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GRUPO SER EDUCACIONAL CENGAGE Marcela Santos Procópio Karen Camacho Haubrich Marina Oliveira Daneluz BIOQUÍMICA: ESTRUTURA DAS BIOMOLÉCULAS E METABOLISMO BIOQUÍMICA – ESTRUTURA DAS BIOMOLÉCULAS E METABOLISMO Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos,Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi Procopio, Marcela Santos. Bioquímica: estruturas das biomoléculas e metabolismo / Marcela Santos Procópio / Karen Camacho Haubrich. – São Paulo: Cengage, 2020. Bibliografia. ISBN 9786555581324 1. Bioquímica. 2. Metabolismo. 3. Haubrich, Karen Camacho. Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Marcela Santos Procópio Doutora em Biologia Celular pela Universidade Federal de Minas Gerais (2017), mestre em (2013), graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (2010). Trabalhou como pesquisadora na Universidade Federal de Minas Gerais entre os períodos de 2017 e 2019, desenvolvendo projetos de pesquisa na área de reprodução humana e em biotecnologia. Atualmente trabalha como embriologista no Instituto de Reprodução Humana, em Belo Horizonte e como professora autora de materiais didáticos para instituições de ensino superior na modalidade educação a distância. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0387461416058447 Karen Camacho Haubrich Médica Veterinária pela UNIGRANRIO. Especialização em Patologia Clínica Veterinária – Faculdade Qualittas. Mestranda em Vigilância e Controle de Vetores – Fiocruz Marina Oliveira Daneluz Médica Veterinária formada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Mestre pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Territorial e Sistemas Agroindustriais (DTSA) da Universidade Federal de Pelotas, na Área de Administração Rural.. Tem experiência em gestão econômica e zootécnica de propriedades leiteiras e na área de Medicina Veterinária Preventiva. Atualmente é Médica Veterinária na empresa Planejar Agronegócios, na região de Chapecó, desenvolvendo consultoria na área de Agronegócio, abrangendo a área de gerenciamento econômico, administração de negócios rurais e análises de viabilidade de projetos rurais. Além disso, atua como Professora/Autora Conteudista de produção de material técnico-pedagógico da área de Medicina Veterinária. SUMÁRIO Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - Introdução à bioquímica e estrutura das biomoléculas ..............................................11 Introdução.............................................................................................................................................12 1 Introdução à bioquímica .................................................................................................................... 13 2 Água: pH, sistema tampão, reação ácido-base e equilíbrio ...............................................................14 3 Estrutura e propriedades de aminoácidos, proteínas e enzimas .......................................................19 4 Estrutura e propriedades dos lipídeos, membranas celulares e carboidratos ...................................28 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................34 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................35 UNIDADE 2 - Membranas celulares, vias metabólicas e respiração celular .....................................37 Introdução.............................................................................................................................................38 1 Lipídios, membranas e transporte de membranas ............................................................................ 39 2 Introdução ao metabolismo: visão geral e integrada .........................................................................44 3 Gliconeogênese .................................................................................................................................. 46 4 Glicólise ..............................................................................................................................................49 5 Ciclo de Krebs ..................................................................................................................................... 51 6 Cadeia respiratória e fosforilação oxidativa ....................................................................................... 54 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................57 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................58 UNIDADE 3 - Bioenergética e metabolismo ....................................................................................59 Introdução.............................................................................................................................................60 1 Ácidos graxos ..................................................................................................................................... 61 2 Metabolismo de lipídios ..................................................................................................................... 65 3 Via das pentoses-fosfato .................................................................................................................... 71 4 Regulação da via das pentoses........................................................................................................... 72 5 Metabolismo do glicogênio ................................................................................................................ 73 6 Controle hormonal do metabolismo .................................................................................................. 75 7 Metabolismo de aminoácidos e ciclo da ureia ................................................................................... 78 8não tem energia suficiente para se ligar ao gliceraldeído e por isso a enzima faz a reação em dois momentos. A oxidação do gliceraldeído, se faz importante pois gera energia para o fosfato, já que o fosfato inorgânico é pobre em energia e com isso ele não consegue se ligar diretamente ao ADP para gerar o ATP. Na reação seguinte há a conversão do o 1,3-bisfosfoglicerato em 3-fosfoglicerato. Isso ocorre pela ação da enzima fosfoglicerato quinase. Nesse momento, o fosfato foi transferido para o ADP. Ocorrendo então a formação do primeiro ATP produzido pela glicólise. Como todas as reações estão acontecendo em dobro, foram então produzidos dois ATPs. Temos até o momento o gasto de 2 ATPs iniciais e agora a produção de 2 ATPs, ou seja, o investimento inicial acaba de ser liquidado. Depois, para continuar formando ATP, ainda ocorrerão outras reações na molécula de 3-fosfoglicerato. A enzima fosfoglicerato mutase vai transferir o fosfato que estava no carbono 3 para o carbono 2 produzindo a molécula de 2-fosfoglicerato. Esse rearranjo estrutural vai favorecendo a saída do fosfato. Nessa etapa, a célula retira uma molécula de H20 e produz fosfoenolpiruvato. Essa redistribuição de elétrons dentro da molécula tornam a presença do fosfato altamente desfavorável, facilitando sua saída para que seja incorporado ao ADP novamente gerando ATP. Com a saída do fosfato chegamos à molécula de piruvato. Como sabemos que todas as reações estão acontecendo em dobro temos a formação de duas moléculas de piruvato e duas moléculas de ATP. No total, foram formados 4 ATPs: dois consumidos no início das reações (com um saldo líquido final de 2 ATPs) e 2 moléculas de piruvato. O piruvato gerado será utilizado como substrato paras as próximas vias respiratórias. Ele possui três destinos, segundo Klein (2014): • Etanol; • Lactato (na ausência de oxigênio); • Gás carbônico (na presença de oxigênio). 5 CICLO DE KREBS As vias para obtenção de ATP pelas fermentações na ausência de oxigênio geram uma baixa quantidade de energia. Quando o piruvato é degradado na presença de oxigênio (ou seja, em condições de aerobiose), a produção de energia é muito maior. Isso ocorre ao longo do chamado ciclo de Krebs e também da fosforilação oxidativa. O ciclo de Krebs também é conhecido como ciclo do ácido cítrico ou ciclo dos ácidos tricarboxílicos e, 52 além de ser o passo central do metabolismo da célula, também faz interface com outras vias como ao metabolismo de aminoácidos, como a beta oxidação e a síntese de ácidos graxos e de triglicerídeos. Em resumo, o ciclo de Krebs gera apenas duas moléculas de ATP (a partir de dois piruvatos) e oxida (retira elétrons) compostos orgânicos como corpos cetônicos, carboidratos, aminoácidos, ácidos graxos entre outros. Essa oxidação desses elementos retira hidrogênios e elétrons que serão passados para o NAD e o FAD que irão se converter em NADH e FADH2. Estes, por sua vez, irão para a cadeia respiratória e é com a energia desses elétrons que a cadeia vai produzir 28 moléculas de ATP, uma quantidade muito maior. Assim, indiretamente, é o ciclo de Krebs que permite a geração de tanta energia. Para tanto, a glicólise gerou duas moléculas de piruvato que, quando adentram a mitocôndria, formam acetil-CoA e oxalacetato. Juntos, eles formam o citrato, que vem a sofrer uma sucessão de reações químicas para extrair hidrogênio e, assim, produzir elétrons à cadeira respiratória e formar energia. No entanto, é importante fazer uma reflexão. Ao respirar, as pessoas expulsam o gás carbônico e o ciclo de Krebs oxida a matéria orgânica, retirando hidrogênios e elétrons e fazendo sobrar apenas o CO2. Até o final do ciclo ocorre, então, uma oxidação completa da glicólise (ou seja, não sobra nenhum hidrogênio, apenas gás carbônico). Isso quer dizer que, quando as pessoas ingerem alimentos, as células irão oxidar os componentes da via glicolítica até que sobre o gás carbônico que cai na circulação sanguínea e expelido pelos pulmões na respiração. 5.1 Etapas Segundo Berg et al. (2014), o ciclo se inicia a partir do piruvato. Neste momento, ocorre a sua conversão em acetil coenzima A (Acetil-CoA) por meio de uma descarboxilação, uma liberação de gás carbônico que libera energia e torna possível a entrada da coenzima A. Na reação seguinte, o Acetil-CoA, perde sua partícula de coenzima A, fornecendo a energia necessária para se unir ao oxalacetato e formar o citrato, que é composto de seis carbonos. Essa reação é catalisada pela enzima citrato sintase. O citrato formado é, então, isomerizado ao isocitrato, pois o radical carboxila precisa estar em uma posição que facilite a sua descarboxilação já que logo adiante mais uma molécula de gás carbônico irá sair. Essa reação, catalisada pela enzima aconitase, ocorre em duas etapas: Desidratação quando ocorre a saída de uma molécula de água, gerando uma molécula de aconitato. 53 Incorporação de uma molécula de água que, em outra posição na cadeia, irá facilitar a saída de CO2. Quando o gás carbônico sai da molécula de isocitrato, ela é convertida em alfa-cetoglutarato. Nesse momento, o NAD+ absorve os hidrogênios do isocitrato e vira NADH e H+. No próximo passo, quando ocorre a conversão da molécula de alfa-cetoglutarato em succinil COA, a saída de mais um CO2 da molécula de alfa-cetoglutarato é o que permite a entrada de coenzima A. A enzima responsável é a-cetoglutarato desidrogenase. Novamente o NAD+ surge receber hidrogênio se convertendo em NADH. No passo seguinte, a Succinil COA será convertida em Succinato pela ação da enzima succinato sintetase. Ao perder sua coenzima A, libera energia para a célula e torna possível pegar um fosfato inorgânico que estava solto, assim o GTP pode transferir o seu fosfato inorganico para um ADP, formando um ATP. Essa é a única etapa do ciclo de Krebs onde é formado de um composto pronto de alta energia. Na próxima reação ocorre a transformação da molécula de succinato em fumarato. Neste momento, um FAD incorpora hidrogênios e elétrons e se torna FADH2 (pois nesse ponto não tem energia suficiente para formar NADH). A enzima que catalisa a reação é succinato desidrogenase. Em seguida ocorrerão duas reações para regenerar o oxalacetato. Para isso, o fumarato será convertido em malato por meio da entrada de uma molécula de água pela catalisada pela fumarase. E, na última reação, o malato se converte em oxalacetato. Neste momento, o NAD+, ao receber hidrogênio e elétrons, dá origem ao NADH e H+. 54 Figura 3 - As principais etapas do ciclo de Krebs Fonte: Ashray Shah, Shutterstock (2020). #ParaCegoVer: A imagem mostra as etapas e reações do ciclo de Krebs. Assim, o saldo final do ciclo de Krebs é 4 NADH, 1 FADH2 e 1 ATP. Embora não haja formação propriamente dita de ATP, o NADH e o FADH2 acabam por gerá-lo quando se regeneraram. O ciclo de Krebs está sujeito aos controles de concentração [ATP/ADP], [NADH.H/NAD+] e [FADH2/FAD+] e pode ser regulado também pelo nível de energia da célula. Assim, uma maior concentração de ATP inibe as enzimas isocitrato desidrogenase e a-cetoglutarato desidrogenase e, consequentemente, seus produtos de reação. O ciclo de Krebs nunca é interrompido e as substâncias que inibam as enzimas desse ciclo podem ser fatais para a vida da célula. Embora não haja participação direta do oxigênio nessa via, esse é um ciclo que só ocorre em condições de aerobiose. Isso porque os NAD+ e os FAD necessários ao ciclo só podem ser regenerados na mitocôndria quando transferem seus hidrogênios para o oxigênio. 6 CADEIA RESPIRATÓRIA E FOSFORILAÇÃO OXIDATIVA A fosforilação oxidativa acontece apenas em condições de aerobiose, nas quais o oxigênio faz a reoxidação das coenzimas através de uma cadeia de transporte de elétrons ou cadeia respiratória, como também é chamada. 55 Trata-se, portanto, de um processo, que corre no interior da mitocôndria, onde os compostos NADH e FADH2, provenientes da glicólise e do ciclo de Krebs, são regenerados.Isso se faz necessário pois ambos possuem concentrações celulares muito reduzidas. O objetivo do NADH e do FADH2 é entregar elétrons ao oxigênio, reação que produzirá água e energia para uma alta produção de ATP. Isso ocorre a partir da oxidação de glicose, gerando gás carbônico e água ao mesmo tempo. 