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Dialectologia SANDRA MELLO PORTO 1ª Edição Brasília/DF - 2018 Autores Sandra Mello Porto Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa ..................................................................................................... 4 Introdução ............................................................................................................................................................................. 6 Aula 1 Conceito de língua, fala e dialeto ........................................................................................................................... 7 Aula 2 O português do Brasil ...............................................................................................................................................16 Aula 3 Diferenciação dialetal ...............................................................................................................................................26 Aula 4 Geografia linguística ..................................................................................................................................................36 Aula 5 Os estudos filológicos no Brasil ............................................................................................................................52 Aula 6 O português falado pelos estrangeiros nos dias atuais ...............................................................................66 Referências ..........................................................................................................................................................................75 4 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Cuidado Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. Importante Indicado para ressaltar trechos importantes do texto. Observe a Lei Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem, a fonte primária sobre um determinado assunto. 5 ORgAnIzAçãO DO CADERnO DE EStuDOS E PESquISA Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Posicionamento do autor Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. 6 Introdução Esta disciplina é relevante para que haja um aprofundamento no conhecimento da Língua Portuguesa nos seus mais diferentes aspectos e como ela é falada no Brasil. Para isso, são apresentados conceitos básicos de língua, fala e dialeto e, a partir desse entendimento, é explicitada a pesquisa dialetológica, a qual aborda questões históricas, chegando até a situação atual da língua. O Brasil apresenta formas de falar diferenciadas e elas variam de acordo com a região onde seu falante vive. Essa geografia linguística aponta para a necessidade de haver maior compreensão das variedades linguísticas, favorecendo o conhecimento e o ensino de nossa língua. Considerando a impossibilidade de se produzir um Atlas Linguístico Nacional, faz-se necessário o estudo de Atlas Linguísticos Regionais, o qual possibilita estabelecer relação histórico/linguística que explique a variação dialetológica da Língua Portuguesa. Objetivos Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: » Conhecer o conceito de língua, fala, dialeto, bem como os fundamentos, o esboço histórico e a situação atual da dialetologia no Brasil. » Reconhecer, no Português falado no Brasil, a contribuição do elemento indígena, do elemento africano e de alguns outros elementos, e a influência dos imigrantes europeus e asiáticos. » Entender a diferenciação dialetal, considerando vocabulário, fonética, fonologia, morfologia, sintaxe e semântica. » Perceber a Geografia Linguística e a contribuição dos atlas linguísticos regionais. » Destacar a importância da pesquisa de Celso Cunha na elaboração de Atlas Regionais e do Projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALIB). » Conhecer os estudos filológicos no Brasil, salientando o conceito e a origem da Filologia no país e a contribuição dos estudos filológicos de Leite de Vasconcelos. » Analisar o português falado no Brasil pelos estrangeiros nos dias atuais. 7 Apresentação Nesta primeira aula, destacamos a importância em diferenciar conceitos básicos para a compreensão da língua, tais como língua, fala e dialeto. Realizamos, ainda, uma apresentação do que é dialetologia, destacando fundamentos, esboço histórico e como se encontra a variação dialetal no Brasil nos dias de hoje. Objetivos » Diferenciar língua, fala e dialeto. » Apresentar a pesquisa dialetológica. » Destacar fundamentos, esboço histórico e situação atual da pesquisa dialetológica no Brasil. 1 AULA COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO 8 AULA 1 • COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO Língua, fala e dialeto Desde os primórdios da civilização, o homem desenvolve diferentes formas de se comunicar. Com o objetivo de trocar ideias, informar e buscar eficiência comunicativa, ele cria e modifica seu modo de falar, fazendo com que, dentro de um país, existam diferentes maneiras de falar um mesmo idioma. Isso significa que a forma de falar dos indivíduos é variável e acontece em função de vários fatores. Então, o que de fato se modifica é a fala ou a língua? Para compreender melhor esse processo de mudança, é preciso entender primeiro o que cada um desses termos significa. Segundo Cunha e Cintra (2007, p. 7), “[...] língua é um sistema gramatical pertencente a um grupo de indivíduos. Expressão da consciência de uma coletividade, a língua é o meio pelo qual essa consciência representa o mundo envolvente e sobre ele age. Além disso, a língua não é imutável, pelo contrário, vive em perpétua evolução”. A língua é que assegura a comunicação entre os homens. Considerando a grande variedade de formas de se expressar, existe uma variante considerada mais prestigiosa do que as demais. Essa variante é aquela ensinada nas escolas e usada de forma a desconsiderar regionalismos. Tal modalidade linguística é denominada língua padrão ou norma culta. [...] O critério comumente adotado no Brasil para se estabelecer qual é a linguagem padrão é o histórico-literário: histórico porque baseado num uso passado (a norma não estabelece comoesses já estabelecidas para o espanhol. Este Projeto visa ao estudo da fala culta, média, habitual, através de uma documentação sonora capaz de fornecer dados precisos sobre a nossa língua, respeitadas as diferenças culturais de cada região. Procurou-se, desde o início, deixar claro que não se tratava de estudar uma norma imposta segundo critérios externos de correção e de valoração subjetiva, mas sim de estudar uma pluralidade de normas objetivamente comprovadas no uso oral - entendendo-se norma no sentido coseriano, o que se disse e tradicionalmente se diz na comunidade considerada, admitindo variações externas, sociais ou regionais, e internas, combinatórias e distribucionais (PROJETO NORMA LINGUÍSTICA URBANA CULTA, 2015, p. 1). Projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) Figura 13 - Capa do 1º volume do Atlas Linguístico do Brasil. Disponível em: . Acesso em: 17 ago. 16. O Projeto Atlas Linguístico do Brasil (Projeto ALiB) é de caráter nacional, cuja meta é a realização de um atlas geral do Brasil em língua portuguesa. A partir da iniciativa de um grupo de pesquisadores, a Universidade Federal da Bahia realiza projeto conjunto que envolve outras Universidades. Estão ligadas diretamente ao Projeto ALiB as universidades públicas a que pertencem os membros do Comitê Nacional. São elas: » Universidade Federal da Bahia (UFBA). » Universidade Estadual de Londrina (UEL). » Universidade Federal do Ceará (UFC). 45 gEOgRAFIA LInguÍStICA • AULA 4 » Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). » Universidade Federal do Pará (UFPA). » Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). » Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). » Universidade Federal da Paraíba (UFPB). » Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). » Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A essas se uniram também as seguintes universidades, mediante a assinatura do convênio de cooperação para o andamento do projeto, firmado em 20 de novembro de 2008: Universidade Potiguar (UnP), Universidade Federal do Piauí (UFPI), Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba (CEFETPB). Além das próprias universidades, as seguintes instituições têm contribuído para o desenvolvimento do Projeto ALiB, seja mediante recursos financeiros ou concessão de bolsas de iniciação científica, são elas: Fundação Araucária, Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados da Bahia e de Minas Gerais e instituições científicas, tais como Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN), Asociación de Linguística y Filología de América Latina (ALFAL), Grupo de Estudos Linguísticos do Nordeste e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Pode-se afirmar que, desde 1952, momento da manifestação em favor da elaboração de um atlas linguístico brasileiro, estabeleceu-se, por meio do Decreto nº 30.643, de 20 de março de 1952, como principal finalidade da Comissão de Filologia da Casa de Rui Barbosa, a “elaboração do atlas linguístico do Brasil”. Dificuldades diversas fizeram com que os dialetólogos brasileiros iniciassem o trabalho de mapeamento linguístico do Brasil pela realização de atlas regionais. O projeto ALiB desenvolve pesquisas geográficas e linguísticas, analisando a variação geolinguística, considerando o ambiente social onde os diversos falares acontecem. Segundo texto divulgado no site do projeto, seus objetivos são muito bem definidos: 1 - Descrever a realidade linguística do Brasil, no que tange à língua portuguesa, com enfoque prioritário na identificação das diferenças diatópicas (fônicas, morfossintáticas e léxico-semânticas) consideradas na perspectiva da Geolinguística. 2 - Oferecer aos estudiosos da língua portuguesa (linguistas, lexicólogos, etimólogos, filólogos, etc.), aos pesquisadores de áreas afins (história, antropologia, sociologia, etc.) e aos pedagogos (gramáticos, autores de livros-texto, professores) 46 AULA 4 • gEOgRAFIA LInguÍStICA subsídios para o aprimoramento do ensino/aprendizagem e para uma melhor interpretação do caráter multidialetal do Brasil. 3 - Estabelecer isoglossas com vistas a traçar a divisão dialetal do Brasil, tornando evidentes as diferenças regionais através de resultados cartografados em mapas linguísticos e realizar estudos interpretativos de fenômenos considerados. 4 - Examinar os dados coletados na perspectiva de sua interface com outros ramos do conhecimento - história, sociologia, antropologia, etc. - de modo a poder contribuir para fundamentar e definir posições teóricas sobre a natureza da implantação e desenvolvimento da língua portuguesa no Brasil. 5 - Oferecer aos interessados nos estudos linguísticos um considerável volume de dados que permita aos lexicógrafos aprimorarem os dicionários, ampliando o campo de informações; aos gramáticos atualizarem as informações com base na realidade documentada pela pesquisa empírica; aos autores de livros didáticos adequarem a sua produção à realidade cultural de cada região; aos professores aprofundar o conhecimento da realidade linguística, refletindo sobre as variantes de que se reveste a língua portuguesa no Brasil e, consequentemente, encontrando meios de, sem desprestigiar os seus dialetos de origem, levar os estudantes ao domínio de uma variante tida como culta. 6 - Contribuir para o entendimento da língua portuguesa no Brasil como instrumento social de comunicação diversificado, possuidor de várias normas de uso, mas dotado de uma unidade sistêmica. Disponível em: . Acesso em: 7 mar. 2017. Depois de muitos anos buscando compreender os diversos falares do território brasileiro e de produzir vários atlas regionais, foi possível concretizar o sonho dos pesquisadores brasileiros, chegando-se, finalmente, à publicação dos primeiros volumes do atlas brasileiro: Durante o III Congresso de Dialectologia e Sociolinguística (III CIDS), realizado em Londrina, em outubro passado, ocorreu o lançamento dos dois primeiros volumes do ATLAS LINGUÍSTICO DO BRASIL, publicados pela EDUEL. O volume I é o de Introdução e o Volume II apresenta 159 cartas linguísticas, com dados de 25 capitais de estado. Os volumes publicados foram entregues ao Reitor da Universidade Federal da Bahia pela equipe ALiB/Bahia, em 24/10/14. Disponível em: . Acesso em: 27 mar. 2015. Domínio da língua portuguesa A língua portuguesa é falada em uma extensa área territorial. Pode-se afirmar com segurança que ela é uma das línguas mais faladas no globo. Traçando o mapa dialetológico do idioma português, o pesquisador Vasconcelos (1926) classifica seus dialetos em três grandes grupos: 47 gEOgRAFIA LInguÍStICA • AULA 4 1. Continentais, os existentes no continente europeu: a. Interamnense (Entre-Douro-e-Minhio); b. Transmontano (Trás-os-Montes); c. Beirão (Beira-Alta e Beira-Baixa); d. Meridional (sul de Portugal). 2. Insulanos, os que são falados nas ilhas europeias: a. Açoriano (Açores); b. Madeirense (Ilha da Madeira). 3. Ultramarinos, no ultramar: a. dialeto brasileiro; b. indo-português, que compreende: › dialeto crioulo de Diu; › dialeto crioulo de Damão; › dialeto norteiro (Bombaim, Baçaim, Caul, etc.); › português de Goa; › dialeto crioulo de Mangalor; › dialeto crioulo de Cananor; › dialeto crioulo de Maé; › dialeto crioulo de Cochim; › português da costa de Coromandel; › dialeto crioulo de Ceilão; › dialeto crioulo macaísta ou de Macau; c. malaio-português: › dialeto crioulo de Java; › dialeto crioulo de Malaca e Singapura; › português de Timor; › dialeto crioulo cabo-verdiano ou de Cabo Verde; › dialeto crioulo guineense ou da Guiné; › dialetos crioulos do golfo da Guiné (ilha de S. Tomé, Príncipe e Ano-Bom); › portuguêsdas Costas d’África (Angola, Moçambique, Zanzibar, Mombaça, Melinde, Quíloa). 48 AULA 4 • gEOgRAFIA LInguÍStICA Os textos abaixo apresentam a variação de um mesmo trecho, escrito no dialeto crioulo do norte da Índia, crioulo do Ceilão, crioulo de Mangalor, crioulo de Diu e em português antigo. É bastante curioso notar a diferença assumida pelas palavras nos diferentes dialetos. CRIOuLO nORtEIRO Ou DO nORtE DA ÍnDIA Um cert hom tinh doi filh: o pequen ji fallou por su pai: Pai, dá par mim heranç. Su pai já deu par ell su heranç. Deposi d’algum di o pequen filh juntand tlud que tinh pertencend pr el, já foi fór da terr, e ali despendeu tud du dinher no comer, beber, etc. depois d’ell despender tud, ali ji cahiu um for fom n’aquell terr, e ell ji ficou bem pobr. Então ell já foi e ji ficou serv num caz d’um rich hom d’aquell terr. E ell ji mandou no su vargem pu dá comer do porc. Tant er fom sand em si mesm ji fallou: quant serv no caz do meu pai tem bastant pu comem e bebê, e aqui eu tá morrend Dom fom! CRIOuLO DE CEILãO Per um certo home tinha dous filhos: e o mais pequenino de elles já falla per sua pai, Pai da per mi o quinhaõ de o fazendo. E naõ muito dias despois, o filho pequenino juntando todo, já parti per hum longe terra e ali já gasta sua fazendos vivendo soltomente. E despois d’elle já gasta todo, tinha hum forte caristia n’aquel terra; e elle já começa per suffri necessidade. E elle já foi e já junta si – mesmo per hum cidadaõ de aquel terra; e elle já manda elle per sua varzis per pasta porcos. E elle tinha desejado per enchi sua barriga com o fruitas que os porcos já come: e ninguem nunca da per elle. E alembrando ne si – mesmo elle já falla, Per que tanto servidors de minha pai tem paõ em abundancia, mas eu aqui te morre de fome! CRIOuLO DE MAngALOR Um certo homi tinha dois filh: e pequinino d’elloutro já falla por su papa: papa, da minh fazend’s porçom que te cahi por mi. E elle já dividi entre elles su’s porçom. E nunca passa muito di, o filho pequinini já junta tud junt, já foi longe nu um terr distant, e alli já desperdiça su fazend com vid má. E despois de gasta elle tudo, já vi n’aquelle terr grandi caresti e elle já principia per fica nu falt. Elle já foi e fica com um d’aquelle terr’s cidadom, elle já mando per elle nu su varj par cria porc. E elle mais antes tinha enche su barrig com casc de porc tinh come: e nenhum home já da per elle. E já volta per si mesm, elle já falla: quant pagament’s servidor minh papa’s casa fica fart com pom, e eu aqui tu morre com fome! 49 gEOgRAFIA LInguÍStICA • AULA 4 CRIOuLO DE DIu Um homm tinh doiz filh: já fallou por su pai aquêl mais piquin, que da cá su quiaõ que ta pertencê a êll. E êll já repartiu por tud doiz filh tud quant tinh. Depois de