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Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 1 | Direito Penal Princípios do Direito Penal Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 2 | 1 Apresentação do Curso Sejam bem-vindos a mais uma aula de Direito Penal! É com prazer que iniciamos mais um capítulo do material PDF FOCADO do Focus Concursos. Apresentaremos conteúdos com normativas atuais, com abordagem bem didática e assertiva para a sua compreensão. Ressaltamos que o PDF FOCADO conta com a produção intelectual das aulas do professor, além das complementações, atualizações e revisões elaboradas pela nossa equipe Pedagógica do Focus Concursos. A respeito das complementações, frisamos que, este material pode conter informações além das trabalhadas em videoaulas. Mas, claro, com tudo que é necessário para a sua aprovação, com a profundidade necessária – nem mais, nem menos. Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 3 | 2 Conteúdo Programático 1 Apresentação do Curso ........................................................................................................ 2 3 Dos princípios do Direito Penal ............................................................................................. 4 3.1 Princípio da Legalidade. .............................................................................................................. 4 3.2 Princípio da insignificância. ......................................................................................................... 9 3.3 Princípio da alteridade .............................................................................................................. 10 3.4 Princípio da adequação social .................................................................................................... 11 3.5 Princípio da ofensividade .......................................................................................................... 11 3.6 Princípio da intervenção mínima ............................................................................................... 12 3.7 Princípio da proporcionalidade .................................................................................................. 13 3.8 Princípio do ne bis in idem. ........................................................................................................ 14 3.9 Princípio da humanidade........................................................................................................... 15 3.10 Princípio da exclusiva proteção de bens jurídicos. .................................................................. 15 3.11 Princípio da imputação pessoal. ............................................................................................ 16 3.12 Princípio da responsabilidade pelo fato. ................................................................................ 16 3.13 Princípio da personalidade ou da intranscendência ............................................................... 16 3.14 Princípio da responsabilidade penal subjetiva ....................................................................... 16 3.15 Princípio da individualização da pena. ................................................................................... 17 Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 4 | 3 Dos princípios do Direito Penal 3.1 Princípio da Legalidade. Então, para darmos início ao nosso estudo, precisamos nos debruçar sobre os princípios que direcionam a interpretação e aplicação de todas disposições do direito penal. A nossa Constituição Federal, no seu art. 5º, inciso XXXIX, define o princípio da legalidade: Art. 5º [...] XXXIX – “Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”. Assim, a primeira informação que devemos guardar e que será importantíssima para o seu concurso é que não há possibilidade de existir um crime sem que haja uma lei anterior que o regule. Ocorre que o artigo 1º do Código Penal repetiu o comando constitucional da seguinte maneira: Anterioridade da Lei Art. 1º - Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal. Assim, o princípio da legalidade tem o objetivo de garantir segurança jurídica a todos (eu, você, seus familiares e quem você possa imaginar nesse momento). Ou seja, a segurança jurídica diz respeito ao encaixe perfeito de uma conduta realizada no mundo exterior (fato) e o tipo penal (artigo do Código Penal que incrimina essa conduta realizada no mundo exterior – fato). Imagine a seguinte situação: Austin desfere dois tiros em Dallas e esse, por sua vez, acaba morrendo por conta dos disparos. A atitude de Austin em desferir dois tiros em Dallas e matá-lo é o nosso fato (realização de uma conduta no mundo exterior). Dessa forma, Austin responderá pelo crime de homicídio, do art. 1211, do Código Penal (que protege a vida), por sua conduta (matar alguém), se amoldar perfeitamente a redação 1 Art. 121. Matar alguém: Pena - reclusão, de seis a vinte anos. Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 5 | do referido artigo. O princípio da legalidade, por sua vez, possui algumas subdivisões. Vejamos cada uma delas: Ao analisarmos esse esquema, notamos que o princípio da legalidade se subdivide em: anterioridade, taxatividade e reserva legal. Saber essas subdivisões é muito importante para o seu estudo, mas não se preocupe, pois cada um deles será objeto de estudo a partir de agora. Reserva legal. Meu amigo, a reserva legal é um dos desdobramentos do princípio da legalidade e representa a exigência de lei no sentido formal para a criação de crimes no mundo jurídico, razão pela qual, costumes, por exemplo, não podem ser utilizados como fontes de criação ou agravamento de infrações penais (conforme visualizamos anteriormente). Assim, para que possamos falar em crimes no ordenamento jurídico, somente leis complementares ou leis ordinárias são aptas a criminalizarem condutas, ou seja, a tornar determinado fato do mundo real, uma conduta criminosa. Vamos a mais um exemplo! Você provavelmente deve ter tomado conhecimento através da mídia acerca de criminosos que ejaculavam em mulheres no interior dos transportes públicos no Estado de São Paulo. Ocorre que, no período em que essas práticas (infelizmente) se tornaram corriqueiras, não havia no Código Penal nenhuma norma que incriminasse o indivíduo por tal fato, mas apenas a contravenção penal de perturbação da tranquilidade. Dessa forma, o legislador ciente da gravidade dos fatos, editou a Lei n.º 13.718/18, criando o crime de importunação sexual, previsto no art. 215-A do Código Penal. Assim, passou-se a criminalizar, através de lei em sentido formal, um fato que acontecia no mundo real e que não havia previsão legal para punição. Princípio da Legalidade Reserva Legal Anterioridade Taxatividade Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 6 | A lei penal deve ser exclusivamente federal, por força do art. 22, I, da Constituição Federal. Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho; Quero que você fique atento a outra situação. Agora eu lhe faço uma pergunta: Você acha que é possível Medida Provisória regular matéria que envolve direito penal? Responda de uma maneira franca para você mesmo! Respondeu? Pois bem, a resposta não é positiva e nem negativa nesse momento. Agora a resposta é DEPENDE! Explico-lhes! A medida provisória, conforme o artigo 62 da Constituição Federal é um ato do Presidente da República que, em situação de relevância e urgência, poderá editar MP, com força de lei, devendo submetê-la de imediato ao Congresso Nacional. Entretanto, o parágrafo §1º, alínea “b”do art. 62 da Constituição Federal diz que é vedada a edição de medida provisória sobre matéria relativa a direito penal. Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional § 1º É vedada a edição de medidas provisórias sobre matéria: I - relativa a: b) direito penal, processual penal e processual civil; Entretanto, é possível Medida Provisória regular matéria BENÉFICA em direito penal, e isso já aconteceu no Brasil, com o art. 32 do Estatuto do Desarmamento (Lei nº. 10.826/03) que trata do instituto da entrega espontânea de arma de fogo, tornando isso uma causa extintiva da punibilidade. Então, meu amigo, quando você for questionado acerca do uso de MP em direito penal, a resposta é depende, pois caso seja para piorar a situação do agente criminoso, é vedado, entretanto, se for para beneficiar, é possível o seu uso. Superada essa primeira parte, outro ponto importante que você precisa ter o pleno conhecimento é o instituto da analogia. Anterioridade. Meu amigo, minha amiga! Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 7 | A anterioridade é mais um dos desdobramentos do princípio da legalidade. Sendo assim, para que possamos punir alguém pela prática de um crime, a lei penal deve ser anterior à conduta do agente. Em outras palavras, a lei deve estar vigendo no ordenamento jurídico antes da prática da conduta pelo criminoso. Que tal recordarmos o exemplo dado anteriormente acerca da importunação sexual? Dessa forma, ficará fácil de você compreender! Você provavelmente deve ter tomado conhecimento através da mídia acerca de criminosos que ejaculavam em mulheres no interior dos transportes públicos no Estado de São Paulo. Ocorre que, no período em que essas práticas (infelizmente) se tornaram corriqueiras, não havia no Código Penal nenhuma norma que incriminasse o indivíduo por tal fato, mas apenas a contravenção penal de perturbação da tranquilidade. Dessa forma, o legislador ciente da gravidade dos fatos, editou a Lei n.º 13.718/18, criando o crime de importunação sexual, previsto no art. 215-A do Código Penal. Assim, passou-se a criminalizar, através de lei em sentido formal, um fato que acontecia no mundo real e que não havia anterior previsão legal para punição. Agora, preste atenção! Ao analisarmos o exemplo, com base no que ensinei a vocês sobre o significado do princípio da anterioridade (a lei penal deve ser anterior à conduta do agente), podemos ter a certeza de que o nosso criminoso não poderia ter sido responsabilizado pelo crime de importunação sexual caso tivesse ejaculado nas suas vítimas antes da entrada em vigor da Lei nº. 13,718/18 pois, nesse caso, estamos diante da irretroatividade da lei penal (o que é regra no direito penal). Entretanto, é bom que você saiba que é possível a retroatividade da lei penal benéfica (e isso será objeto de estudo mais adiante). Assim, para encerrarmos os desdobramentos do princípio da legalidade, falta apenas estudarmos a figura da taxatividade. Taxatividade. Por taxatividade, temos a exigência de lei penal com conteúdo (tanto no preceito primário – tópico da lei penal que descreve a conduta – figura típica) e o preceito secundário (tópico da lei que comina a pena – reclusão de tanto a tanto) determinado. O ordenamento jurídico penal veda o empego de tipos penais vagos (cujo conteúdo é indeterminado). Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 8 | Vou dissecar um tipo penal para que você visualize o que é um tipo penal com conteúdo determinado e logo em seguida um tipo penal de conteúdo vago/indeterminado. Homicídio simples (isso é o nome do crime – você pode encontrar em prova a expressão nomem iuris) Art. 121. Matar alguém (esse é nosso preceito primário, que possui conteúdo determinado, que se verifica através do verbo “matar”) Pena - reclusão, de seis a vinte anos (esse é nosso preceito secundário, que possui conteúdo determinado, que se verifica através dos parâmetros numéricos abstratos – pena de 6 a 20 anos). Isso que acabamos de visualizar, você precisa dominar pois, quando lhe for questionado algo sobre o preceito primário ou preceito secundário, você já terá o retrato da figura criminosa em sua mente e saberá como encontrar a resposta para seu teste. Agora, como prometido, disse que mostraria um exemplo do que é vedado pelo direito penal, para que você não se confunda na hora da prova. Se retornarmos ao período da 2ª Guerra Mundial, a Alemanha Nazista, em seu Código Penal, tinha a previsão da seguinte figura criminosa: “Praticar qualquer atentado ao sentimento sadio do povo alemão”. No preceito primário, é notória a ausência de conteúdo de determinado. Fica o questionamento, meu amigo (a), o que poderia ser considerado atentado para ferir o sentimento sadio do povo alemão? “Pena – a ser fixada segundo o prudente arbítrio do juiz criminal”. Aqui, também, não há conteúdo determinado. Que tipos de penas poderiam ser aplicada pelo juiz criminal? Pena de morte, prisão perpétua, trabalhos forçados, banimento? Ou seja, o preceito secundário, assim como o preceito primário são completamente vagos. Então, é esse tipo de situação que se apresentava no Código Penal da Alemanha nazista, e que o legislador brasileiro quer evitar quando nos apresenta o princípio da taxatividade. Entretanto, você não deve confundir tipos penais vagos (que é o exemplo do código penal nazista) com crime vago. O crime vago é aquele em que o sujeito passivo (a vítima do crime – titular do bem jurídico protegido) é um ente sem personalidade jurídica, por exemplo: o crime de tráfico de drogas, previsto no artigo 33 da Lei 11.343/06 tem como sujeito passivo a Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 9 | sociedade, ou seja, um ente sem personalidade, diferentemente do que acontece no crime de homicídio, em que a vítima é uma pessoa individualizada. Também, não quero que você confunda crime vago com tipos penais abertos, então, para isso, vamos diferenciá-los. CRIME VAGO TIPOS PENAIS ABERTOS O sujeito passivo (a vítima do crime – titular do bem jurídico protegido) é um ente sem personalidade jurídica É o que possuí conteúdo amplo, porém, determinado. P.ex. o homicídio culposo do art. 121, §3º, do CP, razão pela qual, a conduta culposa (negligência, imprudência e imperícia) poderá se dar de diversas formas. Dessa forma, vamos dar seguimento ao nosso estudo. 