6.1 Reações e etapas da cadeia respiratória Até então, o saldo deixado pelas vias metabólicas envolve a produção da glicólise e do ciclo de Krebs, que produziram poucas moléculas de ATP, mas também produziram NADH e FADH2. Estas coenzimas têm a função de levar elétrons ricos em energia para a cadeia respiratória para que, nessa via, possa ser produzida uma quantidade maior de energia. A cadeia respiratória precisa da participação de complexos protéicos e de carreadores, que farão a transferência dos elétrons até seu aceptor final, o oxigênio. Da molécula de piruvato até o fim do ciclo de Krebs são liberadas moléculas de CO2, que são expelidas do organismo através da respiração. Enquanto isso, o oxigênio presente no ar é inspirado, chega aos pulmões e é levado à corrente sanguínea para entrar na célula e alcançar a mitocôndria. O oxigênio exerce a função de atrair elétrons pela chamada cadeia transportadora de elétrons. Mas para o NADH participar da formação de ATP é preciso lembrar que na membrana interna da mitocôndria estão presentes o(a): • Complexo I (NADHcoenzima Q oxidorredutase); • Ubiquinona (que recebe os eletrons do Complexo I e o regenera, para que ele possa continuar a receber outros novos elétrons); • Complexo III (Q-citocromo c oxidorredutase); • Citocromo C (uma proteína que transporta os elétrons do complexo III para o complexo IV); • Complexo IV (citocromo c oxidase); • Um carreador fosfato; • Enzima ATP sintase (ou ATPase ,que é um agregado enzimático também conhecida como complexo V). Segundo Murray (2014), o NADH chega até a cadeia respiratória para entregar seu par de eletróns H+ (com isso volta ao estado de NAD+). O complexo I recebe esse par de elétrons ricos em energia e usa essa energia para transportar 4 íons H+ do espaço interno da mitocôndria para o espaço entre a membrana interna e a externa. O par de elétrons vai passando pelas proteínas em direção ao O2. Quando passa pelo Complexo III doa novamente energia para bombear 4 H+. Ao 56 chegar no complexo IV,já não detém tanta energia como antes e só consegue bombear 2 H+. No total, o NADH doou um par de elétrons que forneceu energia para bombear 10 H+. Nesse ponto, o par de elétrons finalmente chega ao oxigênio e forma água. Os íons H+ que possuem carga positiva serão atraídos para o lado de dentro da membrana interna da mitocôndria, onde a carga é negativa. Um H+ retorna, então, para o espaço interno carregando consigo um fosfato inorgânico. Além desse H+, outros 3H+ adentram a membrana através da ATPsintase, fazendo literalmente a proteína girar. Com isso, ocorre a união do fosfato orgânico com a molécula de ADP que ali estava, formando então ATP. Neste sentido, os mecanismos da cadeia respiratória podem ser resumidos da seguinte forma: • Obtenção de elétrons ricos em energia; • Acúmulo de íons H+ através da energia desses elétrons; • Utilização da energia do movimento do H+ (ao retornarem ao interior da membrana interna mitocondrial) para produção de ATP. Por isso, são necessários 4 H+ para produção de uma molécula de ATP, já que o par de elétrons do NADH forneceu energia para bombear 10 H+. Assim, para cada NADH teremos a produção 2 moléculas e meia de ATP. O FADH2, por sua vez, inicia a reação entregando seus elétrons para o Complexo II (succinato- coenzima Q oxidorredutase). O par de elétrons segue as mesmas etapas percorridas na reação iniciada pelo NADH e, finalmente, se encontra com o oxigênio e forma água. Apenas 6 H+ foram bombeados a partir da energia do FADH2, ou seja, foi produzida uma molécula e meia de ATP. Assim, depois de entender todos os processos e as vias ara geração de energia, é preciso contabilizá-la. Se na glicólise foram produzidos 2 NADH e se no ciclo de Krebs foram gerados 8 NADH, então há um total de total de 10 NADH. Como na cadeia respiratória cada NADH produz 2,5 ATP, então foram produzidos 25 ATPs pelo NADH. O ciclo de Krebs produz 2 FADH2, então na cadeia estes dois geram energia para a produção de 3 ATPs. Quantos aos ATPS propriamente ditos, 2 são provenientes da glicose e 2 do ciclo de Krebs, totalizando 4 moléculas de ATP. A cadeia respiratória então contabiliza um total de 32 moléculas de ATP geradas a partir de uma molécula de glicose. 57 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • entender a composição lipídica das membranas celulares e os principais tipos de transportes que ocorrem através das membranas; • relembrar conceitos de metabolismo celular, como catabolismo e anabolismo; • aprender sobre a moeda energética da célula, o ATP; • aprender a importância das principais vias metabólicas para a respiração celular; • entender todas as reações que acontecem na glicólise, na gliconeogênese, no ciclo de Krebs e na cadeia respiratória. PARA RESUMIR MOLINARO, E. M.; CAPUTO, L. F. G.; AMENDOEIRA, M. R. R. Conceitos e métodos para a formação de profissionais em laboratórios de saúde. Vol. 3. Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), 2013. BERG, J. M.; TYMOCZKO, J. L.; STRYER, L. Bioquímica. 7 ed. Rio de Janeiro: Guanabara- Koogan, 2014. MURRAY, R. K.; BENDER, D. A.; BOTHAM, K. M.; KENNELY, P. J.; RODWEL, V. W.; WEIL, P. A. Harper bioqúimica ilustrada. 29 ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. KLEIN, B. G. Cunningham tratado de fisiologia veterinária. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 3 Bioenergética e metabolismo Introdução Você está na unidade Bioenergética e Metabolismo. Conheça aqui os principais pontos relacionados à temática da bioquímica de biomoléculas no que tange a ácidos graxos e suas principais funções, o metabolismo de síntese e a sua degradação. Aprenda também sobre os principais pontos sobre a via das pentoses, metabolismo do glicogênio, metabolismo de aminoácidos e ciclo da ureia. Entenda ainda as estruturas dessas biomoléculas e sua importância para o bom funcionamento do metabolismo. E, por fim, compreenda como funciona o controle hormonal do metabolismo, as principais funções biológicas e as reações em que essas biomoléculas se envolvem. Bons estudos! 61 1 ÁCIDOS GRAXOS Quando se fala em ácidos graxos, a primeira coisa que vem à mente são os lipídios, pois os ácidos graxos fazem parte da estrutura geral de grande parte deles. Vulgarmente, os lipídios são conhecidos como gorduras que, em geral, são encaradas como se fossem somente substância maléficas à saúde humana e animal. Na verdade, essas biomoléculas engenhosas apresentam papéis essenciais e importantes na manutenção das atividades biológicas e metabolismo dos seres humanos e animais. Porém, é preciso saber que existem vários tipos de lipídios e que todos possuem como característica principal sua hidrofobicidade, a característica de não se misturar com água (pode- se dizer fobia de água). Os diferentes tipos de lipídios possuem diferentes estruturas e diversas funções biológicas. Uma molécula de gordura, portanto, é formada por dois componentes principais: • Um esqueleto de glicerol; • Três caudas de ácidos graxos. Essas moléculas formadas são também chamadas de triacilgliceróis, os conhecidos triglicerídeos do exame de sangue. Elas são primeiramente estocadas em células de gordura especializadas, as quais são chamadas de adipócitos, formando o tecido adiposo (PELUSO, 2018). Enquanto muitos ácidos graxos são encontrados nas moléculas de gordura, vários outros são encontrados livres no corpo e são considerados um tipo de lipídio por si próprio. 1.1 Estrutura e funções dos ácidos graxos Um ácido graxo é uma estrutura química que contém uma longa cadeia hidrocarbonada acíclica, ou seja, aberta, e uma carboxila terminal. Sabe-se que,na literatura, existem muitos ácidos graxos reconhecidos, totalizando mais de 100 diferentes tipos. Os ácidos graxos são ácidos monocarboxílicos de longas cadeias de hidrocarbonetos acíclicas, não-polares, sem ramificações e, em geral, possuem número par de átomos de carbono (HORTON, et al., 2008). Outra informação relevante que deve ser levada em consideração é que a concentração de ácidos graxos livres nas células é muito baixa, uma vez que, caso fossem elevadas, as membranas poderiam sofrer rompimento celular. A maioria dos ácidos graxos conhecidos são formados por lipídeos mais complexos. Eles se unem a outras moléculas por meio de uma ligação éster ao grupo carboxílico terminal (HORTON et al., 2008). A figura a seguir demonstra essa estrutura química das biomoléculas, apontando a diferença 62 entre o colesterol e os triglicerídeos, a estrutura dos ácidos graxos - compostos por um grupo carboxílico (polar) e uma cadeira de hidrocarbonetos (apolar) e também pela saturação (sem duplas ligações) ou insaturação (com duplas ligações) – e a estrutura dos três tipos possíveis de triglicerídeos - saturado (ligação simples), monoinsaturado (uma ligação dupla) e poliinsaturado (duas ligações duplas). Figura 1 - Esquema da estrutura do colesterol e dos triglicerídeos Fonte: Alila Medical Media, Shutterstock (2020). #ParaCegoVer: A imagem mostra a representação esquemática das estruturas químicas das moléculas de colesterol e de triglicerídeos (gorduras) e as possibilidades de insaturação na estrutura dos ácidos graxos. Como é possível perceber, quando os átomos de carbono da estrutura se ligam entre si por meio de ligações simples, o ácido graxo é chamado de saturado. Se houver ligações duplas entre um ou mais pares de carbonos, a molécula é considerada monoinsaturada ou poliinsaturada, respectivamente. Neste sentido, existem regras para dar nome a essas estruturas químicas. De acordo com 63 Motta (2011), os átomos são numerados a partir do carbono da carboxila (carbono nº 1). Na sequência, o carbono adjacente (carbono nº 2) é denominado carbono α. Os subsequentes, por sua vez, são β e γ. E o carbono metílico terminal é denominado ω ou carbono -n. A numeração é realizada em função da presença ou ausência de duplas ligações e do carbono em que se localiza. Porém, a maioria deles possui nomes usuais. Na hora de dar nome, primeiro designa-se o número de átomos de carbono, seguido do número de sítios de insaturação. Por exemplo: o ácido palmítico possui 16 carbonos e nenhuma insaturação, logo, é designado como 16:0. Ainda, de acordo com Motta (2011), existem, basicamente, quatro funções fisiológicas principais: • São elementos formadores de fosfolipídios e glicolipídios, importantes para as membra- nas biológicas; • Por causa das suas ligações covalentes, muitas proteínas são modificadas e isso as dire- ciona para os locais de membrana; • São moléculas fornecedoras de energia; • Os derivados dos ácidos graxos servem como hormônios e mensageiros importantes dentro das células intermediando processos celulares Com base nisso, há a composição de ácidos graxos, como os mais importantes. Os ácidos graxos saturados possuem apenas ligações simples na sua cadeia. A base é o ácido acético (CH3 – COOH), a partir do qual os demais – CH2 – são adicionados aos grupos terminais – CH3 – e – COOH –. Normalmente, eles são encontrados em gorduras de origem animal como manteigas, carnes, queijos, além de serem encontrados em óleo de coco e de palma. São geralmente sólidos à temperatura ambiente e possuem maior ponto de ebulição que os outros. A tabela a seguir mostra a quantidade de possíveis biomoléculas existentes na natureza e onde elas se encontram. 64 Figura 2 - Ácidos graxos saturados Fonte: SANTANA, et al., 2017 (Adaptado). Já os ácidos graxos insaturados são aqueles que possuem duplas ligações na sua estrutura e a possibilidade de serem subdivididos em monoinsaturados, poliinsaturados e eicosanoides. Normalmente suas cadeias possuem de 4 a 36 carbonos, com 1 ou mais duplas ligações, possuindo menor ponto de ebulição do que os saturados. Os eicosanoides são derivados da eicosa, que é um ácido graxo com 20 carbonos. Também podem ser ácidos graxos polienóicos compreendendo os prostanóides, os leucotienos e as lipoxinas. Os prostanóides incluem as prostaglandinas, as prostaciclinas e os troboxanos, que participam de atividades diversas como processos inflamatórios, formação de coágulos, metabolismo lipídico e resposta imunológica (SANTANA, et al., 2017, p. 7). A tabela a seguir mostra tais biomoléculas com duplas ligações, únicas ou não, e onde são encontradas na natureza. 65 Figura 3 - Ácidos graxos saturados Fonte: SANTANA, et al., 2017 (Adaptado). Outro ponto importante é a divisão dos ácidos graxos em essencial ou não. Os ácidos graxos são essenciais quando os animais não conseguem sintetizar e o encontram na composição das células vegetais. Por isso, é importante o consumo através de dieta nutricional, especialmente, em se tratando dos ácidos linoléico e o linolênico. Já os ácidos graxos não essenciais são sintetizados pelo organismo. Nos animais, a primeira fonte para a síntese dos ácidos graxos é o acetato proveniente do rúmen, sendo que o tecido adiposo e a glândula mamária (tecido alveolar) constituem-se como os principais sítios para a sua síntese (GONZÁLEZ, 2003). 2 METABOLISMO DE LIPÍDIOS Na dieta, a maior parte dos lipídios corresponde aos triacilgliceróis (TAG). Quando são digeridos, por meio da enzima lipase, eles transformam-se em dois ácidos graxos livres e FIQUE DE OLHO Doenças degenerativas, como diabetes, artrite e câncer, podem estar relacionadas em parte à desproporção da concentração dos ácidos ômega-6 e ômega-3 que ingerimos por meio da alimentação. Os estudos mostram uma grande concentração de ômega-6 e uma escassez de ômega-3 (FAGUNDES, 2002). 