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Unidade I Trajetória Profissional do Serviço Social Introdução ao Serviço Social Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial ALESSANDRA VANESSA FERREIRA DOS SANTOS Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria EMILLY KÉSSIA DA COSTA CAVALCANTI SILVIA CRISTINA DA SILVA AUTORIA Emilly Késsia da Costa Cavalcanti Olá! Sou graduada em Serviço Social pela Universidade Norte do Paraná (Unopar) (2015) e em Administração Pública pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) (2020). Também sou especialista em Gestão Pública pelo Instituto Federal de Pernambuco (IFPE) (2018), em Serviço Social e Gestão de Projetos Sociais pela FAVENI (2018) e em Auditoria e Controladoria pela Instituto Século XXI (2021). Sou apaixonado pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! Silvia Cristina da Silva Olá! Sou mestre interdisciplinar em Educação, Ambiente e Sociedade pela Centro Universitário das Faculdades Associadas de Ensino (UNIFAE), com participação docente e discente no mestrado em Análise do Discurso pela Universidade Federal de Buenos Aires e especialista em Docência do Ensino Superior e Direito e Educação pela Faculdade Campos Elíseos. Também sou pós-graduanda em EaD pela Faculdade Campos Elíseos, graduada em Ciências Jurídicas e Sociais pela UNIFEOB e vice-diretora acadêmica na Agência Nacional de Estudos em Direito ao Desenvolvimento (ANEDD). Além disso, sou especialista em Investigação de Antecedentes em instituições públicas e privadas; docente e conteudista em diversas instituições educacionais para cursos de graduação e pós-graduação; elaboradora de questões para concursos públicos em várias organizadoras; degravadora, redatora, tradutora e intérprete da língua espanhola. Sou apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por isso, fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: para o início do desenvolvimento de uma nova competência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de apresentar um novo conceito; NOTA: quando necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento; REFLITA: se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido; ACESSE: se for preciso acessar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando uma competência for concluída e questões forem explicadas; SUMÁRIO Conceito e definição do serviço social .............................................. 10 Conceitos importantes do Serviço Social ..................................................................... 10 O capitalismo .................................................................................................................. 10 A questão Social, Bem-estar social e Serviço Social ........................ 15 Atribuições dos assistentes sociais .....................................................23 Atribuições privativas e competências do Assistente Social ..........................23 Atribuições privativas e competências na atuação no Centro de Referência da Assistência social (CRAS) ........................................................................27 O instrumental técnico-operativo .................................................................... 31 Origem da profissão de serviço social no mundo .........................38 Origem do Serviço Social na Europa ............................................................................... 38 O Estado de Bem-estar na Europa ....................................................................................43 Surgimento da carreira de serviço social no brasil ......................49 Origem do Serviço Social no Brasil ................................................................................... 49 O estado de Bem-estar social no Brasil .........................................................................55 7 UNIDADE 01 Introdução ao Serviço Social 8 INTRODUÇÃO Olá! Seja bem-vindo à disciplina de Introdução ao Serviço Social, a qual permitirá uma compreensão acerca dos conceitos e momentos que deram origem à profissão. Tendo em conta essas preocupações e a presente disciplina, organizamos os tópicos abordados neste curso em quatro capítulos, que vão abordar: conceitos e definições do Serviço Social; atribuições dos assistentes sociais; origem da profissão de Serviço Social no mundo; surgimento da carreira de Serviço Social no Brasil. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva, você vai mergulhar neste universo! Introdução ao Serviço Social 9 OBJETIVOS Olá! Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Definir o conceito de Serviço Social e outras definições relacionadas à área. 2. Identificar e entender as atribuições de um assistente social. 3. Compreender a história do Serviço Social no mundo, suas motivações, evolução e cenário atual. 4. Entender como o Serviço Social surgiu no Brasil, discernindo sobre suas diferenças e peculiaridades em relação ao que se tem no mundo. Introdução ao Serviço Social 10 Conceito e definição do Serviço Social OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você será capaz de definir o conceito de Serviço Social e outras definições relacionadas à área. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante! Conceitos importantes do Serviço Social O Serviço Social é uma profissão intervencionista que analisa e propõe ajustes a uma variedade de questões sociais em uma comunidade com base nas ferramentas e métodos multidisciplinares das Ciências Sociais. Portanto, falar em Serviço Social é conhecer os conceitos e definições de tudo que se relaciona ao surgimento da profissão. Logo, o primeiro conceito está relacionado ao sistema capitalista, o qual deu origem a outros conceitos fundamentais para a profissão, tais como: questão social, estado de bem-estar social e Serviço Social. O capitalismo O início do século XIX foi marcado pelo surgimento do capitalismo, um novo sistema político e econômico que se originou na Revolução Industrial e começou a ser implantado na Inglaterra, França e Alemanha durante as décadas de 1820 e 1830, e se espalhou por toda a Europa e, depois, para resto do mundo, incluindo o Brasil. A Revolução Industrial foi o auge das mudanças ocorridas no século XIX, dentre elas o aumento dramático da população urbana, que antes era rural e migrou para as cidades para o trabalho industrial, o que mais tarde ficou conhecido como explosão populacional. Essa é a mudança mais significativa, pois levanta muitos problemas de natureza social e econômica, visto que as cidades não têm estrutura para tantas pessoas, nem a indústria. Introdução ao Serviço Social 11 IMPORTANTE: A partir do século XII, uma nova civilização surgiu e prosperoue se aprofunda e, depois, Introdução ao Serviço Social 48 espalha-se para outras regiões do mundo, sempre com a Europa como referência. O primeiro país a aderir ao estado de bem-estar social foi o Reino Unido, que em 1942 aprovou uma série de operações de ajuda para saúde, educação, renda e muito mais. No entanto, cada sociedade propõe diferentes formas de desenvolver o estado de bem-estar social, com diferentes graus de sofisticação, dependendo da especificidade de cada região e de seu contexto histórico, como seu desenvolvimento nas Américas, por exemplo: Canadá, Austrália e Nova Zelândia, além de Estados Unidos na administração Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) (DELGADO; PORTO, 2018). Portanto, é certo que o estado de bem-estar social é o modelo mais completo de ajuda e proteção estatal que avançou social, política e economicamente nos últimos 300 anos. RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o desenvolvimento da política social europeia, oriunda dos países do continente europeu, visavam à construção de uma sociedade igualitária, com bem-estar social, equidade e, assim, cuidar de todos os cidadãos. Tal curso desenvolve, assim, a capacidade dos alunos de identificar os determinantes sociais, históricos e econômicos das políticas sociais capitalistas centrais na Europa continental, e de compreender a importância dessas políticas para o desenvolvimento social e para o surgimento do Serviço Social, que é intrínseco ao aparecimento das políticas sociais. Foi estudado ainda o processo de construção do estado de bem-estar europeu, que teve início na Grã- Bretanha no pós-guerra. Mas constatou-se que países como a Alemanha implementaram ações sociais para os trabalhadores, o que é um marco na Europa. Desse modo, o desenvolvimento do estado de bem-estar foi se expandindo por outros países. Introdução ao Serviço Social 49 Surgimento da carreira de Serviço Social no Brasil OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você será capaz de entender como o Serviço Social surgiu no Brasil, discernindo sobre suas diferenças e peculiaridades em relação ao que se tem no mundo. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante! Origem do Serviço Social no Brasil Em âmbito nacional, o capitalismo foi introduzido aos poucos, começando no século XIX e sendo consolidado no século XX, tornando- se, assim, o sistema econômico adotado pelo país. Dessa forma, os períodos econômicos em âmbito nacional, estão expressos no Quadro 1. Quadro 1 – Períodos da economia no Brasil ANO MOMENTO ECONÔMICO 1810-1888 Mercantil-escravista cafeeira 1888-1933 Exportadora capitalista 1933-1955 Industrialização restrita 1955 em diante Industrialização pesada Fonte: Elaborado pelas autoras (2022). Dessa maneira, pode-se dizer que o capitalismo é marcado pelo período da economia exportadora entre 1888 até 1933. O mesmo processo na ocorreu na Inglaterra entre 1820 e 1830, com a Primeira Revolução Industrial. Logo, comparando com o Brasil, houve uma diferença de quase cem anos para a implantação do sistema que foi trazido pela Primeira Revolução Industrial. Introdução ao Serviço Social 50 IMPORTANTE: O capitalismo tardio fez alusão ao atraso da entrada do país no processo do capitalismo de produção, sendo advindo de condições internas da formação do excedente do capital, o que beneficiou o capital industrial, tendo graves consequências para os trabalhadores por conta do rebaixamento da força de trabalho na periferia (BORGES; CHADAREVIAN, 2012). Logo, no período da consolidação do capitalismo em âmbito nacional, observa-se que a economia exportadora era fundamentada no café, sendo por meio dela que foram feitas condições para o nascimento do capital industrial e de grandes indústrias, haja vista que a economia cafeeira gerava um grande capital, o qual estava concentrado nas mãos dos cafeicultores, ou seja, com uma parte seletiva da sociedade, os quais eram donos do capital. Com a posse desse capital que estava acumulado, seus detentores investiam em um capital produtivo, transformando a força de trabalho em uma mercadoria, adquirindo mais rentabilidade e acúmulos de riquezas com as custas de um trabalho muito mal remunerado daqueles que necessitavam. Dessa maneira, com tais investimentos, criou-se um mercado interno com grande proporção. Após esse momento, podia-se observar as expressões sociais que foram trazidas pelo sistema capitalista, desde a riqueza dos poucos à pobreza de muitos, com desigualdade e exploração entre os indivíduos. Assim, nesse período, o Brasil passou de um sistema agrário para um sistema industrial, causando a transformação da vida de várias pessoas, pois grande parte da população vivia na zona rural. Após o fim desse sistema agrário, vários deixaram suas respectivas terras, indo para a cidade trabalhar nas fábricas e trazendo para a nação um aumento das cidades e da população. Essa população vendia a sua força de trabalho, vivendo