passá algum tempo fêz um imbrui de tud su fat aquêll rapaz piquin e já foi ficá n’um terr bastant lonj e estranh e ali já deu cab de tud, fazend munt estragação. E depois de Ter da cab de tud, sucedeu vi n’aquêll terr grand caristi e êll prispiou Ter pricizaõ. Já sahiu d’ali e já ficou com um homem d’aquêll terr. Mais est já mandou por aquêll por um quintal d’ell par toma cuidad de sua criação de porc parc. Nest lugar tinh buscá êll inchê su barrig com comêr d’aquêll porc porc, mais ninguem nã tinh dá. Até quei já pensou e já fallou: na caz de mim pai tê bastant ciad Qui tê munt comêr e eu aqui tá morrê fom! ORIgInAL PORtuguÊS (Versão de Almeida) Um homem tinha dous filhos. E disse o mais moço delles a seu pae: Pae, dáme a parte da fazenda que (me) pertence, e elle lhes repartio a fazenda. E depois de naõ muitos dias, ajuntando o filho mais moço tudo, partiose a huã terra muy lonhe, e ali desperdiçou sua fazenda, vivendo disolutamente. E desque já teve tudo desperdiçado deio huã grande fome n’aquella terra, e começou a padecer necessidade. E foi, e achegousse a hum dos cidadaõs d’aquella terra; o qual o mandou a sua Quinta, a apascentar os porcos. E desejava encher seu ventre das mondaduras que comiaõ os porcos, e ninguem lhas dava. E tornando em si disse: Quantos jornaleiros de meu pae tem abundância de pam, e eu aqui pereço de fome (S. Lucas, c. XVI). Saiba mais A formação da língua portuguesa no Brasil A língua é um organismo vivo que se modifica ao longo do tempo. Palavras novas surgem para expressar conceitos igualmente novos; outras deixam de ser utilizadas, sendo substituídas. Na época das grandes navegações, Portugal conquistou inúmeras colônias e o idioma português foi influenciado pelas línguas faladas nesses lugares, incorporando termos diferentes como “jangada”, de origem malaia, e “chá”, de origem 50 AULA 4 • gEOgRAFIA LInguÍStICA chinesa. O período renascentista também provocou uma série de modificações na língua, que recebeu termos eruditos, especialmente aqueles relacionados à arte. Os colonizadores portugueses, principalmente os padres jesuítas, difundiram o idioma no Brasil. No entanto, diversas palavras indígenas foram incorporadas ao português e, posteriormente, expressões utilizadas pelos escravos africanos e imigrantes também foram adotadas. Assim, o idioma português foi-se juntando à família linguística tupi-guarani, em especial o Tupinambá, um dos dialetos Tupi. Os índios, subjugados ou aculturados, ensinaram o dialeto aos europeus que, mais tarde, passaram a se comunicar nessa “língua geral”, o Tupinambá. Em 1694, a língua geral reinava na então colônia portuguesa, com características de língua literária, pois os missionários traduziam peças sacras, orações e hinos, na catequese. Com a chegada do idioma iorubá (Nigéria) e do quimbundo (Angola), por meio dos escravos trazidos da África, e com novos colonizadores, a Corte Portuguesa quis garantir uma maior presença política. Uma das primeiras medidas que adotou, então, foi obrigar o ensino da Língua Portuguesa aos índios. Desde o século XVI, época da formação do Português moderno, o português falado em Portugal manteve-se mais impermeável às contribuições linguísticas externas. Já o Brasil, em decorrência do processo de formação de sua nacionalidade, esteve mais aberto às contribuições linguísticas de outros povos. Ainda hoje o português é constantemente influenciado por outras línguas. É comum surgirem novos termos para denominar as novas tecnologias do mundo moderno, além de palavras técnicas em inglês e em outros idiomas que se aplicam às descobertas da medicina e da ciência. Assim, o contato com línguas estrangeiras faz com que se incorporem ao idioma outros vocábulos, em sua forma original ou aportuguesados. Atualmente, existem muitas diferenças entre o português que falamos no Brasil e o que se fala em Portugal. Tais diferenças não se limitam apenas à pronúncia das palavras, facilmente notabilizada na linguagem oral. Existem também diferenças de vocabulário (só para citar um exemplo, no Brasil dizemos “trem”, em Portugal se diz “comboio”) e de construção gramatical (enquanto no Brasil se utiliza uma construção como “estou estudando”, em Portugal prefere-se a forma “estou a estudar”). Disponível em: . Acesso em: 25 out. 16. 51 gEOgRAFIA LInguÍStICA • AULA 4 Sintetizando Vimos até agora: » geografia linguística; » variações linguísticas; » variações diafásicas; » variações históricas; » variações diatópicas; » variações diastráticas; » dialeto nordestino; » a contribuição dos atlas linguísticos regionais; » a importância da pesquisa de Celso Cunha na elaboração dos atlas regionais; » o projeto atlas linguístico do Brasil (ALiB); » o domínio da língua portuguesa; » os diferentes dialetos da língua portuguesa; 52 Apresentação Nesta aula, será apresentada a ciência Filologia, sua origem e como ela se desenvolve no Brasil. Ao final, apresento artigo de Antenor Nascentes publicado na Revista de Portugal, Lisboa, em 1958, em que o autor fala sobre Leite de Vasconcelos, grande estudioso da língua portuguesa, e suas observações sobre o português falado no Brasil. Objetivos» Definir Filologia. » Mostrar a origem da ciência Filologia. » Destacar a importância da pesquisa filológica no Brasil. » Apresentar artigo de Antenor Nascentes sobre Leite de Vasconcelos e seus estudos filológicos do português falado no Brasil. 5 AULA OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL 53 OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL • AULA 5 Tópico: A importância da pesquisa filológica no Brasil O que é Filologia? A Filologia é uma ciência muito antiga e nasceu da necessidade que os povos antigos sentiam de explicar textos arcaicos, literários ou religiosos. Essa ciência estuda a literatura de um povo ou de uma determinada época e sua linguagem respectiva, utilizada como instrumento. A palavra filologia vem do grego “filologia” e, literalmente, significa “gosto pela erudição ou pela literatura”. Segundo Câmara Jr (1985, p. 117), o vocábulo tem como sentido literal “amor à ciência” e, para Leite de Vasconcelos (1926), Filologia “é o estudo de uma dada língua em toda a sua plenitude, e o dos textos em prosa e verso, que servem para a documentar” (VASCONCELOS, 1926, p. 9). Origem A Filologia apareceu na Índia, com trabalhos que pretendiam interpretar os mais antigos poemas bramânicos. Também entre os gregos, no século III a.C., já havia estudos sobre a obra de Homero e de velhos poetas líricos. Segundo Vasconcelos (1926), a História da Filologia Portuguesa pode ser dividida em quatro períodos: 1°: Quatro primeiros séculos da monarquia lusitana; 2°: Do século XVI ao ano de 1779, quando acontece, em Lisboa, a fundação da Academia Real das Ciências; 3°: De 1779 a 1868, momento da inauguração em Portugal de “Os novos métodos científicos” por Adolfo Coelho; 4°: De 1868 até os dias atuais. A Filologia no Brasil Com o objetivo de tratar de assuntos referentes à Filologia e à Linguística da língua portuguesa, foi fundada, em 1944, a Academia Brasileira de Filologia. Falando brevemente da história da Academia Brasileira de Filologia, transcrevo abaixo texto do acadêmico Antônio José Chediak, publicado em “O Jornal”, na edição de 14 de setembro de 1944 e, mais tarde, no site da Academia Brasileira de Filologia: A ideia da criação de uma entidade brasileira que se consagrasse exclusivamente aos estudos filológicos não é recente. Desde muito ela despertara a atenção e o interesse dos nossos professores, que agora acabam de torná-la uma realidade. 54 AULA 5 • OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL Assim é que um grupo de estudiosos dos nossos problemas linguísticos, reunidos há dias, nesta capital, deliberou fundar a Academia Brasileira de Filologia. A nova entidade, que tem por objetivo o trato dos assuntos concernentes à Filologia, sob seus vários aspectos, se comporá de quarenta membros efetivos e vitalícios e bem assim de ilimitado número de membros correspondentes, sendo exigência fundamental para o ingresso em seu quadro ter o candidato publicado trabalho de reconhecido mérito. Já ingressaram na Academia, como membros fundadores, os professores Manoel Said Ali, Álvaro Ferdinando Sousa da Silveira, Antenor Nascentes, Jacques Raimundo, Augusto Magne, José Rodrigues Leite e Oiticica, Rodolpho Garcia, Miguel Daltro Santos, Clóvis Monteiro, Alcides da Fonseca, Júlio Nogueira, Padberg Drenkpol, David José Perez, José de Sá Nunes, João Guimarães, Cândido Jucá (filho), Renato Almeida, Joaquim Mattoso Câmara Júnior, Serafim da Silva Neto, Ragy Basile, Júlio de Matos Ibiapina, Charles Fredsen, Ismael de Lima Coutinho, Quintino do Valle, Artur de Almeida Torres, Jonas Correia, Jarbas Cavalcante de Aragão, Modesto de Abreu e Altamirano Pereira (CHEDIAK, 1999, p. 7). E José Pereira da Silva, citando o Professor Leodegário, no mesmo site: A Academia Brasileira de Filologia, fundada no dia 26 de agosto de 1944, em reunião realizada no Colégio Militar do Rio de Janeiro, com a presença de 30 estudiosos da língua portuguesa, exatamente os que assinaram a ata de Fundação, mais tarde registrada pelo eminente filólogo Sousa da Silveira, desde as suas origens se caracterizou como “entidade cultural voltada para o trato dos assuntos concernentes à Filologia e à Linguística sob seus vários aspectos” (AZEVEDO FILHO, 2002, p. 6). De acordo com publicação feita na Revista Philologus, do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos (ano 14, nº 42, Rio de Janeiro, CiFEFiL, set./dez. 2008), o campo de estudo da Filologia é bastante amplo e, dentre as atribuições do filólogo, estão: a. edições diplomáticas: preocupação com a apresentação modelar de uma edição original, em que cópias fotográficas ou eletrônicas reproduzem todos os detalhes da página original; b. edições críticas: também se observa a preocupação com a apresentação modelar de uma edição original, na tentativa de eliminar os erros involuntários; c. comparação de edições diferentes: o autor, a partir de seu senso crítico e reflexivo, determina qual edição seria a original; d. estudos das divergências entre línguas da mesma origem. A Filologia no Brasil passou por um período pouco promissor nas décadas de 80 e 90 para, logo depois, voltar a ser considerada ciência de extrema importância. A partir daí, diversos eventos 55 OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL • AULA 5 para divulgar as pesquisas e os estudos filológicos e linguísticos começaram a ser organizados, tais como o Congresso Nacional de Linguística e Filologia, o Encontro Nacional com a Filologia, a Semana Nacional de Estudos Filológicos e Linguísticos e a Jornada Nacional de Filologia. A importância da exatidão dos textos antigos passou a ser muito melhor compreendida e valorizada. Nos dias de hoje, o estudo de Filologia é oferecido nos cursos de Letras e Filosofia em diversas universidades brasileiras. Grande conhecedor da Filologia Brasileira, Leite de Vasconcelos é citado como personalidade de destaque por Antenor Nascentes em seu “Estudos Filológicos” (Academia Brasileira de Letras, 2003, p. 742-746). No texto, Antenor Nascentes conta um pouco da obra de Leite de Vasconcelos, em que este fala da língua portuguesa, em artigo publicado pela Revista de Portugal, Lisboa, nº 167, p. 318-320, jul. 1958. Leite de Vasconcelos e o Brasil Figura 14 - Doutor José Leite de Vasconcelos. Disponível em: . Acesso em: 23 ago. 16. José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo, mais conhecido por Leite de Vasconcelos, foi um linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo português. Nasceu em 7 de julho de 1858, em Tarouca, Portugal, e faleceu em 17 de maio de 1941, em Lisboa, Portugal. Quando ainda era aluno da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, publicou em 1883, na Revista de estudos livres, um artigo intitulado “O dialecto brasileiro”, ensaio precedido de notas sobre tradições populares do Brasil. Mais tarde, em 1901, em Esquisse d’une dialectologie portugaise, tratando da geografia da língua portuguesa, na parte referente ao continente americano, diz: “Em Amérique, le portugais a un domaine tout spécial au Brésil, où il est l’idiome national et officiel, le Brésil ayant été colonie portugaise”. (“Na américa, o português tem um uso todo especial no Brasil onde é a língua nacional e oficial, desde o Brasil colônia de Portugal”). https://www.google.com.br/search?sa=X&biw=1366&bih=643&q=Tarouca+Portugal&stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LSz9U3MCorSU7JUuIEsZMNjc0qtcSyk630C1LzC3JSgVRRcX6eVVJ-UR4AFCIP4jEAAAA&ved=0ahUKEwiCz6GCltbOAhUCDZAKHS41DpwQmxMIlwEoATAV https://www.google.com.br/search?sa=X&biw=1366&bih=643&q=Lisboa&stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LSz9U3MCorSU7JUuIAsU1ycpK05LOTrfQLUvMLclL1U1KTUxOLU1PiC1KLivPzrFIyU1MAKcZLJjkAAAA&ved=0ahUKEwiCz6GCltbOAhUCDZAKHS41DpwQmxMImwEoATAW 56 AULA 5 • OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL Mais adiante, na página 29, tratando da classificação dos dialetos portugueses, na letra C (Dialectes d´outremer), vem logo em primeiro lugar o dialeto brasileiro. Na página 72, tratando de notícias e estudo sobre os dialetos, indica a bibliografia, aliás escassa, do que pôde conseguirem relação ao Brasil. No capítulo III (Dialects d´outremer), páginas 158-162, vem a descrição do dialeto brasileiro. Logo de início ataca a questão de saber se o português do Brasil é dialeto ou não. Diz ele: “Les écrivains brésiliens ont, au point de vue patriotique, si le portugais du Brésil est ou non um dialecte. Si j´apelle dialect, par exemple, le portugais de Trás-os-Montes à plus forte raison je dois donner ce noum au portugais du Brésil, ou brésilien”. (“Do ponto de vista patriótico, para os escritores brasileiros, o Português do Brasil é ou não um dialeto? Se for considerado dialeto, por exemplo, mais razão eu tenho para dar ao Português de Trás-os-Montes o nome de Português Brasileiro”). Não se pode deixar de concordar com o grande linguista. Nem que ele não chamasse dialeto o português de Trás-os-Montes ou outro qualquer de Portugal continental, desdouro algum haveria em falar-se um dialeto. É uma situação criada pela vida, como foi outra da mesma natureza a de Portugal ter sido romanizado. Não vejo razão para se exacerbarem melindres nacionais. Em seguida, faz observações sobre a fonologia, a morfologia, a sintaxe e o léxico do dialeto brasileiro, algumas das quais inexatas, o que se explica pela falta de conhecimento direto e pela carência de dados com que lutou. O fenômeno da abertura do a, do e e do o pretônicos não é de todo o Brasil. Só se encontra na Bahia para o norte. Denuncia imediatamente, para os Portugueses, o brasileiro, como denuncia, para os Brasileiros, o nortista. Esse pensamento não é só daquele estudioso. Camilo, quando imita em suas obras a fala brasileira, emprega sempre essas pretônicas abertas, venha donde vier o brasileiro cuja fala ele queira imitar. A junção de um i a palavras terminadas por ê (fê em vez de fez, trê em vez de três, francê em vez de francês) também não é geral. Tem até área muito restrita.1* Na fala popular, o l final desaparece diretamente, como em andaluz, sem precisar transformar-se primeiro em r. É verdade que o autor escreveu prudentemente um “probablement” (provavelmente). Não é só na região do rio Amazonas que o l se muda em r. O fato é de ordem geral: Aquele animar por animal. 1 No original está assim, sem adjunção de i nos exemplos. 