66 2-monoacilglicerol. Quando os alimentos contêm gorduras em sua composição, os lipídios são emulsificados no duodeno com a ajuda de ácido biliar, a partir do momento que passa pela cavidade oral e por processos de hidrólise. Assim, formam-se as micelas com fosfolipídios da bile em conjunto com os ácidos graxos livres e monoacilglicerol, fazendo com que consigam atravessar a membrana das células intestinais (enterócitos). No intestino, começam-se a se formar o que chamamos de quilomícrons, uma classe de lipoproteínas que tem como função transportar os triglicerídeos do intestino para órgãos e tecidos. Carregados de triglicerídeos, quando caem na corrente sanguínea, eles encontram uma enzima chamada lipoproteína lipase, que vai quebrar esses quilomícrons e transformar os triglicerídeos em ácidos graxos e glicerol. Eles, por sua vez, serão usados como fonte de energia em vários tecidos, como o adiposo e o muscular, enquanto os demais serão captados pelo figado, metabolizados e eliminados. 2.1 Degradação de ácidos graxos Uma reação de oxidação é aquela que envolve transferência de elétrons entre os componentes: quem doa elétrons é aquele que se oxida e o receptor de elétrons é aquele que se reduz. Sendo assim, o que é a oxidação dos ácidos graxos? A estrutura da molécula do ácido graxo é TAG = 3 ácidos graxos + 1 glicerol. Ao sofrer oxidação, a energia será liberada e transformada em acetil-CoA (que vai entrar no ciclo de Krebs), NADH e FADH2 (que entram na fosforilação oxidativa para formação de ATP, ou seja, energia). Pensando que as principais fontes de ácidos graxos podem ser os triacilgliceróis da dieta e os armazenados no tecido adiposo, existem algumas possibilidades para aproveitá-los como fonte de energia. No caso dos provenientes da dieta, eles só serão usados e produzirão energia quando a alimentação for rica em gorduras e pobre em carboidratos, caso contrário, o organismo “prefere” usar como fonte de energia os carboidratos e vai acabar armazenando os lipídios (DALPAI, 2018). Portanto, existem três estágios de processamento importantesque definem como se pode ter acesso às reservas lipídicas para obter energia: • Os lipídios precisam ser mobilizados e, dentro desse processo, são degradados a ácido graxo e glicerol, sendo que cada um deles vai ser levado para o tecido que precisa de energia; • Nos tecidos, os ácidos graxos precisam ser ativados e levados para dentro das mitocôn- drias para ser possível sua degradação e utilização como energia; • Esses ácidos graxos têm como destino a β-oxidação, onde são degradados até a etapa 67 de acetil-CoA, dentro da mitocôndria celular, o qual vai ser processado no ciclo do ácido cítrico. A oxidação dos ácidos graxos é regulada por alguns hormônios, principalmente insulina, glucagon, adrenalina e cortisol. Os últimos três induzem a lipólise (quebra de gordura), enquanto a insulina é responsável por formar mais tecido adiposo. Quando o glucagon (que é liberado em jejum), o cortisol (hormônio do estresse) e a adrenalina encontram-se em alta concentração na corrente sanguínea, ocorre lise de gorduras e liberação de ácidos graxos pelo tecido adiposo. Eles são, então, transportados pela albumina para os tecidos que os oxidam (fígado, coração e músculos esqueléticos) (DALPAI, 2018). Quando entram nas células hepáticas, os ácidos graxos podem ser oxidados tanto dentro das mitocôndrias (onde ácidos graxos de cadeia curta e média entram por difusão passiva), quanto nos peroxissomos (onde os ácidos graxos de cadeia muito longa são convertidos em cadeia longa). Porém, para conseguir entrar na membrana mitocondrial interna, os ácidos graxos de cadeia longa precisam primeiro passar por um processo de ativação em uma reação com a coenzima A no citoplasma sendo transformados em acil-CoA e, depois, precisam de um transporte especial, o sistema transportador da carnitina (DALPAI, 2018). Mas, então, os organismos só querem glicose para metabolizar? O que ocorre no jejum? No jejum atuam novos componentes: os corpos cetônicos, que são produzidos pelo fígado, depois da oxidação dos ácidos graxos. O fígado quando usa os ácidos graxos e libera os corpos cetônicos na corrente sanguínea para que outros tecidos possam produzir ATP. Um ponto importante é a enfermidade chamada diabetes mellitus, doença relacionada com a deficiência relativa ou completa de insulina. Na cetoacidose diabética, um estado metabólico que o paciente diabético, geralmente do tipo 1, pode desenvolver quando sua doenca não está controlada, há falta de insulina. Consequentemente, a glicose não vai conseguir entrar nas células para formar energia. Logo, o corpo age como se estivesse em jejum e comeca a oxidar os ácidos graxos e a produzir corpos cetônicos. 68 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 2.2 Biossíntese de ácidos graxos Existe uma grande diferença entre oxidação e síntese dos ácidos graxos. Elas ocorrem em compartimentos celulares diferentes e são bem reguladas. A β- oxidação ocorre na mitocôndria e a síntese ocorre no citoplasma. Além disso, a síntese gasta energia ao oxidar o NADPH a NADP+, enquanto que a oxidação produz NADH e FADH2. O que existe em comum entre elas é o acetil- CoA (DALPAI, 2018). Os ácidos graxos são formados a partir de acetil−CoA proveniente, quase totalmente, da glicose da dieta e ingerida além das necessidades imediatas de energia e da capacidade de armazenar glicogênio. A síntese ocorre principalmente no tecido adiposo, no fígado e nas glândulas mamárias de animais em lactação (DALPAI, 2018). Para tanto, a síntese de ácidos graxos é feita em dois passos principais. Primeiramente, há a síntese da enzima malonil-CoA pela acetil-CoA carboxilase (ACC), que é o principal local de regulação da via e que precisa de ATP, biotina e CO2 para reagir. Além disso, para o bom funcionamento dessa enzima também existe a necessidade de uma modificação na estrutura conformacional da enzima: o citrato induz uma conformação que ativa a síntese de malonil-CoA, enquanto os ácidos graxos de cadeia longa inibem a via e também há a necessidade de controle hormonal da ACC, cuja ação acaba sendo estimulada pela insulina e inibida pela adrenalina (DALPAI, 2018). De acordo com Motta (2011), a biossíntese de ácidos graxos vai começar com o que sobrou da glicólise e da formação do glicogênio. Sendo assim, quando a demanda por ATP é baixa, a energia contida na acetil-CoA mitocondrial pode ser estocada como forma de gordura pela síntese de ácidos graxos. Em humanos, essa biossíntese ocorre principalmente no fígado e glândulas mamárias e secundariamente nos adipócitos e rins. 69 A síntese de ácidos graxos acontece no citoplasma, para onde deve ser transportada a acetil- CoA formada na mitocôndria. Porém, a acetil-CoA formada nas mitocôndrias não vai se difundir facilmente para o citosol. Para atravessar as membranas, ela passa na forma de citrato, o qual é produzido a partir da condensação de um composto chamado oxaloacetato e acetil-CoA no ciclo do ácido cítrico. Dessa forma, se faz o transporte de acetato mitocondrial para o citosol da célula (MOTTA, 2011). O segundo grande passo dessa divisão na biossíntese de ácidos graxos, de acordo com Dalpai (2018), é que, ao depois que o ácido palmítico (uma cadeia linear saturada com 16 átomos de carbono) se forma, outros ácidos graxos também podem ser formados. Esse processo ocorre da seguinte maneira: • Uma unidade de 2 carbonos é ativada formando o malonil-CoA; • O malonil-CoA vai sofrer ação da enzima ácido graxo sintase (FASN), produzindo o ácido palmítico, vulgarmente conhecido como palmitato; • O palmitato passa por um processo de alongamento da cadeia ou formação de outras insaturações para produzir outros ácidos graxos. Esse processo de alongamento da cadeia vai ocorrer nas mitocôndrias e no retículo endoplasmático, sendo que requerem NADPH como cofator, assim como para as reações catalisadas pela enzima ácido graxo sintase. No entanto, não é qualquer ácido graxo pode ser produzido a partir de palmitato. Isso porque as enzimas não conseguem produzir insaturação para além da posição de carbono 9, fazendo com que as células não consigam sintetizar linoleato ou linolenato. É assim que ocorrem os chamados ácidos graxos ditos como essenciais, os quais devem ser consumidos a partir da dieta. Desta forma, esse processo acontece quando o gasto de energia diminui e os depósitos de glicogênio estiverem em nível máximo no fígado. Então, o excesso de glicose acaba sendo desviado para a via de síntese de lipídios, catalisando a acetil-CoA, que utilizada para a síntese de ácidos graxos que formarão triacilglicerois. Estes serão transportados como lipoproteínas de baixa densidade (VLDL) e, finalmente, armazenados no tecido adiposo. De acordo com Nelson e Cox (2014), a enzima ácido graxo sintase é a principal da biossíntese de ácidos graxos. Trata-se de um complexo enzimático multifuncional homodimérico capaz de sintetizar ácidos graxos de cadeia bem longa, como o palmitato com 16 carbonos, através da inicialização com acetil-CoA, o malonil-CoA como doador de dupla de carbonos e NADPH como equivalente redutor. A enzima ácido graxo sintase de mamíferos consiste em uma única cadeia multifuncional, 70 com múltiplos sítos ativos, onde o domínio da β-cetoacil sintase está localizado na terminação-N e é o único com atividade enzimática. O complexo multifuncional aumenta a eficiência da síntese de ácidos graxos e diminui a interferência de reações de competição no citosol. A formação das cadeias dos ácidos graxos se dá por uma sequência repetitiva de reações com quatro passos. O que acontece é que, basicamente, o grupo acila saturado produzido durante essas reações acaba se transformando no substrato de uma nova condensação com o grupo malonil ativado. Cada uma das passagens através do cliclo aumenta a cadeia do grupo acil graxo de dois átomos de carbono. Quando o comprimento da cadeia atinge 16 carbonos, o produto formado, no caso o palmitato, abandona o ciclo (NELSON; COX, 2014). Os quatro passos são:Etapa 1 (Condensação e Claisen clássica) envolve os grupos acetila e malonila ativados, formando acetoacetil-ACP, grupo acetoacetil ligado à ACP pelo grupo -SH da fosfopanteteína; simultaneamente, uma molécula de CO2 é produzida. Nesta reação, catalisada pela b-cetoacil-ACP-sintase, o grupamento acetil é transferido do grupo - SH da Cys da enzima para o grupo malonila ligado ao grupo -SH da ACP, tornando- se a unidade de dois carbonos metil-terminal do novo grupo acetoacetila. O carbono formado naquele CO2 formado é o mesmo átomo de carbono que foi originalmente introduzido a partir do HCO3 pela reação da acetil-CoA carboxilase. Sendo assim, a ligação covalente do CO2 durante a biossíntese dos ácidos graxos é apenas transitória e acaba removida após a adição de dois carbonos na cadeia (NELSON; COX, 2014). Etapa 2 (Redução do grupo carbonila) o acetoacetil-ACP formado na etapa anterior sofre agora redução do grupo carbonil na posição do carbono 3. Essa reação é catalisada pela b-cetoacil-ACP-redutase (KR) e o doador de elétrons é o NADPH (NELSON; COX, 2014). Etapa 3 (Desidratação) é onde as moléculas de água são removidos dos carbonos C-2 e C-3 da D-b-hidroxibutiril- ACP, formando uma ligação dupla no produto, trans-Δ2-butenoil-ACP. A enzima que catalisa essa desidratação é a b-hidroxiacil-ACP-desidratase (DH) (NELSON; COX, 2014). Etapa 4 (Redução da dupla ligação) se dá na dupla ligação do trans-Δ2-butenoil-ACP, onde ela acaba ficando saturada para formar butiril-ACP pela ação da enoil-ACP redutase (ER), e perceba que novamente o NADPH é o doador de elétrons (NELSON; COX, 2014). 71 Neste sentido, é possível perceber que, sem processos de catálise, as reações químicas fisiológicas do organismo não ocorreriam de maneira correta e não haveria vida sustentável. As enzimas fisiológicas têm um poder catalítico extraordinário, e estão envolvidas em muitos processos biológicos importantes, além de fornecerem subsídio para diagnóstico de doenças também. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3 VIA DAS PENTOSES-FOSFATO Os carboidratos são as biomoléculas mais abundantes na natureza, sendo consideradas como fontes universais de nutrientes para as células humanas e animais. A glicose é o carboidrato mais importante. Assim, existem diferentes vias que a glicose pode ser degradada ou armazenada e que precisam estar em constante regulação e atividade para que o organismo esteja saudável. A glicólise transforma a glicose em duas moléculas de piruvato (ou lactato) posteriormente, degradado para a produção de energia. O glicogênio (forma de armazenamento da glicose nos mamíferos), então, é sintetizado pela glicogênese e as suas reações transformam a grande molécula de glicogênio em glicose. É também possível sintetizar glicose a partir de precursores que não possuam características de carboidratos, através de um processo chamado gliconeogênese. Além disso, há ainda a alternativa da via das pentoses-fosfato, que converte a glicose em ribose-5-fosfato, molécula de açúcar usado para síntese de material genético (ácidos nucleicos e nucleotídeos) e outros tipos de monossacarídeos, e também produz um fator importante: o NADPH, um importante agente redutor celular. De acordo com Nelson e Cox (2014), na maioria dos tecidos animais, o principal destino catabólico da glicose-6-fosfato é ser degradado pela via glicolítica até formação de piruvato, 72 cuja maior parte acaba sendo oxidada pelo ciclo do ácido cítrico, formando energia como ATP. No entanto, a glicose-6-fosfato pode ter outros destinos catabólicos, que produzem cofatores importantes e necessários para outros processos celulares. Trata-se da oxidacao da glicose-6- fosfato até pentoses-fosfato pela via das pentoses-fosfato, que também é chamada de via do fosfogliconato ou via da hexose-monofosfato. Diferente da via glicolítica, essa via produz NADPH e aí é que está sua relação com a síntese de ácidos graxos. Isso porque precisa de NADPH para que possa ocorrer a biossíntese de ácidos graxos e esteroides e manter a integridade membranar dos eritrócitos (NELSON; COX, 2014). A via das pentoses é uma via citoplasmática, anaeróbica ocorrendo no fígado, glândulas mamarias, tecido adiposo e