com condições ruins nas periferias e ofertando a mão de obra de crianças e mulheres. Introdução ao Serviço Social 51 Nesse ponto, pode-se observar as semelhanças com o surgimento do capitalismo Europeu, como o êxodo rural e as péssimas condições de vida, porém o sistema capitalista não foi o único problema em âmbito nacional, com a escravidão sendo um grande exemplo. Dessa maneira, no fim do século XIX, mais especificamente em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea teve sua aprovação, extinguindo a escravidão no Brasil. Tal período marca o começo e a consolidação do capitalismo na nação, sendo resultados de grandes problemas da sociedade, os quais são conhecidos como questão social. VOCÊ SABIA? O fim da escravidão foi um avanço nos direitos do ser humano com relação a ser livre, porém, no período descrito, os negros, que anteriormente tinham comida e moradia, ficaram abandonados, sendo que muitos ficaram pelas ruas sem qualquer dignidade e marcados por uma sociedade que os discrimina como pessoas inferiores, sendo que esse problema se intensificou com o desenvolvimento industrial nacional. Para a sua sobrevivência, os negros tiveram que se submeter a outros tipos de exploração, vendendo a sua força de trabalho em troca pelo seu sustento, o que foi chamado por Marx de mais-valia. Logo, pode- se dizer que a Lei Áurea marcou a liberdade dos escravos, porém não por meio das atitudes da sociedade que eram desenvolvidas, resultando em uma exploração contínua, agora da classe dominadora, ou seja, os donos de capitais sobre a classe dominada, que eram os trabalhadores, em que os negros eram inclusos e discriminados por toda sociedade. Por meio do exposto, pode-se entender que diante da ótica do desenvolvimento de uma sociedade capitalista, a abolição da escravidão, ainda que fosse uma vitória em âmbito social, assegurou para os donos de capitais mais força de trabalho com uma remuneração baixa, marcando um novo período de exploração, o que assegurava-lhe ser igual à maioria da população, porém igual na pobreza, na exploração da força de trabalho e na miséria. Introdução ao Serviço Social 52 Assim, pode-se perceber que, no Brasil, já havia diversas expressões da questão social que até então não eram reconhecidas, como a escravidão, as condições desumanas de vida, o preconceito, dentre outras, que com o advento do capitalismo, acabou se intensificando. Dessa maneira, a origem do Serviço Social e das políticas sociais no Brasil, segundo Behring e Boschetti (2011), tiveram grande influência pelo desenvolvimento urbano, sendo o reflexo da industrialização na nação. O Estado passou a ter o controle das massas populares por meio dos mecanismos institucionais, haja vista que o Brasil nasceuem uma forte ambiguidade entre o liberalismo formal como sendo fundamento e o patrimonialismo como sendo uma prática para assegurar os privilégios das classes dominantes. No ano de 1923, as primeiras políticas sociais foram elaboradas em benefício aos trabalhadores, sendo ela a Lei Eloi Chaves, conhecida como Caixas de Aposentadoria e Pensões (CAPS), a qual foi o começo do sistema de proteção social nacional. Quando as expressões da questão social em âmbito nacional começaram a surgir por conta do crescimento das cidades e da aglomeração da população, a pobreza das grandes massas era visualizada como uma falta de capacidade pessoal, a qual devia ser tratada de maneira filantrópica, ou seja, nesse período, somente os trabalhadores que recebiam salários tinham uma cobertura das políticas sociais que eram desenvolvidas (YAZBEK, 2009). Porém, no ano de 1930, o processo de urbanização é expandido, começando pelas lutas de classes e pelas reivindicações por melhores condições, elaborando, assim, a emergência da classe operária. Logo, foi nesse momento que a questão social começou a ser vista e se tornou um aspecto de impulsão para a intervenção estatal para a proteção do trabalhador e da sua família. Nessa década, diante do desenvolvimento e da formação da classe operária e do seu ingresso no contexto político da sociedade, exigindo o reconhecimento como sendo classe por parte do Estado e do empresariado, foram elaborados os Institutos de Aposentadorias e Introdução ao Serviço Social 53 Pensões (IAPs), por meio da lógica do seguro social, o qual substituiu os CAPs. IMPORTANTE: Fica evidente que apesar de algumas semelhanças com o desenvolvimento capitalista na América Latina e na Europa, o sistema de proteção social no continente europeu e latino- americano foram diferentes, por conta das particularidades do Brasil, assim como sua formação histórica, resultando em um acesso desigual, heterogênea e fragmentada aos serviços sociais. No ano de 1943, no governo de Getúlio Vargas, aconteceu a formulação de uma legislação trabalhista, sendo essa uma proteção social que é promovida pelo Estado, denominadas de Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), tendo como finalidade a redução das tensões entre os donos de capitais e a classe trabalhadora (YAZBEK, 2009). Entretanto, é observado que ainda que existisse tal legislação, o Brasil se apresentava como seletivo na proteção social, resguardando, assim, os trabalhadores formais e deixando para a sociedade civil os trabalhadores informais e os mais pobres, estando longe de um sistema universalista social. Logo, a partir da era de Getúlio Vargas, no período de 1937 a 1945, denominado de Estado Novo, manteve-se o crescimento das políticas sociais (YAZBEK, 2009). Dessa maneira, de modo resumido, pode-se dizer que as políticas brasileiras sociais foram desenvolvidas de duas maneiras: para os trabalhadores formais, os quais tinham direitos à regulação da jornada de trabalho, férias, dentre outros; e para os trabalhadores informais, ou até desempregados, restavam as obras filantrópicas e sociais, com iniciativas benemerentes. Assim, o período de 1964 a 1985 foi marcado pela ditadura militar, no qual as políticas sociais mantiveram-se orientadas para as ações emergenciais, assistencialistas e clientelistas, porque legitimavam o sistema autoritário da época. Introdução ao Serviço Social 54 No ano de 1980, houve o aumento no número de pobres no Brasil, por conta da omissão estatal. Logo, os compromissos sociais tiveram, em tal período, a pobreza como o objeto central. Porém, o período de ditadura militar, apesar de representar um período de repressão, grande censura e perdas de direitos, deu origem a várias resistências, lutas populacionais, dentre outros exemplos que foram essenciais para a promulgação da Constituição Federal de 1988. IMPORTANTE: A presente Constituição tratou-se de um marco de garantias de direitos para o cidadão, compondo muitos artigos que abordam o bem-estar da sociedade e assegurando direitos básicos, como saúde, trabalho, educação, dentre outros direitos. Por meio dela, as políticas sociais em âmbito nacional asseguravam um caráter universalizador, cobrindo, assim, todos aqueles que precisam, e não somente os trabalhadores formais. Foi depois da Constituição que sistemas como o Sistema Único de Saúde (SUS) foram elaborados, além de outras várias normas, decretos e leis que têm como finalidade assegurar a garantia da dignidade humana (GOIS, 2017). Logo, foi após a promulgação da Constituição Federal de 1988 que o termo “tripé da seguridade social” foi usado, sendo constituído pela previdência social, pelo sistema de saúde (SUS) e pelo sistema da assistência social (SUAS), ou seja, previdência, saúde e assistência. Portanto, O Serviço Social surge como uma resposta dos grupos dominantes, em especial a Igreja Católica, à latente questão social. Mas, diferentemente das Leis Sociais que surgem em função do proletariado, o Serviço Social deve servir à classe dominante, no seu trato com a questão social, até como uma forma de manter o controle, a ordem, ameaçada pela questão social. (SANTOS; TELES; BEZERRA, 2013, p. 153) Introdução ao Serviço Social 55 Assim, o surgimento do serviço social está diretamente relacionado ao modo de produção capitalista, com padrões contínuos de exploração e desigualdade que fazem com que os problemas sociais apareçam de forma visível e gritante. Os serviços sociais surgiram como uma ferramenta da burguesia para controlar o proletariado, que havia sido mobilizado por melhores condições de vida. O estado de bem-estar social no Brasil As configurações do estado do bem-estar social nas nações de capitalismo central, seguindo o padrão e o nível de industrialização, têm a capacidade de mobilização dos trabalhadores, da cultura política do país e da autonomia do sistema econômico relacionado ao governo. VOCÊ SABIA? É preciso discutir o caminho do Estado de Bem-estar social em âmbito nacional em relação a influência do modelo de proteção social desenvolvido nas nações de capitalismo central, porém é necessário entender que no Brasil, o desenvolvimento do Estado de Bem-estar social deu-se de maneira distinta dos Estados Unidos e da Europa, por conta da sua posição na economia mundial, que não era de uma nação desenvolvida, além das suas particularidades históricas. Assim, Medeiros (2001) afirma que as circunstâncias do surgimento do Estado de Bem-estar social no Brasil são distintas das que são observadas nas nações citadas anteriormente. Além de acontecer em uma distinta posição econômica mundial, tal processo de modernização nacional é marcado com setores industriais modernos, convivendo ainda com setores tradicionais e também com a economia agrária exportadora. Logo, o controle do mercado para produtos industriais através das políticas de massificação do consumo, tratou-se de um fator secundário para um Estado que era preocupado com a disponibilidade de investimentos e insumos, bem como estratégias protecionistas em bens de capital e de infraestrutura. Introdução ao Serviço Social 56 IMPORTANTE: Assim, em âmbito nacional o estado de bem-estar desenvolveu-se por meio de decisões de autarquias, tendo características predominantes, por exemplo, a regulação trabalhista. Dessa maneira, na década de 1920, já havia traços do surgimento do estado de bem-estar social quando foram formuladas políticas como a Lei Eloy Chaves, a Lei do Departamento Nacional do Trabalho em Saúde e o Código Sanitário no ano de 1923. Foram formuladas com o caráter de controle social dos movimentos trabalhistas, sendo tais ações limitadas somente aos trabalhadores assalariados, deixando a sociedade que se encontrava fora dessa categoria desamparada em virtude do assistencialismo privado. Segundo Barcellos (1983), o Estado se apresentavacomo omisso em todos os setores. Na saúde, apenas tinha a atuação diante de epidemias nos centros urbanos e a educação acontecia de maneira parcial em cada região, ou seja, não tinha uma política global educacional. Assim, a previdência se apresentava como totalmente privada e a moradia não chegava a ser considerada objeto de política pública. Em suma, o esforço do surgimento estatal de bem-estar social no Brasil tinha estratégias orientadas para o controle dos movimentos radicais sociais. Assim, eram elaboradas medidas que atendiam de forma exclusiva à classe que ocasionava a comoção, sendo essa a classe trabalhadora. Por essa razão, as primeiras ações sociais foram orientadas para essa classe, buscando a satisfação das necessidades e, dessa maneira, enfraquecer as mobilizações. Nesse contexto, no ano de 1930, o estado de bem-estar social torna-se evidente no Brasil, apresentando um caráter de controle social e buscando evitar os movimentos dos trabalhadores. Logo, o estado de bem-estar social teve como marca principal no Brasil o autoritarismo, como é exposto