57 OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL • AULA 5 Os paulistas não chiam o s na pausa nem diante de consoante surda. O paulista que o linguista ouviu devia obedecer a outras influências que não a do seu Estado. De São Paulo para o Sul, o Brasil não conhece senão o s sibilado, tanto que os cariocas, quando querem arremedar os paulistas, dizem: Eu sou paulista, sibilando exageradamente de propósito o s. Sinhá pertencia à linguagem dos escravos como feminino de sinhô (senhor), tendo hoje desaparecido. Tratando das diferenças notadas no dialeto, dá as informações que pôde obter e lança um convite aos filólogos brasileiros para tratarem do assunto, convite este que até agora não foi infelizmente atendido nem tão cedo o poderá ser, tendo em vista a direção que a Geografia Linguística imprimiu aos estudos dialetológicos. Apesar de alguns estudos regionais, o Atlas Linguístico do Brasil por enquanto ainda é uma utopia. Ocupando-se com outros elementos brancos da etnologia brasileira, que não o português, Leite de Vasconcelos exagera a ação do elemento holandês em Pernambuco. Do holandês ficaram pouquíssimas palavras, brote, por exemplo, pequeno biscoito de farinha de trigo. Os elementos italianos e alemães não são também muito numerosos. Em 1888, ao fazer um esboço histórico da Filologia Portuguesa, a propósito da reforma do Curso Superior de Letras de Lisboa, o autor não esqueceu de dar um lugar à Filologia Brasileira. O trabalho consta do quarto volume dos Opúsculos. A parte referente ao Brasil ocupa duas páginas e meia e não poderia ocupar mais espaço por dois motivos: naquela época era muito escassa a bibliografia brasileira sobre o assunto e o estudioso dispunha de poucos elementos para servirem como fonte. Queixava-se ele da grande dificuldade de adquirir livros brasileiros, dificuldade que, embora atenuada, continua a existir em Portugal. Quase que só tinha os livros enviados pelos autores. Volta a tratar da questão de se saber se no Brasil existe um dialeto português ou não, existência que para ele parece fora de dúvida. Entre outras de menor importância, cita algumas obras, como a Gramática, de Sotero dos Reis; os Rascunhos, de Batista Caetano; a Coleção de Vocábulos e Frases do Rio Grande do Sul, de Coruja; as Gramáticas, de Júlio Ribeiro, Lameira de Andrade e Pacheco da Silva Junior. É pouco, mas sempre é alguma coisa. 58 AULA 5 • OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL Todas as vezes que se ocupou com antroponímia, ele nunca esqueceu o aspecto brasileiro da questão. Nas Lições de Filologia Portuguesa, 1ª ed., p. 428, tratando de nomes modernos, assim se exprime: “A moda introduz constantemente novidades: Alice, Ananisa, Boémia, Elódia, Iveta, nomes muito saboreados no Brasil”. Alice é de fato um nome muito comum. Iveta, não tanto. Mas os demais não gozam da predileção do povo brasileiro. Na Antroponímia Portuguesa, tratando dos nomes provenientes de arbítrio, acaso, superstição, fantasia, moda, gosto, patriotismo local, etc., depois de citar os hábitos portugueses acrescenta: “No Brasil, então, o gosto da excentricidade excede, mais que algures, os limites do Calendário”. E é uma verdade. Transcreve em seguida palavras de Agostinho dos Campos: Pondo de parte, como a tesouros esgotados, as antigas fontes dos nomes próprios, os brasileiros exploram afanosamente o Velho Testamento, a história e a mitologia greco-romanas, a própria nomenclatura geográfica; e como nem sempre encontrassem, nesses aliás vastos reservatórios, variedade capaz de os fartar, conferiram a si próprios licença ilimitada para inventarem nomes de homem e de mulher que ninguém previra e nem toda a gente consegue pronunciar”. Na página 588, da mesma Antroponímia voltam à baila os nomes próprios brasileiros. Trata dos nomes nativos, como os encontrados nas obras literárias de Santa Rita Durão. Em seguida, baseando-se em informação de viva voz do autor deste artigo, se refere aos nomes com que alguns patriotas mais exaltados por ocasião da separação política, substituíram seus sobrenomes portugueses. Como se vê, o grande linguista sempre deu ao Brasil a devida atenção e, se mais não fez, foi porque lhe faltaram os elementos. 59 OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL • AULA 5 Observação Pesquisando sobre Dialetologia, fiquei encantada com a obra “Estudos filológicos”, publicada pela Academia Brasileira de Letras em 2003, em volume da Coleção Antônio de Morais Silva, Estudos sobre a Língua Portuguesa (Diretor Evanildo Bechara), volume este dedicado à memória de Antenor Nascentes. A leitura dessa obra muito contribuiu em meu estudo sobre dialetologia e destaco, especialmente, o segmento que trata do projeto de 1935, do vereador Sr. Frederico Trotta, que foi apresentado à Câmara Municipal do Distrito Federal e que propunha o uso oficial do nome “Língua Brasileira” para servir como nome oficial da língua portuguesa falada no Brasil. Pode-se entender o termo língua brasileira ainda hoje sendo usado para se referir à variante linguística falada no Brasil de forma não oficial, mostrando que existem algumas diferenças entre a língua falada no Brasil, em Portugal, em Angola, Moçambique..., mas que, oficialmente, não existe uma língua brasileira, uma língua angolana, etc. Todas são variantes de uma única língua, a nossa língua portuguesa. Em seguida, está o texto mencionado para leitura complementar. Figura 15 – Estudos Filológicos, de Antenor Nascentes. Saiba mais Língua Brasileira Em data de 5 de julho de 1935, o vereador Sr. Frederico Trotta apresentou à Câmara Municipal do Distrito Federal o seguinte projeto: “Considerando que se contam em dezenas de milhares vocábulos de várias origens incorporados ao nosso idioma, notadamente os dalíngua tupi-guarani; Considerando que as gramáticas e os métodos de ensino da língua usual em nosso país são diversos dos que se adotam no ensino da língua originária; Considerando que, como bem diz Fialho de Almeida, grande vernaculista português, o Brasil tem há muito um idioma próprio; Considerando que a língua brasileira evoluiu do português tal qual o português evoluiu do Latim; Considerando que o filólogo João Ribeiro entendeu claramente o fenômeno dando à sua gramática o nome de Gramática Nacional; 60 AULA 5 • OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL Considerando que as gramáticas da América do Norte e as das repúblicas platinas não se denominam gramática da língua inglesa nem gramática da língua espanhola, e sim das nacionalidades respectivas; A Câmara Municipal resolve: Art. 1° Os livros didáticos, relativos ao ensino da língua pátria, só serão adotados nas escolas primárias e secundárias do Distrito Federal, quando denominarem de brasileira a língua falada e escrita no Brasil. § 1° Nos programas de ensino, os capítulos referentes à língua pátria deverão referir-se, exclusivamente, à língua brasileira. § 2° As denominações das cadeiras de ensino de língua pátria, em todos os estabelecimentos de ensino mantidos pela Municipalidade, serão imediatamente substituídas pela denominação “Língua Brasileira”. Discutido, foi o projeto aprovado com pequena alteração. O parágrafo primeiro passou a segundo e o segundo a terceiro, figurando como primeiro o seguinte: “Ficam excetuados da exigência do art. 1° os livros editados anteriormente a esta lei”. Submetida a resolução ao prefeito Dr. Pedro Ernesto, este em data de 7 de agosto apôs-lhe o veto, nos seguintes termos: “O projeto fere a verdade científica”. Modificam-se as línguas no tempo e no espaço. Se de fato alterou-se o português implantado no Brasil no século XVI, essas alterações não chegam para construir nova língua. “A dialetação é um fenômeno natural que a ninguém é dado acelerar ou retardar, por maior autoridade que se arrogue: ao tempo, só ao tempo é que compete produzi-lo”. Na Cultura da Língua Nacional, escreve Xavier Marques: “A língua nacional é, e será por séculos, a que recebemos de Portugal com o batismo da civilização, apenas modificada, à semelhança do que ocorreu em todas as possessões desse país, mas dentro da relatividade da nossa mesologia glótica”. Reconhecem todos os filólogos ser portuguesa a língua falada no Brasil. São idênticos os fonemas em sua quase totalidade; as flexões absolutamente as mesmas; salvo a colocação dos pronomes, a construção não varia. E a diversidade prosódica é comum em muitas províncias portuguesas e nos próprios estados brasileiros. Não prevalece o argumento do vocabulário como contribuição indígena ou africana. O núcleo da língua continua, estruturalmente, português. Chama-se, com João Ribeiro, língua nacional; língua brasileira, por enquanto, é designação prematura. Assente em falso nacionalismo, a ideia tem velha procedência e explicação conhecida. Em 1845, no Recife, Batista Caetano acentuava a tendência, entre doutores, para aviltar a linguagem. Era um dos aspectos da xenofobia, justificando os solecismos habituais, produtos da ignorância. Nas impurezas da linguagem, Liberato Bittencourt comenta: “não existe no país amor à língua”. No entanto, deve o Brasil orgulhar-se de ter possuído a expressão mais perfeita do seu pensamento, em Rui Barbosa, glória da nossa época, escrevendo e falando como nenhum outro a língua portuguesa. Correrão séculos até que novo Rui Barbosa sirva de padrão à futura língua brasileira. Com a glotologia, compreendem-se as leis do espírito humano e quanto mais ciência dela tivermos, tanto melhor falaremos e escreveremos. Empregando com rigor o idioma, exprimiremos aos outros com mais precisão o que se passa dentro de nós (apud Leite de Vasconcellos, “Lições de Filologia Portuguesa”). Além de endossarem injusta hostilidade ao povo que é nosso tronco, queiram ou não, a estranha designação importaria indébita posse de coisa alheia. Não bastará mudar o nome da língua; é preciso compor-lhe outra estrutura. Se a gramática continua a mesma, sob legenda diferente, com que direito nos apropriamos do texto português, com rótulo diverso? Daí o 61 OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL • AULA 5 dilema: ou se organizará imediatamente um idioma novo, o que é inadmissível, ou será preciso pedir a Portugal cessão de direitos autorais para a edição brasileira do seu vernáculo. A Bélgica e a Suíça, sem contar os povos da América, francesa, inglesa ou ibérica, falam a língua dos primeiros povoadores, sem o menor afastamento cívico. Por fim, há o exemplo atual. Na conferência da paz, em Buenos Aires, acabam de ser declaradas línguas oficiais o inglês, o português, o castelhano e não o boliviano ou o paraguaio. A língua falada e escrita no Brasil é a língua portuguesa com alteração pelo uso de vocábulos exclusivamente nacionais ou regionais que enriqueceram a língua, tornando-a mais opulenta, mas que não bastam para construir língua nova. Assim se exprime ilustre historiador brasileiro: Ignoro o que seja língua brasileira; esta não existe; decerto já a tivemos, porém desapareceu. Acabou absorvida, tragada, assimilada pela triunfante língua portuguesa, que espiritualmente unificou o Brasil no II século da colonização. Idioma brasileiro seria o dos “mamelucos”, o desses bandeirantes paulistas que vieram de sua pequena vila do planalto, para as largas descobertas, falando o tupi goianas, a materna língua indígena, enriquecido por um bárbaro e tosco vocabulário português, a paterna língua civilizadora. (Deputado Pedro Calmon). E, na verdade, assim é. Não há língua brasileira e a resolução mandando dar a denominação de língua brasileira à falada e escrita no Brasil, sem fixar a que assim devia ser entendida, nada mais faz do que pretender decretar que a língua portuguesa passasse a chamar-se “língua brasileira” nos livros adotados nas escolas do Distrito Federal. É fora de dúvida que não são as leis e decretos que fazem os idiomas: são os povos que criam, desenvolvem, modificam e alteram as línguas, que nascem, vivem e com eles desaparecem. E no Brasil, salvo as inevitáveis diferenças determinadas pelo tempo e pelo espaço, a língua portuguesa, enriquecida apenas por milhares de vocábulos nossos e submetida à nossa maneira de dizer em certas formas, tem mantido integralmente a sua estrutura e pureza originárias. No Brasil inteiro falamos e escrevemos o português e, se muitas ideias e pensamentos expressamos ao nosso modo, não se pode e não se deve renegar o nome de – portuguesa - para substituí-lo por outro de língua que patrioticamente poderíamos ter o desejo de possuir, mas que, na verdade, terá de ser estudada, aprendida, falada e escrita de acordo com os monumentos da língua portuguesa. Faltam, pois, razões de ordem histórica, científica e étnica ao projeto que, infelizmente, favorece ressentimentos dispensáveis de natureza internacional. Restaria ainda acentuar que o projeto regula problema que está fora de órbita do poder local.” Em artigo publicado no Correio da Manhã de 11 de agosto, o jornalista Costa Rego em dois períodos felizes resumiu todo o combate ao projeto: “O projeto fere a verdade científica”. “Seis palavras, apenas... Dentro delas – tão simples, tão breves – cabe, entretanto, um mundo de razões”. Abriu-se o debate na imprensa. Sustentou Heitor Lima (Correio da Manhã de 20 de setembro) que, desde que o idioma falado aqui não é o falado em Portugal, pois a prosódia brasileira difere, consideravelmente da lusa, a distância entre os dois léxicos já é enorme e as duas sintaxes discrepam sensivelmente, devemos dar nome adequado ao nosso idioma, visto não se lhe ajustar mais o de português. O vespertino O Globo ouviu nossa opinião. Passamos a reproduzir a entrevista publicada no número de 29 de julho, data anterior à do veto: Trata-se de questão de ordem científica, por conseguinte, do calmoambiente dos estudiosos e fora da efervescência das paixões. - E que vem a ser a língua falada no Brasil? 62 AULA 5 • OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL - Um dialeto muito caracterizado da língua portuguesa e nada mais que um dialeto. Faltam-lhes as características que lhe deem a categoria de uma língua. O sistema fonético é o mesmo do português; na pronúncia normal só se nota a ausência do e reduzido. As flexões são idênticas; morfemas de número (o s), de gênero (o a), de grau (-íssimo), desinências pessoais e temporais dos verbos não apresentam discrepância. A sintaxe, a não ser o caso da colocação dos pronomes oblíquos, poucas variações apresenta. A diferença de sotaque (notada dentro dos próprios países) é secundária. O abundante vocabulário de origem tupi e africana não atinge o cerne da língua portuguesa, pois as palavras fundamentais, como os nomes das partes do corpo, de parentesco, os numerais, os verbos que indicam as ações essenciais à vida, as partículas são todos portugueses. Há o exemplo clássico do romeno: o vocabulário estranho à latinidade sobrepuja o de origem latina e, no entanto, nem por isso deixa o romeno de ser uma língua românica. A Bélgica e a Suíça, com as variações que apresentam, ainda não se lembraram de criar uma língua belga e outra suíça. Nem por isso perdem a categoria de países soberanos, independentes. Nos Estados Unidos, o que há é o “American English” (Mencken). Programas argentinos mencionam “idioma nacional”. O mesmo motivo que há para se criar uma “língua brasileira” atualmente haveria para se criar uma algarvia, uma paulista, uma paraense. Se não se quiser chamar língua portuguesa, denomine-se língua vernácula, idioma nacional, português da América (Clóvis Monteiro), tudo, menos língua brasileira. Garantindo a liberdade de cátedra, a Constituição tornou leigo o Estado em matéria científica. A ele é indiferente que a Terra gire em torno do sol ou este em torno daquela. E, concluindo: - A aprovação do projeto não fará que os técnicos que se prezem passem a repelir a unidade da língua portuguesa dentro das suas variantes nas quatro partes do mundo. A linguística tem suas leis próprias; não tomará conhecimento da nova língua, surgida não espontaneamente, por evolução natural, mas a golpes de decretos. Submetido o veto à Câmara Municipal, esta o rejeitou, de modo que a lei entrou a vigorar no Distrito Federal, embora não nos conste que se tenha aplicado (Decreto nº 25, de outubro de 1935). Para alongar a sua órbita (o final do veto ressaltou este lado do problema), foi apresentado à Câmara dos Deputados um projeto que ampliava ao Brasil inteiro o que constituía lei no Distrito Federal. Tal projeto foi distribuído a um membro da comissão de instrução pública, o Dr. Edgard Sanches, que elaborou longo e minucioso trabalho até então inédito. Os acontecimentos de 10 de novembro de 1937 fizeram com que o projeto ficasse adiado por tempo indeterminado. textos para análise a. texto Arcaico Na lírica medieval galego-portuguesa, uma cantiga de amigo é uma composição breve e singela posta na voz de uma mulher apaixonada. Autoria de D. Sancho,1154/1211. CANTIGA D’AMIGO Ay eu coitada, Como vivo em gran cuidado por meu amigo que ei alongado! Muito me tarda o meu amigo na guarda! 63 OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL • AULA 5 Ay eu coitada, como vivo em gran desejo por meu amigo que tarda e não vejo! Muito me tarda o meu amigo na guarda! D. Sancho I. (apud Leite de Vasconcelos, “Textos Arcaicos”, p. 17-18) b. texto Medieval Leal conselheiro e Livro da ensinança de bem cavalgar toda sella, escritos pelo senhor Dom Duarte ...: fielmente copiado do manuscrito da Bibliotheca Real de Paris. Na typographia Rollandiana, 1843. D. Duarte, rei de Portugal (1433-1438). Figura 16 - Leal conselheiro, de Duarte de Portugal. Ed. Rollandiana, 1843 Disponível em: . Acesso em: 22 mar. 15. 