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SISTEMAS PROCESSUAISSISTEMAS PROCESSUAIS
Prof. Esp. Matheus NascimentoProf. Esp. Matheus Nascimento
Servidor Público Federal e AdvogadoServidor Público Federal e Advogado
Mestrando em Ciências da Sociedade - UFOPAMestrando em Ciências da Sociedade - UFOPA
Pós Graduado em Direito Penal e Processo PenalPós Graduado em Direito Penal e Processo Penal
Ex-assessor de Procurador da República - MPF/RSEx-assessor de Procurador da República - MPF/RS
 
 
Introdução
Quando o Estado, por intermédio do Poder Legislativo, elabora as leis penais, 
cominando sanções àqueles que vierem a praticar a conduta delituosa, surge para ele o 
direito de punir os infratores num plano abstrato, genérico e impessoal, e, para o 
particular, o dever de se abster de praticar a infração penal. 
A partir do momento em que alguém pratica a conduta delituosa prevista no tipo penal, 
este direito de punir desce do plano abstrato e se transforma no ius puniendi in concreto.
Surge, então, a pretensão punitiva, a ser compreendida como o poder do Estado de 
exigir de quem comete um delito a submissão à sanção penal. Através da pretensão 
punitiva, o Estado procura tornar efetivo o ius puniendi, exigindo do autor do delito, que 
está obrigado a sujeitar-se à sanção penal, o cumprimento dessa obrigação, que consiste 
em sofrer as consequências do crime e se concretiza no dever de abster-se ele de 
qualquer resistência contra os órgãos estatais a que cumpre executar a pena.
Todavia, esta pretensão punitiva não pode ser voluntariamente resolvida sem um 
processo (nulla poena sine judicio), não podendo nem o Estado impor a sanção penal, 
nem o infrator sujeitar-se à pena. Em outras palavras, essa pretensão já nasce 
insatisfeita.
 
● É exatamente daí que sobressai a importância do processo penal, pois este 
funciona como o instrumento do qual se vale o Estado para a imposição 
de sanção penal ao possível autor do fato delituoso.
● Mas o Estado não pode punir de qualquer maneira. Com efeito, 
considerando-se que, da aplicação do direito penal pode resultar a privação 
da liberdade de locomoção do agente, entre outras penas, não se pode 
descurar do necessário e indispensável respeito a direitos e liberdades 
individuais que tão caro custaram para serem reconhecidos e que, em 
verdade, condicionam a legitimidade da atuação do próprio aparato estatal 
em um Estado Democrático de Direito.
● A consequência principal dessa transformação é que nas relações entre 
cidadãos e Estado, ou entre cidadãos entre si, o direito de guerra fundado 
sobre a autotutela e sobre a máxima ‘Tem razão quem vence’ é 
substituído pelo direito de paz fundado sobre a heterotutela e sobre a 
máxima ‘Vence quem tem razão’; e o direito público externo, que se rege 
pela supremacia da força, é substituído pelo direito público interno, inspirado 
no princípio da ‘supremacia da lei’ (rule of law)”.
 
Dilema
● É esse, pois, o grande dilema existencial do processo 
penal: de um lado, o necessário e indispensável respeito 
aos direitos fundamentais; do outro, o atingimento de 
um sistema criminal mais operante e eficiente.
Respeito aos direitos fundamentais vs Sistema criminal 
mais operante e eficiente.
 
 
SISTEMAS PROCESSUAIS PENAIS 
Sistema inquisitorial (concentração de poderes nas mãos do juiz): 
● Adotado pelo Direito canônico a partir do século XIII, o sistema inquisitorial posteriormente se propagou por 
toda a Europa, sendo empregado inclusive pelos tribunais civis até o século XVIII. Típico dos sistemas 
ditatoriais, tem como característica principal o fato de as funções de acusar, defender e julgar 
encontrarem-se concentradas em uma única pessoa, que assume assim as vestes de um juiz acusador, 
chamado de juiz inquisidor.
PONTO NEGATIVOS:
● Afronta a imparcialidade; 
● Não há contraditório (contraposição entre acusação e defesa);
● Não existe a obrigatoriedade de que haja uma acusação realizada por órgão público ou pelo ofendido, sendo 
lícito ao juiz desencadear o processo criminal ex officio.
● Geralmente o acusado permanecia encarcerado preventivamente, sendo mantido incomunicável.
● O juiz inquisidor é dotado de ampla iniciativa probatória, tendo liberdade para determinar de ofício a colheita de 
provas. A partir da prova do fato e tomando como parâmetro a lei, podia chegar à conclusão que desejasse.
 
