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Rafael Mafei Rabelo Queiroz Marina Feferbaum coordenadores Metodologia da Pesquisa em Direito técnicas e abordagens para elaboração de monografias, dissertações e teses edição 2019 saraiva jurISBN 978-85-536-1249-9 APRESENTAÇÃO À EDIÇÃO DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP) ANGÉLICA ILACQUA CRB-8/7057 Metodologia da pesquisa em direito técnicas e aborda- gens para elaboração de monografias, dissertações e teses / saraiva coordenadores: Marina Feferbaum, Rafael Mafei Rabelo Quei- saraiva EDUCAÇÃO roz. 2. São Paulo Saraiva, 2019. Av. Doutora Ruth Cardoso, 7.221, andar, Setor Título anterior: Metodologia jurídica : um roteiro prático Pinheiros São Paulo SP CEP 05425-902 para trabalhos de conclusão de curso. 1. Pesquisa jurídica Metodologia 2. Redação forense 3. Redação técnica Feferbaum, Marina II. Queiroz, Rafael Mafei SAC sac.sets@somoseducacao.com.br Rabelo. CDU 340.115 Este livro deveria ser uma segunda edição de nossa obra anterior Metodologia 19-1018 um roteiro prático para trabalhos de conclusão de curso (Série GVlaw, Ed. Sarai- Índice para catálogo sistemático: 1. Pesquisa jurídica Metodologia 340.115 va, 2012). O primeiro livro foi escrito com um propósito bastante específico: servir Direção executiva Flávia Alves Bravin como manual de pesquisa jurídica para alunos de pós-graduação lato sensu. Esse ob- Direção editorial Renata Pascual Müller Gerência editorial Roberto Navarro jetivo determinou as características fundamentais da obra: textos curtos, eminente- Gerência de produção Ana Paula Santos Matos mente práticos, voltados às dificuldades cotidianas de pesquisadoras e pesquisadores e planejamento Gerência de projetos e Fernando Penteado com baixa experiência acadêmica e pouca disponibilidade de tempo (porque, geral- serviços editoriais mente, dividem seu tempo de dedicação à pós-graduação com carreira e família). Consultoria acadêmica Murilo Angeli Dias dos Santos A recepção da obra, porém, foi muito além do que esperávamos: em pouco tem- po tivemos notícia de que livro se tornara leitura obrigatória não apenas em cursos Planejamento Clarissa Boraschi Maria (coord.) de especialização, mas também de graduação e de pós-graduação stricto sensu em todo Novos projetos Melissa Rodriguez Arnal da Silva Leite Brasil. Acreditamos que esse resultado deveu-se tanto às suas características edito- riais únicas (simplicidade, viés prático, apelo visual dos textos e quadros), quanto, e Edição Eveline Gonçalves Denardi (coord.) Daniel Pavani Naveira principalmente, à qualidade das autoras e autores que contribuíram com capítulos Data de fechamento da edição: 12-7-2019 excepcionais dentro de seus temas de expertise. Produção editorial Luciana Cordeiro Shirakawa A ampla aceitação daquele livro nos animou a publicar uma segunda edição, Dúvidas? Acesse www.editorasaraiva.com.br/direito Arte digital Mônica Landi (coord.) melhorada no que fosse possível. Contudo, sete anos nos separam desde a primeira Amanda Mota Loyola Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por publicação e, ao longo desse período, direito mudou muito, em diversos aspectos. Camilla Felix Cianelli Chaves Claudirene de Moura Santos Silva qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Enfrentar novos paradigmas, ocasionados pelo impacto da tecnologia no modo como Saraiva. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido Deborah Mattos na Lei n. 9.610/98 e punido pelo art. 184 do Código Penal. se pesquisa e se faz direito, trouxe a necessidade de revisar métodos, técnicas e te- Fernanda Matajs mas para atender a um mundo que está em constante transformação. Guilherme H. M. Salvador CL 605903 CAE 659138 Tiago Dela Rosa Após muito tempo de trabalho, notamos que as melhoras haviam sido tantas que não faria sentido a publicação da nova obra como segunda edição. Daí a opção Projetos e serviços editoriais Juliana Bojczuk Fermino por um novo livro, mais ambicioso que anterior: ele pretende ser um manual de Kelli Priscila Pinto referência para pesquisas para qualquer nível