Prévia do material em texto
PRIMEIRA IMPRESSÃO DA UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE Refletindo sobre a Vulnerabilidade: Um Olhar Profundo nas Fragilidades Humanas Abel Freitag e Tatiane Borzuk da Fonseca O texto a seguir foi produzido a partir de uma Revisão de quatro artigos científicos das bases PUBMED e SciELO e serão disponibilizados para os acadêmicos realizar a leitura na íntegra. O conceito de vulnerabilidade tem ganhado destaque no campo da saúde pública nas últimas décadas, proporcionando uma nova perspectiva sobre os determinantes sociais, econômicos e institucionais que afetam a saúde das populações. Entender a vulnerabilidade é crucial para vocês, como futuros médicos, possam identificar e agir sobre as diferentes dimensões que influenciam o processo saúde-doença em seus pacientes. Este conhecimento será fundamental na seleção dos temas para o Projeto Integrador, onde vocês terão a oportunidade de aplicar essa compreensão teórica em intervenções práticas. Ao explorar as diversas facetas da vulnerabilidade, vocês estarão melhor preparados para desenvolver projetos que abordem não só a prevenção e o tratamento de doenças, mas também as iniquidades sociais que impactam a saúde das comunidades que vocês servirão. Este é o primeiro passo para uma abordagem mais abrangente e humanizada na medicina, onde o entendimento das condições de vulnerabilidade pode transformar o cuidado em saúde. Há mais de duas décadas, o conceito de vulnerabilidade goza de prestígio no campo da saúde pública. Sua incorporação foi apresentada como alternativa analítica e como abertura promissora frente à indiscutida hegemonia alcançada pelo conceito de risco, originário da abordagem epidemiológica (OVIEDO, 2015). A incorporação da vulnerabilidade como objeto de reflexão sistemática no campo da saúde pública foi influenciada por esse contexto social, ainda que a chamada Epidemiologia Social tivesse desenvolvido conceitos afins desde a década de 1950. Nessa época, Cassel propôs o conceito de susceptibilidade, relacionado com a condição nutricional, fadiga, sobrecarga laboral, cuja lógica produz um deslocamento da preocupação com a etiologia específica para o estudo de uma predisposição generalizada. Enxergar os fenômenos estruturantes que medeiam processos específicos de saúde-doença, levando em conta condições e capacidades de agência dos próprios indivíduos e grupos, é a especificidade dos estudos sobre vulnerabilidade. Seu contexto é um dos determinantes para o adoecimento, essa característica está articulada à qualidade de vida e fatores relacionados a ela, como influenciador, compreendendo também as características das doenças crônicas e agudas, morbidade e mortalidade. Em 1946, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”, não considerou apenas a ausência da doença, corroborando com a compreensão de que as condições de vida, quando relacionadas a acesso ao emprego, renda, informação, educação, serviços sociais e serviços de saúde, frequentemente, desencadeiam padrões de adoecimento que se tornam característicos em populações vulneráveis (OLIVEIRA LOPES e SOARES, 2023). O termo vulnerabilidade é comumente empregado para designar suscetibilidades das pessoas a problemas e danos de saúde. Contempla, também, a probabilidade de uma determinada comunidade ou área geográfica ser afetada por uma ameaça ou risco potencial de desastre. Tais definições são bastante abrangentes e, apesar de conterem a ideia de risco, cabe a distinção entre vulnerabilidade e risco. O sentido do risco é central nos estudos de epidemiologia: conecta- se à ideia de identificação de pessoas e de características que as colocam sob maior ou menor risco de exposição a eventos de saúde, com comprometimento de ordem física, psicológica e/ou social. Integra, desta forma, a probabilidade e as chances de grupos populacionais de adoecerem e morrerem por algum agravo de saúde (BERTOLOZZI, 2009). De acordo com Malagon, 2015, a perspectiva