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HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA AULA 2 Profª Dayane Rúbila Lobo Hessmann 2 CONVERSA INICIAL Após a Revolução Industrial, novos mercados consumidores passaram a ser fundamentais, todos os olhos se voltaram, novamente, para o exterior e uma nova onda expansionista se desenvolveu. A corrida para a expansão foi acirrada e alguns países se sentiram injustiçados, de modo que o clima bélico era cada vez mais evidente. Essas tensões latentes ocasionaram a Primeira Grande Guerra Mundial e suas consequências podem ser sentidas até a atualidade. Portanto, nosso objetivo, nesta etapa, é compreender os antecedentes da Primeira Grande Guerra Mundial, suas nuances e seus desdobramentos. Para tanto, vamos tratar do liberalismo político e econômico, da Primeira Guerra Mundial, da Revolução Russa e da hegemonia norte-americana ao final da guerra. TEMA 1 – LIBERALISMO ECONÔMICO, LIBERALISMO POLÍTICO É impossível entender a Primeira Grande Guerra e todos os seus desdobramentos sem levar em consideração o desenvolvimento do capitalismo. Para que o capitalismo se desenvolvesse, a construção de um cabedal teórico liberal foi de suma importância. Afinal, era necessário, para consolidar as modificações necessárias para o desenvolvimento do capital, que vários entraves da sociedade (rural, nobre, agrária) fossem eliminados e, para isso, os liberalismos (tanto políticos como econômicos) foram essenciais. Até o século XIX, muitos países europeus ainda conservavam características feudais ou absolutistas, marcado pela forte desigualdade social e econômica entre as pessoas. Os impostos recaíam, sobretudo, sob a população pobre, o governo intervia fortemente na economia e não havia direitos políticos, como votar e participar da política ativamente. Portanto, diante deste cenário, tornava-se difícil o desenvolvimento do capitalismo. Com a ascensão da burguesia, a partir das revoluções burguesas (Revolução Inglesa e Revolução Francesa) e da Revolução Industrial, os burgueses que já detinham o poder econômico desejavam o poder político. Desde o Iluminismo, filósofos importantes como Voltaire, Rousseau, Montesquieu já discutiam como a racionalidade e a objetividade deveriam assumir a centralidade nas operações sociais. Os iluministas tiraram as discussões do plano divino e trouxeram para a 3 realidade, baseados na razão e na ciência. Todavia, cabe salientar que os iluministas não eram ateus, apenas anticlericais, ou seja, criticavam a instituição católica. Eles eram considerados deístas, ou seja, acreditavam em Deus, na natureza e nos Homens. As ideias defendidas por estes filósofos traziam em seu bojo muitos aspectos que a burguesia almejava, como defesa da propriedade privada e a liberdade política, econômica, religiosa e de expressão, criticando veementemente a sociedade do Antigo Regime, permeada pelo Absolutismo, pela intolerância religiosa e pelo mercantilismo. Diante disso, nasceu o liberalismo político, pautado na defesa da divisão de poderes, da meritocracia, da representatividade; e o liberalismo econômico, cuja premissa era diminuir as intervenções do Estado na economia, de modo que os Estados pudessem buscar novos mercados consumidores para os produtos resultantes da expansão da revolução industrial, tendo livre concorrência. O historiador Daniel Gomes de Carvalho chama atenção para a história deste conceito: Na segunda metade do século XVIII, nota-se uma clara inflexão: as expressões em inglês “liberal policy” (“política liberal”), “liberal plan” (“plano liberal”), “liberal system” (“sistema liberal”) “liberal views” (“visões liberais”), “liberal ideas” (“ideias liberais”) e “liberal principles” (“princípios liberais”) passam a ser muito utilizadas, sobretudo pelos Iluministas britânicos (sobretudo, escoceses), como Jeremy Bentham e Adam Smith. O uso da palavra liberal neste contexto histórico refere-se a uma ideia vaga de não interferência do Estado. Por exemplo, Adam Smith, em A Riqueza das Nações (1776), passa a falar em um “sistema liberal de livre exportação