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Aspectos Antropológicos e Sociológicos Marcos R. C. Ketelhut AULA 12 Novos complexos culturais e a educação Novas relações Na mudança de uma cultura baseada nos meios impressos para uma cultura baseada nos meios audiovisuais e nos computadores, gera-se um sujeito com novas e diferentes capacidades e habilidades. Essas importantes transformações exigem novas interpretações e novos olhares. Elas não podem ser interpretadas no registro conservador do pânico moral e da visão patologizante que vê a ampliação da influência da cultura popular e o predomínio dos novos meios e conteúdos culturais como uma ameaça a tradicionais valores e capacidades supostamente mais universais, humanos e superiores. O novo mapa cultural formado por essas revolucionárias configurações culturais não pode ser interpretado como déficit, patologia, carência, degeneração, degradação e involução. Ele tampouco pode ser interpretado na chave, supostamente progressista e benigna, de uma tradição de crítica cultural quê vê os novos meios e conteúdos proporcionados pela cultura de massa como produtores de uma população passiva, mistificada e alienada. Nessa perspectiva, as novas identidades sociais assim produzidas também são vistas como patológicas, embora elas se refiram não a um passado mítico e supostamente mais íntegro, mais completo e autêntico, mas aos mecanismos alienantes do processo de mercantilização da cultura. Moole A INDUSTRIA CULTURAL T Supostamente, essas formas culturais – a “alta cultura”: da literatura, das artes e das ciências – encarnariam valores, capacidades e conhecimentos “superiores” e mais genuinamente humanos. A outra, a tradição da crítica à “cultura de massa”, tem apresentado poucas sugestões em termos de educação e currículo. Nessa tradição, o currículo deveria incluir formas de desenvolver uma apreciação crítica da ideologia da mídia da cultura popular, ancorada provavelmente em capacidades e habilidades mais próprias da cultura escrita e impressa. Aqui, como lá, a “cultura de massa”, os novos meios, novas formas e conteúdos culturais são colocados sob suspeita, são vistos como “o outro” de uma forma cultural superior, representada, esta, pela educação institucionalizada: a escola [...]. Elas implicam, sim, na produção de novas capacidades e habilidades. Essas novas subjetividades não podem ser entendidas como carência e desvio em relação a outras formas históricas de produção e transformação cultural. O currículo é o espaço em que se corporificam formas de conhecimento e de saber. Como tal, o descaso pelas radicais transformações efetuadas na produção da subjetividade e pelas novas mídias, demonstrado pela escola e pelos educadores profissionais, significa deixar de fora desse espaço formas importantes de conhecimento e de saber que, no entanto, à contracorrente da escola, estão, na realidade, moldando e formando novos meios de existência e sociabilidade. “O que precisamos é de formas criativas, abertas, renovadas de pensar e desenvolver currículos que levem em conta esses novos mapas e configurações sociais.” (CANDAU, p. 12) 1. Novas identidades culturais Existem muitas formas de abordar a questão da identidade. A própria flexão da palavra no singular ou no plural expressa, por si só, um posicionamento teórico- conceitual. ?? O termo “identidade” é relativamente novo nas ciências sociais, tornando-se um conceito central apenas nos meados do século XX. Contudo, as questões que hoje estão implicadas na rubrica da identidade não foram inteiramente desconhecidas dos clássicos. Podemos ser um e muitos ao mesmo tempo, e em diferentes tempos. A identidade parece que está à deriva no tempo e no espaço, o que a torna permanentemente capturável, ancorável, mas, paradoxalmente, ao mesmo tempo escorregadia – uma celebração móvel. A constituição da identidade de crianças e jovens como estudantes e como sujeitos do currículo se dá no entrecruzamento de vários fluxos e redes de poder. Os sujeitos escolares são subjetivados simultaneamente por múltiplos discursos. “Crianças e jovens, quando chegam à escola, já foram objeto de um conjunto de discursos, que produziram diferentes “posições de sujeito”, entre eles, aqueles que os constituem como consumidores, como clientes.” (DEBORD, p.26) O sujeito, antes concebido como uma agência centrada, estável e geradora do sentido identitário, tem sua posição deslocada. Crianças, jovens, mulheres, negros, idosos, docentes, surdos, entre outros, são exemplos de identidades recriadas e reinventadas de múltiplas formas pelas variadas narrativas que passam a circular de forma planetária, fazendo aparecer novos atores sociais. “(...) delineiam-se nitidamente as condições que instauram o caráter provisório e construído das identidades.” (BIGUM, p. 33) “Não poderemos vencer uma competição contra as pedagogias da mídia, tampouco deveremos fugir amedrontados de nossos alunos e alunas, bem como seria inépcia desqualificar e desperdiçar nossas habilidades e capacidades para viver num mundo que, concordemos ou não, parece que está se tornando cada vez mais pós- moderno.” (VORRABER, p.51) 2. O ser cultural e a virtualidade Identidade é o processo pelo qual um ator social se reconhece e constrói significado, principalmente com base em determinado atributo cultural, a ponto de excluir uma referência mais ampla a outras estruturas sociais. 2500 A afirmação de identidade não significa necessariamente incapacidade de relacionar-se com outras identidades, ou necessidade de abarcar toda a sociedade sob essa identidade. Numa sociedade pós-industrial, em que os serviços culturais substituíram os bens materiais no cerne da produção, é a defesa da personalidade e cultura do sujeito contra a lógica dos aparatos e mercados que substitui a ideia de luta de classe. Como a cultura é mediada e determinada pela comunicação, as próprias culturas, isto é, nossos sistemas de crenças e códigos historicamente produzidos, são transformadas de maneira fundamental pelo novo sistema tecnológico. A era da informação está introduzindo uma nova forma urbana: a cidade informacional. A crescente dissociação entre a proximidade espacial e o desempenho das funções rotineiras, como trabalho, compras, entretenimento, assistência à saúde, educação, serviços públicos e governo, significa o fim das cidades? areamsGINTSCON