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Programa Mais Médicos para o Brasil 2ª edição EIXO 5 | CUIDADO A GRUPOS POPULACIONAIS ESPECÍFICOS E SITUAÇÕES ESPECIAIS II Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e populações tradicionais MÓDULO 25 Programa Mais Médicos para o Brasil EIXO 5 | CUIDADO A GRUPOS POPULACIONAIS ESPECÍFICOS E SITUAÇÕES ESPECIAIS II Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG 2023 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e populações tradicionais MÓDULO 25 2ª edição Instituições patrocinadoras: Ministério da Saúde Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Secretaria-Executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG Núcleo de Educação em Saúde Coletiva - Nescon Universidade Aberta do SUS da Universidade Federal de Minas Gerais - UNA-SUS/UFMG Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) B823a Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e populações tradicionais [módulo 25] / Ministério da Saúde, Universidade Federal de Minas Gerais. Brasília: Fundação Oswaldo Cruz, 2023. Inclui referências. 132 p.: il., tabs. (Projeto Mais Médicos para o Brasil. Cuidado a grupos populacionais específicos e situações especiais II; 5). ISBN: 978-65-84901-48-3 1. Grupos populacionais. 2. Atenção primária à saúde. 3. Sistema Único de Saúde. 4. UNA- SUS. I. Título II. Universidade Federal de Minas Gerais. III. Série. CDU 610 Bibliotecário: Fhillipe de Freitas Campos | CRB1 3282 Ficha Técnica © 2023. Ministério da Saúde. Sistema Universidade Aberta do SUS. Fundação Oswaldo Cruz. Universidade Federal de São Paulo. Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução, disseminação e utilização dessa obra, em parte ou em sua totalidade, nos termos da licença para usuário final do Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES). Deve ser citada a fonte e é vedada a sua utilização comercial. Referência bibliográfica MINISTÉRIO DA SAÚDE. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e populações tradicionais [módulo 25]. 2. ed. In: MINISTÉRIO DA SAÚDE. Projeto Mais Médicos para o Brasil. Eixo 5: cuidado a grupos populacionais específicos e situações especiais II. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 132 p. Ministério da Saúde Nísia Trindade Lima | Ministra Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Nésio Fernandes de Medeiros Junior| Secretário Departamento de Saúde da Família (DESF) Ana Luiza Ferreira Rodrigues Caldas| Diretora Coordenação Geral de Provimento Profissional (CGPROP) Wellington Mendes Carvalho | Coordenador Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Mario Moreira | Presidente Secretaria-executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Maria Fabiana Damásio Passos | Secretária-executiva Coordenação de Monitoramento e Avaliação de Projetos e Programas (UNA-SUS) Alysson Feliciano Lemos | Coordenador Assessoria de Planejamento (UNA-SUS) Aline Santos Jacob Assessoria Pedagógica (UNA-SUS) Márcia Regina Luz Sara Shirley Belo Lança Vânia Moreira Soraya Medeiros Falqueiro Adriana Alves de Almeida Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Paula Zeni Miessa Lawall Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Rodrigo Pastor Alves Pereira Universidade Federal de Minas Gerais Sandra Goulart Almeida | Reitora Alessandro Fernandes Moreira | Vice – Reitor Faculdade de Medicina Humberto José Alves | Diretor Alamanda Kfoury Pereira | Vice – Diretora Núcleo de Educação em Saúde Coletiva – Nescon/UFMG Francisco Eduardo de Campos| Diretor Edison José Correa | Vice – Diretor Coordenação da UNA-SUS/Universidade Federal de Minas Gerais (EAD-UFMG) Edison José Correa | Coordenador Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Secretaria editorial / Núcleo de Educação em Saúde Coletiva Nescon / UNA-SUS/UFMG: (http://www.nescon.medicina.ufmg.br) Faculdade de Medicina /Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG Av. Alfredo Balena, 190 – 7º andar CEP 30.130-100 Belo Horizonte – MG – Brasil Tel.: (55 31) 3409-9673 Fax: (55 31) 3409-9675 Site: www.nescon.medicina.ufmg.br Créditos Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Carolina Lopes de Lima Reigada Paula Zeni MiessaLawall Rodrigo Pastor Alves Pereira Rodrigo Luciano Bandeira de Lima Designer Gráfico UNA-SUS Claudia Schirmbeck Apoio Técnico UNA-SUS Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES) – UNA-SUS Fhillipe de Freitas Campos Juliana Araujo Gomes de Sousa Tainá Batista de Assis Engenheiro de Software UNA-SUS José Rodrigo Balzan Onivaldo Rosa Júnior Desenvolvedor de Moodle UNA-SUS Claudio Monteiro Jaqueline de Carvalho Queiroz Josué de Lacerda Luciana Dantas Soares Alves Lino Vaz Moniz Márcio Batista da Silva Rodrigo Mady da Silva Coordenador Geral da UNA-SUS/UFMG Edison José Correa Coordenador Acadêmico UNA-SUS/UFMG Raphael Augusto Teixeira de Aguiar Coordenador de Produção Pedagógica UNA-SUS/UFMG Marcelo Pellizzaro Dias Afonso Coordenadora Administrativa e Financeira UNA-SUS/UFMG Mariana Aparecida de Lélis Coordenadora de Design Educacional UNA-SUS/UFMG Sara Shirley Belo Lança Gerente de Tecnologias da Informação UNA-SUS/UFMG Gustavo Storck Gestora Acadêmica UNA-SUS/UFMG Roberta de Paula Santos Conteudistas UNA-SUS/UFMG Bruno Henrique Soares Pessoa Eneline de Andrade Heráclio Gouveia Pessoa Andreia Beatriz Silva dos Santos Larissa Soares Silva Avaliador de Pertinência UNA-SUS/UFMG Artur Oliveira Mendes Natália Pontes de Albuquerque Fabiano Gonçalves Guimarães Marcelo Pellizzaro Dias Afonso Revisão Bibliográfica e Normalização UNA-SUS/UFMG Gabriel Henrique Silva Teixeira Soraya Falqueiro Designer Gráfico UNA-SUS/UFMG Giselle Belo Lança Antenor Barbosa Designer Instrucional UNA-SUS/UFMG Janaina Neres Ilustrador UNA-SUS/UFMG Isabel Rodriguez Leonardo Ribeiro Moore Matheus Manso Web Designer UNA-SUS/UFMG Felipe Thadeu do Carmo Parreira Desenvolvedor Moodle UNA-SUS/UFMG Daniel Lopes Miranda Junior Simone Myrrha Apoio Técnico UNA-SUS/UFMG Leonardo Aquim de Queiroz Michel Bruno Pereira Guimarães Roteirista de Audiovisual UNA-SUS/UFMG Bruno Henrique Soares Pessoa Edgard Antônio Alves de Paiva Eneline de Andrade Heráclio Gouveia Pessoa Marcelo Pellizzaro Dias Afonso Produtor de Audiovisual UNA-SUS/UFMG Edgard Antônio Alves de Paiva Equipe de Atualização do Material UNA-SUS/UFSC Sheila Rubia Lindner Elza Berger Salema Coelho Carolina Carvalho Bolsoni Dalvan Antônio de Campos Naiane Cristina Salvi Deise Warmling Sabrina Blasius Faust Tcharlies Dejandir Schmitz Thays Berger Conceição Objetivo geral de aprendizagem do módulo Sensibilizar o especializando com relação à situação de saúde e às especificidades culturais e histórico sociais dos povos do campo, águas e florestas e povos tradicionais Objetivos de ensino do módulo Ao final deste módulo, o profissional estudante deverá ser capaz de aplicar o conceito de competência cultural no cuidado da população do campo, águas e florestas e povos tradicionais, compreendendo o impacto de processos históricos e sociais na saúde destes povos e reconhecendo as características sociais, diferentes necessidades e concepções do processo saúde-doença. Carga horária de estudo recomendada Para estudar e aprender todas as informações e conceitos abordados, bem como trilhar todo o processo ativo de aprendizagem, estabelecemos uma carga horária de 15 horas para este módulo. Sumário Apresentação do módulo Unidade 1 – Bem-vindos a um lugar rural e remoto Introdução 1.1 Um lugar rural e remoto 1.1.2 Definições e implicações práticas: o que faz um lugar ser considerado rural? 1.1.3 Quais os critérios utilizados hoje no Brasil para definir um município como rural ou urbano? 1.1.4 Qual o cenário da saúde rural? (O campo e determinantes sociais de saúde) 1.1.5 Como deve ser um médico rural? 1.2 Competências de um médico rural (o que o médico rural precisa saber, fazer e ser) 1.3 Conhecendo o itinerário terapêuticocampo e da floresta são caracterizadas por povos e comunidades que têm seus modos de vida, produção e reprodução social relacionados predomi- nantemente com a terra. Neste contexto estão os camponeses, sejam eles agriculto- res familiares, trabalhadores rurais assentados ou acampados, assalariados e tem- porários que residam ou não no campo. Estão ainda as comunidades tradicionais, como as ribeirinhas, quilombolas e as que habitam ou usam reservas extrativistas em áreas florestais ou aquáticas e ainda as populações atingidas por barragens, entre outras (BRASIL, 2013, p.8). Essas comunidades apresentam maior prevalência de doenças relacionadas ao tra- balho como lesões por esforço repetitivo (LER), silicose,intoxicação por metais pesados e também de doenças negligenciadas como doença de Chagas, tubercu- lose, leishmaniose e malária. Em 2005, atento à alta morbimortalidade dessa po- pulação e às condições de vida desfavoráveis, o Ministério da Saúde criou o Grupo Terra com o objetivo de criar a Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta, visando diminuir as iniquidades em saúde existentes no UNIDADE 02 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 44 país por meio de quatro eixos principais: acesso à saúde, promoção e vigilância, educação permanente e educação popular e monitoramento das ações. O Brasil é um país extremamente rico e diverso culturalmente. Essa riqueza fica ainda mais evidente quando lançamos nosso olhar para os povos tradicio- nais, e é nítida a relação imbricada da sua cultura – enquanto produção de conhecimento e construção de iden- tidade – com os territórios onde vivem, espalhados pelos variados biomas que existem no país. Os povos do campo, das águas e das florestas até hoje sofrem com as repercussões do pro- cesso de colonização do seu modo de ser e dos seus saberes (FARIAS; FALEIRO, 2020) e, também, com as graves consequências da expropria- ção dos recursos naturais de seus ter- ritórios. A destruição desses territó- rios é um ataque direto à existência desses povos. MEXAS, 2010|Acervo Fiocruz Imagens. Doenças negligenciadas são um grupo de condições infecciosas prevalentes em regiões de baixa renda, afetando principalmente populações marginalizadas e pobres que têm pouco acesso a cuidados de saúde. Essas doenças incluem malária, doença de Chagas, leishma- niose, esquistossomose, e dengue, entre outras. Caracterizadas por sua baixa visibilidade e falta de interesse e investimento em pesquisa e desenvolvimento de tratamentos ou vacinas, essas doenças contribuem significativamente para a morbidade e mortalidade em países em desenvolvimento. A negligência é amplificada pela insuficiência de sistemas de saúde, falta de recursos financeiros, e a escassez de iniciativas globais para combater essas doenças, resultando em ciclos contínuos de pobreza e doença nessas comunidades. Pretende-se que ao final desta unidade você esteja apto a: • Explicar o surgimento e funcionamento da Política Nacional de Saúde Integral dos Povos do Campo, Águas e Florestas, relacionando os determinantes sociais de saúde com sua situação de saúde atual. • Reconhecer agravos gerais e ocupacionais comuns aos povos do campo, das águas e das florestas e de povos tradicionais, considerando suas especificidades. 2.1 POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE DOS POVOS DO CAMPO, ÁGUAS E FLORESTAS 45 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais REFLEXÃO “O paciente Terra está doente. A degradação ambiental global pode ter consequências graves para a saúde humana. É hora de os médicos darem um diagnóstico mundial e aconselharem sobre o tratamento.” Per Fugelli (CASASSUS, p.2032, 2017). Você já parou para pensar na sua relação com o lugar onde você vive? E como os impactos ambientais das medidas adotadas pela sociedade em prol do desenvolvimento lhe afetam? Como queima- das e desmatamentos florestais, uso de agrotóxicos, excesso de mercúrio nas águas dos rios, contaminação dos mares com esgoto e derramamentos de petróleo chegam até você? Esse é um dos objetos de estudo da Saúde Planetária. Conheça mais sobre esse conceito no PodCast “Tempo Quente”, disponível em: https://radionovelo.com.br/originais/ tempoquente/ Fonte: SANTANA, 2008|Acervo Fiocruz Imagens. Para entendermos quando a saúde da população rural passou a ser relevante para o Estado brasileiro, convidamos você a fazer uma viagem no tempo e voltar a meados do século XIX. Nesse período, os cuidados com saneamento e oferta de atendimento médico ainda estavam iniciando nos centros urbanos, mais precisa- mente na capital federal. Embora todos nós sejamos afetados de alguma maneira pela degradação do ambiente e uso irracional desses recursos em nome de um “desenvolvi- mento”, os povos do campo, águas e florestas têm sua existência direta e continuamente ameaçada. Como vimos anteriormente, a construção histó- rica da ideia de “civilidade” foi pautada pela dicotomia urbano-superior e ru- ral-inferior. E é justamente esse falso “título de inferioridade” que torna acei- tável a destruição e invisibilização do lugar rural e das pessoas que nele vivem. Foi assim que por muitos anos esses povos tiveram sua afirmação existen- cial, econômica, cultural e social desconsiderada no processo de construção do Brasil (FARIAS; FALEIRO, 2020). https://radionovelo.com.br/originais/tempoquente/ https://radionovelo.com.br/originais/tempoquente/ EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 46 Fonte: Núcleo de Digitalização (IMS), 2020. O Rio de Janeiro tinha na época um dos principais portos do país, por onde se escoavam produtos de exportação agrícolas e recebia mão de obra es- trangeira. Naquela época, o Estado brasileiro enfrentava muitas epidemias, como a peste bubônica, cólera e varíola. O combate a essas infecções era feito por meio de orientações de higiene, quarentena, isolamen- to e vacinas, sendo o advento de antibióticos muitas décadas mais tarde. Com a descoberta dos vetores de transmissão, a febre amarela ganhou destaque dentre as doenças chamadas de “tropicais” pela medicina colonial. O cuidado sanitário no Brasil nessa época era destinado a es- trangeiros e população urbana, mas também tendo como alvo o controle de doenças associa- das à pobreza como a tubercu- lose, a febre tifoide e a sífilis. Você imagina por quê? O medo e a ameaça da doença dos males dos outros – pobres, imigrantes e es- trangeiros – que poderia infectar as elites do Brasil, promoveram uma comple- xa rede de interdependência sanitária urbana, real ou imaginária, que instigou as elites e governos a darem os primeiros passos mais efetivos na instituciona- lização da saúde pública no início do século XX (HOCHMAN; SILVA, 2014, p.86). No início do século XX, junto com a descoberta da doença de Chagas no interior de Minas Gerais, se descobriu uma população brasileira que vivia no interior do país em condições de pobreza e sem nenhum tipo de assistência do Estado. No movi- mento que se seguiu, a prioridade foi combater a nova categoria de doenças, ba- tizadas de “endemias rurais”, com destaque para a “trindade maldita”: mal de chagas, malária e ancilostomose. Mas, apesar dos esforços para levar saneamento e o mínimo de cuidados médicos a essas regiões, as características culturais dessas pessoas não foram respeitadas. Pelo contrário, foi dado lugar a estereótipos e ge- neralizações. Tornaram-se todos “jecas-tatus”: O que se discutia era a possibilidade de seu pertencimento a uma comunidade nacional, baseada na consciência da interdependência social derivada dos efeitos negativos e coletivos das endemias rurais. Esses personagens eram os novos outros, os estrangeiros em sua própria terra (HOCHMAN; SILVA, 2014, p. 87). 47 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestase águas e popula- ções tradicionais Nos anos 1910 a 1930, expedições científicas pelo interior do Brasil tiveram como missão integrar o país por meio da oferta de serviços e infraestrutura. No entanto, curiosamente, quando foi criado o Departamento Nacional de Saúde Pública em 1919 – que tinha como objetivo a nacionalização e interiorização da saúde pelo governo federal – as populações indígenas foram excluídas desses cuidados. Os cuidados com a integração da população indígena ao país, bem como seus cuida- dos em saúde, ficaram a cargo do Serviço de Proteção ao Índio. Por muitos anos os cuidados à saúde da população rural foram caracterizados por programas que,por meio de uma racionalidade biomédica, focaram-se no combate e controle de enfermidades específicas, como febre amarela, chagas, ancilostomí- ase, tuberculose – dissociados dos fatores sociais responsáveis por elas. Veja a seguir, os marcos legais mais relevantes para implantação das políticas de saúde pública para populações rurais no Brasil. Marcos legais 1918/1919 Departamento Nacional de Saúde Pública - Liga Pró-Saneamento 1940 Serviços Nacionais de Combate às Endemias e a Fundação Serviços Especiais de Saúde Pública 1953/1956 Criação do Ministério da Saúde e do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu) 1963 Ligas Camponesas e Estatuto do Trabalhador Rural, que incluiu o Programa Nacional de Assistência ao Trabalhador Rural (Pró-Rural) EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 48 1970/1971 A Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) re- sultou da fusão do DNERu, das Campanhas de Erradicação da Varí- ola e de Erradicação da Malária. Foi criado o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural) 1976 Criou-se o Programa de Interiorização das Ações de Saúde e Sane- amento (Piass) A categoria de trabalhador rural ficou excluída da proteção social até o início dos anos de 1970 e essa proteção foi conce- bida como privilégio e não como um direito. Tal cultura con- vinha tanto aos donos de terras quanto aos governantes do Estado brasileiro que firmaram um pacto de poder forjado por reciprocidades de interesses. Na ausência de um sistema de proteção social do Estado, em teoria, caberia aos proprietários das terras e às entidades religiosas filantrópicas prestarem as- sistência social, inclusive médico-hospitalar, aos trabalhadores rurais (HOCHMAN; SILVA, 2014). 1988 Com a Constituição Federal, o direito à saúde como valor de cida- dania universal foi estendido aos trabalhadores rurais e campone- ses com e sem vínculo formal 1992 Conferência Rio-92 Fortalece a defesa do direito à saúde, à segu- rança alimentar e nutricional, ao trabalho digno e à comercializa- ção dos produtos de forma justa. 49 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 2007 Decreto nº 6.040 criou a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT) e defi- niu povos e comunidades tradicionais. Também deixou explícita a relação íntima que existe entre quem eles são, a terra onde vivem e o ambiente: I - Povos e Comunidades Tradicionais: grupos culturalmente dife- renciados e que se reconhecem como tais, que possuem for- mas próprias de organização social, que ocupam e usam terri- tórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando co- nhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição; II - Territórios Tradicionais: os espaços necessários à reprodução cultural, social e econômica dos povos e comunidades tradi- cionais, sejam eles utilizados de forma permanente ou tem- porária, observado, no que diz respeito aos povos indígenas e quilombolas, respectivamente, o que dispõem os arts. 231 da Constituição e 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e demais regulamentações; e III - Desenvolvimento Sustentável: o uso equilibrado dos recursos naturais, voltado para a melhoria da qualidade de vida da pre- sente geração, garantindo as mesmas possibilidades para as gerações futuras (BRASIL, 2007). Em 2011, com a criação da PNSIPCF, povos e comunidades tradicionais que se re- lacionavam de maneira sustentável com a terra puderam ganhar visibilidade nas suas necessidades de saúde e ter seus saberes reconhecidos. Assim, a PNSIPCF reconhece as diferenças nos processos e nas condições de tra- balho das populações-alvo, tendo planejado ações específicas para alcançar cada grupo. Para as populações rurais, implantaram-se programas de vigilância em saúde do trabalhador rural, organizados a partir de Centros de Referência de Saúde do Trabalhador (Cerest), com foco especial na exposição ocupacional relacionada aos agrotóxicos. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 50 Fonte: MÉXAS, 2007|Acervo Fiocruz Imagens. Para as populações ribeirinhas isoladas, organizaram-se Unidades de Saúde Fluviais (USF). Mais recentemente, para também atender aos surtos de ar- boviroses (dengue, zika, chikungunya e febre amarela), agravos relaciona- dos aos animais peçonhentos, e para atenção às condições de vida das marisqueiras, dos raizeiros e dos pescadores. Essas populações ainda permanecem invisíveis no que tange ao desenvolvimento e à ope- racionalidade das políticas públicas, o que talvez retrate a distância entre a decisão (as políticas) e a ação, cabendo, notadamente, aos gover- nos municipais e estaduais implan- tar as políticas e implementar as ações (CARNEIRO et al., 2014). 2.2 SITUAÇÃO DE SAÚDE DOS POVOS DO CAMPO Quem são os povos do Campo? Podemos tentar compreender os povos do campo hoje a partir da relação estabe- lecida com a terra e os meios de produção. A terra não é vista como um objeto a ser explorado até o último instante, mas como uma fonte de sustento e moradia, que deve ser preservada de alguma forma. A distribuição de terras no Brasil se deu em momentos distintos, atendendo a di- ferentes interesses socioeconômicos, e essas repercussões podem ser observadas nas condições de vida e nos indicadores de saúde dessas famílias hoje. 2.2.1 AGRICULTORES FAMILIARES E ASSENTADOS Definido pela Lei 11.326/2006, agricultor familiar é aquele que trabalha no meio rural, não tem área maior do que quatro módulos fiscais, a renda principal é resul- tante da produção agrícola da propriedade e utiliza predominantemente mão-de- -obra dos membros da própria família para desenvolver o trabalho no estabeleci- mento. (BRASIL, 2006.) 51 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Fonte: ILICCIEV, 2004|Acervo Fiocruz Imagens. A agricultura familiar é de extrema importância para a soberania alimentar do país, sendo responsável por mais de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. Ela se contrapõe ao modelo de agronegócio empresa- rial devido à relação de intimidade que existe entre as famílias e o ter- ritório onde vivem e produzem o ali- mento, e ainda mais por serem os trabalhadores os detentores dos meios de produção. Essas famílias são mais propensas a não fazerem uso de agrotóxicos e demonstram maior preocupação com uso res- ponsável dos recursos naturais (GA- BOARDI JUNIOR, 2013; SCUSSEL; RADUNZ; BUSATO, 2019). A existência de pequenas propriedades rurais se deu mais facilmente na região Sul e Sudeste do país, onde o processo de colonização ocorreu de maneira mais intensa em outro momento histórico, já após a proibição do uso de mão de obra escrava. Nesse cenário, a distribuição de pequenos lotes de terras para famílias de imigran- tes europeus ocorreu na perspectiva eugenista de povoamento e “branqueamen- to” do país e realização de atividades agrárias pelos mesmos. No Nordeste, principalmente, o latifúndio se mostrou um enorme obstáculo parao trabalho livre e assalariado. A verdade é que a relação de trabalho das pessoas do campo nessa região permanece pouco alterada até hoje, havendo ainda muitos que trabalham em condições análogas à escravidão, nunca alcançando autonomia para aquisição da sua própria terra. Essa história é muito bem contada por João Cabral de Melo Neto no poema “Morte e vida Severina”: Esta cova em que estás com palmos medida É a conta menor que tiraste em vida É de bom tamanho nem largo nem fundo É a parte que te cabe deste latifúndio. (MELO NETO, 2007). Na região de latifúndios, a conquista de pequenas propriedades de terra pelas pessoas do campo ocorreu mediante a luta de movimentos sociais como as Ligas Camponesas (1945 a 1964) e mais recentemente por meio da lei da reforma agrária EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 52 garantida pela Constituição de 1988 e do Movimento Sem Terra (MST) (SCUSSEL; RADUNZ; BUSATO, 2019). Apesar de constitucional, a reforma agrária ocorre len- tamente e mediante conflitos violentos que resultam na perda de muitos trabalha- dores rurais. O termo “assentado” faz referência a trabalhadores rurais e famílias que não tinham condições financeiras de adquirir um lote em zona rural e foram “benefi- ciados” pela redistribuição das terras. No entanto, a crítica que cabe a esse termo é que ele esconde que o benefício da terra é fruto de uma disputa anterior, sendo o assentado sujeito transformador da sua própria realidade e não seres passivos (SAMPAIO & MATOS, 2006). A relação da saúde com o direito à terra pode ser associada à segurança alimen- tar e renda, sentimento de pertença, senso de comunidade e construção de rede de apoio. Fica ainda mais evidente quando observamos que as famílias assenta- das apresentam melhores indicadores de saúde que os trabalhadores sazonais, por exemplo. 2.2.2 TRABALHADORES SAZONAIS Fonte: OMENA, 2005. São trabalhadores autô- nomos e temporários, contratados pelos pro- prietários de grandes la- vouras nos períodos de safra. Já existe evidência que são submetidos muitas vezes a condições de trabalho subumanas e apresentam piores condi- ções de saúde. Apesar do trabalho árduo que exe- cutam, não são protegi- dos pela legislação brasi- leira na questão de registro de trabalho por períodos curtos (RISK; TERESO; ABRAHÃO, 2010). Como o pagamento é feito por produção, os trabalhadores acabam por chegar à beira dos seus limites físicos em busca de melhores vencimentos. É comum que se queixem de dores de cabeça, dores osteomusculares e principalmente cãibras, devido a desidratação e distúrbio hidroeletrolíticos. 