Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Dayane Rúbila Lobo Hessmann 
 
 
 
 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 Após a Revolução Industrial, novos mercados consumidores passaram a 
ser fundamentais, todos os olhos se voltaram, novamente, para o exterior e uma 
nova onda expansionista se desenvolveu. A corrida para a expansão foi acirrada 
e alguns países se sentiram injustiçados, de modo que o clima bélico era cada 
vez mais evidente. Essas tensões latentes ocasionaram a Primeira Grande 
Guerra Mundial e suas consequências podem ser sentidas até a atualidade. 
Portanto, nosso objetivo, nesta etapa, é compreender os antecedentes da 
Primeira Grande Guerra Mundial, suas nuances e seus desdobramentos. Para 
tanto, vamos tratar do liberalismo político e econômico, da Primeira Guerra 
Mundial, da Revolução Russa e da hegemonia norte-americana ao final da 
guerra. 
TEMA 1 – LIBERALISMO ECONÔMICO, LIBERALISMO POLÍTICO 
É impossível entender a Primeira Grande Guerra e todos os seus 
desdobramentos sem levar em consideração o desenvolvimento do capitalismo. 
Para que o capitalismo se desenvolvesse, a construção de um cabedal teórico 
liberal foi de suma importância. Afinal, era necessário, para consolidar as 
modificações necessárias para o desenvolvimento do capital, que vários 
entraves da sociedade (rural, nobre, agrária) fossem eliminados e, para isso, os 
liberalismos (tanto políticos como econômicos) foram essenciais. 
 Até o século XIX, muitos países europeus ainda conservavam 
características feudais ou absolutistas, marcado pela forte desigualdade social e 
econômica entre as pessoas. Os impostos recaíam, sobretudo, sob a população 
pobre, o governo intervia fortemente na economia e não havia direitos políticos, 
como votar e participar da política ativamente. 
 Portanto, diante deste cenário, tornava-se difícil o desenvolvimento do 
capitalismo. Com a ascensão da burguesia, a partir das revoluções burguesas 
(Revolução Inglesa e Revolução Francesa) e da Revolução Industrial, os 
burgueses que já detinham o poder econômico desejavam o poder político. 
Desde o Iluminismo, filósofos importantes como Voltaire, Rousseau, 
Montesquieu já discutiam como a racionalidade e a objetividade deveriam 
assumir a centralidade nas operações sociais. 
 Os iluministas tiraram as discussões do plano divino e trouxeram para a 
 
 
3 
realidade, baseados na razão e na ciência. Todavia, cabe salientar que os 
iluministas não eram ateus, apenas anticlericais, ou seja, criticavam a instituição 
católica. Eles eram considerados deístas, ou seja, acreditavam em Deus, na 
natureza e nos Homens. 
 As ideias defendidas por estes filósofos traziam em seu bojo muitos 
aspectos que a burguesia almejava, como defesa da propriedade privada e a 
liberdade política, econômica, religiosa e de expressão, criticando 
veementemente a sociedade do Antigo Regime, permeada pelo Absolutismo, 
pela intolerância religiosa e pelo mercantilismo. 
 Diante disso, nasceu o liberalismo político, pautado na defesa da divisão 
de poderes, da meritocracia, da representatividade; e o liberalismo econômico, 
cuja premissa era diminuir as intervenções do Estado na economia, de modo 
que os Estados pudessem buscar novos mercados consumidores para os 
produtos resultantes da expansão da revolução industrial, tendo livre 
concorrência. 
 O historiador Daniel Gomes de Carvalho chama atenção para a história 
deste conceito: 
Na segunda metade do século XVIII, nota-se uma clara inflexão: as 
expressões em inglês “liberal policy” (“política liberal”), “liberal plan” 
(“plano liberal”), “liberal system” (“sistema liberal”) “liberal views” (“visões 
liberais”), “liberal ideas” (“ideias liberais”) e “liberal principles” (“princípios 
liberais”) passam a ser muito utilizadas, sobretudo pelos Iluministas 
britânicos (sobretudo, escoceses), como Jeremy Bentham e Adam 
Smith. O uso da palavra liberal neste contexto histórico refere-se a uma 
ideia vaga de não interferência do Estado. Por exemplo, Adam Smith, 
em A Riqueza das Nações (1776), passa a falar em um “sistema liberal 
de livre exportação e importação”. (Carvalho, 2020) 
 Para os limites desta etapa nos interessa destacar alguns pensadores, 
cujas ideias são importantes apara entendermos a lógica capitalista, como Adam 
Smith, Thomas Malthus e David Ricardo. 
 O filósofo escocês Adam Smith (1723-1790), que é considerado o “pai da 
economia moderna”, certamente é um dos nomes mais relevantes quando se 
trata de liberalismo. Em 1776, escreveu o livro A riqueza das nações, no qual 
traz a ideia anti-intervencionista. Para ele o Estado não deveria intervir na 
economia, de modo que o mercado pudesse ser livre e se autorregular, o que 
ele chamou de mão invisível. Ademais, Smith acreditava que o que movia a 
economia eram os interesses individuais das pessoas, em busca de vantagens 
próprias. 
https://www.theatlantic.com/politics/archive/2014/02/the-origin-of-liberalism/283780/
https://www.theatlantic.com/politics/archive/2014/02/the-origin-of-liberalism/283780/
 
