Logo Passei Direto
Buscar
Material

Prévia do material em texto

Maria Cecília de Souza Minayo (Organizadora) Suely Ferreira Deslandes / Otávio Cruz Neto / COLEÇÃO TEMAS SOCIAIS Romeu Gomes Pesquisa social Teoria, método e criatividade Maria Cecília de Souza Minayo (Org.) Coragem de educar Uma proposta de educação popular para meio rural FUNDEP Fundação de Desenvolvimento, Educação e Pesquisa Política social do conhecimento Sobre futuros do combate à pobreza Pedro Demo PESQUISA SOCIAL Educação & Conhecimento Relação necessária, insuficiente e controversa Pedro Demo Tecnologias do conhecimento Os desafios da educação Ladislau Dowbor Indisciplina escolar: causas e sujeitos Rosana Aparecida Argento Rebelo TEORIA, MÉTODO E CRIATIVIDADE Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Edição Deslandes, Suely Ferreira Pesquisa social : teoria, método e criatividade / Suely Ferreira Deslandes, Otavio Cruz Neto, Romeu Gomes ; Maria Cecília de Souza Minayo (organizadora). Petrópolis, RJ : Vozes, 1994. ISBN 85.326.1145-1 1. Ciências sociais Metodologia 2. Ciências sociais Pesquisa 3. Criatividade I. Cruz Neto, Otavio. II. Gomes, Romeu. III. Minayo, Maria Cecília de Souza. IV. Título. EDITORA 94-0274 CDD-300.72 VOZES Índices para catálogo sistemático: Petrópolis 2002 1. Ciências Sociais : Pesquisa 300.72© 1993, Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100 25689-900 Petrópolis, RJ Internet: http://www.vozes.com.br Brasil SUMÁRIO Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. APRESENTAÇÃO 7 Editoração e org. literária: Augusto A. Zanatta CAPÍTULO I Ciência, Técnica e Arte: Desafio da Pesquisa Social 9 ISBN 85.326.1453-1 CAPÍTULO II A Construção do Projeto de Pesquisa 31 CAPÍTULO III o Trabalho de campo como descoberta e criação 51 . CAPÍTULO IV A Análise de dados em Pesquisa Qualitativa 67 Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100. Petrópolis, RJ - Brasil CEP 25689-900 Caixa Postal 90023 - Tel.: (0xx24) 2233-9000 Fax: (0xx24) 2231-4676.APRESENTAÇÃO Este livro introduz você, jovem ávido por descobrir as entranhas do mundo e da sociedade, na aventura da pesquisa social. Teoria, Método e Criatividade são os três ingredientes ótimos que, combinados, produzem conhecimentos e dão continuidade à tarefa dinâmica de sondar a realidade e desvendar seus segredos. Este trabalho possui duas tônicas combinadas. A primeira parte é mais teórica e abstrata. Introduz você às questões polêmicas do mundo científico e aos concei- tos básicos da pesquisa, particularmente da pesquisa social. A segunda parte é mais técnica. Porém está intima- mente ligada com o assunto tratado no primeiro capítulo, articulando a teoria e a prática da pesquisa. Para sermos mais precisos, as orientações começam num movimento de grande abertura para ir se estreitando na pesquisa social qualitativa. Dada a especificidade dos instrumentos de aborda- gem qualitativa, julgamos conveniente nos determos 7com mais profundidade sobre eles, remetendo o estudo das técnicas quantitativas para outro caderno. CAPÍTULO I Os autores deste trabalho somos estudiosos com longa experiência de pesquisa. Falamos a partir de nossa própria vivência de produção intelectual e compartilha- mos com você indagações, percursos e descobertas. CIÊNCIA, TÉCNICA E ARTE: 0 DESAFIO DA Os autores PESQUISA SOCIAL Maria Cecília de Souza Minayo* 1. CIÊNCIA E CIENTIFICIDADE Do ponto de vista antropológico, podemos dizer que sempre existiu preocupação do "homo sapiens" com o conhecimento da realidade. As tribos primitivas, através dos mitos, explicaram e explicam os fenômenos que cercam a vida e a morte, o lugar dos indivíduos na organização social, seus me- canismos de poder, controle e reprodução. Dentro de dimensões históricas imemoriais até nossos dias, as religiões e filosofias têm sido poderosos instrumentos explicativos dos significados da existência individual e coletiva. A poesia e a arte continuam a desvendar lógicas * Socióloga, Mestre em Antropologia, Doutora em Saúde Pública, Professora Adjunta do Departamento de Ciências Sociais da Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ. 8 9Pesquisa Social Pesquisa Social profundas e insuspeitadas do inconsciente coletivo, do condição para atribuir o estatuto de ao campo cotidiano e do destino humano. A ciência é apenas uma social. Há os que reivindicam a total diferença e especi- forma de expressão desta busca, não exclusiva, não ficidade do campo humano. conclusiva, não definitiva. Paul de Bruyne e colaboradores (1991) advogam Na sociedade ocidental, no entanto, a ciência é a que a idéia da cientificidade comporta, ao mesmo tempo, forma hegemônica de construção da realidade, conside- um pólo de unidade e um pólo de diversidade. Ou seja, rada por muitos críticos como um novo mito, por sua existe possibilidade de encontrarmos semelhanças rela- pretensão de único promotor e critério de verdade. No tivamente profundas em todos os empreendimentos que entanto, continuamos a fazer perguntas e a buscar solu- se inspiram na idéia geral de um conhecimento por ções. Para problemas essenciais, como a pobreza, a conceitos, seja de caráter sistemático, seja exploratório miséria, a fome, a violência, a ciência continua sem e dinâmico. Essa idéia representa uma tradição geral de respostas e sem propostas. As explicações históricas da auto-regulação do processo de construção de conheci- hegemonia da ciência sobre outras formas de conheci- mento. Mas, por outro lado, a cientificidade não pode mento não cabe aqui aprofundar. Mencionaremos duas ser reduzida a uma forma determinada de conhecer; ela razões: a primeira, de ordem externa a ela mesma, está pré-contém, por assim dizer, diversas maneiras concre- na sua possibilidade de responder a questões técnicas e tas e potenciais de realização. tecnológicas postas pelo desenvolvimento industrial. A Tal reflexão se torna particularmente fundamental segunda razão, de ordem interna, consiste no fato dos para nosso objeto de estudo neste caderno, a pesquisa cientistas terem conseguido estabelecer uma linguagem social. A interrogação enorme em torno da cientificida- fundamentada em conceitos, métodos e técnicas para de das ciências sociais se desdobra em várias questões. compreensão do mundo, das coisas, dos fenômenos, dos A primeira diz respeito à possibilidade concreta de processos e das relações. Essa linguagem é utilizada de tratarmos de uma realidade da qual nós próprios, en- forma coerente, controlada e instituída por uma comu- quanto seres humanos, somos agentes. Essa ordem de nidade que a controla e administra sua reprodução. conhecimento não escaparia radicalmente a toda possi- o campo científico, apesar de sua normatividade, é bilidade de objetivação? permeado por conflitos e contradições. E para nomear Em segundo lugar, será que, buscando a objetivação apenas uma das controvérsias que aqui nos interessa, própria das ciências naturais, não estaríamos descarac- citamos o grande embate sobre a cientificidade das terizando o que há de essencial nos fenômenos e proces- ciências sociais, em comparação com as ciências da sociais, ou seja, o profundo sentido dado pela natureza. Há os que buscam a uniformidade dos proce- subjetividade? dimentos para compreender o natural e o social como 10 11Pesquisa Social Pesquisa Social Por fim e em terceiro lugar, que método geral pode- dores aceitam os critérios da historicidade, da colabora- ríamos propor para explorar uma realidade tão marcada ção e, sobretudo, imbuem-se da humildade de quem sabe pela especificidade e pela diferenciação? Como garantir que qualquer conhecimento é aproximado, é construído. a possibilidade de um acordo fundado numa partilha de Ora, se existe uma idéia de devir no conceito de princípios e não de procedimentos? cientificidade, não se pode trabalhar, nas ciências so- Em resumo, as ciências sociais hoje, como no pas- ciais, com a norma da cientificidade já construída. A sado, continuam na pauta de plausibilidade enquanto pesquisa social é sempre tateante, mas, ao progredir, conhecimento científico. Seu dilema seria seguir os elabora critérios de orientação cada vez mais precisos. caminhos das ciências estabelecidas e empobrecer seu Conforme lembram Bruyne e colaboradores (1991), "na próprio objeto? Ou encontrar seu núcleo mais profundo, realidade histórica de seu devir, o procedimento cientí- abandonando a idéia de cientificidade? fico é ao mesmo tempo aquisição de um saber, aperfei- A situação não é fácil e não é clara. Primeiro, çoamento de uma metodologia, elaboração de uma porque, se as ciências da natureza são as pioneiras e as norma" (p. 16). Obviamente isto se faz dentro da espe- estrelas da idéia de cientificidade, não está absolutamen- cificidade que as ciências sociais representam no campo te atestado que elas já atingiram sua expressão adequa- do conhecimento. Por isso, para falarmos de Ciências da. A física quântica com suas descobertas e a teoria da Sociais, dentro de sua distinção, retomaremos critérios relatividade, dentre outros temas científicos, estão revo- gerais que a distinguem e que se encontram em autores lucionando em seu próprio campo as idéias de espaço, como Demo (1981) e Minayo (1992), sem, contudo, tempo, de relações sujeito-objeto. desvinculá-la dos princípios da cientificidade. A cientificidade, portanto, tem que ser pensada objeto das Ciências Sociais é histórico. Isto sig- como uma idéia reguladora de alta abstração e não como nifica que as sociedades humanas existem num determi- sinônimo de modelos e normas a serem seguidos. A nado espaço cuja formação social e configuração são história da ciência revela não um "a priori", mas o que específicas. Vivem o presente marcado pelo passado e foi produzido em determinado momento histórico com projetado para o futuro, num embate constante entre o toda a relatividade do processo de conhecimento. que está dado e o que está sendo construído. Portanto, a provisoriedade, dinamismo e a especificidade são Poderíamos dizer, nesse sentido, que o labor cientí- características fundamentais de qualquer questão social. fico caminha sempre em duas direções: numa, elabora Por isso, também, as crises têm reflexo tanto no desen- suas teorias, seus métodos, seus princípios e estabelece volvimento como na decadência de teorias sociais. seus resultados; noutra, inventa, ratifica seu caminho, abandona certas vias e encaminha-se para certas dire- Como conseqüência da primeira característica, é ções privilegiadas. E ao fazer tal percurso, os investiga- necessário dizer que o objeto de estudo das ciências 12 13Pesquisa Social Pesquisa Social sociais possui consciência histórica. Noutras palavras, desde a concepção do objeto, aos resultados do trabalho não é apenas o investigador que dá sentido a seu trabalho e à sua aplicação. intelectual, mas os seres humanos, os grupos e as socie- Trata-se aqui de uma condição da pesquisa que deve dades dão significado e intencionalidade a suas ações e ser incorporada como critério de realidade e busca de a suas construções, na medida em que as estruturas objetivação. sociais nada mais são que ações objetivadas. nível de Por fim, é necessário afirmar que objeto das Ciên- consciência histórica das Ciências Sociais está referen- cias Sociais é essencialmente qualitativo. A realidade ciado ao nível de consciência histórica social. social é o próprio dinamismo da vida individual e cole- Em terceiro lugar, é preciso ressaltar que nas Ciên- tiva com toda a riqueza de significados dela transbor- cias Sociais existe uma identidade entre sujeito e objeto. dante. Essa mesma realidade é mais rica que qualquer A pesquisa nessa área lida com seres humanos que, por teoria, qualquer pensamento e qualquer discurso que razões culturais, de classe, de faixa etária, ou por qual- possamos elaborar sobre ela. Portanto, os códigos das quer outro motivo, têm um substrato comum de identi- ciências que por sua natureza são sempre referidos e dade com o investigador, tornando-os solidariamente recortados são incapazes de a conter. As Ciências So- imbricados e comprometidos, como lembra Lévi- ciais, no entanto, possuem instrumentos e teorias capa- Strauss (1975): "Numa ciência, onde observador é da zes de fazer uma aproximação da suntuosidade que é a mesma natureza que o objeto, o observador, ele mesmo, vida dos seres humanos em sociedades, ainda que de é uma parte de sua observação" (p. 215). forma incompleta, imperfeita e insatisfatória. Para isso, Outro aspecto distintivo das Ciências Sociais é o ela aborda o conjunto de expressões humanas constantes fato de que ela é intrínseca e extrinsecamente ideológi- nas estruturas, nos processos, nos sujeitos, nos signifi- ca. Ninguém hoje ousa negar que toda ciência é com- cados e nas representações. prometida. Ela veicula interesses e visões de mundo É desse caráter especificamente qualitativo das historicamente construídas, embora suas contribuições ciências sociais e da metodologia