64 AULA 5 • OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL c. texto escrito na Época Clássica Fernão de Oliveira, Gramatica da Linguagem Portuguesa, 1536. Capítulo III. [Da nossa terra e gente]. É tanta a nobreza de nossa terra e gente que só ella com seu capitão Viriato pôde lançar os romanos da Espanha e segui-los até a sua Italia. E só esta nossa terra Portugal, na Espanha, quando os godos com seus costumes barbaros e viciosos perderam a Espanha, teve sempre bandeira nunca sojeita a mouros, mas muitas vezes contr’elles vitoriosa,como foi a do santo abade dom João de Montemor, o qual confessam todos que corria a terra dos mouros como d’imigos e não como de senhores. E esta é a verdade, que em Portugal sempre houve lugares e terras proprias dos christãos porque se assi não fora, que na Estremadura não houvera lugares de christãos, não se atrevera o abade João, que era homem prudente, a sair trás seus imigos por suas terras desses imigos por espaço de jornadas com pouca gente. E os lugares de portugueses que ficaram em Portugal, posto que às vezes fossem vencidos como também às vezes eram vencedores, porque assi passa onde ha continoa guerra, todavia sempre teveram capitão christão até o conde dom Anrrique e el-rei dom Afonso Anrriquez seu filho, o qual por autoridade apostolica foi feito rei não devendo nada a alguém, como com muita verdade afirma Rui de Pina 7 na Estorea del-rei dom Sancho, o primeiro deste nome. Apontei isto para que desta nossa propria e natural nobreza nos prezemos e não fabulizemos ou mintamos patranhas estrangeiras; e muito menos nos louvemos dos godos, porque elles perderam o que a virtude desta terra. d. Texto Moderno: O português escrito após a formação das variantes modernas. A língua portuguesa entra em sua fase “moderna” a partir do século XVI. A literatura renascentista teve um papel fundamental para a normatização do português moderno, principalmente por meio de Luís Vaz de Camões. O texto “Compromiço” da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição (1741) serve como exemplo de texto desse período. Figura 17 - Compromiço [sic] da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição (1741). Disponível em: . Acesso em: 22 mar. 2015. http://www.infoescola.com/escritores/luis-vaz-de-camoes/ 65 OS EStuDOS FILOLÓgICOS nO BRASIL • AULA 5 Sintetizando Vimos até agora: » o conceito de Filologia; » a importância da pesquisa filológica no Brasil; » Leite de Vasconcelos e o seu estudo da língua portuguesa falada no Brasil. 66 Apresentação Considerando que nosso país é composto de um grande número de imigrantes, senti-me inspirada em pesquisar a forma de falar a língua portuguesa de alguns desses imigrantes nos dias atuais, bem como as variações linguísticas produzidas por tais falantes. Objetivos » Mostrar as principais dificuldades encontradas ainda hoje pelos falantes do espanhol ao falar a língua portuguesa. » Mostrar as principais dificuldades encontradas ainda hoje pelos falantes do italiano ao falar a língua portuguesa. » Mostrar as principais dificuldades encontradas ainda hoje pelos falantes do francês ao falar a língua portuguesa. » Mostrar as principais dificuldades encontradas ainda hoje pelos falantes do inglês ao falar a língua portuguesa. » Apresentar o Museu da Língua Portuguesa. 6 AULA O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS 67 O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS • AULA 6 Tópico: Dificuldades que o falante estrangeiro tem ao falar a língua portuguesa. Segundo dados do IBGE de 2010, os principais países de origem dos imigrantes que mais vieram para o Brasil naquele ano são Estados Unidos, Japão, Paraguai, Portugal e Bolívia, segundo mostra o gráfico abaixo: Figura 18 – Residentes no Brasil Disponível em: . Acesso em: 7 jun. 16. Como vimos nos capítulos anteriores, desde o seu descobrimento, o Brasil recebeu em seu território um grande número de indivíduos das mais diversas procedências.Nos dias atuais, vemos que, obrigado a aprender a falar a língua da nova pátria por razões diversas, o estrangeiro vai assimilando a língua que escuta como pode, conseguindo conservar algumas características linguísticas dentre aquelas que são percebidas de forma correta e contribuindo com a modificação da língua a partir da reprodução imperfeita daquilo que foi mal compreendido. O Censo Demográfico 2010 registou 286.468 imigrantes que, vindos de outros países, viviam no Brasil há pelo menos cinco anos e em residência fixa. O número foi 86,7% maior do que o encontrado pelo Censo Demográfico 2000, quando foram registrados 143.644 imigrantes na mesma situação. Os dados do Censo 68 AULA 6 • O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS Demográfico 2010 foram divulgados nesta sexta-feira (27) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São Paulo, Paraná e Minas Gerais, juntos, receberam mais da metade dos imigrantes internacionais, seguidas de Rio de Janeiro e Goiás. Os principais países de origem dos imigrantes, segundo o Censo de 2010, são Estados Unidos (51.933), Japão (41.417), Paraguai (24.666), Portugal (21.376) e Bolívia (15.753). Disponível em: . Acesso em: 7 jun. 16. Posicionamento do autor Apresentarei primeiro as alterações mais comuns ocorridas na língua portuguesa falada no Brasil pelos falantes nativos do Espanhol. Nesta transição, pode-se notar que o e e o o são sempre fechados: café (café), carioca (carióca); o e e o o finais não são reduzidos como em português: tarde (tarde), bélô (belo). A ausência do v é típica; aparece um v bilabial, diferente de nosso v labiodental e que ao ouvido do brasileiro soa como um b: binho (vinho). Com g brando, dá-se a habitual geada: xêlo (gelo). Pode-se notar, ainda, que o s final de sílaba não é tão chiado quanto o s do carioca. Também falantes da língua espanhola, temos ainda um grande número de sul-americanos, nossos fronteiriços, tais como uruguaios no Rio Grande do Sul, argentinos no Rio Grande, em Santa Catarina e no Paraná, paraguaios no Paraná e em Mato Grosso, bolivianos em Mato Grosso e no Amazonas, peruanos, colombianos e venezuelanos no Amazonas. Contudo, geralmente se percebe que, em regiões fronteiriças, os moradores são bilíngues e se compreendem com facilidade, não havendo a necessidade de haver um maior esforço para se promover a comunicação. Uma outra grande corrente migratória do Brasil é a Italiana radicada, principalmente, no Estado de São Paulo. Para o falante do Italiano, é bastante comum haver dificuldades para pronunciar, à moda brasileira, palavras que apresentem diferença na correspondente italiana. Assim como o zê, o cê, o jê: zilencio (cilêncio), notizia (notícia), tchidate (cidade), djornale (jornal), giurio (júri). O fonema kê inicial passa a guê: gabello (cabelo), gabrito (cabrito), gumercio (comércio). O pê inicial passa a bê: Zan Baolo (São Paulo). O r final ou cai ou sofre a paragoge (fenômeno fonético que consiste na adição de um fonema ou sílaba no final de palavra) de um e: plantá, senhore, favore, dottore. O l, o s e o z finais também sofrem o processo paragoge: paídze (país), fize (fiz), maise (mais), Brasile (Brasil), djornale (jornal). O l nos grupos consonânticos algumas vezes passa a r, como em arto (alto). O grupo nd perde o d em gerúndios: andano (andando), veno (vendo). O ditongo ei reduz-se a e: sugné (sonhei). As nasais desaparecem: tambê (também), bô (bom). É comum a ocorrência da prótese (acréscimo de letra ou sílaba no princípio da palavra) do a nos verbos, como em assuspirá (suspirar). Não sendo considerada uma grande força migratória no Brasil, é comum nos dias de hoje o contato com falantes do Francês em grandes centros urbanos brasileiros, tais como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Ao falar a língua portuguesa, é possível notar o uso do r grasseyé de Paris, como em: “...um que morra em Parris, vem passar todos os annes dois meses no Brrasil”. Pesquisando no livro “Estudos Filológicos”, de Antenor Nascentes, de onde foram retirados os exemplos supracitados, deliciei-me também com a reprodução transcrita abaixo, de uma modinha brasileira, cantada por uma francesa: Quem aventou a mulate Foi dirreitinhe prr´o ceô, 69 O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS • AULA 6 Fes um producte cotube De se tirrar o chapeô. No exemplo, pode-se notar, ainda, uma tendência em se reduzir o a e o o em e, como em annes (anos), producte (produto), mulate (mulata). Ao falar o português brasileiro, percebe-se que o falante do Inglês tende a não pronunciar os ditongos nasais, como em non (não) e a reduzir a e o final, como em desesperade (desesperado), canude (canudo). Este troca o gênero dos substantivos: o janela, a garoto. Emprega o pronome mim por eu, usa o verbo no infinitivo ou na terceira pessoa: Mim gostar (eu gosto). Pesquisando sobre o uso da língua portuguesa por falantes estrangeiros, achei interessante texto publicado na Revista Espaço Acadêmico (ano II, nº 18, nov./2002, ISSN 15196186), que conta a experiência de um americano, professor de língua portuguesa, e suas dificuldades com a nossa língua: Como e por que um americano se apaixonou pela língua portuguesa Por MARK A. LOKENSGARD Professor de Português (Prof. Assistente), St. Mary ‘s University of San Antonio, Texas Sempre chega aquele momento, quando eu conheço alguém pela primeira vez, que é necessário revelar a profissão. Nos Estados Unidos, onde eu moro e de onde sou, a reação, a maioria das vezes, é de estranheza. “Professor de português?” me perguntam, como se nunca tivessem imaginado que tal coisa pudesse existir. Vejo, nos olhos da pessoa, que está percorrendo um mapa do mundo na cabeça para identificar uma região ou país onde se fala essa língua. Muitas vezes a busca termina em Portugal, e depois querem saber se existe muito interesse em aprender uma língua que só se fala num país tão pequeno. Já pensei em carregar folhetos comigo, folhetos que eu mesmo criei para tentar estimular os alunos da minha universidade a aprender a língua de Camões comigo. Pelo menos me pouparia o trabalho de descobrir, geralmente sem sucesso, como posso entregar com gentileza a evidência de uma ignorância à pessoa. Uma vez foi uma velhinha simpática, que parecia não só chocada, mas um pouco indignada, como se a tivessem traído em cobrir um país tão grande com uma manta enganosa. Na verdade, começou assim para mim também. Aprendi espanhol no colégio; entre alemão, francês e espanhol, me parecia fazer mais sentido aprender uma língua da vizinhança, de um povo que passou pelo processo de sair de um mundo velho, deixando coisas e costumes e família para trás, pela vontade ou contra ela, e tentar criar uma nova sociedade. Enfim – a novidade me interessou. 70 AULA 6 • O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS Cheguei a viajar para o Equador e o Paraguai por dois meses cada um, trabalhando como voluntário em projetos de saúde pública. Queria fazer alguma coisa útil enquanto aprendia e usava a língua, e não só ser turista. Foi assim, no Paraguai, que vi a língua portuguesa escrita pela primeira vez. Quem tem mania de ler o que estiver perto, nem que seja etiqueta de roupa ou texto de caixa de cereal, não poderia ficar sem reparar na presença de português no Paraguai, mesmo longe de Assunção e da então Ciudad Stroessner. O primeiro texto brasileiro que vi foi numa caixa de detergente Omo. Fiquei fascinado. Como seria essa língua falada? Sobretudo, me provocava a presença do til sobre as vogais. O que era aquilo? Como seria um “eñe” quando não tinha consoante? Tentava imaginar, sem sucesso. E outra coisa – será que eu entenderia alguma coisa de português falado? Parecia familiar, mas também cheio de mistérios como esse. Anos depois eu vi o meu fascínio pelo til com vogal descrito por Mário de Andrade, quandoelogiou a língua materna por possuir o “admirabalíssimo ‘ão’.” Como descobri no final de dois meses, numa viagem para a Foz do Iguaçu, eu não entenderia nada de português falado. Só os números eu entendi, escritos no papel. Mas ninguém estranhava o meu espanhol, e todos respondiam com naturalidade e de boa vontade numa língua frustrantemente inacessível para mim. Foi assim que começou a sensação de alguém ter me traído. Como é que ninguém me falou dessa língua antes? Por que todos no meu país deixaram passar o fato de que um país do tamanho de um continente falava uma língua diferente do resto das Américas? Eu me achava uma pessoa de boa formação, mesmo com dezoito anos. Era como se tivesse cometido uma gafe terrível, por falta da informação que alguém deveria ter me fornecido antes. Na saída do Brasil, mais um fato atiçou a minha curiosidade: da janela do ônibus, na estrada para a Ponte da Amizade, vi um homem sair de uma casa modesta e ir até o quintal pequeno. Lá ele virou o copo que tinha na mão e começou a batê-lo, para tirar os restos de chá de erva mate que bebera. Eu tomara mate no Paraguai durante dois meses pensando que era costume só do Paraguai. Que gente era essa, que falava uma língua diferente, mas tinha pelo menos essa prática em comum? Dois meses depois, no primeiro semestre da faculdade, veio a sedução definitiva. No primeiro dia de aula de português, a professora leu um texto em voz alta para a turma. Aí eu ouvi os leves “tchis” nos finais dos advérbios, os suaves “djis” nas palavras “dia” e “diálogo”, e o admirabilíssimo “ão”, som que não dominava, mas que não me deixava em paz com a vontade de poder falá-lo direito. Jurei comigo que aprenderia português, custasse o que custasse. Mas acabou me custando apenas a compreensão de gente que era ignorante como eu também fora, um preço pequeno para pagar por um amor verdadeiro. 71 O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS • AULA 6 Hoje, nas viagens mais ou menos anuais que faço ao Brasil, às vezes conheço pessoas novas para mim. Às vezes ficam receosas quando sabem a minha profissão, e começam a se policiar para não falar “errado”. Mas depois a curiosidade vence o medo e perguntam, surpresas, “O povo americano se interessa em aprender português?”, e eu respondo, usando, como aprendi na primeira semana de aula, o mesmo verbo da pergunta: “Interessa.” Disponível em: . Acesso em: 15 nov. 2016. Museu da Língua Portuguesa Estação da Luz: Praça da Luz, s/nº Portão 1, Centro - São Paulo, SP (fechado para restauro). Inaugurado oficialmente no dia 20 de março, o Museu da Língua Portuguesa abriu suas portas ao público no dia 21 de março de 2006. Em 10 anos de funcionamento, quase 4 milhões de pessoas visitaram o espaço, consolidando-o como um dos museus mais visitados do Brasil e da América do Sul. O Museu contou com uma equipe de criação e pesquisa composta de mais de trinta profissionais qualificados, dentre eles sociólogos, museólogos, especialistas em língua portuguesa e artistas que trabalharam sob a orientação da Fundação Roberto Marinho, instituição conveniada ao Governo do Estado de São Paulo responsável pela concepção e implantação do museu. Dedicado à valorização e difusão do nosso idioma (patrimônio imaterial), o Museu da Língua Portuguesa apresenta um formato expositivo diferenciado das demais instituições museológicas do país e do mundo, usando tecnologia e recursos interativos para a apresentação de seus conteúdos. Figura 19 – Museu da Língua Portuguesa. Disponível em: . Acesso em: 25 out. 2016. Os principais objetivos do Museu da Língua Portuguesa são: » mostrar a língua como elemento fundamental e fundador da nossa cultura; » celebrar e valorizar a língua portuguesa, apresentando suas origens, história e influências sofridas; 72 AULA 6 • O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS » aproximar o cidadão usuário de seu idioma, mostrando que ele é o verdadeiro “proprietário” e agente modificador da língua portuguesa; » valorizar a diversidade da cultura brasileira; » favorecer o intercâmbio entre os diversos países de língua portuguesa; » promover cursos, palestras e seminários sobre a língua portuguesa e temas pertinentes; » realizar exposições temporárias sobre temas relacionadas à língua portuguesa e suas diversas áreas de influência. Nesses anos de funcionamento, foram realizadas mais de 30 exposições temporárias, além de cursos, palestras, debates e apresentações de artes. O serviço educativo da Instituição se consolidou como um exemplo para outras instituições no Brasil e no Exterior, promovendo atividades de qualidade e sempre de forma inovadora. No dia 21 de dezembro de 2015, infelizmente, as instalações do Museu foram atingidas por um incêndio de grandes proporções, o que obrigou o fechamento do espaço para a visitação pública. Entretanto, a instituição continua viva, promovendo ações educativas, exposições itinerantes e atuante nas Redes Sociais. As obras emergenciais para estabilização do edifício começaram apenas 48 horas após o incêndio. E, no dia 21 de janeiro de 2016, o Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, assinou convênio com a Fundação Roberto Marinho e a organização social ID Brasil visando à união de esforços para a reconstrução do museu. