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A Natureza da Inteligência Emocional Muitas vezes, são listados o raciocínio lógico, a comunicação e a expressão quando se diz que uma pessoa é inteligente. Por um longo tempo, a inteligência foi estabelecida nesses dois fatores, alinhados ao nível educacional e cultural. Nesse sentido, os testes de QI (quociente de inteligência) mensuravam a inteligência considerando a lógica e a linguagem. Porém, na década de 1980, graças a pesquisas sobre o tema, realizadas na Universidade de Harvard e lideradas por Howard Gardner, a noção de inteligência múltipla ampliou o sentido de inteligência, que entrou na discussão da capacidade espacial, musical e interpessoal, como apontado por Gardner no livro Inteligências múltiplas: a teoria na prática, de 1995. Nessa nova perspectiva, se mentaliza como um sujeito é inteligente, em vez do quão ele é inteligente. Neste capítulo, se tem a oportunidade de intensificar as aprendizagens sobre o ser inteligente, a origem e a importância das emoções para a inteligência. Inteligências múltiplas s teorias tradicionais de inteligência hipotetizavam que as aptidões individuais partiam de domínios particulares. A concepção contemporânea de inteligência, que surge dos estudos de Howard Gardner no final do século passado, foca na influência de aspectos biopsicossociais no potencial humano, o que quer dizer que a avaliação de inteligência contempla, além da herança genética, agentes psicológicos e o meio social e cultural em que se está. Apesar disso, as inteligências são potenciais internos ou talentos, despertados conforme a cultura e ambientes sociais, além das oportunidades de vivenciar experiências pertinentes a decisões familiares, escolares e pessoais que expressem tais inteligências. Desse modo, se amplia a concepção da inteligência, que antes se referia a uma faculdade única, limitada às condições da pessoa. Com a finalidade de definir inteligência, a teoria de inteligências múltiplas de Gardner faz uma distinção de três componentes básicos: • O talento, compreendido pelo potencial biopsicológico; • O domínio, que confere a aplicação do potencial; • O campo, a área em que o potencial é aplicado. A teoria ressalta que uma boa parte das pessoas têm condições de formar as inteligências em um nível adequado. Como elas funcionam juntas e de maneira complexa, o uso da inteligência é individual e particular. No que diz respeito à teoria de Gardner, ela também oferece uma visão ampla de inteligência, e dá valor não apenas ao intelecto como a ensejos voltados às emoções, relações e intuição humana, inseridos na inteligência intrapessoal e interpessoal, ampliando a área para debates e estudos de inteligência emocional. QI x QE As ponderações sobre QI (quociente intelectual) e QE (quociente emocional), se dão até hoje no ambiente escolar, no qual ainda há maior ênfase no desenvolvimento do QI em comparação ao QE. Embora a inteligência emocional não seja atribuída como deveria, se verificam movimentos mundiais e uma percepção aberta para ampliação do tema na formação de crianças, adolescentes e adultos pelo sistema de ensino. Antes de adentrar na subvalorização do QE e hipervalorização QI, é preciso saber da história dos estudos sobre as inteligências humanas, que partem do início do século XX com o teste de quoeficiente de inteligência. Ricardo de Paula, na tese de mestrado Ensino de Física e inteligências múltiplas: softwares educativos como coadjuvantes no processo de desenvolvimento de inteligências Lógico–matemática e Linguística, defendida na Universidade Federal do Ceará em 2017, lembra que o teste foi produzido pelo psicólogo Alfred Binet (1857-1911) para intuir o alto e baixo desempenho escolar. No que concerne aos estudos e práticas atuais, ter um nível alto de QI não ajuda a obtenção de sucesso econômico e social, sem contar que a analogia entre QI e produtividade no trabalho também não acontece e demonstra que não há interferência direta que associe o QI alto à melhor performance profissional. Com isso, se chegou à conclusão de que testes de QI não são uma ferramenta profissional eficaz. Ainda que o QI não seja uma medida eficiente para a inteligência, em uma visão macro e contemporânea, é importante ponderar que o desempenho acadêmico e intelectual também contribui no campo pessoal, social e profissional. É prudente salientar que vocações intelectuais são valiosas para a formação humana e para a constituição da inteligência. Os estudos mais recentes enfatizam uma concepção multifacetada da inteligência. Nair Andrade Neta, Emílio Garcia e Isabel Gargallo, no artigo A inteligência emocional no âmbito acadêmico: uma aproximação teórica e empírica, publicado na edição de janeiro a março de 2011 da revista Psicologia Argumento, relatam que, junto a Gardner e à teoria das inteligências múltiplas, a teoria de Sternberg, do psicólogo Robert Sternberg, ampliou a visão da inteligência. Essa teoria divide a inteligência em três processos - analítico, criativo e prático – que são aplicados a cada uma das inteligências múltiplas, algo que é enfatizado por Maria Clara Gama, no artigo As teorias de Gardner e de Sternberg na educação de superdotados, publicado na revista Educação Especial, em sua edição de setembro a dezembro de 2014, além das teorias de inteligência emocional dos pesquisadores Peter Salovey e John Mayer e a do psicólogo Daniel Goleman. No conceito sistêmico e multifacetado de inteligência, a inteligência emocional serve de alicerce para as outras inteligências, atendendo a características indicadas por Daniel Goleman no livro Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente, de 1995, como se automotivar, ser persistente e resiliente diante de um objetivo, controlar as emoções impulsivas, manter o otimismo e impedir que a ansiedade domine o raciocínio. As pessoas com domínio e autoconhecimento emocional possuem mais condições de gerenciar suas vidas, prevenindo doenças e preservando a saúde, apesar das especificidades das teorias citadas. Alguns pontos fundamentais são compartilhados: • Afastar-se da visão de inteligência única; • Compartilhar que a avaliação tradicional não é recomendável; • Observar outros fatores para compor a inteligência e que influenciam o sucesso na vida. Conceito e desdobramento da inteligência emocional Graças à publicação de Goleman, a inteligência emocional ficou conhecida mundialmente na década de 1990 e, a partir deste século, vem sendo explorada e divulgada na área do trabalho. Compreendendo que saber lidar com as emoções é fundamental para o bom desempenho profissional, treinamentos e programas para líderes e equipes se utilizam do tema. Como o tema é muito explorado e muitos autores debatem a respeito, explorar seu significado e vertentes de estudos, questionar sua prática e suas semelhanças e diferenças com outros constructos e modelos dão uma percepção consistente e crítica no tocante a um assunto que causa dúvidas. Inteligência emocional: discussões sobre o conceito O termo inteligência emocional surgiu em 1990 em um artigo de Peter Salovey e John Mayer. Para os autores, havia um tipo de inteligência social em que as pessoas sabiam as próprias emoções, incluindo o reconhecimento e expressão dos próprios sentimentos e das emoções dos outros, algo apontado por Richard Roberts, Carmen Flores-Mendoza e Elizabeth do Nascimento no artigo Inteligência emocional: um constructo científico?, publicado na revista Paidéia, em seu número 23, de 2002. Não obstante, outros estudos e autores agregaram questões sociais, emocionais e psicológicas ao conceito de inteligência, mesmo que não o denominassem de inteligência emocional. Odair Sass, autor do artigo O aluno sob medida: os testes psicológicos e educacionais como tecnologia, publicado na revista Educaçãoocorre em uma região primitiva do cérebro denominada de gânglios basais, e também na amígdala cerebral, onde são armazenadas as lembranças emocionais. Tais lembranças são utilizadas pelo cérebro em determinadas situações, desconsiderando aspectos racionais e intelectuais, nesse caso, a amígdala se comunica também com trato gastrointestinal, o que nos dá a sensação de que determinada impressão vem das nossas entranhas. Quando as decisões são altamente complexas, a intuição pode ser um elemento importante e até mesmo fundamental. Inclusive, ela vem sendo cada vez mais estudada no âmbito científico, principalmente com relação à aprendizagem implícita (quando aprendemos de forma inconsciente). Verificamos, também, que ocorre um entrelace da autoconsciência e da autogestão, haja vista que para o indivíduo regular suas emoções se faz necessário que ele tome consciência delas. A autoconsciência pode ser considerada um pilar fundamental em relação aos outros três domínios, considerando o fato de que conhecer nossas próprias emoções é uma base para nos equilibrarmos, e esse equilíbrio nos propicia relações saudáveis. Um exemplo é: ao invés de deixarmos a raiva acumular e explodir, é possível identificar a sua causa enquanto a agitação está crescendo e buscar sanar o problema de forma mais ponderada. O Diagrama 6 apresenta essa perceptível dinâmica acerca da integração entre os quatro domínios, na qual o desenvolvimento de um reflete na expressão e desenvolvimento de outro domínio. A conexão entre os quatro é um elemento relevante que contempla o modelo. A autogestão revela-se com o autocontrole emocional, relacionando-se à manutenção do equilíbrio emocional diante do estresse, como também na recuperação rápida do estresse elevado e a manutenção da motivação quanto às metas pessoais. Por meio da autogestão é que as emoções não dominam as ações e decisões, pois ela permite que se obtenha clareza sobre decisões, considerando tanto os próprios desejos e opiniões quanto aos desejos e opiniões do outro. A autogestão emocional não impede que as pessoas se sintam tristes em situações difíceis e complexas ou com raiva quando se sentem agredidas ou desrespeitadas, mas consigam lidar com as emoções de forma equilibrada e mais articulada. Uma forma de manter a autogestão é buscar se relacionar de forma respeitosa e positiva com o outro, já que pessoas desagradáveis geram raiva também em outras pessoas. Esse fato é explicado quando a amígdala de uma pessoa desencadeia a raiva e a irritação, levando ao outro o sentimento de ameaça, o qual, muitas vezes, se defende por meio da agressão ou submissão. Quando a pessoa consegue se manter positiva e tranquila, causa ao outro o sentimento de proximidade, também detectado pela amígdala. Os sentimentos favoráveis e os impulsos emocionais bem regulados constroem um ambiente de confiança e conforto para as relações. Nesses casos, quando analisamos a dinâmica emocional, verificamos a influência da autogestão emocional no domínio de gerenciamento dos relacionamentos. A autogestão colabora para a adaptação do indivíduo a situações e ambientes diferentes, sendo possível regular as emoções, resignificando contextos e vivendo o presente, conforme o momento atual. Esse domínio também facilita a transparência, possibilitando