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TEORIA DAS ESTRUTURAS II AULA 2 Prof.ª Patrícia Fontana 2 CONVERSA INICIAL Conforme apresentado no capítulo 1, o estudo das estruturas hiperestáticas exige mais cálculos do que apenas a aplicação das equações do equilíbrio da estática. No nosso estudo, veremos os dois métodos clássicos de análise de estruturas indeterminadas estaticamente, que são o Método das Forças e o Método dos Deslocamentos. O Método das Forças foi um dos primeiros métodos desenvolvidos para análise de estruturas hiperestáticas e, portanto, será o nosso primeiro objeto de estudo. Neste capítulo, são apresentados os conceitos do método e a sua aplicação quando do estudo de duas estruturas: uma viga e um pórtico. TEMA 1 – MÉTODO DAS FORÇAS: CONCEITO O Método das Forças consiste em um dos procedimentos de cálculo para resolução de estruturas hiperestáticas. O método permite a determinação das reações de apoio e esforços internos das ditas estruturas indeterminadas estaticamente, ou seja, aquelas que apresentam mais do que três incógnitas (estruturas planas) ou seis incógnitas (estruturas espaciais), sendo inviável solucionar o problema matemático apenas com as equações do equilíbrio da estática. Então, o Método das Forças inclui nos cálculos a análise das condições de compatibilidade dos deslocamentos das estruturas, assim como, as teorias clássicas referentes ao comportamento e propriedades dos materiais (Leis Constitutivas dos Materiais) para permitir a resolução das estruturas hiperestáticas. O método resolve os problemas de análise das estruturas na seguinte ordem: 1° Atendimento das condições de equilíbrio pela estrutura; 2° Aplicação dos conceitos relacionados ao comportamento dos materiais (leis constitutivas); 3° Atendimento das condições de compatibilidade de deslocamentos. 3 Segundo apresentado por Martha (2010), na prática, a metodologia utilizada pelo Método das Forças para analisar uma estrutura hiperestática pode ser descrita da seguinte forma: Para melhor entendimento do procedimento, considere o exemplo de um pórtico plano, apresentado na Figura 1. O primeiro passo da análise de uma estrutura pelo Método das Forças se dá com a determinação do grau de hiperestaticidade. Figura 1 - Exemplo de pórtico plano hiperestático O grau de hiperestaticidade pode ser representado por ‘gh’ e consiste no número de incógnitas excedentes ao número de equações de equilíbrio. No caso de estruturas planas, são três as equações do equilíbrio global da estrutura, quais sejam: ΣFx = 0 → somatório de forças na direção horizontal igual a zero; “Somar uma série de soluções básicas que satisfazem as condições de equilíbrio, mas não satisfazem as condições de compatibilidade da estrutura original, para na superposição restabelecer as condições de compatibilidade.” 4 ΣFy = 0 → somatório de forças na direção vertical igual a zero; ΣMz = 0 → somatório de momentos em torno de ‘z’, em relação a um ponto qualquer, igual a zero. No pórtico apresentado observa-se no ponto A um apoio do tipo engaste, ou seja, um tipo de apoio que impede os movimentos de translação no sentido vertical e horizontal e impede o movimento de rotação, surgindo as reações de apoio VA, HA e MA, respectivamente. E no ponto B um apoio do tipo articulado fixo, ou seja, um tipo de apoio que impede os movimentos de translação no sentido vertical e horizontal, sendo nesse ponto livre a rotação, surgindo as reações de apoio VB e HB, respectivamente Então, no caso do pórtico de exemplo, o cálculo do grau de hiperestaticidade é dado por: 5 incógnitas (HA, VA, MA, VB, HB) gh = 5 – 3 = 2 3 equações do equilíbrio da estática Após a definição do grau de hiperestaticidade deve ser obtida uma nova estrutura a partir de uma modificação da estrutura original, por meio da eliminação de vínculos. Essa nova estrutura é chamada de Sistema Principal (SP) e sempre consistirá em uma estrutura isostática. Essa nova estrutura será obtida por meio da eliminação de uma quantidade de vínculos igual ao grau de