 
4 
 O economista e pastor anglicano, o inglês Thomas Malthus (1766-1834), 
se preocupou com o crescimento populacional, afirmando que chegaria em um 
ponto que não haveria mais alimento para toda a população. Assim, ele defendia 
que as doenças, as guerras e as epidemias eram bem-vindas, na medida em 
que diminuiriam a população. Ainda nessa esteira, era contrário à elaboração de 
leis protetoras às pessoas mais carentes, alegando que isso só traria ainda mais 
problemas, porque não iria diminuir o número de pessoas pobres. Dessa 
maneira, ele propunha, como maneira de diminuir a pobreza, que o casamento 
das classes populares fosse tardio e uma houvesse um rígido controle sexual. 
Figura 1 – Thomas Malthus 
 
 Crédito: John Linnell/CC-PD. 
 O economista e político inglês David Ricardo (1772-1823) é considerado 
um dos fundadores da escola clássica inglesa da economia política, juntamente 
com Adam Smith e Thomas Malthus, já citados acima. David Ricardo tratou de 
assuntos como: a teoria do valor-trabalho, a teoria da distribuição (as relações 
entre o lucro e os salários), o comércio internacional e temas monetários. Ele 
defendia que a produção industrial necessitava de um incentivo maior, pois, 
segundo ele, a produção industrial era o que verdadeiramente gerava riquezas. 
 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_valor-trabalho
 
 
5 
TEMA 2 – O PRIMEIRO ATO – UMA GUERRA E SUA RACIONALIDADE 
O historiador Eric Hobsbawm assinala o início da Primeira Guerra Mundial 
em 1914 como o início do “breve século XX”, que, para ele, termina em 1991, 
com o colapso da União Soviética. O historiador define esse período como “era 
dos extremos” ou “era das catástrofes (Hobsbawn, 1995, p. 15), uma vez que foi 
uma época marcada por guerras, autoritarismos e crise econômica. Os motivos 
que levaram à Primeira Guerra Mundial são amplos e complexos. Para entendê-
los precisamos retomar alguns fatos que aconteceram anteriormente. 
 O fim do Império Napoleônico exigia uma nova remodelação do mapa 
geográfico europeu, devido a isso, entre 1814 a 1815, aconteceu o Congresso 
de Viena, cujo objetivo era equilibrar o poder político e econômico dos países 
europeus, buscando uma política de aliados e de compensações territoriais. 
Figura 2 – Mapa da Europa após o Congresso de Viena 
 
Crédito: João Miguel. 
 
 
 
6 
Com a revolução industrial, a procura por mercados se tornou essencial, 
o que resultou numa nova onda expansionista, conhecida por Neocolonialismo 
ou Imperialismo, que consistiu em explorar pessoas e recursos dos continentes 
africanos e asiáticos. 
 Neste contexto, alguns países, como a Itália e a Alemanha, estavampassando por um processo de unificação, o que acabou tardando suas entradas 
na corrida imperialista. 
Ademais, havia muitos conflitos internos ocorrendo, principalmente no 
leste europeu, na região dos Balcãs. Os impérios da Áustria-Hungria e o 
Otomano passavam por diversas conturbações internas. Além disso, havia, 
ainda, diversas rusgas entre os países centrais, as quais surgiram em conflitos 
anteriores, principalmente entre a Alemanha e a França. 
O imbróglio envolvendo a França e a Alemanha remete ao conflito 
ocorrido na década de 1870, a chamada guerra franco-prussiana, na qual a 
Prússia saiu vitoriosa contra a França, inclusive dominando parte de seu 
território, a Alsácia-Lorena, e criando o chamado Segundo Império Alemão. Essa 
situação gerou nos franceses um forte sentimento de revanche. 
A Prússia era um reino que existiu na Europa entre 1701 e 1918, e seu 
território cobria a maior parte da Alemanha atual. Juntamente com outros reinos 
alemãs eles formaram, após a guerra Franco-prussiana, o Segundo Império 
Alemão. O reino da Prússia foi dissolvido após a derrota na Primeira Guerra. 
Essa disputa entre alemães e franceses gerou, ainda no final do século 
XIX, uma política de alianças que foram fundamentais na Primeira Guerra. 
Enquanto a Alemanha buscava se aliar com a Áustria-Hungria e com a Itália, a 
França usava a sua diplomacia para se aproximar da Rússia e da Inglaterra. 
Esses esforços diplomáticos deram origens às chamadas Tríplice Entente e 
Tríplice Aliança. 
A Tríplice Entente era formada pela França, Grã-Bretanha e pelo Império 
Russo, já a Tríplice Aliança foi formada pela Alemanha, Áustria-Hungria e pela 
Itália. 
No caso do leste europeu, ocorriam diversas disputas políticas e militares, 
e a região era conhecida como o barril de pólvora da Europa. A Áustria-Hungria 
tentava manter o controle sobre diversos territórios, enquanto isso o Império 
Russo instigava diferentes movimentos pela independência. Ficava cada vez 
 