por Barcellos (1983). Até o ano de 1937, ainda que estivesse vigorando no Brasil o Estado de Direito, já começava a se delinear os traços autoritários que estariam Introdução ao Serviço Social 57 presentes com uma intensidade variável no decorrer do período, que é estendido até o ano de 1964. Nesse primeiro momento, o autoritarismo se expressava de forma fundamental na estrutura corporativista da organização sindical, o qual começou a ser composto no ano de 1930. IMPORTANTE: O corporativismo, deslocando os problemas entre trabalho e capital para a esfera estatal, obstaculizou e descaracterizou a manifestação livre das reivindicações dos trabalhadores. A intervenção estatal que possibilitou esse controle somente foi possível por conta de uma ausência de organizações trabalhistas que tivessem uma força política. Isso deixou uma lacuna, e o Estado passou a ter um controle sobre a força de trabalho. O estado de bem- estar social teve uma grande influência nisso, ajudando na migração dos trabalhadores tradicionais para os setores industriais urbanos, ou seja, ajudou no processo de modernização do trabalho. Assim, a década de 1930 até o começo de 1940 foi marcada pela formação do estado de bem-estar social com a formulação da criação dos institutos de aposentadoria e pensão, além de legislações trabalhistas que foram consolidadas no ano de 1943, sendo essas o marco do desenvolvimento do estado de bem-estar no Brasil. Porém, nesse mesmo período, outras políticas começaram a se desenvolver orientadas para a educação e a saúde. As bases do sistema da seguridade social do Brasil, desenvolveu- se neste período, perdurando até o ano de 1966, sendo assim, o Estado de Bem-estar social acabou sendo consolidado embasado em políticas trabalhistas para trabalhadores urbanos, pois não havia colisão com os trabalhadores rurais, por conta da força política que tinham as oligarquias rurais do período. Introdução ao Serviço Social 58 VOCÊ SABIA? Segundo Barcellos (1983), as políticas trabalhistas orientadas possibilitaram a formulação de um Ministério do Trabalho, a regulamentação do trabalho feminino e a promulgação das legislações trabalhistas, de férias, de jornada de trabalho, dentre outras. A justiça do trabalho ainda consagra a interferência estatal, que regula as negociações em relação aos salários e as organizações dos sindicatos. Com relação às políticas de educação e saúde, foram criadas a previdência estatizada e o Ministério dos Negócios de Educação e Saúde Pública. Todo esse processo de desenvolvimento passa-se no governo de Getúlio Vargas, caracterizado por ser um governo populista e por formular estratégias que elevaram o papel estatal na regulação econômica e das políticas nacionais, buscando atingir o desenvolvimento nacional. Com relação ao regime de Getúlio Vargas, Medeiros (2001) afirma que, da visão das relações de trabalho, o regime populista do período perseguiu cerca de três objetivos básicos: fazer dos trabalhadores um ponto de suporte, ainda que passivo, do regime; impedir que os movimentos de trabalhadores se tornassem suporte para grupos de oposição que reivindicavam alterações profundas na organização da sociedade; despolitizar as relações de trabalho, evitando que as organizações de trabalhadores se legitimassem como instrumento de reivindicação. Introdução ao Serviço Social 59 Figura 10 – Getúlio Vargas Fonte: Wikimedia Commons Dessa maneira, o regime populista faz uma seleção dos trabalhadores que eram organizados, sendo um processo de inclusão controlada, ou seja, aqueles que não estavam em organizações foram deixados de fora do processo. Logo, é nessa relação entre Estado e classe trabalhadora que são agregados às características da incorporação o patrimonialismo e o corporativismo, sendo que tais elementos fundamentaram a Proteção social e o sistema previdenciário social no Brasil. Entre 1937 até 1945, é instaurado no Brasil o período do Estado Novo, um momento de passagem definitiva da base agrária para o urbano- industrial, marcando de maneira forte o estado de bem-estar social por apresentar consequências como a ampliação do poder da burocracia nas tomadas de decisões relacionadas às políticas sociais e de limitação do movimento trabalhista. Introdução ao Serviço Social 60 IMPORTANTE: Assim, fazendo uma comparação do Brasil com as nações do capitalismo central, pode-se dizer que por conta do regime autoritário sobre as políticas sociais, o compromisso celebrado pelo Brasil com a sociedade por meio do estado de bem-estar social não teve de fato as mesmas características. Dessa maneira, apresentou como meta a regulação dos trabalhadores da indústria, limitando o compromisso do estado de bem-estar social somente àqueles que pertencem ao núcleo do capitalismo. Porém, o estado de bem-estar social passou a se expandir, porque conforme a indústria no Brasil expandia, ampliava-se a necessidade de força de trabalho e, com isso, a inclusão de grupos sociais também eram elevadas, porém o estado de bem-estar social acabou sofrendo um período de estagnação entre 1945 e 1964, voltando a aumentar aos poucos, por conta das alterações políticas, ou seja, do autoritarismo para o populismo, que aconteciam no país. Essas alterações acarretaram elevação das atribuições estatais para o saneamento das necessidades que surgiram por conta da modernização da nação com o processo de urbanização. O incentivo dos governos populistas para a mobilização das massas urbanas nos projetos da burguesia industrial possibilitou uma participação e uma organização política do movimento sindical sem precedentes na história nacional. Assim, como consequência, foram inseridas várias alterações na legislação trabalhista que englobavam aspectos de organização sindical, como direito à greve e à tutela do trabalho, buscando algumas reivindicações sociais. Logo, a extensão dos benefícios elaborados por tal legislação, porém, era limitada. A previdência, por exemplo, limitava-se a uma fração pequena da população (MEDEIROS, 2001). Porém, apesar dos novos avanços que foram mencionados em relação ao sistema de proteção social, tal período marca uma redução do estado de bem-estar social em relação a benefícios, beneficiários Introdução ao Serviço Social 61 e organizações, pois havia um caráter de seleção heterogêneo e fragmentado sobre a perspectiva redistributiva do estado de bem-estar social, limitando-o. Tal limitação era orientada para os grupos atendidos pelas políticas sociais que foram formuladas, como já dito, sendo que somente o grupo dos trabalhadores eram beneficiados. Era uma distribuição horizontal, especialmente no sistema de seguridade social, ou seja, apenas atendia- se indivíduos no mesmo grupo, ocorridos por conta dos critériosde elegibilidade, para conseguir essas vantagens e benefícios. SAIBA MAIS: No período militar, o estado de bem-estar social acabou perdendo suas características populistas, assumindo linhas definidas, embasadas em um caráter compensatório, com políticas assistencialistas, que tinha como finalidade diminuir os efeitos negativos sobre a sociedade, ocasionadas pelo avanço do capitalismo na nação, tais como a crescente desigualdade social. Já a outra linha apresentava um caráter produtivista, com o objetivo de implementação de políticas sociais que possibilitassem o avanço do desenvolvimento econômico. Por fim, pode-se perceber que, no decorrer do período de surgimento do estado de bem-estar social no Brasil, muitas foram as alterações que ocorreram no processo de construção, sendo, assim, moldadas dependendo dos regimes políticos de cada momento, o que acabou diferenciando o estado de bem-estar social do Brasil do estado de bem-estar social das nações desenvolvidas. Introdução ao Serviço Social 62 RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o sistema capitalista foi o maior impulsionador do surgimento do Serviço Social no Brasil. Apesar de já ter problemas sociais, a questão social propriamente dita ainda não era reconhecida. Foi somente com o surgimento do capitalismo e a intensificação das desigualdades sociais, não apenas dos negros, que eram vistos como inferiores, mas de toda a sociedade, que surgiram as necessidades de intervenção do Estado. Antes do Estado, as ações eram realizadas pela igreja católica, que prestava auxílio em forma de ajuda, de assistência. Assim, com a intervenção do Estado, surgiu o estado de bem-estar social, uma forma de intervenção que foi espelhados nos modelos de bem- estar de países europeus, mas que, apesar da referência europeia, desenvolveu-se de forma diferente, devido às questões já existentes no país, como a escravidão. Introdução ao Serviço Social 63 REFERÊNCIAS ALBERNAZ, A. C. N. P.; SILVA, V. G. da C. Assistente Social: um profissional a serviço dos direitos, da cidadania e da justiça social. 2009. 175 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Serviço Social) – Universidade Católica de Uberlândia, Uberlândia, 2009. ARCOVERDE, A. C. B. Serviço Social e a Questão Social na Globalização. Serviço Social & Realidade, Franca, v. 17, n. 1, p. 102-124, 2008. ARRETCHE, M. T. S. Emergência e desenvolvimento do Welfare State: teorias explicativas. In: DELGADO, M. G.; PORTO, L. V. (org.) Welfare State: os grandes desafios. São Paulo: LTr, 2019. p. 50-105. BARCELLOS, T. M. M. (coord.). 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O capitalismo tem características próprias, como o comércio e o consumo para a geração de lucro. Nesse modelo, a riqueza é gerada facilmente, mas essa geração exige uma exploração do trabalho, na qual os proprietários ficam cada vez mais ricos e os trabalhadores mais pobres, ou seja, existe uma relação desigual das riquezas geradas. Portanto, o capitalismo trata as pessoas apenas como produtoras de riqueza, sem nenhuma meta de crescimento, nem tendo como meta o desenvolvimento social e o bem-estar social. Logo, a desigualdade social trazida pelo capitalismo é, sem dúvida, a maior consequência desse sistema, mas não é a única. Muitas manifestações sociais surgiram devido à busca excessiva do lucro. A exploração do trabalho tornou-se uma realidade, com mais trabalhadores e menos trabalho, resultando em menos renda e mais trabalho, o que reduz a qualidade de vida e aumenta a fome, a dor, a violência e outras expressões. Introdução ao Serviço Social 12 Figura 1 – Marcha pelo Clima em Madrid – 6/12/2019 Fonte: Wikimedia Commons Assim, fica claro que o sistema capitalista é um sistema contraditório que promete trazer progresso econômico ao país sem especificar que esse progresso será explorado por um pequeno grupo de pessoas que usará o outro para manter sua posição. Ou seja, é um sistema que não consegue atender plenamente às necessidades da população mundial. IMPORTANTE: O capitalismo transforma o trabalhador em mera mercadoria, o que Marx (1985) chama de trabalho abstrato, ou seja, mais-valia. Nele, as necessidades humanas são subordinadas às necessidades do capital e a exploração da força de trabalho em benefício do capital é considerada suficiente pela classe dominante. O termo mais-valia é a relação entre o trabalho e a remuneração paga por ele, o que, para Karl Marx, era uma relação injusta, ou seja, o trabalho não era equalizado pelo esforço despendido para a apropriação Introdução ao Serviço Social 13 do trabalho e, portanto, em alguns casos, mais-valia é o conceito dado aos trabalhadores que são explorados pelo sistema capitalista. Diante dessa realidade, Karl Marx afirmou, em seu livro “Manuscritos econômico filosóficos”, de 1848, que quanto mais um trabalhador produz, mais pobre ele se torna (MARX, 1982). Figura 2 – Karl Marx Fonte: Wikimedia Co mmons Assim, diante da opressão e da desigualdade imposta por esse sistema, o capitalismo acaba alienando o homem ao aprisioná-lo em um sistema opressor. Diante de tanta opressão, é possível traçar um elo entre o capitalismo e o surgimento das demandas de política social. Obviamente, com o advento da industrialização, os países começaram a reconhecer os problemas que surgiam na classe trabalhadora, o que ficou conhecido como “questão social”, que se desdobrava de várias formas. A questão social pode ser entendida como problemas não atendidos pela maioria da população e dirigidos por poucos. Caracteriza-se como uma luta pelos direitos sociais por uma melhor qualidade de vida. Segundo Castell (1999), a partir da conscientização das condições existentes dos trabalhadores, as questões sociais passam a levar em conta os agentes e as vítimas da Revolução Industrial. Esse período demarca não apenas a extrema pobreza, mas também a disparidade entre a organização política e o sistema econômico. Introdução ao Serviço Social 14 SAIBA MAIS: Em 1830, o termo “questão social” passou a ser utilizado na Europa Ocidental, como mencionado anteriormente, para se referir às consequências do processo de industrialização. Antes do advento do capitalismo, no entanto, a pobreza era o resultado da escassez e o resultado do aumento da riqueza do capital, ampliando fundamentalmente a dinâmica da pobreza (NETTO, 2001). O século XX foi um período caracterizado pela disseminação mundial do modo de produção capitalista e sua penetração na estrutura social da sociedade. No entanto, em resposta à exploração a que foram submetidos, os trabalhadores lutaram, e essas batalhas foram contra o Estado, que não garantiu os direitos sociais e individuais do povo, mas os expôs à exploração em nome do crescimento econômico. Diante do descaso com as necessidades sociais pelo Estado, originou-se revoltas e demandas por melhores condições de vida, as chamadas “lutas sociais”, que foram movimentos contra as contradições do capitalismo, que amplificaram e concretizaram a questão social, ou seja, visavam combater diversas manifestações de questões sociais no campo da sociedade civil. SAIBA MAIS: Segundo Behring e Boscheti (2011), a mobilização dos trabalhadores foi importante para a mudança do Estado e, como resultado dessa mudança, algumas conquistas foram alcançadas, como direitos políticos em oposição aos direitos civis, mas uma sociedade que muito contribuiu para o direito de expansão. Dessa forma, com a mobilização social, as questões sociais se transformaram em questões políticas e públicas. Logo, o Estado tornou-se responsável pelas necessidades sociais, possibilitando às pessoas o acesso a bens e serviços públicos por meio de políticas sociais. Introdução ao Serviço Social 15 Os problemas sociais são a base dos movimentos sociais na sociedade brasileira e se referem à luta pelas riquezas produzidas pela sociedade. São essas lutas que estão na origem da constituição das políticas públicas e mobilizam o Estado para responder às necessidades de saúde, emprego, educação e moradia e impulsionam o movimento das políticas públicas (RAICELIS, 2006). No Brasil, foi por meio dessas lutas, ao longo do século XX, que a Constituição Federal de 1988 foi redigida e promulgada para proteger os cidadãos, daí o nome Constituição Cidadã. Sobre essa relação entre o capitalismo e a política social, Becker (2014) afirma que a política social é a resposta do Estado para apaziguar a sociedade civil, garantindo, assim, o equilíbrio entre trabalhadores e proprietários de capital. RESUMINDO: Portanto, a relação entre luta de classes e dominação de uma classe sobre outra precisa ser mediada pelo Estado, para que haja certo equilíbrio na sociedade. Assim, as políticas sociais são utilizadas para garantir a sobrevivência mínima e para que os trabalhadores permaneçam ativos no processo de exploração pela venda de mão de obra. Desse modo, pode-se entender que quando o Estado formula as políticas sociais, ele não considera o bem social, mas a continuidade do sistema econômico, que causará todos os problemas sociais, sendo que o próprio Estado precisa intervir neles. Logo, podemos concluir que a relação entre capitalismo e política social deve-se à necessidade de intervenção do Estado para manter a ordem social e garantir o controle sobre as grandes massas. A questão social, bem-estar social e Serviço Social A questão social é a expressão de uma série de desigualdades sociais que levam a uma sociedade cheia de conflitos, ou seja, iniquidade, e a ações dos assistentes sociais para reduzir as consequências desses problemas. Introdução ao Serviço Social 16 As questões sociais surgiram por volta de 1830. Devido às mudanças sociais, políticas e econômicas trazidas pela Revolução Industrial, elas trouxeram problemas como perda de qualificação profissional, mão de obra barata e desemprego estrutural, e a substituição de humanos por máquinas. Assim, Pereira (2004) afirma que a questão social assim definida surgiu no início do século XIX, não só pela existência efetiva e real das desumanas condições de vida e de trabalho do proletariado emergenteno processo de industrialização moderna, mas também pelo reconhecimento e reação a questão social. Então, diante do reconhecimento da situação da população, as questões sociais vão surgindo e emergindo, moldadas pelo reconhecimento dos direitos dos trabalhadores e contrariadas pelo sofrimento e baixa moral dos trabalhadores. Nesse caso, a questão social afeta o estado de bem-estar social, pois é sua expressão que torna as pessoas conscientes de sua real situação, o que suscita a necessidade de intervenção estatal. Assim, dá origem à regulação estatal, por meio da qual os movimentos sociais podem ser instrumentos de controle sem afetar a economia. Nesse contexto, Iamamoto e Carvalho (2004) apresentam o conceito de questão social como uma manifestação do capitalismo, que divide a sociedade em trabalhadores e capitalistas, em que os trabalhadores são explorados ao vender mão de obra barata e, portanto, não conseguem suprir suas necessidades básicas, culminando em uma série de manifestações sociais relacionadas à falta de renda e apoio do Estado. Desse modo, Arcoverde (2008) confirma que a questão social pode ser entendida como problemas não atendidos da maioria da população controlada pela minoria. Assim, caracteriza-se como a luta pelos direitos sociais em busca de uma melhor qualidade de vida. Introdução ao Serviço Social 17 IMPORTANTE: Portanto, diante da crescente necessidade de intervenção social, com o advento do capitalismo, o Serviço Social surgiu pela primeira vez na Europa e nos Estados Unidos, tendo protagonizado muitas questões e dando origem a diversas expressões da questão social. O capitalismo propiciou o desenvolvimento de problemas como: alienação, contradição, antagonismo etc. Logo, o Serviço Social originou-se do projeto hegemônico da burguesia como uma prática humanitária, sendo reconhecido e protegido pelo Estado. Era uma espécie de serviço que passava a ilusão de servir aos trabalhadores. Assim, em 1904, o termo "Serviço Social" foi usado pela primeira vez nos Estados Unidos e estava intimamente associado a atividades de caridade. No Brasil, o surgimento do Serviço Social também está associado ao desenvolvimento do capitalismo, que ocorreu de forma tardia, por volta de 1930, quando ocorreram as primeiras ações do estado de bem-estar social desenvolvidas no país. Nessa época, os profissionais de Serviço Social, os assistentes sociais, eram responsáveis por trabalhar com muitos trabalhadores para ajudar no controle social, período conhecido como conservador. Nesse período, o Brasil deixou de ser um país predominantemente agrícola e a população rural migrou para as cidades em busca de melhores condições de vida. Ainda, o crescimento desordenado da população urbana levou à superlotação, ao surgimento de apartamentos, à reunião de famílias inteiras e à falta de estrutura, de modo que não havia saneamento ou qualquer condição de vida digna, gerando questões sociais que já existiam, mas que não eram vistas como problemas até aquele momento. Introdução ao Serviço Social 18 VOCÊ SABIA? A Associação das Senhoras Católicas nasceu no Rio de Janeiro em 1920, enquanto a Liga das Senhoras Católicas em São Paulo, em 1923. Ambas tinham o objetivo de não só ajudar os pobres, mas também cuidar e mitigar algumas das consequências do desenvolvimento capitalista, especialmente quando se trata de crianças e questões sociais das mulheres. Segundo Albernaz e Silva (2009), esse profissional atua no combate aos males causados pelo capitalismo: fome, desemprego, miséria, precarização das relações de trabalho, exploração de menores, mulheres, idosos etc. Em suma, é a expressão da questão social. O Serviço Social tem na questão social a base de sua fundação enquanto especialização do trabalho. Os Assistentes sociais, por meio da prestação de serviço sócio-assistenciais – indissociáveis de uma dimensão educativa (ou político-ideológico) – realizada nas instituições públicas e organizações privadas, interferem nas relações sociais cotidianas, no atendimento às variadas expressões da questão social, tais como experimentadas pelos indivíduos sociais no trabalho, família, na luta pela moradia e pela terra, na saúde, na assistência social publica, entre outras dimensões. (IAMAMOTO, 2008, p. 163) Portanto, a questão social tem grande influência no surgimento do Serviço Social, sendo o principal motivo da necessidade de intervenção, o que afeta também o desenvolvimento do estado de bem-estar, diante do movimento e da luta por melhores condições de vida. Nesse período, a incapacidade do Estado de atender às necessidades dos trabalhadores suscita suas preocupações, gerando questão sociais e expressando- as de diversas formas: desigualdade social, pobreza e desemprego (ARCOVERDE, 2008). Introdução ao Serviço Social 19 Figura 3 – Expressões da questão social Fonte: Wikimedia Commons As expressões da questão social brasileira podem ser entendidas como desigualdade e exclusão social, que se manifestam na pobreza, no desamparo, na violência pessoal e social, na subversão e no desemprego. Essa expressão se apresenta sob os enfoques políticos, econômicos e sociais que vêm imprimindo as lutas dos trabalhadores rurais e urbanos, negros e índios, que, em suas reivindicações, têm feito da terra, da habitação, da política social, do emprego e de sua regulamentação a sociedade para a liberdade, a luta pela inclusão das minorias, a inclusão social da maioria desprivilegiada e a luta pelo meio ambiente. Em poucas palavras, Yazbek (2009) reitera que o trabalho social começa com o crescimento do capital e o crescimento das cidades, que aumentaram excessivamente, criando cortiços e outras moradias inadequadas e exigindo, assim, profissionais qualificados para lidar com as necessidades e os problemas das pessoas e para enfrentar as chamadas questões sociais. Nesse caso, o Estado passou a intervir nas relações sociais, abrindo o mercado de trabalho aos serviços sociais e ampliando sua atuação, que deixou de ser filantropia para ser a busca por direitos humanos. Introdução ao Serviço Social 20 Dessa forma, o Estado vem promovendo gradativamente a profissionalização dos assistentes sociais e ampliou seus campos de trabalho para novas formas de enfrentamento da questão social. Essa vinculação com a política social também afetará o perfil da população- alvo da ação do Serviço Social, que se expandirá e atingirá a maioria dos trabalhadores, foco principal da ação de assistência estatal (YAZBEK, 