● A atividade probatória tem por objetivo uma completa e ampla 
reconstrução dos fatos, com vistas ao descobrimento da verdade real, 
absoluta, por isso admite uma ampla atividade probatória;
● O acusado é mero objeto do processo, não sendo considerado sujeito de 
direitos;
Síntese:
● O sistema inquisitorial é um sistema rigoroso, secreto, que adota 
ilimitadamente a tortura como meio de atingir o esclarecimento dos 
fatos e de concretizar a finalidade do processo penal. Nele, não há falar 
em contraditório, pois as funções de acusar, defender e julgar estão reunidas 
nas mãos do juiz inquisidor, sendo o acusado considerado mero objeto do 
processo, e não sujeito de direitos. O magistrado, chamado de inquisidor, era 
a figura do acusador e do juiz ao mesmo tempo, possuindo amplos poderes 
de investigação e de produção de provas, seja no curso da fase investigatória, 
seja durante a instrução processual.
 
Sistema acusatório 
● O sistema acusatório caracteriza-se pela presença de partes distintas, 
contrapondo-se acusação e defesa em igualdade de condições, e a ambas se 
sobrepondo um juiz, de maneira equidistante e imparcial; aplicando-se o 
princípio da presunção de inocência;
● A regra era que o acusado permanecesse solto durante o processo;
● Chama-se “acusatório” porque, à luz deste sistema, ninguém poderá ser 
chamado a juízo sem que haja uma acusação (MP);
● Esta mera separação das funções de acusar e julgar não basta para a 
caracterização do sistema acusatório, porquanto a imparcialidade do 
magistrado não estará resguardada enquanto o juiz não for estranho à 
atividade investigatória e instrutória. (requisita a instauração de um 
inquérito policial, dá início a um processo penal de ofício, produz provas e 
decreta prisões cautelares sem requerimento das partes, etc.
 
● A gestão das provas é, portanto, função das partes, cabendo 
ao juiz um papel de garantir as regras do jogo, salvaguardando 
direitos e liberdades fundamentais.
● Deve o magistrado, portanto, abster-se de promover atos de 
ofício na fase investigatória e na fase processual;
● Art. 3º-A do CPP, incluído pela Lei n. 13.964/19 (Pacote 
Anticrime), segundo o qual “o processo penal terá estrutura 
acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação 
e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação”;
● O que efetivamente diferencia o sistema inquisitorial do 
acusatório é a posição dos sujeitos processuais e a gestão da 
prova
 
 
Sistema processual misto ou francês 
● Após se disseminar por toda a Europa a partir do século XIII, o sistema inquisitorial passa a 
sofrer alterações com a modificação napoleônica, que instituiu o denominado sistema 
processual misto. Trata-se de um modelo novo, funcionando como uma fusão dos dois 
modelos anteriores, que surge com o Code d’Instruction Criminelle francês, de 1808. Por 
isso, também é denominado de sistema francês;
● É chamado de sistema misto porquanto abrange duas fases processuais distintas: 
1) a primeira fase é tipicamente inquisitorial, destituída de publicidade e ampla defesa, com 
instrução escrita e secreta, sem acusação e, por isso, sem contraditório. Sob o comando do 
juiz, são realizadas uma investigação preliminar e uma instrução preparatória, 
objetivando-se apurar a materialidade e a autoria do fato delituoso. 
2) Na segunda fase, de caráter acusatório, o órgão acusador apresenta a acusação, o réu se 
defende e o juiz julga, vigorando, em regra, a publicidade, a oralidade, a isonomia processual 
e o direito de manifestar-se a defesa depois da acusação. 
● Quando o Código de Processo Penal entrou em vigor, prevalecia o entendimentode era misto.
 