e importação”. (Carvalho, 2020) Para os limites desta etapa nos interessa destacar alguns pensadores, cujas ideias são importantes apara entendermos a lógica capitalista, como Adam Smith, Thomas Malthus e David Ricardo. O filósofo escocês Adam Smith (1723-1790), que é considerado o “pai da economia moderna”, certamente é um dos nomes mais relevantes quando se trata de liberalismo. Em 1776, escreveu o livro A riqueza das nações, no qual traz a ideia anti-intervencionista. Para ele o Estado não deveria intervir na economia, de modo que o mercado pudesse ser livre e se autorregular, o que ele chamou de mão invisível. Ademais, Smith acreditava que o que movia a economia eram os interesses individuais das pessoas, em busca de vantagens próprias. https://www.theatlantic.com/politics/archive/2014/02/the-origin-of-liberalism/283780/ https://www.theatlantic.com/politics/archive/2014/02/the-origin-of-liberalism/283780/ 4 O economista e pastor anglicano, o inglês Thomas Malthus (1766-1834), se preocupou com o crescimento populacional, afirmando que chegaria em um ponto que não haveria mais alimento para toda a população. Assim, ele defendia que as doenças, as guerras e as epidemias eram bem-vindas, na medida em que diminuiriam a população. Ainda nessa esteira, era contrário à elaboração de leis protetoras às pessoas mais carentes, alegando que isso só traria ainda mais problemas, porque não iria diminuir o número de pessoas pobres. Dessa maneira, ele propunha, como maneira de diminuir a pobreza, que o casamento das classes populares fosse tardio e uma houvesse um rígido controle sexual. Figura 1 – Thomas Malthus Crédito: John Linnell/CC-PD. O economista e político inglês David Ricardo (1772-1823) é considerado um dos fundadores da escola clássica inglesa da economia política, juntamente com Adam Smith e Thomas Malthus, já citados acima. David Ricardo tratou de assuntos como: a teoria do valor-trabalho, a teoria da distribuição (as relações entre o lucro e os salários), o comércio internacional e temas monetários. Ele defendia que a produção industrial necessitava de um incentivo maior, pois, segundo ele, a produção industrial era o que verdadeiramente gerava riquezas. https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_valor-trabalho 5 TEMA 2 – O PRIMEIRO ATO – UMA GUERRA E SUA RACIONALIDADE O historiador Eric Hobsbawm assinala o início da Primeira Guerra Mundial em 1914 como o início do “breve século XX”, que, para ele, termina em 1991, com o colapso da União Soviética. O historiador define esse período como “era dos extremos” ou “era das catástrofes (Hobsbawn, 1995, p. 15), uma vez que foi uma época marcada por guerras, autoritarismos e crise econômica. Os motivos que levaram à Primeira Guerra Mundial são amplos e complexos. Para entendê- los precisamos retomar alguns fatos que aconteceram anteriormente. O fim do Império Napoleônico exigia uma nova remodelação do mapa geográfico europeu, devido a isso, entre 1814 a 1815, aconteceu o Congresso de Viena, cujo objetivo era equilibrar o poder político e econômico dos países europeus, buscando uma política de aliados e de compensações territoriais. Figura 2 – Mapa da Europa após o Congresso de Viena Crédito: João Miguel. 6 Com a revolução industrial, a procura por mercados se tornou essencial, o que resultou numa nova onda expansionista, conhecida por Neocolonialismo ou Imperialismo, que consistiu em explorar pessoas e recursos dos continentes africanos e asiáticos. Neste contexto, alguns países, como a Itália e a Alemanha, estavampassando por um processo de unificação, o que acabou tardando suas entradas na corrida imperialista. Ademais, havia muitos conflitos internos ocorrendo, principalmente no leste europeu, na região dos Balcãs. Os impérios da Áustria-Hungria e o Otomano passavam por diversas conturbações internas. Além disso, havia, ainda, diversas rusgas entre os países centrais, as quais surgiram em conflitos anteriores, principalmente entre a Alemanha e a França. O imbróglio envolvendo a França e a Alemanha remete ao conflito ocorrido na década de 1870, a