acadêmico no direito inclusive o mes- Marília Cordeiro Mônica Gonçalves Dias trado profissional, objeto de um capítulo próprio (Capítulo 3). Tantas mudanças re- comendavam, ainda, a publicação deste novo produto fora de sua coleção editorial de Projeto gráfico Fernanda Matajs origem. Os editores, felizmente, concordaram com nossa decisão. Diagramação Muiraquitã Editoração Gráfica Revisão Daniela Georgeto Além das muitas mudanças em capítulos que estavam no livro anterior, alguns Tiago Dela Rosa deles inteiramente reescritos como capítulo de pesquisa na internet, agora mais Produção gráfica Marli Rampim voltado a técnicas aplicadas de busca em vários portais acadêmicos esta nova obra Sergio Luiz Pereira Lopes Impressão e acabamento Gráfica Paym traz importantes acréscimos. Além do já mencionado capítulo sobre a pesquisa no mestrado profissional, há um capítulo inteiramente dedicado à integridade acadêmicaAPONTAMENTOS SOBRE A REDAÇÃO TEXTO DO TRABALHO ACADÊMICO RAFAEL MAFEI RABELO QUEIROZ¹ MARINA 1. É PRECISO SABER AONDE SE QUER CHEGAR Uma vez definido tipo de pesquisa que se quer fazer, e depois de executado levantamento de dados, além de seu re- gistro e interpretação consoante as necessidades da investiga- ção, chega, enfim, momento da redação do texto. A última parte deste livro cuidará dessa etapa por meio de dois capítu- los. O próximo capítulo abordará aspectos formais de pre- paração do trabalho: elementos pré-textuais, textuais e pós- -textuais, além de regras para citação e referência bibliográfica de textos e documentos utilizados pelo autor. Já este capítulo cuidará de um trabalho anterior à formatação, e que represen- ta, na verdade, coração do processo de redação do trabalho 1 Livre-docente em Direito pelo Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Pau- lo (USP); professor associado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). 2 Doutora e mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); coordenadora de Metodologia de Ensino da Es- cola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Direi- to SP); coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Tecnologia (FGV Direito SP); professora de graduação e pós-graduação da FGV Direito SP.454 Metodologia da pesquisa em Direito Capítulo 24 Apontamentos sobre a redação e 0 texto do trabalho acadêmico 455 científico jurídico: a estruturação e a redação do argumento do trabalho, tal qual 2. ESCREVENDO EM CAMADAS será apresentado no texto final. No primeiro capítulo de Ronald Dworkin, livro dedicado ao pensamento do Muito mais fácil do que escrever um texto de, digamos, 50 páginas de uma vez famoso jurista e filósofo norte-americano, seu autor, Stephen Guest, conta ao leitor que só é escrever um texto bem mais curto de 5 páginas, por exemplo e então apro- um dos capítulos de A matter of principle, um dos mais impactantes livros de Dworkin, fundar-lhe sucessivamente em níveis de complexidade crescente, que levarão às consiste na reprodução fiel de uma palestra dada por ele na Academia Britânica, em mesmas 50 páginas. Ilustrativamente, pense no trabalho como uma cebola, com ca- 1977 (GUEST, 2010, p. 15). Stephen Guest relata que a palestra durou cerca de uma madas que se sobrepõem: ele ganha forma em etapas bem definidas, mas escritor hora e Dworkin a proferiu sem ter em mãos quaisquer anotações visíveis: ele simples- trabalha a cada instante em uma delas, aumentando aos poucos nível de detalha- mente subiu ao púlpito e falou por uma hora, mas fez de maneira tão organizada e mento e profundidade de cada parte do texto. Ao saber exatamente em que está tra- com argumentos tão bem articulados que seu produto final transcrito se constitui em balhando, e tendo sempre em mente papel de cada parte no todo do texto, escritor um texto filosófico de primeira grandeza, complexo e sofisticado. Infelizmente, à faci- diminui riscos de trabalho final tomar corpo de forma desproporcional e em lidade de articulação de Dworkin, absolutamente excepcional, opõe-se a realidade ma- desconformidade com seus objetivos iniciais. ciça de estudantes, autores e