53 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Os textos a seguir exemplificam as contaminações por agrotóxicos e demostram os impactos negativos ocasionados na saúde das populações a curto, médio e longo prazo. Confira: Os agrotóxicos podem ser utilizados na agricultura (evitando proliferação de insetos, fungos ou ervas daninhas), pecu- ária (no combate de carrapatos, pulgas e moscas) e domicílio (para controle de cupins, ratos ou baratas, por exemplo). Também chamados de pesticidas ou de- fensivos agrícolas, são a classe de produto químico mais associada a óbitos e há re- gistro de uso abusivo dessas substâncias no Brasil com significativo impacto am- biental e pouca regulamentação, ainda considerando-se possibilidades de efeitos deletérios da exposição a médio e longo prazo (CARNEIRO et al., 2015).Fonte: Ibama, 2018. ...cãibras, que começam, em geral, pelas mãos e pelos pés, avançam pelas pernas e chegam ao tórax, acometendo todo o corpo (...). Essa cãibra provoca fortes dores e paralisia total do trabalhador semelhante a uma crise convulsiva (ROSA; NAVARRO, 2014). Apresentam maior insegurança alimentar e insatisfação com seu trabalho. Também são mais expostos aos agrotóxicos (85,2%) do que assentados (26%) e acampados (9,6%). Em estudo realizado por Rosa e Navarro (2014), cerca de 20% dos trabalha- dores expostos a agrotóxicos sofreram intoxicação, dos quais mais da metade ne- cessitou de internamento alguma vez por uso desses produtos. 2.2.3 INTOXICAÇÃO POR AGROTÓXICO EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 54 “A água brasileira pode ser considerada potável contendo até 500 micro- gramas de glifosato por litro, enquanto a água da União Europeia pode ter no máximo 0,1 micrograma de glifosato. Então, o limite brasileiro é 5.000 vezes maior do que o limite da União Europeia.” Alan Tygel, em en- trevista a BBC News Brasil. (CARRANÇA, 2021) Acesse o link https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57209799 e confira o texto na integra. Um dossiê sobre perímetros irrigados, nome dado a áreas extensas para a agricultura irrigadas a partir de cursos artificiais de água, vincula-os a uma série de violações de direitos das comunidades rurais que convivem com esse tipo de estrutura. Entre os impactos mais graves apontados pelo estudo está a contaminação da água por agrotóxicos, inclusive a destinada ao consumo humano. Exames médicos feitos em 545 traba- lhadores de regiões próximas ao perímetro, realizados ao longo de um ano e meio, mostraram, ainda, que 30,3% tiveram quadros compatíveis com provável intoxicação aguda. Ainda considera-se a possibilidade de efeitos deletérios da exposição a médio e longo prazos. Acesse o link: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014- 05/segundo-dossie-perimetros-irrigados-violam-direitos-de-comu- nidades-rurais e confira o texto na íntegra. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57209799 https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-05/segundo-dossie-perimetros-irrigados-violam-direitos-de-comunidades-rurais https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-05/segundo-dossie-perimetros-irrigados-violam-direitos-de-comunidades-rurais https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-05/segundo-dossie-perimetros-irrigados-violam-direitos-de-comunidades-rurais 55 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais As equipes de saúde que atuam em áreas rurais devem incluir na territorialização e no diagnóstico situacional da sua comunidade a análise da situação de saúde de populações expostas a agrotóxicos: identificar a situação de exposição das po- pulações, o perfil da comunidade, os grupos de maior vulnerabilidade e problemas de saúde relacionados ao uso de agrotóxicos. É importante procurar identificar parcerias para realização desse cuidado na rede SUS, na rede intersetorial e junto à comunidade para o desenvolvimento de ações de promoção de saúde e preven- ção desse agravo. É importante que todo caso de intoxicação por agrotóxico seja notificado e em caso de acometimento de crianças ou adolescentes considerar en- caminhar ao conselho tutelar, à Assistência Social do Município ou ao Núcleo de Apoio a Saúde da Família (Nasf). Se o paciente trabalhar em regime de carteira as- sinada, emitir CAT (BAHIA, 2019). A intoxicação por agrotóxico pode ocorrer através de contato direto durante o manuseio do produto ou indiretamente por meio da contaminação de alimentos. Podem ser absorvidos pela pele, mucosas, aspirados ou ingeridos (BAHIA, 2019). A maioria das intoxicações por agrotóxicos não possui um antí- doto específico, tornando a descontaminação a intervenção mais importante. A descontaminação da pele e dos olhos deve ser re- alizada mesmo quando ainda não se sabe especificações do agrotóxico. É de grande importância colher uma história detalhada para identificar as neces- sidades específicas de descontaminação e terapia, se houver. A proteção dos pro- fissionais de saúde durante o processo de descontaminação é importante e fre- quentemente esquecida. A descontaminação dos olhos deve ser feita com irrigação a baixa pressão de soro fisiológicopor 30 minutos e da pele com grandes volumes de água, sabão e xampu ainda em atenção pré-hospitalar. A descontaminação gástrica por lavagem é indicada se a ingestão da intoxicação ocorreu dentro de 60 minutos da apresentação do paciente. O carvão ativado, com- binado com um catártico, também é indicado na maioria das intoxicações que se manifestam dentro de 60 minutos após a ingestão. No entanto, é importante lembrar que esses procedimentos devem ser realizados em contexto hospitalar. A síndrome colinérgica hipersecretiva caracteriza o envenenamento por organo- fosforados e carbamatos. Os inseticidas organoclorados (lindano e outros trata- mentos para sarna e piolhos) podem causar convulsões com o uso excessivo ou em grandes áreas da pele não intacta. Herbicidas não-bipiridílicos, biocidas (in- cluindo piretrinas, piretroides e Bacillus thuringiensis) raramente produzem algo além de irritação moderada na pele, olhos e/ou gastrointestinal na exposição tópica (SIMPSON; WILLIAM; SCHUMAN, 2002). EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 56 Os usuários com sinais leves de into- xicação por agrotóxicos, mesmo sem história de exposição, devem passar por consulta médica para avaliação clínica e laboratorial: hemograma completo, com contagem de reticuló- citos, bioquímicos (ureia, creatinina, proteínas totais e frações, eletrofore- se das globulinas, bilirrubinas totais e frações, fosfatase alcalina, TGO, TGP, Gama-GT, TSH, T3, T4 livre, glicemia de jejum), dosagem de colinesterase plasmática. Quando houver suspeita de intoxicação aguda por agrotóxicos do grupo dos organofosforados e/ou carbamatos, deve ser feita dosagem de ace- tilcolinesterase eritrocitária. Quando a suspeita for de intoxicação crônica por agrotóxicos do grupo dos organofosforados e/ou carbamatos, deve ser dosada na urina (BAHIA, 2019). Fonte: Freepik.com Em caso de intoxicação aguda ligue para o Centro de Informação e As- sistência Toxicológica (CIATox) de sua região para orientações sobre sus- peita de intoxicações com manifestações clínicas atípicas, quadros ini- ciais de difícil identificação ou caso haja qualquer dúvida em relação à intoxicação. No site: http://portal.anvisa.gov.br/disqueintoxicacao estão disponí- veis os números de contato dos diferentes centros de informação e as- sistência toxicológica da Rede Nacional de Centros de Informação e As- sistência Toxicológica (Renaciat). O número gratuito do serviço Disque-intoxicação é 0800 722 6001. No site http://abracit.org.br/wp/centros/ estão disponíveis os conta- tos dos centros de intoxicação da Associação Brasileira de Centros de In- formação e Assistência Toxicológica. Consulte também a Ficha de Infor- mações de Segurança do Produto Químico (FISPQ), o rótulo e a bula do produto para mais informações (BRASIL, 2018). Observe a seguir a classificação dos agrotóxicos, seu mecanismo de ação e os sin- tomas decorrentes da intoxicação. 57 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Classe Mecanismo de ação Sintomas Organofosforados Carbamatos Organoclorados Biocidas Inibe a colineste- rase levando ao excesso de acetilco- lina. Inibição reversível da colinesterase (com- plexo carbamoil-ace- tilcolinesterase [AChE] dissocia-se muito mais facilmente e rapida- mente do que o com- plexo OP-AChE). Indução do estado hiperexcitável no sistema nervoso central e periférico pela interrupção do fluxo normal de sódio e potássio através da membrana do axônio; pode antagonizar a inibição mediada por GABA no SNC. As piretrinas são deri- vadas de crisântemos; piretroides são com- postos sintéticos com meia-vida mais longa; ambos podem produ- zir efeitos tóxicos no sistema nervoso, mas não são bem absorvi- dos e são desintoxica- dos de forma eficaz e rápida pelos sistemas de enzimas hepáticas de mamíferos. Ansiedade, convulsões,espasmos, taquicardia, fraqueza muscular. Síndrome hipersecretiva: sudorese, salivação, diarreia, lacrimejamento. Miose mais comumente, mas 15% têm midríase secundária à liberação de epinefrina das suprarrenais devido à estimulação do receptor nicotínico. Crise colinérgica hipersecretiva; depressão do SNC com coma, convul- sões e hipotonicidade em exposições tóxicas graves. Convulsões, dor de cabeça, tontura, náusea, vômito, parestesia, incoorde- nação, tremor/espasmos após trata- mento tópico para piolhos/sarna ou ingestão acidental ou intencional de pesticida líquido. Os sintomas mais graves são convul- sões, embora incomuns, a menos que sejam altamente expostos (geralmente por meio da ingestão de grandes quan- tidades). Podem apresentar tremor, incoordenação, salivação, vômito; a exposição tópica pode produzir pares- tesias de curto prazo, especialmente das mãos e face; uma pequena porção da população (1% a 3%) é alérgica a piretrinas/piretroides, resultando em sintomas que variam de congestão nasal a asma. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 58 A intoxicação aguda por agrotóxico pode ser classificada como leve, aguda mode- rada e aguda grave. A seguir estão descritos os quadros clínicos de acordo com essa classificação. Observe: INTOXICAÇÃO LEVE Quadro clínico que pode ser caracterizado por cefaleia, irritação cutânea mucosa, dermatite de contato irritativa ou por hipersensibilização, náusea e discreta tontura. Ressalte-se também que diante de um quadro de intoxica- ção aguda podem estar presentes sinais e/ou sintomas relativos à intoxica- ção crônica. Portanto, é necessário que o paciente com quadro de intoxica- ção aguda seja também avaliado quanto à possibilidade de apresentar intoxicação crônica, sempre à luz da história de exposição. INTOXICAÇÃO AGUDA MODERADA Quadro clínico que pode ser caracterizado por cefaleia intensa, náuseas, vômitos, cólicas abdominais, tontura mais intensa, fraqueza generalizada, pa- restesia, dispneia, salivação e sudorese aumentadas. INTOXICAÇÃO AGUDA GRAVE Quadro clínico grave que pode ser caracterizado por miose, hipotensão, ar- ritmias cardíacas, insuficiência respiratória, edema agudo de pulmão, pneu- monite química, convulsões, alterações da consciência, choque, coma, podendo evoluir para óbito. Casos moderados e graves devem receber os primeiros cuidados e serem encami- nhados à emergência. Pacientes graves e moderados devem ser transferido com oferta de oxigênio suplementar. Crises convulsivas devem ser controladas com benzodiazepínicos (BAHIA, 2019). 59 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Em 2020, mais de 171.968 famílias foram afetadas por conflitos no campo relacionados à ocupação e posse de terras. Esse foi o maior re- gistro desde 1985, com um total de 1.608 ocorrências, aumentando 25% e 57,6% se comparados a 2019 e 2018, respectivamente. Sem-terra, possei- ros, indígenas, quilombolas e assen- tados foram as maiores vítimas de agressões no campo nos últimos 11 anos (de 2009 a 2020), merecendo destaque o aumento significativo da violência contra indígenas e quilom- bolas nos últimos dois anos (entre 2019 e 2020). Os povos indígenas representam mais da metade das famílias afetadas por esses conflitos, tendo um aumento alarmante com relação ao número de invasões de território. Em 2019 foram registradas nove invasões,compara- das com 178 em 2020 (CPT, 2020).Fonte: Abip Comunicação, 2019. 2.2.4 OUTROS AGRAVOS RELACIONADOS AO CAMPO 2.2.4.1 - VIOLÊNCIA E CONFLITOS POR TERRA 2.2.4.2 - MORDEDURA DE ANIMAIS DE CRIAÇÃO Os porcos são os mais propensos a morder, enquanto acidentes com cavalos, vacas, ovelhas e cabras são mais relacionados a coices ou esmagamento. As mordidas de suínos costumam ser graves e frequentemente infectarem de forma multibacte- riana. Como na maioria das mordeduras por mamíferos, o antibióticode primeira escolha para profilaxia e tratamento é a amoxicilina com clavulanato, que cobre bactérias aeróbias e anaeróbias. Em geral, o tempo de tratamento recomendado é de 7 a 14 dias, conforme a gravidade da lesão. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 60 Figura 05 – Mordedura de Suíno. Fonte: SCHWALM, et al., 2021. A ferida deve ser limpa com água e sabão ou solução salina normal, o que reduz o risco de infecção (particularmente no caso de animais com raiva). Corpos estra- nhos como sujeira, detritos e dentes devem ser removidos. Deve ser irrigada sob alta pressão usando uma agulha de calibre 19 ou 20 ou cateter de plástico em uma seringa grande (geralmente 250ml de SF0,9% é suficiente). Deve ser desbridado conforme necessário. Quanto ao fechamento da ferida, pode ser considerado em feridas de mordida cui- dadosamente selecionadas, como feridas relativamente mais limpas e em locali- zação de importância estética e/ou funcional. O fechamento primário de feridas de cabeça e pescoço com profilaxia antibiótica está associado a baixo risco de in- fecção (1%) devido ao aumento do suprimento de sangue e ausência de edema dependente. A sutura não é recomendada em feridas com alto risco de infecção. Deve-se manter elevada a extremidade lesada durante as primeiras 48-72 horas. Feridas significa- tivas nas mãos podem se beneficiar de 3-5 dias de imobilização na posição funcio- nal (DENDLE; LOOKE, 2009). É importante considerar a necessidade de profilaxia contra o tétano e a raiva. Todo paciente com lesão por mordedura que busca atendimento médico deve ter seu status vacinal para tétano verificado, com imunização adequada conforme neces- sário. A profilaxia deve ser feita de acordo com a classificação de risco dos ferimentos: 61 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Quadro 01 – Profilaxia em ferimentos com risco mínimo de tétano. Histórico de vacinação contra o tétano Vacina SAT/IGHAT Outras condutas Incerta ou menos de 3 doses Sim* Não Limpeza e desin- fecção, lavar com soro fisiológico e substâncias oxi- dantes ou antis- sépticas e des- bridar o foco de infecção. 3 doses ou mais, sendo a última dose há menos de 5 anos Não 3 doses ou mais, sendo a última dose há mais de 5 anos e menos de 10 anos Não 3 doses ou mais, sendo a última dose há mais de 10 anos Sim 3 doses ou mais, sendo a última dose há 10 ou mais anos em situações espe- ciais Sim * Vacinar e aprazar as próximas doses, para complementar o esquema básico. Essa vacinação visa proteger contra o risco de tétano por outros ferimentos futuros. Se o profissional que presta o atendimento suspeita que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados, deve considerar a indicação de imunização passiva com soro antitetânico (SAT) ou imunoglobulina humana antitetânica (IGHAT). Quando indicado o uso de vacina e SAT ou IGHAT, concomitantemente, devem ser aplicados em locais diferentes. ** Entende-se por situações especiais aquelas em que o profissional que presta o atendimento suspeita que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados. Fonte: Telessaúde RS (UFRGS, 2021), adaptado de Ministério da Saúde (2019). • Ferimentos com risco mínimo de tétano: são ferimentos su- perficiais, sem corpos estranhos ou tecidos desvitalizados. • Ferimentos com alto risco de tétano: são ferimentos profun- dos ou superficiais sujos; com corpos estranhos ou tecidos desvitalizados; queimaduras ou congelamento; feridas punti- formes ou por armas brancas e de fogo; mordeduras; esma- gamento, politraumatismos e fraturas expostas. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 62 Quadro 02 – Profilaxia em ferimentos com alto risco de tétano. Histórico de va- cinação contra o tétano Vacina SAT/IGHAT Outras condutas Incerta ou menos de 3 doses Sim¹ Sim Desinfecção, lavar com soro fisioló- gico e substân- cias oxidantes ou antissépticas e remover corpos estranhos e teci- dos desvitalizados. Desbridamento do ferimento e lavagem com água oxigenada. 3 doses ou mais, sendo a última dose há menos de 5 anos Não Não 3 doses ou mais, sendo a última dose há mais de 5 anos e menos de 10 anos Sim (1 reforço) Não² 3 doses ou mais, sendo a última dose há mais de 10 anos Sim (1 reforço) Não² 3 doses ou mais, sendo a última dose há 10 ou mais anos em situ- ações especiais Sim (1 reforço) Sim ⁴ ¹ Vacinar e aprazar as próximas doses, para complementar o esquema básico. Essa vacinação visa proteger contra o risco de tétano por outros ferimentos futuros. Se o profissional que presta o atendimento suspeita que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados, deve considerar a indicação de imunização passiva com soro antitetânico (SAT) ou imunoglobulina humana antitetânica (IGHAT). Quando indicado o uso de vacina e SAT ou IGHAT, concomitantemente, devem ser aplicados em locais diferentes. ² Para paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, além do reforço com a vacina, está também indicada IGHAT ou SAT. Os imunodeprimidos deverão receber sempre a IGHAT no lugar do SAT, em razão da meia-vida maior dos anticorpos. ³ Entende-se por situações especiais aquelas em que o profissional que presta o atendimento suspeita que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados. ⁴ Se o profissional que presta o atendimento suspeita que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados, deve considerar a indicação de imunização passiva com SAT ou IGHAT. Quando indicado o uso de vacina e SAT ou IGHAT, concomitantemente, devem ser aplicados em locais diferentes. Fonte: Telessaúde RS (UFRGS, 2022), adaptado de Ministério da Saúde (2019). 63 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Quadro 03 – Critérios para profilaxia antirrábica após acidentes com ferimentos leves e graves por animais. A CI D EN TE LE VE CO N D IÇ Ã O D O A N IM A L A G RE SS O R Cã o ou g at o se m su sp ei ta d e ra iv a no m om en to d a ag re s- sã o Cã o ou g at o cl in ic a- m en te s us pe ito d e ra iv a no m om en to da a gr es sã o Cã o ou g at o ra iv os o, de sa pa re ci do o u m or to E An im ai s do m és tic os d e in te re ss e ec on ôm ic o ou de p ro du çã o (b ov in os , bu ba lin os , e qu íd eo s, ca pr in os , o vi no s, s uí no s e ou tr os ) M or ce go s e ou tr os an im ai s si lv es tr es , in cl us iv e os d om ic i- lia do s * Fe ri m en to s su pe rfi ci ai s, po uc o ex te n- so s, g er al - m en te ú ni co s, em tr on co e m em br os (e xc et o m ão s, po lp as d ig ita is e pl an ta d os pé s) ; p od em ac on te ce r em de co rr ên ci a de m or de du ra s ou a rr an ha du - ra s ca us ad as po r un ha o u de nt e. La va r co m á gu a e sa bã o. O bs er va r o an im al du ra nt e 10 d ia s ap ós a e xp os iç ão 1. – Se o a ni m al p er - m an ec er s ad io n o pe rí od o de o bs er - va çã o, e nc er ra r o ca so . – Se o a ni m al m or - re r, de sa pa re ce r ou se to rn ar r ai vo so , in ic ia r i m ed ia ta m en - te e sq ue m a pr ofi lá - tic o co m 4 d os es d a va ci na . La va r co m á gu a e sa bã o. In ic ia r es qu em a pr o- fil át ic o co m 2 d os es da v ac in a (IM o u ID ), um a no d ia 0 e o ut ra no d ia 3 . O bs er va r o an im aldu ra nt e 10 d ia s ap ós a ex po si çã o¹ . -S e a su sp ei ta d e ra iv a fo r de sc ar ta da ap ós o 1 0º d ia d e ob - se rv aç ão , s us pe nd er o es qu em a pr ofi lá ti- co e e nc er ra r o ca so . La va r co m á gu a e sa - bã o. In ic ia r im ed ia ta m en te o es qu em a pr ofi lá tic o co m 4 d os es d a va ci na . Es qu em a de a dm in is - tr aç ão : – N os d ia s 0, 3 , 7 e 1 4, pe la v ia IM 4. O U – N os d ia s 0, 3 , 7 e 2 8, pe la v ia ID 4. La va r co m á gu a e sa bã o. In ic ia r im ed ia ta m en - te o e sq ue m a pr ofi - lá tic o co m s or o3 e 4 do se s da v ac in a. Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o do s or o: – A do se in di ca da é de 4 0 U I/k g de p es o do p ac ie nt e e de ve se r ad m in is tr ad a no m áx im o at é 7 di as da a pl ic aç ão d a pr i- m ei ra d os e da v ac i- na d e cu lti vo c el ul ar . EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 64 *L am be du ra de p el e co m le sõ es s up er fi- ci ai s. Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o: – N os d ia s 0, 3 , 7 e 14 , p el a vi a IM 4. O U – N os d ia s 0, 3 , 7 e 28 , p el a vi a ID 4. -S e o an im al m or re r, de sa pa re ce r ou s e to rn ar r ai vo so , c om - pl et ar o e sq ue m a at é 4 do se s. Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o: -C om pl et ar c om u m a do se e nt re o 7 º e o 10 º d ia e u m a do se no 1 4º d ia , p el a vi a IM 4. O U -C om pl et ar c om u m a do se e nt re 0 7 º e o 10 º d ia e u m a do se no 2 8º d ia , p el a vi a ID 4. Ap ós e ss e pr az o, o so ro n ão é m ai s ne ce ss ár io . E Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o da v ac in a: – N os d ia s 0, 3 , 7 e 14 , p el a vi a IM 4. O U – N os d ia s 0, 3 , 7 e 28 , p el a vi a ID 4. A CI D EN TE G RA VE CO N D IÇ Ã O D O A N IM A L A G RE SS O R Cã o ou g at o se m su sp ei ta d e ra iv a no m om en to d a ag re s- sã o. Cã o ou g at o cl in ic a- m en te s us pe ito d e ra iv a no m om en to da a gr es sã o. Cã o ou g at o ra iv os o, de sa pa re ci do o u m or to E An im ai s do m és tic os d e in te re ss e ec on ôm ic o ou de p ro du çã o (b ov in os , bu ba lin os , e qu íd eo s, ca pr in os , o vi no s, s uí no s e ou tr os ). M or ce go s e ou tr os an im ai s si lv es tr es , in cl us iv e os d om ic i- lia do s. 65 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Fe ri m en to s na ca be ça , f ac e, pe sc oç o, m ão s, po lp as d ig ita is e/ ou p la nt a do pé . La va r co m á gu a e sa bã o. In ic ia r es qu em a pr ofi lá tic o co m 2 do se s da v ac in a, um a no d ia 0 e o u- tr a no d ia 3 . O bs er va r o an im al du ra nt e 10 d ia s ap ós e xp os iç ão 1, 2. Se o a ni m al p er m a- ne ce r sa di o no p er í- od o de o bs er va çã o, en ce rr ar o c as o. Se o a ni m al m or re r, de sa pa re ce r ou s e to rn ar r ai vo so , d ar co nt in ui da de a o es qu em a pr ofi lá tic o, ad m in is tr an do o so ro 3 e co m pl et ar o es qu em a at é 4 do se s da v ac in a. Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o do s or o: La va r co m á gu a e sa bã o. In ic ia r im ed ia ta m en - te o e sq ue m a pr ofi - lá tic o co m s or o3 e 4 do se s da v ac in a. Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o do s or o: – A do se in di ca da é de 4 0 U I/k g de p es o do p ac ie nt e e de ve se r ad m in is tr ad a no m áx im o at é 7 di as d a ap lic aç ão d a pr im ei - ra d os e da v ac in a de cu lti vo c el ul ar . A pó s es se p ra zo , o s or o nã o é m ai s ne ce ss á- ri o. E Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o da v ac in a: – N os d ia s 0, 3 , 7 e 14 , p el a vi a IM 4. O U La va r co m á gu a e sa - bã o. In ic ia r im ed ia ta m en te o es qu em a pr ofi lá tic o co m s or o3 e 4 d os es d a va ci na . Es qu em a de a dm in is - tr aç ão d o so ro : – A do se in di ca da é d e 40 U I/k g de p es o do p a- ci en te e d ev e se r ad m i- ni st ra da n o m áx im o at é 7 di as d a ap lic aç ão d a pr im ei ra d os e da v ac in a de c ul tiv o ce lu la r. A pó s es se p ra zo , o s or o nã o é m ai s ne ce ss ár io . E Es qu em a de a dm in is - tr aç ão d a va ci na : – N os d ia s 0, 3 , 7 e 1 4, pe la v ia IM 4. O U – N os d ia s 0, 3 , 7 e 2 8, pe la v ia ID 4. La va r co m á gu a e sa bã o. In ic ia r im ed ia ta m en - te o e sq ue m a pr ofi - lá tic o co m s or o3 e 4 do se s da v ac in a. Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o do s or o: A do se in di ca da é d e 40 U I/k g de p es o do pa ci en te e d ev e se r ad m in is tr ad a no m á- xi m o at é 7 di as d a ap lic aç ão d a pr im ei - ra d os e da v ac in a de cu lti vo c el ul ar . A pó s es se p ra zo , o s or o nã o é m ai s ne ce ss á- ri o. E Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o da v ac in a: – N os d ia s 0, 3 , 7 e 14 , p el a vi a IM 4. O U N os d ia s 0, 3 , 7 e 2 8, pe la v ia ID 4. Fe ri m en to s pr of un do s, m ul tip lo s ou ex te ns o em qu al qu er r e- gi ão d o co rp o. La m be du ra d e m uc os as . La m be du ra de p el e on dejá e xi st e le sã o gr av e. Fe ri m en to p ro - fu nd o ca us ad o po r un ha d e an im al . EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 66 – A do se in di ca da é de 4 0 U I/k g de p es o do p ac ie nt e e de ve se r ad m in is tr ad a no m áx im o at é 7 di as d a ap lic aç ão da p ri m ei ra d os e da v ac in a de c ul tiv o ce lu la r. Ap ós e ss e pr az o, o so ro n ão é m ai s ne ce ss ár io . E Es qu em a de a dm i- ni st ra çã o da v ac in a: – Co m pl et ar c om um a do se e nt re o 7º e o 1 0º d ia e u m a do se n o 14 º d ia , pe la v ia IM 4. O U – Co m pl et ar c om um a do se e nt re o 7º e o 1 0º d ia e u m a do se n o 28 º d ia , pe la v ia ID 4. – N os d ia s 0, 3 , 7 e 28 , p el a vi a ID 4. O bs er va r o an im al du ra nt e 10 d ia s ap ós a ex po si çã o. S e a su sp ei ta d e ra iv a fo r de sc ar ta da a pó s o 10 º d ia d e ob se r- va çã o, s us pe nd er o es qu em a pr ofi lá tic o e en ce rr ar o c as o. 67 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Fonte: TelessaúdeRS (UFRGS, 2021), adaptado de Ministério da Saúde (2019). NÃO SÃO CONSIDERADOS CONTA- TOS DE RISCO CONTATO INDIRETO Lavar com água e sabão. Não exige esquema profilático. • manipulação de utensílios poten- cialmente contaminados; • lambedura da pele íntegra; • acidentes com agulhas durante aplicação da vacina animal. 