hiperestaticidade. Lembrando que um cada impedimento de movimento ocorre devido à existência de um vínculo. Então, no pórtico de exemplo tem-se o impedimento de cinco movimentos (3 no ponto A e 2 no ponto B), ou seja, 5 vínculos externos (apoios). Uma mesma estrutura pode possuir diversos sistemas principais. No caso de exemplo, um dos sistemas principais possíveis é apresentado na Figura 2, em que foi removido um vínculo no ponto A e um vínculo no ponto B: • No ponto A o apoio foi modificado de forma tal que nesse ponto a rotação fique livre, ou seja, o apoio do tipo engaste foi substituído por um apoio do tipo articulado fixo. 5 • No ponto B o apoio foi modificado com a liberação do movimento horizontal, ou seja, o apoio do tipo articulado fixo foi substituído por um apoio do tipo articulado móvel. Figura 2 - Estrutura modificada Do ponto de vista de equilíbrio de forças observa-se que o pórtico da Figura 2 é diferente do pórtico da Figura 1. Então, para reestabelecer as condições de equilíbrio, são inseridas forças nos apoios modificados que equivalem às reações de apoio que deixaram de existir nesse novo sistema estrutural. Essa nova estrutura isostática, obtida por meio da remoção de vínculos e na qual foram inseridas forças que equivalem às reações de apoio, é o chamado Sistema Principal (SP) do Método das Forças. Figura 3 - Sistema principal para análise da estrutura pelo Método das Forças 6 As forças ou os momentos associados aos vínculos liberados são as incógnitas do problema pelo método das forças e são denominados hiperestáticos. Os hiperestáticos serão representados pela letra X, como pôde ser visto na Figura 3. No pórtico, os esforços associados aos vínculos eliminados são as reações de apoio MA e HB, ou seja: X1 = MA → reação momento associada ao vínculo de impedimento do movimento de rotação no ponto A; X2 = HB → reação horizontal associada ao vínculo de impedimento do movimento de translação horizontal no ponto B. Observa-se, então, que do ponto de vista de equilíbrio de forças, o sistema principal é equivalente à estrutura original. Figura 4 - Estrutura original, à esquerda, e sistema principal, à direita Apesar de o Sistema Principal atender às condições de equilíbrio de forças, ele não atende às condições de compatibilidade de deslocamentos, uma vez que é possível observar que na estrutura original a rotação no ponto A e o deslocamento horizontal no ponto B são nulos (Figura 5), o que não ocorre no sistema principal. 7 Figura 5 - Configuração deformada (exagerada) da estrutura de estudo Para que as condições de compatibilidade de deslocamentos sejam atendidas é realizada a chamada superposição de soluções básicas, quando a estrutura do Sistema Principal é analisada quando da atuação de cada carga isoladamente. No método das forças cada solução básica é chamada de Caso básico e não satisfaz isoladamente todas as condições de compatibilidade de deslocamento da estrutura original, as quais ficam restabelecidas quando se superpõem todos os casos básicos. A solução do problema acontece com a obtenção dos valores que X1 e X2 devem ter para, juntamente com o carregamento aplicado na estrutura, recompor os vínculos de apoio eliminados. Isto é, procuram-se os valores dos hiperestáticos que fazem com que as condições de compatibilidade sejam violadas na criação do sistema principal. No caso do exemplo de estudo, significa encontrar os valores de X1 e X2 que garantam que a rotação no ponto A e o deslocamento horizontal no ponto B sejam nulos. Para permitir a obtenção dos valores de X1 e X2 deve ser feita a superposiçãode casos básicos, utilizando o SP como estrutura para as soluções 8 básicas, e para cada caso básico devem ser calculados os valores dos deslocamentos nos pontos onde foram violadas as condições de compatibilidade. Ao se somar os deslocamentos de cada caso básico, o valor deve ser igual a zero para permitir que as condições de compatibilidade de deslocamento da estrutura sejam reestabelecidas. O número de casos básicos é sempre igual ao grau de hiperestaticidade