2009). SAIBA MAIS: Os assistentes sociais ajudam a promover ações que construam, reconstruam e mantenham a autonomia familiar, sendo um processo de identificação de dificuldades nas famílias, além de trabalhar com elas para contribuir para a possibilidade de mudança, melhorando, assim, a qualidade de vida. Logo, essas ações se configuram como ações para o estado de bem-estar. Com o tempo, os objetivos da assistência social passaram a ir além de “ajudar” para que as necessidades dos cidadãos fossem realmente atendidas. Ela continua sendo uma política pública desenvolvida em conjunto, desempenhando um papel importante na implementação de ações e políticas públicas para resguardar o direito ao trabalho de quem dele necessita (SANTOS; FREITAS, 2012). Percebe-se que o Serviço Social se desenvolveu e se tornou cada vez mais capaz de intervir nas expressões da questão social. Nele, a garantia do direito ao trabalho ganhou espaço, pois o trabalho é uma dignidade humana e uma necessidade básica para a sobrevivência. Assim, por sua vez, o Serviço Social é considerado a especialização do trabalho, uma parte do estabelecimento das relações sociais na sociedade capitalista e gerador de dimensões objetivas e subjetivas dos problemas sociais (IAMAMOTO, 2009). O Serviço Social só pode ser decifrado no contexto da inserção,ou seja, no âmbito das relações mais amplas que compõem a sociedade capitalista, especialmente no contexto das respostas que a sociedade e o Estado constroem diante da questão social e suas multidimensionais. Introdução ao Serviço Social 21 Iamamoto (2001) também afirmou que o Serviço Social é socialmente necessário porque atua nas questões que envolvem a existência social e material da maioria da população trabalhadora. Logo, a importância do Serviço Social reside na sua legitimidade dentro de um conjunto de mecanismos reguladores da política de ajuda, da sua atuação no Estado, embora seja considerado um trabalho liberal pelo Ministério do Trabalho, por meio da Portaria nº 35, de 19 de abril de 1949, destinado a abordar as consequências dos problemas sociais. Diante do exposto, identifica-se que o Serviço Social se posicionou inicialmente como uma profissão que auxilia e subsidia o controle entre as classes dominante e trabalhadora, sendo definido como uma ferramenta de intervenção nos “problemas sociais” e mobilizando suportes de sistemas empíricos e ideológicos. Assim, as questões sociais são a base para o surgimento do Serviço Social e, assim, tornam-se objeto de seu trabalho. Diante das ações implementadas pelo estado de bem-estar social que surgiu no Brasil, o Serviço Social passou a se desenvolver e a atuar como uma ferramenta de trabalho, controle e serviços sociais. Introdução ao Serviço Social 22 RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o capitalismo é um sistema econômico contraditório, que promete riquezas ao preço de uma exploração trabalhista. Devido a essa exploração, identificou-se uma crescente desigualdade social, o surgimento da questão social e, posteriormente, do Serviço Social. Assim, aprendemos também que o Serviço Social surgiu como resposta à exploração capitalista dos trabalhadores, de modo que os assistentes sociais intervieram nessa realidade, polarizando relações e interesses e participando da reprodução dos antagonismos sociais. Assim, percebe-se que o estado de bem-estar social afeta os problemas sociais porque são implementadas ações para reduzir o impacto do capitalismo na sociedade, ou seja, expressões de oposição direta à questão social. Os serviços sociais surgem, nesse momento, como trabalhadores, instrumentos de mediação entre capitalistas, criando uma forma de controle social marcada pelo assistencialismo e pela ação benevolente. Introdução ao Serviço Social 23 Atribuições dos Assistentes Sociais OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você será capaz de identificar e entender as atribuições de um assistente social. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante! Atribuições privativas e competências do Assistente Social A lei que regulamenta a profissão do assistente social é a Lei nº 8.662, de 7 de julho de 1993. Nesse texto normativo, contempla-se as atribuições, as competências e as especificidades da atuação profissional (BRASIL, 2012). Figura 4 – Capa do livro que traz o Código de Ética profissional e a Lei de regulamentação da profissão Fonte: Brasil (2012) Introdução ao Serviço Social 24 Sobre as atribuições privativas do assistente social, elas estão previstas no art. 5º da Lei nº 8.662/1993, a qual contempla: I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; II - planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social; III - assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social; IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social; V - assumir, no magistério de Serviço Social tanto a nível de graduação como pós-graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular; VI - treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço Social; VII - dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação e pós-graduação; VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pesquisa em Serviço Social; IX - elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assistentes Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social; X - coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de Serviço Social; XI - fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e Regionais; XII - dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou privadas; XIII - ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. (BRASIL, 2012, p. 44-45) Introdução ao Serviço Social 25 É importante não apenas refletir sobre as atribuições exclusivas e profissionais do assistente social, mas também sobre as competências desse profissional. Trazer para o debate não apenas as atribuições privativas, mas as competências profissionais colocam em cena não somente aquilo que, pela lei, é função exclusiva do Serviço Social, mas também aquilo que potencialmente podemos/devemos desenvolver no trabalho profissional. (MATOS, 2015, p. 681) IMPORTANTE: É importante prestar atenção na diferença entre as atribuições privativas dos profissionais e as competências profissionais. De acordo com Matos (2015), as atribuições privativas são as ações exclusivas desse profissional, ou seja, que apenas ele pode exercer, por exemplo, ser um docente de curso de graduação ou pós-graduação na área do Serviço Social, o qual está previsto no inciso 5º da Lei nº 8.662/93. Já com relação às competências, elas são ações que os profissionais desenvolvem, contudo, não são exclusivas de sua atuação, ou seja, podem ser exercidas por outros profissionais também, por exemplo: laborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais. As competências estão previstas no art. 4º da Lei nº 8.662/93, a qual engloba as seguintes competências: I - elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares; II - elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil; III - encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, grupos e à população; IV - (Vetado); V - orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos; Introdução ao Serviço Social 26 VI - planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais; VII - planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; VIII - prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo; IX - prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade; X - planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social; XI - realizar estudos socioeconômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta,empresas privadas e outras entidades. (BRASIL, 2012, p. 44-45) Com relação às políticas sociais, elas estão intrinsecamente relacionadas à atuação profissional do assistente social, ou seja, a política social faz parte da essência da profissão, causa de seu surgimento e desenvolvimento. Diante das consequências do capitalismo, o Estado precisa intervir para atender às necessidades sociais e, portanto, necessita de profissionais capazes de fazer a mediação entre classe social, Estado e capital. Portanto, segundo Freitas (2020), o Serviço Social é uma profissão intervencionista cuja história está intimamente ligada à resposta do Estado às “questões sociais” expressas por meio da política social, que permanece até hoje sendo o maior campo de atuação dessa categoria profissional. Dessa forma, Guerra et al. (2016) corroboram ressaltando que diante da atuação de uma assistente social no atendimento às necessidades da sociedade, ela desenvolve uma relação com as políticas sociais e é responsável por sua implementação, sendo essa uma de suas competências profissionais previstas no art. 4º da Lei nº 8.662/93. Introdução ao Serviço Social 27 VOCÊ SABIA? É devido às competências profissionais do assistente social que ele tem condições de decifrar e aprofundar suas ações e intervenções, levando sempre em conta as prerrogativas profissionais e as atribuições privativas, fazendo, assim, a diferenciação entre competências e atribuições exclusivas, o que permite realizar uma análise crítica sobre a realidade e direcionar a sua atuação. Na área de análise da prática profissional dos assistentes sociais, é necessário entender como eles conduzem suas atividades profissionais. Parte da compreensão dessa prática profissional se desenvolve prioritariamente no espaço de atuação profissional, que será estudado nas unidades seguinte. Assim, os assistentes sociais trabalham para planejar e implementar os serviços sociais que desenvolvem para a população quando realizam atividades relacionadas a instituições estatais, paraestatais ou privadas. Atribuições privativas e competências na atuação no Centro de Referência da Assistência social (CRAS) O CRAS é o principal ponto que dá aos usuários o acesso aos direitos socioassistenciais de uma dada região, devido à sua melhor capitalização como unidade do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e por ser mais acessível e próxima dos usuários. Para cumprir com efetividade tal prerrogativa, o CRAS deve assegurar as famílias usuárias de seus serviços os seguintes direitos: de conhecer o nome e a credencial de quem o atende (profissional técnico, estagiário ou administrativo do CRAS); à escuta, à informação, à defesa, à provisão direta ou indireta ou ao encaminhamento de suas demandas de proteção social asseguradas pela Política Nacional de Assistência Social (PNAS); a dispor de locais adequados para seu atendimento, tendo o sigilo e sua integridade preservados; de receber explicações sobre Introdução ao Serviço Social 28 os serviços e seu atendimento de forma clara, simples e compreensível; de receber informações sobre como e onde manifestar seus direitos e requisições sobre o atendimento socioassistencial; a ter seus encaminhamentos por escrito, identificados com o nome do profissional e seu registro no Conselho ou Ordem Profissional, de forma clara e legível; a ter protegida sua privacidade, dentro dos princípios e diretrizes de ética profissional, desde que não acarrete riscos a outras pessoas; a ter sua identidade e singularidade preservadas e sua história de vida respeitada; de poder avaliar o serviço recebido, contando com espaço de escuta para expressar sua opinião; a ter acesso ao registro dos seus dados, se assim o desejar; a ter acesso às deliberações das conferências municipais, estaduais e nacionais de assistência social. (CNAS, 2009, p. 14) Diante do exposto, apresenta-se os direitos dos usuários que fazem parte do público-alvo do CRAS, os quais têm o direito