2.2.5 ACIDENTE COM ANIMAIS PEÇONHENTOS Antes de discutirmos a clínica e o manejo dos principais acidentes com animais peçonhentos, é importante lembrar que no site: http://portal.anvisa.gov.br/ disqueintoxicacao estão disponíveis os números de contato dos diferen- tes centros de informação e assistência toxicológica da Rede Nacional de Centros de Informação e Assistência Toxicológica (Renaciat). O número gratuito do serviço Disque-intoxicação é 0800 722 6001. A lista dos Polos de Soro para atendimento de acidentes ofídicos, e também outros acidentes com animais peçonhentos, elaborada pelo Sistema Na- cional de Informação Tóxico-Farmacológicas (CITELI et al., 2018) pode ser acessada aqui: https://sinitox.icict.fiocruz.br/sites/sinitox.icict.fiocruz.br/ files//Lista%20de%20Polos%20de%20Soro%20para%20Atendimento%20 de%20Acidentes%20Of%C3%ADdicos%20no%20Brasil_01.pdf Caso sua realidade seja de viagens para áreas remotas, sem acesso a in- ternet, considere baixar este conteúdo e levar consigo em formato digital ou impresso para caso de necessidade. 2.2.6 OFIDISMO Os acidentes por serpentes acometem principalmente trabalhadores rurais. O uso de botas de cano alto ou perneira de couro, botinas e sapatos evita cerca de 80% dos acidentes. Aproximadamente 15% das picadas atingem mãos ou antebraços. Usar luvas de aparas de couro para manipular folhas secas, montes de lixo, lenha, palhas, etc. e não colocar as mãos em buracos são medidas de segurança que devem ser reforçadas junto a essa população. https://sinitox.icict.fiocruz.br/sites/sinitox.icict.fiocruz.br/files//Lista%20de%20Polos%20de%20Soro%20para%20Atendimento%20de%20Acidentes%20Of%C3%ADdicos%20no%20Brasil_01.pdf https://sinitox.icict.fiocruz.br/sites/sinitox.icict.fiocruz.br/files//Lista%20de%20Polos%20de%20Soro%20para%20Atendimento%20de%20Acidentes%20Of%C3%ADdicos%20no%20Brasil_01.pdf https://sinitox.icict.fiocruz.br/sites/sinitox.icict.fiocruz.br/files//Lista%20de%20Polos%20de%20Soro%20para%20Atendimento%20de%20Acidentes%20Of%C3%ADdicos%20no%20Brasil_01.pdf EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 68 Figura 06 – Espécie Crotalus (cascavéis). Fonte: MARTINS, 2016. É importante ter conhecimento da rede e quais serviços ofere- cem tratamento com soro antiofídico para que o paciente seja encaminhado o quanto antes. Principalmente na suspeita de acidente crotálico ressaltamos a importância de iniciar hidrata- ção venosa para evitar insuficiência renal aguda. Uma banda de constrição ampla e plana pode ser aplicada proximalmente à mordida para bloquear apenas o fluxo venoso e linfático superficial até que a terapia antio- fídica seja iniciada. Um ou dois dedos devem deslizar facilmente sob essa faixa, uma vez que qualquer comprometimento do fluxo sanguíneo arterial pode aumen- tar a morte do tecido. As extremidades superiores devem ser imobilizadas o mais próximo possível de uma posição neutra em relação à gravidade, de preferência no nível do coração (WHO, 2007). Você saberia reconhecer uma serpente peçonhenta? As figuras a seguir representam as características de cada um dos 4 tipos de ser- pentes venenosas existentes no Brasil (jararaca, surucucu, cascavel e coral). Elas são identificadas basicamente pela presença de fosseta loreal*, característica da cauda e apresentação de cor. * A fosseta loreal é uma pequena cavidade ou depressão localizada entre o olho e a narina de cada lado da cabeça da serpente, muito útil para a distinção de algumas espécies de serpentes, sobretudo para a identifi- cação de espécies venenosas. 69 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Figura 07 - Espécie Brothrops (Jararacas). Fonte: MARTINS, 2015. Figura 08 – Espécie Lachesis Muta (Surucucus). Fonte: SANTANA, 2008|Acervo Fiocruz Imagens. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 70 Figura 09 – Espécie Micrurus (Cobras-Corais). Fonte: QUATMAN, 2014. O acidente botrópico corresponde ao acidente ofídico de maior importância epi- demiológica no país, pois é responsável por cerca de 90% dos envenenamentos; no entanto, apenas por 0,31% dos óbitos. O quadro clínico do acidente botrópico abrange manifestações locais caracteriza- das por dor e edema, equimose e sangramento no local da picada, e infartamento ganglionar e bolhas podem aparecer na evolução, acompanhados ou não de necrose. Efeitos clínicos sistêmicos podem ser hemorragias, como gengivorragias, epista- xes, hematêmese e hematúria, além de náusea, vômito, sudorese, hipotensão ar- terial e, mais raramente, choque. Os acidentes causados por filhotes de Bothrops spp. podem apresentar como único elemento de diagnóstico a alteração do tempo de coagulação sanguíneo. Acidentes crotálicos respondem por aproximadamente 7,7% dos acidentes varian- do até 30% em algumas regiões. Apresenta o maior coeficiente de letalidade devido à frequência com que evolui para insuficiência renal aguda. Diferente do acidente botrópico, apresenta poucos sintomas locais. Não há dor, ou esta pode ser de pequena intensidade. Há parestesia local ou regional, que pode persistir por tempo variável, podendo ser acompanhada de edema discreto ou eritema no ponto da picada. Os sintomas sistêmicos associados à ação neurotóxica do veneno surgem nas primeiras horas: fácies miastênica evidenciada por ptose palpebral, flacidez da musculatura da face, alteração do diâmetro pupilar, oftalmoplegia, diplopia. Também pode apresentar proteinúria, aumento do tempo de coagulação e sangramento restrito à gengiva (BRASIL, 1998). 71 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Os acidentes micrúricos e laquéticos, embora menos frequentes que os botrópi- cos e crotálicos, apresentam quadros clínicos específicos e desafiadores, devido àstoxinas especiais presentes no veneno das serpentes responsáveis. Acidentes Micrúricos são causados pela picada de serpentes do gênero Micrurus, conhecidas popularmente como corais verdadeiras. Este tipo de acidente é menos comum, mas de grande importância clínica devido ao potencial neurotóxico do veneno. O quadro clínico se caracteriza por sintomas neurológicos que podem surgir algumas horas após a picada, incluindo fraqueza muscular progressiva, ptose palpebral, dificuldade de fala e deglutição, e, em casos graves, insuficiência respi- ratória por paralisia dos músculos respiratórios. Diferentemente dos acidentes bo- trópicos e crotálicos, os sintomas locais são geralmente mínimos ou ausentes, o que pode retardar a busca por atendimento médico e o diagnóstico. Acidentes Laquéticos, provocados por serpentes do gênero Lachesis, as surucucus ou bushmasters, também são menos frequentes, mas podem causar quadros clí- nicos graves. O envenenamento laquético destaca-se pelo início rápido de sinto- mas locais, como dor intensa, edema e eritema no local da picada, acompanhados de sintomas sistêmicos que incluem distúrbios hemorrágicos, como sangramen- tos mucosos, e manifestações neurológicas, como tremores, confusão mental e, ocasionalmente, convulsões. O quadro pode evoluir para choque e insuficiência renal aguda. A ação do veneno é complexa, afetando tanto o sistema hemostático quanto o sistema nervoso. Ambos os tipos de acidentes requerem atenção médica imediata. O tratamento envolve suporte clínico para os sintomas apresentados e, quando disponível, a ad- ministração do soro antiofídico específico. A identificação correta da serpente en- volvida é crucial para o manejo adequado do caso, embora isso nem sempre seja possível. Portanto, o tratamento é frequentemente baseado no quadro clínico apre- sentado pelo paciente. A rapidez no reconhecimento dos sintomas e no início do tratamento é fundamental para reduzir a morbidade e mortalidade associadas a esses acidentes ofídicos. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 72 O escorpião venonoso Nome Tityus Características Tem hábitos noturnos. Pertence à família dos aracnídeos e está mais ativo na época de calor. É a variedade mais comum na América do Sul. Se alimenta de pequenos animais como insetos e baratas. Habitat Seu habitat natural é o cerrado. Na ponta da cauda tem um aguilhão que injeta veneno. Efeitos do veneno Olhos Febre e arrepios Salivação Dificuldade em respirar Vômitos e diarréia Pode causar insuficiência cardíaca Fonte: adaptado de Geddes (2017). 2.2.7 ACIDENTE ESCORPIÔNICO 73 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Os escorpiões de importância médica no Brasil pertencem ao gênero Tityus, que é o mais rico em espécies, representando cerca de 60% da fauna escorpiônica neo- tropical. Os acidentes por Tityusserrulatus são mais graves que os produzidos por outras espécies de Tityus no Brasil. A dor local, uma constante no escorpionismo, pode ser acompanhada por parestesias. Nos acidentes moderados e graves, ob- servados principalmente em crianças, após intervalo de minutos até poucas horas (duas, três horas), podem surgir manifestações sistêmicas. Antiveneno SAEscA, ou SAArB Classificação clínica Leve: dor e parestesias locais. Moderado: dor local intensa associada a uma ou mais manifestações (náuseas, vômitos, sudorese, sialorreia, agitação, taquipneia e taquicardia). Grave: além das manifestações clínicas citadas na forma moderada, há presença de uma ou mais das seguintes manifestações: vômitos profusos e incoercíveis, sudorese profusa, sialorreia intensa, prostração, convulsão, coma, bradicardia, insuficiência cardíaca, edema pulmonar agudo e choque. Ampolas - 2 a 3 4 a 6 Fonte: Brasil (2019). Crianças picadas por escorpião, mesmo com sintomas leves, devem ficar em observação de 6 a 12 horas. Dosagem de soro antiescorpiônico por classificação clínica EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 74 O tratamento sintomático consiste no alívio da dor por infiltração de lidocaína a 2% sem vasoconstritor (1 ml a 2 ml para crianças; 3 ml a 4 ml para adultos) no local da picada ou analgésico simples. Paciente moderados e graves devem ser estabi- lizados e encaminhados à emergência. Você pode encontrar a lista dos hospitais que possuem tratamento para acidentes peçonhentos no site do Ministério da Saúde, https:// www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-pe- conhentos/acidentes-ofidicos 2.2.8 - ACIDENTE ARACNÍDICO Os acidentes por diferentes tipos de aranhas apresentam quadros clínicos distin- tos, variando também quanto a frequência em cada região do país. Confira abaixo: Aranha armadeira (Phoneutria SPP) Sintomas: Dor forte irradiada dos membros, inchaço, sudorese, vômitos, hipertensão, arritmias. Complicações: Insuficiência cardíaca, convulsões, edema pulmonar e coma. Tratamento: Soro antiaracnídico. Localização: bastante comum no Sudeste e Sul do Brasil. Aranha marrom (Loxosceles SPP) Sintomas: Dor discreta, inchaço e lesão da pele, necrose, febre, vômitos, tontura e dor de cabeça. Complicações: Risco de amputação do membro, anemia e falência renal. Tratamento: Soro antiaracnídico/soro antiloxoscélico. Localização: encontradas especialmente na região Sul, mas também no Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos/acidentes-ofidicos https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos/acidentes-ofidicos https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos/acidentes-ofidicos 75 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Fonte: adaptado de: NAZARÉ, 2020; MFGOUVEIA, 2012; PEREIRA, 2011; MARINHO, 2008. Viúva marrom (Latrodectus SPP) Sintomas: Dor forte irradiada dos membros. Dor por todo corpo, agitação, contração musculares e sudorese. Complicações: Pressão alta, taquicardia, retenção urinária, e choque. Tratamento: Soro antilatrodectus. Localização: menos comuns, concentram-se mais no Nordeste. Figura 10 - Aranha marrom. Fonte: PEREIRA, 2011. Os acidentes por picada de aranha marrom são os mais frequentes no Sul do país. A forma cutânea representa 87% a 98% dos casos. De instalação lenta e progres- siva, é caracterizada por dor discreta, edema endurado e eritema no local da picada que são pouco valorizados pelo paciente. Os sintomas locais se acentuam nas pri- meiras 24 a 72 horas após o acidente. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 76 Figura 11- Lesão provocada por acidentes com aranha marrom. Fonte: arquivo pessoal dos autores. Figura 12 - Aranha viúva marrom. Fonte: MARINHO, 2008|Acervo Fiocruz Imagens. 77 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Acidentes mais comuns na região Nordeste. Geralmente, o quadro se inicia com dor importante no local em cerca de 60% dos casos, de pequena intensidade, evo- luindo para sensação de queimadura 15 a 60 minutos após a picada. Pápula erite- matosa e sudorese localizada são observadas em 20% dos pacientes. Podem ser visualizadas lesões puntiformes, distando de 1 mm a 2 mm entre si. Na área da picada há referência de hiperestesia e pode ser observada a presença de placa ur- ticariforme acompanhada de infartamento ganglionar regional. Figura 13 - Aranha armadeira. Fonte: MGFGOUVEIA, 2012. Essas aranhas são responsáveis por 42% dos acidentes, contudo 91% dos quadros são leves. São assim chamadas porque quando são ameaçadas apoiam-se nas pernas traseiras, erguem as dianteiras e os palpos, abrem as quelíceras, tomando bem visíveisos ferrões, e procuram picar. Podem atingir de 3 cm a 4 cm de corpo e até 15 cm de envergadura de pernas. Os acidentes ocorrem frequentemente dentro das residências e nas suas proximidades, ao se manusear material de cons- trução, entulhos, lenha ou calçando sapatos. Confira a seguir a descrição dos acidentes aracnídicos provocados pelas diferen- tes espécies de aranha, e os sintomas característicos de cada tipo: EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 78 Acidente loxoscélico (Loxosceles) Aranha marrom A picada quase sempre é imperceptível. O quadro clínico pode se apresentar de duas formas: Forma cutânea: dor de pequena intensidade. O local aco- metido pode evoluir com palidez mesclada com áreas equi- móticas (“placa marmórea”). Também podem ser observa- das vesículas e/ou bolhas sobre área endurada, com conteúdo sero sanguinolento ou hemorrágico. Pode ocorrer febre, mal estar geral, fraqueza, náusea, vômitos e mialgia. Forma cutâneo-hemolítica: hemólise intravascular, de in- tensidade variável. A principal complicação é a injúria renal aguda por necrose tubular. Anemia, icterícia e hemoglobinú- ria se instalam geralmente nas primeiras 24 horas pós-pica- da. Mais raramente, há descrição de pacientes que evoluem com coagulação intravascular disseminada (CIVD). Acidente fonêutrico (Phoneutria) Aranha armadeira A dor imediata é o sintoma mais frequente. Sua intensidade é variável, podendo se irradiar até a raiz do membro acome- tido. Outras manifestações são: edema, eritema, parestesia e sudorese no local da picada, onde podem ser visualizadas as marcas de dois pontos de inoculação. Acidente latrodéctico (Latrodectus) Aranha viúva marrom Dor na região da picada, suor generalizado e alterações na pressão e nos batimentos cardíacos. Podem ocorrer tremo- res, ansiedade, excitabilidade, insônia, cefaleia, prurido, eritema de face e pescoço. Há relatos de distúrbios de com- portamento e choque nos casos graves. Contratura facial, trismo dos masseteres caracteriza fácies latrodectísmica ob- servada em 5% dos casos. Fonte: adaptado do Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos (BRASIL, 1998) e Ofício Circular Nº 2 2014-CGDT/DEVIT/SVS/MS. 79 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Existem orientações específicas para o manejo clínico dos diferentes acidentes aracnídicos, como o antiveneno utilizado, a classificação clínica e o número de ampolas recomendado para o tratamento. Confira essas informações no quadro a seguir: Quadro 04 - Tipos de acidente aracnídico e manejo clínico. Tipo de acidente Antiveneno Classificação clínica Nº de ampolas Loxoscélico (Aranha marrom) SALox* SAAr** Forma cutânea leve: lesão in- característica sem alterações clínicas ou laboratoriais. Se a lesão permanecer inca- racterística é fundamental a identificação da aranha no momento do acidente para confirmação do caso. - Forma cutânea moderada: presença de lesão “carac- terística” ou altamente su- gestiva (palidez ou placa marmórea, menor de três centímetros no seu maior diâmetro, incluindo a área de enduração), e dor em queimação ou a presença de lesão sugestiva (equimose, enduração, dor em queima- ção). 5 Forma cutânea grave: pre- sença de lesão extensa (palidez ou placa marmórea, maior de três centímetros no seu maior diâmetro, incluin- do a área de enduração) e dor em queimação intensa. 10 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 80 SALox* = Soro antiloxocélico. SAAr **= Soro antiaracnídico (Loxosceles, Phoneutria, Tityus). Fonte: adaptado do Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos (BRASIL, 1998) e Ofício Circular Nº 2 2014-CGDT/DEVIT/SVS/MS. Tipo de acidente Antiveneno Classificação clínica Nº de ampolas Forma cutânea-hemolítica: a presença de hemólise, inde- pendentemente do tamanho da lesão cutânea e do tempo decorrido após o acidente, classifica o quadro como grave. 10 Fonêutrico (Aranha arma- deira) SAAr Leve: dor, edema, eritema, irradiação, sudorese, pares- tesia, taquicardia e agitação secundárias à dor. - Moderado: manifestações locais associadas à sudorese, taquicardia, vômitos ocasio- nais, agitação, hipertensão arterial. 2 a 4 Grave: prostração, sudorese profusa, hipotensão, pria- pismo, diarreia, bradicardia, arritmias cardíacas, convul- sões, cianose, edema pulmo- nar, choque. 5 a 10 Latrodéctico (Aranha viúva marrom) Não há disponibilidade de tratamento soroterápico para os casos de acidentes latrodécticos. Nesses casos, utiliza-se para o tratamento, além de analgésicos, benzodiazepínicos, gluconatode cálcio e clorpromazina. Há relatos de utilização de prostigmine, fenitoína, fenobarbital e morfina. Deve-se garantir suporte cardiorrespiratório e os pacientes devem permanecer hospitalizados por, no mínimo, 24 horas. Atente-se que a presença de apenas um ponto ou a ausência de dois pontos sepa- rados não afastam a hipótese de picada de aranha. 81 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 2.2.9 - DOENÇAS DO CARRAPATO Figura 14 - Carrapato estrela. Fonte: PADDOCK; GATHANY, 2008. A Febre Maculosa é uma condição séria, causada pelo microrganismo Rickett- sia rickettsii, que é transmitido aos humanos através da saliva de carrapatos infectados. Esta doença apresenta-se de forma abrupta e intensa, com sintomas iniciais que podem ser confundidos facilmente com outras enfermidades, como as arboviroses, devido à sua natureza inespecífica. Entre os sintomas estão febre alta, dores musculares, sensação generalizada de mal-estar, náuseas e vômitos. Um indicativo crucial para o diagnóstico da Febre Maculosa é a aparição de uma erupção cutânea maculopapular ou vesiculopapular, que geralmente não causa coceira e começa nas palmas das mãos e solas dos pés. Este exantema tende a surgir aproximadamente no quarto dia após o início dos sintomas e pode evoluir para incluir pequenas manchas hemorrágicas chamadas petéquias. Em estágios mais graves, pode ocorrer necrose dos tecidos. Para o tratamento de adultos com sintomas leves, recomenda-se o uso de doxiciclina na dosagem de 100 mg, duas vezes ao dia, por um período de 7 dias, ou continuar o tratamento por mais 2 dias após o desaparecimento da febre. É vital para os profissionais da Atenção Primá- ria à Saúde manterem-se vigilantes à tríade diagnóstica composta por febre, erupção cutânea e histórico de exposição a carrapatos. Qualquer demora no diagnóstico e, consequentemente, no início do tratamento, pode ter desfechos fatais. É impor- tante salientar que antibióticos beta-lactâmicos e aminoglicosídeos não são efica- zes contra a Rickettsia rickettsii. Além disso, o uso de sulfonamidas deve ser evitado, pois esses medicamentos podem fornecer substrato para a replicação do patóge- no, exacerbando a doença. (FIOL et al., 2010) Por fim, um hábito importante para a prevenção de acidentes aracnídeos e escorpi- ônicos é bater calçados e luvas no chão antes de calçá-los, já que esses animais podem se esconder nesses lugares, devendo ser constante estimulados nas áreas rurais. Você deve estar atento à possibilidade de doenças relacionadas ao carrapa- to, principalmente em áreas rurais onde há criação de animais e rios ou lagos com presença de capivaras. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 82 Doença de Lyme A doença de Lyme é uma infecção bacteriana sistêmica causada pela Borrelia burg- dorferi e transmitida pelo carrapato estrela. É endêmica em áreas de animais sil- vestres, carrapatos e florestas. É a patologia mais comum transmitida por carra- patos. As manifestações clínicas iniciam-se com aparecimento de eritema migratório no local da picada, seguidode sintomas semelhantes ao da gripe. Com a evolução da doença, pode ocorrer acometimento dos sistemas nervoso central, cardiovas- cular, ocular e articulações. O diagnóstico é feito pelas características clínicas, dados epidemiológicos e exames laboratoriais; já o tratamento é realizado com adminis- tração de antibióticos conforme o estágio da doença (MALUF JUNIOR et al., 2007). As manifestações clínicas iniciam por eritema migratório em região da picada que se inicia em 3 a 30 dias após a lesão. 60 a 80% dos infectados apresentam este sintoma, que costuma ser acompanhado por cefaleia, febre, dor no corpo e artral- gia. O rash pode demonstrar expansão centrífuga lenta ou rapidamente. Possui região central mais clara ou avermelhada, caracterizando uma lesão tipo alvo (JUNIOR, 2010). Figura 16 – Eritema local provocado pela picada do carrapato Estrela. Fonte: GATHANY, 2007. 83 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Os tratamentos antibióticos preconizados para Doença de Lyme, para adultos, de acordo com o quadro clínico são: Eritema migrans: Doxiciclina 100 mg VO 2x/dia (10-21 dias) – 1ª escolha ou Amoxicilina 500 mg VO 3x/dia (14-21 dias) ou Cefuroxima 500 mg VO 2x/dia (14-21 dias). Doença neurológica: paralisia do N. Facial isolada: Do- xiciclina 100 mg VO 2x/dia (14-28 dias). Doença “grave”, como meningite, encefalite, radiculopatia: Ceftriaxona 2 g EV 1x/dia (10-28 dias). Figura 15 – Eritema migratório crônico. Fonte: PETAHOLMES, 2005. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 84 Fonte: KOIRALA, 2021. Cardite: leve (BAV 1º grau com intervalo PR normal): Do- xiciclina 100mg VO 2x/dia (14-21 dias) ou Amoxicilina 500 mg VO 3x/dia (14-21 dias) ou Cefuroxima 500 mg VO 2x/ dia (14-21 dias). Doença “grave” (com sintomas, BAV de 2º ou 3º grau, BAV de 1º grau com intervalo PR com mais de 300 ms) Ceftriaxona 2 g EV 1x/dia (21 dias). Artrite: sem doença neurológica: Doxiciclina 100mg VO 2x/dia (28 dias) ou Amoxicilina 500 mg VO 3x/dia (28 dias). Com doença neurológica: Ceftriaxona 2 g EV 1x/dia (28 dias). Artrite recorrente apesar de antibioticoterapia prévia VO: Ceftriaxona 2 g EV 1x/dia (14-28 dias) ou Do- xiciclina 100 mg VO 2x/dia (28 dias) ou Amoxicilina 500 mg VO 3x/dia (28 dias). 2.3 SITUAÇÃO DE SAÚDE DOS POVOS DAS ÁGUAS E FLORESTA Quem são os povos das águas e floresta? 2.3.1 - RIBEIRINHOS A população ribeirinha na Amazônia traz na sua história indígenas, nordestinos e imigrantes de outras regiões que chegaram ali principalmente durante o ciclo da borracha para trabalhar nos seringais. Vivem às margens de rios e lagos por uma área geográfica que se estende por cerca de 5.020.000 km. A malária é uma das principais doenças infecciosas dessa região, que responde por 90% dos casos no país. O modo de vida dessa população está intimamente relacionado com a dinâmica dos rios (cheias e vazantes) e muitas áreas ficam completamente isoladas durante os períodos de estiagem. Existe uma forte herança indígena nos hábitos alimenta- res e no uso de plantas medicinais. Vivem principalmente da pesca e do extrativis- mo vegetal e, em geral, as condições de saneamento são precárias e existe dificul- dade de acesso à energia elétrica e assistência à saúde (GAMA et al., 2018). 85 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Fontes: MÉXAS, 2007|Acervo Fiocruz Imagens. Para ter acesso a atendimento médico, pode ser necessário realizar uma viagem de dias, percorrendo até 500 km por via fluvial. Essa dificuldade de acesso se reflete também na baixa cobertura vacinal, 20% menor do que em outras regiões do país. O perfil epidemiológico dos povos ribeirinhos é resultado de uma ausência de sa- neamento, baixa escolaridade, baixa condição socioeconômica associada a doenças endêmicas da região. Apresentam também uma maior prevalência e gravidade de pterígio do que o restante da população nacional, provavelmente relacionada à maior prevalência de atividades de grande exposição ao sol. Devido à variação sazonal do nível de água, esporadicamente algumas áreas nor- malmente utilizadas para assentamentos humanos e atividades agropecuárias são inundadas. As condições precárias de saneamento, com o consumo de água im- própria diretamente dos rios e lagos, contribuem para o incremento de doenças de veiculação hídrica, tais como as enteroparasitoses (GAMA et al., 2018). EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 86 AVANÇOS - UNIDADES FLUVIAIS Desde 2012, o Ministério da Saúde vem editando uma série de portarias para a re- gulamentação das modelagens tecnoassistenciais da Unidades Básicas de Saúde Fluviais (UBSF). Saiba mais sobre os avanços na organização das Equipes de Saúde da Família Ri- beirinhas (ESFR) e das Equipes de Saúde da Família Fluviais (ESFF) aqui: https://www.scielo.br/j/icse/a/jJWLyMsndVmG3N9BTc5M4GG/?lang=pt (EL KADRI et al., 2019). SAIBA MAIS 2.3.2 PESCADORES ARTESANAIS E MARISQUEIRAS Em 2014, havia no país 957 mil pescadores artesanais registrados e esse número pode chegar a aproximadamente um milhão e meio de pessoas com alguma ativi- dade produtiva ligada à pesca de alguma maneira. Em 2003, foi criado o seguro do Defeso, que garante a renda de um salário mínimo mensal durante o período em que a atividade pesqueira é proibida em prol da preservação de espécies. Em 2019, esse recurso também foi liberado durante dois meses para pescadores artesanais registrados após o maior desastre ambiental provocado por vazamento de petró- leo no Brasil. Fonte: ILICCIEV, 2007|Acervo Fiocruz Imagens. Refere-se como pescadores artesanais aquelas pessoas que trabalham na pesca em pequena escala, atividade re- lacionada a grandes populações tradi- cionais no Brasil e no mundo. Eram 56 milhões de pessoas que trabalhavam na pesca em pequena escala, concentradas na Ásia, África e América Latina em 2012, segundo o Banco Mundial. Dessas pessoas, 47% eram mulheres inseridas em diversas etapas. No Brasil, a pesca artesanal é extensiva em toda a costa e rios e um a cada 200 brasileiros é pes- cador artesanal (UFB; BRASIL, 2018). 