professores que, mesmo após terem lido e estudado muito As diferentes etapas em que se pode trabalhar são variáveis. Reitere-se: não há sobre seus temas, olham paralisados para cursor piscante na página em branco do fórmula estanque para definir quais sejam elas. A essência dessa técnica é fracionar Word, inseguros até mesmo de qual a primeira frase a ser escrita. texto integral de acordo com os distintos níveis de complexidade e aprofundamento Entre autores de pouca experiência, é muito comum que texto comece a se exigidos pela forma final do trabalho, e isso pode ser feito de incontáveis maneiras. avolumar de maneira confusa e desarticulada, frequentemente tergiversando para Nos itens a seguir, sugiro um roteiro para tanto. temas tangentes que, a despeito de interessantes em si mesmos, ficam fora do tema estrito do trabalho. Outras vezes, texto vai se transformando em uma reunião de 2.1. Primeiro passo: um esqueleto de cinco páginas resumos ou fichamentos do material consultado ao longo da pesquisa, mas sem se Imagine que, em uma banca de concurso, algum dos examinadores lhe peça para articular como um argumento do autor. Isso tudo é resultado de um desequilíbrio resumir, em um minuto, o trabalho que você está prestes a escrever. É das tarefas mais entre muito tempo gasto na coleta de informações e a leitura de textos e documen- difíceis realizar um exercício de síntese tão grande sobre algo que se tenha estudado tos, de um lado, e, de outro, pouco (ou nenhum) tempo gasto na reflexão sobre muito, mas é, ao mesmo tempo, um bom exercício de organização de ideias. Que infor- como os resultados de todo trabalho de pesquisa devem ser oferecidos ao futuro mações deve conter essa apertadíssima síntese? Em suma, ela deve oferecer: leitor do trabalho científico. As duas coisas são diferentes, muito embora relaciona- problema de pesquisa, isto é, tema a que se dedicou a investigação. das: uma coisa é eu saber o que dizem autores A, B e C, ou julgados X, Y e Z sobre o tema que me interessa. Outra, bem diferente, é saber que papel tem cada um As de trabalho, isto é, respostas imaginadas a questões que trabalho deles na cadeia do argumento que vou construir. Esta última definição não é dada suscite, que servirão para indicar sentidos que guiarão a seleção das fontes de pelos textos, julgados e documentos em si mesmos: ela é definida pelo autor, de acor- pesquisa, a coleta de dados, estudo de autores e a análise de tudo isso, em do com o sentido que ele quer dar ao seu texto. Sem que se tenha clareza disso "O busca do enfrentamento do problema de pesquisa. que quero dizer (argumentar, provar, mostrar) por meio de meu texto?" -, autor se As principais fontes pertinentes ao tema pesquisado, isto é, dispositivos legais e vê perplexo. Vale aqui conselho do Gato à Alice no livro de Lewis Carroll: quem precedentes judiciais ou administrativos, nacionais ou estrangeiros, que servem não sabe aonde quer chegar não tem como saber que caminho deve seguir. de referência para enfrentamento jurídico da questão, na esteira das hipóteses O propósito deste capítulo é oferecer uma estratégia de trabalho que permita ao de trabalho. Uma síntese da bibliografia fundamental é também relevante neste aluno enfrentar essa dificuldade, tão comum a autores de trabalhos científicos, de ponto, especialmente para trabalhos dedicados ao pensamento de autores ou forma que ele tenha clareza, durante todo processo de redação de seu trabalho, de correntes filosóficas específicas. aonde quer chegar e por onde deve seguir. Isso ajudará não só a reduzir a angústia do A forma de análise das informações coletadas ao longo da pesquisa, isto é, a maneira processo de escrita, como também, que é mais importante, a evitar desperdício de pela qual pesquisador articulou proveitosamente dados coletados e trabalho e de páginas de redação: textos mal planejados têm maior risco de acabarem argumentos dos autores lidos com problema da pesquisa e suas hipóteses de descartados, pois se tornam confusos e desconexos. Deve-se ter em mente, porém, investigação. que estratégias e preferências