 
 
Questões
Em relação às características do sistema acusatório, analise as afirmativas: 
I. Gestão da prova na mão das partes e não do juiz, clara distinção entre as atividades de acusar e 
julgar, juiz como terceiro imparcial e publicidade dos atos processuais. 
II. Ausência de uma tarifa probatória, igualdade de oportunidades às partes no processo e 
procedimento é, em regra, oral. 
III. O processo é um fim em si mesmo e o acusado é tratado como mero objeto, imparcialidade do 
juiz e prevalência da confissão do réu como meio de prova. 
IV. Celeridade do processo e busca da verdade real, o que faculta ao juiz determinar de ofício a 
produção de prova. São VERDADEIRAS apenas as afirmativas: 
 
A) I e II. 
B) I e IV. 
C) I, III e IV. 
D) II e III.
 
A Lei 13.964/2019, entre as várias alterações na legislação, incluiu o artigo 3º-A 
no Código de Processo Penal, com a seguinte redação: “O processo penal terá 
estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação e a 
substituição da atuação probatória do órgão de acusação.” Portanto, desde a 
alteração supracitada, está expressa na legislação processual a escolha pelo 
sistema processual acusatório. Nas alternativas a seguir, enumeraram-se algumas 
características desse sistema, À EXCEÇÃO DE UMA. Assinale-a. 
A) separação entre as funções de acusar, julgar e defender 
B) os princípios do contraditório e da ampla defesa que informam todo o 
processo 
C) a possibilidade de o juiz produzir provas para dirimir dúvidas 
D) a publicidade dos atos processuais como regra 
E) a imparcialidade do julgador (o juiz fica equidistante do conflito de interesses 
instaurado entre partes)
 
Fundamento de existência e função de um Processo Penal acusatório e garantista: por que e para 
que existe o Processo Penal? Mais especificamente “o fundamento é o ‘porquê’, a razão de ser de 
algo, enquanto a função (finalidade) diz respeito ao ‘para que’. Assim, (...) existe uma relação de 
prejudicialidade entre tais conceitos: primeiro se analisa o fundamento para depois examinar as 
possíveis funções, que devem ser compatíveis com aquela premissa previamente estabelecida. 
(VASCONCELLOS, Vinicius G. Fundamento e função do processo penal. Revista Eletrônica de 
Direito Processual Penal. Rio de Janeiro, ano 12, v. 19, n. 2, maio-ago. 2018) A partir de tais 
lições, em um Estado Democrático de Direito, o fundamento de existência do processo penal 
(sua razão de existir) e sua função são, respectivamente: 
A) limitar o poder punitivo estatal e fomentar a Política de Segurança Pública, cujo símbolo maior 
é o Direito Penal. 
B) a pacificação social e autorizar a punição dos infratores da lei através de um procedimento em 
contraditório. 
C) a pacificação social e desvendar a verdade real dos fatos narrados na exordial acusatória. 
D) fomentar a Política de Segurança Pública, cujo símbolo maior é o Direito Penal, e permitir a 
punição dos infratores da lei de maneira célere. 
E) limitar o poder punitivo estatal e verificar a acusação penal em uma reconstrução histórica dos 
fatos a partir de provas produzidas pelas partes.
 