87 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais A mancha de óleo se alastrou por mais de 70% dos 3.300 quilômetros de litoral nos estados do Nordeste, atingindo mais de 500 localidades. Os sintomas de intoxicação aguda foram neurológicos (cefaleia, náuseas, tonteira), cutâneos (irrita- ção e manchas), respiratórios (disp- neia, faringite) e digestivos (vômitos, diarreia, dor abdominal). Nesses casos, o foco do atendimento na atenção primária deve ser a descon- taminação; considerando a exposi- ção e apresentação de sintomas sis- têmicos, o paciente deve ser encaminhado a emergência.Fonte: LEVY, 2019. Além de desastres ambientais, os pescadores também estão expostos aos riscos do manejo de substâncias químicas como querosene e óleo diesel, como explosão do barco a motor e inalação de monóxido de carbono. Além disso, é comum a prática de utilizar essas substâncias na pele como repelente de mosquitos nos man- guezais, fundamentada na falta de conhecimento desses riscos. O mercúrio, metal pesado altamente tóxico, é prejudicial à saúde humana. Atividades antropogênicas vêm alterando seu ciclo bio- geoquímico e afetando principalmente populações vulneráveis que consomem peixes ou trabalham diretamente com o mer- cúrio no garimpo do ouro (COSTA et al., 2018). Estudos evidenciam uma concentração elevada de mercúrio nos fios de cabelos de moradores de comunidades ribeirinhas com hábito de alto consumo de peixe. Em algumas regiões, principalmente as que sofreram inundações para construção de hidrelétricas, os níveis de contaminação chegam a ser sete vezes superior ao limite de 101.4 Entendendo o conceito de cultura e competência cultural Encerramento da unidade Unidade 2 – Conhecendo os povos do campo, águas e florestas Introdução 2.1 Política Nacional de Saúde dos Povos do Campo, Águas e Florestas 2.2 Situação de saúde dos povos do campo 2.2.1 Agricultores familiares e assentados 2.2.2 Trabalhadores sazonais 2.2.3 Intoxicação por agrotóxico 2.2.4 Outros agravos relacionados ao campo 2.2.4.1 Violência e conflitos por terra 2.2.4.2 Mordedura de animais de criação 2.2.5 Acidente com animais peçonhentos 2.2.6 Ofidismo 2.2.7 Acidente escorpiônico 2.2.8 Acidente aracnídico 2.2.9 Doenças do carrapato 2.3 Situação de saúde dos povos das águas e floresta 2.3.1 Ribeirinhos 12 13 13 14 14 17 18 19 22 36 38 43 44 44 45 51 51 53 54 60 60 60 68 68 73 75 82 85 2.3.2 Pescadores artesanais e marisqueiras 2.3.3 Intoxicação por chumbo 2.3.4 Doenças dos mergulhadores 2.3.5 Acidente com anzol 2.3.6 Acidentes por animais peçonhentos do mar 2.3.7 Acidente por escalpelamento Encerramento da unidade Unidade 3 – Conhecendo os povos indígenas e quilombolas Introdução 3.1 Resgate histórico e social dos povos indígenas do Brasil 3.1.1 Indígenas isolados 3.1.2 Indígenas de contato recente 3.1.3 Indígenas de longo contato 3.2 O subsistema de saúde indígena 3.3 Situação de saúde dos povos indígenas 3.4 Resgate histórico e social dos povos quilombolas 3.4.1 Quem são os povos quilombolas? 3.5 Bem Viver, intermedicalidade e pensamento decolonial Encerramento da unidade Encerramento do módulo Referências Biografia dos conteudistas 85 87 89 91 92 92 94 95 96 96 97 98 99 101 103 106 107 107 113 115 116 117 132 Lista de figuras Figura 01 Mapa da Região Norte evidenciando as distâncias entre Ipixuna (AM), Manaus (AM) e Cruzeiro do Sul (AC) Figura 02 Distribuição de médicos segundo capitais, municípios do interior e grandes regiões- Brasil, 2020 Figura 03 Cenário durante a estiagem e após o período de chuva Figura 04 Georreferenciamento do território Xukuru do Ororubá EMSI III. 2013 Figura 05 Mordedura de Suíno Figura 06 Espécie Crotalus (Cascavéis) Figura 07 Espécie Brothrops (Jararacas) Figura 08 Espécie Lachesis Muta (Surucucus) Figura 09 Espécie Micrurus (Cobras-Corais) Figura 10 Aranha marrom Figura 11 Lesão provocada por acidentes com aranha marrom Figura 12 Aranha viúva marrom Figura 13 Aranha armadeira Figura 14 Carrapato estrela Figura 15 Eritema migratório crônico Figura 16 Eritema local provocado pela picada do carrapato Estrela Figura 17 Mulher e bebê da etnia Yanomami Figura 18 Mulher e bebê da etnia Awá-Guajá Figura 19 Crianças da etnia Araweté Figura 20 Mapa de Localização dos Distritos Sanitário Especiais Indígenas (DSEI) Figura 21 Modelo de Organização do Distrito de Saúde Indígena 16 20 26 35 61 69 70 70 71 76 77 77 78 82 83 84 99 100 100 104 105 Apresentação do módulo Olá, caro profissional! Boas-vindas ao módulo de atenção à saúde das populações do campo, das florestas e das águas e populações tradicionais. Neste módulo, vamos conhecer um pouco da história e realidade sociocultural desses povos, principais agravos relacionados ao seu modo de vida e as principais dificuldades de acesso aos serviços de saúde. O módulo está dividido em três unidades. Na Unidade 1, “Bem-vindo a um lugar rural e remoto”, vamos conhecer os conceitos de ruralidade e suas implicações práticas para as comunidades e os serviços de saúde. Também vamos nos debruçar sobre competências específicas que um médico rural deve desenvolver para atender as necessidades das comunidades rurais, focando principalmente na competência cultural. Na segunda unidade, “Conhecendo os povos do campo, águas e florestas”, ainda dentro do tema de competência cultural, vamos conhecer a história da assistência às populações do campo, pescadoras e ribeirinhas até a criação da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da Floresta (PNSIPCF). Você terá uma aproximação com agravos mais relacionados ao modo de vida dessas populações e seu manejo. Na última unidade, “Conhecendo os povos indígenas e quilombolas”, vamos refletir sobre identidade étnica a partir dos povos indígenas e quilombolas, sobre o proces- so histórico vivenciado por seus antepassados e suas implicações nas condições de saúde dessas populações. Você também será apresentado ao Subsistema de Atenção à Saúde Indígena e às políticas públicas de atenção ao direito do povo quilombola. Vamos refletir sobre os diferentes sistemas de cura e sobre possíveis intersecções. Desejamos que o aprendizado durante esse módulo lhe seja útil para o desenvolvi- mento da competência cultural, independente do cenário em que você esteja inse- rido. E que possa contribuir para o desenvolvimento de um olhar culturalmente sen- sível às especificidades de cada paciente durante os encontros clínicos. Bons estudos! 13 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Bem-vindos a um lugar rural e remoto INTRODUÇÃO A desigualdade na distribuição geográfica de profissionais de saúde é um proble- ma global, enfrentado por vários países independentemente do seu nível de de- senvolvimento socioeconômico. A escassez desses profissionais em áreas rurais é um problema multifatorial, associado a isolamento profissional, falta de seguran- ça no trabalho, baixos salários, irregularidade no pagamento, falta de perspectiva de avanço na carreira, difícil acesso à educação continuada, falta de estrutura no ambiente de trabalho e na comunidade, entre outros. No entanto, existem três fatores mais fortemente associados à fixação de profissionais médicos em áreas rurais, que são: ser natural de uma área rural, atuar em comunidade rural durante a pós-graduação e experiências educacionais positivas em cenários rurais durante o curso de graduação. Você já pensou em ser um médico rural? Bom, durante esta unidade vamos conversar sobre as principais características de lugares rurais e remotos e como essas influenciam o acesso à saúde de suas po- pulações. Vamos nos deparar com grandes desafios do fazer rural e conhecer algumas competências que devem ser encontradas em médicos que atuam em lugares rurais e remotos. UNIDADE 01 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 14 Pretende-se que ao final desta unidade você esteja apto a: • Reconhecer o conceito de rural e remoto. • Identificar as principais competências de um médico rural. • Identificar a si mesmo na escala de competência cultural. • Refletir sobre como sua cultura e seus valores impactam no cuidado do outro 1.1 UM LUGAR RURAL E REMOTO 1.1.2 DEFINIÇÕES E IMPLICAÇÕES PRÁTICAS: O QUE FAZ UM LUGAR SER CONSIDERADO RURAL? Qual imagem vem em sua mente quando falamos em ruralidade? É comum que algumas pessoas associem ruralidade à atividade de produção agropecuária ou à ideia de um lugar retrógrado, parado no tempo. Sempre se contrapondo ao urbano, que é impregnado pela ideia de desenvolvimento e futuro. No entanto, segundo Abramovay (2009), a ruralidade possui características próprias para além das ati- vidades econômicas e também não é apenas uma etapa a ser superada pela urba- nização. Para Kayser (1990), o “rural” é um espaço físico (território), um lugar onde se vive (com modo de vida e identidade própria) e também um lugar de onde se vê e se vive o mundo. Nesse sentido, a ruralidade traz consigo um outro conceito de desenvolvimento e um outro olhar para a relação com a terra, com o tempo, bem como para as relações humanas (WANDERLEY, 2000). Devido à falta de consenso internacional sobre o conceito de ruralidade (BRAGA,2015), essa definição pode ser feita partir dos critérios mais variados. Pode-se, por exemplo, considerar como critério para a definição de rural a distância até grandes centros urbanos, a densidade demográfica da região (menor de 80 hab/km²), o número de habitantes por município (menormicrogramas de mercúrio por grama de fio de cabelo, preconizado pela OMS, o que aponta para efeitos indiretos da construção de barragens na saúde de da população. A apresentação clínica da intoxicação por mercúrio elementar (Hg) (hidrargirismo EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 88 ou mercurialismo) costuma levar anos para se manifestar, visto que frequente- mente são sintomas inespecíficos que podem ser facilmente confundidos. Os sinais e sintomas da intoxicação por mercúrio elementar são distintos dos efeitos clíni- cos de outras formas de intoxicação por mercúrio. A toxicidade do mercúrio inor- gânico resulta em sintomas gastrointestinais e neurológicos, enquanto a exposi- ção ao dimetilmercúrio orgânico em doses elevadas está associada a danos cerebelares que costumam ser fatais (COSTA, 2018). No caso das populações ribeirinhas, os peixes absorvem o Hg com facilidade e o acumulam em seus tecidos, principalmente na forma de metilHg, mesmo quando expostos à espécie Hg2+. Os sintomas decorrentes da exposição ao metilHg con- sistem em distúrbios visuais como escotomas e redução do campo visual, ataxia, parestesia, neurastenia, perda da audição, disartria , espasmos musculares, dis- túrbio da motilidade e, nos casos de exposição grave, paralisia e morte. Além disso, em ratos há evidência de que o metilHg exerce ação cancerígena (BISINOTI & JARDIM, 2004). Pacientes intoxicados por mercúrio de forma crônica podem apresentar irritabili- dade, alteração da sociabilidade, insônia, ansiedade, timidez, labilidade emocional e, nos casos mais graves, diminuição da atenção e da memória, até chegar a um processo de despersonalização geral. Equipes de Saúde da Família que atuam com comunidades ribeirinhas devem estar atentas para a importância do monitora- mento dos níveis de exposição ao mercúrio (COSTA, 2018). 2.3.3 - INTOXICAÇÃO POR CHUMBO A intoxicação crônica por chumbo (saturnismo) é a mais comum e bastante danosa ao organismo. A cronicidade da exposição ao chumbo pode gerar distúrbios hepá- ticos, renais, gastrointestinais, neuromusculares, bem como afetar o SNC. Pesca- dores utilizam redes chamadas tarrafas que possuem peso de chumbo. Ao lançar a tarrafa, costumam prender os pesos de chumbo entre os dentes. Com isso, há contato e ingestão de resíduos de chumbo nessa prática. Os sintomas da intoxica- ção crônica por chumbo são inicialmente anorexia, perda de peso, apatia ou irri- tabilidade, vômitos ocasionais, fadiga e anemia. Posteriormente, percebe-se a falta de coordenação, dores vagas nos ombros, articulações e abdômen, irritabilidade, vômitos intermitentes, além de distúrbios sensitivos das extremidades, bem como transtornos do ciclo menstrual em mulheres. E em um estado mais avançado da doença, aparecem ataxias, vômitos persistentes, períodos de torpor ou letargia, encefalopatia, delírios, convulsões e coma. Assim, os pescadores devem ser orientados a substituir o chumbo das tarrafas; evitar colocar chumbo na boca para lançar tarrafas; realizar exames laboratoriais para dosagem sanguínea de chumbo e outros exames quando houver suspeita/ risco importante de intoxicação. Verifique a seguir a comparação entre riscos químicos e as doenças do mergulha- dor quanto as atividades, os sintomas e as formas de prevenção. 89 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais RI SC O Riscos químicos com uso de óleo diesel, querosene, etc. Doenças dos mergulhadores - exposição a altas pressões atmosféricas durante o mergulho. A TI VI D A D E Deslocamento em barco movido a motor de explosão. Exposição aos fumos e monóxido de carbono resultante da queima de lenha para o pré-cozimento de mariscos. Uso de querosene e óleo diesel como repelente de mosquitos. Trata-se de práticas de proteção contra picadas de mosqui- tos existentes nos manguezais, fundamentadas no desconhecimento dos riscos dos produtos e na precariedade econômica para compra de repelen- tes vendidos no mercado. Exposição a produtos químicos originários de indústrias próximas, que contaminam áreas de manguezais. Mergulho para pesca em geral, principalmente para a pesca da lagosta, polvo. Doenças descom- pressivas; barotraumas; labi- rintite ou vertigem; hipoacusia.SI N TO M A S Possibilidades de doenças respiratórias alérgicas como asma, rinites. O monóxido de carbono, embora presente em toda queima incompleta, não parece constituir risco em função da realização do pré-cozimento em ambientes abertos, geralmente nos quintais das residências. Câncer de pele; dermatites de contato. PR EV EN ÇÃ O Uso de repelentes em lugar do quero- sene e óleo diesel. Uso de fogões com chaminés apropria- das para exaustão da fumaça. Treinamento dos pescadores, fornecimento de equipamentos de proteção, além de proibição de formas irregulares de mergulho com suporte de ar comprimido improvisado, como se verifica com o uso de bujões de gás. Controle médico para avaliar aptidão e acompanhamento das atividades de mergulho. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 90 2.3.4 - DOENÇAS DOS MERGULHADORES Barotraumas, vertigem e hipoacusia estão relacionados ao mergulho para pesca em geral, principalmente a do polvo e da lagosta. A equipe de pesca é geralmente composta por cinco pessoas: um mestre, dois mergu- lhadores e dois mangueiristas. O mestre tem a função de levar a embarcação até os locais onde as lagostas estão. Também responde pelo barco e coordena o trabalho da tripu- lação. É responsável pelo funcionamento do barco. Se o motor para de funcionar durante o mergulho, há descontinuidade no forneci- mento de ar, colocando a vida dos mergu- lhadores em risco. Os mangueiristas têm a função de cuidar das mangueiras e do su- primento de ar aos mergulhadores, que capturam as lagostas. Os acidentes mais comuns são gerados por estouro de mangueira, ruptura da correia, corte da man- gueira pela hélice do próprio barco ou de outro. O compressor é feito a partir de adaptação num botijão de gás de cozinha. Quando eles ocorrem, é necessária uma ação rápida do mangueirista, porque a quan- tidade de ar contida no reservatório (botijão) é insuficiente para a persistência do mergulho e caso o problema não seja rapidamente resolvido, a única saída para o mergulhador é subir rapidamente à superfície, sem a descompressão adequada. As mangueiras são as maiores responsáveis pelos acidentes mas a falta de manuten- ção dos motores dos barcos, dos botijões e dos compressores também contribuem para o alto risco da atividade. A jornada de trabalho varia de acordo com o tamanho do barco. Em geral, inicia-se entre 5h e 7h da manhã e termina entre 16h e 17h. A pesca é feita sempre durante o dia. Um dos maiores riscos na atividade de mergulho são os acidentes causados pelos efeitos diretos e indiretos da pressão no organismo humano. Os traumas causados pela pressão (barotraumas), a embolia traumática pelo ar, a narcose (sono provo- cado artificialmente, com diminuição da atividade reflexa), as intoxicações por CO e CO2, o apagamento e principalmente as doenças descompressivas têm seus sintomas relatados pelos mergulhadores com a clareza de quem reconhece as alterações como parte de seu cotidiano. A escassez da lagosta tem contribuído para empurrar o mer- gulhador para profundidades cada vez maiores. Embora a grande maioria dos mer- gulhos seja realizada a 30 ou 35 metros de profundidade, há relatos de mergulhos de 80 metros, com uso exclusivo do nitrogênio. Para evitar os efeitos da narcose, em mergulhos superiores a 50 metros o nitrogênio deve ser substituído pelo gás Hélio na mistura com oxigênio (heliox), mas isso não ocorre (FERREIRA, 2004). Fonte: Pexels.com. 91 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionaisAlém da profundidade, o ritmo dos mergulhos aumenta a gravidade da situação. Devem ocorrer, no máximo, uma ou duas vezes ao dia, seguidos de período de des- canso adequado. No litoral do Rio Grande do Norte, por exemplo, são feitos mais de dez mergulhos individuais diários. 2.3.5 - ACIDENTE COM ANZOL Acidentes com anzóis são frequentes, apesar de lesões graves serem incomuns. A maioria das lesões podem ser tratadas no consultório sem dificuldade. É impor- tante avaliar cuidadosamente o tecido ao redor da lesão antes da remoção. Caso haja trauma ocular o paciente deve ser imediatamente referenciado ao oftalmolo- gista (GAMMONS; JACKSON, 2001). 2.3.6 - ACIDENTES POR ANIMAIS PEÇONHENTOS DO MAR. Outro grupo de condições relevantes na epidemiologia de povos ribeirinhos e lito- râneos são os acidentes por animais peçonhentos do mar. Confira a seguir alguns números desses agravos. Os acidentes por animais aquáticos venenosos e traumatizantes são comuns em comunidades ribeirinhas e litorâneas. Um estudo realizado no litoral sudeste na década de 1990 evidenciou que, dos acidentes com animais marinhos da região. Os ouriços-do-mar causaram cerca de 50% dos acidentes, caravelas e medusas em torno de 25% e peixes venenosos como bagres e arraias os outros 25% dos acidentes. Nos rios e lagos, arraias, bagres e mandis causam acidentes que têm como mecanismo de envenenamento toxinas semelhantes às espécies marinhas. Em uma série de cerca de 200 acidentes em pescadores de água doce, quase 40% foram causados por bagres e mandis, 5% por arraias de água doce e 55% por peixes traumatogênicos, como as piranhas e as traíras (HADDAD JUNIOR, 2013). EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 92 No quadro a seguir é possível consultar o tratamento recomendado para aciden- tados por animais aquáticos brasileiros. Confira: Quadro 05 - Algoritmo para identificação e tratamento de aciden- tados por animais aquáticos brasileiros. Ferimentos puntiformes Erupção cutânea Ferimentos lacerados Lacera- ções sim- ples* Ferrão** Espículas presen- tes no local Espícu- las rara- mente presen- tes** Placas urti- cariformes, edema,eri- tema, vesí- culas, necro- se** Eczema Bordas cia- nóticas (1) ou pálidas (2) Fragmen- tos de fer- rão** Bagres mari- nhos e fluviais Ouriços do mar Peixes- -escor- pião (man- gangá). Peixes- -sapo (ni- quim). Águas-vivas, Caravelas, corais, anê- monas. Espon- jas, vermes mari- nhos, pepino do mar Arraias marinhas e fluviais (1). Bagres mari- nhos e flu- viais(2) (oca- sionalmente ferimentos puntifor- mes). Cações, barra- cudas, moreias, piranhas, candirus e outros peixes. 1 1 1 2 2 1 3 * Dor moderada ** Dor intensa 1. Imersão em água quente (testar com a mão) por 30-90 minutos (cerca de 50ºC). Infiltração anestésica local. Retirar espículas ou fragmentos de ferrão ou epitélio glandular. Raio X: persistência de sintomas em fases tardias. Fazer profilaxia de tétano. 2.Lavar o local ou fazer compressas com água do mar gelada. Aplicar vinagre (lavar e fazer compressas ou aplicar uma pasta de vinagre e farinha de trigo). Raspar o local com a borda romba de uma faca. Analgesia (dipirona 1 amp. Intramuscular). 3.Lavagem intensiva e exploração cirúrgica. Antibioticoterapia. Prevenção do tétano. 93 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais • Em todos os casos (especialmente ferimentos lacerados), avaliar antibioticoterapia: Cefalexi- na 2 mg/dia por 10 dias. Amoxicilina e clavulinato de potássio 1,5mg/dia por 10 dias. • 2. O uso de água doce em lesões que causam erupção cutânea acelera o envenenamento e por isso é proscrito. Fonte: Haddad Junior (2013). 2.3.7 ACIDENTE POR ESCALPELAMENTO Esse grave acidente costuma ocorrer em embarcações de pequeno porte, sobre- tudo na região norte, durante a pesca artesanal ou o transporte para a escola, o trabalho ou outros locais, quando, por descuido, os cabelos compridos, em sua maioria de mulheres e meninas, se enrolam nos eixos e ou em partes móveis dos motores, causando o arrancamento parcial ou total do couro cabeludo. Em muitos casos, as vítimas têm orelhas, sobrancelhas, pálpebras e parte do rosto e pescoço arrancados, o que causa grave deformação e pode levar à morte. A assistência à saúde requer um longo tratamento que consiste em cirurgia plás- tica reparadora e implante capilar, além de acompanhamento psicológico. A Lei nº 11.970, de 2009, obriga a instalação de uma cobertura nas partes móveis dos motores das embarcações para proteger os ocupantes. A Marinha do Brasil, por meio da Capitania dos Portos, oferece e instala gratuitamente a proteção do motor. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 94 Encerramento da unidade Parabéns, acabamos de concluir a segunda unidade! Nesta etapa, aprofundamos conhecimentos sobre os principais agravos relacionados ao modo de vida e traba- lho das populações do campo, das águas e das florestas e nos aprofundamentos no manejo de alguns deles, mais prováveis de serem realizados na UBS. Aprendemos sobre o impacto das ações deletérias ao meio ambiente na vida dessas populações e aprofundamos nossos conhecimentos também sobre a história da saúde rural no Brasil. Esperamos que as informações desta unidade tenham contribuído com a sua for- mação. Encontramo-nos novamente na próxima unidade! 95 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Conhecendo os povos indígenas e quilombolas INTRODUÇÃO Povos indígenas e quilombolas possuem pontos de convergência na sua história de opressão e resistência, desde o período colonial até a atualidade. A dispersão dos povos indígenas de seus territórios pelos grandes latifundiários e o fim da es- cravatura, sem nenhum tipo de reparação social às pessoas trazidas forçadamen- te da África, os pôs à margem da sociedade, e os sentenciou a condições de pobreza extrema. Em pleno século XXI, o Brasil não conseguiu sanar as sequelas da coloni- zação, que podem ser claramente observadas nos indicadores de saúde dessas populações. Nesta unidade vamos conhecer a história de resistência e luta desses povos para reconquistar seus direitos à terra e à saúde. Também vamos refletir sobre o impacto da colonização e a possibilidade de diálogo entre sistemas de curas distintas para a realização de um cuidado integral e culturalmente seguro. Hoje, os brancos acham que deveríamos imitá-los em tudo. Mas não é o que que- remos. Eu aprendi a conhecer seus costumes desde a minha infância e falo um pouco a sua língua. Mas não quero de modo algum ser um deles. A meu ver, só poderemos nos tornar brancos no dia em que eles mesmos se transformarem em Yanomami (YANOMAMI, 2015, p. 75). UNIDADE 03 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 96 Pretende-se que ao final desta unidade você esteja apto a: • Contextualizar o surgimento e funcionamento do Subsistema de Saúde Indígena. • Relacionar o processo histórico de colonização vivenciado pelos povos indí- genas com a atual situação de saúde de povos de contato antigo e recente. • Identificar políticas públicas para populações quilombolas. • Relacionar o processo de escravidão a qual os povos originários de África foram submetidos com a atual situação de saúde dos povos quilombolas. • Criar uma relação de cuidado culturalmente segura, reconhecendo e respei- tando a cultura e os saberes dos povos tradicionais. 3.1 RESGATE HISTÓRICO E SOCIAL DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL- O QUE SIGNIFICA SER INDÍGENA PARA VOCÊ? No Brasil, para uma pessoa ser considerada indígena, são utilizados dois critérios: autodeclaração de identida- de e reconhecimento por parte do seu povo de origem. Ou seja,ser indígena está relacionado à cultura, tra- dição e história de um povo. Esses mesmos crité- rios são utilizados em alguns outros países com história de colonização eu- ropeia, como Austrália e Canadá, e estão alinhados com o Direito Internacional dos Povos Indígenas (ONU, 2007). Dessa forma, os povos indígenas são prote- gidos do extermínio através da miscigenação, risco que ocorre quando se considera o critério genético/racial. Nos Estados Unidos é utilizado o critério rígido de “blood quantum”, que define nativo americano como aquele possui um quarto de “sangue indígena”. Essa é uma definição genocida, por apontar para um futuro em que por meio da manutenção de casamentos mistos os indígenas “deixarão de existir” (SCHMIDT, 2011). Fonte: FREITAS, 2019. 