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TECNOLOGIAS, SISTEMAS E MATERIAIS ECOEFICIENTES Profª Marcia Luiza Klingelfus AULA 6 2 INTRODUÇÃO Nesta aula, vamos estudar os temas de ecodesenho, ciclo de vida e critérios de análise de sustentabilidade, de produtos e materiais. Vamos entender por que o ciclo de vida está presente em todas as análises em torno da sustentabilidade, o que diz a norma brasileira sobre ele e suas principais características, verificando como todas as ferramentas que vimos se aplicam e se complementam. Um processo de desenvolvimento ecológico pode ser parcial e responder apenas a uma demanda, mas uma visão ecológica, que considera, respeita e promove o meio ambiente, deve ser construída e, se necessário, sobre novas estruturas. Apesar da complexidade que envolve os ecossistemas, podemos começar com pequenos movimentos, alterando nossa pegada ecológica, estabelecendo critérios a nossos clientes, pedindo o certificado de origem de determinado material, não utilizando produtos tóxicos e poluentes ou de empresas cuja responsabilidade social seja duvidosa. Podemos contribuir de maneira consciente para a determinação de melhores práticas na construção e na indústria em geral. Somos projetistas, mas também somos consumidores e agentes de informação. O mercado oferece inúmeras soluções, chamadas de ecoeficientes, e caminhos possíveis – a tendência é só aumentar. É fundamental saber escolher e especificar, diferenciar o que vai fazer o movimento certo ou a solução mais óbvia. Pesquisas de mercado apontam que os consumidores estão cada vez mais conscientes, têm mudado seus hábitos para produzir menos impacto no ambiente e estão atentos à questão do trabalho escravo e do uso de animais em laboratório, procurando por empresas eco e socialmente responsáveis. A ideia, então, não é apresentar resultados e modelos, o que é possível fazer com apenas um clique, mas mostrar quais recursos estão à nossa disposição, para que nós mesmos digamos como serão utilizados. TEMA 1 – ECODESENHO “Ecodesenho pode ser compreendido como um processo integrado no projeto e desenvolvimento de produto, que visa reduzir impactos ambientais e melhorar continuamente o desempenho ambiental dos produtos, durante todo o 3 seu ciclo de vida, desde a extração da matéria-prima até o fim da vida” (ABNT, 2014b). Ecoeficiência é a visão mais geral dessa ação, cujo objetivo final é o resultado prático da aplicação desses produtos, sistemas e desenhos. Em alguns segmentos, como o industrial, o conceito está ligado à economia e considera seu custo-benefício. É a consequência desejada do desenvolvimento sustentável. A primeira seria uma das pontas do processo, em que o ecodesenho faz parte da primeira etapa do produto, e a ecoeficiência, a outra ponta, como resultado da aplicação em todo o ciclo de vida dos parâmetros, que vamos ver de maneira prática. 1.1 Estratégias do ecodesenho As estratégias de ecodesenho são baseadas em: • Seleção de materiais de baixo impacto: limpos, renováveis, reciclados, recicláveis, com baixo teor de energia, não tóxicos etc. • Redução do uso de materiais: peso, volume etc. • Otimização das técnicas de produção: técnicas alternativas, redução das fases de produção, menor consumo de energia, consumo de energia renovável, menor produção de resíduos, menor consumo de produto etc. • Otimização do sistema de distribuição: embalagens mínimas, mais limpas e reutilizáveis; eficiência energética. • Redução do impacto durante a utilização: redução do consumo de energia, utilização de fontes renováveis, diminuição das perdas de energia, da dependência e das distâncias nos transportes etc. • Otimização da vida-média: duração, confiabilidade, fácil manutenção e reparo, modulação. • Otimização do fim de vida do produto: reutilização, fácil restauração, reciclagem, tratamento seguro de resíduos. • Responsabilidade social aplicada à cadeia de produção. Além dessas estratégias, o processo deve ser desenvolvido de forma a melhorar o meio, onde quer que esteja atuando, ou seja, conseguir o balanço positivo. Não devemos limitar-nos a não impactar, mas, sim, impactar positivamente, seja para regenerar o meio, promover o conforto e a saúde ou 4 educar nas interações. Então, a estratégia é superar antigos conceitos para dar um salto de qualidade. A construção civil no Brasil pertence a uma área um pouco resistente a inovações e carente de mão de obra especializada suficiente para levar a cabo todas essas mudanças. 