazendo uso da expressão ‘direito à intimidade’, caracteriza-o como ‘[...] direito do indivíduo de estar só e a possibilidade que deve ter toda pessoa de excluir do conhecimento de terceiros aquilo que a ela só se refere e que diz respeito ao seu modo de ser no âmbito da vida privada’. Malta (2007, p. 28) acompanha a corrente que vê no direito à intimidade a proteção dos pensamentos e emoções mais restritos da pessoa. Machado (2014, p. 73) aponta a intimidade como o ‘núcleo essencial da pessoa’. Zanon (3013, p. 48), sem a intenção de cravar uma definição absoluta, situa a intimidade num local exclusivo que o sujeito reserva a si mesmo. Ardenghi (2012, p. 238) coloca o direito à intimidade como o poder conferido à pessoa de se resguardar de intromissões ao espaço mais reservado de sua existência, assim como ‘a faculdade de fazer concessões nesse terreno’. Para nós, apesar de considerar importante a diferenciação entre os termos privacidade e intimidade, não se enxerga impedimentos no uso da expressão direito à privacidade para tratar do direito à intimidade, afinal este está 26 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 74 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ inserido naquele. Ademais, acompanha-se o entendimento de Cabral (2012, p. 116-117) no sentido de que o ‘grau de proteção da intimidade em uma dada situação poderá variar de acordo com elementos objetivos casuísticos’. Assim, o ‘[...] resguardo da reserva varia na medida em que os fatos situem-se no ciclo de sigilo, de resguardo ou de publicidade da vida do indivíduo. Tudo depende de tudo. Das pessoas, de cada pessoa, da sua sensibilidade e das suas circunstâncias; das necessidades e exigências da sociedade relativas ao conhecimento e à transparência da vida em comum (CABRAL, 2012, p. 116-117)’” (CANCELIER, Mikhail Vieira de Lorenzi. O direito à privacidade hoje: perspectiva histórica e o cenário brasileiro. Sequência, Florianópolis, n. 76, v. 38, set. 2017, p. 213-239). Feito esse rápido esclarecimento, alerto também que, apesar de relativamente recente, o direito à privacidade passou – e ainda passa – por considerável ressignificação. A princípio, a doutrina o definia como o “direito de estar só” (the right to be let alone) e, mais recentemente, a ele se reporta como uma espécie de “direito à autodeterminação informacional”, deixando claro, com essa segunda acepção, que o indivíduo deve ter “o direito de manter o controle sobre suas próprias informações e determinar como a privacidade é alcançada e, em última instância, [...] de escolher livremente seu modo de vida” (RODOTÀ, Stefano. In: Diritto diavere. Roma: Laterza, 2012. p. 321). É dizer, no contexto da sociedade atual, a possibilidade de o indivíduo proceder ao controle dos dados que dizem respeito à própria pessoa – porque eles consistem em manifestação de sua personalidade – é conditio sine qua non para a preservação de sua personalidade e para o desenvolvimento pleno de sua autonomia. Isso porque é o direito à privacidade que assegura a cada indivíduo um espaço próprio de experimentação, no qual é possível a cada qual expressar “sentimentos, reflexões, visões de mundo e experiências pessoais sem medo de estar sendo observado por órgãos estatais” (GRECO, Luís; GLEIZER, Orlandino. A infiltração online no processo penal – Notícia sobre a experiência alemã. Revista Brasileira de Direito Processual Penal, Porto 27 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ inserido naquele. Ademais, acompanha-se o entendimento de Cabral (2012, p. 116-117) no sentido de que o ‘grau de proteção da intimidade em uma dada situação poderá variar de acordo com elementos objetivos casuísticos’. Assim, o ‘[...] resguardo da reserva varia na medida em que os fatos situem-se no ciclo de sigilo, de resguardo ou de publicidade da vida do indivíduo. Tudo depende de tudo. Das pessoas, de cada pessoa, da sua sensibilidade e das suas circunstâncias; das necessidades e exigências da sociedade relativas ao conhecimento e à transparência da vida em comum (CABRAL, 2012, p. 116-117)’” (CANCELIER, Mikhail Vieira de Lorenzi. O direito à privacidade hoje: perspectiva histórica e o cenário brasileiro. Sequência, Florianópolis, n. 76, v. 38, set. 2017, p. 213-239). Feito esse rápido esclarecimento, alerto também que, apesar de relativamente recente, o direito à privacidade passou – e ainda passa – por considerávelressignificação. A princípio, a doutrina o definia como o “direito de estar só” (the right to be let alone) e, mais recentemente, a ele se reporta como uma espécie de “direito à autodeterminação informacional”, deixando claro, com essa segunda acepção, que o indivíduo deve ter “o direito de manter o controle sobre suas próprias informações e determinar como a privacidade é alcançada e, em última instância, [...] de escolher livremente seu modo de vida” (RODOTÀ, Stefano. In: Diritto diavere. Roma: Laterza, 2012. p. 321). É dizer, no contexto da sociedade atual, a possibilidade de o indivíduo proceder ao controle dos dados que dizem respeito à própria pessoa – porque eles consistem em manifestação de sua personalidade – é conditio sine qua non para a preservação de sua personalidade e para o desenvolvimento pleno de sua autonomia. Isso porque é o direito à privacidade que assegura a cada indivíduo um espaço próprio de experimentação, no qual é possível a cada qual expressar “sentimentos, reflexões, visões de mundo e experiências pessoais sem medo de estar sendo observado por órgãos estatais” (GRECO, Luís; GLEIZER, Orlandino. A infiltração online no processo penal – Notícia sobre a experiência alemã. Revista Brasileira de Direito Processual Penal, Porto 27 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 75 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ Alegre, v. 5, n. 3, set./dez. 2019, p. 1495). Ademais, conforme decidido pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal no julgamento do HC nº 222.141-AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, red. do ac. Min. Gilmar Mendes, “[a] concepção do direito à privacidade como uma garantia individual de abstenção do Estado na esfera privada individual passou por profundas transformações no decorrer do século XX. Devido ao próprio avanço das tecnologias da informação, assistiu-se a uma verdadeira mutação jurídica do sentido e do alcance do direito à privacidade. A releitura do direito à privacidade coincide com o desenvolvimento jurisprudencial do conceito de autodeterminação informacional (die informationelle Selbsstbestimmung) pelo Tribunal Constitucional Alemão. Essa nova abordagem revelou-se paradigmática por ter permitido que o direito à privacidade não mais ficasse estaticamente restrito à frágil dicotomia entre as esferas pública e privada, mas, sim, se desenvolvesse como uma proteção dinâmica e permanentemente aberta às referências sociais e aos múltiplos contextos de uso. A maior abrangência da proteção atribuída ao direito de autodeterminação repercute no âmbito de proteção do direito à proteção de dados pessoais, que não recai sobre a dimensão privada ou não do dado, mas sim sobre os riscos atribuídos ao seu processamento por terceiros. A força normativa do direito fundamental à proteção de dados pessoais decorre da necessidade de proteção da dignidade da pessoa humana, vis- à-vis a contínua exposição dos indivíduos ao risco de comprometimento da autodeterminação informacional” (HC nº 222.141-AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, red. do ac. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 6/2/24, DJe de 2/4/24). Na mesma linha vai o entendimento adotado no referendo em medida cautelar na ADI nº 6.387, Rel. Min. Rosa Weber, no qual o Plenário do Supremo Tribunal Federal expressamente reconheceu o 28 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Alegre, v. 5, n. 3, set./dez. 2019, p. 1495). Ademais, conforme decidido pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal no julgamento do HC nº 222.141-AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, red. do ac. Min. Gilmar Mendes, “[a] concepção do direito à privacidade como uma garantia individual de abstenção do Estado na esfera privada individual passou por profundas transformações no decorrer do século XX. Devido ao próprio avanço das tecnologias da informação, assistiu-se a uma verdadeira mutação jurídica do sentido e do alcance do direito à privacidade. A releitura do direito à privacidade coincide com o desenvolvimento jurisprudencial do conceito de autodeterminação informacional (die informationelle Selbsstbestimmung) pelo Tribunal Constitucional Alemão. Essa nova abordagem revelou-se paradigmática por ter permitido que o direito à privacidade não mais ficasse estaticamente restrito à frágil dicotomia entre as esferas pública e privada, mas, sim, se desenvolvesse como uma proteção dinâmica e permanentemente aberta às referências sociais e aos múltiplos contextos de uso. A maior abrangência da proteção atribuída ao direito de autodeterminação repercute no âmbito de proteção do direito à proteção de dados pessoais, que não recai sobre a dimensão privada ou não do dado, mas sim sobre os riscos atribuídos ao seu processamento por terceiros. A força normativa do direito fundamental à proteção de dados pessoais decorre da necessidade de proteção da dignidade da pessoa humana, vis- à-vis a contínua exposição dos indivíduos ao risco de comprometimento da autodeterminação informacional” (HC nº 222.141-AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, red. do ac. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 6/2/24, DJe de 2/4/24). Na mesma linha vai o entendimento adotado no referendo em medida cautelar na ADI nº 6.387, Rel. Min. Rosa Weber, no qual o Plenário do Supremo Tribunal Federal expressamente reconheceu o 28 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 76 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ direito à autodeterminação informativa. Vide: “MEDIDA CAUTELAR EM AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. REFERENDO. MEDIDA PROVISÓRIA Nº 954/2020. EMERGÊNCIA DE SAÚDE PÚBLICA DE IMPORTÂNCIA INTERNACIONAL DECORRENTE DO NOVO CORONAVÍRUS (COVID-19). COMPARTILHAMENTO DE DADOS DOS USUÁRIOS DO SERVIÇO TELEFÔNICO FIXO COMUTADO E DO SERVIÇO MÓVEL PESSOAL, PELAS EMPRESAS PRESTADORAS, COM O INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. FUMUS BONI JURIS. PERICULUM IN MORA. DEFERIMENTO. 1. Decorrências dos direitos da personalidade, o respeito à privacidade e à autodeterminação informativa foram positivados, no art. 2º, I e II, da Lei nº 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), como fundamentos específicos da disciplina da proteção de dados pessoais. 