apropriada para re- e seus efeitos teóricos e técnicos ultrapassem as inten- construir teoricamente seu significado que trata o pre- ções de seu desenvolvimento. No entanto, as ciências sente trabalho. físicas e biológicas participam de forma diferente do comprometimento social, pela natureza mesma do obje- to que coloca ao investigador. Na investigação social, a relação entre o pesquisador e seu campo de estudo se estabelecem definitivamente. A visão de mundo de am- bos está implicada em todo o processo de conhecimento, 14 15Pesquisa Social Pesquisa Social 2. CONCEITO DE METODOLOGIA DE obediência. "Dada uma regra qualquer, por fundamental PESQUISA e necessária que se afigure para a ciência, sempre haverá circunstâncias em que se torna conveniente não apenas Entendemos por metodologia caminho do pensa- ignorá-la como adotar a regra oposta". Em "Estrutura mento e a prática exercida na abordagem da realidade. das revoluções científicas" (1978), Thomas Kuhn reco- Neste sentido, a metodologia ocupa um lugar central no nhece que nos diversos momentos históricos e nos dife- interior das teorias e está sempre referida a elas. Dizia rentes ramos da ciência há um conjunto de crenças, Lênin (1965) que método é a alma da teoria" (p. 148), visões de mundo e de formas de trabalhar, reconhecidos distinguindo a forma exterior com que muitas vezes é pela comunidade científica, configurando o que ele de- abordado tal tema (como técnicas e instrumentos) do nomina paradigma. sentido generoso de pensar a metodologia como a arti- Porém, para Kuhn, o progresso da ciência se faz pela culação entre conteúdos, pensamentos e existência. quebra dos paradigmas, pela colocação em discussão Da forma como tratamos neste trabalho, a metodo- das teorias e dos métodos, acontecendo assim uma ver- logia inclui as concepções teóricas de abordagem, dadeira revolução. conjunto de técnicas que possibilitam a construção da método, dizia o historicista Dilthey (1956), é realidade e o sopro divino do potencial criativo do necessário por causa de nossa Para investigador. sermos mais generosos, diríamos, como não somos gê- Enquanto abrangência de concepções teóricas de nios, precisamos de parâmetros para caminhar no conhe- abordagem, a teoria e a metodologia caminham juntas, cimento. Porém, ainda que simples mortais, a marca de intrincavelmente inseparáveis. Enquanto conjunto de criatividade é nossa "griffe" em qualquer trabalho de técnicas, a metodologia deve dispor de um instrumental investigação. claro, coerente, elaborado, capaz de encaminhar os im- Entendemos por pesquisa a atividade básica da passes teóricos para desafio da prática. Ciência na sua indagação e construção da realidade. É a endeusamento das técnicas produz ou um forma- pesquisa que alimenta a atividade de ensino e a atualiza lismo árido, ou respostas estereotipadas. Seu desprezo, frente à realidade do mundo. Portanto, embora seja uma ao contrário, leva ao empirismo sempre ilusório em suas prática teórica, a pesquisa vincula pensamento e ação. conclusões, ou a especulações abstratas e estéreis. Ou seja, nada pode ser intelectualmente um problema, Nada substitui, no entanto, a criatividade do pesqui- se não tiver sido, em primeiro lugar, um problema da sador. Feyerabend, num trabalho denominado "Contra vida prática. As questões da investigação estão, portan- o método" (1989), observa que o progresso da ciência to, relacionadas a interesses e circunstâncias socialmen- está associado mais à violação das regras do que à sua 16 17Pesquisa Social Pesquisa Social te condicionadas. São frutos de determinada inserção no d) e também iluminam a análise dos dados organi- real, nele encontrando suas razões e seus objetivos. zados, embora não possam direcionar totalmente essa Toda investigação se inicia por um problema com atividade, sob pena de anulação da originalidade da uma questão, com uma dúvida ou com uma pergunta, pergunta inicial. articuladas a conhecimentos anteriores, mas que tam- Em resumo, a teoria é um conhecimento de que nos bém podem demandar a criação de novos referenciais. servimos no processo de investigação como um sistema Esse conhecimento anterior, construído por outros organizado de proposições, que orientam a obtenção de estudiosos e que lançam luz sobre a questão de nossa dados e a análise dos mesmos, e de conceitos, que pesquisa, é chamado teoria. A palavra teoria tem origem veiculam seu sentido. no verbo grego "theorein", cujo significado é "ver". A Proposições são declarações afirmativas sobre fe- associação entre "ver" e "saber" é uma das bases da nômenos e/ou processos. Para alguns autores, a propo- ciência ocidental. sição é uma hipótese comprovada. As proposições de A teoria é construída para explicar ou compreender uma teoria devem ter três principais características: um fenômeno, um processo ou um conjunto de fenôme- a) serem capazes de sugerir questões reais; nos e processos. Este conjunto citado constitui o domí- b) serem inteligíveis; nio empírico da teoria, pois esta tem sempre um caráter abstrato. c) representarem relações abstratas entre coisas, fatos, fenômenos e/ou processos. Nenhuma teoria, por mais bem elaborada que seja, dá conta de explicar todos os fenômenos e processos. Ao se utilizarem de um conjunto de proposições investigador separa, recorta determinados aspectos sig- logicamente relacionadas, a teoria busca uma ordem, nificativos da realidade para trabalhá-los, buscando in- uma sistemática, uma organização do pensamento, sua terconexão sistemática entre eles. articulação com o real concreto, e uma tentativa de ser compreendida pelos membros de uma comunidade que Teorias, portanto, são explicações parciais da reali- seguem o mesmo caminho de reflexão e ação. dade. Cumprem funções muito importantes: Se quisermos, portanto, trilhar a carreira de pesqui- a) colaboram para esclarecer melhor o objeto de sador, temos de nos aprofundar nas obras dos diferentes investigação; autores que trabalham temas que nos preocupam, b) ajudam a levantar as questões, o problema, as inclusive dos que trazem proposições com as quais perguntas e/ou as hipóteses com mais propriedade; ideologicamente não concordamos. c) permitem maior clareza na organização dos da- A busca de compreensão do campo científico que dos; nos é pertinente, já trilhado por antecessores e contem- 18 19Pesquisa Social Pesquisa Social porâneos, nos alça a membros de sua comunidade e nos permita sua compreensão pelos interlocutores partici- faz ombrear, lado a lado com eles, as questões funda- pantes da mesma área de interesse. mentais existentes, na atualidade, sobre nossa área de investigação. Ou seja, a teoria não é só o domínio do que Kaplan (1972) fala da formulação de conceitos em vem antes para fundamentar nossos caminhos, mas é diferentes níveis de abstração. É importante comentá-lo também um artefato nosso como investigadores, quando completando as observações anteriores: concluímos, ainda que provisoriamente, desafio de a) Conceitos de observação direta são os que se uma pesquisa. colocam num grau bastante operacional. Servem sobre- No processo de pesquisa trabalhamos com a lingua- tudo para a etapa descritiva de uma investigação; gem científica das proposições que são construções b) Conceitos de observação indireta são os que lógicas; e conceitos que são construções de sentido. articulam os detalhes da observação empírica, relacio- As funções dos conceitos podem ser classificadas nando-os. Nesses dois primeiros casos, temos conceitos em cognitivas, pragmáticas e comunicativas. Eles ser- construídos a partir do campo empírico. vem para ordenar os objetos e os processos e fixar c) Conceitos teóricos são os que articulam proposi- melhor o recorte do que deve ou não ser examinado e ções e se colocam no plano da abstração. construído. Lembremo-nos do fato de que os conceitos teóricos Em seu aspecto cognitivo, conceito é delimitador. não são simples jogo de palavras. Como qualquer lin- Por exemplo, se decidimos analisar a influência da guagem, devem ser construídos recuperando as dimen- AIDS no comportamento de adolescentes do sexo femi- sões históricas e até ideológicas de sua elaboração. Cada nino de uma escola X, turma Y, eliminamos todas as corrente teórica tem seu próprio acervo de conceitos. outras possibilidades. Para entendê-los, temos que nos apropriar do contexto Enquanto valorativos, os conceitos determinam em que foram gerados e das posições dos outros autores com que conotações o pesquisador vai trabalhar. Ou com quem o pesquisador dialoga ou a quem se opõe. seja, que corrente teórica adotará na interpretação do comportamento adolescente e da AIDS, por exemplo. 3. A PESQUISA QUALITATIVA Na sua função pragmática, conceito tem que ser operativo, ou seja, ser capaz de permitir ao investigador A pesquisa qualitativa responde a questões muito trabalhar com ele no campo. particulares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com Por fim, no seu caráter comunicativo, o conceito um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou deve ser de tal forma claro, específico e abrangente que seja, ela trabalha com o universo de significados, moti- 20 21Pesquisa Social Pesquisa Social vos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que cor- fundamentos da pesquisa quantitativa nas ciências so- responde a um espaço mais profundo das relações, dos ciais são os próprios princípios clássicos utilizados nas processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos ciências da natureza: à operacionalização de variáveis. a) o mundo social opera de acordo com leis causais; Não existe um entre "qualitativo- b) o alicerce da ciência é a observação sensorial; em que o primeiro termo seria o lugar da c) a realidade consiste em estruturas e instituições "intuição", da "exploração" e do "subjetivismo"; e o identificáveis enquanto dados brutos por um lado e segundo representaria espaço do científico, porque crenças e valores por outro. Estas duas ordens se corre- traduzido "objetivamente" e em "dados lacionam para fornecer generalizações e regularidades; A diferença entre qualitativo-quantitativo é de natu- d) o que é real são os dados brutos; valores e crenças reza. Enquanto cientistas sociais que trabalham com são dados subjetivos que só podem ser compreendidos estatística apreendem dos fenômenos apenas a região através dos primeiros. "visível, ecológica, morfológica e concreta", a aborda- No cerne da defesa do método quantitativo enquanto gem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significa- suficiente para explicarmos a realidade social está a dos das ações e relações humanas, um lado não questão da objetividade. Para os positivistas, a análise perceptível e não captável em equações, médias e esta- social seria objetiva se fosse realizada por instrumentos tísticas. padronizados, pretensamente neutros. A linguagem das conjunto de dados quantitativos e qualitativos, variáveis ofereceria a possibilidade de expressar gene- porém, não se opõem. Ao contrário, se complementam, ralizações com precisão e objetividade. Os positivistas pois a realidade abrangida por eles interage dinamica- atribuem à imaturidade das ciências sociais sua incapa- mente, excluindo qualquer dicotomia. cidade de prever e determinar a ação humana. Essas afirmações aqui colocadas, no entanto, não Em oposição ao Positivismo, a Sociologia Com- são pacíficas. Elas correspondem a uma postura teórica preensiva responde de forma diferente à questão sobre e se opõem a outras correntes de pensamento como, por o qualitativo. Essa corrente teórica, como o próprio exemplo, a positivista. nome indica, coloca como tarefa central das ciências A principal influência do Positivismo nas ciências sociais a compreensão da realidade humana vivida so- sociais foi a utilização dos termos de tipo matemático cialmente. Em suas diferentes manifestações, como na para a compreensão da realidade. Sua conseqüência é a Fenomenologia, na Etnometodologia, no Interacionis- apropriação da linguagem de variáveis para especificar mo Simbólico, o significado é o conceito central de atributos e qualidades do objeto de investigação. Os investigação. 