PRINCÍPIOS PROCESSUAISPRINCÍPIOS PROCESSUAIS
Prof. Esp. Matheus NascimentoProf. Esp. Matheus Nascimento
Servidor Público Federal e AdvogadoServidor Público Federal e Advogado
Pós Graduado em Direito Penal e Processo PenalPós Graduado em Direito Penal e Processo Penal
Ex-assessor de Procurador da República - MPF/RSEx-assessor de Procurador da República - MPF/RS
 
Introdução
O vocábulo princípio é dotado de uma imensa variedade de significações. Sem 
nos olvidar da distinção feita pela doutrina entre princípios, normas, regras e 
postulados, trabalharemos com a noção de princípios como mandamentos 
nucleares de um sistema. 
A Constituição Federal de 1988 elencou vários princípios processuais penais, 
porém, no contexto de funcionamento integrado e complementar das garantias 
processuais penais, não se pode perder de vista que os Tratados Internacionais de 
Direitos Humanos firmados pelo Brasil também incluíram diversas garantias ao 
modelo processual penal brasileiro.
Já não basta mais o conhecimento da jurisprudência dos Tribunais Superiores. 
Também se impõe o conhecimento da jurisprudência da CIDH.
 
Da Presunção de inocência (ou da não culpabilidade).
● Em 1764, Cesare Beccaria, em sua célebre obra Dos delitos e das penas, já advertia que “um homem não pode 
ser chamado réu antes da sentença do juiz, e a sociedade só lhe pode retirar a proteção pública após ter 
decidido que ele violou os pactos por meio dos quais ela lhe foi outorgada”.
● A Declaração Universal de Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia da Organização das Nações Unidas 
(ONU), em 10 de dezembro de 1948, em seu art. 11.1, dispõe: “Toda pessoa acusada de delito tem direito a 
que se presuma sua inocência, enquanto não se prova sua culpabilidade, de acordo com a lei e em processo 
público no qual se assegurem todas as garantias necessárias para sua defesa”.
● Com a Constituição Federal de 1988, o princípio da presunção de não culpabilidade passou a constar 
expressamente do inciso LVII do art. 5º: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de 
sentença penal condenatória”. Em síntese, pode ser definido como o direito de não ser declarado culpado 
senão após o término do devido processo legal, durante o qual o acusado tenha se utilizado de todos os meios de 
prova pertinentes para a sua defesa (ampla defesa) e para a destruição da credibilidade das provas apresentadas 
pela acusação (contraditório).
● O in dubio pro reo só incide até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. Portanto, na revisão 
criminal, que pressupõe o trânsito em julgado de sentença penal condenatória ou absolutória imprópria, não há 
falar em in dubio pro reo, mas sim em in dubio contra reum.
 
● O princípio da presunção de inocência não proíbe, todavia, 
a prisão cautelar ditada por razões excepcionais e tendente a 
garantir a efetividade do processo, cujo permissivo decorre 
inclusive da própria Constituição (art. 5º, LXI), sendo possível 
se conciliar os dois dispositivos constitucionais desde que a 
medida cautelar não perca seu caráter excepcional, sua 
qualidade instrumental, e se mostre necessária à luz do caso 
concreto.
● Art. 5º - LXI - ninguém será preso senão em flagrante 
delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade 
judiciária competente, salvo nos casos de transgressão 
militar ou crime propriamente militar, definidos em lei;
 
(In) constitucionalidade da execução provisória da pena 
● Muito já se discutiu – e ainda se discute – acerca da 
necessidade de se aguardar (ou não) o trânsito em julgado de 
sentença condenatória para o início da execução da pena. 
● Entre fevereiro de 2016 e novembro de 2019, prevaleceu, no 
Supremo Tribunal Federal, por força do HC 126.292, o 
entendimento de que não havia necessidade de se aguardar o 
trânsito em julgado, justificando-se, assim, a denominada 
execução provisória da pena. 
● Em 2019, porém, por ocasião do julgamento definitivo das 
Ações Declaratórias de Constitucionalidade 43/DF, 44/DF e 
54/DF, houve uma mudança de orientação daquela Corte.
 