2. Na medida em que relacionados à identificação – efetiva ou potencial – de pessoa natural, o tratamento e a manipulação de dados pessoais hão de observar os limites delineados pelo âmbito de proteção das cláusulas constitucionais assecuratórias da liberdade individual (art. 5º, caput), da privacidade e do livre desenvolvimento da personalidade (art. 5º, X e XII), sob pena de lesão a esses direitos. O compartilhamento, com ente público, de dados pessoais custodiados por concessionária de serviço público há de assegurar mecanismos de proteção e segurança desses dados. 3. O Regulamento Sanitário Internacional (RSI 2005) adotado no âmbito da Organização Mundial de Saúde exige, quandoessencial o tratamento de dados pessoais para a avaliação e o manejo de um risco para a saúde pública, a garantia de que os dados pessoais manipulados sejam ‘adequados, relevantes e não excessivos em relação a esse propósito’ e ‘conservados apenas pelo tempo necessário.’ (artigo 45, § 2º, alíneas ‘b’ e ‘d’). 4. Consideradas a necessidade, a adequação e a proporcionalidade da medida, não emerge da 29 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ direito à autodeterminação informativa. Vide: “MEDIDA CAUTELAR EM AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. REFERENDO. MEDIDA PROVISÓRIA Nº 954/2020. EMERGÊNCIA DE SAÚDE PÚBLICA DE IMPORTÂNCIA INTERNACIONAL DECORRENTE DO NOVO CORONAVÍRUS (COVID-19). COMPARTILHAMENTO DE DADOS DOS USUÁRIOS DO SERVIÇO TELEFÔNICO FIXO COMUTADO E DO SERVIÇO MÓVEL PESSOAL, PELAS EMPRESAS PRESTADORAS, COM O INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. FUMUS BONI JURIS. PERICULUM IN MORA. DEFERIMENTO. 1. Decorrências dos direitos da personalidade, o respeito à privacidade e à autodeterminação informativa foram positivados, no art. 2º, I e II, da Lei nº 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), como fundamentos específicos da disciplina da proteção de dados pessoais. 2. Na medida em que relacionados à identificação – efetiva ou potencial – de pessoa natural, o tratamento e a manipulação de dados pessoais hão de observar os limites delineados pelo âmbito de proteção das cláusulas constitucionais assecuratórias da liberdade individual (art. 5º, caput), da privacidade e do livre desenvolvimento da personalidade (art. 5º, X e XII), sob pena de lesão a esses direitos. O compartilhamento, com ente público, de dados pessoais custodiados por concessionária de serviço público há de assegurar mecanismos de proteção e segurança desses dados. 3. O Regulamento Sanitário Internacional (RSI 2005) adotado no âmbito da Organização Mundial de Saúde exige, quando essencial o tratamento de dados pessoais para a avaliação e o manejo de um risco para a saúde pública, a garantia de que os dados pessoais manipulados sejam ‘adequados, relevantes e não excessivos em relação a esse propósito’ e ‘conservados apenas pelo tempo necessário.’ (artigo 45, § 2º, alíneas ‘b’ e ‘d’). 4. Consideradas a necessidade, a adequação e a proporcionalidade da medida, não emerge da 29 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 77 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ Medida Provisória nº 954/2020, nos moldes em que editada, interesse público legítimo no compartilhamento dos dados pessoais dos usuários dos serviços de telefonia. 5. Ao não definir apropriadamente como e para que serão utilizados os dados coletados, a MP nº 954/2020 desatende a garantia do devido processo legal (art. 5º, LIV, da CF), na dimensão substantiva, por não oferecer condições de avaliação quanto à sua adequação e necessidade, assim entendidas como a compatibilidade do tratamento com as finalidades informadas e sua limitação ao mínimo necessário para alcançar suas finalidades. 6. Ao não apresentar mecanismo técnico ou administrativo apto a proteger, de acessos não autorizados, vazamentos acidentais ou utilização indevida, seja na transmissão, seja no tratamento, o sigilo, a higidez e, quando o caso, o anonimato dos dados pessoais compartilhados, a MP nº 954/2020 descumpre as exigências que exsurgem do texto constitucional no tocante à efetiva proteção dos direitos fundamentais dos brasileiros. 7. Mostra-se excessiva a conservação de dados pessoais coletados, pelo ente público, por trinta dias após a decretação do fim da situação de emergência de saúde pública, tempo manifestamente excedente ao estritamente necessário para o atendimento da sua finalidade declarada. 8. Agrava a ausência de garantias de tratamento adequado e seguro dos dados compartilhados a circunstância de que, embora aprovada, ainda não vigora a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018), definidora dos critérios para a responsabilização dos agentes por eventuais danos ocorridos em virtude do tratamento de dados pessoais. O fragilizado ambiente protetivo impõe cuidadoso escrutínio sobre medidas como a implementada na MP nº 954/2020. 9. O cenário de urgência decorrente da crise sanitária deflagrada pela pandemia global da COVID-19 e a necessidade de formulação de políticas públicas que demandam dados específicos para o desenho dos diversos quadros de enfrentamento não podem ser invocadas como pretextos para justificar investidas visando ao enfraquecimento de direitos e 30 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Medida Provisória nº 954/2020, nos moldes em que editada, interesse público legítimo no compartilhamento dos dados pessoais dos usuários dos serviços de telefonia. 5. Ao não definir apropriadamente como e para que serão utilizados os dados coletados, a MP nº 954/2020 desatende a garantia do devido processo legal (art. 5º, LIV, da CF), na dimensão substantiva, por não oferecer condições de avaliação quanto à sua adequação e necessidade, assim entendidas como a compatibilidade do tratamento com as finalidades informadas e sua limitação ao mínimo necessário para alcançar suas finalidades. 6. Ao não apresentar mecanismo técnico ou administrativo apto a proteger, de acessos não autorizados, vazamentos acidentais ou utilização indevida, seja na transmissão, seja no tratamento, o sigilo, a higidez e, quando o caso, o anonimato dos dados pessoais compartilhados, a MP nº 954/2020 descumpre as exigências que exsurgem do texto constitucional no tocante à efetiva proteção dos direitos fundamentais dos brasileiros. 7. Mostra-se excessiva a conservação de dados pessoais coletados, pelo ente público, por trinta dias após a decretação do fim da situação de emergência de saúde pública, tempo manifestamente excedente ao estritamente necessário para o atendimento da sua finalidade declarada. 8. Agrava a ausência de garantias de tratamento adequado e seguro dos dados compartilhados a circunstância de que, embora aprovada, ainda não vigora a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018), definidora dos critérios para a responsabilização dos agentes por eventuais danos ocorridos em virtude do tratamento de dados pessoais. O fragilizado ambiente protetivo impõe cuidadoso escrutínio sobre medidas como a implementada na MP nº 954/2020. 9. O cenário de urgência decorrente da crise sanitária deflagrada pela pandemia global da COVID-19 e a necessidade de formulação de políticas públicas que demandam dados específicos para o desenho dos diversos quadros de enfrentamento não podem ser invocadas como pretextos para justificar investidas visando ao enfraquecimento de direitos e 30 Documento assinado digitalmenteconforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 78 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ atropelo de garantias fundamentais consagradas na Constituição. 10. Fumus boni juris e periculum in mora demonstrados. Deferimento da medida cautelar para suspender a eficácia da Medida Provisória nº 954/2020, a fim de prevenir danos irreparáveis à intimidade e ao sigilo da vida privada de mais de uma centena de milhão de usuários dos serviços de telefonia fixa e móvel. 11. Medida cautelar referendada” (ADI nº 6.387-MC-Ref, Rel. Min. Rosa Weber, Tribunal Pleno, julgado em 7/5/20, DJe de 11/11/20). Como se observa, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal não está alheia aos novos tempos e seus desafios específicos. É com base nessas duas perspectivas do direito à privacidade, ambas protegidas pelo texto constitucional, em seu art. 5º, inciso X, e, sobretudo, nos direitos à proteção dos dados pessoais (CRFB/88, art. 5º, inciso XXLIX, acrescido pela EC nº 115/22), e à autodeterminação informacional que se examinará, no próximo item, a controvérsia constitucional posta. 2.5 Conclusões Como explicado até aqui, a possibilidade de se acessar, por meio de aparelhos celulares, bem mais que metadados relativos à comunicação telefônica desloca a discussão travada nestes autos para a questão da inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem (CF/88, art. 5º, inciso X), do direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF/88, art. 5º, inciso LXXIX, introduzido pela EC nº 115, de 2022), e do direito à autodeterminação informacional. São esses, aliás, em breve síntese, os fatos empíricos e normativos, supervenientes ao julgamento do HC nº 91.867, que conferem proteção jurídica especial e diferenciada aos dados armazenados e, por conseguinte, justificam a superação desse precedente para se construir uma solução jurídica mais condizente com a nova realidade. Assim, se, de um lado, espera-se do Estado uma atuação eficiente na persecução penal; de outro, logicamente, não se pode prescindir das 31 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ atropelo de garantias fundamentais consagradas na Constituição. 10. Fumus boni juris e periculum in mora demonstrados. Deferimento da medida cautelar para suspender a eficácia da Medida Provisória nº 954/2020, a fim de prevenir danos irreparáveis à intimidade e ao sigilo da vida privada de mais de uma centena de milhão de usuários dos serviços de telefonia fixa e móvel. 11. Medida cautelar referendada” (ADI nº 6.387-MC-Ref, Rel. Min. Rosa Weber, Tribunal Pleno, julgado em 7/5/20, DJe de 11/11/20). Como se observa, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal não está alheia aos novos tempos e seus desafios específicos. É com base nessas duas perspectivas do direito à privacidade, ambas protegidas pelo texto constitucional, em seu art. 5º, inciso X, e, sobretudo, nos direitos à proteção dos dados pessoais (CRFB/88, art. 5º, inciso XXLIX, acrescido pela EC nº 115/22), e à autodeterminação informacional que se examinará, no próximo item, a controvérsia constitucional posta. 