chamada guerra franco-prussiana, na qual a Prússia saiu vitoriosa contra a França, inclusive dominando parte de seu território, a Alsácia-Lorena, e criando o chamado Segundo Império Alemão. Essa situação gerou nos franceses um forte sentimento de revanche. A Prússia era um reino que existiu na Europa entre 1701 e 1918, e seu território cobria a maior parte da Alemanha atual. Juntamente com outros reinos alemãs eles formaram, após a guerra Franco-prussiana, o Segundo Império Alemão. O reino da Prússia foi dissolvido após a derrota na Primeira Guerra. Essa disputa entre alemães e franceses gerou, ainda no final do século XIX, uma política de alianças que foram fundamentais na Primeira Guerra. Enquanto a Alemanha buscava se aliar com a Áustria-Hungria e com a Itália, a França usava a sua diplomacia para se aproximar da Rússia e da Inglaterra. Esses esforços diplomáticos deram origens às chamadas Tríplice Entente e Tríplice Aliança. A Tríplice Entente era formada pela França, Grã-Bretanha e pelo Império Russo, já a Tríplice Aliança foi formada pela Alemanha, Áustria-Hungria e pela Itália. No caso do leste europeu, ocorriam diversas disputas políticas e militares, e a região era conhecida como o barril de pólvora da Europa. A Áustria-Hungria tentava manter o controle sobre diversos territórios, enquanto isso o Império Russo instigava diferentes movimentos pela independência. Ficava cada vez 7 mais evidente que se avizinhava uma guerra, a questão era saber quando ela começaria. Mesmo com este cenário tenso, havia, antes da guerra, um clima de otimismo e uma crença de que o progresso só poderia trazer alegria e prosperidade. No entanto, a guerra devastou com essas ideias. Esse momento histórico, pautado pela positividade e crença no progresso, que antecedeu o início da Primeira Guerra, ficou conhecido como a Belle Époque, termo francês para Bela Época, marcada por uma série de inovações tecnológicas, como o advento da luz elétrica, do cinema, do carro, do avião, entre tantas outras invenções. Figura 3 – Ford T, grande símbolo progressista da Belle Époque Crédito: Jon Sullivan/CC/PD. Os avanços tecnológicos da Belle Époque também repercutiram na indústria bélica, produzindo armas de guerra, como canhões, carros blindados, metralhadoras e gases tóxicos de última geração. Desse modo, as principais potências europeias passaram a investir significativamente na indústria bélica, e esse fato ficou conhecido como paz armada. Ou seja, num contexto anterior à guerra, os países já estavam investindo pesado em armas, realizando uma corrida armamentista. Tratava-se de um período de paz, no qual as potências estavam super armadas e prontas para um iminente conflito. 8 Como mencionado anteriormente, foi justamente por causa dessas disputas políticas, marcadas por múltiplos nacionalismos, que teve início a Primeira Guerra. Um jovem sérvio, em 28 de junho de 1914, assassinou o príncipe da Áustria-Hungria na cidade de Sarajevo. Esse fato desencadeou uma série de acusações entre os países e declarações de guerra. No dia primeiro de agosto a Alemanha declara guerra contra a Rússia e, dois dias depois, também declarou guerra contra a França e a Bélgica. No quarto dia, a Grã-Bretanha, seguindo os princípios das alianças, declarou guerra contra a Alemanha. Nos primeiros meses a guerra se desenvolveu em movimento. A Alemanha atacou em duas frentes. Na frente ocidental as tropas alemãs avançaram contra a Bélgica com objetivo de chegar ao norte da França. Com isso chegaram a se aproximar de Paris. Entretanto, mudando seu objetivo inicial, acabaram sendo repelidos pelos franceses que contavam com o apoio do exército britânico. Na frente oriental, rapidamente os alemães avançaram contra os russos, impondo severas derrotas ao exército do Czar Nicolau II. No início do conflito em 1914, a Primeira Guerra tinha caraterísticas muito similares com os conflitos do século XIX, como o uso de cavalos, por exemplo. Todavia, em pouco tempo novas armas foram adicionadas ao conflito, o que modificou completamente as estratégias de guerra. Entre as novas tecnologias