de escrita são temas muito íntimos e particulares: não 0 argumento construído a partir da investigação, isto é, qual é o encaminhamento há uma fórmula canônica sobre como fazê-lo, e nem este texto tem essa pretensão. para tratamento que sugerem todos dados levantados na investigação, e os Ele apenas reúne dicas que, no passado, já ajudaram outros pesquisadores que viven- autores nela estudados, e como eles se relacionam com as hipóteses originais de ciaram essa mesma situação, inclusive alguns dos autores deste livro. trabalho.456 Metodologia da pesquisa em Direito Capítulo 24 Apontamentos sobre a redação e texto do trabalho acadêmico 457 Essas informações devem ser colocadas no papel de maneira direta e objetiva, DICA: EVITE CAPITULOS OU TÓPICOS DESNECESSÁRIOS sem qualquer preocupação inicial com formatação, citações, referências, subdivisão Ao pensar nas partes componentes de seus textos monográficos, especialmente no caso do texto ou coisas afins. O importante, na fase inicial, é apenas dizer: colocar as coi- das monografias de maior extensão, muitos autores imaginam ter de prever certos tópicos sas no papel, buscando organizar o muito que se tem na cabeça sobre tema usuais, muito encontradiços em textos jurídicos, tais como "a parte "a legislação dentro de uma linha de raciocínio com começo, meio e fim. Se um trabalho "a entre outros. Dispense esses tópicos ou capítulos, a não ser acadêmico for comparado a uma gestação, essas páginas iniciais são a imagem do que sejam necessários para a reposta a ser dada a seu problema de pesquisa. Sugere-se a primeiro ultrassom morfológico: permitem identificar a estrutura básica daquele que leitura dos demais capítulos deste livro especificamente referentes a pesquisa histórica, di- será produto final do processo, embora ainda em fase muito incipiente; básico e reito comparado e pesquisa jurisprudencial para mais informações sobre o devido uso fundamental, porém, já estará ali, ao menos em um esboço rudimentar. Essa tarefa dessas fontes e métodos. de organização aparentemente simples é, na verdade, um grande trabalho de organi- zação mental: ela ordena não apenas texto, mas também as ideias do próprio autor 2.3. Terceiro passo: adicionar as principais referências sobre seu trabalho. Uma vez que a estrutura do trabalho esteja definida, é possível começar a en- xertá-la com suas partes textuais. O primeiro esqueleto de cinco páginas pode agora 2.2. Segundo passo: pensar o sumário descritivo do trabalho ser distribuído nessa estrutura. É possível também adensá-la com a incorporação das Com esse esboço em mãos, que dependerá de certa quantidade de estudo pré- principais referências: autores e obras com que dialoga e que serão tratados com va- vio e certo tempo de reflexão para que saia bem feito, pesquisador poderá ter gar no trabalho, decisões judicias, dispositivos legais etc. Todo texto acadêmico "con- condições de redigir um sumário para seu texto final, ainda que provisório. O su- versa" com outras referências; uma vez definida a estrutura do texto, é possível já mário é índice do trabalho, indicando os capítulos em que se dividirá texto fi- colocar as mais relevantes dentro de seu local apropriado. nal, com itens e subitens. No caso de artigos científicos, apenas itens e subitens Essas primeiras referências podem ser os marcos teóricos do trabalho, ou outras bastarão. indicações de natureza mais metodológica (que expliquem como os problemas de Um sumário feito nesse momento inicial será provavelmente preliminar: o aprofun- pesquisa serão enfrentados). Podem também ser outros autores e textos que represen- damento da pesquisa, bem como da própria redação do texto, indicará modificações tem o estado da arte do tema especificamente abordado pela monografia. Podem, necessárias. Não obstante, pensar no sumário é útil desde já porque ele não deixa de ainda, ser os trabalhos com quais o autor terá embates diretos ao longo de sua ser uma importante reflexão sobre a forma de organização do argumento do autor, ou de monografia: um trabalho que defenda que hate speech não é albergado