22 23Pesquisa Social Pesquisa Social Num embate frontal com o Positivismo, a Sociolo- contrar, na parte, a compreensão e a relação com o todo; gia Compreensiva propõe a subjetividade como fun- e a interioridade e a exterioridade como constitutivas dos damento do sentido da vida social e defende-a como fenômenos. constitutiva do social e inerente à construção da objeti- Desta forma, considera que o fenômeno ou processo vidade nas ciências sociais. social tem que ser entendido nas suas determinações e Os autores que seguem tal corrente não se preocu- transformações dadas pelos sujeitos. Compreende uma pam em quantificar, mas, sim, em compreender e expli- relação intrínseca de oposição e complementaridade car a dinâmica das relações sociais que, por sua vez, são entre o mundo natural e social, entre o pensamento e a depositárias de crenças, valores, atitudes e hábitos. Tra- base material. Advoga também a necessidade de se balham com a vivência, com a experiência, com a coti- trabalhar com a complexidade, com a especificidade e dianeidade e também com a compreensão das estruturas com as diferenciações que os problemas e/ou "objetos e instituições como resultados da ação humana objetiva- sociais" apresentam. da. Ou seja, desse ponto de vista, a linguagem, as práti- É essa posição que tomamos neste trabalho, embora cas e as coisas são inseparáveis. saibamos que ela é mais um ideal que perseguimos do Várias críticas têm sido feitas às teorias acima colo- que uma realidade que conquistamos. cadas. Ao Positivismo se lhe contesta sobretudo a pos- Embora não coloquemos oposição entre pesquisa tura e a prática de restringir conhecimento da realidade quantitativa e qualitativa, só dela trataremos neste tra- social ao que pode ser observado e quantificado e de balho para conseguirmos dar aos leitores instrumentos transferir para a utilização do método a questão da mais precisos de investigação. Sobre a pesquisa quanti- objetividade. Aos adeptos da Sociologia Compreensiva tativa, haverá necessidade de um aprofundamento pos- as críticas enfatizam empirismo e o subjetivismo dos terior. investigadores que confundem que percebem e a fala que ouvem com a verdade científica e o envolvimento emocional do pesquisador com seu campo de trabalho. 4. CICLO DA PESQUISA A abordagem da Dialética faria um desempate nas correntes colocadas anteriormente. Ela se propõe a abar- Diferentemente da arte e da poesia que se concebem car o sistema de relações que constrói, o modo de na inspiração, a pesquisa é um labor artesanal, que se conhecimento exterior ao sujeito, mas também as repre- não prescinde da criatividade, se realiza fundamental- sentações sociais que traduzem o mundo dos significa- mente por uma linguagem fundada em conceitos, pro- dos. A Dialética pensa a relação da quantidade como posições, métodos e técnicas, linguagem esta que se uma das qualidades dos fatos e fenômenos. Busca en- constrói com um ritmo próprio e particular. A esse ritmo 24 25Pesquisa Social Pesquisa Social denominamos ciclo da pesquisa, ou seja, um processo Certamente o ciclo nunca se fecha pois toda pesqui- de trabalho em espiral que começa com um problema ou sa produz conhecimentos afirmativos e provoca mais uma pergunta e termina com um produto provisório questões para aprofundamento posterior. capaz de dar origem a novas interrogações. A idéia do ciclo se solidifica não em etapas estan- processo começa com que denominamos fase ques, mas em planos que se complementam. Porém, ela exploratória da pesquisa, tempo dedicado a interrogar- suscita também a delimitação do trabalho no tempo, nos preliminarmente sobre objeto, os pressupostos, as através de um cronograma. Ao mesmo tempo, portanto, teorias pertinentes, a metodologia apropriada e as ques- trabalhamos com um movimento de valorização das tões operacionais para levar a cabo trabalho de campo. partes e da integração no todo; e com a visão de um Seu foco fundamental é a construção do projeto de produto provisório integrando a historicidade do proces- investigação. so social e da construção teórica. Em seguida, estabelece-se o trabalho de campo que consiste no recorte empírico da construção teórica ela- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS borada no momento. Essa etapa combina entrevistas, observações, levantamentos de material documental, BRUYNE, P. et al. Dinâmica da pesquisa em ciên- bibliográfico, instrucional etc. Ela realiza um momento cias sociais. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, relacional e prático de fundamental importância explo- 1991. ratória, de confirmação ou refutação de hipóteses e construção de teorias. DEMO, P. Metodologia científica em ciências so- ciais. ed. São Paulo, Atlas, 1981. Por fim, temos que elaborar o tratamento do mate- rial recolhido no campo, subdividindo-se no seu interior DILTHEY, W. Introducción a las ciencias del espi- ritu. Madrid, Revista de Occidente, 1956. em: a) ordenação; FEYERABEND, P. Contra método. Rio de Janei- ro, Francisco Alves, 1989. b) classificação; KAPLAN, A conduta na pesquisa. São Paulo, c) análise propriamente dita. Herder/EDUSP, 1972. o tratamento do material nos conduz à teorização KUNH, T. Estrutura das revoluções científicas. São sobre os dados, produzindo o confronto entre a aborda- Paulo, Perspectiva, 1978. gem teórica anterior e o que a investigação de campo aporta de singular como contribuição. LÊNIN, W. Cahiers philosophiques. Paris, Socia- les, 1965. 27 26Pesquisa Social Pesquisa Social LÉVY-STRAUSS, C. "Aula Inaugural". In: Alba HUGHES, G.A. Filosofia da pesquisa social. Rio de Zaluar (org.). Desvendando máscaras sociais. Rio de Janeiro, Zahar, 1983. Janeiro, Francisco Alves, 1975, p. 211-244. Este livro traz uma contribuição fundamental para MINAYO, M.C.S. 0 Desafio do conhecimento, se entender as correntes de pensamento filosóficas que pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo-Rio de Janei- se projetam nas teorias sociológicas e se materializam ro, Hucitec-ABRASCO, 1992. nas investigações sociais. Numa linguagem acessível, o autor privilegia em suas análises as fontes positivistas e humanistas do conhecimento. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS KAUFMANN, F. Metodologia das ciências sociais. Rio COMENTADAS de Janeiro, Francisco Alves, 1977. livro propõe-se a trabalhar com o conceito de BRUYNE, P. et al. Dinâmica da pesquisa em ciências Metodologia Geral, buscando explicar os princípios do sociais. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991. controle científico. Para isso, o autor trabalha com pares Este livro centraliza sua reflexão na análise da cien- de questões, tais como: conhecimento e realidade; lin- tificidade das ciências sociais, nas condições de produ- guagem e significado; pensamento pré-científico; obje- ção do conhecimento e apresenta uma visão global do tivos da ciência e regras de preferência; verdade e processo de pesquisa. Os autores mostram que toda probabilidade; vida e pensamento. Analisa ainda a apa- construção científica se movimenta em quatro pólos: rente oposição entre ciências naturais e ciências sociais; epistemológico, teórico, morfológico e técnico, pólos objetividade e problemas de valor. esses não estanques, mas articulados. MILLS, W. A imaginação sociológica. ed. Rio de DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. Janeiro, Zahar, 1972. ed. São Paulo, Atlas, 1981 Este livro é uma reflexão fundamental sobre as Introdução à metodologia científica. São Paulo, ciências sociais, seu lugar e seu papel na sociedade Atlas, 1985. moderna. autor se horroriza com a pobreza das pes- o autor nesses dois livros discute as questões fun- quisas sociais de sua época, faz uma crítica cultural, damentais da ciência, especifica a problemática das epistemológica e política da sociologia. Num estilo de Ciências Sociais, reflete sobre as correntes de pensa- grande mestre, Wright Mills nos convida a fazer uso dos mento dominantes da sociologia e as implicações de sua métodos, das técnicas, mas sobretudo da imaginação abordagem. Além das questões gerais, trabalha temas de capaz de nos ajudar a construir uma verdadeira profundo interesse, como a cientificidade, o campo cien- tífico, e as condições de verificação, validade e confia- bilidade do conhecimento. 28 29CAPÍTULO II A CONSTRUÇÃO DO PROJETO DE PESQUISA Suely Ferreira Deslandes* 1. PROJETO CIENTÍFICO: ONDE SE INSERE NO PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO? Quando tratamos da pesquisa qualitativa, freqüen- temente as atividades que compõem a fase exploratória, além de antecederem à construção do projeto, também a sucedem. Muitas vezes, por exemplo, é necessário uma aproximação maior com o campo de observação para melhor delinearmos outras questões, tais como os ins- trumentos de investigação e o grupo de pesquisa. Tendo uma visão mais ampla, podemos dizer que a construção do projeto é, inclusive, uma etapa da fase exploratória. A fase exploratória de uma pesquisa é, sem dúvida, um de seus momentos mais importantes. Pode, até mes- mo, ser considerada uma pesquisa exploratória (Mi- * Socióloga, Mestranda em Saúde Pública, Pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde ENSP/FIOCRUZ. 31Pesquisa Social Pesquisa Social nayo, 1992). Compreende várias fases da construção de b) crítica porque devemos estabelecer um diálogo uma trajetória de investigação: reflexivo entre a teoria e o objeto de investigação por a) a escolha do tópico de investigação; nós escolhido; b) a delimitação do problema; c) ampla porque deve dar conta do "estado" do conhecimento atual sobre problema; c) a definição do objeto e dos objetivos; d) a construção do marco teórico conceitual; 2) de articulação criativa, seja na delimitação do objeto de pesquisa, seja na aplicação de conceitos; e) a escolha dos instrumentos de coleta de dados; 3) de humildade, ou seja, reconhecendo que todo f) a exploração de campo. conhecimento científico tem sempre um caráter: Importante alertarmos que uma fase exploratória a) aproximado, isto é, se faz sempre a partir de conduzida de maneira precária trará grandes dificulda- outros conhecimentos sobre os quais se questiona, se des à investigação como um todo. aprofunda ou se critica; Então, quando termina a fase exploratória de uma b) provisório; pesquisa? Formalmente, a fase exploratória termina quando o pesquisador definiu seu objeto de pesquisa, c) inacessível em relação à totalidade do objeto, isto construiu o marco teórico conceitual a ser empregado, é, as idéias ou explicações que fazemos da realidade definiu os instrumentos de coleta de dados, escolheu o estudada são sempre mais imprecisas do que a própria espaço e o grupo de pesquisa, definiu a amostragem e realidade; estabeleceu estratégias para entrada no campo. Daí con- d) vinculada à vida real a rigor, um problema clui-se que não é possível determinar com tanto rigor intelectual surge a partir de sua existência na vida real e seu término. Contudo, é imprescindível que o pesquisa- não "espontaneamente"; dor programe o final desta etapa, incluindo-a num cro- e) condicionado historicamente (Minayo, 1992). nograma. A fase exploratória se alicerça em muitos esforços: Seguiremos o texto optando por detalhar melhor as 1) de pesquisa bibliográfica disciplinada, crítica e etapas da fase exploratória já no item construção do projeto. Entendemos que esta forma de proceder agiliza ampla: a dimensão prática para a construção das etapas neces- a) disciplinada porque devemos ter uma prática sárias à investigação que deverão ser esboçadas no pro- sistemática os fichamentos são um bom procedimento; jeto. 32 33Pesquisa Social Pesquisa Social 2. CONSTRUÇÃO DO PROJETO científico: ele é sempre histórico e socialmente condi- cionado. o pesquisador opera escolhas (mesmo sem ter 2.1. Introdução a percepção clara disto), tendo como horizontes sua posição social e a mentalidade de um momento histórico Quando escrevemos um projeto, estamos mapeando concreto. de forma sistemática um conjunto de recortes. Estamos definindo uma cartografia de escolhas para abordar a A dimensão científica de um projeto de pesquisa articula estas duas dimensões anteriores. realidade (o que pesquisar, como, por quê). Esta etapa de reconstrução da realidade, entendida aí enquanto a A pesquisa científica ultrapassa o senso comum definição de um objeto de conhecimento científico e as (que por si é uma reconstrução da realidade) através do maneiras para investigá-lo, traz em si muitas dimensões. método científico. método científico permite que a Ao elaborarmos um projeto científico, estaremos lidan- realidade social seja reconstruída enquanto um objeto do, ao mesmo tempo, com pelo menos três dimensões do conhecimento, através de um processo de categori- importantes que são interligadas. zação (possuidor de características específicas) que une dialeticamente o teórico e o empírico. A dimensão técnica trata das regras reconhecidas como científicas para a construção de um projeto, isto é, Neste capítulo estaremos dando ênfase à dimensão como definir um objeto, como abordá-lo e como esco- técnica na questão da construção de um projeto. Estamos lher os instrumentos mais adequados para a investiga- propondo uma introdução a este tema, entendendo que ção. Sendo que técnica sempre diz respeito à montagem dominar a técnica é também viabilizar o acesso ao conhecimento. de instrumentos (Demo, 1991), o projeto de pesquisa é visto neste sentido como um instrumento da investiga- 2.2. que é um projeto de pesquisa? ção. A dimensão ideológica se relaciona às escolhas do Fazemos um projeto de pesquisa para mapear um pesquisador. Quando definimos o que pesquisar, a partir caminho a ser seguido durante a