● TRIBUNAL DO JÚRI
● O artigo 492, inciso I, alínea "e", do Código de Processo Penal (CPP), permite a execução 
provisória da pena para condenações iguais ou superiores a 15 anos de reclusão, mesmo antes 
do trânsito em julgado da sentença.
Art. 492. Em seguida, o presidente proferirá sentença que: 
 I – no caso de condenação: 
e) mandará o acusado recolher-se ou recomendá-lo-á à prisão em que se encontra, se 
presentes os requisitos da prisão preventiva, ou, no caso de condenação a uma pena 
igual ou superior a 15 (quinze) anos de reclusão, determinará a execução provisória 
das penas, com expedição do mandado de prisão, se for o caso, sem prejuízo do 
conhecimento de recursos que vierem a ser interpostos; (Redação dada pela Lei nº13.964, de 2019)
● Contudo, em decisão recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) ampliou esse entendimento. 
No julgamento do Recurso Extraordinário nº 1.235.340, com repercussão geral reconhecida 
(Tema 1.068), o STF firmou a tese de que a soberania dos veredictos do Tribunal do Júri 
autoriza a imediata execução da condenação imposta pelo corpo de jurados, 
independentemente do total da pena aplicada. Isso significa que, mesmo para penas 
inferiores a 15 anos, a execução provisória é considerada legítima.
 
Princípio do contraditório 
● De acordo com o art. 5º, inciso LV, da Constituição Federal, aos litigantes, em processo 
judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e 
ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. 
● Na clássica lição de Joaquim Canuto Mendes de Almeida, sempre se compreendeu o princípio 
do contraditório como a ciência bilateral dos atos ou termos do processo e a possibilidade de 
contrariá-los. 
● De acordo com esse conceito, o núcleo fundamental do contraditório estaria ligado à 
discussão dialética dos fatos da causa, devendo se assegurar a ambas as partes, e não somente 
à defesa, a oportunidade de fiscalização recíproca dos atos praticados no curso do processo. 
Eis o motivo pelo qual se vale a doutrina da expressão “audiência bilateral”, consubstanciada 
pela expressão em latim audiatur et altera pars (seja ouvida também a parte adversa). 
● Seriam dois, portanto, os elementos do contraditório: a) direito à informação; b) direito de 
participação.
● Não se pode cogitar da existência de um processo penal eficaz e justo sem que a parte adversa 
seja cientificada da existência da demanda ou dos argumentos da parte contrária. Daí a 
importância dos meios de comunicação dos atos processuais: citação, intimação e 
notificação.
● Nesse contexto, dispõe o art. 261 do CPP que nenhum acusado, ainda que ausente ou 
foragido, será processado ou julgado sem defensor.
 
Princípio da ampla defesa: defesa técnica (processual ou específica) + autodefesa (material 
ou genérica).
● De acordo com o art. 5º, LV, da Magna Carta, “aos litigantes, em processo judicial ou 
administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com 
os meios e recursos a ela inerentes”. 
● Sob a ótica que privilegia o interesse do acusado, a ampla defesa pode ser vista como um 
direito; todavia, sob o enfoque publicístico, no qual prepondera o interesse geral de um 
processo justo, é vista como garantia. O direito de defesa está ligado diretamente ao 
princípio do contraditório. A defesa garante o contraditório e por ele se manifesta.
● Quando a Constituição Federal assegura aos litigantes, em processo judicial ou 
administrativo, e aos acusados em geral a ampla defesa, entende-se que a proteção deve 
abranger o direito à defesa técnica (processual ou específica) e à autodefesa (material ou 
genérica), havendo entre elas relação de complementariedade.
● Por força da ampla defesa, admite-se que o acusado seja formalmente tratado de 
maneira desigual em relação à acusação, delineando o viés material do princípio da 
igualdade. Por consequência, ao acusado são outorgados diversos privilégios em 
detrimento da acusação, como a existência de recursos privativos da defesa, a proibição 
da reformatio in pejus, a regra do in dubio pro reo, a previsão de revisão criminal 
exclusivamente pro reo, etc., privilégios estes que são reunidos no princípio do favor rei.
 