2.5 Conclusões Como explicado até aqui, a possibilidade de se acessar, por meio de aparelhos celulares, bem mais que metadados relativos à comunicação telefônica desloca a discussão travada nestes autos para a questão da inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem (CF/88, art. 5º, inciso X), do direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF/88, art. 5º, inciso LXXIX, introduzido pela EC nº 115, de 2022), e do direito à autodeterminação informacional. São esses, aliás, em breve síntese, os fatos empíricos e normativos, supervenientes ao julgamento do HC nº 91.867, que conferem proteção jurídica especial e diferenciada aos dados armazenados e, por conseguinte, justificam a superação desse precedente para se construir uma solução jurídica mais condizente com a nova realidade. Assim, se, de um lado, espera-se do Estado uma atuação eficiente na persecução penal; de outro, logicamente, não se pode prescindir das 31 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 79 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ cautelas devidas para a proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos, evitando que a autoridade policial proceda a um verdadeiro fishing expedition a partir de aparelhos celulares apreendidos. Há, outrossim, a necessidade de se ponderar o direito fundamental à segurança pública da(s) vítima(s) e de toda a sociedade brasileira – que possuem a justa expectativa de ver o direito correta e tempestivamente aplicado ao infrator da lei penal – com os direitos à vida privada e à intimidade, à proteção de dados pessoais e à autodeterminação informacional do(s) potencial(is) investigado(s). Apesar de a apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não se sujeitar à reserva de jurisdição, penso que o acesso aos dados nele contidos deve observar algumas condicionantes, as quais são mais ou menos rigorosas a depender das circunstâncias. Nessa linha de raciocínio, se o aparelho celular for encontrado fortuitamente no local do fato, o acesso aos respectivos dados, pela autoridade policial, para o fim exclusivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou de quem seja seu proprietário, não depende de consentimento ou de prévia decisão judicial. Basta que a autoridade policial justifique a adoção da medida, tornando possível o controle judicial posterior. Diversamente, se o aparelho celular é apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados, pela autoridade policial, pressupõe o consentimento expresso e livre do titular dos dados ou a autorização judicial prévia. Aliás, é isso o que se infere do disposto no art. 7º, inciso III, c/c o disposto no art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14. Vide: “Art. 7. O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao usuário são assegurados os seguintes direitos: (...) III - inviolabilidade e sigilo de suas comunicações privadas armazenada, salvo ordem judicial; (...) 32 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ cautelas devidas para a proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos, evitando que a autoridade policial proceda a um verdadeiro fishing expedition a partir de aparelhos celulares apreendidos. Há, outrossim, a necessidade de se ponderar o direito fundamental à segurança pública da(s) vítima(s) e de toda a sociedade brasileira – que possuem a justa expectativa de ver o direito correta e tempestivamente aplicado ao infrator da lei penal – com os direitos à vida privada e à intimidade, à proteção de dados pessoais e à autodeterminação informacional do(s) potencial(is) investigado(s). Apesar de a apreensãodo aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não se sujeitar à reserva de jurisdição, penso que o acesso aos dados nele contidos deve observar algumas condicionantes, as quais são mais ou menos rigorosas a depender das circunstâncias. Nessa linha de raciocínio, se o aparelho celular for encontrado fortuitamente no local do fato, o acesso aos respectivos dados, pela autoridade policial, para o fim exclusivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou de quem seja seu proprietário, não depende de consentimento ou de prévia decisão judicial. Basta que a autoridade policial justifique a adoção da medida, tornando possível o controle judicial posterior. Diversamente, se o aparelho celular é apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados, pela autoridade policial, pressupõe o consentimento expresso e livre do titular dos dados ou a autorização judicial prévia. Aliás, é isso o que se infere do disposto no art. 7º, inciso III, c/c o disposto no art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14. Vide: “Art. 7. O acesso à internet é essencial ao exercício da cidadania, e ao usuário são assegurados os seguintes direitos: (...) III - inviolabilidade e sigilo de suas comunicações privadas armazenada, salvo ordem judicial; (...) 32 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 80 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ Art. 10. A guarda e a disponibilização dos registros de conexão e de acesso a aplicações de internet de que trata esta Lei, bem como de dados pessoais e do conteúdo de comunicações privadas, devem atender à preservação da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das partes direta ou indiretamente envolvidas. (...) § 2º O conteúdo das comunicações privadas somente poderá ser disponibilizado mediante ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer, respeitado o disposto nos incisos II e III do art. 7º.” O requerimento formal de acesso aos dados contidos no aparelho celular apreendido possibilitará ao juízo sopesar, diante das peculiaridades e das circunstâncias do caso concreto, a adequação, a necessidade e a proporcionalidade em sentido estrito da medida, delimitando sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, CRFB/88) e à autodeterminação informacional e, ainda, assegurará a lisura da cadeia de custódia das provas porventura obtidas a partir daí, como determinam o art. 158-A e seguintes do CPP, inseridos pela Lei nº 13.964, de 2019. Registro, outrossim, que esse não é um posicionamento inédito. Há muito tempo, o Superior Tribunal de Justiça “vem enfatizando, em sucessivos julgados, que é ilícita a tomada de dados, bem como das conversas de WhatsApp, obtidas diretamente pela autoridade policial em aparelho celular apreendido no flagrante, sem prévia autorização judicial” (STJ, HC nº 674.185/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 17/8/21, DJe de 20/8/21). Para o referido Tribunal Superior, os dados constantes de aparelhos celulares somente são admitidos como prova lícita no processo penal quando (i) há prévio mandado de busca e apreensão expedido por juiz 33 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ Art. 10. A guarda e a disponibilização dos registros de conexão e de acesso a aplicações de internet de que trata esta Lei, bem como de dados pessoais e do conteúdo de comunicações privadas, devem atender à preservação da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das partes direta ou indiretamente envolvidas. (...) § 2º O conteúdo das comunicações privadas somente poderá ser disponibilizado mediante ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer, respeitado o disposto nos incisos II e III do art. 7º.” O requerimento formal de acesso aos dados contidos no aparelho celular apreendido possibilitará ao juízo sopesar, diante das peculiaridades e das circunstâncias do caso concreto, a adequação, a necessidade e a proporcionalidade em sentido estrito da medida, delimitando sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, CRFB/88) e à autodeterminação informacional e, ainda, assegurará a lisura da cadeia de custódia das provas porventura obtidas a partir daí, como determinam o art. 158-A e seguintes do CPP, inseridos pela Lei nº 13.964, de 2019. Registro, outrossim, que esse não é um posicionamento inédito. Há muito tempo, o Superior Tribunal de Justiça “vem enfatizando, em sucessivos julgados, que é ilícita a tomada de dados, bem como das conversas de WhatsApp, obtidas diretamente pela autoridade policial em aparelho celular apreendido no flagrante, sem prévia autorização judicial” (STJ, HC nº 674.185/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 17/8/21, DJe de 20/8/21). Para o referido Tribunal Superior, os dados constantes de aparelhos celulares somente são admitidos como prova lícita no processo penal quando (i) há prévio mandado de busca e apreensão expedido por juiz 33 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 81 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ competente; ou (ii) há autorização judicial para o acesso aos dados dos celulares apreendidos; ou, ainda, (iii) quando há autorização voluntária para esse acesso pelo titular dos dados (v.g., REsp nº 1.675.501/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 27/10/17; AgRg no HC nº 646.771/PR, Rel. Min. João Otávio de Noronha, Quinta Turma, DJe de 13/8/21; AgRg no HC nº 773.03/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe de 19/10/23; AgRg no AREsp nº 2.347.064/SC, Rel. Min. Reinaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 30/10/23; AgRg na Pet no HC nº 768.319/SP, Rel. Min. Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 20/12/23). No mesmo sentido, cito também o seguinte precedente da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal: “Habeas corpus. 2. Acesso a aparelho celular por policiais sem autorização judicial. Verificação de conversas em aplicativo de WhatsApp. Sigilo das comunicações e da proteção de dados. Direito fundamental à intimidade e à privada privada. Superação da jurisprudência firmada no HC 91.867/PA. Relevante modificação das circunstâncias fáticas e jurídicas. Mutação constitucional. Necessidade de autorização judicial. 3. Violação ao domicílio do réu após apreensão ilegal do celular. 4. Alegação de fornecimento voluntário do acesso ao aparelho telefônico. 5. Necessidade de se estabelecer garantias para a efetivação do direito à não autoincriminação. 6. Ordem concedida para declarar a ilicitude das provas ilícitas e de todas dela derivadas” (HC nº 168.052/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 20/10/20, DJe de 2/12/20). Ademais, o requerimento de autorizaçãojudicial para o acesso a dados não acarreta, por si só, qualquer prejuízo ao andamento das investigações. Primeiro, porque os agentes do sistema de justiça devem conferir à formulação e ao processamento de pedidos dessa natureza a celeridade necessária. Assim, a autoridade policial deve atuar o mais rápido e eficiente possível, ao passo em que o Poder Judiciário deve tramitar e apreciar o pedido com prioridade, inclusive em regime de 34 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ competente; ou (ii) há autorização judicial para o acesso aos dados dos celulares apreendidos; ou, ainda, (iii) quando há autorização voluntária para esse acesso pelo titular dos dados (v.g., REsp nº 1.675.501/MG, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 27/10/17; AgRg no HC nº 646.771/PR, Rel. Min. João Otávio de Noronha, Quinta Turma, DJe de 13/8/21; AgRg no HC nº 773.03/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe de 19/10/23; AgRg no AREsp nº 2.347.064/SC, Rel. Min. Reinaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 30/10/23; AgRg na Pet no HC nº 768.319/SP, Rel. Min. Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 20/12/23). No mesmo sentido, cito também o seguinte precedente da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal: “Habeas corpus. 2. Acesso a aparelho celular por policiais sem autorização judicial. Verificação de conversas em aplicativo de WhatsApp. Sigilo das comunicações e da proteção de dados. Direito fundamental à intimidade e à privada privada. Superação da jurisprudência firmada no HC 91.867/PA. Relevante modificação das circunstâncias fáticas e jurídicas. Mutação constitucional. Necessidade de autorização judicial. 3. Violação ao domicílio do réu após apreensão ilegal do celular. 4. Alegação de fornecimento voluntário do acesso ao aparelho telefônico. 5. Necessidade de se estabelecer garantias para a efetivação do direito à não autoincriminação. 6. Ordem concedida para declarar a ilicitude das provas ilícitas e de todas dela derivadas” (HC nº 168.052/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes, Segunda Turma, julgado em 20/10/20, DJe de 2/12/20). Ademais, o requerimento de autorização judicial para o acesso a dados não acarreta, por si só, qualquer prejuízo ao andamento das investigações. Primeiro, porque os agentes do sistema de justiça devem conferir à formulação e ao processamento de pedidos dessa natureza a celeridade necessária. Assim, a autoridade policial deve atuar o mais rápido e eficiente possível, ao passo em que o Poder Judiciário deve tramitar e apreciar o pedido com prioridade, inclusive em regime de 34 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 82 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ plantão. Segundo, porque é possível à autoridade policial, cautelarmente, preservar dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido, mesmo antes da autorização judicial , por meio do uso de backup – isto é, de uma cópia de segurança dos dados e metadados extraídos do celular apreendido –, conservando-os, na íntegra e intactos, para uma análise futura. A esse respeito, anoto que, hoje, a mera apreensão de equipamento eletrônico pode não ser suficiente para se salvaguardarem dados e metadados nele contidos, tendo em vista a possibilidade de acesso remoto, pelo titular dos dados ou por terceiro, para o fim de excluí-los ou alterá-los. Desse modo, o backup é medida apta a acautelar a futura prova, cuja pertinência e necessidade são presumidas no atual estágio tecnológico. Além disso, há longa data é possível extrair dados sem tratá-los, assim como assegurar, por meios técnicos, a fidedignidade dos dados extraídos. Irregularidades e abusos na preservação da futura prova podem ser constatados pericialmente, em momento oportuno, e, uma vez alegados, são passíveis de controle judicial posterior. Por todas essas razões, acolhendo as sugestões dos Ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Roberto Barroso, as quais agregaram à proposta original hipóteses não contempladas inicialmente, mas de extrema relevância prática, sintetizo a tese de repercussão geral nos seguintes termos: “1. A mera apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. Contudo, o acesso aos dados nele contidos deve observar as seguintes condicionantes: 1.1 Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular, o acesso aos respectivos dados para o fim exclusivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou de quem seja seu proprietário, não depende do consentimento ou de prévia decisão judicial, desde que justificada posteriormente a adoção da medida. 35 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ plantão. Segundo, porque é possível à autoridade policial, cautelarmente, preservar dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido, mesmo antes da autorização judicial , por meio do uso de backup – isto é, de uma cópia de segurança dos dados e metadados extraídos do celular apreendido –, conservando-os, na íntegra e intactos, para uma análise futura. A esse respeito, anoto que, hoje, a mera apreensão de equipamento eletrônico pode não ser suficiente para se salvaguardarem dados e metadados nele contidos, tendo em vista a possibilidade de acesso remoto, pelo titular dos dados ou por terceiro, para o fim de excluí-los ou alterá-los. Desse modo, o backup é medida apta a acautelar a futura prova, cuja pertinência e necessidade são presumidas no atual estágio tecnológico. Além disso, há longa data é possível extrair dados sem tratá-los, assim como assegurar, por meios técnicos, a fidedignidade dos dados extraídos. Irregularidades e abusos na preservação da futura prova podem ser constatados pericialmente, em momento oportuno, e, uma vez alegados, são passíveis de controle judicial posterior. Por todas essas razões, acolhendo as sugestões dos Ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Roberto Barroso, as quais agregaram à proposta original hipóteses não contempladas inicialmente, mas de extrema relevância prática, sintetizo a tese de repercussão geral nos seguintes termos: “1. A mera apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. Contudo, o acesso aos dados nele contidos deve observar as seguintes condicionantes: 1.1 Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular, o acesso aos respectivos dados para o fim exclusivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou de quem seja seu proprietário, não depende do consentimento ou de prévia decisão judicial, desde que justificada posteriormente a adoção da medida. 35 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 83 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ1.2 Em se tratando de aparelho celular apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados está condicionado ao consentimento expresso e livre do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (cf. art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da CRFB/88). Nesses casos, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. 2. A autoridade policial poderá adotar as providências necessárias para a preservação dos dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido, desde que (i) justifique o fundado receio de que os dados sejam eliminados pelo seu titular ou por terceiros; (ii) demonstre, por meios técnicos, que não foi realizado nenhum outro tratamento desses dados”. 2.6 Do exame do caso concreto No caso dos autos, o aparelho celular foi encontrado fortuitamente, no local do crime, e apreendido pela autoridade policial com amparo no art. 6º, inciso II, do CPP, por interessar à investigação. Ademais, pelo que consta dos autos, o acesso aos dados, apesar de não ter sido precedido de autorização judicial, ficou restrito ao objetivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso. Desse modo, o caso dos autos se amolda perfeitamente ao item 1.1 da tese acima, não havendo que se falar em ilicitude da prova em que se baseou o decreto condenatório proferido em primeiro grau de jurisdição. Observo, por fim, que o recurso de apelação da defesa impugnou tão somente o capítulo de sentença referente à dosimetria da pena, de 36 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ 1.2 Em se tratando de aparelho celular apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados está condicionado ao consentimento expresso e livre do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (cf. art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da CRFB/88). Nesses casos, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. 2. A autoridade policial poderá adotar as providências necessárias para a preservação dos dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido, desde que (i) justifique o fundado receio de que os dados sejam eliminados pelo seu titular ou por terceiros; (ii) demonstre, por meios técnicos, que não foi realizado nenhum outro tratamento desses dados”. 2.6 Do exame do caso concreto No caso dos autos, o aparelho celular foi encontrado fortuitamente, no local do crime, e apreendido pela autoridade policial com amparo no art. 6º, inciso II, do CPP, por interessar à investigação. Ademais, pelo que consta dos autos, o acesso aos dados, apesar de não ter sido precedido de autorização judicial, ficou restrito ao objetivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso. Desse modo, o caso dos autos se amolda perfeitamente ao item 1.1 da tese acima, não havendo que se falar em ilicitude da prova em que se baseou o decreto condenatório proferido em primeiro grau de jurisdição. Observo, por fim, que o recurso de apelação da defesa impugnou tão somente o capítulo de sentença referente à dosimetria da pena, de 36 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 84 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ modo que o julgamento do presente recurso extraordinário com agravo torna certa a questão de mérito – e, portanto, a condenação do recorrido, porque, nesse ponto, foi decidida pela última instância do Poder Judiciário Brasileiro – , possibilitando, inclusive, eventual expedição de mandado de prisão para o início do cumprimento da pena , sem prejuízo, logicamente, do retorno dos autos ao Tribunal de Origem para apreciação, COM A MÁXIMA URGÊNCIA, das teses defensivas pertinentes à dosimetria da pena. 3. DISPOSITIVO Ante o exposto, dou provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário para reconhecer a licitude da prova e, por conseguinte, restabelecer a sentença condenatória proferida em primeiro grau de jurisdição em desfavor de GUILHERME CARVALHO FARIAS. Tendo em vista o julgamento do presente recurso, dou por prejudicados os requerimentos constantes das Petições/STF nº 38.990/18 e nº 77.244/17, as quais continham pedido de suspensão de processos que tramitam em instâncias ordinárias. Por fim, acolhidas as valiosas contribuições trazidas pelos eminentes pares por ocasião da sessão de julgamento, reajusto a tese de repercussão geral, cujo teor passa a ser o seguinte: “1. A mera apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. Contudo, o acesso aos dados nele contidos deve observar as seguintes condicionantes: 1.1 Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular, o acesso aos respectivos dados para o fim exclusivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou quem seja o proprietário do aparelho, não depende do consentimento ou de prévia decisão judicial, desde que justificada posteriormente a adoção da medida. 