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HEMORRAGIA PÓS-PARTO SÉRIE ORIENTAÇÕES E RECOMENDAÇÕES FEBRASGO NO 1 • 2019 Hemorragia pós-parto. -- São Paulo: Federação das Associações Brasileiras de Ginecologia e Obstetrícia(FEBRASGO), 2019. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). vi, 80p. 1. Hemorragia 2. Parto 3. Período pós-parto ISBN 978-85-94091-10-9 WQ330 Todo o conteúdo desta série está licenciado sob uma Licença Creative Commons. Imagem da capa: Milena_Bo/Shutterstock.com DIRETORIA DA FEBRASGO 2016 / 2019 Alex Bortotto Garcia Vice-Presidente Região Centro-Oeste Flavio Lucio Pontes Ibiapina Vice-Presidente Região Nordeste Hilka Flávia Barra do E. Santo Vice-Presidente Região Norte Agnaldo Lopes da Silva Filho Vice-Presidente Região Sudeste Maria Celeste Osório Wender Vice-Presidente Região Sul César Eduardo Fernandes Presidente Corintio Mariani Neto Diretor Administrativo/Financeiro Marcos Felipe Silva de Sá Diretor Científico Juvenal Barreto B. de Andrade Diretor de Defesa e Valorização Profissional i ii Presidente Samira El Maerrawi Tebecherane Haddad Vice-presidente Gabriel Costa Osanan Secretária Roxana Knobel Membros Adriano Bueno Tavares Carla Betina Andreucci Polido Cláudia Garcia Magalhães Francisco Edson de Lucena Feitosa Humberto Sadanobu Hirakawa Marcelo Guimarães Rodrigues Mary Angela Parpinelli Rodrigo Dias Nunes Autor convidado Rodolfo de Carvalho Pacagnella COMISSÃO NACIONAL ESPECIALIZADA EM URGÊNCIAS OBSTÉTRICAS SÉRIE ORIENTAÇÕES E RECOMENDAÇÕES FEBRASGO HEMORRAGIA PÓS-PARTO Apresentação Como tem sido amplamente divulgado na literatura médica nacional e internacional e reco- nhecido pelos próprios dados do Ministério da Saúde, o Brasil não cumpriu o compromisso firmado com a Organização das Nações Unidas, em 1990, de atingir a meta de 20 óbitos maternos a cada 100 mil nascidos vivos no ano de 2015. Ficamos longe deste número, o que é preocupante. Em 2018, nova pactuação foi assinada e a meta assumida pelo Ministério da Saúde para o ano de 2030 é um pouco mais modesta, todavia ainda distante dos indicadores atuais e pretende reduzir a mortalidade materna para menos de 30 mortes para cada 100 mil nascidos vivos . A mortalidade materna é um dos principais indicadores das condições de vida e da qualidade da assistência em saúde de uma população. Seus índices refletem o grau de desenvolvimento social de uma nação. A maioria das mortes neste indicador pode ser evitada e é decorrente de hemorragia no período pós-parto, abortamentos, transtornos hipertensivos associados à gestação e às infecções puerperais. No Brasil a hemorragia pós-parto é a segunda causa de morte materna. Muito além da morte materna, estima-se que um número expressivamente maior de mulheres vivencia complicações hemorrágicas graves e sobrevivem, porém, com potenciais sequelas orgânicas e emocionais. Em consonância com as metas pactuadas pelo Ministério da Sáude, as diversas Comissões Especializadas da Febrasgo (CNEs) envolvidas ou relacionadas ao tema estiveram reunidas durante o Congresso Paulista de GO ( SOGESP), realizado em São Paulo, em agosto de 2018 e durante o Congresso Mundial da FIGO, realizado no Rio de janeiro, em outubro de 2018. Várias ações ficaram definidas no sentido de oferecer à Coordenadoria dos Programas de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde um plano visando redução da mortalidade materna no Brasil. Uma destas ações seria a oferta de programas de educação continuada para os profissionais da saúde diretamente envolvidos na atenção à gestação e ao parto, com participação dos membros das Comissões Especializadas da Febrasgo relacionadas ao tema ( CNEs de Mor- talidade Materna; Assistência ao Parto e Puerpério; Pré-Natal; Hipertensão na Gestação; Hiperglicemia na Gravidez e Urgências Obstétricas) . iii iv Neste sentido, e considerando a importância da hemorragia no pós-parto como uma das principais causas de mortalidade materna, a Comissão Nacional Especializada de Urgências Obstétricas, com o apoio de especialistas convidados de outras CNEs preparou este fascí- culo da Série Orientações e Recomendações Febrasgo sobre Hemorragia Pós-parto , onde são abordados de maneira bastante didática os diversos aspectos do problema, tais como Definição e diagnóstico; Avaliação de risco e medidas preventivas; Tratamento; Hemoterapia na hemorragia pós-parto; Manejo pós-evento agudo; Avaliação comparativa - carbetocina vs ocitocina (eficácia) e as recomendações finais. Este fascículo de O&R Febrasgo traz, desta forma , importante contribuição para a formação de nossos profissionais da saúde envolvidos na assistência à gestante e ao parto, visando colaborar com os gestores da saúde pública no Brasil para a redução da mortalidade mater- na por hemorragia pós-parto, cujos indicadores correspondem à uma grande deficiência na assistência à saúde da mulher no Brasil. Marcos Felipe Silva de Sá Diretor Científico César Eduardo Fernandes Presidente v SUMÁRIO INTRODUÇÃO SAMIRA EL MAERRAWI TEBECHERANE HADDAD, CARLA BETINA ANDREUCCI POLIDO ............................................................................ 1 CAPÍTULO 1 DEFINIÇÃO E DIAGNÓSTICO RODOLFO DE CARVALHO PACAGNELLA, ANDERSON BOROVAC-PINHEIRO .............................................................................................. 5 CAPÍTULO 2 AVALIAÇÃO DE RISCO E MEDIDAS PREVENTIVAS ROXANA KNOBEL, GABRIEL COSTA OSANAN ......................................................................................................................................... 15 CAPÍTULO 3 TRATAMENTO GABRIEL COSTA OSANAN, ROXANA KNOBEL ......................................................................................................................................... 27 CAPÍTULO 4 HEMOTERAPIA NA HEMORRAGIA PÓS-PARTO RODOLFO DE CARVALHO PACAGNELLA, ANDERSON BOROVAC-PINHEIRO, ERICH VINÍCIUS DE PAULA, MARIANA MUNARI MAGNUS .. 56 CAPÍTULO 5 MANEJO PÓS-EVENTO AGUDO CARLA BETINA ANDREUCCI POLIDO, MARCELO GUIMARÃES RODRIGUES ............................................................................................ 65 CAPÍTULO 6 AVALIAÇÃO COMPARATIVA - CARBETOCINA VS OCITOCINA (EFICÁCIA) SAMIRA EL MAERRAWI TEBECHERANE HADDAD, MARCELO GUIMARÃES RODRIGUES .......................................................................... 69 RECOMENDAÇÕES FINAIS SAMIRA EL MAERRAWI TEBECHERANE HADDAD, CARLA BETINA ANDREUCCI POLIDO, RODOLFO DE CARVALHO PACAGNELLA, ANDERSON BOROVAC-PINHEIRO, ROXANA KNOBEL, GABRIEL COSTA OSANAN, ERICH VINÍCIUS DE PAULA, MARIANA MUNARI MAGNUS, MARCELO GUIMARÃES RODRIGUES ....................................................................................................... 75 vi Como citar: Hemorragia pós-parto. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2019. p.1-80. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/ Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). 1 INTRODUÇÃO Samira El Maerrawi Tebecherane Haddad¹ Carla Betina Andreucci Polido² ¹Departamento de Tocoginecologia, Faculdade de Ciências Médicas de Santos, Santos, SP, Brasil. ²Universidade Federal de São Carlos, SP, Brasil. A hemorragia pós-parto (HPP) permanece como a principal causa de morte materna no mundo, a segunda no Brasil, apesar da progressiva queda do número absoluto de mortes, da sólida evidência de medidas preventivas e terapêuticas efetivas e da maior disponibilização desses métodos em todo mundo. Por suas características de incidência e evolução, a morte materna por hemorragia é considerada evitável, uma vez que a probabilidade de sua ocorrência é maior em países e locais de média e bai- xa renda, evidenciando as desigualdades sociais e de gênero entre as populações.(1-4) Muito além da morte materna, estima-se que um número expressivamente maior de mulheres vivencia complicações hemorrágicas graves e sobrevivem,completa, chegada de sangue e hemoderivados) e, por vezes, estabilizar a paciente, evitando a cirurgia.(18) Os tratamentos não cirúrgicos que serão tratados neste capítulo incluem o traje antichoque não pneumático, a massagem uterina bimanual e o balão de tam- ponamento intrauterino. Continuação. 33 TRAJE ANTICHOQUE NÃO PNEUMÁTICO O traje antichoque não pneumático (TAN) é uma nova tecnologia que pode promo- ver o controle transitório do sangramento. Tal fato pode determinar tempo extra para transferência ou mesmo para a abordagem da HPP.(1,9,19) O TAN é uma vestimenta de neoprene que realiza compressão nos membros inferiores, pelve e abdome, de forma segmentada. O TAN apresenta 6 segmentos que sempre devem ser posicionados adequadamente no sentido do segmento #1 (tornozelo) ao segmento #6 (abdominal) (Figura 1). O TAN não utiliza manguito pneumático e, portanto, não apresenta risco de necrose de membros associada a garroteamento dos mesmos. Fonte: Suaréz J, Ramírez M, Munõz N. Reanimación Hemostatica. In: Soruco C, editor. Hemorragia postparto: Donde estamos y hacia donde vamos? Ciudad de Mexico: Federación Latinoamericana de Sociedades de Obstetricia y Ginecología (FLASOG).; 2018. p. 105–16.(13) Figura 1. Traje Antichoque não pneumático O mecanismo de ação do TAN consiste em compressão circunferencial de 20 a 40mmHg nos membros inferiores, pelve e abdome, reduzindo o fluxo san- guíneo na região pélvica (local do foco hemorrágico) e aumentando o fluxo de sangue nos “órgãos nobres superiores” (tais como coração e cérebro) conforme mostra a figura 2. Tal efeito pode diminuir a velocidade de sangramento, per- mitindo assim um tempo adicional para transferências ou abordagens da HPP.(19) 34 Fonte: Osanan G, Rodrigues M, Brandão A. Atonia, inversão e ruptura uterina. In: Urbanetz AA, editor. Urgências e emergências em ginecologia e obstetrícia. São Paulo: Editora Manole; 2019. p. 487–509.(20) Figura 2. Jugular antes do posicionamento do TAN e 1 minuto após Outra vantagem do TAN refere-se ao seu formato que não recobre a re- gião perineal e, portanto, permite realização de procedimentos na cavidade vaginal, mesmo quando posicionado (Figura 3).(19) Figura 3. Região perineal livre para abordagem durante o uso do TAN Recomenda-se o posicionamento do TAN em pacientes com sangramentos aumentados e instabilidade hemodinâmica ou sangramento vultuoso com iminên- cia de choque hipovolêmico.(1,19,21) Está contraindicado para pacientes com lesões supra-diafragmáticas, doenças cardíacas e pulmonares graves (ex.: estenose mitral, hipertensão, edema agudo de pulmão) ou gestações com feto vivo. O TAN pode ser mantido por horas ou dias. Já existem relatos do seu uso por 72 horas, sem efeitos adversos relevantes para a paciente.(1,13) Deve-se ressaltar que o uso 35 do TAN objetiva o controle transitório da HPP e não substitui as medidas de tratamento definitivo. Assim, o sucesso do seu uso está intimamente vinculado à presença de um protocolo assistencial para HPP e à realização de medidas adequadas para o quadro de HPP.(1,13) O TAN foi introduzido no Brasil em 2016, e já existem relatos não publicados de casos de sucesso com o seu uso nos estados do Ceará, Maranhão e Tocantins. Para se utilizar o traje, é necessário conhecer as recomendações\cuidados em relação ao seu posicionamento e sua retirada. Seu uso ou retirada sem os devidos cuidados podem agravar o quadro, portanto, as medidas devem ser seguidas a fim de se garantir a segurança da paciente e o sucesso do procedimento.(1) No que se refere ao posicionamento do TAN, o traje deve ser posicionado de forma sequencial, por uma ou duas pessoas, sempre no sentido do segmento #1 (tor- nozelo) para o segmento #6 (abdome) em pacientes hemodinamicamente instáveis ou naquelas com iminência de choque hipovolêmico e com sangramento ativo.(1,13) No que se refere à retirada do TAN, o quadro abaixo apresenta cuidados mí- nimos para se garantir sua retirada segura. A retirada inoportuna e intempestiva do TAN pode precipitar reativação do sangramento e, consequente, desenvolvimento de um quadro de choque hipovolêmico refratário (Quadro 3).(1-20) Quadro 3. Recomendações para a remoção segura do TAN Características do local de remoção do TAN Presença de estrutura que permita monitorização contínua da paciente e abordagem emergencial caso ocorra reativação do foco sangrante. É essencial a presença de equipe médica na retirada do TAN. Sentido de remoção dos segmentos do TAN O TAN deve ser removido no sentido do segmento #1 ao segmento #6. Critérios mínimos para retirada do TAN Sangramento inferior a 50m\h nas últimas 2 horas associado à · FC ≤ 100 bpm, · PAS > 90-100mmHg e · Hb >7 g\dl. “Regra dos 20” para retirada segura do TAN Monitorizar a paciente por 20 minutos, após a retirada de cada segmento do TAN. Se reduzir a PAS ≥ 20mmHg ou elevar a FC ≥ 20 bpm após retirada de qualquer segmento, deve-se reposicionar imediatamente todo o traje, iniciando-se do segmento #1. Fonte: Adaptado de Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia. Brasília (DF): OPAS; 2018. 80p.(1) Osanan G, Rodrigues M, Brandão A. Atonia, inversão e ruptura uterina. In: Urbanetz AA, editor. Urgências e emergências em ginecologia e obstetrícia. São Paulo: Editora Manole; 2019. p. 487–509.(20) FC - Frequência Cardíaca; PAS - Pressão Arterial Sistólica; Hb - Hemoglobina COMPRESSÃO UTERINA BIMANUAL É uma manobra invasiva de controle transitório do sangramento nos casos de atonia uterina. Quando se suspeita de uma atonia uterina ou quando é diagnosticada, 36 pode-se tentar inicialmente realizar a massagem abdominal, que, apesar de con- troversa a sua eficácia, é importante para definir o quadro de atonia uterina. A massagem uterina abdominal não deve retardar o início dos demais tratamentos. Se o útero estiver hipotônico ou atônico, a compressão uterina bimanual (também conhecida como manobra de Hamilton) deve ser realizada imediatamente. A Mano- bra de Hamilton visa ao controle transitório do sangramento enquanto se aguarda a infusão de uterotônicos e/ou seu efeito.(1,10) Para sua realização, deve-se posicionar uma das mãos em punho na vagina que comprime a parede anterior do útero e a outra mão espalmada sobre a parede abdominal, buscando empurrar a parede posterior do útero. As mãos devem buscar comprimir o corpo uterino empurrando-o uma contra a outra (Figura 4).(10,22) Figura 4. Massagem uterina bimanual (simulador) A bexiga cheia impede a realização e compromete a efetividade da manobra, por isso, e para manter o controle da diurese da paciente, está indicada a sondagem vesical. BALÃO DE TAMPONAMENTO INTRAUTERINO O balão de tamponamento intrauterino está indicado principalmente nos casos de atonia uterina não responsivos aos medicamentos. Contudo, esses balões podem ser utilizados nos casos de placenta prévia ou inversão uterina. Podem ser utilizados após partos vaginais e no pós-operatório de cesarianas. 37 Balões para tamponamento de hemorragias são usados desde tempos pré- -hipocráticos. Para controle de hemorragia obstétrica, o primeiro relato é de 1951, quando se utilizou um balão de Sengstaken-Blakemore. Desde então, vários forma- tos e técnicas foram descritos.(18) Existem os balões específicos para controle de hemorragia pós-parto como o Bakri e os que são para outros fins, mas que podem ser utilizados, como o de Sengstaken-Blakemore.(18) No entanto, o custo desses dispositivos não permite seu uso em locais pobres.(23) Para esses locais, diversos balões artesanais de baixo custo e de fácil confecção vêm sendo descritos, geralmente usando uma sonda e um con- dom.(23) Esses balões artesanais são efetivos e seguros.