de ser atendido de forma digna, sigilosa e profissional, sendo protegidos pela Política Nacional de Assistência Social (PNAS). VOCÊ SABIA? O CRAS, em âmbito nacional, é uma rede de proteção básica de promoção social que vem ganhando espaço e se tornando prioritário. O funcionamento do CRAS por todo o país representa mais um fio da extensa rede de proteção e promoção social que estamos construindo no Brasil. Proteção e promoção que, desde o início, foram ganhando espaço como prioridade e decorrem do reconhecimento de que o desenvolvimento só pode ser alcançado combinando o crescimento econômico à proteção social, ou seja, a ação social nacional é essencial para o processo de desenvolvimento de um país (CNAS, 2009). Evidencia-se, assim, que a proteção e a promoção social são fundamentais para o desenvolvimento e o crescimento do país, o que lhes dá uma maior visibilidade por parte do Estado com relação aos investimentos para aplicar nesses setores e centros de referência. Uma das funções do CRAS, de acordo com Silva e Corgozinho (2011), é, sob orientação do gestor municipal de Assistência Social, Introdução ao Serviço Social 29 realizar o mapeamento e a organização da rede socioassistencial de proteção básica, organizando a introdução das famílias daquela área de abrangência nos serviços de assistência social, bem como encaminhar a população local para as demais políticas públicas e sociais, caso necessário, possibilitando a ampliação de ações intersetoriais que visem à sustentabilidade e ao rompimento com o processo de exclusão social, e evite que tais famílias, indivíduos e grupos tenham seus direitos infringidos. O CRAS é a casa da família dentro da política de proteção social básica. Ele é uma unidade pública estatal descentralizada da política de assistência social, responsável pela organização e oferta de serviços da proteção social básica do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) nas áreas de vulnerabilidade e risco social dos municípios e Distrito Federal. Dada à sua particularidade nos territórios, caracteriza-se como principal porta de entrada do SUAS, ou seja, é uma unidade que possibilita o acesso de muitas famílias à rede de proteção social de assistência social (CNAS, 2009). Assim, entende-se que o CRAS atua com famílias em vulnerabilidade social, tendo como objetivo evitar a ocorrência de riscos à estrutura familiar, como rompimento de vínculos, violências etc. Para isso, fortalece a família por meio de desenvolvimento de ações que intensificam os vínculos familiares e comunitários. IMPORTANTE: A origem do Serviço Social nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS ocorreu após a aprovação de um conjunto de normativas, sendo elas: a Política Nacional de Assistência Social (PNAS), em 2004; a Norma Operacional Básica (NOB/SUAS), em 2005; e a NOB/RH/SUAS, em 2006. A atuação do assistente social se dá em contato direto em todo momento com o usuário, o que de fato permite dar resposta imediatas a situações muitas vezes complexas, que podem até decidir a vida do cidadão, provocando uma mudança radical. Diante disso, no que se refere aos deveres profissionais, o artigo 3º do Código de Ética estabelece: Introdução ao Serviço Social 30 Art. 3º - São deveres do (a) assistente social: a) desempenhar suas atividades profissionais, com eficiência e responsabilidade, observando a Legislação em vigor; b) utilizar seu número de registro no Conselho Regional no exercício da profissão; c) abster-se, no exercício da profissão, de práticas que caracterizem a censura, o cerceamento da liberdade, o policiamento dos comportamentos, denunciando sua ocorrência aos órgãos competentes; d) participar de programas de socorro à população em situação de calamidade pública, no atendimento e defesa de seus interesses e necessidades. (BRASIL, 1993, p. 27) Assim, busca executar um trabalhoem conjunto, o que permite sistematizar e operacionalizar com todas as especialidades da instituição, em especial com o psicólogo e o coordenador para uma maior eficácia no seu trabalho, pois com a troca de conhecimento e respeitando a especificidade de cada membro da instituição, haverá um andamento adequado para o usuário. Afinal, o assistente social tem uma relação de compartilhar com profissionais de áreas diversas, mas que têm o mesmo objetivo em comum. Assim, esse profissional tem a responsabilidade de adquirir uma compreensão sobre as suas constituições e contradições para que, com o seu profissionalismo, possa sancionar os direitos das pessoas mais oprimidas, minimizando, assim, as suas fragilidades e dificuldades com relação aos diretos que cada usuário tem garantido por lei. A "inserção privilegiada" do assistente social junto às políticas de proteção social refere-se à particularidade interventiva do profissional de lidar cotidianamente com as "múltiplas e diversificadas expressões da questão social" (SILVA; CORGOZINHO, 2011). VOCÊ SABIA? O profissional de serviço social no CRAS trabalha em proporção da liberdade de participação, incentivando a cidadania, reaquecendo os direitos dos cidadãos, valorizando o pessoal e o individual e mostrando o valor em conjunto. Introdução ao Serviço Social 31 Outro ponto importante em sua atuação é o sigilo profissional, o qual é um direito do profissional e está inscrito nos artigos 15 e 16 do Código de Ética Profissional: “Art. 15 - Constitui direito de o assistente social manter o sigilo profissional” e “Art. 16 - O sigilo protegerá o usuário em tudo aquilo de que o assistente social tome conhecimento, como decorrência do exercício da atividade profissional” (BRASIL, 2012, p. 35). Na resolução CFESS nº 493/2006, o sigilo profissional está inscrito no art. 3º: “O atendimento efetuado pelo assistente social deve ser feito com portas fechadas, de forma a garantir o sigilo” (CFESS, 2006, on-line). Diante do exposto, é possível inferir que os profissionais, para que consigam realizar uma intervenção profissional de qualidade, devem estar com os propósitos de suas práticas bem estabelecidos, fazendo escolhas fundadas em sua opção política e ética, estabelecidas pelo Projeto Ético-Político Profissional, para que consigam compreender o verdadeiro significado de sua prática na sociedade. O instrumental técnico-operativo Os instrumentais técnico-operativos utilizados pelo assistente social dentro do CRAS são: observação, entrevista, dinâmica de grupo, reunião, mobilizações de comunidade, visitas, ata de reunião, livros de registro, diários de campo, relatório social e parecer social. Figura 5 – A instrumentalidade no Serviço Social Fonte: Medeiros (2017) Introdução ao Serviço Social 32 A observação do assistente social é mais profunda que qualquer outra, pois o profissional tem um olhar além da realidade exposta, já que vê além do que está aparente. A observação é o objetivo do trabalho, suas atribuições e competências que definem a forma como o Assistente Social deverá utilizá-los, a saber, a intervenção sobre as diferentes expressões da “questão social”, nas interações entre universalidade e singularidades. (SOUSA, 2008, p. 126) As entrevistas são conversas com os usuários. Os profissionais usam perguntas cuidadosamente preparadas para tentar encontrar a causa raiz do problema em questão. Assim, elas podem ser pessoais, quando o profissional fala com apenas uma pessoa, geralmente em casos violentos, ou coletivas, quando toda a família está envolvida, para que o mesmo conteúdo possa ser compreendido a partir da fonte da pergunta. Estabelecer essa relação de respeito é fundamental, pois se o usuário não é respeitado nesse direito básico, não apenas estaremos desrespeitando-o, como prejudicando o próprio processo de construção de um conhecimento sólido sobre a realidade social que ele está trazendo, comprometendo toda a intervenção. Importante ressaltar que, por ser um observador participante, o Assistente Social também emite suas opiniões, valores, a partir dos conhecimentos que já possui. Desse modo, entrevistar é mais do que apenas “conversar”: requer um rigoroso conhecimento teórico-metodológico a fim de possibilitar um planejamento sério da entrevista, bem como a busca por alcançar os objetivos estabelecidos para sua realização. (SOUSA, 2008, p. 27) A dinâmica de grupo é muito importante para o controle coletivo dos usuários e para falar de um tema com um número maior de usuários. A dinâmica de grupo é uma técnica que utiliza jogos, brincadeiras, simulações de determinadas situações, com vistas a permitir que os membros do grupo produzam uma reflexão acerca de uma temática definida. No caso do Serviço Social, uma temática que tenha relação com o objeto de sua intervenção – as diferentes expressões da “questão social”. Para tanto, o Assistente Social age como um facilitador, um agente que provoca situações que levem à reflexão do grupo. (SOUSA, 2008, p. 127) Introdução ao Serviço Social 33 O trabalho de grupo é uma ferramenta muito importante para reflexão, porém é de difícil resolução, pois o profissional precisa ser muito apto para realizá-la, sabendo escolher o tema, as brincadeiras e a abordagem, a fim de não prejudicar o andamento da intervenção. A reunião também é feita com o coletivo, porém o objetivo da reunião é resolver um problema chegando a um consenso com os participantes dela. Essa postura já indica que, ao coletivizar a decisão, o coordenador de uma reunião se coloca em uma posição democrática. Entretanto, colocar-se como um líder democrático não significa não ter firmeza quanto ao cumprimento dos objetivos da reunião. O espaço de tomada de decisões é um espaço essencialmente político, pois diferentes interesses estão em confronto. Saber reconhecê-los e como se relacionar com eles requer uma competência teórica e política, de modo que a reunião possa alcançar o objetivo de tomar uma decisão que envolva todos os seus participantes. (SOUSA, 2008, p. 127) As mobilizações de comunidade têm o objetivo de envolver as comunidades nas decisões, pois elas são o público-alvo do trabalho do profissional de serviço social. Para a mobilização de comunidade é necessário que o Assistente Social conheça a comunidade, os atores sociais que lá atuam: os agentes políticos, as instituições existentes, as organizações (religiosas, comerciais, políticas) e como se constroem as relações de poder dentro da comunidade. Mas também é necessário conhecer quais são as principais demandas e necessidades da comunidade, de modo a propor ações que visem ao atendimento das mesmas. (SOUSA, 2008, p. 128) Por fim, a visita é um instrumento que, assim como a observação, tem o objetivo de conhecer a realidade do usuário de forma mais real, indo além do que ele declara na entrevista. A visita domiciliar não é exclusividade do Assistente Social: ela só é realizada quando o objetivo da mesma é analisar as condições sociais de vida e de existência de uma família ou de um usuário – pois é esse “olhar” que determina a inserção do Serviço Social na divisão social do trabalho. (SOUSA, 2008, p. 128) Introdução ao Serviço Social 34 Figura 6 – Visita domiciliar Fonte: Freepik A ata de reunião é simplesmente o registro de tudo que aconteceu na reunião, assim como o nome de todos os presentes, com a data e a hora em que ela foi realizada e, no final, a assinatura de todos. “Comumente, as atas de reuniões são lidas ao final da mesma, e, após sua aprovação, todos os participantes assinam – com garantia de que a discussão realiza da assim como a decisão tomada é de ciência de todos” (SOUSA, 2008, p. 129). As atas são importantes, pois as decisões tomadas ali são registradas e caso alguém mude de ideia, está documentada sua aceitação