mais um (g + 1). No exemplo, isso resulta em 3 casos básicos, que serão chamados de Caso 0, 1 e 2. O Caso Básico (0) é aquele composto pelo SP com a atuação isolada da ação externa (carregamento aplicado). No caso do pórtico, a força horizontal de 20 kN e a força distribuída linear de 5 kN/m, que atua na viga. Na Figura 6 é possível observar que essas cargas geram uma rotação no ponto A e um deslocamento horizontal no ponto B. Esses valores devem ser calculados com uso de equações baseadas nas Leis Constitutivas dos Materiais (e que foram vistas nos estudos de Resistência dos Materiais e Teoria das Estruturas 1). No Método das Forças a rotação δ10 e o deslocamento horizontal δ20, nas direções dos vínculos eliminados para a criação do SP, são chamados de termos de carga. Segundo apresentado por Martha (2010), um termo de carga é definido formalmente como: “δi0 → termo de carga: deslocamento ou rotação na direção do vínculo eliminado associado ao hiperestático Xi quando atua a solicitação externa isoladamente no SP (com hiperestáticos com valores nulos).” 9 Figura 6 - Caso 0 → SP com a atuação isolada das ações externas (carregamento aplicado) Obs.: os procedimentos de cálculo para obtenção dos deslocamentos serão apresentados nos capítulos que seguem desse material de estudo. No exemplo, o sinal negativo da rotação δ10 indica que a rotação tem o sentido contrário do que é considerado para o hiperestático X1 no caso (1). De maneira equivalente, o sinal positivo de δ20 indica que este deslocamento tem o mesmo sentido, que é considerado para o hiperestático X2 no caso (2). O Caso Básico (1) é aquele em que ocorre a atuação de maneira isolada do hiperestático X1 (ver Figura 7). Como o valor de X1 é justamente a incógnita do problema, considera-se um valor unitário para X1, sendo o deslocamento devido a X1 = 1 multiplicado pelo valor final que X1 deverá ter para obtenção do valor do deslocamento. 10 Figura 7 - Caso 1 → SP com a atuação isolada do hiperestático X1 = 1 Linha tracejada representa a configuração deformada (com fator de amplificação igual a 2000) do SP no caso (1). A rotação δ11 e o deslocamento horizontal δ21 provocados por X1 = 1, nas direções dos vínculos eliminados para a criação do SP, são chamados de coeficientes de flexibilidade. Segundo Martha (2010), um coeficiente de flexibilidade pode ser definido como: δ ij → coeficiente de flexibilidade: deslocamento ou rotação na direção do vínculo eliminado associado ao hiperestático Xi devido a um valor unitário do hiperestático Xj atuando isoladamente no SP. O Caso Básico (2) é aquele em que ocorre a atuação de maneira isolada do hiperestático X2 (ver Figura 8). Assim como acontece para X1, o valor de X2 é justamente uma das incógnitas do problema, sendo necessário considerar um valor unitário para X2. É obtido, então, o deslocamento devido a uma carga unitária (X2 = 1), o qual será multiplicado pelo valor final de X2 para obtenção do valor do deslocamento devido a esse caso básico. 11 Figura 8 - Caso 2 → SP com a atuação isolada do hiperestático X2 = 1 Linha tracejada representa a configuração deformada (com fator de amplificação igual a 2000) do SP no caso (2). A etapa final do método consiste em utilizar a superposição de efeitos para restabelecer as condições de compatibilidade violadas na criação do SP. Ou seja, no pórtico de estudo sabemos que o deslocamento de rotação do ponto A e o deslocamento horizontal no ponto B são nulos. Então: • Superposição das rotações do nó inferior esquerdo (nó A): θA = 0 (rotação no ponto A é nula na estrutura de estudo) δ10 + δ11 . X1 + δ12 . X2 = 0 • Superposição dos deslocamentos horizontais no nó inferior direito (nó B): ΔBH = 0 (deslocamento horizontal no ponto B é nulo na estrutura de estudo) δ20 + δ21.X1 + δ22.X2 = 0 E assim obtém-se o chamado Sistema de equações de compatibilidade: Ao se resolver esse sistema de equações de compatibilidade são obtidos os seguintes valores das reações de apoio X1 e X2: 12 X1 = +13,39 kN.m → X1 representa a reação momento no ponto A (MA), por