com que sentimentos, crenças e ações sejam condizentes com suas próprias necessidades e as necessidades de outros. Foco relacional: consciência social e gerenciamento das relações A capacidade de estabelecer com o outro a empatia é o âmago da consciência social. Sendo assim, a empatia está estritamente relacionada a um processo cerebral, em que neurônios que se conectam à amígdala e buscam as emoções da outra pessoa diante do rosto e da voz alheia. Esse evento nos coloca em sintonia com o outro, a partir do qual buscamos, de forma automática, decifrar o que ele sente. Isso se revela quando uma série de pensamentos sutis nos passa à mente como: “ele está ficando triste com esse comentário”, “agora está tranquilo”, “isso ele gostou de ouvir” etc. Nesse caso, a região pré-frontal utiliza as informações emocionais da amígdala nos mantendo conectados com o outro e traduzindo as emoções, processo que demanda novos comandos emocionais a partir de nossas impressões. A relação estabelecida, nessa perspectiva, é também denominada de ressonância límbica (GOLEMAN; BOYATZIS; MCKEE, 2018). A conexão com o outro é o que nos faz estar em uma sintonia total, estabelecendo uma relação genuína, e, assim, uma ressonância límbica, ou melhor, quando ocorre uma espécie de entrelaçamento cerebral (entre dois ou mais cérebros). Ela é quem promove a comoção em um grupo de pessoas como um sentimento de tristeza profunda em um funeral ou alegria em uma festa muito animada. Além da empatia, um outro elemento importante é a expressão dela. Quando o indivíduo expressa a sua emoção, ela corresponde de forma mais consciente a quem está ouvindo, podendo trazer calma e tranquilidade diante da raiva, como também motivação quando as visões positivas se espalham. Nesse sentido, ser empático envolve uma escuta ativa, assumir o ponto de vista do outro, afinando- se com as emoções e criando ressonância. Um ponto importante é que a empatia não significa sentimentalismo e tentativa de agradar o outro, mas sim estar em ressonância. Manter o equilíbrio entre autogestão e empatia é fundamental, ou seja, se colocar no lugar do outro, ouvir plenamente e se emocionar com a situação são etapas importantes do processo empático, mas retomar o equilíbrio emocional, olhar e reconhecer as próprias emoções e atuar considerando esses dois domínios é o que contempla o desenvolvimento pleno no modelo de competências da IE. A expressão de emoções adequadas para si e para o outro corresponde à condição fundamental desses dois domínios (consciência social e gestão de relacionamentos). Ademais, a empatia é condição fundamental para conviver bem com amigos, familiares e colegas de trabalho, em um contexto sociocultural, pois a comunicação entre as diferentes culturas traz a possibilidade de entrarmos em sintonia com as diferenças e, assim, estabelecermos relações harmoniosas e positivas. A gestão de relacionamentos é essencialmente a condição de lidar com o outro e suas emoções. Para que isso ocorra, é importante haver ciência das próprias emoções e estabelecer relações empáticas com o outro. A autenticidade é condição importante nesse domínio, que envolve a ação a partir de sentimentos genuínos, em que se entra em contato com os próprios valores, mantendo-se em um padrão emocional positivo, afinando-se às emoções do outro, e, a partir daí, ocorrerá a interação e o estímulo à ressonância. Porém, lidar com o outro é sempre um desafio, e gerir relações envolve alguns comportamentos profissionais voltados à liderança. Não apenas os líderes estabelecidos passam por desafios, mas também aqueles que lidam com grupos de forma geral, precisando conduzir pessoas rumo a um objetivo comum e despertar nelas o entusiasmo diante de uma nova responsabilidade ou projeto. O ato de encontrar a ressonância entre um grupo amplo de pessoas para construir relações é um comportamento importante para esse domínio. Nos dias de hoje, nos quais, crescentemente, os contatos virtuais fazem parte da realidade, desenvolver relações baseadas na ressonância se torna cada vez mais importante e desafiante. O senso de missão coletiva inspira o outro a atuar sob esse prisma, resultando muitas vezes em ser competente em gerir relacionamentos. O indivíduo que atua gerenciando relações sabe que sozinho não se realiza nada importante e, sendo assim, dispõe de uma rede de interação para agir quando chega a hora. Um outro elemento que contribui com o gerenciamento das relações é a motivação. As pessoas motivadas em realizar algo, normalmente, são mais otimistas, mesmodiante de reveses ou fracassos, e, como vimos, quando isso acontece há um reflexo no sistema límbico de outras pessoas que as levam a agir com entusiasmo. Quando somos conscientes desse fato, podemos utilizá-lo com mais foco, sem deixarmos de ser verdadeiros e genuínos. A habilidade de gerenciamento social, por meio das relações, é reconhecível no trabalho de várias maneiras. Vejamos (GOLEMAN, 2012): • Pessoas socialmente hábeis podem ser competentes em gestão de equipes, utilizando da empatia em sua interação; • Essas pessoas combinam autoconsciência, autocontrole e empatia, e a partir desses, se tornam persuasivos; • São indivíduos que utilizam tanto elementos emocionais quanto racionais para atuar com o outro e com os grupos, conhecendo o que funciona melhor em determinado momento; • Por meio da interação com as pessoas, é gerado contágio emocional e motivacional; • Eles desenvolvem vínculos amplos porque acreditam na relação ganha-ganha. Processamento de informações emocionais Desde a época de Aristóteles até os tempos atuais, muitos filósofos vêm argumentando que o homem se diferencia de outros animais por ser racional. Entendemos a racionalidade como um princípio que nos permite tomar decisões e emitir comportamentos de forma consciente, considerando dados e fatos lógicos. E realmente, não é possível negar tal competência ao homem em relação às outras espécies de animais. Porém, a neurociência, paulatinamente, conclui que o cérebro tem como principal objetivo manter as pessoas vivas. Podemos dizer que ele é muito mais que uma máquina ou computador que processa informações e pensamentos. É, portanto, por meio das emoções que o cérebro humano busca manter o ser humano vivo diante do ambiente externo, com as sensações de perigo e recompensa. Nessa perspectiva, o cérebro humano decide se o mundo ao redor é perigoso ou não adequado para esse objetivo. Verificamos que o sistema límbico, áreas específicas do neocórtex e outras regiões, formando uma grande orquestra, é responsável por esse processo. Neste tópico apresentaremos conceitos gerais referentes ao cérebro humano que influenciam e sofrem influências de nossas emoções. É por meio das emoções que as percepções de recompensa e ameaça ocorrem. Além disso, é essencial compreender que a emoção é um movimento de dentro para fora, um modo de comunicar os nossos mais importantes estados e necessidades internas. Sendo assim, a experiência emocional está conectada ao sistema límbico e esse está constantemente tomando decisões de recompensa e ameaça ou podemos denominar também de aproximação e afastamento. É como se o princípio organizador do cérebro fosse classificar o que ocorre no mundo a título de ameaça, buscando a sobrevivência. Quando o cérebro detecta ameaças que podem colocar a vida do indivíduo em risco, essa é classificada como uma ameaça primária; em contrapartida, quando detecta uma situação que pode ajudar na sobrevivência, é uma recompensa primária (ROCK, 2006). Exemplos de ameaças podem ser uma bronca dos pais, uma situação de assalto ou a perda do emprego, enquanto a recompensa pode ser uma comida, pessoas amigas, água ou dinheiro. Quando o cérebro está vinculado à recompensa, há mais opções, oportunidades, e é possível receber novas informações e criar novas conexões. Nessa situação não há risco de vida, então, o cérebro não precisa se preparar para atacar ou fugir, e sua energia pode ser utilizada para outras funções e regiões que exigem mais atenção. As emoções primárias e secundárias relacionadas ao estado de aproximação são: interesse, felicidade, alegria e curiosidade. De acordo com estudo realizado por Lieberman e Eisenberger (2008), as experiências realizadas quanto ao sistema de dor e prazer chegaram às seguintes conclusões: • A exclusão social ativa o córtex cingulado anterior e a ínsula, mostrando mais atividade no córtex cingulado, situação semelhante àquelas quando o indivíduo sente mais dor física; • As recompensas sociais são ativadas na mesma rede de recompensa de quando se obtém um alimento ou bebida desejada, ou seja, ter uma boa reputação, ser tratado de forma justa e sentir-se cooperando ativam o estriado ventral; • Geralmente, fazer caridade ativa a rede de recompensa ainda mais do que receber a mesma soma de dinheiro para si. Essas questões sugerem que certos contextos psicológicos podem ter a mesma importância motivacional que outras necessidades de sobrevivência física, sendo que para cada estado de privação associado a uma necessidade particular, há uma dor. Podemos dizer que nosso cérebro se sente confortável em situações de recompensa. As pessoas que têm IE buscam se sentir cada vez mais recompensadas, pois elas se conhecem a ponto de perceberem quando estão se sentindo ameaçadas e buscam sair desse esquema, por meio de atitudes que possam voltar a trazer mais recompensas. Elas também compreendem que podem ajudar outras pessoas a se sentirem mais recompensadas, provendo relações positivas e ambientes harmônicos e confiáveis. Isso não quer dizer que, eventualmente, pessoas com IE não vivenciem momentos, experiências e situações que as façam se sentir mais ameaçadas; isso é normal e até mesmo saudável para a sobrevivência, porém, como vimos, um dos domínios da IE, a autogestão emocional, refere-se a esse processo regulatório. A falta de comida gera fome, a falta de água gera sede, e falta de abrigo gera frio. Tais dores motivam a procura do “remédio” que satisfará a necessidade. A satisfação da necessidade é prazerosa e recompensadora. E se observarmos bem, todas as necessidades básicas de sobrevivência compartilham essa dinâmica entre privação e dor, saciedade e prazer. Além disso, para as necessidades de sobrevivência física, o mais prazeroso é a satisfação da necessidade, como por exemplo, a comida é mais gostosa quando estamos com muita fome. Uma parte importante do neocórtex é denominada de Córtex Pré-Frontal (CPF). Essa região fica atrás da testa, e é responsável por comportamentos humanos importantes, como a tomada de decisão e a resolução de problemas complexos. Essa região é maior nos primatas do que em outros mamíferos. Embora essa área seja muito importante para a vida do ser humano, ela apresenta as seguintes limitações: consome muita energia, sendo que cada pensamento requer esforço e utiliza de recursos limitados; é uma área pequena, mantendo poucas informações. Dessa maneira, ela processa as informações uma de cada vez, ou seja, quando temos que resolver problemas complexos, não é possível fazer mais de uma atividade de forma eficiente, visto