● Defesa técnica necessária e irrenunciável; 
● Direito de escolha do defensor.
● Defesa técnica plena e efetiva: Para que seja preservada a ampla defesa a que se refere a 
Constituição Federal, a defesa técnica, além de necessária e indeclinável, deve ser plena e efetiva. 
No curso do processo, é necessário que se perceba efetiva atividade defensiva do advogado no 
sentido de assistir seu cliente. Esse o motivo pelo qual a Lei nº 10.792/03 acrescentou o parágrafo 
único ao art. 261 do CPP, de modo a exigir que a defesa técnica, quando realizada por defensor 
público ou dativo, seja sempre exercida por manifestação fundamentada. Com efeito, de que adianta 
a presença física de defensor que não arrola testemunhas, que não faz reperguntas, que não 
oferece memoriais, ou que os apresenta sucintamente, sem análise da prova, em articulado que 
poderia ser utilizado em relação a qualquer processo criminal?
● Na verdade, em tal hipótese, haveria um profissional da advocacia formalmente designado para 
defender o acusado, mas a sua atuação seria tão precária que seria como se o acusado tivesse sido 
processado sem defesa técnica. Em casos como este, recai sobre o Ministério Público e sobre o juiz o 
dever de fiscalizar a atuação defensiva do advogado, evitando- se, assim, possível caracterização de 
nulidade absoluta do feito, por violação à ampla defesa. Nesse sentido, a súmula 523 do STF dispõe 
que, “no processo penal, a falta de defesa constitui nulidade absoluta, mas a sua deficiência só o 
anulará se houver prejuízo para o réu”. Assim, caso haja falha na atuação do defensor, com a 
causação de prejuízo ao acusado, o processo deve ser anulado. Em outras palavras, a defesa não pode 
ser meramente formal, devendo ser adequadamente exercida.
 
Autodefesa (material ou genérica) 
● Autodefesa é aquela exercida pelo próprio acusado, em 
momentos cruciais do processo. Diferencia-se da defesa 
técnica porque, embora não possa ser desprezada pelo juiz, é 
disponível, já que não há como se compelir o acusado a 
exercer seu direito ao interrogatório nem tampouco a 
acompanhar os atos da instrução processual. 
● De modo a se assegurar o exercício da autodefesa, o acusado 
deve ser citado pessoalmente, pelo menos em regra. Caso o 
acusado não seja encontrado, e somente depois de esgotadas 
todas as diligências no sentido de localizá-lo, será possível sua 
citação por edital, com o prazo de 15 (quinze) dias.
 
Princípio da publicidade 
● A garantia do acesso de todo e qualquer cidadão aos atos praticados no curso do processo revela 
uma clara postura democrática, e tem como objetivo precípuo assegurar a transparência da 
atividade jurisdicional, oportunizando sua fiscalização não só pelas partes, como por toda a 
comunidade. Basta lembrar que, em regra, os processos secretos são típicos de estados 
autoritários.
● De acordo com o art. 93, inciso IX, da Constituição Federal, todos os julgamentos dos órgãos 
do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, 
podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus 
advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do 
interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação.
● Como se percebe pela própria dicção da Constituição Federal e do Código de Processo Penal, a 
regra é a publicidade ampla no processo penal, estando ressalvadas as hipóteses em que se 
justifica a restrição da publicidade: defesa da intimidade, interesse social no sigilo e 
imprescindibilidade à segurança da sociedade e do Estado (CF, art. 5º, incisos XXXIII e LX, c/c 
art. 93, IX); escândalo, inconveniente grave ou perigo de perturbação da ordem (CPP, art. 792, § 
1º).
● É o que acontece, v.g., com processos criminais relativos a crimes contra a dignidade sexual, 
nos quais a publicidade ampla poderia aumentar sobremaneira o sofrimento da vítima, 
causando-lhe desnecessária exposição e humilhação.
 
Princípio da busca da verdade: superando o dogma da verdade real
● No âmbito processual penal, hodiernamente, admite-se que é impossível 
que se atinja uma verdade absoluta. A prova produzida em juízo, por 
mais robusta e contundente que seja, é incapaz de dar ao 
magistrado um juízo de certeza absoluta. 
● O que vai haver é uma aproximação, maior ou menor, da certeza 
dos fatos. 
● Há de se buscar, por conseguinte, a maior exatidão possível na 
reconstituição do fato controverso, mas jamais com a pretensãode 
que se possa atingir uma verdade real, mas sim uma aproximação da 
realidade, que tenda a refletir ao máximo a verdade. 
● Enfim, a verdade absoluta, coincidente com os fatos ocorridos, é um 
ideal, porém inatingível. Em conclusão, é importante ressaltar que essa 
busca da verdade no processo penal está sujeita a algumas restrições. 
 