isso a unidade é kN.m. X2 = −17,29 kN → X2 representa a reação de força horizontal no ponto B (HB), por isso a unidade é kN. O sinal de X1 é positivo, pois tem o mesmo sentido (anti-horário) do que foi arbitrado para X1 = 1 no caso (1), e o sinal de X2 é negativo, pois tem o sentido contrário (da direita para a esquerda) ao que foi arbitrado para X2 = 1 no caso (2), como representado na Figura 9. Figura 9 - Reações de apoio obtidas com a aplicação do Método das Forças TEMA 2 – MÉTODO DAS FORÇAS: PROCEDIMENTO DE ANÁLISE EM RESUMO Para facilitar o entendimento da aplicação do método no estudo das estruturas hiperestáticas é apresentado, a seguir, a sequência de análise que será utilizada na solução das estruturas de exemplo a serem estudadas. 13 • 1º passo: determinação do grau de hiperestaticidade (gh); • 2º passo: definição da estrutura fundamental ou sistema principal por meio da remoção de vínculos. O SP deve sempre ser uma estrutura isostática, ou seja, uma estrutura em equilíbrio; • 3º passo: discretização: montagem dos casos básicos e determinação dos deslocamentos para cada um dos casos básicos. Caso 0 – carregamento real. Demais casos devido aos hiperestáticos (Caso 1, 2 etc.). δ i0 → termo de carga: deslocamento ou rotação na direção do vínculo eliminado associado ao hiperestático Xi quando atua a solicitação externa isoladamente no SP (com hiperestáticos com valores nulos). δ ij → coeficiente de flexibilidade: deslocamento ou rotação na direção do vínculo eliminado associado ao hiperestático Xi devido a um valor unitário do hiperestático Xj atuando isoladamente no SP. • 4º passo: aplicação da(s) equação(ões) de compatibilidade – deslocamentos nos apoios são nulos. Com a resolução do sistema de equações são determinados os valores dos hiperestáticos. TEMA 3 – EXEMPLO 2.1: VIGA SUBMETIDA A CARREGAMENTO DISTRIBUÍDO LINEAR Ao lado é apresentado o modelo estrutural de uma viga hiperestática e um dos possíveis sistemas principais para resolução pelo Método das Forças. Considerando o sistema principal apresentado, determinar o valor dos hiperestáticos X1 e X2. Dados: Viga com rigidez à flexão (EI) constante em todos os vãos. 14 Solução: 1º Determinação do grau de hiperestaticidade gh = 5 – 3 = 2 2º Escolha do sistema principal 3º Montagem dos casos básicos e cálculo dos deslocamentos No estudo de vigas, os deslocamentos nos casos básicos podem ser determinados com o auxílio de tabelas de deflexões e rotações, que são normalmente encontradas em livros de Resistência dos Materiais ou Mecânica das Estruturas, como é o caso das tabelas disponibilizadas no Anexo A e transpostas parcialmente ao longo da presente resolução. Caso 0 15 𝛿𝛿10 = 2 × 62 24𝐸𝐸𝐸𝐸 (6 × 102 − 4 × 10 × 6 + 62) = −1.188 𝐸𝐸𝐸𝐸 𝛿𝛿20 = 2 × 102 8𝐸𝐸𝐸𝐸 = −2.500 𝐸𝐸𝐸𝐸 Caso 1 𝛿𝛿11 = 62 6𝐸𝐸𝐸𝐸 (3 × 6 − 6) = 72 𝐸𝐸𝐸𝐸 𝛿𝛿21 = 62 6𝐸𝐸𝐸𝐸 (3 × 10 − 6) = 144 𝐸𝐸𝐸𝐸 16 Caso 2 𝛿𝛿12 = 62 6𝐸𝐸𝐸𝐸 (3 × 10 − 6) = 144 𝐸𝐸𝐸𝐸 𝛿𝛿22 = 1×103 3𝐸𝐸𝐸𝐸 = 333,33 𝐸𝐸𝐸𝐸 4º Equações de compatibilidade dos deslocamentosA compatibilidade dos deslocamentos da estrutura de análise é reestabelecida quando se somam os deslocamentos de cada um dos casos básicos com as seguintes condições: ΔBV = 0 (deslocamento vertical no ponto B é nulo) ΔCV = 0 (deslocamento vertical no ponto C é nulo) Como a rigidez à flexão (EI) é constante em toda a viga, é possível escrever as equações de compatibilidade da seguinte forma. 72.X1 + 144.X2 – 1.188 = 0 144.X1 + 333,33.X2 – 2.500 = 0 Uma outra forma de apresentar essas equações é da forma matricial, conforme segue: Vetor dos hiperestáticos � 72 1444 144 333,33� × �X1X2 � + �−1.188 −2.500� = 0 Matriz de flexibilidade Vetor dos termos de carga Essa forma matricial de representação do sistema é escolhida nos casos de estruturas com elevado grau de hiperestaticidade e que exige, portanto, uma série de cálculos matemáticos para solução do problema. 