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Como escrever (e publicar) meio de comunicação acadêmica por um trabalho científico excelência é o texto escrito. Na vida de um pesquisador, oralidade rima com Dicas para pesquisadores e jovens cientistas recibilidade. Só os escritos podem aspirar a algum grau de permanência ou, mais am- Marcel Bursztyn José Augusto Drummond biciosamente, durabilidade e impacto, de- Elimar Pinheiro do Nascimento pendendo do seu embasamento e da sua textual. Daí a preocupação com a escrita científica de bom nível. Este livro, re- digido por três pesquisadores com vasta ex- em ensino e publicação, pretende ser tanto para cientistas iniciantes quanto Como escrever (e publicar) trabalho científico para os que estejam em meio de carreira ou á Ele dicas, informa- HABCYB JAHNP ções orientações e que são úteis uem pretende seguir ou que nela já se ontra há algum tempo a trilha da escrita e da publicação de textos USHOFEUH SREFENÊN USHDBDT SBN 978-85-7617-181-2 ENTA 788576171812 G Garamond UNIVERSITARIAP ublicar artigos em periódicos é, em quase todas as áreas da ciência, um imperativo profissional tanto para cientistas iniciantes quanto para os que estão em meio de carreira ou já estabelecidos. Isto se deve ao rigor com que artigos são selecionados e à penetração e repercussão que as revistas alcançam COMO ESCREVER (E nos seus respectivos campos de UM TRABALHO CIE saber. Em algumas áreas da ciência, as revistas e os artigos científicos não têm mesmo "prestígio" que livros e coletâneas de textos, mas mesmo nessas áreas a tendência atual é de crescimento da pressão para publicar artigos em revistas científicas. Só os escritos podem aspirar a algum grau de permanência ou, mais ambiciosamente, durabilidade e impacto, dependendo do seu embasamento e da sua qualidade textual.Garamond Marcel Bursztyn LIVRARIA José Augusto Drummond CONSELHO EDITORIAL Elimar Pinheiro do Nascimento Bertha K. Becker Candido Mendes Cristovam Buarque Ignacy Sachs Jurandir Freire Costa Ladislau Dowbor Pierre Salama COMO ESCREVER (E PUBLICAR) UM TRABALHO CIENTÍFICO Dicas para pesquisadores e jovens cientistas LEIA TAMBÉM: Monografia ao alcance de todos Dau Bastos, Mariana Souza e Solange Naecimento Garamond© Copyyright 2010, dos autores SUMÁRIO Direitos cedidos para esta edição à Editora Garamond Ltda. Rua da Estrela, 79, 3° andar Rio Comprido Rio de Janeiro, RJ Brasil Telefax: (21) 2504-9211 E-mail: Introdução 9 1. A revista científica e artigo científico Revisão Dez passos para fazer florescer uma Carmem Cacciacarro "cultura da publicação" (ou breve introdução Capa e Ilustrações à neurose do "publish or perish") 18 João Sánchez As revistas científicas e suas escolhas 23 Características básicas dos artigos científicos 31 Editoração Eletrônica Dez dicas para escrever artigos científicos 36 Luiz Oliveira Dez instruções para tornar o seu artigo publicável em uma boa revista científica 42 Evitar a falácia da construção do CIP-Brasil Catalogação na fonte do Sindicato Nacional dos Editores de Livros espantalho (strawman) 46 Cuidados com artigos direcionados para leitores não brasileiros ou não iniciados 47 Bursztyn, Marcel, 1951- Como escrever (e publicar) um trabalho científico / Marcel Bursztyn, José Traduções 48 Augusto Drummond, Elimar Pinheiro do Nascimento. Rio de Janeiro Garamond, 2010. Autorizações para uso de referências 48 12x21cm Como lidar com os pareceres 49 ISBN 978-85-7617-181-2 Outros tipos de publicação científica 50 1. Redação técnica. 2. Publicações científicas Brasil. 3. Pesquisa - Metodologia. I. Drummond, José Augusto, 1948-. II. Nascimento, Elimar 2. Roteiro para escrever uma resenha crítica Pinheiro do, 1946-. III. Título. Generalidades 53 10-0953. CDD: 808.066 CDU: 808.1 Resenhas: o que são e o que não são 55 roteiro 58 Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, por qualquer meio, seja total ou parcial, constitui violação da Lei 9.610/98.3. Teses, dissertações, monografias e projetos Dez dicas para planejar e escrever uma tese, dissertação ou monografia 66 Sobre o projeto de pesquisa 70 4. Dicas diversas Sobre uso de figuras, tabelas e quadros 75 Preparando-se para a redação 78 Redigindo os resultados da pesquisa 81 AGRADECIMENTO Sobre o uso de amostras 83 A escolha das fontes de informações 85 uso de ferramentas na pesquisa 87 Sobre a restituição de resultados de pesquisa 89 Sobre autorizações especiais de pesquisa 89 Aos nossos alunos do mestrado e do dou- Sobre notas de rodapé 90 torado do Centro de Desenvolvimento Sobre os boxes de texto 91 Sustentável (CDS) da Universidade de Sobre a temporalidade 91 Brasília, que nos estimularam a escrever Sobre o risco de usar sites do tipo Wikipédia 92 este livro. Agradecemos especialmente a Sobre o abstract 92 Maria Beatriz Maury, que reviu com olhos de lince a última versão dos originais. A 5. Vícios de expressão e de escrita responsabilidade pelas falhas é, no entan- 6. Falhas a serem evitadas to, toda nossa. Apêndice 1 Estrutura IMRAD ou IMRAC 105 Apêndice 2 Ficha de leitura 107 Apêndice 3 Pleonasmos a evitar 109 Sobre os autores 111INTRODUÇÃO Qual a nossa motivação para escrever e publicar este livro? Partimos do pressuposto de que o meio de comunicação por excelência do campo cientí- fico e acadêmico é o texto escrito. Boas aulas são muito importantes para a transmissão do conheci- mento. Intervenções orais oportunas e fundamen- tadas enriquecem cursos, workshops, treinamentos, defesas de teses, congressos e reuniões. No entan- to, pensamos que na vida científica e acadêmica, oralidade rima com perecibilidade. São escritos que podem aspirar a algum grau de durabilidade ou, mais ambiciosamente, permanência e impacto, dependendo do seu embasamento (teórico, meto- dológico, empírico) e da sua qualidade textual. Daí vem a nossa preocupação com a qualidade da escri- ta científica. Tendo em vista essa motivação, nosso obje- tivo neste livro é reunir informações e recomenda- ções que auxiliem na produção de alguns tipos de textos científicos. Não há a pretensão de se compor um manual de redação completo, muito menos um livro de metodologia científica. O foco está na qua- lidade e no rigor da escrita como requisito para a sua publicação e ampla circulação. 9No campo científico e acadêmico, temos de pro- o crescimento do número de mestres e douto- duzir muitos gêneros de texto. Dividimos nosso res formados (a cifra, em 2009, é de cerca de 30 mil tempo dedicado à escrita em artigos, livros, capítu- mestres e 10 mil doutores diplomados por ano); los de livros, ensaios, resenhas, monografias, teses, o crescimento do número de cientistas em ati- dissertações, papers apresentados em congressos e vidade no País (atestado pela cifra de mais de um eventos, resumos, fichamentos, roteiros de aulas e milhão de pesquisadores com currículos inseridos de exposições orais, trabalhos de fim de disciplina, na Plataforma Lattes, do CNPq, em 2009²); avaliações diversas, projetos e relatórios de pesqui- a crescente cobrança por produtividade cien- sa, notas de campo, textos para obras de referência tífica nas carreiras docentes e de pesquisa, tanto ex- (verbetes de enciclopédias, de dicionários etc.), tex- ternamente quanto internamente às instituições de tos de opinião, notas de aula, apostilas, pareceres, ensino e pesquisa; avaliações, materiais didáticos diversos e assim por a formação de redes de pesquisa, que unem diante. crescimento acelerado dos programas de pós- instituições brasileiras entre si e a grupos internacio- nais com maior tradição em publicações. graduação no Brasil, desde os anos 1970, gerou um notável crescimento da produção científica brasilei- ra tanto em termos absolutos quanto relativos. A Considerando a base de dados reunida pelo Ins- participação do Brasil no volume global de publica- titute for Scientific Information (ISI), dos EUA, ções científicas ainda é pequena comparativamente que monitora as mais relevantes publicações cien- ao número de habitantes. Porém esse indicador vem tíficas do mundo, no ano de 2005 o Brasil gerou melhorando bastante: atualmente quase 2% da pro- quase 2% da produção científica mundial publi- cada em revistas indexadas, conforme mencionado dução científica mundial são de autoria de brasilei- ros, bem acima dos menos de 0,5% de 25 anos atrás. acima. Quando se diz que uma revista é indexada, significa que ela está registrada em um ou mais Isto se deve a vários fatores: bancos de dados que servem como referência sobre o mencionado crescimento da pós-graduação a sua própria qualidade e facilitam o acesso da co- no País (em dezembro de 2009, existiam 2.867 pro- munidade científica aos textos nela publicados. gramas de mestrado e doutorado credenciados, cor- respondendo a 4.298 cursos¹); 2A Plataforma Lattes conta (em dezembro de 2009) com cerca de 1.100.000 currículos, sendo que 31% deles são de doutores, mestres e estudantes de pós-graduação e 59% de 1 graduados e estudantes de graduação, vinculados a um conjunto de 4.000 instituições. cao=pesquisarGrandeArea (acesso em 7/12/2009). Fonte: (acesso em 7/12/2009). 10 11mais importante deles é o Web of Science (WoS), a importância dada às publicações na avaliação de do ISI. Entre 1981 e 2006, a produção brasilei- curriculum vitae individuais, particularmente em ra de artigos científicos publicados em periódicos concursos para seleção de docentes em institutos, internacionais cresceu a uma taxa média anual de departamentos e centros que mantêm cursos de pós- cerca de 9%, bem acima do crescimento de 3% graduação. registrados pelo mundo como um todo (cf. dados Deve-se lembrar que, quando um pesquisador do ISI, citados pelo Entre 1980 (2.215 ar- ou cientista publica um artigo em uma revista cien- tigos) e 2005 (15.777 artigos), a produção científi- tífica, ele está "dialogando" com os seus pares, que ca brasileira publicada em revistas foi multiplicada formam uma comunidade. Esta, embora restrita, é a por sete, enquanto a do resto do mundo apenas do- sua comunidade. Por isso, se ele adotar a língua in- brou no mesmo período. Esse crescimento foi im- glesa, por exemplo, tenderá a ter um número maior pulsionado principalmente por estudos gerados na de leitores distribuídos em mais países. Contudo, área de Medicina. De fato, o número de artigos na nesse campo número de leitores será geralmente grande área de Clínica Médica foi de 3.113, segui- muito menor do que o dos que acessam uma revista da por 2.368 da Física, 2.167 da Química, 1.619 de divulgação científica direcionada ao público em da Pesquisa Animal e Vegetal e 1.215 da Biologia geral. e Bioquímica.⁴ Acreditamos que estas são razões suficientes Vale destacar outro ponto: o sistema universitá- para justificar este livro a respeito da "arte" de rio de pós-graduação no Brasil cresceu juntamente produzir, submeter, obter aprovação e publicar com uma metodologia de avaliação sistemática do trabalhos científicos, especialmente artigos. En- seu desempenho. Essa metodologia tem dado peso quanto o elaborávamos, ainda em versões prelimi- cada vez maior às publicações de docentes, discen- nares que serviram de base para oficinas de escrita tes e egressos dos programas. No momento, o tipo de trabalhos científicos, surgiram várias contribui- de publicação que tem tido mais peso na avaliação ções e ideias, muitas delas incorporadas na pre- dos programas é o de artigos em revistas científicas. sente versão. Um ponto que julgamos relevante Em virtude disso, cresceu muito a pressão por pu- incorporar foram as breves dicas para a elaboração blicações. Outra consequência disso é que cresceu de teses, dissertações, monografias e projetos que compõem o Capítulo 3. 3 PACTI Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Nacional Plano de Ação 2007-2010. Brasília, MCT, 2008. Disponível em: Esperamos que ele possa servir tanto para 4 Fonte: José Aparecido da Silva (2007), disponível em: http://www.usp.br/jorusp/ar- professores e pesquisadores, quanto para gradu- quivo/2007/jusp800/pag09.htm (acesso em 7/12/2009). 12 13andos, especialistas, mestrandos e doutorandos ram de centenas de bancas examinadoras de teses, dos numerosos cursos de pós-graduação do Bra- dissertações e monografias. Publicaram livros e ca- sil. Por não pretender ser um manual, não tem a pítulos de livros. Elaboraram incontáveis pareceres intenção de ser extensivo, abrangendo todos os para periódicos e editoras. Publicaram dezenas de aspectos da pesquisa, da escrita e da publicação artigos e tiveram inúmeros outros recusados em re- científicas. Felizmente, existem hoje dezenas de vistas científicas. publicações focalizadas em aspectos específicos, objetivo é partilhar essa experiência. Bom pro- como metodologia de pesquisa e análise de dados, veito! organização de projetos e textos, normalização e formatação etc. Este livro nasceu da experiência de escrita, pes- quisa e orientação dos autores, mas também da oferta de uma disciplina sobre a produção de textos cientí- ficos, adotada desde 2008 no Programa de Pós-Gra- duação em Desenvolvimento Sustentável do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. Nessa disciplina estimulamos os alunos, ao longo de um semestre letivo, a desenvolverem textos de sua autoria (ou em coautoria com orientadores) sob a forma de artigos ou resenhas, com possibili- dades de publicação em boas revistas. material aqui apresentado nasceu de uma série de anotações e roteiros de aula usados nessa disciplina. Ele reúne dicas, informações, orientações e sugestões que são úteis a quem pretende seguir, ou que nela já se en- contra há algum tempo, a trilha da publicação, espe- cialmente de artigos, mas também de outros textos científicos. Os autores, juntos, já orientaram mais de uma centena de doutorandos e mestrandos e participa- 14 151 A REVISTA CIENTÍFICA E ARTIGO CIENTÍFICO Por motivos que não discutimos extensamente aqui, o artigo publicado em revistas científicas assu- miu nas últimas décadas uma importância estraté- gica no conjunto de comunicações escritas que os cientistas e pesquisadores de todo o mundo empre- gam para divulgar os resultados de suas pesquisas, os métodos que usam, os conceitos que adotam ou propõem, as teorias que os orientam etc. Publicar artigos nessas revistas é, em quase todas as áreas da ciência, um imperativo profissional tanto para cientistas iniciantes quanto para os que estejam em meio de carreira ou já estabelecidos. Isso se deve ao rigor com que os artigos são selecionados e à penetração e repercussão que as revistas alcançam nos seus respectivos campos de saber. Em algumas áreas da ciência, as revistas e os artigos científicos não têm o mesmo "prestígio" que livros e coletâ- neas de textos, mas mesmo nessas áreas a tendên- cia atual é de crescimento da pressão para publicar artigos em revistas científicas e indexadas. 