nas hemácias. E ela ocorre em duas etapas: a fase oxidativa (onde ocorre a produção de pentoses) e a fase não oxidativa (onde ocorre a interconverção de pentoses intermediários da via glicolítica). Fase oxidativa a primeira reação da via da pentose fosfasto é a oxidação da glicose-6-fosfato pela glicose-6- fosfato desidrogenase, para formar 6-fosfoglicono-d -lactona, sendo que o NADP+ é o receptor de elétrons e assim se forma o equivalente redutor NADPH. A lactona é hidrolisada a ácido livre 6-fosfogliconato por uma lactonase específica, e forma a cetopentose ribulose-5-fosfato, e com isso essa reação forma uma segunda molecula de NADPH. Fase não-oxidativa uma vez que se forma a ribulose-5-fosfato, 3 moléculas delas são necessárias para a via seguir. Duas de suas moléculas acabam formando a xilulose-5-fosfato por meio de uma enzima chamada 3-epimerase, sofrendo um processo conhecido como epimerização. A outra ribulose restante, sofre ação da ceto-isomerase e forma ribose-5-fosfato, podendo formar DNA ou RNA. Além disso, essa molécula de ribose-5-fosfato pode reagir com uma das xiluloses e com ajuda da enzima transcetolase forma duas moléculas: gliceraldeído-3-fosfato e sedoheptulose-7-fosfato, as quais podem reagir e formar frutose-6-fosfato e eritrose-4-fosfato pela enzima transaldolase, para dar origem à glicose-6-P. 4 REGULAÇÃO DA VIA DAS PENTOSES A via das pentoses vai acontecer variando de acordo com tecido, sendo mais intensa em tecidos que ativam ácidos graxos, como o fígado e tecido adiposo. Mas, então, como o organismo decide se utiliza a glicose6-fosfato pela via da glicólise ou pela via das pentoses? Quando a carga energética das células é alta, a via das pentoses acaba sendo favorecida e 73 preferida do que a via da glicólise e o consumo de glicose-6-fosfato se dá por ela. Sendo assim, segundo Nelson e Cox (2014) a via das pentoses é ativa quando as taxas glicêmicas são altas e os altos níveis de de insulina levam, no tecido adiposo, ao aumento da permeabilidade à glicose e, no fígado, à uma intensa síntese de glicocinase. Assim sendo, a síntese de ácidos graxos é favorecida nessas duas condições, que também é estimulada pela insulina. Então, a entrada de glicose-6-P na via glicolítica ou na via das pentoses-fosfato é basicamente determinada pelas concentrações relativas de NADP+ e NADPH. 5 METABOLISMO DO GLICOGÊNIO Em todos os organismos, desde as bactérias mais simples até as plantas, existe uma forma mais eficiente e compacta de armazenamento de energia por meio do glicogênio. Basicamente, esses organismos convertem o excesso de glicose em formas poliméricas, que é o glicogênio (NELSON; COX, 2014). De acordo com Dalpai (2018), a molécula de glicogênio é um polímero de resíduos de glicose formado por ligações glicosídicas alfa-1,4 e alfa-1,6. Nos vertebrados, essa molécula se encontra no fígado e nos tecidos musculares, sendo que o fígado possui o maior teor de glicogênio quando comparado ao músculo. Dalpai (2018, p. 83) chegou a citar algumas vantagens: • a energia liberada a partir de glicogênio é mais répida que a liberada a partir de gordura; • em células musculares, há necessidade de uma fonte rápida de energia - assim, o uso da glicose armazenada em forma de glicogênio permite que ocorra o metabolismo anaeró- bio, o qual é mais rápido que o metabolismo dependente de O ; • o glicogênio armazenado no fígado permite a manutenção dos níveis de glicose no san- gue, a fim de que essa glicose seja usada no cérebro, por exemplo, em períodos de jejum, o que não pode ser fornecido da mesma forma por gordura. Mas, então, quais as principais diferenças entre o glicogênio armazenado nos músculos e o no fígado? De acordo com Dalpai (2018), a forma de armazenamento de glicogêniomuscular não fica disponível para os outros tecidos, isso porque o músculo não possui a enzima glicose-6-fosfatase, a qual retira uma molécula de fosfato da glicose. E quando a glicose se encontra ligada ao fosfato, ela não consegue sair da célula muscular. Assim, quando o glicogênio é “quebrado”, ele só é usado pelo próprio músculo porque encontra-se na forma fosfatada. Em contrapartida, o fígado (que possui a enzima responsável por tirar um fosfato da glicose) permite a liberação da glicose desfosfatada para a corrente sanguínea, contribuindo para o uso 74 comum de outros tecidos quando não há glicose disponível. É o que acontece, por exemplo, nos períodos entre refeições ou em jejum, que mantém a glicemia dentro dos parâmetros adequados para o organismo. 5.1 Regulação do glicogênio O processo de regulação do glicogênio é muito bem regulado no organismo, mas, ao mesmo tempo, também é um tanto complexo. Isso porque acontece de forma alostérica e por meio de controle hormonal, focando sempre em fosforilação e desfosforilação de proteínas. Por ser inteligente, o metabolismo evita um ciclo contínuo desnecessário de produção e degradação de glicogênio simultâneo. Por isso, as células desenvolveram várias formas de controlar essas vias para que ocorram uma de cada vez só: por meio da degradação (glicogenólise) e da síntese (glicogênese). Glucagon, cortisol, adrenalina e noradrenalina são os principais hormônios que estimulam a glicogenólise, ou seja, a quebra do glicogênio e inibem simultaneamente a glicogênese (síntese de glicogênio). A insulina, por sua vez, estimula a glicogênese enquanto inibe a glicogenólise (DALPAI, 2018). Na degradação de glicogênio (glicogenólise), a catalisação principal desse processo é a enzima glicogênio fosforilase. Outro ponto importante é saber que nos músculos e no fígado, as unidades de glicose das ramificações externas do glicogênio entram na via glicolítica pelo trabalho de três enzimas principais: • Glicogênio-fosforilase; • Enzima de desramificação do glicogênio; • Fosfoglicomutase. O glicogênio-fosforilase remove os resíduos de glicose das ligações alfa-1,4 de dentro das moléculas de glicogênio. O produto formado é a glicose-1-fosfato, ou seja, glicose fosforilada. E aí é que entra a atuação da enzima fosfoglicomutase, convertendo a glicose-1-fosfato em glicose-6- fosfato. No músculo, essa molécula é usada via glicolítica e serve como fonte de energia para as contrações musculares. No fígado, porém, devido à ação da enzima glicose-6-fosfatase, é possível formar glicose livre para manutenção dos níveis de glicemia sanguíneos (DALPAI, 2018). A enzima glicogênio-fosforilase não consegue remover os resíduos de glicose nos pontos de ramificação onde existem ligações alfa-1,6. Nesse ponto atua a enzima glicosidase. Já na glicogênese, para formar um novo glicogênio, precisa-se que o primeiro resíduo de glicose seja fosforilado pela ação da enzima hexocinase ou glicocinase em glicose-6-fosfato (G6P). Essa molécula, glicose-6-fosfato vai ser convertida em glicose-1-fosfato pela enzima fosfoglicomutase. 75 Mas então, como inicia-se uma nova molécula de glicogênio? Pela ação da importante e intrigante proteína glicogenina (que é, ao mesmo tempo, o iniciador e sobre a qual acabam sendo montadas as novas cadeias) é possível encontrar o centro da molécula de glicogênio. A glicogenina tem uma propriedade consegue catalisar sua própria glicosilação, adicionado ao carbono C-1 da molécula UDP-glicose um resíduo de tirosina. A glicose ligada à esse resíduo de tirosina serve como um iniciador requerido pela enzima glicogênio sintetase. A glicogênio sintetase vai alongar a cadeira de glicogênio, anexando novas moléculas de glicose adicionais à molécula de glicogênio que está sendo formado (DALPAI, 2018). 6 CONTROLE HORMONAL DO METABOLISMO O organismo fisiológico é regulado através de ações combinadas de insulina, glucagon, adrenalina e cortisol sobre muitos processos metabólicos em muitos tecidos, mas principalmente no fígado, nos músculos e no tecido adiposo. De acordo com Nelson e Cox (2014), a insulina vai sinalizar para os tecidos que a glicose sanguínea está mais alta do que o necessário e como resultado, as células vão captar o excesso de glicose do sangue e convertê-la em glicogênio e triacilgliceróis para armazenamento. Em contrapartida, temos o hormônio glucagon, que sinaliza quando a glicose sanguínea está muito baixa, e os tecidos respondem produzindo glicose pela degradação do glicogênio, pela gliconeogênese (no fígado) e pela oxidação de gorduras para reduzir o uso da glicose. A adrenalina (hormônio de “luta e fuga”) é liberada no sangue quando é necessário preparar os músculos, pulmões e coração para um grande aumento de atividade. No tecido adiposo, mobiliza os ácidos graxos. FIQUE DE OLHO Quem descobriu o metabolismo do glicogênio foi o casal de cientistas pesquisadores Carl Cori e Gerty Cori. Ambos se formaram em medicina na Europa no final da I Guerra Mundial e descobriram sobre esse importante processo fisiológico entre 1925 e 1950. Nos seus estudos sobre a origem e o destino do glicogênio muscular nos animais, os Cori demonstraram que existia conversão do glicogênio em lactato no tecido, o deslocamento do lactato pelo sangue para o fígado, e sua reconversão em glicogênio – rota que se tornou conhecida como o Ciclo de Cori. Eles identificaram o produto dessa reação e o nomearam de o “ester de Cori”, o que seria a molécula de glicose-1-fosfato e mostraram que esse produto poderia voltar como glicogênio pela reação inversa (NELSON; COX, 2014). 76 O hormônio cortisol (hormônio do estresse) é responsável por mediar a resposta corporal a estressores de longa duração. No tecido adiposo, acina a liberação de ácidos graxos e nos músculos ativa a quebra de proteínas para que os aminoácidos sejam liberados para serem usados para formar a glicose. Essas regulações hormonais ocorrem no contexto de três estados metabólicos normais: • Alimentado; • Em jejum; • Em inanição. 6.1 Estado alimentado Segundo Dalpai (2018), o que acontece fisiologicamente no estado alimentado é: 1) Glicose + triacilgliceróis (na forma de quilomícrons) + aminoácidos são absorvidos no intestino delgado; 2) Como resposta, os níveis de insulina aumentam e os de glucagon diminuem; 3) No fígado a glicose é convertida em acetil-CoA para ir ao ciclo de Krebs ou ser transformada em triacilgliceróis; 4) As reservas de glicogênio são regeneradas no fígado; 5) A glicose é usada como fonte energética aeróbia no cérebro; 6) As hemácias usam a glicose na via anaeróbia, pois não contêm mitocôndrias; 7) Nos músculos a glicose regenera as reservas de glicogênio e pode formar acetil-CoA para ser usada no ciclo de Krebs; 8) Os quilomícrons formados na absorção de lipídios e o VLDL formado no fígado vão até o tecido adiposo para o armazenamento na forma de triglicerídios; 9) Os aminoácidos absorvidos no intestino sintetizam as proteínas nos tecidos. Os aminoácidos também são convertidos em heme para formar hemoglobina e em outros cofatores, sendo o restante degradado para formar ATP no ciclo de Krebs. 6.2 Estado de jejum (entre refeições) Já entre refeições, o que acontece fisiologicamente, segundo Dalpai (2018), é: 77 1) Cerca de uma hora após a refeição, a glicemia e a insulina começam a cair; 2) Glucagon estimula a glicogenólise para manter a glicemia, que dura em torno de 30 minutos; 3) Simultaneamente, há ativação da gliconeogênese a partir de lactato, alanina e glicerol; 4) Em seguida, começa o catabolismo de aminoácidos que gera amônia, a qual é convertida em ureia no fígado, para que seja excretada pelos rins; 5) Os ácidos graxos são oxidados pelos músculos, incluindo-se o coração; 6) No fígado, os ácidos graxos são transformados em corpos cetônicos, os quais são liberados no sangue para que sejam usados pelos diversos tecidos extra-hepáticos, deixando a glicose para o cérebro e para as hemácias.6.3 Estado de jejum prolongado Já no jejum prolongado, Dalpai (2018) enumera: 1) A glicemia está baixa, assim como a insulina. Os níveis de glucagon estão elevados; 2) Triacilgliceróis são metabolizados do tecido adiposo em glicerol e ácidos graxos; 3) Os ácidos graxos no fígado são convertidos a acetil-CoA e, consequentemente, em corpos cetônicos, os quais podem ser usados pelo cérebro; 4) O glicerol sofre gliconeogênese no fígado e forma glicose e a glicose produzida no fígado serve para alimentar o cérebro e as hemácias; 5) No cérebro a glicose é transformada em acetil-CoA e é usada na via aeróbia, enquanto nas hemácias a glicose é usada na via anaeróbia e forma lactato, o qual pode ser convertido posteriormente no fígado em glicose; 6) A proteína muscular é quebrada em aminoácidos para produzir glicose no fígado, via gliconeogênese. A amônia produzida será transformada em ureia, para ser excretada pelos rins; 7) Os ácidos graxos liberados no tecido adiposo também podem ser usados pelos músculos para formar acetilCoA e produzir ATP. 78 7 METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS E CICLO DA UREIA De acordo com Guerra (2011), sabe-se que as plantas e as bactérias sintetizam todos os 20 aminoácidos comuns conhecidos. Já os mamíferos conseguem sintetizar apenas a metade, enquanto a outra metade (aminoácidos essenciais) precisam estar presentes na dieta alimentar. Figura 4 - Aminoácidos essenciais e não essenciais Fonte: extender01, Shutterstock (2020). #ParaCegoVer: A imagem mostra estrutura química dos 20 aminoácidos, divididos de acordo com suas características comuns de não polaridade, acidez, basicidade e polaridade. 