 
7 
mais evidente que se avizinhava uma guerra, a questão era saber quando ela 
começaria. 
Mesmo com este cenário tenso, havia, antes da guerra, um clima de 
otimismo e uma crença de que o progresso só poderia trazer alegria e 
prosperidade. No entanto, a guerra devastou com essas ideias. 
Esse momento histórico, pautado pela positividade e crença no progresso, 
que antecedeu o início da Primeira Guerra, ficou conhecido como a Belle 
Époque, termo francês para Bela Época, marcada por uma série de inovações 
tecnológicas, como o advento da luz elétrica, do cinema, do carro, do avião, entre 
tantas outras invenções. 
Figura 3 – Ford T, grande símbolo progressista da Belle Époque 
 
Crédito: Jon Sullivan/CC/PD. 
Os avanços tecnológicos da Belle Époque também repercutiram na 
indústria bélica, produzindo armas de guerra, como canhões, carros blindados, 
metralhadoras e gases tóxicos de última geração. Desse modo, as principais 
potências europeias passaram a investir significativamente na indústria bélica, e 
esse fato ficou conhecido como paz armada. Ou seja, num contexto anterior à 
guerra, os países já estavam investindo pesado em armas, realizando uma 
corrida armamentista. Tratava-se de um período de paz, no qual as potências 
estavam super armadas e prontas para um iminente conflito. 
 
 
8 
 Como mencionado anteriormente, foi justamente por causa dessas 
disputas políticas, marcadas por múltiplos nacionalismos, que teve início a 
Primeira Guerra. Um jovem sérvio, em 28 de junho de 1914, assassinou o 
príncipe da Áustria-Hungria na cidade de Sarajevo. Esse fato desencadeou uma 
série de acusações entre os países e declarações de guerra. 
No dia primeiro de agosto a Alemanha declara guerra contra a Rússia e, 
dois dias depois, também declarou guerra contra a França e a Bélgica. No quarto 
dia, a Grã-Bretanha, seguindo os princípios das alianças, declarou guerra contra 
a Alemanha. 
Nos primeiros meses a guerra se desenvolveu em movimento. A 
Alemanha atacou em duas frentes. Na frente ocidental as tropas alemãs 
avançaram contra a Bélgica com objetivo de chegar ao norte da França. Com 
isso chegaram a se aproximar de Paris. Entretanto, mudando seu objetivo inicial, 
acabaram sendo repelidos pelos franceses que contavam com o apoio do 
exército britânico. Na frente oriental, rapidamente os alemães avançaram contra 
os russos, impondo severas derrotas ao exército do Czar Nicolau II. 
No início do conflito em 1914, a Primeira Guerra tinha caraterísticas muito 
similares com os conflitos do século XIX, como o uso de cavalos, por exemplo. 
Todavia, em pouco tempo novas armas foram adicionadas ao conflito, o que 
modificou completamente as estratégias de guerra. Entre as novas tecnologias 
empregadas, pode-se destacar os canhões cada vez mais poderosos e capazes 
de atingir locais mais distantes com maior precisão. Os aviões que a princípio 
serviam para espionar o inimigo passaram a carregar bombas, as granadas de 
mão se tornaram cada vez mais recorrentes, assim como o uso de diversos tipos 
de gases, os quais levavam o inimigo à morte e ao sofrimento. 
 Além disso, as metralhadoras foram melhoradas e se tornaram 
imprescindíveis durante o conflito, provavelmente a arma que mais fez estragos 
na Primeira Guerra. No mais, foi nesse momento que os navios foram 
aprimorados para as batalhas, e começou a testar submarinos. E, por fim, no 
final da guerra surgiu como um elemento importante o tanque de guerra. 
Todas essas novas armas foram fruto de um enorme desenvolvimento 
tecnológico, porém foram responsáveis por uma carnificina nunca vista na 
história da humanidade, a qual jogou por terra todas as esperanças e sonhos 
dos europeus. Vale dizer que, no início do conflito, era esperado que a guerra 
não durasse mais que poucos meses. 
 