investigação. Busca- de que base teórica e como pesquisar, estamos fazendo mos, assim, evitar muitos imprevistos no decorrer da escolhas que são, mesmo em última instância, ideológi- pesquisa que poderiam até mesmo inviabilizar sua rea- cas. A neutralidade da investigação científica é um mito. lização. Outro papel importante é esclarecer para o Não estamos, é certo, nos referindo a uma visão próprio investigador os rumos do estudo (o que pesqui- sar, como, por quanto tempo etc.). Além disso, um maniqueísta, onde o pesquisador reconstrói a realidade com "segundas intenções políticas". Estamos, sim, fa- pesquisador necessita comunicar seus propósitos de pes- quisa para que seja aceita na comunidade científica e lando de uma característica intrínseca ao conhecimento para obter financiamentos. "meio de comunicação" 34 35Pesquisa Social Pesquisa Social reconhecido no mundo científico é o projeto de pesquisa. projeto de pesquisa deve esclarecer sobre os vá- Através deste, outros especialistas poderão tecer comen- rios elementos que irão compor a investigação. tários e críticas, contribuindo para um melhor encami- 2.3. Os elementos constitutivos de um projeto de nhamento da pesquisa. É importante lembrarmos que a pesquisa pesquisa científica engloba sempre uma instância cole- tiva de reflexão. A. Definição do tema e escolha do problema ou Ao alcançar a forma de projeto, o pesquisador já Definição do objeto empreendeu alguns esforços anteriores (Holanda, 1975): a) Estudos preliminares, cujo objetivo maior é a tema de uma pesquisa indica uma área de interes- definição do problema, possibilitando ao investigador se a ser investigada. Trata-se de uma delimitação ainda perceber os alcances e limites da pesquisa proposta; b) bastante ampla. Por exemplo, quando alguém diz que Realização de um anteprojeto, isto é, um estudo mais deseja estudar a questão da conjugal" ou a planejado dos aspectos que comporão a pesquisa, defi- "prostituição está se referindo ao assunto de nidos de forma mais ampla, sem grande rigor ainda. seu interesse. Contudo, é necessário para a realização de projeto de pesquisa deve, fundamentalmente, res- uma pesquisa um recorte mais "concreto", mais preciso ponder as seguintes perguntas (Barros e Lehfeld, 1986; deste assunto. Ao formularmos perguntas ao tema e ao Rudio, 1986): assunto proposto, estaremos construindo sua problema- o que pesquisar? (Definição do problema, hipóte- tização. ses, base teórica e conceitual); A definição do problema ou objeto de pesquisa às por que pesquisar? (Justificativa da escolha do vezes é tarefa difícil. Embora possa parecer uma "recaí- da" positivista, vale lembrar que uma maneira de facili- problema); tar este primeiro momento de impasse é a descrição do para que pesquisar? (Propósitos do estudo, seus problema especulando sobre seu campo de observação objetivos); em relação a algumas variáveis (Rudio, 1986). como pesquisar? (Metodologia); Esta medida deve ser entendida como provisória quando pesquisar? (Cronograma de execução); para melhor aclarar o objeto proposto e não como "mol- com que recursos? (Orçamento); de" restritivo. Passemos ao exemplo. pesquisado por quem? (Equipe de trabalho, pes- Quando dizemos que vamos estudar a "violência quisadores, coordenadores, orientadores). conjugal", delimitamos aí, muito amplamente, o campo de observação: casais (legalmente casados ou não). Se 36 37Pesquisa Social Pesquisa Social acrescentamos que o interesse é por "maridos que espan- b) 0 problema deve ser claro e preciso. Exemplo de cam suas esposas ou companheiras", conferimos ao imprecisão: "Como funciona a mente dos maridos que assunto uma variável a ser observada. Se afirmamos espancam suas esposas?" Parece pouco provável que ainda que desejamos saber como tais espancamentos são possa ser respondida pergunta tão vasta. vistos ou representados pelas mulheres vitimizadas, c) Deve ser delimitado a uma dimensão variável. apontamos outra variável. Expressamos então o intuito problema é, às vezes, formulado de maneira muito am- de relacionar duas variáveis: o espancamento que mari- pla, impossível de ser investigado. Por exemplo, alguém dos realizam em suas esposas e a representação destas deseja estudar o que pensam as mulheres sobre o fato de sobre este acontecimento. maridos espancarem suas esposas. Contudo, nunca con- Desta forma poderíamos enunciar o tema já proble- seguirá saber que pensam todas as mulheres sobre o matizado desta pesquisa, ou seja, nosso objeto: re- assunto. Então deverá restringir-se, por exemplo, à opi- presentação sobre espancamentos elaborada a partir de nião daquelas mulheres que sofrem tal problema, numa mulheres maltratadas por seus esposos ou companhei- localidade específica. ros". Às vezes, problemas propostos não se encaixam a Um problema decorre, portanto, de um aprofunda- estas regras. Um caso típico é o dos temas pouco estu- mento do tema. Ele é sempre individualizado e especí- dados ou muito recentes que carecem de pesquisas ex- fico. ploratórias posteriores à elaboração do projeto. Diversos autores sugerem que o problema deve ter A escolha de um problema merece que o pesquisa- algumas características. As mais plausíveis seriam (Gil, dor faça sérias indagações (Rudio, 1986): 1988): a) Trata-se de um problema original? a) Deve ser formulado como pergunta. Esta maneira b) problema é relevante? parece ser a mais fácil para se formular um problema, além do que facilita sua identificação por quem consulta c) Ainda que seja "interessante", é adequado para mim? o projeto de pesquisa. Segundo, em nosso exemplo anterior, teríamos: qual a representação sobre espanca- d) Tenho hoje possibilidades reais para executar tal estudo? mentos é articulada pelas mulheres maltratadas por es- posos ou companheiros? Ou se optamos por um estudo e) Existem recursos financeiros para a investigação mais exploratório do tema, poderíamos dizer: "Quais os deste tema? fatores que levam os maridos a espancarem suas espo- f) Terei tempo suficiente para investigar tal questão? sas? 38 39Pesquisa Social Pesquisa Social B. Definição da base teórica e conceitual provisórias a respeito de determinado problema em es- tudo (Minayo, 1992). A definição teórica e conceitual é um momento crucial da investigação científica. É sua base de susten- Um estudo pode articular uma ou mais hipóteses. As tação. hipóteses são elaboradas a partir de fontes diversas, tais como a observação, resultados de outras pesquisas, teo- Remetendo este item a uma dimensão técnica, de- rias ou mesmo intuição (Gil, 1987). vemos dizer que é imprescindível a definição clara dos pressupostos teóricos, das categorias e conceitos a serem Possui também algumas características para ser utilizados. considerada uma "hipótese Devemos tomar cuidado para não reescrevermos a a) Deve ter conceitos claros. Por exemplo, a hipóte- obra dos autores que embasam a teoria escolhida, re- se de que "as mulheres dependentes de seus maridos construindo um verdadeiro tratado e certamente de me- tendem a justificar os atos violentos destes" deixa muitas nor qualidade. Devemos, então, ser sintéticos e ambigüidades. conceito "dependentes" está se refe- objetivos, estabelecendo, primordialmente, um diálogo rindo a que realidade? Psicológica, econômica ou cultu- ral? entre a teoria e o problema a ser investigado. b) Deve ser específica. Muitas hipóteses, apesar de C. Formulação de hipóteses claras, são expressas em termos muito amplos. Reto- mando nosso exemplo, ao formular a hipótese que "os A inclusão das hipóteses no campo da pesquisa maridos que batem em suas esposas, na sua maioria, social é muitas vezes criticada como um comportamento detêm um status econômico baixo", abarca uma defini- positivista, onde as conclusões de uma pesquisa deve- ção muito ampla. Deve-se especificar em termos mais riam sempre resultar de "respostas objetivas" construí- concretos o conceito "status econômico" referindo-se das ao longo da investigação. talvez à remuneração, ocupação, nível educacional, ren- Buscaremos aqui, relativizando estes parâmetros da "per capita" da família. objetivistas, encarar a formulação de hipóteses como c) Não deve se basear em valores morais. Algumas uma tentativa de criar indagações a serem verificadas na hipóteses lançam adjetivos duvidosos, como "bom", investigação. Portanto, consideramos que este item pode "mau", "prejudicial" etc. ser substituído ou encarado como uma formulação de d) último item e o mais importante diz respeito a pressupostos ou de questões. Enfim, como um diálogo que toda hipótese deva ter como base uma teoria que a que se estabelece entre o olhar do pesquisador e a sustente. realidade a ser investigada. São, em suma, afirmações 40 41Pesquisa Social Pesquisa Social D. Justificativa formal dos métodos e técnicas a serem utilizados, indica as opções e a leitura operacional que o pesquisador fez Trata-se da relevância, do por que tal pesquisa deve do quadro teórico. ser realizada. Quais motivos a justificam? Que contri- A metodologia não só contempla a fase de explora- buições para a compreensão, intervenção ou solução ção de campo (escolha do espaço da pesquisa, escolha para o problema trará a realização de tal pesquisa? do grupo de pesquisa, estabelecimento dos critérios de A forma de justificar em pesquisa que produz maior amostragem e construção de estratégias para entrada em impacto é aquela que articula a relevância intelectual e campo) como a definição de instrumentos e procedimen- prática do problema investigado à experiência do inves- tos para análise dos dados. tigador. Definiremos, sinteticamente, os principais elemen- tos da metodologia. E. Objetivos a) Definição da amostragem. A pesquisa qualitativa Buscamos aqui responder ao que é pretendido com não se baseia no critério numérico para garantir sua a pesquisa, que metas almejamos alcançar ao término da representatividade. Uma pergunta importante neste item investigação. É fundamental que estes objetivos sejam é "quais indivíduos sociais têm uma vinculação mais possíveis de serem atingidos. Geralmente se formula um significativa para o problema a ser investigado?" A objetivo geral, de dimensões mais amplas, articulando-o amostragem boa é aquela que possibilita abranger a a outros objetivos mais específicos. totalidade do problema investigado em suas múltiplas dimensões (Minayo, 1992). Sugerimos a utilização dos verbos no infinitivo para b) Coleta de dados. Devemos definir as técnicas a a descrição dos objetivos. serem utilizadas tanto para a pesquisa de campo (entre- Por exemplo, podemos ter como objetivo: "Analisar vistas, observações, formulários, história de vida) como os fatores que desencadeiam ou predispõem a agressão para a pesquisa suplementar de dados, caso seja utilizada de maridos contra suas companheiras" ou "Conhecer as pesquisa documental, consulta a anuários, censos. Ge- opiniões das mulheres maltratadas por maridos sobre a ralmente se requisita que seja anexado ao projeto o violência por elas sofrida". roteiro dos instrumentos utilizados em campo. F. Metodologia c) Organização e análise de dados. Devemos des- crever com clareza como os dados serão organizados e Geralmente é uma parte complexa e deve requerer analisados. Por exemplo, as análises de conteúdo, de maior cuidado do pesquisador. Mais que uma descrição discurso, ou análise dialética são procedimentos possí- 42 43Pesquisa Social Pesquisa Social veis para a análise e interpretação dos dados e cada uma (revisão bibliográfica, montagem de instrumentos de destas modalidades preconiza um tratamento diferencia- coleta, pré-testes dos instrumentos, aplicação dos instru- do para a organização e sistematização dos dados. mentos e fase de análise). G. Custos ou orçamento I. Referências bibliográficas Este item estará presente somente nos projetos que Geralmente num projeto científico muitos autores e pleiteiam financiamento para sua realização. dados são citados. No corpo do projeto deve ser feita Geralmente os gastos são agrupados em duas cate- citação breve que possibilite maior agilização da leitura. gorias: gastos com pessoal e gastos com material perma- Em seguida, ao final do projeto todas as citações feitas nente, como máquinas, móveis e de consumo. serão listadas de forma integral num item à parte. Alguns lembretes importantes: Na realidade, existe uma grande variedade de nor- mas para a citação bibliográfica. Optaremos pela forma a) orçamento sugerido deve indicar algum meca- que consideramos a mais prática, ilustrando-a com nismo que o proteja da inflação; exemplos simples. b) A priori, devemos buscar saber que a entidade, Podemos citar literalmente, utilizando as aspas e à qual será enviado o projeto, financia e o que ela não reproduzindo fielmente o texto, ou fazer uma "apropria- financia. Por exemplo, algumas entidades financiadoras ção de idéias" de determinado autor. A primeira forma não subsidiam determinados gastos, como transportes ou