(7,9) Sua eficácia é comparável ao balão de Bakri.(25) O mecanismo de ação do balão ainda não foi totalmente identificado, sendo hipóteses:(18) • elevação da pressão intrauterina acimada pressão arterial sistêmica; • compressão das artérias uterinas pela pressão hidrostática do balão; • indução de contrações uterinas. Sua eficácia para controle de hemorragia pós-parto foi avaliada em séries de casos e em um estudo prospectivo na África, com uma taxa de sucesso variando entre 60 e 94%.(17,18,26) Tal fato reflete sua capacidade em reduzir procedimentos cirúrgicos em pacientes com atonia, situação especialmente importante em cenários com poucos recursos e em que podem ser necessárias transferências ou acionamen- to de profissionais especializados que se encontram fora do ambiente hospitalar. Os balões de tamponamento estão usualmente indicados na atonia uterina, quando os uterotônicos são insuficientes para conter o sangramento. Além disso, eles podem ser utilizados nos casos de inversão uterina e nos casos de placenta prévia. Podem ser utilizados em cirurgias cesarianas e conjuntamente com suturas compressivas e\ou uso do traje antichoque não pneumático.(1,17,23,25,27) O processo de montagem e inserção do balão é simples e seguro, embora existam complicações descritas se o volume de enchimento do balão for excessivo. No tratamento da HPP, realizar as condutas de maneira rápida é essencial. Compa- rando os balões artesanais com o balão de Bakri, a principal diferença é o tempo de preparo e enchimento do sistema.(25) Além disso, dependendo do local, pode haver 38 uma demora maior ainda para encontrar os materiais necessários, o que pode piorar o prognóstico da paciente. Por isso, sugere-se que todos os locais de assistência ao parto tenham pronto um kit para HPP com os materiais necessários e um checklist.(1) Descreve-se a montagem de um sistema com sonda foley e condom não lubrificado, com enchimento com seringas urológicas. Há outros métodos descritos que também são eficazes. Os materiais necessários para montagem do balão são: • montar o dispositivo: - sonda foley (20 ou mais); - condom; - fio ou elástico para fechar; • preencher o dispositivo: - soro fisiológico em temperatura ambiente ou aquecido; - cuba rim ou similar; - 2 seringas de 60mls com bico de sonda (urológica); - pinça kelly; • material para inserção: - gaze e solução antisséptica aquosa; - espéculo vaginal grande ou válvulas; - 2 pinças cherron ou similar (uma para antissepsia, outra para guiar o dispositivo); - pinça anel ou similar para tracionar lábio anterior do colo; - compressas. INSTRUÇÕES PARA INSERÇÃO/PREENCHIMENTO • Preparar o dispositivo (sonda foley + condom) e amarrar a base do condom (Figura 5). 39 Figura 5. Balão montado – condom + sonda foley + fio de sutura • Realizar antissepsia vaginal. • Se a paciente ainda não estiver sondada, realizar sondagem vesical. • Visualizar o colo, colocar a pinça anel no lábio anterior, tracionar levemente e inserir o dispositivo lentamente sozinho (Figura 6) ou com o auxílio de uma pinça longa. Cuidado se a inserção for com a pinça, pois o útero estará hipo- tônico e pode não haver a resistência do miométrio na inserção.(9) Figura 6. Inserção do balão - em paciente e em simulador • Com o colo aberto, é também possível inserir o dispositivo manualmente, devendo ser realizada a antissepsia e a sondagem vesical antes. Se disponível ultrassonografia na sala de parto, essa tecnologia pode guiar o procedimento de inserção do balão, apesar de não ser essencial a sua presença. • Deixar o sistema intrauterino e retirar pinças e espéculo e colocar compressas vaginais, simultaneamente (Figura 7). As compressas vaginais são para manter o dispositivo intrauterino, mesmo com o colo aberto. Uma alternativa para casos em que o balão escapa, pelo próprio quadro de atonia, seria pinçar temporaria- mente os lábios anterior e posterior do colo com uma pinça ovo ou coração.(27) 40 Figura 7. Compressas vaginais para manter o balão intrauterino • Preencher o condom com soro fisiológico morno ou à temperatura ambiente. Derramar o soro em uma cuba rim facilita o processo e o torna mais rápido. Aspirar 60ml de soro, conectar a seringa na via de drenagem da sonda e injetar o soro (Figura 8). Após injetar, clampear a via de drenagem com pinça kelly ou similar. O uso de duas seringas acelera o processo. Enquanto um profissional injeta o conteúdo de uma seringa no balão, outro vai enchendo a próxima seringa. Prosseguir até injetar de 300 a 500ml. Nas cesarianas, deve-se infundir volumes inferiores nos balões quando comparado ao parto vaginal, para evitar deiscência de suturas. Figura 8. Preenchimento do balão com seringa urológica 41 CONTROLE DA PACIENTE DURANTE O USO DO BALÃO DE TAMPONAMENTO INTRAUTERINO Após a inserção do dispositivo, manter controle rigoroso de sinais vitais. Não realizar massagem uterina, que fará com que o dispositivo saia. Então, não será mais possí- vel controlar o tônus clinicamente. Perde-se também a possibilidade de controlar o sangramento vaginal (pelo uso das compressas e do balão) nos dispositivos, sem sistema de drena- gem. Alguns balões intrauterinos têm uma saída para o fundo uterino que permite controlar o sangramento. Mas, mesmo utilizando esses balões, o con- trole de sangramento pode ser prejudicado por obstrução da cânula, estando indicada realização de infusões de pequenas quantidades de solução salina sempre que o sangramento interromper ou se existir suspeita de obstrução da cânula. Se houver estabilização do quadro, o balão pode ser mantido de 12 a 24 horas.(28) Nesse tempo, a paciente deve receber infusão contínua de ocitocina e antibioticoterapia (sugere-se cefazolina, 1 grama, EV de 8 em 8 horas) e manter uso de ocitocina.(1) PARA RETIRADA DO BALÃO Retirar em ambiente apropriado que permita intervenções cirúrgicas em caso de reativação do quadro sangrante. Esvaziar gradativamente, de 50 a 100ml por vez, aguardar alguns minutos, avaliar sinais vitais e retirar sucessivamente mais 50-100ml.(1) Assim, evitar retirar o balão durante a noite, já que pode haver um sangramento incontrolável que necessite abordagem rápida e por equipe especializada. TRATAMENTO CIRÚRGICO ANATOMIA VASCULAR DO ÚTERO É importante que profissionais que abordam cirurgicamente a HPP conheçam a ir- rigação vascular do útero. Utilizando-se esse critério, o útero pode ser dividido em duas áreas conhecidas como segmentos 1 (S1) e 2 (S2) (Figura 9).(29) 42 Figura 9. Irrigação vascular do útero - Segmentos 1 e 2(30) O S1 refere-se à região do corpo e do fundo uterino, apresentando como fonte de irrigação sanguínea especialmente os ramos ascendentes da artéria uteri- na. Já o S2 corresponde à região uterina inferior, cérvice, parte superior da vagina e paramétrios e apresenta como principal fonte de irrigação a artéria pudenda in- terna e os vasos acessórios colaterais das artérias ilíacas interna, uterinas e vesicais inferiores. Deve-se ressaltar que sangramentos na região S2 podem determinar he- matomas subperitoneais.(29) SUTURAS HEMOSTÁTICAS As suturas hemostáticas referem-se às ligaduras vasculares e às suturas compres- sivas. A taxa de sucesso desses procedimentos é semelhante à do uso do balão de tamponamento intrauterino na atonia uterina e na embolização de vasos ute- rinos.(30) O sucesso das suturas hemostáticas está diretamente relacionado à área uterina em que ocorre o sangramento. As ligaduras vasculares e compressivas podem ser usadas simultaneamente.(29) LIGADURAS VASCULARES As ligaduras vasculares buscam reduzir o aporte sanguíneo para o útero a fim de minimizar a hemorragia, geralmente são feitas de maneira progressiva, iniciando- -se com a ligadura das artérias e veias uterinas, depois das artérias ovarianas e das 43 hipogástricas.(1,3) Essas técnicas podem ser utilizadas em associação com suturas compressivas, tais como B-Lynch e Hayman. A taxa de sucesso da ligadura das artérias uterinas no controle do sangramento que ocorre no segmento 1 encon- tra-se em torno de 80-90%, semelhante à das outras ligaduras.(30) O quadro 4 representaa eficácia da ligadura das artérias uterinas de acordo com o território vascular uterino.(31) Quadro 4. Ligaduras vasculares TÉCNICA SETOR 1 (CORPO UTERINO POR ATONIA UTERINA) SETOR 1 (CORPO UTERINO POR ACRETISMO) SETOR 2 (NO SEGMENTO INFERIOR DO ÚTERO, CÉRVICE E PARTE SUPERIOR VAGINA) Ligadura bilateral de artérias uterinas Excelente Boa Ruim ou ineficiente Fonte: Adaptado de Palacios-Jaraquemada JM. Efficacy of surgical techniques to control obstetric hemorrhage: analysis of 539 cases. Acta Obstet Gynecol Scand. 2011;90(9):1036–42.(31) A maioria dos protocolos de tratamento de hemorragia sugere laparoto- mia para realizar a ligadura dos vasos uterinos e outras cirurgias após o parto vaginal, quando ocorre falha do tratamento medicamentoso e dos tratamentos adjuvantes.(3,4,32) No entanto, existe a possibilidade de realizar a ligadura das artérias e veias uterinas por via vaginal. Esse procedimento parece ter mais risco de lesões de trato urinário.(33,34) Cabe ressaltar que, perante uma paciente ins- tável e grave, a melhor cirurgia é aquela em que a equipe responsável tem mais experiência.(1) SUTURAS COMPRESSIVAS As suturas compressivas mais conhecidas são as suturas de B-Lynch, Hayman e Cho. São capazes de evitar a histerectomia em aproximadamente 90% dos casos, quan- do o sangramento ocorre no segmento uterino 1.(30) As suturas de B-Lynch e Hay- man são ineficientes nos sangramentos do segmento 2. A sutura de Cho é eficaz nessa região.(31) Um passo importante durante sua realização é realizar o teste de sucesso antes do início da sutura. Esse procedimento consiste na compressão uterina (simulando a compressão feita que a sutura faria), com avaliação concomitante da redução ou não do sangramento. As pacientes que mantêm sangramento importante com essa manobra não terão sucesso no procedimento e devem se- guir a próxima etapa do tratamento cirúrgico, que usualmente é a histerectomia (Quadro 5). 44 Quadro 5. Suturas compressivas TÉCNICA SETOR 1 (CORPO UTERINO POR ATONIA UTERINA) SETOR 1 (CORPO UTERINO POR ACRETISMO) SETOR 2 (NO SEGMENTO INFERIOR DO ÚTERO, CÉRVICE E PARTE SUPERIOR VAGINAL) B-Lynch Excelente Boa Ruim ou ineficiente Cho Boa Excelente Excelente Hayman Excelente Boa Ruim ou ineficiente Fonte: Adaptado de Palacios-Jaraquemada JM. Efficacy of surgical techniques to control obstetric hemorrhage: analysis of 539 cases. Acta Obstet Gynecol Scand. 2011;90(9):1036–42.(31) Sutura de B-Lynch – técnica:(35) 1. Exteriorização do útero 2. Compressão bimanual (Prever o sucesso da sutura se o sangramento diminuir.) Histerotomia segmentar transversa (Se não estiver aberta, fazer.) 3. Fio polyglacaprone 25 em agulha manual cilíndrica de 70mm 4. Iniciar sutura: - A agulha entra na parede anterior, 3 cm abaixo da histerotomia e 3 cm da margem lateral do útero (A), e sai 3 cm acima da borda da histerotomia e 4 cm da borda lateral. - O fio percorre o corpo uterino longitudinalmente, ficando a 3-4 cm do corno uterino direito e descendo na face posterior, também longitudinal- mente, até o nível da histerotomia. - A agulha entra e sai transfixando a parede posterior aproximadamente 3-4 cm. - O fio percorre o corpo uterino longitudinalmente, ficando a 3-4 cm do corno uterino esquerdo e desce pela face anterior. - A agulha entra a 3 cm da borda superior da histerotomia e 4 cm da mar- gem lateral esquerda do útero e sai a 3 cm da borda inferior da histeroto- mia e 3 cm da margem lateral esquerda. 5. Sutura fechada com nó duplo, mantendo a compressão bimanual uteri- na, deixando o útero o mais apertado possível. 6. Histerorrafia 45 Fonte: Garofalo M, Posner GD. Towel uterus model for uterine compression sutures technical skills training: a review of literature and development of a performance rubric. Cureus. 2018;10(6):2725.(36) Figura 10. Sutura de B-Linch em simulador de tecido. O mesmo simulador pode ser feito utilizando-se uma meia fina recheada com algodão ou similares e pode ser utilizado para treinamento da equipe. Treinamentos com simuladores ajudam a prever possíveis dificuldades e melhorar habilidade cirúrgica Sutura de Cho – técnica(35) 1. Exteriorização do útero 2. Compressão bimanual (Prever o sucesso da sutura se o sangramento diminuir.) 3. Agulha reta 4. Realizar quadrados hemostáticos atravessando as paredes uterinas an- terior e posterior (de serosa a serosa) de aproximadamente 3 centímetros de lado. a. No local de maior sangramento, inserir um ponto transfixando da muco- sa anterior até a posterior. b. A 3 cm, ponto transfixando da mucosa posterior à anterior. c. Fazer mais dois pontos, realizando um quadrado e fechar a sutura (Figura 11). d. Fazer de 4 a 5 quadrados no local de maior sangramento. 46 Obs. – Os pontos podem ser feitos no segmento uterino e até no colo e terço superior da vagina, o que torna a sutura mais eficaz para sangramento do segmento 2. Figura 11. Sutura de B-Linch em simulador de tecido RADIOLOGIA INTERVENCIONISTA Os procedimentos de radiologia intervencionista usualmente estão reservados para os casos eletivos de abordagem da HPP, tais como programação de parto associado a acretismo placentário, justamente por necessitar de ambientes e equipe especiali- zados. Nessas situações, tem-se preferido o uso de balões intraórticos nos casos de acretismo, em detrimento da embolização seletiva de vasos uterinos, já que é muito comum a presença de rede de vasos colaterais de origem vascular distinta daquela embolizada.(1) TRATAMENTO EXTIRPATIVO Histerectomia: é procedimento salvador quando realizado em momento oportuno e não deve ser postergada quando indicada. Contudo, não é realizada como proce- dimento de primeira escolha, já que pode determinar perda adicional de sangue de aproximadamente 2 litros. A histerectomia subtotal permite o controle do sangra- mento na maioria dos casos de HPP. A histerectomia total estaria indicada nos casos de sangramentos oriundos dos segmentos uterinos inferiores não alcançados pela abordagem subtotal.(1) CIRURGIA DE CONTROLE DE DANOS A Cirurgia de Controle de Danos (CCD) é uma estratégia de tratamento para pa- cientes críticos, na qual se reduz o tempo cirúrgico, sacrificando o reparo definitivo e imediato das lesões, antes da depleção das reservas fisiológicas do indivíduo. O objetivo principal da CCD é corrigir a coagulopatia, o distúrbio ácido básico e com- bater a hipotermia.(1,9,20) 47 A decisão de realizá-la deve ser tomada de forma oportuna, devido ao risco de aumento da morbidade.(9) É realizada em pacientes já histerectomizadas. Abaixo, os critérios de elegibilidade para optar-se pela cirurgia de controle de danos nessas pacientes (Quadro 6). Quadro 6. Critérios de seleção para cirurgia de controle de danos ante e intraoperatório Critérios de elegibilidade no pré-operatório Pressão arterial sistólica menor que 70mmHg Temperatura corporal menor que 34 °C Ph inferior a 7,1 Critérios de elegibilidade no intraoperatório Acidose metabólica com Ph menor que 7,3 Hipotermia persistente menor que 34 °C Tempo cirúrgico superior a 90 minutos Transfusão maciça - 6 unidades de hemácias nas primeiras 4 horas Coagulopatia evidente – sangramento em lençol Fonte: Soruco C, editor. Hemorragia postparto: Donde estamos y hacia donde vamos? Ciudad de Mexico: Federación Latinoamericana de Sociedades de Obstetricia y Ginecología (FLASOG); 2018.(9) A correção cirúrgica definitiva usualmente ocorre de 2 a 5 dias após o proce- dimento, quando a paciente já se encontra estável.