que é necessário gastar muita energia do nosso organismo para o bom funcionamento da região frontal (ROCK, 2006). O córtex orbifrontal é uma região do córtex-frontal que se comunica com o sistema límbico (área do cérebro relacionada às nossas emoções) e amígdala cerebral. Essa região é muito importante para entendermos a relação entre o comportamento humano e as emoções, pois ela realiza a conexão entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico. Essa é a área responsável pelo equilíbrio social, em que o indivíduo controla seus impulsos mais básicos, se relacionada aos comportamentos que nós humanos realizamos com base nas recompensas ou ameaças emocionais. A atuação do córtex pré- frontal é fundamental no autogerenciamento das emoções, para autoconsciência das próprias emoções. Quando em atividade, a área exige com que pensemos em alternativas mais viáveis para agirmos diante de forma mais articulada e planejada diante de determinada situação. Neurônios-espelho e conexões emocionais Os neurônios-espelho são células localizadas em nosso sistema nervoso, os quais, analogicamente, atuam como wi-fi, com a finalidade de se comunicar com outro cérebro (GOLEMAN, 2012). Muitos cientistas consideram a descoberta desses neurônios como a mais importante das últimas décadas.Eles atuam em nós a partir do que vemos nas outras pessoas, de modo a nos preparar velozmente a imitar suas emoções e movimentos. Essa descoberta é uma hipótese sobre o contágio das emoções. Esse fator contagiante vinha sendo explicado pela psicologia por meio de experimentos, nos quais os psicólogos concluíam que existia uma comunicação emocional e corporal entre as pessoas, mas não entendiam muito bem como isso acontecia. Contudo, hoje as pesquisas vêm concluindo que esse processo ocorre por via dos neurônio-espelhos e de áreas cerebrais como a ínsula, que mapeia sensações corporais com relação a outra pessoa. Houve descobertas de neurofisiologistas italianos, concluindo que essas áreas microscópias do cérebro, denominadas de neurôneo-espelho, ativam-se tanto quando um macaco pega uma banana como quando ele vê uma pessoa pegando uma banana. A partir disso, os estudos realizados demonstraram que fazer algo ou ver alguém fazer algo é muito mais semelhante do que se imaginava. Isso implica que quando vemos alguém sorrindo e feliz e sabemos o motivo, é o nosso cérebro simulando estar no lugar dela (FREDRICKSON, 2015). Podemos verificar esse fato nas relações empáticas, onde se estabelece uma conexão com o outro e, a partir desta, é possível nos colocar em seu lugar diante da determinada situação. Esse canal estabelecido em nossas relações implica nossa responsabilidade emocional para nós mesmos como também para com os outros. É possível que esse fato esteja relacionado a quando não nos sentimos bem em determinados ambientes, ou quando conversamos com alguém e sentimos uma energia positiva ou negativa e até mesmo quando passamos a nos expressar ou movimentar de forma semelhante a pessoas com que nos relacionamos em determinado momento. Verifica-se que o contágio emocional ocorre por meio da interação das pessoas, seja em dupla, em grupo ou em uma organização, operando de forma automática e espontânea, instantaneamente, inconscientemente e não intencionalmente. Em seu livro O cérebro e a inteligência emocional: novas perspectivas, Goleman relata sobre um estudo feito no Hospital Geral de Massachusetts, na Faculdade de Medicina de Harvard, de médicos e pacientes durante uma sessão de psicoterapia. A sessão foi filmada e gravada e a fisiologia de ambos foi monitorada. Ao verem o vídeo, os pacientes identificaram momentos em que sentiram que o médico teve empatia com eles, apontando quando se sentiram escutados, compreendidos e em harmonia com o médico, em contraponto a quando se sentiram realmente desconectados, pensando que o médico não estava lhes dando atenção, ou mesmo quando se sentiram desconectados. Nos momentos em que os pacientes se sentiram desconectados, também não havia qualquer conexão em sua fisiologia, mas nos momentos em que os pacientes disseram se sentir conectados, suas fisiologias se moveram juntas, havendo também um entrosamento fisiológico, com os batimentos cardíacos do médico e do paciente (GOLEMAN, 2012). Contudo, é possível verificar que quando há uma fisiologia em sincronia com outra, há um sentimento de conexão, intimidade e conforto, que traz bem-estar para quem está participando desta conexão.e Sociedade em outubro/dezembro de 2011, afirma que, na década de 1950, o pesquisador Charles Spearman incluía o contexto de habilidade psicológica em seus estudos sobre inteligência. Além disso, os próprios juízos de inteligência interpessoal e intrapessoal de Gardner se correlacionam à inteligência emocional. Todavia, quando a inteligência emocional é especificada, conta com duas propostas teóricas coexistentes, a original de Mayer e Salovey, com linhas teóricas que focam na capacidade cognitiva por aptidão, e os mistos que contemplam a proposta integradora de Goleman e o modelo de inteligência social e emocional de Bar-on, ressaltados no artigo de Neta, Garcia e Gargallo. Os modelos de inteligência emocional por aptidão são centrados nas habilidades cognitivas (aptidões ou habilidades), tendo um aperfeiçoamento por parte de Mayer e Salovey, de modo a preservar os estudos científicos devido à difusão e variação de definições de inteligência emocional. Ele se diferencia dos que abrangem traços de personalidade e motivações, focalizando a IE, sigla para inteligência emocional, em um agrupamento de aptidões. O Diagrama 1 apresenta as quatro facetas da IE, conforme Mayer e Salovey. Perceber emoções – Definir, acessar e interpretar as próprias emoções e as de outros. Nessa primeira faceta, está a identificação e análise da expressão emocional, facilitando a empatia e a adaptação ao momento vivenciado. A alexitimia é um estado referente à ausência dessa capacidade, que implica a dificuldade de perceber emoções e sentimentos, sendo comum em distúrbios psicossomáticos, abuso de drogas e anorexia nervosa; Uso das emoções para facilitar o pensamento – Habilidade em usar as emoções com foco na cognição, como a resolução de problemas, tomada de decisões e relacionamentos. No caso, há um estímulo de emoções e sentimentos em si mesmo que apoia as decisões e os processos de adaptação; Conhecimento emocional – Implica conhecer os termos específicos para as emoções, suas combinações e transformações, usando os conceitos sobre as emoções para identificar suas nuances; Regulação emocional – São as estratégias para lidar com as emoções e sentimentos, aferindo sua eficácia, o caráter e o momento de exprimi-los. As pessoas que empregam a regulação emocional, gerenciam emoções de forma saudável, não se valendo da repreensão para controlá-las, mas, sim, do autoconhecimento, monitoramento e análise, fazendo modificações de acordo com as situações. A visão integradora da IE de Daniel Goleman Goleman abarcou traços, motivações e competências relativas a aspectos emocionais e sociais na ideia de inteligência emocional. A integração de ideias de diversos constructos oferece um modelo teórico que organiza assuntos pertinentes à personalidade, conectando a inteligência emocional à teoria da ação e de desempenho e performance no trabalho. Seu substrato sofre influências da inteligência interpessoal e intrapessoal de Gardner, cuja teoria agrega a conexão de competências à acepção de inteligência e defende o desenvolvimento constante de comportamentos emocionais ajustados, relacionados ao autoconhecimento emocional e à prática social, desenvolvendo a inteligência emocional. Tal direcionamento entende que a competência emocional aprendida, baseada na inteligência emocional, resulta em um alto desempenho no trabalho, promovendo a imagem de que julgar o próprio sistema emocional e saber se abrir com o outro traz benefícios às relações pessoais. O modelo de inteligência emocional e social de Bar-on O psicólogo Reuven Bar-on também é um referencial teórico, por ter criado um modelo de inteligência emocional e social a partir de seus estudos sobre a psicologia positiva, apoiado em habilidades emocionais e sociais intercaladas, voltadas ao relacionamento interpessoal e desafios da vida cotidiana. Ele agrupou as habilidades em cinco metafatores, que se subdividem em outros quinze fatores. Os metafatores são: Aptidões intrapessoais - consciência emocional, autorrealização, independência, autorrespeito e assertividade; Aptidões interpessoais - empatia, estabelecimento de contatos de qualidade e responsabilidade social; Adaptabilidade - gerenciamento de mudanças, resolução de problemas e flexibilidade; Administração do estresse - regulação das emoções e impulsos emocionais em momentos estressantes; Humor - produção de afeto positivo, otimismo, automotivação. No entanto, a visão de Goleman é mais divulgada e reconhecida pelo senso comum e pelo meio empresarial, embora o modelo de Mayer e Salovey venha sendo bem considerado pela academia por seu rigor teórico. De qualquer forma, ambos são estimados nos estudos, incluindo as referências de Bar-on, dado que tais referenciais contribuem para o desenvolvimento humano e são objetos de estudos e de descobertas inacabadas. A neurociência e a IE A neurociência tem proporcionado uma grande contribuição para a IE na descrição de emoções em um quadro neurobiológico, julgando as emoções como uma alteração corporal a partir de um estímulo externo ou interno e os sentimentos, por seu turno, como a interpretação das emoções. O neurocientista Antônio Damásio, no livro Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos, de 2004, afirma que as emoções são respostas químicas e neurais atribuídas a eventos pertinentes à sobrevivência, o que quer dizer que elas são fisiológicas e inatas, acontecendo diante de estímulos, e incontroláveis. Elas são preciosas para animais e seres humanos, mediante a expressão de reações comportamentais e fisiológicas em situações que promovam a sobrevivência. Tendo em conta que o medo, por exemplo, é uma das emoções básicas, uma pessoa que não reaja diante do medo em uma situação de perigo físico, como alguém que não consegue se mexer em um incêndio, tem a chance de sobrevivência diminuída. Logo, as emoções podem ocasionar uma ação incontrolável diante de uma situação de risco. Em outras palavras, as emoções são mecanismos de preservação da vida e as ocorrências sociais, como o medo da cara feia do chefe ou dos pais, são interpretadas pelo cérebro humano como o medo de ser devorado por um animal feroz, levando à perda da consciência e aos atos de fugir ou atacar, em uma reação imediata e automática. Uma das premissas da IE é a disposição em reconhecer suas emoções, atuando para regulá-las em vez de evitá-las. Como já foi visto, a emoção é inata e automática, o que faz com que seja impossível deixar de vivenciá-la, ainda que se reconheça o que está acontecendo, a fim de escolher a estratégia mais viável acerca da manifestação da emoção pelo autoconhecimento. Pilares da inteligência