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Epidemiologia Professora Amanda Louise Bruzamolin EduFatecie E D I T O R A Reitor Prof. Ms. Gilmar de Oliveira Diretor de Ensino Prof. Ms. Daniel de Lima Diretor Financeiro Prof. Eduardo Luiz Campano Santini Diretor Administrativo Prof. Ms. Renato Valença Correia Secretário Acadêmico Tiago Pereira da Silva Coord. de Ensino, Pesquisa e Extensão - CONPEX Prof. Dr. Hudson Sérgio de Souza Coordenação Adjunta de Ensino Prof.ª Dra. Nelma Sgarbosa Roman de Araújo Coordenação Adjunta de Pesquisa Prof. Dr. Flávio Ricardo Guilherme Coordenação Adjunta de Extensão Prof. Esp. Heider Jeferson Gonçalves Coordenador NEAD - Núcleo de Educação a Distância Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal Web Designer Thiago Azenha Revisão Textual Kauê Berto Projeto Gráfico, Design e Diagramação Thassiane Silva Jacinto UNIFATECIE Unidade 1 Rua Getúlio Vargas, 333, Centro, Paranavaí-PR (44) 3045 9898 UNIFATECIE Unidade 2 Rua Candido Berthier Fortes, 2177, Centro Paranavaí-PR (44) 3045 9898 UNIFATECIE Unidade 3 Rua Pernambuco, 1.169, Centro, Paranavaí-PR (44) 3045 9898 UNIFATECIE Unidade 4 BR-376 , km 102, Saída para Nova Londrina Paranavaí-PR (44) 3045 9898 www.unifatecie.edu.br/site/ As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir do site ShutterStock https://orcid.org/0000-0001-5409-4194 2021 by Editora EduFatecie Copyright do Texto © 2021 Os autores Copyright © Edição 2021 Editora EduFatecie O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora EduFatecie. Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. EQUIPE EXECUTIVA Editora-Chefe Prof.ª Dra. Denise Kloeckner Sbardeloto Editor-Adjunto Prof. Dr. Flávio Ricardo Guilherme Assessoria Jurídica Prof.ª Dra. Letícia Baptista Rosa Ficha Catalográfica Tatiane Viturino de Oliveira Zineide Pereira dos Santos Revisão Ortográ- fica e Gramatical Prof.ª Esp. Bruna Tavares Fernades Secretária Geovana Agostinho Daminelli Setor Técnico Fernando dos Santos Barbosa Projeto Gráfico, Design e Diagramação André Dudatt www.unifatecie.edu.br/ editora-edufatecie edufatecie@fatecie.edu.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP B914e Bruzamolin, Amanda Louise Epidemiologia / Amanda Louise Bruzamolin. Paranavaí: EduFatecie, 2021. 125 p. : il. Color. ISBN 978-65-87911-23-6 1. Epidemiologia. 2. Saúde pública. 3. Política de saúde. 4. Promoção da saúde. 5. Vigilância sanitária I. Faculdade de Tecnologia e Ciências do Norte do Paraná - UniFatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título. CDD : 23 ed. 614.4 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 https://doi.org/10.33872/edufatecie.formsociocultural.2019 AUTORA Professora Amanda Louise Bruzamolin • Mestranda do Programa de Mestrado em Produção Sustentável e Saúde Animal da Universidade Estadual de Maringá (UEM). • Pós-graduada em Vigilância Sanitária pelo Centro Universitário Internacional Uninter. • Formada em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário Cesumar - Unice- sumar. • Integrou o grupo de pesquisa Conhecimento, Educação, tecnologia e intercultu- ralidade do Programa de Mestrado Stricto Sensu em Gestão do Conhecimento nas Organizações - Unicesumar. Link para a Plataforma Lattes - http://lattes.cnpq.br/9213981978322149 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Seja muito bem-vindo(a)! Prezado(a) aluno(a), fico muito contente de ter você aqui cursando esta disciplina tão importante para a sua formação profissional. Serei sua guia dentro dos conhecimentos sobre a Epidemiologia e todos os temas e legislações que ela abrange em nosso território. Iremos iniciar nossa viagem neste tema pela Unidade I, na qual iremos compreen- der os conceitos básicos da epidemiologia, sua perspectiva histórica, as mudanças em sua definição ao longo do tempo, os métodos epidemiológicos, os conceitos de saúde-doença e as políticas de saúde no Brasil, abordando a história da saúde em nosso país, a estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) e a reforma sanitária. Com todos esses conceitos bem definidos, partiremos para a Unidade II, na qual vamos compreender as medidas de saúde coletiva (com todos seus índices e coeficientes), as medidas de frequência em saúde coletiva e os diversos indicadores de saúde, como, por exemplo, os índices de mortalidade, morbidade, nutricionais e assim por diante. Já na Unidade III seguiremos nossa jornada abordando dois temas muito atuais e relevantes que são os Sistemas de Informação em saúde, que envolvem a tecnologia em Saúde abordando as fontes de informações e dados e os Programas Especiais em Saúde que irá apresentar tanto os programas especiais do Ministério da Saúde, quanto os programas das Secretarias da Saúde Estadual e os programas locais. Para concluir nossa viagem, na Unidade IV iremos tratar dos Modelos de Vigilância em Saúde trazendo seus conceitos, objetivos e diretrizes e explanaremos sobre as principais áreas do modelo de vigilância em saúde, que incluem a Vigilância Epidemiológica, a Vigi- lância Sanitária, a Vigilância Ambiental e, por último, a Vigilância em saúde do trabalhador. Será uma jornada de muito aprendizado, que pretende lhe ajudar na construção do seu conhecimento sobre o tema. Espero colaborar com seu crescimento pessoal e profissional. Muito obrigada e bom estudo! SUMÁRIO UNIDADE I ...................................................................................................... 6 Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil UNIDADE II ................................................................................................... 40 Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde UNIDADE III .................................................................................................. 67 Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde UNIDADE IV .................................................................................................. 96 Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde 6 Plano de Estudo: ● Conceitos Básicos e usos de Epidemiologia ● Perspectiva Histórica ● Métodos epidemiológicos ● Conceito de Saúde-Doença ● Políticas de saúde no Brasil: História da saúde no Brasil; Sistema Único de Saúde e Reforma sanitária. Objetivos da Aprendizagem : ● Conceituar Epidemiologia e seus usos ● Contextualizar a Epidemiologia e suas definições ao longo do tempo ● Compreender os métodos epidemiológicos ● Conceituar e diferenciar Saúde e Doença ● Estabelecer a importância das Políticas de Saúde no Brasil UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Professora Amanda Louise Bruzamolin 7UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a). Iniciaremos aqui nossa caminhada através dos conhecimen- tos da disciplina de Epidemiologia. Veremos nesta unidade que a epidemiologia é uma das ferramentas científicas mais importantes para todos os profissionais da área da saúde, principalmente para os pesquisadores que utilizam dessa ciência para compreender o avanço de novas enfermi- dades, com o intuito de desenvolver estudos que irão dar fundamento a novos tratamentos, estratégias de imunização e de combate a doenças, entre outros. Iremos inicialmente conceituar a epidemiologia e definir quais seus principais empregos. Em seguida, vamos contextualizá-la ao longo da linha do tempo, desde o seu surgimento, para que possamos compreender como esse estudo começou, qual foi sua evolução e podermos comparar com sua utilização atualmente. Outro aprendizado fundamental desta unidade será a compreensão dos métodos epidemiológicos, com o intuito de apresentar as vantagensescrevemos neste mesmo espaço que a epidemiologia era uma das ciências que mais crescia no Brasil. Isto ocorria tanto nas escolas médicas quanto nos serviços de saúde. Não deu outra. A epidemiologia capilarizou-se. Adentrou, com força, em inúmeros cursos de graduação e cresceu vertiginosamente nos serviços de saúde. É neste cenário que chega a segunda edição do livro Epidemiologia Básica. O seu objetivo continua sendo o mesmo: ensinar princípios básicos de epidemiologia ao seu usuário, a fim de capacitá-lo a descrever eventos relacionados ao processo saúde-doença e a responder questões específicas sobre causalidade, história natural, prognóstico, prevenção e tratamento, com o objetivo de prevenir a ocorrência de doenças. Para tanto, aprofundou-se em alguns temas como meio ambiente e avaliação de serviços e aperfeiçoou os Capítulos 6 e 7, que passaram a incluir, também, as doenças crônicas não transmissíveis e a vigilância epidemiológica, respec- tivamente. A linguagem permanece a mesma, clara e concisa, e os exemplos simples, práticos e provenientes dos mais diferentes países e continentes. Isto reflete a dimensão internacional deste livro, o que muito raramente se encontra neste tipo de publicação. Embora haja ainda um longo caminho a percorrer, visto que o objetivo da epidemiologia é melhorar o estado de saúde das po- pulações, tem se observado que esta ciência vem ajudando cada vez mais a formar profissionais mais completos, capazes de ver o coletivo em detrimento ao individual e de pôr a evidência científica acima da experiência pessoal. Esta nova tradução pretende ofere- cer a todos os países de língua portuguesa, sobretudo ao Brasil, a oportunidade de evoluir nesta caminhada, de fazer a epidemiologia acontecer, de fato, através da implementação de programas com alta resolutividade, com baixo custo e com melhores indicadores de saúde e bem-estar das populações. 39UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil FILME/VÍDEO Título: Epidemia Ano: 1995 Sinopse: Sam Daniels (Dustin Hoffman) é coronel-médico do exér- cito americano, além de ser o chefe do departamento de pesquisas epidemiológicas. Ele investiga uma nova doença contagiosa, que mata em pouquíssimo tempo e já dizimou um acampamento militar na África. Em virtude de um macaco ter sido levado de forma clan- destina para os Estados Unidos, uma população de uma pequena cidade americana começa a apresentar os mesmos sintomas da doença, porém o contágio se desencadeia muito mais rapidamente, assim, o exército coloca a cidade sob quarentena. Mas quando o cientista do exército tenta ajudar a população é inexplicavelmente afastado do caso. 40 Plano de Estudo: ● Medida de saúde coletiva ● Medidas de frequência em saúde ● Indicadores de saúde: Conceitos, características e critérios ● Indicadores de saúde: Mortalidade; Morbidade; Nutricionais; Demográficos; Ambien tais; Sociais ● Indicadores de serviços de saúde Objetivos da Aprendizagem: ● Conceituar Medidas de Saúde Coletiva ● Diferenciar as Medidas de frequência em saúde ● Conceituar e caracterizar os indicadores de saúde ● Compreender os indicadores de saúde mais utilizados ● Entender o que são os indicadores de serviços de saúde e os tipos de recursos UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde Professora Amanda Louise Bruzamolin 41UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a). Agora que já compreendemos a base da epidemiologia e suas ferramentas, pode- mos aprofundar nossos estudos, abrangendo conceitos mais intrínsecos do assunto. Começaremos esta unidade conceituando as Medidas de Saúde Coletiva e quais tipos de medida podemos utilizar, diferenciando os índices dos indicadores e os coeficientes das taxas. Em seguida, iremos conhecer as duas medidas mais utilizadas para analisar a frequência em saúde: a incidência, que apresenta a periodicidade de ocorrência de novos casos em um determinado período e a prevalência, que evidencia a quantidade de casos acumulados até um determinado período. Ambas têm a capacidade de medir quaisquer eventos relacionados à saúde. No terceiro tópico veremos o que são os tão falados indicadores de saúde, para que possamos compreender sua importância nos estudos relacionados à essa área e qual sua influência nas mudanças necessárias dentro do sistema ao longo do tempo. Depois de compreender o que são os indicadores, estudaremos quais são os indi- cadores de saúde mais utilizados na epidemiologia, abordando também sua relevância e como são calculados. Além de diversos exemplos de usos que vemos e ouvimos no nosso dia a dia, sem ao menos sabermos que se tratam de indicadores tão importantes. Por fim, iremos abordar os indicadores utilizados para analisar não mais a saúde em si, mas sim os serviços de saúde que temos a nossa disposição diariamente, oferecidos e mantidos pelos governos municipais, estaduais e federal. Esta unidade esclarece diversos conceitos que vemos e ouvimos diariamente ao ler um jornal, ligar a televisão nas notícias e até ao utilizarmos as redes sociais. Esses termos são essenciais para o estudo da epidemiologia e aqui iremos esclarecê-los um a um, juntos. Vamos lá? 42UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde 1. MEDIDAS DE SAÚDE COLETIVA A expressão “saúde coletiva”, que faz parte do termo “Medida de Saúde Coletiva”, apresenta dupla interpretação: a primeira, apresenta as medidas de saúde e de vida de uma população que são tomadas de forma coletiva e a segunda identifica a classe de profissionais que trabalham e fazem a saúde coletiva acontecer (ROUQUAYROL; SILVA, 2018). De acordo com Rouquayrol e Silva (2018, p. 28), “[...] entende-se que a categoria de saúde coletiva se utiliza das medidas de saúde coletiva para planejar intervenções es- truturais na saúde para promoção da vida [...]”. A epidemiologia, utilizando-se da ciência estatística, com o passar dos anos, tem contribuído cada dia mais para a definição de padrões e parâmetros numéricos relativos à saúde de uma população. Sendo assim, podemos considerar que as Medidas de Saúde Coletiva são parâmetros utilizados pelos profissionais da saúde coletiva para avaliar, pla- nejar e gerir os eventos relacionados com o processo saúde-doença, pois essas medidas conseguem detalhar a situação epidemiológica de uma população. 43UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde REFLITA “Os indicadores básicos de desenvolvimento humano assumem importância fundamen- tal em toda análise da situação de saúde, pois documentam as condições de vida da população e dimensionam o espaço social em que ocorrem as mudanças no estado de saúde” Fonte: Opas (1998, apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 25). Para facilitar nossa compreensão, veremos agora os tipos de medidas em saúde. Primeiramente veremos os índices, que se referem a todos os descritores relacio- nados a vida e a saúde. Nele são inclusos [...] todos os termos numéricos que trazem a noção de grandezas existentes e incidentes. Os índices absolutos são o resultado de medidas básicas, esti- mativas e projeções sobre a vida e a saúde, quantificando variáveis de duas categorias, ocorrências e prevalências [...] (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 29). Os índices mais utilizados representam três tipos de eventos, os nascimentos, as doenças e os óbitos. O segundo tipo de medida são os indicadores, que são um modelo de índice sele- cionado “para alertar qual o momento, a hora, o tempo e o lugar para que se desencadeie uma ação; ou seja, o indicador é o índice crítico capaz de orientar a tomada de decisão em prol das evidências ou providências” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 29). A diferença entre o índice e o indicador é que o índice auxilia na descrição e o indicador ampara a tomada de decisão para uma ação. O próximo tipo de medida são os coeficientes, que são utilizados para indicar as medidas que detalham o fenômenoanalisado. Aplica-se para medidas secundárias que, ao serem geradas pelo quociente entre medidas primárias de variáveis independentes, deixam de sofrer in- fluência dessas variáveis (por exemplo, número de habitantes) para expres- sar somente a intensidade dos riscos de ocorrência, que nesta forma será eficiente para comparar a intensidade dos riscos em mais de uma situação – por isso o termo coeficiente (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 29). O último tipo de medida em saúde são as taxas, que são utilizadas para indicar “as medidas auxiliares nos cálculos de estimativas e projeções de fenômenos dos quais não 44UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde se têm registros confiáveis [...] A taxa é o valor observado quando utilizado para estimar ou projetar um valor esperado” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 29). Podemos comparar os coeficientes e as taxas, observando que os coeficientes caracterizam o fenômeno observado, enquanto as taxas auxiliam no cálculo do fenômeno esperado. Para que possamos calcular a frequência com que os problemas de saúde acome- tem uma população, são utilizadas duas medidas de frequência em saúde, a incidência e a prevalência, que serão apresentadas no próximo item. 45UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde 2. MEDIDAS DE FREQUÊNCIA EM SAÚDE As medidas de frequência em saúde são duas, a incidência e a prevalência, elas podem ser utilizadas para mensurar quaisquer eventos relativos à saúde. No geral, a incidência demonstra a frequência com que ocorrem novos casos em um período determinado e a prevalência expõe o número de casos acumulados até um período específico. Essas medidas, imprescindivelmente, devem utilizar as dimensões de tempo, es- paço e população. A seguir veremos essas duas medidas de forma detalhada. 2.1. Incidência A dinâmica com que os casos aparecem em uma determinada população é conhe- cida como incidência. Ou seja, a “ocorrência de novos casos relacionados à unidade de intervalo de tempo, seja ele dia, semana, mês ou ano” (MARTINS, 2018, p. 175). Os novos casos ou incidentes podem ser compreendidos como aqueles indi- víduos não doentes no início do período de observação (sob-risco/susceptí- vel) e que adoeceram durante o período observado. Portanto, para se definir a incidência de uma doença com acurácia, é necessário acompanhar a popu- lação em observação (GOMES, 2015, p. 29). É possível afirmar que um mesmo indivíduo pode ser afetado mais de uma vez por uma mesma doença durante o período observado. Esse fenômeno é chamado de incidên- 46UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde cia total (COSTA; KALE, 2009 apud GOMES, 2015). Tal medida é amplamente empregada para se calcular a ocorrência de doenças agudas, infecciosas ou não. Algumas formas, bastante utilizadas, de apresentar a incidência, são, por exemplo, expressões como: “foram registrados 10 novos casos por dia” ou “1800 novos casos por ano”. Essas expressões demonstram a intensidade de surgimento de novos casos em uma determinada população em um determinado período. De acordo com Martins (2018), para calcular a taxa de incidência, precisamos identificar o número de casos novos de uma doença em determinada comunidade em certo período e dividir esse valor pelo número de pessoas expostas ao risco de adquirir a doença no referido período. Por fim, multiplica-se este resultado por uma potência de 10 (tomada como base referencial da população). O cálculo utilizado para a taxa de incidência está presente no Quadro 1. Quadro 1 - Cálculo da Taxa de Incidência Fonte: Gomes (2015, p. 29). É utilizada no cálculo uma constante de base 10 (10n), que, além de simplificar a compreensão do resultado, permite que os dados se tornem comparáveis quando tratarmos de populações com tamanhos variados. Dentre todas as medidas utilizadas na epidemiologia, a incidência é considerada a mais importante, pois na grande maioria dos formatos de investigações científicas, ela é a primeira escolha dos pesquisadores. 2.2. Prevalência A prevalência na epidemiologia representa a potência com que as doenças subsis- tem na coletividade. Sendo assim, é considerado um indicador de morbidade. Já a taxa de prevalência “indica uma medida que permite estimar e comparar, no tempo e no espaço, a 47UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde ocorrência de determinada doença em relação a variáveis referentes à população, como idade ou grupo etário, gênero, ocupação, etnia, entre outras” (MARTINS, 2018, p. 173). Desta forma, a prevalência retrata o acúmulo de casos, isto é, a parcela da popula- ção que apresenta a doença estudada. O valor da prevalência eleva quando surgem novos casos e reduz conforme os casos existentes evoluem para cura ou óbito. De acordo com Gomes (2015), a medida da prevalência pode ser dada de duas formas: • A prevalência pontual – que é medida em um dado instante específico do tempo. Exemplo: medida dos casos de determinada enfermidade no primeiro dia do mês. • A prevalência de período – que é medida em um dado período. Exemplo: medida dos casos de uma doença durante um mês. É importante destacar que a medida de prevalência considera apenas um evento de determinada doença por indivíduo, mesmo que este passe pela enfermidade mais de uma vez no período medido. A única exceção é caso ele esteja apresentando a enfermidade em mais de uma vez quando estiver sendo calculada a prevalência pontual. O cálculo da taxa de prevalência é feito dividindo o número de casos conhecidos em determinado período, pela população total no mesmo período e depois multiplica-se este valor pela base referencial da população (normalmente utiliza-se como potência de 10) (MARTINS, 2018). Observe o modelo de cálculo no Quadro 2. Quadro 2 - Cálculo da Taxa de Prevalência Fonte: Gomes (2015, p. 32). Conforme Rouquayrol e Almeida Filho (2003) e Costa e Kale (2009, apud GOMES, 2015), a prevalência pode ser influenciada positiva e negativamente por alguns fatores, conforme o Quadro 3. 48UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde Quadro 3 - Fatores que influenciam a prevalência Fonte: Rouquayrol e Almeida Filho (2003) e Costa e Kale (2009, apud GOMES, 2015, p. 32). Segundo Gomes (2015), é importante destacar que a prevalência é a medida mais apropriada para análise de doenças de longa duração ou crônicas. Ela pode ser amplamen- te utilizada também para o delineamento de ações e serviços de saúde, além de previsão de recursos humanos, diagnósticos e terapêuticos. SAIBA MAIS A medida da prevalência e da incidência envolve, basicamente, a contagem de casos em uma população em risco. A simples quantificação do número de casos de uma doen- ça, sem fazer referência à população em risco, pode ser utilizada para dar uma ideia da magnitude do problema de saúde ou da sua tendência, em curto prazo, em uma popu- lação como, por exemplo, durante uma epidemia. O Boletim Epidemiológico Semanal da OMS contém dados de incidência na forma de número de casos, os quais, apesar de apresentados na forma bruta, podem fornecer informações úteis sobre o desenvolvi- mento de epidemias de doenças transmissíveis. Fonte: Bonita, Beaglehole e Kjellström (2010, p. 18). 49UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde 3. INDICADORES DE SAÚDE: CONCEITOS, CARACTERÍSTICAS E CRITÉRIOS Diversos dados são gerados diariamente pelo setor de saúde, por meio dos sistemas de informações nacionais do Ministério de Saúde, como: o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM); o Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC); o Sistema de Informação sobre Agravos de Notificação (SINAN); o Sistema de Informações Ambula- toriais do Sistema Único de Saúde (SIA/SUS) e o Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS). É possível também ter acesso a outros dados mais específicos, que não têm abrangência nacional, comoo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB), o Sistema de Informação sobre Acidentes de Trabalho (SISCAT) e o Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI) (SOARES; ANDRADE; CAMPOS, 2001). Para que possamos utilizar esses dados, precisamos transformá-los em indicado- res que servirão para compará-los com os dados de diferentes locais ou tempos. De acordo com Vaughan e Morrow (1992, apud SOARES; ANDRADE; CAMPOS, 2001, p. 191), “a construção de indicadores de saúde é necessária para: analisar a situação atual de saúde; fazer comparações; avaliar mudanças ao longo do tempo”. Segundo Martins (2018, p. 126), Indicador de saúde se refere às medidas que sintetizam informações sobre características da situação de saúde, bem como aponta a efetividade do sis- tema de saúde. Quando associados, os indicadores apontam as condições sanitárias da população estudada e auxiliam na vigilância da qualidade da saúde. Assim, os indicadores constituem uma via de avaliação da condição de saúde atual; permitem avaliar a evolução da saúde das populações ao longo do tempo e traçar diversos comparativos. 50UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde De acordo com Pereira (2018, p. 49), por informarem a situação existente, os indicadores de saúde “permitem comparações individuais ou populacionais, de modo a subsidiar a tomada de decisões racionais, bem fundamentadas, sobre ações a recomendar ou a aplicar de imediato”. Além do mais, eles também possuem um viés prognóstico, “pois permitem presumir o que é provável de suceder no futuro — e mesmo constatar as mudan- ças que realmente acontecem com o passar do tempo”. Podemos considerar que os indicadores são valores que podem ser utilizados para analisar a situação de uma população com relação à saúde. “Existem indicadores positi- vos, negativos e neutros. Em saúde se trabalha mais com indicadores negativos, como morbidade e mortalidade, mas há também indicadores positivos, que medem qualidade de vida, bem-estar etc.” (MATHIAS, 2014, p. 59). Temos que lembrar que podem existir também indicadores que não se encaixam nesse tipo de classificação, mas que podem estar associados. Algumas das principais modalidades de indicadores na área da saúde são: Morta- lidade; Morbidade; Nutrição; Aspectos demográficos; Condições socioeconômicas; Saúde ambiental. Os quais veremos com mais detalhes no próximo item. Em suma, os indicadores são instrumentos de medida que avaliam situações re- lacionadas com a saúde de uma população e que dão subsídio para o planejamento, o desenvolvimento, a coordenação e a avaliação das ações e serviços de saúde (GOMES, 2015). Porém, para que eles possam ser corretamente utilizados, eles devem atender a alguns critérios. De acordo com Gomes (2015), Pereira (2018) e Martins (2018), cinco são os crité- rios analisados em relação aos indicadores. O primeiro critério é a Validade dos dados, “que indica quão apropriada a escolha do indicador é, por sua capacidade de demarcar a condição, enfermidade ou evento que é objeto de estudo” (MARTINS, 2018, p. 129). Quanto maior o grau de validade, mais adequado é o indicador para medir o fenômeno considerado (PEREIRA, 2018). O segundo critério é a Confiabilidade, que também pode ser chamado de repro- dutibilidade ou fidedignidade, o qual apresenta o potencial da medida de um indicador, de apontar resultados próximos, mesmo que repetida diversas vezes. Quando a mensuração é repetida e apresenta resultados semelhantes, quer dizer que o indicador possui alto grau de confiabilidade, porém, mesmo assim, ele “[...] só tem utilidade se for também de “alta validade”. Estas duas questões metodológicas, validade e confiabilidade, têm de ser adequadamente resolvidas para que o indicador reflita, com pro- 51UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde priedade, a característica objeto da mensuração.” Já um indicador de “baixa confiabilidade” não possui utilidade prática (PEREIRA, 2018, p. 51). Outro critério muito importante é a representatividade, também chamada de “co- bertura”, que, como o próprio nome já diz, mostra o quão representativo é um indicador. Por exemplo, no caso de um indicador sanitário, quanto maior cobertura populacional ele alcançar (representatividade), mais apropriado ele será (PEREIRA, 2018). De acordo com Pereira (2018, p. 51): Quando o indicador provém de um sistema de amostragem, a sua represen- tatividade é garantida pela utilização de um processo adequado de seleção de unidades componentes da amostra e por um trabalho de campo que al- cance todas, ou quase todas, as unidades que foram selecionadas. Concluímos então que quanto maior for o grau de representatividade, mais apro- priado é o indicador. O quarto critério analisado é em relação à ética. Segundo Martins (2018, p. 129), esse critério se “refere à necessidade de proteger os indivíduos integrantes dos estudos de forma que a coleta de informações não resulte em qualquer tipo de prejuízo ou exposição de dados pessoais”. E, por fim, o último critério avaliado é em relação ao ângulo técnico-administra- tivo. “Do ponto de vista técnico-administrativo, o emprego de indicadores exige conside- ração detalhada de outras características, como simplicidade, flexibilidade, facilidade de obtenção, custo operacional compatível e oportunidade” (PEREIRA, 2018, p. 51). Ainda de acordo com o autor, essas características não devem obrigatoriamente estar presentes nos indicadores para trabalhos de pesquisas, mas são indispensáveis para o funcionamento dos serviços habituais, pois, nesses casos, a aquisição dos dados não deve causar pertur- bações aos profissionais envolvidos, pois isso poderia acarretar a limitação da colaboração destes, o que causaria redução da confiabilidade e da cobertura dos dados coletados. Outra questão relacionada com a visão técnica-administrativa, segundo Pereira (2018), é em relação à criação de um banco de dados informatizado de fácil manipulação e que contenha informações válidas, confiáveis e abrangentes, para que possa gerar indica- dores atuais e comparáveis, de modo a melhor atender os objetivos da população. No Quadro 4, podemos observar um resumo simples dos cinco critérios de avalia- ção utilizados para analisar os Indicadores de Saúde. 52UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde Quadro 4 - Critérios de avaliação de Indicadores de saúde Fonte: Pereira (2013, apud GOMES, 2015). SAIBA MAIS No livro Rouquayrol: epidemiologia & saúde, de Rouquayrol e Silva, você pode encon- trar os 20 Coeficientes e índices mais utilizados em Saúde Pública, com seus respecti- vos cálculos. Fonte: ROUQUAYROL, M. Z.; SILVA, M. G. C. da. Rouquayrol: epidemiologia & saúde. 8. ed. Rio de Ja- neiro: Medbook, 2018. 53UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde 4. INDICADORES DE SAÚDE: MORTALIDADE; MORBIDADE; NUTRICIONAIS; DEMOGRÁFICOS; AMBIENTAIS; SOCIAIS Agora que já sabemos o que são os indicadores de saúde e como funcionam, vamos dar uma olhada nos principais indicadores utilizados no estudo da epidemiologia. 4.1. Mortalidade Historicamente, o indicador de mortalidade tem sido utilizado a mais de um século, e, até hoje, é o mais utilizado dos indicadores de saúde coletiva (GOMES, 2015). Esse fato pode ser justificado, de acordo com Gomes (2015) e Pereira (2018), pelas facilidades operacionais, pois ao contrário das doenças, a morte é definitiva e cada óbito deve obriga- toriamente ser registrado. Esse registro obrigatório vem a formar uma espécie de “base de dados” a qual é organizada pelos Serviços de Saúde do Estado, que realizam a notificação e avaliação da causa da morte. A mortalidade refere-se, segundo Martins (2018, p. 181): “[...] ao número de óbitos que ocorreram em determinada população, em determinado período de tempo. Os indica- dores de mortalidade, podemser calculados como a razão entre frequências absolutas de óbitos e números de sujeitos expostos ao risco de morrer”. Conforme Pereira (2018), existem algumas limitações com relação ao uso da mor- talidade como indicador de saúde. A primeira limitação é que esse indicador apresenta uma história incompleta da doença, pois o óbito é o último acontecimento dentro do processo 54UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde saúde-doença, não conseguindo exprimir, por exemplo, fatores determinantes da enfermi- dade. Outra limitação é com relação às enfermidades que raramente resultam em morte (por exemplo, enfermidades de natureza dermatológica), pois estas não têm representação nas estatísticas de mortalidade. Uma limitação importante da taxa de mortalidade, é que ela apresenta pouca amplitude, tornando-se inadequada para estudos de curto prazo. Sendo assim, conclui-se que “em numerosas situações, é necessário empregar outros tipos de indicadores, para substituir ou complementar as informações fornecidas pelas estatísticas de mortalidade” (PEREIRA, 2018, p. 55). De acordo com Martins (2018, p. 182), Os indicadores podem ser estimados em geral, quando todos os indivíduos da população se encontram expostos ao risco de morrer (o que é evidente e incontestável), e, neste caso, o coeficiente de mortalidade geral (CMG), ou podem ser categorizados segundo critérios previamente estabelecidos, como gênero, idade, estado civil, causa e lugar, que são os coeficientes de mortali- dades específicas (CME). O Coeficiente de Mortalidade Geral (CMG), também chamado de Taxa de Morta- lidade Geral (TMG), “[...]é uma medida global da quantidade total de mortes ocorridas em uma população em um período determinado” (FRANCO; PASSOS, 2011, p. 132). Esse indicador é utilizado para comparar a mortalidade geral em diferentes áreas ou na mesma área em diferentes momentos. O serviço de saúde considera que quanto maior o CMG, pior o nível de saúde da referida população. O cálculo para o CMG é feito dividindo o número de mortes em uma determinada área em um determinado período pelo número de residentes na mesma área e período, por fim, este valor é multiplicado por 1000, conforme pode-se observar no Quadro 5. Quadro 5 - Cálculo do CMG Fonte: Galleguillos (2014, p. 59). Porém, só podemos utilizar o Coeficiente de Mortalidade Geral para comparar populações de estrutura etária e área geográfica semelhantes, pois o risco de morte geral é diferente entre as diferentes faixas etárias da população e pode ser diferente também, dependendo da área geográfica. 55UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde Segundo Almeida Filho e Barreto (2011, p. 106): Em áreas onde é maior a natalidade e a proporção de indivíduos jovens, a mortalidade nos primeiros anos de vida pode ser mais elevada e assim in- fluenciará o CMG. Em contrapartida, nas populações com maior proporção de indivíduos idosos, o valor da mortalidade geral sofrerá influência da mor- talidade dos maiores de 50 anos. Além da estrutura etária e da distribuição geográfica, temos que considerar também outros fatores, como, por exemplo: as diferenças entre sexo, raça, condições socioeconômi- cas e assim por diante. Pois esses fatores também podem alterar os perfis de mortalidade e acabar comprometendo as comparações (ALMEIDA FILHO; BARRETO, 2011). Devido a esses fatores, para que possamos evitar a possível influência das carac- terísticas demográficas, é indicada a utilização do Coeficiente de Mortalidade Específica (CME), que, como o próprio nome já indica, mede o risco de morte de uma porção espe- cífica da população, sendo ela dividida por faixa etária, ou qualquer outro fator (GOMES, 2015). Um tipo de CME é o Coeficiente de Mortalidade por Causa (CMC), que mede o CM de determinada causa de óbito. De acordo com Almeida Filho e Barreto (2011, p. 106): Para a taxa de mortalidade específica por causa o cálculo levará em con- sideração a frequência de óbitos por uma causa ou grupo de causas e a população exposta ao risco de óbito por aquela causa. Isto pode significar também que é possível calcular taxas específicas de mortalidade combinan- do-se características da população exposta, por exemplo, como para a taxa específica por causa em uma faixa etária [...] O CME ou CMC é calculado pela razão do número de óbitos que ocorreram por uma causa determinada e a população exposta ao risco de morrer desta causa, este resultado é multiplicado por 100.000, que é a base referencial da população (MARTINS, 2018). Esse cálculo está representado no Quadro 6. Quadro 6 - Cálculo do CMC Fonte: Galleguillos (2014, p. 60). Os coeficientes de mortalidade relacionados com a causa do óbito e os coeficientes de mortalidade relacionados com a faixa etária são os mais utilizados (MATHIAS, 2014). 56UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde Dentre os CME, temos, por exemplo: Coeficiente de Mortalidade Infantil (CMI), Coeficiente de Mortalidade Materna (CMM), Coeficiente de Mortalidade Perinatal, Coefi- ciente de Mortalidade por Doenças Transmissíveis, dentre outras. 4.2. Morbidade Para a investigação de doenças de alta letalidade, os indicadores de Mortalidade, já abordados, são muito úteis, mas as taxas referentes à morbidade são muito mais ade- quadas nos casos de estudos para doenças de baixa letalidade, como doenças mentais e musculoesqueléticas, por exemplo. Os dados de morbidade podem ser muito úteis também para a compreensão de tendências de mortalidade, pois, muitas vezes, as alterações nas taxas de mortalidade são decorrentes de variações nos padrões de morbidade de alguma doença (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010). As estatísticas referentes à morbidade são muito utilizadas na área da saúde, pois revelam a situação das enfermidades na população e possuem múltiplas utilizações. Se- gundo Pereira (2018, p. 55): [...] elas permitem inferir os riscos de adoecer a que as pessoas estão sujei- tas, bem como constituem indicações a serem utilizadas na preparação das investigações dos seus fatores determinantes e na escolha das ações sanea- doras adequadas. As medidas de morbidade, comparadas às de mortalidade, são mais sensíveis para expressar mudanças de curto prazo. Para gerar os indicadores de morbidade, são necessárias fontes de dados con- fiáveis, que podem ser obtidos a partir de registros de rotina, que consistem no registro de procedimentos e situações de saúde, como, por exemplo, os dados de internamento de um paciente, que geralmente são compostos por nome; idade; gênero; local de pro- cedência; local de residência; causas do internamento; sintomas; tratamentos; evolução; procedimento aos quais foi submetido; se teve a cura como desfecho ou não e assim por diante (GOMES, 2015). Os dados gerados nesses registros de rotina são de fácil acesso e possuem baixo custo, mas possuem uma desvantagem relevante com relação a sua qualidade, pois muitas vezes não são coletados ou são coletados de forma incompleta. Outras fontes para dados de Morbidade, de acordo com Bonita, Beaglehole e Kjellström (2010, p. 31), são as admissões e altas hospitalares; os registros de consultas ambulatoriais; os serviços de especialistas e os registros de doenças (como, por exemplo, de câncer). Ainda de acordo com os autores, por conta das limitações relacionadas com os dados de morbidade de coleta rotineira, “muitos estudos epidemiológicos sobre morbidade 57UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde são realizados utilizando-se questionários e métodos especiais de rastreamento. Isso dá mais confiabilidade aos dados coletados e às taxas calculadas”. O cálculo dos indicadores de morbidade é feito de forma genérica através da razão entre o número de casos da doença e a população, que pode ser tanto o número de ha- bitantes do local, quanto o número de sujeitos expostos à doença em uma área e período pré-definidos(ALMEIDA FILHO; BARRETO, 2011). Vide Quadro 7. Quadro 7 - Cálculo do Indicador de Morbidade Fonte: Almeida Filho e Barreto (2011, p. 98). As duas medidas de morbidade utilizadas na epidemiologia são as taxas de pre- valência e incidência, que já estudamos no tópico 2 desta mesma Unidade. Os estudos de prevalência e incidência, de acordo com Almeida Filho e Barreto (2011, p. 98), “[...] são empregados com objetivos diversos, para descrever a situação de saúde da população ou o estado de saúde relativo a determinada doença ou agravo, isto é, a condição de morbidade de uma comunidade”. “Os coeficientes de morbidade permitem realizar diagnóstico em saúde, e a preva- lência e a incidência das doenças demonstram o seu comportamento, se há aumento ou diminuição dos casos” (GALLEGUILLOS, 2014, p. 65). Sendo assim, podemos considerar que estudar os dados relacionados com a morbidade é fundamental para as análises de causa e efeito que determinam o ato de adoecer. 4.3. Nutricionais Os Indicadores Nutricionais são empregues para avaliar as populações com re- lação às condições de saúde e de nutrição. Um exemplo de indicador nutricional seria a proporção de recém-nascidos com baixo peso ao nascer. De acordo com Gomes (2015), grande parte dos dados utilizados para constituir esses indicadores são coletados a partir da rotina da Unidade de Saúde Familiar. Segundo Pereira (2018, p. 59), “Numerosas medidas do estado nutricional das pes- soas são usadas na avaliação das condições de saúde e nutrição de populações.” Essas 58UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde medidas são divididas em duas categorias: a Avaliação Indireta e a Avaliação Direta do Estado Nutricional. Na Avaliação Indireta do Estado Nutricional, os indicadores mais utilizados são de- rivados das estatísticas vitais e se encontram na forma de coeficientes, como, por exemplo: a mortalidade pré-escolar (1 a 4 anos), a mortalidade infantil (de menores de 1 ano) e a mortalidade infantil tardia (28 dias a 11 meses), além também da análise de disponibilidade de alimentos, que é considerada uma medida indireta (PEREIRA, 2018). Juntos, os indicadores indiretos possibilitam a predição do nível provável de nutrição de uma população em termos qualitativos, caracterizando, por exemplo, se os problemas daquela comunidade são de obesidade ou de desnutrição. Esses indicadores contribuem para a seleção dos indicadores diretos mais adequados que podem ser usados para quan- tificar o problema (PEREIRA, 2018). Já na Avaliação Direta do Estado Nutricional, são utilizados geralmente três tipos de análises: as avaliações dietéticas, as clínicas e as laboratoriais. As avaliações dietéticas determinam a natureza e quantidade de alimentos consu- midos pela população estudada. Esses dados são obtidos geralmente por meio de questio- nários ou observação direta e utilizando-os, calcula-se o consumo de nutrientes, baseado nas tabelas de composições de alimentos e os resultados são agrupados em categorias de consumo “adequado” ou “inadequado” (PEREIRA, 2018). As avaliações clínicas, de acordo com Pereira (2018, p. 59), “Visam a detectar sinais e sintomas da presença excessiva ou da deficiência de um ou mais nutrientes no organismo”. Na maioria das vezes, essa análise é feita a partir da medida das dimensões físicas corporais, principalmente peso e altura, mas pode ser utilizada também a medida da prega cutânea e a circunferência do braço. Essas medidas podem ou não ser associadas à idade para definir o estado nutricional do sujeito. Alguns exemplos de indicadores de avaliações clínicas são: a proporção de recém-nascidos com baixo peso ao nascer, a altura do adulto ao entrar no serviço militar, e o índice da massa corporal na população adulta. Ainda de acordo com Pereira (2018), temos as avaliações laboratoriais, a partir das dosagens bioquímicas realizadas com amostras sanguíneas e de urina que tem a intenção de detectar alterações de nutrientes. Método particularmente útil para diagnósticos preco- ces e sem sintomatologia clínica. Para a análise dos indicadores relacionados com a nutrição, faz-se necessária a definição de um padrão de referência para que os resultados possam ser comparados, tendo em vista que, nesse campo de estudo, a “normalidade” pode variar de acordo com 59UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde diversos fatores como idade e estado fisiológico, por exemplo. No caso da avaliação da desnutrição infantil, é recomendado o uso de um padrão internacional que, nos últimos anos, tem sido o NCHS (National Center for Health Statistics). Adotando um padrão, as avaliações tendem a ter melhores resultados (PEREIRA, 2018). 4.4. Demográficos Os indicadores demográficos são fundamentais para a estruturação dos outros indicadores de saúde, pois podem estimar as condições de saúde de uma população. De acordo com Martins (2018), eles estão diretamente relacionados a gênero e faixa etária, por este motivo, essas são as principais variáveis levadas em consideração em uma população. Por exemplo, “Para que se obtenha o indicador de índice de envelhecimento, é considerada a faixa etária da população idosa, e para saber a taxa específica de fecundidade se deve saber o número de filhos por mulher em cada idade, assim por diante” (MARTINS, 2018, p. 229). Alguns exemplos de indicadores demográficos, são: população total; razão de gê- nero; grau de urbanização; taxa de crescimento da população; índice de envelhecimento; taxa bruta de natalidade; esperança de vida ao nascer; mortalidade proporcional por idade, dentre outros (GOMES, 2015; MARTINS, 2018). Segundo Pereira (2018, p. 59), os indicadores de demografia mais relevantes para saúde são a mortalidade e a esperança de vida, mas, “os níveis de fecundidade e de na- talidade, e a composição da população em termos de idade e sexo, têm relações estreitas com a saúde e, por isto, são indicadores valiosos”. Conhecer os aspectos demográficos possibilita a previsão de necessidades e demandas presentes e futuras para uma população, como, por exemplo, a estimativa de necessidades de serviços como consultas e disponibilidade de leitos hospitalares (PEREI- RA, 2018). 4.5. Ambientais Também conhecidos como indicadores sanitários, os indicadores ambientais são diretamente relacionados com o nível socioeconômico de uma população (GOMES, 2015), pois uma perspectiva importante da questão ambiental, é relacionada com a abrangência e qualidade dos serviços de saneamento básico, como o abastecimento de água e o acesso a ligações de esgoto e coleta de lixo. 60UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde “Um indicador muito utilizado é a proporção da população que dispõe de um siste- ma adequado de abastecimento de água, de eliminação de dejetos e de coleta regular de lixo” (PEREIRA, 2018, p. 60). Conforme Pereira (2018), o aumento de circulação de pessoas, devido a industria- lização e urbanização, possui uma grande capacidade de modificar o meio ambiente. Por esse motivo, tem sido crescente a preocupação e cuidado com a utilização de indicadores que possam mensurar a qualidade do ar e da água, por exemplo. O principal intuito de melhorar os indicadores ambientais, é para que tenhamos acesso a dados que possibilitem a vigilância ambiental contínua, facilitando o emprego de medidas saneadoras preventivas e/ou imediatas. 4.6. Sociais Os indicadores sociais ou socioeconômicos possuem relação direta com a saúde, tanto que são utilizados como indicadores sanitários indiretos. Estes são essenciais na compreensão de fatores de risco de alguns tipos de agravos (GOMES, 2015). Podemos citar como exemplos de indicadores sociais, a renda per capita, o produto interno bruto, a distribuição de renda, a taxa de analfabetismo, a proporção de crianças em idade escolar fora de escolas, a escolaridade da população por faixa etária, entre outros(GOMES, 2015; PEREIRA, 2018). Frequentemente, de acordo com Pereira (2018), são propostos novos índices so- cioeconômicos com o intuito de melhorar a discriminação dos dados, pois, por mais que sejam inter-relacionados, muitas vezes os indicadores socioeconômicos discordam entre si por medirem diferentes faces da vida em sociedade. 61UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde 5. INDICADORES DE SERVIÇOS DE SAÚDE Todos os indicadores vistos anteriormente são utilizados para a avaliação do sujeito e da população. Neste item, veremos os indicadores utilizados para apresentar o que ocorre no âmbito da assistência à saúde, abrangendo diversas e diferentes áreas (GOMES, 2015). Estes indicadores podem ser divididos em três grupos principais: os indicadores de insumos, de processo e de resultados, conforme podemos ver no Quadro 8 de forma resumida e logo em seguida mais detalhadamente. Quadro 8 - Indicadores de Serviços de Saúde Fonte: Pereira (2013, apud GOMES, 2015, p. 44). Os indicadores de Insumos do sistema de saúde podem ser divididos em recur- sos humanos, materiais e financeiros. Os recursos humanos e materiais referem-se, por exemplo, ao número de médicos, leitos, ambulatórios, dentre outros que estão disponíveis 62UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde para a população e sua distribuição. Para esses recursos, existem diversos indicadores, como, por exemplo, o número de leitos hospitalares por 1.000 habitantes. Já os recursos financeiros, buscam detalhar quanto e como são gastos os recursos de saúde e como é feita sua distribuição, para que seja possível obter dados relacionados com as prioridades em saúde, de forma a melhorar cada vez mais o investimento nas áreas mais precárias. Segundo Pereira (2018), os indicadores de Processo, como o próprio nome já diz, refletem os detalhes do “caminho” (processo) que é percorrido entre os insumos disponíveis e o resultado. Um bom exemplo desses indicadores é a atenção pré-natal. São exemplos de indicadores de processo as proporções de gestantes que fazem pré-natal, das que têm a primeira consulta no trimestre inicial da gravi- dez e das que alcançam um número mínimo de consultas de rotina, digamos seis, durante a gestação. Todos estes indicadores têm sido empregados para inferir a qualidade da assistência prestada à população. (PEREIRA, 2018, p. 60). Por último, temos os Indicadores de Resultados, também chamados de indicadores de impacto, que servem para que os planejadores e administradores da área possam ana- lisar os benefícios dos investimentos realizados. De acordo com Pereira (2018, p. 61), os indicadores de satisfação dos usuários, “fornecem informações úteis para acompanhar os progressos e redimensionar as atividades”, melhorando cada vez mais a sensibilidade dos indicadores e seus impactos nos serviços de saúde. 63UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde CONSIDERAÇÕES FINAIS Finalizamos mais uma unidade na qual pudemos compreender melhor os diversos conceitos que são vastamente utilizados no estudo da epidemiologia. Conhecemos as definições de índice, que auxilia na descrição e de indicador, que ampara a tomada de decisão para uma ação, podendo facilmente diferenciá-los. E também de coeficientes, os quais caracterizam o fenômeno observado, e de taxas, que auxiliam no cálculo do fenômeno esperado. Em seguida conceituamos, caracterizamos e aprendemos a calcular as medidas de prevalência e incidência, utilizadas para medir a frequência das diferentes ocorrências epidemiológicas. Depois exploramos os indicadores de saúde e pudemos reconhecer o quanto são essenciais na avaliação da situação de saúde e na identificação de problemas, tanto agudos quanto crônicos, que acometem uma população. Concluímos que sem eles não seria possível estabelecer as metas, delinear os objetivos, efetuar ações de saúde e nem calcular o impacto dessas medidas na saúde de uma população. Concluindo esta unidade, somos agora capazes de reconhecer os principais indi- cadores de saúde e podemos, assim, compreender como utilizá-los adequadamente com o intuito de aperfeiçoar os serviços de saúde dentro das comunidades. Por fim, abordamos os indicadores de serviços de saúde, utilizados para indicar o que ocorre no campo da assistência à saúde, abrangendo diversas e diferentes áreas. Vimos que eles são subdivididos em três grandes setores que envolvem desde os insumos disponíveis, passando pelos processos e concluindo com os resultados. Finalizamos esta unidade com uma bagagem muito importante para a compreensão e desenvolvimento dos estudos dentro da epidemiologia. Na próxima unidade veremos os Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde, vamos lá? Até a próxima!! 64UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde LEITURA COMPLEMENTAR Medidas de frequência: calculando prevalência e incidência na era do COVID-19 Marcia Margaret Menezes Pizzichini, Cecilia Maria Patino, Juliana Carvalho Ferreira CENÁRIO PRÁTICO A doença coronavírus 2019 (COVID-19), causada pelo coronavírus denominado SARS-CoV-2, tornou-se uma pandemia apesar dos esforços globais para impedir sua propagação. O primeiro caso confirmado de COVID-19 no Brasil foi relatado em 26 de fevereiro de 2020. Até 11 de maio de 2020, um total de 168.331 brasileiros tinha diagnósti- co confirmado de COVID-19, dos quais 89.429 (53,1%) ainda estavam infectados, 67.384 (40%) estavam curados e 11.519 (6,8%) foram a óbito. O número de novos casos em 11 de maio foi de 5.632, e a incidência relatada foi de 80,1/100.000 habitantes. (1) MEDIDAS DE MORBIDADE E MORTALIDADE DO COVID-19 Contar os números de casos leves a graves e assintomáticos de COVID-19 é essencial para descrever e interpretar as respostas epidêmicas locais. Nesse cenário, estimativas repetidas de prevalência e incidência informam as tendências de trajetória da doença e orientam o processo de tomada de decisões relacionadas às medidas de controle e de alocação de recursos. (2) Prevalência é definida como a proporção de uma população que tem a doença em um determinado momento (Tabela 1). Estudos transversais são comumente utilizados para realizar estudos de prevalência porque examinam a doença em um determinado momento. A prevalência de casos confirmados de COVID-19 em 11 de maio foi de 0,08%, estimada como o número de casos de COVID-19 naquele dia dividido pela população em risco (po- pulação brasileira).(1) Como as medidas de prevalência incluem tanto os novos casos e os casos existentes, elas não fornecem uma imagem completa da história natural da doença. Além disso, o cálculo da prevalência da COVID-19 no Brasil em 11 de maio pode não ser preciso, pois os dados relatados pelo Ministério da Saúde do Brasil não incluem uma testagem ampla para SARS-CoV-2 em todo o espectro da gravidade da doença; portanto, o número de casos relatados provavelmente representa aqueles mais graves (uma vez que a maioria dos testes foi realizada em indivíduos sintomáticos e não na população em geral) e, como consequência, subestimando a prevalência real da doença. Incidência é uma medida da ocorrência de novos casos durante um período es- pecificado em uma população em risco de ter a doença. Enquanto a prevalência se refere 65UNIDADE II Medida de Saúde Coletiva e Indicadores de Saúde a casos novos e casos existentes da doença, a incidência enfoca apenas os casos novos (Tabela 1). Para estimar a incidência, todos os indivíduos no denominador (população em risco) devem ter o potencial de estar no numerador (aqueles que desenvolvem a doença). As estimativas de incidência requerem acompanhamento longitudinal (por exemplo, em horas, dias ou anos). O desenho do estudo de escolha é estudo de coorte envolvendo indivíduos em risco de desenvolver a doença, sem a doença na inclusão, e que são acompanhados ao longo do tempo e avaliados em relação aodesenvolvimento da doença. Finalmente, a inci- dência também depende da frequência da doença, da definição dos casos e da população em risco. No cenário brasileiro, a incidência de casos confirmados de COVID-19 em 11 de maio foi de 2,7/100.000 habitantes em risco (Tabela 1). PONTOS-CHAVE PARA INTERPRETAR ESTIMATIVAS DE PREVALÊNCIA E INCIDÊNCIA 1. Definições precisas de casos e não casos são essenciais para definir prevalên- cia e incidência. 2. As estimativas de prevalência e incidência podem ser enganosas se o número de casos for subestimado devido a barreiras no acesso a informações sobre o diagnóstico e as práticas de cuidados de saúde ou se apenas pacientes com doença grave forem submetidos a testes diagnósticos. 3. O momento das estimativas de prevalência e incidência deve ser levado em consideração ao interpretar essas medidas. Por exemplo, as estimativas podem ser mais baixas no início de um surto quando comparadas com a epidemia posteriormente. Fonte: PIZZICHINI, M. M. M.; PATINO, C. M.; FERREIRA, J. C. Measures of frequency: calculating prevalence and incidence in the era of COVID-19. J. bras. pneumol., São Paulo, v. 46, n. 3, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1806-37132020000300151&script=sci_arttext&tlng=pt. MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Epidemiologia: teoria e prática Autor: Maurício Gomes Pereira Editora: Guanabara Koogan Sinopse: O livro contém 24 capítulos, dispostos em cinco partes. Na primeira (capítulos 1 a 3), constam o histórico e os conceitos gerais; na segunda (capítulos 4 a 8), os indicadores de saúde; e na terceira (capítulos 9 a 11), a epidemiologia descritiva. A quar- ta parte (capítulos 12 a 19) aborda os aspectos metodológicos das investigações. Ela é particularmente útil para sistematizar o conhecimento e o raciocínio em que se fundamenta a moderna epidemiologia. Nela, são realçadas as questões técnicas das pesquisas, e muito do seu texto está voltado à avaliação crítica da metodologia empregada nas investigações ou no preparo das informações sobre a saúde da população. A parte final (capítulos 20 a 24) constitui uma síntese da aplicação da epidemiologia nos campos das doenças infecciosas, das doenças não-infecciosas e dos serviços de saúde. Há, ainda, um glossário de termos técnicos. FILME/VÍDEO Título: Epidemiologia - Introdução aos Indicadores de Saúde Ano: 2020 Sinopse: O professor apresenta quais os conceitos essenciais a respeito dos indicadores de saúde, facilitando a compreensão dos mesmos. Link: https://www.youtube.com/watch?v=QbNpN2rVMSc Acesso 13 nov. 2020 67 Plano de Estudo: • Tecnologia em Saúde • Dados Epidemiológicos • Sistema de Informação em Saúde • Análise Situacional de Saúde da População Brasileira • Programas Especiais do Ministério da Saúde • Programas Estaduais e Locais Objetivos da Aprendizagem • Conceituar a Classificar as Tecnologia em Saúde • Definir os Dados Epidemiológicos e suas principais fontes • Conhecer os Sistema de Informação em Saúde • Compreender a Situação de Saúde da População Brasileira • Entender os Programas Especiais do Ministério da Saúde • Conhecer os Programas Estaduais e Locais UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde Professora Amanda Louise Bruzamolin 68UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde INTRODUÇÃO Olá, seja-bem vindo(a) à mais uma unidade da nossa disciplina de Epidemiologia. Nesta unidade vamos conhecer os Sistemas de Informação em Saúde e os Pro- gramas Especiais de Saúde. Vamos começar conceituando e classificando as Tecnologias utilizadas na área da saúde, tecnologias estas que incluem não somente aparatos relacio- nados com informática, mas também os tratamentos farmacológicos, todos os materiais médico hospitalares, as inovações relacionadas aos procedimentos, os equipamentos diagnósticos, dentre outros. No segundo capítulo vamos definir o que são dados epidemiológicos e como eles devem ser analisados para que passem a ser considerados informações epidemiológicas qualificadas, que possam auxiliar no cálculo de coeficientes, indicadores e índices. Iremos também compreender os tipos de dados existentes com suas respectivas classificações e o que são e quais as principais fontes de dados e informações que temos à disposição para estudos epidemiológicos. Em seguida conheceremos os Sistemas de Informação em Saúde (SIS) brasileiros, que recebem, processam, arquivam e disponibilizam informação por meio do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS). E no mesmo item veremos em deta- lhes os três principais SIS com finalidade epidemiológica, que são o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). No quarto tópico iremos compreender a situação de saúde brasileira de acordo com os principais dados disponibilizados pelos SIS. E por fim, nos dois últimos tópicos, iremos conhecer e compreender os diversos Programas Especiais do Ministério da Saúde, além dos programas Estaduais e Locais que são de reponsabilidade dos governos estaduais e prefeituras municipais. Vamos lá? 69UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde 1. TECNOLOGIA EM SAÚDE As tecnologias em saúde, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2007, apud SILVA; ELIAS, 2019, p. 2): [...] constituem um componente essencial dos sistemas de saúde, sendo que um sistema de saúde eficaz deve garantir o acesso equitativo a tecnologias que têm qualidade, segurança, eficácia e custo-efetividade comprovados, e sua utilização deve estar baseada em evidências científicas de qualidade. Esse termo pode ser aplicado a todas as formas de promoção, prevenção, tratamen- to e reabilitação de doenças/enfermidades e isso inclui também os tratamentos farmacoló- gicos, os materiais médico hospitalares, os procedimentos, os equipamentos diagnósticos e até as instalações básicas para o uso de todo este arsenal (IGESDF, 2020). Segundo Pereira (2018), as tecnologias na saúde possuem diversas formas de classificação; em seu livro o autor aponta as três principais. A primeira é com relação aos produtos e processos. Os produtos são, por exemplo, os equipamentos e medicamen- tos, considerados componentes “físicos”, e os processos são os procedimentos, como, por exemplo, as técnicas cirúrgicas, consideradas componentes “lógicos”. Ambos são importantes para a área da saúde e estão associados um ao outro, mas o autor considera que lidar com produtos é mais simples, pois os processos sofrem influências maiores dos fatores socioculturais. A segunda classificação divide as tecnologias em definitivas, que são as que podem evitar ou curar definitivamente determinadas doenças, como é o caso do uso de 70UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde vacinas, por exemplo; e parciais, também chamadas que paliativas, que promovem alívio e/ou prolongam a vida do paciente, porém sem curar a doença, um exemplo são os hipo- glicemiantes orais. De acordo com o autor, atualmente, no sistema de saúde, temos mais tecnologias paliativas do que definitivas e “os progressos tendem a ser conseguidos por pequenos avanços nas tecnologias paliativas” (PEREIRA, 2018, p. 519). E finalmente a terceira classificação é com relação à tecnologia apropriada, segundo Pereira (2018, p. 519): “A tecnologia será apropriada se resolve os problemas e atende as necessidades das pessoas, o que depende das características do lugar, da época e da população”. Existem indícios de que o excesso de absorção de tecnologias de ponta vindas do exterior de forma acrítica acabou aumentando a defasagem entre os serviços ofertados e a real necessidade da população. Então o movimento da “tecnologia apropriada” vem para se opor a essa importação acrítica, na tentativa de organizar,de forma racional, o sistema de serviços em saúde, balanceando as tecnologias mais simples e as mais complexas de forma a atender a população conforme o que essa necessita (PEREIRA, 2018). De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS, 2020), a tecnolo- gia em saúde é de extrema relevância na Saúde Pública, por conta de sua influência nas ações referentes ao diagnóstico e cura de doenças, mas a escolha de incorporar ou não alguma tecnologia necessita de um estudo profundo referente aos efeitos previstos para a população e para o sistema de saúde. Desde a criação da Secretaria de Ciência e Tecnologia em Saúde do Mi- nistério da Saúde muitas ações vêm sendo estruturadas com o objetivo de viabilizar a cooperação técnica a estados, municípios e DF, organizações go- vernamentais e não-governamentais e universidades com vistas ao desen- volvimento científico e tecnológico em saúde (OPAS, 2020, s.p.). A implementação de redes de trocas de conhecimentos é considerada uma es- tratégia imprescindível na propagação de informações referentes ao tópico de Pesquisa e Desenvolvimento e Avaliação de tecnologias em Saúde. Uma dessas redes é a Rede Pan-Amazônica de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (CT&I/S), que tem como objetivo central, incentivar uma ação planejada “entre os países amazônicos para o de- senvolvimento da região, a produção e difusão de inteligência cooperativa voltada para a realidade local, atuando nos campos de pesquisa, ensino, desenvolvimento tecnológico, gestão e cooperação nacional e internacional” (OPAS, 2020, s.p.). Tecnologias em Saúde, segundo a Portaria nº 2.510/GM, de 19 de dezembro de 2005 (apud BRASIL, 2010, p. 10), são os “medicamentos, materiais, equipamentos e procedimentos, sistemas organizacionais, educacionais, de informações e de suporte, e 71UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde programas e protocolos assistenciais, por meio dos quais a atenção e os cuidados com a saúde são prestados à população”. Podemos concluir que essas tecnologias envolvem desde insumos físicos, até insumos lógicos (de procedimentos); são de suma importância para o Sistema de saúde e sua utilização está inserida diretamente nos contextos socioeconômicos da população. Mas sua utilização deve ser feita de forma consciente e bastante fundamentada nos estudos populacionais de cada região/população, para que não sejam feitos investimentos desne- cessários e para que, cada vez mais, mais sujeitos possam ser atendidos da melhor forma possível. 72UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde 2. DADOS EPIDEMIOLÓGICOS As informações acerca da situação epidemiológica de uma população são obtidas a partir dos dados epidemiológicos que, por sua vez, são elaborados no intuito de repre- sentar, observar e contrastar propriedades de populações no que se refere à saúde, ao bem estar e à qualidade de vida, além de estimar determinantes relativos à distribuição e ocorrência de eventos de saúde. Os dados epidemiológicos podem tanto ser enumerações, quanto quantidades. Eles representam, parcialmente, a realidade que se pretende revelar. Por exemplo, a fre- quência absoluta de casos de dengue pode ser considerada um dado, pois enumera, de alguma forma, um evento e ao mesmo tempo fornece um panorama da magnitude desse problema. Esse tipo de dado pode ser utilizado para calcular coeficientes, indicadores ou índices dentro de uma população em determinado período. Depois de analisados, passam a ser considerados uma informação qualificada (ALMEIDA FILHO; BARRETO, 2011). De acordo com Almeida Filho e Barreto (2011, p. 85), “A análise e a interpretação agregam valor, contextualizam e referenciam os dados, progressivamente, na extensão em que avançam, e deles se extrai uma representação mais completa e significativa da realida- de”. Por conta disso, a qualidade dos dados é tão importante na produção de informações. Podemos afirmar com certeza que, para o estudo da epidemiologia, todos os dados que auxiliem direta ou indiretamente na análise do quadro sanitário de um grupo de indi- víduos são relevantes, pois possibilitam a compreensão dos processos de saúde-doença. Segundo Franco e Passos (2011, p. 58), para a epidemiologia, as informações de interesse se referem a “eventos vitais (nascimento e morte); população que deu origem a 73UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde esses eventos; classificações que caracterizam essa população (idade, sexo, estado civil, migração); eventos que podem ocorrer aos indivíduos e que são relacionados à saúde (acidentes [...])”. Os dados epidemiológicos podem se originar de inúmeras fontes diferentes. As fontes primárias, por exemplo, são os próprios indivíduos que participam das investigações nas quais são examinados e/ou entrevistados, como nos estudos observacionais ou nos inquéritos (os quais estudados na Unidade I). Já as fontes especiais de dados são, por exemplo, “o registro sistemático das atividades de profissionais de saúde em serviços diversos e quando da condução de ações e intervenções [...] como no caso dos dados de registro contínuo em saúde que alimentam sistemas de informação” (ALMEIDA FILHO; BARRETO, 2011, p. 87). Outras fontes de dados especiais são [...] os dados de cartórios do registro civil e os que são registrados em pron- tuários clínicos, nos arquivos de laboratórios e nos serviços de medicina le- gal, entre outros. Formulários que captam dados que são registrados nos sistemas de informação em saúde são fontes de dados epidemiológicos de uso constante, com destaque para a Declaração de Óbito, a Declaração de Nascido Vivo e a Ficha de Notificação de casos de doenças e agravos à saú- de (ALMEIDA FILHO; BARRETO, 2011, p. 87). Uma das mais importantes fontes de conhecimentos acerca dos dados em saúde no Brasil é a Rede Interagencial de Informações para a Saúde (RIPSA), a qual dispõe na internet “um grande conjunto de dados e informações com a publicação Indicadores e Dados Básicos para a Saúde no Brasil” (RIPSA, 2008 apud ALMEIDA FILHO; BARRETO, 2011, p. 87). A RIPSA é uma iniciativa do Ministério da Saúde (MS) em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). De forma ampla, de acordo com Almeida Filho e Barreto (2011), os dados podem ser categorizados como: • Primários – aqueles que são adquiridos diretamente pelos pesquisadores que elaboraram e selecionaram os métodos e que planejaram a coleta ou vão parti- cipar da análise; ou • Secundários – os quais são coletados por outros pesquisadores, mas que estão à disposição para estudos epidemiológicos. Esse tipo de dado deve ter atenção especial quanto a sua qualidade, pois não é possível modificar a forma de coleta original. Recentemente, a utilização de dados secundários tem sido mais frequente no Brasil para a realização de estudos epidemiológicos, pois acarreta redução de custos, uma vez que os dados já estão à disposição. Outra categorização dos dados em saúde é referente a periodicidade das coletas, que podem ser feitas de forma contínua, na qual ocorre o registro de forma sequencial e 74UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde universal de dados que são definidos institucionalmente, os quais geralmente são de cober- tura nacional ou integral de um território, como por exemplo as estatísticas do registro civil (nascimentos, casamentos, entre outras); e de forma episódica (ocasional) que pode ou não ter sua periodicidade definida. Os dados episódicos podem ser colhidos por exemplo em um estudo retrospectivo (ALMEIDA FILHO; BARRETO, 2011). Segundo Almeida Filho e Barreto (2011), diversos são os instrumentos de coleta de dados existentes e eles se diferenciam de acordo com o objetivo do estudo epidemiológico e da fonte dos dados que será utilizada. Nos casos dos dados de registro contínuos, são utilizados instrumentos padroniza- dos de coleta,que são fundamentais para garantir que os dados sejam comparáveis entre populações, áreas e períodos. Um bom exemplo deste tipo de registro é a Declaração de Nascido Vivo. Podemos dizer, de acordo com Almeida Filho e Barreto (2011, p. 90), [...] que a qualidade dos dados depende diretamente da adequação e qua- lidade dos instrumentos de coleta, entre outros fatores, tais como: o treina- mento dos profissionais, a adequada inserção do uso dos instrumentos nos processos de trabalho, a organização do registro de dados etc. Dos diversos tipos de instrumentos de coleta, citam-se: formulários, protocolos e roteiros. Já os dados obtidos em pesquisas amostrais periódicas são registrados em for- mulários padronizados, utilizados nas entrevistas individuais, como, por exemplo, o censo demográfico. Um instrumento de coleta de dados deve ser bem estruturado, possuir perguntas equilibradas, as quais possuam alternativas claras e objetivas, que não induzam a uma escolha de resposta. “O cuidado na formulação do instrumento de coleta, com relação às variáveis e valores a serem registrados, irá assegurar a qualidade dos dados, maior facilidade na formação do banco de dados e consequentemente qualidade na análise dos resultados” (ALMEIDA FILHO; BARRETO, 2011, p. 92). Concluímos que o procedimento de coleta de dados deve ser realizado de forma uniforme e padronizada, tanto nos registros contínuos quanto nas pesquisas episódicas e amostrais, para que seja possível comparar os dados oriundos dos instrumentos de coleta entre todos os participantes. Apesar de não existir um parâmetro padrão de qualidade de informação, os itens geralmente avaliados são, segundo Almeida Filho e Barreto (2011), cobertura, completude e confiabilidade. Mas também são considerados: acessibilidade; validade; oportunidade; coerência; reprodutibilidade e que não exista duplicidade e nem valores conflitantes. 75UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde 3. SISTEMA DE INFORMAÇÃO EM SAÚDE Como vimos no tópico anterior, o dado é o elemento base, a matéria prima bruta que o pesquisador processa, juntamente com os fatos a eles relacionados para, então, produzir a informação. A informação já é o dado processado e organizado, pronto para auxiliar nos processos de planejamento e tomada de decisão, que finalmente levará ao “conhecimento”, desenvolvido a partir do acúmulo de informações. Neste tópico conheceremos os Sistemas de Informação em Saúde (SIS) que, de acordo com Galleguillos (2014, p. 49), são um conjunto de componentes que permite o armazenamento e a seleção dos dados para transformá-los em informações úteis, que permitam monitorar as condições de saúde da população e ser um componente estratégico para a organização e o funcionamento dos serviços de saúde. Já para Rothman, Greenland e Lash (2011, p. 554), “Sistemas de informação são grandes bases de dados coletados para propósitos gerais, em vez de específicos para doenças, que podem ser aplicados à vigilância”. Por sua vez, a Organização Mundial da Saúde (1995 apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 617) define o SIS [...] como um mecanismo de coleta, processamento, análise e transmissão da informação necessária para planejamento, organização, operação e ava- liação dos serviços de saúde. A informação em saúde deve ser compreen- dida como instrumento de apoio decisório para conhecimento da realidade socioeconômica, demográfica e epidemiológica, para planejamento, gestão, organização e avaliação nos vários níveis que constituem o Sistema Único de Saúde (SUS). 76UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde Grande parte dos sistemas de informação, segundo Rouquayrol e Silva (2018), foram implementados a partir da municipalização da saúde, passando para o município a responsabilidade de produzir informações que atualmente são disponibilizadas na rede pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS). SAIBA MAIS O DataSUS disponibiliza informações que podem servir para subsidiar análises objeti- vas da situação sanitária, tomadas de decisão baseadas em evidências e elaboração de programas de ações de saúde. Você pode consultar o site: www.datasus. gov.br e obter diversas informações. Fonte: Galleguillos (2014, p. 50). A base de dados que são utilizados para embasar as informações é indispensável para os estudos relacionados à situação de saúde e para a instauração de ações da vigi- lância epidemiológica. A fim de transmitir as informações de maneira ágil e de possibilitar a análise dos dados da situação de saúde por parte dos gestores com a intenção de auxiliá-los nas decisões relacionadas ao tema, “o DataSUS desenvolveu um instrumento de fácil acesso e compreensão para elaboração de relatório com os dados originados dos sistemas de informações do SUS”. As ferramentas criadas são o Tabwin e Tabnet, as quais “permitem a todos os usuários identificar o perfil de morbimortalidade da população, bem como associar as tabulações às feições gráficas de uma base cartográfica” (BRASIL, 2009, apud ROU- QUAYROL; SILVA, 2018, p. 617). Os mais importantes Sistemas de Informações em Saúde brasileiros, que pos- suem finalidade epidemiológica, são: “o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan)”. Já os sistemas “de interesse assistencial são o Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS) e o Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA-SUS)” (SANTOS, 2009, apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 617). 77UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde A seguir, veremos em detalhes os sistemas de importância epidemiológica. 3.1. Sistema de Informação de Mortalidade – SIM O Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) foi implantado pelo Ministério da Saúde em todo território nacional em 1976, depois de reconhecer a falta de dados de qua- lidade referentes à mortalidade. Após a criação do SIM, foi instituído também, um modelo padrão para a Declaração de Óbito (DO), pois até então existiam mais de 40 modelos utilizados no país (ROUQUAYROL; SILVA, 2018). De acordo com Rouquayrol e Silva (2018, p. 619), “O SIM foi o primeiro subsistema de informação de saúde a ser implantado no país e constitui uma das principais fontes de informação para planejamento, avaliação das ações de saúde e determinação do perfil de saúde de uma população”. O SIM arquiva os dados relacionados às características do sujeito, do tempo e do local onde ocorreu o óbito e quais as condições e as causas básicas relativas. Esses dados são considerados fundamentais para o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (GALLEGUILLOS, 2014, p. 49). De acordo com UNA-SUS/UFSC (2013, apud GOMES, 2015, p. 62), algumas das vantagens do SIM são: “A sua cobertura é nacional e tem alta abrangência; O formulário da DO é distribuído gratuitamente em todo o território nacional; A notificação dos óbitos é obrigatória; A qualidade do preenchimento das declarações e sua cobertura vêm sendo ampliadas”. 