 
9 
Figura 4 – Mark I, o primeiro tanque de guerra da história, utilizado na Primeira 
Guerra Mundial 
 
Crédito: CC/PD. 
Depois de algumas vitórias francesas e britânicas, iniciou-se, na frente 
ocidental, em 1915, a famosa guerra de trincheira, sendo que a principal 
trincheira tinha mais de 800 km de extensão. Os dois lados construíram grandes 
buracos nos quais os soldados ficavam esperando o momento para atacar. Entre 
as duas trincheiras havia a chamada terra de ninguém, local que deveria ser 
atravessado para chegar ao inimigo, ao longo da frente ocidental a distância 
entre as duas trincheiras variava de 50 metros a 500 metros. 
Figura 5 – Trincheira alemã ocupada por soldados britânicos em julho de 1916, 
na batalha de Somme 
 
Crédito: John Warwick Brooke/CC/PD. 
https://www.wikidata.org/wiki/Q29267899
 
 
10 
Durante os três anos que durou a guerra de trincheiras, milhares de 
soldados, dos dois lados, morreram na tentativa de atravessar a terra de 
ninguém para chegar na trincheira inimiga. Era nesse momento que as 
metralhadoras mais trabalhavam. 
A vida nas trincheiras era extremamente caótica e sem condições 
sanitárias. As acomodações eram péssimas e havia pouca comida. Além dos 
bombardeios constantes, havia o perigo das granadas inimigas e dos gases. 
O combatente francês Émile Moniotte, relata a Alain Pigeard, especialista 
em história militar, as suas lembranças das trincheiras: 
Nosso regimento dirigiu-se a Craonne. Era dezembro de 1916, e a terra 
cobria-se de neve. Foi então que conheci a realidade das trincheiras, 
sua miséria. A chuva era um terror, desesperava os homens. Os 
capotes pesavam por causa da lama grudada neles; nos setores mais 
lamacentos, os soldados cortavam a parte de baixo do casaco para 
evitar o incômodo. Todas as manhãs, ou quase todas, por volta das 6 
h no inverno e um pouco mais cedo no verão, chegavam os homens 
da sopa'. Foi assim que apelidamos os que traziam a comida do dia, 
em geral um café preto, pão e carne em conserva. O que comemos de 
carne em conserva, batata cozida, lentilha ou feijão! Não faltava o 
camembert!Mais meio litro de vinho, por homem, aguardente para 
quem quisesse e fumo. Era proibido fumar nas trincheiras, por isso 
muitos soldados criaram o hábito de mascar. O serviço da ‘sopa' 
também trazia a correspondência e as encomendas que nos enviavam: 
salsicha, toucinho cozido, luvas para o inverno. Nós dividíamos tudo, 
éramos muito unidos. Quando as coisas se acalmavam, podíamos 
descansar, mas era terminantemente proibido tirar o uniforme ou livrar-
se dos equipamentos; só podíamos nos separar do capacete e da 
mochila. Para dormir no abrigo, quatro vigas sustentavam um estrado 
que servia como beliche. Os ‘antigos' dormiam na parte de cima, os 
mais novos embaixo. Não demorou para eu entender por quê: no meio 
da noite, acordei com algo se mexendo na minha barriga; era um rato 
enorme atrás de comida. Tomar banho ou se lavar, não existia: não 
havia água! (Pigeard, 2008) 
O ano de 1917 foi bastante decisivo para os rumos do conflito, marcado 
por dois acontecimentos cruciais: a entrada dos Estados Unidos e a saída da 
Rússia do conflito. 
Em abril de 1917, os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha e 
entraram para guerra ao lado da Tríplice Entente. Vale ressaltar que os Estados 
Unidos vendiam armas e alimentos para a Inglaterra e França, ou seja, havia 
uma afinidade política, cultural e comercial entre eles. Todavia, a Alemanha, 
utilizando seus submarinos alvejou navios americanos, e tal provocação levou 
os Estados Unidos a entrar no conflito. 
Em outubro de 1917, eclodiu em solo russo uma revolução de cunho 
socialista, da qual falaremos com mais profundidade no próximo tópico. Diante 
do seu cenário revolucionário interno era inviável a Rússia continuar na guerra, 
 