empregadas, pode-se destacar os canhões cada vez mais poderosos e capazes de atingir locais mais distantes com maior precisão. Os aviões que a princípio serviam para espionar o inimigo passaram a carregar bombas, as granadas de mão se tornaram cada vez mais recorrentes, assim como o uso de diversos tipos de gases, os quais levavam o inimigo à morte e ao sofrimento. Além disso, as metralhadoras foram melhoradas e se tornaram imprescindíveis durante o conflito, provavelmente a arma que mais fez estragos na Primeira Guerra. No mais, foi nesse momento que os navios foram aprimorados para as batalhas, e começou a testar submarinos. E, por fim, no final da guerra surgiu como um elemento importante o tanque de guerra. Todas essas novas armas foram fruto de um enorme desenvolvimento tecnológico, porém foram responsáveis por uma carnificina nunca vista na história da humanidade, a qual jogou por terra todas as esperanças e sonhos dos europeus. Vale dizer que, no início do conflito, era esperado que a guerra não durasse mais que poucos meses. 9 Figura 4 – Mark I, o primeiro tanque de guerra da história, utilizado na Primeira Guerra Mundial Crédito: CC/PD. Depois de algumas vitórias francesas e britânicas, iniciou-se, na frente ocidental, em 1915, a famosa guerra de trincheira, sendo que a principal trincheira tinha mais de 800 km de extensão. Os dois lados construíram grandes buracos nos quais os soldados ficavam esperando o momento para atacar. Entre as duas trincheiras havia a chamada terra de ninguém, local que deveria ser atravessado para chegar ao inimigo, ao longo da frente ocidental a distância entre as duas trincheiras variava de 50 metros a 500 metros. Figura 5 – Trincheira alemã ocupada por soldados britânicos em julho de 1916, na batalha de Somme Crédito: John Warwick Brooke/CC/PD. https://www.wikidata.org/wiki/Q29267899 10 Durante os três anos que durou a guerra de trincheiras, milhares de soldados, dos dois lados, morreram na tentativa de atravessar a terra de ninguém para chegar na trincheira inimiga. Era nesse momento que as metralhadoras mais trabalhavam. A vida nas trincheiras era extremamente caótica e sem condições sanitárias. As acomodações eram péssimas e havia pouca comida. Além dos bombardeios constantes, havia o perigo das granadas inimigas e dos gases. O combatente francês Émile Moniotte, relata a Alain Pigeard, especialista em história militar, as suas lembranças das trincheiras: Nosso regimento dirigiu-se a Craonne. Era dezembro de 1916, e a terra cobria-se de neve. Foi então que conheci a realidade das trincheiras, sua miséria. A chuva era um terror, desesperava os homens. Os capotes pesavam por causa da lama grudada neles; nos setores mais lamacentos, os soldados cortavam a parte de baixo do casaco para evitar o incômodo. Todas as manhãs, ou quase todas, por volta das 6 h no inverno e um pouco mais cedo no verão, chegavam os homens da sopa'. Foi assim que apelidamos os que traziam a comida do dia, em geral um café preto, pão e carne em conserva. O que comemos de carne em conserva, batata cozida, lentilha ou feijão! Não faltava o camembert!Mais meio litro de vinho, por homem, aguardente para quem quisesse e fumo. Era proibido fumar nas trincheiras, por isso muitos soldados criaram o hábito de mascar. O serviço da ‘sopa' também trazia a correspondência e as encomendas que nos enviavam: salsicha, toucinho cozido, luvas para o inverno. Nós dividíamos tudo, éramos muito unidos. Quando as coisas se acalmavam, podíamos descansar, mas era terminantemente proibido tirar o uniforme ou livrar- se dos equipamentos; só podíamos nos separar do capacete e da mochila. Para dormir no abrigo, quatro vigas sustentavam um estrado que servia como beliche. Os ‘antigos' dormiam na parte de cima, os mais novos embaixo. Não demorou para eu entender por quê: no meio da noite, acordei com algo se mexendo na minha barriga; era um rato enorme atrás de comida. Tomar banho ou se lavar, não existia: não havia água! (Pigeard, 2008) O ano de 1917 foi bastante decisivo para os rumos do conflito, marcado por dois acontecimentos