97 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais A ONU, por meio desse documento, também garante aos indígenas o direito de manter sua medicina tradicional e suas práticas de cura, conservação de plantas medicinais, animais e minerais vitais: “Indivíduos indígenas têm igual direito ao gozo do mais alto padrão possível de saúde física e mental. Os Estados adotarão as medidas necessárias para alcançar progressivamente a plena realização desse direito” (ONU, 2007 art. 1, p. 6). No entanto, o atual estado de saúde dos povos indígenas em todo o mundo é alar- mante. Quando comparados à população geral, apresentam menor expectativa de vida, maiores taxas de mortalidade materna e infantil, maiores taxas de suicídio e alcoolismo, maior prevalência de certos tipos de câncer, diabetes e hipertensão (WHYTE, ANDERSON, 2016). Essa situação pode ser analisada por meio de quatro fatores principais: desvantagem socioeconômica, alienação de recursos, vulnera- bilidade genética e opressão política. Destacamos a desvantagem socioeconômica e a alienação de recursos – inclusive degradação ambiental e alienação cultu- ral. Há evidências, também, de correlação entre o processo de colonização e o maior adoecimento dos povos originários. Isso se deve à perda de soberania e ex- propriação de recursos como terra, água e costumes, que leva à opressão desses povos (DURIE, 2003). Estima-se que aproximadamente 5 milhões de pessoas já habitavam o Brasil antes da chegada dos portugueses em 1500. Atualmente, segundo o censo do IBGE 2010, no Brasil vivem mais de 250 povos indígenas, com uma população de 896.917 pessoas, falantes de mais de 170 línguas. Esses indígenas vivem principalmente em seus territórios, mesmo que muitos ainda não sejam reconhecidos pelo Estado brasileiro (RICARDO et al., 2016). Existem muitos fatores históricos e sociais que influenciam a cultura e o modo de viver dos povos indígenas no Brasil. Certamente um dos mais impactantes é a ex- posição desses povos à sociedade não indígena. Na tentativa de melhorar a oferta de cuidados, dentro de uma perspectiva de segurança cultural, a Fundação Nacio- nal do Índio (FUNAI) classifica os povos indígenas em três grupamentos. Vamos discuti-los a seguir. 3.1.1 INDÍGENAS ISOLADOS O Brasil apresenta o maior registro de povos isolados do mundo (RODRIGUES,2020). Esses povos apresentam pouca ou nenhuma relação permanente com a socieda- de nacional ou outros povos indígenas. Existem atualmente cerca de 114 registros da presença de índios isolados em toda a Amazônia Legal (FUNAI, 2021). Em sua maioria são fragmentos de outros povos que escolheram, como estratégia de sobrevivência, se isolar da nossa sociedade após uma experiência de contato traumática (VAZ, 2011). EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 98 A concentração de grupos isolados em áreas remotas da Amazônia sugere mi- gração para lugares mais seguros como fuga de projetos de exploração de re- cursos naturais como por exemplo a abertura de estradas, ferrovias, hidroelétri- cas, garimpo e extração de madeira próximos a seus territórios originais (RODRIGUES, ALBERTONI; MENDONÇA, 2020). 3.1.2 INDÍGENAS DE CONTATO RECENTE São povos que mantêm relações de contato permanente e/ou intermitente com segmentos da sociedade nacional e que, independentemente do tempo de contato, apresentam singularidades em sua relação com a nossa sociedade e seletividade na incorporação de bens e serviços. São, portanto, grupos que mantêm fortaleci- das suas formas de organização social e suas dinâmicas coletivas próprias, e que definem sua relação com o Estado e a sociedade nacional com alto grau de autonomia. Atualmente, a Funai coordena e apoia ações de proteção e promoção em 19 terras indígenas habitadas por grupos indígenas de recente contato, como os Zo’é, Awá- -Guajá, Akun’tsu, Canôe, Piripkura, Arara da TI Cachoeira Seca, Araweté, Suruwahá e Yanomami, entre outros (FUNAI, 2021). Veja a seguir imagens de indígenas, que representam algumas das etnias citadas no texto. Figura 17 – Mulher e bebê da etnia Yanomami. Fonte: CMACAULEY, 1997. 99 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Figura 18 – Mulher e bebê da etnia Awá-Guajá. Fonte: Abip Comunicaçao, 2019. Fonte: AVIDD, 2011. Figura 19 – Crianças da etnia Araweté. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 100 3.1.3 INDÍGENAS DE LONGO CONTATO São povos que estão em contato permanente e intenso com não indígenas há mais tempo e que não tiveram oportunidade de escolher ou selecionar “bens e serviços” que desejam incorporar, como traz a definição da FUNAI. Desde o século XVIII foram obrigados a abandonar suas tradições. No entanto, resistiram por todos esses anos e vivenciam um processo de descolonização e resgate do Bem Viver, abordado ao final desta unidade. No Brasil, principalmente no Nordeste, por falarem português em sua maioria, morarem em casas de alvenaria unifamiliares e utilizarem vestimentas convencio- nais não são reconhecidos por parte da sociedade nacional enquanto indígenas. E, por isso, além de sofrerem preconceito racial por sua origem étnica, também sofrem com a cegueira cultural e generalizações por não atenderem ao estereótipo do in- dígena “exótico”. Segundo Ailton Krenak (BOLGNESI, 2019), o Brasil é uma invenção que começou com a invasão dos portugueses. Os inventores esqueceram que, antes da invasão, os povos que habitavam essas terras já possuíam mais de 2000 anos de cultura. Na mitologia Guarani, existe a crença em uma terra sem males, que seria um lugar semelhante à terra, porém sem guerra, sem fome ou doenças. No entanto, não é necessário morrer para alcançá-la, embora nela habitem os seus antepassados. Esses povos teriam migrado até o litoral do oceano atlântico buscando esse lugar. Infelizmente, do outro lado do oceano vieram nas embarcações justamente a fome, a guerra e as doenças que persistem até hoje, porque foi essa a relação estabele- cida pelos colonizadores com os povos originários. Segundo Krenak, não houve apenas uma invasão, mas também uma traição – uma vez que, sem ajuda dos povos indígenas, dificilmente o grupo de homens doentes e desnutridos que chegou ao Brasil nas caravelas teria sobrevivido. Apesar de haver poucos registros históricos sobre o contato dos povos indíge- nas com não indígenas no Brasil, é notório que o processo de adoecimento e morte dos povos originários foi impactado em muito por essas interações. As principais causas do declínio populacional indígena no Brasil são: violência e dis- seminação de doenças infecciosas. Durante as primeiras décadas do século XX, chegou-se a acreditar que os povos indígenas no Brasil lentamente deixariam de existir (GARNELO; PONTES, 2012). A construção do Estado brasileiro se deu a partir de um projeto de miscigenação biológica e homogeneização cultural. Buscou-se dar origem a uma identidade na- cional com a submissão da cultura dos povos originários e afrodescendentes àcultura hegemônica do povo europeu. Em 1751 foi publicado pelo secretário de Estado o Diretório Indígena, que “eleva” os aldeamentos à condição de “vilas”. Foi proibido, a partir de então, que os povos indígenas falassem a língua tradicional, participassem de rituais, utilizassem nomes indígenas e vivessem em casas multi- familiares. Também foi estimulado o “embranquecimento” por meio de “casamen- 101 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais tos mistos”, a utilização de sobrenomes portugueses e catequese. Todas as mudan- ças implementadas nesse período foram baseadas no conceito de civilidade que, segundo Almeida, seria o conceito que expressa “a consciência que o ocidente tem de si mesmo. Sendo ‘selvagem’ todo aquele que não é como eu” (VALE DE ALMEIDA, 1999). A partir do século XIX com o desenvolvimento de políticas de saúde públicas e cen- tralização das ofertas de serviços pela União, a atuação do Estado junto a popu- lações indígenas ocorreu através do Serviço de Proteção ao Índio (SPI, 1918). Tinha como objetivo principal a assistência dos povos indígenas na saúde, educação, proteção de suas terras e saberes. Com o passar dos anos essa instituição se mostrou incapaz de realizar sua função e foi substituída pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), ainda durante a ditadura militar (GARNELO; PONTES, 2012). Em 2013, reapareceu quase intacto um documento que apurou o assassinato e a tortura de comunidades indígenas, principalmente por fazendeiros apoia- dos por funcionários do SPI. Há registro de inúmeros casos de violência contra mulheres indígenas, desde proibição de cuidarem de seus filhos recém-nascidos a estupros em repartições públicas. O documento traz evidências de assassi- natos individuais e em massa, como ocorreu com a comunidade Cinta Larga* em 1960, quando cerca de 3.500 indí- genas morreram envenenados por arsênio. Outras atividades relatadas são: prostituição de mulheres indígenas, trabalho escravo, tortura, venda de terras indígenas, madeira, artesanato, castanha e exploração de minérios. O SPI foi extinto em 1967. Fonte: SÁ, 2017. Os indígenas Cinta Larga habitavam a região próxima à fronteira com os Estados de Rondônia e Mato Grosso. O Nome dado à etnia faz referência a cinta produzida com entrecascas de folhas, que costuma- vam utilizar em volta da cintura. Para conhecer a história e a cultura desse grupo, acesse o link , https://pib.socioambiental.org/pt/ Povo:Cinta_larga https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Cinta_larga https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Cinta_larga EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 102 Pelo exame do material, infere-se que o Serviço de Proteção ao Índio foi antro de corrupção inominável durante muitos anos. O índio, razão de ser do SPI, tor- nou-se vítima de verdadeiros celerados, que lhe impuseram regime de escravi- dão e lhe negaram o mínimo de condições de vida compatível com a dignidade da pessoa humana (BRASIL, 1967). A Constituição de 1988 foi construída com ampla participação dos povos indíge- nas a exemplo de lideranças como Ailton Krenak e Xikão Xukuru (liderança indíge- na assassinada por fazendeiros na década de 1990 durante o processo de retoma- da das terras indígenas). Com a redemocratização, a criação SUS, o reconhecimento do direito à demarcação, a homologação e a desintrusão das terras indígenas, também foi possível a criação de um subsistema de saúde indígena. 3.2 O SUBSISTEMA DE SAÚDE INDÍGENA O Subsistema de Saúde Indígena (SASI-SUS) foi criado em 1999 pela Lei Arouca (nº 9.836), a partir desse momento os serviços de saúde para populações indígenas deixou de ser responsabilidade da FUNAI e passou para a FUNASA. A operaciona- lização do SASI-SUS ao longo dos anos enfrentou muitos desafios e contradições. Um exemplo dessas contradições certamente foi o período em que a gestão dos serviços de saúde indígena esteve sob responsabilidade dos municípios. O impasse estava no histórico conflito cultural e agrário que atravessava e ainda atravessa a relação das populações indígenas e fazendeiros, que habitualmente exercem im- portante influência política na região. Uma conquista importante para o movimen- to indígena veio em 2010 com o entendimento de que a política indigenista deve ser executada pelo governo federal e posteriormente com criação da Secre- taria Especial de Saúde Indígena (SESAI). Observe, na linha do tempo a seguir, o histórico das ações e políticas de atenção à saúde direcionadas aos povos indígenas. 1910 Serviço de proteção ao índio 1952 Formulação dos serviços de unidades sanitárias aéreas (SUSA) 1956 Implementação do SUSA 1985 Primeiro encontro de saúde indígena 1988 Aprovação da Constituição Federal que reconhece a pluralidade étnica no Brasil 1990 Criação do SISI e saúde indígena passa à FNS 1999 A saúde indígena passa para a Funasa 2000 A PNSI é aprovada 2010 Criação da SESAI 1967 Criação da Fundação Nacional do índio 1986 Primeira conferência nacional de proteção à saúde do índio 1990 Aprovação do SUS e criação do primeiro DSEI 1999 Se cria o subsistem a indígena SAS/SUS 2000 Criação dos DESAI 2008 Início das reformas na saúde indígena Fonte: adaptado de Brasil, 2016. 103 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais A SESAI é dividida atualmente em dois departamentos: Departamento de Deter- minantes Ambientais da Saúde Indígena (DEAMB), responsável pelas obras de infraestrutura e saneamento, e o Departamento de Atenção à Saúde Indígena (DASI), que é responsável pela atenção básica, educação em saúde e articulação com os serviços de média e alta complexidade para atender de maneira integral as ne- cessidades de saúde da população indígena. Além desses departamentos, a SESAI possui 34 DSEIs. Mas, o que é um DSEI? Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) são unidades gestoras descentra- lizadas responsáveis por “um território delimitado a partir de critérios geográficos, étnicos, culturais e populacionais”. A partir desses territórios são organizados os ser- viços de saúde primários e articulado o acesso das populações indígenas à atenção secundária e terciária, com o restante do SUS regional. (BRASIL, 2021.) Figura 20 – Mapa de Localização dos Distritos Sanitário Especiais In- dígenas (DSEI). Fonte: BRASIL, 2021. Existem nesses territórios um total de 356 polos bases, edificações que servem de apoio a Equipe Multiprofissional de Saúde Indígena (EMSI). Equivalem à parte mais administrativa da USF, uma vez que os atendimentos às populações indígenas ocorrem nas aldeias, de maneira itinerante. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 104 Posto de Saúde Posto de Saúde Posto de Saúde Comunidade Indígena Comunidade Indígena Comunidade Indígena Comunidade Indígena Posto de Saúde Polo Base Casa de Saúde do Índio Referência do SUS Fonte: adaptado de EPSJV/FIOCRUZ, 2019. Quando o polo base é situado em terras indígenas, é utilizado para capaci- tação dos profissionais de saúde; coleta de material para exames laboratoriais; esterilização; imunização; coleta e análise sistêmica de dados; armazenamento de medicações/material; investigação epidemiológica; em alguns casos para prevenção de câncer ginecológico, quando não é possível sua realização na aldeia (exame/coleta/consulta). Quando o polo base é localizado no município de referência, sua estrutura física é de apoio técnico e administrativo à EMSI; armazenamento de medica- mentos e material de deslocamento para outras áreas indígenas; comunicação via rádio; investigação epidemiológica; elaboração de relatórios de campo e sistema de informação; coleta, análise e sistematização de dados; planejamen- to das ações dasequipes multidisciplinares na área de abrangência; organiza- ção do processo de vacinação na área de abrangência; administração. Figura 21 – Modelo de Organização do Distrito de Saúde Indígena. 105 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Cada DSEI administra uma ou mais Casas de Saúde Indígena (CASAIs), que servem de hospedagem aos indígenas que preci- sam sair de sua aldeia para buscar atendimento secundário ou terciário na capital ou em alguma cidade distante da aldeia. Existem no Brasil 67 (CASAIs). O Controle Social nesses territó- rios é organizado a partir do Conselho Distrital de Saúde Indíge- na (Condisi) composto por conselheiros locais, que representam mais de 5 mil aldeias e 305 etnias indígenas. Atualmente existem em todo território nacional, 34 Distritos Sanitários de saúde Especial Indígena. Para conhecer o DSEI de cada região, e ter acesso a informações como: Número de aldeias e etnias atendidas, acesse o link https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sesai/estrutu- ra/dsei Atuam em todo o país 305 Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI). Cada equipe é composta por médico, enfermeiro, dentista, auxiliar de enfermagem, auxi- liar de saúde bucal e pelos agentes indígenas de saúde (AIS) e de saneamento (AISAN). Dando suporte às EMSI de cada DSEI existem um Núcleo Ampliado de Saúde Indíge- na (NASI). Poderão compor o NASI antropólogo; assistente social; educador físico; farmacêutico; fisioterapeuta; fonoaudiólogo; médico ginecologista/obstetra; médico homeopata; nutricionista; médico pediatra; psicólogo; terapeuta ocupacional; pro- fissional com formação em arte e educação (arte educador) e profissional de saúde sanitarista. Você pode acessar orientações para a construção de um plano de traba- lho para execução dos convênios no âmbito da Saúde Indígena no link a seguir: https://www.fundacaosvposs.com.br/docs/trefconvs.pdf 3.3 SITUAÇÃO DE SAÚDE DOS POVOS INDÍGENAS No cenário hospitalar, existe o Incentivo para a Atenção Especializada aos Povos Indígenas (IAE-PI), que busca oferecer um cuidado integral e culturalmente seguro no contexto da atenção especializada. Os hospitais devem atender as necessida- des culturais dos povos atendidos ali, considerando quando for desejo do indíge- na a substituição de leitos hospitalares por redes, a disponibilização de intérpre- https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sesai/estrutura/dsei https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sesai/estrutura/dsei EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 106 tes, oferecer um cardápio nutricional adequado às dietas de acordo com os costumes e hábitos alimentares de cada etnia e criar espaços apropriados para pajelança – exemplos de articulação entre o SASI-SUS com a atenção especializada do SUS. Os estabelecimentos de saúde podem aderir ao incentivo financeiro de acordo com os pré-requisitos e as condições descritos na Portaria nº 2.663, de 11 de outubro de 2017. É importante atentar para o fato de que apenas “ambientar” um hospital com pinturas étnicas ou que remetam à floresta em enfermarias e corredores não o torna seguro culturalmente. Ainda no cenário do território, junto aos DSEIs existe o Programa Articulando Saberes em Saúde Indígena (PASSI), que tem como principal objetivo a articulação entre os saberes e as práticas de saúde dos povos indígenas e o sistema de saúde ocidental. Atua qualificando e ampliando as estratégias já utilizadas pelos DSEIs e também com ações que fortaleçam as medicinas tradicionais e sua articulação com os serviços de saúde (SESAI, 2018). 3.4 RESGATE HISTÓRICO E SOCIAL DOS POVOS QUILOMBOLAS 3.4.1 QUEM SÃO OS POVOS QUILOMBOLAS? Você já ouviu falar em qui- lombo? O que vem em sua mente quando você pensa em um quilombo? Quantas comunidades quilombolas existem no Brasil? Prova- velmente virá à sua mente um lugar remoto que existia no período da escra- vidão, onde um grupo de pessoas negras vivia isolado geográfica e politi- camente. Se você pergun- tar às pessoas, você poderá escutar que alguém já ouviu falar em remanes- centes de quilombos. Quilombo Alto do Cruzeiro, localizado no distrito de Acupe, município de Santo Amaro da Purificação/Bahia. Fonte:acervo da autora Larissa Soares Silva. Pois bem, os quilombos são instituições político-culturais e comunitárias constitu- ídas por pessoas negras, estando espalhados por todo o território nacional. Os qui- lombos são uma realidade da presença de africanos e seus descendentes em toda diáspora africana. A existência dos quilombos está completamente vinculada ao capital cultural de negras e negros em qualquer lugar onde a escravidão tenha acontecido. Portanto, os quilombos são uma afirmação da humanidade e do senso de liberdade do povo africano. 107 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais De acordo com o Decreto Federal nº 4.887, de 2003, são reconhecidos como rema- nescentes de quilombos “os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atri- buição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específi- cas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”. O termo remanescentes de quilombos tem sido substituido por quilombolas, uma vez que remascentes trazia a ideia de um grupo de pessoas que teriam sobrado, negigenciando toda a identidade, história constituída e continuidade desse povo ao longo do tempo enquanto povo quilombola (Brito, 2025). Os quilombos seguem existindo para além da escravidão. Neste vídeo intitulado “Conceito de Quilombo”, da TV Brasil, a historia- dora e ativista Maria Beatriz Nascimento nos convida a compreender o quilombo para além da sua dimensão territorial ou histórica. Ela o apre- senta como uma experiência coletiva de resistência e construção de li- berdade, que não se limita ao passado escravista. O quilombo, segundo sua perspectiva, é uma forma de organização social e política que per- siste nas vivências negras contemporâneas – seja nas cidades, nas redes de afeto, nas práticas culturais ou nas memórias que sustentam a ancestralidade. Disponível em: https://youtu.be/qhrMyqzih7k?si=A4PwZPJVEplYpalm Você já ouviu falar em Beatriz Nascimento? Maria Beatriz Nascimento (1942–1995) foi uma das primeiras intelectuais negras brasileiras a repensar o conceito de qui- lombo para além do passado escravista. Historiadora, ativista e roteirista, ela revelou os quilombos como territórios de liberdade, cultura, ancestralidade e resistência negra. Para Beatriz, quilombo não era apenas um espaço físico do passado, mas uma experiência viva — presente nas cidades, nas comunidades, nas relações de cuidado e nos modos coletivos de existir. Seu pensamento inspira reflexões atuais sobre saúde quilombola, ao reafirmar que cuidar do corpo e da memória também é um ato político. Beatriz Nascimento ampliou o entendimento de território e per- tencimento, contribuindo para as lutas contemporâneas por direitos, dignidade e equidade. Existem comunidades quilombolas em outros países da América Latina como: Co- lômbia, Equador, Suriname, Honduras, Belize e Nicarágua. Semelhante aos povos indígenas, os direitos das comunidades quilombolas também são assegurados na Convenção 169 sobre Povos Indígenas e Tribais da Organização Internacional do Trabalho. Em Angola, no continente africano, os Kilombos surgiram como uma instituição africana, com organização e formação social próprias, diferente da formação de sociedades constituídas por outros povos e etnias no país, por volta de 1580. Tra- https://youtu.be/qhrMyqzih7k?si=A4PwZPJVEplYpalm EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 108 tavam-se de povos e etnias guerreiros - Imbangala e mbundu - organizados para combater e resistir aosataques e à invasão portuguesa em seus territórios. No Brasil, os primeiros Quilombos surgiram em meados do século XVII, como im- portantes instituições no período colonial e imperial. Os quilombos eram forma- dos por pessoas negras que possuíam um modelo próprio de organização social e resistiam às autoridades portuguesas, aos ataques de militares e à dominação colonial e escravagista da época. O Quilombo dos Palmares foi o maior quilombo existente no Brasil durante o período colonial, com milhares de quilombolas, tendo Zumbi dos Palmares como principal líder. Foi destruído pelos portugueses em 1694, e ambos seguem sendo símbolos de resistência e luta para a população quilombola e negra brasileira (NAS- CIMENTO, 2006). A história do Quilombo dos Palmares e de Zumbi dos Palmares são re- tomadas enquanto histórias de luta e liberdade no vídeo “Quilombo dos Palmares – Expedições TV Brasil”, disponível em: https://youtu.be/zHFfLuUD8Dw?si=j_u7nV9wP6A2yNc5. Foi somente em 2022 que a popula- ção quilombola foi inserida no Censo Demográfico no Brasil (IBGE, 2023). O censo revelou a existência de 1 milhão, 330 mil e 186 pessoas que se autode- clararam quilombolas, representando 0,66% da população brasileira, concen- trados principalmente em áreas rurais da Região Nordeste. Os dados ainda apontam que são cerca de 8 mil loca- lidades quilombolas distribuídas em 1.700 municípios. Quilombo Alto do Cruzeiro, localizado no dis- trito de Acupe, município de amaro da Purifi- cação/Bahia. Fonte: acervo da autora Larissa Soares Silva. https://youtu.be/zHFfLuUD8Dw?si=j_u7nV9wP6A2yNc5. 109 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Fonte: CEPFS, 2014. No mapa a seguir, é possível identificar algumas comunidades quilombolas pre- sentes em determinados Estados brasileiros. Amapá Oiapoque - Calçoene Mazagão Pará Alenquer Óbidios Alcechaça Caxu Mocajuba Cupurí Arujudes Maranhão Turiaçu Maracaçomê Lagoa Amarela São Benedito do Céu Frechal Bahia Urubu Jacuípe Jaguaripe Maragogipe Campos de Cachoeira Orobô, Tupim, Andaraí, Xique-xique Buraco do Tatu N.S. dos Mares Cachoeira Cabula Palmares Minas Gerais Ambrósio Campo Grande Bambul Andaraí Sapucaí Careco Monte de Angola Parnaíba Ibituruna São Paulo Jabaquara Mogi-Guaçu Atibaia Santos Campinas Piracicaba Morro de Araraquara Aldeia Pinheiros Jundiaí Itapetininga Monjolinho (São Carlos) (Baseado em Os quilombos e a rebelião negra, de Clóvis Moura, São Paulo; Brasiliense, 1981.) 0 220 440 660km Sergipe Capela Itabaiana Divina Pastora Itaporanga Rosário Engenho Brejo Laranjeiras Vila Nova Fonte: adaptado de CENTRO DE CIÊNCIAS E EDUCAÇÃO SUPERIOR A DISTÂNCIA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), 2016. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 110 Sobre a saúde das comunidades quiombolas Ainda que a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), instituída em 2009, contemple toda a população negra brasileira e, assim, inclua as comunidades quilombolas, a formulação da Política Nacional de Saúde Integral da População Quilombola (PNASQ) surgiu da necessidade de reconhecer as espe- cificidades socioculturais, territoriais e políticas dos povos quilombolas, respon- dendo também à atuação política das organizações quilombolas, que reivindicam uma abordagem intercultural e territorializada para o cuidado em saúde, distinta das estratégias voltadas a populações negras urbanas. Esses grupos, definidos constitucionalmente como povos e comunidades tradi- cionais, possuem modos de vida próprios, organização coletiva e vínculos ances- trais com o território; além disso, enfrentam vulnerabilidades distintas, como o racismo ambiental e o acesso precário aos serviços de saúde em regiões rurais e remotas. Portanto, a criação da PNASQ reafirma o direito à autodeterminação, à territorialidade e à produção de conhecimentos próprios sobre o cuidado, am- pliando o compromisso do SUS com a equidade e a justiça racial. A PNASQ é a primeira iniciativa do Ministério da Saúde voltada especificamente para atender às necessidades de saúde das comunidades quilombolas e tem como principal objetivo garantir o acesso integral e equânime à saúde, considerando a diversidade social, étnica, cultural, territorial e ancestral dessa população. Busca ainda enfrentar o racismo e as desigualdades étnico-raciais no SUS, promovendo a melhoria dos indicadores de saúde e da qualidade de vida das comunidades quilombolas. Conheça, a seguir, os seus eixos estruturantes. A gestão da política ocorre de forma tripartite (União, Estados e Municípios), com responsabilidades compartilhadas que vão desde o financiamento, planejamen- to e monitoramento até a articulação intersetorial e o fortalecimento da partici- pação social. 