(1) CONDUTAS BASEADAS NA CAUSA BASE Após iniciado o tratamento inicial, é necessário o diagnóstico da causa da hemorragia. O ALSO (Advanced Life Support in Obstetrics)(37) propõe um mnemônico com quatro “Ts”: • Tônus • Trauma • Tecido • Trombina A maioria das hemorragias pós-parto (70%) ocorre por hipotonia ou atonia ute- rina (Tonus). As demais ocorrem por Trauma (lacerações e lesões, hematomas, inversão uterina e rotura uterina)(20%); Tecido (retenção placentária ou acretismo placentário) (10%), e as coagulopatias/Trombina correspondem a menos de 1% dos casos.(37) TÔNUS (ATONIA UTERINA) Em casos de atonia, realizar imediatamente compressão uterina com uma mão intra- vaginal (em punho) e outra abdominal, empurrando o útero contra a mão vaginal.(10,37) Simultaneamente, iniciar os agentes uterotônicos (Tabela 2). A ocitocina é o medicamento de primeira escolha, mas deve-se atentar para o fato de que pacientes 48 em trabalho de parto prolongado ou expostas a altas doses de ocitocina são menos responsivas a ela e, portanto, podem necessitar de medicação de segunda linha (deri- vados de ergot e misoprostol) de forma mais precoce do que o habitual.(1,38) É impor- tante, portanto, saber o tempo de ação das drogas uterotônicas para evitar atrasos no sequenciamento do tratamento da HPP por atonia. Não se deve confundir profilaxia com tratamento em função de doses e medicações diferentes (Figura 12).(1) O ácido tranexâmico deve ser realizado de forma imediata, a partir do diag- nóstico da hemorragia, não sendo necessário aguardar o efeito dos uterotônicos nos casos de atonia uterina. Seu uso não deve ser adiado, porém não se recomenda utilizar o ácido tranexâmico se transcorridas mais de 3 horas entre o diagnóstico de hemorragia e a primeira dose do medicamento. A eficácia de seu uso se reduz em 10% a cada 15 minutos de atraso no seu uso.(1,7,39) Atonia Uterina COMPRESSÃO UTERINA BIMANUAL ÁCIDO TRANEXÂMICO 1 grama, EV lento, em 10 min. Concomitantes Melhora SEM RESPOSTA SEM RESPOSTA SEM RESPOSTA SEM RESPOSTA SEM RESPOSTA Melhora OCITOCINA 5UI EV lento (3 min) seguido de SF 0,9% - 500 ml Ocitocina 20-40 UI EV 250ml/h Avaliar dose de manutenção SF 0,9% - 500ml Ocitocina 20-40 UI EV 125 ml/h Avaliar dose de manutenção (1x) 0,2mg IM após 20’ e/ou 0,2mg IM de 4/4 hs MÁXIMO 1gr/24 hs (5 doses) METILERGOMETRINA (01 ampola - 0,2mg, IM) Não utilizar em quadros hipertensivos BALÃO DE TAMPONAMENTO INTRAUTERINO Se houver falha dos uterotônicos LAPAROTOMIA (Suturas compressivas/ligaduras vasculares/histerectomia/cirurgia de controle de danos) TRAJE ANTICHOQUE NÃO PNEUMÁTICO Associação com o Balão tamponamento MISOPROSTOL (800 μg - via retal) Se não houver tempo para aguardar efeito, inseri-lo e avançar Fonte: Adaptado de Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia. Brasília (DF): OPAS; 2018. 80 p. (1) Figura 12. Atonia uterina - fluxograma. 49 TRAUMA Lacerações de trajeto devem ser rapidamente diagnosticadas e tratadas com he- mostasia e sutura adequadas. Hematomas pequenos podem ser tratados com com- pressas frias e observação. Hematomas maiores, ou quando há comprometimento de sinais vitais, devem ser explorados com adequada hemostasia e drenados se necessário.(1,10) A rotura uterina pode causar sangramento intraparto ou pós-parto, deve ser corrigida por laparotomia.(1,10) A inversão uterina é um evento raro (0,04 dos partos) e deve ser corrigida rapidamente. Inicialmente pode ser feita a manobra de Taxe (recolocação manual) e, se não houver resultado, é necessária uma laparo- tomia para correção cirúrgica. Em qualquer caso, é imprescindível o uso de ocitocina após a correção (Figura 13).(1,10) TRAUMA Se hemorragia, iniciar imediatamente ÁCIDO TRANEXÂMICO, 1 grama, EV infundido em 10 minutos Sutura das lacerações Revisão colo uterino / cavidade vagina Avaliar exploração cirúrgica: toque vaginal/revisão cuidadosa pós-parto operatório Laparotomia Revisar segmento após parto vaginal de paciente com cesariana anterior e HPP Manobra de Taxe Laparotomia/Balão de tamponamento LACERAÇÕES HEMATOMAS ROTURA UTERINA INVERSÃO UTERINA Fonte: Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia. Brasília (DF): OPAS; 2018. 80 p. (1) Figura 13. Atendimento às lesões traumáticas obstétricas(1) TECIDO A retenção de tecido intrauterino (placenta, fragmentos de cotilédones, coágulos) pode impedir a contração uterina adequada. Por isso, a retenção de tecido e a atonia podem ser concomitantes. A média de tempo para expulsão placentária é de 9 minutos. O diagnóstico de retenção placentária é feito quando não ocorre a 50 dequitação fisiológica após 30 minutos do parto. Em casos de retenção placentária, considerar extração manual da placenta com analgesia adequada.(1,10) Após cada parto, a placenta deve ser cuidadosamente examinada, para diag- nosticar sua integridade. Se houver suspeita de retenção de cotilédones deve ser realizada curetagem.(1,10) Cuidado deve ser tomado se houver fatores de risco para acretismo placen- tário (cesarianas ou outras cirurgias prévias, placenta prévia, história de acretismo placentário em gestação anterior, idade materna avançada, multiparidade). Ou se, na tentativa de extração manual da placenta, o plano de clivagem não for facilmen- te detectado. Em caso de suspeita de acretismo, não deve ser realizada a extração manual da placenta.(1,10) TECIDO Se hemorragia, iniciar imediatamente Ácido tranexâmico, 1 g, EV em 10 minutos DEQUITAÇÃO PROLONGADA 30-45 min. sem sangramento RESTOS PÓS-DEQUITAÇÃO ACRETISMO PLACENTÁRIO EXTRAÇÃO MANUAL PLACENTA (Se, sem plano de clivagem, não insistir: risco de ACRETISMO e hemorragia grave.) Não tentar remover placenta (nem parcial) CURETAGEM CURETAGEM Histerectomia com placenta in situ ou conduta conservadora Figura 14. Atendimento às retenções placentárias(1) TROMBINA Alterações de coagulação devem ser aventadas em partos com sangramento que não respondem às medidas convencionais e/ou com outras alterações de coagu- lação visíveis e/ou sem outra causa diagnosticável.(40) Avaliar as coagulopatias com contagem de plaquetas, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial, níveis de fibrinogênio, produtos de degradação da fibrina e dosagem de d dímero. (1,40) A correção deve ser realizada com hemocomponentes e hemoderivados. Medi- das contemporizadoras podem ser necessárias nesses casos (Figura 15). 51 TROMBINA Se hemorragia, iniciar imediatamente ÁCIDO TRANEXÂMICO, 1 grama, EV infundido em 10 minutos História prévia de de�ciências especí�cas, (ex.: Doença de Von Willebrand); uso de anticoagulantes; sangramento excessivo intraoperatório (CIVD ), plaquetopenia, hipo�brinogenemia CH, PFC, plaquetas, crioprecipitado, fator VIIa ativado, desmopressina, protamina, dentre outros Traje antichoque não pneumático Cirurgia: cuidado com essa opção Damage Control, se CIVD intraoperatório DIAGNÓSTICO TRATAMENTOS ESPECÍFICO + TRANSFUSÃO TRATAMENTO ADJUVANTE Figura 15. Atendimento aos distúrbios de coagulação(1) REFERÊNCIAS 1. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia. Brasília (DF): OPAS; 2018. 80 p. 2. Osanan GC, Padilla H, Reis MI, Tavares AB. 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A hemorragia pós-parto (HPP) é uma das principais causas de mortalidade materna no mundo. Complicações obstétricas como atonia uterina, descolamento de pla- centa e acretismo placentário são fatores de risco para sua ocorrência, levando a sangramento intenso e a coagulopatia de consumo.(1) Com o objetivo de reduzir a mortalidade desses casos, deve-se identificar precocemente a ocorrência de fatores de risco para hemorragia e estabelecer um protocolo efetivo de tratamento com suporte transfusional adequado. DEFINIÇÃO Apesar de não haver consenso, a definição mais aceita é um sangramento acima de 500ml após o parto.(2) Classicamente, a HPP é dividida em primária, quando ocorre em até 24 horas após o parto, e em secundária, quando ocorre após as primeiras 24 horas e em até 12 semanas após o parto.(3) Pela Organização Mundial da Saúde, a HPP grave é definida como uma perda de sangue visualmente estimada em mais de 1000ml nas primeiras 24 horas após o parto.(4) Outros protocolos levam em conta, para definição de gravidade, não apenas o volume de sangramento estimado, mas Como citar: Pacagnella RC, Borovac-Pinheiro A, Paula EV, Magnus MM. Hemoterapia na hemorragia pós-parto.In: Hemorragia pós-parto. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2019. Cap.4. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). 57 também a necessidade de transfusão sanguínea, a ocorrência de sinais clínicos de choque ou evidência laboratorial de coagulopatia.(5-7) ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS DA GESTAÇÃO Durante a gestação, ocorrem aumento da volemia plasmática, vasodilatação peri- férica e aumento do débito cardíaco.(8,9) Dessa forma, sintomas como hipotensão e taquicardia costumam ser mais tardios em gestantes que apresentam choque hipo- volêmico por sangramento.(10) Além disso, a gravidez está associada a um estado de hipercoagulabili- dade. Observamos um aumento da atividade pró-coagulante, com elevação da concentração dos fatores V, VII, VIII, IX, X e XII, além do fator de Von Willebrand e do fibrinogênio, e uma diminuição dos fatores endógenos com atividade an- ticoagulante, com menor atividade da alfa 1 antitripsina, da proteína S e maior resistência à proteína C ativada. A concentração de fibrinogênio aumenta gra- dativamente com o avanço da gestação e, no 3° trimestre, observamos con- centrações mais altas (350-650mg/dl) próximas ao dobro das encontradas em mulheres não grávidas (200-400mg/dl).(1) Dessa forma, pesquisas recentes têm focado nas alterações maternas da coagulação durante a HPP, sendo descrito que em pacientes com HPP, dosagens inferiores de fibrinogênio ( 1-2mL/kg/h; • hidratar com cristaloides: 2 litros de cristaloides infundidos rapidamente, en- quanto 1,5 litro é administrado durante a espera pelos resultados de exames e pela chegada de sangue compatível; • administrar ácido tranexâmico na dose 1g, endovenoso, com até 3 horas do parto. 2-SUPORTE TRANSFUSIONAL O objetivo da terapia transfusional é repor a perda volêmica, garantir a oxigenação tecidual e tratar a coagulopatia.(11) A necessidade de suporte transfusional é pouco frequente na HPP, ocorrendo em apenas 0,9% a 2% dos casos.(7,12-19) i. Indicação de transfusões na HPP Na maioria dos casos de HPP, a transfusão isolada de concentrados de hemácias com base em parâmetros clínicos é suficiente.(20) Os critérios para a indicação dessas transfusões não diferem daqueles utilizados em outros contextos clínicos, devendo levar em conta a repercussão clínica do sangramento, os valores de Hb/Ht, a presen- ça de comorbidades, entre outros. Cada unidade de CH deve elevar a hemoglobina em 1g/dl e o hemotócrito em 3% em um adulto de 70 kg. No entanto, o grande desafio do manejo transfusional da paciente com HPP é conseguir diagnosticar precocemente aquelas pacientes que necessitarão de um protocolo de transfusão maciça. 59 Uma vez que os exames laboratoriais não refletem a perda aguda de sangue, os sinais clínicos são importantes para definir a necessidade de transfusão de com- ponentes sanguíneos. A instabilidade hemodinâmica pode indicar a presença de um local ativo de sangramento e pode exigir transfusões de sangue. Alguns sinais clí- nicos e volume de perda de sangue que podem ajudar a desencadear intervenções são apresentados na tabela 1. Tabela 1. Sinais clínicos e volume de perda de sangue e consideração de hemotransfusão SINAIS CLÍNICOS VOLUME ESTIMADO DE PERDA DE SANGUE (ML) DECISÃO CLÍNICA DE HEMOTRANSFUSÃO Normais 500 Observação mais estrita FC >100 e IC > 1 >500 Considerar transfusão FC 1,4 >500 Considerar sobre iniciar protocolo de transfusão maciça IC >1,7 >500 Iniciar protocolo de transfusão maciça FC – Frequência Cardíaca; IC – Índice de Choque (FC/Pressão arterial sistólica) Conforme necessário, devem-se corrigir os parâmetros de coagulação segun- do a tabela 2. Tabela 2. Composição dos hemoderivados e seus efeitos clínicos PRODUTO VOLUME (ML) COMPONENTES EFEITOS DOSE/ALVO Concentrado de Hemáceas (CH) 240 Glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma Eleva a Hb em 1g/dl e o hemotócrito em 3% em um adulto de 70 kg Conforme avaliação clínica, Hb>8 d/dL Plasma Fresco Congelado (PFC) 250 Fibrinogênio, antitrombina III, fatores V e VIII Aumento de 10mg/dL no fibrinogênio 10 a 20ml/kg de peso corporal; manter INR ≤ 1,5. Criopreciptado 40 Fibrinogênio, fatores VIII e XIII, fator de von Willebrand Aumento de 10mg/dL no fibrinogênio 1 unidade/10 kg peso; manter fibrinogênio acima 150mg/dl. Plaquetas 50 Plaquetas, glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma Aumento de 5.000 a 10.000/mm3 na contagem de plaquetas 1 unidade CP/10 kg de peso; manter plaquetas acima 50.000/mm3. ii. Transfusão maciça na HPP Os escores preditivos de transfusão maciça utilizados para o trauma não estão va- lidados para gestantes, e sinais clínicos, como hipotensão e taquicardia, podem ser mais tardios nesta população. Nesse contexto, os fatores que podem indicar a necessidade da adoção de um protocolo de transfusão maciça são mostrados no quadro 1. 60 Quadro 1. Critérios para iniciar protocolo de transfusão maciça em HPP Presença de qualquer um dos critérios abaixo - Reposição volêmica superior a 50% da volemia nas primeiras 2 horas - Queda da hemoglobina > 4g/dl na vigência do sangramento - Transfusão ≥ 4u CH na vigência do sangramento - Instabilidade hemodinâmica na vigência de sangramento - Coagulopatia laboratorial Os protocolos de transfusão maciça atuais foram desenvolvidos focando pa- cientes com hemorragia associada ao trauma, havendo poucos estudos específicos para o tratamento da HPP.(21) Entretanto, pacientes traumatizados são diferentes dos pacientes obstétricos, primeiramente por serem, na maioria das vezes, do sexo masculino e pela presença de diferenças relevantes no mecanismo do sangramento e da coagulopatia, nos dois cenários, o que torna arriscada a simples transposição de estratégias transfusionais aplicadas no trauma para o tratamento da HPP.(1) iii. Protocolo de transfusão maciça Os protocolos de transfusão maciça foram inicialmente estabelecidos para atendi- mento de soldados feridos em guerra, consistindo na utilização mais precoce do Plasma Fresco Congelado (PFC) em pacientes com choque hemorrágico secundário ao trauma. Tradicionalmente a ressuscitação volêmica era feita com cristaloides e CH, sendo a reposição com PFC indicada mais tardiamente, apenas após a utilização de 10 unidades de CH, presença de RNI elevado ou sangramento difuso evidente. Como a maioria desses pacientes já apresentava coagulopatia, acidose e hipotermia no momento inicial,a proposta de infusão precoce do PFC tinha como racional a prevenção da maior deterioração da coagulopatia.(22) A partir disso, foram criados os protocolos baseados em razões fixas de PFC: Concentrado de Plaquetas (CP): CH, buscando uma proporção que beneficiasse a hemostasia, mas que mantivesse um hematócrito adequado. Diversas razões de PFC: CH foram testadas.(22) Entretanto, a maioria dos estudos que analisaram a utilização de transfusão em razões fixas é retrospectiva, apresentando um viés de seleção, uma vez que muitos desses pacientes foram transfundidos na maneira tradicional, rece- bendo PFC mais tardiamente. Assim, aqueles que ao final receberam razões mais pró- ximas de 1:1 foram aqueles que sobreviveram tempo suficiente para receber o PFC. As evidências são controversas e não existem estudos randomizados que comparem a estratégia convencional com a transfusão baseada em razões fixas.