17Esta seção define e discute brevemente as carac- áreas onde essa cultura é fraca. No entanto, é possí- terísticas principais das revistas e artigos científicos. vel assumir ou estimular atitudes e comportamentos que levem ao cumprimento coletivo dessas etapas. Dez passos para fazer florescer uma "cul- Tais passos podem ser reduzidos a dez, a saber: tura da publicação" (ou breve introdução Primeiro, há que se formar na instituição um à neurose do "publish or grupo ou segmento dotado de um sentimento de que é necessário ir além de uma cultura profissional Para que nasça e se consolide, em uma institui- de oralidade, cuja prevalência conspira contra ou no ção, uma cultura de publicações e mais especifica- mínimo rivaliza com uma cultura de escrita e de pu- mente uma cultura de publicações de artigos em blicações.⁶ Ou seja, querer escrever é preciso! revistas científicas, várias etapas têm de ser cumpri- Segundo, uma vez que uma cultura de escrita das. Essas etapas não dependem apenas de decisões lance raízes, os escritores precisam, além de fazer e produções textuais individuais, ou de diretores ou suas próprias pesquisas e escrever artigos, ler siste- coordenadores de uma unidade ou programa cientí- maticamente artigos publicados em revistas cientí- fico ou acadêmico. Elas transcorrem de forma cole- ficas. Ou seja, ler artigos científicos de outros pes- tiva e descentralizada, muitas vezes com sobreposi- quisadores é preciso. Quem não lê artigos não sabe ções, atrasos e saltos, em ritmos diversos, envolven- escrever artigos! do muitos "lugares" e muitas pessoas professores, Terceiro, essas mesmas pessoas têm de ter a dis- projetos, grupos e redes de pesquisa, cursos de pós- posição de escrever especificamente para revistas graduação, alunos, ex-alunos, departamentos acadê- científicas, questão distinta da anterior (a da leitura micos, congressos científicos etc. de artigos alheios). Ou seja, escrever especificamente Em algumas áreas da ciência, a cultura de publi- para revistas é preciso, sem descartar, obviamente, cações tem raízes antigas e firmes. Ela se reproduz a produção de outros tipos de textos. A atual valo- sem grandes esforços ou percalços, de graduandos rização institucional e acadêmica da publicação de a pós-doutores. Em outras áreas, existe uma cultu- artigos em periódicos científicos não deve inibir a ra de escrita e até de publicações, mas nas formas produção de livros e outros gêneros. Escrever artigos preferenciais de livros, relatórios e ensaios. Existem para revistas científicas é preciso! A expressão "publish or perish" é muito usada entre os professores mais jovens de universidades dos EUA, contratados por tempo limitado e em busca de estabilidade 6 Recentemente, um desalentado coordenador de pós-graduação nos contou, em con- funcional. Publicar artigos em revistas científicas é para eles um requisito indispensá- versa informal sobre esse ponto, que no seu programa será preciso superar não uma vel para obter a "tenure" (contratação definitiva). "cultura de não publicação", mas uma "cultura 18 19Quarto, esse grupo de escritores tem de aprender muito críticos, e a eventual rejeição dos seus arti- a identificar as revistas de maior penetração e peso gos, sem ficarem "ofendidos" ou "deprimidos". e a seguir as suas instruções para preparar artigos a espaço das boas revistas é escasso e a disputa por ele serem submetidos. Ou seja, conhecer as revistas e as é competitiva. ideal é aproveitar aquelas críticas suas exigências é preciso. que o autor ou autores julgar(em) mais pertinentes Quinto, depois de escreverem os artigos e co- e refazer artigo, enviando-o, se achar(em) cabível, locá-los nos formatos exigidos, esses pesquisadores para outra revista. Um artigo rejeitado não é neces- têm de submeter os artigos a essas revistas; para isso, sariamente inaproveitável. Não significa que devem: (a) seguir procedimentos tipicamente meti- presta". No entanto, algumas vezes é melhor desistir culosos (aprendendo a usar softwares de submissão e escrever outro. Ou seja, "aguentar tranco" da crí- automatizada, cada vez mais adotados pelas boas tica, e saber aproveitá-la, é preciso. revistas); e (b) seguir duas "regras de ouro" só se Oitavo, se o artigo for aceito submete cada artigo a uma única revista de cada vez com exigências de reformulações solicitadas por pa- e só se submete artigo inédito. Submeter os textos é receristas e/ou editores, os autores têm de ponderar preciso. sobre elas e decidir se querem mesmo fazê-las. Às ve- Sexto, os pesquisadores têm de esperar paciente- zes, o editor indica que a inclusão das reformulações mente pela avaliação, pela eventual aceitação e pela garantirá a aceitação do texto. Nesse caso, o autor publicação dos seus artigos tudo isso pode levar deve reagir o mais rapidamente possível, para apro- muitos meses. Não é incomum que as boas revis- veitar a fresta que se abriu. Mas, em geral, executar a tas semestrais levem de 18 a 24 meses entre receber reformulação não garante a aceitação. Dependendo um artigo, avaliá-lo, aceitá-lo e publicá-lo. Algumas do teor das críticas, o artigo poderá ter de ser ressub- revistas chegam a pedir àqueles que submetem ar- metido e talvez tenha de passar por outra avaliação. tigos que assinem um compromisso de esperar até Por outro lado, o autor não é obrigado a aceitar to- dois anos pela resposta dos pareceristas e editores. das as exigências de reformulação sugeridas pelos pa- Entretanto, uma vez aceito o artigo, o autor já pode receristas. Nesse caso, é de suma importância que o inscrevê-lo em seu curriculum vitae como "artigo autor fundamente bem os pontos criticados, tentan- aceito para Ainda assim, saber esperar do alcançar maior precisão no texto e dando novos é preciso. Há editores que exigem, além da Sétimo, os autores que submetem artigos têm reformulação do texto, um relatório detalhado sobre de aprender a suportar eventuais pareceres duros ou como o autor lidou com cada crítica ou sugestão. 20 21Ou seja, persistir com o artigo avaliado é preciso. produzido por esse núcleo está sendo consumido, Nono, uma opção à é adotado, criticado ou mesmo rechaçado. Como pra- enviar artigo rejeitado para ser avaliado por ou- ticantes de uma atividade de interesse público (a ci- tra revista, o que implica desistir da primeira; nesse ência), os cientistas cujo trabalho ganha visibilidade caso, deve-se também aproveitar/incorporar as críti- sobem no pedestal da "torre de marfim". preço de cas recebidas, esperando que o artigo melhorado ob- se manter no pedestal é a continuidade do trabalho tenha uma recepção mais positiva pelos pareceristas de pesquisa e de publicações, e o bônus tende a ser da segunda revista. Ou seja, mudar de revista-alvo a maior facilidade de acesso aos meios que garantem pode ser uma solução. essa continuidade Décimo, os autores têm de manter um fluxo Criar e manter uma "cultura de publicações" constante de submissão de artigos diferentes a revis- não significa, no entanto, focalizar os esforços tas diferentes, independente de aceitações ou rejei- exclusivamente em artigos e excluir a produção ções. Esse fluxo possibilita que os artigos eventual- de livros e outros gêneros de escrita. Esses outros mente aceitos e publicados qualifiquem seus autores gêneros têm as suas características e o seu valor como cientistas regularmente publicados em revistas próprios e complementam os artigos como ins- das suas áreas. Ou seja, escrever e submeter artigos trumentos daquilo que é o mais importante a deve se tornar um hábito profissional, e não um difusão dos conhecimentos produzidos na prática acontecimento eventual. científica. Quando um departamento, uma rede, um gru- po de pesquisadores ou um programa de pós-gradu- As revistas científicas e suas escolhas ação tiver uma parcela significativa de seus integran- As revistas científicas são os veículos dessa pro- tes cumprindo essas dez etapas de forma sistemática, dução tão no mundo acadêmico, que são e transmitindo essa prática para as novas gerações de os artigos científicos. Revistas científicas são publi- cientistas em formação, então se poderá dizer que cações que têm minimamente as seguintes caracte- se trata de um núcleo com produção significativa rísticas: de conhecimento e com visibilidade no seu campo são periódicas (anuais, semestrais, quadrimes- de saber. Esse núcleo terá construído uma "cultu- trais, trimestrais etc.); ra de publicações" e terá "chegado ao paraíso" (ou têm e divulgam os nomes de um corpo (comis- ao inferno) do "publicar para não perecer". Em ter- são, conselho etc.) editorial permanente, composto mos mais gerais, isso significa que o conhecimento 22 23por cientistas e editor(es) científico(s), encarregados pertençam aos quadros das respectivas instituições do gerenciamento da publicação; responsáveis. têm um corpo de pareceristas, cujos nomes No entanto, são relativamente comuns, entre normalmente não são divulgados (embora algumas as revistas científicas, algumas práticas destinadas a revistas publiquem os nomes dos pareceristas que estimular a produção e a submissão de artigos. Uma trabalharam ao longo de um volume), igualmente delas é induzir submissões por meio de chamadas pertencentes à comunidade científica, encarregado de textos para preencher números especiais dedica- de avaliar os artigos submetidos; dos a determinados temas ou que contenham seções têm uma linha editorial expressa; temáticas especiais (dossiês) dentro de um núme- ro regular. Outra forma de estimular submissões é têm um número de registro ISSN (Internatio- convidar um autor de renome a escrever um artigo nal Standard Serial Number), que contém oito alga- capaz de gerar respostas na forma de artigos enco- rismos e identifica todos os periódicos científicos; mendados a outros autores que, publicados junta- têm uma definição disciplinar, interdisciplinar mente com o artigo original, dialogam, polemizam ou temática dos artigos que publicam; e ou concordam com ele. são abertas a submissões de artigos de quais- Outra característica notável das boas revistas quer cientistas, de qualquer parte do mundo. científicas é a adoção de um sistema de avaliação Os artigos publicados numa revista científica que em inglês recebe o nome geral de peer review são, em geral, submetidos pelos (revisão pelos pares), em especial double blind review autores, que, via de regra, são cientistas que não têm (pareceres duplamente cegos). Nesse sistema, os vínculo com a organização responsável pela publica- pareceristas não sabem quem são os autores dos tex- ção da revista na qual querem publicar. Ou seja, as tos que recebem para avaliar e os autores não sabem revistas se alimentam de uma parte do que é escrito quem avalia os seus textos, mesmo quando recebem e submetido pelo conjunto da comunidade científi- o conteúdo integral ou trechos desses pareceres. Ou ca de sua respectiva área de saber, e não pelo quadro seja, os autores submetem seus textos sabendo que de cientistas da instituição responsável pela revista. e aceitando que os seus artigos serão avaliados Existem publicações que, apesar de serem periódicas por seus pares (colegas cientistas), mesmo sem saber e adotarem critérios rigorosos de avaliação de tex- quem são os avaliadores. Os autores confiam que os tos, não são consideradas revistas científicas propria- editores escolherão avaliadores qualificados e apro- mente ditas, pelo fato de só publicarem autores que priados. Os avaliadores, por sua vez, confiam que 24 25editores levarão em conta as suas apreciações e reco- Nos anos recentes, grande parte das revistas cien- mendações. tíficas de ponta tirou proveito da Internet para au- Existem outros traços usuais das boas revistas tomatizar e agilizar os procedimentos de submissão, científicas. Revistas de algumas áreas científicas che- avaliação e comunicação. Está acabando a era em gam a definir formatos padronizados para orientar que autores precisavam comparecer às agências os autores na escrita dos artigos a serem submetidos. dos correios para enviar às revistas cópias em papel Nas universidades dos países que têm altos investi- dos artigos, e mesmo disquetes e CD-ROMs, depois mentos em ciências, esses formatos são ensinados e distribuídos aos pareceristas e por eles devolvidos aos praticados desde os cursos de graduação (ver Apên- editores, também pelo correio. Cada vez mais revistas dice 1). Quando isso for exigido, é inútil submeter o criam sites na Internet. Os autores submetem seus tex- seu artigo em outro formato. tos em arquivos eletrônicos, os pareceristas acessam É igualmente comum que as revistas de renome site, leem, avaliam os textos contidos nesses arquivos tenham seções distintas, para publicar textos de dife- e os editores usam o site para comunicar aos autores rentes naturezas: artigos de pesquisa propriamente o resultado da avaliação. Por vezes, os autores sentem ditos, notas sobre pesquisas em andamento, ensaios de dificuldade para entender os mecanismos de submis- revisão de literatura, resenhas, notas metodológicas, são e funcionamento desses sites, mas eles são a única descrições de novas fontes, entrevistas com cientistas maneira de submeter textos às revistas que optaram famosos, resumos de teses e dissertações, notícias de pelas vantagens da Internet. interesse profissional, cartas com críticas e respostas a Tão importante quanto escrever um bom artigo artigos publicados em números anteriores e assim por é escolher o periódico ao qual você vai submeter o diante. No entanto, os artigos que relatam resultados seu artigo. Há vários critérios a considerar para to- de pesquisa são a parte "nobre" das boas revistas. mar a melhor decisão. critério mais imediato e Toda boa revista científica obriga os autores a óbvio é escolher revistas com base nos seus temas e adotarem normas de escrita e de formatação, quer disciplinas predominantes. Portal de Periódicos próprias, quer alheias (exemplos: MLA Modern da Capes⁷ Coordenação de Aperfeiçoamento de Language Association; Chicago Manual of Style). Por vezes há exigências adicionais de cada revista. Os 7 Os pesquisadores, professores, alunos e funcionários de 268 instituições de ensino superior e de pesquisa no Brasil têm acesso ao Portal de Periódicos da Capes, que autores devem adotar essas normas, pois muitas re- constitui uma ferramenta preciosa de apoio à pesquisa. Mais de 15 mil periódicos in- ternacionais e nacionais, cobrindo todas as áreas do conhecimento, estão disponíveis vistas sequer aceitarão a submissão se elas não forem em tempo real. Portal permite também o acesso a 126 bases de dados com resumos de documentos. E permite também acesso a uma seleção de importantes fontes de observadas. informação acadêmica com acesso gratuito na Internet. Disponível em: http://www. periodicos.capes.gov.br/portugues/index.jsp (acesso em 7/12/2009). 