Princípio da inadmissibilidade das provas obtidas por 
meios ilícitos 
O princípio da inadmissibilidade das provas obtidas por meios 
ilícitos está previsto na Constituição Federal (art. 5º, LVI): “são 
inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios 
ilícitos”. 
Princípio do juiz natural 
O princípio do juiz natural – consagrado em todas as 
constituições brasileiras, exceto na de 1937 – constitui uma 
garantia de limitação dos poderes do Estado, que não pode 
instituir juízo ou tribunal de exceção para julgar 
determinadas matérias nem criar juízo ou tribunal para 
processar e julgar um caso específico.
 
Princípio do nemo tenetur se detegere (Não autoincriminação) 
De acordo com o art. 5º, inciso LXIII, da Constituição Federal, “o preso será 
informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe 
assegurada a assistência da família e de advogado”. 
O direito ao silêncio, previsto na Carta Magna como direito de permanecer 
calado, apresenta-se apenas como uma das várias decorrências do nemo tenetur 
se detegere, segundo o qual ninguém é obrigado a produzir prova contra si 
mesmo. 
Além da Constituição Federal, o princípio do nemo tenetur se detegere também 
se encontra previsto no Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (art. 
14.3, “g”), e na Convenção Americana sobre Direitos Humanos (art. 8º, § 2º, 
“g”).
Consiste, grosso modo, na proibição de uso de qualquer medida de coerção 
ou intimidação ao investigado (ou acusado) em processo de caráter 
sancionatório para obtenção de uma confissão ou para que colabore em atos 
que possam ocasionar sua condenação.
 
a) o direito ao silêncio ou direito de ficar calado: corresponde ao direito de 
não responder às perguntas formuladas pela autoridade, funcionando como 
espécie de manifestação passiva da defesa. O exercício do direito ao silêncio não 
é sinônimo de confissão ficta ou de falta de defesa; cuida-se de direito do 
acusado (CF, art. 5º, LXIII), no exercício da autodefesa, podendo ser usado como 
estratégia defensiva; 
b) direito de não ser constrangido a confessar a prática de ilícito penal: de 
acordo com o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (art. 14, § 3º) e 
com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (art. 8º, § 2º, “g”, e § 3º), 
o acusado não é obrigado a confessar a prática do delito. Portanto, por força do 
princípio do nemo tenetur se detegere, ninguém pode ser constrangido a 
confessar a prática de uma infração penal; 
c) inexigibilidade de dizer a verdade: alguns doutrinadores entendem que o 
acusado possui o direito de mentir, por não existir o crime de perjúrio no 
ordenamento pátrio. Na verdade, por não existir o crime de perjúrio no 
ordenamento pátrio, pode-se dizer que o comportamento de dizer a verdade 
não é exigível do acusado, sendo a mentira tolerada, porque dela não pode 
resultar nenhum prejuízo ao acusado.
 
● Acusado imputa falsamente a terceiro inocente a prática do delito. Nessa 
hipótese, dando causa à instauração de investigação policial, processo 
judicial, investigação administrativa, inquérito civil ou ação de improbidade 
administrativa contra alguém que o sabe inocente, o agente responderá 
normalmente pelo delito de denunciação caluniosa (CP, art. 339), porque 
o direito de não produzir prova contra si mesmo esgota-se na proteção do 
réu, não servindo de suporte para que possa cometer outros delitos.
● É crime a conduta de acusar-se, perante a autoridade, de crime inexistente ou 
praticado por outrem (CP, art. 341, autoacusação falsa). 
● Na mesma linha, tem prevalecido o entendimento de que o direito ao silêncio 
não abrange o direito de falsear a verdade quanto à identidade pessoal. 
Para o Supremo, tipifica o crime de falsa identidade o fato de o agente, 
ao ser preso, identificar-se com nome falso, com o objetivo de esconder 
seus maus antecedentes. 
● Súmula nº 522 do STJ: “A conduta de atribuir-se falsa identidade 
perante autoridade policial é típica, ainda que em situação de alegada 
autodefesa”.
 