3.2 Princípio da insignificância. Dando seguimento ao nosso estudo, vamos iniciar a abordagem acerca das limitações ao conteúdo dos tipos penais através de outros princípios presentes no direito penal. O mais conhecimento deles, e afirmo sem nenhuma dúvida, o que mais DESPENCA em concurso é o princípio da insignificância. Você deve ter em mente que condutas (fatos criminosos) que produzam lesões insignificantes aos bens jurídicos (vida, patrimônio, honra e etc.) são consideradas atípicas (ou seja, não são consideradas crimes). Sendo assim, quando for aplicado o princípio da insignificância há a presença da atipicidade material (que será objeto de estudo quando tratarmos do conceito analítico de crime). Entretanto, para que possamos verificar no caso concreto a incidência (ou não) do princípio da insignificância, o Supremo Tribunal Federal elencou os quatro vetores abaixo: Ausência de Periculosidade Social Reduzido grau de Reprovabilidade do fato Mínima Ofensividade da conduta Ínfimo grau de Lesão Jurídica. Para que fique mais fácil de você memorizar esses quatro vetores, vou reproduzir o mnemônico “PROL”. Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 10 | Além do “PROL”, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) possui duas súmulas acerca do tema. Para que você se familiarizecom as nomenclaturas, meu caro(a), súmulas são o entendimento consolidado do tribunal depois de ter enfrentado inúmeros casos que versaram sobre determinado tema. Então, dessa forma, o STJ, ao se debruçar inúmeras vezes sobre casos envolvendo o princípio da insignificância, editou três súmulas: STJ, 589 – Não cabe o princípio da insignificância em infrações praticadas mediante violência doméstica ou familiar contra a mulher. STJ, 599 – Não cabe o princípio da insignificância em crimes contra a administração pública. STJ, 606 – Não cabe a insignificância no crime de transmissão clandestina de sinal de internet via radiofrequência. ✓ Insignificância nos crimes materiais contra a ordem tributária: Se o valor do tributo acessório não atinge a cifra de R$20.000,00 (entendimento do STF), não se admite a propositura da ação penal. Aposto que você lembra do Austin. Então, vamos colocá-lo em mais uma situação criminosa para que você entenda o que representa o princípio da insignificância. Imagine a situação em que Austin se dirige até o interior de um supermercado e subtrai de uma das prateleiras um pacote de chicletes avaliado em R$5,00 (cinco reais). Ao verificarmos a conduta de Austin verificamos que ela se amolda ao crime de furto do art. 155, do Código Penal2. Superado esse primeiro momento, precisamos verificar no caso concreto a incidência do “PROL”. Dessa forma, não há dúvida de que na subtração do pacote de chiclete está ausente a periculosidade social de Austin, há um reduzido grau de reprovabilidade do fato, presente também a mínima ofensividade da conduta e, por fim o ínfimo grau de lesão jurídica, razão pela qual, o fato é materialmente atípico, fazendo incidir o princípio da insignificância. 3.3 Princípio da alteridade Gestado pelo jurista alemão Claus Roxin, o princípio da alteridade proíbe a 2 Furto Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa. Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 11 | incriminação de atitudes meramente internas do agente, incapazes de invadir a esfera jurídica alheia, razão pela qual, o direito penal só deve punir condutas que atingem bens jurídicos alheios. Desse modo, ninguém pode ser punido por causar um mal a si próprio. Portanto, é nesse princípio que se fundamenta a impossibilidade de punição da autolesão, bem como a atipicidade do uso de drogas, uma vez que o art. 28 da Lei de Tóxicos tem a saúde pública como subjetividade jurídica, punindo aquele que porta a droga. 