materiais. é a mais rigorosa, pois dificulta apropriações indébitas das idéias daquele autor. Na segunda forma, enunciamos Um bom lembrete é saber que cada instituição fi- determinada idéia ou fato e colocamos entre parênteses nanciadora tem um formato específico de projeto. autor e ano de publicação. Da citação de um livro deverá constar (Eco, 1985): H. Cronograma 1. Nome e sobrenome do autor (ou organizador, ou projeto deve traçar tempo necessário para a autores); realização de cada uma das etapas propostas. Muitas 2. Título do livro e subtítulo, em grifo, sem aspas; tarefas podem, inclusive, ser realizadas simultaneamen- 3. Coleção, se for o caso; te. 4. Número da edição se houver mais de uma; A forma mais usual é a do gráfico, onde são cruzados 5. Cidade e edição se não constar, escrever "S.L." o tempo (mês 1, mês 2 etc.) e as tarefas da pesquisa (sem local); 44 45Pesquisa Social Pesquisa Social 6. Editor (editora); 6. Local, editora, data e número das páginas do 7. Data da edição se não constar, escrever "S.D." capítulo. (sem data); Assim: 8. Número de volumes, se for o caso; GIL, Antonio C. "Como redigir o projeto de pesqui- 9. Se for uma tradução, deverá então constar o título sa?" In: Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo, em original, o nome do tradutor, local da edição original Atlas, 1988, p. 144-149. e a editora, data e número de páginas. Contudo, este procedimento não é muito usual. J. Anexos Eis um exemplo: ECO, Umberto. Como se faz uma tese. ed. São Anexamos, sem numeração de páginas, os modelos Paulo, Perspectiva, 1985. dos instrumentos a serem utilizados na pesquisa. Incluí- mos aí também os guias para preenchimento dos instru- Suponhamos que alguém esteja citando um artigo mentos, mapas da área a ser investigada etc. São de revista, então deverá fazer constar: anexadas, enfim, aquelas informações que o pesquisa- 1. Nome e sobrenome do autor; dor julga necessárias para melhor compreensão do pro- 2. Título entre aspas; jeto. 3. Título da revista em grifo, sem aspas; 2.4. A formação de um projeto de pesquisa 4. Volume e número do fascículo; Após a descrição dos elementos que constituem um 5. Mês e ano; projeto, a próxima pergunta decerto é: "Qual a ordem e 6. Páginas onde consta o referido artigo. o agrupamento destes elementos na apresentação do Assim teríamos: projeto?" KIRCHNER, Walter. "The black Clinical A forma de apresentação pode variar muito confor- pediatrics. V. 5, n. 7, july, 1969, p. 432-436. me o pesquisador. Além disso, vários institutos de pes- Na citação de capítulo de livro de um único autor quisa adotam apresentação padronizada segundo deveriam figurar os seguintes elementos: modelos próprios. 1. Nome e sobrenome do autor; Apontaremos, então, um modelo operacional a ser apresentado na seguinte ordem: 2. Título do capítulo entre aspas; 1. Da primeira página deverão constar os seguintes 3. In; dados: 4. Título do livro em grifo; (a) Na margem superior, o nome do projeto; 5. Número do volume, se for o caso; (b) No centro, o nome do autor do projeto; 46 47Pesquisa Social Pesquisa Social (c) Na margem inferior, os dizeres "Projeto de Pes- (b) Deve ser objetiva. Assim, as questões serão quisa Apresentado à (nome da instituição) Como Requi- tratadas de maneira direta e simples. Evitemos as frases sito Parcial à Obtenção (de título tal, de longas. Como recomendação geral, apontamos o fato de que (d) No extremo da margem inferior, o local, o mês não devemos misturar os tempos de verbo nem os pro- e o ano. nomes pessoais. Se quisermos um estilo mais coloquial, Uma observação muito importante: o título do Pro- usaremos a primeira pessoa: eu ou nós. Empregamos jeto deve conter os conceitos fundamentais que alicer- freqüentemente uma forma mais impessoal, que é a çam a pesquisa. Deve ser uma síntese da investigação passiva. Por exemplo: "Encontra-se neste trabalho...". proposta. Estamos falando de um projeto de pesquisa, logo, o 2. Na segunda página deverá constar um índice com tempo verbal recomendado é o futuro uma vez que os capítulos ou itens e as respectivas páginas. indica uma intenção de pesquisa ainda a ser realizada. 3. Da terceira página em diante deverão constar os Esperamos, sinceramente, ter contribuído para a temas: diminuição de algumas dúvidas. Sabemos também que (a) Delimitação do problema; muitas outras surgirão. Logo, indicamos alguns textos (b) Objetivos; que podem ser de grande auxílio: (c) Justificativa; (a) Sobre citações bibliográficas: (d) Base Teórica e Pressupostos Conceituais e Hi- ECO, Umberto. Como se faz uma tese. ed. São Paulo, Perspectiva, 1985. póteses (ou questões e pressupostos); (e) Metodologia; (b) Sobre estilo da redação científica e citações bibliográficas: (f) Cronograma; BASTOS, Lília R.; PAIXÃO, Lyra; FERNANDES, (g) Estimativa de custos; Lucia M. Manual para a elaboração de projetos e (h) Bibliografia; relatórios de pesquisa, teses e dissertações. ed. Rio (i) Anexos. de Janeiro, Guanabara, 1982. Para finalizar este capítulo, lembramos que o estilo (c) Sobre como elaborar projetos de pesquisa: da redação obedece a algumas qualidades essenciais RICHARDSON, R.J. Pesquisa social: métodos e (Bastos e cols., 1982): técnicas. São Paulo, Atlas, 1985. (a) Deve ser clara, isto é, não deixar margem para RUDIO, Franz V. Introdução ao projeto de pesqui- ambigüidades. É bom evitar os rebuscamentos e excesso sa científica. ed. Petrópolis, Vozes, 1986. de termos. 48 49Pesquisa Social (d) Sobre metodologia e análise qualitativa: MINAYO, Maria Cecília de S.O Desafio do Conhe- CAPÍTULO III cimento: pesquisa qualitativa em saúde. Rio de Janeiro- São Paulo, ABRASCO-HUCITEC, 1992. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS TRABALHO DE CAMPO COMO BARROS, A.P.; LEHFELD, N.A.S. Fundamentos DESCOBERTA E CRIAÇÃO de metodologia. São Paulo, McGraw-Hill, 1986. BASTOS, L.R.; PAIXÃO, L.; FERNANDES, L.M. Manual para a elaboração de projetos, relatórios de pesquisa, teses e dissertações. ed. Rio de Janeiro, Guanabara, 1982. Otávio Cruz Neto* DEMO, P. Avaliação qualitativa. ed. São Paulo, Cortez, 1991 (Coleção Polêmicas do Nosso Tempo, V. 25). 1. INTRODUÇÃO ECO, U. Como se faz uma tese. ed. São Paulo, Perspectiva, 1985. Após termos definido, através de um projeto de GIL, A.C. Como elaborar projetos de pesquisa. São pesquisa, nosso objeto de estudo, surge a necessidade de Paulo, Atlas, 1987. selecionarmos formas de investigar esse objeto. Em HOLANDA, N. Planejamentos e projetos: uma in- Ciências Sociais, tendo como referência a pesquisa qua- trodução às técnicas do planejamento e elaboração de litativa, o trabalho de campo se apresenta como uma projetos. ed. Rio de Janeiro, APEC, 1975. possibilidade de conseguirmos não só uma aproximação MINAYO, M.C.S. desafio do conhecimento: pes- com aquilo que desejamos conhecer e estudar, mas quisa qualitativa em saúde. Rio de Janeiro-São Paulo, também de criar um conhecimento, partindo da realida- ABRASCO-HUCITEC, 1992. de presente no campo. RUDIO, F.V. Introdução ao projeto de pesquisa Demo (1991) observa que o cientista, em sua tarefa científica. ed. Petrópolis, Vozes, 1986. de descobrir e criar, necessita, num primeiro momento, Sociólogo, Mestre em Educação e Pesquisador Assistente do Depar- tamento de Ciências Sociais da Escola Nacional de Saúde Pública/FIOCRUZ. 50 51Pesquisa Social Pesquisa Social questionar. Esse questionamento é que nos permite ul- área de conhecimento. Ela visa criar novas questões num trapassar a simples descoberta para, através da criativi- processo de incorporação e superação daquilo que já se dade, produzir conhecimentos. Definindo bem o nosso encontra produzido. campo de interesse, nos é possível partir para um rico Além dessas considerações, podemos dizer que a diálogo com a realidade. Assim, o trabalho de campo pesquisa bibliográfica coloca frente a frente os desejos deve estar ligado a uma vontade e a uma identificação do pesquisador e os autores envolvidos em seu horizonte com o tema a ser estudado, permitindo uma melhor de interesse. Esse esforço em discutir idéias e pressupos- realização da pesquisa proposta. tos tem como lugar privilegiado de levantamento as Discutindo a importância do trabalho de campo, é bibliotecas, os centros especializados e arquivos. Nesse necessário ressaltarmos que muitos pesquisadores vêem caso, trata-se de um confronto de natureza teórica que essa tarefa como algo restrito a determinadas ciências, não ocorre diretamente entre pesquisador e atores so- tais como a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia e ciais que estão vivenciando uma realidade peculiar den- várias outras do campo das ciências sociais e humanas. tro de um contexto histórico-social. No entanto, algumas áreas das ciências têm como espaço de realização de uma pesquisa o laboratório do pesqui- Após essas observações, precisamos nos aproximar sador. Segundo nosso posicionamento a idéia de labora- mais da idéia de campo que pretendemos explicitar. tório se diferencia bastante do que vamos tratar sobre Num primeiro momento, realizar um trabalho de campo trabalho de campo. Em nossa percepção, a relação do pode nos reportar a uma fantasia um tanto quanto exó- pesquisador com os sujeitos a serem estudados é de tica. Pode nos fazer relembrar estudiosos que partiam extrema importância. Isso não significa que as diferentes para regiões distantes em busca de culturas diferentes, formas de investigação não sejam fundamentais e neces- para um árduo trabalho de compreensão dos distintos sárias. modos de vida desses povos. Essa percepção representa Para muitos pesquisadores, o trabalho de campo fica uma das possíveis dimensões da ida ao campo, uma vez circunscrito ao levantamento e à discussão da produção que as possibilidades e os limites das diversas realidades bibliográfica existente sobre o tema de seu interesse. existentes no cotidiano social permitem ao pesquisador Esse esforço de criar conhecimento não desenvolve o um infinito leque de procedimentos e descobertas. que originalmente consideramos como um trabalho de Com base em Minayo (1992), concebemos campo campo propriamente dito. Entretanto, somos da opinião de pesquisa como o recorte que pesquisador faz em que essa dinâmica é fundamental para qualquer tipo de termos de espaço, representando uma realidade empíri- pesquisa. Essa forma de investigar, além de ser indis- ca a ser estudada a partir das concepções teóricas que pensável para a pesquisa básica, nos permite articular fundamentam o objeto da investigação. A título de conceitos e sistematizar a produção de uma determinada exemplo, podemos citar, entre outros, o seguinte recorte: 52 53Pesquisa Social Pesquisa Social o estudo da percepção das condições de vida dos mora- ser facilitada através do conhecimento de moradores ou dores de um determinado bairro ou de uma favela. Para daqueles que mantêm sólidos laços de intercâmbio com esse estudo, a favela ou o bairro escolhido corresponde os sujeitos a serem estudados. De preferência, deve ser a um campo empiricamente determinado. uma aproximação gradual, onde cada dia de trabalho Além do recorte espacial, em se tratando de pesquisa seja refletido e avaliado, com base nos objetivos prees- social, o lugar primordial é o ocupado pelas pessoas e tabelecidos. É fundamental consolidarmos uma relação grupos convivendo numa dinâmica de interação social. de respeito efetivo pelas pessoas e pelas suas manifes- Essas pessoas e esses grupos são sujeitos de uma deter- tações no interior da comunidade pesquisada. minada história a ser investigada, sendo necessária uma Em segundo lugar, destacamos como importante a construção teórica para transformá-los em objetos de apresentação da proposta de estudo aos grupos envolvi- estudo. Partindo da construção teórica do objeto de dos. Trata-se de estabelecermos uma situação de troca. estudo, o campo torna-se um palco de manifestações de Os grupos devem ser esclarecidos sobre aquilo que intersubjetividades e interações entre pesquisador e gru- pretendemos investigar e as possíveis repercussões fa- pos estudados, propiciando a criação de novos conheci- voráveis advindas do processo investigativo. É preciso mentos. termos em mente que a busca das informações que Definido o objeto com uma devida fundamentação pretendemos obter está inserida num jogo cooperativo, teórica, construído instrumentos de pesquisa e delimita- onde cada momento é uma conquista baseada no diálogo do o espaço a ser investigado, faz-se necessário conce- e que foge à obrigatoriedade. Com isso, queremos afir- bermos a fase exploratória do campo para que possamos mar que os grupos envolvidos não são obrigados a uma entrar no trabalho propriamente dito. Seguindo esses colaboração sob pressão. Se o procedimento se dá dentro passos, devemos observar alguns cuidados relativos à dessa forma, trata-se de um processo de coerção que não entrada no trabalho de campo. permite a realização de uma efetiva interação. A relação