79 De acordo com Dalpai (2018), o organismo não pode armazenar, na forma de proteínas, os aminoácidos que não são usados e por esse motivo. Por isso, eles precisam ser metabolizados. Nesse processo de metabolismo dos aminoácidos, há a necessidade de remover os grupos amino, enquanto as cadeias carbônicas formam glicose ou corpos cetônicos. Esses processos de remoção do grupo amino se chamam transaminacao e desaminação. Com a remoção dos grupos amino, os aminoácidos sao transformados em alfa-cetoácidos, como por exemplo: • aspartato –> oxaloacetato • alanina –> piruvato • glutamato –> alfa-cetoglutarato Os aminoácidos são degrados oxidativamente no fígado e, em menor grau, nos rins. Todos os aminoácidos sofrem transaminação para se transformarem em glutamato, exceto a lisina e treonina. Esses dois aminoácidos sofrem desaminação direta pela enzima L-aminoácido oxidade. Depois de sofrerem transaminação ou desanimação, o nitrogênio dos grupos aminos (NH3) formados nos tecidos são levados para o fígado na forma predominantemente de glutamina (que seria a junção do glutamato com o NH3). Quando no fígado, o grupo amino é convertido em amônio (NH4+) e aspartato, porém esse amônio é tóxico e precisa ser convertido em ureia pelo ciclo da ureia, para ser eliminado na urina (DALPAI, 2018). Segundo Motta (2011), a ureia é um composto neutro, não−tóxico, altamente solúvel e excretado pela urina, sendo o principal produto de excreção do excesso de nitrogênio proveniente do catabolismo dos aminoácidos no homem. Quando há uma porcentagem normal de ingesta de proteínas, a ureia constitui 80% dos produtos nitrogenados da urina. Porém, outros produtos são ainda encontrados na urina: ácido úrico,creatinina, íons amônio e outras formas menores de compostos nitrogenados. A síntese de ureia é realizada no fígado por cinco reações (duas mitocondriais e três citosólicas) no chamado ciclo da ureia. Segundo Nelson e Cox (2014, p. 704), “essa via foi descoberta em 1932 por Hans Krebs e seu colaborador Kurt Henseleit, estudante de medicina. A produção de ureia ocorre quase exclusivamente no fígado”. O processo de produção da ureia envolve cinco etapas enzimáticas principais: o ciclo da ureia vai iniciar dentro da mitocôndria do fígado, enquanto três das outras etapas vão acontencer no citosol. Segundo Nelson e Cox (2014), o primeiro grupo amino que entra no ciclo da ureia é derivado da amônia na matriz mitocondrial. Portanto, de qualquer que seja a fonte de NH4+, a molécula vai ser utilizada imediatamente, juntamente com o CO2 (como HCO3-) produzido pela respiração mitocondrial, para formar carbamoil-fosfato na matriz. Importante saber que todo esse processo é dependente de ATP, sendo catalisado pela carbamoil- fosfato-sintetase I, a qual é uma enzima regulatória importante. Nelson e Cox (2014) dividiram o ciclo da ureia em quatro passos principais: 80 • Formação de citrulina a partir de ornitina e carbamoil-fosfato (entrada do primeiro grupo amino), a citrulina passa para o citosol; • Produção de arginino-succinato, via um intermediário citrulil-AMP (entrada do segundo grupo amino); • Formação da arginina a partir do arginino-succinato; essa reação libera fumarato, que entra no ciclo do ácido cítrico; • Formação de ureia; esta reação também regenera a ornitina. Mas, então, o que acontece no ciclo da ureia? Os precursores de NH4+ e o aspartato serão metabolizados para formar ureia gastando 4 moléculas de ATP. Basicamente, a ornitina combina- se com a amônia, na forma de carbamoil-fosfato, para formar a molécula de citrulina. Um segundo grupo amino vai ser transferido para a citrulina a partir do aspartato, para formar a molécula de arginina, a qual é precursora imediata da ureia. A arginase catalisa a hidrólise da arginina em ureia e ornitina; assim, a ornitina é regenerada e volta pro começo do ciclo. E o que pode acontecer se o organismo falhar e o ciclo da ureia não se suceder de maneira correta? Quando isso ocorre acontece a chamada falência hepática, pois o fígado não consegue realizar o metabolismo correto e a concentração de amônio aumenta muito no sangue. Sabendo que a molécula de amônio é altamente tóxica, ela pode causar muitas complicações à saúde humana e animal. Ocorre um distúrbio neuropsíquico chamado de encefalopatia hepática, pelo acúmulo de amônio no sangue. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 81 8 VÍNCULO ENTRE O CICLO DA UREIA E O CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO Segundo Nelson e Cox (2014), os ciclos da ureia e do ácido cítrico estão interconectados e têm sido denominados como bicicleta de Krebs. As vias que unem o ciclo do ácido cítrico ao ciclo da ureia são chamadas de lançadeira do aspartato-arginino-succinato e são responsáveis por unir efetivamente os destinos dos grupos amino e dos esqueletos de carbono dos aminoácidos. Algumas enzimas do ciclo do ácido cítrico, como a fumarase e a malato-desidrogenase, por exemplo, apresentam isoenzimas citosólicas e mitocondriais. Portanto, sabendo que o ciclo da ureia converte oxaloacetato em fumarato, e ambos são intermediários do ciclo do ácido cítrico, os dois ciclos encontram-se interconectados. 82 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • compreender e entender sobre os aspectos estruturais e funcionais das biomolécu- las importantes para o metabolismo; • conceituar e delinear os nuances do metabolismo de ácidos graxos, glicogênio e aminoácidos; • entender os processos de regulação e interconexão entre o metabolismo de cada biomolécula no organismo; • delinear e conceituar as principais características e reações envolvidas em cada processo fisiológico dessa unidade. PARA RESUMIR DAL PAI, Da. Bioquímica médica para iniciantes. Porto Alegre: Editora da UFCSPA, 2018. GONZÁLEZ, F. H. D.; SILVA, S. C. Introdução à bioquímica clínica veterinária. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003. GUERRA, R. et al. Cadernos Cb Virtual 2. João Pessoa: Ed. Universitária, 2011. HORTON, R. H., MORAN, L. A., SCRIMGEOUR, K. G., PERRY, M. D., RAWN, J. D. Princípios de bioquímica. 4 ed. New York: Pearson Prentice Hall, 2008. MOTTA, V. T. Bioquímica básica. Medbook: Rio de Janeiro, Brasil, 2011. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. Porto Alegre: Artmed, 2014. PELUSO, M. R. How are lipids stored in the body. 2018.Disponível em: . Acesso em: 18 mai. 2020. SANTANA, M. C. A. et al. Lipídeos: classificação e principais funções fisiológicas. REDVET. Revista Electrónica de Veterinaria, v. 18, n. 8, p. 1-14, 2017. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 4 Fotossíntese e ciclo do nitrogênio Você está na unidade Fotossíntese e Ciclo do Nitrogênio. Conheça aqui as etapas da fotossíntese, seus produtos, suas reações e enzimas para compreender, de forma abrangente, o impacto dessa via metabólica. Aprenda ainda como funciona o ciclo do nitrogênio, sua importância para a vida no planeta e como suas reações e microrganismos participam do processo. Bons estudos! Introdução 87 1 FOTOSSÍNTESE A palavra fotossíntese significa, literalmente, síntese pela luz. Com exceção da energia nuclear, todas as outras formas de energia usadas pelos seres humanos são provenientes do sol. A fotossíntese é um dos processos biológicos mais importantes, pois consome dióxido de carbono e libera oxigênio. Sendo assim, é possível dizer que o mundo se tornou habitável por meio da fotossíntese. A fotossíntese é o combustível necessário para a manutenção da diversidade de seres no planeta, uma vez que promove, de forma direta, a construção de plantas, algas e cianobactérias e, de forma indireta, a construção de outros organismos, sempre por meio de energia (RUSSO & MELLO, 2016) Em síntese, a fotossíntese é um processo pelo qual plantas e outros organismos, como algas e alguns protozoários, transformam a energia da luz solar em energia química que será utilizada para a produção de moléculas orgânicas. A fotossíntese é a principal responsável pela entrada de energia na biosfera. Figura 1 - O sol e o crescimento vegetal Fonte: Romolo Tavani, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra uma pequena muda de planta recendo luz solar. Segundo Russo & Mello (2016), no século XVII, um químico belga chamado Jan van Helmont (1579-1644) realizou um experimento onde mediu a massa de uma planta e do solo em que ela estava. Ao longo do experimento, ele foi acrescentando apenas água à planta e logo percebeu que, enquanto a planta aumentava sua massa, o solo não a perdia. Com isso, ele pode entender que o crescimento daquela planta não era proveniente da absorção de matéria oriunda do solo. 88 Mais tarde, outros estudiosos provaram que o crescimento da planta ocorria pela conversão da energia da luz em matéria. Os seres que fazem fotossíntese e conseguem fabricar moléculas grandes por meio de outros tipos de energia são chamados de autotróficos, como é o caso das plantas e das algas. Já aqueles que necessitam da luz do sol para conseguir produzir tais moléculas são os fotoautotróficos. Os animais que se alimentam de plantas, chamados de herbívoros, usam as plantas para construírem seu próprio corpo. Já os animais que se alimentam de outros animais, os carnívoros, caçam e alimentam dos animais herbívoros para obter energia. A essa transferência de energia entre os animais, e, posteriormente ao homem, damos o nome de cadeia alimentar. Isso significa dizer que, sem o processo de fotossíntese, não existiria tamanha diversidade biológica e o planeta seria composto apenas de microrganismos invisíveis a olho nu. Diferente das plantas, os animais, herbívoros e carnívoros, precisam se alimentar para obter macromoléculas. Por isso, são chamados de heterotróficos. Eles também necessitam de outro produto essencial do processo fotossintético: o oxigênio, que participa da quebra dos alimentos por meio do processo de respiração celular. Como já estudado anteriormente, é por meio do catabolismo, ou seja, da degradação de moléculas grandes, que os organismos conseguem energia. O cloroplasto, uma organela da planta, contém pigmentos, como a clorofila, que refletem e transmitem a luz verde que enxergamos nas plantas. A clorofila está situada na membrana dos tilacóides dos cloroplastos, local onde acontece a fotossíntese. 1.1 Importância da fotossíntese para a vida É por meio da alimentação que os indivíduos ingerem nutrientes a partir de alimentos de origem vegetal e animal, como proteínas, açúcares e gorduras. No organismo, essas moléculas atuam como estrutura para carbonos, que podem gerar energia para o corpo ou serem reutilizados na síntese de outros compostos. Como já estudado anteriormente, a respiração celular é o processo de geração de energia a partir da degradação de moléculas provenientes dos alimentos feita pelos seres aeróbicos. É pela respiração celular que o oxigênio, obtido da atmosfera, é usado para quebrar os nutrientes e gerar gás carbônico (que é eliminado pela expiração) e água. Os vegetais também utilizam FIQUE DE OLHO A forma como as plantas obtêm energia pode ser estudada e adaptada aos sistemas humanos para melhorar o aproveitamento da energia solar. A compreensão dos mecanismos de vida plantas podem auxiliar no desenvolvimento de novos tratamentos e medicamentos. 89 esse mecanismo de respiração celular para obter energia; porém, com uma diferença: enquanto os animais precisam se alimentar para ter energia, as plantas produzem as próprias moléculas orgânicas, por meio da fotossíntese, que serão degradadas na respiração celular. As plantas utilizam o oxigênio de seus próprios tecidos, produzido na fotossíntese (RUSSO & MELLO, 2016). A luz do sol e a fotossíntese são essenciais, pois, sem elas, não haveria a construção do corpo das plantas. Os seres que se alimentam de plantas, como seres humanos e animais, são tão dependentes da fotossíntese quanto as próprias plantas que participam diretamente dela (RUSSO & MELLO, 2016). O processo de fotossíntese ocorre quando há conversão de radiação eletromagnética em energia química. No caso, a energia luminosa é usada para converter dióxido de carbono e água em carboidratos e oxigênio, que são essenciais para a construção da vida. A fotossíntese utiliza um carbono da molécula de gás carbônico para fazer matéria orgânica e utiliza a luz como fonte de energia. A fotossíntese pode ser dividida em duas fases: Fase clara ou luminosa • depende da energia luminosa. Fase escura ou química • não depende da luminosidade em si, mas depende de produtos gerados na fase clara. A fórmula de conversão da fotossíntese é: 6 CO2 + 6 H2O + Luz solar → C6H12O6 + 6 O2 FIQUE DE OLHO Combustíveis utilizados em diversas partes do mundo como carvão, gás natural, lenha e até mesmo o petróleo têm algo muito importante em comum. A energia presente nestes vieram, por meio da fotossíntese a partir do sol. Se o homem é capaz de compreender e controlar o processo de fotossíntese, pode então aumentar a produtividade não só de combustíveis, mas de alimentos, fibras e madeira, além de fazer melhor uso de áreas cultiváveis. 90 2 ESTRUTURAS DAS PLANTAS E SUAS FUNÇÕES As plantas são compostas por diferentes estruturas que também apresentam diferentes papéis no processo fotossintético. São elas: Cloroplastos possuem aproximadamente 5 μm de comprimento e, assim como uma mitocôndria, possui uma membrana externa e uma membrana interna, com um espaço intermembrana de permeio. Estroma é circundado pela membrana interna do cloroplasto, onde ocorrem as reações da fase escura da fotossíntese. Tilacóides são sacos achatados presentes no interior do estroma, local onde ocorre a etapa clara da fotossíntese. Grana ou granum é formada pelos sacos tilacóides que vão se “empilhandos” e se conectando por regiões de membrana tilacóide, que recebem o nome de lamelas do estroma. Pigmento fotorreceptores absorvem a luz e retêm energia luminosa. O principal fotorreceptor nos cloroplastos de plantas verdes é a clorofila A. Estômatos são pequenos poros presentes nas superfícies das folhas ou caules que permitem a troca gasosa com o ambiente e a transpiração da planta. Eles podem ser fechados ou abertos de acordo com a necessidade da planta. 