3.4 Princípio da adequação social Esse princípio funciona como causa supralegal de exclusão da tipicidade por ausência de tipicidade material, razão pela qual, condutas socialmente adequadas não podem ser objeto de criminalização, tendo em vista a ausência de afronta ao sentimento social de Justiça. Em algumas vezes o princípio é invocado em casos que haja uma leniência social. Exemplos típicos da incidência do referido princípio são os trotes acadêmicos e, também, o ato de circuncisão realizado pelos judeus quando do nascimento do filho homem. 3.5 Princípio da ofensividade Para o princípio da ofensividade, não há crime sem lesão efetiva ou ameaça concreta a um bem jurídico tutelado. Segundo esse princípio, os crimes de perigo abstrato (aqueles que o tipo penal descreve determinada conduta sem exigir ameaça concreta ao bem jurídico tutelado) seriam inconstitucionais. Porém, esse não é o entendimento que prevalece nos Tribunais Superiores (STJ e STF) a respeito do tema, razão pela qual, ambos os Tribunais consideram constitucionais os crimes de perigo abstrato. Um exemplo de crime de perigo abstrato é o porte de arma de fogo do artigo 14 do Estatuto do Desarmamento, onde o legislador resolveu incutir o potencial lesivo no próprio tipo penal, sem que da conduta de portar a arma de fogo cause alguma lesão ou perigo de lesão a terceiros. Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 12 | 3.6 Princípio da intervenção mínima A intervenção mínima se traduz no instituto da ultima ratio que estudamos na parte introdutória da nossa aula, razão pela qual, só se deve recorrer ao Direito Penal em situações extremas. Desse modo, deve-se deixar aos demais ramos do Direito a disciplina das relações jurídicas. Veja o exemplo do Professor Estefam para ilustrar o referido princípio: “A subtração de um pacote de balas em um supermercado, já punida com a expulsão do cliente do estabelecimento e com a cobrança do valor do produto ou sua devolução, já foi resolvida por outros ramos do Direito, de modo que não necessitaria da interferência do Direito Penal”. Ainda dentro do estudo desse princípio, vamos falar um pouco sobre o caráter fragmentário do Direito Penal e, também, do princípio da subsidiariedade. Princípio da fragmentariedade ou caráter fragmentário do Direito Penal. Pelo princípio da fragmentariedade, nem todos os ilícitos são capazes de configurarem infrações penas, mas somente aqueles que atentam contra os valores essenciais para estabilidade da sociedade. Ocorre que, todo ilícito penal será ilícito perante os demais ramos do direito, porém, a recíproca não é verdadeira. Em decorrência do seu caráter fragmentário, o Direito Penal é a última etapa para proteção do bem jurídico. Portanto, o Direito Penal se ocupa unicamente de alguns comportamentos (que são “fragmentos”) contrários ao ordenamento jurídico, protegendo somente os bens mais importantes à manutenção e o desenvolvimento da coletividade. Também é importante que você saiba do que chamamos de fragmentariedade às avessas. Nas palavras do professor Cleber Masson: “Com a evolução da sociedade e a modificação dos seus valores, nada impede a fragmentariedade às avessas, nas situações em que o comportamento inicialmente típico deixa de interessar ao Direito Penal, sem prejuízo da tutela pelos demais ramos do Direito. Foi o que aconteceu, a título ilustrativo, com o adultério. Esta conduta foi descriminalizada com a revogação do art. 240 do Código Penal pela Lei 11.106/2005, mas continua ilícita perante o Direito Civil”. (p.57,2021). Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 13 | Vamos adiante! Princípio da subsidiariedade. Pelo princípio da subsidiariedade, o Direito Penal funciona como um soldado de reserva, sendo acionado somente quando os demais meios estatais de proteção mais branda não forem suficientes para a proteção do bem jurídico tutelado. Em oposto ao princípio da fragmentariedade, o da subsidiariedade se lança no plano concreto, ou seja, na atuação prática do Direito Penal, guardando relação com a aplicação da lei penal. Para ficar mais claro, veja esse caso que chegou até o STJ: O paciente foi denunciado porque se constatou, em imóvel da sua propriedade, suposta subtração de água mediante ligação direta com a rede da concessionária do serviço público. Anote-se que, à época dos fatos, ele não residia no imóvel, mas quitou o respectivo débito. Dessarte, é aplicável o princípio da subsidiariedade, pelo qual a intervenção penal só é admissível quando os outros ramos do Direito não conseguem bem solucionar os conflitos sociais. Daí que, na hipótese, em que o ilícito toma contornos meramente contratuais e tem equacionamento no plano civil, não está justificada a persecução penal (HC 197.601/RJ, rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, 6º Turma, j. 28.06.2011, noticiado no informativo 479.) 