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 16. Figura 20 - Línguas. Disponível em: . Acesso em: 7 mar. 17. 73 O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS • AULA 6 Sugestão de estudo 1. Língua Portuguesa – Olavo Bilac. LÍNGUA PORTUGUESA (Olavo Bilac) Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela... Amote assim, desconhecida e obscura, Tuba de alto clangor, lira singela, Que tens o trom e o silvo da procela E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te, ó rude e doloroso idioma, Em que da voz materna ouvi: “meu filho!” E em que Camões chorou, no exílio amargo, O gênio sem ventura e o amor sem brilho! Disponível em: . Acesso em: 1º abr. 15. 2. Sobre a Língua Portuguesa: Clarice Lispector “Esta é uma declaração de amor; amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutileza e de reagir às vezes com um pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa do superficialismo. Às vezes assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope. Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos, estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida. Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega. Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.»Disponível em: . Acesso em: 4 mai. 16 74 AULA 6 • O PORtuguÊS FALADO PELOS EStRAngEIROS nOS DIAS AtuAIS Figura 21 - Imigração no Brasil. Disponível em: . Acesso em: 14 set. 2016. Sintetizando Vimos até agora: » o português na boca dos estrangeiros nos dias atuais; » o número de imigrantes no Brasil: diferentes falares; » a análise de texto: Olavo Bilac; » a análise de texto: Clarice Lispector; » o Museu da língua portuguesa. 75 Referências ANTONIO, J. D. Estudos descritivos do português. São Carlos: Editora Claraluz, 2008. AZEVEDO FILHO, L. A. de. Editorial. Revista da Academia Brasileira de Filologia. Nova fase. N° 1 – Primeiro semestre de 2002, Rio de Janeiro, 2002, pp. 6-7 BAGNO, M. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Editora Loyola, 2013. CÂMARA JÚNIOR, J. M. Princípios de linguística geral. Rio de Janeiro: Editora Acadêmica, 1973. CAMPAGNANO, A. R. Judeus de Livorno: sua língua, memória e história. São Paulo: Humanitas, 2007. CARDOSO, S. A. A Dialectologia no Brasil: perspectivas. Delta, v. 15, São Paulo/1999. Disponível em: . Acesso em: 22 fev. 17. CARDOSO, S. A. M.; FERREIRA, C. A dialectologia no Brésil. São Paulo: Contexto,1984. CARVALHO, N. Empréstimos linguísticos na língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Cortez, 2009. CHEDIAK, A. J. Síntese histórica da Academia Brasileira de Filologia (1944-1949) – Primeira parte. Rio de Janeiro: 1999. Disponível em: . Acesso em: 15 mar. 2017. COUTINHO, I. de L. Gramática histórica: linguística e filologia. Rio de Janeiro: Editora Ao Livro Técnico, 2005. 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Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Introdução Aula Conceito de língua, fala e dialeto Aula O português do Brasil Aula Diferenciação dialetal Aula Geografia linguística Aula Os estudos filológicos no Brasil Aula O português falado pelos estrangeiros nos dias atuais Referências“se diz”, mas como “foi dito”) e literário porque se tomou como referência o uso escrito de autores literários. Portanto, aquela linguagem que se estabeleceu como culta representa o uso que alguns escritores considerados clássicos fizeram da língua numa época passada. Devemos nos lembrar que esse critério não é suficiente para se estabelecer o que é correto, já que mesmo bons autores fizeram usos diversos da língua; também é necessário considerar sua própria história (TERRA, 2010, p. 58). Cunha e Cintra (2007) consideram três tipos de diferenças e afirmam que os dialetos são um deles, vejamos: 1. diferenças no espaço geográfico (falares locais, variantes regionais e, até, intercontinentais – dialetos); 2. diferenças entre as camadas socioculturais (nível culto, língua padrão, nível popular...); 3. diferenças entre os tipos de modalidade expressiva (língua falada, língua escrita, língua literária, linguagens especiais, linguagem dos homens, linguagem das mulheres...). Os autores observam, ainda assim, que a variação é inerente ao sistema linguístico e ocorre em todos os níveis – fonético, fonológico, morfológico – dentro de cada grupo social, e que é parte integrante da competência linguística dos seus membros. Todas as variedades linguísticas são 9 COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO • AULA 1 estruturadas e correspondem a sistemas e subsistemas adequados às necessidades dos seus usuários. Definem, também, os dialetos como sendo “as formas características que uma língua assume regionalmente” e que “divergem de maneira mais ou menos acentuada quanto à pronúncia, à grafia e ao vocabulário (...)”. Para eles, a fala é a peculiaridade expressiva própria de uma região e não apresenta o grau de coerência alcançado pelo dialeto. De acordo com Campagnano (2007), a língua poderia ser caracterizada como um dialeto empobrecido que, tendo abandonado a língua escrita, convive apenas com as manifestações orais. Sacconi (1994) define fala e aduz que: [...] O discurso ou fala é a utilização da língua pelo falante a seu modo, segundo suas possibilidades. É a escolha pessoal que o indivíduo faz dos signos da língua, para a expressão do seu pensamento. A língua é um instrumento social à disposição do indivíduo falante; o discurso é uma realização pessoal, individual. Foi o linguista suíço Louis Ferdinand Saussure o responsável pela dicotomia língua/discurso ou fala (em francês langue/parole). Enquanto “la Langue” constitui um sistema, um organismo, um instrumento, “la parole” é a sua expressão particular, que obedece à situação de momento que o falante está vivendo. O discurso é, dessa forma, a concretização da linguagem falada (SACCONI, 1994, p. 3). A pesquisa dialetológica: fundamentos, esboço histórico e situação atual Fundamentos: significado do vocábulo dialetologia Antes de falar sobre a pesquisa dialetológica, é preciso compreender o significado do termo dialetologia. O “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa” mostra-nos que o vocábulo DIALETOLOGIA é formado pela junção da palavra dialeto (variedade regional de uma língua) + logia (do grego logía = estudo). Desse modo, dialetologia é definida como o “estudo da variação dialetal, cuja meta é o estabelecimento das fronteiras geográficas para os usos linguísticos” (FERREIRA, 2004, p. 672). Cardoso e Ferreira (1984) afirmam, ainda, que a dialetologia tem como fonte de dados as zonas rurais, vistas como áreas não contaminadas pelo contato com outras variedades sociolinguísticas. Esboço histórico A preocupação com o estudo das variedades regionais de determinada língua natural é de longa data. Contudo, foi a partir da inclusão da disciplina de dialetologia no currículo regular 10 AULA 1 • COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO da École Pratique des Hautes Études, de Paris, e do surgimento do Atlas Linguístico da França, expondo a realidade dialetal do país, que foram traçadas as bases da Geolinguística como método essencial ao estudo dos dialetos de uma língua. Com esse estudo, foi possível registrar em mapas especiais um número elevado de formas linguísticas variadas, fossem elas fônicas, lexicais ou gramaticais, comprovadas mediante pesquisa direta e unitária. A partir daí, buscou-se adquirir melhor conhecimento dos mecanismos com que opera uma língua e os possíveis fatores que determinam sua evolução. Com vistas a conhecer melhor a Língua Portuguesa falada no Brasil, começaram a ser feitos estudos dialetológicos em nosso país. A primeira manifestação de natureza dialetal sobre o português do Brasil deve-se a Domingos Borges de Barros, Visconde de Pedra Branca, que escreveu, em 1926, enquanto ministro plenipotenciário do Brasil na França e a pedido do geógrafo Vêneto Adrien Balbi, um informe sobre as diferenças que o dialeto brasileiro apresentava em comparação com a língua falada em Portugal (172-175 Introduction à l´atlas ethnographique du globe). É uma lista de oito nomes que mudam de significação e cinquenta nomes usados exclusivamente no Brasil. A partir de então, costuma-se considerar iniciada a história dos estudos dialetais no Brasil, para a qual Cardoso e Ferreira (1984, p. 37-62) atribuem três diferentes etapas, reformulando, assim, a periodização proposta por Nascentes (1953), que estabelece apenas duas grandes fases. Primeira fase A primeira fase recobre um século e estende-se de 1826 a 1920, data da publicação de “O dialeto caipira”, de Amadeu Amaral. Os trabalhos produzidos direcionam-se para o estudo do léxico e de suas especificidades no português do Brasil. São dicionários, vocabulários e léxicos regionais, dentre os quais, e a título de ilustração, podem ser citados os seguintes: » Dicionário da língua brasileira, 1832, de Luís Maria Silva Pinto, que se constitui num dicionário do português com a introdução de formas próprias do Brasil; » Vocabulário brasileiro para servir de complemento aos dicionários da língua portuguesa, 1853, de Brás da Costa Rubim, obra de caráter geral; » Glossário de vocábulos brasileiros, tanto dos derivados como daqueles cuja origem é ignorada, publicado pelo Visconde de Beaurepaire-Rohan na Gazeta Literária, de 1883 a 1884, que foi, posteriormente, em 1889, transformado no “Dicionário de vocábulos brasileiros”; » A linguagem popular amazônica, 1884, de Macedo Soares, contendo um glossário de cerca de cento e vinte palavras de origem tupi em uso na Amazônia; » O tupi na geografia nacional, 1901, obra de Theodoro Sampaio que se detém na contribuição das línguas tupis ao português do Brasil; 11 COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO • AULA 1 » Glossário paraense, 1905, com o subtítulo Coleção de vocábulos peculiares à Amazônia e especialmente à Ilha de Marajó, de Vicente Chermont de Miranda, que declara, no prefácio, fazer a obra parte de um trabalho mais amplo – “A criação de Gado no Marajó”; » Apostilas ao dicionário de vocábulos brasileiros, 1912, de P. Carlos Teschauer; » Dicionário de brasileirismos, 1912, de Rodolfo Garcia. Fazendo parte desse conjunto de obras de caráter lexicográfico, composto, basicamente, de glossários ou dicionários, que caracterizam a primeira fase, encontra-se um primeiro estudo, mais amplo, de cunho gramatical, “O idioma hodierno de Portugal comparado com o do Brasil”. Esse livro é de autoria do brasileiro José Jorge Paranhos da Silva (1879) e trata dos diferentes aspectos da variação do português do Brasil comparados com aspectos do português de Portugal. O autor faz, em sua obra, sugestiva dedicatória: Aos moços que, se tendo ido formar em Coimbra, dizem que querem outra vez ser considerados como nascidos no Brasil, offereço esta comparação da nossa maneira de falar com a dos actuaes Portuguezes. Segunda fase Nascentes (2003), em “Estudos Filológicos”, sustenta que Amadeu Amaral, autor de “O Dialeto Caipira”, não era um filólogo profissional. Amaral se declara um hóspede em filologia e diz modestamente em sua introdução que: “O que desejamos nesta obra, sempretensão, é caracterizar este dialeto ‘caipira’ ou se se prefere este aspecto dialetal do português de São Paulo”. A obra, seguida de um vocabulário muito interessante, contém quatro capítulos: Fonética, Lexologia, Morfologia e Sintaxe. Era a primeira vez, apesar de todas as imperfeições do autor, que um falar dialetal do Brasil fazia o objeto de um estudo científico: todos os sons são estudados um a um; a origem das palavras é seriamente considerada, os plurais, os graus de significação, o gênero, as formas verbais são esclarecidas; os principais fenômenos sintáticos são explicados. Apenas Antenor Nascentes e Mário Marroquim seguiram o trabalho de Amadeu Amaral. Caso seu estudo tivesse sido seguido em outros estados do Brasil, possivelmente teríamos hoje outros estudos científicos que fundamentariam um atlas mais preciso sobre os diversos falares existentes no Brasil. É possível afirmar que ainda há muito a se fazer para termos um estudo completo do Português do Brasil. Faltam-nos vocabulários e dados precisos sobre a fonética, a morfologia e a sintaxe de muitas regiões. Os estudos de geografia linguística e, em consequência, a elaboração de cartas (mapas) em atlas linguísticos estão longe de um início. Falta uma organização centralizadora: os esforços parciais se perdem e não são inspirados por um plano de conjunto. 12 AULA 1 • COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO Cronologia de publicações da segunda fase » 1920: AMARAL, Amadeu. O dialeto caipira. » 1922: NASCENTES, Antenor. O linguajar carioca. » 1922: LEMOS, Floriano. O mundo literário. 1º volume. » 1924: PEIXOTO, Afrânio. Brasileirismo – Revista de Filologia Portuguesa de São Paulo. » 1925: DAISSON, Augusto. À margem de alguns brasileirismos. » 1926: CALLAGE, Roque. Vocabulário gaúcho. » 1926: MAIA, Álvaro. Tese: O ritmo da língua nacional. » 1931: VON THERING, Rodolfo. Dicionário dos animais do Brasil (Publicado em forma de livro em 1940). » 1931: MORAIS, Raimundo. Meu dicionário de coisas da Amazônia. » 1932: TAUNAY, Afonso. Inópia científica e vocabulário dos grandes dicionários portugueses. » 1932: MATA, Alfredo. Acréscimos vocabulares – Revista do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. » 1933: Três teses são apresentadas ao Colégio Pedro II: RAIMUNDO, Jacques. O elemento afro-negro na língua portuguesa; MENDONÇA, Renato. A influência africana no português do Brasil; e MONTEIRO, Clóvis. Os cantadores são os cantores populares do Nordeste. » 1934: MARROQUIM, Mario. A língua do Nordeste. » 1935: MORAIS, Luís Carlos. Vocabulário sul-rio-grandense. » 1937: VIOTTI, Manuel. Linguajar brasileiro: notas para o dicionário de brasileirismos – Revista Ciências e Letras da Academia de Ciências e Letras de São Paulo. » 1937: COSTA, Francisco Augusto Pereira da. O vocabulário pernambucano – Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. » 1937/38: Anais do 1º Congresso da Língua Nacional Cantada, SP. » 1938: TEIXEIRA, José A. O falar mineiro – Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. » 1939: SOUSA, Bernardino José. Dicionário da terra e da gente do Brasil. 4ª edição de Onomástica Geral da Geografia Brasileira. » 1942: MENDES, Armando. Vocabulário Amazônico. 13 COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO • AULA 1 » 1944: A Linguagem de Goiás é estudada pela primeira vez por José A. Teixeira nos Estudos de Portuguesa, SP. » 1949: SANCHES, Edgard. Língua brasileira. » 1951: CARNEIRO, Edison. A linguagem popular da Bahia. Situação atual Estudos geográficos e linguísticos revelam a grande importância em se construir um atlas linguístico que mostre as diferentes formas de falar de um povo. Gilliéron e Edmond produziram o primeiro atlas linguístico na França. Depois desse, vieram os atlas ítalo-suíço, o romeno, etc., e há pouco apareceu o primeiro tomo do atlas da Península Ibérica. Seguindo a ideia de Antenor Nascentes, deveriam ser feitos atlas do Brasil e dos países hispano-americanos complementares a esse da Península Ibérica. Em alguns países sul-americanos, como a Colômbia, já se tem avançado em relação ao assunto. No Brasil, existem projetos, como o Projeto Atlas Linguístico do Brasil (Projeto ALIB/Celso Cunha), este foi criado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em conjunto com doze universidades e tem por meta a realização de um atlas geral do Brasil. Enquanto não existir o Atlas Linguístico do Brasil, não é possível fazer uma divisão territorial em matéria de dialetologia com bases seguras. Por essa razão, estudos vêm sendo realizados com o objetivo de se construir tal atlas, mesmo sabendo que a execução é uma tarefa muito difícil e necessitaria de inúmeras checagens e revisões definitivas. Em “Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa no Brasil”, Serafim da Silva Neto salienta que a divisão de nosso país em áreas linguísticas esbarra em uma grande dificuldade: a falta de delimitação das isoglossas (linhas que demarcam em um mapa a fronteira de um traço linguístico). Ao examinar as propostas existentes de divisão dialetal do Brasil, Antenor Nascentes menciona as apresentadas por Júlio Ribeiro e Rodolfo Garcia. Depois disso, propõe uma divisão do país em áreas linguísticas, na primeira edição do seu livro sobre o linguajar carioca (1922). Mais adiante, ao publicar a segunda edição desse livro, declara que, “Quando fiz aquela divisão, havia percorrido pequena parte do nosso território” (1953, p. 23), acrescentando, mais adiante, à página 24, que “Hoje que já realizei o meu ardente desejo de percorrer todo o Brasil, do Oiapoc ao Xuí, de Recife a Cuiabá, fiz nova divisão que não considero nem posso considerar definitiva, mas sim um tanto próxima da verdade”. A proposta de Nascentes, como indicada no mapa (Figura 2), estabelece uma grande divisão linguística no Brasil. O autor afirma que “Basta uma singela frase ou uma simples palavra para caracterizar as pessoas pertencentes a cada um destes grupos”. Nenhuma outra divisão, contudo, foi sugerida após esta de Nascentes. 