37 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ modo que o julgamento do presente recurso extraordinário com agravo torna certa a questão de mérito – e, portanto, a condenação do recorrido, porque, nesse ponto, foi decidida pela última instância do Poder Judiciário Brasileiro – , possibilitando, inclusive, eventual expedição de mandado de prisão para o início do cumprimento da pena , sem prejuízo, logicamente, do retorno dos autos ao Tribunal de Origem para apreciação, COM A MÁXIMA URGÊNCIA, das teses defensivas pertinentes à dosimetria da pena. 3. DISPOSITIVO Ante o exposto, dou provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário para reconhecer a licitude da prova e, por conseguinte, restabelecer a sentença condenatória proferida em primeiro grau de jurisdição em desfavor de GUILHERME CARVALHO FARIAS. Tendo em vista o julgamento do presente recurso, dou por prejudicados os requerimentos constantes das Petições/STF nº 38.990/18 e nº 77.244/17, as quais continham pedido de suspensão de processos que tramitam em instâncias ordinárias. Por fim, acolhidas as valiosascontribuições trazidas pelos eminentes pares por ocasião da sessão de julgamento, reajusto a tese de repercussão geral, cujo teor passa a ser o seguinte: “1. A mera apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. Contudo, o acesso aos dados nele contidos deve observar as seguintes condicionantes: 1.1 Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular, o acesso aos respectivos dados para o fim exclusivo de esclarecer a autoria do fato supostamente criminoso, ou quem seja o proprietário do aparelho, não depende do consentimento ou de prévia decisão judicial, desde que justificada posteriormente a adoção da medida. 37 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 85 de 219 Voto - MIN. DIAS TOFFOLI ARE 1042075 / RJ 1.2 No caso de aparelho celular apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados está condicionado ao consentimento expresso e livre do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (cf. art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da CRFB/88). Nesses casos, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. 2. A autoridade policial poderá adotar as providências necessárias para a preservação dos dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido, antes da autorização judicial, justificando posteriormente a adoção da medida. 3. As teses acima enunciadas só produzirão efeitos prospectivos, ressalvados os pedidos eventualmente formulados pelas defesas até a data do encerramento do presente julgamento". É como voto. 38 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ 1.2 No caso de aparelho celular apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados está condicionado ao consentimento expresso e livre do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (cf. art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da CRFB/88). Nesses casos, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. 2. A autoridade policial poderá adotar as providências necessárias para a preservação dos dados e metadados contidos no aparelho celular apreendido, antes da autorização judicial, justificando posteriormente a adoção da medida. 3. As teses acima enunciadas só produzirão efeitos prospectivos, ressalvados os pedidos eventualmente formulados pelas defesas até a data do encerramento do presente julgamento". É como voto. 38 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C59D-D0C5-FDC7-8CCB e senha 4208-88B0-E356-F6D4 Inteiro Teor do Acórdão - Página 86 de 219 Proposta 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO PROPOSTA O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Em relação à tese, dado o adiantado da hora, eu poderia fazer a leitura, como eu disse, porque minha tese é atual. Há duas teses: uma tese mais geral e uma tese mais na linha do que Vossa Excelência propôs. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - E aí amadurecemos. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): E aí suspenderíamos e retomaríamos em um outro momento. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Eu sugeriria, então, nessa linha, Ministro Toffoli, se me permite, considerar a proposta do recolhimento - acho que o Ministro Dino enfatizou - associada a eventual excepcionalidade, que justificaríamos pelo princípio da proporcionalidade. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Mas com controle jurisdicional posterior. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): É, mas eu estou só fazendo sugestão, eu não estou fechando a tese, pelo contrário. Estou querendo fazer a leitura das propostas, para que todos nós possamos analisar duas proposições e, depois ‒ não será hoje, em razão do tempo ‒, decidirmos, seja por uma tese mais ampla, seja por uma tese mais restritiva, como propôs o Presidente. Posso, Senhor Presidente, então, fazer a leitura? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Por favor. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Aquilo que seria uma tese mais genérica, que eu estava lendo: 1) O acesso a dados obtidos a partir de aparelhos celulares depende do consentimento do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 8FE3-A95A-6C13-FAF5 e senha B6A3-364D-68BE-9B60 Supremo Tribunal Federal 21/05/2025 PLENÁRIO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 RIO DE JANEIRO PROPOSTA O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Em relação à tese, dado o adiantado da hora, eu poderia fazer a leitura, como eu disse, porque minha tese é atual. Há duas teses: uma tese mais geral e uma tese mais na linha do que Vossa Excelência propôs. O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - E aí amadurecemos. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): E aí suspenderíamos e retomaríamos em um outro momento. O SENHOR MINISTRO GILMAR MENDES - Eu sugeriria, então, nessa linha, Ministro Toffoli, se me permite, considerar a proposta do recolhimento - acho que o Ministro Dino enfatizou - associada a eventual excepcionalidade, que justificaríamos pelo princípio da proporcionalidade. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Mas com controle jurisdicional posterior. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): É, mas eu estou só fazendo sugestão, eu não estou fechando a tese, pelo contrário. Estou querendo fazer a leitura das propostas, para que todos nós possamos analisar duas proposições e, depois ‒ não será hoje, em razão do tempo ‒, decidirmos, seja por uma tese mais ampla, seja por uma tese mais restritiva, como propôs o Presidente. Posso, Senhor Presidente, então, fazer a leitura? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Por favor. O SENHOR MINISTRO DIAS TOFFOLI (RELATOR): Aquilo que seria uma tese mais genérica, que eu estava lendo: 1) O acesso a dados obtidos a partir de aparelhos celulares depende do consentimento do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Leilícita a prova obtida pela autoridade policial, sem autorização judicial, mediante acesso a registro telefônico ou agenda de contatos de celular apreendido ato contínuo no local do crime atribuído ao acusado, não configurando esse acesso ofensa ao sigilo das comunicações, à intimidade ou à privacidade do indivíduo (CF, art. 5º, incisos X e XII)"; e dos votos dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, que negavam provimento ao recurso interposto e propunham a fixação da seguinte tese: “O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações e dados dos indivíduos (CF, art. 5º, X e XX)”, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falou, pelo recorrido, o Dr. Pedro Paulo Lourival Carriello, Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. Plenário, Sessão Virtual de 30.10.2020 a 10.11.2020. Composição: Ministros Luiz Fux (Presidente), Marco Aurélio, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Rosa Weber, Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes. Carmen Lilian Oliveira de Souza Assessora-Chefe do Plenário Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 3F82-B6A1-2399-34C7 e senha 3440-D892-6FCE-6F94 Inteiro Teor do Acórdão - Página 8 de 219 Extrato de Ata - 22/04/2024 PLENÁRIO EXTRATO DE ATA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 PROCED. : RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) : GUILHERME CARVALHO FARIAS ADV.(A/S) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) : DEBORAH MACEDO DUPRAT DE BRITTO PEREIRA (65698/DF) E OUTRO(A/S) Decisão: Após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que dava provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário, de modo que, cassando-se o acórdão recorrido, se determine ao Tribunal de origem que prossiga no julgamento da apelação criminal, conforme de direito, julgando prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF nº 38990/2018 e nº 77244/2017, e fixava a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): "É lícita a prova obtida pela autoridade policial, sem autorização judicial, mediante acesso a registro telefônico ou agenda de contatos de celular apreendido ato contínuo no local do crime atribuído ao acusado, não configurando esse acesso ofensa ao sigilo das comunicações, à intimidade ou à privacidade do indivíduo (CF, art. 5º, incisos X e XII)"; e dos votos dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, que negavam provimento ao recurso interposto e propunham a fixação da seguinte tese: “O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações e dados dos indivíduos (CF, art. 5º, X e XX)”, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falou, pelo recorrido, o Dr. Pedro Paulo Lourival Carriello, Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. Plenário, Sessão Virtual de 30.10.2020 a 10.11.2020. Decisão: Em continuidade de julgamento e após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que, alterando seu entendimento original, negava provimento ao recurso extraordinário com agravo; julgava prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 2C15-2FC4-70D2-F1F8 e senha 6028-1DB7-0EC6-68E0 Supremo Tribunal Federal PLENÁRIO EXTRATO DE ATA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 PROCED. : RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) : GUILHERME CARVALHO FARIAS ADV.