emocional Nesta altura, já se sabe que Goleman e Bar-on adotam um modelo misto no qual fundamentam suas teorias, bem como que a IE é um assunto estudado e debatido nas últimas décadas, trazendo a necessidade de revisões e atualizações constantes, como salientado por Fátima Amaral em sua dissertação de mestrado, Inteligência emocional e percepção da performance, defendida em 2012. Deste modo, o modelo original foi adaptado para uma versão atual e contextualizada. Nota-se que os pilares atinentes às diversas teorias da IE de Goleman sofreram influências de outras teorias mencionadas até este ponto. Verificando os dois modelos, o primeiro sobre as cinco dimensões e o segundo, que contou com a contribuição de Annie McKee e Richard Boyatzis, se percebe que eles são delineados, evidenciando suas semelhanças e discrepâncias. A seguir, são pormenorizados o primeiro modelo, descrito como os cinco domínios, e o segundo, de inteligência emocional e social. Os cinco domínios Para Goleman, a inteligência emocional abrange a identificação dos sentimentos, a automotivação e a administração dos sentimentos e emoções em si, partindo do princípio de que énecessário ter consciência das emoções para se relacionar de forma saudável e se motivar a realizar projetos de vida. Na dissertação A inteligência emocional como fator determinante nas relações interpessoais: emoções, expressões corporais e tomadas de decisão, defendida em 2010, Maria João Silva mostra que os princípios do conhecimento das emoções são embasados na proposta de Mayer e Salovey, diferindo no que diz respeito a fundamentos motivacionais, e com o modelo Reuven, abordando uma série de qualidades pessoais, emocionais e sociais. Os cinco domínios da inteligência emocional propostos por Goleman são: Conhecimento e das próprias emoções – ter autoconsciência e autoconfiança em reconhecer emoções e sentimentos, dispondo de autonomia com a vida; Lidar com as próprias emoções – saber regular as próprias emoções, promovendo as emoções positivas; Automotivar-se – agir para conquistar metas e objetivos pessoais, lidando com a vida de forma otimista, criativa e determinada e utilizando de autocontrole para conquistar objetivos de longo prazo; Reconhecer as emoções de outras pessoas – ter empatia para com o outro, reconhecendo sinais e escutando necessidades; Edificar relacionamentos – lidar com as emoções dos outros e trabalhar em equipe harmoniosa e produtivamente. Modelo de inteligência emocional e social por competências O modelo de inteligência emocional, revisado no artigo Agrupando as competências da inteligência emocional: visões do emotional competence inventory, parte do livro Manual de inteligência emocional, de 2002, é interpretado a partir de duas dimensões fundamentais, a intrapessoal (emocional) e a interpessoal (social), que se desdobram em competências de IE a partir da teoria das inteligências múltiplas de Gardner. O Diagrama 2 explana o modelo que, na dimensão intrapessoal, classifica condições internas, como autoconsciência e autogerenciamento, enquanto a dimensão interpessoal aprecia condições externas à consciência social e a gestão do relacionamento. Competências emocionais – perspectiva intrapessoal Autoconsciên ia (self-awareness) Reconhecer sinais dos próprios sentimentos enquanto ocorrem. Perceber a influência dos diferentes estados emocionais em seu próprio rendimento cognitivo ou desempenho no trabalho. Autogerenciamento (self-management) Flexibilidade para lidar com diferentes situações e pessoas, capacidades de se desconectar de em ações negativas e persistência em perceber o que é positivo, de forma atingir melhores resultados. Competências sociais – perspectiva interpessoal Consciência social (social awareness) Empatia pelos sentimentos de outras pessoas, entendimento do que pode estar subliminar a pensamentos e atitudes. Gestão de relacionamentos (relationship management) Capacidade de resolução de conflitos, influência positiva em outras pessoas. Interesse por desenvolvimento de outras pessoas e de compartilhar tarefas e atividades em grupo. Diante do exposto por Alessandra Gonzaga e Marcelo Rodrigues no livro Inteligência emocional nas organizações, de 2018, se consideram alguns comportamentos em cada uma das competências: Autoconsciência – autoavaliação pontual, autoconfiança; Autogerenciamento – autocontrole, confiabilidade, adaptabilidade, iniciativa, proatividade; Consciência social – empatia, consciência organizacional, orientação para servir; Gestão de relacionamento – desenvolvimento do outro, liderança, influência, comunicação, catalisação de mudanças, administração de equipes. Os autores ressaltam ainda que as competências emocionais e sociais podem ser aprendidas e melhoradas. Desta maneira, em uma relação de trabalho em que se lida com um cliente para resolver um conflito, se requer domínio e prática de consciência social e gestão de relacionamentos. Autoconhecimento emocional O conhecimento das próprias emoções é um tópico discutido em todas as teorias e modelos voltados à inteligência emocional, visto que olhar para si, compreender o que e como se sente é um primeiro e grande passo para ser inteligente emocionalmente. Contudo, essa condição não é estimulada na sociedade pois, na infância, o ser humano não aprende na escola e nem com os pais a olhar para si mesmo e sentir o que acontece. Como a emoção é fisiológica e não há como deixarmos de nos emocionar, visto que ela protege dos riscos ambientais, vale lembrar que, além de seres biológicos, os humanos são seres sociais, o que confunde o cérebro quando, por exemplo, o indivíduo sente medo de algo que não é tão arriscado. Em síntese, os motivos biológicos e psicológicos se entrelaçam, formando um sistema emocional e psíquico particular, que deve ser manifesto para que se tenha bem-estar e saúde emocional. Conhecendo as emoções e sentimentos Antes mesmo de seu caráter psicológico e filosófico, as emoções são processos fisiológicos que se manifestam espontaneamente, conforme apresentado na Figura 1. Para o estudioso e cientista português Antônio Damásio, os humanos têm sistemas neurais complexos que permitem respostas variáveis, adaptáveis ao ambiente e ao conjunto social subjetivo. Tais reações são denominadas emoções, que são classificadas como primárias, secundárias (sociais) e de fundo. As primárias são inatas, isto é, comum a todos seres humanos, independentemente de causas culturais ou sociais, como alegria, tristeza, medo, nojo e raiva. Alguns autores e estudiosos incluem ainda surpresa como emoção primária, enquanto outros desconsideram o nojo. As emoções secundárias dependem também de procedências sociais, variando com a cultura. Elas são aprendidas no ambiente em que o indivíduo é inserido. Algumas das emoções secundárias são culpa, compaixão, desprezo, gratidão, simpatia, orgulho, inveja e admiração. A ação da emoção secundária pode ser analisada no âmbito da vergonha para a cultura japonesa sobre o desempenho baixo no trabalho, algo que não tem o mesmo sentido ou peso em outras culturas, ou da vergonha em relação ao próprio corpo em uma tribo indígena. As emoções de fundo estão vinculadas ao bem-estar e ao mal-estar. Os estímulos internos induzem emoções, produzidas por estados físicos e mentais que levam o organismo a uma estado de calma ou tensão, como os estados de sentir-se bem ou mal, ansioso, cansado, com energia ou apreensivo. Ainda segundo o livro de Damásio, ao autor refletir sobre os sentimentos, considera que a dor e o prazer são essenciais, visto que existem sistemas cerebrais conexos a esses pontos. Em suma, os sentimentos são a expressão das emoções e, para distinguir uma da outra, é importante pensar que as emoções estão alinhadas com as reações corporais e os sentimentos com a mente. O funcionamento do sistema, também denominado de sistema afetivo, se sucede da seguinte forma: as emoções acontecem primeiro e depois chegam os sentimentos, de acordo com a evolução biológica. As reações emocionais estão ligadas à sobrevivência e fazem parte do reino animal, sendo complexas nos mamíferos, e tornando-se mais sofisticadas para os primatas e, em seguida, para os seres humanos. A partir delas, são elaborados os sentimentos, que correspondem a temas psicológicos e sociais. Detectando as próprias emoções e sentimentos Reconhecer as próprias emoções e sentimentos é a base para o autoconhecimento emocional. Isso acontece no momento em que se presta atenção em si mesmo, se percebendo em situações e acontecimentos no dia a dia. Para algumas pessoas, isso é espontâneo, mas todas as pessoas têm condições de reconhecer emoções e sentimentos em si. Ao realizar o processo, os artifícios emocionais são trazidos para o estado consciente e, com a prática contínua, se distinguem padrões e crenças, como o frio na barriga pelo medo de ir ao médico. Para isso, é preciso parar, refletir sobre a emoção, localizar a manifestação corporal e nomeá-la. Muitas vezes, se conta com o apoio um especialista,como um psicólogo, para ajudar no processo. A nomeação emocional é um jeito de reconhecer as emoções, trazendo-as para o nível consciente e amparando a regulação emocional. Em se tratando das emoções, fica fácil lidar com elas quando se é capaz de reconhecê-las em si mesmo, dando início à identificação das emoções e reconhecendo-as em outras pessoas, como preconizado por Burrhus Frederic Skinner, no livro O comportamento verbal, de 1978, citado por Fernanda Schwartz, Graziela Lopes e Lauren Veronez, no artigo A importância de nomear as emoções na infância, publicado na edição de setembro/ dezembro de 2016 da revista Psicologia escolar e educacional. Identificando pensamentos É comum se concentrar mais em resultados e comportamentos do que em emoções, sentimentos e pensamentos, mas é a partir das emoções que se desenvolvem pensamentos que geram os sentimentos. Se o autoconhecimento é ampliado para os pensamentos, eles são conectados com os motivos dos comportamentos e os resultados que eles acarretam, por meio da escala visualizada no Diagrama 3. Antes, reconhecidos os pensamentos, há condições de mudá-los, o que muda sentimentos, comportamentos e resultados. Se as pessoas assimilam seus pensamentos de forma pragmática e realista, elas emitem sentimentos e comportamentos distintos. No caso de um indivíduo que apresenta o pensamento de que faz tudo errado, devido a uma ocorrência em que cometeu um erro no trabalho, a emoção é a tristeza e o sentimento, a culpa, combinada ao comportamento de se afastar de situações que provoquem o erro. Como observado por Judith Beck no livro Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática, de 2013, se o indivíduo analisar melhor seu pensamento, pode concluir que, embora tenha errado naquela situação, já acertou em outras e que generalizou quanto ao pensamento inicial. Com isso, há como mudar seu sentimento e seu comportamento, tornando-se mais produtivo. Uma atuação se dá pelo comportamento. Se percebido, é plausível chegar ao sentimento que antecedeu o comportamento e o pensamento que levou ao sentimento. É também admissível discernir