14 AULA 1 • COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO Figura 2 – Divisão linguística sugerida por Antenor nascentes. Disponível em: . Acesso em: 27 mar. 15. Figura 3 – Divisão linguística de Antenor nascentes em mapa modernizado Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 15. https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwj5xbWIlN_OAhXITZAKHY1rBF0QjB0IBg&url=http%3A%2F%2Fwww.prof2000.pt%2Fusers%2Fhjco%2Fgramcom%2Fcap06_02.htm&psig=AFQjCNFO1uD64l5Cgs3JRsWtyRT4l-uaNw&ust=1472303441627320 15 COnCEItO DE LÍnguA, FALA E DIALEtO • AULA 1 Nascentes dividiu o falar brasileiro em seis subfalares, reunidos em dois grupos – Norte e Sul. O que caracteriza esses dois grupos é a cadência e a existência de protônicas abertas em vocábulos que não sejam diminutivos nem advérbios terminados em -mente. Eles estão separados por uma zona que ocupa uma posição mais ou menos equidistante dos extremos setentrional e meridional do país. Os subfalares do Norte são dois: o amazônico, que abrange o Acre, o Amazonas, o Pará e a parte de Goiás que vai da foz do Aquiqui à serra do Estrondo, e o Nordestino, que compreende os estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e a parte de Goiás que vai da serra do Estrondo à nascente do Parnaíba. Os subfalares do Sul são quatro: o baiano, intermediário entre os dois grupos, abrangendo Sergipe, Bahia, Minas (nordeste, norte e noroeste), Goiás (parte que vem da nascente do Parnaíba, seguindo pelas serras do Javaés, dos Xavantes, do Fanha e do Pilar até a cidade de Pilar, rio das Almas, Pirenópolis, Santa Luzia e Arrependidos); o fluminense, abrangendo o Espírito Santo, o Rio de Janeiro, o Distrito Federal, Minas (Mata e parte do leste); o Mineiro (centro, oeste e parte do leste de Minas Gerais); o sulista, compreendendo São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas (Sul e Triângulo), Goiás (Sul) e MatoGrosso. Sintetizando Vimos até agora: » conceito de língua, fala e dialeto; » fundamentos, esboço histórico e situação atual da pesquisa dialetológica no Brasil. 16 Apresentação Na segunda aula, apresento algumas características do português falado no Brasil, considerando as diversas influências que contribuíram na formação dos falares de nosso país. São apresentadas, também, diferenças dialetais, relacionando-as às variantes geográficas. Objetivos » Diferenciar elementos que compõem a língua portuguesa falada no Brasil. » Entender a influência do português falado em Portugal. » Conhecer os elementos indígena, africano e outros elementos na formação da língua portuguesa. » Apresentar contribuição vocabular de outras línguas. » Destacar algumas diferenças entre as diversas formas de falar da língua Portuguesa falada no Brasil. 2AULA O PORtuguÊS DO BRASIL 17 O PORtuguÊS DO BRASIL • AULA 2 Formação da língua falada no Brasil Trazida pelos descobridores portugueses, muito usada pelos colonos que aqui se estabeleceram, a língua portuguesa não conseguiu imediata adesão sobre a língua falada pelos nativos que ocupava o território brasileiro, o tupi. A mistura do Português falado pelos colonizadores portugueses, do Tupi e dos falares dos africanos, trazidos como escravos para o Brasil, serve como base de estudo para se compreender a língua falada no Brasil. Algumas outras contribuições, mais ou menos valiosas, também contribuíram para a formação do português do Brasil. Figura 4 – A obra “Desembarque de Cabral em Porto Seguro”, de Oscar Pereira da Silva, retrata o primeiro contato dos índios com os portugueses. Disponível em: . Acesso em: 23 ago. 16. O elemento indígena Quando aqui chegaram, os colonizadores portugueses deram início ao cruzamento linguístico entre o elemento europeu e o indígena. Se estabelecendo na colônia, o homem português se juntava à mulher índia, dando início a famílias que, na maioria dos casos, falavam mais o tupi do que o português. Ocupado com seu trabalho, geralmente no comércio ou agricultura, não sobrava tempo ao homem português para ensinar aos seus descendentes o seu idioma pátrio. Dessa forma, era deixada para as mulheres a oportunidade de transmitirem sua forma de falar aos mais novos. O trabalho dos missionários jesuítas também influenciou a forma de falar dos nativos do Brasil Colônia. Com o objetivo de catequização, os selvagens eram obrigados a aprender o Português, não apenas de forma prática, visto que chegaram a compor-lhe a gramática e o dicionário. Os colégios que criavam mantinham o ensino do tupi e também do português. 18 AULA 2 • O PORtuguÊS DO BRASIL O tupi é a língua geral tupi-guarani sistematizada pelos padres jesuítas, falada pelos povos indígenas que habitavam o litoral e, ainda hoje, pelos que habitam a região amazônica. O linguajar tupi foi expandido para o interior do país pelos bandeirantes. Entrando pelos sertões brasileiros, eles eram, muitas vezes, conduzidos por condutores índios, fazendo do abanhaeém – o tupi dos primeiros textos jesuíticos – o instrumento das suas comunicações diárias. Dessa forma, justifica-se a existência da influência do tupi em regiões que, originariamente, não eram ocupadas pelos tupis. Até o século XVII, era falada a língua geral, nos campos de São Paulo, Rio Grande do Sul, Amazonas e Pará. No começo do século XVIII, a situação ainda era pouco favorável ao português: em um grupo de quatro pessoas, três se comunicavam em tupi e apenas uma em Português. Várias ordens partiram de Portugal para que a língua portuguesa fosse ensinada aos índios. Depois da expulsão dos jesuítas, o uso do português tornou-se obrigatório. Tal medida se consolidou, de fato, a partir das sucessivas emigrações de famílias portuguesas para a colônia e com o crescente progresso desta. Com o predomínio do uso da língua portuguesa nos centros civilizados, o tupi concentrou-se nas florestas remotas de Mato Grosso, Amazonas, Goiás, onde seu uso até atualmente pode ser observado por meio de costumes antigos e da forma de falar de pessoas que repetem seus antepassados. O idioma português apresenta vestígios do tupi não apenas na forma de falar, mas, principalmente, no vocabulário brasileiro. Os termos de procedência do tupi, incorporados ao léxico português do Brasil, são nomes próprios ou apelidos de pessoas: Araci, Baraúna, Colgipe, Caminhoá, Guaraciaba, Iracema, Itagiba, Imbassaí, Jaci, Juraci, Jurema, Jupira, Jucá, Jaguaribe, Moema, Pitanga, Paraçuaçu, Piragibe, Paranaguá, Sucupira, Ubirajara; topônimos: Guanabara, Guaratinguetá, Itatiaia, Itu, Juturnaíba, Niterói, Piraí, Paraíba, Paquetá, Tietê, Ubatuba; nomes de seres do reino animal: araponga, arara, caninana, capivara, curiango, curió, cutia, gambá, jiboia, irara, nambu, jacaré, jacu, jaburu, jaó, jararaca, juriti, lambari, mandi, maracanã, paca, piranha, quati, sabiá, sanhaço, saracura, saúva, siriema, socó, sucuri, surubi, tamanduá, lanajura, tatu, urubu; nomes de seres do reino vegetal: abacaxi, araribá, brejaúva, burili, cabiúna, canjarana, capim, carnaúba, caroba, caruru, cipó, grumixama, guabiroba, imbaúba, imbuia, ingá, ipê, jabuticaba, jacarandá, jequitibá, mandioca, peroba, pitanga, sapé, taioba, taquara, timbó, tiririca; nomes de objetos, aparelhos, utensílios: arapuca, arataca, jacá, jiqui, pari, tipili, urupema; nomes de fenômenos naturais, doenças, alimentos, crendices: piracema, pororoca, catapora, sapiroca, moqueca, moquém, saci, caipora, curupira. Um bom número de verbos é formado por nomes indígenas: capinar, empipocar, encoivarar, empaçocar, encaiporar, moquecar. A incorporação de alguns indigenismos à nossa língua foi tão perfeita que eles se tornaram produtivos, servindo à formação de nomes compostos e derivados: urubu-rei, tié-sangue, sabiá-da-praia, jabuticabal, jabuticabeira, cajueiro, cajueiral, cajuada, capinzal, carnaubeira, ingazeiro, sapezal. 19 O PORtuguÊS DO BRASIL • AULA 2 Encontram-se também, mais raramente, sinais de influência tupi na nossa fraseologia, tais como estar na pindaíba, andar ao uatá, chorar pitanga. O elemento africano Um outro elemento que muito contribuiu para a formação do português do Brasil foi o elemento africano. Traços das línguas faladas pelos negros africanos que foram trazidos para o Brasil como escravos, principalmente os do grupo guineano-sudanês (Guiné e Sudão Ocidental) e banto (África Austral), podem ser percebidos até os dias de hoje na língua portuguesa falada no Brasil. Tal contribuição passou a ser considerada como fator importante, que muito contribuiu com nossa identidade linguística. Entre as línguas africanas que mais contribuíram com a formação do português falado no Brasil, deve-se salientar o nagô ou ioruba (grupo sudanês), que teve o seu ponto de irradiação, principalmente, na Bahia, como atesta o vocabulário regional, e o quimbundo (grupo banto), em Pernambuco e outros estados do Norte, no Rio de Janeiro, em São Paulo e Minas Gerais. Esta última língua exerceu maior influência no português, se considerarmos o fato de que um número maior de falantes a utilizavam. O vocabulário de procedência africana que passou ao nosso léxico é composto de nomes geográficos, entre eles: Bangu, Banguela, Cachimbo, Cacimba, Carangola, Caxambu, Guandu, Murundu, Quilombo; ou designam divindades, ministros de culto, práticas, rituais, crendices: Exu, Iemanjá, Ogum, Olorum, Oxum, Orixá, Xangô, alufá, babalaô, babalorixá, quimbombo, candomblé, canjerê, catimbau, macumba, mandinga, muamba, quibungo, tatu, zumbi; danças, instrumentos musicais: bangulê, batucagé, batuque, jeguedê, jongo, lundu, maracatu, samba, banza, agogô, afofiê, berimbau, canzá, caxambu, ingome, marimba, puíta, urucungo; alimentos, iguarias, bebidas: abará, acará, acarajé, ambrozó, angu, anguzô, efô, mugunzá, quenga, quibebe, quimama, quitute, vatapá, cachaça, jeribita, marafo, quimbembé; animais, aves e insetos: caxinguelê;camundongo, gongolô, marimbondo, tatanguê; árvores, plantas, legumes, frutas: mutamba, mulungu, dendê, diamba, guandu, inhame, chuchu, jiló, maxixe, munganga, quiabo, quingombô; inflamação, doenças, estados d’alma: calombo, caxumba, cafife, maculo, calundu, banzo; objetos de uso, enfeites, vestes: cachimbo, carimbo, gongá, malunga, miçanga, tanga; habitação, local de reunião ou onde se exerce alguma atividade, prisão: cubata, quimbembe, mocambo, quilombo, senzala, banguê cafua; pessoas, levando em consideração o sexo, a idade, a condição social, a camaradagem: macola, obá, soba, zambi, moleque, dengo, curumba, macamba, malungo, mobica, mucama. São ainda de origem africana: banguelê, búzio, cafuné, calumbá, candonga, dengue, fubá, jimbo, libando, milonga, mironga, molambo, murundu, muxiba, muxinga, muxoxo, quizília, xendengue. Da mesma origem, alguns adjetivos: banguelo, caçula, caçanje, cambembe, canhengue, capiongo, macambúzio, mazanza, xacoco; e verbos formados de nomes já integrados no idioma: aquilombar, banzar, batucar, cochilar, candongar, sungar, xingar. Algumas palavras de origem 20 AULA 2 • O PORtuguÊS DO BRASIL africana formaram palavras compostas e alguns derivados na língua portuguesa: angu de caroço, pé de moleque, azeite de dendê, banzeiro, congada, quiabal, molecagem. Outros elementos Figura 5 – george Furlan. Disponível em: . Acesso em: 13 abr. 16. Outros povos também contribuíram para a formação de nossa língua, de maneira mais ou menos importante: » Caribe (Antilhas, Venezuela, Guiana): caimã, piroga, colibri; » Taíno (Haiti): cacique, batata, tubarão, tabaco, canoa, canibal, savana, furacão; » Nauatle (México): cacau, chocolate, jalapa, tocaio, tomate, abacate, asteca, nopal, sapoti, coiote. » Mapuche (Chile): gaúcho, poncho, araucária. » Quíchua (Peru): alpaca, cancha, condor, chácara, charque, inca, mate, guano, guanaco, guasca, inhapa, lhama, pampa, puma, quina, tambo, vicunha. Influência dos imigrantes europeus e asiáticos Figura 6 - Tamoo Handa: Colheita de Café, 1958. Óleo sobre tela – 90 x 70 cm. Museu Histórico da Imigração Japonesa Disponível em: . Acesso em: 23 ago. 16. 21 O PORtuguÊS DO BRASIL • AULA 2 A partir do século XX, começou a se acentuar a imigração de europeus e asiáticos no Brasil. No período entre 1890 e 1930, essa imigração foi mais intensa, com um número aproximado de quatro milhões de imigrantes chegando ao Brasil, em sua maioria italianos, portugueses, espanhóis, alemães, árabes, turcos e japoneses. De início, o Estado brasileiro não interferiu na forma como os filhos brasileiros desses imigrantes eram alfabetizados e não considerou como um problema o fato de que essas crianças aprendiam apenas a língua de seus pais e avós. Muitas vezes, tais crianças eram moradoras de lugarejos afastados dos grandes centros urbanos, vindo a usar a língua de seus antepassados também na escola. À medida que as pessoas migravam das zonas rurais para as cidades, em busca de melhores condições de vida, passavam a aprender a língua portuguesa, contribuindo para que nossa língua recebesse a influência de seu linguajar familiar. A convivência com as línguas dos imigrantes europeus e asiáticos muito enriqueceu a cultura e a língua falada no Brasil. Um exemplo dessa contribuição muito significativa pode ser notado na cidade de São Paulo, que estava crescendo muito no período de intensa imigração e, assim, assimilou hábitos alimentares de outros povos. Junto com esses hábitos, nomes de pratos e ingredientes passaram a fazer parte do vocabulário usado pelos falantes da região. Destarte, palavras como paella, quibe, esfiha, pizza, talharim, yakisoba ou sashimi são hoje da língua corrente. Texto para análise: O encontro da expedição de Cabral com os indígenas brasileiros No livro “O português da gente”, IIari e Basso (2014) destacam um trecho extraído do documento quinhentista que muitos brasileiros consideram como sendo a certidão de nascimento do Brasil: a Carta de abril de 1500, em que Pero Vaz de Caminha relata ao Rei Dom Manuel o descobrimento das novas terras. No texto, é possível observar a língua portuguesa no momento em que ela chega ao Brasil, apresentando algumas características do português arcaico e adotando muitas convenções ortográficas próprias daquele período: [pola ma]nhãa topamos aves aque chamã fura buchos e neeste dia aoras de bespera ouuemos vjsta de tera .s. premeiramente dhuu[m] gramde monte muy alto. e rredondo e doutras serras mais baixas ao sul dele e de trra chaã com grandes aruoredos. ao qual monte alto ocapitam pos nome omonte pascoal E aatera atera davera cruz. mandou lamçar op rumo acharam xxb braças e ao sol posto obra de bj legoas de tera surgimos amcoras em xix braças amcorajem limpa. aly jouuemos todaaquela nou te. e aaquimta feira pola manhaã fezemos vella e segujmos dirtos aaterra eos naujos pequenos diã te himdo per xbij xbj xb xiiij xiij xij x. 22 AULA 2 • O PORtuguÊS DO BRASIL e ix braças ataa mea legoa de trra omde todos lancamos amcoras em dirto daboca dhuu[m] rrio e chegariamos aesta amcorajem aas x oras pouco mais ou menos e daly oouemos vista dhomee[n]s q[ue] andauam pela praya obra de bij ou biij segº os naujos pequenos diseram por chegarem primeiro... / aly lancamos os batees e esquifes fora evieram logo todolos capitaães das naaos aesta naao do capitam moor e aly falaram. e ocapitam man dou no batel em trra njcolaao coelho peraveer aq[ue]le rrio e tamto que ele comecou perala dhir acodirã pela praya homee[n]s quando dous quando tres de maneira que quando obatel chegou aaboca do rrio heram aly xbiij ou xx homee[n]s pardos todos nuus sem nhuu[m]a cousa que lhes cobrisse suas vergonhas. traziam arcos nas maãs esuas see tas. vijnham todos rrijos perao batel e nicolaao co elho lhes fez sinal que posesem os arcos. e eles os poseram. aly nom pode deles auer fala ne[m] ente[n] dimento que aproueitasse polo mar quebrar na costa. soomente deulhes huu[m] barete vermelho e huu[m]a carapuça de linho que leuaua na cabeça e huu[m] sombreiro preto. E huu[m] deles lhe deu huu huu[m] sombreiro de penas daues compridas cõ huu[m]a copezinha pequena de penas vermelhas epardas coma de papagayo e outro lhe deu huu[m] rramal grande de comtinhas brancas meudas que querem pareçer daljaueira as quaaes peças creo queo capitam manda avossa alteza e com jsto se volueo aas naaos por seer tarde e nom poder deles auer mais fala por aazo do mar. / anoute segujmte ventou tamto sueste cõ chuuaçeiros que fez caçar as naaos e especialmente acapita na. Eaa sesta pola manhaã as biij oras pouco ma is ou menos per conselho dos pilotos mandou oca pitam leuamtar amcoras e fazer vela e fomos de 23 O PORtuguÊS DO BRASIL • AULA 2 lomgo dacosta com os batees e esquifes amarados perpopa comtra onorte peraveer se achauamos al guu[m]a abrigada e boo pouso omde jouuesemos pera tomar agoa e lenha, nom por nos ja mjnguar mas por nos acertarmos aquy e quamdo fezemos vela seriam ja na praya asentados jumto cõ orrio, obrra de lx ou lxx homee[n]s que se jumtaram aly poucos epoucos / fomos de lomgo e mandou ocapitam aos nauios pequenos que fosem mais chegados aatrra e que se achasem pouso seguro peraas naaos que amaynassem. Eseendo nos pela costa obra de x legoas domde nos leuamtamos acharam os ditos nauios peq[ue]nos huu[m] arrecife com huu[m] porto dentro muito boo e muito seguro com huu[m]a muy larga entrada e meteramse dentro e amaynaram. e as naaos arribaram sobreles. e huu[m] pouco amte sol posto amaynarom obra dhuu[m]a legoa do arrecife e ancoraramse em xj braças. / Eseendo aº lopez nosso piloto em huu[m] daqueles naujos pequenos per mandado do capitam por seer home[m] vyuo e dee stro pera jsso meteose loguo no esquife asomdar oporto demtro e tomou em huu[m]a almaadia dous daqueles homee[n]s da trra mançebos e de boos cor pos. e huu[m] deles trazia huu[m]arco e bj ou bij seetas Figura 7 - Operários,1933, Tarsila do Amaral. Óleo sobre tela - 150 x 205 cm. Pinacoteca do Estado de São Paulo. Disponível em: . Acesso em: 8 mar. 17. 