26 27Pessoal de Nível Superior ajuda a encontrar revis- sites da Internet, mas podem ser baixados na íntegra, tas que tenham perfil procurado. gratuitamente. No entanto, tais revistas têm de criar Outro fator importante a considerar na seleção alternativas para cobrir os seus custos. Uma delas, da revista é a modalidade: acesso livre (open access) não tão "simpática" para os autores, é solicitar a eles ou acesso pago. Por exemplo, na área médica, as o pagamento de uma taxa pela publicação dos seus revistas da Public Library of Science são artigos, depois de eles terem sido aceitos no processo de acesso livre. Por outro lado, há revistas de acesso de avaliação por pares. Essa taxa, que pode ser bem pago. Por exemplo, Science e Nature. Em ambos os elevada, é anunciada nas partes dos sites das revis- casos, elas podem ser editadas por associações ou so- tas que tratam da política editorial. Outras obtêm ciedades científicas. O acesso aos artigos publicados financiamento de órgãos estatais especializados em em periódicos publicados por grandes grupos edi- financiamento de revistas científicas. Conselho toriais (Elsevier, Blackwell, Kluwer, Sage etc.) é ge- Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecno- ralmente pago, embora em alguns casos os números lógico (CNPq), no Brasil, desempenha este papel mais antigos sejam franqueados livremente. Outras junto às revistas dos Programas de Pós-graduação revistas são independentes (geralmente vinculadas a credenciados ou de sociedades científicas cujas re- um departamento de uma universidade ou institui- vistas tenham sido aprovadas pelo comitê especial ção de pesquisa). daquele organismo. A tendência é que ocorra uma bipolarização: No Brasil, a tendência é a vinculação das revistas revistas vinculadas a grandes conglomerados edi- mais bem conceituadas ao sistema Scielo (Scientific toriais, de um lado, e revistas de livre acesso, de Electronic Library Online http://scielo.br), que é outro. Nas revistas do primeiro grupo, os artigos de livre acesso. Os textos integrais de todos os arti- publicados podem ser acessados apenas mediante gos e demais textos de todos os números das revistas pagamento - seja por assinaturas individuais ou ins- incluídas no Scielo estão disponíveis para download titucionais, seja por pagamentos avulsos por artigo gratuito. baixado diretamente dos sites das próprias revistas Outro caminho é procurar uma revista bem co- ou dos grandes grupos editoriais. segundo grupo tada entre os cientistas. De fato, mesmo para quem tem uma característica distinta e "simpática" para os está em início de carreira, não vale a pena publicar leitores: a gratuidade de acesso. Nesse caso, os arti- um bom artigo numa revista de baixa pontuação ou gos publicados são igualmente disponibilizados em pouca visibilidade. Mas não é prudente mandar um texto que não seja de alta qualidade para uma revis- 8 Disponível em: http://www.plos.org/journals/pubfees.html (acesso em 7/12/2009). 28 29ta de alto nível. Você pode usar o Portal Qualis da são garantia de uma longa espera. Revistas que pro- Capes⁹ ou a base de dados do ISI para descobrir as gramam uma ou mais edições temáticas, nas quais revistas mais bem cotadas na sua área. Não existe o seu artigo não se encaixa, também causarão uma um total consenso sobre a qualificação das revistas. longa espera. Periódicos que não cumprem regular- Caso você acesse Portal Qualis da Capes, observa- mente com a periodicidade anunciada são normal- rá que os comitês atribuem menções diferenciadas mente mal conceituados. às mesmas revistas. Assim, uma revista pode estar qualificada como A2 em um comitê e B1¹⁰ ou mes- Características básicas dos artigos mo B2 em outro comitê. Essas diferenças se devem científicos a formas de avaliação ou critérios distintos utilizados Dado esse quadro geral das revistas científicas, por cada um dos comitês. Afinal, cientista, como passemos aos traços básicos dos artigos científicos. qualquer indivíduo, tem suas opiniões, percepções e Como outros gêneros de escrita, o artigo científico ideologias. Portanto, o fator subjetividade, embora tem as suas singularidades: seja para os membros dos comitês, conta como fator concisão; de avaliação. Você pode ainda combinar o procedimento da foco em um único problema ou em poucos escolha da revista com (i) indagações a colegas (ou problemas interligados; consultas aos seus CVs Lattes) sobre as revistas em linguagem técnica, destinada a iniciados e es- que eles publicam ou tentam publicar e (ii) uma pecialistas; pesquisa sobre onde publicam os principais auto- adequação temática à linha da revista pre- res nacionais e internacionais que você cita no seu tendida; artigo. diálogo com a literatura pertinente mais recen- Preste atenção à periodicidade (e à regularida- te; de de publicação) das revistas que você identificar comunicação dos resultados da pesquisa; como prováveis para envio de artigo, para evitar explicitação das teorias, dos conceitos e das escolher uma que cause uma espera muito longa e metodologias usados; frustrante. Revistas editadas apenas uma vez por ano explicitação das fontes de ideias e dados. Quanto à concisão, hoje em dia poucas boas 9 Disponível em: http://qualis.capes.gov.br/webqualis/ (acesso em 7/12/2009). revistas aceitam artigos com mais de 8.000 palavras 10 A Capes hierarquiza as publicações em oito categorias: e A2 (de nível internacional), B1 a B5 (periódicos de abrangência nacional) e C (que têm pouca (incluindo texto, bibliografia, anexos, notas, títu- ou nenhuma relevância). 30 31los de tabelas e figuras). Em algumas áreas, o limi- que essa linguagem varia em cada área do conhe- te máximo cai para 6.000 palavras ou até menos. cimento. No caso de trabalhos interdisciplinares, é Note-se que controle do limite de tamanho por preciso muita atenção, pois determinadas expressões palavras invalida o uso de "jeitinhos" para "encolhi- em uma disciplina podem não ter o mesmo signifi- mento" dos textos, como o uso de fontes menores, o cado em outra. rigor da linguagem, a precisão dos espaçamento menor entre as linhas, o estreitamento termos utilizados, não deve impedir que autores das margens etc. se esforcem por escrever de forma clara e elegante. Outro critério para definir tamanho do artigo, preço da precisão na linguagem não precisa ser adotado por alguns periódicos, é o de contagem por o abandono da estética. ideal é que a linguagem meio de caracteres com ou sem espaço. princípio adotada seja simultaneamente precisa e bela. e resultados são praticamente os mesmos do que Cabe ao autor verificar a adequação temática do o anteriormente citado, com critério de palavras. seu texto à revista pretendida. Ao escolher a revis- O mais importante é o pesquisador compreen- ta para onde enviar o texto, ele deve escolher uma der que artigo científico exige concisão. Aos mais em cujas páginas o texto terá "guarida", em virtu- prolixos sugerimos ler alguns textos literários que de de seu gênero, conteúdo, tema, abordagem etc. primam pelo rigor e ausência de adjetivações desne- Nunca haverá uma certeza completa quanto a isso; cessárias, como os poemas de João Cabral de Melo nem a simples adequação do texto à revista signifi- Neto e os romances de Graciliano Ramos. Aliás, atri- ca certeza de aceitação. No entanto, o autor precisa bui-se ao primeiro a expressão: "escrever é cortar". conhecer bem o periódico e a sua linha editorial, No que diz respeito ao foco restrito, é de pra- para não enviar um texto a uma revista em que ele xe que artigos científicos evitem discussões genéri- ficaria como um "peixe fora da água" ou, o que é cas ou abordem demasiados pontos e assuntos. Ele mais provável, seria rejeitado, não sem antes haver deve, desde o início, ter presente o que pretende transcorrido um precioso tempo. demonstrar ao leitor, e todos os argumentos e cita- No que toca ao diálogo com a literatura perti- ções devem estar em função desse objetivo. foco nente mais recente, os autores devem ter em con- rege todas as escolhas que se faz na escrita do artigo, ta que editores em geral consideram ou desejam inclusive eventuais adjetivos. que as suas revistas sejam fóruns de debate entre os Artigos publicados em revistas científicas são autores mais influentes ou mais produtivos. Isso faz geralmente lidos por cientistas e, por isso, a lingua- com que o diálogo com a literatura pertinente seja gem técnica pode e deve ser usada. Evidentemente um dos requisitos mais importantes para a boa ava- 32 @ 33liação de um artigo. Os clássicos podem e devem jetos de pesquisa não iniciados ou recém-iniciados ser mencionados, juntamente com autores e textos também não têm resultados a divulgar e são mais que tiveram uma influência mais pontual e menos difíceis de serem publicados em revistas concorri- duradoura. Atenção, portanto: editores e pareceris- das. tas exigentes querem que os artigos avaliados con- As exigências de diálogo com a literatura perti- versem com autores mais recentes (inclusive os nente e de comunicação de resultados de pesquisas publicados na própria revista escolhida) em termos significam, acima de tudo, que problema estudado de conceitos, teoria, métodos, bases de dados, resul- no artigo deve fazer parte de ou estar contextuali- tados etc., sobretudo com os autores mais relevantes zado em um corpo significativo de textos e autores na sua área. É absolutamente incorreto citar autores relevantes nas suas respectivas áreas e que esse pro- de "segunda mão" só porque foi seu professor ou é blema deve ter sido objeto de uma pesquisa original seu colega. Você precisa aprender a fazer a distinção feita pelo autor do artigo. entre autores originais, que criam conceitos e teo- É de fundamental importância que no artigo rias ou abordam de maneira original determinados científico as teorias, conceitos, metodologias e técnicas temas ou problemas, e os autores divulgadores, que de coleta e tratamento de dados estejam presentes, des- apenas repercutem as descobertas dos outros, algu- critas e explicitadas para leitor. A esfera do conhe- mas vezes inclusive de forma didática. Estes têm um cimento científico supõe que as pesquisas podem ser papel importante na disseminação dos resultados da reproduzidas em qualquer parte do mundo e alcan- ciência, aqueles, na produção de novos conhecimen- cem mesmos resultados, sem o que sua cientifi- tos. cidade estará comprometida. Por isso a metodologia Avaliadores e editores prestam muita atenção utilizada na obtenção dos resultados deve estar sufi- também aos resultados divulgados no artigo. Na ver- cientemente clara para que leitor pesquisador possa dade, a existência de resultados é, em muitos casos, repetir experimento se assim achar conveniente. uma exigência sine qua non, pois apenas eles podem É comum em artigos científicos uso de ideias provar que o artigo resulta de uma pesquisa origi- ou dados que foram produzidos por outros autores. nal, que formulou perguntas, reuniu dados e tes- Não se pode, sob risco de plágio, utilizar essas ideias tou hipóteses. Artigos sem resultados geralmente se e dados sem fazer referência às suas fontes. Não des- encaixam nos gêneros revisão da literatura, resenha cuide deste aspecto, pois ele pode lhe acarretar pro- de trabalhos alheios, ensaios e textos de opinião, e blemas desnecessários. Lembre-se que a esfera do não de artigos de pesquisa. Textos baseados em pro- conhecimento científico é distinta da esfera literária, 34 35pois o discurso científico é sempre um duplo discur- planejar a escrita de vários artigos, cada um so, contrariamente ao discurso literário. Na ciência sobre uma das suas ideias; nesse caso, é recomendá- você tem que mostrar seus resultados de pesquisa vel que você não os escreva simultaneamente, pois (discurso 1) e, ao mesmo tempo, mostrar como os precisará dar prioridade a alguma delas, ou seja, irá alcançou (discurso 2). No discurso literário você voltar ao item precedente; conta uma história e ponto final. Por isso mesmo é fundir as várias ideias em uma só, que seja con- que em um artigo científico você encontra inúmeras sistente, sem ser excessivamente genérica. citações e suas respectivas fontes, o que não ocorre No entanto, para escrever um bom artigo cien- no romance. tifico, é preciso, além de uma boa ideia (singular Dez dicas para escrever artigos ou composta), aplicar teorias, coletar informações científicos e/ou dados oriundos de uma pesquisa e comunicar resultados. A função principal de um artigo é preci- Se você não tem uma (boa) ideia, fundamentada samente a de apresentar sinteticamente à comuni- na literatura do seu campo de trabalho, resultado dade científica os resultados de suas mais recentes de pesquisa e reflexão, não tente escrever um arti- pesquisas. go científico. A melhor opção, nesse caso, é produ- Com clareza quanto à sua boa ideia e com os zir uma resenha ou um texto crítico ou de opinião resultados finais ou parciais de sua pesquisa à mão, mesmo que o texto fique inédito. A ideia de um eis dez coisas a fazer para iniciar e desenvolver um bom artigo pode surgir durante esse processo de bom artigo. escrever um texto menos exigente. 