1.2 Benefícios do ecodesenho Desenvolvimento de produtos, sistemas, serviços e processos que: • Não agridem a saúde ou a beneficiam. • Não agridem o meio ambiente e ajudam a melhorar a condição deste. • São éticos. • Contribuem para o desenvolvimento de um modelo econômico sustentável. • Contribuem para a consolidação do econegócio e do mercado verde. • São fabricados em escala industrial e podem atender a demandas crescentes. • Têm custo competitivo. • Retiram do meio ambiente resíduos que, de outra forma, comprometeriam o uso do solo, o lençol freático, a atmosfera e as condições de saúde das comunidades. • Atingem a população dos grandes centros urbanos, sem necessidade de serem usados apenas em áreas rurais ou com área verde disponível. • Permitem inovação nos projetos de arquitetura e maior diversidade de materiais. • Contam com especificação técnica e são testados de acordo com os mesmos parâmetros dos produtos convencionais. • Ajudam a economizar no custo final da obra. • Contribuem para a educação ambiental dos usuários e vizinhos. • Valorizam o patrimônio do proprietário ou acionista. TEMA 2 – ECOPRODUTO Produto ecológico é todo artigo de origem artesanal ou industrializada, de uso pessoal, alimentar, residencial, comercial, agrícola e industrial, que não seja poluente nem tóxico, mas seja benéfico ao meio ambiente e à saúde dos seres 5 vivos, contribuindo para o desenvolvimento de um modelo econômico e social sustentável. O uso de matérias-primas naturais renováveis, obtidas de maneira sustentável ou por biotecnologia não transgênica, bem como o reaproveitamento e a reciclagem de matérias-primas naturais ou sintéticas por processos tecnológicos limpos (sem a emissão de poluentes e sem o uso de insumos agressivos, como o cloro), permite classificar um produto como aceitável ou recomendável segundo critérios ambientais. Podemos classificar os ecoprodutos com relação à origem e à tecnologia envolvida: • Orgânicos perecíveis (produtos orgânicos e alimentícios em geral, tais como hortifrutigranjeiros, laticínios, café, cereais e carne verde). • Não perecíveis ou duráveis – aqueles que podem ser adquiridos prontos para uso e não são perecíveis ou que, por meio de tratamento adequado, têm sua vida útil prolongada, como fibras naturais, madeira e derivados. Exemplos: telha ecológica, roupa de algodão orgânico, tijolo de solo- cimento, miniestação de tratamento de água e esgoto, cosméticos não testados em animais etc. • Tecnologias ambientais – sistemas ou equipamentos utilizados no segmento industrial para obter-se uma produção mais limpa e menos invasiva com relação ao meio ambiente. • Tecnologias sustentáveis – sistemas ou equipamentos comercializados como produtos de consumo direto para indivíduos/comunidades com aplicações de uso individual ou unifamiliar ou para utilização em ambientes comerciais, como os empregados para tratamento de efluentes domésticos (miniestações), equipamentos para geração de energia solar (fotovoltaico), aquecedores solares, aerogerados (energia eólica), biodigestores etc. • Tecnologias eco-smart – tecnologias ecointeligentes: dispositivos que, utilizados no ambiente construído, contribuem para gestão e redução do consumo de energia elétrica e água, por exemplo. TEMA 3 – ANÁLISE DO CICLO DE VIDA A análise do ciclo de vida (ACV)é uma ferramenta amplamente utilizada para medir o impacto de determinado material, produto ou processo no meio 6 ambiente. Com ela, todo o ciclo, desde a origem até o seu completo descarte (retorno à natureza), é avaliado. Tal análise permite, tanto ao especificador quanto ao usuário, ter informações reais e avaliar o produto em suas diversas etapas, assim como obter maior transparência por parte do fabricante ou fornecedor. Esse processo é complexo pela grande quantidade de variáveis e agentes envolvidos. Muito se tem estudado para chegar a procedimentos-padrões mundiais que realmente traduzam a necessidade de todo o mercado e que possam ser aplicados em qualquer setor. Com a ACV, é possível quantificar de forma objetiva e científica, com resultados comprovados, o impacto causado, corrigindo esse fator de desempenho. De posse dessa informação, a indústria entra em um processo de seleção, que exige mudanças por parte dos responsáveis que querem ser competitivos e entregar um produto correto e saudável. Esse conceito é tão importante porque qualifica e quantifica a “obra”, independentemente de a qual área pertença, de maneira precisa e sistemática, sempre que a análise obedecer às normas de cada país e for acessível. 