(22-24) Um fator que vem se mostrando crucial no desfecho desses pacientes é a admi- nistração precoce do PFC, independentemente da razão entre os hemocomponentes 61 transfundidos. Atrasos na administração de CH e PFC têm demonstrado correlação com maior tempo para atingir hemostasia adequada e com aumento da mortalidade.(23) Dessa forma, as recomendações deste protocolo para pacientes com HPP com indicação de transfusão maciça (critérios no quadro 1) envolvem o uso de an- tifibrinolíticos, a transfusão precoce de CH e PFC, podendo ser considerada a transfusão em razões fixas na relação 1:1, o uso de crioprecipitado e plaque- tas de acordo com gatilhos específicos e a correção de distúrbios metabólicos (Quadro 2) (Figura 1).(19,25-27) Quadro 2. Procedimentos de transfusão maciça em HPP · Solicitar transfusão de CH precocemente e conforme avaliação clínica. · Considerar PFC na dose de 10 a 20ml/kg de peso corporal. · Transfundir criopreciptado, 1 unidade/10 kg de peso corporal com objetivo de manter fibrinogênio acima 150mg/dl. · Transfundir 1 unidade CP/10 kg de peso corporal com objetivo de manter plaquetas acima 50.000/mm3. · Corrigir a acidose metabólica, a hipotermia e a hipocalcemia frequentemente presentes nestas pacientes decorrentes do choque e do alto volume transfusional, garantindo o tratamento adequado da coagulopatia. Regra do 1 HPP grave Critérios de gravidade? Protocolos de transfusão maciça Iniciar transfusão precoce de CH e PFC na proporção 1:1 CH PFC PLQ CRIOEleva a Hb em 1g/dl e o hemotócrito em 3% em um adulto de 70 kg 1 unidade/10 kg de peso - manter �brinogênio acima 150 mg/dl Objetivos/Metas terapêuticas Hb > 8g/dl Fibrinogênio 150-200 mg/dl Plaquetas > 50.000 TP (INR) ≤ 1,51 unidade CP/10 kg de peso - manter plaquetas acima 50.000/mm3 10 a 20 ml/kg de peso CH - Concentrado de Hemácias PFC - Plasma Fresco Congelado Indicar transfusão de acordo com gatilhos especí�cos • Administrar ácido tranexâmico (1g ev) • Solicitar transfusão de CH precocemente • Corrigir acidose metabólica, hipotermia e hipocalcemia. • Transfusão ≥ 4u CH • Reposição volêmica superior a 50% da volemia 2 horas • Instabilidade hemodinâmica • Coagulopatia laboratorial • Queda hemoglobina > 4g/dl Sangramento ≥ 1000 ml OU Frequência cardíaca > 100 E Índice de Choque ≥ 1 PQT - Plaquetas CRIO - Crioprecipitado Figura 1. Fluxograma para transfusão maciça na HPP 62 iv. Seguimento pós-tratamento Considerando que a gestação é um estado de hipercoagulabilidade, existe aumen- to do risco tromboembólico no puerpério. Pacientes que receberam altos volumes transfusionais e antifibrinolíticos apresentam redução da fibrinólise com elevação deste risco. Assim, mesmo após um episódio de HPP, tendo alcançado o controle dela, deve-se adotar medidas de prevenção de trombose, como meias elásticas, deambulação precoce e considerar a utilização heparina profilática.(28) REFERÊNCIAS 1. Ducloy-Bouthors AS, Susen S, Wong CA, Butwick A, Vallet B, Lockhart E. Medical advances in the treatment of postpartum hemorrhage. Anesth Analg. 2014;119(5):1140–7. 2. Vogel JP, Oladapo OT, Dowswell T, Gülmezoglu AM. Updated WHO recommendation on intravenous tranexamic acid for the treatment of post-partum haemorrhage. Lancet Glob Health; 6(1):e18-e19 3. Tang J, Kapp N, Dragoman M, de Souza JP. WHO recommendations for misoprostol use for obstetric and gynecologic indications. 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Massive obstetric hemorrhage: Current approach to management. Med Intensiva. 2016; 40(5):298-310. 10. Hofmeyr GJ, Mohlala BK. Hypovolaemic shock. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2001;15(4):645–62. 11. Wikkelsø AJ, Hjortøe S, Gerds TA, Møller AM, Langhoff-Roos J. Prediction of postpartum blood transfusion-risk factors and recurrence. J Matern Fetal Neonatal Med. 2014;27(16):1661-7. 12. Patel A, Goudar SS, Geller SE, Kodkany BS, Edlavitch SA, Wagh K, et al. Drape estimation vs. visual assessment for estimating postpartum hemorrhage. Int J Gynaecol Obstet. 2006;93(3):220–4. 13. Gharoro EP, Enabudoso EJ. Relationship between visually estimated blood loss at delivery and postpartum change in haematocrit. J Obstet Gynaecol. 2009;29(6):517– 20. 14. Al Kadri HM, Al Anazi BK, Tamim HM. Visual estimation versus gravimetric measurement of postpartum blood loss: a prospective cohort study. Arch Gynecol Obstet. 2011;283(6):1207–13. 15. Borovac-Pinheiro A, Pacagnella RC, Cecatti JG, Miller S, El Ayadi AM, Souza JP, et al. Postpartum hemorrhage: new insights for definition and diagnosis. Am J Obstet Gynecol. 2018;219(2):162–8. 16. Pacagnella RC, Souza JP, Durocher J, Perel P, Blum J, Winikoff B, et al. A systematic review of the relationship between blood loss and clinical signs. PLoS One. 2013;8(3):e57594. 17. Nathan HL, El Ayadi A, Hezelgrave NL, Seed P, Butrick E, Miller S, et al. Shock index: an effective predictor of outcome in postpartum haemorrhage? BJOG. 2015;122(2):268–75. 18. Mehrabadi A, Hutcheon JA, Lee L, Liston RM, Joseph KS. Trends in postpartum hemorrhage from 2000 to 2009: a population-based study. BMC Pregnancy Childbirth. 2012;12(1):108. 19. Fuller AJ, Bucklin BA. Blood product replacement for postpartum hemorrhage. Clin Obstet Gynecol. 2010;53(1):196–208. 64 20. Prick BW, Jansen AJ, Steegers EA, Hop WC, Essink-Bot ML, Uyl-de Groot CA, et al. Transfusion policy after severe postpartum haemorrhage: a randomised non- inferiority trial. BJOG. 2014;121(8):1005–14. 21. Tanaka H, Matsunaga S, Yamashita T, Okutomi T, Sakurai A, Sekizawa A, et al. A systematic review of massive transfusion protocol in obstetrics. Taiwan J Obstet Gynecol. 2017;56(6):715–8. 22. Ho AM, Mizubuti GB, Dion PW. Proactive Use of Plasma and Platelets in Massive Transfusion in Trauma: The Long Road to Acceptance and a Lesson in Evidence- Based Medicine. Anesth Analg. 2016;123(6):1618–22. 23. Meyer DE, Vincent LE, Fox EE, OKeeffe T, Inaba K, Bulger E, et al. Every minute counts: time to delivery of initial massive transfusion cooler and its impact on mortality. J Trauma Acute Care Surg. 2017;83(1):19–24. 24. Gregory JA, Huitron SS, George AA, Simon CD. Optimizing TransfusionRatios in Massive Transfusion Protocols: An Argument Against the 1:1:1 Dogma and Approach to Trauma Resuscitation. Lab Med. 2015;46(2):e46–52. 25. Le Gouez A, Mercier FJ. Major obstetric hemorrhage. Transfus Clin Biol. 2016 Nov;23(4):229–32. 26. Abdul-Kadir R, McLintock C, Ducloy AS, El-Refaey H, England A, Federici AB, et al. Evaluation and management of postpartum hemorrhage: consensus from an international expert panel. Transfusion. 2014;54(7):1756–68. 27. Su LL, Chong YS. Massive obstetric haemorrhage with disseminated intravascular coagulopathy. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2012;26(1):77–90. 28. Karlsson O, Jeppsson A, Hellgren M. Major obstetric haemorrhage: monitoring with thromboelastography, laboratory analyses or both? Int J Obstet Anesth. 2014;23(1):10–7. 65 CAPÍTULO 5 MANEJO PÓS-EVENTO AGUDO Carla Betina Andreucci Polido¹ Marcelo Guimarães Rodrigues² ¹Departamento de Medicina, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil. ²Hospital Universitário Evangélico de Curitiba, PR, Brasil. Após estabilização clínica da paciente que teve um episódio agudo de hemorragia pós-parto, é essencial que a equipe multiprofissional mantenha vigilância rigorosa sobre a evolução do quadro. Em alguns casos, novos episódios agudos de san- gramento clinicamente significativo podem acontecer nas primeiras vinte e quatro horas após o quadro inicial. Além disso, pode ser necessária a manutenção da res- suscitação hemodinâmica de pacientes que apresentaram o quadro agudo de he- morragia. A manutenção do tônus uterino por meio de medicamentos e o controle do balanço hídrico e da hematimetria da paciente são fundamentais nesse período. É possível também que novos procedimentos clínicos ou cirúrgicos sejam necessá- rios, caso a estabilização hemodinâmica da paciente seja alterada.(1-4) COMPLICAÇÕES A morte materna é uma complicação associada à hemorragia pós-parto, com incidência muito variada. Em países de alta renda, a morte materna por hemorragia é muito rara, va- riando de menos de 1% a no máximo 2% dos casos, enquanto, em países de baixa renda, pode alcançar até 25% dos casos. Como dito anteriormente, a morte e a morbidade gra- ve incluindo near miss materno estão diretamente relacionados ao acesso e à qualidade dos serviços de saúde locais. A maioria dos casos de morte após episódio hemorrágico é consequente das complicações do choque hemorrágico e/ou do seu manejo.(1,5) O choque hipovolêmico leva com frequência à falência orgânica, em especial à necrose tubular aguda e insuficiência renal aguda, com eventual necessidade de Como citar: Andreucci CB, Rodrigues MG. Manejo pós-evento agudo. In: Hemorragia pós-parto. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2019. Cap. 5. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/ Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). 66 terapia de substituição renal (hemodiálise). É preciso que a função renal e o balanço hídrico de mulheres que apresentaram hemorragia pós-parto sejam monitorados de forma sistemática. No entanto, reposições volêmicas intempestivas e balanço hídrico positivo persistente podem levar ao agravamento da disfunção orgânica e associar o risco de coagulopatia.(1,5) Cerca de 4% dos casos evoluem com algum grau de falência renal, sen- do possível também a ocorrência de insuficiência cardíaca, respiratória e hepática, agregando os riscos de complicações inerentes à ventilação mecânica, uso de droga vasoativa, monitorização hemodinâmica invasiva, entre outros. Raramente, o hipo- pituitarismo por isquemia hipofisária pode levar à Síndrome de Sheehan de mani- festação aguda ou subaguda.(5-7) A transfusão de hemoderivados pode ser necessária em mais de 50% dos casos de hemorragia pós-parto e também pode levar a complicações imediatas e em longo prazo, como reações transfusionais, infecção, distúrbios hidroeletrolíticos, aloimunização e sobrecarga de volume sistêmico.(1) Complicações cirúrgicas incluem necessidade de histerectomia, com prejuízo ao planejamento reprodutivo das mulheres, possíveis lesões de órgãos adjacentes durante procedimento cirúrgico, risco de infecções e tromboembolismo (trombose venosa profunda, embolia pulmonar, infarto agudo do miocárdio).(5-7) Diversos graus de anemia ferropriva podem ser observados após um episódio agudo de hemorragia pós-parto, levando à necessidade de tratamentos prolonga- dos com reposição de ferro e folato, comumente associados a desconfortos abdo- minais e difícil adesão ao tratamento prolongado. MONITORIZAÇÃO CLÍNICA Resolvido o quadro agudo de hemorragia pós-parto, é essencial que a observação clínica das pacientes seja realizada em enfermaria de cuidados semi-intensivos ou intensivos. Na impossibilidade de maior vigilância em setor específico, recomenda-se que a equipe multiprofissional seja deslocada para atendimento preferencial dessas mulheres e/ou que estas permaneçam dentro do centro obstétrico/cirúrgico até que seja afastada a situação crítica. A transferência para alojamento conjunto ou enfermaria de cuidados mínimos pode resultar em atraso de diagnóstico e manejo de complicações associadas ao quadro e que podem se manifestar nas primeiras vinte e quatro horas após o quadro agudo.(6) 67 O acesso venoso duplo deve ser mantido por até vinte e quatro horas, após o quadro agudo de hemorragia. O balanço hídrico deve ser realizado por meio da mo- nitorização de infusão total de volume (incluindo hemoderivados) e débito urinário. A ocitocina endovenosa pode ser mantida até vinte e quatro horas, com velocidade de infusão de 150ml/hora e adequação de oferta de volume de acordo com balanço hídrico. A hipotermia deve ser evitada por meio de administração de soro aquecido (exceção para soro de diluição da ocitocina) e cobertores/mantas térmicas. Pode ser necessária a manutenção da oxigenioterapia em máscara, de 8 a 10 L/minuto.(1,3) Para reavaliação longitudinal das mulheres que apresentaram hemorragia pós-parto, sugerimos a realização do índice de choque (IC= FC/PAS) de uma a 4 ho- ras após evento agudo. O IC > 0,9 indica possível necessidade de hemotransfusão.(1) SEGUIMENTO LABORATORIAL Não há consenso sobre solicitação de exames laboratoriais e ressalta-se que o qua- dro clínico deve ser o maior norteador das condutas terapêuticas. Mesmo assim, re- comendamos a avaliação de hemograma, função renal, ionograma, coagulograma, fibrinogênio (esses últimos podem nortear a reposição de hemoderivados específi- cos, como plasma). Em casos mais graves com instabilidade hemodinâmica inicial, sugerimos também a dosagem de lactato e a realização de gasometria arterial.(1,3) REFERÊNCIAS 1. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia obstétrica. Brasília (DF): OPAS; 2018. 80 p. 2. Abdul-Kadir R, McLintock C, Ducloy AS, El-Refaey H, England A, Federici AB, et al. Evaluation and management of postpartum hemorrhage: consensus from an international expert panel. Transfusion. 2014;54(7):1756–68. 3. ACOG Practice Bulletin. Postpartum Hemorrhage. Clinical Management Guidelines for Obstetrician –Gynecologists number 183. Obstet Gynecol. 2017;130:e168–86. 4. Shakur H, Elbourne D, Gülmezoglu M, Alfirevic Z, Ronsmans C, Allen E, et al. The WOMAN Trial (World Maternal Antifibrinolytic Trial): tranexamic acid for the 68 treatment of postpartum haemorrhage: an international randomised, double blind placebo controlled trial. Trials. 2010;11(1):40. 5. Kuklina EV, Meikle SF, Jamieson DJ, Whiteman MK, Barfield WD, Hillis SD, et al. Severe obstetric morbidity in the United States: 1998-2005. Obstet Gynecol. 2009;113(2 Pt 1):293–9. 6. Marshall AL, Durani U, Bartley A, Hagen CE, Ashrani A, Rose C, et al. The impact of postpartum hemorrhage on hospital length of stay and inpatient mortality: a National Inpatient Sample-based analysis. Am J Obstet Gynecol. 2017;217(3):344. e1–6. 7.Shakur H, Roberts I, Fawole B, Chaudhri R, El-Sheikh M, Akintan A, et al.; WOMAN Trial Collaborators. Effect of early tranexamic acid administration on mortality, hysterectomy, and other morbidities in women with post-partum haemorrhage (WOMAN): an international, randomised, double-blind, placebo- controlled trial. Lancet. 2017;389(10084):2105–16. 69 CAPÍTULO 6 AVALIAÇÃO COMPARATIVA - CARBETOCINA VS OCITOCINA (EFICÁCIA) Samira El Maerrawi Tebecherane Haddad¹ Marcelo Guimarães Rodrigues² ¹Departamento de Tocoginecologia, Faculdade de Ciências Médicas de Santos, Santos, SP, Brasil. ²Hospital Universitário Evangélico de Curitiba, Curitiba, PR, Brasil. A ocitocina é a droga uterotônica de primeira eleição descrita nos principais protoco- los e recomendações para a prevenção e manejo de hemorragia pós-parto, especial- mente por sua comprovada eficácia clínica, poucos efeitos colaterais, baixo custo e ampla disponibilidade mundial.(1,2) No entanto, sua qualidade e efetividade podem ser comprometidas em locais com escassez de recursos para acondicionamento adequa- do, considerando que a medicação é termossensível e necessita refrigeração durante todo seu processo de produção e estocagem para que mantenha sua estabilidade farmacológica (temperatura entre 2°C e 8°C para garantir sua eficácia).