1. Antes de escrever, elabore um roteiro: tenha Um bom artigo científico deve, pois, conter e desenvolver uma (boa) ideia, e não muitas boas uma ideia clara do que você quer demonstrar, con- ideias. É importante que você tenha claro qual é a firmar, desmentir, ilustrar, exemplificar, testar, com- sua grande questão no momento. Caso você não parar, recomendar etc. O começo, o meio e o fim tenha apenas uma (boa) questão, mas sim várias, e do artigo devem estar claros para você antes de ele queira escrever um artigo, é recomendável optar por começar a ser escrito (ver no Apêndice 1 um exem- uma das alternativas a seguir: plo de roteiro sugerido ou exigido comumente nas áreas de Biologia, Ecologia, Física, Química etc.). hierarquizá-las, para tentar definir qual delas Lembre-se: qualquer autor passa muito mais tempo será tratada no artigo; revendo/reescrevendo (quase sempre mais de uma 36 37vez) os diferentes trechos de um texto, do que os 4. "Eu acho", "eu prefiro", melhor é", "deve escrevendo pela primeira vez. Por isso, o roteiro aju- ser", "tem que ser", "todo mundo sabe que", "sempre da a estruturar a primeira versão, que, em seguida, foi assim", "a tendência natural é" nada disso dá será objeto de revisões. Não é por acaso que vigora a respaldo a argumentos usados em textos científicos. máxima de que o exercício do ofício de pesquisador Essas expressões indicam manifestações de normati- requer 10% de inspiração e 90% de transpiração. vidade, de opção pessoal ou de preferência, quando 2. Valorize a fórmula consagrada de escrita cha- não meros palpites. Evitar. mada SVP "sujeito, verbo e predicado". Escreva 5. Seja lógico: depois do A, vem o B, e não o conselho discutiu o regimento". Não escreva ou D. Releia as suas afirmações e conclusões e "Discutiu o regimento o conselho" ou "Discutiu confira se elas têm mesmo respaldo lógico, teórico o conselho o regimento". Usar deliberadamente a ou empírico, e se decorrem da sua argumentação. voz ativa, sempre que possível, estimula o uso da É muito comum o uso de expressões como "dessa fórmula SVP evite usar regimento foi discuti- maneira", "portanto", "segue-se que", "assim", "con- do pelo conselho" ou "Foi discutido pelo conselho clui-se que", "tendo em vista o que foi mostrado aci- o regimento". Usar uma fórmula simples de escrita ma" etc. sem que de fato haja relação lógica entre as ajuda a tornar o texto claro e preciso, encurta as conclusões e as frases que a precedem. Exemplo: suas sentenças e diminui a possibilidade de come- A: céu amanheceu sem nuvens." ter erros de concordância, entre outros. que é B: "Sem nuvens não há chuva." mais importante: permite uma melhor comunica- ção de suas ideias e uma boa aceitação pelo leitor. C: "Segue-se, portanto, que não choverá nas próximas semanas." 3. Evite generalidades, mas abuse dos dados. Generalidades são boas para conversa de mesa de A está certo (com base em observação direta); bar ou discurso de político ruim. Cada afirma- está certo (com base em conhecimento acumula- ção do seu artigo deve ser capaz de ser respaldada do); pode até estar certo, mas não decorre de A, por dados, achados e interpretações encontrados nem de é uma afirmação ou conclusão que não em artigos e textos de outros autores ou na sua rigorosamente das afirmações anteriores. própria pesquisa, de preferência os autores mais Rigorosamente, é uma suposição, e não uma con- conceituados e as fontes mais recentes de artigos clusão ou decorrência. Suposições não são pecados científicos. na ciência, mas não devem aparecer camuflados de 38 39conclusões ou decorrências; devem aparecer como que só deve ser usado excepcionalmente. Leia e suposições, premissas ou pressupostos. cite sempre o autor e o texto originais, a não ser 6. Mantenha as suas sentenças curtas. Para isso, que seja um texto antiquíssimo, consultável ape- a solução é simples: abuse dos pontos, pois eles são nas em alguma biblioteca especial, como a Biblio- gratuitos, não estão ameaçados de extinção e orga- teca Nacional da França ou o Arquivo Nacional nizam o seu texto. Sentenças longas exigem o uso da Torre do Tombo, ou que esteja escrito apenas excessivo de recursos como vírgulas, dois pontos, em javanês ou em aramaico. pontos e vírgulas, travessões, hifens, parênteses, pro- 9. Busque sempre usar como fontes e referen- nomes e conectivos (este, deste, daquele, seu, dele, ciais os autores mais reconhecidos, ou seja, as maio- cujo, respectivo etc.). Eles também são gratuitos e res autoridades no assunto. Não é porque você teve abundantes, mas quando usados a granel não facili- um bom professor que escreveu um artigo ou deu tam a leitura do seu texto pelo contrário. Sentenças uma boa aula a respeito de um assunto que ele é longas devem ficar para os que têm um bom domí- a referência mundial sobre esse assunto. Da mesma nio da língua, como detentores do prêmio Nobel forma, não se limite a ler e a citar os autores e textos (José Saramago) ou mestres da literatura (Machado usados pelos seus professores prediletos. Aprenda a de Assis). Mas, cuidado com Guimarães Rosa: o uso usar ferramentas que lhe permitam identificar por recorrente de neologismos funciona muito melhor conta própria os autores mais importantes em cada na literatura do que em textos científicos. área de saber, inclusive aqueles nunca mencionados 7. Reserve tempo para sempre ler literatura por professores e colegas e até aqueles com quem (romances, contos, novelas, narrativas, poesia etc.), você não concorda No entanto, os mesmo quando estiver redigindo um artigo ou a sua autores não devem ser usados ou citados apenas por- tese ou dissertação. Ler bons textos é fundamen- que são reconhecidos, mas antes de tudo porque são tal para aprender a escrever. Procure textos que se pertinentes à construção do seu texto. relacionem com as suas deficiências de escrita. Por 10. Regra de ouro para publicar artigos: "quem exemplo, os prolixos devem ler João Cabral de Melo não pesquisa, não escreve; quem não escreve, não Neto ou Graciliano Ramos e os muito secos podem submete; quem não submete, não é aceito; quem escolher Vinicius de Moraes. não é aceito, nunca será publicado; quem não é 8. Não use apud quando puder se referir dire- publicado permanece anônimo". De nada vale um tamente a um autor/texto, pois apud é um recurso cientista ou intelectual anônimo. 40 41Dez instruções para tornar o seu artigo e situando o problema estudado. Continua com as publicável em uma boa revista científica ideias principais a serem discutidas e com créditos Supondo que um cientista tenha produzido um aos principais autores que abordaram assunto. Esse texto baseado no seu trabalho de pesquisa e que esse primeiro parágrafo pode decidir se os pareceristas (e texto tenha as características de um artigo publicável depois os leitores) vão se interessar por ler artigo numa revista científica escolhida pelo autor, ele deve na íntegra. Em seguida, a introdução descreve bre- levar em conta ainda uma série de soluções e pro- vemente artigo, mostra do que ele trata, narra as cedimentos que podem aumentar a "aceitabilidade" partes do texto e informa a existência de estudos de do texto. Eis uma seleção deles. caso ou comparações etc. Os procedimentos meto- 1. Pode não parecer muito lógico, mas a verda- dológicos e as bases de dados usados também devem de é que o resumo (ou abstract) e a introdução são constar brevemente dessa descrição das unidades do as partes mais importantes para que o seu texto seja artigo. Por último, a introdução deve adiantar bre- publicado (e também, depois de publicado, para vemente os principais resultados e/ou conclusões. que ele seja identificado e citado). Depois deles vem 4. No que toca ao desenvolvimento do resto do a conclusão. Atenção especial deve ser dada à escrita texto, lembre que alguns leitores não passarão do dessas partes, portanto. resumo; outros chegarão apenas à introdução; uns 2. resumo, além de ser breve, tem de ser con- poucos pularão à frente e lerão as conclusões e/ou vincente, colocando claramente problema estu- os resultados; mais raros serão aqueles que lerão o dado, objeto, as principais ideias discutidas, os texto do princípio ao fim. Por isso mesmo, embora principais achados e as conclusões mais relevantes. o restante do artigo tenha que ser sólido e coerente Quando for pertinente, o resumo deve mencionar com o resumo, a introdução e as conclusões, estas os casos tratados. Não há regras quanto ao tamanho; três são as partes mais importantes e devem ser tão no entanto, revistas mais exigentes limitam resu- bem escritas que levem o leitor a se interessar pelo artigo. mos a 250 palavras. Raramente são aceitos resumos 5. Não use sistematicamente o artifício de cita- com mais de 500 palavras. ção "segundo fulano", acordo com...". Principal- 3. A introdução deve ter apenas 1 a 1,5 páginas mente, evite começar um parágrafo dando crédito e, tal como resumo, deve sintetizar vários pontos. a outro autor. Cada parágrafo deve começar com Ela começa com um parágrafo de efeito, relatando a apresentação da ideia a ser desenvolvida nele. O 42 43crédito ao autor relevante, quando for o caso, deve transcrição de trecho de outro autor apenas para aparecer discretamente, entre parênteses, apenas no apoiar sua ideia ou exposição, e nunca faça para final da apresentação da ideia correspondente. A repetir o que você disse. Apresente preferencialmen- ideia exposta é a atriz principal, o ator é aqui o coad- te as ideias em discussão com suas próprias palavras juvante, mas indispensável. Conforme mencionado, (paráfrase) e depois dê o crédito devido aos auto- evite citações de segunda mão, do tipo "Marx apud res que você está usando. Lembre-se que usar pala- Silva". Autores clássicos, consagrados ou que sejam vras e trechos entre aspas obriga você a mencionar a autoridades no assunto devem ser sempre citados página onde elas constam. A mesma observação vale diretamente. Evite qualificar as suas fontes no texto quando você usa as falas de pessoas entrevistadas ou com avaliações do tipo: "o excelente artigo do fula- consultadas às vezes é melhor usar suas próprias no" ou "a obra-prima do beltrano". Esse é um bom palavras do que copiar literalmente as palavras dos recurso para um artigo de divulgação científica ou informantes. É legítimo, por exemplo, escrever um texto didático, mas não para um artigo cientí- entrevistado 'X' não acredita que o programa gover- fico. Cuide, também, para não usar citações com o namental 'Y' alcance os resultados esperados", sem nome completo e a profissão do autor, assim como transcrever as palavras exatas usa- "a importante contribuição do economista José da das pelo entrevistado. Silva..."; devem aparecer no texto sobrenome, data e 7. Sempre que uma ideia nova surgir no texto página relevante, entre parênteses (Silva, data, pági- mencione autores/textos que já trataram dela. No na). Evite demonstrar intimidade com o autor mes- entanto, não é preciso citar trechos escritos por eles, mo que você o conheça pessoalmente. Não escreva nem colocar os seus nomes na abertura dos parágra- José, mas Silva, por exemplo. Independente de qual- fos. quer outra coisa, é incorreto. 8. Use ao máximo referências a artigos recentes 6. Evite ao máximo a citação de trechos entre publicados em periódicos. uso de documentos aspas, principalmente trechos longos. Quem lê seu "chapa-branca" (relatórios e planos governamentais, artigo quer saber o que você tem a dizer, e não o anais de eventos, tratados, acordos, convenções, que dizem outros autores. Só cite em caso de fra- grandes sínteses etc.) pode ajudar, mas não deve ser ses lapidares e de autores consagrados, ou de afir- proeminente nem excessivo. É válido e mesmo enri- mações que você pretende confirmar ou desafiar quecedor citar artigos publicados na revista à qual diretamente com a sua pesquisa. Raramente use a você pretende submeter o seu artigo, pois mostra 44 45aos editores e aos pareceristas que você conhece o revistas (e quase sempre motivo de rejeição de periódico e alguns dos autores e temas que aparecem textos avaliados), tem em inglês o curioso apeli- nas suas páginas. Além disso, é um fator que pesa do de the strawman argument. É nome dado a indiretamente no humor do editor da revista, pois, um procedimento (recorrente, mas nem sempre para ele, publicar artigos que citam outros artigos da proposital) do autor de um texto quando ele cons- sua revista ajuda a aumentar o fator de impacto da trói de forma simplista ou até defeituosamente a publicação. argumentação e/ou a hipótese e/ou os achados dos 9. Citar a si próprio moderadamente é válido, autores que planeja criticar. Strawman em inglês quer dizer espantalho ou seja, um boneco mam- mas apenas nos casos de trabalhos publicados. Evite "narcisismos" como "de acordo com a minha aborda- bembe, construído às pressas, improvisadamente, com roupas velhas. Quando um autor é acusado gem pioneira...", "assunto tratado no meu influente de incorrer nessa prática, significa que avalia- texto tal..." etc. dor ou editor o acusa de construir algo de modo a 10. título não pode ser um resumo do traba- facilitar a crítica ou a refutação. Isso é visto como lho. Deve ser curto e instigante, capaz de despertar a manifestação de incompetência ou preguiça do curiosidade do leitor, dando, no entanto, ideia clara autor. Pode até