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1 Letícia S. Goes (Ezalta) – Vet18 EMERGÊNCIAS NA ANESTESIA Riscos da anestesia: 41% dos óbitos acontecem em pacientes das categorias ASA I e II (Miller, 1989). EMERGÊNCIAS RELACIONADAS AO EQUIPAMENTO Para evitar qualquer contratempo é importante checar todo o equipamento. A. Bomba de infusão (anestesias intravenosas) B. Quantidade suficiente de anestésico C. Verificar se os gases estão em volume adequado D. Conexões das fontes de gás E. Sonda orotraqueal É importante colocar a sonda no animal no início do procedimento anestésico, pois se ocorrer alguma emergência o paciente já está pronto para receber assistência ventilatória. Antes da intubação: Verificar se o balonete (Cuff) está inflando corretamente. Caso ele não esteja inflado, quando entubar o animal, haverá um espaço entre a traqueia e a sonda, por onde passa ar ambiente. No caso de uma anestesia inalatória a mistura inspirada irá se diluir, e no caso da realização de ventilação do paciente, no momento em que se colocar a pressão positiva dentro dos pulmões ela irá sair pelo espaço livre. Verificar possível obstrução por objetos e obstruções por secreções e solidificações. Problemas: Cuff com pouca ou muita pressão. Tamanho inadequado. Intubação incorreta (por falsa via). Extubação acidental. Dobra = animal não recebe anestésico e também não realiza as trocas gasosas → óbito. Sintomas observado: dificuldade de manutenção da anestesia; dispneia; cianose; ausência de capnometria. F. Traqueias e válvulas Verificar se há vazamentos na traqueia. Se isso estiver ocorrendo, o paciente não recebe o gás anestésico na concentração correta. Verificar se há líquidos nos tubos. Em animais de porte muito pequeno, nos quais os tubos usados são muito finos, a existência de líquidos nas traqueias pode reduzir o fluxo de gás. Isso pode ocasionar resistência expiratória ou inspiratória, a complicação disso é o cansaço da musculatura respiratória do paciente. Além disso, o animal pode acabar inspirando esse liquido. Verificar o funcionamento das válvulas. As válvulas inspiratória e expiratória são de fácil checagem, elas possuem uma cúpula transparente, por onde é possível visualizar a válvula se movimentando à medida que o paciente inspira ou expira. Qualquer uma dessas válvulas travada leva a risco de vida ao paciente. Já se a válvula de alívio estiver travada, a pressão dentro do circuito irá aumentar, tornando-se maior do que a pressão expiratória do paciente, assim, ele não consegue expirar → hipercapnia. G. Balão reservatório Pode ocorre a fusão da borracha, em balões usados com muita frequência, o que causa pequenos furos por onde o gás escapa. Com isso, temos perda, considerável, do controle da anestesia. Se o balão estiver sem a sua tampa, todo o volume que deveria estar enchendo o balão está escoando para o meio ambiente. A associação disso com o fluxometro emitindo um fluxo menor que o volume corrente do paciente (que é o correto a se fazer na rotina), quando o paciente tentar respirar ele irá receber fluxo incompatível com suas necessidades respiratórias → pois o balão que deveria receber e armazenar o gás, está vazando. Presença de conservantes. Balões novos vem com talco no seu interior e exterior, assim, é importante lavar o balão para que o paciente não inspire o talco. H. Vaporizador e conexões Os vaporizadores calibrados exigem que a cada certo período de tempo seja realizada uma calibragem. Se isso não for feito, pode ocorrer ajuste impreciso da concentração do gás. Se a concentração estiver menor que a indicada para o anestésico, o paciente não estará devidamente anestesiado; por outro lado se a concentração estiver maior, a anestesia pode estar mais profunda do que a desejada. Para resolver isso, é necessário utilizar o esquema de Guedel. 2 Letícia S. Goes (Ezalta) – Vet18 Verificar se, no vaporizador universal de borbulhamento, não há restos de outro anestésico, para evitar que ocorra mistura de agentes anestésicos. Verificar se o equipamento está operando. Atenção, a presença de borbulhamento não indica, necessariamente, o fornecimento de vapor anestésico. Pois a conexão do vaporizador com o restante do circuito pode não estar correta. I. Caníster Cal sodada muito usada, não irá absorver dióxido de carbono → indicador de absorção inativo, ou seja, não irá indicar a presença de dióxido de carbono → paciente irá reinalar todo o dióxido de carbono expirado. Excesso de umidade. Ao fim da cirurgia, pode-se retirar a