3.1 Ciclo de vida de um material O ciclo de vida de um material se refere ao período entre origem (extração) e “morte” (retorno à natureza ou descarte final). A primeira fase do ciclo de utilização de um material implica na sua extração ou na obtenção da matéria de origem para sua fabricação, o processo de fabricação e comercialização e o uso que é feito dele. A segunda fase acontece depois do seu consumo, na gestão do descarte ou da reutilização. Serão avaliadas: • As entradas – matérias-primas e energia. • As saídas – emissões várias, resíduos, águas residuais e demais possíveis subprodutos. • E o conjunto dos processos durante sua vida útil – extração, produção, distribuição, uso, manutenção e final de vida. A forma como ele será reutilizado e a contínua reintrodução em novos ciclos ou nele mesmo é um fator importante, pois define o quanto está sendo sustentado seu processo de vida. O ciclo dos materiais pode ser aberto ou fechado, dependendo dos resíduos que geram e de como eles são reutilizados, como matérias-primas ou secundárias, ou se serão devolvidos ao meio sem possibilidade de aproveitamento. Quando o resíduo pode ser aproveitado e 7 introduzido em um novo ciclo de utilização – ou novo material –, o ciclo é fechado, pois não há desperdício desse material no ambiente e se evita, também, a extração de nova matéria-prima. Esse material pode ser reutilizado alterando ou não suas propriedades de origem. 3.2 Normas de avaliação do ciclo de vida No Brasil, a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) é a responsável pela normativa aplicável, desenvolvida com base na ISO (International Organization for Standardization), da qual a série 14000 trata do tema da gestão ambiental. Dentro dela, a análise do ciclo de vida está especificamente em: • ABNT NBR ISO 14040, de 2009 e revisada em 2014, Gestão ambiental – Avaliação do ciclo de vida – Princípios e estrutura. • NBR ISO 14044, de 2009 e revisada em 2014, Gestão ambiental – Avaliação do ciclo de vida – Requisitos e orientações. • ABNT ISO/TS 14071 de 2018 – Gestão ambiental – Avaliação do ciclo de vida – Processos de análise crítica e competências do analista: requisitos adicionais e diretrizes para a ABNT NBR ISO 14044:2009. “Esta Especificação Técnica fornece especificações adicionais para as ABNT NBR ISO 14040:2009 e ABNT NBR ISO 14044:2009. Ela fornece requisitos e diretrizes para a realização de uma análise crítica de qualquer tipo de estudo de ACV e as competências requeridas para a análise crítica” (ABNT, 2014a). 3.3 Princípios de uma ACV Para a correta gestão de uma ACV, a norma recomenda considerar os seguintes princípios: perspectiva do ciclo de vida ou visão global do processo do produto, sua extração e aquisição de matérias-primas, manufatura, uso, tratamento de fim de vida até a disposição final, para assim poder identificar e evitar as cargas ambientais; foco nos aspectos e impactos ambientais, excluindo os econômicos e sociais; abordagem estruturada em uma unidade funcional, que definirá o objeto de estudo, e interativa – a inter-relação dos resultados de diversas fases; transparência e completeza, considerando o ambiente natural, a saúde 8 humana e os recursos; e; finalmente, a prioridade por decisões científicas e, em último caso, uma avaliação embasada em escolha de valores. 3.4 Metodologia de uma ACV A ABNT NBR ISO 14044:2009 detalha os requisitos para a condução de uma ACV e determina que esse estudo é composto por quatro fases, conforme veremos a seguir. 3.4.1 Definição de objeto e escopo O escopo da análise depende do objeto e do uso pretendido, e o objetivo determinará a profundidade e a abrangência que terá. É preciso integrar o conceito de fronteira do sistema: “conjunto de critérios que especificam quais processos elementares devem fazer parte de um sistema de produto” (ABNT, 2014a). Esses critérios são fundamentais para conseguir fazer a correta avaliação. Recomenda-se levar em consideração itens como aquisição de matérias-primas e insumos, entradas e saídas na cadeia de produção, distribuição e transporte, energias utilizadas, água e emissão de poluentes, manutenção, resíduos, recuperação de produtos, embalagens, logística, entre outros. 