3.7 Princípio da proporcionalidade De acordo com o referido princípio, a criação de tipos penais deve representar atividade vantajosa para o corpo social, eis que imporá um ônus para todos os cidadãos, decorrente da ameaça de punição em caso da violação da normal. O referido princípio encontra três destinatários, quais sejam: Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 14 | Quanto à proporcionalidadeabstrata (ou legislativa), são elencadas as penas mais apropriadas para cada infração penal posta no ordenamento jurídico (uma seleção qualitativa), bem como seus limites abstratos - mínimo e máximo (seleção quantitativa). Na proporcionalidade concreta, o princípio serve como orientador ao Juiz de Direito no julgamento da ação penal em curso, promovendo a individualização da pena ao caso concreto. Por fim, pela proporcionalidade executória, incidem regras diretamente ligadas ao cumprimento da pena imposta, levando-se em conta a condições pessoais e o mérito do condenado na execução. Atualmente, ainda, o princípio da proporcionalidade é analisado sob o prisma de duas vertentes. A primeira delas constitui-se na proibição do excesso (vedação de cominação e aplicação de penas exacerbadas e desnecessárias) e a segunda é a proibição deficitária ou proteção insuficiente de bens jurídicos (não tolerando punição abaixo da medida correta). 3.8 Princípio do ne bis in idem. Para este princípio, é vedada a dupla incriminação, razão pela qual, nenhuma pessoa pode ser processada ou condenada mais de uma vez pelo mesmo fato. Outro aspecto intimamente ligado o princípio consiste na proibição de que ao mesmo fato concreto seja encaixado mais de uma norma penal. Princípio da proporcionalidade Proprocionalidade Concreta (Juiz de Direito) Proporcionalidade Abstrata (legislador) Proporcionalidade Executória (órgãos da execução penal) Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 15 | Veja o exemplo do Professor André Estefam: “Assim, por exemplo, se o agente desfere diversos golpes de faca contra uma pessoa, num só contexto, visando matá-la, objetivo atingido depois do trigésimo golpe, não há vinte e nove crimes de lesão corporal e um homicídio, mas tão somente um crime de homicídio” (ESTEFAM, 2017, p.153). 3.9 Princípio da humanidade. Representa a inconstitucionalidade para criação de tipos penais ou a cominação de penais que violem a integridade física ou moral de alguém. Como corolário do princípio, surge a impossibilidade de a pena ultrapassar a figura do condenado, com exceção de alguns efeitos extrapenais da condenação (art. 5º XLV da Constituição Federal), como a obrigação de reparar o dano na esfera civil. Através desse princípio (e outros) que o STFF declarou a inconstitucionalidade do regime integralmente fechado para o cumprimento de pena privativa de liberdade nos crimes hediondos ou equiparados. 3.10 Princípio da exclusiva proteção de bens jurídicos. Modernamente falando, o princípio da exclusiva proteção de bens jurídicos proíbe o Direito Penal de se preocupar as intenções e pensamentos das pessoas, do seu modo de viver ou de pensar, ou ainda de suas condutas internas, enquanto não exteriorizadas como atividades criminosas. Portanto, não há como o Direito Penal se ocupar para resguardar questões morais, éticas, ideológicas ou semelhantes. Por isso, lembre-se: cogitationis poenam nemo patitur – ninguém pode sofrer punição pelo pensamento. Para tanto, é necessário elencar quais bens jurídicos são os mais importantes e que merecem proteção do Direito Penal. Conforme a teoria constitucional do Direito Penal, essa seleção dos bens mais importantes decorre dos mandamentos constitucionais de criminalização. Há que se falar, também, na espiritualização dos bens jurídicos no direito penal. A crescente incursão pela seara dos interesses metaindividuais e dos crimes de perigo, especialmente os de índole abstrata – definidos como delitos em que a lei presume, Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 16 | de forma absoluta, a situação de risco ao bem jurídico penalmente tutelado -, tem sido chamada de espiritualização, desmaterialização ou liquefação de bens jurídicos no Direito Penal.3 3.11 Princípio da imputação pessoal. Para o Direito Penal não se admite a punição quando estivermos diante de agente inimputável, sem potencial consciência da ilicitude ou de quem não se possa exigir conduta diversa. Cada um desses elementos será estudado de forma individualizada quando tratarmos da teoria geral do crime. 