(A/S) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) : DEBORAH MACEDO DUPRAT DE BRITTO PEREIRA (65698/DF) E OUTRO(A/S) Decisão: Após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que dava provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário, de modo que, cassando-se o acórdão recorrido, se determine ao Tribunal de origem que prossiga no julgamento da apelação criminal, conforme de direito, julgando prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF nº 38990/2018 e nº 77244/2017, e fixava a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): "É lícita a prova obtida pela autoridade policial, sem autorização judicial, mediante acesso a registro telefônico ou agenda de contatos de celular apreendido ato contínuo no local do crime atribuído ao acusado, não configurando esse acesso ofensa ao sigilo das comunicações, à intimidade ou à privacidade do indivíduo (CF, art. 5º, incisos X e XII)"; e dos votos dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, que negavam provimento ao recurso interposto e propunham a fixação da seguinte tese: “O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações e dados dos indivíduos (CF, art. 5º, X e XX)”, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falou, pelo recorrido, o Dr. Pedro Paulo Lourival Carriello, Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. Plenário, Sessão Virtual de 30.10.2020 a 10.11.2020. Decisão: Em continuidade de julgamento e após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que, alterando seu entendimento original, negava provimento ao recurso extraordinário com agravo; julgava prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 2C15-2FC4-70D2-F1F8 e senha 6028-1DB7-0EC6-68E0 Inteiro Teor do Acórdão - Página 9 de 219 Extrato de Ata - 22/04/2024 nº 38990/2018 e nº 77244/2017, as quais continham pedido de suspensão de processos que tramitam em instâncias ordinárias; e, aderindo, com acréscimo, à proposta do Ministro Gilmar Mendes, propunha a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): “1. O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local donº 12.965/14) que justifique, com base Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 8FE3-A95A-6C13-FAF5 e senha B6A3-364D-68BE-9B60 Inteiro Teor do Acórdão - Página 87 de 219 Proposta ARE 1042075 / RJ em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz de direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da Constituição). 2) A apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º, incisos II e III, do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. A apreensão, para ficar claro, como disse o Ministro Alexandre de Moraes, nem precisaria estar aqui, mas para não ter confusão, colocamos assim, dessa maneira, nessa sugestão genérica. 3) Nas hipóteses de acesso não consentido a dados de telefone celular, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível, e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. Apenas excepcionalmente será possível a preservação dos dados e metadados do titular do dispositivo antes da autorização judicial, caso em que a autoridade policial deve: primeiro, justificar fundado receio de que os dados sejam eliminados por seu titular ou por terceiro. Segundo, demonstrar, por meios técnicos, que não foi realizado nenhum outro tratamento desses dados. Então, essa seria a tese geral. A tese mais específica para o caso seria a seguinte. Depois eu imprimirei as teses e passarei aos gabinetes de Vossas Excelências para a futura discussão, não na data de hoje, até pelo adiantado da hora, evidentemente, se o Presidente quiser continuar a sessão, eu estou à disposição até o horário que for necessário, como Relator, mas só para evitar que talvez façamos um debate agora. Então, eu já me comprometo a mandar os dois textos aos gabinetes dos eminentes colegas. Então, quanto à tese mais restritiva. Na verdade, Vossa Excelência, em relação ao tema de repercussão geral, Vossa Excelência tem razão, ele ficou exatamente, pela ementa da repercussão geral, da seguinte forma: Constitucional. Processo penal. Perícia realizada pela autoridade policial em aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime. Acesso à agenda telefônica etc. Então, ela 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 8FE3-A95A-6C13-FAF5 e senha B6A3-364D-68BE-9B60 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075 / RJ em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz de direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos X e LXXIX, da Constituição). 2) A apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º, incisos II e III, do CPP ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. A apreensão, para ficar claro, como disse o Ministro Alexandre de Moraes, nem precisaria estar aqui, mas para não ter confusão, colocamos assim, dessa maneira, nessa sugestão genérica. 3) Nas hipóteses de acesso não consentido a dados de telefone celular, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível, e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. Apenas excepcionalmente será possível a preservação dos dados e metadados do titular do dispositivo antes da autorização judicial, caso em que a autoridade policial deve: primeiro, justificar fundado receio de que os dados sejam eliminados por seu titular ou por terceiro. Segundo, demonstrar, por meios técnicos, que não foi realizado nenhum outro tratamento desses dados. Então, essa seria a tese geral. A tese mais específica para o caso seria a seguinte. Depois eu imprimirei as teses e passarei aos gabinetes de Vossas Excelências para a futura discussão, não na data de hoje, até pelo adiantado da hora, evidentemente, se o Presidente quiser continuar a sessão, eu estou à disposição até o horário que for necessário, como Relator, mas só para evitar que talvez façamos um debate agora. Então, eu já me comprometo a mandar os dois textos aos gabinetes dos eminentes colegas. Então, quanto à tese mais restritiva. Na verdade, Vossa Excelência, em relação ao tema de repercussão geral, Vossa Excelência tem razão, ele ficou exatamente, pela ementa da repercussão geral, da seguinte forma: Constitucional. Processo penal. Perícia realizada pela autoridade policial em aparelho celular encontrado fortuitamente no local do crime. Acesso à agenda telefônica etc. Então, ela 2 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 8FE3-A95A-6C13-FAF5 e senha B6A3-364D-68BE-9B60 Inteiro Teor do Acórdão - Página 88 de 219 Proposta ARE 1042075 / RJ está mais específica mesmo. Por isso que eu trago duas sugestões, embora eu ache pessoalmente que nós poderíamos avançar para uma questão mais ampla, mas isso é uma questão que nós faremos depois. A tese mais restritiva: 1) Nas hipóteses de encontro fortuito de aparelho celular na cena do crime, o acesso aos respectivos dados não depende do consentimento do proprietário ou de prévia decisão judicial. 2) No caso de aparelho celular apreendido por ocasião de prisão em flagrante, o acesso aos respectivos dados está condicionado ao consentimento expresso e livre do flagranteado ou à obtenção pela autoridade policial de prévia decisão judicial (art. 7º, inciso III, e art. 10, § 2º, da Lei nº 12.965/14) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, incisos V e LXXIX, da Constituição). Nesses casos, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível se o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. Apenas excepcionalmente será possível a preservação dos dados e metadados contidos nos dispositivos apreendidos antes da autorização judicial, caso em que a autoridade policial deve, primeiro, justificar fundado receio de que os dados sejam eliminados por seu titular ou por terceiro; e, segundo, demonstrar, por meios técnicos, que não foi realizado nenhum outro tratamento desses dados. E aquela situação, dentro desse limite, de que a apreensão do celular, nos termos do art. 6º, incisos II e III, ou em flagrante delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. O SENHOR MINISTRO FLÁVIO DINO - Qual a tese mais restrita? O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO (PRESIDENTE) - Essa tese, Ministro Toffoli, parte do princípio de flagrante delito. 3 Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 8FE3-A95A-6C13-FAF5 e senha B6A3-364D-68BE-9B60 Supremo Tribunal Federal ARE 1042075crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, ao sigilo das comunicações e à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF, art. 5º, X, XII e LXXIX). 2. Em tais hipóteses, a celeridade se impõe, devendo a Autoridade Policial atuar com a maior rapidez e eficiência possíveis e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de Plantão”; e do voto do Ministro Flávio Dino, que acompanhava o Ministro Gilmar Mendes negando provimento ao agravo em recurso extraordinário, mas propunha a seguinte tese: “Visando proteger os direitos fundamentais à privacidade e intimidade, o acesso a qualquer conteúdo de aparelho celular apreendido depende de decisão judicial fundamentada. Contudo, a apreensão do aparelho celular, nos termos do artigo 6º do CPP, ou em flagrante delito, bem como a determinação de preservação dos dados e metadados de suspeitos ou investigados, não está sujeita à reserva de jurisdição”, pediu vista dos autos o Ministro André Mendonça. Nesta assentada, o Ministro Edson Fachin passou a acompanhar o voto do Ministro Dias Toffoli. Plenário, Sessão Virtual de 12.4.2024 a 19.4.2024. Composição: Ministros Luís Roberto Barroso (Presidente), Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Luiz Fux, Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Nunes Marques, André Mendonça, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Carmen Lilian Oliveira de Souza Assessora-Chefe do Plenário Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 2C15-2FC4-70D2-F1F8 e senha 6028-1DB7-0EC6-68E0 Supremo Tribunal Federal nº 38990/2018 e nº 77244/2017, as quais continham pedido de suspensão de processos que tramitam em instâncias ordinárias; e, aderindo, com acréscimo, à proposta do Ministro Gilmar Mendes, propunha a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): “1. O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, ao sigilo das comunicações e à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF, art. 5º, X, XII e LXXIX). 2. Em tais hipóteses, a celeridade se impõe, devendo a Autoridade Policial atuar com a maior rapidez e eficiência possíveis e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de Plantão”; e do voto do Ministro Flávio Dino, que acompanhava o Ministro Gilmar Mendes negando provimento ao agravo em recurso extraordinário, mas propunha a seguinte tese: “Visando proteger os direitos fundamentais à privacidade e intimidade, o acesso a qualquer conteúdo de aparelho celular apreendido depende de decisão judicial fundamentada. Contudo, a apreensão do aparelho celular, nos termos do artigo 6º do CPP, ou em flagrante delito, bem como a determinação de preservação dos dados e metadados de suspeitos ou investigados, não está sujeita à reserva de jurisdição”, pediu vista dos autos o Ministro André Mendonça. Nesta assentada, o Ministro Edson Fachin passou a acompanhar o voto do Ministro Dias Toffoli. Plenário, Sessão Virtual de 12.4.2024 a 19.4.2024. Composição: Ministros Luís Roberto Barroso (Presidente), Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Luiz Fux, Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Nunes Marques, André Mendonça, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Carmen Lilian Oliveira de Souza Assessora-Chefe do Plenário Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 2C15-2FC4-70D2-F1F8 e senha 6028-1DB7-0EC6-68E0 Inteiro Teor do Acórdão - Página 10 de 219 Extrato de Ata - 23/09/2024 PLENÁRIO EXTRATO DE ATA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 PROCED. : RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) : GUILHERME CARVALHO FARIAS ADV.