ser que a pesquisa do autor de fato sobre o conteúdo do artigo. Para desencorajar títulos coloque em xeque os autores/trabalhos comenta- que mais parecem resumos, algumas revistas colo- dos, mas um editor ou parecerista exigente poderá cam um limite máximo no número de caracteres ou ignorar isso se considerar que o autor fez uma apre- palavras que podem constar deles. Em alguns casos, ciação mambembe desses trabalhos, tal como faria o título pode ser dividido em dois primeiro, um espantalho. Assim, quando você entrar em rota mais de "fantasia", segundo mais rigoroso. Exem- de polêmica com outros autores, capriche na expo- plo: Em busca do trabalho: estudo sobre os egressos da sição dos trabalhos que vai criticar. Não construa Escola Técnica de Cajazeiras (PB), 1980-2000. espantalhos... Evitar a falácia da construção do Cuidados com artigos para espantalho (strawman) leitores não brasileiros ou não iniciados Um tipo de argumentação falaciosa, frequen- Se o seu artigo for submetido a uma revista temente criticada por pareceristas e editores de internacional, atenção: aspectos particulares, nor- malmente evidentes para brasileiros, nem sempre 46 47o são para estrangeiros. Nesse caso, é crucial inse- tos autorais das obras cujos trechos são citados. Para rir no texto explicações sintéticas sobre instituições, evitar grande trabalho que isso geralmente acarre- políticas, fatos e personalidades citados. Isso pode ta, você pode: ser feito em notas de rodapé ou entre parênteses. evitar citar trechos, escrever com paráfrases Esse cuidado vale também para siglas de agências, (isso não significa excluir as obras nas referên- órgãos governamentais, ONGs, empresas etc. Siglas cias); ou só devem ser usadas depois de os nomes por extenso evitar submeter seu artigo a revistas que fa- terem constado no texto. zem essas exigências. Traduções Como lidar com os pareceres Se você escolher uma revista estrangeira para Você não é obrigado a aceitar tudo que os pare- submeter o seu artigo, dificilmente ele será con- ceres recomendam, mas é aconselhável que respon- siderado se estiver em português. Ou seja, se você da a todos os pontos que eles levantam, mesmo que não escreve bem na língua ou línguas adotada(s) para justificar por que não aceitou uma ou outra na revista, a sua escolha leva à obrigatoriedade de recomendação. providenciar a tradução. Não recorra a softwares de ideal, quando há muitas recomendações, é tradução, pois eles quase sempre geram erros gros- organizar um da revisão, no qual você seiros. Você deve contratar um tradutor profissio- apresenta, em duas colunas, o que foi pedido e que nal, que a princípio será pago por você mesmo. No providência tomou (ou não tomou). Com isso, entanto, existem departamentos, programas e pro- editor pode visualizar tudo que foi feito e optar por jetos de pesquisa que reservam recursos para finan- devolver aos pareceristas ou decidir diretamente pela ciar a tradução de textos a serem publicados em aprovação. Daí a împortância de mostrar as mudan- outras línguas. Em qualquer situação, o texto deve ças feitas. estar redigido de maneira impecável, sob risco de Faça tudo que puder para evitar o risco de seu recusa, mesmo que seu conteúdo seja relevante. texto revisado voltar aos pareceristas, sobretudo por- que podem ocorrer atrasos. Autorizações para uso de referências Não é normal nem frequente, mas se o edi- Algumas revistas científicas exigem a anuência tor mandar texto para novos pareceristas e se por escrito dos autores e/ou dos detentores de direi- estes pedirem novas mudanças você deve rea- 48 49gir, comunicando que isso foge à ética do peer resenhas (ver o Capítulo 2); review. notas sobre fontes um autor dá notícias sobre novas fontes de dados pertinentes a pesquisas dentro Outros tipos de publicação científica do campo temático da revista. Conforme assinalado, revistas científicas fre- quentemente aceitam outros tipos de texto que não Mesmo um autor novato pode conseguir espa- os artigos "ortodoxos" aqueles que apresentam ço numa boa revista se submeter bons textos desses resultados de pesquisa. Embora esses artigos de pes- tipos. De toda forma, é sempre preciso conferir a quisa sejam as "joias da coroa", muitas revistas têm política editorial da revista para verificar os tipos a política explícita de aceitar a submissão de textos de textos que ela declara aceitar. Algumas revistas, como: por exemplo, só aceitam publicar resenhas solici- artigos de revisão da literatura um autor revê tadas pelos editores, que fazem convites pessoais criticamente um corpo de literatura selecionado de a resenhistas potenciais. Há casos em que o editor acordo com algum critério publicações recentes, publica na revista uma lista de livros que considera resenháveis e solicita que os interessados em rese- temas específicos, uso de novos conceitos e teorias, nhá-los para números futuros se manifestem. aplicação de novas metodologias, uso de novos da- dos etc.; ele não se obriga a fazer uma pesquisa de campo, ou o seu "campo" é conjunto dos textos selecionados em função de um dos critérios ado- tados; espera-se, no entanto, que a leitura crítica extraia alguma perspectiva que ajude no desenvol- vimento daquele campo de estudos; notas teóricas ou metodológicas - um autor discu- te questões de teoria e método pertinentes ao campo temático da revista sem relatar resultados originais de pesquisa, mas abrindo novas perspectivas de es- tudo ou sugerindo novos caminhos metodológicos ou teóricos; 50 512 ROTEIRO PARA ESCREVER UMA RESENHA CRÍTICA Generalidades Um tipo de texto que tem ampla acolhida em revistas científicas é a resenha. Escrever uma resenha é uma boa maneira de um profissional jovem ou ain- da em formação inserir o seu nome numa revista de projeção. No entanto, a não ser que haja um convite específico ou uma sondagem, uma resenha não deve ser planejada, e muito menos escrita espontanea- mente, antes que o resenhista se certifique de que ela poderá ser submetida para avaliação pela revista. Algumas revistas publicam exclusivamente resenhas encomendadas. Os editores de revistas importantes geralmen- te recebem diretamente das editoras exemplares de divulgação de livros novos, como um estímulo à publicação de resenhas que ajudem a divulgar as obras. Os convites para escrever resenhas geral- mente incluem envio do exemplar para rese- nhista, que fica com ele depois de a resenha ter sido escrita. Resenhas são feitas geralmente sobre 53produções novas (recém-lançadas ou lançadas há de um roteiro, que não precisa ser seguido rigida- menos de três ou quatro anos). Reedições recentes mente. de produções clássicas ou edições críticas de obras antigas podem também merecer resenhas. Livros Resenhas: o que são e que não são antigos e os que não prometem ter grande reper- cussão no campo da revista raramente são objetos que é? de resenhas. A resenha crítica é um tipo de texto de ampla É bom lembrar que publicar uma resenha tem circulação na vida acadêmica e científica. Rese- menos peso na avaliação do currículo e da carreira nhas permitem que cada pesquisador gaste menos de um profissional do que um artigo, um capítu- tempo para se manter informado sobre a litera- lo de livro ou um livro. A resenha é apenas um tura pertinente ao seu campo e à sua temática, comentário curto e desejavelmente inteligente e especialmente os títulos novos. Uma resenha crí- informativo sobre uma produção alheia, e nun- tica é uma forma, entre outras, de comentar por ca uma produção baseada em pesquisa original. escrito um texto lido e de divulgar esse comen- Enquanto a produção resenhada pode ter exigido tário. Uma resenha pode ser feita também sobre muitos meses ou mesmo anos de trabalho, um rese- DVDs, filmes, softwares e sites. As resenhas podem nhista experiente gasta apenas algumas dezenas de ser escritas também sobre mais de uma produção horas lendo original e outras poucas horas redi- as obras recentes de um autor importante, ou gindo a resenha. um grupo de obras recentes sobre um assunto O resenhista tem a responsabilidade de ler marcante ou emergente. Em inglês esse tipo de com cuidado a obra resenhada, pois o leitor supõe resenha ganha o nome de review essay (ensaio de que ele tenha feito uma leitura atenta e completa. resenhas). Durante a leitura, ele deve fazer anotações e até selecionar trechos que poderão ser citados ou para- Para que serve? fraseados na hora de escrever a resenha. Ou seja, Uma resenha crítica serve principalmente a leitura de um livro com fim de escrever uma como: resenha não deve ser feita casualmente, mas com a) uma comunicação concisa, bem organizada, muito cuidado. personalizada e fácil de ler sobre um texto, e Apresentamos a seguir algumas definições e, ain- b) uma "recomendação" positiva ou negati- da, componentes de uma boa resenha, na forma va sobre ele. 54 55Ela deve ser capaz de ajudar um público poten- um comentário técnico especializado, dirigido cialmente interessado no assunto principal da obra apenas a quem já conheça muito bem o texto, au- resenhada a se decidir pela sua leitura ou não leitura. tor e a sua temática. Uma resenha pode ter ainda pelo menos dois outros A resenha crítica pode discutir a parte técnica usos práticos: da obra, mas deve fazê-lo de forma a não alie- c) como um texto acabado, pode ser apresen- nar o interesse do leitor que desconhece os deba- tado como um trabalho numa disciplina ou como tes teóricos e metodológicos mais sofisticados em texto a ser submetido a uma revista científica ou à seu respectivo campo científico. Outro detalhe imprensa, e importante é que uma resenha não deve ser escri- d) várias resenhas, se focalizadas sobre obras ta com a intenção de substituir a leitura do texto resenhado. ligadas entre si e se devidamente "entrosadas" entre si, podem compor um texto mais extenso (mono- Qual a sua forma? grafia, relatório de pesquisa, ou mesmo um capítulo de revisão da literatura de uma dissertação ou tese), A resenha, medida em número de parágrafos, guardando parentesco com que acima chamamos deve ter cerca de seis a oito. Medida em linhas, deve de review essay. ter não menos de 45 e não mais que 90 (entre duas e três laudas). Muitas revistas científicas boas, no As sugestões deste roteiro servem principalmen- entanto, limitam resenhas a uma faixa entre 800 te para fazer resenhas com as finalidades b) e c). (mais comum) e 1.200 (mais raro) palavras. Uma que não é? resenha tem de oferecer, em espaço bem curto, doses equilibradas de informação, análise e opinião. A resenha crítica é diferente de: A concisão é, portanto, uma virtude necessária aos um resumo, que é muito mais conciso e é escri- resenhistas. to de forma "neutra", para o leitor mais "genérico" possível; Para quem deve ser escrita? um ensaio, em que o resenhista discorre mais Uma resenha crítica a ser publicada numa extensamente sobre o assunto do texto e/ou sobre a revista científica deve ser escrita para um leitor obra do autor. Evidentemente, isso exige que o re- "imaginário" e desconhecido que, em princípio, senhista conheça e comente outras obras do mesmo não tem obrigação de saber muito sobre o texto, autor e de autores afins; o autor ou os assuntos tratados, mas que pode ou 56 57deve vir a se interessar por ele. resenhista deve completo, local, editora, data da edição utilizada, supor que haja entre os leitores potenciais da sua número da edição, número de páginas, ano da edi- resenha pessoas muito bem informadas sobre o ção original (quando for o caso), título do original livro e o autor, mas a resenha não deve ser escrita e nome do tradutor (quando for obra estrangei- apenas ou mesmo principalmente para elas. Deve, ra). Devem ser acrescentados em seguida informes por isso, evitar uma apreciação demasiadamente sobre componentes especiais do livro, tais como resumida ou técnica, voltada só para iniciados "mapas", "bibliografia", "índice remissivo", "ilus- no assunto. ideal é abrir o leque de informa- trações" etc. (nos casos de DVDs ou filmes, cabem ção e análise sobre texto resenhado, de forma a outras informações, como tipo de formatação, ganhar o interesse dos menos iniciados ou menos "colorido" ou "preto e branco", tempo de duração, informados. idioma, legendas). Hoje em dia os livros são qua- roteiro se sempre publicados com um número de referên- cia do sistema ISBN. Esse número deve constar no Tendo isso tudo em mente, sugere-se o roteiro fim da referência, pois facilita a compra do livro abaixo para orientar a escrita de resenhas. É impor- ou a sua localização em bibliotecas e até em lojas tante notar três pontos prévios. informatizadas e em sites de livrarias. É recomendá- os títulos dos itens do roteiro abaixo (como vel incluir ainda preço de capa do livro, quando "dados sobre o autor") não devem constar do texto disponível. A referência deve aparecer no alto da da resenha; a resenha deve ser escrita como um texto primeira página, acima do texto da resenha, sepa- corrido, sem interrupções ou subtítulos; rada dela por duas linhas. As palavras da referência vários itens podem e até devem ser "cumpri- não são contadas para fins de obediência ao limite dos" na mesma sentença ou no mesmo parágrafo; e máximo de palavras. a resenha talvez seja escrita mais facilmente se 2. Logo abaixo da referência, pode entrar o seguir a ordem dos itens do roteiro, mas essa ordem título da resenha e o nome do resenhista. O títu- pode ser mudada se o autor considerar que a leitura lo é dado pelo resenhista. Algumas revistas exigem ficará mais fácil e interessante. títulos, outras proíbem, outras ainda não se pro- 1. A resenha começa com a referência biblio- nunciam. Em seguida, vem o primeiro parágrafo gráfica completa do texto resenhado: autor, título da resenha, que deve incluir dados breves sobre o autor: formação, nacionalidade, profissão, vínculo 58 59institucional, outros livros escritos, idade ou época os principais personagens etc. Se for o caso, podem em que viveu; no caso de resenha de uma coletânea ser incluídas menções à "linhagem" disciplinar do de