3.4.2 Inventário e análise “Trata-se de um inventário dos dados de entrada e saída associados ao sistema em estudo” (ABNT, 2014a) e envolve a coleta de dados necessários. O ICV é o inventário do ciclo de vida, um estudo reduzido, com apenas uma análise de inventário e uma interpretação. Esse tipo de análise pode ser usado como parte de outros estudos, segundo a norma: “é uma entre várias técnicas de gestão ambiental (por exemplo, avaliação de risco, avaliação de desempenho ambiental, auditoria ambiental e avaliação de impacto ambiental) e pode não ser a técnica mais apropriada para todas as situações” (ABNT, 2009). Os dados levantados na etapa anterior (qualitativos e quantitativos) devem ser analisados (análise do inventário) com o máximo de cuidado e transparência possíveis, segundo o procedimento recomendado na Figura 1. 9 Figura 1 – Procedimentos simplificados para análise de inventário da NBR ISO 14044 Fonte: Sanchez Júnior, 2009. 3.4.3 Avaliação de impactos Na sequência, então, é realizada a avaliação dos possíveis impactos do ciclo de vida (AICV), como o que a produção, o consumo e as emissões podem provocar sobre o meio ambiente. O objetivo desta fase é “prover informações adicionais para ajudar na avaliação dos resultados” (ABNT, 2009) dentro da questão ambiental. Então, será feita a revisão dos objetivos e o realinhamento do estudo. Resumidamente, nesta etapa é importante definir, organizar e classificar as categorias de impacto, os indicadores de categoria e os modelos de caracterização. 10 3.4.4 Interpretação Nesta fase final, é feita a interpretação dos resultados, e as conclusões são definidas com as recomendações para a tomada de decisões. Os produtos desta fase podem ser em forma de recomendações, manuais, informes etc. É importante evidenciar que essas recomendações têm como destino final o meio ambiente, e nele os indivíduos. A ACV se faz com o intuito de verificar o desempenho de determinado produto ou processo com relação ao meio ambiente, cada vez mais com indicadores seguros de ações sustentáveis ou não. 3.5 Aplicações As aplicações são muitas, pois dependem também da característica do produto ou sistema que está sendo avaliado, e estão principalmente relacionadas à gestão e à melhoria meio ambiental. Das aplicações citadas na norma, temos: • Desenvolvimentoe aperfeiçoamento de produtos. • Planejamento estratégico. • Elaboração de políticas públicas. • Marketing. • Sistemas de gestão ambiental e avaliação de desempenho ambiental, informação e comunicação ambiental. • Avaliações de riscos. É uma grande oportunidade de estarmos em um processo de adaptação constante ao meio, melhorando as capacidades e qualidades dos produtos. Em conjunto com outras ferramentas, como os estudos de impacto ou as certificações, e com políticas públicas alinhadas à sustentabilidade, pode-se alavancar uma mudança significativa no mercado. Outro resultado é a minimização do chamado greenwashing, uma forma de propaganda enganosa, à qual estamos submetidos continuamente, seja por omissão de dados ou por enaltecimento de outros, sendo necessária a responsabilidade em toda a cadeia de vida do produto. TEMA 4 – ANÁLISE DE CRITÉRIOS DE SUSTENTABILIDADE Com base em um levantamento como da classificação anterior ou de outros critérios de sustentabilidade (por exemplo, os que vimos no tema ACV), podemos 11 classificar os produtos de acordo com seu grau de sustentabilidade como mais ou menos sustentáveis. É sempre importante analisar o conjunto desses critérios e avaliar o contexto, pois muitas vezes, embora um material não seja ecológico, pode ser um recurso sustentável para determinado caso. Relembrando alguns critérios: • Ser renovável ou não esgotar os recursos naturais. • Ser benéfico à saúde dos seres vivos e do ecossistema. • Não contaminar o ar, a água ou a terra no processo produtivo e no pós-uso. • Não gerar resíduos na produção ou no uso. • Ser de matéria-prima natural, biodegradável, reciclada ou reciclável. • Conter insumos que contribuam para um elevado desempenho ambiental do produto. • Contribuir para a promoção de uma cultura da sustentabilidade. • Não consumir grandes quantidades de energia para sua produção e/ou funcionamento ou utilizar fontes de energia renovável. • Conter especificação técnica com diferencial ambiental e desempenho ambiental. • Conter a menor quantidade possível de embalagens, de preferência recicladas e biodegradáveis. Em último caso, recicláveis. • Ser não poluente, não tóxico, benéfico ao meio ambiente e à saúde humana, animal e vegetal, contribuindo para o desenvolvimento de um modelo econômico e social sustentável. 