nasdecisões tomadas, assim o profissional fica respaldado caso ocorram alguns problemas. O livro de registro, segundo Sousa (2008) é um instrumento bastante utilizado, sobretudo em locais onde circulam muitos profissionais. Trata-se de um livro em que são anotadas as atividades realizadas, os telefonemas recebidos, as questões pendentes, os atendimentos realizados, dentre outras questões, de modo que toda a equipe tenha acesso ao que está sendo desenvolvido. Introdução ao Serviço Social 35 O livro de registro é importante para nortear toda a equipe, pois, no caso da ausência de um membro, os demais sabem, por meio do livro, exatamente o que está acontecendo e os casos que estão em atendimento. O diário de campo, segundo Sousa (2008, p. 130), é um instrumento que auxilia bastante o profissional nesse processo. Trata-se de anotações livres do profissional, individuais, em que ele sistematiza suas atividades e suas reflexões sobre o cotidiano do seu trabalho. O diário de campo é importante porque o assistente social, na medida em que vai refletindo sobre o processo, pode perceber onde houve avanços, recuos e melhorias na qualidade dos serviços e aperfeiçoamento nas intervenções realizadas, além de ser um instrumento bastante interessante para a realização de futuras pesquisas. Ele é de extrema utilidade nos processos de análise institucional, o que é fundamental para localizar qualquer proposta de inserção interventiva do Serviço Social. O relatório social é a resolução da problemática que o profissional está atuando. Nele, o profissional coloca todas as suas observações sobre o caso. É uma exposição do trabalho realizado e das informações adquiridas durante a execução de determinada atividade. Semanticamente falando, é o relato dos dados coletados e das intervenções realizadas pelo Assistente Social. O relatório social pode ser referente a qualquer um dos instrumentos face a face, bem como pode descrever todas as atividades desenvolvidas pelo profissional (relatório de atividades). Desse modo, os diferentes relatórios sociais são os instrumentos privilegiados para a sistematização da prática do Assistente Social. (SOUSA, 2008, p. 130) Figura 7 – Relatório social Fonte: Freepik Introdução ao Serviço Social 36 Por fim, o parecer social é a opinião do assistente social sobre dados contidos no relatório, porém essa opinião deve ter fundamento teórico- metodológico para ser expressa no parecer social. O parecer social é crucial, pois é ele que dá ao Assistente Social uma identidade profissional – a inexistência de um parecer reduz o relatório a uma simples descrição dos fatos, não permitindo nenhuma análise profunda sobre os mesmos. Ora, todo o processo de formação profissional do Assistente Social, bem como o seu lugar na divisão social do trabalho, demanda que esse profissional se posicione diante das situações verificadas na realidade social. Isso requer um posicionamento político claro do Assistente Social – que possuem, no Código de Ética Profissional, os pilares básicos para tal posicionamento. (SOUSA, 2008, p. 131) Figura 8 – Parecer social Fonte: Freepik Percebe-se que o parecer social é como o complemento do relatório social, mas com a diferença de que, no relatório, o profissional descreve os fatos vistos, observados e estudados, enquanto no parecer, ele expressa a opinião do assistente social, sendo um documento de fundamental importância e que deve ser bem elaborado, pois mostra a identidade dele. Claramente, as competências e as atribuições privativas são a base do exercício profissional do assistente social e estão relacionadas à validade e à efetividade dos direitos sociais e, portanto, à socialização da participação política e à defesa do aprofundamento democrático socializado (SIMÕES, 2009). Introdução ao Serviço Social 37 Portanto, a realização de competências e atribuições, além de ser uma exigência do exercício profissional, é também uma forma de melhor atender aos usuários e se alinhar com a profissão, pois sabe-se que o Código de Ética, o Programa de Política Ética e outros documentos visam não apenas defender os interesses dos assistentes sociais, mas também resguardar amplamente os direitos dos sujeitos com os quais esses profissionais trabalham diariamente nas diferentes políticas sociais (BRASIL, 2012). RESUMINDO: E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a profissão de Serviço Social foi regulamentada pela Lei nº 8.662, de 7 de julho de 1993, a qual contempla, em seus artigos 4º e 5º, as competências e atribuições privativas desses profissionais. Foi estudada também a diferença entre os termos, competência e atribuições privativas. Assim, as competências são as ações realizadas pelos profissionais, mas que podem ser exercidas por outros profissionais, enquanto as atribuições privativas são as ações exclusivas desses profissionais, tais como a docência na área, tanto de graduação como de pós-graduação. Estudamos ainda as atribuições e as competências desses profissionais em um âmbito específico, os Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), em que conhecemos alguns instrumentais de uso desses profissionais em sua atuação cotidiana de trabalho nesses centros. Desse modo, foi possível identificar as competências e as atribuições privativas. Introdução ao Serviço Social 38 Origem da profissão de Serviço Social no Mundo OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você será capaz de compreender a história do Serviço Social no mundo, suas motivações, evolução e cenário atual. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante! Origem do Serviço Social na Europa A política social decorre da contradição entre capital e trabalho, que surge principalmente com o desenvolvimento do capitalismo, obrigando o Estado a intervir nas diversas manifestações da questão social, as quais são provocadas pela luta dos trabalhadores por uma vida e um trabalho melhores (BEHRING; BOSCHETTI, 2011). Portanto, o Estado, que privilegiava o sistema capitalista passou a formular as políticas sociais e a regular as relações sociais produzidas, continuando, assim, a reproduzir como resultado no desenvolvimento da sociedade capitalista. Segundo Behring e Boschetti (2011), a primeira ação social, conhecida como política social, não tem data específica e, portanto, é identificada junto com a luta proposta pela classe trabalhadora e o princípio de intervenção do Estado. IMPORTANTE: Assim, na Europa Ocidental, no final do século XIX, a política social começou a se desenvolver por meio de movimentos populares, dadas as consequências da Revolução Industrial, tais como: o aumento da natalidade, a superlotação urbana, a classe trabalhadora, a formação de sindicatos e os consequentes primeiros passos na política social. Introdução ao Serviço Social 39 Antes da Revolução Industrial e da implantação do capitalismo, já existiam ações que se assemelhavam as políticas sociais. Elas eram realizadas por instituições beneficentes privadas, que promoviam ações filantrópicas. A ação mais conhecida foi a legislação mais nobre e frequentemente citada como pioneira, sendo ela a lei inglesa, que foi desenvolvida no período pré-industrial (BEHRING; BOSCHETTI, 2011). Portanto, no período pós-revolução industrial, a política social passou a ser valorizada e reconhecida pelo Estado. Por isso, ocupa uma grande proporção e ainda é vista como a estratégia do governo para manter a ordem social, refletindo o próprio sistema capitalista. SAIBA MAIS: A política social destaca-se por meio de expressões multifacetadas da questão social capitalista, com base na relação exploradora do capital com o trabalho. Nesse contextode mediação e controle social, o Estado do século XX passou a mascarar as consequências do capitalismo na sociedade por meio de mecanismos políticos e econômicos para perpetuar a reprodução do sistema capitalista. O Estado de bem-estar é um exemplo desses mecanismos, utilizando estratégias e programas como expandir funções econômicas e sociais, controlar parcialmente a produção e incorrer em custos sociais. A característica mais marcante e fundamental dessas configurações é que elas são implementadas e administradas pelo Estado. A proteção social é assumida pelo Estado (e reconhecida pela sociedade) como função legal e legítima, sendo a proteção social institucionalizada e concretizada por meio da política social. É importante ressaltar que essas políticas fazem parte de seu próprio âmbito relacional, envolvendo outros agentes e processos extremamente complexos, além do envolvimento de instituições profissionais, sempre repletas de incertezas (GIOVANNI, 1998). Assim, segundo Pereira (2011), o estado de bem-estar foi o início da implantação do sistema previdenciário. Foi uma experiência britânica intensificada após a Segunda Guerra Mundial e que tinha características altamente contraditórias. Introdução ao Serviço Social 40 Em contraste ao capitalismo, elas foram criadas para atender às necessidades sociais, não às necessidades econômicas privadas. No entanto, esse é o melhor momento para a política social, pois proporciona à classe trabalhadora serviços e benefícios, tais como os devidos direitos, sendo, portanto, uma ferramenta para a efetivação dos direitos sociais, mas, por sua natureza contraditória, atende também à classe trabalhadora. VOCÊ SABIA? A política social teve três etapas distintas em sua formação histórica, mediadas por nomes muito importantes, como: John Maynard Keynes, que defendia o pleno emprego como ferramenta de regulação econômica e social; William Beveridge, que utilizou como referência o keynesianismo, tratando do desenvolvimento da seguridade social; e, por fim, Thomas Humphrey Marshall, que trouxe a sistematização dos direitos civis, acabando, assim, com a visão do paternalismo nacional em face da política social. O keynesianismo juntou-se à produção em massa fordista para consumo em massa e acordos coletivos com trabalhadores do setor monopolista em torno do aumento da produtividade do trabalho. Assim, o fordismo não foi apenas uma mudança tecnológica que introduziu linhas de montagem e eletricidade, mas também uma forma de regulação das relações sociais sob condições políticas específicas (BEHRING; BOSCHETTI, 2011). Essa relação entre fordismo e keynesianismo deu origem aos anos dourados do capitalismo, em que as condições de vida eram melhores e os trabalhadores podiam desfrutar de certa estabilidade de consumo, lazer e trabalho. No entanto, esse foi um breve período que novamente teve um impacto negativo na sociedade em meados da década de 1970. No século XX, com a crise econômica de 1929, houve uma expansão da política social. Seguindo a teoria de John Maynard Keynes, a teoria da intervenção estatal na regulação econômica e social, a experiência histórica dos Estados intervencionistas teve início nesse período, que faz a mediação entre os interesses do capitalismo e os interesses da classe trabalhadora, sendo conhecido como: o consenso do pós-guerra. Introdução ao Serviço Social 41 Figura 9 – John Maynard Keynes Fonte: Wikimedia Commons SAIBA MAIS: O consenso do pós-guerra foi uma aliança entre capital e trabalho, inclusive abandonando o programa de socialização econômica defendido pela maioria da classe trabalhadora, de modo que várias leis foram aprovadas e o estado de bem-estar social expandido. De acordo com Viana (2008), o surgimento de sistemas modernos de proteção social no século XX nesse período teve como objetivo reduzir as disparidades sociais causadas pelo livre funcionamento dos mercados e as causas da desigualdade. Para proteger os cidadãos desses movimentos de produção