com os atores no campo, como observa Zaluar (1985), implica no ato de cultivarmos um envol- 2. A ENTRADA NO CAMPO vimento compreensivo, com uma participação marcante em seus dramas diários. A autora citada diferencia essa Vários são os obstáculos que podem dificultar ou até posição de uma ação paternalista e não respeitosa para mesmo inviabilizar essa etapa da pesquisa. Sobre isso, com as pessoas envolvidas no estudo. faremos algumas considerações. Em primeiro lugar, Outro aspecto por nós destacado se refere à postura devemos buscar uma aproximação com as pessoas da do pesquisador em relação à problemática a ser estu- área selecionada para o estudo. Essa aproximação pode dada. Às vezes o pesquisador entra em campo conside- 54 55Pesquisa Social Pesquisa Social rando que tudo que vai encontrar serve para confirmar 3. A ENTREVISTA ENQUANTO TÉCNICA o que ele considera já saber, ao invés de compreender campo como possibilidade de novas revelações. Esse Entre as diversas formas de abordagem técnica do comportamento pode dificultar o diálogo com os ele- trabalho de campo, destacamos a entrevista e a observa- mentos envolvidos no estudo na medida em que permite ção participante. Por se tratar de importantes compo- posicionamentos de superioridade e de inferioridade nentes da realização da pesquisa qualitativa, tentaremos frente ao saber que se busca entender. Além disso, esse a seguir sistematizar aspectos relevantes sobre essas procedimento também gera constrangimentos entre pes- técnicas. Esses aspectos que envolvem a coleta de dados quisador e grupos envolvidos, podendo implicar no sur- qualitativos também podem ser encontrados em Chiz- gimento de falsos depoimentos e propiciando uma zotti (1991). posição de defesa das idéias e valores desses grupos. A entrevista é o procedimento mais usual no traba- Por último, somos da opinião que a opção pelo lho de campo. Através dela, o pesquisador busca obter trabalho de campo pressupõe um cuidado teórico-meto- informes contidos na fala dos atores sociais. Ela não dológico com a temática a ser explorada, considerando significa uma conversa despretensiosa e neutra, uma vez que o mesmo não se explica por si só. Afirmamos isso que se insere como meio de coleta dos fatos relatados por acreditarmos que a atividade de pesquisa não se pelos atores, enquanto sujeitos-objeto da pesquisa que restringe ao uso de técnicas refinadas para obtenção de vivenciam uma determinada realidade que está sendo dados. Assim, sublinhamos a idéia de que a teoria infor- focalizada. Suas formas de realização podem ser de ma o significado dinâmico daquilo que ocorre e que natureza individual e/ou coletiva. buscamos captar no espaço em estudo. Nesse sentido, a entrevista, um termo bastante ge- Para conseguirmos um bom trabalho de campo, há nérico, está sendo por nós entendida como uma conversa necessidade de se ter uma programação bem definida de a dois com propósitos bem definidos. Num primeiro suas fases exploratórias e de trabalho de campo propria- nível, essa técnica se caracteriza por uma comunicação mente dito. É no processo desse trabalho que são criados verbal que reforça a importância da linguagem e do e fortalecidos os laços de amizade, bem como os com- significado da fala. Já, num outro nível, serve como um promissos firmados entre o investigador e a população meio de coleta de informações sobre um determinado investigada, propiciando o retorno dos resultados alcan- tema científico. pesquisas. çados para essa população e a viabilidade de futuras Através desse procedimento, podemos obter dados objetivos e subjetivos. Os primeiros podem ser também obtidos através de fontes secundárias, tais como censos, estatísticas e outras formas de registros. Em contrapar- 56 57Pesquisa Social Pesquisa Social tida, o segundo tipo de dados se relaciona aos valores, experiência vivida; e a história de vida tópica, que às atitudes e às opiniões dos sujeitos entrevistados. focaliza uma etapa ou um determinado setor da expe- Em geral, as entrevistas podem ser estruturadas e riência em questão. não-estruturadas, correspondendo ao fato de serem Nesse procedimento metodológico, destacamos a mais ou menos dirigidas. Assim, torna-se possível tra- noção de entrevista em profundidade que possibilita um balhar com a entrevista aberta ou não-estruturada, onde diálogo intensamente correspondido entre entrevistador o informante aborda livremente o tema proposto; bem e informante. Para muitas pesquisas, a história de vida como com as estruturadas que pressupõem perguntas tem tudo para ser um ponto inicial privilegiado porque previamente formuladas. Há formas, no entanto, que permite ao informante retomar sua vivência de forma articulam essas duas modalidades, caracterizando-se retrospectiva, com uma exaustiva interpretação. Nela como entrevistas semi-estruturadas. geralmente acontece a liberação de um pensamento Aprofundando essas modalidades, temos ainda, en- crítico reprimido e que muitas vezes nos chega em tom tre outras, a discussão de grupo e a história de vida. No de confidência. É um olhar cuidadoso sobre a própria primeiro caso, sua aplicação se dá em uma ou mais vivência ou sobre determinado fato. Esse relato fornece sessões, em pequenos grupos de 6 a 12 componentes, um material extremamente rico para análises do vivido. com um animador que faz intervenções no decorrer das Nele podemos encontrar o reflexo da dimensão coletiva discussões. o papel desse animador não se restringe a partir da visão individual. meramente ao aspecto técnico. A relevância de sua atuação está na capacidade de interação com o grupo e de coordenação da discussão. A seleção dos participan- 4. A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE tes ocorre a partir de grupos com opiniões e idéias voltadas para o interesse da pesquisa. A discussão de A técnica de observação participante se realiza grupo visa complementar as entrevistas individuais e a através do contato direto do pesquisador com o fenôme- observação participante. no observado para obter informações sobre a realidade Em relação à história de vida, como estratégia de dos atores sociais em seus próprios contextos. obser- compreensão da realidade, sua principal função é retra- vador, enquanto parte do contexto de observação, esta- tar as experiências vivenciadas, bem como as definições belece uma relação face a face com os observados. Nesse fornecidas por pessoas, grupos ou organizações. Ela processo, ele, ao mesmo tempo, pode modificar e ser pode ser escrita ou verbalizada e abrange na versão de modificado pelo contexto. A importância dessa técnica Denzi, citado por Minayo (1992), os seguintes tipos: a reside no fato de podermos captar uma variedade de história de vida completa, que retrata todo o conjunto da situações ou fenômenos que não são obtidos por meio 58 59Pesquisa Social Pesquisa Social de perguntas, uma vez que, observados diretamente na capacidades de empatia e de observação por parte do própria realidade, transmitem o que há de mais impon- investigador e a aceitação dele por parte do grupo são derável e evasivo na vida real. fatores decisivos nesse procedimento metodológico, e A inserção do pesquisador no campo está relaciona- não são alcançados através de simples receitas. Um da com as diferentes situações da observação participan- maior aprofundamento sobre o assunto pode ser buscado te por ele desejada. Num pólo, temos a sua participação em Cicourel (1980), que aborda aspectos da teoria e do plena, caracterizada por um envolvimento por inteiro método em pesquisa de campo. em todas as dimensões de vida do grupo a ser estudado. Noutro, observamos um distanciamento total de parti- cipação da vida do grupo, tendo como prioridade so- 5. CONSOLIDANDO o TRABALHO DE CAMPO mente a observação. Ambos os extremos mencionados envolvem riscos que devem ser avaliados antes de serem A plena realização de um trabalho de campo requer, adotados. como vimos anteriormente, várias articulações que de- Entre esses pólos extremos encontramos variações vem ser estabelecidas pelo investigador. Uma dessas diz da técnica. Uma dessas variações diz respeito ao papel respeito à relação entre a fundamentação teórica do do pesquisador enquanto participante observador. Nessa objeto a ser pesquisado e o campo que se pretende situação, o pesquisador deixa claro para si e para o grupo explorar. A compreensão desse espaço da pesquisa não sua relação como sendo restrita ao momento da pesquisa se resolve apenas por meio de um domínio técnico. É de campo. Nesse sentido, ele pode desenvolver uma preciso que tenhamos uma base teórica para podermos participação no cotidiano do grupo estudado, através da olhar os dados dentro de um quadro de referências que observação de eventos do dia-a-dia. Outra variação se nos permite ir além do que simplesmente nos está sendo mostrado. refere ao pesquisador enquanto observador participante. Isso corresponde a uma estratégia complementar às Concordamos com Cardoso (1986) sobre a relevân- entrevistas, sendo que essa observação se dá de forma cia que deve ser dada ao trabalho de campo e sobre o rápida e superficial. respeito pelo dado empírico. Na visão da autora citada, Essas variações descritas só podem ser concebidas por melhor que seja a captação da realidade vivida, para fins de análise. Na realidade, nenhuma delas ocorre faz-se necessário um compromisso teórico-metodológi- puramente, salvo em condições especiais. co. A ênfase que devemos dar à dimensão teórico-me- todológica nos permite fugir do que podemos denominar As questões centrais da observação participante es- mito da técnica. tão relacionadas aos principais momentos da realização da pesquisa, sendo um deles a entrada em campo. As 60 61Pesquisa Social Pesquisa Social Nesse sentido, uma pesquisa não se restringe à ção, observamos que é possível trabalharmos com um utilização de instrumentos apurados de coleta de infor- sistema de anotação simultânea da comunicação ou mações para dar conta de seus objetivos. Para além dos fazermos uso de gravações. dados acumulados, o processo de campo nos leva à reformulação dos caminhos da pesquisa, através das Fotografias e filmagens se apresentam também descobertas de novas pistas. Nessa dinâmica investiga- como recursos de registro aos quais podemos recorrer. tiva, podemos nos tornar agentes de mediação entre a Esse registro visual amplia o conhecimento do estudo análise e a produção de informações, entendidas como porque nos proporciona documentar momentos ou situa- elos fundamentais. Essa mediação pode reduzir um pos- ções que ilustram o cotidiano vivenciado. sível desencontro entre as bases teóricas e a apresenta- uso da filmagem nos permite reter vários aspectos ção do material de pesquisa. do universo pesquisado, tais como: as pessoas, as mora- Outra articulação necessária se refere à interação dias, as festas e as reuniões. Essa técnica de documen- entre pesquisador e os atores sociais envolvidos no tação, que lida com os planos da imagem e da trabalho. Nesse processo, mesmo partindo de planos comunicação, vem sendo cada vez mais difundida. Com desiguais, ambas as partes buscam uma compreensão isso, não estamos dizendo que um bom trabalho de mútua. objetivo prioritário do pesquisador não é ser pesquisa deva ficar limitado ao registro visual, mas considerado um igual, mas ser aceito na convivência. afirmamos que esse registro assume um papel comple- Esse interagir entre pesquisador e pesquisados, que não mentar ao projeto como um todo. Porém, nada substitui se limita às entrevistas e conversas informais, aponta o olhar atento de um pesquisador de campo ao evasivo para a compreensão da fala dos sujeitos em sua ação. próprio da realidade das relações sociais. Por meio dessa compreensão somos capazes de Dentro da idéia de registro dos dados, destacamos o entender melhor os aspectos rotineiros, as relevâncias, uso do diário de campo. Como o próprio nome já diz, os conflitos, os rituais, bem como a delimitação dos esse diário é um instrumento ao qual recorremos em espaços público e privado. Essas considerações ba- qualquer momento da rotina do trabalho que estamos seiam-se no pressuposto de que os entrevistados não são realizando. Ele, na verdade, é um "amigo silencioso" ingênuos espectadores, nem subjetividades ao acaso ou que não pode ser subestimado quanto à sua importância. atores não-críticos. Nele diariamente podemos colocar nossas percepções, angústias, questionamentos e informações que não são Paralelamente às articulações a serem observadas, obtidas através da utilização de outras técnicas. surge como necessário, para nossa ação de pesquisa, o delineamento de algumas estratégias. Sobre o registro diário de campo é pessoal e intransferível. Sobre das falas dos atores sociais que participam da investiga- ele o pesquisador se debruça no intuito de construir detalhes que no seu somatório vai congregar os diferen- 62 63Pesquisa Social Pesquisa Social tes momentos da pesquisa. Demanda um uso sistemático para a pesquisa social, também trouxe novos temas para que se estende desde o primeiro momento da ida ao o debate e novos impasses metodológicos". campo até a fase final da investigação. Quanto mais rico CHIZZOTTI, A. Pesquisa em ciências humanas e so- for em anotações esse diário, maior será o auxílio que ciais. São Paulo, Cortez, 1991. oferecerá à descrição e à análise do objeto estudado. A obra abrange informações sistematizadas sobre trabalho de campo, em síntese, é fruto de um diversos aspectos da pesquisa. De forma sintética e momento relacional e prático: as inquietações que nos breve, o autor trata das principais interrogações que levam ao desenvolvimento de uma pesquisa nascem no fundamentam a prática da investigação social. Ressalta- universo do cotidiano. que atrai na produção do co- mos a parte dois de sua obra que aborda a estruturação nhecimento é a existência do desconhecido, é o sentido da pesquisa qualitativa, bem como a coleta dos dados da novidade e o confronto com que nos é estranho. correspondente. Essa produção, por sua vez, requer sucessivas aproxi- CICOUREL, A. "Teoria e método em pesquisa de cam- mações em direção ao que se quer conhecer. E pesqui- sador, ao se empenhar em gerar conhecimentos, não po". In: Zaluar, (org.). Desvendando máscaras so- ciais. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1980, p. 87-121. pode reduzir a pesquisa à denúncia, nem substituir os grupos estudados em suas tarefas político-sociais. Além do debate com "metodólogos" da pesquisa quantitativa, texto em questão aborda o universo da coleta de dados qualitativos, pressupondo "a existência REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS de uma comunidade entre o pesquisador e os sujeitos de COMENTADAS sua pesquisa". É sobre essa situação social específica a pesquisa de campo ou a observação participante que CARDOSO, R.C.L. "Aventuras de antropólogos versa o artigo. em campo ou como escapar das armadilhas do DEMO, P. Pesquisa: princípio científico e educativo. In: Cardoso, R.C.L. A aventura antropológica: teoria e São Paulo, Cortez/Autores Associados, 1991. pesquisa. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986, p. 95-105. autor procura fundamentar uma proposta "de artigo apresenta uma análise crítica sobre a recen- teoria e prática da pesquisa que ultrapasse os muros da te produção das ciências sociais, que, inspirada na An- academia e da sofisticação Trata da des- tropologia, busca a valorização das técnicas de trabalho mitificação do conceito de pesquisa, apontando seus de campo. A preocupação da autora é com o fato de que múltiplos horizontes e reforçando a investigação en- "se esta inspiração antropológica trouxe sangue novo quanto descoberta, criação e diálogo. Segundo o autor, "é preciso ter em mente a necessidade de construir 64 65Pesquisa Social caminhos e não receitas que tendem a destruir o desafio CAPÍTULO IV de construção". MINAYO, M.C. de S. "Fase de trabalho de campo". In: desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo-Rio de Janeiro, HUCITEC-ABRAS- CO, 1992, p. 105-196. A ANÁLISE DE DADOS EM capítulo nos traz estudo da concepção de campo, PESQUISA QUALITATIVA apontando para a importância de seu conhecimento. Destaca as diferentes formas de entrevista e a observa- ção participante como componentes essenciais do traba- lho de campo. A autora discute a palavra, como símbolo de comunicação por excelência, e a interação entre o Romeu Gomes* pesquisador e os atores sociais estudados, como parte fundamental da investigação qualitativa. ZALUAR, A. "O antropólogo e os pobres: introdução metodológica e In: A máquina e a revolta. São 1. INTRODUÇÃO Paulo, Brasiliense, 1985. Quando chegamos à fase de análise de dados, po- Nessa introdução, a autora descreve sua trajetória demos pensar que estamos no final da pesquisa. No metodológica e afetiva na realização de um aprendizado entanto, podemos estar enganados porque essa fase de- sobre o modo de vida das classes populares urbanas no pende de outras que a precedem. Às vezes, nossos dados conjunto habitacional Cidade de Deus, no Rio de Janei- não são suficientes para estabelecermos conclusões e, ro. É um relato detalhado sobre a experiência de trabalho em decorrência disso, devemos retornar à fase de coleta no campo que fundamentou seu estudo. de dados para suplementarmos as informações que nos faltam. Outras vezes, podemos dispor dos dados, mas o problema da pesquisa, os objetivos e as hipóteses e/ou questões não estão claramente definidas. Nesse caso, devemos redefinir esses aspectos da fase exploratória da pesquisa. Também pode acontecer que não tenhamos * Mestre em Educação, Livre-Docente em Psicologia da Educação e Professor Adjunto da Faculdade de Educação da UERJ. 66 67Pesquisa Social Pesquisa Social uma fundamentação teórica bem estruturada e, devido a são pode nos levar a uma simplificação dos dados, nos isso, torna-se necessário reestudarmos os conhecimen- conduzindo a conclusões superficiais ou equivocadas. tos que embasam nossa pesquisa. segundo obstáculo se refere ao fato de pesqui- Suponhamos que as situações mencionadas acima sador se envolver tanto com os métodos e as técnicas a não aconteceram ou foram resolvidas. Isso ocorrendo, ponto de esquecer os significados presentes em seus estaremos realmente na fase de análise. Em alguns livros dados. Nesse caso, os dados coletados que compõem a costumam aparecer as denominações análise e interpre- análise podem não ser devidamente considerados, uma tação. Há autores que entendem a como des- vez que a dimensão central da pesquisa se restringe a crição dos dados e a "interpretação" como articulação questionamentos dos procedimentos metodológicos. dessa descrição com conhecimentos mais amplos e que Por último, o terceiro obstáculo para uma análise extrapolam os dados específicos da pesquisa. Outros mais rica da pesquisa relaciona-se à dificuldade que o autores já compreendem a "análise" num sentido mais pesquisador pode ter em articular as conclusões que amplo, abrangendo a "interpretação". Somos partidários surgem dos dados concretos com conhecimentos mais desse posicionamento por acreditarmos que a análise e amplos ou mais abstratos. Esse fato pode produzir um a interpretação estão contidas no mesmo movimento: o distanciamento entre a fundamentação teórica e a prá- de olhar atentamente para os dados da pesquisa. tica da pesquisa. Esse e os outros dois obstáculos podem Na medida em que estamos tratando de análise em ser ultrapassados através de, entre outros aspectos, uma pesquisa qualitativa, não devemos nos esquecer de que, maior fundamentação e uma maior experiência por parte apesar de mencionarmos uma fase distinta com a deno- do pesquisador. minação "análise", durante a fase de coleta de dados a Após essas considerações iniciais, faz-se necessário análise já poderá estar ocorrendo. Na obra de Triviños que reflitamos um pouco sobre as finalidades da fase de (1987), esse posicionamento é bem defendido. análise. Com base em Minayo (1992), podemos apontar Minayo (1992) chama a atenção para três obstácu- três finalidades para essa etapa: estabelecer uma com- los para uma análise eficiente. o primeiro diz respeito preensão dos dados coletados, confirmar ou não os à ilusão do pesquisador em ver as conclusões, à primeira pressupostos da pesquisa e/ou responder às questões vista, como "transparentes", ou seja, pensar que a reali- formuladas, e ampliar o conhecimento sobre o assunto dade dos dados, logo de início, se apresenta de forma pesquisado, articulando-o ao contexto cultural da qual nítida a seus olhos. Quanto maior for a familiaridade que faz parte. Essas finalidades são complementares, em o pesquisador tenha em relação àquilo que ele está termos de pesquisa social. pesquisando, maior poderá ser sua ilusão de que os resultados sejam óbvios numa primeira visão. Essa ilu- 68 69Pesquisa Social Pesquisa Social 2. TRABALHANDO COM CATEGORIAS as relações entre trabalho e lazer para os operários de uma e um dos objetivos específicos poderia ser A palavra categoria, em geral, se refere a um con- "identificar o significado de lazer segundo a opinião dos ceito que abrange elementos ou aspectos com caracte- rísticas comuns ou que se relacionam entre si. Essa Dentro dessa linha, trabalharíamos com a categoria palavra está ligada à idéia de classe ou série. As catego- geral, entre outras, de representação social. Essa cate- rias são empregadas para se estabelecer classificações. goria estaria sendo entendida como pensamentos, ações Nesse sentido, trabalhar com elas significa agrupar ele- e sentimentos que expressam a realidade em que vivem mentos, idéias ou expressões em torno de um conceito as pessoas, servindo para explicar, justificar e questionar capaz de abranger tudo isso. Esse tipo de procedimento, essa realidade. de um modo geral, pode ser utilizado em qualquer tipo A partir dessa base, façamos de conta que um de de análise em pesquisa qualitativa. nossos procedimentos de investigação seria a entrevista As categorias podem ser estabelecidas antes do tra- e uma das questões a serem pesquisadas junto aos ope- balho de campo, na fase exploratória da pesquisa, ou a rários seria a seguinte: que é lazer para você? Fale partir da coleta de dados. Aquelas estabelecidas antes livremente sobre isso". são conceitos mais gerais e mais abstratos. Esse tipo Após o trabalho de campo, suponhamos que, entre requer uma fundamentação teórica sólida por parte do as respostas gravadas dos entrevistados, teríamos os pesquisador. Já as que são formuladas a partir da coleta seguintes trechos das falas dos trabalhadores: de dados são mais específicas e mais concretas. Segundo a) lazer é o mesmo que ir pra praia ou ao cinema, nosso ponto de vista, o pesquisador deveria antes do acho que é isso". trabalho de campo definir as categorias a serem investi- gadas. Após a coleta de dados, ele também deveria b) pra mim é quando eu tou sem trabalhar..." formulá-las visando a classificação dos dados encontra- c) eu tou de lazer quando não tou fazendo dos em seu trabalho de campo. Em seguida, ele compa- nada..." raria as categorias gerais, estabelecidas antes, com as d) lazer? Não sei o que é não..." específicas, formuladas após o trabalho de campo. e) a gente tá de lazer quando tá bebendo ou Para que fique mais claro o que significa trabalhar dançando..." com categorias, vamos exemplificar com uma situação Se fôssemos estabelecer categorias a partir desses hipotética de pesquisa. Imaginemos que vamos pesqui- trechos de respostas, poderíamos chegar ao seguinte sar a temática "Trabalho e Lazer" numa fábrica. Nosso esquema: objetivo geral poderia ser "analisar como se configuram 70 71Pesquisa Social Pesquisa Social Conjunto de três categorias relacionadas ao lazer: exemplo, as respostas "a" e "e" só podem ser alocadas menciona lazer como algo em oposição ao traba- na primeira categoria. lho (respostas "b" e Nosso esquema de categorias relacionadas ao lazer menciona lazer como diversão (respostas "a" e poderia ser ampliado se nós fizéssemos a mesma per- "e"); gunta para operários da fábrica e para supervisores e/ou patrões. Assim, teríamos um conjunto de categorias não menciona nada sobre o assunto (resposta "d"); relativo aos trabalhadores e outro relacionado aos diri- Com base na obra de Selltiz e outros autores (1965), gentes. podemos apontar três princípios de classificação para Após a formulação das categorias específicas sobre estabelecermos conjuntos de categorias. primeiro se lazer e sua análise, seguindo nosso roteiro, deveríamos refere ao fato de que o conjunto de categorias deve ser agora articular esses dados com nossas categorias gerais, estabelecido a partir de único princípio de classificação. definidas na fase anterior ao trabalho de campo. No caso Já o segundo princípio diz respeito à idéia de que um da categoria geral "representação social", se adotásse- conjunto de categorias deve ser exaustivo, ou seja, deve mos, por exemplo, a concepção teórica da dialética permitir a inclusão de qualquer resposta numa das cate- marxista, tentaríamos entender historicamente como as gorias do conjunto. Por último, o terceiro se relaciona idéias de lazer verificadas em nossos dados foram deter- ao fato de que as categorias do conjunto devem ser minadas pelas condições de existência de classes sociais mutuamente exclusivas, ou seja, uma resposta não pode numa sociedade capitalista. Tentaríamos aprofundar as ser incluída em mais de duas categorias. contradições existentes entre as idéias de "lazer" e "tra- o conjunto de categorias formulado hipoteticamen- balho" no caso dos operários entrevistados. Confronta- te por nós parece que segue esses três princípios. Veja- ríamos as idéias dos trabalhadores com as da classe de mos por que: em primeiro lugar, o princípio para dirigentes. Buscaríamos pensar sobre as