 
11 
portanto, em dezembro de 1917, o país anunciou sua retirada do conflito. 
 Inicialmente, os países da Tríplice Aliança e da Tríplice Entente 
acreditavam que a guerra seria rápida e a vitória seria fácil, no entanto ocorreu 
exatamente o oposto disso. Assim, em 1918, a população já estava cansada, os 
soldados exaustos, somado a isso a entrada dos EUA foi uma injeção de 
dinheiro, de armamentos, de suplementos e de soldados, o que foi decisivo para 
as vitórias em combate. Em contrapartida, a Tríplice Aliança vinha de derrotas 
sucessivas. 
Diante deste cenário, em novembro de 1918, o governo alemão assinou 
um armistício, colocando fim ao conflito. Em janeiro de 1919 foi realizado o 
Tratado de Versalhes, documento que oficializava o término do conflito e 
reconfigurava a sociedade europeia pós-guerra. Neste tratado, a Alemanha foi 
considerada culpada pela Guerra, por isso a ela foram imputadas duras penas, 
como perda territorial, pagamento de uma indenização pesada aos vencedores 
e uma redução drástica de seu exército, sendo proibida de produzir armamentos. 
Saiba mais 
Armistício: acordo formal, no qual as partes envolvidas no conflito decidem 
suspender os embates. 
Quando a guerra chegou ao fim, em 1918, mais de 10 milhões de 
pessoas, entre soldados e civis, haviam morrido, outros 21 milhões ficaram 
feridos e tiveram que conviver não apenas com as cicatrizes no corpo, mas 
também com o horror em suas memórias. 
TEMA 3 – NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA REVOLUÇÃO – A 
REVOLUÇÃO RUSSA 
 A revolução Russa é, sem dúvidas, um dos acontecimentos mais 
determinantes do século XX, afinal, toda a disputa entre o capitalismo e o 
socialismo subsequente advém dela. 
 Para entendermos como culminou e se desenvolveu a Revolução Russa, 
é necessário compreendermos como era a Rússia pré-revolucionária. No início 
do século XX, a Rússia era o país mais populoso da Europa, um vasto e disforme 
império, comandada pelo czar Nicolau II. A Rússia, nesse momento, ainda era 
fortemente feudal. Assim, calcula-se que cerca de 85% da população vivia no 
campo, num sistema de ferrenha exploração dos camponeses por parte da 
 
 
12 
aristocracia rural. 
 Já a população que vivia nos centros urbanos também passava por sérios 
problemas, como desemprego, fome e péssimas condições de vida. O país ainda 
era bastante atrasado industrialmente. Nas incipientes indústrias russas, a 
situação dos trabalhadores era horrível: péssimos salários, maus tratos, 
extensas jornadas de trabalho etc. 
 Desse modo, os grupos sociais se dividiam da seguinte maneira: de um 
lado, os privilegiados, formados pela aristocracia rural, o alto clero da Igreja 
Ortodoxa Russa, os militares de alta patente, a nobreza imperial e a alta 
burguesia (donos das indústrias e comércios); e do outro lado encontravam-se 
os camponeses e operários vivendo em extrema pobreza. 
 Diante desta conjuntura injusta, em 1905 os operários decidiram protestar, 
pedindo por melhorias de vida. Uma concentração enorme de pessoas se 
estabeleceu, de maneira pacífica, em frente ao Palácio de inverno do czar em 
São Petersburgo. A reação da polícia czarista foi violentíssima, abriram fogo 
contra os revoltosos e mataram mais de 90 pessoas e milhares de operários 
ficaram feridos. Este episódio ficou conhecido como o Domingo Sangrento. 
Figura 6 – O massacre do Domingo Sangrento em São Petersburgo no dia 22 
de janeiro de 1905 
 
Crédito: Ivan Vladimirov-CC/PD. 
Este acontecimento foi determinante para a eclosão da Revolução Russa, 
anos mais tarde. Afinal, depois deste trágico evento, greves de operários e 
revoltas camponesas começaram a explodir, a organização dos trabalhadores 
urbanos e rurais se intensificavam, de modo que, cada vez mais, o governo do 
czar se tornava insustentável. 
 