4.1 Quanto ao impacto ambiental Marcio Araújo, em um artigo sobre materiais, fala a respeito da classificação do material segundo seu impacto ambiental em seu ciclo de vida: Assim sendo, materiais de origem renovável são sempre mais ecológicos que aqueles de origem sintética, mesmo quando estes são reciclados. Ainda nesta escala descendente, há produtos que, sem ser ecológicos, por serem menos impactantes em relação ao meio ambiente que seus similares convencionais, são considerados de baixo impacto ambiental, uma vez que em seu ciclo de vida geram menos poluentes e desperdício e também porque são a opção menos pior disponível no mercado. São considerados produtos de baixo impacto ambiental aqueles que: • Requerem matérias-primas ou insumos não renováveis em sua composição, mas que ainda assim trazem algum benefício quanto a preservação do meio ambiente ou de algum recurso finito (água e energia); 12 • Apresentam baixa emissividade de COVs • Não possuem similar ecológico no mercado, sendo, portanto, a única ou a opção menos agressiva ao meio ambiente e à saúde humana. Como exemplo: • Tintas ou vernizes à base d'água ou produtos base d'água em geral (colas e resinas). Estas tintas, normalmente, têm baixo nível de emissão de compostos orgânicos voláteis (C.O.V./ V.O.C.). • Lâmpadas fluorescentes compactas - contêm mercúrio, mas reduzem sensivelmente gastos com energia. • Telhas de fibra celulósica com manta asfáltica - são consideradas de baixo impacto ambiental, pois, embora o produto de origem petroquímica não seja renovável ou biodegradável, seu uso contribui para a retirada de resíduos (celulose) do meio ambiente. 4.2 Quanto ao uso de matérias-primas A matéria-prima de um produto vai determinar em grande parte sua sustentabilidade, pois relaciona fonte (renovável ou não), extração (dependência energética), necessidade de processos industriais e, também, características relacionadas ao uso, como a não existência de elementos tóxicos em seus componentes. Produtos originados de matéria-prima natural renovável (origem vegetal), obtida de maneira sustentável, com baixo dispêndio energético, são extremamente sustentáveis. São produtos que podem ser utilizados no natural, como a madeira, as pedras, as fibras vegetais (fibra de coco, bananeira, dendê etc.) e o algodão, sempre que a origem seja controlada. Podem passar por um processo de fabricação ou beneficiamento, como resinas e colas vegetais, tintas de origem vegetal ou mineral-vegetal, derivados da madeira etc. Os metais são de origem natural, mas suas características de extração e consumo energético fazem com que não sejam considerados ecológicos. Entretanto, a indústria metaleira defende a sua reciclabilidade e outras prestações que otimizam o processo da construção. 4.3 Quanto à reutilização e à reciclabilidade Alguns materiais podem ser reutilizados com o mesmo uso inicial ou de uma nova maneira, sem haver um processo industrial, a depender de suas características de durabilidade, das condições de uso e também das prestações a que ser chegar no novo uso. Na construção civil, temos um grande setor, que é o uso de materiais de demolição, em que materiais são reutilizados após manutenção ou adequação simples. Podem ser portas, luminárias, dormentes, instalações etc. 13 Outros materiais permitem a reciclabilidade, ou seja, o aproveitamento de seus resíduos na transformação de outro material. A reciclagem pode ser pré- consumo, com aproveitamento dos resíduos do próprio processo de fabricação, antes de chegar ao consumidor; ou pós-consumo, com todo o processo de reciclagem, desde a separação até o novo processo de fabricação. No primeiro caso, temos como exemplos a indústria de plásticos, vidros ou papéis. O aproveitamento dos resíduos se faz antes de que se tenha mistura ou contaminação decorrente do uso, e sua principal vantagem é a eliminação de resíduos na fase de produção. A importância da reciclagem pós-consumo é o aproveitamento de todo tipo de material descartado pelo consumidor e que terá um novo ciclo de vida, sem ser devolvido ao meio ambiente. Nesse caso, temos todos os envases de plástico, papel, metal etc. dos produtos que consumimos e também partes de equipamentos e utensílios que já não têm uso. Exemplos conhecidos deste tipo são as telhas feitas com embalagens de leite ou de pasta dental, as inúmeras adaptações do PET (isolantes, embalagens, roupas etc.) e o reaproveitamento do alumínio (latas), o que gera economia energética no seu novo ciclo. 