24 AULA 2 • O PORtuguÊS DO BRASIL Saiba mais Mulato, cafuzo, mameluco Mulas, escravos e desbotados: a origem sem glamour dos termos para a miscigenação. Na sociedade do Brasil colonial, ser branco era estar no topo da escala, mas ser meio branco já conferia privilégios. A maioria dos bandeirantes e capitães do mato, que oprimiam índios e negros, era mestiça. Os brasileiros usavam vários termos para identificar a ancestralidade de alguém. O clássico trio ensinado na escola: mulato, cafuzo e mameluco. Mulato, resultado da mistura de europeus e africanos – na época colonial, quase sempre branco e negra –, vem de mula. Não era exatamente pejorativo. Na época da escravidão, a maioria dos mulatos eram livres e se ocupava de tarefas urbanas. Queria dizer que são híbridos, como o animal, nascido do cruzamento de cavalo com jumento. Outra possibilidade, que não é aceita pela maioria dos lexicógrafos (autores de dicionários), é que venha do árabe muwallad, filho de estrangeiro com islâmico (mas também estrangeiro puro criado como islâmico). Cafuzo ou carafuzo é resultado da união entre negro e índio. Vários dicionários, como o Houaiss, apontam “origem controversa”. O etnólogo angolano Óscar Bento Ribas afirma que vinha do quimbundo kufunzaka, “desbotar”. A etnolinguista Yeda Pessoa de Castro prefere a origem no termo bantu nkaalafunzu, “mestiço”. Seja como for, parece um nome dado pelos negros, diferentemente dos outros, criados pelos portugueses. Mameluco, mestiço de branco e índio, vem do árabe mamluk, que originalmente significava “escravo”, mas tinha um significado muito diferente pela época da descoberta do Brasil. Durante a Idade Média, escravos passaram a ser empregados nos exércitos muçulmanos e acabaram constituindo uma casta militar. Em 1250, uma revolta dos mamluk tomou o poder no Egito e formou o Sultanato Mameluco. Entre os portugueses, que viviam em guerra com os muçulmanos, os mamelucos eram considerados particularmente destemidos e perigosos – daí terem começado a chamar assim os mestiços das bandeiras ou capitães do mato. Aventuras na História, Edição 119. Disponível em: Acesso em: 8 mar. 17. Figura 8 – “A Mistura das Raças”, de José Wasth Rodrigues. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 16. 25 O PORtuguÊS DO BRASIL • AULA 2 Sintetizando Vimos até agora: » formação da língua portuguesa falada no Brasil; » o elemento indígena; » o elemento africano; » outros elementos que contribuíram para a formação da língua portuguesa; » a influência dos imigrantes europeus e asiáticos; » exemplo de texto usando a língua portuguesa de 1500. 26 Apresentação Nesta terceira aula, busca-se entender a diferenciação dialetal encontrada nas várias regiões do Brasil, considerando: vocabulário diferenciado, alterações fonéticas e fonológicas, mudanças na morfologia, na sintaxe e na semântica do português falado no Brasil. Objetivos » Reconhecer diferenças no vocabulário brasileiro. » Perceber diferenças fonéticas e fonológicas em nossa língua. » Compreender as diferenças morfológicas das palavras da língua brasileira. » Destacar as diferenças sintáticas e semânticas da língua nacional. 3AULA DIFEREnCIAçãO DIALEtAL 27 DIFEREnCIAçãO DIALEtAL • AULA 3 Diferenciação dialetal Em um país tão grande como o Brasil, com influências linguísticas diversas, existem formas de falar distintas, e, ao abrir a boca para pronunciar uma frase, por menor que seja ela, é possível o ouvinte identificar a que região do Brasil aquele falante pertence. A industrialização, a urbanização, os deslocamentos de grandes massas migratórias têm papel fundamental na forma de falar dos brasileiros. Segundo Vasconcelos (1926), considerado a maior autoridade em dialetologia portuguesa, as diferentes formas de falar o português no Brasil podem ser entendidas como dialetos da língua brasileira. O português brasileiro apresenta características distintas do português falado em outros países. Quando escutamos um falante de Portugal, imediatamente percebemos uma forma de falar diferente da nossa. Essa diferença acontece devido à fonética, ou seja, à maneira de produzir os sons de uma língua. Se considerarmos palavras com significados distintos nas duas formas de falar, podemos afirmar que a diferença se dá em virtude da semântica. Uma diferença sintática poderia ser percebida quando nosso amigo português nos dissesse, por exemplo, “dá-me sua mão”, ao contrário de “me dê sua mão, como nós falantes da variação brasileira da língua portuguesa costumamos falar. As diferenças dialetais acontecem em virtude de diferenças no vocabulário, na fonética, na morfologia, na sintaxe e na semântica das línguas. Figura 9 – English language. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 16. Na segunda aula, foram elencadas diversas palavras que fazem parte hoje do português brasileiro e que são originárias de línguas faladas por outros povos. Se somarmos a essas um grande número de palavras criadas por nossos escritores, outras nascidas nas camadas populares, é possível ter ideia do quanto é rico nosso vocabulário. Alguns neologismos são usados apenas enquanto são oportunos, caindo logo em desuso. Alguns outros encontram condições favoráveis e passam a fazer parte do léxico. 28 AULA 3 • DIFEREnCIAçãO DIALEtAL Exemplos de diferenças no vocabulário (desportivo) Brasil Portugal Atacante Esporte Equipe gol Gol-contra zagueiro Cobrança de escanteio tiro de meta Avançado Desporto Equipa golo Autogolo Defesa Pontapé-de-canto Pontapé-de-baliza Fonética e Fonologia Fonologia: a fonologia estuda os sons da língua. No campo da fonética, é que se pode observar as diferenças mais significativas entre o português europeu e o brasileiro. A pronúncia do Brasil tende a ser lenta, frouxa e arrastada (ver Leite de Vasconcelos, Esquisse. p. 160). As sílabas são faladas de forma diferenciada a ponto de poderem se destacar todos os elementos que as compõem. A tônica apenas se distingue das outras por uma inflexão mais demorada da voz. Na pronúncia brasileira: A 1. É fechado: a. Na terminação -amos do pretérito perfeito: louvâmos, amâmos e não louvámos, amámos; b. Em: caveira, pandeiro, sadio e não caváira, padeiro e sádio. 2. É aberto em cada, para, mas e não câda, pâra, mâs. 3. Não existe diferença entre a preposição e a contração da preposição com o artigo; 4. Deixa de formar ditongo por metátese, quando está sob a influência de semivogais i ou u seguintes: vigário, água e não vigairo, auga, como acontece em Portugal entre pessoas incultas. 5. No ditongo ai, absorve o i, na linguagem descuidada, antes de palatal: caxa (caixa), faxa (faixa), como no sul de Portugal, e não caixa, faixa. 6. Alonga-se em ditongo, quando tônico final é seguido de s ou z: gais (gás); rapais (rapaz). 29 DIFEREnCIAçãO DIALEtAL • AULA 3 Na pronúncia brasileira: E 1. É fechado: a. Na terminação -emos do pretérito perfeito: dêmos, e não demos; b. Quando seguido originariamente de duas consoantes: sêlenário, exceção, e não sèlenário, exceção; c. No sufixo -vel: amável, incrível, e não amávèl, incrível; d. Em palavras derivadas, embora as primitivas tenham e tônico aberto: vêlhice, empêstar, e não vèlhice, empèstar; e. Quando resultante de ditongo: esquêcer, e não esquècer. A forma arcaica dessa palavra é escaecer; f. Quando tônico, for seguido de nasal: acadêmico, gênio, e não académico, génio. 2. Não se modifica: a. Quando tônico, está antes dos sons palatais nh e lh: tenho, espelho, e não tânho, ispâlho; b. No mesmo caso,antes de j, ch e x: vejo, fecho, mexo e não vâjo, fâcho e mâxo; c. Quando inicial de algumas palavras, como: Herculano, herói, e não Hirculano, hirói; d. Quando pretônico antes de palatal: fechar, telhado, e não fichar, tilhado; 3. Transforma-se em i: a. Às vezes, quando pretônico: minino (menino), pirigo (perigo), e não m´nino, prigo; b. Nas variações pronominais átonas: mi (me), ti (te), si (se), e não m´, t´, s´; c. Na preposição de e na conjunção se, e não d´ e s´. d. Quando átono final: fonti (fonte), ponti (ponte), e não font´, pont´. 4. Alonga-se no ditongo ei, quando seguido de m: bêim (bem), têim (tem), e não bãim, tãim; ou quando um monossílabo tônico ou palavra oxítona terminada em -s ou -z: trêis (três), fêiz (fez), portuguêis (português); 5. No ditongo ei, absorve o i na linguagem vulgar, antes de palatal: quêxo (queixo), bêjo (beijo), e não câxo, bâjo. 30 AULA 3 • DIFEREnCIAçãO DIALEtAL I O I conserva-se inalterado na pronúncia brasileira. Em Portugal, cai quando pretônico: m´litar; ou transforma-se em e, por dissimilação: menistro, vezinho. Essa modificação não é estranha ao falar do nosso caipira, que pronuncia igualmente premêro, dereito. O Na pronúncia brasileira: 1. É fechado: a. Quando inicial ou pretônico: ôrelha, sôbrado, pôrteiro, e não urâlha, subrado, purtâiro. b. Quando resultante da crase: môrdomo, e não mórdomo. c. Quando tônico, for seguido de consoante nasal: campônio, Antônio, e não campónio, António. d. Na palavra ôito e dezôito, e não óito e dezóito. 2. É aberto na palavra senhóra, e não senhôra. 3. No ditongo ou, absorve o u na linguagem descuidada: oro (ouro), tesoro (tesouro). Também se pronuncia ó: estóra (estoura), róba (rouba), afróxa (afrouxa). 4. Alonga-se em ditongo, quando em monossílabo tônico ou em sílaba final de vocábulo oxítono, for seguido de -s ou -z: nóis (nós), vóiz (voz), atróiz (atroz). U Não apresenta nenhuma particularidade em nossa pronúncia. Apenas quando, em sílaba final tônica ou monossílabo, terminado em -s ou -z, alonga-se em ditongo: seduiz (seduz), puis (pus), luiz (luz). B Em alguns locais de Portugal, tais como Entre-Douro-e-Minho, Beira, Sul de Trás-os-Montes, é comum trocar o b pelo v e vice-versa. No Brasil, esse fato não acontece: bamos (vamos), bassora (vassoura), brabo (bravo). L e R O -l e -r finais recebem, na pronúncia dialetal de Portugal, um -e paragógico, o que pode ser considerado estranho ao nosso falar: sole (sol), mare (mar). Há ainda outras discordâncias, que assim podem ser resumidas: a. Entre nós não existe o horror ao hiato, o que se nota na linguagem portuguesa: a-i-água, é-i-êle (norte e região central de Portugal); 31 DIFEREnCIAçãO DIALEtAL • AULA 3 b. Não há alongamento de vogal interior em ditongo, antes de r: favoire (favor), senhoire (senhor). c. São menos frequentes os casos de sinalefa: este outro, de algum, e não estoutro, dalgum. d. Não ocorrem as formas no, na, nos, nas, resultantes da influência da nasal de não, quem, bem, sobre o l dos pronomes lo, la, los, las: não no ri, quem no diria. Morfologia Morfologia: estudo das formas, classificação, estrutura e mecanismos de flexão das palavras. As principais diferenças morfológicas da língua portuguesa do Brasil consistem: a. Em conservar fechado o o no plural, em alguns casos: almôços, espôsos, bôlsos, e não almóços, espósos, bólsos. b. Em não se dar a metátese do per em pre na composição: perfeito, perfazer, e não prefeito, prefazer. c. No emprego preferencial de formas verbais perisfrásticas com gerúndio: ando trabalhando, e não ando a trabalhar. d. Na existência dos sufixos tupis -açu e -mirim, sobretudo na toponímia: Itapiruçu, Itapemirim; e do sufixo -ana em canarana, brancarana; e. Em se não usarem entre o povo os sufixos portugueses -ito, -ita, que são substituídos por -inho, -inha: rapazinho; em Portugal, é muito frequente aquele sufixo: rapazito. O sufixo -inho é frequentemente empregado em advérbios e verbos, na linguagem popular brasileira: dormindinho, agorinha, loguinho, pertinho. f. Em se não empregarem formas imperativas e indicativas, como: faze, dize, traze, quere, requere, val; g. Em se não usarem os numerais compostos dezasseis, dezassete, dezanove, que são muito empregados em Portugal. h. Em se usar de preferência você em vez de tu e vós. i. Em não se empregar o tratamento vossência. 32 AULA 3 • DIFEREnCIAçãO DIALEtAL Sintaxe Sintaxe: estudo das funções e relações que as palavras estabelecem nas frases. Mesmo entre pessoas ilustradas, raras são aquelas que, falando ou escrevendo, não se esforcem para evitar deslizes quanto à sintaxe da língua portuguesa. Gramáticos brasileiros e portugueses concordam em afirmar que, falando ou escrevendo, as incorreções cometidas contra a sintaxe são calamitosas. Nas camadas mais populares, nas quais não se conhecem as leis da gramática, os erros são muito evidentes. Enumeremos os principais: a. A colocação irregular dos pronomes oblíquos: Me disseram, não dou-te; b. A preposição em com verbos de movimento: vou na janela, cheguei na estação. c. O pronome reto ele, ela, eles, elas, como objeto direto: Vi ele. d. O uso de mim como sujeito de um infinitivo: Para mim ver; e. O verbo ter empregado pelo impessoal haver: Tem gente nesta casa; f. O verbo impessoal haver no plural: Houveram festas; g. O verbo no plural como sujeito coletivo: O povo falaram; Outros casos de discordância na sintaxe: a. Jamais combinamos os pronomes oblíquos me, te, lhe, nos, vos com o, a, os, as. Assim, é-nos muito estranho o uso de mo, to, lho, no-lo, vo-lo. b. Alheia de nossa prática é também a combinação dos pronomes o, a, os, as, com os verbos dizer, fazer, querer, trazer, no presente do indicativo ou pretérito perfeito. Nunca dizemos: di-lo, fá-lo, fi-lo, qué-lo, qui-lo, trá-lo; c. Não usamos intercalar nenhuma palavra entre o pronome oblíquo e o verbo, ao passo que em Portugal é hábito frequente. Nesse caso, se intercala não ou um pronome reto: O que se não deve dizer, bem lhe eu disse. Exemplos de diferenças sintáticas Brasil Portugal Estou trabalhando Estou a trabalhar Me encontrei com João Encontrei-me com João Cheguei na escola Cheguei à escola Encontrei ele Encontrei-o 33 DIFEREnCIAçãO DIALEtAL • AULA 3 Semântica Semântica: estudo do sentido das palavras de uma língua. Nem todas as palavras faladas no português do Brasil conservam o mesmo significado do português falado em Portugal. As palavras abaixo são exemplos da diferença semântica entre o português brasileiro (PB) e o português de Portugal (PP): Azular: fugir, esgueirar-se (PB); dar cor azul, tingir de azul (PP); Babado: fôlho de vestido (PB); molhado de baba, apaixonado (PP); Borrachudo: uma espécie de mosquito (PB); rotundo como uma borracha (PP); Capoeira: engradado de guardar aves (PB e PP); mato ralo, espécie de ave, indivíduo dado à prática da capoeira (PB); Cangaço: quadrilha ou bando de cangaceiros (PB); engaço, resíduo de uvas (PP); Chaleira: utensílio para chá (PB e PP); indivíduo engrossador (PP); Fumo: certo produto vegetal (PB); fumaça (PP); Galego: nome pejorativo de português (PB); moço de fretes (PP); Lambada: lambada com um objeto flexível ou gole de bebida alcoólica (PB); paulada (PP); Moço: jovem mancebo (PB); criado, empregado (PP); Mofina: artigo anônimo ou difamatório (PB); infelicidade, mulher infeliz (PP); Moqueca: guisado de peixe (PB); termo de agricultura (PP); Tipoia: tira que serve para sustentar o braço doente (PB); carruagem velha (PP). Na língua popular falada no Brasil, algumas palavras adquiriram um sentido novo, diferente daquele que detém na língua de Portugal: prosa: indivíduo falador; amolar: azucrinar; cartaz: fama; escovado: sabido; queimado: zangado. 