111 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Entre os objetivos específicos da PNASQ, destacam-se o fortalecimento dos sis- temas de informação com inclusão da autodeclaração quilombola, a ampliação do acesso às redes de atenção à saúde com respeito à diversidade territorial e cultural, a valorização das medicinas tradicionais e o combate ao racismo nos serviços de saúde. A política também contempla ações voltadas à saúde mental, saúde das mulheres, da população LGBTQIAPN+, das pessoas com deficiência, dos idosos, das crianças, das pessoas com doença falciforme e dos trabalhado- res rurais. Com foco em um SUS equânime e territorialmente comprometido com o bem-viver, a PNASQ aposta em estratégias como saúde digital, educação permanente com base na educação popular, fomento à pesquisa participativa e fortalecimento de conselhos territoriais de saúde quilombola. O Plano Operati- vo 2025-2027 (Plano Aquilomba SUS) estabelece indicadores de monitoramento que pretendem assegurar a implementação efetiva da política em todo o territó- rio nacional. Importante destacar que a formulação da PNASQ foi resultado de um processo participativo que ocorreu durante o ano de 2024, com ampla contribuição da sociedade civil, de pesquisadores e instituições como o Ministério da Igualdade Racial, o Conselho Nacional de Saúde (CNS), o Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (CONASS) e o Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS). A proposta está alinhada às recomendações oriundas da 17ª Conferência Nacional de Saúde e à Resolução nº 715/2023 do CNS. Para fortalecer a participação social, a política foi submetida à consulta pública na Pla- taforma Participa Mais Brasil por 45 dias (entre 14/02/2025 e 31/03/2025), com espaço para contribuições de qualquer pessoa interessada. As sugestões recebi- das serão sistematizadas através de uma oficina interfederativa. Neste vídeo, a advogada Vercilene Dias, coordenadora jurídica da Coor- denação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Qui- lombolas (CONAQ), fala sobre os desafios enfrentados pelas comunida- des quilombolas nos dias atuais. Disponível em: https://youtu.be/ccA3Z771KDY?si=uwG7aGu0fznISMHS Estudos reconhecem que as comunidades quilombolas estão marcadas pelas ini- quidades sociais e dificuldades no acesso aos serviços de saúde, impactando dire- tamente no processo saúde e adoecimento e morte deste grupo (LUZ et al., 2024; FREITAS et al., 2011), além de condições precárias de saneamento e vulnerabilida- des sociais associadas ao racismo estrutural. Quilombolas apresentam um perfil epidemiológico marcado por elevadas taxas de doenças crônicas, como hiperten- são arterial, diabetes, obesidade e consumo abusivo de álcool, revelando a urgên- cia de políticas públicas específicas e territorializadas (LUZ et al., 2024). De modo mais amplo, a literatura evidencia que fatores como a invisibilidade estatística, as barreiras geográficas e a ausência de políticas de promoção da equidade contri- buempara o agravamento do quadro de saúde dessas populações (BRASIL, 2023). https://youtu.be/ccA3Z771KDY?si=uwG7aGu0fznISMHS EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 112 É inegável que grupos que foram histo- ricamente perseguidos enfrentam maior dificuldade para ter acesso à saúde. Em áreas quilombolas isso pode ser obser- vado por meio da mortalidade infantil mais elevada que a média nacional, principalmente associada a doenças in- fecciosas como pneumonia e diarreia. As condições sanitárias são, em geral, precárias. A maior parte das comunida- des não possui água tratada e nem esgoto sanitário. O acesso à saúde é mais difícil até mesmo que em algumas áreas indígenas, sendo obrigados a percorrer grandes distâncias em busca de ajuda quando adoecem. A doença falciforme e a hipertensão arterial têm sido registradas com frequência nos dados coletados junto às comunidades quilom- bolas (CARDOSO et al., 2018). Fonte: OLIVEIRA, 2014. A doença falciforme (DF) e a hipertensão arterial são agravos frequentes entre qui- lombolas (FREITAS, 2011). Apesar da DF ser rastreada no período neonatal através do teste do pezinho, considerando a dificuldade de acesso das populações tradi- cionais a serviços de saúde, é ainda mais importante está atento à possibilidade de diagnóstico tardio. Por isso, é importante que ao atuar junto a populações qui- lombolas, os profissionais de saúde tenham em mente anemia falciforme como diagnóstico diferencial ao se deparar diante de um quadro de anemia, dor abdo- minal ou dor articular (principalmente episódios de dactilite), e também realize ras- treio em mulheres gestantes durante o pré-natal, solicitando eletroforese de he- moglobina (BRASIL, 2015). Prevenção quaternária A suplementação excessiva de ferro pode causar hepatomega- lia, alteração na coloração da pele, icterícia, astenia, dores arti- culares semelhantes a hemocromatose. Reforçamos a impor- tância do diagnóstico diferencial das anemias com olhar atendo a possibilidade de anemia falciforme. A linha do tempo a seguir apresenta o histórico da luta da população negra pelo direito à terra e os marcos legais que resguardam o acesso a esse direito, como uma forma de reparação pelos séculos de escravidão praticados no Brasil. 113 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 1850 Em 1850, foi aprovada uma lei no Brasil que instituiu a aquisição de terras apenas através de compra, garantindo completamente a exclusão dos africanos e seus descendentes do acesso a terras quando foram considerados “libertos”: Dessa maneira as oligarquias brasileiras asseguram a consistên- cia e perpetuação do tripé latifúndio/escravismo/monocultura e transformam o direito elementar ao espaço de vida em um ato de luta, guerra e resistência ao caráter excludente com que a ques- tão agrária sempre foi tratada no Brasil (LEITE, 2000; CARVALHO; LIMA, 2013). Marcos Legais - Linha do Tempo Período colonial O quilombo no período colonial foi definido como um objeto claro de repressão e controle. Nessa época, o desejo de fuga dos escravizados foi considerado um problema de saúde mental: a drapetomania (do grego drapetes, escravo). Essa en- fermidade foi “descoberta” por um médico americano no sul escravagista dos Es- tados Unidos e que também propôs como “tratamento” o açoite. Esse tratamento também poderia ser aplicado à “disestesia etiópica”, outro diagnóstico que expli- cava a falta de motivação para o trabalho entre os negros escravizados (FREITAS et al., 2011). 1950/1960/1970 Durante o regime republicano acreditava-se que, com a “abolição” da escravatura, os quilombos desapareceriam por terem perdido sua finalidade (ALMEIDA, 2002). Assim, o quilombo estaria sempre associado à ideia de atraso e passado. A partir da década de 1950, a imagem do quilombo passou a ser associada à resistência cultural e ressignificação do modo de vida africano. Na década de 1960, por um lado era romantizado, fundamentado nas ideias de igualdade e liberdade, e por outro associado a concepções comunistas e revolucionárias. Na década de 1970, o quilombo é tomado como imagem da reivindicação pela redemocratização do país e Zumbi e os quilombolas de Palmares, uma metáfora de enfrentamento contra a ditadura (FIABANI, 2008). Em 1988, cem anos após a abolição, a nova constituição traz consigo a disposição de reparação histórica pelos prejuízos gerados através da escravidão e por uma abolição que não veio acompanhada de medidas de inclusão e acesso a direitos (BRASIL, 2018). EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 114 1988 Constituição Federal de 1988 Somente após cem anos da abolição da escravatura os povos e as comunidades quilombolas são reconhecidas como formadoras da sociedade brasileira. Em seu Artigo 68, o texto da constituinte traz, para além de uma identidade histórica, a ex- pansão das políticas de reconhecimento, defesa e reparação de prejuízos gerados com os processos de escravidão e abolição longe de serem completados. Artigos 215 e 216 da Constituição Federal – Direito à preservação de sua própria cultura. Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) – Direito à propriedade das terras de comunidades remanescentes de quilombos. 2003 Decreto nº 4.887, de 20 novembro de 2003 – Trata da regularização fundiária de terras de quilombos e define as responsabilidades dos órgãos governamentais. Dá um importante passo rumo à efetivação da Constituição de 1988, que em seu artigo 2º define remanescentes de quilombos como: Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de rela- ções territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida (BRASIL, 2003). Partindo dessa concepção, a proposta se esquiva de definições históricas stricto sensu e comporta o alargamen- to crítico apresentado pela Antropologia e pela Convenção 169 da Organização In- ternacional do Trabalho (OIT). Ratificada pelo Brasil em 2002, a Convenção defende em seu artigo 1º que “a consciência de sua identidade indígena ou tribal deverá ser considerada como critério fundamental para determinar os grupos aos que se aplicam as disposições da presente Convenção” (OIT, 1989, p.2). 2004 Convenção 169 da OIT (Dec. 5051/2004)– Direito à autodeterminação de povos e comunidades tradicionais. 115 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 2007 Decreto nº 6040, de 7 de fevereiro de 2007 - Institui a Política Nacional de Desen- volvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Decreto nº 6261, de 20 de novembro de 2007 – Dispõe sobre a gestão integrada para o desenvolvimento da Agenda Social Quilombola no âmbito do Programa Bra- sil Quilombola. Portaria Fundação Cultural Palmares nº 98 de 26 de novembro de 2007 - Institui o Cadastro Geral de Remanescentes das Comunidades dos Quilombos da Funda- ção Cultural Palmares, também autodenominadas Terras de Preto, Comunidades Negras, Mocambos, Quilombos, dentre outras denominações congêneres. 2009 Instrução Normativa INCRA nº 57, de 20 de outubro de 2009 – Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação, de- sintrusão, titulação e registro das terras ocupadas por remanescentes das comuni- dades dos quilombos. O desenvolvimento de ações de promoção à saúde é um dos serviços e também está relacionado ao reconhecimento étnico-racial, ao acolhimento e respeito à di- versidade religiosa, acolhimento e respeito à diversidade sexual, estratégias que contribuam para a promoção da convivência pacífica e respeitosa e atividades que fortaleçamvínculos familiares e comunitários (BRASIL, 2020). Essas ações de promoção à saúde dialogam diretamente com as diretrizes da Po- lítica Nacional de Saúde Integral da População Negra, criada para enfrentar o racismo institucional e promover a equidade no acesso e na qualidade da atenção à saúde. Essa política tem como premissa o reconhecimento de que o racismo in- terfere na determinação social das desigualdades que afetam de forma direta a saúde da população negra no Brasil. Suas diretrizes propõem ações específicas no campo da gestão, da formação de profissionais, da produção de dados, do cuidado e da participação social (BRASIL, 2013). Entre os pontos mais importantes da PNSIPN está a obrigatoriedade do registro do quesito raça/cor nos sistemas de informação em saúde, com base na autode- claração dos usuários. Esse dado é fundamental para identificar iniquidades, mo- nitorar indicadores e orientar políticas públicas mais justas e efetivas. A PNSIPN EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 116 também reforça a importância da formação permanente dos profissionais de saúde, de modo que reconheçam o impacto do racismo na vida e na saúde das pessoas negras e atuem com responsabilidade e sensibilidade cultural. Mais do que um conjunto de diretrizes técnicas, a PNSIPN representa um avanço no reconhecimen- to das especificidades da população negra e no compromisso com a justiça social e racial no SUS. A obrigatoriedade do registro do quesito raça/cor, portanto, não é apenas uma di- retriz da PNSIPN, mas uma exigência normativa que visa garantir a produção de dados confiáveis e orientados pela autodeclaração. De acordo com a Portaria nº 344, de 1º de fevereiro de 2017, cabe aos profissionais atuantes nos serviços de saúde preencher este quesito nos sistemas de informação em saúde, de forma a respeitar o critério de autodeclaração de cada pessoa que busca o atendimento, dentro dos padrões utilizados pelo IBGE – branca, preta, amarela, parda ou indí- gena. Os usuários devem ser orientados pelos profissionais quanto ao método de classificação utilizado pelo IBGE e respeitados diante de sua autodeclaração para que a produção dos dados seja fidedigna (BRASIL, 2018). Há de se considerar que a maior dificuldade para as equipes de saúde está em ofe- recer um cuidado que reconheça e considere as diversas crenças e tradições – muitos grupos se utilizam de práticas específicas relacionadas a sua identidade ou cultura, como o uso de plantas consideradas medicinais, muitas vezes desconhe- cidas pelos profissionais de saúde. O racismo, somado às difíceis condições de moradia, conflitos agrários e falta de políticas públicas eficientes tem sido aponta- do frequentemente como causa do alto índice de alcoolismo e tabagismo entre esses povos (BRASIL, 2018). Nesse sentido, o princípio da equidade direciona as políticas de saúde, reconhe- cendo as demandas de grupos específicos e atuando para reduzir o impacto dos determinantes sociais da saúde aos quais estão submetidos (BRASIL, 2018). Quer ouvir de quem vive? Depois de conhecer os marcos históricos, sociais e políticos que estrutu- ram a saúde das comunidades quilombolas, convidamos você a escutar uma voz que fala a partir do território, da memória e da resistência. No podcast “Saúde Quilombola em Foco”, você vai acompanhar um Importante reafirmar que as informações com os dados desa- gregados por raça/cor são relevantes para atender ao princípio da equidade do SUS, ao reconhecer as diferenças nas condições de vida e saúde das pessoas, oferecendo atendimento de acordo com suas necessidades (BRASIL, 2018). 117 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Fonte: SANTANA, 2008 |Acervo Fiocruz Imagens. Essa filosofia de vida reconhece a capacidade limitada do planeta e a necessidade de consumir de maneira consciente. Entende que estamos todos interligados, e ques- tiona o atual modelo de desenvol- vimento às custas da degradação ambiental e humana. diálogo sensível com uma jovem quilombola que compartilha sua traje- tória e sua visão sobre o cuidado em saúde com respeito à ancestralida- de, à diversidade cultural e ao direito ao bem-viver. Acesse o conteúdo online do módulo no moodle para escutar o podcast! 3.5 BEM VIVER, INTERMEDICALIDADE E PENSAMENTO DECOLONIAL Os povos indígenas demonstram um sentimento de profundo pertencimento à terra dos seus ancestrais. No mundo existem aproximadamente 302,45 milhões de indígenas, que ocupam cerca de apenas 20% das terras do planeta e, no entanto, são guardiões de 80% da sua biodiversidade (ONU, 2017). Os povos tradicionais possuem uma visão de mundo distinta do pensamento co- lonizador ocidental/neoliberal. Sumak Kawsay é um paradigma de origem quéchua que significa Bem Viver. Esse paradigma nos convida a enxergar um passado pré- -colonial de harmonia com o cosmos, a natureza e a humanidade. Mas esse passado histórico, por vezes idealizado e mítico, não está estagnado, serve de combustível para as transformações do futuro possível. Essa filosofia se opõe à lógica utilitaris- ta dos recursos da natureza e ao acúmulo de riquezas (ALCANTARA; SAMPAIO, 2017). Quando o Estado finalmente se aproximou das comunidades tradicionais para ofe- recer serviços de saúde, fez isso de maneira violenta, por desconsiderar a cultura e os saberes milenares daqueles povos. As “pílulas mágicas” que tiravam a dor anu- laram a necessidade de rituais de cura que envolviam a família, a sociedade, a na- tureza e a significação do processo pelo indivíduo. O sistema de saúde chegou às aldeias e comunidades tradicionais expropriando as pessoas da autonomia sobre EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 118 seus corpos. Do direito de escolher nascer, parir e morrer no seu território. E, ao deslegitimar parteiras, rezadeiras, pajés e xamãs, a medicina ocidental serviu como mais uma ferramenta de extermínio desses povos. Outra diferença significativa entre os dois sistemas é que, enquanto a medicina ocidental se propõe a debater fisiopatologia, bactéria, doença, a “parte” doente do corpo, o “como” aquele corpo adoece,as medicinas milenares – Ayurveda, Medici- na Tradicional Chinesa, Medicina Tradicional Indígena – enxerga o indivíduo por inteiro, na sua complexidade, dentro da sua biografia, junto àquela comunidade, naquele ambiente. Se propõe a ajudar a pessoa a responder questões como: “por que adoeci?”, “por que nesse momento da vida eu adoeci?”, “qual o significado posso encontrar ou atribuir para esse sofrimento?”. Nesse sentido,o método clínico centrado na pessoa (MCCP) e a competência cultural podem ser vistas como pontes possíveis entre esses sistemas de cura. 119 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Encerramento da unidade Parabéns, querido profissional estudante! Concluímos a última unidade deste módulo, conhecendo a situação dos povos indígenas e quilombolas no Brasil hoje, com relação a seus indicadores de saúde e demarcação de suas terras. Também aprendemos sobre a luta desses povos na história para terem seus direitos à terra e saúde reconhecidos, entendendo que estão fundamentalmente relacionados. Conhecemos o SASI-SUS e sua organização na oferta de cuidados primários aos povos indígenas e a articulação com a rede SUS para acesso a serviços terciários. Além disso, conversamos sobre como o Estado exerceu um papel deletério às po- pulações indígenas e quilombolas, sobre a importância do respeito e reconheci- mento do sistema de cura de outros povos. Por fim, consideramos a importância da competência cultural e do método clínico centrado na pessoa como uma ferra- menta para comunicação efetiva no encontro clínico, resultando em um cuidado satisfatório. Esperamos que esse aprendizadoe essas reflexões sejam úteis a você no dia a dia com sua equipe de saúde da família. E que os conhecimentos adquiridos aqui con- tribuam para o aumento da sua empatia e façam você enxergar essas pessoas de maneira mais integral, ainda que fora de seus territórios de origem. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 120 Encerramento do módulo Parabéns, chegamos ao fim do módulo de atenção à saúde das populações do campo, das florestas e das águas e populações tradicionais! Durante este módulo, você se aproximou da realidade de algumas populações tra- dicionais e de suas histórias de luta por acesso a cuidados de saúde. Ampliou o seu olhar sobre os determinantes sociais de saúde e os impactos de danos ambientais à saúde dessas pessoas. Conheceu os principais agravos relacionados a seu modo de vida e seus manejos. Refletiu sobre sua própria cultura e de que maneira ela impacta no cuidado do outro, e sobre a existência de outros sistemas de cura. Desejamos que o conhecimento adquirido aqui sobre essas populações, associa- dos ao desenvolvimento de um olhar sensível à especificidade culturais, possam te auxiliar na realização de um cuidado integral, culturalmente seguro e resolutivo, independente do cenário cultural em que você esteja inserido! Boa sorte! 121 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Referências ABRAMOVAY, R. Do setor ao território: funções e medidas da ruralidade no desenvolvimento contemporâneo. Primeiro Relatório de Pesquisa, São Paulo, inédito, 1999. AFS INTERCULTURAL PROGRAMS. Intercultural link, v. 1, n. 6, set./out. 2010. Nova York (NY): AFS Intercultural Programs, 2010. Disponível em: https://issuu. com/afsinterculturalprograms/docs/afs_intercultural_link_v1_i6_global. Acesso em: 1 dez. 2021. 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Z.; MUNOZ, Á. C. Una Aproximación al Concepto Comunidad Rural en Psicología Comunitaria. Rev. psicol. polít., São Paulo, v. 16, n. 37, p. 367- 377, dez. 2016. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1519-549X2016000300009&lng=pt&nrm=iso .Acesso em: 30 ago. 2021. AUSTRALIAN INSTITUTE OF HEALTH AND WELFARE. Rural & remote health. AIHW, Australian Government, 2019. Disponível em: https://www.aihw.gov.au/ reports/rural-health/rural-remote-health/contents/rural-health. Acesso em: 6 jan. 2022. AVDD. Three Araweté children in Brazil, 2005, photo by Avidd.1 fotografia color. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arawete_children_Brazil. jpg. Acesso em 10 de mai. 2022. BAHIA. Secretaria da Saúde do Estado. Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde. Diretoria de Vigilância e Atenção à Saúde do Trabalhador. Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador. 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No Brasil, a definição de rural comumente utilizada era a de “não urbano”, feita por meio de um critério de exclusão. É considerada urbana pelo Código Tributário Nacional uma localidade que possui pelo menos duas dessas características: meio-fio ou calça- mento com canalização de água pluvial; abastecimento d’água; sistema de esgotos sanitários; rede de iluminação pública, com ou sem posteamento para distribuição domiciliar; instituição de ensino ou posto de saúde a uma distância máxima de três quilômetros do imóvel (PINHEIRO, 2017). Essa definição desconsiderava as espe- cificidades das comunidades, como cultura e facilidade de acesso a serviços. Além do risco de superestimar a população urbana, deixar a definição de ruralida- de a critério dos municípios poderia implicar em sérios “conflitos de interesses” principalmente relacionados à questão tributária, uma vez que o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) é recolhido pelo município e o recolhimento do Imposto 15 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) é feito pela União. A questão é que essa definição repercute de maneira importante na vida dessas populações, uma vez que o conceito de ruralidade vai influenciar no financiamento de serviços e na cons- trução de políticas públicas (TARGA, 2019) Em relação à saúde, o conceito de rural deve ser amplo o suficiente para envolver as diferentes realidades dos profissionais e da população brasileira. Deve estar suficientemente livre de limites rígidos de dados populacionais, geográficos, num sentido restrito (físico) e político. Deve ainda estar relacionado a características do sistema de saúde, da prática dos profissionais de saúde e das características de saúde das comunidades específicas. (...) A saúde rural pode incluir as populações de áreas tradicionalmente reconhecidas como rurais, mas também comunidades ribeirinhas; áreas indígenas; populações quilombolas, de pescadores, mineradores, de alguns trabalhadores temporários; migrantes; áreas remotas e locais de difícil acesso, mesmo dentro de grandes cidades, como favelas, áreas rurais incrustadas, municípios muito pequenos etc. (ANDO et al., 2011). O Grupo de Trabalho em Medicina Rural da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), atento às especificidades das áreas rurais e considerando que nesses cenários as distâncias reais costumam ser acentuadas pelas barreiras burocráticas, definiu em 2011 que: 21 Essa definição dialoga amplamente com Política Nacional de Saúde Integral dos Povos do Campo, Águas e Floresta (PNSIPCF), publicada em 2011, fruto da luta desses povos por direito e acesso à saúde conforme os princípios fundamentais do SUS: universalidade, integralidade e equidade (BRASIL, 2011). Por meio dessa definição é possível entender que um município considerado “urbano” pode abrigar diferentes cenários rurais. Para que possamos visualizar melhor essa discussão, vamos visitar o município de Ipixuna (AM). EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 16 Figura 01 – Mapa da Região Norte evidenciando as distâncias entre Ipixuna (AM), Manaus (AM) e Cruzeiro do Sul (AC). Fonte: GOOGLE. Dados Cartográficos do Google Maps. 2022. Imagine que você foi selecionado para atuar neste município e que para chegar lá é necessário viajar de Cruzeiro do Sul (AC) em um avião bimotor sobrevoando a floresta amazônica durante uma hora ou ir de barco por duas horas a favor do Rio Juruá. Em Ipixuna, você é um dos cinco médicos que atuam na atenção primária e está lotado na Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Tefé, responsável pelo cuidado do povo Kulina. Como você pode ver no mapa, Ipixuna está há 1.368km em linha reta da capital Manaus. Se considerar a via fluvial, normalmente utilizada pela população local, a distância passa para impressionantes 4.618km. O município não possui indústria, há atividades como comércio local, extrativismo e produção de insumos (marce- naria, principalmente), agricultura familiar (para consumo próprio principalmente, devido à dificuldade para escoar a produção) e pecuária (para suprir as necessida- des da comunidade local). No entanto, mesmo assim, a maioria dos insumos vem de Cruzeiro do Sul (AC) por meio de embarcações. O acondicionamento dos ali- mentos, principalmente laticínios, pode ser considerado inadequado na maioria das embarcações, uma vez que grande parte delas não possui refrigerador – o que pode impactar diretamente na saúde da população local. Cruzeiro do Sul (AC) também é referência para atenção secundária à saúde, apesar de Ipixuna ser mu- Manaus a Ipixuna: 1368km (linha reta) Cruzeiro do Sul a Ipixuna: 126km (linha reta) 17 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais nicípio do Amazonas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município tem aproximadamente 28.000 habitantes. Em sua área“urbana”se concentram o co- mércio, as escolas, os dispositivos sociais e de saúde, bem como a maior parte da população – aproximadamente 20.000 pessoas. Na outra margem do rio, vivem os ribeirinhos (6.000 pessoas) e o povo indígena Kulina (1.200 pessoas). A população indígena em sua maioria não fala português e não apresenta boa relação com os munícipes. Já os ribeirinhos precisam deslocar-se horas ou até mesmo dias, a de- pender do rio, para chegar à sede do município. 