desiguais e socialmente inseguros, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, o Estado assumiu o financiamento e o fornecimento de muitos bens e serviços aos cidadãos, já que eles não podiam adquirir esses bens apenas pela renda que ganhavam com seu trabalho ou precisavam deles quando não estavam trabalhando. Percebe-se, no entanto, que o estado de bem-estar social se tornou, de fato, parte integrante do capitalismo, que na década de 1940 foi parcialmente regulamentado por questão de sobrevivência, pois deixou Introdução ao Serviço Social 42 de ser liberal e passou a ser previdência e uma política social, apoiadas pelo conceito de seguridade social. A cidadania estava totalmente relacionada a esse currículo adotado pelo sistema capitalista, permitindo, assim, sua continuidade (PEREIRA, 2011). Assim, após a Segunda Guerra Mundial, o estado de bem-estar social se consolidou no continente europeu. Em 1942, o Reino Unido adotou o Plano Beveridge como base para o sistema de previdência social britânico, não apenas no Reino Unido, mas também em vários outros países europeus. VOCÊ SABIA? William Beveridge, com base em teorias keynesianas, desenvolveu o sistema de previdência social, um conjunto de programas sociais cujas ações são direcionadas aos doentes, desempregados, idosos, deficientes etc. As metas do Plano Beveridge, que busca prevenir a pobreza e reduzir as doenças por meio da redistribuição de renda, enfatizando as necessidades mais prementes e usando os recursos de forma consciente, são metas compartilhadas por todos. Do ponto de vista de Thomas Humphrey Marshall, que também defendia a cidade por meio da educação, o socialismo seria o sistema econômico mais ideal em busca da igualdade. Marshall defendia a educação como um direito social indiscutível que definia a igualdade humana. Para defender essa igualdade, os teóricos apontam que é preciso se intrometer em mercados competitivos e impor restrições que se refiram à evolução da cidadania social (BEHRING; BOSCHETTI, 2011). Dessa forma, o estado de bem-estar em geral se configura como responsabilidade do Estado de cuidar de todos os cidadãos e, assim, manter seu bem-estar. Em outras palavras, trata-se da manutenção de um padrão mínimo de vida para todos os cidadãos como um direito social, por meio de uma série de serviços em dinheiro ou em serviços prestados pelo Estado (SILVA, 2004). Introdução ao Serviço Social 43 Assim, no Reino Unido, as primeiras políticas sociais foram desenvolvidas a partir do modelo de estado de bem-estar social, resultando nos pilares de saúde, seguro e educação, com leis específicas para cada pilar, sendo elas: a Lei da Educação, a Lei do Seguro Nacional e a Lei do Serviço Nacional em Saúde. Finalmente, aproximando-se de outros países europeus, na Alemanha, a política social surgiu como seguro social em meados de 1883. Nesse país, o termo “estado de bem-estar” não é usado, sendo usado sozialstaat, que significa “estado social”. Já na França, é utilizada a palavra etat-providence, que significa “Estado-providência” (BEHRING; BOSCHETTI, 2011). Portanto, pode-se concluir que o estado de bem-estar é um modelo de intervenção e assistência, com base nos direitos sociais universais de todos os cidadãos e na responsabilidade do governo de garantir a qualidade de vida de todas as pessoas. Foi nesse período de surgimento das políticas sociais que foram surgindo as primeiras ações profissionais dos assistentes sociais, antes marcados pela caridade de pessoas privadas e, depois, como mediadores do Estado para regular o capital e o trabalho por meio de mecanismos como o estado de bem-estar social. O Estado de bem-estar na Europa Falar em processo de construção é trazer a origem dos acontecimentos. Nesse caso, o capitalismo está enraizado no processo de construção do estado de bem-estarsocial, pois as consequências desse modelo econômico originalmente adotado pelos países europeus apresentava consequências devastadoras. Afinal, o capitalismo, a fim de se manter, torna o homem parte do sistema, seguindo a lógica da acumulação constante em detrimento do homem. Assim, explora constantemente sua força de trabalho, sendo muito trabalho para pouco salário, o que resulta em problemas, chamados de questão social. Introdução ao Serviço Social 44 IMPORTANTE: Intervenções são muito necessárias para garantir a proteção mínima da sociedade, que envolve padrões mínimos de saúde, educação, moradia, alimentação, renda e seguridade social. Assim, diante das consequências do capitalismo, alguns países da Europa Ocidental desenvolveram no século XX um mecanismo chamado de “estado de bem-estar social”, do termo em inglês welfare state. Ele foi projetado para proteger os cidadãos e, assim, melhorar as condições de vida de cada um deles. No entanto, como explicam Delgado e Porto (2018), antes do próprio welfare state se desenvolver, esses Estados já haviam realizado ações cruciais para a formação dele: [...] a história do Estado Providência lança os seus primeiros passos na segunda metade do século XIX, com a emergência e o fortalecimento das organizações sindicais e político-partidárias dos trabalhadores e demais segmentos populares na Europa Ocidental, ao lado do começo das denominadas “políticas sociais” dos Estados Nacionais (inicialmente as políticas previdenciárias e acidentárias do trabalho, a par das políticas e legislações especificamente trabalhistas). (DELGADO; PORTO, 2018, p. 5) Essas medidas são o arcabouço do modelo de estado de bem- estar, porém, ainda não foram ponderadas nesse momento histórico. Durante esse período, programas sindicais políticos para trabalhadores e sindicalistas foram desenvolvidos, realizados e desenvolvidos no Reino Unido, França e Alemanha. Assim como o Plano Político Institucional, que normatiza as leis trabalhistas destinadas a conceder aos trabalhadores a cidadania civil, social, econômica e política, envolvendo 14 países por meio da Conferência de Berlim de 1890. Do ponto de vista autoritário, porém, a Alemanha também incorporou o planejamento político-institucional ao governo de Otto von Bismarck, que lançou um programa público de previdência e ajuda social (DELGADO; PORTO, 2018). Introdução ao Serviço Social 45 SAIBA MAIS: No contexto histórico, a Alemanha introduziu políticas de seguridade social e lançou o primeiro plano de compensação de acidentes de trabalho em 1871, além do primeiro plano de seguro de saúde do trabalhador em 1883, incluindo a velhice por invalidez permanente em 1889 (KERSTENETZKY, 2012). Assim, a Alemanha tornou-se o ponto de partida e, logo, outros países da Europa Central começaram a incorporar essas políticas de seguridade social, que lançaram ainda mais as bases para o surgimento de futuros mecanismos de estado de bem-estar. Observou-se que evidências do estado de bem-estar social já existiam na Europa na segunda metade do século XIX, porém, esse modelo foi efetivamente implementado no início do século XX e era mais complexo, enraizando-se após a Segunda Guerra Mundial. Assim, na Europa, após 1945, estabeleceu-se como um modelo refinado e plano. Sobre o surgimento do estado de bem-estar social, Arretche (2019) pontou que um fenômeno do século XX foi a prestação de serviços sociais, a qual abrangia todas as formas de risco à vida individual e coletiva e se tornou um direito a ser assegurado pelo Estado para garantir os segmentos mais expressivos da população dos países capitalistas avançados, embora alguns países – como a Alemanha – tenham iniciado regimes de seguro social no final do século passado e desenvolvido políticas para proteger os idosos, as mulheres, os deficientes etc. Introdução ao Serviço Social 46 IMPORTANTE: O fenômeno do estado de bem-estar social que se desenvolveu em vários países no início deste século, sem dúvida, passou por uma inegável expansão e até institucionalização no pós-guerra. Desde então, um conjunto bem definido de programas de proteção social tornou-se comum e ganhou influência quase universal nesses países, garantindo direitos à aposentadoria, moradia, educação, saúde e muito mais. No entanto, esse modelo de Estado de bem-estar de base alemã, focado na ocupação e no trabalho, ainda estava em desenvolvimento no início do século XX, e outro modelo de Estado de bem-estar, focado principalmente na generalização de direitos, foi proposto pelo estadista Wilhelm Wilhelm. O Beveridge da Grã-Bretanha, conhecido como estado de bem- estar britânico, foi desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial e era fundamentado na igualdade, na participação do Estado, na economia e na sociedade, sem comprometer o sistema capitalista. Como resultado, esse modelo segundo-universalista passou a ter um impacto maior, mais complexo e estruturado que o modelo trabalhista, sendo inclusive adotado pela própria Alemanha e dando origem a outras políticas sociais do estado de bem-estar social que surgiram após a Segunda Guerra Mundial, como: saúde, transporte público, cultura, lazer etc. (DELGADO; PORTO, 2018). Assim, dois modelos de estado de bem-estar social são o grande padrão na Europa Ocidental: o primeiro com foco na proteção do trabalho, enquanto o segundo com foco em parâmetros de cidadania e universalidade. Mas, afinal, qual é o conceito de estado de bem-estar social? Pois bem, de acordo com Marshall (1967), o estado de bem-estar social é uma forma de intervenção legitimada que funciona na produção e distribuição de riqueza para ajudar os cidadãos a satisfazerem suas próprias necessidades. Incluindo necessidades básicas, pois o dinheiro é uma condição que limita o alcance de suas necessidades básicas, Introdução ao Serviço Social 47 como alimentação, moradia, saúde etc. Como cidadãos, atender a essas necessidades é responsabilidade do Estado e direito de todas as pessoas, portanto, o estabelecimento de tais mecanismos de proteção social é necessário e urgente. [...] os Estados de Bem-Estar Social nada mais são do que uma dentre as várias formas possíveis de sistema de proteção social, caracterizando-se pelo fato de que o Estado assume um papel mais contundente no atendimento das necessidades individuais fundamentais relativamente às demais formas de provisão, como o mercado e a família. Nesse caso, ele pressupõe um processo de desmercantilização, isto é, de redução do grau de dependência dos indivíduos em relação ao mercado para a preservação de seus direitos fundamentais, na condição de cidadãos. Isso significa a reversão do processo de reificação dos homens e das relações sociais que se estabelecem entre eles, dado que a sua sobrevivência não mais depende da compra e venda da força de trabalho para obter em troca aquilo de que necessitam. Ele pressupõe também um processo de desfamiliarização, ou seja, de redução do grau de dependência dos indivíduos em relação à família [...]. (WOLF; OLIVEIRA, 2016, p. 663) Logo, percebe-se que esse papel interveniente do Estado (o welfare state) está relacionado à generalização da formulação de políticas públicas, que são ações formuladas para modificar ou manter a realidade, dependendo de sua finalidade. VOCÊ SABIA? O estado de bem-estar tem essa imagem protetora para os membros da sociedade, cabendo ao Estado implementar esse mecanismo de proteção e garantir que os indivíduos sejam capazes de suprir suas necessidades básicas por meio de políticas públicas especificamente desenhadas para esse fim. Cada tipo de política pública pode se desenvolver de maneira diferente, dependendo do papel que o Estado assume. Essas diferenças são evidentes no desenvolvimento do estado de bem-estar nos países da Europa Ocidental, em que ele se desenvolve