cal sodada do caníster e deixar ela exposta ao ambiente para que a umidade evapore e para que o CO2 seja devolvido ao ambiente. Vazamentos. EMERGÊNCIAS RELACIONADAS AO SISTEMA RESPIRATÓRIO A não identificação de problemas relacionadas ao sistema respiratório e o não tratamento podem resultar em hipóxia (principalmente do SNC), hipercapnia e alterações cardiovasculares severas. A. Obstrução respiratória A obstrução respiratória pode ser causada por cirurgias na boca, devido à presença de coágulos e secreções, a sondagem orotraqueal evita essa complicação. Além disso, pode ocorrer dobraduras na sonda orotraqueal, o que leva a óbito caso não for corrigido a tempo, assim, é importante ter cuidado ao posicionar o animal. Outra causa de obstrução respiratória é a formação de secreções pulmonares, nesse caso pode ser feita a aspiração (com tubo fino dentro da sonda) do conteúdo sem extubar o paciente. B. Espasmo laringeal e bronquial O espasmo laringeal é mais comum de ocorrer nos felinos (pois essa espécie não perde o reflexo laringeal), como resultado de tentativas forçadas de intubação. Em cães, também, ocorre, porém mais frequentemente devido ao retardo na extubação do paciente. Esse reflexo promove obstrução da via respiratória. Técnica para a intubação de felinos: com o animal na posição adequada, traciona-se a língua, posicionando-a entre os caninos e então administra-se lidocaína em spray na laringe ou miorrelaxantes de ação periférica e introduz-se a sonda. A extubação, em todas as espécies, é feita no momento em que, ao mexer discretamente na sonda, o animal demonstra a presença de reflexo. No gato, que sempre tem reflexo laringotraqueal, a extubação deve ser feita quando ele realiza movimentos respiratório mais fortes. C. Apnéia ou hipoventilação A apnéia normalmente advém de sobredose de anestésico (aprofundamento do plano anestésico). Em planos anestésicos superficiais, também ocorre, mas nesse caso o animal realiza pausas inspiratórias (para de respirar por alguns segundos ou um minuto e, então, retorna). As causas dessa complicação são: (1) a característica, de todos os anestésicos gerais, de redução das respostas dos receptores dos seios carotídeos e aórticos ao aumento de CO2 no sangue arterial. Esses receptores são responsáveis por captar o aumento do dióxido de carbono e sinalizar ao bulbo cerebral, o que comanda o aumento da frequência respiratória. (2) Uso inadequado de miorrelaxantes, em que ocorre relaxamento dos músculos da respiração (diafragma e parede torácica). (3) Perda de pressão negativa intratorácica, comum em traumas ou em tentativas de tratamento, que podem levar a invasão do tórax (por ex. exame de fratura de costela, o clinico pode provocar a perfuração da pele permitindo a entrada de ar). (4) Perda da função pulmonar, que ocorre, geralmente, devido a edema, o acumulo de liquido no interior dos alvéolos impede a inflação do pulmão. Com relação ao tratamento primeiramente deve-se identificar e eliminar a causa: Plano anestésico muito profundo, superficializa-se o plano; Perda da pressão negativa, realiza a ventilação do paciente e restituição dessa pressão. Apneias persistentes exigem ventilação, a qual pode ser controlada, isto é, equipamentos controlam a ventilação, ou assistida, em que o anestesista realiza a ventilação pressionando o balão reservatório do aparelho de anestesia. Por isso em todo procedimento é importante que o animal esteja intubado. Como ventilar o paciente: quando a apnéia é identificada precocemente, utiliza-se a mesma frequência e amplitude que o paciente apresentava imediatamente antes da apnéia 3 Letícia S. Goes (Ezalta) – Vet18 ocorrer. Caso ela tenha sido identificada tardiamente e o animal já apresenta sinais de hipóxia, cianose, aumento de pressão intracraniana, a ventilação deve ser feita com alta amplitude e frequência (hiperventilação). Deve-se evitar a hiperventilação continua, pois com isso há maior eficiência na eliminação do CO2 e o paciente deixa de realizar respiração espontânea, já que o bulbo cerebral não está recebendo estimulo do aumento da PaCO2 no sangue arterial. Assim, após a hipóxia ser resolvida deve-se reduzir a ventilação, para que a PaCO2 retorne aos valores fisiológicos (35 – 45 mmHg). Manter a pressão positiva inspiratória (a qual pode ser monitorada no aparelho de anestesia) em, no máximo, 20 cm H2O, nos pulmões sadios. Já em pulmões com edema pode-se utilizar até 60 cm H2O, pois aplicando maior pressão o alvéolo irá se distender, desse modo, a