(3,4) Além disso, locais de baixa renda podem apresentar dificuldades adicionais com relação à quali- dade da medicação produzida e falta de pessoal treinado para a administração da medicação pelas vias recomendadas.(5) Ainda, os demais uterotônicos, como derivados do ergot e misoprostol, tam- bém estão susceptíveis a degradação pelo calor, luz ou umidade e necessitam do se- guimento de criteriosos processos de qualidade de armazenamento para manutenção da eficiência.(6,7) Nesse sentido, alguns estudos estão sendo realizados para avaliar a produção de alternativas termoestáveis e de administração não parenteral, tanto para a ocitocina como para análogos, com a devida comparação de eficácia para preven- ção e manejo da hemorragia pós-parto, especialmente considerando as limitações de alguns cenários de baixa e média renda.(8,9) Como exemplo, estão os estudos com uso da carbetocina para prevenção da HPP em comparação com a ocitocina.(10,11) Como citar: Haddad SM, Rodrigues MG. Avaliação comparativa - carbetocina vs ocitocina (eficácia). In: Hemorragia pós-parto. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2019. Cap. 6. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). 70 COMPARAÇÃO DE EFETIVIDADE A carbetocina é um uterotônico agonista da ocitocina, com meia vida maior e formu- lação termoestável. Em comparação com a ocitocina, a carbetocina induz uma respos- ta uterina prolongada, quando administrada no pós-parto, em termos de amplitude e frequência de contrações. A vantagem potencial da administração intramuscular da carbetocina sobre a ocitocina seria a sua duração de ação mais longa.(12) Estudos comparando o uso da carbetocina com outros uterotônicos, apesar de demonstrarem resultados promissores com relação à prevenção de HPP e ao uso de medicações adicionais, especialmente após parto cesárea, apontam para a necessidade de mais evidências que suportem as mudanças nas recomendações. Em 2007, uma revisão sistemática(13) foi realizada para avaliar a efetividade do uso da carbetocina em comparação com a ocitocina para a prevenção de HPP . Essa revisão compilou dados de 4 estudos, três relativos ao uso após parto cesárea e um após parto vaginal. O uso de carbetocina resultou em uma redução estatisti- camente significativa na necessidade de agente uterotônico terapêutico adicional (risco relativo (RR) 0,44, intervalo de confiança de 95% (IC) 0,25 a 0,78) em com- paração com a ocitocina, para aquelas mulheres que foram submetidas a cesariana, mas não para parto vaginal. A carbetocina também esteve associada à redução da necessidade de mas- sagem uterina tanto no parto por cesariana quanto no parto vaginal (RR 0,38, IC 95% 0,18 a 0,80; RR 0,70, IC 95% 0,51 a 0,94, respectivamente). No entanto, esse desfecho foi documentado apenas em um estudo sobre parto cesáreo e no único estudo sobre parto vaginal. Os dados agrupados dos ensaios não revelaram diferenças estatisticamente significativas em termos dos efeitos adversos entre a carbetocina e a ocitocina. Outras revisões sistemáticas(14,16) foram realizadas para avaliar o uso da carbe- tocina na prevenção de HPP em comparação com a ocitocina e demais uterotônicos. Apesar de os resultados dos estudos incluídos demonstrarem efeitos positivos da carbetocina para redução da perda sanguínea, HPP, necessidade de uterotônicos adicionais e duração do terceiro período do trabalho de parto, os estudos incluídos apresentam heterogeneidade em termos de via de administração, dose das medi- cações e via de parto. De maneira geral, para as mulheres que se submeteram à cesariana, a car- betocina resultou em uma redução estatisticamente significativa na necessidade de 71 uterotônicos terapêuticos adicionais em comparação com a ocitocina, mas não hou- ve diferença na incidência de hemorragia pós-parto. Ainda, esteve associada a um número significativamente menor de efeitos adversos.(14) No entanto, as conclusões apontaram que mais pesquisas são necessárias para analisar custo/ efetividade e superioridade da carbetocina como um agente uterotônico de eleição na prevenção e manejo da HPP. ANÁLISE DE NÃO INFERIORIDADE Tendo em vista os estudos realizados para a comparação da efetividade da carbe- tocina como agente uterotônico para prevenção de HPP e os resultados obtidos, a Organização Mundial de Saúde participou de um estudo internacional, rando- mizado, duplo-cego, controlado, de não inferioridade, comparando carbetocina termoestável com ocitocina na prevenção da hemorragia pós-parto em mulheres que tiveram parto via vaginal em 23 hospitais, em 10 países, entre julho de 2015 e janeiro de 2018.(17) Os objetivos primários foram avaliar a não inferioridade da carbetocina está- vel à temperatura ambiente (100μg intramuscular) versus ocitocina (10UI intramus- cular) na prevenção da HPP e HPP grave após o parto vaginal. Os desfechos primá- rios foram perda sangüínea ≥ 500mL ou o uso de uterotônicos adicionais (endpoint composto requerido pelas autoridades regulatórias de medicamentos) e perda de sangue ≥ 1000mL. As mulheres que esperavam ter parto vaginal e que tiveram gestação única e dilatação cervical de 6 cm ou menos eram elegíveis. As mulheres não eram elegíveis se estivessem em estágio avançado de trabalho de parto (dilatação cervical > 6 cm), estivessem incapacitadas de fornecer consentimento informado, referissem alergias a carbetocina, homólogos de ocitocina ou excipientes, ou tivessem um distúrbio cardiovascular, hepático ou renal grave e epilepsia. As mulheres foram submetidas a randomização quando o parto vaginal era iminente e foram aleatoriamente designadas para receber uma única injeção intra- muscular de carbetocina termo- estável na dose de 100μg ou ocitocina na dose de 10UI. Imediatamente após o nascimento do bebê, o medicamento foi administrado, e o manejo do terceiro período do trabalho de parto foi realizado conforme reco- mendado nas diretrizes da OMS. 72 Uma vez o cordão umbilical clampeado e cortado, um lençol de plástico para coleta de sangue foi colocado sob a mulher. O sangue foi coletado por 1 hora ou por 2 horas se o sangramento continuasse por mais de 1 hora. Após o sangue foi pesado por uma balança digital, com o peso registrado em gramas e depois conver- tido em volume (mililitros). O estudo incluiu 29.645 mulheres em 10 países. As características no início do estudo e os desfechos do nascimento foram semelhantes nos dois grupos. Como resultados primários, a perda de sangue de pelo menos 500ml ou o uso de agentes uterotônicos adicionais ocorreu em 14,5% das mulheresno grupo carbetocina e em 14,4% daquelas no grupo ocitocina (RR, 1,01; IC 95%, 0,95 a 1,06; IC95% ajustado para comparações múltiplas, devido a dois desfechos primários, 0,94 a 1,07; Ppo- rém, com potenciais sequelas orgânicas e emocionais. Os quadros graves de hemor- ragia podem levar a situações adicionais de risco, como necessidade de transfusão de hemoderivados, internações prolongadas e em unidades de terapia intensiva, procedimentos invasivos e cirurgias de emergência, incluindo histerectomia, que configuram quadros de morbidade materna grave ou near miss materno.(4,5) A hemorragia pós-parto não é um diagnóstico em si, mas a consequência de uma condição subjacente que merece investigação criteriosa e pronto atendimento. A atonia uterina é a principal causa subjacente de HPP e, apesar de existirem fatores de risco identificáveis para a ocorrência dessa alteração, a maioria dos casos ocorre sem risco prévio, demonstrando que a habilidade da equipe em prevenir, reconhecer e tratar a HPP é o principal elemento para evitar os casos graves e óbitos.(6-8) Como citar: Haddad SM, Polido CB. Introdução. In: Hemorragia pós-parto. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2019. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). 2 Neste sentido, considerando que a quantidade de sangramento uterino no pós-parto pode ser vultosa em curto tempo, faz parte das estratégias de ação que os profissionais permaneçam à beira do leito até que a situação seja estabilizada e persigam a causa da hemorragia enquanto instituem o tratamento da perda volê- mica. Ainda, a organização do sistema de saúde como um todo apresenta papel de extrema relevância nesta cadeia de cuidados, tanto inter quanto intra equipamentos de saúde.(6,8) As barreiras ao acesso a um cuidado adequado iniciam-se antes mesmo da ges- tação e se propagam por toda a gravidez e pós-parto, por meio de falhas relacionadas à educação sexual e reprodutiva das mulheres, aos atrasos na aquisição de métodos contraceptivos efetivos, ao acompanhamento pré-natal qualificado, à estratificação de risco gestacional, ao referenciamento para parto em local adequado à complexidade de risco da mulher, além de problemas na provisão do cuidado intra-parto, principalmente no que se refere ao manejo ativo do terceiro período e pronto diagnóstico e tratamento de casos confirmados ou suspeitos de hemorragia instalada.(6-9) O diagnóstico adequado das condições iniciais dos quadros de hemorragia, o adequado e rápido manejo clínico/farmacológico/cirúrgico e a disponibilidade de re- cursos terapêuticos e de equipamentos de saúde são elementos efetivos para evitar a maioria absoluta dos casos de morte materna por hemorragia. Nesse sentido, toda a equipe de profissionais que prestam assistência à saúde, sejam enfermeiros, médi- cos obstetras, anestesistas, técnicos de enfermagem, entre outros, precisa reconhe- cer qualquer episódio de sangramento durante a gestação e pós-parto como um sinal clínico que deve ser valorizado e que demanda extrema vigilância e cuidado. Estratégias amplas e integradas são necessárias para que as barreiras sejam superadas, como adequada comunicação entre serviços, referenciamento oportuno mediado por central de regulação de vagas (tanto para casos de risco quanto para tratamento de emergência de situações instaladas), sincronia e homogeneidade de ações entre equipe de assistência, banco de sangue e laboratório, definição de pro- tocolos validados para sequenciamento de ações, fluxos e auditorias institucionais, protocolo de transfusão maciça para obstetrícia, treinamento de equipes, ações de educação que envolvam a sociedade, além da garantia de direitos básicos sexuais e reprodutivos para as mulheres. Dada a relevância do tema e as dificuldades já identificadas, sociedades de classe e organizações não governamentais têm se mobilizado para a instituição de estratégias para redução das mortes maternas, em especial decorrentes da HPP. 3 Como exemplo, a estratégia Zero Mortes Maternas por Hemorragia nas Américas é um projeto da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) /Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro Latino-Americano de Perinatologia, Saúde Reprodutiva e Mulheres (CLAP) dedicado à prevenção da hemorragia obstétrica.(9) Essa iniciativa visa fortalecer os sistemas de saúde, eliminar as barreiras ao acesso aos cuidados de saúde, qualificar os profissionais de saúde para lidar com a hemorragia obstétrica e garantir a disponibilidade dos suprimentos e equipamentos necessários para lidar com formas graves de hemorragia pós-parto. Também procu- ra capacitar as mulheres, para que possam reconhecer plenamente os seus direitos e preferências. A iniciativa tem o objetivo adicional de mobilizar os governos, a socie- dade civil e as comunidades para o problema da HPP e atualmente possui parceria com o Ministério da Saúde do Brasil e a FEBRASGO, atuando em estados prioritários brasileiros desde 2016. REFERÊNCIAS 1. Say L, Chou D, Gemmill A, Tunçalp Ö, Moller AB, Daniels J, et al. Global causes of maternal death: a WHO systematic analysis. Lancet Glob Health. 2014;2(6):e323- 33. 2. World Health Organization (WHO). Trends in maternal mortality: 1990 to 2015: estimates by WHO, UNICEF, UNFPA, World Bank Group and the United Nations Population Division. Geneva: WHO; 2015. 3. Lombaard H, Pattinson RC. Common errors and remedies in managing postpartum haemorrhage. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2009;23(3):317-26. 4. Souza JP, Gülmezoglu AM, Vogel J, Carroli G, Lumbiganon P, Qureshi Z, et al. 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Strategy for Zero Maternal Deaths by Hemorrhage in Brazil: A Multidisciplinary Initiative to Combat Maternal Morbimortality. Rev Bras Ginecol Obstet. 2018;40(3):103-105. 5 CAPÍTULO 1 DEFINIÇÃO E DIAGNÓSTICO Rodolfo de Carvalho Pacagnella1 Anderson Borovac-Pinheiro1 ¹Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadu- al de Campinas, Campinas, Brasil. A hemorragia pós-parto foi a causa principal da morte de mais de 80.000 mulheres no ano de 2015, em todo mundo. Assim, reduzir mortes maternas no mundo im- plica a redução da mortalidade por hemorragia, sua principal causa.(1) Essa condição atinge mulheres jovens e que vivem em contextos de menor acesso a serviços de saúde. Especialmente nos países com menor renda, a hemorragia é responsável pela maioria das mortes maternas. Nesse sentido, para reduzir esses números, é preciso reduzir as mortes decorrentes da hemorragia no ciclo gravídico-puerperal. No entanto, há alguns desafios para isso os quais incluem a definição de hemorragia pós-parto e seu diagnóstico. DEFINIÇÃO DE HEMORRAGIA PÓS-PARTO (HPP) Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a definição clássica de hemor- ragia pós-parto pressupõe qualquer sangramento, pelo trato genital, superior a 500mL nas primeiras 24 horas; essa classificação considera ainda como hemorragia pós-parto grave qualquer sangramento, pela via de parto, superior a 1000mL.(2) Classicamente, HPP é dividida como primária, quando ocorre nas primeiraspara a pre- venção da HPP é recomendado como indicador de processo para avaliação programática. • Deve-se estar atento à qualidade dos uterotônicos adquiridos pelos serviços e às condições de armazenamento dos mesmos, para que sua eficácia seja garantida. DEFINIÇÃO E DIAGNÓSTICO • A definição de hemorragia pós-parto primária deve envolver o sangramento de 500ml ou mais nas primeiras 24 horas após o parto, independentemente de alterações dos sinais vitais. • A definição ampliada de hemorragia pós-parto grave deve considerar a “Regra do 1”: sangramento maior ou igual a 1000ml (1 L) nas primeiras 24 horas após o parto OU frequência cardíaca > 100 bpm E índice de choque ≥1 (IC = FC/PA sistólica). • Considerando a sua definição, o diagnóstico da HPP é baseado na avaliação da perda sanguínea em conjunto com os parâmetros clínicos e sinais. No entanto, independentemente da definição e forma de diagnóstico, uma vez suspeitada, a hemorragia pós-parto merece abordagem rápida e imediata antes mesmo de sua confirmação. • A Frequência Cardíaca (FC) e o índice de choque devem ser monitorizados de forma sistemática, a partir do nascimento até 24 horas após o parto e, de forma frequente, na primeira hora do nascimento. Valores de FC > 100bpm e IC ≥1 na primeira hora após o parto devem indicar descompensação cardí- aca, e o tratamento deve ser iniciado. 