(A/S) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) : DEBORAH MACEDO DUPRAT DE BRITTO PEREIRA (65698/DF) E OUTRO(A/S) Decisão: Após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que dava provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário, de modo que, cassando-se o acórdão recorrido, se determine ao Tribunal de origem que prossiga no julgamento da apelação criminal, conforme de direito, julgando prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF nº 38990/2018 e nº 77244/2017, e fixava a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): "É lícita a prova obtida pela autoridade policial, sem autorização judicial, mediante acesso a registro telefônico ou agenda de contatos de celular apreendido ato contínuo no local do crime atribuído ao acusado, não configurando esse acesso ofensa ao sigilo das comunicações, à intimidade ou à privacidade do indivíduo (CF, art. 5º, incisos X e XII)"; e dos votos dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, que negavam provimento ao recurso interposto e propunham a fixação da seguinte tese: “O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações e dados dos indivíduos (CF, art. 5º, X e XX)”, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falou, pelo recorrido, o Dr. Pedro Paulo Lourival Carriello, Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. Plenário, Sessão Virtual de 30.10.2020 a 10.11.2020. Decisão: Em continuidade de julgamento e após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que, alterando seu entendimento original, negava provimento ao recurso extraordinário com agravo; julgava prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 41A6-A8F9-E172-8D7C e senha 14DC-A300-D3C0-1A81 Supremo Tribunal Federal PLENÁRIO EXTRATO DE ATA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 PROCED. : RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) : GUILHERME CARVALHO FARIAS ADV.(A/S) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) : DEBORAH MACEDO DUPRAT DE BRITTO PEREIRA (65698/DF) E OUTRO(A/S) Decisão: Após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que dava provimentoao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário, de modo que, cassando-se o acórdão recorrido, se determine ao Tribunal de origem que prossiga no julgamento da apelação criminal, conforme de direito, julgando prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF nº 38990/2018 e nº 77244/2017, e fixava a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): "É lícita a prova obtida pela autoridade policial, sem autorização judicial, mediante acesso a registro telefônico ou agenda de contatos de celular apreendido ato contínuo no local do crime atribuído ao acusado, não configurando esse acesso ofensa ao sigilo das comunicações, à intimidade ou à privacidade do indivíduo (CF, art. 5º, incisos X e XII)"; e dos votos dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, que negavam provimento ao recurso interposto e propunham a fixação da seguinte tese: “O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações e dados dos indivíduos (CF, art. 5º, X e XX)”, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falou, pelo recorrido, o Dr. Pedro Paulo Lourival Carriello, Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. Plenário, Sessão Virtual de 30.10.2020 a 10.11.2020. Decisão: Em continuidade de julgamento e após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que, alterando seu entendimento original, negava provimento ao recurso extraordinário com agravo; julgava prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 41A6-A8F9-E172-8D7C e senha 14DC-A300-D3C0-1A81 Inteiro Teor do Acórdão - Página 11 de 219 Extrato de Ata - 23/09/2024 nº 38990/2018 e nº 77244/2017, as quais continham pedido de suspensão de processos que tramitam em instâncias ordinárias; e, aderindo, com acréscimo, à proposta do Ministro Gilmar Mendes, propunha a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): “1. O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, ao sigilo das comunicações e à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF, art. 5º, X, XII e LXXIX). 2. Em tais hipóteses, a celeridade se impõe, devendo a Autoridade Policial atuar com a maior rapidez e eficiência possíveis e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de Plantão”; e do voto do Ministro Flávio Dino, que acompanhava o Ministro Gilmar Mendes negando provimento ao agravo em recurso extraordinário, mas propunha a seguinte tese: “Visando proteger os direitos fundamentais à privacidade e intimidade, o acesso a qualquer conteúdo de aparelho celular apreendido depende de decisão judicial fundamentada. Contudo, a apreensão do aparelho celular, nos termos do artigo 6º do CPP, ou em flagrante delito, bem como a determinação de preservação dos dados e metadados de suspeitos ou investigados, não está sujeita à reserva de jurisdição”, pediu vista dos autos o Ministro André Mendonça. Nesta assentada, o Ministro Edson Fachin passou a acompanhar o voto do Ministro Dias Toffoli. Plenário, Sessão Virtual de 12.4.2024 a 19.4.2024. Decisão: Em continuidade de julgamento, pediu vista dos autos o Ministro Cristiano Zanin. Nesta assentada, o Ministro Flávio Dino reajustou seu voto para acompanhar, com ressalvas, o Ministro Dias Toffoli (Relator), negando provimento ao recurso extraordinário, mas mantendo a tese já proposta em assentada anterior. Plenário, Sessão Virtual de 13.9.2024 a 20.9.2024. Composição: Ministros Luís Roberto Barroso (Presidente), Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Luiz Fux, Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Nunes Marques, André Mendonça, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Carmen Lilian Oliveira de Souza Assessora-Chefe do Plenário Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 41A6-A8F9-E172-8D7C e senha 14DC-A300-D3C0-1A81 Supremo Tribunal Federal nº 38990/2018 e nº 77244/2017, as quais continham pedido de suspensão de processos que tramitam em instâncias ordinárias; e, aderindo, com acréscimo, à proposta do Ministro Gilmar Mendes, propunha a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): “1. O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, ao sigilo das comunicações e à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF, art. 5º, X, XII e LXXIX). 2. Em tais hipóteses, a celeridade se impõe, devendo a Autoridade Policial atuar com a maior rapidez e eficiência possíveis e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de Plantão”; e do voto do Ministro Flávio Dino, que acompanhava o Ministro Gilmar Mendes negando provimento ao agravo em recurso extraordinário, mas propunha a seguinte tese: “Visando proteger os direitos fundamentais à privacidade e intimidade, o acesso a qualquer conteúdo de aparelho celular apreendido depende de decisão judicial fundamentada. Contudo, a apreensão do aparelho celular, nos termos do artigo 6º do CPP, ou em flagrante delito, bem como a determinação de preservação dos dados e metadados de suspeitos ou investigados, não está sujeita à reserva de jurisdição”, pediu vista dos autos o Ministro André Mendonça. Nesta assentada, o Ministro Edson Fachin passou a acompanhar o voto do Ministro Dias Toffoli. Plenário, Sessão Virtual de 12.4.2024 a 19.4.2024. Decisão: Em continuidade de julgamento, pediu vista dos autos o Ministro Cristiano Zanin. Nesta assentada, o Ministro Flávio Dino reajustou seu voto para acompanhar, com ressalvas, o Ministro Dias Toffoli (Relator), negando provimento ao recurso extraordinário, mas mantendo a tese já proposta em assentada anterior. Plenário, Sessão Virtual de 13.9.2024 a 20.9.2024. Composição: Ministros Luís Roberto Barroso (Presidente), Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Luiz Fux, Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Nunes Marques, André Mendonça, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Carmen Lilian Oliveira de Souza Assessora-Chefe do Plenário Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 41A6-A8F9-E172-8D7C e senha 14DC-A300-D3C0-1A81 Inteiro Teor do Acórdão - Página 12 de 219 Extrato de Ata - 05/03/2025 PLENÁRIO EXTRATO DE ATA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 PROCED. : RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DEJANEIRO PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) : GUILHERME CARVALHO FARIAS ADV.(A/S) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) : DEBORAH MACEDO DUPRAT DE BRITTO PEREIRA (65698/DF) E OUTRO(A/S) Decisão: Após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que dava provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário, de modo que, cassando-se o acórdão recorrido, se determine ao Tribunal de origem que prossiga no julgamento da apelação criminal, conforme de direito, julgando prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF nº 38990/2018 e nº 77244/2017, e fixava a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): "É lícita a prova obtida pela autoridade policial, sem autorização judicial, mediante acesso a registro telefônico ou agenda de contatos de celular apreendido ato contínuo no local do crime atribuído ao acusado, não configurando esse acesso ofensa ao sigilo das comunicações, à intimidade ou à privacidade do indivíduo (CF, art. 5º, incisos X e XII)"; e dos votos dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, que negavam provimento ao recurso interposto e propunham a fixação da seguinte tese: “O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações e dados dos indivíduos (CF, art. 5º, X e XX)”, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falou, pelo recorrido, o Dr. Pedro Paulo Lourival Carriello, Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. Plenário, Sessão Virtual de 30.10.2020 a 10.11.2020. Decisão: Em continuidade de julgamento e após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que, alterando seu entendimento original, negava provimento ao recurso extraordinário com agravo; julgava prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 027A-9EE4-EB3E-941B e senha 63E5-DC2A-7901-C848 Supremo Tribunal Federal PLENÁRIO EXTRATO DE ATA RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 1.042.075 PROCED. : RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. DIAS TOFFOLI RECTE.(S) : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO RECDO.(A/S) : GUILHERME CARVALHO FARIAS ADV.