o pensamento antes que haja um sentimento e um comportamento e modificá-lo para que os fenômenos seguintes se distingam do que automaticamente aconteceria. De qualquer forma, a identificação é o primeiro estágio para realizar mudanças contínuas. Controle emocional Com referência ao controle emocional, pode-se compreender que o correto é não manifestar emoções impulsivas, se expressando de forma adequada, educada e segura ao se comunicar. Esse fato, de certa forma, está correto, pois se expressar por meio de uma postura adequada é essencial para uma relação interpessoal harmônica. A postura de controle das emoções é algo que faz toda a diferença para a saúde e desenvolvimento emocional, o que quer dizer que deixar de expressar o que se sente pode causar mal, além de outros reflexos que vão para além dos aspectos psicológicos. Mas então, o que fazer? Manter o foco na dinâmica de regulação emocional é vital, dado que o tema implica em um modo de atuar que busca respeitar a si mesmo e o outro, além de adaptar, flexibilizar e transformar um estado emocional e a visão diante de uma situação. Regulação emocional A regulação emocional é o modo de lidar com as próprias emoções para atender situações, demandas do ambiente e necessidades emocionais internas. É possível desenvolver a regulação emocional com uma mudança cognitiva de três estilos: nomeação, ressignificação e atenção plena. A mudança cognitiva envolve o objetivo de desistir de uma crença a respeito de uma situação e da própria história, mudando o pensamento. Além de apoiar a identificação das emoções provendo autoconhecimento, a no- meação é uma diminuição da ação de uma parte do cérebro responsável pelas emoções, o sistema límbico, por meio do aumento da ação do córtex pré-frontal, a parte do cérebro voltada à análise e raciocínio lógico. Se uma emoção é denominada e associada a alguma metáfora, é fornecido um tipo de tranquilizante interno que transmite o pensamento antes da ação. Sendo assim, a prática da nomeação consiste em sintetizar o que sente, constituindo um jeito de proporcionar ao cérebro uma ação cognitiva. A ressignificação é uma estratégia de regulação mais forte do que a nomeação, por ser uma maneira de enxergar a situação de um jeito que se interprete melhor a questão. Portanto, essa é uma ferramenta que tem o efeito de quebrar a ação das emoções mediante a atribuição de um novo significado à situação. Os estudos de Kevin Ochsner, professor de psicologia da Universidade de Harvard, revelam que, se as pessoas ressignificam, há uma regulação emocional no sistema límbico cerebral. O pesquisador realizou um experimento sobre o tema solicitando que grupos de pessoas vissem fotos de pessoas chorando fora de uma igreja. A partir disso, foi constatado que as pessoas que viram as fotos se sentiam entristecidas. Em seguida, ele disse ao grupo que as pessoas das fotos estavam em um casamento e choravam de alegria. Através da ressonância magnética, se observou que a notícia atenuou a amígdala cerebelosa, parte do sistema límbico, e ativou o córtex pré-frontal. No exame, as pessoas ressignificaram a emoção que sentiram a partir de um ponto de vista diferente. Logo, a ressignificação envolve olhar uma situação que promove alguma emoção sob outro ângulo, inferindo possibilidades e motivos. Logo, ao exercitar novas probabilidades e encarar uma situação, é possível se sentir mais flexível, adaptável e justo, favorecendo os relacionamentos interpessoais. A atenção plena ou mindfulness é mais um recurso de regulação emocional que implica em prestar atenção ao estado presente, aceitar o que acontece aqui e agora e estar consciente no tempo real. Na atualidade, há estudos que comprovam a eficácia da atenção plena para o desenvolvimento emocional, incluindo a redução dos níveis de cortisol. A atenção plena é direta, em concordância com o que foi explanado por Ochsner em artigo publicado na revista Neuroleadership Journal, as pessoas pensam no passado, no futuro ou sobre si mesmos. Com a experiência direta, o indivíduo chega a todos os seus sentidos no tempo real. Os estudos vêm concluindo que pessoas que meditam com frequência ou que praticam a observação direta têm mais consciência sobre o caminho em que estão e conseguem fazer mudanças com mais facilidade, saindo do estado automático de lidar com as situações cotidianas. O modelo de Gross Para James Gross, psicólogo e professor da Universidade de Stanford, as pessoas possuem algum controle sobre as próprias emoções e utilizam de estratégias para influenciá-las. Na dissertação Regulação das emoções, padrões adaptativos de aprendizagem e satisfação com a vida, defendida por Ana Cristina Pardal na Universidade de Coimbra em outubro de 2012, a autora declara que o modelo proposto por Gross contempla uma sequência com diversas fases, que permite uma percepção ampla da regulação emocional. O modelo consiste em uma estrutura de causas, mecanismos e consequências referentes à regulação em geral. Um ponto interessante é que as estratégias para regular as emoções variam, requerendo maior ou menor regulação de acordo com o momento e a situação de vida. Há duas caracterizações básicas em relação ao momento que são empregadas, que podem ser focadas nos antecedentes das respostas emocionais ou nas respostas após a ativação da emoção. O modelo é composto por cinco estratégias de regulação, mas somente a modelação da resposta será focalizada: Seleção da situação – aproximação ou afastamento de uma situação, local ou pessoa, visando obter ou não obter emoção, como ir a uma festa para se sentir alegre ou deixar de encontrar com um familiar para não sentir raiva; Modificação da situação – na seleção da situação,é realizada uma modificação externa da situação e do impacto emocional, como ficar estudando em casa em vez de encontrar com um amigo; Modificação do foco atencional – acontece caso não se mude o ambiente ou a situação e, sim, o foco de atenção, em busca de gerenciar as emoções. Em geral, ela é aplicada quando não é possível usar as duas primeiras. As formas de praticá-la são pela distração, mudando o foco para pontos não emocionais, a concentração, focando em aspectos emocionais, e a ruminação, focando nos pensamentos, sentimentos e emoções vinculadas a situação; Modificação cognitiva – pesquisa da situação e de sua acepção emocional, mudando e ampliando a intuição a respeito, modificando seu significado e alterando a resposta emocional. Ela é classificada como estratégia focada nos antecedentes, pois incide antes de a resposta emocional ter sido definida, podendo alterar toda a trajetória emocional posterior; Modelação da resposta – está atrelada a tentativas para influenciar as emoções vivenciadas. Uma das mais estudadas é a supressão das emoções. O intuito é suprimir a expressão emocional, entretanto, ela não diminui a sensação negativa. Suas consequências cobrem o decréscimo da cognição para outras tarefas, interferências na memória, dificuldades em relacionamentos e prejuízos gerais no bem-estar. Automotivação No tocante à automotivação, isto é, mecanismos que motivam a desenvolver uma atividade diante de obstáculos e desafios, há situações em que não é fácil se motivar. No entanto, conhecendo o que dá motivação, é possível aplicar estratégias para a motivação ininterrupta, tendo mais condições de alcançar objetivos. As motivações não são competências, mas um estado. Isto posto, aprender a se motivar com algo talvez não seja o mais produtivo, mas, sim, prever as motivações individuais e as formas de alimentá-las. Já a autorresponsabilização é uma habilidade que pode ser cultivada e ajuda a resguardar compromissos e que, combinada à motivação, é uma estratégia para focar e atingir resultados. Motivações O termo motivação vem do latim movere, traduzido como mover para a ação. Há dois tipos de motivação, a intrínseca e a extrínseca. A motivação intrínseca trata de agentes internos que levam à ação, como adquirir conhecimentos pela satisfação de conhecer mais, a aquisição da independência pessoal, sem contar a realização de diversas atividades que trazem bem-estar, satisfação e prazer. Já a motivação extrínseca aborda motivos externos que trazem satisfação, como o recebimento de salário e benefícios para a realização de um trabalho, a participação em uma competição para a obtenção de prêmios ou a realização de algo para ser reconhecido. Para diferenciá-las, é indispensável se questionar sobre o motivo de fazer ou explorar algo. Como ilustrado por Willy Lens, Lennia Matos e Maarten Vansteenkiste no artigo Professores como fontes de motivação dos alunos: o quê e o porquê da aprendizagem do aluno, publicado na edição de janeiro/abril de 2008 da revista Educação, a obtenção de algo é considerada extrínseca e a realização de algo para a satisfação interna é uma motivação intrínseca. A motivação extrínseca é classificada em quatro tipos de orientação para a ação, denominadas regulação comportamental: • A regulação externa implica um comportamento para obter algo que se deseja ou para evitar algo que cause mal-estar. A ação é condicionada à obtenção de recompensas ou para evitar punições, como o aluno que vai bem na escola para ganhar um presente; • A regulação introjetada é a intenção de atender demandas emocionais atinentes a sentimentos e pressões internas. São comuns ações que evitam o sentimento de culpa ou buscam satisfazer as necessidades de outras pessoas, como um adolescente que escolhe uma profissão para satisfazer o pai; • A terceira é a regulação identificada, que corresponde a atender motivos internos aliando- os à realização de algo externo, ou seja, o motivo externo leva ao interno, como se esforçar em um processo seletivo para conseguir um trabalho que traz realização profissional; • A quarta é a regulação integrada, com uma relação mais equilibrada e satisfatória entre a realização da atividade e seu sentido, combinando a ação aos objetivos de vida pessoais. Esse tipo de ação envolve um comprometimento mais profundo e inspirador, como a participação em um trabalho voluntário por saber e sentir que ele é importante para a sociedade. Não obstante, a conclusão é que a motivação extrínseca é um artifício para sustentar o comprometimento em curto e médio prazo, a não ser no caso da regulação identificada e da regulação integrada. Para desenvolver a vida de forma saudável e satisfatória, há que se manter o foco nas motivações intrínsecas. A habilidade de se autorresponsabilizar (accountability) Accountability é um termo para designar um nível de autorresponsabilidade que vai além do convencional. Pessoas com pouco accountability dão desculpas para a suas atitudes e responsabilizam o outro para justificar alguma falha. Ao fazer uma autorreflexão, é possível identificar desculpas para deixar de fazer algo relevante, bem como João Cordeiro destaca no livro Accountability: a evolução da responsabilidade pessoal nas empresas - o caminho da execução eficaz, editado em 2013. Quando isso acontece com frequência, é provável que não se atinjam as metas de vida e, justificando-o por meio de situações ou pessoas, fica