77 ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO E PREVENÇÃO • Recomenda-se a realização rotineira de ultrassonografia durante o pré-natal, para se localizar a posição placentária nas pacientes com cicatriz uterina pré- via, como cesariana anterior e miomectomia, a fim de se determinar o grupo de risco para acretismo placentário. • Pacientes com cesariana anterior associada a placenta prévia ou inserida no local da incisão cirúrgica (alta suspeição de acretismo) devem ter seus partos em serviço de referência especializado. • Recomenda-se realizar a estratificação de risco para HPP de forma contínua, durante todo o processo de cuidado das gestantes, pois, apesar de seu efeito limitado, pode ser útil em preparar a equipe e a instituição para abordagem de um quadro grave de HPP. • Recomenda-se a utilização de protocolos formais de encaminhamento de mulheres para um nível mais elevado de atenção ou serviços de saúde, quan- do identificado risco de HPP. • O padrão-ouro para redução do risco de HPP por atonia uterina é o uso de ocitocina profilática após o parto. • A aplicação de ocitocina 10UI intramuscular após a saída do bebê previne quadros graves de hemorragia pós-parto. • Não utilizar como profilaxia a infusão endovenosa de 10UI de ocitocina em bolus rápido pelo risco de colapso materno. Se a via endovenosa for utilizada, realizar infusão por meio da “Regra dos 3”. • Recomenda-se utilizar o ácido tranexâmico profilático nos casos de pacientes de alto risco para HPP, em associação com a ocitocina. • Demais uterotônicos (misoprostol, derivados do ergot e análogos de oci- tocina) podem ser utilizados na profilaxia da HPP em locais com escassez de recursos humanos ou técnicos, especialmente quando houver falhas na presença de insumos e nas condições de armazenamento. Nesse sen- tido, a carbetocina termoestável na dose de 100mcg intramuscular não apresentou inferioridade em relação à ocitocina para perdas sanguíneas de até 1000ml e pode ser uma alternativa para profilaxia de HPP nessas condições. 78 TRATAMENTO • A presença de sistemas obstétricos de alerta e resposta à hemorragia, tais como o código vermelho, pode reduzir a morbimortalidade por HPP. • Não aguardar os sinais clássicos de instabilidade hemodinâmica para se ini- ciar o tratamento de HPP em uma paciente com sangramento aumentado presumido ou confirmado. • Sempre que um profissional for chamado para avaliar um quadro de HPP, este deve ir imediatamente. Não se deve atrasar a avaliação dessas pacientes pelo risco de choque hipovolêmico. Em geral, cerca de 75% da perda de sangue ocorre dentro de 40 minutos após o parto. • Iniciar imediatamente o tratamento assim que se suspeitar de HPP, indepen- dentemente da metodologia de estimativa de perda volêmica utilizada. • Recomenda-se sempre pesquisar a causa da hemorragia enquanto se realizam as medidas iniciais para direcionar o tratamento e aumentar a sua taxa de sucesso. • O controle do foco sangrante é a principal medida para o combate ao cho- que hipovolêmico. • Para o tratamento de hemorragia pós-parto, a ocitocina deve ser a primeira droga utilizada, preferencialmente pela via endovenosa. • Se não houver ocitocina ou a hemorragia não responder a ela, a ergometrina deve ser a segunda droga de escolha. • As prostaglandinas podem ser utilizadas se não houver ocitocina ou se as duas primeiras drogas falharem em controlar a hemorragia. • O ácido tranexâmico deve ser aplicado para hemorragia pós-parto o mais rapidamente possível, em conjunto com as demais medidas, idealmente até 3 horas do início do quadro. • Não se afastar de uma paciente com HPP enquanto o foco hemorrágico não estiver controlado. • Medidas contemporizadoras para estabilização da paciente (compressão ute- rina bimanual, traje antichoque não pneumático, balão intrauterino) devem ser utilizadas sempre que possível. 79 • O balão de tamponamento intrauterino e as suturas hemostáticas podem reduzir a necessidade de histerectomia nos quadros de atonia uterina. • O uso do traje antichoque não pneumático está recomendado para pacientes com HPP e instabilidade hemodinâmica ou para aquelas com sangramento ativo e iminência de choque hipovolêmico. • A radiologia intervencionista geralmente não é útil nos casos agudos de HPP, em função da necessidade de equipe especializada e ambiência específica. • Em pacientes graves ou naquelas em que o tratamento medicamentoso e/ou as medidas contemporizadoras não contiveram o quadro hemorrágico, uma abordagem cirúrgica é necessária. A abordagem pode começar com cirurgias mais conservadoras e, se não houver melhora ou o quadro for muito grave, evoluir para procedimentos mais invasivos. • Em paciente que mantém instabilidade hemodinâmica, mesmo após controle do foco sangrante e hemotransfusão, avaliar necessidade de mais hemocom- ponentes, ou a existência de foco sangrante não identificado (oculto), ou, ainda, ambas as situações podem coexistir. • Deve-se aventar a realização de cirurgia de controle de danos em pacientes instáveis com quadros graves de HPP e já histerectomizadas. HEMOTERAPIA • As instituições que prestam assistência à gestante, especialmente de média e alta complexidade, devem ter um protocolo de transfusão maciça obsté- trico atualizado. • A necessidade de transfusão de hemocomponentes deve ser baseada na clí- nica da paciente, uma vez que os exames laboratoriais geralmente não refle- tem, de maneira fidedigna, a perda sanguínea aguda. • Os parâmetros que podem indicar a transfusão de concentrado de hemácias devem levar em conta a repercussão clínica do sangramento, os valores de hematimetria e a presença de comorbidades. Via de regra, a transfusão de 1 concentrado de hemácias (CH) eleva a hemoglobina em 1g/dl e o hematócri- to em 3% em um adulto de 70 kg. 80 • Quando da necessidade de transfusão de mais de 4 concentrados de hemá- cias, há indicação de que essas pacientes podem se beneficiar da razão de concentrados de hemácias/plasma mais baixa, sendo que razões menores de 1:2 mostraram menor associação com a mortalidade. • Mais importante que a proporção dos hemocomponentes é a administração precoce deles, de maneira a repor as perdas de fatores de coagulação e cor- rigir distúrbios metabólicos específicos. • A hipofibrinogenemia é precoce e grave nas hemorragias obstétricas. Ní- veis de fibrinogênioofereçam apenas monitoramento para pacientes de risco habitual, por pelo menos 24 horas. É recomendado manter essas mu- lheres em ambiente que permita vigilância rigorosa com equipe presente e prontamente disponível. • Após a reorganização dos parâmetros clínicos, quando a HPP estiver contro- lada, há necessidade de medidas de prevenção de trombose. • O manejo adicional após controle do evento agudo dependerá da evolução de cada caso, e as condutas de seguimento devem ser particularizadas. PATROCINADOR24 horas após o parto, e como secundária, quando ocorre no intervalo de tempo que com- preende as 24 horas pós-parto e as 12 primeiras semanas (Quadro 1).(2,3) Como citar: Pacagnella RC, Borovac-Pinheiro A. Definição e diagnóstico. In: Hemorragia pós-parto. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2019. Cap. 1. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/ Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). 6 Quadro 1. Definição de Hemorragia pós-parto segundo OMS(2) DEFINIÇÃO DE HEMORRAGIA PÓS-PARTO PRIMÁRIA Hemorragia pós-parto 500 ml ou mais nas primeiras 24h após o parto Hemorragia pós-parto grave 1000 ml ou mais nas primeiras 24h após o parto Essa definição vem desde 1990, quando, em um encontro informal de es- pecialistas, definiram-se esses pontos de corte baseando-se na prática corrente à época.(4) Os estudos que precederam essa definição em 1990 encontraram uma perda sanguínea média de 300 a 550ml para parto vaginal e de 500 a 1100ml para cesariana.(5–10) No entanto, os estudos avaliavam um pequeno número de mulheres (n 1000mL (HPP grave) Pulso e pressão arterial normais até a perda de sangue exceder 1000ml; taquicardia, taquipneia leve, queda na PAS com perda de sangue de 1000- 1500ml. Mais de 1500ml de PAS abaixo de 80mmHg, agravando taquicardia, taquipneia e estado mental alterado. Perda sanguínea superior a 40% do total de volume sanguíneo (aproximadamente 2800mL) é geralmente considerada como uma “ameaça à vida”. SOGC Sangramento acima de 500mL Sangramento acima de 1000mL Qualquer perda sanguínea que tem o potencial de gerar instabilidade hemodinâmica deve ser considerada hemorragia pós-parto. A quantidade de perda sanguínea que gera instabilidade hemodinâmica dependerá da condição materna pré-existente. RANZCOG Estimativa de perda sanguínea entre 500 e 1000mL HPH grave após perda de sangue de 1000ml. Os sinais clínicos de choque ou taquicardia devem levar a uma avaliação completa da mãe, incluindo uma avaliação precisa da perda de sangue, tanto escondida quanto revelada. É importante considerar tanto a hemoglobina prévia do paciente como seu volume total de sangue quando se avalia a gravidade da HPP. Fonte: Adaptado de Borovac-Pinheiro A, Pacagnella RC, Morais SS, Cecatti JG. Standard reference values for the shock index during pregnancy. Int J Gynecol Obstet. 2016;135(1):11-5.(22) FIGO - The International Federation of Gynecology and Obstetrics; ACOG - The American College of Obstetricians and Gynecologists; RCOG - The Royal College of Obstetricians and Gynecologists; SOGC - The Society of Obstetricians and Gynaeologists of Canada; RANZCOG - The Royal Australian and New Zealand College of Obstetricians and Gynaecologists Além disso, a saúde basal das mulheres pode ser um importante determinan- te da tolerância à perda sanguínea. A maioria das mulheres saudáveis não apresenta sinais e sintomas de instabilidade hemodinâmica com perda de 1000mL de sangue, porém, mulheres com anemia, pré-eclâmpsia ou outra comorbidade podem exibir sinais e sintomas de choque com perda de sangue inferior a 500mL. Isso acontece em função das alterações hemodinâmicas que acontecem na gestação. 8 Essas alterações se iniciam por volta da sexta semana de gravidez e se man- têm em constante transformação até finalizar o puerpério:(17) • há um aumento de 45% do volume sanguíneo (1200-1600mL), chegando a um volume máximo de 4700 a 5200 ml por volta da 32ª. semana; • há um aumento da pré-carga cardíaca;(17,18) • o débito cardíaco se eleva por volta de 50% ao final da gestação;(17–19) • a frequência cardíaca se eleva desde a quinta semana de gestação e o platô ocorre por volta da 32ª. semana, com aumento esperado de 15-20 batimen- tos por minuto acima dos valores pré-gestacionais;(17,19) • a pressão arterial sofre uma queda no início da gravidez e, a partir de 24 se- manas, há uma tendência gradual de retorno aos níveis pré-gestacionais.(17,19) Todas essas modificações visam acomodar um sistema de baixa pressão que ocorre entre o útero e a placenta, de maneira a prover nutrição e oxigenação fetal e, por isso, as mulheres conseguem suportar a perda sanguínea que acontece durante o parto. Em geral, é preciso uma perda sanguínea de grande volume para que ocor- ram alterações nos sinais vitais. Quando isso ocorre, já se está além da capacidade de adaptação materna.(17,18) Perdas entre 500 e 1000mL de sangue em mulheres saudáveis são tampona- das por esse sistema de reorganização fisiológica; em algumas mulheres, pode nem haver alteração dos sinais vitais. Nas mulheres com hemorragia pós-parto, há uma queda do volume sistólico e um aumento da frequência cardíaca, ao passo que a pressão arterial e o débito cárdico se mantêm estáveis inicialmente, sendo a queda da pressão arterial um sinal já tardio de descompensação.(17,18) Como aponta o quadro 2, além do volume de sangue perdido, os sinais clí- nicos podem ter papel importante na identificação das mulheres com hemorragia pós-parto. Todavia, em função das alteraçõesfisiológicas sobre o sistema cardio- vascular, os sinais clássicos de choque hipovolêmico podem aparecer tardiamente. Uma revisão sistemática identificou, entre os sinais vitais associados ao san- gramento pós-parto, que talvez o índice de choque (IC) - a divisão da frequência cardíaca pela pressão arterial sistólica – FC/PAS - pudesse ser mais adequado na identificação dos casos de gravidade(20) Esse sinal vital composto parece identi- ficar alterações no sistema cardiovascular mais precisamente que os sinais vitais 9 isolados e pode ser um importante marcador de gravidade.(21-230.4-1.1) Um índice de choque acima do normal (cerca de 0,8) está relacionado com sangramentos mais volumosos. Um estudo prospectivo que avaliou a perda de sangue e os sinais vitais simultaneamente durante 24h após o parto identificou que a frequência cardíaca (FC) acima de 105 bpm e o IC acima de 0,965 medidos nos 40 minutos após o parto podem identificar HPP grave.(24) Na prática clínica, “A regra dos 1” (IC≥1 e FC> 100 ou perda sanguínea estimada ≥1000 mL) indica mulheres que devem receber atenção especial (Quadro 3). Nesse sentido, uma definição adequada de HPP deve considerar: Quadro 3. Definição ampliada da HPP primária DEFINIÇÃO AMPLIADA DE HEMORRAGIA PÓS-PARTO PRIMÁRIA Hemorragia pós-parto Sangramento ≥ 500 ml Independente de sinais vitais Hemorragia pós-parto grave Regra do 1 Sangramento ≥ 1000 ml OU Frequência cardíaca > 100 E Índice de choque ≥ 1 DIAGNÓSTICO DE HEMORRAGIA PÓS-PARTO (HPP) Estima-se que a hemorragia pós-parto grave possa levar ao óbito em até 6 horas se não tratada adequadamente.(25) Portanto, a identificação precoce desses casos é a base do tratamento adequado. Como em qualquer condição patológica aguda e le- tal, um bom diagnóstico deve ter como características ter boa acurácia e ser simples e de fácil aplicabilidade na prática diária, em todos os contextos. Considerando a sua definição, o diagnóstico da HPP é baseado na avaliação da perda sanguínea em conjunto com os parâmetros clínicos e sinais. Ambos os parâmetros devem ser monitorizados de forma sistemática, a partir do nascimento até 24h após o parto e, de forma frequente, na primeira hora do nascimento. Em geral, cerca de 75% da perda de sangue ocorre dentro de 40 minu- tos após o parto e tende a estabilizar-se depois disso. Entre 40 minutos e 24 horas, o volume adicional de perda de sangue é mínimo, mesmo para aquelas que sangram mais. Valores de FC > 100 bpm e IC ≥1 na primeira hora após o parto devem indicar descompensação cardíaca, e o tratamento deve ser iniciado. 10 O grande problema, contudo, é fazer a quantificação da perda sanguínea. Isso é particularmente difícil uma vez que o sangue é misturado com outros fluidos corporais e, além disso, em algumas situações, pode haver um acúmulo de sangue dentro do útero, antes de ser exteriorizado, o que pode retardar o diagnóstico da hemorragia pós-parto. A Organização Mundial de Saúde recomenda que se utilize a estimativa vi- sual (EV) de perda de sangue para identificação da hemorragia pós-parto, pela fa- cilidade de utilização, no entanto, esse método é pouco acurado. O sangramento após o parto é subestimado quando se utiliza estimativa visual de perda de sangue. (26–28) Quanto maior a perda sanguínea, mais a EV de perda sanguínea subestima o sangramento, chegando a 40% de subestimação.(26) Mesmo equipes treinadas para identificação da quantidade de sangramento superestimam sangramentos pe- quenos e subestimam sangramentos grandes.(28) Essa subestimação, muitas vezes, retarda a identificação dos casos de hemorragia, o que aumenta a chance de com- plicações. Para tentar corrigir as possíveis super ou subestimações das perdas sanguíne- as pós-parto, alguns autores propuseram modelos para treinamento de estimativa visual de perda sanguínea que podem ser utilizados para treinamento de profissio- nais de saúde(29) (Quadro 4). Quadro 4. Treinamento para estimativa visual de perda sanguínea AVALIAÇÃO VISUAL CORRESPONDENTE EM VOLUME Pequeno 10X10 cm (capacidade máxima saturada) 60mL Médio, 30X30 cm (capacidade máxima saturada) 140mL Larga, 45X45 cm (capacidade máxima saturada) 350mL 1 kg de compressas embebidos 1000mL Poça de 50 cm de diâmetro no piso 500mL Poça de 75 cm de diâmetro no piso 1000mL Poça de 100 cm de diâmetro no piso 1500mL Sangramento vaginal limitado ao leito Não deve exceder 1000mL Sangramento vaginal pela cama e chão Provavelmente superior a 1000mL Fonte: Traduzido de Bose P, Regan F, Paterson-Brown S. Improving the accuracy of estimated blood loss at obstetric haemorrhage using clinical reconstructions. BJOG. 2006;113(8):919-24.