3.12 Princípio da responsabilidade pelo fato. A partir do princípio da responsabilidade pelo fato, ninguém pode ser punido exclusivamente por questões pessoais, vedando-se, assim, o direito penal do autor. Portanto, os tipos penais devem definir fatos criminosos, cominando suas respectivas penas, acolhendo-se, assim, o direito penal do fato. 3.13 Princípio da personalidade ou da intranscendência Nenhuma pessoa poderá ser responsabilizada por fato cometido por terceira pessoa. Dessa forma, a pena não pode passar da pessoa do condenado (art. 5º, XLV, CF). “O postulado da intranscendência impede que sanções e restrições de ordem jurídica superem a dimensão estritamente pessoal do infrator”4 3.14 Princípio da responsabilidade penal subjetiva Através da responsabilidade penal subjetiva, podemos concluir que nenhum resultado plenamente relevando pode ser atribuído a quem não o tenha produzido por dolo ou culpa (elemento subjetivo do tipo). Essa e a disposição contida no artigo 19 do Código 3 ROXIN, Claus. Derecho Penal Parte General. Fundamentos. La estrutura de la teoría del delito Trad. Espanhola Diego-Manuel Luzón Peña, Miguel Díaz y García Conlledo e Javier de Vicente Remensal. Madrid: Civitas, 2006. T, I, p. 410. 4 AGr-QO 1.033/DF, rel. Min. Celso de Mello, Tribunal Pleno, j. 25.05.2006. Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 17 | Penal – “Pelo resultado que agrava especialmente a pena, só responde o agente que o houver causado ao menos culposamente”, excluindo, portanto, a responsabilidade penal objetiva. Para o STF: (...) vige no ordenamento jurídico-penal pátrio o princípio da responsabilidade subjetiva, como corolário do Direito Penal do fato, adequado ao plexo de garantias vigente no Estado Democrático de Direito. Tal sistemática impõe ao órgão acusatório o ônus da prova acerca dos elementos constitutivos do tipo penal incriminador, nos termos do art. 156 do CPP, a ser exercido no seio do contraditório estabelecido em juízo, em respeito à cláusula do devido processo legal.5 Porém, existem dois resquícios da responsabilidade penal objetiva no Direito Penal Brasileiro. Veja só: ✓ 1) Rixa qualificada (art. 137, parágrafo único, do Código Penal); e ✓ 2) Punição das infrações penais praticadas em estado de embriaguez voluntária ou culposo, decorrente da ação da teoria da actio libera in causa (ação livre na causa – art. 28, II do CP). 3.15 Princípio da individualização da pena. O princípio da individualização da penal vem insculpido no artigo 5º, inciso XLVI, da CF/88: Art. 5º. [...] XLVI - a lei regulará a individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: a) privação ou restrição da liberdade; b) perda de bens; 5 Inq 4483 AgR-segundo-DF e Inq4327 Agr-segundo-DF, rel. min. Edson Fachin, Plenário, j. 14.12.2017 – informativo 888. Focus Concursos www.focusconcursos.com.br | 18 | c) multa; d) prestação social alternativa; e) suspensão ou interdição de direitos; Desse modo, o princípio da individualização da pena deve ser observado em várias vertentes. Nesse sentido é a lição do professor André Estefam: “O princípio deve ser observado, em primeiro lugar, pelo legislador, a quem se proíbe a construção de tipos penais que retirem do magistrado a possibilidade de estabelecer uma pena que leve em conta a natureza particular do crime cometido, com todas as suas características relevantes, bem como os aspectos ligados ao agente que, de algum modo, guardem relação com o fato praticado. Depois da individualização legislativa, há a individualização judicial, que se reflete justamente no intrincado e rico procedimento de aplicação da pena.[...]. Sob esse prisma, é vedado ao julgadorimpor uma sanção padronizada ou mecanizada, olvidando os aspectos únicos da infração cometida. Há, ainda, a individualização executiva, a ser observada durante a execução da pena, com vistas à ressocialização do sentenciado. (ESTEFAM, 2017, p. 394). Certo, meu caro aluno! Superamos toda essa primeira parte sobre aplicação da lei penal, agora, vamos dar início ao nosso segundo tema macro, mais precisamente o estudo da lei penal no tempo.