área livre de liquido, onde ocorrem as trocas gasosas, aumentará (se a quantidade de liquido for constante). A consequência desse aumento do volume alveolar é o barotrauma, ou seja, uma certa quantidade de alvéolos é rompida devido à alta pressão. Em alguns casos, que o paciente não volta a respirar, pode- se usar analéptico respiratório (doxapram 1 mg/kg/IV). Monitorar oximetria (porcentagem de oxiemoglobina satura por oxigênio) e capnometria (concentração de CO2 no fim da expiração – ETCO2). Oximetria – o oximetro de pulso é colocado nas regiões menos pigmentadas, preferencialmente a língua. Método não invasivo de leitura da oximetria. Interpretação da oximetria – o monitor mostra a porcentagem de saturação O2, para interpretar isso é necessário correlacionar esse valor com a PaO2, de acordo com a tabela a seguir: Capnometria – a ETCO2 representa o pico de CO2 expirado pelo paciente, que é equivalente a PaCO2. A capnometria normal é entre 35 e 45 mmHg. O sensor é colocado entre a sonda orotraqueal e a traquéia do aparelho de anestésica. Se o paciente está com a sua capnometria muito baixa, ele não respira espontaneamente, pois não há estimulo (quantidade mínima de CO2 no sangue) para a respiração. O que deve ser feito nesse caso é reduzir a ventilação, diminuindo a amplitude, frequência ou ambas. Também pode-se intercalar pausas inspiratórias de no máximo 30 segundos, de modo a se aumentar o CO2. Já se a capnometria está alta e o paciente não respira espontaneamente, significa que algo o está impedindo de conseguir respirar (como a pouca resposta ao CO2, plano anestésico muito profundo). D. Taquipnéia Normalmente ocorre devido à redução da expansão pulmonar. Nesse sentido, a taquipnéia ocorre, pois, o organismo prioriza a manutenção do volume minuto (Vmin = FR x Volume corrente). Como o animal não está conseguindo expandir o pulmão propriamente, o organismo aumenta a FR na tentativa de manter o volume minuto. Causas: obesidade, pneumotórax, hérnia diafragmática, distensão abdominal, plano anestésico superficial (quando o animal está acordando ele tende a aumentar sua FR devido a dor – isso não deve ocorrer), sensibilização dos receptores de distensão. E. Bradipnéia A causa mais comum é plano anestésico profundo, devido à redução da atividade bulbar. Mais raramente, isso pode ocorrer devido ao uso de miorrelaxantes de ação central. Tratar com assistência respiratória, caso o animal necessite ser mantido em plano anestésico profundo. Por outro lado, se houve um aprofundamento incorreto da anestesia isso deve ser identificado rapidamente e corrigido. Também pode-se utilizar o doxapram, 1 mg/kg IV (estimulante do SNC). Estar atento pois o paciente pode voltar a consciência inesperadamente. EMERGÊNCIAS RELACIONADAS AO SISTEMA CARDIOVASCULAR A. Bradicardia A ocorrência de bradicardia está, na maioria dos casos, relacionada à profundidade da anestesia. O tratamento em pequenos animais é feito, principalmente, com a atropina (0,044 mg/kg), fármaco parassimpatolítico, que compete com a acetilcolina pelos receptores muscarinícos do coração. Com relação a grandes animais, não é recomendado utilizar esse fármaco, pois nos equinos Figura 1. Correlação entre a saturação e a PaO2 em animais recebendo 100% de O2 a 1 atm. 4 Letícia S. Goes (Ezalta) – Vet18 ele causa atonia intestinal severa e nos bovinos, atonia ruminal. Entretanto, as bradicardias relacionadas a hipotermia não são resolvidas com a atropina, pois ela não consegue atuar adequadamente nesses casos. Assim, quando o quadro é refratário a atropina, utiliza-se dopamina ou dobutamina em infusão contínua. Em pequenos animais, frequentemente ocorre bradicardia severa em cirurgias cervicais (devido a estimulação do nervo vago). Pode-se, preventivamente, aplicar anestésico local do nervo vago ou tratar com atropina. A atropina é administrada por via IV, em emergências. Por essa via, o nível sérico sobe muito, mas cai rapidamente, assim, pode-se associar a via IV com a SC ou IM. Em casos de parada cardíaca, o sangue não está circulando, portanto, não é possível realizar a administração intravenosa, desse modo, utiliza-se a via intratraqueal e realiza-se massagem cardíaca para o fármaco atingir o coração. B. Taquicardia Na ocorrência de taquicardia é importante: Avaliar se existe risco de hipóxia do miocárdio; Verificar o plano anestésico, a superficialização inadequada produz taquicardia devido a dor. O tratamento, nesse caso, é a aplicação de terapia antiálgica (ex. opióides) e aprofundar