(29) Para auxiliar na avaliação direta da perda sanguínea, foi desenvolvido um co- letor especificamente desenhado para receber o conteúdo sanguíneo perdido após o parto (Figura 1). Esse coletor é calibrado, e a mensuração ocorre no momento da perda sanguínea.(30) Comparando-se a EV de perda sanguínea com o uso de coletores, estes 11 parecem identificar melhor o volume perdido após o parto.(27) Porém, o uso rotineiro desses coletores sanguíneos pós-parto não se associa à diminuição de HPP grave, assim não se justifica na prática clínica, com exceção de situações de pesquisas.(31,32) Fonte: Kodkany B, Derman R. Pitfalls in assessing blood loss and decision to transfer. In: B-Lynch C, Keith L, Lalonde A, Karoshi M, editors. A textbook of postpartum hemorrhage: A comprehensive guide to evaluation, management and surgical intervention. Duncow, UK: Sapiens Publishing; 2006. p.33-44.(33) Figura 1. BRASSS-V drape Comparativamente a outras formas de mensuração do volume de sangue perdido, como espectrofotometria, gravimetria (mensuração através do peso) e mensuração direta por meio de coletores,(9,28,30) a mensuração direta da perda san- guínea somada à pesagem de todas as compressas e gases usados no procedimento parece ser a técnica mais factível para avaliação na prática clínica.(28) De qualquer forma, seja com a identificação de uma suspeita de sangramen- to maior que 500ml seja pela identificação de alterações nos sinais vitais, uma vez suspeitada, a hemorragia pós-parto merece abordagem rápida e imediata. A partir da suspeita do diagnóstico de HPP, deve-se iniciar imediatamente um protocolo de diagnóstico etiológico e tratamento. Nesse sentido, o tratamento da HPP deve começar com o envolvimento de toda equipe diretamente ligada à assistência da paciente, e a existência de protocolos institucionais de identificação e manejo da 12 HPP é de extrema importância para se melhorar o diagnóstico e instituir tratamento oportuno, além disso, o treinamento das equipes em emergências obstétricas tem impacto positivo no nível de confiança dos participantes, conhecimentos e habilida- des, e deve ser estimulado. REFERÊNCIAS 1. Kassebaum NJ, Barber RM, Bhutta ZA, Dandona L, Gething PW, Hay SI, et al.; GBD 2015 Maternal Mortality Collaborators. Global, regional, and national levels of maternal mortality, 1990-2015: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2015. Lancet. 2016;388(10053):1775–812. 2. World Health Organization (WHO). WHO Recommendations for the prevention and treatment of postpartum haemorrhage. Geneva: WHO; 2012. 3. Tunçalp O, Souza JP, Gülmezoglu M; World Health Organization. New WHO recommendations on prevention and treatment of postpartum hemorrhage. Int J Gynaecol Obstet. 2013;123(3):254–6. 4. World Health Organization (WHO). Technical working group on the prevention and management of postpartum haemorrhage. the prevention and management of postpartum haemorrhage. Report of a technical working group, Geneva, 3–6 July, 1989. Geneva:WHO; 1990. 5. Kodkany BS, Derman RJ. Pitfalls in assessing blood loss and decision to transfer. In: Arulkumaran SS, Karoshi M, Keith LG, Lalonde AB, B-Lynch C, editors. A textbook of postpartum hemorrhage. 2nd ed. London: Sapiens Publishing; 2012. p.35-41. 6. Newton M, Bradford WM. Postpartalblood loss. Obstet Gynecol. 1961;17:229– 33. 7. Newton M, Mosey LM, Egli GE, Gifford WB, Hull CT. Blood loss during and immediately after delivery. Obstet Gynecol. 1961;17:9–18. 8. Gharoro EP, Enabudoso EJ. Relationship between visually estimated blood loss at delivery and postpartum change in haematocrit. 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BJOG. 2008;115(10):1265–72. 16. Marr L, Lennox C, McFadyen AK. Quantifying severe maternal morbidity in Scotland: a continuous audit since 2003. Curr Opin Anaesthesiol. 2014;27(3):275–81. 17. Ouzounian JG, Elkayam U. Physiologic changes during normal pregnancy and delivery. Cardiol Clin. 2012;30(3):317–29. 18. Tan EK, Tan EL. Alterations in physiology and anatomy during pregnancy. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2013;27(6):791–802. 19. Carlin A, Alfirevic Z. Physiological changes of pregnancy and monitoring. Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2008;22(5):801–23. 20. Pacagnella RC, Souza JP, Durocher J, Perel P, Blum J, Winikoff B, et al. A systematic review of the relationship between blood loss and clinical signs. PLoS One. 2013;8(3):e57594. 21. Pacagnella RC, Souza JP, Durocher J, Perel P, Blum J, Winikoff B, et al. A systematic review of the relationship between blood loss and clinical signs. PLoS One. 2013;8(3):e57594. 22. Borovac-Pinheiro A, Pacagnella RC, Morais SS, Cecatti JG. Standard reference values for the shock index during pregnancy. Int J Gynaecol Obstet. 2016;135(1):11– 5. 14 23. Le Bas A, Chandraharan E, Addei A, Arulkumaran S. Use of the “obstetric shock index” as an adjunct in identifying significant blood loss in patients with massive postpartum hemorrhage. Int J Gynaecol Obstet. 2014;124(3):253–5. 24. Pinheiro A. Hemorragia pós-parto: desafios contemporâneos para um problema global [tese]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas; 2017. 25. Ganatra BR, Coyaji KJ, Rao VN. Too far, too little, too late: a community-based case-control study of maternal mortality in rural west Maharashtra, India. Bull World Health Organ. 1998;76(6):591–8. 26. Toledo P, McCarthy RJ, Hewlett BJ, Fitzgerald PC, Wong CA. The accuracy of blood loss estimation after simulated vaginal delivery. Anesth Analg. 2007;105(6):1736– 40. 27. Patel A, Goudar SS, Geller SE, Kodkany BS, Edlavitch SA, Wagh K, et al. 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Pitfalls in assessing blood loss and decision to transfer. In: B-Lynch C, Keith L, Lalonde A, Karoshi M, editors. A textbook of postpartum hemorrhage: A comprehensive guide to evaluation, management and surgical intervention. Duncow, UK: Sapiens Publishing; 2006. p.33-44. 15 CAPÍTULO 2 AVALIAÇÃO DE RISCO E MEDIDAS PREVENTIVAS Roxana Knobel¹ Gabriel Costa Osanan² ¹Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Curso de Medicina, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil. ²Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. Estima-se que ocorram anualmente, em todo o mundo, aproximadamente 14.000.000 de casos de hemorragia pós-parto e, no Brasil, a hemorragia pós-parto é a segunda causa de morte materna, portanto, saber reconhecer os fatores de risco, realizar profilaxia e atuar com intuito de minimizar o seu impacto nas morbi- dades reconhecidas nas pacientes de alto risco pode ser estratégia importante para reduzir a morbimortalidade relacionada à HPP.(1,2) FATORES DE RISCO Apresentam-se, nesse tópico, os fatores de risco de acordo com as causas mais comuns: Tonus (atonia), Tecido (retenção placentária, acretismo), Trauma (rotura uterina, lacerações e hematomas de canal de parto) e Trombina (coagulopatias ad- quiridas ou congênitas). São fatores de risco para atonia uterina (principal causa de hemorragia pós-parto):(3,4) • primeira gestação; • obesidade materna; • sobredistenção uterina: - macrossomia fetal; Como citar: Knobel R, Osanan GC. Avaliação de risco e medidas preventivas. In: Hemorragia pós-parto. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2019. Cap. 2. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). 16 - gestação gemelar; - polidramnio; • trabalho de parto prolongado, induzido, obstruído ou precipitado; • corioamnionite; • pré-eclampsia; • anemia materna; • hemorragia anteparto; • uso de drogas uterolíticas (sulfato de magnésio, bloqueadores de canal de cálcio, beta agonistas) e agentes anestésicos. São fatores de risco para HPP, por retenção placentária:(1) • acretismo placentário;(5) • cirurgias uterinas: cesarianas, miomectomias, curetagens de repetição; • placenta prévia; • inserção placentária na cicatriz de cesariana; • gestações resultantes de fertilização in vitro; • irradiação pélvica; • multiparidade; • dequitação placentária prolongada; • extração manual de placenta; • retenção de cotilédones\ restos ovulares. Outra causa de hemorragia pós-parto é o trauma. Tanto no trauma genital do parto normal quanto na hemorragia da cesariana, nessa categoria, está inclusa a rotura uterina. Para o trauma genital os fatores de risco são:(4) • parto operatório; 17 • episiotomia; • parto precipitado; • macrossomia fetal; • mutilação genital feminina. Para a rotura uterina, os fatores de risco são:(4) • antecedente de rotura em gestação anterior; • cesariana anterior (principalmente se a histerotomia não foi segmentar trans- versa); • uso de uterotônicos na assistência ao parto; • outras cirurgias uterinas com comprometimento de miométrio. Finalmente, são fatores de risco para coagulopatias: • coagulopatias congênitas (trombocitopenias que devem ser investigadas no pré-natal, Doença de von Willebrant); • coagulopatias adquiridas (exemplo: uso de anticoagulantes e aspirina duran- te a gestação).(6) ESTRATIFICAÇÃO DE RISCO A busca de indicadores clínicos que possam estratificar o risco, embora apresentem limitações, deve ser estimulada. A estratificação de riscopermite o preparo da equipe para uma possível abordagem oportuna e correta de um quadro hemorrá- gico intenso.(1,2,7) Sabe-se que a HPP tem etiologia multifatorial e que a maioria dos casos ocor- re em pacientes sem fatores de risco evidentes. Contudo, as pacientes que apre- sentam os fatores de alto risco tendem a ser o grupo com os quadros de HPP mais graves,(1) como, por exemplo, pacientes com quadro de acretismo placentário ou coagulopatia. 18 Quadro 1. Estratificação de risco para hemorragia pós-parto RISCO CARACTERÍSTICAS DA PACIENTE RECOMENDAÇÕES ASSISTENCIAIS BAIXO Ausência de cicatriz uterina Gravidez única ≤ 3 partos vaginais prévios Ausência de distúrbio de coagulação Sem história de HPP Manejo ativo do 3º estágio Observação rigorosa pós-parto por 1-2 horas, em local adequado* Estimular presença do acompanhante para ajudar a detectar sinais de alerta. MÉDIO Cesariana ou cirurgia uterina prévia Pré-eclampsia leve Hipertensão gestacional leve Superdistensão uterina (gestação múltipla, polidramnio, macrossomia fetal) ≥ 4 partos vaginais Corioamnionite História prévia de atonia uterina ou hemorragia obstétrica Obesidade materna (IMC > 35kg/m2) Indução de parto Miomatose Manejo ativo do 3º estágio Observação rigorosa por 1-2 horas, em local adequado* Estimular presença do acompanhante para ajudar a detectar sinais de alerta. Hemograma Acesso venoso periférico (Jelco 16G) Tipagem sanguínea ALTO Placenta prévia ou de inserção baixa Pré-eclâmpsia grave Hematócritoapós a retirada da placenta. Seu principal benefício parece associar-se ao diagnóstico precoce de atonia uterina e sangramentos aumentados. Fonte: Lalonde A; International Federation of Gynecology and Obstetrics. Prevention and treatment of postpartum hemorrhage in low-resource settings. Int J Gynaecol Obstet. 2012;117(2):108–18. (12) 21 A ocitocina profilática, quando comparada a outros uterotônicos isolada- mente (especialmente misoprostol e derivados de ergot), ou apresenta melhor efi- cácia, ou menos efeitos colaterais, ou ainda melhor custo benefício. Vários estudos estão em andamento para definir o papel de cada uma das drogas uterotônicas na prevenção da HPP, especialmente nos locais onde a ocitocina é disponibilizada na forma termossensível. O papel da carbetocina na prevenção da HPP será discutido no capítulo 8 desse documento. MEDIDAS PREVENTIVAS - PREVENÇÃO PRIMÁRIA, SECUNDÁRIA TERCIÁRIA E QUATERNÁRIA Prevenção corresponde à ação para reduzir ou eliminar aparecimento, causas, com- plicações ou recorrência de doenças. Foram definidos vários níveis de prevenção que permitem uma base teórica para planejar ações.(13-15) Para o caso específico da hemorragia pós-parto, a maioria das publicações tem foco no manejo ativo do terceiro período, com aplicação de ocitocina universal, após todos os partos.(1,8,9) Pela importância clínica e possíveis consequências da HPP para a saúde materna, é essencial pensar em outros níveis de prevenção.(8) 1. Prevenção primordial são as ações tomadas para prevenir o surgimento de condições sociais e ambientais predisponentes que podem levar à causa da doença. As mortes por hemorragia pós-parto ocorrem, em maior proporção, em locais com dificul- dades de acesso aos serviços de saúde e com menos recursos socioeconômicos.(16) O acesso aos serviços de saúde e a diminuição da pobreza podem, por si só e em conjunto com as medidas citadas a seguir, diminuir a morbimortalidade da hemorragia. Junto com o acesso aos serviços de saúde, deve estar, na agenda de gestores e profissionais, o acesso ao planejamento familiar seguro e eficaz. O atendimento ao parto por profis- sionais capacitados e em maternidades com estrutura e fluxos assistenciais adequados também constitui uma forma de prevenção da hemorragia e suas consequências. 2. Prevenção primária é a ação tomada para remover causas e fatores de risco de um problema de saúde individual ou populacional antes do desenvolvimento de uma condição clínica.(15) No caso específico da hemorragia pós-parto, podemos citar: a. pré-concepcional: • orientação para mulheres com múltiplas cesarianas sobre os riscos do acretismo placentário, assim como da sua morbimortalidade associada, antes da concepção; 22 • orientação para mulheres com anemias congênitas e outras anemias crônicas e para as que necessitam de anticoagulação ou têm distúrbios de coagulação sobre os riscos de gestação e parto. b. pré-natal: • diagnóstico e tratamento da anemia;(8) • diagnósticos de distúrbios da coagulação, anemia falciforme e talassemia no pré-natal;(8) • abordagem correta dos quadros hipertensivos na gestação, em especial a prée-clampsia e hipertensão gestacional, que podem culminar com quadros hemorrágicos graves, tais como a HELLP Síndrome;(1) c. pós-parto imediato: • uma nova abordagem com o uso do ácido tranexâmico profilático em pa- cientes de alto risco para hemorragia pós-parto (como as com suspeita ou diagnóstico de acretismo placentário) tem sido pesquisada com resultados promissores. Estudos subsequentes definirão o seu real papel na prevenção da HPP;(17) • a realização rotineira do manejo ativo do terceiro período do parto - com aplicação de ocitocina - é sabidamente a abordagem mais eficaz para evitar a hemorragia pós- parto.(9) 3. Prevenção secundária é a ação realizada para detectar um problema de saúde em estágio inicial, muitas vezes em estágio subclínico, no indivíduo ou na população, facilitando o diagnóstico definitivo e o tratamento e reduzindo ou pre- venindo sua disseminação e os efeitos de longo prazo:(15) • Identificação das pacientes com risco de acretismo placentário, por meio do rastreamento ultrassonográfico da inserção placentária durante o pré-natal (em pacientes com cirurgias uterinas prévias). As pacientes com histórico de cesariana e que apresentam uma placenta prévia ou inserida na cicatriz ci- rúrgica anterior são de alto risco de acretismo placentário e, portanto, para hemorragia pós- parto.