textos de vários autores, convém dar uma ideia texto "história das mentalidades", "antropolo- da origem da obra (trabalho conjunto de um gru- gia política", "sociologia po de pesquisa, textos apresentados num congresso "ecologia de comunidades" etc. e a etc.); devem constar dados mais detalhados sobre influências admitidas pelo autor e/ou identificadas o(s) organizador( e dados apenas sintéticos sobre pelo resenhista. os autores dos capítulos. Nem sempre essas infor- 5. Em seguida, a resenha deve explicar mações estarão imediatamente disponíveis no livro meios e recursos usados pelo autor, ou seja, de resenhado. No entanto, elas valorizam a resenha e onde ele tirou e como usou os materiais, análises, por isso o autor deve se esforçar para obtê-las, prin- opiniões e informações em que baseou o texto: cipalmente em sites confiáveis da Internet. viagens, memória, opinião, entrevistas, questioná- 3. Em seguida, o leitor deve ficar sabendo exa- rios, leitura de outros livros, de artigos, de jornais tamente qual o gênero da obra: ficção (romance, ou de documentos primários, surveys de opinião poesia, contos etc.), ensaio, tese acadêmica, memó- pública, pesquisa de campo, dados estatísticos, rias, biografia, relato pessoal, texto científico, ensaio, rádio, TV, cinema, biografias de pessoas conheci- coletânea de textos de um autor ou de vários autores das ou desconhecidas, vivência pessoal etc. Nesse e assim por diante. Cabe destacar se a obra é uma item devem constar ainda comentários sobre os reedição, ou se é tradução de alguma obra famosa em métodos e procedimentos científicos ou de cria- outros países. Em alguns casos, é importante infor- ção artística. O resenhista deve concentrar nesses mar se o texto dá sequência a outra obra importante três últimos itens tudo o que tem para informar do mesmo autor, ou se tem relação direta (polêmi- "neutramente" sobre a obra. ca com, resposta a) com um texto muito conhecido 6. Colocados esses pontos, a resenha deve che- escrito por outro autor. gar à apreciação sobre os méritos e problemas do 4. Depois desses dados mais "objetivos", a rese- texto. Essa apreciação deve ser baseada em argu- nha deve trazer informações sobre o conteúdo e a mentos construídos exclusivamente a partir da lei- intenção/objetivo da obra: assunto(s) principal(is), tura do próprio resenhista não é apropriado usar posições ou teses centrais etc., ou, no caso de fic- as opiniões de outros comentaristas da obra. Nin- ção, o tema, a linguagem usada, a época retratada, guém vai ler a sua resenha para descobrir o que um 60 61terceiro autor pensa da obra. É crucial, neste item, dera serem os maiores interessados no livro "ado- enfatizar que autor de fato fez ou tentou fazer lescentes", "profissionais do ensino", "cidadãos de acordo com os seus objetivos, e não os pontos ativistas", "estudantes de graduação", "gestores de que ele "poderia" ou "deveria" ter feito de acordo políticas públicas", "leitores de livros de viagem" com a preferência do resenhista. Trechos breves da etc. obra podem ser transcritos (com informação sobre as páginas em que aparecem). Se for necessário citar outra obra do autor ou uma obra de outro autor, colocar em nota de pé de página ou de final de texto a referência da obra mencionada. 7. Feito isso, a resenha deve destacar clara e sucintamente a contribuição ou a importância do livro dentro do seu gênero e tema, com base no conjunto de argumentos expostos nos parágra- fos anteriores. É a hora de o resenhista fazer seu balanço dos aspectos positivos e negativos da obra e dar ao leitor o seu parecer, que pode ser positivo ou negativo, ou intermediário entre esses extremos. É legítimo recomendar um bom livro que contenha "defeitos", ou não recomendar um livro "fraco" que contenha "pontos fortes", desde que resenhista informe o leitor sobre a sua posição ambivalente. O resenhista não deve sentir obrigado a elogiar, nem constrangido por criticar. Ao contrário do que se pode pensar, um resenhista não precisa ter per- missão do autor ou da editora da obra resenhada para escrever a resenha. 8. Um último componente, facultativo, é apre- sentar um perfil dos leitores que o resenhista consi- 62 633 TESES, DISSERTAÇÕES, MONOGRAFIAS E PROJETOS Esta seção apresenta algumas sugestões de cará- ter geral a respeito do planejamento, da pesquisa e da redação de trabalhos finais de cursos de pós-gra- duação principalmente teses de doutorado e dis- sertações de mestrado, e secundariamente monogra- fias de especialização. No Brasil, como mencionado, só de teses e dissertações novas, são defendidas atualmente em torno de 40 mil por ano, configurando uma par- cela importante e estratégica da produção científi- ca nacional. Muitos programas de pós-graduação criam normas próprias de redação e formatação para orientar a escrita desses trabalhos, ou adotam normas criadas por autores de manuais, por outros programas ou pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Existe hoje no mercado editorial um número apreciável de manuais desse tipo, que podem ser adotados pelos programas de pós-gradu- ação. No Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, onde trabalhamos, de- senvolvemos normas de redação próprias, a serem 65usadas por nossos alunos de doutorado, mestrado e 2. Pense em organizar os seus capítulos como artigos que possam ser publicados separadamente, Esta seção não pretende apresentar um manu- se o programa ao qual está vinculado aceitar esse for- al extenso ou completo, mas sim chamar a atenção mato. Nesse caso, é conveniente que as conclusões para alguns erros, dificuldades e soluções recorrentes específicas a cada capítulo sejam apresentadas ao em projetos e textos de trabalhos finais de cursos de final dos mesmos. Apenas as conclusões gerais ficam pós-graduação. para o final da tese. Dez dicas para planejar e escrever uma 3. Em contraste absoluto com crime perfeito tese, dissertação ou monografia (aquele que não deixa pistas), a TDM perfeita é a que deixa todas as pistas. Por isso, explicite todos 1. Evite o caminho aparentemente mais fácil os seus passos metodológicos, seus instrumentos de de comprar uma Tese, Dissertação ou Monografia pesquisa, suas fontes. Não se envergonhe de citar e (TDM) pronta. Você pode se sentir tentado a adqui- apresentar todas as referências e todos dados que rir por preço irrisório a solução para a sua angústia foram utilizados. de não conseguir escrever a TDM. Mas... o barato pode sair caro, e mentira tem perna curta. Da mes- 4. Uma gafe incômoda ocorre quando você tem ma forma que o seu fornecedor consegue identificar na sua banca examinadora um cientista que escreveu na web uma TDM pronta (afinal, cada vez mais as algo relevante sobre o seu tema e esse texto não foi universidades estão disponibilizando os seus acervos citado na sua T/D. Procure consultar tudo que de de trabalhos finais), o autor do original fatalmente importante tenha sido escrito sobre o seu objeto de vai identificar quem está se apropriando indevida- tese, sobretudo se for uma tese doutoral. mente do seu trabalho. Plágio é crime, e você per- 5. Nem muita introdução, nem muita conclusão: a derá o título obtido ou diploma, além de passar por TDM deve ter a forma aproximada da curva de Gauss um grande e irreparável vexame. Conclusão: se você (ver Figura 1). A ponta esquerda da curva é a introdu- não tem vocação para o meio acadêmico, mude de ção. Na parte ascendente, você abre o foco e define a ramo. Mas nunca aceite as superofertas do Zé Mole- abrangência do estudo. É nesta fase que você "constrói" za (site na Internet que oferece teses prontas). seu objeto, apresentando o marco de referência teóri- co-conceitual, histórico e a caracterização do objeto. 11 Disponível em: http://www.unbcds.pro.br/upload/230509_6F66433E.pdf. (acesso em 10/02/2010). A partir de certo ponto, que idealmente não deve ser 66 67muito distante do meio do trabalho, você precisa parar juízo da qualidade e consistência, não pretenda que a de abrir o foco e começar a se preparar para o final sua TDM seja abrangente e profunda ao mesmo tem- do estudo. É quando a curva tem sua inflexão. Nes- po, como a maior obra-prima da sua vida, pois você ta fase, você vai "tratar" seu objeto, analisando dados correrá risco de nunca concluí-la. Para elaborar uma e informações e discutindo resultados da pesquisa. TDM, você tem normalmente um tempo limitado. A ponta esquerda da curva corresponde às conclusões. A sua obra-prima pode esperar mais algum tempo. Evite dois tipos de vício: abrir demais foco e não con- Lembre-se que o perfeito é inimigo do possível e que, seguir chegar a um fechamento (uma curva de forma- em retrospectiva, a melhor TDM que você poderia to apenas ascendente) ou começar com o foco muito ter feito é aquela que você defendeu com sucesso, e se amplo e fechar abruptamente o estudo, sem "entregar" tornou um trabalho consultado e citado por outros. os resultados enunciados na introdução (uma curva de 7. No entanto, nunca peça indulgência aos leito- formato apenas descendente). res, com notas introdutórias do tipo "foi o melhor que pude fazer", "tive problemas pessoais", "foi um período Foco/ Abrangência difícil na minha vida". Uma vez pronta e entregue, a sua TDM deve ser apresentada e defendida como ela é, e não como o que poderia ter sido. Construída de maneira correta, será uma TDM de que você sentirá orgulho e não vergonha. E isso é importante. 8. Sobre anexos e apêndices: evite sobrecarregar Construção Tratamento o seu texto com elementos secundários que desviem do objeto do objeto Introd. a atenção do leitor. Use o expediente de mostrar tais Número de conteúdos ao final da TDM, como anexos e apêndi- páginas ces, mas não abuse. Poucos lerão essa parte. Figura 1: Equilíbrio entre as partes de uma TDM 9. Em seu marco de referência teórico-concei- 6. A TDM não é sua obra final. A tese doutoral tual, evite ir além das teorias e conceitos que serão representa um rito de entrada na Academia, e a dis- usados no trabalho. Para que serve discutir teorias sertação é um estágio importante para o ingresso no sobre as quais a TDM não se apoia? E, sobretudo, trabalho de produção da ciência. Portanto, sem pre- evite descrever de maneira enfadonha e desnecessá- 68 69ria um monte de autores no "clássico estilo": confor- duação. Alguns programas exigem que a qualificação me fulano, segundo sicrano, e assim por diante. Se do projeto seja acompanhada pelo desenvolvimento você pretende demonstrar erudição, saiba que este de pelo menos um capítulo e/ou de um memorial (ou não é o caminho. relatório) sobre a trajetória do aluno no curso, sobre- 10. Ao planejar os capítulos e seções da sua TDM, tudo no caso de doutorado. Quando não existem es- defina no seu projeto o número máximo de páginas sas exigências complementares, 15 a 20 páginas é um de cada um, reservando mais páginas para as partes tamanho razoável para um projeto. mais importantes. Isso ajuda a manter o controle Apresentamos abaixo uma estrutura que con- sobre o texto, tanto em termos de tamanho quanto de tém os componentes que podem ser considerados imprescindíveis para construir um bom projeto. A conteúdo, pois evita que você gaste espaço (e tempo) ordem proposta para esses componentes pode variar demais com assuntos secundários ou acessórios. um pouco, outros podem ser introduzidos, mas os que constam abaixo devem fazer parte de todo pro- Sobre projeto de pesquisa jeto que pretenda abrir o caminho para um trabalho projeto de tese, dissertação ou monografia, final bem-sucedido.¹² hoje em dia exigido dos alunos pela maioria dos pro- Os componentes essenciais de um projeto de gramas de pós-graduação, não é uma mera formalida- pesquisa devem responder as seguintes perguntas: de. Em muitos casos, a sua preparação e qualificação que se pretende investigar ou o objeto da fazem parte formal das exigências curriculares, mas, pesquisa (o quê?); independentemente disso, ele tem importância cru- quais as intenções ou a que se pretende o estu- cial para o desenvolvimento da pesquisa e da redação, do (quais são os seus objetivos? Ou para quê?); para a defesa bem-sucedida do trabalho e para a sua as justificativas do estudo (por quê?); incorporação ao conjunto da produção científica. Um qual o método e as técnicas que serão adota- projeto mal concebido ou mal feito pode atrapalhar dos na pesquisa (coleta, tratamento e interpretação o pesquisador, com prejuízos graves ou até irreversí- como?). veis. Um projeto bem feito e adequadamente seguido Outros componentes não são essenciais, mas por pode ajudar o trabalho a "se escrever por si mesmo". vezes acabam se revelando muito importantes: tamanho de um projeto pode variar muito em função da tradição da área científica, das exigências 12 A estrutura de projeto aqui apresentada é em parte baseada em David Madsen, do orientador e dos padrões do programa de pós-gra- Successful Dissertations and Theses. 2nd ed. San Francisco, California: Jossey-Bass, 1992, capítulo 4. 70 71quando? (cronograma); a organizar a argumentação sobre situações comple- onde? (local ou terreno de pesquisa); xas; merecem respostas específicas no texto final da com que recursos? (orçamento). pesquisa. 4. Justificativa científica e social do objeto e da Componentes de um projeto de estudo investigação, mostrando por que o objeto escolhido científico é relevante do ponto de vista do desenvolvimento da ciência e da relevância social. 1. Folha de rosto: título proposto; nome e e-mail do autor/a; nome da instituição de origem e/ou do 5. Breve revisão da literatura pertinente: aprecia- programa cursado; título a ser obtido; nome do ção concisa e focalizada nos motivos pelos quais cer- orientador; data e local. tos autores, teorias e estudos são relevantes para o seu 2. Resumo (máximo de 500 palavras): escrito objeto e para as suas perguntas/hipóteses, com o obje- por último, inserido logo após a folha de rosto. tivo de situar melhor o seu objeto ou problema. 