3.2. Sistema de Informações de Nascidos Vivos – SINASC O Sistema de Informações de Nascidos Vivos (SINASC) foi implantado oficialmente no Brasil a partir de 1990, ocorrendo gradualmente; iniciada nas capitais dos estados e pos- teriormente passada para os outros municípios. Sua base de dados padrão é a Declaração de Nascimento (DN), que armazena todos os dados referentes as condições da gravidez, o tipo de parto e também os dados relativos ao recém-nascido (RN), como, por exemplo, peso ao nascer e idade gestacional (GALLEGUILLOS, 2014; ROUQUAYROL; SILVA, 2018). O registro em cartório do nascimento e a emissão da certidão de nascimento são gratuitos e devem ser feitos no município de nascimento da criança (GOMES, 2015). Segundo Rouquayrol e Silva (2018, p. 621), “O Sinasc tem como objetivoprincipal coletar dados de nascidos vivos, constituindo informações relevantes para que o setor saú- 78UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde de possa fazer o planejamento e a avaliação de políticas e empregar ações de vigilância na área da saúde materno-infantil”. De acordo com Gomes (2015), o SINASC é o segundo SIS mais importante do Brasil, pois conhecer o número de nascidos vivos é fundamental para os pesquisadores da saúde pública, no intuito de auxiliar os gestores, fornecendo indicadores relacionados à análise dos riscos à saúde do segmento materno-infantil. Outra função importante do SINASC é referente ao planejamento por parte dos ór- gãos governamentais de saúde de todas as esferas públicas com relação a decisões, como, por exemplo: quantidade de doses de vacina a serem disponibilizadas para os menores de 1 ano, quantidade de vagas em maternidade ou mesmo o planejamento de quantidade de consultas para recém-nascidos (GALLEGUILLOS, 2014). 3.3. Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) foi criado pelo Centro Nacional de Epidemiologia com o auxílio do DataSUS em 1990 (GOMES, 2015), mas foi somente a partir de 1993 que se iniciou sua implantação de forma gradual nas unidades federadas e nos municípios. Até esta data, os dados referentes à notificação de doenças e agravos ficavam disponíveis a “nível nacional através de Boletim Epidemiológico da Funda- ção Serviços de Saúde Pública (FSESP), que recebia e consolidava os dados oriundos das unidades de vigilância epidemiológica das secretarias estaduais” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 617). Porém, foi somente a partir de 1998 que a alimentação do sistema pelos municí- pios, estados e Distrito Federal tornou-se obrigatória (SOUZA; DOMINGUES, 2009, apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018). O objetivo central do SINAN, de acordo com Rouquayrol e Silva (2018, p. 617), é: [...] coletar, transmitir e disseminar dados gerados pelo Sistema de Vigilância Epidemiológica das três esferas de governo, por intermédio de uma rede in- formatizada, para apoiar o processo de investigação e dar subsídios à análi- se das informações de vigilância epidemiológica das doenças de notificação compulsória, além de vir a indicar os riscos aos quais as pessoas estão sujei- tas, contribuindo, assim, para a identificação da realidade epidemiológica de determinada área geográfica. O SINAN detém “um banco de dados epidemiológicos que fornece informações sobre a incidência, prevalência e letalidade de um conjunto de doenças e agravos que constam na Lista de Notificação Compulsória estabelecida pela Portaria nº 1.271, de 6 de junho de 2014” (BRASIL, 2014, apud GOMES, 2015, p. 64). 79UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde Segundo Galleguillos (2014, p. 5): A notificação compulsória deverá ser feita por todos os profissionais de saú- de, médicos, enfermeiros, odontólogos, médicos veterinários, biólogos, bio- médicos, farmacêuticos e outros no exercício da profissão. A responsabilida- de também é das organizações e estabelecimentos públicos e particulares de saúde e de ensino. Sempre que surgir algum caso suspeito e também nos casos de surtos, mortes, entre outros, relacionados a agravos ou doenças da Lista de Notificação Compulsória (Vide Quadro 1), o responsável é obrigado a notificar a Vigilância Epidemiológica (GALLEGUI- LLOS, 2014). Quadro 1 - Lista de Notificação Compulsória Fonte: Brasil (2011). Utilizando o banco de dados disponível no SINAN, segundo Gomes (2015), é pos- sível calcular os indicadores de saúde referentes ao coeficiente de incidência, prevalência e letalidade dos agravos de notificação compulsória. 80UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde 4. ANÁLISE SITUACIONAL DE SAÚDE DA POPULAÇÃO BRASILEIRA Compreender as características relacionadas à situação de saúde de um território é um importante método de gestão para que seja possível identificar, descrever, priorizar e elucidar os problemas de saúde de uma população. Poder analisar a situação de saúde é primordial para os gestores e trabalhadores desse setor, para isso, foi criada a Análise de Situação de Saúde (ASIS) (OLIVEIRA; CHAGAS; GARCIA, 2019). De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS, apud BRASIL, 2015a, p. 10): [...] a Análise de Situação de Saúde (Asis) é um processo analítico-sintético que permite caracterizar, medir e explicar o perfil de saúde-doença de uma população, incluindo os danos ou problemas de saúde, assim como seus determinantes, que facilitam a identificação de necessidades e prioridades em saúde, a identificação de intervenções e de programas apropriados e a avaliação de seu impacto. A ASIS tem como objetivo principal produzir informações úteis sobre a situação de saúde da população de um território para que seja possível orientar adequadamente as ações de saúde coletiva, como o planejamento de intervenções, definição de prioridades, aplicação de recursos, entre outros. Além disso, a ASIS também atua “como instrumento de suporte ao controle social à medida que amplia o acesso às informações e aos conhe- cimentos criados por essa prática e informa a comunidade e os profissionais de saúde em todos os níveis” (BRASIL, 2015a, p. 10). 81UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde Segundo Oliveira, Chagas e Garcia (2019, p. 14), “Em um contexto de escassez de recursos, saber aplicá-los adequadamente se torna uma responsabilidade ainda maior para os atores envolvidos com a saúde das pessoas”. No Brasil, o Ministério da Saúde, através da Secretaria de Vigilância em Saúde, criou o Saúde Brasil, programa que tem como função produzir e divulgar as análises de situação de saúde do país como o objetivo de [...] fortalecer a capacidade analítica dos técnicos e gestores do Sistema Úni- co de Saúde (SUS) nas esferas da União e dos estados, visando à produção contínua e oportuna de evidências epidemiológicas que concorram para o aprimoramento do conhecimento sobre a situação de saúde da população dos estados brasileiros; sobre a magnitude e tendências históricas dos riscos de adoecer e morrer; sobre as desigualdades em saúde; e sobre as hipóteses explicativas para estes cenários (BRASIL, 2020b). O programa produz livros anualmente, tendo sido o primeiro, em 2004, a trazer informações que possibilitam reflexões fundamentais para a análise da situação e possibi- lidades de melhoria na capacidade analítica do Sistema Único de Saúde (SUS), tanto para qualificação das informações relacionadas com o setor da saúde, quanto para o auxílio na tomada de decisões de políticas públicas. A 15ª edição do livro Saúde Brasil apresentou a análise da situação de saúde do ano de 2019, com foco nas doenças imunopreveníveis e na imunização. O livro utiliza as informações disponíveis nos sistemas de informações do Ministério da Saúde, como o SIM, Sinasc e Sinan (os quais estudamos no tópico anterior), dentre outros. O livro faz uma aná- lise global da situação de saúde da população brasileira, desde o nascimento até a morte. SAIBA MAIS Para saber mais, utilize o link: http://svs.aids.gov.br/dantps/centrais-de-conteudos/pu- blicacoes/saude-brasil/ e tenha acesso a todos os livros do programa Saúde Brasil já produzidos pela Secretaria de Vigilância em Saúde. Nos itens a seguir veremos alguns indicadores que apresentam a situação de saúde da população brasileira de acordo com o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (Vigilância em Saúde no Brasil 2003|2019: Da criação da Secretaria de Vigilância em Saúde aos dias atuais). 82UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde 4.1. Perfil dos Nascidos Vivos De acordo com dados disponíveis pelo Sinasc (apud BRASIL, 2019b), no ano de 2017, 82% dos nascimentos no país foram categorizadose desvantagens de cada um para que possam ser facilmente identificados e escolhidos os melhores delineamentos de acordo com as pesquisas epidemiológicas pretendidas. Posteriormente, conceituaremos e diferenciaremos os termos Saúde e Doença e o chamado processo saúde-doença, indispensáveis para a compreensão da epidemiologia. No último item faremos uma viagem no tempo, para conhecermos as políticas de saúde no Brasil e compreendermos que elas estão diretamente relacionadas com o de- senvolvimento político, econômico e social. Por este motivo, iremos analisar sua evolução desde a época do Brasil Colônia, passando pelo imperialismo e ditadura, até os dias de hoje. E finalmente, concluiremos esta unidade conhecendo um pouco mais sobre o Sis- tema Único de Saúde, como foi estabelecido e quais seus fundamentos principais. Espero que tenhamos um ótimo início de caminhada juntos... Vamos lá? 8UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 1. CONCEITOS BÁSICOS E USOS DE EPIDEMIOLOGIA Para começarmos nossos estudos, precisamos compreender o que é a Epide- miologia. De acordo com Pereira (2013 apud GOMES, 2015), etimologicamente a palavra Epidemiologia deriva do grego: Epi = sobre; Demos = população; Logos (logia) = estudo. Sendo assim, ela é considerada como o ramo da ciência que estuda a população. Outra definição bastante utilizada é relacionada com o fato de que a epidemiologia estuda, dentro dos coletivos humanos, o processo saúde-doença. Segundo a OMS (apud MARTINS et al. 2018, p. 16), [...] a epidemiologia é o estudo da distribuição e dos determinantes de esta- dos ou eventos relacionados à saúde (incluindo doença) e a aplicação deste estudo ao controle de doenças e outros problemas de saúde. Dessa forma, fica claro que os epidemiologistas estão preocupados não somente com a in- capacidade, doença ou morte, mas, também, com a melhoria dos indicadores de saúde e com maneiras de promover saúde. A análise dos fatores determinantes e da distribuição das doenças, associadas aos danos para com a saúde individual e coletiva do ser humano são de extrema relevância para possibilitar o estabelecimento de medidas preventivas de controle e/ou erradicação de enfermidades e também para gerar dados precursores dos indicadores epidemiológicos que serão a base dos planejamentos acerca das ações de saúde futuras. Para Galleguillos (2014, p. 11), a epidemiologia é “O estudo da distribuição das doenças nas populações e dos fatores que influenciam ou determinam essa distribuição”, o qual é composto por três eixos: a medicina social, a estatística e a clínica. 9UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Ainda de acordo com a autora, para o estudo epidemiológico, as doenças ou a ausência delas não acontecem por acaso em uma população, pois o que as determina “pode ser genético, resultante de exposição a perigos ambientais, exposição a determina- das atividades de trabalho ou apenas cotidianas, e, de forma direta ou indireta, da forma como a sociedade se organiza” (GALLEGUILLOS, 2014, p. 11). O estudo epidemiológico tem como foco uma população humana que tanto pode ser definida geograficamente quanto de qualquer outra forma. Por exemplo, a unidade de determinado estudo pode ser os moradores de sua cidade, ou então você e sua turma, mas geralmente esses estudos são realizados em determinado espaço no tempo, em uma área específica, cidade, estado ou país. O grupo de pessoas selecionadas para o estudo posteriormente é subdividido em grupos menores de acordo com os fatores que o pesquisador pretende utilizar, como, por exemplo, por sexo, etnia, faixa etária e assim por diante. Segundo Palmeira (2000, p. 137), Cabe à Epidemiologia encontrar respostas para as seguintes questões: 1) Como a doença se distribui segundo as características das pessoas, dos lugares que elas habitam e da época considerada? 2) Que fatores determinam a ocorrência da doença e sua distribuição na po- pulação? 3) Que medidas devem ser tomadas a fim de prevenir e controlar a doença? Como devem ser conduzidas? 4) Qual o impacto das ações de prevenção e controle sobre a distribuição da doença? De forma geral, a epidemiologia atua nas áreas de ensino e pesquisa em saúde, com os seguintes objetivos: • Analisar e detalhar dentro das populações humanas a forma como são distribuí- dos e qual a abrangência dos problemas de saúde. • Reconhecer o agente causal e aspectos associados aos agravos à saúde. • Identificar e elucidar como são distribuídas geograficamente as doenças. • Determinar metas e métodos de controle. • Definir medidas preventivas. • Contribuir com o planejamento e desenvolvimento dos serviços de saúde orga- nizando as prioridades. Com isso, é possível concluir a grande importância da epidemiologia para a saúde populacional dentro das cidades, estados, do nosso país e no mundo como um todo. 10UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 2. PERSPECTIVA HISTÓRICA Agora que já sabemos o que é a epidemiologia e quais seus objetivos, vamos fazer uma pequena viagem no tempo para compreender como, quando e onde esse estudo começou. Está preparado(a)? Há mais de 2000 anos, época na qual acreditava-se que as doenças e curas eram resultado da punição ou misericórdia dos deuses e demônios, Hipócrates, considerado o pai da medicina na Grécia Antiga, começou a observar que existiam fatores ambientais que induziam a ocorrência de doenças. Contrapondo-se às teorias sobrenaturais, Hipócrates introduziu, então, “o conceito de doença como produto das relações complexas entre o indivíduo e o ambiente que o cer- ca” (GOMES, 2015, p. 7). Ele investigava as enfermidades utilizando-se de um pensamento racional, enfatizando que, para estudar as doenças, deveriam ser analisados também o clima, os hábitos de vida e alimentares das populações (MARTINS, 2018). Esses estudos do pai da medicina grega são considerados por muitos autores como sendo os primeiros registros da epidemiologia no mundo. Porém, foi somente no século XVII que John Graunt, considerado o pai da estatística e da demografia, conseguiu quanti- ficar os problemas de saúde. Utilizando a “[...] tabulação de dados sobre a mortalidade em Londres, ele conseguiu reunir dados de óbitos por sexo, região, percentuais de morte em relação aos nascimentos e à população total” (MARTINS, 2018, p. 19). 11UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Por outro lado, para a tradição anglo-saxônica, o médico e líder político de Londres, Thomas Sydenham “é considerado o precursor da ciência epidemiológica e fundador da clínica moderna”. Foi ele quem “[...] desenvolveu a teoria da constituição epidêmica e ela- borou o conceito da História Natural da Doença, apropriada em meados do século XX pela corrente preventivista” (GALLEGUILLOS, 2014, p. 12). Continuando nossa viagem no tempo, por conta da Revolução Industrial, já no sé- culo XIX, ocorreu um forte e rápido êxodo rural de forma desestruturada, o que acarretou o desenvolvimento de epidemias de doenças, como a febre amarela, a cólera, a febre tifoide dentre outras (MARTINS, 2018). SAIBA MAIS No século XVIII, uma sucessão de invenções deu origem ao modo de produção fabril, no qual uma série de melhorias no processo produtivo contribuiu para o limiar da Revo- lução Industrial. Tal Revolução transformou a capacidade produtiva inglesa. De modo geral, foi além do aparecimento de novas máquinas e fábricas, aumento de produtivida- de e do nível de renda. Na verdade, foi uma Revolução que transformou a Inglaterra e o continente europeu de uma forma nunca vista antes, com consequências profundas nas relações sociais. Fonte: Lima e Neto (2017). Nessa época, já em meados do século XIX, em Londres, foi que a epidemiologia passou por uma transformação por conta dos primeiros estudos do médico sanitarista John Snow, considerado o pai da epidemiologia, sobre a epidemiacomo de baixo risco para proce- dimento cirúrgico, porém a taxa de partos cesariana, de 55%, sinaliza que as indicações estão acima do padrão recomendado, que de acordo com a OMS deve ser entre 10% e 15% das gestações. Entre os anos 2003 e 2017, a taxa de nascimentos no país apresentou uma ten- dência de queda, tendo em 2016 alcançado o valor mais baixo que foi retomado como crescimento no ano de 2017. Já em relação ao exame pré-natal, foi possível observar um crescimento na parcela de mulheres que tiverem sete ou mais consultas, o que é conside- rado “mais que adequado” (BRASIL, 2019b). Todas as conclusões apresentadas podem ser identificadas na Figura 1. Figura 1 - Evolução (nº e %) de nascidos vivos, cesáreas e pré-natal mais que adequado, Brasil, 2003 - 2017 Fonte: Brasil (2019b). 4.2. Perfil da Mortalidade Infantil e seus Componentes As taxas relativas à mortalidade infantil estimam o risco de morte de crianças me- nores de um ano em comparação com o total de nascidos vivos. Essa taxa é um indicador bastante relevante das condições de vida de uma população, pois reflete o estado de saúde 83UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde da parcela mais vulnerável. Os casos de estimativas de mortalidade infantil mais elevadas, geralmente, se relacionam com níveis precários de saúde. A mortalidade infantil é dividida em três componentes: neonatal precoce (0 a 6 dias), neonatal tardio (7 a 27 dias) e pós-neonatal (28 a 364 dias). O componente neonatal precoce representa mais de 50% dos óbitos infantis, sugerindo a necessidade de melhoria na qualidade da assistência ao parto e puerpério. A taxa de mortalidade infantil neonatal precoce reduziu em 36,3% de 2003 a 2017 (BRASIL, 2019b, p. 112). É possível observar na Figura 2 que, de 2003 para 2017, ocorreu um declínio im- portante na Taxa de Mortalidade Infantil do país, de 22,5 para 13,4/1.000 nascidos vivos. Porém, em 2016, ocorreu um aumento da TMI de 4,8% em comparação com o ano de 2015. Esse aumento pode ser explicado, entre outras coisas, pela redução de nascidos vivos decorrente da epidemia do vírus Zika. Figura 2 - Taxa de mortalidade infantil (por mil nascidos vivos), segundo região, Brasil, 2003 a 2017 Fonte: Brasil (2019b). Em 2018, o Ministério da Saúde, juntamente com o Conselho Nacional de Se- cretarias Municipais de Saúde e o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, iniciou a discussão acerca de um Plano de enfrentamento com o objetivo de reduzir a mortalidade materna e infantil do país (BRASIL, 2019b). 84UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde 4.3. Perfil de Mortalidade No Brasil, como vimos no tópico 3 desta unidade, a fonte de dados principal com relação aos dados de mortalidade é o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), que fornece dados úteis e confiáveis para o planejamento das ações em saúde. Observando as taxas de mortalidade relacionadas, as cinco principais causas de morte no Brasil, divididas por sexo, entre os anos de 2003 e 2017, constatamos que houve um predomínio significativo de doenças crônicas não transmissíveis (Figura 3). Figura 3 - Evolução das taxas de mortalidade pelas principais causas de óbito (por mil hab.), segundo sexo, Brasil, 2003 - 2017 Fonte: Brasil (2019b). Um item que chama bastante a atenção é o fato de o Infarto Agudo do Miocárdio ocupar o primeiro lugar, tanto para o sexo masculino quanto para o feminino em todos esses anos. E outro ponto de atenção é quanto a diabetes mellitus, que em 2003 não estava entre as cinco principais causas de morte no sexo masculino e, em 2017, passou a ocupar a quarta posição. As pneumonias subiram no ranking: da quinta para a terceira posição entre os homens e da quarta para a segunda posição entre as mulheres. Dentre as causas externas, a agressão por arma de fogo se manteve na segunda posição entre os homens, mas não figurou como uma das principais causas de óbito entre as mulheres. A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) se manteve entre as cinco principais causas nos dois períodos em ambos os sexos (BRASIL, 2019b, p. 115). 85UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde Nos últimos anos, a qualidade dos dados proporcionados pelo SIM vem aumentan- do. E a vigilância em saúde está buscando também melhorar a caracterização do perfil de mortalidade, o que tem evidenciado as desigualdades no quesito saúde nas comparações entre sujeitos de origens étnicas diferentes. Com relação ao predomínio de Doenças Crônicas Não Transmissíveis dentre as maiores causas de morte no país, é necessário que seja levado em conta o envelhecimento progressivo da população, que tem exigido cada dia mais do setor da saúde o desenvolvi- mento de políticas intersetoriais para a elaboração de práticas de prevenção e promoção da saúde (BRASIL, 2019b). 86UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde 5. PROGRAMAS ESPECIAIS DO MINISTÉRIO DA SAÚDE No Brasil, o Governo Federal, através do Ministério da Saúde é responsável pela criação e manutenção de diversos Programas de abrangência nacional que tem a intenção de auxiliar, por meio de serviços multidisciplinares, o setor de atenção básica à saúde da população e o Sistema Único de Saúde. Dentre os diversos programas, estão, por exemplo: Programa de Apoio ao Desen- volvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADISUS); Programa Nacional de Imunizações; Programa Farmácia Popular; Programa Mais Médicos; Programa Nacional de Controle do Tabagismo, dentre outros. Através do site do Ministério da Saúde, podemos ter acesso a todos os programas existentes, assim como às legislações correspondentes a cada um. A seguir veremos em detalhes três deles. 5.1. Programa Mais Médicos O Programa Mais Médicos (PMM) foi criado em 2013 e somado à uma série de iniciativas do governo federal que assumiu, então, a reponsabilidade de elaborar políticas públicas com a intenção de enfrentar as dificuldades que estavam condicionando a evolu- ção da Atenção Básica no País (BRASIL, 2015b). Em 2013, ano de criação do Programa, o Brasil tinha uma proporção de mé- dicos por habitante significativamente inferior à necessidade da população e do SUS. Esses médicos estavam mal distribuídos no território, de modo que 87UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde as áreas e as populações mais pobres e vulneráveis eram as que contavam – proporcionalmente – com menos médicos. Muitas cidades não tinham mé- dicos residindo no território do município e grandes contingentes populacio- nais não contavam com acesso garantido a uma consulta médica (BRASIL, 2015b, p.15). O PMM foi criado para atuar em diversas frentes, uma delas, que se sobressai, é quanto a garantia de atendimento contínuo para populações que não tinham assistência médica nas periferias de grandes cidades e também nos municípios interioranos do país. O Mais Médicos atua recrutando profissionais brasileiros e estrangeiros, graduados para atuar nas áreas mais necessitadas. “Esses profissionais participam de uma série de atividades de educação e de integração ensino-serviço para que desenvolvam uma atenção à saúde de qualidade de acordo com as diretrizes da Política Nacional de Atenção Básica” (BRASIL, 2015b, p. 16). O Programa também pretende intervir na formação dos médicos brasileiros de forma quantitativa e qualitativa, abrindo mais vagas para graduação e residência médica, além de reorientar a formação dos médicos de acordo com as necessidades do SUS. Com todas essas medidas, o PMM pretende chegar a 2,7 médicos a cada 1.000 habitantes no ano de 2006 (a proporção no início do programa era de 1,8 médico/1.000 hab.). Além do mais, o Mais Médicos também previu investimentos para melhoramento da estrutura e das condições para a atuação dos profissionais nas Unidades Básicas de Saúde, coma intenção de estabelecer um padrão superior de qualidade nos serviços e ampliar a quantidade de UBS no País (BRASIL, 2015b). 5.2. Programa Nacional de Imunizações O Programa Nacional de Imunizações (PNI) foi sancionado, em 1975, pela Lei 6.259, de 30 out. 1975, e do Decreto 78.231, de 30 dez. 1976, e partir de então passou a ser responsável por coordenar as atividades de imunização rotineiras da rede de serviços (BRASIL, 2017). “De 1990 a 2003, o PNI fez parte da Fundação Nacional de Saúde. A partir de 2003, passou a integrar o DEVEP/SVS - Secretaria de Vigilância em Saúde, inserido na Coorde- nação Geral do Programa Nacional de Imunizações (CGPNI)” (BRASIL, 2017, on-line). O objetivo central do PNI é “oferecer todas as vacinas com qualidade a todas as crianças que nascem anualmente em nosso país, tentando alcançar coberturas vacinais de 100% de forma homogênea em todos os municípios e em todos os bairros” (BRASIL, 2017, on-line). 88UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde O Programa tem avançado anualmente, proporcionando melhora na qualidade de vida da população por meio da prevenção eficaz de diversas doenças com um Calendário Nacional de Vacinação que contempla todas as faixas etárias, desde recém-nascidos até os idosos, incluindo também as gestantes e povos indígenas. Atualmente o PNI brasileiro é considerado um dos maiores do mundo, oferecendo 45 tipos diferentes de imunobiológicos distribuídos em campanhas anuais a toda a popula- ção (BRASIL, 2017). 5.3. Programa Nacional de Controle do Tabagismo No Brasil, a atuação governamental a nível federal acerca do tema tabagismo co- meçou a ser instituída entre 1985 e 1986 com a criação do Grupo Assessor para o Controle do Tabagismo no Brasil e do Programa Nacional de Combate ao Fumo (BRASIL, 2020a). As ações em torno desse tema, desde então, “vêm sendo articuladas pelo Ministério da Saúde através do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), o que inclui um conjunto de ações nacionais que compõem o Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT)” (BRASIL, 2020a, online). O objetivo principal do PNCT é a redução da prevalência de fumantes e, como consequência, a redução da morbimortalidade relacionada com a utilização de derivados do tabaco no país. Para isso, o Programa faz uso de ações educativas, de comunicação e de atenção para com a saúde. 89UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde 6. PROGRAMAS ESTADUAIS E LOCAIS Além dos diversos programas propostos pelo Ministério da Saúde, os quais possuem abrangência em todo território nacional, ainda temos os programas de responsabilidades das Secretarias Estaduais e também os programas locais. Um bom exemplo, é o Programa Leite das Crianças (PLC), que é um programa paranaense considerado intersetorial, pois engloba ações das Secretarias da Saúde; da Agricultura e do Abastecimento; da Educação; e da Família e Desenvolvimento Social. O qual tem como objetivo principal, combater a desnutrição infantil, a partir da distribuição diária e gratuita de um litro de leite para todas as crianças de 6 a 36 meses, que pertençam a famílias as quais a renda per capita não ultrapasse meio salário mínimo (PARANÁ, 2020). Outro exemplo interessante é o Programa Bom Prato, criado pelo Governo do Estado de São Paulo no ano de 2000, com o objetivo de ofertar refeições de qualidade e saudáveis a um custo acessível para a população de baixa renda. O Programa, coordenado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social serve diariamente mais de 93 mil refeições em todo o estado (SÃO PAULO, 2020). 90UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde REFLITA Esses são apenas dois exemplos interessantes de Programas de responsabilidade dos governos estaduais. Mas existem diversos. Aí no seu estado você conhece algum? Já ouviu falar? Fonte: a autora. 91UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde CONSIDERAÇÕES FINAIS Concluímos aqui mais uma unidade do nosso estudo sobre epidemiologia. Esta Unidade trouxe diversos temas bastante atuais e de grande relevância para a compreensão do sistema de saúde brasileiro. No tópico 1 vimos os tipos de tecnologias utilizadas no âmbito da saúde e catego- rizamos entre insumos físicos ou lógicos; tecnologias definitivas ou parciais; tecnologias apropriadas. E observamos que estas são de extrema importância dentro do contexto do Sistema de Saúde se utilizadas de forma consciente. No tópico 2 estudamos os dados epidemiológicos com suas principais fontes e como eles podem ser convertidos em informações relevantes e confiáveis acerca da situa- ção epidemiológica de uma população. Na terceira parte conhecemos os Sistemas de Informação em Saúde (SIS) que têm a capacidade de armazenar, selecionar e organizar os dados epidemiológicos de maneira a convertê-los em informações confiáveis que possibilitem o monitoramento das condições gerais de saúde de uma população. Já no tópico 4 analisamos a situação de saúde da população brasileira através do Perfil dos Nascidos Vivos, do Perfil da Mortalidade Infantil e seus Componentes e do Perfil de Mortalidade. No quinto tópico vimos que o Ministério da Saúde, na esfera federal, é o res- ponsável pela criação e manutenção dos programas de abrangência nacional, os quais têm o propósito de contribuir no âmbito da atenção básica à saúde, a partir de serviços multidisciplinares. Em seguida, conhecemos um pouco mais sobre alguns dos Programas nacionais do Ministério da Saúde, como o Programa Mais Médicos, o Programa Nacional de Imunizações e o Programa Nacional de Controle do Tabagismo. E no tópico 6 vimos que além dos programas de nível nacional, existem também Programas de abrangência estadual, os quais são de responsabilidade das secretarias do governo estadual e os programas locais, de responsabilidade das secretarias e prefeituras municipais. Esta Unidade foi primordial na percepção dos Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde. Estamos prontos para a última Unidade. Vamos? 92UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde LEITURA COMPLEMENTAR MonitoraCovid-19 O Laboratório de Informação em Saúde (LIS) do Instituto de Comunicação e Infor- mação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT) da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), lançou o MonitoraCovid-19 – Sistema de Informação para Monitoramento da Pandemia do Coronavírus (Covid-19), aberto para uso público através do site: https://bigdata-covid19. icict.fiocruz.br/ O objetivo do MonitoraCovid-19 é fornecer dados de forma confiável e transparente para a população e para as comunidades acadêmica e científica, cidadãos e gestores, sobre o desenvolvimento diário da Pandemia de Coronavírus (Covid-19) no Brasil e no mundo. Em seu desenvolvimento, a Fiocruz contou com a colaboração da Fundação Insti- tuto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A ferramenta MonitoraCovid-19 permite monitorar a pandemia e sua tendência por estados (UF) e municípios. O sistema também mostra as tendências de evolução da epide- mia (“Fator de crescimento”), e permite comparações com países que estão em graus mais avançados da pandemia, por meio da simulação do número de casos esperados aplicando o fator de crescimento de outras áreas. Numa primeira análise dos vários resultados obtidos com o MonitoraCovid-19, já é possível apontar algumas tendências importantes: - A curva de aceleração de casos do Brasil, por enquanto, está seguindo os padrões da Itália e outros países no início das suas epidemias, o que é preocupante. Nas próximas semanas, o Brasil pode mudar de tendência devido a medidas específicas que estão sendo tomadas nos estados e municípios. O sistema permite acompanhar estas tendências em cada UF e município e fazer sua comparação com países que estãoem graus mais avança- dos da epidemia. Isso pode ser útil para estudos sobre a efetividade das diferentes medidas de enfrentamento adotadas diante da pandemia, como a restrição de mobilidade. - Neste momento da pandemia, pode-se ver que a difusão no Brasil está ocorrendo entre grandes cidades e dentro delas. Nos próximos dias, deverá alcançar cidades de me- nor porte, o que levanta a questão da organização do Sistema Único de Saúde (SUS) e o fluxo de pacientes e insumos para suprir as necessidades desses municípios que, em geral, possuem capacidades limitadas dos serviços de saúde. 93UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde - Há um espalhamento de casos em direção ao sul, principalmente no litoral, que pode se interiorizar nas próximas semanas. A aproximação do inverno traz preocupações principalmente na Região Sul, visto que o clima frio e seco pode favorecer a transmissão do vírus, de acordo com as primeiras epidemias na China, na Europa e na América do Norte. A epidemia também está se alastrando pelas cidades do litoral do Nordeste e pode se interiorizar no futuro próximo. Acesse em: https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos/release_monitor_co- vid-19_31_03.pdf Acesso 20 nov. 2020 94UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Análise de Situação de Saúde Autor: Ana Emilia Figueiredo de Oliveira; Deysianne Costa das Chagas; Paola Trindade Garcia (Orgs.) Editora: Universidade Federal do Maranhão. UNA-SUS/UFMA Sinopse: A Análise de Situação de Saúde (ASIS) ao caracterizar, medir e explicar o perfil de saúde-doença de uma população produz informações e conhecimentos úteis para o planejamento, definição de prioridades e estratégias de intervenção, além da avaliação de seu impacto. Por isso é importante que a ASIS seja incorporada e considerada na elaboração dos planos de saúde, no estabelecimento de prio- ridades para a alocação de recursos orçamentários, financeiros e de infraestrutura e na gestão do trabalho e dos recursos humanos para a saúde. Entretanto, realizar o planejamento a partir da Asis ainda se constitui um desafio para os atores envolvidos na cons- trução de políticas públicas de saúde. Partindo desse pressuposto, surge o livro “Análise de Situação de Saúde”, que aborda de forma clara e objetiva o conceito e objetivos da Asis, bem como a sua importância no planejamento e definição de ações de saúde direcionadas às necessidades da população. Entre os temas discutidos no livro, alguns merecem destaque como: conceitos, interpretação e utilização dos indicadores de saúde, a análise da situação de saúde na construção de políticas públicas e o processo de análise das informações em saúde. Este livro visa a ampliar a compreensão dos profissionais de saúde para a importância da elaboração da Asis, objetivando sua incor- poração nos instrumentos de planejamento e gestão do Sistema Único de Saúde (SUS). É importante destacar, também, que publicações nessa temática são instrumentos importantes para o aprofundamento teórico dos profissionais que já atuam no SUS. Portanto, esperamos que este livro possa contribuir em sua formação profissional e que se torne um referencial teórico para o planejamento de atividades de saúde realizadas em seu local de trabalho. 95UNIDADE III Sistemas de Informação em Saúde e Programas Especiais de Saúde FILME/VÍDEO Título: SISTEMAS DE INFORMAÇÃO EM SAÚDE - SIS | RESU- MO Ano: 2018 Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=q6Ocg9QR- F_s&list=PLS_Etk5b2zIeN2fN6U21CK4E3Xlitha7A WEB Apresentação do link: O Site do Ministério da Saúde na aba de Ações e Programas, dispõe os links para os diversos programas nacionais os quais são coordenados pela esfera federal do gover- no. Acesse o site e saiba mais. Link do site: https://www.gov.br/saude/pt-br/acesso-a-informacao/ acoes-e-programas 96 Plano de Estudo: • Modelos de vigilância em saúde: Conceitos, objetivos e diretrizes • Vigilância epidemiológica • Vigilância sanitária • Vigilância ambiental • Vigilância em saúde do trabalhador Objetivos da Aprendizagem • Conceituar e identificar os objetivos da Vigilância em Saúde • Compreender a área de atuação da Vigilância Epidemiológica • Definir Vigilância Sanitária e seus objetivos • Descrever a Vigilância Ambiental • Conceituar e compreender a Vigilância em saúde do trabalhador UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde Professora Amanda Louise Bruzamolin 97UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a). Iniciamos aqui nossa última Unidade da disciplina de Epi- demiologia; nela, abordaremos os Modelos de Vigilância à Saúde e as principais áreas do modelo de vigilância à saúde. No primeiro momento iremos conceituar a Vigilância em Saúde, de acordo com sua legislação vigente, caracterizá-la, definir seus objetivos e apresentar seu campo de atuação, para que possamos compreender posteriormente os seus principais modelos. No segundo tópico iniciaremos o estudo dos quatro principais modelos de vigilância em saúde, começando pelo conceito de Vigilância Epidemiológica. Iremos apresentar seu histórico no cenário brasileiro, sua finalidade de acordo com as legislações vigentes, suas funções dentro do sistema de saúde e seus objetivos específicos acerca da população. Já no terceiro item definiremos a Vigilância Sanitária, que é um dos modelos de vigilância mais conhecidos pela população em geral. Iremos iniciar abordando seu histórico na Europa e o início das suas atividades no Brasil. Em seguida, veremos seu conceito e as legislações que fundamentam sua função. Estudaremos seus métodos, objetivos e âmbitos de atuação e, finalmente, iremos abordar sua relação com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. No quarto tópico conheceremos a Vigilância Ambiental, começando com seu his- tórico e relação com a preocupação mundial acerca do meio ambiente, sua evolução no país e legislações referentes. Posteriormente, abordaremos seu conceito; os programas próprios, criados para monitorar cada área, como, por exemplo, o Vigiágua, o Vigisolo e o Vigiar; sua divisão de controle, entre fatores de risco biológicos e fatores de risco não biológicos; e seus objetivos. Finalmente, no quinto tópico, conceituaremos a Vigilância em saúde do trabalhador (VISAT), conheceremos os principais riscos relacionados à saúde no trabalho, a Instrução Normativa de Vigilância em Saúde do Trabalhador no SUS e também a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho. Por fim, abordaremos os conceitos e também os objetivos da VISAT. Vamos lá? 98UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde 1. MODELOS DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE: CONCEITOS, OBJETIVOS E DIRETRIZES De acordo com a Lei Orgânica da Saúde (nº 8.080, de 1990), a Vigilância em Saúde é o [...] conjunto de ações que proporciona o conhecimento, a detecção ou a prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos (BRASIL, 1990, apud GALLEGUILLOS, 2014, p. 143). Na atualidade, a estruturação e o fortalecimento da Vigilância em Saúde são re- sultados de um conjunto de situações, a começar pela regularização do Sistema Único de Saúde (SUS) que ocorreu em 1988; passando pela concepção do Centro Nacional de Epidemiologia (CENEPI), no ano de 1990; pela organização do financiamento das ações de vigilância e controle de doenças; e há pouco tempo, em 2003, pelo estabelecimento da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde, que coordena em todo o território nacional o Sistema Nacional de Vigilância em Saúde (BOCCATTO, 2012). Segundo Teixeira et al. (2018, p. 1812), alegislação brasileira em vigor define a Vigilância em Saúde (VS) [...] como um processo contínuo e sistemático de coleta, consolidação, aná- lise e disseminação de dados sobre eventos relacionados à saúde, visando o planejamento e a implementação de medidas de políticas públicas para a proteção da saúde da população, a prevenção e controle de riscos, agravos e doenças, bem como para a promoção da saúde. 99UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde Galleguillos (2014, p. 143) aponta que dentre as principais características da VS estão: [...] intervenção sobre problemas de saúde que requerem atenção e acom- panhamento contínuos; adoção do conceito de risco; articulação entre ações promocionais, preventivas, curativas e reabilitadoras; atuação intersetorial; ação sobre o território; e intervenção. Podemos dizer, então, que o objetivo da Vigilância em Saúde é a análise constante da situação de saúde de uma população, com o intuito de estruturar um conjunto de ações designadas a controlar determinantes, riscos e danos relacionados, proporcionando total atenção aos problemas de saúde, tanto individuais quanto coletivos (BRASIL, 2010). As Ações Prioritárias de Vigilância em Saúde determinam um grupo de procedimen- tos e objetivos, com relação “à área de vigilância, à prevenção e controle de doenças e às ações básicas de vigilância sanitária”, que são abordadas e acordadas entre a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), as Secretarias Estaduais de Saúde (SES) e as Secretarias Municipais de Saúde (SMS) (GALLEGUILLOS, 2014, p. 144). Ou seja, está distribuída em todos os níveis hierárquicos, desde a esfera federal até as regionais. A Vigilância em Saúde, atualmente, [...] é responsável por todas as ações de vigilância, prevenção e controle de agravos, prioritariamente com ações de promoção à saúde, com o moni- toramento epidemiológico das doenças transmissíveis e não transmissíveis, de atividades sanitárias programáticas, de vigilância em saúde ambiental e saúde do trabalhador, elaboração e análise de perfis demográficos epidemio- lógicos, proposição de medidas de controle etc. (BOCCATTO, 2012, p. 2). Segundo Boccatto (2012), a VS faz parte do campo de atuação do SUS e incremen- ta programas significativos de controle e prevenção e deve ser aplicada na instauração de prioridades, destinação de verbas e orientação programática, em diversas áreas, conforme o Quadro 1. Concluímos então que a VS deve estar constantemente envolvida em todas as esferas de atenção à saúde (BRASIL, 2010), e deve atuar de maneira integrada e em harmonia com todas as Unidades de Atendimento à Saúde. Nos próximos itens desta Unidade, veremos com mais detalhes as quatro principais áreas da Vigilância em Saúde. 100UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde Quadro 1 - Áreas da Vigilância em Saúde Fonte: Boccatto (2012, p. 3). 101UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde 2. VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA A Vigilância Epidemiológica, segundo Pereira (2018, p. 450), é um “Sistema de coleta, análise e disseminação de informações relevantes para a prevenção e o controle de um problema de saúde pública”. De acordo com Martins (2018, p. 270), esse método e suas fases, têm como fina- lidade propor e empregar medidas de controle e prevenção aos problemas de saúde. E “corresponde a um conjunto de atividades e procedimentos hierárquicos em nível local e até internacional”. Inicialmente, a Vigilância Epidemiológica (VE) incorporava apenas as doenças transmissíveis, mas ao longo do tempo, por conta de seu sucesso, passou também a en- globar outros tipos de afecções de saúde pública, como, por exemplo: comportamentos de risco (MARTINS, 2018). Atualmente, a VE beneficia tanto o controle de doenças transmissíveis, quanto às doenças e agravos não transmissíveis, e as informações geradas por seu sistema são destinadas ao auxílio de tomada de decisões (GALLEGUILLOS, 2014). Podemos considerar que a finalidade principal da Vigilância Epidemiológica é fornecer, de forma permanente, aos profissionais do setor da saúde, bases técnicas que contribuam com a estruturação e implantação de ações e programas de saúde (BRASIL, 2010; MARTINS, 2018). É importante destacar também que 102UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde As informações produzidas pelo sistema de vigilância epidemiológica fun- cionam como um mecanismo de alerta, continuado, sobre a incidência de determinados agravos à saúde. O seu objetivo geral é gerar a informação pertinente e promover o seu uso com o propósito de tomar medidas para melhorar a saúde pública. (PEREIRA, 2018, p. 450) Dentre as principais funções da Vigilância Epidemiológica, temos a “coleta e pro- cessamento de dados; análise e interpretação dos dados processados; divulgação das in- formações; investigação epidemiológica de casos e surtos; análise dos resultados obtidos; e recomendações e promoção das medidas de controle indicadas” (BRASIL, 2010, p. 19). Segundo Galleguillos (2014, p. 145), a qualidade da informação proveniente das coletas de dados é diretamente dependente da escolha adequada de método de coleta e de um envio suficientemente rápido dos dados de forma a possibilitar o início das ações no momento mais oportuno. De acordo com Pereira (2018, p. 450), os principais objetivos específicos da Vigi- lância Epidemiológica são: • informar sobre a magnitude e a distribuição dos agravos à saúde, na po- pulação, usualmente em termos de morbidade e mortalidade; os dados produzidos pela vigilância epidemiológica são muito úteis para apontar os grupos mais afetados ou sob alto risco de adoecer, a variação geográfica dos casos (ou a progressão regional de uma doença) e a tendência do evento com o passar do tempo; • recomendar ou iniciar ações oportunamente, a fim de circunscrever o problema, se possível, na fase inicial de expansão, reduzir os seus níveis de morbidade e mortalidade, ou até mesmo eliminar o agravo à saúde, na localidade. Em algumas condições, o objetivo das ações é evitar a disseminação da doença para áreas indenes, como ocorre na vigilância do dengue; • avaliar medidas de saúde pública; por exemplo, o impacto de campanhas de vacinação ou a proteção e a segurança conferidas por um produto, como vacinas e medicamentos (reações colaterais, resistência adquirida etc.). 103UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde No Quadro 2 podemos observar de forma resumida, os principais objetivos da vigilância epidemiológica, de acordo com Martins (2018). Quadro 2 - Objetivos da Vigilância Epidemiológica Fonte: Martins (2018, p. 271). De forma a possibilitar, facilitar e acelerar a execução de todos os objetivos da VE, o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), criou o Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS), que foi inaugurado em 2005, com o objetivo de fortalecer a capacidade do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde (SNVS). “Posteriormente à criação do CIEVS nacional, vêm sendo implantados os CIEVS a nível estadual, para se otimizar a força da vigilância e a resposta em todo o país” (GOMES, 2015, p. 58). Ainda de acordo com Gomes (2015), a intenção final da investigação epidemioló- gica é conduzir a aplicação de forma oportuna, das medidas de controle, com o intuito de impedir o desenvolvimento de novos casos de determinada doença em uma população. 104UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde 3. VIGILÂNCIA SANITÁRIA O conceito de vigilância sanitária é originário da Europa, e se deu por meio da exis- tência da “polícia sanitária”, que, na época, exercia o saneamento das cidades e fiscalizava as embarcações, os locaisde comércio alimentício e os cemitérios, com o intuito de evitar a disseminação de doenças (GALLEGUILLOS, 2014). No Brasil, segundo Martins (2018, p. 276), as ações referentes à vigilância sanitária, se iniciaram em 1808, com a chegada da Corte Portuguesa e inicialmente tinha também a “finalidade de efetuar o controle sanitário dos produtos a serem comercializados e consumi- dos, combater a propagação de doenças epidêmicas, resolver questões de saneamento e fiscalizar o exercício profissional na área da saúde”. Contudo, foi somente no ano de 1970, “quando ocorreu a modificação da terminologia ‘fiscalização’ para ‘vigilância’, em que a vigilância sanitária ampliou seu campo de ação, antes destinado principalmente ao controle e punição”, que passou a se destacar no setor da saúde. Após a Constituição Federal de 1988 foi que o Estado assumiu oficialmente o papel de provedor e a saúde passou a ser um direito fundamental do ser humano (MARTINS, 2018). Então, em setembro de 1990, na Lei 8.080, a Vigilância Sanitária foi finalmente definida: § 1º Entende-se por vigilância sanitária um conjunto de ações capaz de elimi- nar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da pres- 105UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde tação de serviços de interesse da saúde, abrangendo: I - o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde, com- preendidas todas as etapas e processos, da produção ao consumo; e II - o controle da prestação de serviços que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde. (BRASIL, 1990, art. 6º). Além de sua definição principal, a Lei Federal n° 8.080/90, também estabelece “as competências das três esferas de governo em relação às ações de vigilância sanitária” (BRASIL, 2010, p. 28). Outras leis, decretos e portarias importantes para a vigilância sanitária são: • Lei nº 9.782/99 – “Define o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, cria a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, e dá outras providências”. • Decreto n° 3.029/99 – “Aprova o Regulamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e dá outras providências”. • Portaria n° 354/GM/MS de 2006 – “Aprova e promulga o Regimento Interno da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e dá outras providências”. • Portaria n° 1.052/GM/MS, de 2007 – “Aprova e divulga o Plano Diretor de Vigi- lância Sanitária”. (BRASIL, 2010, p.67 e 68) De acordo com as Diretrizes Nacionais da Vigilância em Saúde: O Sistema Nacional de Vigilância Sanitária é coordenado pela Anvisa no âm- bito nacional e integrado pela Anvisa, Vigilâncias Sanitárias Estaduais, Vigi- lâncias Sanitárias Municipais, Sistema Nacional de Laboratórios de Saúde Pública, no aspecto pertinente à vigilância sanitária; e sistemas de informa- ção de vigilância sanitária. (BRASIL, 2010, p. 27) De acordo com Martins (2018, p. 276), por muito tempo, a Vigilância Sanitária “teve sua área de atuação baseada em ações normativas, mas seu objeto de ação é constituído pelos ambientes que direta ou indiretamente interferem no processo saúde-doença”. Ainda segundo a autora, as atividades referentes à vigilância sanitária “surgiram da necessidade de proteção da população em decorrência da propagação de doenças transmissíveis nos agrupamentos urbanos com o objetivo de eliminar situações de risco à saúde”. Os métodos de ação da vigilância não se baseiam apenas em normativas a serem obedecidas, existem também intervenções “dirigidas ao fortalecimento da sociedade e da cidadania com o propósito de promoção da saúde e prevenção de danos e agravos” (MARTINS, 2018, p. 276). Segundo Rouquayrol e Silva (2018, p. 461): O tema vigilância sanitária integra o campo da saúde coletiva. Pode ser com- preendido como um segmento específico do sistema público de saúde, de articulações complexas de natureza jurídico-política, econômica e médico- 106UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde -sanitária e prática social e histórica, estruturada pelo Estado para proteção e defesa da saúde. Suas ações, de natureza regulatória e fundamentalmente intersetoriais, perpassam as relações entre ciência, mercado, saúde e socie- dade. Galleguillos (2014), explica que a vigilância sanitária atua em um âmbito bastante extenso, o qual é composto por dois subsistemas, o de Bens e Serviços de Saúde, que abarca: as tecnologias de alimentos; as tecnologias de beleza, limpeza e higiene; as tec- nologias de produção industrial e agrícola; as tecnologias médicas; as tecnologias do lazer; e as tecnologias de educação e convivência. E também o subsistema do Meio Ambiente, que envolve: o meio natural (água, solo, ar e atmosfera); o meio construído (edificações); e o ambiente de trabalho. Conclui-se então, que é do encargo da vigilância sanitária, atualmente incorpora- da pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o monitoramento de todos os procedimentos envolvidos na produção, até o consumo de bens e serviços que possuam relações diretas e indiretas com a saúde da população, para que seja possível fornecer a garantia de qualidade destes produtos (MARTINS, 2018). SAIBA MAIS Sugiro a leitura integral do Capítulo intitulado “Regulação e Vigilância Sanitária: Pro- teção e Defesa da Saúde” (Cap. 26) do livro Epidemiologia & Saúde, de Rouquayrol e Gurgel (2018), para compressão de todos os conteúdos relevantes relacionados com a atuação da Vigilância Sanitária no país. 107UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde 4. VIGILÂNCIA AMBIENTAL No ano de 1972, com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, foi elaborada a Declaração de Estocolmo, a qual apresentava a preocupação, principalmente dos países desenvolvidos, acerca dos efeitos causados pela devastação ambiental no planeta Terra e propunha ações voltadas para a conservação dos recursos naturais. Colocando os problemas relacionados ao meio ambiente entre os temas mais importantes do cenário internacional (GALLEGUILLOS, 2014). Nos anos seguintes, o debate sobre o tema se tornava cada vez mais intenso no meio político. Então, após a Conferência Pan-Americana sobre Saúde, Ambiente e Desen- volvimento, ocorrida em 1995, e a elaboração da Política Nacional de Saúde Ambiental, por parte do Ministério da Saúde (nos anos de 1998 e 1999), foi estruturada uma área específica para vigilância ambiental em saúde dentro da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), a qual foi implementada por meio de instrumentos legais do SUS, definidos por leis, decretos e portarias ministeriais (BRASIL, 2002). Já no ano de 2000, o Sistema Nacional de Vigilância Ambiental em Saúde (Sinvas) foi finalmente concebido pelo Ministério da Saúde. E foi criado o conceito de Vigilância em Saúde Ambiental, como sendo um [...] conjunto de ações que propiciam o conhecimento e a detecção de mu- danças nos fatores determinantes condicionantes do meio ambiente que in- terferem na saúde humana, com a finalidade de identificar as medidas de pre- venção e controle dos fatores de risco ambientais relacionados às doenças ou a outros agravos à saúde (BRASIL, 2010, p. 76). 108UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde De acordo com Martins (2018, p. 277), as manifestações, relativas à Vigilância Ambiental, evidenciam os fatores biológicos “representados por vetores, hospedeiros, reservatórios e animais peçonhentos, bem como em fatores não biológicos, tais como: água, ar, solo, contaminantes ambientais, desastres naturais e acidentes com produtos perigosos”, levando em consideração o vínculo entre os possíveis riscos destes fatores e seus respectivos efeitos prejudiciais à saúde. Vide Figura 1. Figura 1 - Estrutura Organizacionalda CGVAM Fonte: adaptado de Brasil (2002). O projeto denominado Vigisus foi que trouxe uma visão mais abrangente relativa a esse conjunto de fatores ambientais, os quais deveriam ser regularmente acompanhados no território nacional (MARTINS, 2018). Porém, segundo Galleguillos (2014), os dados relativos à exposição dos fatores ambientais, em geral, não são obtidos no setor da saúde e sim em outros setores, o que sugere a inevitabilidade de um trabalho intersetorial. Para isso foram criados programas próprios para cada área: • Vigiágua: Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano. • Vigisolo: Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Solo Contaminado. • Vigiar: Vigilância em Saúde Ambiental Relacionada à Qualidade do Ar. • Vigiquim: Vigilância em Saúde Ambiental Relacionada às Substâncias Químicas. • Vigifis: Vigilância em Saúde Ambiental Relacionada a Fatores Físicos. • Vigidesastres: Vigilância em Saúde Ambiental dos Riscos Decorrentes dos Desastres Naturais. 109UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde Martins (2018, p. 277) aponta que, “apesar da divisão entre fatores de risco bio- lógicos e não biológicos da vigilância ambiental, é imprescindível o compartilhamento organizacional teórico-metodológico que permita a ocorrência de ações integradas com os demais instrumentos das vigilâncias”, pois através do compartilhamento de informações, é possível adotar uma abordagem mais extensa relativa “aos problemas ambientais, que geralmente possuem origem em múltiplos fatores que interagem e são interdependentes, a fim de se identificar por completo a proteção contra os riscos”. Podemos considerar que o objetivo da vigilância ambiental é reconhecer os fatores de risco ou perigos presentes no ambiente que possam vir a interferir na saúde humana, de modo a propor medidas de prevenção e de controle dos mesmos (BRASIL, 2010; GALLE- GUILLOS, 2014) 110UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde 5. VIGILÂNCIA EM SAÚDE DO TRABALHADOR De acordo com Galleguillos (2014), o trabalho se configura como um aspecto cru- cial na formação do ser humano, tanto no contexto individual, quanto no coletivo, referente à evolução de suas capacidades psicocognitivas e espirituais, e também relativo à garantia das condições materiais necessárias à sobrevivência. Porém, ao avaliar de outro ângulo, o trabalho tem, ao longo dos tempos, provocado diversos tipos de sofrimentos, chegando até ao adoecimento e morte dos trabalhadores por causas relativas às atividades desenvolvidas no emprego ou também por conta das condições adversas a que são colocados no trabalho. Sendo assim, pode-se dizer que “o trabalho impacta no perfil de morbimortalidade dos trabalhadores, contribuindo de forma direta nos acidentes de trabalho e nas chamadas doenças profissionais, e, de forma indire- ta, nas chamadas doenças relacionadas com o trabalho” (GALLEGUILLOS, 2014, p. 150). Dentre os principais riscos de saúde do trabalho, estão: os Riscos Físicos; os Riscos Químicos; os Riscos Biológicos; os Riscos Organizacionais (ergonômicos) e Psicossociais; e os Riscos Mecânicos e de Acidentes. Mas é importante destacar que estes fatores de riscos, devem sempre ser estudados sob o ponto de vista dos processos específicos de trabalho e inseridos nos seus devidos contextos sociais, culturais e produtivos (GALLEGUI- LLOS, 2014). 111UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde SAIBA MAIS A silicose, por exemplo, é uma enfermidade que acomete trabalhadores expostos à inalação, por um longo período, de partículas de sílica de indústrias de mineração e pedreiras. A inalação do pó ou das fibras de amianto causam a asbestose, e a poeira de algodão, linho, cânhamo e sisal, as lesões da bissinose. Fonte: Pereira (2018, p. 489). Tendo em vista esse cenário, em julho de 1998, foi aprovada pelo Ministério da Saúde, por meio da Portaria nº 3.120, a Instrução Normativa de Vigilância em Saúde do Trabalhador no SUS. Após esse marco regulatório legal, diversas outras Portarias foram aprovadas, dispondo de situações referentes à vigilância trabalhista. Como, por exemplo, a Portaria nº 1.339, de 1999, a qual instituiu a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho que deveria ser adotada como referência dos agravos originados no processo de trabalho no Sistema Único de Saúde, para uso clínico e epidemiológico; e também a Portaria GM/ MS nº 1.271, do ano de 2014, a qual define a Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços de saúde públicos e privados em todo o território nacional (BRASIL, 2014). De acordo com as Diretrizes de implantação da Vigilância em Saúde do Trabalhador no SUS, a Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT) é um componente do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde, que visa à promoção da saúde e à redução da morbimortalidade da população trabalhadora, por meio da integração de ações que intervenham nos agravos e seus determinantes decorrentes dos modelos de desenvolvimento e processos produtivos (BRASIL, 2014, p. 3). A VISAT pode ser caracterizada como um conjunto de ações “destinadas à pro- moção e proteção, recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho” (BRASIL, 2010, p. 20). Ela é fundamental para o modelo de Atenção Integral em Saúde do Trabalhador, sendo cons- tituída pelos conhecimentos e práticas sanitários, que são articulados de maneira intra e intersetorial (BRASIL, 2014). A VISAT pauta-se nos princípios do Sistema Único de Saúde, em consonân- cia com a Promoção da Saúde e o Sistema Nacional de Vigilância em Saúde, mantendo estreita integração com as demais Vigilâncias – sobretudo com a Sanitária, Epidemiológica e Saúde Ambiental - e as redes assistenciais (BRA- SIL, 2014, p. 3). 112UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde Alguns dos princípios da VISAT são: Universalidade; Equidade; Integralidade das ações; Integração interinstitucional; Pluriinstitucionalidade; Responsabilidade Sanitária; Interdisciplinaridade; e o Caráter transformador (BRASIL, 2014). Sob os aspectos operais, a Vigilância em Saúde do Trabalhador deve ser inter- pretada de maneira ampla e estreitamente interligada à Saúde Pública, constituindo um conjunto de práticas sanitárias centradas no vínculo da saúde com o ambiente e os proces- sos de trabalho, com o intuito de melhorar as condições de vida e a saúde da população (GALLEGUILLOS, 2014). REFLITA Saúde do Trabalhador: desencadeia um conjunto de atividades que, por meio das ações de vigilância epidemiológica e vigilância sanitária, se destinam à promoção e à proteção à saúde dos trabalhadores, assim como visa à recuperação e à reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho. Fonte: Bocatto (2012, p. 3). Dentre os objetivos da VISAT, se destacam a identificação do perfil de saúde da população trabalhadora, levando em consideração a análise de situação de saúde; a in- tervenção nos fatores que determinam os riscos à saúde, com o intuito de controlá-los e se possível até eliminá-los; a avaliação do impacto das ações aplicadas para o con- trole, atenuação e eliminação dos fatores de riscos, de maneira a subsidiar as tomadas de decisões dos órgãos governamentais competentes nas três esferas; e a utilização dos diversos sistemas de informações para a Vigilância em Saúde do Trabalhador (BRASIL, 2014; GALLEGUILLOS, 2014). É possível concluir então que a VISAT atua no sentido de propor alterações nos processos relativos ao trabalho, partindo das análises epidemiológica, tecnológica e social, com suas ações de natureza ética e antecipatória, as quais têm por finalidade buscar a regularização das atividadesde trabalho (BRASIL, 2014). 113UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao fim de nossa última unidade da disciplina de Epidemiologia. Esta uni- dade foi especialmente importante para que compreendêssemos os modelos de vigilância em saúde e suas principais áreas de atuação. Conhecemos inicialmente a Lei Orgânica da Saúde (nº 8.080, de 1990) e, por meio dela e de todas as legislações vigentes, compreendemos como funciona a Vigilância em Saúde (VS), identificando seus componentes hierárquicos, como a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), as Secretarias Estaduais de Saúde (SES) e as Secretarias Municipais de Saúde (SMS). Identificamos as características da VS, seus principais objetivos e conhece- mos também as Ações Prioritárias de Vigilância em Saúde. Seguidamente, estudamos a Vigilância Epidemiológica, que tem por finalidade principal, propor medidas de controle e prevenção para os problemas de saúde enfrentados pela população. Analisamos sua evolução ao longo do tempo e suas principais funções e objetivos. No terceiro tópico exploramos a origem da Vigilância Sanitária na Europa e sua chegada no Brasil junto com a corte portuguesa em 1808; estudamos sua relação intrínse- ca a Lei federal nº 8.080/90; seus métodos de ação; e seus dois subsistemas, o de bens e serviços de saúde e o do meio ambiente de forma a compreender seu âmbito bastante extenso. No tópico quatro analisamos a relação da Vigilância Ambiental com a Declaração de Estocolmo, com a Conferência Pan-Americana sobre Saúde, Ambiente e Desenvolvimento e com a Política Nacional de Saúde Ambiental. Vimos que no ano 2000 foi concebido o Sistema Nacional de Vigilância Ambiental em Saúde (Sinvas) e conceituada a Vigilância em Saúde Ambiental, logo em seguida, compreendemos sua divisão em fatores biológicos e não biológicos e seus objetivos. Enfim, no último tópico, conceituamos e compreendermos o funcionamento essen- cial da Vigilância em Saúde do Trabalhador e sua relação com as vigilâncias epidemiológica e sanitária para em conjunto, auxiliam na proteção, promoção, recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos provenientes de suas funções. 114UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde LEITURA COMPLEMENTAR AÇÃO INTEGRADA EM SAÚDE – VIGILÂNCIA SANITÁRIA E VIGILÂNCIA EM SAÚDE DO TRABALHADOR: A EXPERIÊNCIA EM UM DISTRITO SANITÁRIO DE BELO HORIZONTE RESUMO (Discussão Temática - Relato de Experiência) A partir da análise de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), especialmente dos agravos relacionados ao trabalho, a Coordenação de Saúde do Trabalhador da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte identificou a neces- sidade de inspecionar, in loco, uma Indústria de Doces. A inspeção inicial, realizada por 2 (dois) técnicos, Engenheiros do Trabalho da equipe de saúde do trabalhador, desvelou um quadro de alto risco sanitário e de saúde do trabalhador. Tal achado motivou contato com a Diretoria de Vigilância Sanitária, da mesma secretaria, solicitando a indicação de Fiscal Sanitário para participar de uma inspeção conjunta. A experiência mostrou que esta inspe- ção conjunta aumentou a resolubilidade das não conformidades encontradas, propiciando ganhos para os trabalhadores e para a população geral. Após a conclusão das inspeções, o Fiscal Sanitário solicitou a equipe de saúde do trabalhador a continuação da parceria. Entre fevereiro/18 a abril/19, foram inspecionadas conjuntamente 65 empresas, de vários ramos de atividades sujeitas à atuação da Vigilância Sanitária (VISA), estabelecidas no Distrito Sanitário Noroeste. Ao término das inspeções, ficou claro que os estabelecimentos sujeitos à ação de VISA, são fontes de risco sanitário e de saúde do trabalhador. Foram lavrados documentos fiscais para a correção das não conformidades relacionadas a VISA e a saúde do trabalhador. A Lei 8080/90 prevê que a promoção e proteção da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho, devem ser realizadas por meio de ações de vigilância epidemiológica e de VISA. Nesse sentido, o Código Sanitário de Belo Horizonte também estabelece que a atuação do Sistema de Vigilância Sanitária, no âmbito do município, dar-se-á de forma integrada com o Sistema de Vigilância Epidemiológica, compreendendo a proteção do ambiente de trabalho e da saúde do trabalhador. Entretanto, a articulação de forma contínua de ações de VISA com as de saúde de trabalhador não fazem parte do cotidiano de trabalho nesse município. Os participantes das inspeções conjuntas compreenderam a importância da articulação das ações e recomendaram uma maior aproximação da VISA e da saúde do trabalhador. Se, 115UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde por um lado, compreender a natureza do risco sanitário, determinar a probabilidade de ocorrência e suas consequências é importante, por outro, é imperativo ter um olhar que proteja o trabalhador de situações que possam culminar em agravos. Jussara de Medeiros Silva et al. Ação Integrada Em Saúde – Vigilância Sanitária e Vigilância em Saúde do Trabalhador: A Experiência em um Distrito Sanitário de Belo Horizonte. Disponível em: https:// proceedings.science/simbravisa-2019/papers/acao-integrada-em-saude-----vigilancia-sanitaria-e-vigilancia- -em-saude-do-trabalhador--a-experiencia-em-um-distrito-sani.Acesso 04 dez. 2020. 116UNIDADE IV Modelos de Vigilância a Saúde e Principais Áreas Do Modelo de Vigilância à Saúde MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Vigilância em Saúde no SUS: Fortalecendo a Capacidade de Resposta aos Velhos e Novos Desafios Autor: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Editora: Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde Sinopse: O desafio da governança em vigilância em saúde ex- pressa-se, por um lado, na construção de novos objetos, mediante reflexões teóricas. Tem sido constante o trabalho para assegurar nesse novo lugar a consolidação de uma imagem organizacional em que prevaleça o trabalho cooperativo. Disponível em: https://livroaberto.ibict.br/handle/1/799 FILME/VÍDEO Título: Vigilância em Saúde Ano: 2020 Sinopse: Ligado em Saúde – Vigilância em Saúde: esta edição do Ligado em Saúde fala sobre as atuações da Vigilância em Saúde nos exercícios de coleta de dados, fiscalização, prevenção de riscos e promoção da saúde. A apresentadora Marcela Morato conversa sobre o tema com a pesquisadora em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz, Grácia Maria de Miranda Gondi. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=fqfJmHNp110 WEB Site do Governo Federal, a partir do qual é possível ter acesso a todos os serviços online da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, sendo possível navegar pelos arquivos e conhecer um pouco mais sobre a ANVISA. Link do site: https://www.gov.br/pt-br/temas/saude-e-vigilancia-sanitaria 117 REFERÊNCIAS ALMEIDA FILHO, N. de; BARRETO, M. L. Epidemiologia & saúde: fundamentos, métodos, aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. BOCCATTO, Marcia. 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Acesso em: 28 out. 2020. 124 CONCLUSÃO GERAL Prezado(a) aluno(a), Neste material procurei trazer para você um panorama detalhado da disciplina de Epidemiologia, abrangendo seu início, evolução e legislações dentro do território nacional, compreendendo sua considerável relevância para a saúde populacional. Iniciamos conceituando epidemiologia, seus objetivos principais, seu histórico ini- ciado há mais de 2000 anos e sua evolução até os dias de hoje. Conhecemos e detalhamos os métodos epidemiológicos a fim de poder selecionar sempre o melhor para cada tipo de estudo a ser realizado. Estudamos o conceito de saúde-doença e compreendemos o desenvolvimento da saúde em território nacional, incluindo as políticas de saúde, a reforma sanitária e o Sistema Único de Saúde. Destacamos, na Unidade II, diversos conceitos amplamente utilizados na epide- miologia, como as definições de “índice”, “indicador” e “coeficiente”, aprendemos a calcular as medidas de prevalência e incidência e analisamos os indicadores de saúde e como utilizá-los corretamente. Em seguida, abordamos alguns temas bastante atuais referentes ao sistema de saúde brasileiro. Conhecemos as tecnologias utilizadas no âmbito da saúde, analisamos os dados epidemiológicos e suas principais fontes, estudamos os Sistemas de Informação em Saúde, examinamos a situação de saúde da população brasileira e esmiuçamos alguns dos programas de saúde de abrangência nacional, também alguns programas de abrangência estadual e municipal. Por fim, detalhamos os modelos de vigilância em saúde e suas principais áreas de atuação, sendo elas: a vigilância epidemiológica, a vigilância sanitária, a vigilância ambien- tal e a vigilância em saúde do trabalhador. Acreditamos que, daqui em diante, você está abastecido(a) de conteúdos e pre- parado(a) para utilizar seus conhecimentos acerca desta disciplina no desenvolvimento de estudos através dos métodos epidemiológicos e em sua atuação profissional. Até uma próxima oportunidade. Muito Obrigada! +55 (44) 3045 9898 Rua Getúlio Vargas, 333 - Centro CEP 87.702-200 - Paranavaí - PR www.unifatecie.edu.br/editora-edufatecie edufatecie@fatecie.edu.br EduFatecie E D I T O R Ade cólera. Utilizando suas observações acerca da localização das bombas públicas de água e mapeando os casos da doença, de óbitos e do consumo de água da população, ele pôde determinar a relação entre o consumo de água contaminada de uma bomba específica com os casos de contágio pela doença (GOMES, 2015; MARTINS, 2018). É importante destacar que nessa época o agente etiológico da doença ainda não era conhecido e só veio a ser isolado 30 anos depois, confirmando os estudos de Snow. Porém a partir de sua descoberta foi possível, na época, a proposição de alterações no 12UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil saneamento básico de modo a melhorar o modelo de distribuição de água para a população (MARTINS, 2018). Foi no século de XIX também que os estudos acerca da microbiologia pelo francês Louis Pasteur (Figura 1) influenciaram extraordinariamente a ciência da epidemiologia. Ele identificou e isolou diversas bactérias, posteriormente conseguindo tratar as doenças por elas causadas, levando também ao desenvolvimento da utilização das bactérias nos pro- cessos farmacológicos, viabilizando diversas medidas de prevenção e de tratamento. Por conta disso, ele foi considerado o “pai da bacteriologia” (GOMES, 2015; MARTINS, 2018). Figura 1 - Louis Pasteur, químico e microbiologista francês De acordo com Gomes (2015), é possível afirmar que a microbiologia foi a ciência que mais influenciou nos estudos da epidemiologia durante o século XIX e até a metade do século XX, pois foi a partir dela que diversos agentes etiológicos, relacionados com as doenças infectocontagiosas de alta morbidade e mortalidade, na época (como, por exem- plo, a varíola, a tuberculose, a influenza, entre outras), foram identificados, possibilitando a criação de medidas preventivas e tratamentos. Nesse período, a epidemiologia ganhou destaque científico e acadêmico, com a construção de inúmeros institutos de pesquisa no Brasil e no mundo (Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Pasteur, London School of Hygiene e Tropical Medicine, etc.) e a ampliação da sua área de atuação [...] (GOMES, 2015, p. 10). Já na segunda metade do século XX, segundo Martins (2018), novos estudos identificaram que não existiam somente doenças infecciosas, mas também poderiam existir doenças de origem crônica e/ou degenerativa, mudando a concepção da prevalência das enfermidades e comprovando que nem todas elas tinham origem em agentes microbianos. 13UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Diante disso, princípios ambientais, sociais, culturais, psicológicos, genéticos, entre outros, foram incorporados na elaboração dos muitos conceitos básicos para Epidemiolo- gia. Dessa forma, a epidemiologia começa, a partir da segunda metade do século XX, a se preocupar com as doenças crônicas não transmissíveis, tais como problemas cardíacos e câncer, sobretudo nos países industrializados (MARTINS, 2018, p. 20). Do final do século XX até os dias de hoje, a epidemiologia é vastamente utilizada com o intuito de determinar as “condições de saúde da população e à busca sistemática dos agentes etiológicos das doenças ou dos fatores de risco envolvidos no seu aparecimento, através de diferentes tipos de estudos” (GOMES, 2015, p. 10). 14UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 3. MÉTODOS EPIDEMIOLÓGICOS Sabendo a história da epidemiologia e todos os caminhos pelos quais ela passou para chegar ao que é atualmente, podemos finalmente entender como ela funciona e para isso, vamos estudar os métodos epidemiológicos. O método epidemiológico, de acordo com o autor Franco (1995, p. 31) “é uma compilação de conceitos e estratégias, derivados e compartilhados com várias ciências, porém aplicados ao estudo da saúde e de doença, no nível populacional. A aplicação do método epidemiológico conduz, progressivamente, ao raciocínio epidemiológico”. Analisar as vantagens e desvantagens de cada tipo de estudo epidemiológico é fundamental para escolher o melhor delineamento para a investigação epidemiológica pretendida. Uma das principais e mais utilizadas formas de classificar os estudos epidemioló- gicos é entre estudos observacionais e estudos experimentais. Vamos juntos compreender cada um deles e suas devidas subdivisões, mas para facilitar a compreensão, observe com atenção a Figura 2. 15UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Figura 2 - Representação esquemática dos tipos de estudos epidemiológicos Fonte: a autora. 