91 Figura 2 - Estrutura de um cloroplasto Fonte: Aldona Griskeviciene, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer:A imagem mostra o “corte” de um cloroplasto e seus componentes internos, com suas membranas e os sacos achatados chamados tilacóides. É desta forma que os cloroplastos apresentam membranas externa, interna e tilacóide e três espaços separados (espaços intermembrana, estromal e tilacóide). Quando os cloroplastos estão em desenvolvimento, os tilacoides brotam da membrana interna. Portanto, eles são análogos às cristas da mitocôndria, já que é ali que ocorrem reações acopladas de oxidação-redução das reações de fase clara que geram a força próton-motriz. As membranas tilacoides contêm o maquinário de transformação de energia com proteínas que captam luz, centros de reação, cadeias transportadoras de elétrons e enzima ATP sintase. É aqui que ocorrem os efeitos primários ou iniciais do processo fotossintético (KERBAUY,2004). As tilacoide são compostas de lipídios e proteínas em quantidade quase idênticas. Ela é impermeável à maioria das moléculas e íons, assim como a membrana mitocrondrial interna. Já a membrana externa do cloroplasto permite a passagem de pequenas moléculas e íons. No estroma estão as enzimas solúveis que usam NADPH e ATP sintetizados pelas membranas tilacóides para transformar CO2 em açúcar. É neste sentido que a fotossíntese pode ser comparada com a fosforilação oxidativa. Na fosforilação oxidativa, o fluxo de elétrons ricos em energia por meio da cadeia transportadora de elétrons bombeia prótons para o exterior da matriz mitocondrial. Com isso, o excesso de prótons flui para a matriz por meio da enzima ATPsintase, o que gera ATP na matriz. Na fotossíntese, a transferência de elétrons bombeia prótons para o interior da tilacóide, assim o excesso desses prótons atravessa o lúmen com auxílio da ATPsintase e forma ATP no estroma. 92 3 FASE FOTOQUÍMICA OU FASE CLARA Na fase clara, ou fotoquímica, a energia da luz é transformada em duas formas de energia: • NADPH; • ATP. Os produtos da fase clara ou luminosa são, então, usados na fase escura para impulsionar a redução de CO2. É nesta etapa que ocorre a obtenção do gás carbono que servirá como fonte de carbono para fazer a matéria orgânica. Segundo Nelson & Cox (2014), para a etapa química, ou escura acontecer necessita de uma fonte de energia e de hidrogênios e elétrons provenientes da etapa clara - mais especificamente da molécula de H20 que é obtida nesta etapa e dos hidrogênios e elétrons para uma molécula chamada de NADP que, ao receber esses compostos, se converte em NADPH. Sabe-se que os processos de respiração e fotossíntese são quimicamente opostos, porém os princípios bioquímicos são bastante semelhantes. O ponto chave desses dois processos é a geração de elétrons ricos em energia. Por isso, é importante relembrar que no Ciclo de Krebs há conversão de fontes de carbono em CO2 para geração de elétrons ricos em energia. E é o fluxo desses elétrons que ao longo da cadeia de transportadora de elétrons gera uma força próton- motriz e por meio da enzima ATPsintase forma ATP. Assim, sem os elétrons ricos em energia não seria possível proporcionar a redução de CO2 a partir do poder de redução do NADPH, além disso não seria possível gerar ATP que também potencializa a redução. Uma das semelhanças de seus sistemas operacionais é que ambos os processos ocorrem em organelas com dupla membrana: mitocôndrias para a respiração celular e cloroplastos para a fotossíntese (BERG et al, 2014). Portanto, resumindo, é possível afirmar que a etapa clara vai produzir ATP e NAPDH para a etapa escura. O ATP atua como fonte de energia para a fase escura, e o NADPH como uma força redutora (pois é este composto que irá fornecer hidrogênios e elétrons para reduzir o gás carbônico). Na medida em que a etapa fotoquímica retira seus elétrons e hidrogênios da água, o que sobra é oxigênio. O que nos leva a concluir que o oxigênio produzido pela fotossíntese vem justamente da água. Como a etapa química consegue ATP e NAPDH ela devolve ADP e um NADP (KERBAUY, 2004). 93 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3.1 Componentes Antes de conhecer os detalhes sobre fluxos de elétrons, é preciso conhecer os componentes do transporte de elétrons presentes na membrana interna do cloroplasto, na ordem de funcionamento da cadeia transportadora. Segundo Poian et al. (2009), são eles: Fotossistema II (P680) • é um conjunto de pigmentos ligados a proteínas. Plastoquinona (PQ) • é uma quinona encontrada em grandes quantidades no cloroplasto de vegetais superiores. Citocromo bf • é um complexo proteico que recebe os elétrons da plastoquinona. Plastocianina (Pc) • é uma proteína integral de membrana. Fotossistema I (P700) • é um conjunto de pigmentos ligados a proteínas. Ferredoxina • é uma proteína ferro-enxofre solúvel, localizada no estroma do cloroplasto. NADP redutase • é a enzima que catalisa a reação. No caso, NADP → NADPH + H+, usando 2 e- e 2 H+ da FdH2 94 Portanto, como já estudado, cada estrutura da planta tem um papel no processo. As duas etapas ocorrem dentro de uma organela da planta chamada de cloroplasto, que é envolvido por uma membrana externa e uma membrana interna. O seu interior é chamado de estroma e possui compartimentos achatados denominados tilacóides. Esta, por sua vez, pode formar empilhamentos chamados de grana. Mas de que forma e onde cada etapa ocorre? A etapa clara ou fotoquímica ocorre nos tilacóides e seu ponto principal é a absorção da energia luminosa. Quando uma molécula absorve energia luminosa é chamada de pigmento. Neste caso, o pigmento de maior relevância para nosso estudo é a clorofila, que fica fixada na membrana da tilacóide com outros pigmentos (clorofila A, clorofila B, caroteno etc) que juntos dão origem ao chamado complexo da antena que faz parte do fotossistema (BERG et al, 2014). A conversão da energia luminosa em energia química ocorre no fotossistema, também chamado de transdução. Nesses pigmentos, a energia da luz é usada para excitar os elétrons, aumentando o seu nível de energia e dando passagem de energia luminosa para energia química. Imagine, por exemplo, que esse complexo da antena possua em seu centro um par de pigmentos clorofila A e, ao seu redor, outros pigmentos formando uma espécie de rede. Nos pigmentos mais externos, a presença da luz vai produzir excitação, o que aumenta sua energia e permite que ela seja transferida para os pigmentos seguintes, de fora para dentro, até que cheguem no par de clorofilas A que está no centro do fotossistema. É nele que ocorre a conversão de energia luminosa em química, pois é este par de pigmentos que dará sequencias às reações da fase fotoquímica. Segundo Nelson & Cox (2014), a etapa fotoquímica envolve dois fotossistemas: • Fotossistema I (P700); • Fotossistema II (P680). A partir do momento que os elétrons energizados pela luz chegam ao par de clorofila A no centro da reação serão transferidos para as proteínas da cadeia transportadora de elétrons, Os elétrons ricos em energia são aprisionados por um aceptor primário de elétrons - ferredoxina. A ferredoxina passa os elétrons para a plastoquinona. Daí os elétrons vão para um complexo de dois citocromos que doam seus elétrons para outra proteína, a plastocianina que os levarão até o Fotossistema I. Nesse percurso, os elétrons perderam energia ao fornecerem para produção de ATP. No fotossistema I, a luz volta a excitar o elétron o deixando então energizado. Esse elétron agora será transferido para uma enzima também presente na membrana da tilacóide chamada de NADP redutase e juntos irão produzir o NADPH. O NADPH carrega elétrons ricos em energia porque 95 foram energizados pela luz. Neste momento, o fotossistema II que perdeu elétrons precisa ser recompensado. A água, então, irá repor essa perda. E isso ocorre a partir da degradação da molécula de água, por meio do qual se obtêm elétrons, H+ e O2. O o2 é liberado para a fotossíntese e esse elétron é que vai repor a perda de elétrons do fotosssistema II. A estemecanismo damos o nome de fotofosforilação acíclica. Lembre-se que fosforilação é quando um fosfato é ligado a uma molécula. O fosfato se ligou ao ADP produzindo ATP (por meio da enzima ATPsintase, aquela mesma que estudamos na cadeia respiratória). Essa reação recebe o nome de acíclica pois o elétron que saiu do fostossistema II não retorna, só é reposto a partir da molécula de água. Como a etapa fotoquímica consome uma boa quantidade de ATP existe também a fotofosforilação cíclica, que só necessita da participação do Fotossistema I.A luz excita o elétron, que passa pela cadeia transportadora e retorna ao Fotossistema I. Quando ele passa pela cadeia transportadora bombeia H+ que é usado para produzir ATP. A etapa química ocorre no estroma e é nela que ocorre o chamado Ciclo de Calvin. 4 CICLO DE CALVIN Melvin Calvin descobriu o Ciclo de Calvin e demonstrou que é a principal rota de fixação do dióxido de carbono. Este ciclo ocorre no estroma do cloroplasto e é conhecido como etapa química ou escura da fotossíntese. Ele é análogo a outros ciclos metabólicos pois no final de cada volta no ciclo, o composto inicial é regenerado (BERG et al., 2014). Ciclo de Calvin, portanto, é o conjunto de reações da fotossíntese que ocorrem no estroma do cloroplasto na fase escura do processo. Ele está baseado em três etapas: • Fixação do carbono; • Redução do aceptor final; • Regeneração do aceptor final. FIQUE DE OLHO Sabendo que a fotossíntese afeta a composição atmosférica, compreender o ciclo do gás carbônico e de outros gases que causam o efeito estufa é fundamental para buscarmos alternativas que diminuam os efeitos maléficos ao clima e ao planeta como um todo. 96 Segundo Berg et al., (2014), este ciclo começa com três moléculas de gás carbônico que serão unidos a três moléculas de Ribulose 1,5 –bifosfato. Essa reação é catalisada pela enzima rubisCO (ribulose 1,5-Bisfosfato Carboxilase/Oxigenase) e faz formar a molécula de 3- fosfoglicerato. A rubisCO é a proteína mais abundante do planeta, ela organifica o carbono do gás carbônico, ou seja, ela utiliza carbono inorgânico e forma um composto orgânico que é o 3- fosfoglicerato. Segundo Poian et al. (2009), quando uma molécula de CO2 é incorporada ao 3-fosfoglicerato representa o processo de fixação de CO2 em si. As reações seguintes convertem o 3- fosfoglicerato em gliceraldeído 3-fosfato e isso acontece de uma forma similar à gliconeogênese, mas, aqui, as reações requerem NADPH e não NADH, como na gliconeogênese. Após serem formadas, as duas moléculas de 3-fosfoglicerato são convertidas a 1,3-bisfosfoglicerato (BPG). Esta reação é catalisada pela enzima fosfoglicerato quinase. A incorporação de um fosfato requer a hidrólise de uma molécula de ATP para cada BPG formado. Lembre-se que uma ribulose 1,5-bisfosfato, ao sofrer carboxilação, foi capaz de gerar duas moléculas de 3-fosfoglicerato. Ocorreu então o consumo de 2 ATPs por ciclo. Cada molécula de 1,3-bisfosfoglicerato formada pode ser convertida a gliceraldeído 3-fosfato (GAP). Essa reação será catalisada pela enzima gliceraldeído 3-fosfato desidrogenase (BERG et al., 2014). Neste caso, a enzima reoxida o NADPH produzido na fase clara. A etapa da fotossíntese conhecida como ciclo de Calvin, fase escura ou química se dá a partir da conversão de 3-fosfoglicerato em gliceraldeído-3fosfato e, posteriormente, em glicose. Neste ponto, uma molécula de CO2 foi incorporada e duas moléculas de G3P foram produzidas às custas de 2 ATPs e 2 NADPHs. Porém seis moléculas de CO2 são necessárias para gerar uma molécula de glicose (a glicose é uma molécula compostas por seis carbonos). O ciclo segue consumindo 6 moléculas de ATP e 6 moléculas de NADPH. Portanto, para Poian et al. (2009), as seis moléculas de CO2 irão formar 12 moléculas de 3-fosfoglicerato que, então, serão convertidas em doze moléculas de gliceraldeído 3P. O gliceraldeído 3P pode ser drenado do ciclo para uso em vias biossintéticas. Quando gliceraldeído 3-P é formado, ele pode ter dois destinos: • Produção de glicose; • Regeneração de ribulose 1,5-bisfosfato. As doze moléculas de gliceraldeído-3-fosfato podem seguir por diversas vias distintas e, portanto, ser substrato para a produção de várias moléculas orgânicas ou regenerar o aceptor inicial de CO2 (ribulose 1,5-bisfosfato). 97 No ciclo de Calvin entram três carbonos do gás carbônico pobres em energia e inorgânicos e saem três carbonos da molécula de gliceraldeído que é rica em energia e orgânica. No final do ciclo há, ainda, o consumo de 3 ATPs (Berg et al., 2014). No total, a cada giro foram consumidas 9 moléculas de ATP (das fotofosrilação aciclica e ciclica) e 6 de NADPH (a fotofosforilação acíclica) (NELSON & COX, 2014). Por isso não é exatamente correto afirmar que a etapa química pode acontecer no escuro, pois ela depende do ATP e do NADPH que são produzidos a partir da etapa fotoquimica que depende de luz. O Clico de Calvin, portanto, é responsável por: • Retirar elétrons pobre em energia da água; • Energizar os elétrons a partir da energia da luz; • Usar tais elétrons para produzir ATP e NADPH; • Usar o ATP e o NADPH para pegar o gás carbônico como fonte de carbono para produzir matéria orgânica. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 5 CICLO DO NITROGÊNIO O ciclo do nitrogênio é chamado de biogeoquímico por ser realizado no meio ambiente por um elemento essencial a vida e garantir a circulação do nitrogênio no ambiente e nos seres vivos. O nitrogênio é um nutriente utilizado por vários seres vivos do planeta, é fundamental para compor proteínas, ácidos nucleicos e outros componentes celulares. 98 Em sua forma orgânica, ele compõe os aminoácidos, peptídeos, proteínas, ácidos nucléicos (que dão origem ao DNA). Existe na natureza em muitos estados de oxidação, como, por exemplo, o NH3 (amônia) e o NO3. Porém, não é possível capturar o nitrogênio atmosférico através da respiração, como acontece com o oxigênio. O nitrogênio presente na atmosfera, chamado de N2, é inorgânico e precisa de seu ciclo para que possa se incorporar as moléculas do nosso organismo. As cianobactérias e alguns procariontes aeróbios, como o Rhizobium, o Azotobacter, o Beijerinckia e o Clostridium pasteurianum, são organismos fixadores de nitrogênio que utilizam o nitrogênio atmosférico para o seu metabolismo. Quando o nitrogênio é fixado é convertido em NH3, o composto conhecido como amônia (SILVA, et al., 2008). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: Embora presente na atmosfera em abundância, cerca de 78% do ar que os indivíduos inspiram é a sua forma química N2 que será de fato utilizada pelos seres vivos. Por isso, os microoganismos fixadores de nitrogênio atuam disponibilizando-o aos organismos que não possuem essa capacidade de fixação. Em ambientes onde existe pobreza de nutrientes orgânicos, a capacidade de fixação vira uma vantagem para esses microrganismos. Plantas leguminosas são beneficiadas quando associadas a bactérias fixadoras de nitrogênio. Dessa forma, os solos agrícolas perdem menos nutrientes nitrogenados e são mais férteis na presença desses seres. É possível afirmar, então, que o ciclo do nitrogênio é um ciclo biogeoquímico, pois disponibiliza esses elementos para os organismos vivos e depois os devolve ao meio ambiente para ser reutilizado futuramente. Neste ciclo há a participação de processos cruciais como:3 99 • Fixação do nitrogênio pelas bactérias; • Nitrificação; • Desnitrificação (conversão de nitrato em gás nitrogênio); • Decomposição da matéria orgânica e formação de amônio. O principal objetivo do ciclo do nitrogênio é permitir que ele circule meio físico e pelos organismos vivos. Na atmosfera é encontrado na forma gasosa e representa 78% dos gases que compõem esta camada. Porém como já vimos, mesmo que em abundância no ar, esse gás não é aproveitado pela maioria dos seres vivos, pois para ter relevância precisa ser fixado e incorporado a matéria. (SILVA et al, 2008)Vínculo entre o ciclo da ureia e o ciclo do ácido cítrico .....................................................................81 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................82 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................83 UNIDADE 4 - Fotossíntese e ciclo do nitrogênio ..............................................................................85 Introdução.............................................................................................................................................86 1 Fotossíntese ....................................................................................................................................... 87 2 Estruturas das plantas e suas funções ............................................................................................... 90 3 Fase fotoquímica ou fase clara ........................................................................................................... 92 4 Ciclo de Calvin .................................................................................................................................... 95 5 Ciclo do nitrogênio ............................................................................................................................. 97 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................102 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................103 Este é um livro abrangente sobre bioquímica focando as estruturas das biomoléculas e metabolismo. Leia a seguir o que cada unidade vai abordar especificamente e aproveite o conteúdo. Na primeira unidade, vamos fazer uma introdução à bioquímica e estrutura das biomoléculas. Falaremos um pouco sobre a história da bioquímica e a sua importância para o progresso científico e melhoria da qualidade de vida humana e animal. Os principais conceitos básicos da bioquímica, como estrutura da água, reação ácido- base, sistemas tampão e equilíbrio das reações químicas também serão apresentados aqui, além de vermos a estrutura e as propriedades químicas das moléculas e macromoléculas que compõem os seres vivos, como os aminoácidos, proteínas, enzimas, lipídios e carboidratos. Por fim, discutiremos a composição e a estrutura das membranas biológicas, como a membrana plasmática que envolve as células. Na sequência, abordaremos as membranas celulares, vias metabólicas e respiração celular. Mostraremos aqui a composição e a função das membranas celulares e como elas transportam moléculas pelo corpo, algo tão fundamental para o metabolismo celular. E ainda explicaremos o passo a passo da respiração celular e como ocorre a produção de energia do organismo por meio das principais vias metabólicas do organismo humano e anima como a glicólise, a gliconeogênese, o ciclo de Krebs e fosforilação oxidativa. Bioenergética e metabolismo serão os assuntos da terceira unidade. Conheceremos aqui os principais pontos relacionados à temática da bioquímica de biomoléculas no que tange a ácidos graxos e suas principais funções, o metabolismo de síntese e a sua degradação. Também abordaremos os principais pontos sobre a via das pentoses, metabolismo do glicogênio, metabolismo de aminoácidos e ciclo da ureia. Trataremos das estruturas dessas biomoléculas e sua importância para o bom funcionamento do metabolismo. Por fim, teremos uma compreensão de como funciona o controle hormonal do metabolismo, as principais funções biológicas e as reações em que essas biomoléculas se envolvem. Na quarta unidade, trataremos da fotossíntese e do ciclo do nitrogênio, onde apresentaremos as etapas da fotossíntese, seus produtos, suas reações e enzimas para compreender, de forma abrangente, o impacto dessa via metabólica. Discutiremos ainda como funciona o ciclo do nitrogênio, sua importância para a vida no planeta e PREFÁCIO como suas reações e microrganismos participam do processo. Este livro é fundamental para estudar as estruturas das biomoléculas e metabolismo! Aproveite! UNIDADE 1 Introdução à bioquímica e estrutura das biomoléculas Olá, Você está na unidade Introdução à Bioquímica e Estrutura das Biomoléculas. Conheça aqui um pouco da história da bioquímica e a sua importância para o progresso científico e melhoria da qualidade de vida humana e animal. Aprenda também os principais conceitos básicos da bioquímica, como estrutura da água, reação ácido-base, sistemas tampão e equilíbrio das reações químicas. Entenda ainda a estrutura e as propriedades químicas das moléculas e macromoléculas que compõem os seres vivos, como os aminoácidos, proteínas, enzimas, lipídios e carboidratos. E, por fim, compreenda também a composição e a estrutura das membranas biológicas, como a membrana plasmática que envolve as células. Bons estudos! Introdução 13 1 INTRODUÇÃO À BIOQUÍMICA A bioquímica é o estudo da química dos seres vivos. Mas existe química nos seres vivos? Nos organismos, existem uma série de reações químicas que permitem a existência da vida, como a glicólise e a fotossíntese nas células autótrofas. Além disso, os seres vivos são formados por moléculas: os carboidratos, os lipídeos e as proteínas são as principais macromoléculas dos organismos. Dessa forma, a bioquímica é a ciência que estuda, segundo Rodwell et al. (2017): • a estrutura e a função das moléculas e macromoléculas; • as reações químicas nos organismos; • a atuação das enzimas na catalise dessas reações; • os mecanismos de regulação desses processos metabólicos. 1.1 Contexto histórico dos estudos em bioquímica As primeiras investigações bioquímicas iniciaram-se com o estudo da fermentação das leveduras. Entretanto, inicialmente, elas não foram identificadas com esse objetivo. Somente durante os primeiros anos do século XX é que esse processo levou diretamente à ciência da bioquímica (RODWELL et al, 2017). Os estudos de fermentação de leveduras na fabricação de cerveja e vinhos iniciou-se com o microbiologista Louis Pasteur. Apesar das inúmeras descobertas e avanços, ele acreditava que, para ocorrer o processo de fermentação, as células precisariam estar intactas. Somente em 1899, os irmãos Büchner descobriram acidentalmente que a fermentação pode ocorrer em extratos livres de células. Essa conclusão foi proveniente da observação de um armazenado e leveduras em um pote, em que foi adicionado açúcar como conservante. Como resultado, o conteúdo do pote fermentou e derramou sobre a bancada (RODWELL et al, 2017). Entretanto, o termo bioquímica foi utilizado pela primeira em 1882, embora não tenha sido aceito à época. Somente em 1903, ele foi oficializado pelo pesquisador Carl Alexander Neuberg, considerado o pai da bioquímica moderna. Dentre as contribuições de Neuberg, é possível destacar a descoberta da carboxilase e a elucidação das etapas da fermentação alcoólica. Após essas e outras descobertas, várias investigações levaram a uma série de novos achados nos primeiros anos do século XX que corroboraram o início da ciência da bioquímica. Pesquisas realizadas nos anos de 1930 e 1940 elucidaram os intermediários do ciclo do ácido cítrico e da biossíntese da ureia e forneceram uma visão sobre as funções essenciais de certos cofatores derivados de vitaminas ou “coenzimas”, como: 14 • Tiamina pirofosfato; • Riboflavina; • Coenzima A; • Coenzima Q; • Coenzimas cobamida Já nos anos de 1950, os mecanismos de síntese de carboidratos complexos foram descritos e as vias para a biossíntese das pentoses e da quebra de aminoácidos e de lipídeos foram delineadas (RODWELL et al, 2017). Após a Segunda Guerra Mundial, o advento dos radioisótopos permitiu o estudo de diversas vias metabólicas e a cristalografia deNo entanto, para que o ciclo do nitrogênio ocorra, é imprescindível a presença de algumas bactérias como: Fixadoras como são as do gênero Rhizobium, Azotobacter e Beijerinckia. Nitrificantes como as Nitrosomonas e Nitrosococus, que atuam na nitrificação, e as Nitrobacter, que atuam na nitração. Desnitrificantes como Pseudomonas, Bacillus e outros gêneros de bactérias aeróbias facultativas que atuam na liberação de nitrogênio para a atmosfera. Decompositoras que garantem o processo de amonização (também há presença de fungos decompositores nesse processo). 5.1 Etapas e reações do ciclo do nitrogênio O ciclo do nitrogênio é dividido em quatro etapas, descritas por Silva et al. (2008): Fixação é quando ocorre a fixação do nitrogênio por bactérias, principalmente as bactérias do gênero Rhizobium localizadas nas raízes de leguminosas (como soja, feijão e ervilha). Nas raízes dessas 100 plantas agem captando o nitrogênio da atmosfera e o convertem em amônia (NH3). Esta amônia será utilizada pelas próprias plantas. Aqui podemos observar que foi estabelecida uma relação de mutualismo. Enquanto a planta fornece matéria orgânica proveniente da fotossíntese, as bactérias fornecem nitrogênio permitindo que essas plantas possam viver e crescer mesmo em solos pobres em nitrogênio. Nitrificação é quando a amônia ou o íon amônio (NH4 +) são convertidos em nitrito (NO2 -) por bactérias do gênero Nitrosomonas e, posteriormente, esse nitrito será convertido a nitrato (NO3 -) por um outro grupo de bactérias chamado Nitrobacter. Neste caso, tanto o amônio quanto o nitrato podem ser absorvidos pelas plantas e convertidos em compostos orgânicos na presença de oxigênio, assim o nitrogênio passa a fase parte da cadeia alimentar. Já na decomposição ou putrefação de compostos orgânicos, pode haver desaminação e geração de amônia (amonificação), que pode ocorrer tanto em meio com presença de oxigênio quanto em sua ausência. Na nitrosação há a oxidação da amônia em nitrito por meio da fórmula: 2 NH3 + 3O2 → 2 NO2- + 2 H+ + 2 H2O. Esse processo pode ser considerado uma quimiossíntese ( um processo bioquímico de produção de matéria orgânica por meio da oxidação de substâncias minerais, sem que seja necessário a participação de luz solar). Já na nitratação há oxidação do nitrito em nitrato por meio da fórmula: 2 NO2- + O2 → 2 NO3-. Desnitrificação é o processo que devolve nitrogênio para a atmosfera, em ambientes ricos em matéria orgânica morta, com baixa ou até mesmo ausência de oxigênio, o nitrato é usado como aceptor de elétrons e gera nitrito, que por sua vez é convertido nitrogênio atmosférico através da ação de bactérias desnitrificantes, fechando o ciclo do nitrogênio. Amonização é quando, presente no solo, o nitrogênio é oriundo de matéria orgânica morta. Então quando os microrganismos decompositores começam a agir nesta matéria orgânica nitrogenada, proveniente de plantas mortas ou de excretas nitrogenadas de animais, liberam amônia no ambiente, que ao se unir com água presente no solo, forma hidróxido de amônio, que se ioniza formando íon amônio NH4+ e a hidroxila OH-. 101 Figura 3 - O ciclo do nitrogênio Fonte: brgfx, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A figura mostra, de forma resumida, as etapas do ciclo do nitrogênio no meio ambiente, com a participação de animais, microorganismos e a atmosfera. FIQUE DE OLHO A excreção do nitrogênio metabolizado no organismo animal está relacionada a características evolutivas e adaptativas dos animais e também às diferenças de compartimentos gástricos existente entre as espécies. O artigo “Metabolismo nitrogenado em animais”, de Alexandre Mossate Gabbi, detalha como ocorre o metabolismo e excreção do nitrogênio nas diferentes espécies. Disponível em: . 102 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • compreender o conceito e as etapas da fotossíntese; • correlacionar fotossíntese com a respiração celular; • compreender os pontos em comum e contrários entre a fotossíntese e a respiração celular; • entender a importância do processo fotossintético para a construção da vida no planeta e para a biodiversidade; • aprender os principais fatores que influenciam na fotossíntese; • entender o papel do ciclo do nitrogênio e sua correlação com a manutenção da vida; • entender as etapas e os microoganismos participantes do ciclo do nitrogênio; • correlacionar as excretas nitrogenadas com as espécies animais. PARA RESUMIR BERG, J. M.; TYMOCZKO, J. L.; STRYER, L. Bioquímica. 