a anestesia para o plano correto; Verificar a pressão arterial, PA diminui → VS diminui → DC diminui e, de forma compensatória, o coração aumenta a FC. Nesse caso, deve-se utilizar fármacos que reestabelecem a pressão. O tratamento da taquicardia (quando não se sabe a causa) é feito com beta bloqueadores, como propranolol. Deve-se ter cuidado com a pressão arterial, pois se a dose for muito alta, pode ocorrer hipotensão severa, além da taquicardia não ser resolvida. Ademais, nas taquicardias pode ocorrer complexos prematuros ventriculares (CPVs), batimentos cardíacos de origem não sinusal (extra-sístoles ventriculares). Isso é tratado com anestésico local, comumente, a lidocaína (1 – 2 mg/kg) por via IV. C. Arritmias As causas mais comuns de arritmias são: Halotano, principal causa. Além disso, os barbitúricos também podem ocasionar arritmia e a cetamina, em corações predispostos. Fármacos parassimpatomiméticos, por ex. a xilazina usada isoladamente em pequenos animais. Doença cardíaca pré-existente. Síndrome dilatação-torção gástrica, comum em cães de porte grande. Durante a cirurgia, após a reversão dessa síndrome, pode ocorrer arritmias severas, que perduram por até 48hrs. Raças predispostas. Estresse pré-anestésico não controlado, isto é liberação de catecolaminas. Nesse caso, a PA pode estar alta e o miocárdio sensibilizado às catecolaminas. O uso de fenotiazinicos pode prevenir esse quadro, além disso, esses fármacos são adrenolíticos, promovendo proteção contra descargas endógenas excessivas de catecolaminas. No caso de grande estresse associado a hipotensão não usar fenotiazinicos, nesse caso, utiliza-se opióides (retira a dor → diminui o estresse). Bloqueio atrioventricular grau I – o nodo atrioventricular retarda a passagem do impulso elétrico do átrio para o ventrículo. No eletrocardiograma, observa-se um aumento de tempo entre o intervalo da onda P (despolarização do átrio) e da onda R (despolarização do ventrículo). O tempo normal desse intervalo deve ser menor do que 0,16s. O tratamento é feito com atropina (pequenos animais), 0,044 mg/kg ou dobutamina (grandes animais), 5 a 10 µg/kg/min. Bloqueio atrioventricular grau II – o átrio despolariza e, muitas vezes, o ventrículo não despolariza em seguida. Observa-se no eletrocardiograma, ondas Ps (despolarização do átrio) não relacionadas com um complexo QRS (despolarização do ventrículo). O tratamento é feito com atropina (pequenos animais), 0,044 mg/kg ou dobutamina (grandes animais), 5 a 10 µg/kg/min. Hipóxia do miocárdio – normalmente está relacionada com a taquicardia, nesse caso o tratamento é a redução da FR e melhora da ventilação. Se não estiver relacionada com a taquicardia, melhora-se a ventilação. No eletrocardiograma, a onda T não pode ser maior que 1/3 que a onda R, se isso 5 Letícia S. Goes (Ezalta) – Vet18 ocorrer, indica hipóxia do miocárdio. Se não tratar o coração pode entrar em fibrilação. Arritmia ventricular sustentada – foco (fora do nodo sinoatrial) no miocárdio ventricular despolarizando, chamado de batimento ectópico. Se não for tratado o coração entra em fibrilação. Tratamento é feito com lidocaína (melhor opção), 1 a 2 mg/kg ou pracaínamida, caso não resolva o problema, administra-se lidocaína em infusão contínua. Em último caso, realiza-se cardioversão elétrica. Fibrilação ventricular – o tratamento é feito usando um desfibrilador, para parar o coração e “inicia-lo” novamente com estímulos vindos, apenas, dos nodos sinoatrial e atrioventricular. Desfibrilador ajustado para 4 a 7 J/kg. Ao dar a primeira carga, a “resistência da caixa torácica cai”, na segunda carga, a baixa resistência faz com que chegue mais energia, assim, não é preciso aumentar a energia, nesse momento. Depois que essa resistência estiver constante, pode-se aumentar a energia. Atingido a carga máxima de 7 J/kg, inicia-se processos de suporte avançado da vida (aplicação de fármacos, massagem cardíaca, ventilação). Através da capnometria, identifica-se o momento em que já não é mais possível recuperar o paciente (capnometria igual a zero). Outro tratamento é a pancada precordial, utilizada quando não há desfibrilador. D. Hipotensão Identificar e eliminar a causa. O tratamento pode ser: aumentar o fluxo de fluidos e/ou utilizar fármacos alfa-adrenérgicos (principal tratamento). Adrenalina, não utilizar com halotano (0,2 µg/kg/min). Dopamina (5 a 10 mg/kg/min). Dobutamina (3 a 10 mg/kg/min). Metaraminol (0,1 mg/kg/min), único fármaco que corrige a pressão sem afetar a FC.