cruciais: a entrada dos Estados Unidos e a saída da Rússia do conflito. Em abril de 1917, os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha e entraram para guerra ao lado da Tríplice Entente. Vale ressaltar que os Estados Unidos vendiam armas e alimentos para a Inglaterra e França, ou seja, havia uma afinidade política, cultural e comercial entre eles. Todavia, a Alemanha, utilizando seus submarinos alvejou navios americanos, e tal provocação levou os Estados Unidos a entrar no conflito. Em outubro de 1917, eclodiu em solo russo uma revolução de cunho socialista, da qual falaremos com mais profundidade no próximo tópico. Diante do seu cenário revolucionário interno era inviável a Rússia continuar na guerra, 11 portanto, em dezembro de 1917, o país anunciou sua retirada do conflito. Inicialmente, os países da Tríplice Aliança e da Tríplice Entente acreditavam que a guerra seria rápida e a vitória seria fácil, no entanto ocorreu exatamente o oposto disso. Assim, em 1918, a população já estava cansada, os soldados exaustos, somado a isso a entrada dos EUA foi uma injeção de dinheiro, de armamentos, de suplementos e de soldados, o que foi decisivo para as vitórias em combate. Em contrapartida, a Tríplice Aliança vinha de derrotas sucessivas. Diante deste cenário, em novembro de 1918, o governo alemão assinou um armistício, colocando fim ao conflito. Em janeiro de 1919 foi realizado o Tratado de Versalhes, documento que oficializava o término do conflito e reconfigurava a sociedade europeia pós-guerra. Neste tratado, a Alemanha foi considerada culpada pela Guerra, por isso a ela foram imputadas duras penas, como perda territorial, pagamento de uma indenização pesada aos vencedores e uma redução drástica de seu exército, sendo proibida de produzir armamentos. Saiba mais Armistício: acordo formal, no qual as partes envolvidas no conflito decidem suspender os embates. Quando a guerra chegou ao fim, em 1918, mais de 10 milhões de pessoas, entre soldados e civis, haviam morrido, outros 21 milhões ficaram feridos e tiveram que conviver não apenas com as cicatrizes no corpo, mas também com o horror em suas memórias. TEMA 3 – NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA REVOLUÇÃO – A REVOLUÇÃO RUSSA A revolução Russa é, sem dúvidas, um dos acontecimentos mais determinantes do século XX, afinal, toda a disputa entre o capitalismo e o socialismo subsequente advém dela. Para entendermos como culminou e se desenvolveu a Revolução Russa, é necessário compreendermos como era a Rússia pré-revolucionária. No início do século XX, a Rússia era o país mais populoso da Europa, um vasto e disforme império, comandada pelo czar Nicolau II. A Rússia, nesse momento, ainda era fortemente feudal. Assim, calcula-se que cerca de 85% da população vivia no campo, num sistema de ferrenha exploração dos camponeses por parte da 12 aristocracia rural. Já a população que vivia nos centros urbanos também passava por sérios problemas, como desemprego, fome e péssimas condições de vida. O país ainda era bastante atrasado industrialmente. Nas incipientes indústrias russas, a situação dos trabalhadores era horrível: péssimos salários, maus tratos, extensas jornadas de trabalho etc. Desse modo, os grupos sociais se dividiam da seguinte maneira: de um lado, os privilegiados, formados pela aristocracia rural, o alto clero da Igreja Ortodoxa Russa, os militares de alta patente, a nobreza imperial e a alta burguesia (donos das indústrias e comércios); e do outro lado encontravam-se os camponeses e operários vivendo em extrema pobreza. Diante desta conjuntura injusta, em 1905 os operários decidiram protestar, pedindo por melhorias de vida. Uma concentração enorme de pessoas se estabeleceu, de maneira pacífica, em frente ao Palácio de inverno do czar em São Petersburgo. A reação da polícia czarista foi violentíssima, abriram fogo contra os revoltosos e mataram mais de 90 pessoas e milhares de operários ficaram feridos. Este episódio ficou conhecido como o Domingo Sangrento. Figura 6 – O massacre do Domingo Sangrento em São Petersburgo no dia 22 de janeiro de 1905 Crédito: Ivan Vladimirov-CC/PD. Este acontecimento foi determinante para a eclosão da Revolução Russa, anos mais tarde. Afinal, depois deste trágico evento, greves de operários e revoltas camponesas começaram a explodir, a organização dos trabalhadores urbanos e rurais se intensificavam, de modo que, cada vez mais, o governo do czar se tornava insustentável. 