17 Com esse formato também é possível observar que a matriz de flexibilidade sempre será simétrica. Isso será mais bem fundamentado no Tópico 4 desta abordagem. Então, os valores dos hiperestáticos são calculados obtendo-se os seguintes resultados. X1 = 11,03 tf → reação de apoio vertical no ponto B da estrutura em análise. X2 = 2,74 tf → reação de apoio vertical no ponto C da estrutura em análise. 5º Cálculo das demais reações de apoio e esforços internos Após obtenção das reações de apoio representadas pelos hiperestáticos X1 e X2 é possível aplicar as equações do equilíbrio da estática para obtenção das demais reações de apoio e posterior determinação dos esforços internos, que são apresentados nas imagens que são apresentadas a seguir. • Diagrama de esforços cortantes • Diagrama de momentos fletores • Configuração deformada (exagerada) da viga e reações de apoio 18 TEMA 4 – TEOREMA DE MAXWELL DE DESLOCAMENTOS RECÍPROCOS: LEI DE BETTI O Método das Forças é assim chamado pois as incógnitas são forças (ou momentos). Outro nome dado ao método é Método da Compatibilidade ou Método da Flexibilidade, pois as equações finais expressam condições de compatibilidade de deslocamentos e envolvem coeficientes de flexibilidade em sua solução. Segundo apresentado por Hibbeler (2013), o método das forças foi desenvolvido por James Clerk Maxwell, em 1864, sendo um dos primeiros métodos disponíveis para análise de estruturas hiperestáticas. Na mesma época de desenvolvimento do método, Maxwell publicou sobre um teorema que relaciona os coeficientes de flexibilidade de quaisquer dois pontos em uma estrutura elástica, que possui o seguinte enunciado: Então, segundo o Teorema de Maxwell, a matriz de flexibilidade do Método das Forças será sempre simétrica. Ou seja: δ ji = δ ij . TEMA 5 – EXEMPLO 2.2: PÓRTICO E APLICAÇÃO DAS TABELAS DE SOLUÇÃO DE INTEGRAIS DE MOMENTOS Outra forma para obtenção dos deslocamentos dos sistemas principais consiste na aplicação do Princípio dos Trabalhos Virtuais, como visto no estudo de Teoria das Estruturas 1, o qual será aplicado para análise da estrutura descrita a seguir. Na Figura 10 é apresentado um pórtico metálico, que serve de apoio ao tabuleiro de um viaduto. Considere que a carga atuante no pórtico metálico decorrente do peso do tabuleiro seja de 40 kN/m e uma rigidez à flexão (EI) “O deslocamento de um ponto B em uma estrutura em razão de uma carga unitária atuando no ponto A é igual ao deslocamento no ponto A quando a carga unitária está atuando no ponto B, isto é, δAB = δBA.” 19 constante em todo o pórtico metálico. Quais são as reações de apoio existentes na estrutura? Figura 10 - Pórtico metálico de suporte do tabuleiro de um viaduto Crédito: Wasteresley Lima. Figura 11 - Modelo de análise do pórtico biapoiado de suporte do tabuleiro de um viaduto Solução: 1º Determinação do grau de hiperestaticidade gh = 5 – 3 = 2 20 2º Escolha do sistema principal Figura 12 - Sistema principal para estudo do pórtico pelo Método das Forças 3º Montagem dos casos básicos e cálculo dos deslocamentos Analisando o sistema principal da Figura 12 é possível observar que no ponto A o movimento horizontal é livre, o que não ocorre na estrutura original, onde existe um apoio articulado fixo e, então, o deslocamento horizontal é nulo. Portanto, na análise dos casos básicos serão buscados os valores dos deslocamentos horizontais no ponto A para, posteriormente, se fazer a sobreposição dos casos básicos a fim de restabelecer as condições de compatibilidade dos deslocamentos. Caso 0 O caso (0) consiste na análise do SP quando da consideração isolada da atuação dos carregamentos externos, no caso, o efeito da carga distribuída linear na viga. 21 Figura 13 - Sistema principal para estudo do pórtico pelo Método das Forças com a atuação do carregamento externo δ10 → deslocamento vertical no ponto do apoio eliminado associado a X1 provocado pelo carregamento externo no caso (0). Para aplicação do PTV na determinação dos deslocamentos em uma estrutura isostática é necessário aplicar uma carga unitária virtual no ponto e na direção onde se deseja obter o deslocamento, ou seja, uma carga unitária horizontal no ponto A, uma vez que o que se busca é encontrar o deslocamento horizontal no ponto A (δ10). O sistema indicado acima trata-se do sistema virtual. E o sistema real é indicado na imagem que segue. 