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1 61 1 Prof. Marcos Baroncini Proença Fenômenos de Transporte Aula 1 61 2 Conversa Inicial 61 3 Nesta aula, vamos tratar de conceitos fundamentais como definições de massa específica, viscosidade dinâmica e cinemática, sistemas de medidas, conversões de unidades e equações fundamentais com suas aplicações, todos voltados ao uso em mecânica dos fluidos, para que você tenha as ferramentas e os conceitos necessários para uso no decorrer desta disciplina e futuramente aplicar na vida profissional 61 4 Mecânica dos fluidos Definições e conceitos importantes para a mecânica dos fluidos Experimento de Reynolds Unidades e sistemas de unidades Ordem de grandezas e conversão de unidades Temas abordados 61 5 Mecânica dos fluidos 61 6 De uma forma básica, a mecânica dos fluidos pode ser definida como o estudo de fluidos em movimento ou parados Mas, além disso, a mecânica dos fluidos estuda o resultado de forças aplicadas a fluidos e também o resultado de forças exercidas por fluidos no seu entorno, estejam eles em movimento ou parados Definição 1 2 3 4 5 6 2 61 7 A primeira aplicação de mecânica dos fluidos remonta a 6.000 a.C., no Egito e na Mesopotâmia, onde águas de enchente dos rios Nilo, Tigre e Eufrates foram desviadas para campos de cultivo por até dois meses e depois foram drenadas de volta aos rios para a colheita matrioshka/SHUTTERSTOCK 61 8 No século XV, foram iniciados os estudos precursores da mecânica dos fluidos, com Leonardo da Vinci Aplicando o princípio de conservação das massas, estudou um rio nos arredores de Florença Concluiu que em regiões onde a área da seção transversal ao escoamento diminuía, em um fator de quatro vezes, a velocidade aumentava no fator de quatro vezes Evolução da mecânica dos fluidos Jakub Krechowicz/SHUTTERSTOCK 61 9 No século XVII, Galileu Galilei fez experimentos de mecânica dos fluidos envolvendo a queda de corpos e o movimento do pêndulo, constatando que a resistência aerodinâmica é diretamente proporcional à massa específica do fluido Justus Sustermans-CC/PD 61 10 Ainda no século XVII, Isaac Newton contribuiria fortemente com a mecânica dos fluidos por meio da sua segunda lei, que relaciona a força aplicada com a taxa da variação da quantidade de movimento para um corpo em movimento Foi dele a primeira dedução teórica da equação do arrasto Elaborou a Lei de Newton para a relação tensão/deformação de um fluido Godfrey Kneller-CC/PD 61 11 No século XVIII, Daniel Bernoulli publicou um dos mais importantes livros da mecânica dos fluidos, intitulado Hydrodynamica, termo que ele mesmo criou Sua principal contribuição foi estabelecer relação entre a variação da pressão e a velocidade de escoamento Bumann/ADOBE STOCK 61 12 Ainda no século XVIII, Leonard Euler estabeleceu o conceito de que a pressão era uma propriedade local, podendo variar de ponto a ponto, e que poderia ser obtida pela equação diferencial que relacionava a pressão com a velocidade de escoamento 7 8 9 10 11 12 3 61 13 Em suas três publicações: Principles of the motion of fluids (1752), General principles of the state of equilibrium of fluids (1752) e General principles of the motion of fluids (1755), apresentou os equacionamentos para fluidos compressíveis e incompressíveis Prachaya Roekdeethaweesab/SHUTTERSTOCK 61 14 No século XIX, Claude Louis Marie Henri Navier apresentou, mais especificamente em 1822, no livro intitulado Mémoire sur les lois du mouvement des fluids, as primeiras deduções das equações do movimento dos fluidos CC/PD 61 15 Ainda no século XIX, Adhémar Jean Claude Barré de Saint Venant, no trabalho publicado em 1843 intitulado Note à joindre um mémoire sur la dynamique des fluids, corrigiu a premissa de Navier Estabeleceu ainda que as tensões viscosas que atuam sobre um fluido são resultantes da força de atrito CC/PD 61 16 Ainda no século XIX, no ano de 1845, George Gabriel Stockes publicou o seu principal trabalho intitulado On the theory of internal friction of fluids in motion, em que usou conceitos de continuidade para justificar as mesmas equações de movimento para sólidos elásticos e fluidos viscosos CC/PD 61 17 Quase no século XX, Osborne Reynolds deixou uma de suas mais importantes contribuições para a mecânica dos fluidos John Collier-CC/PD 61 18 Primeiro, no artigo publicado em 1883, intitulado An experimental investigation of the