mais difícil corrigir tal condição. Porém, o accountability é uma habilidade aprendida e desenvolvida, se integrando com responsabilidade, iniciativa, comprometimento e proatividade. Quanto mais incrementada essa habilidade for, mais escolhas maduras ocorrem e menos é necessário que algo seja ordenado para ser realizado. As pessoas com alto grau de accountability transmitem confiança ao outro ao cumprir o que foi acordado, sabendo que, se o acordo não der certo por qualquer motivo, é conhecida a responsabilidade a ser assumida para corrigir a situação. Com base nos estudos de Cordeiro, as pessoas nascem com a condição de ter accountability. Em algumas pessoas, ela se apresenta com mais facilidade, sofrendo influências do meio social e cultural, ao passo que, para outros, são imprescindíveis mais esforço e aprendizado para desenvolvê-la. Além disso, mesmo para quem já apresenta tal competência, é possível aperfeiçoá- la. Reconhecimento de emoções (empatia) A empatia engloba um campo vasto de estudos de aspectos sociais, filosóficos, fisiológicos e psicológicos cuja apreciação resume um método que estabelece relações mais próximas e verdadeiras com o outro. O termo empatia tem origem na palavra grega empatheia, que se relaciona à paixão ou ao acontecimento de ser afetado. O conceito é complexo de ser explicado por conta das várias definições, exploradas por diversos autores. De modo geral, Almir e Zilda Aparecida Del Prette, na página 86 do livro Psicologia das relações interpessoais: vivências para o trabalho em grupo, de 2001, determinam empatia como a “capacidade de compreender e sentir o que alguém pensa e sente em uma situação de demanda afetiva, comunicando-lhe adequadamente tal compreensão e sentimento”. Há teorias que a caracterizam como uma condição inata aos seres humanos e que pode ser aprimorada, facilitando as relações sociais. As pessoas que praticam a empatia costumam ter ligações mais saudáveis, com mais oportunidades profissionais e satisfação com a vida. Relações empáticas Os estudos científicos sobre a empatia foram iniciados por volta de 1870, na Alemanha, utilizando do termo einfuhlung (alemão), que significa colocar sentimentos humanos em objetos, animais etc. Analisando o desenvolvi- mento humano, a empatia seapresenta na infância por meio dos aprendizados afetivos precoces entre pais e filhos, fundamentais nas futuras conexões emocionais e sociais. Com a empatia, se estabelece um contato afetuoso que influencia no desdobramento emocional humano desde cedo, melhorando os contatos, gerando o sentimento de reconhecimento do outro em relação a si e instituindo uma ligação profunda, como apontado por Tânia Godinho na tese Contributos para a compreensão do processo de empatia e do seu desenvolvimento, defendida na Universidade de Évora em 2015. O reconhecimento e aceitação pelo outro proporciona abertura para se autorreconhecer, autoaceitar e se reorganizar. Tal reorganização interna acontece porque, se o outro dá atenção às suas experiências, novos pensamentos e sentimentos ficam mais propícios a surgirem. A empatia consiste em uma intuição emocional complexa, que inclui uma resposta afetiva do que foi sentido. A escuta empática é um recurso primordial na prática da empatia, ocorrendo mediante uma escuta cuidadosa sobre o que o outro diz, proporcionando uma compreensão ampla apenas ouvindo aquilo que se tem a dizer. Os estudos mais recentes sobre empatia veem o constructo como multidimensional, envolvendo o conhecer, o sentir e o intencionar. Autores contemporâneos propõem alguns pontos sobre a empatia: • A percepção da presença do outro; • A implicação de dimensões intrínsecas, procedimentos neuronais, cerebrais e bioquímicos que toleram a apreensão dos estados internos próprios e dos outros, desencadeando respostas comportamentais; • Os processos intrínsecos são influenciados por fatores extrínsecos, desde a vinculação com os pais e emoções vividas no momento atual. No cognitivismo (abordagem psicológica de entendimento da mente), a empatia é a capacidade de apreender sobre sentimentos e emoções e, com isso, se perceber sob o prisma do outro, expressando a compreensão e os sentimentos dessa experiência. O conhecimento contém aspectos afetivos (a emoção do outro), cognitivos (adotar o prisma do outro) e comportamentais (expressar as emoções), três habilidades aplicadas para atender às necessidades afetivas de outras pessoas. Quanto mais avançadas as habilidades empáticas, bem como disposição para a escuta e a observação das pistas não verbais e corporais, menos agressividade. Segundo o artigo O desenvolvimento da empatia como prevenção da agressividade na infância, escrito por Michelle Pavarino em conjunto com Almir e Zilda Aparecida Del Prette para a edição de maio/agosto de 2005 da revista Psico, por meio da observação se percebe o sentimento do outro e, tomando essa perspectiva, se sente a dor do outro, correspondendo de forma positiva. Habilidades em relacionamentos interpessoais Pesquisas indicam que a qualidade dos relacionamentos interpessoais é coerente com o bem-estar das pessoas. Há também fortes indícios de que, em momentos na infância, na vida adulta ou na velhice, os relacionamentos interpessoais positivos medeiam as associações entre bem-estar psicológico e habilidades sociais. Esses fatos fazem refletir sobre a importância deste tema que influencia a saúde e qualidade de vida de toda a humanidade. Ademais, as relações empresariais reconhecem as vantagens competitivas de colaboradores que têm habilidades e competências sociais. Além disso, se não todas, grande parte das teorias e modelos referentes à IE analisam as relações interpessoais como um componente prioritário para a inteligência emocional. Nesse sentido, as habilidades sociais e as competências sociais são dois conceitos-chaves, por vezes rotulados como sinônimos, mas que são complementos fundamentais no contexto dos relacionamentos interpessoais. Habilidade social As habilidades sociais são o material fundamental para a construção das competências sociais, podendo ser organizadas em critérios, classes e funcionalidades. Conforme os estudos dos psicólogos e pesquisadores brasileiros Almir e Zilda Aparecida Del Prette (2005), são propostas sete habilidades sociais para a competência social: Automonitoria – observar, descrever, interpretar e regular pensamentos e emoções em situações sociais; Habilidades sociais de comunicação – fazer e responder perguntas, dar feedback positivo, elogiar, encerrar conversas; Habilidades sociais de civilidade – dizer por favor, agradecer, apresentar-se, cumprimentar; Habilidades sociais assertivas – expressar opiniões, discordar, fazer pedidos, interagir com autoridades, lidar com críticas, expressar desagrado, lidar com a raiva do outro; Habilidades sociais empáticas – compreender e sentir o que o outro sente e pensa, e comunicar tais sentimentos e pensamentos; Habilidades sociais de trabalho – coordenar o grupo, falar em público, trabalhar em equipe; Habilidades sociais de expressão de sentimento positivo – expressar otimismo e mensagens que inspiram sentido e motivação. Competência social A competência social organiza pensamentos, sentimentos e ações, voltados às habilidades sociais, para chegar a objetivos sociais. Para que as habilidades sociais se tornem uma competência social, elas se manifestam em comportamentos bem-sucedidos, visando um resultado. Com isso, para definir uma competência social, são consideradas as habilidades e os resultados atingidos por meio do desempenho. A competência é o resultado da inteligência bem-sucedida, o que insere a prática da inteligência que provoca resultados positivos para o indivíduo e/ ou situação. Alguns pressupostos básicos para a aplicação das habilidades e competências sociais são: • As habilidades sociais são aprendidas e cobrem questões pessoais, culturais e situacionais; • Obter bom nível de habilidades sociais não garante obter competência social; • Diferente da habilidade social, a competência tem um sentido avaliativo que qualifica a proficiência de um desempenho; • Existem critérios de análise de uma competência social, como a obtenção dos objetivos, a melhoria ou manutenção da autoestima, a melhoria nas relações, o equilíbrio entre ganhos e perdas com o outro e a ampliação do respeito. Competências social e emocional O conceito de competência geralmente se confunde com outros conceitos como: aptidões, habilidades, conhecimentos etc. Porém, a compreensão precisa acerca da competência nos permite verificar sua diferença dos elementos que, na maioria das vezes, compõem a sua estrutura, bem como a importância da sua presença. Esse fato pode parecer, a princípio, apenas um pequeno detalhe semântico, porém, veremos que sua compreensão detalhada se faz necessária para entendermos a concepção teórica do modelo de competência atual e o emprego das práticas vinculadas à inteligência emocional (IE). Contudo, observaremos que as competências são a combinação de uma série de fatores, que geram resultados, sendo estes fundamentais para que uma competência esteja presente em um indivíduo. Dessa forma, competências sociais e emocionais sempre resultam em ações que geram consequências positivas para pessoas, situações ou contextos. O que são competências individuais? Quando conceituamos competência, estamos falando sobre a prática de conhecimentos, assim como acerca da inteligência que transforma tais conhecimentos em experiências, aumentando, cada vez mais, a complexidade das ações. Ela envolve uma ação responsável, que acomete alto desempenho e é reconhecida pelo outro (FLEURY; FLEURY, 2001). Em sua composição e atuação há processos como: transferência de conhecimentos e habilidade, mobilização e integração de saberes e de ações. O conceito de competência e seus modelos práticos são muito utilizados no meio organizacional, buscando prover desenvolvimento contínuo às pessoas. Além disso, o desenvolvimento de competências comportamentais e socioemocionais influenciam positivamente o desempenho de toda uma organização. É muito comum, geralmente,a competência ser definida pela sigla CHA, que significa a soma de Conhecimento, Habilidades e Atitudes. Esse conceito pode ser encontrado em muitos sites, blogs e informações gerais sobre desenvolvimento de pessoas para o trabalho. Nessa perspectiva, a definição de competência envolve a somatória de conhecimentos, habilidades e atitudes. Entretanto, quando aprofundamos nossos estudos e nos remetemos ao âmbito teórico e acadêmico, verificamos que um fator determinante que envolve tal conceito é a entrega ou o resultado, tal qual a inclusão de fatores latentes, como aspectos psicológicos, os quais não são observáveis no comportamento, mas que o influenciam. Sendo assim, podemos dizer que competência se refere a fatores latentes (valores, motivações, personalidade e o CHA) que geram comportamento observável, provocando resultados positivos evidenciados pelo alto desempenho. Um dos fatores que se relaciona ao conceito de competência é a complexidade, a qual envolve a aprendizagem contínua das