 
13 
 Um exemplo disso é que, numa pequena cidade próxima de Moscou, os 
trabalhadores de uma fábrica criaram uma maneira de organização bastante 
original, que funcionava da seguinte forma: os trabalhadores elegiam 
representantes que não tinham mandato fixo, cuja função eram manter os 
colegas informados e preparar a mobilização, caso necessário. Surgia aí o 
primeiro soviet, que rapidamente se espalhou por toda a Rússia. Portanto, os 
soviets eram espécies de sindicatos, onde os trabalhadores exerciam, ao mesmo 
tempo, o poder executivo e legislativo. Mais tarde, em 1912, foi formado o Partido 
Bolchevique, que representava os operários, cujo líder era Vladimir Lenin. 
 Para agravar ainda mais a situação, o czar Nicolau II decidiu entrar na 
Primeira Guerra Mundial. Todavia, tal decisão foi catastrófica. A Rússia não 
estava preparada, de modo que somou várias derrotas, com aproximadamente 
4 milhões de soldados mortos no final de 1915. Sem contar que faltavam 
alimentos, armas e munições, o que revoltou os soldados russos. 
 Além disso, a guerra gerou aumento os impostos, resultando numa 
carestia de mercadorias e muito desemprego. Assim, em 1916, ocorreram muitas 
revoltas criticando a guerra. Iniciava-se um discurso, que cada dia se tornou mais 
forte, que pregava “paz, pão e terra”, isto é, desejavam a saída imediata da 
Rússia da Guerra e uma vida digna. 
 Soldados desertando, miséria, revoltas, greves, a situação estava 
insustentável, diante desse momento de instabilidade, os bolcheviques, 
comandado por Vladimir Lenin, aproveitaram para radicalizar e colocar em curso 
a ideia da revolução operária. 
Figura 7 – Pintura de Lenin na frente do Instituto Smolny, feita por Isaak Brodski 
 
Crédito: Isaak Brodsky/CC/PD. 
https://en.wikipedia.org/wiki/en:Isaak_Brodsky
 
 
14 
 Assim, em meados dos anos de 1917, os camponeses tomaram posse 
das terras de grandes latifundiários, distribuindo entre si de maneira igualitárias. 
Nas cidades, os operários ocuparam o Palácio de Inverno do Czar e somou-se 
a luta os soldados, que desistiram da Guerra e foram lutar ao lado da população. 
Era o início da Revolução Russa, que em 25 de outubro de 1917 colocou os 
bolcheviques no poder. 
 Uma das primeiras medidas foi retirar a Rússia da guerra, depois, os 
bolcheviques aprovaram uma nova constituição. Leninestatizou a marinha 
Mercante e os bancos, criou tribunais revolucionários em substituição às 
instituições judiciárias, acabou com os latifúndios, desapropriando as terras e 
dividindo-as entre os camponeses. As fábricas também foram estatizadas e 
passaram a ser controladas pelos trabalhadores. Houve ainda confisco dos bens 
da Igreja Ortodoxa e extinção dos privilégios clerical. A educação se tronou laica. 
 Portanto, os bolcheviques colocaram em prática, pela primeira vez na 
história, um governo socialista. Em 1918, os bolcheviques mudaram de nome e 
se tornaram Partido Comunista. 
 É importante mencionar que, entre os anos 1917 e 1921, a Rússia se 
transformou num palco de guerras, pois, internamente, o conflito entre os 
bolcheviques (trabalhadores) e mencheviques (burgueses/conservadores) 
continuaram latentes. 
 Em 1921, foi criada a NEP, Nova Política Econômica, cujo objetivo era 
estimular a produção agrícola e as pequenas indústrias, que foram reativadas, 
momentaneamente, de maneira privada. Em 1922, a Rússia se expandiu e 
formou um bloco com outros países vizinhos, formando a União das Repúblicas 
Socialistas Soviéticas, a URSS. 
Figura 8 – Emblema da União Soviética 
 
Crédito: CC/PD. 
 