circumstances wich determine whether the motion of wather in parallel channels shall be direct or sinuous and the law of resistance in parallel channels Posteriormente, em 1895, no artigo intitulado On the dynamical theory of incompressible viscous fluids and the determination of the criterion, com o qual introduziu o mais importante grupo adimensional da mecânica dos fluidos, chamado em sua homenagem de Número de Reynolds 13 14 15 16 17 18 4 61 19 Definições e conceitos importantes para a mecânica dos fluidos 61 20 Massa específica é a massa presente em um determinado volume de fluido. É, por análise dimensional, representada da seguinte forma � = � �� Em que ρ é a massa específica, M representa a massa do fluido e L³ representa o volume ocupado pelo fluido Propriedades físicas dos fluidos 61 21 Densidade, representada por D, é a relação a determinada temperatura, entre a massa específica de um fluido e a massa específica do fluido padrão, sendo que o fluido padrão para os líquidos é a água e o fluido padrão para os gases é o ar. Por análise dimensional temos a densidade como � = ������� �����ã� 61 22 Volume específico é o volume ocupado por determinada massa de fluido, sendo representado na equação da análise dimensional como � = �� � Observe pela equação de análise dimensional que o volume específico é o inverso da massa específica � = � � 61 23 Tensão de cisalhamento, ou tensão de corte, é a tensão resultante de forças aplicadas em uma área superficial, em direções paralelas, podendo ser no mesmo sentido ou em sentidos opostos, porém com intensidades diferentes A tensão de cisalhamento fica representada em equação de análise dimensional, como segue � = � �� Fonte: Proença, 2021 61 24 Viscosidade dinâmica é a relação de proporcionalidade entre a tensão de cisalhamento e a taxa de deformação, a qual pode ser expressa por análise dimensional como � = � �� ��� = � �� � �� � = � ��. � � = �.� �� Ou � = � �.�� � � = �.� �.�� = � �.� 19 20 21 22 23 24 5 61 25 A viscosidade cinemática define a vazão de um fluido em uma distância de deslocamento definida, podendo por análise dimensional ser representada como � = �� � � � = �� � 61 26 Podemos novamente representar a viscosidade cinemática por análise dimensional, porém, agora em função da viscosidade dinâmica e da massa específica, para fluidos newtonianos como � = � �.� � �� = �.�� �.�.� = �� � 61 27 Fluidos newtonianos são aqueles para os quais a tensão de cisalhamento é diretamente proporcional à taxa de deformação Já os fluidos não newtonianos, por analogia, são aqueles para os quais a tensão de cisalhamento não é diretamente proporcional à taxa de deformação Definições dos escoamentos e processos 61 28 Fluido ideal é aquele cuja viscosidade dinâmica e, consequentemente, também a viscosidade cinemática, é nula Ou seja, aquele que escoa em um duto sem qualquer perda de energia por atrito Também é contínuo, ou seja, não apresenta espaços vazios dentro dele E é homogêneo, ou seja, apresenta as mesmas propriedades, destacadamente a massa específica, além da mesma composição química, em toda sua extensão 61 29 O escoamento incompressível é aquele que se caracteriza por ter variação da massa específica desprezível ao longo dele Assim, para este escoamentoo fluido deve ser incompressível, ou seja, deve ser um fluido cuja variação do volume com a variação da pressão no escoamento seja desprezível, mantendo assim praticamente inalterada a sua massa específica Os fluidos líquidos normalmente apresentam caraterísticas muito próximas dessas, sendo considerados incompressíveis 61 30 O escoamento ao longo do qual ocorre a variação da massa específica é o escoamento compressível Para este escoamento, o fluido deve ser compressível, ou seja, um fluido que apresenta variação do volume com a pressão no escoamento, tendo, assim, alteração na sua massa específica Os fluidos gasosos normalmente apresentam esta característica, embora para algumas condições de escoamento se comportem como fluidos incompressíveis também 25 26 27 28 29 30 6 61 31 Em dutos sem qualquer rugosidade, mesmo para fluidos viscosos, não haverá a força de atrito e consequentemente todos os valores escalares do vetor velocidade permanecerão os mesmos de antes do fluido entrar no duto, chamados vetores escalares de corrente livre, sem qualquer alteração, gerando um perfil de escoamento retangular Neste