d) direito de não praticar qualquer comportamento ativo que 
possa incriminá-lo: por força do direito de não produzir prova contra 
si mesmo, doutrina e jurisprudência têm adotado o entendimento de 
que não se pode exigir um comportamento ativo do acusado, caso 
desse facere possa resultar a autoincriminação. 
Assim, sempre que a produção da prova tiver como pressuposto uma 
ação por parte do acusado (v.g., acareação, reconstituição do crime, 
exame grafotécnico, etc.), será indispensável seu consentimento. 
Cuidando-se do exercício de um direito, tem predominado o 
entendimento de que não se admitem medidas coercitivas contra o 
acusado para obrigá-lo a cooperar na produção de provas que dele 
demandem um comportamento ativo. Além disso, a recusa do 
acusado em se submeter a tais provas não configura o crime de 
desobediência nem o de desacato, e dela não pode ser extraída 
nenhuma presunção de culpabilidade, pelo menos no processo 
penal.
 
d.5) Para fins de comprovação da embriaguez ao volante, o meio de prova mais 
eficaz para aferição da dosagem etílica é o exame de sangue. Considerando-se 
que a extração de sangue é um método muito invasivo, foi criado o bafômetro, 
aparelho de ar alveolar destinado a estabelecer o teor alcoólico no organismo do 
condutor do veículo automotor através do sopro do motorista no referido 
equipamento.
Mas será que o condutor do veículo está obrigado a soprar o bafômetro ou 
se sujeitar ao exame de sangue? Não estaria ele, assim o fazendo, 
produzindo prova contra si mesmo? A respeito do assunto, é dominante o 
entendimento de que a recusa do condutor em submeter-se ao bafômetro ou 
a um exame de sangue não configura crime de desobediência nem pode ser 
interpretada em seu desfavor, pelo menos no âmbito criminal. 
Nessa linha, há precedentes do Supremo Tribunal Federal no sentido de que 
não se pode presumir a embriaguez de quem não se submete a exame de 
dosagem alcoólica: afinal, a Constituição da República impede que se extraia 
qualquer conclusão desfavorável àquele que, suspeito ou acusado de praticar 
alguma infração penal, exerce o direito de não produzir prova contra si mesmo 
(princípio do nemo tenetur se detegere).
 
● Dever legal de interrupção imediata do interrogatório quando o imputado optar 
pelo exercício do direito ao silêncio.
Art. 15. Constranger a depor, sob ameaça de prisão, pessoa que, em razão de função, 
ministério, ofício ou profissão, deva guardar segredo ou resguardar sigilo:
Pena - detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem prossegue com o interrogatório: 
I - de pessoa que tenha decidido exercer o direito ao silêncio; ou
II - de pessoa que tenha optado por ser assistida por advogado ou defensor público, sem 
a presença de seu patrono.
PROPORCIONALIDADE
A atuação do Estado – inclusive sobre a atividade estatal de produção normativa – 
adverte que o princípio da proporcionalidade, essencial à racionalidade do Estado 
Democrático de Direito e imprescindível à tutela mesma das liberdades fundamentais, 
proíbe o excesso e veda o arbítrio do Poder, extraindo a sua justificação dogmática de 
diversas cláusulas constitucionais, notadamente daquela que veicula, em sua dimensão 
substantiva ou material, a garantia do due process of law.
 
Referência bibliográfica
Lima, Renato Brasileiro de Manual de processo penal: volume único / Renato Brasileiro 
de Lima – 8. ed. rev., ampl. e atual. – Salvador: Ed. JusPodivm, 2020.
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