22 Aplica-se, então, a equação de obtenção de deslocamentos pelo PTV, dada por: Caso 1 No caso (1) deve ser calculado o valor do deslocamento horizontal no ponto A (coeficiente de flexibilidade δ11) devido à atuação do hiperestático X1 = 1 de maneira isolada no SP. 23 Figura 14 - Sistema principal para estudo do pórtico pelo Método das Forças com a atuação do hiperestático X1 = 1 δ11 → deslocamento vertical no ponto do apoio eliminado associado a X1 provocado por X1 = 1 no caso (1). Para isso será utilizado o PTV, aplicando uma carga unitária virtual no ponto e na direção onde se deseja obter o deslocamento, ou seja, uma carga unitária horizontal no ponto A, uma vez que o que se busca é encontrar o deslocamento horizontal no ponto A devido ao hiperestático X1 (δ11). O sistema indicado acima trata-se do sistema virtual. E o sistema real é aquele em que atua o hiperestático X1. 24 Observe que, no caso da obtenção do coeficiente de flexibilidade (δ11), o sistema virtual e o real são os mesmos. Aplicando-se a equação de obtenção de deslocamentos pelo PTV, dada por: Tem-se: Aplicando a tabela de solução de integral de momentos ao invés de se calcular os momentos em função de x, devem ser desenhados os diagramas de esforços internos. Caso 0 Com esse exemplo é possível observar que o cálculo dos deslocamentos em estruturas isostáticas pode resultar em integrais que demandam muitos cálculos, sendo que foram desenvolvidos métodos gráficos para solução das integrais, que facilitam a resolução. O uso do método gráfico citado é apresentado a seguir. 25 Real Virtual 𝛿𝛿10 = �12 × 5 × 1.000 × (−5) + 1 2 × 5 × 1000 × (−5) + 10 × 1.000 × (−5) + 2 3 × 10 × 500 × (−5)� 𝐸𝐸𝐸𝐸 𝛿𝛿10 = −91.666,67 𝐸𝐸𝐸𝐸 26 Caso 1 Real Virtual 𝛿𝛿11 = �13 × 5 × (−5) × (−5) + 1 3 × 5 × (−5) × (−5) + 20 × (−5) × (−5)� 𝐸𝐸𝐸𝐸 𝛿𝛿11 = 583,33 𝐸𝐸𝐸𝐸 4º Equações de compatibilidade dos deslocamentos. A condição de compatibilidade de deslocamentos é reestabelecida quando se diz que o deslocamento horizontal no ponto A é nulo, uma vez que nesse ponto existe um apoio fixo no pórtico de estudo. Então: ΔAH = 0 (deslocamento horizontal no ponto A é nulo) 27 Como a rigidez é constante, o valor de X1 independe do parâmetro EI (rigidez à flexãoda viga), o qual é eliminado na solução da equação de compatibilidade. 583,33.X1 + -91.666,67 = 0 X1 = 157 kN → reação de apoio horizontal no ponto A da estrutura em análise. 5º Cálculo das demais reações de apoio e esforços internos Após obtenção da reação de apoio representada pelo hiperestático X1 é possível aplicar as equações do equilíbrio da estática para obtenção das demais reações de apoio e posterior determinação dos esforços internos, que são apresentados nas imagens que seguem. • Reações de apoio • Diagrama de esforços normais • Diagrama de esforços cortantes 28 • Diagrama de momentos fletores FINALIZANDO Nesta abordagem, foram iniciados os estudos de estruturas hiperestáticas com a apresentação dos conceitos do Método das Forças e sequência de análise, assim como, apresentação de dois exemplos. No exemplo 2.1 foi realizado o estudo de uma viga submetida a um carregamento distribuído linear, e no exemplo 2.2 foi feito o estudo de um pórtico, quando foi apresentado, ainda, o procedimento de cálculo com o uso da tabela de solução de integral de momento, que consiste em uma forma de cálculo mais simples no caso do estudo de pórticos. 29 REFERÊNCIAS HIBBELER, R. C. Análise de estruturas. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2013. HIBBELER, R. C. Structural analysis. New Jersey: Pearson Education River, 2012. MARTHA, L. F. Análise de estruturas. Conceitos e métodos básicos. 2. ed. São Paulo: Editora Elsevier, 2010. 560 p. 30 ANEXO A – TABELA DE DEFLEXÕES E INCLINAÇÕES EM VIGAS Fonte: Hibbeler (2013). 31 32 33 34 35 36 ANEXO B – TABELA PARA CÁLCULO DA INTEGRAL DE MOMENTOS Fonte: Martha (2010). Conversa inicial FINALIZANDO REFERÊNCIAS