34 AULA 3 • DIFEREnCIAçãO DIALEtAL Exemplos de diferenças semânticas Brasil Portugal Bolsa Cédula de identidade Esparadrapo Fila Maiô Ônibus Suco trem Vaso sanitário Mala Bilhete de identidade Adesivo; penso rápidoBicha Fato-de-banho Autocarro Sumo Comboio Sanita; retrete Saiba mais A expansão da gíria como fenômeno linguístico no português brasileiro atual Foi-se o tempo em que falar de quem se utilizava da gíria como vocabulário meramente criptológico era tratar apenas da linguagem da marginalidade, dos excluídos, dos não escolarizados. Nesse rol, os presidiários, os internos das casas de correção, os traficantes e toxicômanos, as prostitutas, os gays, os ignorantes (Adaptação da Revista Mário de Andrade, v. 54, jan./dez. 1996). Hoje, tratar da gíria como fenômeno sociolinguístico significa ir a fundo em suas contribuições para o léxico e no modo como essa inserção se deu. Da gíria de grupo, que é restrita e fechada, na qual há nítida intenção no binômio agressividade / defesa, para o repasse à gíria comum e, até mesmo, à escrita e aos diálogos de TV, jornais, revistas e políticos, muita coisa aconteceu no campo interacional. Disponível em: . Acesso em: 17 ago. 2016. Provocação Empréstimos Incorporamos à nossa língua, na forma original ou aportuguesada, palavras provenientes de outros idiomas. Segue uma notícia, retirada de um jornal antigo: Notícia de jornal, 20 de fevereiro de 1922: Corinthians 2 a 1. Ontem, o bravo team do Corinthians Paulista derrotou pelo score de 2 a 1 o do Palestra Itália no ground deste último. Goals do forward Neco (2) e do full-back Baggio. No ponto do bonds, após o match, um torcedor do Palestra, inconformado, apunhalou um corinthiano. 35 DIFEREnCIAçãO DIALEtAL • AULA 3 Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2016. Sendo o futebol um esporte de origem inglesa (foi introduzido no Brasil por Charles Miller no começo do século XXI), é natural que, com a “importação” do jogo, tomássemos por empréstimo também termos relativos à sua prática: goal, match, score, back, forward, corner, etc. Aliás, o próprio nome Corinthians é de origem inglesa, uma homenagem de alguns brasileiros a um time inglês que aqui esteve no começo do século XX. Com a popularização do futebol no Brasil, a maioria dos termos empregados nesse esporte se aportuguesou ou foi substituída por palavras de origem vernácula. Assim, football, match, offside, corner, back e goalkeeper viraram, respectivamente, futebol, partida, impedimento, escanteio, zagueiro e goleiro. No tênis, esporte menos popular que o futebol, também de origem inglesa, ainda se usam os termos originais: match-point, game, set, break, etc. Sintetizando Vimos até agora » diferentica: estudo do sentido das palavras de uma língua. 36 Apresentação Na quarta aula deste Caderno de Dialetologia, busca-se, em primeiro lugar, compreender o significado e a finalidade da Geografia linguística. Em um segundo momento, faz-se um levantamento da contribuição dos vários Atlas Linguísticos Regionais, considerando o falante de cada região específica, a língua que este fala e sua relação com o ambiente geográfico onde ele vive. Objetivos » Definir Geografia linguística. » Compreender sua finalidade. » Conhecer diferentes possibilidades de variações linguísticas: variações diafásicas, históricas, diatópicas e diastráticas. » Relatar as contribuições dos Atlas Linguísticos Regionais brasileiros. 4AULA gEOgRAFIA LInguÍStICA 37 gEOgRAFIA LInguÍStICA • AULA 4 Geografia linguística A Geografia línguística, ou Geolinguística, é o campo do saber que engloba, ao mesmo tempo, aspectos relacionados à Geografia e à Linguística. A Geolinguística ocupa-se de estudar uma língua, considerando o ambiente onde ela é falada, ou seja, seu ambiente geográfico. Seu campo de estudo é bastante amplo. A Geografia linguística identifica e descreve cada área linguística, e analisa suas características particulares como evolução demolinguística (análise estatística da população a partir de um ponto de vista linguístico, a partir do nível de conhecimento e utilização das línguas faladas e do território onde a língua é falada). A geolinguística busca, pois, compreender a relação que se estabelece entre o indivíduo, sua forma de falar e o espaço geográfico em que ele vive. Devemos ao pesquisador Hugo Schuchardt (1842/1927) da Áustria o conceito de dialeto tal como é aceito pela linguística moderna. Segundo ele, parte da variação linguística ocorreria porque se expandiam no espaço geográfico, apesar de não ser possível estabelecer fronteiras dialetais bem definidas. A preocupação com a dialetologia fez com que aumentasse o número de estudos nessa área, dando origem a uma nova metodologia de estudo, que se tornou conhecida como Geografia linguística. Os estudos da geografia linguística buscavam elaborar mapas linguísticos que dariam origem a um conjunto de cartas geográficas, formando um atlas linguístico. Os atlas tinham a finalidade de apontar as variações linguísticas das diversas áreas pesquisadas in loco, traçando isoglossas que pudessem determinar a extensão de cada traço dialetal. Como já mencionado na aula 2, alguns países tiveram sucesso em produzir seus atlas linguísticos, como, por exemplo, o atlas francês, o atlas ítalo-suíço, o atlas romeno, o atlas da Península Ibérica. Muitos atlas foram planejados; nem todos foram concluídos. Uma das preocupações dos estudiosos em promover atlas linguísticos estava relacionada a preservar e a entender a língua falada pelo povo de uma região, desse modo obedeciam a rigoroso planejamento. Tal tarefa até hoje constitui-se um grande desafio. Diferentes variações linguísticas Variações diafásicas São as variações que acontecem em função do contexto comunicativo, isto é, a ocasião determina o modo como falamos com o nosso interlocutor. 38 AULA 4 • gEOgRAFIA LInguÍStICA Variações históricas A língua é dinâmica e sofre transformações ao longo do tempo. Um exemplo de variação histó- rica é a questão da ortografia: a palavra “farmácia” já foi escrita com “ph” (pharmácia). A palavra “você”, por sua vez, tem origem etimológica na expressão de tratamento de deferência “vossa mercê”, que se transformou sucessivamente em “vossemecê”, “vosmecê”, “vancê”, até chegar na que utilizamos hoje. Variações diatópicas Representam as variações que ocorrem pelas diferenças regionais. As variações regionais, denominadas dialetos, são as variações referentes a diferentes regiões geográficas, de acordo com a cultura local. Um exemplo desse tipo de variação é a palavra “mandioca”, que, em certos lugares, recebe outras denominações, como “macaxeira” e “aipim”. Nessa modalidade, também estão os sotaques, ligados às marcas orais da linguagem. Figura 10 - A-zivout ar bruderezhioù-mañ. Disponível em: . Acesso em: 17 ago. 16. Variações diastráticas São as variações ocorridas em razão da convivência entre os grupos sociais. As gírias, os jargões e o linguajar caipira são exemplos dessa modalidade de variação linguística. É uma variação social e pertence a um grupo específico de pessoas. As gírias pertencem ao vocabulário específico de certos grupos, como os policiais, cantores de rap, surfistas, estudantes, jornalistas, entre outros. Os jargões, por seu turno, estão relacionados às áreas profissionais, caracterizando um linguajar técnico. Como exemplo, podemos citar os advogados, os profissionais da área de saúde, os profissionais da Informática. 39 gEOgRAFIA LInguÍStICA • AULA 4 Dialeto nordestino Figura 11 - Nordestino, de Eduardo Burato Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 16. Cordel desenvolvido pelos alunos do 4º ano do Ensino Fundamental da Escola Letras e Números: “Chamamu” de dialeto O linguajar popular O que segue nesses “versu” Logo vai nos “expricar” (Sol) O jeito de se “ixpressá” “Vareia” em cada região No nordeste arribá É tirar coisa do chão (Caíque Peixoto) Nossa língua é porreta É formale informal Perna torta é zambeta Insistente, cara de pau (Ícaro Davi) Pró Fabi está “imbuxada” Tem um bebê na sua pança O marido camarada Espera sua criança (Milena Oliveira) O “mininu” avexado Que gosta de “tocá” corneta Com 18 anos é macho Passa “gostá” de lambreta (Lorraine Suria) 40 AULA 4 • gEOgRAFIA LInguÍStICA “Homi que fais” casa Pode se cortar na pedra A ferida que lhe causa É chamada de pereba (Diego Santana) Zé ainda é frangote “Mais” pensa que é grande Se “crescê” será “pu” sorte Se livrará desse vexame (Diana Soares) Chapa quente queima a pele Chapa fria é dentadura Quando “véia” até fede “Mais” “selve” a quem usa (Victor Hugo) Moça “bunita” é formosura Os “zomi” gosta de oiá E com toda belezura A moça segue a andar (Douglas Lordelo) “Eita” Nordeste “Vareiado” Ninguém lá é bocó Novidade é babado Se nada sabe é brocoió (Querem Improta) Aqui tem gente arrochada E também gente medrosa Basta ouvi uma gargalhada Que se esconde “atrais” da porta (Danilo Lopes) Aqui tem gente chinfrim Mas também tem gente rica Tem quem coma aipim E quem fique sem “cumida” (Tázio Dieudonné) Nossa terra quando “móia” A gente “isquece” a seca A plantação cresce na roça E “nois inchemu” a cesta (Giovana Sousa) 41 gEOgRAFIA LInguÍStICA • AULA 4 Falta d’água é “pobrema” “Pressa” gente do sertão O “bãe” de dona Jurema É de cuia de sabão (Yasmin Alcântara) “Vamu” terminar essa prosa De dialeto nordestino Gente que vive na roça Tem que “acordá” cedinho (Vinicius Murta) Disponível em: . Acesso em: 1º abr. 2015. Saiba mais Abaixo, destaco trecho do Dicionário Nordestino, de José Rodrigues de Oliveira, para ilustrar variação do dialeto nordestino, largamente usado no Brasil nos dias atuais. Dicionário Nordestino, de José Rodrigues de Oliveira “Oxente, está pensando que aqui só tem catrevagem? Então deixe de arrilia e conheça um pouco do dialeto nordestino. Assim você saberá o que fazer se lhe chamarem de cibito baliado ou se disserem que você está cheio do pau”. “A” a como é - quanto custa a pulso - à força; na marra abestado - pessoa sem discernimento; tolo abestalhado - bobo; besta; pateta abilolado - o mesmo que abestalhado acochado - apertado acudir - socorrer afolosado - frouxo; quebrado aí dentro - interjeição exprime revolta; discordância aí fedeu - está perdido alpercata - sandália de couro altear - aumentar o volume da tv ou do aparelho de som aperreado - preocupado; com problemas; agoniado apoquentado - nervoso ou irritado apregar - colocar o prego arengar - perturbar; importunar arrasta-pé - forró arreganhado - aberto arretado 1- muito bom; excelente; maravilhoso 2- irritado; com raiva de algo ou alguém arrilia - agonia arrochado - valente; brigão arrochar o nó - continuar o ato corrente; imprimir maior garra ao que se faz arrudiar - dar a volta atucaiando - atucalhando, vigiando avalie só - interjeição equivalente a: imagine só; veja só avexado - apressado azeitado - irado azuado - perturbado; perdido azuretado - confuso; invocado; puto da vida; no mundo da lua Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 16. 42 AULA 4 • gEOgRAFIA LInguÍStICA A contribuição dos atlas linguísticos regionais Demarcar a região onde acontece um dado fenômeno linguístico, traçar no mapa as divisas das áreas onde a língua é falada de uma única forma, considerando determinada característica linguística, e comparar a extensão geográfica das variações linguísticas que podem ser observadas são alguns dos objetivos que se procura alcançar em um atlas linguístico. Estes, além disso, buscam delimitar as vertentes regionais de uma determinada língua, estabelecendo suas divisas ao longo das principais isoglossas. Alguns atlas europeus dão conta da difícil tarefa de demarcar a área em que algumas línguas são faladas. A ideia de se produzir um atlas linguístico no Brasil não é coisa recente. Os primeiros registros que demonstram tal ideia datam de 1922, quando o filósofo brasileiro Antenor de Veras Nascentes (1886/1972) lançou o livro “O linguajar carioca”. A ideia reaparece na segunda edição do mesmo livro em 1953. Fazendo uso dos recursos disponíveis na época, Antenor Nascentes dividiu o Brasil em grandes grupos de falares: os do Norte, compreendendo o amazônico e o nordestino, e os do Sul, compreendendo o baiano, o mineiro, o fluminense e o “sulista”. O projeto de um atlas linguístico brasileiro é antigo e sempre foi considerado prioritário pelos linguistas brasileiros. Contudo, problemas como o alto custo para sua elaboração têm sido um dos grandes entraves para que tal pesquisa seja, de fato, finalizada. A confecção de um atlas linguístico implica a divisão do território a ser estudado em vários pontos geográficos. Em cada um desses pontos seriam pesquisadas características linguísticas e geográficas específicas por meio de entrevistas à população, o que resultaria no deslocamento e na manutenção de muitos pesquisadores distribuídos por milhares de pontos do território nacional gerando um custo bastante elevado. Diante das dificuldades envolvidas na elaboração de um atlas linguístico brasileiro, algumas áreas foram pesquisadas separadamente, dando origem a atlas regionais. Entre 1960 e 2002 foram publicados os seguintes atlas regionais: Atlas prévio dos falares baianos, Nelson Rossi, 1960-1962 (publicado em 1964); Esboço de um atlas linguístico de Minas Gerais, Mário Zaggari, 1977; Atlas linguístico da Paraíba, Maria do Socorro Aragão, 1984; Atlas linguístico de Sergipe, Carlota Ferreira, 1987; Atlas linguístico do Paraná, Vanderci de Andrade Aguilera, 1990; Atlas linguístico e etnológico da região Sul, Walter Koch, 2002. 43 gEOgRAFIA LInguÍStICA • AULA 4 Elaborados por grupos de pesquisadores diferentes, num período de mais de quarenta anos, esses atlas não foram produzidos por uma mesma metodologia, não têm a pretensão de responder às mesmas perguntas, tampouco respondê-las de maneira exata. Tais atlas são, contudo, fontes valiosas para que se possa visualizar a distribuição regional de inúmeros fenômenos linguísticos e oferecem informações confiáveis que podem ajudar a esclarecer questionamentos que continuam, até os dias de hoje, a motivar pesquisas de linguistas e suas equipes. A importância da pesquisa de Celso Cunha na elaboração de Atlas Regionais Importante estudioso da língua portuguesa, Celso Cunha, em sua vasta obra, apresenta a língua portuguesa em sua perspectiva histórica, buscando entender e explicar os mais diversos problemas de nossa língua. Comprometido com questões relativas ao conhecimento e ensino da língua portuguesa, o pesquisador sempre defendeu a necessidade do conhecimento pleno da língua: “Abandonemos, pois, esse ensino inoperante de regras e exceções. Estudemos a língua” (Celso Cunha). Figura 12 - Celso Cunha. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 16. Celso Cunha foi um grande incentivador da elaboração de um atlas linguístico brasileiro. Reconhecendo, contudo, a grande dificuldade para a realização de um atlas nacional, seu estudo contribuiu para a construção dos atlas regionais, tendo ele acompanhado, principalmente, a elaboração do Atlas Prévio dos Falares Baianos e do Atlas Linguístico de Sergipe. Além dos estudos dialetais, a implementação da sociolinguística no Brasil teve em Celso Cunha grande empenho para sua implementação. O linguista foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do Projeto de Estudos da Norma Urbana Culta – Projeto NURC. [...] O Projeto NURC, como passou a ser chamado, no Brasil, teve, desde o seu início, em 1970, o objetivo de caracterizar a modalidade culta da língua falada nesses centros urbanos, adotando- se, para isso, critérios rigorosos que assegurassem o controle de variáveis e permitissem o 44 AULA 4 • gEOgRAFIA LInguÍStICA confronto de dados, critérios