 
15 
 Em 1924, Lenin veio a óbito em decorrência de um derrame cerebral. Era 
necessário, portanto, estabelecer quem assumiria seu lugar na liderança da 
URSS. A disputa se deu entre Josef Stalin e Leon Trotsky, membros ativos do 
Partido Comunista e figuras de destaque durante todo o processo revolucionário. 
 O embate entre Stalin e Trotsky colocava em xeque a disputa de dois 
projetos: Stalin defendia o fortalecimento da revolução internamente, para depois 
se estender a outros países. Já Trotsky acreditava que era necessário 
internacionalizar o movimento para somar forças contra o capitalismo. 
 Stalin dominava a máquina burocrática do partido, de modo que não foi 
difícil para dar um golpe e assumir o poder. Com esta nova realidade, Trotsky foi 
expulso do partido e mandado para fora do país. Daí em diante, andou fugitivo 
por diversos países, até que 1940 foi morto, a mando de Stalin, em sua casa no 
México. 
 Stálin ocupou o governo da URSS durante décadas, entre 1924 e 1953, 
ano da morte. O Stalinismo se caracterizou como um governo totalitário, 
marcado por expurgos de camaradas, perseguições políticas, torturas, 
repressão, vigilância estatal, espionagem, censura e culto à personalidade. 
 Ademais, aqueles considerados inimigos eram mortos, mandados para 
hospitais psiquiátricos ou levados para os gulags, campos de trabalho forçado. 
Estima-se que mais de um milhão de pessoas morreram nos gulags soviéticos. 
 No que se refere à economia, a partir de 1927 Stalin lançou o Plano 
Quinquenais, que foram implementados a cada cinco anos e cujo objetivo era 
fortalecer a indústria, a agricultura, as universidades etc. Assim, milhares de 
pessoas foram beneficiadas por essa política pública estatal. 
 O historiador Angelo Segrillo realiza um panorama de como a Revolução 
Russa foi retratada pela historiografia, desde 1917 até os dias atuais. É muito 
interessante notar que no período em que a revolução ocorria, já estava sendo 
produzidas versões histográficas sobre ela, escrito por participes do evento, e 
obviamente, influenciadas pelo calor do momento. Mais tarde, com a queda do 
Muro de Berlim, o fim da União Soviética e a abertura de novos arquivos, muitos 
estudos foram realizados privilegiando diferentes temáticas como a vida social e 
política das comunidades soviéticas do interior, 
a principal consequência (e benefício) destes estudos regionais tem sido 
o alargamento da compreensão de como a vida social e a política se 
mesclavam nos ambientes mais provinciais, rurais ou periféricos e como 
 
 
16 
a população local comum se inseria neste espaço de jogo de poder 
(Segrillo. 2010, p. 82-83). 
 Mais recentemente, há estudos sobre a Revolução Russa realizados sob 
o prisma da Virada Linguística e do Pós-modernismo, trazendo contribuições 
importantes para o campo historiográfico. 
TEMA 4 – QUEM É O DONO DO MUNDO? 
A Primeira Guerra Mundial gerou uma profunda mudança na sociedade 
global, suas marcas foram sentidas por muito tempo e seus desdobramentos 
geraram inúmeras transformações para o mundo – principalmente no continente 
europeu. Assim, a Primeira Guerra deixou, sobretudo na Europa, implicações 
sociais, políticas, econômicas, geográficas, tecnológicas e culturais. 
Durante a guerra, o Império Russo foi palco da primeira revolução 
socialista da história. Este acontecimento é crucial para compreender o século 
XX, pois boa parte dos eventos ocorridos adiante estão diretamente ou 
indiretamente relacionados com a Revolução Russa e implementação do 
socialismo. 
Já o Império da Áustria-Hungria foi desfeito e se transformou em vários 
países, assim como também o Império Otomano. Diversas colônias que 
pertenciam aos perdedores foram incorporadas pelos vitoriosos. Desse modo, a 
geografia da Europa no pós-guerra se modificou completamente. 
Os alemães, considerados os grandes responsáveis pela guerra segundo 
o Tratado de Versalhes em 1919, foram severamente punidos. Essas punições 
ajudam, em parte, a explicar o êxito da ascensão do governo nazista, bem como 
se apresentam como um dos fatores que impactaram na ocorrência da Segunda 
Guerra Mundial, como veremos mais adiante. 
 Cabe ainda salientar que, ao final da Primeira Guerra, incorporado ao 
Tratado de Versalhes foi criada a Liga das Nações, com sede em Genebra, na 
Suíça. Tratou-se de uma organização internacional composta por vários Estados 
soberanos, cujo objetivo principal era, por meio da cooperação mútua, assegurar 
a paz, para que conflitos como a Primeira Guerra não voltassem a ocorrer. 
Entretanto, com a eclosão da Segunda Guerra em 1939, esta organização 
praticamente deixou de funcionar, sendo extinta oficialmente em 1946. 
Os Estados Unidos, que até 1917 estavam neutros no conflito, tiveram 
uma importante participação na vitória da Tríplice Entente e no final da guerra se 
 