3. Apresentação do objeto e dos objetivos da 6. Procedimentos metodológicos e técnicos a serem adotados: pesquisa: descrição da moldura teórica e conceitual a ser objeto ou problema deve ser apresentado em adotada; forma de pergunta e com seu contexto e elementos definição dos dados necessários; teóricos (inclusive conceitos) suficientemente expli- definição das fontes desses dados; citados e definidos, tornando-o compreensível para definição das formas de coleta de dados; o leitor e deixando clara a sua relevância; objetivo geral e objetivos específicos; técnicas de tratamento e interpretação dos da- dos; as perguntas de pesquisa ou as hipóteses: escri- tas na forma de frases afirmativas ou interrogativas, cronograma de etapas e de conclusão, dividido devem propor/indagar sobre algum tipo de relação por meses e anos e indicando os produtos interme- diários. entre duas variáveis, dois fenômenos ou dois eventos (responder a essas perguntas), ou testar essas hipóteses 7. Proposta de sumário ou tábua de matérias: (deve ser o objetivo principal do estudo; essas respos- nomes e ordenação provisórios dos capítulos e seções; tas devem constar explicitamente do texto); número de páginas previstas para cada capítulo. hipóteses ou perguntas de pesquisa secundárias 8. Bibliografia ou listagem de fontes resumida, (caso necessárias): escritas da mesma forma, ajudam que por vezes é dividida em duas partes: a primeira 72 73consistindo naquelas referências que foram consul- tadas para a elaboração do projeto, e a segunda com 4 as referências previstas de serem consultadas para a elaboração do trabalho. DICAS DIVERSAS : As dicas a seguir são válidas igualmente para zi 12 artigos, teses, dissertações e monografias. Sobre uso de figuras, tabelas e quadros uso de figuras (gráficos, diagramas, mapas, fotos etc.) bem selecionadas e produzidas pode valo- rizar muito um texto e facilitar e estimular a sua lei- tura. Softwares, como o Excel, facilitam a produção de gráficos. A farta disponibilidade de bancos de imagens na Internet e a alternativa cada vez mais acessível do escaneamento de imagens impressas são outros estímulos ao uso de figuras. No entanto, por melhores que sejam as ilustrações, elas apenas com- plementam texto, que precisa ser escrito com soli- dez suficiente para preponderar sobre as ilustrações. Elas são coadjuvantes do texto. autor deve ter em vista alguns procedimentos quanto ao uso de ilustrações: Sempre anunciar a figura no texto (vale tam- bém para tabelas e quadros) nenhuma figura deve aparecer antes de ser mencionada explicitamente no 75texto ("conforme Gráfico 3"). Evite utilizar expres- Quando se trata de figura do tipo diagrama, se sões como "ver Figura 22, abaixo", pois, dependen- for o caso de adaptação de uma fonte original, é pre- do da formatação, a figura citada pode ficar acima e ciso registrar isso com expressões como "elaborado a não abaixo. partir de..." ou "adaptado de...". Nenhuma figura deve ficar sem comentário e Cuidar da inteligibilidade das figuras: pode análise no texto; a máxima de que uma foto vale por ocorrer de um autor elaborar um diagrama para mil palavras é apenas parcialmente verdadeira no explicar uma ideia, sem sucesso; por vezes, o dia- caso de textos científicos: você deve sempre explicar, grama não tem sentido, suas flechas apontam para comentar e analisar as figuras (isso vale também para qualquer lado, ou nem sequer apontam a sequên- dados incluídos em tabelas e quadros). cia dos elementos do diagrama, não ficando claro Toda figura deve ter uma legenda brevíssimo para leitor onde começa e onde termina fluxo; texto que registra o seu conteúdo -, um autor e/ou há casos em que uma figura não traz nada de novo fonte; fotos devem ter datas e autores; se a legenda em relação ao que está dito no texto e, por isso, for longa demais é porque a figura não tem a quali- ela deve ser melhorada ou simplesmente elimina- dade necessária (e precisa ser eliminada ou substitu- da. ída), ou então a legenda tem de ser reduzida. Para usar imagens disponíveis na Internet, é No caso de mapas, não se pode esquecer de dar preciso verificar se elas são de domínio público (ge- a sua escala e a orientação do norte; sem esses ele- ralmente não são); caso contrário, será necessário mentos, trata-se de uma figura e não de um mapa. obter a autorização do autor ou detentor dos direitos Tomar cuidado especial com a qualidade (re- autorais (o que nem sempre é fácil, mesmo porque solução e clareza) da imagem reproduzida no tex- nem sempre é fácil identificá-los, quer seja pessoa to de nada adianta, por exemplo, perder tempo física, quer seja empresa ou instituição). Não basta, para construir um gráfico elaborado ou selecionar portanto, apenas citar a fonte. uma boa imagem e depois reproduzi-los de forma Dar títulos explícitos e objetivos a tabelas, qua- empobrecida, usando fotocopiadora ou impressora dros, gráficos e ilustrações; embora eles sejam coad- defeituosa ou fotocopiadora em preto e branco para juvantes do texto, o leitor deve entender o que eles reproduzir imagem colorida etc.; prestar atenção es- têm a dizer sem ter de recorrer ao texto; além disso, pecial à nitidez de cores, retículas, legendas, símbo- os títulos devem ser rigorosamente iguais aos que los etc. constam nas respectivas listas de títulos. 76 77Dar uma numeração sequencial e fornecer as permitirá saber, a qualquer momento, o que você fontes de todas as tabelas, quadros, gráficos e ilus- consultou e o que falta consultar. trações. Obrigue-se a conhecer melhor, desde o início Legendas de imagens, fotos e ilustrações tam- de sua pesquisa, recursos disponíveis na(s) sua(s) bém devem ser sintéticas e objetivas: as análises e os biblioteca(s) e em bibliotecas associadas: livros comentários pertencem ao texto. e documentos raros, coleções especiais, bases de dados, softwares analíticos e operacionais, coleções Preparando-se para a redação de revistas científicas, coleções de documentos iné- Seguem-se algumas dicas que podem ser úteis ditos/manuscritos, empréstimos interinstitucionais, para o trabalho de pesquisa, que antecede necessa- textos microfilmados, digitalizados ou escaneados riamente o ato de escrever texto científico. Adotar etc. algumas sugestões aqui apresentadas pode economi- Aprenda, desde cedo, a usar o Portal de Perió- zar trabalho, abrindo mais tempo para você se dedi- dicos da Capes, o Banco de Teses da Capes, o ban- car àquilo que é essencial: refletir. de dados da ISI, Scielo e outros instrumentos, Antes mesmo de iniciar a redação do proje- para localizar com mais facilidade textos de interesse to e a pesquisa propriamente dita, organize uma para a sua pesquisa. ampla bibliografia, incluindo os textos clássicos Aprenda a usar as numerosas bases de dados e influentes, mas abrindo espaço também para disponibilizadas pela Internet Ipea-Data, Data- textos novos e, eventualmente, desconhecidos, SUS, bases diversas do IBGE, Portal da Transpa- principalmente teses, dissertações e artigos cientí- rência, BCDAM, IDH, imagens orbitais do Inpe e ficos recentes, desde que tenham qualidade. Essa assim por diante.¹³ bibliografia deve continuar a ser enriquecida ao longo de todo o tempo da pesquisa e, por isso, Adote e siga desde início da redação do seu deve ser mantida num arquivo à parte da biblio- trabalho final normas ou um manual de escrita e grafia da tese, dissertação ou monografia propria- formatação: de preferência o que for recomendado mente dita, que deve reunir apenas as fontes efe- ou adotado pelo seu programa. tivamente usadas. Além de dar maior amplitude à sua busca por fontes, esse procedimento lhe 13 Um bom guia sobre o assunto é o texto de Marcelo Felipe Persegona e André Luiz Persegona, Os segredos do Google como fazer uma pesquisa inteligente na Internet (Brasília: IP Consultoria, 2009). 78 79Identifique e compareça a uma ou mais oficinas plágio é um problema grave! uso dos três de escrita científica e/ou leia livros sobre o assunto. sistemas acima mencionados organiza as informa- Faça um esforço específico para conhecer ções que você recolhe ao pesquisar e controla suas melhor os recursos do seu editor de textos. Pode origens. Isso diminui a possibilidade de você come- ter plágio involuntário, algo que no meio científico parecer banal, mas, se você o conhecer bem, pode é considerado falta gravíssima. plágio intencional economizar muito tempo na redação, obtendo é pior ainda é um crime e é um pecado capital na melhores resultados finais. vida científica acadêmica. Ele significa que você se Desde o início de sua pesquisa, adote três sis- apropria das ideias e dos achados alheios e os apre- temas: senta como se fossem seus. Ou seja, é um roubo. "Sistema 1": anotar informações retiradas das Deixando de lado a opção por um plágio proposital, diversas fontes (nome comum = as possibilidades de plágio involuntário aumentam com a facilidade que se tem hoje para acessar gran- "Sistema 2": anotar as referências das fontes de quantidade de informações e textos, principal- dentro do Sistema 1; Sistema 2 dará origem à sua mente pela Internet. Não fique exposto ao erro de lista final de referências bibliográficas, mas a sua uti- plagiar por causa da falta de cuidado com as suas lidade aparece muito antes da conclusão do texto, anotações de pesquisa. Uma ideia ou trecho de tex- pois ele permite que você saiba com rigor, a qual- to de outro autor, copiado sem a devida referência, quer momento, as origens de todas as informações é como mentira de perna curta: mais cedo ou mais que recolhe. tarde a verdade vai aparecer. "Sistema 3": fazer referências às (ou chamadas para as) fontes no seu texto. Há basicamente três Redigindo os resultados da pesquisa opções: notas de rodapé, notas de fim de texto ou Apresentar bem os resultados de uma pesqui- notas parentéticas (do tipo autor-data), cada qual sa (artigo, tese, dissertação, monografia ou mesmo com suas regras; no entanto, cada programa ou uni- relatório de pesquisa) é muito importante. É a "cara" versidade geralmente define a opção que os estudan- do seu trabalho. A pesquisa pode ter sido bem fei- tes deverão adotar. ta, mas isso não é suficiente. É preciso que ela seja bem apresentada, escrita de forma correta, elegante e precisa e, se possível, de forma atraente e agradável 14 Ver Apêndice II. ao leitor. 80 81Aqui são expostas algumas dicas que podem ser Envie para o seu orientador apenas versões úteis, sobretudo ao jovem pesquisador. adiantadas dos seus capítulos e seções; nunca mande Adote e atualize periodicamente uma estrutura fichamentos de leitura, transcrições de entrevistas, de capítulos e seções; os títulos e subtítulos devem ser tabulações preliminares de dados ou rascunhos, sal- curtos e objetivos; não devem ser seguidos de pon- vo se ele os solicitar. to; adotar mais de três níveis hierárquicos é abusar Liste resumidamente, no capítulo final, as res- da capacidade do leitor de seguir um raciocínio tão postas dadas ao longo do texto a cada hipótese e às fragmentado. Ademais, seu texto fica parecendo lei, principais perguntas de pesquisa. portaria ou decreto, ou seja, um documento oficial. Discuta, no capítulo final, em sequência, as Abra cada capítulo resumindo ou recapitulan- implicações (a) teóricas, (b) para pesquisas futuras e do o ponto principal estabelecido no capítulo ante- (c) para políticas ou ações públicas ou comunitárias rior e declarando o objetivo principal do novo capí- dos resultados da sua pesquisa. tulo, permitindo a ligação entre eles. resumo (abstract) da sua tese, dissertação, mono- Feche cada capítulo resumindo o seu pon- grafia ou relatório de pesquisa deve focalizar principal- to principal e anunciando o conteúdo do capítulo mente o objeto, os objetivos, os achados, as conclusões seguinte, tentando ligá-los entre si. e as contribuições do estudo; mencionar apenas secun- Quando ambiente do seu programa de pós- dariamente a metodologia, os dados usados e os instru- graduação não for muito competitivo ou confli- mentos de análise adotados. Não colocar no resumo tuoso, circule o seu projeto entre colegas e amigos, descrições de cada capítulo, digressões sobre motivação, pedindo leituras críticas. Ofereça reciprocidade, ou justificativa, relevância, dificuldades, ajudas e apoios seja, leia os projetos dos colegas. recebidos etc. Esses pontos todos pertencem aos agrade- Da mesma forma, circule versões preliminares cimentos, à introdução ou ao primeiro capítulo. de seus capítulos entre colegas e amigos, pedindo Sobre o uso de amostras leituras críticas, e ofereça-se para fazer o mesmo. Crie, com os seus colegas de turma ou de progra- É muito comum que o pesquisador necessite de ma, um grupo de debate sobre suas teses, dissertações e uma amostra para comprovar, demonstrar ou ilus- trar seu problema ou objeto de pesquisa. Muito cui- monografias; pode ser virtual ou mesmo presencial. dado com a escolha da amostra. Ela depende, em 82 83primeiro lugar, do seu objeto de pesquisa. Para cada caso, são definidos critérios a serem observados na objeto ou problema de pesquisa uma amostra é mais escolha dos componentes da amostra. Por exemplo, ou menos adequada. na formação de grupos focais para auferir a intenção Caso você queira demonstrar o percentual de eleitoral de um determinado universo, candidatos pessoas que pensam de uma determinada forma, não podem participar dos grupos, assim como espe- o montante de peixes de determinada espécie em cialistas de comunicação envolvidos em campanhas, um determinado lago ou o índice de incidência de e assim por diante. Os critérios mudam segundo a um determinado fenômeno, deve buscar, necessa- finalidade da amostra intencional, mas devem ser riamente, uma amostra estatística. Este é um tipo obedecidos rigorosamente. de amostra construída de forma a permitir que os Há uma farta literatura especializada na escolha resultados alcançados possam ser extrapolados para e construção de amostras e muitos especialistas que o conjunto do universo. Há muitos tipos de amos- podem ajudar o pesquisador a definir corretamente tras estatísticas. princípio geral da amostra é que a amostra de sua pesquisa, quando for necessário. seus componentes ou membros sejam representa- É fundamental não confundir os dois tipos tivos de um determinado universo. Cada partici- de amostra. A amostra intencional não permite pante desse universo deve ter as mesmas chances de generalizações sobre o universo, ao contrário da integrar a amostra. Se o pesquisador não tem uma amostra estatística. Por isso mesmo é equivoca- formação em estatística, o melhor é consultar um do querer apresentar com dados estatísticos resul- manual e discutir sua questão ou problema com um tados de amostras intencionais. No entanto, esse especialista, para que este possa orientá-lo não ape- tipo de erro é comum entre os estudantes inexpe- nas na escolha da amostra, mas na sua construção. rientes. Por exemplo: comentar os resultados de Em casos mais complexos, o ideal é que um especia- um pequeno conjunto de entrevistas em forma de lista identifique e construa a amostra para você. Não percentuais. Em 18 entrevistas não tem nenhum improvise, nem faça de forma amadora aquilo que sentido dizer que 15% pensam de um jeito e 35% exige um trabalho profissional. de outro. Há casos, no entanto, em que o seu objeto exi- ge não uma amostra estatística, mas uma amostra A escolha das fontes de informações intencional. No uso da técnica de grupos focais, é Não há pesquisa sem informações ou dados. Eles muito comum o uso deste tipo de amostra, que é construída de maneira distinta da anterior. Neste precisam ser coletados, analisados e interpretados. 