13 Um exemplo disso é que, numa pequena cidade próxima de Moscou, os trabalhadores de uma fábrica criaram uma maneira de organização bastante original, que funcionava da seguinte forma: os trabalhadores elegiam representantes que não tinham mandato fixo, cuja função eram manter os colegas informados e preparar a mobilização, caso necessário. Surgia aí o primeiro soviet, que rapidamente se espalhou por toda a Rússia. Portanto, os soviets eram espécies de sindicatos, onde os trabalhadores exerciam, ao mesmo tempo, o poder executivo e legislativo. Mais tarde, em 1912, foi formado o Partido Bolchevique, que representava os operários, cujo líder era Vladimir Lenin. Para agravar ainda mais a situação, o czar Nicolau II decidiu entrar na Primeira Guerra Mundial. Todavia, tal decisão foi catastrófica. A Rússia não estava preparada, de modo que somou várias derrotas, com aproximadamente 4 milhões de soldados mortos no final de 1915. Sem contar que faltavam alimentos, armas e munições, o que revoltou os soldados russos. Além disso, a guerra gerou aumento os impostos, resultando numa carestia de mercadorias e muito desemprego. Assim, em 1916, ocorreram muitas revoltas criticando a guerra. Iniciava-se um discurso, que cada dia se tornou mais forte, que pregava “paz, pão e terra”, isto é, desejavam a saída imediata da Rússia da Guerra e uma vida digna. Soldados desertando, miséria, revoltas, greves, a situação estava insustentável, diante desse momento de instabilidade, os bolcheviques, comandado por Vladimir Lenin, aproveitaram para radicalizar e colocar em curso a ideia da revolução operária. Figura 7 – Pintura de Lenin na frente do Instituto Smolny, feita por Isaak Brodski Crédito: Isaak Brodsky/CC/PD. https://en.wikipedia.org/wiki/en:Isaak_Brodsky 14 Assim, em meados dos anos de 1917, os camponeses tomaram posse das terras de grandes latifundiários, distribuindo entre si de maneira igualitárias. Nas cidades, os operários ocuparam o Palácio de Inverno do Czar e somou-se a luta os soldados, que desistiram da Guerra e foram lutar ao lado da população. Era o início da Revolução Russa, que em 25 de outubro de 1917 colocou os bolcheviques no poder. Uma das primeiras medidas foi retirar a Rússia da guerra, depois, os bolcheviques aprovaram uma nova constituição. Leninestatizou a marinha Mercante e os bancos, criou tribunais revolucionários em substituição às instituições judiciárias, acabou com os latifúndios, desapropriando as terras e dividindo-as entre os camponeses. As fábricas também foram estatizadas e passaram a ser controladas pelos trabalhadores. Houve ainda confisco dos bens da Igreja Ortodoxa e extinção dos privilégios clerical. A educação se tronou laica. Portanto, os bolcheviques colocaram em prática, pela primeira vez na história, um governo socialista. Em 1918, os bolcheviques mudaram de nome e se tornaram Partido Comunista. É importante mencionar que, entre os anos 1917 e 1921, a Rússia se transformou num palco de guerras, pois, internamente, o conflito entre os bolcheviques (trabalhadores) e mencheviques (burgueses/conservadores) continuaram latentes. Em 1921, foi criada a NEP, Nova Política Econômica, cujo objetivo era estimular a produção agrícola e as pequenas indústrias, que foram reativadas, momentaneamente, de maneira privada. Em 1922, a Rússia se expandiu e formou um bloco com outros países vizinhos, formando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS. Figura 8 – Emblema da União Soviética Crédito: CC/PD. 15 Em 1924, Lenin veio a óbito em decorrência de um derrame cerebral. Era necessário, portanto, estabelecer quem assumiria seu lugar na liderança da URSS. A disputa se deu entre Josef Stalin e Leon Trotsky, membros