(1,5) • Monitoramento cuidadoso e universal de sinais vitais, perda sanguínea e con- tração uterina no período pós-parto.(1,8) 23 • Conferência placentária no pós-parto imediato: tratamento oportuno da re- tenção placentária em ambientes de assistência ao parto (inclui diagnóstico da dequitação incompleta, pela avaliação sistemática de todas as placentas pós-parto). 4. Prevenção terciária é a ação implementada para reduzir, em um indivíduo ou população, os prejuízos funcionais consequentes de um problema agudo ou crônico: • protocolo de abordagem da hemorragia pós-parto: utilização de fluxogramas, checklist e kits de hemorragia pós-parto que incluem insumos necessários;(1,18) • abordagem do acretismo placentário por equipe em centros de referência especializados que contam com equipe especializada multidisciplinar, tais como profissionais médicos, de enfermagem, banco de sangue, laboratório e infraestrutura;(5) • treinamento das equipes assistenciais na abordagem dos quadros de HPP;(1,18) • acesso a sangue e hemoderivados/protocolos de transfusão;(1,8) • acesso a Centros de Terapia Intensiva (CTI) quando necessário. 5. Prevenção quaternária são ações para evitar os riscos da hipermedica- lização – exames, procedimentos e/ou tratamentos desnecessários e que podem ocasionar danos:(15) • evitar procedimentos sem indicação clínica: - procedimentos sem indicação clínica que aumentem a perda sanguínea no parto (ex.: episiotomia, parto instrumental e cesariana);(8) - procedimentos que diminuem a resposta das medicações para tratamento da hemorragia (uso de ocitocina em excesso durante o trabalho de parto);(13,14) - procedimentos que aumentam o risco para acretismo placentário em ou- tras gestações (cesariana e curetagens).(5) • Evitar tratamentos inadequados. Atenção para: - o doses corretas e uso racional de medicações: evitar ocitocina em bolus, após parto;(13,14) 24 - o uso precoce do ácido tranexâmico na HPP;(1) - o infusão racional de líquidos: a infusão excessiva de fluidos deve ser evi- tada, pois essa abordagem pode determinar diluição dos fatores de coa- gulação (coagulopatia dilucional), acidose, hipotermia, além de rotura dos coágulos já formados antes da hemostasia definitiva;(1,19,20) - o uso de soro aquecido ou a temperatura ambiente para preenchimento de balão intrauterino: o uso de soro frio pode levar a hipotermia, piorando o quadro de choque.(1) REFERÊNCIAS 1. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia. Brasília (DF): OPAS; 2018. 80 p. 2. Soares E, Osanan G, Bastos C. Anestesia nas Síndromes Hemorrágicas da gestação. In: Cangian LM, Carmona MJ, Torres ML, Bastos CO, editors. Tratado de Aanestesiologia SAESP. 8a ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2017. p. 2313-32. 3. Mousa HA, Blum J, Abou El Senoun G, Shakur H, Alfirevic Z. Treatment for primary postpartum haemorrhage. Cochrane Database Syst Rev. 2014 Feb;(2):CD003249. 4. Papazian J, Kacmar RM. Obstetric hemorrhage: prevention, recognition, and treatment. Adv Anesth. 2017;35(1):65–93. 5. Jauniaux E, Bhide A, Kennedy A, Woodward P, Hubinont C, Collins S; FIGO Placenta Accreta Diagnosis and Management Expert Consensus Panel. FIGO consensus guidelines on placenta accreta spectrum disorders: prenatal diagnosis and screening. Int J Gynaecol Obstet. 2018;140(3):274–80. 6. Fournet-Fayard A, Lebreton A, Ruivard M, Storme B, Godeau B, Bonnin M, et al. [Antenatal management forpatients with increased risk of post-partum hemorrhage (excluding abnormal placentation)]. J Gynecol Obstet Biol Reprod (Paris). 2014 Dec;43(10):951–65. French. 7. Committee on Practice Bulletins-Obstetrics. Practice Bulletin No. 183: postpartum Hemorrhage. Obstet Gynecol. 2017;130(4):e168–86. 25 8. Evensen A, Anderson JM, Fontaine P. Postpartum hemorrhage: prevention and treatment. Am Fam Physician. 2017;95(7):442–9. 9. Dahlke JD, Mendez-Figueroa H, Maggio L, Hauspurg AK, Sperling JD, Chauhan SP, et al. Prevention and management of postpartum hemorrhage: a comparison of 4 national guidelines. Am J Obstet Gynecol. 2015;213(1):76.e1–10. 10. Lombardo M, Eserian JK. The postpartum hemorrhage control and the quality evaluation of oxytocin injection. Perspectivas Médicas. 2016;27(1):26-31. 11. Gallos ID, Williams HM, Price MJ, Merriel A, Gee H, Lissauer D, et al. Uterotonic agents for preventing postpartum haemorrhage: a network meta-analysis. Cochrane Database Syst Rev. 2018 Apr;4:CD011689. 12. Lalonde A; International Federation of Gynecology and Obstetrics. Prevention and treatment of postpartum hemorrhage in low-resource settings. Int J Gynaecol Obstet. 2012;117(2):108–18. 13. Balki M, Tsen L. Oxytocin protocols for cesarean delivery. Int Anesthesiol Clin. 2014;52(2):48–66. 14. Yamaguchi ET, Siaulys MM, Torres MLA. Oxytocin in cesarean-sections. What’s new? Braz J Anesthesiol. 2016 ;66(4):402–7. 15. Starfield B, Hyde J, Gérvas J, Heath I. The concept of prevention: a good idea gone astray? J Epidemiol Community Health. 2008;62(7):580–3. 16. De Souza ML, Laurenti R, Knobel R, Monticelli M, Brüggemann OM, Drake E. Mortalidade materna por hemorragia no Brasil. Rev Lat Am Enfermagem. 2013;21(3):1-8. 17. Novikova N, Hofmeyr GJ, Cluver C. Tranexamic acid for preventing postpartum haemorrhage. Cochrane Database Syst Rev. 2015 Jun;(6):CD007872. 18. Main EK, Goffman D, Scavone BM, Low LK, Bingham D, Fontaine PL, et al.; National Partnership for Maternal Safety; Council on Patient Safety in Women’s Health Care. National Partnership for Maternal Safety: Consensus Bundle on Obstetric Hemorrhage. Obstet Gynecol. 2015;126(1):155–62. 19. Maegele M, Lefering R, Yucel N, Tjardes T, Rixen D, Paffrath T, et al.; AG Polytrauma of the German Trauma Society (DGU). Early coagulopathy in multiple 26 injury: an analysis from the German Trauma Registry on 8724 patients. Injury. 2007;38(3):298–304. 20. Suaréz J, Ramírez M, Munõz N. Reanimación Hemostatica. In: Soruco C, editor. Hemorragia postparto: Donde estamos y hacia donde vamos? Ciudad de Mexico: Federación Latinoamericana de Sociedades de Obstetricia y Ginecología (FLASOG); 2018. p. 105-16. 27 CAPÍTULO 3 TRATAMENTO Gabriel Costa Osanan¹ Roxana Knobel² ¹Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. ²Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Curso de Medicina, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil. A Hemorragia Pós-Parto (HPP) é uma das principais causas de morbimortalidade ma- terna em todo o mundo. A maioria dos casos ocorre em gestantes sem fatores de risco evidente e, portanto, todos os profissionais de saúde que prestam assistência às parturientes devem estar aptos a tratar um quadro de HPP.(1) O sucesso do tratamento da hemorragia envolve vários fatores que incluem desde o acesso das pacientes, em tempo hábil, aos serviços de saúde, passando pela expertise e comunicação das equipes assistenciais multidisciplinares, até a existência de estrutura física e fluxos assistenciais adequados nas instituições que atendem as parturientes e puérperas.(1–4) Nesse sentido, o Brasil institucionalizou o Projeto Zero Morte Materna por Hemorragia Pós- Parto, uma iniciativa da Organização Pan-Americana da Saúde/ Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), de seu Centro Latino-Americano para Perinatologia, Saúde das Mulheres e Reprodutiva (CLAP/SMR), que, em par- ceria com o Ministério da Saúde do Brasil, tem dedicado esforços a fortalecer a rede de cuidado no território nacional, eliminar as barreiras ao acesso aos servi- ços de saúde, capacitar equipes multiprofissionais na abordagem da hemorragia obstétrica e garantir fluxos assistenciais e insumos necessários para abordar os quadros graves de HPP. A sensibilização das diversas esferas governamentais, da sociedade civil, das sociedades de classe e das comunidades é aspecto funda- Como citar: Osanan GC, Knobel R. Tratamento. In: Hemorragia pós-parto. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO); 2019. Cap. 3. (Série Orientações e Recomendações FEBRASGO, no.1/Comissão Nacional Especializada em Urgências Obstétricas). 28 mental que também tem sido trabalhado para se garantir uma abordagem dessas pacientes de forma oportuna e adequada.(2) A melhor estratégia para se evitar o choque hipovolêmico secundário à HPP é o controle precoce do foco de sangramento.(1,5) Por isso, após a estabilização inicial da paciente, as estratégias de tratamento da HPP devem ser direcionadas à causa da hemorragia.(5) O tratamento vai variar de acordo com a causa, gravidade do san- gramento e sítio anatômico de ocorrência. Existem várias estratégias de tratamento que devem ser realizadas, em tempo oportuno e de forma adequada, para se obter sucesso na abordagem da paciente com sangramento aumentado após o parto e que serão abordadas a seguir. HORA DE OURO EM OBSTETRÍCIA O diagnóstico, o início da ressuscitação e o tratamento da causa da hemorragia devem ser feitos rapidamente. A Hora de Ouro na HPP consiste na recomenda- ção do controle do sítio de sangramento puerperal, sempre que possível, den- tro da primeira hora, a partir do seu diagnóstico ou pelo menos estar em fase avançada do tratamento ao final desse período. Prefere-se, contudo, utilizar tal termo para se referir ao princípio da intervenção precoce, agressiva e oportuna, sem atrasos, nas pacientes com quadro de hemorragia importante, a fim de se evitar o surgimento da tríade letal do choque hipovolêmico (hipotermia, acidose e coagulopatia).(1,6) O conceito de Hora de Ouro em obstetrícia, assim, objetiva reduzir os atra- sos relacionados à abordagem da HPP, uma vez que o tempo transcorrido para se realizar o tratamento de um sangramento correlaciona-se com o risco de choque hipovolêmico e risco de mortalidade materna.(1,2) TRATAMENTO CLÍNICO E MEDICAMENTOSO O tratamento clínico da HPP corresponde aos cuidados iniciais que toda paciente com quadro hemorrágico deve receber. Já o tratamento medicamentoso correspon- de atualmente ao uso de uterotônicos para tratar a atonia uterina (ex.: ocitocina, derivados de ergot, misoprostol) e ao uso do ácido tranexâmico, um antifibrinolíti- co, que deve ser utilizado logo que se realiza um diagnóstico de HPP.(1,3,7–9) 29 MEDIDAS GERAIS Quando há suspeita ou confirmação do diagnóstico de hemorragia, seu tratamen- to deve ser imediatamente iniciado. Independentemente do diagnóstico da causa base, medidas gerais de ressuscitação devem ser tomadas.(1,10,11) Quadro 1. Hemorragia pós-parto - Medidas gerais 1- Chamar ajuda - iniciar o protocolo de hemorragia pós-parto. 2- Realizar massagem uterina bimanual nos casos de atonia uterina. 3- Puncionar dois acessos calibrosos (16/14 Gauge) a- Soro fisiológico 0,9% ou Ringer Lactato aquecidos - avaliar resposta* a cada 500 ml infundidos. Depois de infundir 1500 ml, avaliar necessidade de transfusão. b- Usar a punção para coletar exames** e iniciar a infusão terapêutica de ocitocina (soro fisiológico 0,9% + ocitocina 20 a 40UI - correr a 250ml hora.) 4- Manter oxigenação/perfusão tecidual • Máscara de O2, 8 litros/minuto em máscara • Elevar membros inferiores. • Prevenir hipotermia (preferencialmente manta térmica). 5- Monitorar perda sanguínea/estado geral • Sondagem vesical*** • Controle de frequência cardíaca e pressão arterial• Controle de saturação de O2 • Controle do volume de sangramento • Sinais clínicos (nível de consciência, dificuldade para respirar) • Mensurar a temperatura corporal a cada 15 minutos. Fonte: Adaptado de Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Recomendações assistenciais para prevenção, diagnóstico e tratamento da hemorragia. Brasília (DF): OPAS; 2018. 80p.(1) *Pelo Índice de Choque (FC/PAS). **Hemograma/ prova cruzada/ coagulograma/ fibrinogênio/ ionograma. Em casos graves, pedir também lactato e gasometria. ***A massagem uterina será mais eficaz com a bexiga vazia. Agilidade em realizar a sondagem. INFUSÃO RACIONAL DE LÍQUIDOS A infusão excessiva de fluidos deve ser evitada, pois essa abordagem pode deter- minar diluição dos fatores de coagulação (coagulopatia dilucional), acidose, hipo- termia, além de rotura dos coágulos já formados antes da hemostasia definitiva.(1,12) • Atualmente não é recomendado bolus de 2 litros de cristalóides ao diagnóstico da HPP e nem a reposição de líquidos na relação de 3 litros de fluidos para cada 1 litro de sangue perdido. Tem-se recomendado uma reposição de fluidos racio- nal, com avaliação da resposta hemodinâmica materna a cada 250 a 500ml.(1,13) • Pacientes instáveis ou que não respondem adequadamente à infusão de flui- dos após 1500ml de infusão de cristaloides são candidatas a hemotransfusão emergencial.(1,13) • Evitar uso de coloides: tem-se evitado o seu uso em função dos riscos de determinar coagulopatia, falha renal e hipocoagulabilidade.(1,13,14) 30 MEDIDAS DE COMBATE À HIPOTERMIA A hipotermia, junto com a acidose e coagulopatia, compõe a tríade letal do choque hemorrágico. Apesar de sua importância, o controle da temperatura corporal do paciente é frequentemente esquecido e assim negligenciado.(1,13,15) Para se evitar a hipotermia (usualmente definida como temperatura corporal ≤35°C), deve-se infundir fluidos aquecidos nos pacientes, controlar a temperatura das salas cirúrgicas, fornecer cobertores ou mantas térmicas, elétricas ou não, e não expor a cavidade abdominal por longos períodos (cirurgias prolongadas).(1,13,16) Pa- cientes com hipotermia e choque hemorrágico não respondem como esperado à administração de produtos sanguíneos e ressuscitação fluida, além disso, tais pa- cientes podem desenvolver coagulopatia ou piorá-la.(15) A hipotermia causa disfunção do sistema de coagulação devido à inativação de enzimas dependentes da temperatura, com redução da adesão plaquetária e função do fibrinogênio, anormalidades endoteliais e disfunção do sistema fibrino- lítico. Além disso, a hipotermia pode determinar arritmias cardíacas, diminuição do débito cardíaco e alteração da curva de liberação de oxigênio pela hemoglobina.(13) TRATAMENTO MEDICAMENTOSO Os componentes do tratamento medicamentoso incluem os agentes uterotônicos, que são utilizados nos casos de atonia uterina, e o uso do ácido tranexâmico (logo após o diagnóstico da HPP, independentemente da sua causa). Existem vários protocolos descritos na literatura mundial para o tratamento medicamentoso da atonia uterina, com variação nas doses, vias de administração e na sequência de uterotônicos. Contudo, não existem estudos robustos que de- monstrem a superioridade de um protocolo sobre o outro. O denominador comum observado nesses protocolos disponíveis é o uso endovenoso da ocitocina como medicamento de primeira linha no tratamento da HPP. Abaixo, apresentamos, de forma simplificada, as drogas disponíveis para o tratamento da HPP. As doses apresentadas de ácido tranexâmico, ocitocina, metiler- gometrina e misoprostol representam os esquemas posológicos adotados no proto- colo da OPAS/OMS, 2018-Brasil, que tem sido utilizado em vários Estados Brasileiros (Quadro 2).(1) 31 Quadro 2. Medicações mais utilizadas no tratamento farmacológico da hemorragia pós-parto(10,11) DROGA DOSE TRATAMENTO CONTRA- INDICAÇÕES E PRECAUÇÕES EFEITOS ADVERSOS MECANISMO DE AÇÃO CUSTO* Ácido tranexâmico Infundir 1 grama, EV lento, em 10 minutos. Pode ser repetido depois de 30 minutos, se persistir o sangramento ou se ele se reativar nas primeiras 24 horas da primeira dose. Iniciar o mais precocemente possível (