4.4 Quanto ao consumo de energia Este é um critério fundamental, visto que a eficiência energética é objetivo prioritário de sustentabilidade. O consumo de energia acontece em todo o CV, desde extração, transporte, fabricação, instalação etc. Os materiais naturais e menos processados têm sua energia de produção associada a uma fonte natural e renovável, o sol, enquanto outros produtos, como os metais ou as cerâmicas, necessitam de grandes gastos energéticos em sua fabricação, portanto possuem grande energia embutida. Então, os esforços poderiam ser a transição desta demanda energética para o uso de fontes 100% renováveis. TEMA 5 – ALTERNATIVAS NA CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL Vamos refletir sobre alternativas construtivas que podem ser muito interessantes no caminho de inovação e sustentabilidade. Esta reflexão é necessária porque estamos no paradigma do impacto da construção civil há décadas e pouco muda, e essa responsabilidade só vai deixar de existir quandoformos capazes de criar um novo conceito de construir. Sem perder de vista a 14 visão da construção amiga do meio ambiente e responsável socialmente, a construção seca e a construção modular podem trazer grandes vantagens e mudanças ao setor. Já comentamos esses dois sistemas na aula sobre bioconstrução, e aqui se reforça a necessidade de adaptá-los de modo a utilizar materiais sustentáveis, mas, ainda assim, parecem soluções bem acessíveis se desenvolvidas com consciência ambiental. O desafio é aliar este pensamento de futuro e tecnologia com o princípio eco lógico. Precisamos de mais Investimento em pesquisa, educação e qualificação de profissionais. 5.1 Construção modular Falamos rapidamente sobre ela anteriormente. É interessante pensar na construção modular como um avanço dentro da construção civil, já que esse sistema pode proporcionar maior efetividade em uma obra, uma vez que minimiza os resíduos, agiliza o tempo de obra, mas necessita de um maior planejamento inicial para não acontecerem surpresas ao longo do caminho. Como já alertamos, é necessário avaliar quais materiais serão utilizados, de onde vêm, qual é a empresa fornecedora, se há compatibilidade com o projeto etc. para saber se é uma opção minimamente sustentável, mas é uma opção que está crescendo no mercado e vale a pena ser considerada. O que antes era utilizado somente para galpões, fábricas ou indústrias, hoje se converteu em usos bem mais abrangentes. A estrutura dos módulos normalmente é metálica, portanto, já carrega um impacto importante. Ao mesmo tempo, seu material concede dimensões maiores, flexibilidade em vãos e praticidade na montagem das peças. Acabamentos, encaixes e materiais podem variar. Além da rapidez, “é possível construir um prédio de 2000m2 em apenas 90 dias. Outras obras menores, de 60m2 são inauguradas em apenas 20 dias” (Degani, 2019). Além da facilidade no processo, a grande vantagem está na eliminação de resíduos, tanto em obra, quando as perdas são mínimas, como nos materiais, uma vez que o processo de fabricação pode contemplar o reuso. Os módulos podem ser reaproveitados no “desmanche” do edifício. A indústria desse setor defende que o desperdício em materiais é cinco vezes menor que o de uma construção convencional. 15 5.2 Wood framming e a construção com madeira Já comentado anteriormente, o uso da madeira como técnica construtiva parece ganhar força novamente. Na verdade, em países do norte da Europa e nos EUA, é uma técnica bastante utilizada. A madeira como fonte renovável, certificada, é uma opção bastante realista para o Brasil, não só por suas qualidades físicas, mas por sua versatilidade e beleza. Em sistemas como o woodframe, representam alternativas bem reais. 