analítica elaborada propõe superar, sem negar, práticas preventivas ancoradas no conceito do risco, e captar as interferências entre as múltiplas dimensões (aspectos individuais, coletivos e contextuais) envolvidas no processo saúde/doença. As distintas situações de vulnerabilidade podem ser particularizadas levando-se em conta três componentes interligados: Individual - referido a conhecimentos e informações sobre problemas específicos e a atitudes para se assumirem condutas ou práticas protetoras, dando destaque ao viés comportamental e racional, ancorado em relacionamentos intersubjetivos; Social ou coletivo - diz respeito ao repertório de temas vinculados a aspectos contextuais, tais como: relações econômicas, de gênero, étnico/raciais, crenças religiosas, exclusão social etc.; Programático ou Institucional - relacionado aos serviços de saúde e à forma como estes lidam para reduzir contextos de vulnerabilidade, dando destaque ao saber acumulado nas políticas e nas instituições para interatuar com outros setores/atores, como: a educação, justiça, cultura, bem-estar social etc. Uma situação de vulnerabilidade inscreve a possibilidade de trajetórias individuais ou grupais conduzirem a desenlaces indesejados. Mas não existe relação causal e mecânica entre uma situação de vulnerabilidade e processos de fragilização. No curso de uma doença, nem sempre é possível predizer o desenlace ou as consequências de uma deficiência física. Ante tais eventos, cabe esperar o que seja plausível ou razoável. A experiência dita prudência e os ‘epílogos’ são sempre variados. Uma doença considerada simples, como a gripe comum, pode causar, anualmente, um número alto de mortes em todo o mundo; ao mesmo tempo, uma pessoa com uma deficiência física pode construir parâmetros, novas normas, para se movimentar. (OVIEDO, 2015). Já a vulnerabilidade, tem como propósito, trazer os elementos abstratos associados e associáveis aos processos de adoecimento para planos de elaboração teórica mais concreta e particularizada, em que os nexos e mediações entre esses processos sejam o objeto de conhecimento. Diferentemente dos estudos de risco, as investigações conduzidas no marco teórico da vulnerabilidade buscam a universalidade e não a reprodutibilidade ampliada de sua fenomenologia e inferência. Assim a vulnerabilidade expressa os potenciais de adoecimento, de não adoecimento e de enfrentamento, relacionados a todo e cada indivíduo (BERTOLOZZI, 2009). Dessa forma, para a interpretação do processo saúde-doença, considera-se que o risco indica probabilidades e a vulnerabilidade é um indicador da iniqüidade e da desigualdade social e esses conceitos são fundamentais para compreender como diferentes fatores influenciam a saúde dos indivíduos e populações. A perspectiva de saber sobre vulnerabilidades, amplia uma visão ao considerar as condições sociais local, condições econômicas e culturais que podem aumentar ou diminuir a suscetibilidade de uma pessoa ou um grupo ao adoecimento. Além disso, compreender a casualidade dos principais problemas sociais e de saúde deve ser a prioridade dos países em desenvolvimento e industrializados, pois muitas questões de adoecimento fazem parte de um padrão de crescimento que influencia diretamente as condições de vida dos sujeitos (GARBOIS; SODRÉ; ARAUJO, 2017). REFERÊNCIAS BERTOLOZZI, M.R., NICHIATA, L.Y.I., et al. Os Conceitos de vulnerabilidade e adesão na Saúde Coletiva. Revista da Escola de Enfermagem da USP. São Paulo, 2010. GARBOIS, J. A.; SODRÉ, F.; ARAUJO, M. D. Da noção de determinação social à de determinantes sociais da saúde. Saúde em Debate, v. 41, p. 64-66, 2017. OLIVEIRA LOPES M, SOARES TCM. Perfil de vulnerabilidade diante das desigualdades sociais e seu impacto na saúde: uma revisão sistemática. Cadernos UniFOA, Volta Redonda, v. 18, n. 53, p. 1–10, 2023. OVIEDO, R.A.M. CZERESNIA, D. O Conceito de Vulnerabilidadee seu caráter biossocial. Interface Comunicação, saúde e educação. Botucatu, 2015.