pela liberdade de expressão, terá de tratar com detalhes as opiniões de autores que discordem de sua apresentação de evidências de sua investigação, no enfrentamento de seu problema de tese, para mostrar onde estão errados. Da mesma forma, passagens e posições de pesquisa. outros autores que foram importantes na formação da do autor ao longo do Se a pesquisa é a busca de uma resposta a um problema ou questionamento re- processo de investigação precisam ser devidamente reconhecidas e creditadas. Tudo levante, suscetível de abordagem acadêmica, sumário deve indicar as etapas de desen- isso já pode ser incorporado ao trabalho, uma vez que sumário detalhado permite volvimento do raciocínio que efetivamente encaminhem a resposta que autor dará a seu saber com precisão onde cada um desses elementos problema de pesquisa. Cada capítulo, assim como cada item, deverá ser uma unidade relativamente autônoma de sentido, mas a sequência de capítulos, itens e subitens 2.4. Quarto passo: adicionar casos, exemplos, refutações e deve formar um argumento tanto quanto possível linear e, desde princípio, orien- referências faltantes tado ao sentido de expor a resposta ou argumento do autor em relação a seu problema A essa altura, o trabalho já estará mais encorpado: terá um esqueleto com seu de pesquisa. Esse sumário pode ser feito com uma lista numerada, ao menos com argumento bem delineado, bem como as referências aos principais autores com que seções primárias (p. ex., "Capítulo 2") e secundárias (itens 2.1, 2.2 etc.). Idealmente, se trabalhou durante a investigação. Isso terá dado todo o arcabouço conceitual do deve incluir o detalhamento de seções terciárias (itens 2.1.1, 2.1.2, 2.1.3 etc.) ou ainda argumento do autor. mais específicas, mesmo que essas seções não se constituam em itens de sumário no O passo seguinte seria rechear esse arcabouço com todo o detalhamento neces- texto final. Elas servirão, ainda assim, como indicativos de fracionamento do argu- sário à completude do trabalho: exemplos e contraexemplos, distinções e explicações mento total do trabalho, dando segurança a quem escreve - e também à orientadora pontuais, tudo aquilo, enfim, que esteja faltando para que argumento do trabalho ou orientador, que lê versões inacabadas do texto quanto à função de cada parte se torne pleno e bastante. Essa etapa agrega volume ao trabalho, mas não pode vir em dentro da estrutura total do trabalho científico. prejuízo de sua linearidade (fio condutor com começo, meio e fim) e objetividade.458 Metodologia da pesquisa em Direito Capítulo 24 Apontamentos sobre a redação e texto do trabalho acadêmico 459 2.5. Quinto passo: a introdução e as conclusões de coisas que não deveriam estar presentes e poderiam ser retiradas do texto" (ZINSSER, A última parte do trabalho consistirá na preparação da introdução e da conclu- 2017, 25) são do trabalho. Essas partes consistem, como sugere uma conhecida fórmula repeti- Após concluir uma primeira versão do texto integral, ele deve ser objeto de uma da por professores de metodologia, em falar sobre aquilo que será dito ao longo do leitura que tenderá a reescrevê-lo quase que por completo, parágrafo por parágrafo. texto (introdução) e recapitular que se disse ao longo do texto (conclusão). Para essa etapa, é necessário separar uma boa quantidade de tempo, pois se trata de Isso ajuda a entender porquê de se sugerir que a introdução, um pouco con- um processo demorado e cansativo. Não se trata apenas de uma revisão ortográfica e traintuitivamente, fique para fim: como 0 trabalho está sujeito, durante 0 processo gramatical, note-se, mas de uma revisão de estilo: é preciso buscar a melhor forma de escrita, a toda sorte de alterações, supressões, inclusões e edições, nunca se tem, possível de 0 texto comunicar aquilo que pretende. de início, clara ideia da forma que seu bojo tomará ao final do processo de escrita. A Um exemplo: poucas linhas atrás, escrevi um parágrafo sobre como deve ser a conclusão deve limitar-se a sintetizar argumentos, dados e análises previamente de- conclusão de um texto. Em sua