habilidades, a partir do que se é exigido de determinada pessoa (DUTRA, 2008). Esse fato significa que, independentemente do nível de relacionamento interpessoal de uma pessoa, ela continua a se aperfeiçoar e a aumentar seu nível de complexidade, de modo a atender ao ambiente em relação às atividades cada vez mais complexas. Isto é, uma pessoa pode ter a competência de relacionamento interpessoal para atender a um cliente e resolver seu problema, ser gentil, escutar sua necessidade e fazer a troca de um produto, mas pode não ter um nível de complexidade de relacionamento interpessoal para gerenciar conflitos entre áreas de uma empresa, o que exige um nível de complexidade mais avançado. Para entendermos melhor, o professor Joel Dutra diferencia complexidade de dificuldade, exemplificando a competência necessária para uma intervenção médico-cirúrgica. Quando conseguimos definir um processo sistematizado para o desenvolvimento de uma atividade a ser executada por outras pessoas de mesmo nível, essa deixa de ser complexa, mesmo que seja difícil a sua execução. Isso acontece em casos de uma intervenção cirúrgica de apêndice, haja vista a sua dificuldade, pois ela precisa de preparo e conhecimentos avançados de medicina para sua realização. Porém, quando estudadas e praticadas, facilmente, são inseridas na rotina de um cirurgião. Já o caso de um transplante de coração, mesmo que sistematizado, necessita de conhecimento de diversas especialidades e de possibilidades de ocorrências inesperadas para que seja realizado (DUTRA, 2016). A Figura 1 descreve um modelo de níveis de complexidade em relação às competências guiadas pela “Orientação para Resultado”, sendo os níveis classificados em quatro (N1, N2, N3, N4), no qual o N1 é o menos complexo e o N4 é o mais complexo. É importante ressaltar que tal modelo é mais utilizado em ambientes corporativos e institucionais, para mapear as competências individuais e suas possibilidades de desenvolvimento. Esse tipo de modelo permite planejar as ações de treinamentos necessários e o planejamento de uma carreira dos indivíduos na organização. Contudo, podemos dizer que existe um aspecto fundamental na competência que a difere de uma habilidade, ou seja, a avaliação do desempenho. Essa avaliação relaciona-se com os objetivos do próprio indivíduo, de uma situação ou cultura. Ela produz resultados positivos que atendem a princípios éticos. O desempenho depende do conjunto de habilidades, como também da conexão entre elementos cognitivos e emocionais, os quais incluem comportamentos latentes e manifestos (pensamentos, sentimentos e comportamentos observáveis). A influência dos comportamentamentos e habilidades na competência social Uma forma de compreender uma competência social é detalhando os elementos que fazem parte de sua constituição e suas interfaces. Sendo assim, iniciaremos conceituando e diferenciando os principais componentes do comportamento social. Os comportamentos sociais, de modo geral, podem ser divididos em duas partes: desejáveis e indesejáveis. Os comportamentos desejáveis envolvem aspectos culturais e sociais, visto que se baseiam no respeito e em uma interação positiva entre os indivíduos. Já os indesejáveis causam prejuízos e malefícios ao próprio indivíduo que os emite e/ou a outras pessoas e grupos sociais. Os indesejáveis geram transtornos definidos como comportamentos sociais agressivos, que normalmente geram resultados satisfatórios, a curto prazo, para quem os emite e resultados insatisfatórios para o outro ou grupo que os recebe. Já os comportamentos sociais passivos, frequentemente, têm o efeito contrário: em curto prazo, o grupo e o outro podem se beneficiar, mas não contribuem para quem o emite. O comportamento agressivo revela a desvalorização dos interesses ou direitos do outro. Nessa situação, o indivíduo impõe as suas necessidades, opiniões e desejos de forma ameaçadora, provocadora e hostil. Esse comportamento inclui: falar alto e de forma dominante, ser rude e interromper constantemente o outro. Assim, é manifestada uma relação de dominância com o outro, apresentando certa arrogância. As crenças relacionadas a esse tipo de comunicação envolvem superioridade, insegurança e medo. A longo prazo, as pessoas que enfatizam tal estilo comportamental podem perceber que as dificuldades nas relações trouxeram muitos conflitos e rompimentos em sua vida pessoal e profissional. O estilo passivo manifesta pensamentos, sentimentos, ideias e preferências de forma indireta, implícita e depreciativa, ou até mesmo deixando de expressá-los. Ele parte do princípio de que precisa agradar o outro para ser considerado, suprindo suas necessidades para não o contrariar e deixando de comunicar claramente sua opinião. Verificamos os seguintes comportamentos passivos: evita determinadas discussões, conflitos e confrontos, demonstra muita ansiedade, expressa-se com muitas justificativas, depreciação e muitos pedidos de desculpa. Logo após a pessoa se manifestar de forma passiva, costuma ocorrer a diminuição da ansiedade, mas, posteriormente a esse momento, é comum ocorrer um sentimento de culpa ou vitimização pelo outro (MARTINS, 2017). A habilidade assertiva tem como objetivo o comportamento equilibrado, em que há um balanceamento entre expressar opiniões, sentimentos e pensamentos, bem como escutar o outro, respondendo e respeitando, também, suas opiniões, sentimentos e pensamentos. Isso se caracteriza por reciprocidade mútua e equilíbrio de interesses, com um discurso integrado que se organiza em torno dos participantes. Quando o comportamento assertivo ocorre, o indivíduo se manifesta de forma confiante e sua autoestima se eleva. Em um diálogo no qual se utiliza a comunicação assertiva, a cooperação se sobressai, pois o raciocínio assertivo tem foco na solução e não na defesa ou agressão. O Quadro 2 apresenta as diferenças entre comunicação agressiva, assertiva e ativa. Sendo assim, é possível concluir que a postura assertiva é uma habilidade, a qual busca manter o equilíbrio dos dois extremos inadequados, um por excesso (agressão), outro por falta (submissão) (MARTINS, 2017). O Diagrama 4 representa o ciclo da competência social e transtornos psicológicos e sua relação com comportamentamento social. Um fato importante é que os comportamentos sociais (observáveis) são compostos por fatores latentes que contribuem para que sejam desejáveis ou indesejáveis. As habilidades sociais são referentes aos comportamentos sociais desejáveis, tendo alta possibilidade de contribuir com o desempenho social, gerando competências sociais. A partir dessas competências, é possível a geração de resultados socialmente pretendidos.Para que haja habilidade social, é necessário que comportamentos sociais desejáveis sejam praticados e desenvolvidos cada vez mais. De qualquer forma, é importante ressaltar que nem sempre o uso das habilidades resulta em competências, pois, para que isso aconteça, é necessário incluir critérios relativos às classes e subclasses das habilidades. Uma forma geral de explanar esses conceitos é dividir as classes em: topografia e funcionalidade. A topografia envolve aspectos formais, como gestos, expressão corporal e tons de voz, já a funcionalidade está relacionada à função em si do comportamento. Na escuta empática, por exemplo, é demonstrada compreensão e validação dos sentimentos, como os comportamentos funcionais (subclasses) da classe empatia. Já as expressões corporais fazem parte de uma série de habilidades sociais e podem ter representações diferentes, dependendo de cada cultura ou sociedade. No caso da escuta empática, envolve olhar com ternura, sinalizar com o sorriso e a entonação de voz suave à compreensão do outro. Expressões como acenar, abraçar, cumprimentar, são classificações topográficas que podem sofrer variações conforme aspectos culturais e situações específicas. Sendo assim, podemos verificar que em uma classe podemos encontrar funções semelhantes e topografias diferentes. Além disso, fazer perguntas é um comportamento relacionado tanto à habilidade de assertividade, quanto à habilidade empática, embora o tom de voz, os gestos e a expressão facial sejam diferentes em relação a cada um desses contextos (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2017). A influência das emoções na competência emocional De forma geral, podemos dizer que é possível as pessoas controlarem o que falam em uma reunião, discurso ou até mesmo nas relações familiares. Esse controle ocorre quando elas planejam o que querem, e, em muitas vezes, obtêm o sucesso. Quando paramos para pensar sobre o que dizer, frequentemente, conseguimos planejar nossa fala; mesmo que seja comum não nos atentarmos a como estamos, ao que dizemos e ao que sentimos enquanto estabelecemos trocas com o outro. Devido à dificuldade de controlar a forma com que (como) nos expressamos e o que sentimos, haja vista que a associação desses fatores à fisiologia de nossas emoções, tais manifestações são normalmente indicadores mais confiáveis de crenças individuais e conteúdos psicológicos latentes do que conteúdos manifestos em nossas falas. Esses fatores são definidos por CNVP (Componentes Não Verbais e Paralinguísticos). Eles são apresentados e sistematizados no Diagrama 5. Podemos dizer que a habilidade de lidar com aspectos emocionais contempla a congruência entre o que expressar (conteúdo verbal) e o como expressar (CNPV), conferindo maior credibilidade entre emoções e expressões. É possível dizer, ainda, que a observação das expressões faciais e o seu entendimento influenciam no desempenho social das pessoas, refletindo as emoções de cada indivíduo e potencializando as relações, quando emitidas adequadamente. Os CNPV, dessa forma, são elementos importantes na troca, pois possibilitam um rápido processamento das emoções transmitidas (PACHECO, 2015). Nesse contexto, percebemos as influências desses aspectos nas relações sociais. Quando partimos do conceito de competências e o empregamos com relação às competências emocionais, podemos dizer que ser competente emocionalmente refere-se a utilizar a habilidade emocional de conhecer as próprias emoções e as emoções do outro, obtendo um desempenho superior a partir disso. Portanto, quando entramos em contato com a nossa comunicação não verbal e a tornamos mais consciente, acessamos, muitas vezes, crenças e padrões, e a partir desse, podemos nos reconhecer de forma mais completa. Com frequência, para acessar nossas emoções e podermos desenvolver habilidades e competências emocionais, precisamos do apoio do outro, o qual pode vir de um processo psicoterapêutico profissional. O acesso ao sistema emocional estabelece condições de previsões comportamentais e de regulação, permitindo a construção da competência emocional. Outro fator relevante para a competência emocional é a crença de autoeficácia. Tais crenças referem-se à autopercepção individual sobre as próprias capacidades. A partir dessa perspectiva, é possível dizer que pessoas com crenças de autoeficácia elevadas lidam de forma mais positiva com suas emoções e preveem resultados