 
17 
afirmaram como uma das maiores potências, considerado por muitos como os 
“donos do mundo”, desse modo, o “velho mundo” perdeu sua centralidade e 
protagonismo. 
Devido a sua rápida industrialização no final do século XIX, o que 
acarretou numa aceleração econômica, os Estados Unidos ofereceram 
empréstimos para os países envolvidos no conflito, sobretudo para Tríplice 
Entente para reconstruir financeiramente seus países. 
 Com o final da guerra, as ideias liberais sofreram muitas críticas e, nesse 
cenário, as ideologias autoritárias começaram a se fortalecer. Portanto, é visível 
que a reorganização pós-guerra não sanou todos os conflitos que haviam 
originado a guerra. Mais que isso, estes conflitos foram somados a outros novos, 
resultantes da própria guerra. Desse modo, a reconstrução do mundo pós-guerra 
se transformou, na verdade, em um descanso temporário, uma espécie de 
intervalo entre atos, onde os atores estavam apenas descansando e se 
preparando para a segunda parte do espetáculo, ou seja, a Segunda Grande 
Guerra. 
NA PRÁTICA 
Como vimos, uma série de fatores acabaram fazendo com que o mundo 
entrasse em um grande conflito mundial. No início dessa discussão, afirmamos 
que os liberalismos (que criam o cenário para o desenvolvimento do capitalismo) 
foram essenciais no período. Apoiando-se no que você já estudou, faça uma 
dissertação (entre 20-30 linhas) sobre o tema, relacionando o desenvolvimento 
do capitalismo com os liberalismos e a Primeira Grande Guerra Mundial. 
FINALIZANDO 
As revoluções burguesas (Inglesa e Francesa), somadas especialmente 
com a Revolução Industrial, serviram para consolidar o capital. A partir daí, 
encontrou-se em vigor uma nova maneira de produção. Desse modo, os paíseseuropeus precisavam de matérias-primas e novos mercados, o que resultou no 
Imperialismo. 
 O Imperialismo e as tensões pré-existente na Europa resultaram na 
Primeira Guerra Mundial, que foi marcada, sobretudo, pela guerra de trincheiras. 
Este conflito mostrou que o progresso nem sempre conduz à felicidade, pois, 
 
 
18 
neste caso, o desenvolvimento tecnológico foi utilizado para exterminar seres 
humanos em menos tempo. 
 Durante a Primeira Guerra, ocorreu a Revolução Russa, instaurando o 
primeiro governo socialista da história. Era o início de uma disputa que vai 
permear quase todo o século XX, o capitalismo versus o socialismo. 
 Atualmente, os Estados Unidos são uma das maiores potências mundiais 
e esse título nasceu ao final da Primeira Guerra, quando os norte-americanos 
emprestaram dinheiro aos países europeus e se tornaram aos maiores 
exportadores de mercadorias. 
 Todavia, a Primeira Guerra não se encerrou definitivamente com o 
armistício, pois seu resultado final foi mais uma espécie de entreatos que uma 
finalização efetiva. Os acordos não satisfizeram a todos e um certo ar de 
revanchismo permanecia fortemente. 
 
 
 
19 
REFERÊNCIAS 
BEAUD, M. História do Capitalismo de 1500 até nossos dias. Editora 
brasiliense, 1987. 
BOBBIO, N. Liberalismo e democracia. São Paulo: Brasiliense, 2000. 
BRUE, Stanley. História do Pensamento Econômico. SP: Thonson Learning, 
2006. 
CARVALHO, D. G. O que é o liberalismo? O que significa ser liberal? (Artigo). 
Café História – história feita com cliques. Disponível 
em: . Acesso em: 5 set. 2022. 
FERGUSON, N. O Horror da Guerra: uma provocativa análise da Primeira 
Guerra Mundial. São Paulo: Editora Planeta, 2014. 
FERRO, M. A Grande Guerra – 1914- 1918. Lisboa: Edições 70, 2008. 
HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914- 1991. São Paulo: 
Companhia das Letras, 1995. 
HOBSBAWM, E. Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e 
realidade. São Paulo: Paz e terra, 1990. 
LOSURDO, D. Contra-história do liberalismo. Aparecida: Idéias & Letras, 2006. 
MAGNOLI, D. (Org.). História das guerras. São Paulo: Contexto, 2006. 
SONDHAUS, L. A Primeira Guerra Mundial: história completa. São Paulo: 
Contexto, 2013. 
MARCONDES, D. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a 
Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. 
PIGEARD, A. Memórias do Front. Revista História Viva: grandes temas, n. 24, 
2008. 
SEGRILLO, A. Historiografia da Revolução Russa: antigas e novas 
abordagens. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados 
de História, [S.l.], v. 41, p. 63-92, 2010. Disponível em: 
http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/6535/4734. Acesso em: 21 
ago. 2022. 
 
 
20 
_____. Historiografia da Revolução Russa: antigas e novas abordagens. Projeto 
História, n. 4. 
SONDHAUS, L. A Primeira Guerra Mundial: história completa. São Paulo: 
Contexto, 2013. 
TRAGTENBERG, M. A Revolução Russa. São Paulo: Unesp, 2007.

Mais conteúdos dessa disciplina