84 85trabalho de coleta de informações não é banal. veis por intermédio de outros. Por exemplo, resul- É preciso conhecer as fontes, e saber como consul- tados de cruzamentos e outros procedimentos estatís- tá-las. ticos com dados do IBGE ou outras fontes primárias. De forma simples, as fontes podem ser escritas, Outro exemplo são resultados de pesquisas ou os orais ou materiais. jornais. No caso particular dos jornais, é preciso mui- As fontes materiais são as plantas, animais, to cuidado, pois como as informações são coletadas as pedras, os recursos hídricos, corpo humano, e divulgadas por outros, e de forma muito rápida, átomos, as moléculas, e assim por diante. Depen- podem ocorrer imprecisões e erros sobre quais não dendo do estudo que se esteja realizando, eles são temos controle. Em geral as fontes secundárias devem coletados de formas precisas e analisados em labora- ser sempre usadas com muita atenção. tórios, com instrumentos especiais. Podem ser obje- Em todo caso, as informações e dados coletados tos da natureza ou artefatos humanos, fundamen- devem ser sempre examinados e comparados para tais nos estudos arqueológicos ou na paleontologia reduzir as margens de erro que a pesquisa em geral humana. contém. As fontes escritas são os documentos escritos em geral, recentes ou não. Podem ser revistas, livros, car- uso de ferramentas na pesquisa tas, jornais, enfim, qualquer material escrito, inclu- O pesquisador tem hoje muitos recursos para sive sobre pedras. elaborar sua pesquisa e redigir seu trabalho. Muito As fontes orais são os homens e mulheres, sejam mais do que imagina. eles indivíduos ou grupos, a quem interrogamos Há trinta anos, os doutorandos escreviam suas sobre o objeto de nossa pesquisa, por meio de ques- teses em máquinas de escrever. Não existia a Inter- tionários, entrevistas ou em grupos focais. net, com todos os seus recursos. As informações hoje Uma distinção relevante refere-se à natureza das são disponíveis em número imensamente superior, fontes. De forma simples, pode-se afirmar que exis- se comparado a um passado não muito distante, por tem fontes primárias e secundárias. Os dados primá- exemplo, a década de 1980. rios são aqueles que provêm diretamente da fonte, Além disso, muitas ferramentas novas foram sem intermediários. Por exemplo, a correspondência criadas em função do próprio desenvolvimento da de uma pessoa, os dados estatísticos coletados por um pesquisa e da informática. instituto especializado como o IBGE. Outras fontes Hoje os pesquisadores têm a seu dispor ferra- são secundárias, pois elas nos chegam ou são acessí- mentas de tratamento estatístico poderosas. Escolha 86 87um desses programas disponíveis em sua universida- Sobre a restituição de resultados de de ou instituto de pesquisa e aprenda a manejá-lo. pesquisa O tempo que você vai perder na aprendizagem será muito compensado posteriormente. Por exemplo, Esta é uma prática cada vez mais usual em se você dominar o SPSS (Statistical Package for the estudos baseados em pesquisas de campo junto a Social Sciences), poderá trabalhar com seus dados populações locais ou instituições. Nesse caso, há originais de forma a produzir muitos dados novos e que se considerar que, de certa forma, os resul- interessantes. tados devem também ser creditados a eles. Isso Caso você trabalhe com pesquisa qualitativa não significa que a responsabilidade pelo traba- (entrevistas, por exemplo), será muito interessante lho deva ser partilhada. Mas é de bom-tom ins- dominar algum dos programas disponíveis, como o crever (mesmo que em rodapé) os agradecimentos InVivos, para organizar seus dados e facilitar assim o aos que colaboraram e restituir resultados aos trabalho de análise e interpretação. mesmos. Essa prática, eticamente recomendável, Instrumentos de georeferenciamento são cada pode se dar simplesmente pelo envio de cópia do vez mais importantes e, em algumas pesquisas, em trabalho (sobretudo quando se trata de institui- que você precise comparar mudanças territoriais, ções capazes de decodificar o seu conteúdo) ou por exemplo, são essenciais. Mesmo se você não for por uma apresentação oral formal e acessível (por geógrafo, e necessitar fazer identificações e com- exemplo, uma reunião ou palestra com membros parações espaciais, será essencial que você dedique da comunidade pesquisada) feita pelo próprio um bom tempo para compreender e, se possível, pesquisador. usar corretamente OS programas específicos dessa área. Sobre autorizações especiais de pesquisa¹⁵ Enfim, são inúmeros os instrumentos e ferra- Algumas atividades de pesquisa estão sujeitas a mentas que podem contribuir para facilitar seu tra- autorizações formais por parte de organismos gover- balho de coleta, análise e interpretação de dados e namentais. É o caso: que merecem ser aprendidos. Aproveite sua especia- do acesso ao patrimônio genético e ao conhe- lização, mestrado ou doutorado para aprender algu- cimento tradicional (a cargo do CGEN Conselho mas dessas ferramentas, que serão úteis para sua pes- do Patrimônio Genético); quisa atual e futura. 15 Fonte: =222&idConteudo=9080&idMenu=9830 (acesso em 12/11/2009). 88 89do ingresso em terras indígenas (a cargo da Fu- manter o foco numa questão central. No entanto, nai Fundação Nacional do Índio); notas excessivas e/ou enormes são prejudiciais mes- do ingresso de estrangeiros para coleta de da- mo em livros, teses e dissertações. Para controlar a dos no País (a cargo do MCT/CNPq Ministério incidência de notas de rodapé nessas produções de da Ciência e da Tecnologia, Conselho Nacional de maior fôlego, siga estas regras: Desenvolvimento Científico e Tecnológico); e o que for crucial deve constar no texto; da coleta de espécimes de fauna e flora e da o que for supérfluo não merece estar nem no pesquisa em unidades de conservação (a cargo do rodapé; Ibama Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e o que for acessório, mas não de leitura necessá- dos OEMAs órgãos estaduais de meio ambiente). ria ao entendimento do texto, pode ser apresentado em box ou mesmo como anexo. Em todos esses casos é necessária a solicitação de autorização especial. Enfim, são procedimen- Assim você limita o número e tamanho das tos necessários para os quais se recomenda mui- notas de rodapé, ajudando o texto a se manter foca- ta atenção, pois seu descumprimento representa lizado e fluente. transgressão a normas vigentes e risco de even- tuais constrangimentos quando da publicação Sobre os boxes de texto dos resultados de pesquisa. A tramitação de tais O box é um recurso aplicável essencialmente a solicitações pode ser lenta, e por isso elas devem textos mais longos, pois seu uso em artigos impli- ser encaminhadas com a maior antecedência pos- ca necessariamente violar a já mencionada regra de sível. concisão. Sempre que houver um caso, um conceito, uma notícia ou um aspecto curioso que pode somar Sobre notas de rodapé ao conteúdo do texto, mas cuja leitura não é crucial, Nos textos mais longos ou densos ocorre a ten- é recomendado usar boxes de texto. tação e mesmo a necessidade de se recorrer a notas de rodapé para melhor explicar certos pontos do Sobre a temporalidade texto ou estabelecer conexão com outros textos e Evite o tempo relativo, como "atualmente", autores relevantes. Às vezes isso leva a notas nume- "hoje em dia", "no ano passado", recente tsuna- rosas ou gigantescas. Isso é altamente prejudicial mi", "o atual governo". a artigos, por exemplo, que precisam ser curtos e 90 91Diferentemente da mídia, que divulga notícias é importante que você apresente uma boa tradução que logo se tornam perecíveis, um texto científico do seu resumo para o inglês (e, quando for o caso, deve visar uma longa duração. Por isso, use o tem- outros idiomas). Só assim o seu trabalho será nota- po datado: "no ano 2000", "o furação de maio de do e, quem sabe, consultado por leitores de outros 2008", "no governo Lula". países. Mas, atenção: uma má tradução pode ter efeito oposto, dando a impressão de pouco cuida- Sobre risco de usar sites do tipo do. mesmo raciocínio é válido para as palavras- Wikipédia chaves. É grande a tentação de usar páginas da Internet como a Wikipédia, similares e derivados. Afinal, esta ferramenta mais parece a biblioteca de Alexan- dria: tudo o que queremos saber está lá. Contudo, muita atenção: existem riscos de erros e imprecisões. Por ser um mecanismo aberto ao público, cada um pode escrever e alterar conteúdos a seu bel-prazer, de boa ou má-fé, com maior ou menor competên- cia e seriedade. É certo que existe um comitê gestor que filtra aberrações, mas existe considerável mar- gem para falhas e mesmo manipulações. Por isso, evite. Se for indispensável, por razões de tempo e praticidade, recorrer a algum Wiki (por exemplo, para confirmar a grafia de um nome ou uma data), faça-o na versão em inglês, que por ser a mais usada é também a mais segura. Persistindo dúvidas quan- to ao verbete do Wiki, consulte outras fontes. Sobre abstract Trabalhos publicados em português só são aces- síveis a quem conhece a língua portuguesa. Por isso, 92 935 VÍCIOS DE EXPRESSÃO E DE ESCRITA de a EXTREMAMENTE Um texto científico não deve ser apresentado de IMPORTANTE !! forma coloquial, embora não deva também ser her- mético, mal escrito e de difícil compreensão. Alguns cacoetes e erros, embora comuns, devem ser banidos do texto. Exemplos comuns: A nível de deve ser substituído por em, ao ou no nível de. Através, quando não se está referindo a atra- vessar, deve ser substituído por mediante, por meio de, por intermédio de. uso frequente de importância extrema ou extremamente importante para qualificar várias coisas, pessoas ou fatos no mesmo texto acaba diluindo a importância argumentada pelo autor; se tudo for extremo, nada é extremo; essas expressões devem ser usadas para qualificar uma única coisa, pessoa ou fato. Preste atenção às expressões importadas, por exemplo: face a não é da língua portuguesa; use em face de. 95presente texto irá tratar de...": se o tex- usar uma forma mais impessoal. Assim, não use "eu to já foi escrito (e não é apenas um projeto), então constatei que..." e, se possível, evite o cons- o adequado é presente texto trata...". Aliás, se tatamos que...". Na medida do possível, prefira você usa presente texto...", então é ainda mais "constatou-se que...". inadequado usar o tempo futuro. Se você usar "assim sendo" ou "em outras que" pode parecer certo de palavras", repare se você não está apenas repetindo tanto você ouvir na mídia falada e em sala de aula. a ideia exposta anteriormente. Em geral, está. Mas, está errado. Use "é evidente que" ou "evi- Um parágrafo deve exprimir um raciocínio, uma ideia, um assunto, dentro de um texto mais "A metodologia que se utilizou neste tex- longo, que trata necessariamente de vários raciocí- to..."fica bem melhor assim: "a metodologia utili- nios, várias ideias e vários assuntos. Se o seu pará- zada neste texto...". Da mesma forma, "a metodo- grafo tiver apenas uma sentença e, sobretudo, se logia a ser utilizada..."; se você já fez o artigo, então parágrafos de uma só sentença forem recorrentes use: "a metodologia utilizada...". no seu texto -, geralmente você está fragmentan- Sempre que você usar "o qual", tente substi- do demasiadamente o fluxo da sua exposição e tuir por "que". Quase sempre fica melhor. enfraquecendo o seu texto. Use várias sentenças Ao invés de "utilizando-se de dados...", prefi- na construção dos seus parágrafos, até concluir dados" ou "com uso de dados". a exposição daquele ponto particular, e só então No lugar de "o texto constitui-se em...", use mude de parágrafo. "o texto constitui..." ou "o texto é...". Por outro lado, se os seus parágrafos forem Cuidado com o tempo verbal adotado. Alguns sempre grandes, com mais de dez sentenças, você costumam passar do presente ao passado, e vice-versa, geralmente está desenvolvendo mais de um racio- de forma instável, deixando o leitor confuso. Escolha cínio, ou expondo mais de uma ideia, tratando de um tempo verbal e aplique-o ao longo de todo o texto mais de um assunto ao mesmo tempo. Tente ser ou de todo o trecho pertinente; mude de tempo ver- mais sucinto e objetivo em cada parágrafo. Quan- bal apenas quando for indispensável. do tiver escrito um parágrafo muito grande, reve- ja-o para identificar onde você concluiu a primeira Cuidado com o uso do pronome pessoal. Não argumentação, explicação, descrição ou comentário. use eu e evite o nós quando possível. melhor é 96 97