positivos sobre seu desempenho. Conforme a teoria da autoeficácia, o indivíduo tem poder de escolha em adotar um comportamento em uma determinada situação, não sendo apenas reagente aos estímulos externos (PACHECO, 2015). Ademais, a autoeficácia é construída e pode ser modificada de acordo com as novas experiências de vida e com a adoção de estratégias mais eficazes tomadas pelo indivíduo. Inteligência emocional baseada no modelo de competências Neste tópico detalharemos a base e as referências utilizadas pelo psicólogo Daniel Goleman no desenvolvimento da IE fundamentada no modelo de competências. É sabido que Goleman considera, em sua teoria, tanto aspectos intrapessoais como relacionais para compor seu modelo, mas, aqui, esmiuçaremos tais princípios e consideraremos sua trajetória para construí-la. Veremos que ele sofreu influências do pesquisador David McClelland com relação à modelagem das competências e que seus estudos atuais vêm considerando, cada vez mais, as pesquisas em neurociência, tanto para aspectos intrapessoais quanto para as questões emocionais. Contudo, consideraremos que os primeiros estudos de Goleman enfatizaram a Inteligência emocional com foco em aspectos pessoais e seus últimos livros e artigos vêm enfatizando a Inteligência Social e, dessa maneira, foi elaborado o conceito de competência socioemocional. A construção do modelo de competências de IE Quando Daniel Goleman iniciou os estudos sobre IE, seu foco eram as habilidades relacionadas ao autoconhecimento emocional e a condição do indivíduo em gerenciar as suas próprias emoções. Porém, a partir da década passada, houve uma ampliação da visão da IE considerando-se a conexão com outros indivíduos em seu contexto. As interações passaram a fazer parte do contexto de IE, a partir da visão relacional de que um indivíduo contribui com a criação de outro indivíduo (GOLEMAN, 2011). Quando esse foco é ampliado para as relações, é possível olhar para além de si mesmo e compreender, crescentemente, o que ocorre quando há uma interação entre as pessoas, e, assim, considerar o outro no contexto de inteligência social. Estudos neurocientíficos concluem que quando o outro demonstra alguma emoção e sentimento relacionado a raiva ou repulsa por nós, são ativados, em nossa fisiologia, circuitos que nos provocam emoções semelhantes, ou seja, é como se as emoções fossem contagiosas (GOLEMAN, 2011). Esse fato está relacionado até mesmo com as expressões corporais apresentadas pelo outro, as quais percebemos de forma consciente ou inconsciente. Assim, podemos dizer que as interações, de modo geral, contêm essa troca emocional, a partir das quais influenciamos o bem-estar ou mal-estar do outro e também sofremos influências. Além da inserção de habilidades relacionais em seus estudos, Goleman passa a considerar as referências do falecido professor de Havard, David McClelland, um dos pioneiros sobre estudos de competências, principalmente no contexto empresarial (GOLEMAN, 2014). Ainda na década de 1970, McClelland propôs que para a contratação de líderes nas organizações, ao invés de aplicar testes de QI (quociente de inteligência), de personalidade e examinar currículo, deveríamos estudar os empregados que apresentavam alta performance em determinado serviço e compará-los com os empregados de desempenho mediano,e, a partir disso, fossem escolhidas pessoas com perfis semelhantes aos em pregados de alto desempenho. Os estudos realizados naquela época já revelavam que as principais competências que se diferenciavam no alto desempenho tinham componentes de inteligência emocional, como a iniciativa e a colaboração. A intenção de Goleman estava no aprofundamento da influência da inteli gência emocional com relação ao desempenho no trabalho. É importante lembrar que a competência se relaciona em aplicar as habilidades e alcançar alto desempenho a partir de tal aplicação. Portanto, Goleman analisou em torno de 200 modelos de competências utilizados por diversas organizações e verificou que as lideranças cujo desempenho era alto apresentavam mais competências relacionadas à IE do que ao QI. Sua análise envolvia compreender quais capacidades pessoais traziam mais resultados e em qual nível. Sendo assim, sistematizou as capacidades em três categorias: habilidades puramente técnicas, voltadas ao conhecimento do negócio; habilidades cognitivas, como raciocínio analítico; e habilidades emocionais, como capacidade de trabalhar com o outro e gerenciar mudanças. Contando com uma equipe de psicólogos, foi solicitado que a alta direção das organizações identificassem as características dos líderes de maior desempenho e destaque na organização. O propósito dos psicólogos era criar modelos, então, os líderes em destaque foram entrevistados e testados e suas capacidades foram comparadas. A partir das pesquisas, foram criadas relações entre sete e quinze competências, entre as quais estavam: visão estratégica e iniciativa. Verificou-se que algumas das competências eram relativas às habilidades cognitivas, umas técnicas e muitas outras emocionais, como a autogestão. Os estudos ainda demonstraram que, embora aspectos intelectuais e cognitivos fossem primordiais para o alto desempenho, a IE revelou ser duas vezes mais importantes. Além disso, concluiu-se que quanto mais complexa as posições dentro da organização, a IE passa a ter mais valor e as habilidades técnicas, um valor menor. Em relação à comparação entre as pessoas de desempenho mediano com as de alto desempenho em nível de alta liderança, em torno de 90% das competências relacionava-se à IE (GOLEMAN, 2012). Além de Daniel Goleman, outros estudiosos vêm relevando que a IE atua como o principal componente para o alto desempenho de líderes nas organizações. Uma consideração importante do modelo é que ele se baseia em 14 competências, que fazem parte de quatro domínios, considerados no Quadro 3. O modelo propõe que líderes e profissionais desenvolvam as competências obtendo um equilíbrio entre os seus pontos fortes. Existem estudos que assinalam que profissionais medianos possuem apenas algumas competências, enquanto profissionais com alto desempenho possuem um equilíbrio em relação às competências de IE. Embora o equilíbrio entre o desenvolvimento das competências seja o ideal, é importante enfatizar que ninguém possui todas as competências aprimoradas. Existem, no mercado, ferramentas que avaliam as competências. Esses instrumentos normalmente são utilizados por empresas, consultorias e profissionais especializados. A partir de tal avaliação, é possível conduzir os profissionais ao conhecimento dos níveis de suas competências e, a partir disso, construírem um plano de desenvolvimento individual. Além dos instrumentos de avaliação da IE, as avaliações de 360 graus também são maneiras interessantes de o profissional conhecer a visão do outro em relação a ele, seus pontos fortes e as necessidades de desenvolvimento em referência às competências relativas ao modelo. A inteligência emocional no modelo dos quatro grandes fatores A inteligência emocional no modelo dos quatro grandes fatores Seção 7 de 8 Faixa Divisa╠âo_estudante prova-01.png É sabido que o modelo de competência de IE de Daniel Goleman parte do princípio de que há quatro fatores macros desdobrados em 18 competências. Esses têm os seus respectivos focos em competências relacionadas ao próprio indivíduo, assim como do indivíduo em relação com outro. Tais competências podem ser aprendidas e gradativamente desenvolvidas, permitindo um estilo de vida mais saudável, que nos traz bem-estar e um desempenho superior no trabalho. Neste tópico, aprofundaremos o conceito e as exemplificações do funcionamento dos quatro grandes fatores em nossas vidas. Veremos que a maioria dos elementos de todo modelo de inteligência emocional cabe dentro destes quatro domínios: autoconsciência, autogestão (intrapessoal), consciência social e gerenciamento de relacionamentos (interpessoal). Ampliaremos também nossa visão quanto a tais conceitos, relacionando-os aos fatores fisiológicos do funcionamento do cérebro humano para uma compreensão ainda mais completa e atual dos elementos da IE. Foco interno: autoconsciência e autogestão Os primeiros dois dos quatro domínios da inteligência emocional são relacionados aos aspectos internos (intrapessoal), a autoconsciência e autogestão. A autoconsciência se manifesta como uma autoconfiança realista e consciência das próprias forças e limitações. De forma geral, podemos dizer que a autoconsciência se refere a conhecer as próprias emoções profundamente, como também suas forças e fraquezas, além dos próprios valores e objetivos de vida. Os indivíduos com autoconsciência fazem escolhas alinhadas ao que conhecem sobre si, por saberem o que lhes faz bem e aquilo que lhes pode trazer mais significado e bem-estar. É comum pessoas com essa competência recusarem um trabalho não condizente com os seus valores e objetivos, assim como desenvolverem um estilo de vida pertinente ao que de fato acreditam. Verificamos que pessoas com a autoconsciência desenvolvida tendem a ter momentos introspectivos, os quais permitem que não reajam por impulso. Esse processo pode ser denominado de autorreflexão e pode ser alcançado por meio de espiritualidade, esportes, meditação ou autoconhecimento filosófico. Uma autoconsciência bem treinada permite que nos atentemos aos sutis sinais internos, sobre decisões a serem tomadas e caminhos a serem seguidos. Isso ocorre como um mecanismo norteador, nos auxiliando a expressar nossos valores em palavras e nos apoiarmos no processo empático no momento de transferência com o outro. Aspectos importantes que possibilitam uma troca verdadeira com integridade e noção de ética e se relaciona a esse estímulo interno (GOLEMAN, 2012). Quando nos orientamos por nossos valores, nosso cérebro atua de forma positiva em prol de nossos objetivos. O córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pela atenção e autoconsciência, monitora nossas emoções vinculadas à satisfação e emite sinais para que continuemos a busca por satisfação. A intuição é um recurso que permite com que sentimentos e emoções sejam utilizados também para a tomada de decisão, como uma possibilidade de ocorrência de determinada situação ou um possível caminho a ser seguido. Ela é utilizada também como uma hipótese razoável, importante de ser considerada em conjunto com outros dados e fatos. Foi realizado um estudo com 60 empresários de empresas muito bem-sucedidas e todos disseram que consideravam a intuição para a tomada de decisão sobre os negócios. Para eles, se um plano com base em dados lhes indicasse uma boa solução, mas a intuição lhes dissesse o contrário, eles seguiam adiante, mas com muito cuidado ou até mesmo não seguiam no determinado momento (GOLEMAN; BOYATZIS; MCKEE, 2018). A intuição pode ser encarada como um conhecimento acumulado, relacionada à prática e experiência de vida. O cérebro constrói uma espécie de banco de dados, sobre o que dá certo e o que dá errado, absorvendo lições nos deixando preparados para uma próxima situação semelhante. Isso