ativos do Partido Comunista e figuras de destaque durante todo o processo revolucionário. O embate entre Stalin e Trotsky colocava em xeque a disputa de dois projetos: Stalin defendia o fortalecimento da revolução internamente, para depois se estender a outros países. Já Trotsky acreditava que era necessário internacionalizar o movimento para somar forças contra o capitalismo. Stalin dominava a máquina burocrática do partido, de modo que não foi difícil para dar um golpe e assumir o poder. Com esta nova realidade, Trotsky foi expulso do partido e mandado para fora do país. Daí em diante, andou fugitivo por diversos países, até que 1940 foi morto, a mando de Stalin, em sua casa no México. Stálin ocupou o governo da URSS durante décadas, entre 1924 e 1953, ano da morte. O Stalinismo se caracterizou como um governo totalitário, marcado por expurgos de camaradas, perseguições políticas, torturas, repressão, vigilância estatal, espionagem, censura e culto à personalidade. Ademais, aqueles considerados inimigos eram mortos, mandados para hospitais psiquiátricos ou levados para os gulags, campos de trabalho forçado. Estima-se que mais de um milhão de pessoas morreram nos gulags soviéticos. No que se refere à economia, a partir de 1927 Stalin lançou o Plano Quinquenais, que foram implementados a cada cinco anos e cujo objetivo era fortalecer a indústria, a agricultura, as universidades etc. Assim, milhares de pessoas foram beneficiadas por essa política pública estatal. O historiador Angelo Segrillo realiza um panorama de como a Revolução Russa foi retratada pela historiografia, desde 1917 até os dias atuais. É muito interessante notar que no período em que a revolução ocorria, já estava sendo produzidas versões histográficas sobre ela, escrito por participes do evento, e obviamente, influenciadas pelo calor do momento. Mais tarde, com a queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética e a abertura de novos arquivos, muitos estudos foram realizados privilegiando diferentes temáticas como a vida social e política das comunidades soviéticas do interior, a principal consequência (e benefício) destes estudos regionais tem sido o alargamento da compreensão de como a vida social e a política se mesclavam nos ambientes mais provinciais, rurais ou periféricos e como 16 a população local comum se inseria neste espaço de jogo de poder (Segrillo. 2010, p. 82-83). Mais recentemente, há estudos sobre a Revolução Russa realizados sob o prisma da Virada Linguística e do Pós-modernismo, trazendo contribuições importantes para o campo historiográfico. TEMA 4 – QUEM É O DONO DO MUNDO? A Primeira Guerra Mundial gerou uma profunda mudança na sociedade global, suas marcas foram sentidas por muito tempo e seus desdobramentos geraram inúmeras transformações para o mundo – principalmente no continente europeu. Assim, a Primeira Guerra deixou, sobretudo na Europa, implicações sociais, políticas, econômicas, geográficas, tecnológicas e culturais. Durante a guerra, o Império Russo foi palco da primeira revolução socialista da história. Este acontecimento é crucial para compreender o século XX, pois boa parte dos eventos ocorridos adiante estão diretamente ou indiretamente relacionados com a Revolução Russa e implementação do socialismo. Já o Império da Áustria-Hungria foi desfeito e se transformou em vários países, assim como também o Império Otomano. Diversas colônias que pertenciam aos perdedores foram incorporadas pelos vitoriosos. Desse modo, a geografia da Europa no pós-guerra se modificou completamente. Os alemães, considerados os grandes responsáveis pela guerra segundo o Tratado de Versalhes em 1919, foram severamente punidos. Essas punições ajudam, em parte, a explicar o êxito da ascensão do governo nazista, bem como se apresentam como um dos fatores que impactaram na ocorrência da Segunda Guerra Mundial, como veremos mais adiante. Cabe ainda salientar que, ao final da Primeira Guerra, incorporado ao Tratado de Versalhes foi criada a Liga das Nações, com sede em Genebra, na Suíça. Tratou-se de uma organização internacional composta