versão original, ele havia sido escrito de modo dife- senvolvidas ao longo do trabalho. Como ela rememora que já foi dito, a conclusão rente menos claro, mais prolixo, utilizando-se de estruturas desnecessariamente deve ser redigida apenas após término das demais partes do texto. complicadas para dizer 0 que poderia ter sido dito de modo simples e direito. Ele só É possível também que a parte conclusiva indique possíveis novas perguntas que foi melhorado por ter sido revisto em seu estilo (e não apenas em sua correção orto- a investigação revelou, cuja existência ou relevância não estavam claras na fase inicial gráfica ou gramatical). Notem na tabela a seguir como a coluna à esquerda é apenas da pesquisa. Isso acontece com frequência (e explica 0 porquê de muitos pesquisado- uma forma mais pomposa e menos objetiva de transmitir a mesma mensagem da res dedicarem anos a sucessivas pesquisas sobre temas contíguos). Nesses casos, cada coluna da direita, mais simples e direta. nova pesquisa decorre de dúvidas levantadas pela pesquisa anterior. A conclusão pode também indicar essas novas dúvidas, anunciando uma agenda de investigação por vir. Tabela 1 Antes e depois de uma revisão de estilo DICA: ENCARANDO A TAREFA DA Antes Depois ESCRITA DE FORMA REALISTA A conclusão, da mesma forma, para que A conclusão deve limitar-se a sintetizar argu- Booth et al. (2005, 197) lembram que processo de escrita é muito particular, e varia bas- possa ser digna deste nome, deverá limitar- mentos, dados e análises previamente desen- tante de autor para autor, mas que há alguns princípios comuns que sugerem-lhe ter sempre -se a rememorar os argumentos construídos volvidas ao longo do trabalho. Como apenas em mente: e as análises de dados empreendidas ao lon- rememora que já foi dito, a conclusão deve 1. Não espere sentar e redigir artigos ou capítulos de uma só vez. A redação é um processo go do corpo do trabalho. Por isso, por mais ser redigida após término das demais partes truncado, de idas e vindas, com escritas e reescritas. É comum que um autor passe dia todo que autor tenha plena clareza dos sutis do texto. escrevendo e termine o dia com mesmo número de páginas de texto com que começou. meandros de seu raciocínio mesmo antes de 2. Há alguns momentos em que as ideias vêm e o texto flui. Aproveite esses momentos para reduzi-lo a texto, convém que ela só seja re- escrever máximo que puder. digida ao final. 3. Saiba que muito do que você escrever irá para o lixo. Ao término, só irá para a versão final Fonte: elaboração dos autores a partir de versão anterior do manuscrito deste livro. do trabalho aquilo que couber na linearidade de seu argumento, em resposta ao problema de pesquisa enfrentado por você. 4. Peça para leitores de sua confiança lerem versões preliminares do seu trabalho. Uma leitura DICA: MUDE A FORMATAÇÃO DO externa, feita por quem não está viciado no texto como você, pode render boas sugestões. TEXTO ANTES DA LEITURA FINAL 5. Por tudo isso, comece a escrever assim que possível. Não deixe a redação para fim do seu Antes de fazer a leitura final do seu texto, salve uma cópia e mude a formatação das letras e prazo. parágrafos altere texto todo para Arial 13 e espaçamento duplo, por exemplo. Isso mudará as partes do texto de posição. Com a mudança, será mais fácil encontrar erros não detectados 2.6. Último passo: reler o texto para dar-lhe forma final na versão original do texto. Ao encontrar erros, corrija-os na cópia original salva. A escrita de um texto é a arte de revisar e reescrever manuscritos sucessivamen- te. Um texto jamais tem forma acabada na sua primeira versão: as ideias sempre po- 2.7. Pós-escrita: revisão externa dem ser melhor explicadas; podem ser simplificadas e reorganizadas; excessos de Finalmente, após a revisão de estilo do texto final, é útil contar com uma leitu- linguagem que entram desapercebidos no texto podem ser eliminados; as passagens ra externa do trabalho. Erros de digitação, vícios de linguagem e passagens confusas confusas porem ser clarificadas. "Escrever é algo diretamente proporcional ao