3.1. Estudos Observacionais De acordo com Nunes et al. (2013), os estudos observacionais, também conhecidos como não experimentais, são aqueles nos quais os agrupamentos de sujeitos que serão comparados são observados sem intervenções. Nesses casos, os grupos são compostos por seres que possuem alguma condição e/ou característica preexistente. Um exemplo seria a comparação entre indivíduos com algum sinal clínico versus indivíduos saudáveis. Esse tipo de estudo pode ser subdividido em descritivo e analítico (iremos apro- fundar mais esses dois em seguida). A grande maioria dos estudos epidemiológicos são analíticos. De acordo com Bonita, Beaglehole e Kjellström (2010, p. 39), “Estudos descriti- vos puros são raros, sendo mais comuns em estatísticas vitais”. 3.1.1. Estudos observacionais descritivos Comumente, os estudos observacionais descritivos são o primeiro passo na in- vestigação epidemiológica, e “têm por objetivo determinar a distribuição de doenças ou condições relacionadas à saúde, segundo o tempo, o lugar e/ou as características dos indivíduos” (LIMA-COSTA; BARRETO, 2003, p. 191). Para a epidemiologia, faz-se indis- ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS OBSERVACIONAIS DESCRITIVO RELATO DE CASOS SÉRIE DE CASOS ANALÍTICO ECOLÓGICO TRANSVERSAL CASO- CONTROLE COORTE EXPERIMENTAIS ENSAIO CLÍNICO RANDOMIZADO ENSAIO DE CAMPO ENSAIO COMUNITÁRIO 16UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil pensável o conhecimento sobre as circunstâncias as quais o processo saúde-doença se estende na população. Esse tipo de estudo apresenta o retrato da situação de saúde de uma determinada comunidade utilizando dados primários (aqueles que são coletados para o estudo, utilizan- do questionários específicos) e dados secundários (os quais são pré-existentes, coletados rotineiramente, como, por exemplo, dados de mortalidade) (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010; LIMA-COSTA e BARRETO, 2003). Segundo Lima-Costa e Barreto (2003, p.191-192), A epidemiologia descritiva examina como a incidência (casos novos) ou a prevalência (casos existentes) de uma doença ou condição relacionada à saúde varia de acordo com determinadas características, como sexo, idade, escolaridade e renda, entre outras. Quando a ocorrência da doença/condição relacionada à saúde difere se- gundo o tempo, lugar ou pessoa, o epidemiologista é capaz não apenas de identificar grupos de alto risco para fins de prevenção [...] mas também gerar hipóteses etiológicas para investigações futuras. “Os estudos puramente descritivos não tentam analisar possíveis associações en- tre exposições e efeito” (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010, p. 40). Geralmente eles se baseiam nas estatísticas de mortalidade e são capazes de averiguar os episódios de óbitos segundo o grupo étnico, sexo ou idade dentro de um período pré-determinado. 3.1.1.1. Relato de caso O Relato de Caso é o tipo mais simples de Estudo Observacional Descritivo, o qual apresenta uma descrição detalhada de um caso clínico. Em geral, identifica um evento clínico incomum ou apresenta uma nova forma de intervenção. De acordo com Rouquayrol e Silva (2018, p. 145), O exemplo mais clássico de um relato de caso foi a descrição, em 1961, de uma mulher de 40 anos de idade que desenvolveu embolia pulmonar 5 sema- nas após o início de contraceptivo oral para tratar endometriose (JORDAN, 1961). Até então, não se conhecia a associaçãode drogas anticonceptivas com manifestações trombóticas e essa publicação levantou várias hipóteses que foram, posteriormente, confirmadas por estudos analíticos. Um fator positivo importante desse método é que os estudos de caso auxiliam com o delineamento de casos clínicos. Mas eles apresentam alguns entraves que podem causar conclusões errôneas, considerando que geralmente eles analisam eventos passados, não dispõem de grupos de comparação e retratam resultados que, muitas vezes, podem ser aplicados apenas a um paciente específico (FLETCHER; FLETCHER, 2006). 17UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 3.1.1.2. Série de casos O Estudo Observacional Descritivo de Série de Casos é semelhante ao relato de caso, porém, com maior número de participantes, que apresentam características seme- lhantes de alguma doença e/ou sinal clínico. Em 1981, o Centers for Disease Control and Prevention, em Los Angeles, descreveu cinco casos de homens jovens homossexuais, previamente sau- dáveis, que foram diagnosticados com pneumonia por Pneumocystis jiroveci entre 1980 e 1981. Essa série de casos alertou a comunidade médica para o surgimento de uma nova doença que, posteriormente, foi chamada síndro- me da imunodeficiência adquirida. O fato de a pneumonia ter se instalado em homens jovens homossexuais levantou a hipótese de que algum aspecto do comportamento sexual pudesse estar relacionado com o risco da doença (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 145). Conforme Oliveira, Velarde e Sá (2015), um estudo de série de casos compreende geralmente de 3 a 10 casos, porém alguns outros autores consideram somente acima de 10 casos. 3.1.2. Estudos observacionais analíticos Os Estudos Observacionais Analíticos, em comparação com os descritivos, relacio- nam com maior detalhamento as relações entre o estado de saúde do sujeito e diferentes variáveis (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010). Esse tipo de estudo tem como fundamento a tríade: agente, ambiente e hospedeiro. Através deste estudo, “subconjuntos de uma população definida podem ser identificados, classificando quem esteve, está ou estará exposto ou não exposto - ou exposto em dife- rentes graus – a um ou mais fatores que acarretarão no desfecho final – seja ele saúde ou doença” (MARTINS, 2018, p. 17). Ele é subdividido em quatro principais delineamentos: ecológico; transversal; caso- -controle e coorte, os quais serão detalhados nos itens a seguir. Exceto nos estudos ecológicos, que “tanto a exposição quanto a ocorrência da doença são determinadas para grupos de indivíduos”, nos outros delineamentos “tanto a exposição quanto a ocorrência da doença ou evento de interesse são determinados para o indivíduo, permitindo inferências de associações nesse nível” (LIMA-COSTA; BARRETO, 2003, p. 194). Sendo assim, entre os outros três tipos de estudos, as diferenças estão na forma como os participantes são selecionados e na competência em relação à determinação da exposição no passado. 18UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 3.1.2.1. Ecológico Os estudos ecológicos, também conhecidos como “estudos de correlação” ou “es- tudos agregados”, têm como unidades de análises grupos ao invés de indivíduos (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010; ROUQUAYROL; SILVA, 2018). De acordo com Kleinbaum et al. (1982, apud ROTHMAN; GREENLAND; LASH, 2011), uma razão implícita para essa alteração nas unidades de análise é que muitas vezes faltam dados para análises individuais. Sendo assim, os estudos ecológicos possuem um delineamento considerado “incompleto”. Segundo Lima-Costa e Barreto (2003, p.194): Nos estudos ecológicos, compara-se a ocorrência da doença/condição rela- cionada à saúde e a exposição de interesse entre agregados de indivíduos (populações de países, regiões ou municípios, por exemplo) para verificar a possível existência de associação entre elas. Em um estudo ecológico típico, medidas de agregados da exposição e da doença são comparadas. Esse tipo de estudo pode também ser utilizado para comparar os grupos populacio- nais no mesmo período em diferentes lugares, ou também em uma série temporal, em que se compara a mesma população em diferentes períodos de tempo (BONITA; BEAGLEHO- LE; KJELLSTRÖM, 2010). Conforme relatam ROUQUAYROL e SILVA (2018, p.125), a maior parte dos estudos ecológicos baseia-se na “análise de estatísticas oficiais divulgadas ou de dados disponíveis em órgãos responsáveis pelos sistemas de informação de uma dada população”. Desta forma, pode-se dizer que “um estudo ecológico baseia-se na comparação entre indicado- res relacionados com a exposição a que uma população foi submetida ou na comparação desses indicadores e níveis de exposição de múltiplas populações”. Os estudos ecológicos são considerados úteis na geração de hipóteses, pois geral- mente auxiliam na identificação de fatores que requerem uma investigação mais profunda por meio de estudos que possuam capacidade analítica mais assertiva (NUNES et.al., 2013). Outras vantagens desse tipo de estudo são que além de fáceis de realizar, eles também podem se basear em dados de populações diferentes que possuam características muito diferentes (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010). Por outro lado, é de comum acordo entre diferentes autores que esse tipo de estudo é propenso a diversos efeitos de confusão e frequentemente difícil de ser interpretado, pois dificilmente os resultados obtidos são passíveis de explicações. Além disso, de acordo com Nunes et.al. (2013, p. 181), [...] uma limitação importante é que, em alguns casos, a relação entre o fator de exposição e o evento pode não estar ocorrendo ao nível do indivíduo. Por isso, a associação entre uma exposição e uma doença, ao nível da popula- 19UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil ção, não permite afirmar que a exposição está mais presente naqueles que adquirem a doença (falácia ecológica). A falácia ecológica, também chamada de “viés”, intercorre nos casos em que se chega a conclusões inadequadas baseadas em estudos ecológicos. Isso acontece pois geralmente a associação observada entre as variáveis no nível de grupo nem sempre representa a associação que existe a nível individual (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLS- TRÖM, 2010). 3.1.2.2. Transversal Os estudos transversais também chamados de seccionais ou de prevalência têm como ideia central analisar em uma amostra quais “as possíveis relações entre a variável que representa o desfecho e as variáveis que supostamente estão associadas a ele” (ROU- QUAYROL; SILVA, 2018, p. 120). Esse tipo de estudo considera como sujeitos todos os integrantes de uma população durante a averiguação, ou uma amostra representativa desses sujeitos, escolhidos sem considerar o estado de exposição ou de doença (ROTHMAN; GREENLAND; LASH, 2011). De acordo com Lima-Costa e Barreto (2003, p. 194), Em geral, esse tipo de investigação começa com um estudo para determinar a prevalência de uma doença ou condição relacionada à saúde de uma popu- lação especificada [...]. As características dos indivíduos classificados como doentes são comparadas às daqueles classificados como não doentes. A questão chave de um estudo transversal “é saber se a exposição precede ou é consequência do efeito” (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010, p. 44). Sendo assim, esse tipo de delineamento não é ideal para associações do tipo causa-efeito, mas é conveniente na identificação de sujeitos e características que são passíveis de intervenções e também para criar hipóteses de causas de doenças (LIMA-COSTA; BARRETO, 2003). De acordo com Martins (2018, p. 111), é a partir dos estudos transversais que é possível medir a periodicidade do evento que é objeto de investigação. A autora também reforça dizendo que “informações sobre a situação de saúde da população e a avaliação da eficácia dos programas de promoção da saúde podem ser fornecidas a partir da utilizaçãode estudos transversais”. Esse tipo de estudo é relativamente barato, simples de ser conduzido e vantajoso nos casos de investigação de exposições de características fixas individuais, como por exemplo grupo sanguíneo (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010). Vários países conduzem pesquisas transversais regulares com uma amostra representativa de sua população. Essas pesquisas enfatizam características pessoais e demográficas, doenças e hábitos relativos à saúde. A frequência 20UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil de doenças ou outras características são, então, examinadas em relação à idade, sexo e grupo étnico. Pesquisas transversais sobre fatores de risco para doenças crônicas têm sido conduzidas em um grande número de países (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010, p. 44). Em suma, podemos dizer que os estudos transversais são de grande valia para a análise das necessidades da população com relação à saúde, pois os dados oriundos des- se tipo de pesquisa repetida, que utilize amostragens aleatórias e definições padronizadas, são indicadores vantajosos de tendências. É importante ressaltar que toda pesquisa deve ter um intuito muito claro e, para ser válida, necessita de um questionário fundamentado, com boa taxa de resposta e uma amostra populacional apropriada (BONITA; BEAGLEHO- LE; KJELLSTRÖM, 2010). 3.1.2.3. Caso-controle Os estudos chamados de caso-controle são assim intitulados por serem baseados em um grupo de sujeitos que apresentam determinada doença, os casos, comparados com um grupo de sujeitos não afetados pela doença, o grupo controle. Um exemplo desse tipo de estudo seria a comparação de indivíduos diagnosticados com câncer em uma população, comparados com indivíduos sem essa doença. “Essa comparação ocorre em termos de informações sobre potenciais fatores de risco, coletados de forma retrospectiva” (NUNES et al., 2013, p. 180). Nesse tipo de estudo, o primeiro passo é a seleção de casos e controles. O grupo de casos deve ser composto por todos os casos dentro da população determinada, esses casos não são selecionados com base na exposição e sim na doença, e o grupo de con- troles, os indivíduos sem a doença. Os casos e controles não necessitam incluir toda a população, eles podem estar restritos a subgrupos (por exemplo: pessoas idosas). De acordo com Bonita, Beaglehole e Kjellström, (2010, p. 45) “a escolha de casos e controles não deve ser influenciada pelo nível de exposição, que deve ser determinada da mesma maneira para ambos”. Um dos entraves desse tipo de estudo é descobrir uma forma efetiva e com bom custo-benefício de selecionar os controles, de modo a representarem “a prevalência de exposição na população de onde os casos foram originados”. A segunda fase desse estudo é a determinação, a partir, por exemplo, de entrevista ou consulta de prontuários, da Razão de Odds da exposição entre casos e controles (vide Tabela 1). “Se existir associação entre a exposição e a doença, espera-se que a Odds da exposição entre casos seja maior que a observada entre controles, além da variação esperada devida ao acaso” (LIMA-COSTA; BARRETO, 2003, p. 196). 21UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Tabela 1 - Razão de Odds Fonte: Lima-Costa e Barreto (2003, p. 196). Os estudos de caso-controle têm origem no efeito (doença), com o intuito de investigar a causa (exposição). E é nessa definição que encontramos suas vantagens e desvantagens. De acordo com Lima-Costa e Barreto (2003) e Martins (2018), dentre as vantagens, primeiramente podemos destacar o fato desse tipo de estudo ser o mais eficiente para análise de doenças raras, pois não exige um grande número de participantes para revelar resultados válidos. Outro ponto positivo é a curta duração, pois a seleção de participantes é realizada posteriormente ao surgimento da doença, por conta do menor período de exe- cução, o custo deste tipo de pesquisa também se torna mais baixo. Outras vantagens que devem ser levadas em conta são a inexistência de fatores de risco para os participantes e a multicausalidade, pois, por ter acesso ao histórico do pacien- te, existe a possibilidade de investigar simultaneamente diferentes hipóteses etiológicas. Já dentre as desvantagens, conforme Martins (2018), temos de destacar a dificulda- de em selecionar os grupos-controle, pois eles devem ser 100% compatíveis (faixa etária, gênero, condições sociais e região geográfica) com as condições base dos pacientes que possuem a doença investigada. Outro inconveniente desse estudo é que ele não permite a identificação e cálculo da incidência das doenças (ou casos), pois o estudo se baseia nos indivíduos que já têm a doença comparados com os que não têm. A última desvantagem apresentada pela autora é referente à cronologia entre exposição e doença, que não fica clara, pois, como as informações são coletadas após a instalação da doença, não é possível identificar adequadamente o momento da exposição. 22UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Em suma, segundo Rouquayrol e Silva (2018), o estudo de caso-controle é muito utilizado em casos de fenômenos raros ou crônicos e é ideal para fornecer hipóteses a serem analisadas, com desenhos metodológicos mais complexos. 3.1.2.4. Coorte Os estudos de coorte são também conhecidos como estudos de incidência ou longitudinais. De acordo com Greenberg et al. (2005, apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 123), “em epidemiologia, uma coorte se refere a um grupo de indivíduos, pertencentes a uma mesma população, que é acompanhado durante certo período com vistas a estudar a ocorrência de um ou mais desfechos”. Nesse sentido, os estudos de coorte começam com um grupo de indivíduos livres da doença, que logo em seguida são subdivididos conforme a exposição a um fator relacionado a potencial causa da doença ou desfecho sob investiga- ção (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010). Esse delineamento do estudo pode ser observado na Figura 3. Figura 3 - Delineamento do estudo de coorte Fonte: Bonita, Beaglehole e Kjellström (2010, p. 47). Após a divisão dos grupos, os sujeitos dos dois grupos principais (expostos e não expostos) são acompanhados com o intuito de analisar a ocorrência da doença/condição relacionada à saúde entre eles. “Se a exposição estiver associada à doença, espera-se que a incidência entre expostos seja maior do que entre não expostos, além da variação esperada devida ao acaso” (LIMA-COSTA; BARRETO, 2003, p. 196). Para facilitar a visua- lização dessa análise, vejamos a Tabela 2. 23UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Tabela 2 - Estudo de coorte Fonte: Lima-Costa e Barreto (2003, p.197). De acordo com Martins (2018), os estudos de coorte são, em sua maioria, pros- pectivos, pois eles se iniciam no presente e são concluídos no futuro, ou seja, a avaliação do indivíduo começa a partir do início do estudo. Mas existem também os estudos de coorte retrospectivos, nos quais as informações sobre os indivíduos são resgatadas de prontuários, com o intuito de compreender qual exposição em comum gerou o desfecho em determinado grupo. Para podermos analisar esse tipo de estudo, é interessante que avaliemos suas vantagens e desvantagens. Dentre as vantagens, segundo Martins (2018), temos o fato de que esse é o prin- cipal tipo de estudo utilizado para determinar a relação entre exposição ao fator de risco e desfecho (doença), possibilitando, assim, avaliar os futuros desfechos de outros expostos àquele fator de risco. Outro ponto positivo é que, com esse estudo, é possível assimilar a história natural da doença e sua incidência, pois será possível acompanhar o paciente desde o diagnóstico até o desfecho (ou não, dependendo do período determinado para o estudo). Além disso, não existem exigências éticas, pois não envolve interferência na si- tuação do paciente, somente o acompanhamentoda evolução da doença. E a definição dos grupos de pacientes é mais simples, o que acarreta maior agilidade no alcance de resultados significativos (MARTINS, 2018). Já com relação às desvantagens, Bonita, Beaglehole e Kjellström, (2010, p. 47) pontuam que 24UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil [...] os estudos de coorte são bastante caros porque podem requerer longos períodos de acompanhamento, visto que a doença pode ocorrer após uma exposição prolongada. Em situações com exposições agudas, a relação cau- sa-efeito pode ser óbvia, mas estudos de coorte são também usados para investigar efeitos crônicos ou tardios. Sendo assim, tem de ser considerado que esse alto custo pode dificultar a continui- dade dos estudos. Outro ponto negativo é a necessidade de acompanhamento frequente que pode levar a desistência por parte do paciente na participação do estudo. Além de ser ineficaz em casos de doenças raras por conta da quantidade grande de pacientes necessários, que, nos casos de doenças raras, é difícil conseguir. Um último ponto a ser avaliado é que “para comprovar um estudo, é essencial que o número inicial de participantes definido seja mantido” (MARTINS, 2018, p. 59) e nos casos de estudos longos, muitas vezes acontecem reduções no número de pacientes por desistência ou até morte. Enfim, conforme Bonita, Beaglehole e Kjellström (2010), comparando com os estu- dos de caso-controle, a utilização do estudo de coorte permite analisar uma variação muito mais ampla de desfechos, considerando que estes reúnem inicialmente sujeitos saudáveis. 3.2. Estudos Experimentais Os estudos experimentais, também chamados de estudos de intervenção, são aqueles em que ocorre algum tipo de intervenção/experimento por parte do pesquisador, que, neste caso, possui controle (ao menos parcial) sobre a forma como os sujeitos do experimento serão divididos (NUNES et al., 2013). Esse tipo de estudo compreende a tentativa de alterar os determinantes de uma doença, como, por exemplo, a exposição ou comportamento, ou até cessar seu desenvol- vimento por meio de um tratamento. Por conta disso, esses experimentos “estão sujeitos a uma série de restrições uma vez que envolvem intervenções a saúde das pessoas” (BONI- TA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010, p. 40). De acordo com Rothman; Greenland; Lash (2011, p. 107), um exemplo simples de experimento com sujeitos humanos seria a criação de dois grupos experimentais que serão expostos a diferentes situações ou tratamentos para serem comparados. O ideal seria que esses grupos fossem idêntico e não afetados por fatores externos, mas nas ciências biológicas [...] as condições que afetam a maior parte dos desfechos são tão complexas e extensas e, em geral, desconhecidas e assim não podem ser tornadas uniformes. Daí, haverá variação no desfecho, mesmo na ausência de um 25UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil efeito do tratamento. Essa “variação biológica” reflete variação no conjunto de condições que produz o efeito. Sendo assim, não é possível, na experimentação biológica dividir em grupos os que somente o tratamento é variável. O que é possível, é o pesquisador criar grupos em que ele espera que o efeito dos fatores externos seja baixo, afetando em menor grau os resultados do experimento. 3.2.1. Ensaio clínico randomizado De acordo com Martins (2018, p. 283), “o ensaio clínico controlado e randomizado (ECR), [...] é padrão-ouro para avaliar intervenções. É um estudo prospectivo, em que uma intervenção será testada em pelo menos dois grupos aleatórios de indivíduos por tempo determinado”. A autora destaca também que existe um guia chamado CONSORT (Con- solidated Standards of Reporting Trials), que apresenta os parâmetros corretos a serem utilizados para se elaborar um ECR. Esse tipo de delineamento epidemiológico objetiva analisar os efeitos de uma inter- venção em particular, um tratamento, por exemplo. Nesses estudos, os sujeitos são aleatoriamente selecionados e designados para seus devidos grupos, divididos entre grupo controle (que podem não receber nada, ou rece- ber um placebo) e o grupo de intervenção (em que os sujeitos recebem o tratamento a ser analisado). Posteriormente, os resultados do experimento são avaliados e comparam-se os desfechos entre os grupos (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010). Para que um ensaio clínico tenha resultados confiáveis e posteriormente seja reproduzido, primeiro é necessário observar vários fatores, entre eles, relatos de casos, biologia de cada indivíduo acometido, epidemiologia da doença, observação clínica dos acometidos com os sintomas presentes, imaginação para propor o novo tratamento e raciocínio para ser possível colocar em prá- tica o que se espera com o estudo (MARTINS, 2018, p. 284). Posterior a verificação dos fatores citados em toda a população acometida, pro- vavelmente surgirão hipóteses de um novo tratamento para a cura da doença, que será baseado no experimento e nas evidências de recuperação ou não dos pacientes expostos ao novo tratamento. “Para determinar a confiabilidade dos resultados de um ensaio clínico randomizado é preciso que sejam observadas informações completas sobre o delineamento do estudo, execução, análise e resultados e interpretação dos dados” (MARTINS, 2018, p. 285). Com a intenção de atestar que os grupos comparados no estudo sejam equivalen- tes, os sujeitos de cada grupo são aleatoriamente selecionados. Dessa forma, é possível 26UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil garantir a comparabilidade entre os grupos desde o princípio do estudo e quaisquer alte- rações observadas serão decorrência do acaso, não sendo causadas pelo investigador (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010). Resumidamente, os sujeitos participantes do experimento são distribuídos de modo randomizado, de forma a um grupo receber a intervenção (ex.: tratamento) e o outro não receber, ou receber um placebo. Em seguida os grupos são acompanhados e os desfechos são analisados após um período pré-definido. A vantagem desse tipo de estudo é a possi- bilidade de utilização para avaliar intervenções terapêuticas, mas primeiramente devem ser analisados os custos, o tempo de estudo e as questões éticas, para que o delineamento seja adequado. 