(A/S) : DEFENSOR PÚBLICO-GERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO AM. CURIAE. : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA PROC.(A/S)(ES) : PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA AM. CURIAE. : INSTITUTO BRASILEIRO DE CIENCIAS CRIMINAIS ADV.(A/S) : DEBORAH MACEDO DUPRAT DE BRITTO PEREIRA (65698/DF) E OUTRO(A/S) Decisão: Após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que dava provimento ao agravo e, ato contínuo, ao recurso extraordinário, de modo que, cassando-se o acórdão recorrido, se determine ao Tribunal de origem que prossiga no julgamento da apelação criminal, conforme de direito, julgando prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF nº 38990/2018 e nº 77244/2017, e fixava a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): "É lícita a prova obtida pela autoridade policial, sem autorização judicial, mediante acesso a registro telefônico ou agenda de contatos de celular apreendido ato contínuo no local do crime atribuído ao acusado, não configurando esse acesso ofensa ao sigilo das comunicações, à intimidade ou à privacidade do indivíduo (CF, art. 5º, incisos X e XII)"; e dos votos dos Ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin, que negavam provimento ao recurso interposto e propunham a fixação da seguinte tese: “O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade e ao sigilo das comunicações e dados dos indivíduos (CF, art. 5º, X e XX)”, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de Moraes. Falou, pelo recorrido, o Dr. Pedro Paulo Lourival Carriello, Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. Plenário, Sessão Virtual de 30.10.2020 a 10.11.2020. Decisão: Em continuidade de julgamento e após o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), que, alterando seu entendimento original, negava provimento ao recurso extraordinário com agravo; julgava prejudicados os requerimentos constantes das petições/STF Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 027A-9EE4-EB3E-941B e senha 63E5-DC2A-7901-C848 Inteiro Teor do Acórdão - Página 13 de 219 Extrato de Ata - 05/03/2025 nº 38990/2018 e nº 77244/2017, as quais continham pedido de suspensão de processos que tramitam em instâncias ordinárias; e, aderindo, com acréscimo, à proposta do Ministro Gilmar Mendes, propunha a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): “1. O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, ao sigilo das comunicações e à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF, art. 5º, X, XII e LXXIX). 2. Em tais hipóteses, a celeridade se impõe, devendo a Autoridade Policial atuar com a maior rapidez e eficiência possíveis e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de Plantão”; e do voto do Ministro Flávio Dino, que acompanhava o Ministro Gilmar Mendes negando provimento ao agravo em recurso extraordinário, mas propunha a seguinte tese: “Visando proteger os direitos fundamentais à privacidade e intimidade, o acesso a qualquer conteúdo de aparelho celular apreendido depende de decisão judicial fundamentada. Contudo, a apreensão do aparelho celular, nos termos do artigo 6º do CPP, ou em flagrante delito, bem como a determinação de preservação dos dados e metadados de suspeitos ou investigados, não está sujeita à reserva de jurisdição”, pediu vista dos autos o Ministro André Mendonça. Nesta assentada, o Ministro Edson Fachin passou a acompanhar o voto do Ministro Dias Toffoli. Plenário, Sessão Virtual de 12.4.2024 a 19.4.2024. Decisão: Em continuidade de julgamento, pediu vista dos autos o Ministro Cristiano Zanin. Nesta assentada, o Ministro Flávio Dino reajustou seu voto para acompanhar, com ressalvas, o Ministro Dias Toffoli (Relator), negando provimento ao recurso extraordinário, mas mantendo a tese já proposta em assentada anterior. Plenário, Sessão Virtual de 13.9.2024 a 20.9.2024. Decisão: Após o voto-vista do Ministro Cristiano Zanin, que acompanhava, com ressalvas, o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), para negarprovimento ao agravo em recurso extraordinário e propor a seguinte tese de repercussão geral para o Tema 977: 1. O acesso a dados obtidos a partir de aparelhos celulares depende do consentimento do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (arts. 7º, III, e 10, § 2º, da Lei n. 12.965/2014) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, X e LXXIX, CR). 2. A apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP, ou em flagrante Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 027A-9EE4-EB3E-941B e senha 63E5-DC2A-7901-C848 Supremo Tribunal Federal nº 38990/2018 e nº 77244/2017, as quais continham pedido de suspensão de processos que tramitam em instâncias ordinárias; e, aderindo, com acréscimo, à proposta do Ministro Gilmar Mendes, propunha a seguinte tese (tema 977 da repercussão geral): “1. O acesso a registro telefônico, agenda de contatos e demais dados contidos em aparelhos celulares apreendidos no local do crime atribuído ao acusado depende de prévia decisão judicial que justifique, com base em elementos concretos, a necessidade e a adequação da medida e delimite a sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, ao sigilo das comunicações e à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais (CF, art. 5º, X, XII e LXXIX). 2. Em tais hipóteses, a celeridade se impõe, devendo a Autoridade Policial atuar com a maior rapidez e eficiência possíveis e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de Plantão”; e do voto do Ministro Flávio Dino, que acompanhava o Ministro Gilmar Mendes negando provimento ao agravo em recurso extraordinário, mas propunha a seguinte tese: “Visando proteger os direitos fundamentais à privacidade e intimidade, o acesso a qualquer conteúdo de aparelho celular apreendido depende de decisão judicial fundamentada. Contudo, a apreensão do aparelho celular, nos termos do artigo 6º do CPP, ou em flagrante delito, bem como a determinação de preservação dos dados e metadados de suspeitos ou investigados, não está sujeita à reserva de jurisdição”, pediu vista dos autos o Ministro André Mendonça. Nesta assentada, o Ministro Edson Fachin passou a acompanhar o voto do Ministro Dias Toffoli. Plenário, Sessão Virtual de 12.4.2024 a 19.4.2024. Decisão: Em continuidade de julgamento, pediu vista dos autos o Ministro Cristiano Zanin. Nesta assentada, o Ministro Flávio Dino reajustou seu voto para acompanhar, com ressalvas, o Ministro Dias Toffoli (Relator), negando provimento ao recurso extraordinário, mas mantendo a tese já proposta em assentada anterior. Plenário, Sessão Virtual de 13.9.2024 a 20.9.2024. Decisão: Após o voto-vista do Ministro Cristiano Zanin, que acompanhava, com ressalvas, o voto do Ministro Dias Toffoli (Relator), para negar provimento ao agravo em recurso extraordinário e propor a seguinte tese de repercussão geral para o Tema 977: 1. O acesso a dados obtidos a partir de aparelhos celulares depende do consentimento do titular dos dados ou de prévia decisão judicial (arts. 7º, III, e 10, § 2º, da Lei n. 12.965/2014) que justifique, com base em elementos concretos, a proporcionalidade da medida e delimite sua abrangência à luz dos direitos fundamentais à intimidade, à privacidade, à proteção dos dados pessoais e à autodeterminação informacional, inclusive nos meios digitais (art. 5º, X e LXXIX, CR). 2. A apreensão do aparelho celular, nos termos do art. 6º do CPP, ou em flagrante Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 027A-9EE4-EB3E-941B e senha 63E5-DC2A-7901-C848 Inteiro Teor do Acórdão - Página 14 de 219 Extrato de Ata - 05/03/2025 delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. 3. Nas hipóteses de acesso não consentido a dados de telefone celular, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. Apenas excepcionalmente será possível a preservação dos dados e metadados do titular do dispositivo, antes da autorização judicial, caso em que a autoridade policial deve (i) justificar o fundado receio de que os dados sejam eliminados pelo seu titular ou por terceiros e (ii) demonstrar, por meios técnicos, que não foi realizado nenhum outro tratamento desses dados; e do voto do Ministro Luís Roberto Barroso (Presidente), que conhecia do agravo e dava-lhe provimento para dar provimento ao recurso extraordinário do Ministério Público do Rio de Janeiro, determinando que o Tribunal de origem prossiga no julgamento da apelação da defesa (o TJ/RJ deve examinar as teses veiculadas pela defesa na apelação, consistentes, basicamente, nos questionamentos com relação à dosimetria da pena. Obs: na apelação, a defesa não cogitou de nulidade da prova), propondo a fixação da seguinte tese de julgamento: “A autoridade policial pode examinar, independentemente de autorização judicial, os registros das últimas chamadas e a agenda de contatos telefônicos armazenados em aparelho celular abandonado pelo acusado no local do crime”, o processo foi destacado pelo Ministro Flávio Dino. Plenário, Sessão Virtual de 21.2.2025 a 28.2.2025. Composição: Ministros Luís Roberto Barroso (Presidente), Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Luiz Fux, Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Nunes Marques, André Mendonça, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Carmen Lilian Oliveira de Souza Assessora-Chefe do Plenário Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código 027A-9EE4-EB3E-941B e senha 63E5-DC2A-7901-C848 Supremo Tribunal Federal delito, não está sujeita à reserva de jurisdição. 3. Nas hipóteses de acesso não consentido a dados de telefone celular, a celeridade se impõe, devendo a autoridade policial atuar com a maior rapidez e eficiência possível e o Poder Judiciário conferir tramitação e apreciação prioritárias aos pedidos dessa natureza, inclusive em regime de plantão. Apenas excepcionalmente será possível a preservação dos dados e metadados do titular do dispositivo, antes da autorização judicial, caso em que a autoridade policial deve (i) justificar o fundado receio de que os dados sejam eliminados pelo seu titular ou por terceiros e (ii) demonstrar, por meios técnicos, que não foi realizado nenhum outro tratamento desses dados; e do voto do Ministro Luís Roberto Barroso (Presidente), que conhecia do agravo e dava-lhe provimento para dar provimento ao recurso extraordinário do Ministério Público do Rio de Janeiro, determinando que o Tribunal de origem prossiga no julgamento da apelação da defesa (o TJ/RJ deve examinar as teses veiculadas pela defesa na apelação, consistentes, basicamente, nos questionamentos com relação à dosimetria da pena. Obs: na apelação, a defesa não cogitou de nulidade da prova), propondo a fixação da seguinte tese de julgamento: “A autoridade policial pode examinar, independentemente de autorização judicial, os registros das últimas chamadas e a agenda de contatos telefônicos armazenados