caso, teremos o que se chama de escoamento uniforme do fluido Fonte: Proença, 2021 61 32 Em dutos com rugosidade, teremos as tensões de cisalhamento entre as várias camadas, sendo que a camada em contato com o sólido irá retardar o escoamento da camada acima e assim subsequentemente, até que se atinja uma camada com valor escalar do vetor velocidade igual ao do escoamento de corrente livre, gerando valores escalares do vetor velocidade diferentes sobrepostos, resultando em um perfil de escoamento parabólico 61 33 Neste caso teremos um escoamento chamado de não uniforme ScientificStock/SHUTTERSTOCK 61 34 O perfil de escoamento variará de um perfil de entrada para um de transição e finalmente o plenamente desenvolvido A maioria das análises de escoamento são feitas para o perfil plenamente desenvolvido Fonte: Proença, 2021 61 35 Perfil de escoamento de entrada (a), de transição (b) e plenamente desenvolvido (c) Fonte: Proença, 2021 61 36 Camada limite é a região superficial definida pela distância no eixo y a partir do contato com a superfície do tubo e pela distância em x a partir da entrada do fluido no duto, para a qual o valor do componente escalar da velocidade atinge 99% do valor do componente escalar do vetor velocidade da corrente livre, ou seja �� = 0,99 .�� 31 32 33 34 35 36 7 61 37 Em que u∞ = componente escalar da velocidade da camada limite u0 = componente escalar da velocidade da corrente livre Fonte: Proença, 2021 61 38 O escoamento laminar é aquele no qual, para escoamentos viscosos não uniformes, desde a região de entrada no duto até ficar plenamente desenvolvido, cada camada do fluido (chamada lâmina) desliza sobre a outra sem que haja qualquer agitação, de forma que não haverá mistura entre as camadas 61 39 O escoamento turbulento é aquele no qual, para escoamentos viscosos não uniformes, desde a região de entrada no duto até ficar plenamente desenvolvido, cada camada do fluido escoa randomicamente em diversas direções, devido à agitação provocada por diversos valores do componente escalar da velocidade nas diversas direções do espaço, de forma que haverá mistura entre as camadas ScientificStock/SHUTTERSTOCK 61 40 Experimento de Reynolds 61 41 Em 1883, Osborne Reynolds apresentou para a comunidade científica um experimento que mostrou a existência de dois tipos de escoamento, sendo que no primeiro tipo as camadas do fluido seguem ao longo de linhas de movimento que se deslocam de forma direta ao longo do tubo e, no segundo tipo, as camadas do fluido se movem em trajetórias sinuosas da forma menos direta possível Identificou, assim, o escoamento laminar e o escoamento turbulento 61 42 Osborne Reynolds/CC/PD 37 38 39 40 41 42 8 61 43 Ao aprofundar seus estudos sobre esta região de transição, concluiu que havia um parâmetro adimensional que serviria de critério para estabelecer se um regime de escoamento viscoso seria laminar ou turbulento, pela razão entre forças de inércia e viscosas Este parâmetro, posteriormente, recebeu o nome de número de Reynolds em sua homenagem Para escoamento em tubos, o número de Reynolds é obtido por �� = �.��.� � �� �� = ��.� � 61 44 No geral, podemos assumir que escoamentos viscosos são laminares quando têm o �� ≤ 2300 Quando têm �� ≥ 4000, podemos assumir que são turbulentos Quando tiverem valores intermediários aos citados, poderemos assumir que estão na região de transição 2.300 < Re < 4.000 61 45 Para a camada limite, a velocidade será relativa ao componente escalar da velocidade da corrente livre (u∞) e o comprimento será a distância em x percorrida da entrada até o escoamento atingir o perfil plenamente desenvolvido Assim �� = �.�� .� � Ao longo do duto, para Re < 5. 105, o escoamento na camada limite será laminar Para Re > 5.105 o escoamento na camada limite será turbulento 61 46 Unidades e sistemas de unidades 61 47 Nas indústrias, as unidades mais usuais são no SI (Sistema Internacional de Medidas) e no EE (Sistema Inglês de Engenharia) Unidades 61 48 Adimensional Sistema Internacional de Medidas (SI) Sistema Inglês de Engenharia (EE) L m (metro) ft (pés) Adimensional Sistema Internacional (SI) Sistema Inglês de Engenharia (EE) M kg (quilograma) lbm (libra massa) Adimensional Sistema Internacional (SI) Sistema Inglês de Engenharia (EE) F N (Newton) lbf (libra força) Adimensional Sistema Internacional (SI) Sistema Inglês de Engenharia (EE) t s (segundo) s (second) Adimensional Sistema Internacional (SI) Sistema Inglês de Engenharia (EE) T K (Kelvin) R (Rankine) 43 44 45 46 47 48 9 61 49 Sistemas de unidades representam as maneiras que foram utilizadas para medir cada dimensão primária dimensional Os sistemas de unidades mais comuns são o Sistema Métrico Absoluto, o Sistema Internacional de Medidas (SI), o Sistema Gravitacional Britânico e o Sistema Inglês de Engenharia (EE) Sistemas de unidades 61 50 O Sistema Métrico Absoluto foi criado em 1790, em plena Revolução Francesa, para padronizar as medidas, que até então eram definidas e controladas pela nobreza, de forma que não fossem susceptíveis à corrupção Assim, este sistema foi criado tendo base decimal e definindo referenciais que não se alterariam como antes, como por exemplo 1 grama sendo a unidade de massa de 1 cm3 de água a 4 °C Dimensão L M F t T Unidade cm (centímetro) g (grama) dina = g.cm/s2 s (segundos) K (Kelvin) 61 51 O Sistema Internacional de Medidas (SI) é uma otimização do Sistema Métrico Absoluto, tendo sido desenvolvido em 1960 para corrigir algumas distorções que este último permitia que acontecessem. Uma das mudanças propostas, visando a aplicação comercial das unidades, foi passar da base cm – g - s, para a base kg – m – s 61 52 Também adotou padrões com menos variação para as medidas Por exemplo, 1 quilograma deixou de ser a massa de 1 litro de água a 4 ºC e passou a ser a massa de um padrão, que é um cilindro de uma liga contendo 90% de platina e 10% de irídio Dimensão L M F t T Unidade m (metro) kg (quilograma) N (Newton) = kg.m/s2 s (segundos) K (Kelvin) 61 53 O Sistema Gravitacional Britânico, também conhecido como Sistema Imperial Britânico, foi definido em uma Carta Magna, em 1215, na qual foram institucionalizados padrões de medidas a partir de medidas estabelecidas na capital da época, que era Winchester Dimensão L M F t T Unidade ft (pés) slug = lbf.s2/ft lbf (libra força) s (segundos) R (Rankine) 61 54 O Sistema Inglês de Engenharia (EE), também conhecido como Sistema Inglês Técnico, é um sistema com padrões mais consistentes que o Sistema GravitacionalBritânico, sendo mais usado principalmente nos Estados Unidos da América Dimensão L M F t T Unidade ft (pés) lbm (libra-massa) lbf (libra-força) s (segundos) R (Rankine) 49 50 51 52 53 54 10 61 55 Ordem de grandezas e conversão de unidades 61 56 É importante conhecer as ordens de grandeza ao menos para as dimensões do SI e do EE No SI Ordem de grandezas 61 57 L 1 km (quilômetro) 1000 m 100000 cm 1000000 mm 10-3km 1 m 100 cm 1000 mm M 1 ton (tonelada) 1000 kg 1000000 g 1000000000 mg 10-3ton 1 kg 1000 g 1000000 mg F 1 GN (Giga Newton) 1000 MN (Mega Newton) 1000000 kN (Quilo Newton) 1000000000 N 10-9 GN 10-6 MN 10-3 kN 1 N 61 58 Para a temperatura, a conversão será pela relação entre a temperatura absoluta (K) para a temperatura usual (ºC), que, antecipando o que veremos mais adiante, quando falarmos em transferência de calor, é feita pela seguinte relação 1 K = oC +273 61 59 Para a temperatura, a conversão será pela relação entre a temperatura em graus Rankine (ºR) para a temperatura usual (ºC), que, antecipando o que veremos mais adiante, quando falarmos em transferência de calor, é feita pela seguinte relação C = �� � ���,�� �,� � Para o EE L 1 mi (milha) 1760 yd (jarda) 5280 ft (pés) 63360 in (polegadas) 18,94.10-4 mi 0,333 yd 1 ft 12 in 61 60 Sempre é necessário trabalhar com um sistema único de unidades, jamais misturando sistemas Para estas conversões, são usadas tabelas como a disponível a seguir Conversão de unidades 55 56 57 58 59 60 11 61 61 Comprimento 1 ft = 0,3048 m 1 in = 25,4 mm Massa 1 lbm = 0,4536 kg 1 slug = 14,59 kg Força 1 lbf = 4,448 N 1 kgf = 9,807 N Velocidade 1 ft/s = 0,3048 m/s 1 ft/s = 15/22 mph 1 mph = 0,447 m/s Pressão 1 psi = 6,895 kPa 1 lbf/ft² = 47,88 Pa 1 atm = 101,3 kPa 1 atm = 14,7 psi 1 in Hg = 3,386 kPa 1 mm Hg = 133,3 Pa Energia 1 Btu = 1,055 kJ 1 ft.lbf = 1,356 J 1 cal = 4,187 J Potência 1 hp = 745,7 W 1 ft.lbf/s = 1,356W 1 Btu/h = 0,2931 W Área 1 ft² = 0,0929 m² 1 acre = 4047 m² Volume 1 ft³ = 0,02832 m³ 1 gal (EUA) = 0,003785 m³ 1 gal (EUA) = 3,785 L Vazão volumétrica 1 ft³/s = 0,02832 m³/s 1 gpm = 6,309x10-sm³/s Viscosidade (dinâmica) 1 lbf.s/ft² = 47,88 N.s/m² 1 g/(cm.s) = 0,1 N.s/m² 1 Poise = 0,1 N.s/m² Viscosidade (cinemática) 1 ft²/s = 0,0929 m²/s 1 Stoke = 0,0001 m²/s 61 62 61 62