3.2.2. Ensaio de Campo O foco dos Ensaios de Campo é a ocorrência inicial da doença, sendo assim, esse tipo de estudo envolve sujeitos “que estão livres de doença, mas sob risco de desenvolvê-la” (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010, p. 51). Os dados para o estudo são coletados “a campo” (daí o nome do delineamento), de sujeitos da população em geral, ou seja, não é selecionado nenhum local ou instituição específica para a coleta de dados. O propósito principal desse delineamento é a prevenção da ocorrência de doenças, até mesmo as que são de baixa frequência. Dentre as dificuldades de se realizar esde tipo de estudo estão a necessidade de um grande número de sujeitos, o que o torna caro. Além de que, como são sujeitos saudá- veis, eles não tendem a buscar assistência à saúde, fazendo com que o pesquisador tenha de se deslocar até a residência, escola ou emprego do participante para poder acompanhar seu estado, dificultando a logística do estudo (ROTHMAN; GREENLAND; LASH, 2011). De acordo com Bonita, Beaglehole e Kjellström (2010, p. 51), “Um dos maiores ensaios de campo já realizados foi para testar a vacina Salk para prevenção da poliomielite, que envolveu mais de um milhão de crianças”. Para Rothman, Greenland e Lash (2011, p. 112), assim como nos Ensaios Clínicos, “as exposições em ensaios de campo devem ser alocadas de acordo com um protocolo que minimize a variação externa entre os grupos, por exemplo, pela remoção de qualquer decisão sobre alocação por parte da equipe do estudo”. O ideal seria realizar um esquema de alocação aleatório, mas devem ser levadas em consideração asdificuldades de se implantar um esquema deste tipo em um estudo em larga escala. 27UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 3.2.3. Ensaio comunitário Nos Ensaios Comunitários os grupos de tratamento selecionados para o experimen- to não são indivíduos e sim comunidades. Esse fator faz com que esse tipo de delineamento seja conveniente para estudos de afecções que possam ter “origens nas condições sociais e que possam ser facilmente influenciadas por intervenções dirigidas ao comportamento do grupo ou do indivíduo” (BONITA; BEAGLEHOLE; KJELLSTRÖM, 2010, p. 51). Dentro das limitações desse delineamento, deve-se ressaltar que é trabalhoso con- seguir isolar as comunidades nas quais está sendo realizada a intervenção, por conta das alterações sociais em curso. Além disso, de acordo com Bonita, Beaglehole e Kjellström (2010, p. 51) “a alocação aleatória das comunidades não é muito prática” e “somente um pequeno número de comunidades pode ser incluído”. 28UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 4. CONCEITO DE SAÚDE-DOENÇA De acordo com Pereira (2018, p. 30) “A ‘saúde’ pode ser definida como ‘ausência de doença’ e a ‘doença’, inversamente, conceituada como ‘falta ou perturbação da saúde’. Embora sejam concepções simplistas, elas são muito usadas”. Ainda de acordo com o autor, os sujeitos são examinados, na prática clínica, e divididos em sadios ou doentes, com base em resultados de exames laboratoriais, físicos, clínicos e histórico, os quais identificam ou não anormalidades. Existem diversos outros conceitos mais detalhados para “saúde” do que somente a “ausência de doença”. Um desses conceitos foi estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1948 (apud PEREIRA, 2018 ,p.30), o qual diz que: “Saúde é um completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não meramente ausência de doença”. Porém, este tipo de definição mais elaborada, é pouco utilizada na prática. Normalmente a saúde é mesmo utilizada para se opor a presença de algum sintoma ou diagnóstico de doença. O conceito de doença, por sua vez, de acordo com Franco e Passos (2011, p. 2), “é um processo biológico mais antigo que o homem. Antigo como a própria vida, porque é um atributo dela”. Para Canguilhem e Caponi (1995, apud VIANNA, 2012, p. 4), “A doença não pode ser compreendida apenas por meio das medições fisiopatológicas, pois quem esta- belece o estado da doença é o sofrimento, a dor, o prazer, enfim, os valores e sentimentos expressos pelo corpo subjetivo que adoece”. 29UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil REFLITA “Processo saúde-doença: termo utilizado para definir todas as variáveis envolvidas no estado de ‘saúde’ e ‘doença’ de um indivíduo ou população, levando-se em conta que ambos os estados estão interligados e que são consequências dos mesmos fatores” Fonte: Gomes (2015, p. 7). O Processo saúde-doença é constituído pelas etapas as quais a população, ou o indivíduo, passa durante o processo de adoecimento, considerando todos seus vieses e desfechos. Incorporada a essa interpretação, torna-se indispensável a compreensão da História Natural da Doença que, de acordo com Leavell e Clark (1976, apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 12): [...] é o nome dado ao conjunto de processos interativos que compreendem as inter-relações do agente, do suscetível e do meio ambiente que afetam o processo global e seu desenvolvimento, desde as primeiras forças que criam o estímulo patológico no meio ambiente, ou em qualquer outro lugar, passan- do pela resposta do ser humano ao estímulo, até as alterações que levam a um defeito, invalidez, recuperação ou morte. Segundo Rouquayrol, Goldnaum e Santana (2013, apud GOMES, 2015, p. 20): “a história natural da doença se desenvolve em dois períodos sequenciais”. Primeiramente, o período epidemiológico, no qual o interesse é direcionado para as relações entre sus- ceptível-ambiente e, em seguida, o período patológico em que ocorrem as modificações que se passam no organismo vivo. Por fim, temos também o que pode ser apontado como o terceiro período do processo, que é a conclusão, sendo ela a recuperação da saúde, completa ou parcial, ou morte. Compreendendo a história natural da doença, torna-se possível a elaboração de um “planejamento de ações preventivas em saúde a nível primário, secundário e terciário” (GOMES, 2015, p. 22) que possa vir a impedir a instalação da doença em um indivíduo ou comunidade. 30UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 5. POLÍTICAS DE SAÚDE NO BRASIL 5.1. História da Saúde no Brasil Para que possamos compreender a história das políticas de saúde no Brasil, é ne- cessário que compreendamos que ela está diretamente conectada com o desenvolvimento político, social e econômico da sociedade. De acordo com Rouquayrol e Silva (2018, p. 1), Em nosso sistema capitalista, a saúde nunca foi tratada como prioridade. Historicamente só recebeu atenção dos governantes quando as grandes epi- demias ameaçavam a economia do país. Por outro lado, a organização e a reivindicação dos trabalhadores levaram às conquistas sociais do direito à saúde e à previdência, ainda que de maneira parcial. Antes da colonização, no ano de 1500, a população indígena brasileira era com- posta por sujeitos saudáveis e resistentes. Em busca de riquezas e sonhos em um novo continente, vieram os colonizadores – todo tipo de gente, desde soldados até mendigos e loucos –; chegaram após diversos dias de viagem em navios imundos, desconfortáveis e passando fome, trazendo junto deles diversos tipos de doenças, como o sarampo, tuberculose, malária, sífilis, dentre outras. “Somadas às guerras, essas moléstias contribuíram enormemente para o extermínio de tribos indígenas” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 1). No início do período colonial, as pessoas consideravam as doenças como um cas- tigo divino; o curandeirismo (um tipo de medicina empírica), associado aos benzimentos, 31UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil eram amplamente difundidos. Porém as benzedeiras e curandeiras eram perseguidas por serem consideradas pelas autoridades civis e religiosas como feiticeiras. No Brasil Colônia, a medicina, como era praticada na Europa, quase não existia. Aqui havia apenas as enfermarias mantidas pelos jesuítas e as Santas Casas de Misericór- dia, as quais chegaram aqui em 1539, sendo a primeira delas instalada em Olinda. Atual- mente, estão presentes em quase todas as capitais e em muitos municípios do interior do país. É importante frisar que as Santas Casas de Misericórdia se anteciparam às atividades estatais de assistência à saúde” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 2). Já na época do Império, em fevereiro de 1808, logo após sua chegada ao Brasil, Dom João VI inaugurou a primeira faculdade de medicina do Brasil, em Salvador (BA). Em novembro do mesmo ano, criou também a “Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro com o nome de Escola de Anatomia, Cirurgia e Medicina. As duas primeiras faculdades do Brasil muito contribuíram para o avanço da medicina no país” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 2). Nessa mesma época, a capital do Império, Rio de Janeiro, recebeu diversas inter- venções sanitárias com o intuito de mudar sua péssima reputação no exterior. Mais adiante no tempo, no ano de 1829, foi fundada a Academia Nacional de Me- dicina que, em 1831, começou a publicar os Seminários de Saúde Pública, convertidos posteriormente nos Anais da Academia Nacional de Medicina. Durante o século XIX, a etiologia das doenças infecciosas era desconhecida, os estudiosos acreditavam que elas eram causadas por miasmas, ou seja, vapores/venenos que se originavam da matéria orgânica e dejetos de outros doentes. Outra teoria conhecida era a do “contágio”: acreditava-se que as doenças eram transmitidas pelo contato com fômites ou contato direto com doentes (ROUQUAYROL; SILVA, 2018).Durante o regime republicano, iniciado em 1889, diversos debates acerca de projetos para a saúde pública foram iniciados, principalmente com foco nas doenças pestilenciais. No começo do século XX foi iniciado o combate efetivo à febre amarela com Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro e Emílio Ribas, entre outros, em São Paulo. O Governo Federal conseguiu conter o avanço da febre amarela, da varíola, da febre tifoide e da “peste do Oriente”, entre outras. A tuberculose, apesar de reconhecida como uma das doenças de maior mortalidade, não foi con- templada (BERTOLLI FILHO, 2011, apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 4). Foi a partir da criação da “Liga Brasileira contra a Tuberculose” e das diversas ligas estaduais, criadas em torno de 1900, que os médicos obtiveram uma interação eficiente com o Estado, apresentando “as causas sociais que geravam a doença e os altos custos para a implantação de medidas de controle e constatando, ainda, que somente com a intervenção 32UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil do Estado seria possível enfrentar, com êxito, o problema da tuberculose” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 4). Foi em 1900 também que foram criadas as duas mais importantes instituições de saúde pública brasileiras, o Instituto Oswaldo Cruz, que na época era chamado de Instituto Soroterápico Federal, e o Instituto Butantan, responsáveis por formar médicos com visões diferentes sobre o combate às doenças transmissíveis. “Em 1904, uma lei federal instituiu a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola em todo o território nacional. Surgiu, então, um grande movimento popular no Rio de Ja- neiro, que ficou conhecido como a Revolta da Vacina” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 5). Posteriormente, em 1920, Carlos Chagas formou uma nova estrutura para a antiga Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), que passou a ser chamada de Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP). Ele introduziu também um novo modelo de ação, que se utilizava de educação sanitária e propagandas ao invés do modelo fiscal e policial de Oswaldo Cruz. Dentre diversos outros órgãos e fundações, Chagas foi também o criador do primei- ro Curso de Higiene e Saúde Pública do Brasil. Após a reforma política do Estado Novo, o Departamento Nacional de Saúde Pública foi entregue ao Ministério da Educação e Saúde. Após a Revolução de 1930, ao alcançar o cargo de presidente, Getúlio Vargas governou por meio de decretos até a aprovação da nova Constituição, em 1934. Vargas contemplou grandemente a área da saúde, que passou a compartilhar um ministério com a área da educação, o Ministério da Educação e Saúde Pública, instaurado em 1930. Após a criação deste ministério, iniciou-se uma extensa reforma dos serviços sanitários brasileiros (BERTOLLI FILHO, 2011 apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018). O golpe militar de 1964 teve efeitos negativos sobre o Ministério da Saúde, pois foram reduzidas as verbas destinadas à saúde pública. Mesmo com a retomada dos programas de saúde e saneamento, estabelecidos no II Plano Nacional de Desenvolvimento, de 1975, isso não mudou o quadro de saúde dos brasileiros (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 6). Durante o processo de resistência democrática contra o governo autoritário, nos anos 60 e 70, até o início dos anos 80, deu-se início o movimento sanitário, que gradual- mente iniciou a politização das questões relacionadas à saúde, com o intuito de criar uma proposta de reforma para esse setor. 33UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil 5.2. Reforma Sanitária O movimento sanitário, iniciado no final dos anos 70, evoluiu para um projeto que previa um “sistema de saúde em que o princípio central é ‘saúde: direito de todos e dever do Estado’, envolvendo a universalização, integração, equidade e descentralização com efetiva participação da população” (ALMEIDA, 1995, apud ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 445). Com isso, surgiu a proposta da Reforma Sanitária. Após alguns entraves políticos, o objetivo central da Reforma Sanitária passou “a ser garantido pela Constituição Federal (1988), no Título VII, da Ordem Social no Capítulo II e Seção II, e artigos 196, 197, 198 e 200, que constituem os marcos legais do setor saúde na Constituição” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 445). De acordo com Rouquayrol e Silva (2018), o artigo 196 determina que a saúde é direito de todos e dever do Estado, o qual deve prover diminuição do risco de doenças e acesso universal e igualitário. O artigo 197 identifica a saúde com caráter de relevância pública. Já o artigo 198 “garante que as ações e serviços de saúde integrem uma rede regionalizada e hierarquizada, que constitui o SUS” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 445). Esse artigo já foi alterado duas vezes por Emendas Constitucionais, uma em setembro de 2000, a qual definiu a forma de financiamento do SUS, e outra em fevereiro de 2006, a qual criou a seleção pública de agentes comunitários de saúde e endemias. 5.3. Sistema Único De Saúde (SUS) No ano de 1988, finalmente foi promulgada a nova Constituição do Brasil, na qual foi criado o Sistema Único de Saúde (SUS), porém, foi somente em 1990 que o governo regulamentou o SUS por meio das Leis Orgânicas da Saúde. O SUS foi criado “como o conjunto de ações e serviços de saúde prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo poder público” (ROUQUAYROL; SILVA, 2018, p. 6). Este órgão poderia também ter participação da iniciativa privada de forma complementar. A partir de sua criação, em 1988, “o Brasil se tornou o maior país do mundo a pos- suir um sistema público de saúde pautado no princípio da universalidade, além da equidade e da integralidade” (DUARTE; EBLE; GARCIA, 2018, p. 1). Já em 1994, com a intenção de reorganizar o modelo de saúde, tornando-o integral, foi criada a Estratégia Saúde da Família (ESF), baseada na atenção primária, com o intuito de garantir acesso de forma universal a toda a população. 34UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Além disso, o SUS instituiu também [...] uma política nacional para fornecer acesso gratuito e universal a medi- camentos essenciais. Destaca-se na última década a criação do Aqui tem Farmácia Popular, e a definição governamental pela gratuidade para medica- mentos para tratamento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). Desde 1996, o Ministério da Saúde garantiu acesso livre e universal ao tra- tamento antirretroviral para quem vive com HIV/AIDS, além de ações de pre- venção e promoção da saúde. (SOUZA et al., 2018, p.17 - 38) De acordo com Duarte, Eble e Garcia (2018), a Pesquisa Nacional de Saúde, realizada em 2013, apontou que a maior parte da população do país (em torno de 80%), depende do SUS para assistência à saúde e esse cenário não deve mudar tão cedo, pois a cada dia os serviços de saúde privados se tornam mais inacessíveis por conta principal- mente da crise econômica instalada no país. É importante destacar, que além de providenciar acesso à saúde para as parcelas da população mais vulneráveis, o SUS também “atende a usuários de planos de saúde e de serviços privados quando estes necessitam de atenção de alta complexidade, a exemplo dos transplantes, da hemodiálise e dos medicamentos de alto custo” (DUARTE; EBLE; GARCIA, 2018, p. 1). O cunho universal do SUS é ainda mais notório com relação às ações de Vigilância em Saúde, as quais atendem toda a nação, por meio de ações como: [...] o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que oferece acesso univer- sal a todos os imunobiológicos recomendados pela Organização Mundial de Saúde. O calendário nacional de imunizações atual contempla a oferta de 41 imunobiológicos. As ações de imunização resultaram no controle bem- -sucedido, via de regra, das doenças imunopreveníveis. (DUARTE; EBLE; GARCIA, 2018, p. 1). Outra importante ação do SUS, conforme Duarte, Eble e Garcia (2018),é sua estratégia de controle epidêmico do HIV, que leva o país a ser um dos únicos que dispõe de distribuição universal dos antirretrovirais, apresentando respostas de desempenho me- lhores até do que as dos Estados Unidos. Desta forma, nos últimos anos, de acordo com Souza et al. (2018, p. 17-18): [...] os avanços no SUS associados a melhorias no plano econômico, inclusi- ve com aumentos reais do salário mínimo, avanços em políticas de habitação e saneamento básicos e outras medidas de proteção social com potencial distributivo, como o bolsa família criaram um contexto positivo para que me- lhorias importantes nas condições de saúde e na ampliação da vida saudável da população brasileira ocorressem. Podemos concluir, então, que o Sistema Único de Saúde brasileiro pode ser consi- derado patrimônio nacional, pois garante acesso aos serviços e ações de saúde para toda a população. 35UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta primeira unidade vimos inicialmente o que é a epidemiologia, de forma a compreendermos seus objetivos principais e concluirmos que o estudo da epidemiologia é de considerável relevância para a saúde populacional, pois é por meio dela que os pesqui- sadores da área da saúde podem desenvolver estudos acerca das enfermidades, com o intuito de descobrir novas formas de tratamento, controle e prevenção. Na segunda parte da unidade, vimos a caminhada histórica do estudo da epide- miologia, começando há mais de 2000 anos, com Hipócrates, passando por John Graunt, posteriormente por Thomas Sydenham, médico inglês precursor da ciência epidemioló- gica; John Snow, médico sanitarista, considerado pai da epidemiologia, e outros tantos estudiosos de grande importância para essa ciência, até chegar aos dias de hoje. Nestes, a epidemiologia é vastamente utilizada para determinar as condições de saúde de uma população e compreender os agentes etiológicos e riscos envolvidos nas enfermidades. Já na parte três, tivemos o primeiro contato com os métodos epidemiológicos, podendo analisar cada um deles, destacando as vantagens e desvantagens de cada de- lineamento, de maneira a sabermos escolher o melhor método para cada tipo de estudo. Vimos que uma das principais formas de classificar os estudos epidemiológicos é entre estudos observacionais e estudos experimentais. Sendo os Observacionais divididos em Descritivo, o qual é subdividido entre relato de casos e série de casos; e Analítico, subdividido em: ecológico; transversal, caso-controle e coorte. Depois analisamos também os estudos Experimentais, que são divididos em: ensaio clínico randomizado, ensaio de campo e ensaio comunitário. Na parte quatro estudamos o conceito fundamental para a epidemiologia, de saú- de-doença e por último, no item 5, vimos a caminhada histórica da saúde no Brasil incluindo as políticas de saúde, a reforma sanitária e o Sistema Único de Saúde. 36UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil LEITURA COMPLEMENTAR Artigo - DUARTE, E.; EBLE, L. J.; GARCIA, L. P. 30 anos do Sistema Único de Saúde. Epidemiol. Serv. Saúde, Brasília, v. 27, n. 1, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-96222018000100100&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 30 out. 2020. O Sistema Único de Saúde (SUS) completa 30 anos de existência em 2018. Com a criação do SUS, a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, o Brasil se tor- nou o maior país do mundo a possuir um sistema público de saúde pautado no princípio da universalidade, além da equidade e da integralidade. Apesar dos percalços, o SUS vem, ao longo dessas três décadas, tornando-se cada dia mais imprescindível na vida dos cidadãos brasileiros. A Pesquisa Nacional de Saúde (2013) revela que a maioria da população (estima- -se que 80%) é SUS-dependente para as ações relacionadas à assistência à saúde.1,2 No contexto atual, esta situação parece não se reverter a curto prazo. Diante da crise econômica instalada, da taxa de desemprego vigente (que tem se mantido acima de 11% da população economicamente ativa) e do comportamento recente do crescimento econô- mico, é de se esperar que os serviços privados estejam cada dia mais inacessíveis para a maioria da população. Cabe ressaltar que o SUS é responsável por prover acesso das parcelas mais vulneráveis da população às ações e serviços de saúde, caracterizando-se como promotor de equidade.2,4 Ainda, o SUS atende a usuários de planos de saúde e de serviços privados quando estes necessitam de atenção de alta complexidade, a exemplo dos transplantes, da hemodiálise e dos medicamentos de alto custo.5,6 Contudo, seu caráter universal é mais evidente nas ações de vigilância em saúde, que alcançam a totalidade da população brasileira. Um exemplo é o Programa Nacional de Imunizações (PNI), que oferece acesso universal a todos os imunobiológicos recomen- dados pela Organização Mundial de Saúde. O calendário nacional de imunizações atual contempla a oferta de 41 imunobiológicos. As ações de imunização resultaram no controle bem-sucedido, via de regra, das doenças imunopreveníveis.7 Em que pese os desafios ainda a superar – sobretudo ligados às desigualdades sociais e regionais –, avanços im- portantes foram alcançados, considerando-se que, na década de 1980, as coberturas de vacinação para as vacinas do calendário da criança encontravam-se abaixo de 50%.8 37UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil Outro exemplo são as estratégias combinadas para o controle da epidemia do HIV, sendo o Brasil um dos poucos países que as colocam à disposição em acesso universal. Graças aos excelentes resultados obtidos com a distribuição universal de antirretrovirais, o Brasil tem sido apontado como modelo para outros países de média e baixa renda,9 chegando, inclusive, a apresentar um desempenho melhor que o dos Estados Unidos em sua resposta contra o HIV/aids.10 Ainda, entre as ações de vigilância, deve-se ressaltar o papel do SUS na resposta aos eventos com potencial de produzir emergências em Saúde Pública. O exemplo mais contundente foi a resposta à emergência do vírus Zika no país e à epidemia da síndrome congênita relacionada à infecção. Não obstante o desconhecimento sobre a etiologia da sín- drome congênita relacionada ao vírus Zika durante o início da epidemia, o SUS coordenou uma série de ações de vigilância, controle e atenção aos envolvidos, que exigiram intensa mobilização política e institucional, com resultados internacionalmente reconhecidos.11 Por sua abrangência, caráter universal e resultados alcançados, o SUS tem atraído a atenção de especialistas internacionais,2 que destacam que a combinação de contextos restritivos e políticas de austeridade e contenção da despesa pública, inclusive com a saú- de, podem colocar em risco os avanços conquistados e o direito à saúde para a maioria da população brasileira. O SUS é patrimônio nacional, uma política de Estado que garante o acesso de toda população às ações e serviços de saúde. Ao difundir o conhecimento epidemiológico produzido por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, e trabalhadores dos serviços de saúde, publicando artigos de qualidade, que oferecem análises, avaliações, críticas e contribuições para o aprimoramento dos serviços ofertados pelo SUS, a revista Epidemiologia e Serviços de Saúde (RESS) assume um importante papel em prol do fortalecimento do sistema de saúde brasileiro. Defender o SUS é dever de todos os governos, gestores, sociedade civil organizada, comunidade científica e profissionais de saúde. Vida longa ao SUS! 38UNIDADE I Epidemiologia, Saúde e Política de Saúde no Brasil MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Epidemiologia Básica (2ª Edição) Autor: R. Bonita, R. Beaglehole, T. Kjellström Editora: Livraria Santos Editora Com. Imp. Ltda Sinopse: Em 1996, quando a primeira edição foi traduzida para o Português,