5.3 Uso de “velhos” materiais com um novo olhar O uso de materiais naturais ou lowtech foi muito associado a limitações econômicas e a status social, mas isso foi modificado significativamente, porque o lowtech pode ser uma opção por muitas razões. Materiais como o bambu, a terra, o algodão e a vegetação em geral estão sendo revisitados de uma maneira contemporânea com muita eficiência. 5.4 Inovação na indústria dos plásticos Existem materiais, como plásticos, vidros, metais e concreto, nos quais a substituição por materiais ecológicos é difícil. Mesmo assim, a indústria está buscando uma compensação sustentável para equilibrar seus impactos e conseguir maiores prestações ambientais. Sabemos do grande impacto que os plásticos produzem tanto em seu ciclo de produção como no seu uso ou descarte, mas eles estão em toda parte em um edifício, e precisamos de soluções sustentáveis. Apesar da grande vantagem da tecnologia que vem transformando e inovando na indústria, convém analisar os componentes químicos que são agregados ou que persistem em processos de reciclagem para saber seu impacto quanto a toxicidade e contaminação do meio. Por isso, é preciso pesquisar e exigir sempre a ACV. Vejamos algumas inovações: Plástico com ciclo de vida útil controlado d2w Consiste em um aditivo de tecnologia inglesa, que é misturado ao plástico em seu processo de fabricação. Dessa forma, a degradação da embalagem é acelerada. Por ser aprovado pela ANVISA, pode ser usado em embalagens para alimentos, medicamentos e cosméticos. Hidro-Biodegradável É fabricado normalmente a partir do amido e sua degradação inicial acontece por hidrólise, ou seja, quebra de uma molécula através da água. Não é indicado para embalar alimentos. Hidrossolúvel 16 É dissolvido inteiramente, apenas ao entrar em contato com a água. Apesar de não ser tóxico, é destinado à embalagem de produtos químicos. Plástico Antimicrobiano d2p Possui elementos químicos adicionados ao plástico comum, que permitem a proteção de alimentos contra bactérias e fungos. Sacos de lixo biodegradáveis e antimicrobiano Possui degradação acelerada, pelo fato de ser produzido com as características da tecnologia d2w, além disso, ele é antimicrobiano. Bioplásticos Assim chamados porque são feitos de plantas como a batata, a cana de açucar ou o milho. Que além de ser biodegradável, utiliza matéria prima natural e renovável. (Rosa, 2020) Terminamos com a revolução que o pensamento 4.0 pode representar na indústria e na construção civil. Já estamos diante desse acontecimento, conectados à informatização e à inteligência artificial. Esse movimento impacta de maneira efetiva os procedimentos e, consequentemente, os resultados, pois contribui com novas tecnologias e sistemas cibernéticos, rapidez, maior produtividade, economia de recursos etc. Temos o BIM (Building Information Modeling, ou modelagem da informação da construção), o geoprocessamento, as impressões 3D, os chips de inteligência e muito mais. Saibamos conectar aos princípios ecológicos que vimos no início da disciplina essa nova visão, que pode transformar tecnologicamente e ao mesmo tempo alinhar-se à mentalidade verde de desenvolvimento. REFERÊNCIAS ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO 14040: Gestão ambiental: avaliação do ciclo de vida: princípios e estrutura. Rio de Janeiro, 2009. _____. NBR ISO 14044: Gestão ambiental – Avaliação do ciclo de vida – Requisitos e orientações. Rio de Janeiro, 2014a. _____. ABNT ISO/TS 14071: Gestão ambiental – avaliação do ciclo de vida – processos de análise crítica e competências do analista: requisitos adicionais e diretrizes para a ABNT NBR ISO 14044:2009. Rio de Janeiro, 2018. _____. NBR ISO 14006: Sistemas da gestão ambiental – Diretrizes para incorporar o ecodesign. Rio de Janeiro, 2014b. _____. NBR ISO 14062: Gestão ambiental – integração de aspectos ambientais no projeto e desenvolvimento do produto. Rio de Janeiro, 2004. DEGANI, J. O que é construção modular e como funciona. Sienge. Disponível em: . Acesso em: 11 jan. 2021. ROSA, M. Plásticos ecológicos. Ciclo Vivo. Disponível em: . Acesso em: 11 jan. 2021. SANCHEZ JUNIOR, O. ACV de luminárias públicas: proposta de mapeamento do fluxo de produção para inventário. Disponível em: . Acesso em: 11 jan. 2021. https://www.sienge.com.br/blog/construcao-modular/ https://ciclovivo.com.br/inovacao/tecnologia/plasticos_ecologicos/