1.1.3 QUAIS OS CRITÉRIOS UTILIZADOS HOJE NO BRASIL PARA DEFINIR UM MUNICÍPIO COMO RURAL OU URBANO? Quando utilizamos como critério de ruralidade o número de habitantes menor que 50 mil e a densidade demográfica menor que 80 hab/km² descobrimos que 80% dos municípios brasileiros e 30% da população nacional podem ser considerados rurais (TARGA, 2019). Isso é o dobro do que nos traziam as estatísticas do IBGE quando utilizava o critério de “não urbano”. Assim, desconstruindo a ideia antagônica de rural versus urbano, em 2017 o IBGE reviu seus critérios para caracterização dos espaços rural e urbano no país. Essa nova classificação utiliza três critérios: o tamanho da população, a densidade de- mográfica e a localização em relação a centros urbanos. Da combinação dessas va- riáveis, propuseram-se três categorias de zonas rurais (KAGEYAMA, 2004): Zona economicamente integrada: zonas rurais prósperas, geral- mente próximas de um centro urbano ao qual se integram por uma rede de comunicações bem desenvolvida, combinando as melhores vantagens da vida no campo e na cidade, e aproveitando econo- mias de escala e de aglomeração, com demanda e oferta diversifica- das de emprego. Zona rural intermediária: são zonas tradicionalmente desen- volvidas com base num setor agrícola próspero e nas atividades a ele associadas; são geralmente afastadas de centros urbanos, mas com infraestrutura de transporte suficiente para ter acesso a eles; são zonas em processo de integração econômica. Zona rural isolada/remota: possuem uma população dispersa e localizam-se em aéreas periféricas bem afastadas de centros urba- nos; a infraestrutura e os serviços locais são precários, a produção é tradicional (agricultura e pequeno artesanato local). EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 18 1.1.4 QUAL O CENÁRIO DA SAÚDE RURAL? (O CAMPO E DETERMINAN- TES SOCIAIS DE SAÚDE) Apesar de a ruralidade não ser sinônimo de atraso e de pobreza (WANDERLEY,2000), é necessário observar que 70% das pessoas que vivem no mundo em situação de extrema pobreza são populações minorizadas como agricultores de subsistência, pastores, artesãos, pescadores, trabalhadoreshttps://doi.org/10.5205/1981-8963-v12i4a110258p1037-1045-2018. Acesso em: 2 jan. 2022. CARNEIRO, F. F. et al. Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. [S.l.]: EPSJV/Expressão Popular, 2015. Disponível em: https://abrasco.org.br/download/dossie-abrasco-um-alerta-sobre-os-impactos- dos-agrotoxicos-na-saude/. Acesso em: 1 dez. 2021. CARVALHO, Roberta Monique Amâncio; DA COSTA LIMA, Gustavo Ferreira. Comunidades quilombolas, territorialidade e legislação no Brasil: uma análise histórica. REVISTA DE CIÊNCIAS SOCIAIS-POLÍTICA & TRABALHO, 2013. CARRANÇA T. 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É precepto- ra do programa de residência em MFC da Secretaria de Saúde do Recife e tutora de medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde. Mestre em Educação para Ensino na Área de Saúde pela Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS,2015), e graduação em Medicina (2012) pela mesma Instituição. Em 2013 trabalhou como médica integrante da Equipe Multiprofissional de Saúde Indígena da etnia Xukuru de Ororubá, Pesqueira- PE. Concluiu a residência em MFC pela SESAU Recife em 2016. Foi professora do Módulo de Intervenções Clínicas do curso de pós-gradua- ção em Saúde Indígena do Centro Universitário CESMAC, em Alagoas. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/7011084856822806 BRUNO HENRIQUE SOARES PESSOA Médico de Família e Comunidade. Mestre em Saúde da Família pela UFRN (RN), Re- sidência médica em Medicina de Família e Comunidade pela Secretaria de Saúde do Recife (PE), graduação em medicina pela Universidade Potiguar (RN) Atualmen- te atua como médico assistente e preceptor da graduação e da residência médica na Estratégia de Saúde da Família do Recife. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/9168048910786597 ANDREIA BEATRIZ SILVA DOS SANTOS Mulher preta. Médica Especialista em Medicina de Família e Comunidade pela So- ciedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Mestra e Doutoranda em Saúde Coletiva. Atuou com médica na Penitenciária Lemos Brito/BA 2007-2023). Pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Desigualdades em Saúde (NUDES) da Universidade Estadual de Feira de Santana. Docente e Preceptora do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Publica. Atualmente compõe a Equipe de Avaliação e Acom- panhamento das Medidas Terapêuticas Aplicáveis à Pessoa com Transtorno Mental em Conflito com a Lei (EAP-Desinsti) na Secretaria de Saúde do Estado da Bahia. Autora dos livros Olhar por entre grades, vidas em poemas (2020) e Tempo em mim (2023), Teorias e Sentidos em uma Prática Abolicionista (2024). Co-diretora do documentário Genocídio e Movimentos (Produtora Couro de Rato, 2021). Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/4323743557774388 http://lattes.cnpq.br/4323743557774388 139 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais LARISSA SOARES SILVA Mulher Preta, Quilombola da comunidade do Alto do Cruzeiro, localizada em Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA). Bacharela em Saúde pela Universida- de Federal da Bahia (UFBA) e atualmente graduanda em Medicina.Coordenadora- -geral do Coletivo de Estudantes Quilombolas da UFBA (CODEQUI), espaço de arti- culação política e acadêmica voltado à valorização das identidades quilombolas dentro da universidade. Coordenadora do Projeto IRETI, uma iniciativa voltada ao desenvolvimento comunitário e à promoção da saúde e da cidadania na comuni- dade quilombola onde reside. Sua atuação une saberes acadêmicos e ancestrais, reafirmando o protagonismo quilombola nos espaços de formação e transforma- ção social. Endereço do currículo na plataforma lattes http://lattes.cnpq.br/3591856054865144 http://lattes.cnpq.br/3591856054865144 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 140 Programa Mais Médicos para o Brasil EIXO 5 |CUIDADO A GRUPOS POPULACIONAIS ESPECÍFICOS E SITUAÇÕES ESPECIAIS II REALIZAÇÃO Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e populações tradicionais MÓDULO 25 2ª edição Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG _Hlk95228440 _Hlk95228002 _GoBack _Hlk95225553 _Hlk95222784 _Hlk95232173 _Hlk95227211 _Hlk95227502 _Hlk95225427 _Hlk95228072migrantes, indígenas e quilombolas (SACHS, 2005). Em geral, pessoas que moram em áreas rurais apresentam pior au- toavaliação da saúde e estão mais vulneráveis a agravos específicos. (AUSTRALIAN INSTITUTE OF HEALTH AND WELFARE, 2019). Há uma elevada morbidade geral e uma expectativa de vida mais baixa quando comparada a áreas urbanas. Crianças que vivem nessas regiões, em países em de- senvolvimento, apresentam uma pior situação nutricional. No campo ainda é pre- cário o acesso à água potável e saneamento. Até mesmo em países que apresen- tam maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), como Estados Unidos e Canadá, a esperança de vida da população diminui à medida que as pessoas se afastam dos grandes centros, independente das condições socioeconômicas. Há evidência de que a ruralidade também pode ser fator de mau prognóstico para desfechos de problemas agudos devido a dificuldade de acessar serviços de saúde. No Brasil, a população rural apresenta as maiores taxas de mortalidade infantil e analfabetismo. A vulnerabilidade dessas pessoas é ainda maior quando não têm o direito à terra garantido, tornando-se vítimas de conflitos violentos. Apesar da Lei da Reforma Agrária ser um direito garantido pela constituição de 1988, a desi- gualdade na distribuição de terras permanece inalterada. As propriedades com até 10 hectares ocupam menos de 2,3% da área rural total, enquanto aquelas com mais de 1.000 hectares representam cerca de 45% da área rural total (OXFAM BRASIL, 2019; GOUVEIA, 2015). A população do campo é mais acometida por tuberculose, esquistossomose e tétano acidental (TARGA, 2019). Algumas doenças que acometem populações rurais estão diretamente relacionadas a regiões de campo e floresta, como a malária, a febre amarela, a doença de Chagas e a leishmaniose cutânea e visceral. Outros agravos relacionados ao trabalho, entre eles a silicose, intoxicação por agrotóxico e metais pesados merecem destaque. Trabalhadores rurais também apresentam alta prevalência de doenças os- teomusculares relaciona- das à sobrecarga de traba- lho braçal. E, além da violência relacionada a con- flitos pela posse de terra, é também elevado o número Fonte: Freepik.com 19 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais de casos de violência doméstica e sexual, principalmente contra a mulher (GOUVEIA, 2015). Sendo assim, fica evidente a importância de políticas públicas específicas como a PNSIPCF para melhorar o estado de saúde dessas pessoas por meio do acesso a serviços de saúde e profissionais de saúde qualificados. 1.1.5 COMO DEVE SER UM MÉDICO RURAL? O fato de existirem mais médicos onde certas moléstias se tornaram raras tem pouco a ver com a capacidade destes de tratá-las ou de eliminá-las. À primeira vista, isso significa simplesmente que os médicos se instalam segundo suas in- clinações e que têm a tendência de se concentrarem onde o clima é sadio, a água pura e as pessoas trabalham e podem pagar seus serviços (ILLICH, 1975, p.18). Você já ouviu falar na Lei dos Cuidados Inversos? É um princípio proposto por Julian Tudor Hart, médico de família inglês, em 1971. Ele observou que a oferta de servi- ços sociais e de saúde de qualidade é inversamente proporcional à necessidade de uma população. Essa lei opera mais intensamente nas sociedades em que esse setor está mais exposto às forças do mercado. Por isso se faz necessária a existên- cia de políticas de saúde que considerem e priorizem ações e serviços de atenção primária voltados para populações com elevada vulnerabilidade social, de modo a reduzir as iniquidades em saúde (HART, 1971). No Brasil, há uma média de 2,27 médicos por mil habitantes. As regiões Norte e Nordeste têm os piores indicadores (1,3 e 1,69, respectivamente), estando todos os seus 16 estados abaixo da média nacional. Quando se trata de interiorização, as iniquidades são colossais: no conjunto das capitais, há 5,65 médicos por mil ha- bitantes, enquanto nas cidades do interior a taxa é de 1,49 médico por mil habi- tantes (SCHEFFER, 2018). Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), em todo o mundo, aproximadamente 50% da população vive em áreas rurais, mas menos de 25% dos médicos (e menos que 38% dos enfermeiros) trabalham nessas áreas. No Brasil não é dife- rente: o cenário de má distribuição de médicos, tanto entre as regiões do país quanto em áreas rurais, persiste apesar dos re- centes esforços em combatê-los (ANDO et al., 2011). EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 20 Figura 02 - Distribuição de médicos segundo capitais, municípios do interior e grandes regiões- Brasil, 2020. Fonte: Scheffer et al. (2020). Norte 2,94 0,54 Nordeste 5,30 0,67 Nordeste 6,15 2,15 Sul 8,35 1,81 Centro - Oeste (%) 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Médicos Capital e Interior Nota: nesta análise foi usada o número de registros de médicos (inscrições nos CRMs) e 0,41% desses registros estavam sem endereço ou com endereço desatualizado. Capital e Interior Capital e Interior População Médico/habitante 5,44 1,14 21 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Confira a seguir os fatores relacionados a decisão das pessoas de se mudarem ou permanecerem em uma área rural. Decisão de mudar, permanecer ou deixar a área rural Origem da pessoa e valores Pessoal Origem rural, valores e altruísmo. Família e comunidade Disponibilidade de escolas para as crianças, espírito comunitário, equipamentos comunitários disponíveis. Aspectos financeiros Benefícios, subsídios, salário e sistema de pagemento. Relacionado à carreira Acesso a oportunidade de educação continuada, supervisão, cursos de desenvolvimento profissional e altos postos profissionais nas áreas rurais. Condições de vida e trabalho Infraestrutura, ambiente de trabalho, acesso à tecnologia/medicamentos e condições de trabalho. Serviço obrigatório e restrito Obrigado a prestar serviço no local. Relacionado à carreira Aspectos econômicos Serviços obrigatório e restrito Aspectos familiares e comunitários Condições de vida e trabalho Pessoal Origem rural, valores e altruísmo. Família e comunidade Disponibilidade de escolas para as crian- ças, espírito comunitário, equipamentos comunitários disponíveis. Aspectos financeiros Benefícios, subsídios, salário e sistema de pagemento. Relacionado à carreira Acesso a oportunidade de educação continuada, supervisão, cursos de desen- volvimento profissional e altos postos pro- fissionais nas áreas rurais. Condições de vida e trabalho Infraestrutura, ambiente de trabalho, acesso à tecnologia/medicamentos e con- dições de trabalho. Serviço obrigatório e restrito Obrigado a prestar serviço no local. Fonte: adaptado de WHO (2010) e Gusso (2012). O desafio de atrair e reter profissionais de saúde em áreas rurais é uma realidade para todos os países, independente do seu nível de desenvolvimento socioeconô- mico, e muito se tem estudado a respeito. A OMS publicou um documento em 2011 evidenciando que a decisão de ir atuar em uma região rural, permanecer ou deixá- -la é multifatorial. Por isso, é necessária a construção de políticas públicas que ga- rantam criação de condições de trabalho em áreas rurais e remotas por meio de in- fraestrutura e insumos adequados, acesso à tecnologia (como internet e prontuário eletrônico), condições de vida digna para o profissional e sua família, com moradia e escola para as crianças. Além disso, são importantes os incentivos financeiros, o acesso à educação con tinuada, a supervisão, a possibilidade de exercer precepto- ria e manter-se ligado à aca demia. Apesar disso, os fatores mais relacionados à fixação dos médicos em áreas rurais são suas origens e valores e experiências exi- tosas em áreas rurais durante graduação ou residência médica (WHO, 2010).EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 22 1.2 COMPETÊNCIAS DE UM MÉDICO RURAL (O QUE O MÉDICO RURAL PRECISA SABER, FAZER E SER) Diante das características específicas de áreas rurais, enfatizando o isolamento ge- ográfico e cultural dos grandes centros, é desejável que médico rural, além de- monstrar proficiência em competências gerais da Medicina de Família e Comuni- dade (MFC), desenvolva algumas competências avançadas e específicas (TARGA, 2019). Uma competência, segundo Scott Parry (1996) é manifesta na forma de pensar, sentir e agir do indivíduo. Por isso, vamos apresentar a você os conheci- mentos, as habilidades e as atitudes esperados de um médico rural. Um estudo Delphi (metodologia qualitativa de coleta de opinião de um conjunto de especialistas de uma área) realizado no Brasil com experts em Medicina Rural (GOUVEIA, 2015), desenvolveu e validou as competências para médicos atuarem em áreas rurais, sendo as seis seguintes consideradas indispensáveis: 1. Demonstrar maior nível de perspicácia clínica para realizar diagnós- ticos em um cenário onde exames complementares são escassos e o acesso ao especialista é difícil. Para a discussão sobre essa competência vamos usar como exemplo a re- alização do diagnóstico diferencial de lesões dermatológicas, considerando a dificuldade de acesso a esses especialistas em áreas rurais (OLIVEIRA, 2010). Algumas doenças dermatológicas como câncer de pele, hanseníase, psorí- ase, dermatite de contato, dermatofitoses, mordedura de aranha e carra- pato e leishmaniose são mais comuns em cenários rurais. É importante que o médico rural tenha um bom conhecimento sobre os problemas mais pre- valentes na região e sobre as patologias em si, habilidades semiológicas e ferramentas clínicas que possam ajudá-lo no diagnóstico diferencial e manejo com segurança desses pacientes – como, por exemplo, no caso da hanse- níase, além da avaliação da sensibilidade de lesão, realizar o teste da hista- mina e a avaliação de grau de incapacidade. Ou, ainda, realizar curetagem da lesão quando houver suspeita para diagnóstico de psoríase – sinal da vela/orvalho sangrante. 23 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 2. Utilizar a tecnologia para comunicar-se e trocar informações, com propósito de educação continuada e matriciamento. Pensando ainda no diagnóstico diferencial de lesões dermatológicas, podemos sugerir o acesso ao atlas online https://www.pcds.org.uk/der- moscopic-assessment como a utilização de uma tecnologia para auxílio no diagnóstico diferencial de lesões de pele no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS). Esse atlas interativo permite a busca a partir do sítio de localização ou da característica da lesão. Além disso, existem ferramentas de teleconsultoria que podem auxiliar o médico rural em dúvidas clínicas em discussão de caso, como o serviço Telessaúde do Rio Grande do Sul com a possibilidade de avaliação/discussão com envio de imagens das lesões, além de plataformas de segunda opinião formativa como Dynamed®, como BMJ Best Practice® e UpToDate®, que auxiliam na tomada de decisão clínica,bem como as plataformas de educação continuada, como a UNA-SUS. Os casos complexos da APS podem ser resolvidos junto à equipe de especialistas do serviço de Telessaúde do Rio Grande do Sul pelo telefone: 0800-644-6453. O canal é gratuito para todos os profissionais da saúde de todo território brasileiro. Embora a internet de qualidade ainda seja um desafio em muitas áreas rurais, sua chegada em algumas regiões facilita a comunicação e cuidados por parte das equipes de saúde (MENDONÇA, 2009). Esse fato traz à tona a necessidade urgente da discussão da inclusão digital, uma vez que essas ferramentas tornam possível, por exemplo, manter contato com os agentes de saúde em áreas remotas, podendo tirar dúvidas, acompanhar evolução do tratamento prescrito por meio de imagens e dar orientações – em um contexto onde a equipe de saúde muitas vezes está presente naquela loca- lidade alguns poucos dias no mês. Por meio da internet também é possível se manter conectado com outros médicos rurais que vivenciam situações semelhantes e dissipar um pouco o isolamento antes imposto pelas distân- cias geográficas. https://www.pcds.org.uk/dermoscopic-assessment https://www.pcds.org.uk/dermoscopic-assessment EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 24 Um exemplo de comunidade de práticas é o Rural Café, que reúne médicos do mundo inteiro para debater temas relacionados à saúde rural. Você pode ter acesso a playlist dos encontros aqui. E também criar o seu próprio Rural Café! Confira o site do projeto: https://www.ruralseeds.net/projecto-1 Há também grupos de trabalho e interesse especial ligados a SBMFC, como em saúde rural, população negra e saúde indígena. Acesse o site da SBMFC: https://www.sbmfc.org.br/ grupos-de-trabalho-e-grupos-de-interesse-especial/ A pandemia de covid-19 acelerou a transformação da saúde para o mundo digital. Com uso de dispositivos para teleconsulta se tornou possível até re- alizar exame físico, diagnóstico e tratamentos de maneira remota. Pelo menos desde 2015 são utilizados dispositivos de manejo simples para rea- lizar ausculta cardíaca ou pulmonar, exame de orofaringe e otoscopia re- motamente em muitos países desenvolvidos (HALAMKA; CERRATO, 2020). Em Israel, EUA e Canadá, por exemplo, esse dispositivo é utilizado pelo próprio paciente ou familiares. Pensando no seu alto custo e adaptando à realidade do nosso sistema de saúde, seria possível deixar um dispositivo em vilas ou aldeias para serem manejados pelo Agente Indígena de Saúde (AIS) ou Agente Comunitário de Saúde (ACS) quando houvesse necessidade de uma teleconsulta sem possibilidade de deslocamento da equipe ou do médico – como ocorre em muitas áreas indígenas. 3. Realizar procedimentos necessários para atuar em um cenário onde o acesso ao especialista é difícil. Ainda considerando as lesões de pele como exemplo, saber realizar desbri- damento de feridas e ter conhecimento com relação ao uso de curativos pode aumentar a resolutividade de um médico no seu cuidado com pacien- tes com úlcera crônicas seja por hipertensão, diabetes mellitus, insuficiên- cia venosa ou hanseníase, em um contexto onde o acesso ao especialista em cirurgia vascular é difícil. 25 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais O médico rural necessita também de treinamentos regulares em determi- nadas situações que não são frequentes no seu dia a dia, mas de extrema importância como manejo de emergências clínicas (GERVAS; PEREZ; GYU- RICZA, 2011). Existe ainda uma discussão sobre a possibilidade de um terceiro ano de re- sidência opcional em MFC para o desenvolvimento de competências avan- çadas em medicina rural, que incluiriam utilização de aparelho de ultrasso- nografia (USG) portátil e procedimentos cirúrgicos como cesariana de urgência (TARGA, 2020). 4. Comunicar-se efetivamente com a pessoa doente, a comunidade e a equipe de saúde. Nos últimos 15 anos, o método clínico centrado na pessoa (MCCP) e a com- petência cultural têm se destacado como elementos necessários para a me- lhoria da qualidade dos cuidados prestados em saúde. No entanto, é impor- tante ressaltar que são ferramentas que se complementam. Apesar da indiscutível relevância da aplicação dos quatro componentes da MCCP no contexto rural (1. explorando a doença e a experiência dela; 2. entendendo a pessoa na totalidade; 3. elaborando plano conjunto de manejo dos pro- blemas; 4. intensificando o relacionamento entre o médico e o paciente) (MCWHINNEY, 2010), quando usado como ferramenta única ele não é sufi- ciente para a garantia de um cuidado seguro culturalmente. Priorizar o cuidado personalizado, como olhar voltado ao indivíduo e visando à quali- dade do cuidado para todos de maneira igualitária é uma característica da MCCP, enquanto a competência cultural visa à equidade no cuidado em saúde, tendo como principal foco as populações minorizadas (SAHA; BEACH; COOPER, 2018). Barbara Starfield define a competência cultural como o re- conhecimento das características culturais dos grupos sociais e de suas di- ferentes necessidades e concepções do processo saúde-doença. Por meio- dela é possível estabelecer vínculos fortes com as pessoas e famílias alvo de cuidados e, consequentemente, diagnósticos mais precisos, melhor adesão ao tratamento e melhor satisfação – tanto do profissional quanto do pacien- te (STARFIELD, 2002). Para além de comunicar-se com a pessoa doente, é desejável que o médico rural mantenha um bom diálogo com a comunidade por meio de reunião com os moradores e as lideranças locais, utilizando dispositivos sociais/cul- EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 26 turais do território para melhor compreensão dos principais problemas en- frentados por eles e como sua saúde e qualidade de vida estão sendo afe- tadas (COSTA et al., 2019). Por exemplo, em determinadas regiões é esperado encontrar uma grande carga de sofrimento e adoecimentos relacionados ao impacto dos ciclos climáticos, períodos de intensa estiagem que estão relacionados à insegurança alimentar. Figura 03 – Cenário durante a estiagem e após o período de chuva. Fonte: arquivo pessoal dos autores. * Durante o período de estiagem nessa região a demanda por psicotrópicos, principalmente benzo- diazepínicos, é maior. Pesqueira, 2013. Populações rurais que vivem em região de conflitos por terra, como a Terra Indígena (TI) Entre Serras e Pankararu (PE), também estão sujeitas à maior carga de sofrimento mental. Em 2019, por exemplo, esse povo teve suas roças e pomares destruídos e famílias ameaçadas de morte. Escolas foram queimadas e houve ameaça de envenenamento através do abastecimento de água potável da região. Não é possível discutir a saúde dos povos do campo sem levar em consideração o direito à terra e o vínculo estabelecido com ela (SBMFC, 2020). Ter uma visão integral dessas comunidades é fundamental no momento de planejar intervenções comunitárias em saúde seguras culturalmente, inte- gradas com os saberes das lideranças locais, evitando, por exemplo, o excesso de medicalização (ASTUDILLO; MUNOZ, 2016). 27 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais REFLEXÃO Não conseguir dormir, sentir-se angustiado, agressivo ou triste diante da insegurança alimentar e da insegurança quanto à própria integridade física ou da sua família é um problema de saúde mental ou uma reação normal diante de um contexto adoecedor? Os profissionais de saúde de áreas rurais costumam apresentar uma relação mais próxima entre si e com a gestão municipal, quando comparados aos que atuam em áreas urbanas. Isso pode estar relacionado à própria cultura local e também ao isolamento ao qual estão submetidos, bem como a um número restrito de profissionais nessas localidades. As potencialidades dessa proximidade podem ser muitas quando pensamos nos princípios da clínica ampliada, nas consultas compartilhadas e na elaboração do Plano Terapêu- tico Singular (PTS). Outra competência comum aos profissionais de saúde de áreas rurais é apresentar flexibilidade e disposição para trabalhar em equipe, de maneira participativa, por vezes assumindo um papel que em outro cenário seria exercido por outro profissional (GOUVEIA, 2015). 5. Prestar assistência domiciliar de maneira resolutiva, ética e compas- siva. O atendimento domiciliar, devido à distância e dificuldade de acesso aos pontos de atendimento ou unidade de saúde, são ainda mais frequentes no contexto rural. Por isso, é importante que o médico rural otimize a utiliza- ção desse espaço de cuidado também por meio das ferramentas que pode carregar em sua maleta. A imagem da maleta do médico é geralmente associada ao compromisso que o médico rural demonstra para com seus pacientes e ao seu esforço para vencer barreiras geográficas. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 28 REFLEXÃO Durante o planejamento dos atendimentos é importante não es- quecer de organizar a sua maleta! Quais ferramentas você esco- lheria levar? O que isso diz sobre você? No infográfico a seguir é possível consultar a relação de materiais diversos, os medicamentos de urgência e os materiais essenciais ao tratamento e diagnóstico das populações residentes no contexto rural. Material diverso Caneta (ou similar) Doces Creme para as mãos Manual de emergência Receituário Impressos diversos (ambulância, emergência, encaminhamento, etc.) Relógio (com ponteiro de segundos) Carimbo Creme de vaselina Água Protetor Solar Medicamentos para urgência AAS (comprimidos, por via oral ou intravesosa) Acetilcisteína (oral ou intravenosa) Adenosina (intravenosa) Adrenalina (intramuscular ou intravenosa) Alprazolam (oral) Amiodarona (intravenosa) Atropina (intravenosa) Bicarbonato de sódio (intravenosa) Budesonida (aerossol) Biperideno (intramuscular ou intravenosa) Captopril (comprimidos, por via oral) Colírio anestésico (tópico) Clorpromazina (intramuscular ou intravenosa) Dexclorfeniramina (oral ou intravenosa) Dexametasona (comprimidos, por via oral, além da via intravenosa) Diazepam (para via retal além da via intravenosa) Diclofenaco (intramuscular ou oral) 29 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Digoxina (oral ou intravenosa) Dimenidrato (oral ou intravenosa) Escopolamina (intramuscular ou intravenosa) Etílico cloreto (aerossol, tópica) Fenitoína (intravenosa) Fentanil (intravenosa) Fitomenadiona (intramuscular) Flumazenil (intravenosa) Furosemida (intravenosa) Glucagon (intramuscular) Glicose hipertônica (intravenosa) Haloperidol (intramuscular) Hidrocortisona (intravenosa) Insulina de ação rápida (subcutânea ou intravenosa) Lidocaína (creme para uso externo, além da via intravenosa) Mepivacaína (tópica) Metamizol (intramuscular ou intravenosa) Metilprednisolona (intravenosa) Metoclopramida (intravenosa) Midazolam (intravenosa) Morfina (intravenosa) Naloxona (nasal, intramuscular ou intravenosa) Nitroglicerina, (comprimidos e/ou sublingual spray) Penicilina G sódica (intravenosa) Piridoxina (intravenosa) Povidinaiodo (solução antiséptica para uso externo) Ranitidina (intravenosa) Salbutamol (aerossol) Sulfadiazina de prata (creme para uso externo) Sulpirida (oral ou intravenosa) Teofilina (oral ou intravenosa) Tiamina (intramuscular ou intravenosa) Tramadol (oral, intramuscular ou intravenosa) Verapamil (intravenosa) Material para tratamento Agulhas (vários tamanhos) Elástico para torniquete Clipes Esparadrapo Compressa estéreis descartáveis Gaze Vaselina Luvas de látex descartáveis Fio para sutura (vários tamanhos, absorvíveis e não absorvíveis) Lâminas de bisturi estéreis e des- cartáveis (para cirurgia e remoção de pontos) Ímã em fio de nylon ocular Seringas descartáveis (diversos tamanhos e de insulina) Isqueiro Cola de cianoacrilato (Superbon- der® ou similar) Pinças de dissecação Pinça dente de rato EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 30 Material para diagnóstico Fita métrica Espátulas Diapasão Espelho para laringoscopia indireta Espelho para visualização de áreas inacessíveis do corpo Estetoscópio (adulto e pediátrico) Esfigmomanômetro Lanterna Martelo de reflexo Medidor de glicemia capilar Otoscópio Oftalmoscópio Oxímetro de pulso Régua milimetrada Termômetro Tiras de fluoresceínaTiras de teste de urina Fonte: adaptado de Gervas e Perez (2009). • 1. O ímã ocular para a extração de corpos estranhos metálicos na córnea e esclera (após anestesia com colírio em menores de 50 anos). • 2. O isqueiro, que aquece a ponta do clipe para furar a unha e permitir a evacuação de hematoma subungueal. • 3. A cola de cianoacrilato (Superbonder® ou similar), para suturar feridas sem pontos em feridas que ocorreram em locais sem flexão e extensão. • 4. Tiras de fluoresceína para determinar a presença de úlceras de córnea (que curam bem sem o fechamento dos olhos). • 5. Régua milimetrada e espelho, permitindo o monitoramento de úlceras sacrais. • 6. Itens como doces e creme para as mãos são justificados para ajudar a “sobreviver”, por exemplo, a uma jornada extenuante (para evitar a hipo- glicemia) ou a pele seca por lavar as mãos excessivamente (depois de cada visita ao paciente). Pinças mosquito (retas e curvas, com e sem dentes) Pinça de Pean Porta agulha Pontos de aproximação Tentacânula Tesouras de dissecação (retas e curvas) Tubos de Guedel (adulto e pediátrico) Faixa para tamponamento nasal 31 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Essa maleta deve ser adaptada de acordo com os avanços tecnológicos, a realidade local e a formação técnica do médico. No contexto rural do Brasil é importante ressaltar que, por vezes, os atendimentos são realizados em “postos avançados” e nem sempre em unidades de saúde estruturadas. Assim, é comum que a equipe planeje com antecedência que outros mate- riais serão necessários para os atendimentos, como material para realiza- ção de exame colpocitológico (Papanicolaou), testes rápidos, teste portátil DNA para tuberculose, medicações gerais para dispensação, vacinas e às vezes até mesmo macas. É importante que o médico rural possa oferecer às pessoas uma variedade de serviços para resolução de problemas, que vão desde a escuta e o aconselhamento até a prescrição de medicamentos e a realização de procedimentos, como aqueles que destacados anteriormente. 6. Planejar o atendimento, visando atender a demanda, de maneira efe- tiva e equitativa, considerando dificuldades e desafios particulares do contexto geográfico, cultural e socioeconômico dos pacientes rurais. É interessante que, sempre que possível, a agenda do médico rural seja bem flexível, sem fechar para atendimentos programáticos como puericultura, pré-natal ou exclusivamente para pessoas com diabetes ou hipertensão – principalmente no caso de atendimentos volantes. Deve haver sempre espaço para demandas do dia e possíveis urgências, diminuindo ao máximo possí- veis barreiras burocráticas para o atendimento (TARGA, 2019). Para o planejamento das ações de saúde destacamos a importância da ter- ritorialização e do diagnóstico situacional. Em áreas rurais, como citado an- teriormente, os atendimentos podem ser volantes devido à grande exten- são dos territórios, o que dificulta a oferta de acesso e a longitudinalidade do cuidado (DE PAULA et al., 2015). Sempre tenha em mente que o territó- rio vai além do espaço geográfico (extensão, delimitação, rios, vales, mon- tanhas, áreas sujeitas a queda de barreira ou enchentes, regiões que ficam inacessíveis durante a época de chuvas ou estiagem, cujo entendimento é de extrema relevância no contexto rural) e também remete aos determi- nantes sociais de saúde (se há rede de esgoto, fossas sépticas, qual qua- lidade da água e dos alimentos consumidos, nível de escolaridade) e à di- nâmica populacional, cultura local e lideranças locais. Há aplicativos para smartphones disponíveis gratuitamente em plataformas digitais que podem ser utilizados para mapeamento por GPS, oferecendo a possibilida- de de traçar rotas offline para em outro momento transferir os dados para EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 32 uma plataforma de mapas/georreferenciamento gratuita. É possível visua- lizar a distância dos pontos de atendimento para um hospital ou outros dis- positivos sociais como escola, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), igrejas etc. É imprescindível que a construção dessa territorialização seja feita com participação de toda equipe e principalmente dos AIS e ACS. Sempre é bom construir esse mapa com os agentes de saúde, até porque eles conhecem as estradas de terra, becos e ruelas que nem mesmo os satélites conseguem identificar. Para ilustrar essa situação, voltamos a Ipixuna, desta vez prontos para entrar no barco rumo à Terra Indígena Kulina. Antes de entrar no barco precisamos ter ideia do combustível que precisamos levar para ir e voltar. Isso vai de- pender se estamos em época de cheia ou estiagem. Quando o rio está muito baixo, o barco corre o risco de ficar preso nos igarapés, sendo necessário realizar o resto do percurso de canoa/voadeira para acessar algumas comu- nidades. Quando está chovendo muito também há o risco de a embarcação ser atingida por algum tronco que está à deriva no rio. É necessário levar ba- terias de gelo reserva para manter o acondicionamento das vacinas e medi- cações. Na verdade, a dificuldade de acesso e logística é umas das principais causas da baixa cobertura vacinal nesta região (AMAPÁ, 2021). Fonte: MEXAS, 2010|Acervo Fiocruz Imagens. 33 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais A equipe está angustiada para entrar no território porque da última vez houve necessidade de remover um paciente e o percurso demorou mais de quatro horas. Foi solicitado um motor mais potente para a embarcação responsável pela remoção das emergências com necessidade de cuidado hospitalar, mas ainda não havia chegado. Todos já haviam separado os prontuários de papel, receituários, outros itens burocráticos, alimentação, repelentes e protetor solar. Durante 30 dias a equipe se desloca através do rio e caminhando pela floresta para realizar o cuidado da comunidade que vive em aldeias afastadas umas das outras. Como acompanhar crian- ças de muito baixo peso, realizar pré-natal e controle glicêmico de pacien- tes que começaram a insulinização? Oferecer acesso e longitudinalidade são grandes desafios para o médico rural. Além de essencial para o planejamento das ações de saúde da equipe, a territorialização com georreferenciamento pode levantar evidências para necessidades específicas da equipe. Como, por exemplo, a aquisição de um motor mais potente ou barco mais veloz e seguro para a remoção de pacientes graves em comunidades indígenas do rio Juruá. Na TI Xukuru, nos deparamos com o cenário do agreste nordestino, em Pesqueira (PE). São três equipes que atuam em 24 aldeias: equipe da Serra, Agreste e Cimbres. Cada região possui suas peculiaridades geográficas e populacionais. A região da Serra e Cimbres possuem um microclima que favorece a agricultura enquanto o agreste é uma região mais árida e mais acometida pela seca. Na área de Cimbres houve um período de intenso turismo religioso que repercutiu nas relações de trabalho da região. Uma das aldeias dessa região tem muitos casos de etilismo e desnutrição. A região Agreste é a mais distante do polo base, em torno de 40 km. É pos- sível “cortar caminho” pela serra atravessando em uma área bastante íngreme, que apresenta risco de desmoronamento durante períodos chu- vosos. O tempo de deslocamento da equipe é grande, o que diminui o tempo disponível para atendimento. Na região da Serra fica a aldeia Pedra D’água, onde ocorrem os principais eventos sociopolíticos, culturais e es- pirituais do povo Xukuru. Também há ainda uma região chamada de Ba- naneira, cujo acesso é muito íngreme e também impossibilitado durante o período de chuvas intensas, tornando os moradores dessa aldeia mais isolados e vulneráveis. É importante perceber também, no momento do planejamento, que algumas aldeias são maispovoadas que outras e outras vezes possuem problemas de saúde específicos. Algumas possuem uma população mais idosa, outras mais jovens, por exemplo. É interessante que os atendimentos oferecidos a aldeias ou povoados sejam planejados considerando as necessidades de saúde e vulnerabilidades de cada uma. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 34 Figura 04 - Georreferenciamento do território Xukuru do Ororubá EMSI III. 2013. Fonte: arquivo pessoal dos autores, por meio do site GoogleMaps®. 35 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 1.3 CONHECENDO O ITINERÁRIO TERAPÊUTICO Apesar dos fluxos e protocolos criados pelo sistema de saúde normativo, no percur- so em busca de uma resposta para o adoecimento é comum que as pessoas deem passos fora da”rota preestabelecida”. Esses passos “furtivos” estão alicerçados em um conjunto de crenças individuais ou comunitárias sobre o funcionamento do próprio corpo, motivos/significados do seu adoecimento e possibilidades de cura. Esse percurso chamamos de itinerário terapêutico. Itinerários terapêuticos são constituídos por todos os movimentos desencadea- dos por indivíduos ou grupos na preservação ou recuperação da saúde, que podem mobilizar diferentes recursos que incluem desde os cuidados caseiros e práticas religiosas até os dispositivos biomédicos predominantes (atenção primária, urgên- cia, etc.). Referem-se a uma sucessão de acontecimentos e tomada de decisões que, tendo como objeto o tratamento da enfermidade, constrói uma determina- da trajetória (CABRAL et al.,2011, p. 4434). Nas comunidades rurais, muito antes da chegada do Estado com medidas sanitá- rias e cuidados biomédicos, já existiam pessoas responsáveis pelos cuidados da po- pulação e que utilizavam outros sistemas de cura/outra racionalidade. Os sistemas tradicionais milenares de cura apresentam um olhar sistêmico e integral para a pessoa doente, sendo esse o principal ponto de divergência do sistema biomédico. Enquanto a medicina ocidental hegemônica se detém a estudar as doenças – e seu funcionamento no corpo humano fragmentado – as medicinas tradicionais (indíge- na, ayurvédica, chinesa) enxergam a pessoa inteira e conectada ao seu contexto: a comunidade e a terra. A pergunta que ela se propõe a responder é o “por quê”: por que naquele momento da vida sofreu esse desequilíbrio e adoeceu assim? Para ajudar a pessoa a encontrar essa resposta e recuperar seu equilíbrio de vida, é preciso olhar para além do corpo doente – para sua biografia e a cultura em que está inserida. Fonte: Pexels.com. Essas figuras de cuidado e cura são as rezadeiras, os juremeiros, os raizeiros, as benzedeiras, as parteiras tradicionais e os pajés. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 36 Ugakikalapalo, mais conhecido como Adalberto, indígena, 41 anos, sem outras doenças, traba- lhador da cidade de Canarana. Há um mês voltou para sua aldeia para se proteger do corona- vírus, que começava na cidade. Sua família mora no Kuluene, aldeia do Alto Xingu. No dia 24/06/2020 a equipe de saúde entrou na aldeia Kuluene para avaliar os diversos casos de gripe que estavam surgindo, há três semanas havia sido relatado o primeiro caso de corona- vírus dentro do Xingu. Adalberto estava gripado, com tosse, febre, cansaço e fraqueza, mas dizia que “o pior havia passado”. Estava andando, conversando, lúcido. Sua pressão estava 120x80, FR 20 irpm, satura- ção de O2 era de 55%, pulmões limpos. Seu teste para Covid-19 deu positivo. Eu desesperada, ele tranquilo. Peço que vá́ para o hospital, mas Adalberto diz que não. “Na cidade os médicos estão matando a gente, não quero ir pro hospital morrer. Vou ficar na aldeia. ”Peço, então, que Adalberto vá até a escola para fazermos oxigênio nasal, mas é perigoso sair de casa quando está doente. “Quando o corpo está fraco, pode pegar feitiço, não é bom sair de casa.” Combinamos de trazer o oxigênio para a casa do Adalberto. Fazemos oxigênio por catéter nasal a 4L/min e em três horas sua saturação atingiu 98%. Ufa! Durante essas três horas começamos a conversar: “Adalberto, estou preocupada. Esse coronavírus pode ficar muito grave em algumas pessoas. Com oxigênio baixo assim seus órgãos podem parar de funcionar e você pode até morrer.” “Mas eu sei porque eu fiquei doente assim, doutora.” “Por que, Adalberto?” “Eu cortei a árvore e ela não gostou, eu senti.” Eu paro, penso.“Acho que é por isso que estamos todos doentes, Adalberto.” Deixo Adalberto dormir e combino de retornar pela manhã (LOURENÇO, 2021). Fonte: IMAFLORA, 1980. Veja no relato a seguir um exemplo da distância entre a medicina ocidental e o contexto cultural em populações tradicionais. 37 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 1.4 ENTENDENDO O CONCEITO DE CULTURA E COMPETÊNCIA CULTURAL “We do not really see through our eyes or hear through our ears, but through our beliefs.” (“Nós realmente não vemos através de nossos olhos ou ouvimos através de nossos ouvidos, mas através de nossas crenças.”) Lisa Delpit Dentre todas as competências necessárias para atuar em áreas rurais e remotas, para finalizar esta unidade será dado um enfoque especial à competência cultural. Para entender a importância do seu papel na prestação de cuidados em saúde, vamos começar nos debruçando sobre o conceito de cultura. O que é cultura para você? Quando pensamos em cultura a primeira coisa que costuma vir à mente são ma- nifestações culturais relacionadas ao comportamento humano, como danças, ves- timentas, comidas tradicionais, linguagem e música. Segundo Gary Weaver podemos analisar a cultura a partir de camadas, das quais essa que correspondente à ma- nifestação visível da cultural representaria apenas 10% da cultura de um povo ou pessoa (WEAVER, 1986). Segundo a analogia do iceberg, conforme você poderá acompanhar na ilustração a seguir, ainda existiria uma cultura mais profunda sub- mersa. Logo abaixo da superfície estariam nossos valores e crenças conscientes, a explicação que nós somos capazes de dar para o nosso comportamento. Mergu- lhando ainda mais fundo nos deparamos com “premissas fundamentais”, que são crenças na maior parte do tempo pré-conscientes. Esses valores e regras são in- corporados em algum momento de nossa vida e depois não lembramos mais, mas moldam nossa maneira de agir, pensar e sentir no mundo. REFLEXÃO O que você entende por justiça? O que é bom ou mau? O que é certo ou errado? O que é família? Vida? E morte? Por trás das suas respostas estão suas crenças fundamentais. Na sociedade quando algo ou alguém parece ameaçar ou questionar essas pre- missas costuma ser taxado de ignorante pelos outros. Crenças fundamentais são poderosas porque não são questionadas. Quando isso acontece, dificilmente ocorre reflexão e sim uma reação de defesa quase instintiva, porque uma ameaça à crença EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 38 representa uma ameaça a si mesmo. Essas regras também podem ser ensinadas desde a infância e utilizadas para a manutenção da hegemonia de uma parcela da população e do status quo. Aqui podemos encontrar as raízes do machismo, do racismo estrutural e da exploração irracional dos recursos naturais. O iceberg do conceito de cultura Fonte: adaptado de AFS Intercultural Programs (2010). Artes Literatura Teatro Música clássica Música popular Itens normalmente reconhecidos Dança folclórica Jogos Culinária e Moda Noções de modéstia Concepção de beleza Ideais que regem a criação de filhos Relação com animais Definição de pecado Regras de descendência Cosmologia Padrões das relações entre superiores e subordinados Práticas de namoro Noções de liderançaConcepção de limpeza Abordagens para resolução de problemas Concepção de justiça Ritmo de trabalho Incentivos para o trabalho Padrões de tomada de decisão em grupo Atitudes para com os dependentes Concepção de doença Itens normalmente não reconhecidos Concepção de mobilidade de status Funções em relação ao status por idade, sexo, classe, ocupação, parentesco, etc Natureza da amizade Expressões faciais Concepção de “eu” Padrão da comunicação não verbal relacionado ao olhar Definição de insanidade Padrões de percepção visual Linguagem corporal Noções sobre lógica e validade Padrões de conversação em vários contextos sociais Preferência por competição ou cooperação Padrões do manejo das emoções Concepção de passado e futuro Taxa de interação social Arranjo do espaço físico Noções de adolescência Organização do tempo Etc 39 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais É importante entender também que a cultura não é rígida. Um povo pode assimi- lar, espontaneamente, aspectos culturais de outros povos e isso não significa que estaria “perdendo” sua cultura. Inclusive na década de 1980 foi utilizado o termo bicultural para explicar o fenômeno pelo qual uma pessoa ou comunidade adotava a cultura de uma população hegemônica para sobreviver ou ascender socialmen- te, sem abandonar sua própria cultura. A cultura não é estática, costuma sofrer lentas modificações ao longo dos anos. Apresenta também limites imprecisos, afeta o comportamento humano, a interpretação desse comportamento e também pro- cessos biológicos (como quando somos submetidos a situações de estresse: falar em público, chegar atrasado, encontrar com alguém). A cultura se situa entre a natureza humana, que é coletiva, e a personalidade, que é individual. “É a maneira através da qual o mundo nos enxerga e nós interpretamos o mundo” (SPENCER- -OATEY, 2012, p.3). CULTURA: Um conjunto difuso de premissas e valores fundamentais, orientações para a vida, crenças políticas, procedimentos e convenções comportamentais que são compartilhadas por um grupo de pessoas e que influenciam (mas não determinam) o comportamento de cada membro e suas interpretações do “sig- nificado” do comportamento de outras pessoas (SPENCER-OATEY, 2012, p. 3). Competência cultural pode ser definida como “capacidade de realizar um cuidado efetivo, compreensivo e respeitoso, de maneira compatível com as crenças e prá- ticas culturais de saúde do usuário, e no idioma de sua preferência” (GOUVEIA et al., 2019). Campina-Bacote (2002) descreve como sendo um processo por meio do qual o profissional de saúde se esforça para conseguir oferecer um cuidado cultu- ralmente sensível e seguro às pessoas e famílias que estão sob seus cuidados, sendo fruto de um genuíno interesse pela cultura do outro – que leva à busca de conhecimentos, desenvolvimento de consciência cultural e habilidades culturais – por meio de encontros culturais. Este módulo se propõe a trazer algum conheci- mento a respeito da cultura e história das populações e gerar reflexões no intuito de que você possa desenvolver uma autopercepção da sua consciência cultural – do inglês self awareness. No entanto, as habilidades só podem ser desenvolvidas de fato por meio dos encontros culturais que, se você observar atentamente, pode estar acontecendo todos os dias, especialmente se você conseguir enxergar as sin- gularidades das pessoas que estão sob seu cuidado. Terrell e Lindsey (2009) ilustraram esse caminho por meio de um continuum da competência cultural, em que podemos nos deslocar idealmente do ponto mais negativo para o mais positivo, mas caso não estejamos atentos também somos capazes de retroceder e apresentar atitudes racistas ou indiferentes à cultura do outro. EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 40 Continuum da competência cultural Destrutivida- de cultural Esforço-me consciente- mente para destruir cul- turas diferen- tes da minha porque minha cultura é tudo que importa. Exemplo: 1.Colonização. 2. Esforços realizados pelo Estado para integrar os po- vos indígenas à identidade nacional. Incapacidade cultural Estimo minha cultura mais do que as outras. Não estou dispos- to a ser útil ou servir a outras culturas, apre- sento atitu- des racistas, mas não me esforço cons- cientemente para destruir a cultura do outro. Exemplo: - “Só a biome- dicina funcio- na.” Negação/ Indiferença Cultural Não percebo a importância da diversida- de cultural, nem reconhe- ço as desi- gualdades existentes. Exemplo: - “Melting pot theory.”, teo- ria do Caldei- rão (tradução livre), em que as culturas se fundiriam em uma única após conta- to entre si, assim como metais fundi- dos em alta temperatura. - “Não são indígenas, somos todos brasileiros.” Pré-com- petência cultural Reconheço as limitações da minha habilidade de comunica- ção e tenho consciência da minha pró- pria cultura e de como ela interfere nas minhas relações com diferenças culturais. Além disso, me esforço para entender como agir de maneira culturalmente competente. Exemplo: Reconheci- mento do racismo estru- tural. Competência cultural Tenho com- promisso com a justiça social. Sou flexível e me esforço para me adaptar à cultura do outro, criando um ambiente útil e acolhe- dor a todos. Exemplo: -Reconheci- mento da im- portância, por exemplo, do pajé, das espe- cificidades do ambiente do campo e do “encantado”. Proficiência cultural Valorizo significati- vamente a cultura do outro, sendo a base pela qual eu en- tendo as re- lações entre indivíduos, grupos, or- ganizações, sistemas. Sou capaz de interagir e me comu- nicar de ma- neira efetiva em grupos diversos. PositivoNegativo Fonte: adaptado de Terrell e Lindsey (2009). 41 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais REFLEXÃO E você? Onde se encontra na escala de competência cultural com relação à população que você atende? Como você se comunica com as populações do campo, LGBTQIA+, a população negra, indígena, com as pessoas privadas de liberda- de, as pessoas evangélicas, católicas, espíritas ou religiosas de matriz africana, os ateus, a população em situação de rua? Quais das suas crenças fundamentais podem ser prejudiciais a outra pessoa? EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais 42 Encerramento da unidade Parabéns, querido profissional estudante! Chegamos ao fim da primeira unidade deste módulo. Aprofundamos nosso conhecimento sobre o conceito de ruralidade e suas implica- ções no acesso aos serviços de saúde. Conhecemos algumas competências impor- tantes para o médico rural conseguir ofertar cuidados de saúde primários de maneira adequada a essas populações – como planejamento, uso de tecnologia, otimização da visita domiciliar. Reconhecemos que não somos os únicos, nem mesmo os pri- meiros referenciais de cuidado a serem procurados pela comunidade em caso de adoecimento e focamos principalmente na competência cultural. E, por fim, refleti- mos sobre a nossa própria cultura, crenças e premissas fundamentais e como elas podem influenciar no cuidado do outro. Estamos prontos para seguir para a próxima unidade! Vamos em frente. 43 EIXO 05 | MÓDULO 25 Atenção à saúde das populações do campo, florestas e águas e popula- ções tradicionais Conhecendo os povos do campo, águas e florestas INTRODUÇÃO Nesta unidade lançaremos o nosso olhar para os determinantes sociais de saúde e principais agravos relacionados ao modo de vida das populações do campo, da floresta e das águas. Essas populações são caracterizadas pelo modo de vida, pro- dução e reprodução social relacionados predominantemente com a terra, confor- me definição a seguir. As populações do