número do texto muitas vezes passam despercebidas mesmo nas releituras mais atentas que460 Metodologia da pesquisa em Direito Capítulo 24 Apontamentos sobre a redação e texto do trabalho acadêmico 461 fazemos dos nossos próprios textos. Leitores externos podem apontá-los com mais "augusto", "excelso", "douto", "ilustre", "preclaro", entre outros que devem ser facilidade. Vale considerar a hipótese de uma permuta de trabalho com algum colega evitados em textos acadêmicos. Além de prejudicarem a objetividade da comunica- de pesquisa, de modo que um revise 0 texto do outro. ção, esses tratamentos encomiásticos blindam certos interlocutores com um manto de infalibilidade intelectual que não tem lugar em um trabalho científico (embora possa ter alguma utilidade na retórica forense). 3. A LINGUAGEM DO TRABALHO ACADÊMICO Havendo clareza e objetividade nas ideias do texto, além de emprego preciso A linguagem científica, em geral, afasta-se da linguagem coloquial pela exigên- de termos técnico-jurídicos, é perfeitamente possível escrever em linguagem aces- cia de rigor que lhe é particular. No caso de ciências formais ou naturais, esse distan- sível e simples. A linguagem acessível não deprecia argumento que dela se vale; da ciamento é atingido com mais facilidade, dada a especificidade dos objetos com que mesma forma, palavreado rebuscado não melhora a qualidade do argumento ruim lidam. A linguagem jurídica, entretanto, é compartilhada com outros saberes, tam- que nele se esconde (ao contrário, ele se torna um argumento ao mesmo tempo bém fortemente presentes no vocabulário quotidiano. Pense-se, apenas para um ruim e mal escrito). Sobre diferenças de estilo, tome-se como exemplo os dois tre- exemplo óbvio, na própria noção de "ter um direito", tão importante no direito, na chos a seguir, ambos escritos por renomados juristas. Qual deles lhe parece mais filosofia ou na política, quanto na linguagem do dia a dia de todos nós, "sujeitos de agradável de se ler? direito". O direito é também uma prática profissional permeada de um linguajar próprio, cujos padrões nem sempre correspondem aos da escrita científica. Por isso, EXEMPLO: DIFERENTES ESTILOS DE ESCRITA convém prestar especial atenção à linguagem do trabalho científico. SOBRE UM MESMO TEMA Um primeiro cuidado é buscar conferir objetividade aos termos que são empre- "O conteúdo essencial de qualquer norma ju- preciso reconhecer que a relação jurídica se gados no texto do trabalho. Para isso, convém fixar definições de palavras ou expres- rídica é seu mandamento principal. O con- instaura por virtude de um enunciado fático, sões suscetíveis a entendimentos menos precisos. Quando essas definições foram teúdo das normas tributárias, essencialmente, posto pelo consequente de uma norma indi- tiradas de outros estudos ou autores, é fundamental fazer a devida referência à obra é uma ordem ou comando, para que se en- vidual e concreta, uma vez que, na regra geral da qual provenham. tregue ao estado certa soma de dinheiro. Em e abstrata, aquilo que encontramos são clas- outras palavras: a norma que está no centro ses de predicados que um acontecimento EXEMPLO do direito tributário é aquela que contém o deve reunir para tornar-se fato concreto, na comando: dinheiro ao estado" plenitude de sua determinação empírica. Consideremos o artigo de Ludmila Ribeiro (2008) sobre a Emenda Constitucional n. 45 e (ATALIBA, 2002, 21). Dada, porém a multiplicidade heterogênea acesso à justiça no Brasil. Que significa, nesse contexto, "acesso à Fixar a definição é dos conteúdos de significado dos enunciados imprescindível, pois, neste caso, indica as próprias práticas de que a pesquisa procurará evidên- prescritivos, todos convergindo para outorgar cias. A autora conceitua a expressão já nos primeiros parágrafos de seu artigo, aproveitando compostura às normas, como unidades irre- definição por ela creditada a Eliane Junqueira: termo à justiça será, no âmbito deste artigo, dutíveis de manifestação da mensagem deôn- entendido como a possibilidade de todos os cidadãos não apenas recorrerem ao poder