por vários Estados soberanos, cujo objetivo principal era, por meio da cooperação mútua, assegurar a paz, para que conflitos como a Primeira Guerra não voltassem a ocorrer. Entretanto, com a eclosão da Segunda Guerra em 1939, esta organização praticamente deixou de funcionar, sendo extinta oficialmente em 1946. Os Estados Unidos, que até 1917 estavam neutros no conflito, tiveram uma importante participação na vitória da Tríplice Entente e no final da guerra se 17 afirmaram como uma das maiores potências, considerado por muitos como os “donos do mundo”, desse modo, o “velho mundo” perdeu sua centralidade e protagonismo. Devido a sua rápida industrialização no final do século XIX, o que acarretou numa aceleração econômica, os Estados Unidos ofereceram empréstimos para os países envolvidos no conflito, sobretudo para Tríplice Entente para reconstruir financeiramente seus países. Com o final da guerra, as ideias liberais sofreram muitas críticas e, nesse cenário, as ideologias autoritárias começaram a se fortalecer. Portanto, é visível que a reorganização pós-guerra não sanou todos os conflitos que haviam originado a guerra. Mais que isso, estes conflitos foram somados a outros novos, resultantes da própria guerra. Desse modo, a reconstrução do mundo pós-guerra se transformou, na verdade, em um descanso temporário, uma espécie de intervalo entre atos, onde os atores estavam apenas descansando e se preparando para a segunda parte do espetáculo, ou seja, a Segunda Grande Guerra. NA PRÁTICA Como vimos, uma série de fatores acabaram fazendo com que o mundo entrasse em um grande conflito mundial. No início dessa discussão, afirmamos que os liberalismos (que criam o cenário para o desenvolvimento do capitalismo) foram essenciais no período. Apoiando-se no que você já estudou, faça uma dissertação (entre 20-30 linhas) sobre o tema, relacionando o desenvolvimento do capitalismo com os liberalismos e a Primeira Grande Guerra Mundial. FINALIZANDO As revoluções burguesas (Inglesa e Francesa), somadas especialmente com a Revolução Industrial, serviram para consolidar o capital. A partir daí, encontrou-se em vigor uma nova maneira de produção. Desse modo, os paíseseuropeus precisavam de matérias-primas e novos mercados, o que resultou no Imperialismo. O Imperialismo e as tensões pré-existente na Europa resultaram na Primeira Guerra Mundial, que foi marcada, sobretudo, pela guerra de trincheiras. Este conflito mostrou que o progresso nem sempre conduz à felicidade, pois, 18 neste caso, o desenvolvimento tecnológico foi utilizado para exterminar seres humanos em menos tempo. Durante a Primeira Guerra, ocorreu a Revolução Russa, instaurando o primeiro governo socialista da história. Era o início de uma disputa que vai permear quase todo o século XX, o capitalismo versus o socialismo. Atualmente, os Estados Unidos são uma das maiores potências mundiais e esse título nasceu ao final da Primeira Guerra, quando os norte-americanos emprestaram dinheiro aos países europeus e se tornaram aos maiores exportadores de mercadorias. Todavia, a Primeira Guerra não se encerrou definitivamente com o armistício, pois seu resultado final foi mais uma espécie de entreatos que uma finalização efetiva. Os acordos não satisfizeram a todos e um certo ar de revanchismo permanecia fortemente. 19 REFERÊNCIAS BEAUD, M. História do Capitalismo de 1500 até nossos dias. Editora brasiliense, 1987. BOBBIO, N. Liberalismo e democracia. São Paulo: Brasiliense, 2000. BRUE, Stanley. História do Pensamento Econômico. SP: Thonson Learning, 2006. CARVALHO, D. G. O que é o liberalismo? O que significa ser liberal? (Artigo). Café História – história feita com cliques. Disponível em: . Acesso em: 5 set. 2022. FERGUSON, N. O Horror da Guerra: uma provocativa análise da Primeira Guerra Mundial. São Paulo: Editora Planeta, 2014. FERRO, M. A Grande Guerra – 1914- 1918. Lisboa: Edições 70, 2008. HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914- 1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. HOBSBAWM, E. 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