possibilidades montarmos o esquema de categorias foi a partir de de transformações da situação por nós constatada. E exemplos de situações que caracterizassem lazer nesse assim por diante. sentido, atendemos ao primeiro princípio que é o de Nem sempre a tarefa de formular categorias a partir termos o mesmo critério para estabelecer categorias; em dos dados coletados é simples. Às vezes, essa tarefa segundo lugar, as três categorias permitem situar todas pode se transformar numa ação complexa e isso só pode as cinco respostas com isso, respeitamos a idéia de ser ultrapassado com a fundamentação e a experiência "exaustividade", ou seja, é possível incluir qualquer do pesquisador. Por outro lado, a articulação das cate- resposta numa das três categorias; por último, nossas gorias configuradas a partir dos dados com as categorias categorias são mutuamente exclusivas porque, por gerais também requer sucessivos aprofundamentos so- 72 73Pesquisa Social Pesquisa Social bre as relações entre a base teórica do pesquisador e os efeitos dos meios de comunicação de massa; analisar resultados por ele investigados. textos de livros didáticos para o desmascaramento de ideologia subjacente; analisar depoimentos de represen- tantes de um grupo social no sentido de levantar o 3. A ANÁLISE DE CONTEÚDOS universo vocabular desse grupo. Podemos optar por vários tipos de unidades de A técnica de análise de conteúdo, atualmente com- registro para analisarmos o conteúdo de uma mensa- preendida muito mais como um conjunto de técnicas, gem. Essas unidades se referem aos elementos obtidos surgiu nos Estados Unidos no início do atual século. através da decomposição do conjunto da mensagem. Seus primeiros experimentos estavam voltados para a Podemos utilizar a palavra como uma unidade, traba- comunicação de massa. Até os anos 50 predominava o lhando com todas as palavras de um texto ou com apenas aspecto quantitativo da técnica que se traduzia, em geral, algumas que são destacadas de acordo com a finalidade pela contagem da freqüência da aparição de caracterís- do estudo. A frase ou a oração também são outros ticas nos conteúdos das mensagens veiculadas. exemplos de unidade de registro. Outra unidade é o tema Atualmente podemos destacar duas funções na apli- que se refere a uma unidade maior em torno da qual cação da técnica. Uma se refere à verificação de hipó- tiramos uma conclusão. Esse tipo de unidade é uma das teses questões. Ou seja, através da análise de modalidades mais utilizadas por aqueles que empregam conteúdo, podemos encontrar respostas para as questões a análise de conteúdos. Ainda podem ser unidades de formuladas e também podemos confirmar ou não as registro o personagem de uma narrativa, o acontecimen- afirmações estabelecidas antes do trabalho de investiga- to relatado e o documento (livro, artigo, filme etc.). ção (hipóteses). A outra função diz respeito à descoberta Essas unidades podem ser combinadas dependendo da do que está por trás dos conteúdos manifestos, indo além natureza do estudo. das aparências do que está sendo comunicado. As duas Além das unidades de registro, devemos definir as funções podem, na prática, se complementar e podem unidades de contexto, situando uma referência mais ser aplicadas a partir de princípios da pesquisa quantita- ampla. Em outras palavras, devemos precisar contexto tiva ou da qualitativa. do qual faz parte a mensagem. Os empregos da análise de conteúdos são bastante Escolhidas a unidade ou as unidades de registro e variados. No sentido de melhor ilustrar essa afirmação, as unidades de contexto, uma das técnicas mais comuns citamos os seguintes exemplos: analisar obras de um para se trabalhar os conteúdos é a que se volta para a romancista para identificar seu estilo e/ou para descre- elaboração de categorias. Já apresentamos, no item 2, ver a sua personalidade; analisar depoimentos de teles- princípios para se trabalhar com essa questão. pectadores que assistem a uma determinada emissora ou Cronologicamente, a análise de conteúdos pode de leitores de um determinado jornal para determinar os abranger as seguintes fases: pré-análise, exploração do 74 75Pesquisa Social Pesquisa Social 4. UMA PROPOSTA DIALÉTICA PARA A material, tratamento dos resultados obtidos e interpreta- ANÁLISE DOS DADOS ção. Na primeira fase, em geral, organizamos o material a ser analisado. Nesse momento, de acordo com os Na obra de Minayo (1992), há uma proposta de objetivos e questões de estudo, definimos, principal- interpretação qualitativa de dados que consideramos mente, unidade de registro, unidade de contexto, trechos bastante adequada e, por isso, passamos a apresentá-la significativos e categorias. Para isso, faz-se necessário a seguir. que façamos uma leitura do material no sentido de A autora citada denomina sua proposta de método tomarmos contato com sua estrutura, descobrirmos ori- Nesse método a fala dos atores entações para a análise e registrarmos impressões sobre sociais é situada em seu contexto para melhor ser com- preendida. Essa compreensão tem, como ponto de par- a mensagem. tida, interior da fala. E, como ponto de chegada, 0 Na segunda fase, momento é de aplicarmos o que foi definido na fase anterior. É a fase mais longa. Pode campo da especificidade histórica e totalizante que haver necessidade de fazermos várias leituras de um produz a fala. Podemos destacar dois pressupostos desse método mesmo material. A terceira fase, em geral, ocorre a partir de princí- de análise. o primeiro diz respeito à idéia de que não há consenso e nem ponto de chegada no processo de pro- pios de um tratamento quantitativo. Entretanto, como estamos apresentando procedimentos de análise qualita- dução do conhecimento. Já o segundo se refere ao fato de que a ciência se constrói numa relação dinâmica entre tiva, nessa fase devemos tentar desvendar conteúdo a razão daqueles que a praticam e a experiência que subjacente ao que está sendo manifesto. Sem excluir as surge na realidade concreta. A autora também entende informações estatísticas, nossa busca deve se voltar, por que os resultados de uma pesquisa em ciências sociais exemplo, para ideologias, tendências e outras determi- constituem-se sempre numa aproximação da realidade nações características dos fenômenos que estamos ana- social, que não pode ser reduzida a nenhum dado de lisando. pesquisa. A análise de conteúdo vem sofrendo críticas em o primeiro nível de interpretação que deve ser feito, nossa atualidade. Entre essas críticas, ressalta-se a que segundo a proposta em questão, é o das determinações entende essa análise como uma técnica de interpretação fundamentais. Esse nível, entre outros aspectos, diz de textos, com pouca articulação com os contextos das respeito à: conjuntura sócio-econômica e política do mensagens veiculadas. Para os que se interessam em qual faz parte o grupo social a ser estudado; história aprofundar mais estudo sobre essa técnica de análise, desse grupo e política que se relaciona a esse grupo. recomendamos as obras de Bardin (1979), Richardson Essas determinações (contexto sócio-histórico) já de- (1985) e Triviños (1987). vem ser definidas na fase exploratória da pesquisa. As 77 76Pesquisa Social Pesquisa Social categorias gerais, comentadas no item 2, são formuladas teóricos da pesquisa, respondendo às questões da pes- a partir dessas definições. quisa com base em seus objetivos. Assim, promovemos segundo nível de interpretação baseia-se no en- relações entre o concreto e o abstrato, o geral e o parti- contro que realizamos com os fatos surgidos na investi- cular, a teoria e a prática. gação. Esse nível é, ao mesmo tempo, ponto de partida Após a apresentação dessa proposta de análise com e ponto de chegada da análise. As comunicações indivi- base em Minayo (1992), reforçamos, a título de conclu- duais, as observações de condutas e costumes, a análise são, que o produto final da análise de uma pesquisa, por das instituições e a observação de cerimônias e rituais mais brilhante que seja, deve ser sempre encarado de são aspectos a serem considerados nesse nível de inter- forma provisória e aproximativa. Esse posicionamento pretação. por nós partilhado se baseia no fato de que, em se A autora ainda apresenta os seguintes passos para tratando de ciência, as afirmações podem superar con- clusões prévias a elas e podem ser superadas por outras a operacionalização de sua proposta: afirmações futuras. (a) Ordenação dos dados: Neste momento, faz-se um mapeamento de todos os dados obtidos no trabalho de campo. Aqui estão envolvidos, por exemplo, trans- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS crição de gravações, releitura do material, organização COMENTADAS dos relatos e dos dados da observação participante. (b) Classificação dos Dados: Nesta fase é importan- BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa, Edições 70, te termos em mente que o dado não existe por si só. Ele 1979. é construído a partir de um questionamento que fazemos sobre eles, com base numa fundamentação teórica. Atra- A obra é considerada uma das mais completas sobre vés de uma leitura exaustiva e repetida dos textos, esta- a técnica de análise de conteúdo. autor, além de belecemos interrogações para identificarmos o que discutir sobre uma fundamentação teórica, sistematiza surge de relevante ("estruturas relevantes dos atores questões metodológicas e apresenta várias modalidades sociais"). Com base no que é relevante nos textos, nós técnicas. elaboramos as categorias específicas. Nesse sentido, MINAYO, M.C. de S. desafio do conhecimento: determinamos o conjunto ou os conjuntos das informa- pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo-Rio de Janei- ções presentes na comunicação. A orientação fornecida ro, HUCITEC-ABRASCO, 1992. no item 2 ("Trabalhando com Categorias") pode ser Apesar de a autora remeter seu livro para o campo seguida neste momento. da saúde, seu texto é fundamental para a pesquisa social (c) Análise final: Neste momento, procuramos esta- em geral. Especificamente em relação à parte por nós belecer articulações entre os dados e os referenciais abordada, Minayo apresenta, no capítulo 4, de uma 78 79Pesquisa Social forma densa, bases e proposta para uma análise qualita- tiva de dados de pesquisa. RICHARDSON, R.J. et al. Pesquisa social: métodos e técnicas. São Paulo, Atlas, 1985. livro consiste num manual de pesquisa. Para nossos fins, particularmente, destacaríamos o capítulo 11, que apresenta procedimentos de análise de conteúdo; e parte do capítulo 12, que, de forma bem resumida, aborda a interpretação dos dados em uma pesquisa his- tórica. SELLTIZ et al. Métodos de pesquisa nas relações so- ciais. São Paulo, EPU, 1965. A obra é clássica no âmbito da pesquisa em ciências sociais. Destacamos, para um maior enriquecimento de análise em pesquisa qualitativa, parte do capítulo 11 que sui vários livros e artigos publicados, descreve como estabelecer categorias. como fruto de sua experiência enquanto pesquisadora. Destacam-se Os Homens TRIVIÑOS, A.N.S. Introdução à pesquisa em ciências de Ferro e os Construtores da Cidade, sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo, dois livros que tratam antropologica- Ática, 1987. mente das condições de vida da classe trabalhadora no Brasil; Raizes da Fome autor apresenta uma introdução à pesquisa quali- e Saúde em Estado de Choque, ambos tativa bem fundamentada. Seu texto é voltado para a em edição, realizados sob sua coorde- educação. No entanto, suas colocações sobre o assunto nação e com sua participação. Desafio servem para profissionais em geral da área de ciências do Conhecimento, livro de abordagem teórico-metodológica da pesquisa social sociais. Ressaltamos duas partes do capítulo 5: uma que em saúde. apresenta a técnica de análise de conteúdo e outra que Os outros autores deste livro traba- sintetiza princípios para a interpretação dos dados na lham também com Maria Cecília na área pesquisa qualitativa. das Ciências Sociais e Saúde num Cen- tro de Estudos da FIOCRUZ que pesqui- sa as relações entre violência e saúde. Otávio Cruz Neto é sociólogo e mestre em educação; Romeu Gomes é psicólo- go e mestre em psicopedagogia; e Suely Ferreira Deslandes é socióloga e mestre em saúde pública. 80coleção Temas PESQUISA SOCIAL PESQUISA Sociais SOCIAL Este livro introduz estudante de graduação ao mundo da investigação social e da pesquisa qualitativa. Pela sua linguagem simples e objetiva atende aos interesses dos universitários das mais diferentes áreas que Teoria, método e criatividade desejam aprender a escrever um projeto de pesquisa e iniciar-se no trabalho empírico. Maria de Souza Maria Cecília de Souza Minayo (Organizadora) Capa: Marcos Mattos Suely Ferreira Deslandes Otávio Cruz Neto EDITORA Romeu Gomes ISBN 85.326.1145-1 VOZES Uma vida pelo bom livro Fax: 9 788532 611451 EDITORA E-mail: vendas@vozes.com.br EDIÇÃO VOZES

Mais conteúdos dessa disciplina