judi- tico-jurídica, torna-se relevante eleger uma ciário para buscar uma solução institucional dos seus conflitos como ainda a possibilidade de diretriz para isolar o núcleo semântico que vai terem o seu conflito resolvido pelo judiciário no menor espaço de tempo e com o menor custo identificar, como tributária, determinada regra social" (RIBEIRO, 2008, 466). de direito" (CARVALHO, 2006, 153-154). A qualidade literária do texto científico recomenda também que se evitem vícios Finalmente, cabe um alerta sobre a escrita em primeira pessoa. Embora tal prática de linguagem. Tais expressões empobrecem o texto e substituem palavras mais sim- seja muito comum na academia anglo-americana, e também razoavelmente difundida ples e diretas por expressões pretensamente estilosas que pioram texto final. Quem no Brasil, convém atentar para fato de que há corretores e examinadores que "veio a óbito", por exemplo, simplesmente "faleceu" (quando apenas "morreu"); o repreendem tal prática. Sendo assim, como a escrita de um trabalho científico tem "juízo competente" quase sempre é apenas juízo" (a menos que a questão da com- também um componente estratégico importante, autor do texto estará atuando em petência esteja em questão), assim como competente" é simplesmente "O terreno mais seguro se optar por não se utilizar desse recurso estilístico. A quem recurso"; a obra lavra de Pontes de Miranda" é nada mais do que "a obra", li- preferir escrever em primeira pessoa, porém, há boas correntes que recomendam a vro" ou texto" de Pontes de Miranda; e "Direito Obreiro" jamais é um apelido prática. A mais importante delas fundamenta-se nos valores de transparência e ho- aceitável para o Direito do Trabalho. nestidade intelectual: ao escrever em primeira pessoa, assumimos responsabilidade O "Direito Obreiro" nos lembra que a inclinação dos juristas para a linguagem por nossas afirmações, sem rodeios de estilo. É também importante lembrar que di- rebuscada e pouco objetiva pode chegar a níveis alarmantes. Há, por exemplo, uma versos autores, no Brasil e no exterior, adotam a primeira pessoa na escrita científica, constelação de adjetivos com os quais nos habituamos em arrazoados forenses que igualmente a ampara como prática literária aceitável na comunidade acadêmica.462 Metodologia da pesquisa em Direito Referências ATALIBA, Geraldo. Hipótese de incidência tributária. 6. ed. São Paulo: Malheiros, 2002. 25 BOOTH, Wayne C.; COLOMB, Gregory; WILLIAMS, Joseph M. A arte da pesquisa. São Paulo: Martins Fontes, 2005. CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: fundamentos jurídicos da inci- dência. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. GUEST, Stephen. Ronald Dworkin. São Paulo/Rio de Janeiro: Elsevier, 2010. RIBEIRO, Ludmila. A Emenda Constitucional 45 e a questão do acesso à justiça. Revista Direito GV, São Paulo, V. 4, n. 2, dez. 2008. Disponível em: . Acesso em: 11 ago. 2011. REFERÊNCIAS: ABNT E MANUAL ZINSSER, William. Como escrever bem. Trad. Bernanrd Ajzenberg. São Paulo: Três DE CHICAGO Estrelas, 2006. MARINA 1. INTRODUÇÃO O estabelecimento de normas técnicas para a apresenta- ção de trabalhos acadêmicos representa consenso de especia- listas sobre a uniformização da forma de expor e de ordenar publicações científicas em geral. Isso permite haver um padrão de identificação e de comparação dos níveis de qualidade dessas produções, indicando confiabilidade e segurança nos resulta- dos, além de facilitar a elaboração de pesquisas futuras. Neste capítulo serão expostas as normas técnicas de maior relevância no Brasil e nos Estados Unidos. 2. NORMAS TÉCNICAS ABNT PARA TRABALHOS ACADÊMICOS No Brasil, é a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) que regula a normalização, assegurando a organização Doutora e mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); coordenadora de Metodologia de Ensino da Es- cola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Direi- to SP); coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Tecnologia (FGV Direito SP); professora de graduação e pós-graduação da FGV Direito SP.