7 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara-Koogan, 2014. KERBAUY, G. B. Fisiologia vegetal. Rio de Janeiro: Editora Gauanabara Koogan, 2004. NELSON, D. L.; COX, M. M.; Princípios de bioquímica de Lehninger. 6 ed. Porto Alegre: ARTMED, 2014. POIAN, A. T. D.; FOGUEL, D.; PETRESKI, M.; MACHADO, O. L. T. Bioquímica II. Vol. 1. Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2009. RUSSO, C. A. M.; MELO, C.L.O. Ciências da natureza e suas tecnologias. Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2016. SILVA, B.A. O.; FERREIRA, D.M.; MACEDO, M.; ANDRADE, P.P. Elementos de ecologia e conservação. 2 ed. Vol. 1. Rio de Janeiro: Fundação CECIERJ, 2008. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Qual a história da Bioquímica? Você conhece a composição e a função das membranas celulares? Este é um livro abrangente que vai focar nas estruturas das biomoléculas e metabolismo e responderá estas questões, além de apresentar, em quatro unidades, temas importantes para o estudo da Bioquímica. A obra oferece uma introdução à bioquímica e estrutura das biomoléculas, bem como explica a composição e a função das membranas celulares, as vias metabólicas e a respiração celular, abordando ainda os principais aspectos que envolvem a bioenergética e o metabolismo. Temas relacionados à fotossíntese e ao ciclo do nitrogênio também serão discutidos. Fundamental para estudar as estruturas das biomoléculas e metabolismo, este livro tem uma linguagem simples e conta com ilustrações explicativas. Bons estudos!raios X passou a ser importante para elucidar as estruturas tridimensionais de proteínas, polinucleotídeos, enzimas e a dupla hélice do DNA. A elucidação da estrutura do DNA possibilitou o desenvolvimento de técnicas de biologia molecular, que contribuíram ainda mais para o avanço da ciência da bioquímica. 1.2 Importância dos estudos em bioquímica A bioquímica é uma ciência básica que possui interdisciplinaridade com diversas áreas, inclusive as ciências da saúde, tanto animal quanto humana. Nesse contexto, a saúde em todas as espécies depende de um equilíbrio das reações bioquímicas que ocorrem no organismo, sendo que a doença reflete as anormalidades nas biomoléculas, nas reações bioquímica ou nos processos bioquímicos (RODWELL et al, 2017). Dessa forma, os avanços nas pesquisas em bioquímica são muito importantes para elucidar as etiologias de diversas patologias, pois possibilitam o desenvolvimento de diagnósticos mais precisos e de terapias adequadas. 2 ÁGUA: PH, SISTEMA TAMPÃO, REAÇÃO ÁCIDO- BASE E EQUILÍBRIO A água é o principal constituinte do corpo e, consequentemente, das células. Portanto, o comportamento das macromoléculas que formam os componentes celulares é influenciado pela interação com a água, como, por exemplo, a organização dos fosfolipídeos na formação das membranas celulares. A molécula da água é formada pela ligação de dois átomos de hidrogênio (H) e um de oxigênio (O). Essa ligação ocorre pelo compartilhamento de elétrons, sendo, portanto, uma ligação 15 covalente. Entretanto, o átomo de oxigênio exerce uma atração mais forte sobre os elétrons compartilhados, criando polos na molécula, nos quais o oxigênio adquire carga negativa e os átomos de hidrogênio adquirem cargas positivas, tornando a molécula de água polar (BELLÉ; SANDRI, 2014). Figura 1 - Estrutura da molécula de água Fonte: VectorMine, iStock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra uma representação gráfica de duas moléculas de hidrogênio que reagem com uma molécula de dióxido de oxigênio e formam duas moléculas de água, apresentando ligações covalentes polares. A polaridade das moléculas de água permitem a interação uma com as outras. Essa interação acontece pela atração entre os átomos de oxigênio negativo de uma molécula com os átomos de hidrogênio positivo da outra, formando ligações fracas, denominadas de ligação de hidrogênio ou pontes de hidrogênio. Essas ligações são responsáveis por manter a coesão e a estabilidade da água (BELLÉ; SANDRI, 2014). Da mesma maneira que as moléculas de água interagem entre si, elas podem interagir com as outras substâncias celulares, permitindo com que a água dissolva quase todos os tipos de moléculas, por meio de pontes de hidrogênio ou por interações iônicas. Essas ligações influenciam a estrutura e as propriedades de todos os componentes celulares, tais como as proteínas e os lipídeos (BELLÉ; SANDRI, 2014). As interações das macromoléculas celulares com a água irão depender da constituição química dessas moléculas. Por exemplo, os lipídeos não são moléculas polares e, portanto, não são dissolvidos pela água. Entretanto, algumas proteínas possuem aminoácidos com cadeias laterais polares, o que permite a interação dessas moléculas com a água por meio das pontes de hidrogênio. Iremos aprofundar nessas interações ao estudarmos as estruturas das macromoléculas. 16 2.1 Ph, reação ácido-base, equilíbrio e sistema tampão O pH corresponde ao potencial hidrogeniônico de uma solução, que é determinada pela concentração de íons de hidrogênio (H+) presentes na solução. Dependendo da concentração de íons H+, é possível classificar as soluções em: • Ácidas • Neutras • Alcalinas A manutenção do pH é imprescindível para a ocorrência da grande maioria das reações químicas celulares, porque pequenas variações podem influenciar na estrutura das enzimas, que são proteínas responsáveis por acelerar diversas reações químicas celulares. A manutenção do pH no organismo ocorre devido aos sistemas de tamponamento. Em humanos, o pH plasmático é em torno de 7,4 e apresenta uma pequena taxa de variação (BELLÉ; SANDRI, 2014). Entretanto, em algumas organelas, como, por exemplo, nos lisossomos, o pH normal é em torno de 5,0, devido ao bombeamento de íons H+ para o interior das vesículas. Esse processo é necessário, pois as hidrolases (enzimas) somente exercem as suas atividades nessa faixa de pH, promovendo a digestão intracelular de moléculas (ALBERTS, 2017). No estômago, algumas enzimas digestórias, algumas enzimas digestórias, como a pepsina, atuam em pH em torno de 2,0, proporcionado pela presença de HCl no suco gástrico. Mas o que significam esses valores de pH, e quando as soluções são consideradas como ácidas, neutras ou básicas (também chamadas de alcalinas)? Em 1909, Søren Sørensen elaborou uma forma mais prática para quantificar íons hidrogênio, definido pela seguinte equação: pH = – log [H+] Para entender a aplicação dessa fórmula, é preciso utilizar uma solução aquosa neutra, que a 25 °C apresenta uma concentração de íons H+ de 1,0 × 10-7 M (BELLÉ; SANDRI, 2014). [H+] = 1,0 x 10–7 M. Log [H+] = –7. pH = –log [H+] = 7. Com a aplicação da fórmula, o pH da solução neutra é igual a é 7,0. Dessa maneira, estabeleceu- 17 se uma faixa de pH, em que as soluções são classificadas como ácidas, neutras ou básicas. Figura 2 - Escala de pH Fonte: Alexey Bezrodny, iStock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra a representação gráfica de uma escala de pH. Quando pH de uma solução se encontra em uma faixa de 0 a 6, a solução é considerada ácida. A substância é considerada neutra com pH em 7, e alcalina quando o pH se encontrar entre 8 e 14. Conforme já mencionado, a manutenção do pH nos seres vivos é decorrente da existência do sistemas-tampão. Entretanto, para entender o funcionamento desses mecanismos de controle do pH, é preciso abordar os conceitos de ácido e base de Bronsted e Lowry e o equilíbrio das reações (BELLÉ; SANDRI, 2014). Nessa definição foi postulado que: Ácido substância capaz de doar prótons (H+). Ex: HCl, H2SO4, H3C-COOH, NH4+ e CH3-NH3+. Base substância capaz de receber esses prótons (H+). Os íons ou moléculas resultantes da liberação dos prótons é chamada de base conjugada. Essa reação pode ser representada da seguinte forma: HA → A + H+ Em que: HA: ácido; 18 A: base conjugada; H+: prótons liberados. Dessa forma, quando ocorre toda a dissociação de um ácido em solução aquosa, ele é denominado ácido forte. Essa reação ocorre em sentido único, favorecendo a formação dos produtos. Entretanto, também existem os ácidos fracos, que não se dissociam totalmente em meio aquoso. Nesse caso, a reação ocorre nos dois sentidos, havendo tanto moléculas no estado dissociado como no estado não dissociado. Observe esse tipo de reação na fórmula abaixo: HA A + H+ Em que: HA: ácido; A: base conjugada; H+: prótons liberados. Nesses casos, o que definirá a tendência de um ácido perder um próton e formar uma base conjugada é a sua constante de equilíbrio, também denominada de constante de dissociação dos ácidos. Ka [HA] = [H+][A−] / [HA] Em que: HA: ácido; A: base conjugada; H+: prótons liberados. Nos sistemas biológicos, o sistema tampão é um sistema aquoso composto por um ácido fraco e a sua base conjugada, que possuem capacidade de impedir grandes variações, mesmo quando ocorre a adição de outros ácidos ou bases. Esses tampões possuem uma faixa de pH específica de atuação, permitindo pequenas variações que são asseguradas devido a tendência ao equilíbrio da reação. Mas o que isso significa? Em um sistema-tampão hipotético formado pelo ácido (HA) e sua base conjugada (A), quando 19 ocorre a adição de adição de H+ ao equilíbrio entre essas substâncias, o sistema-tampão reage por meio da associação da base conjugada com o próton, formando o ácido hipotético. Tal comportamento diminui as concentrações de base conjugada e dos prótons, impedindo com que a solução permaneça commaior quantidade de prótons H+ livres, o que causaria a diminuição do pH da solução. No plasma sanguíneo, por exemplo, o sistema-tampão bicarbonato é eficaz em manter as variações próximas do pH 7,4 (BELLÉ; SANDRI, 2014). 3 ESTRUTURA E PROPRIEDADES DE AMINOÁCIDOS, PROTEÍNAS E ENZIMAS As proteínas são polímeros naturais formados por subunidades denominadas aminoácidos. Nos organismos, as proteínas são encontradas nos mais diversos compartimentos celulares e em diferentes tecidos, podendo exercer tanto funções enzimáticas quanto estruturais. É notável que a grande variedade de formas e funções proteicas ocorre devido aos mecanismos de síntese e composição dessas macromoléculas. Mas, como os aminoácidos se organizam para formar as proteínas? Quantos tipos de aminoácidos existem na natureza? As estruturas químicas dos aminoácidos determinam a função das proteínas? 3.1 Estrutura e propriedades dos aminoácidos As proteínas são macromoléculas formadas por subunidades de aminoácidos que agem nas mais diversas funções nos organismos, podendo executar atividades enzimáticas, mas também atuar como (NELSON; COX, 2018): • Hormônios; • Anticorpos; • Sinalizadores intracelulares; • Fatores de transcrição; • Transportadores; • Composição das fibras musculares. A grande variedade pode ser explicada por diversos mecanismos genéticos, mas também pela grande diversidade de aminoácidos existentes na natureza. Dessa forma, a formação das proteínas, desde a mais simples bactéria até nos seres humanos, envolve a associação de 20 diferentes tipos de aminoácidos básicos existentes, de acordo com o gene de cada proteína (NELSON; COX, 2018). 20 Além de formarem as proteínas, os aminoácidos desempenham outras funções importantes, atuando como intermediários no metabolismo energético e como precursores de hormônios, de nucleotídeos e porfirinas (BELLÉ; SANDRI, 2014). Os aminoácidos possuem uma estrutura básica comum, sendo formados por um grupo carboxila (−COOH), e um grupo amino (-NH2) ligados ao mesmo átomo de carbono, denominado carbono α. Os aminoácidos diferem entre si quanto à constituição da cadeia lateral, também denominado de grupo R, que modifica características como o tamanho e carga elétrica, afetando a solubilidade dos aminoácidos em água (BELLÉ; SANDRI, 2014; NELSON; COX, 2018). Figura 3 - Estrutura básica dos aminoácidos Fonte: VectorMine, iStock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra a molécula que representa a estrutura geral de um aminoácido. No carbono central ou , representado por um círculo verde, ocorre a ligação de um grupo carboxila (carbono ligado a um oxigênio por ligação dupla e a um grupo hidroxila por ligação simples) e de um grupo amino (nitrogênio ligado a dois hidrogênios por ligações simples). A quarta ligação química simples do carbono central está ligado ao grupo R ou cadeia lateral. No exemplo o grupo R do aminoácido Serina é formado por um carbono, ligado a dois hidrogênios e uma hidroxila por ligações simples. 21 De acordo com as propriedades químicas das cadeias laterais, os aminoácidos podem ser classificados em: • Aminoácidos polares; • Aminoácidos apolares. Aminoácidos apolares são aqueles que apresentam os grupos R formados por cadeias hidrofóbicas, que podem ser tanto aromáticas quanto alifáticas. Em estruturas proteicas em meio aquoso, esses aminoácidos estão presentes no interior da estrutura, por meio de interações hidrofóbicas com resíduos hidrofóbicos de outros aminoácidos. Entretanto, em proteínas transmembrana, esses resíduos permanecem na superfície da molécula da proteína e participam de interações hidrofóbicas com os fosfolipídeos da membrana (BELLÉ; SANDRI, 2014; ALBERTS, 2017). Figura 4 - Estrutura dos aminoácidos Fonte: extender01, iStock, 2020. 22 #ParaCegoVer: A imagem mostra uma representação da estrutura dos 20 aminoácidos básicos, agrupando-os em não polar, ácido, básico e polar. Já os aminoácidos polares possuem cadeias laterais hidrofílicas e são encontrados basicamente na superfície das proteínas, presentes em meio aquoso. Esses aminoácidos podem apresentam carga elétrica negativa, positiva ou neutra, o que os classifica como aminoácidos ácidos, básicos e polares sem carga, respectivamente (BELLÉ; SANDRI, 2014). 3.2 Estrutura e propriedades das proteínas e enzimas Além de constituírem as proteínas, o agrupamento de poucos resíduos de aminoácidos forma as moléculas denominadas peptídeos, que desempenham diversas funções nos organismos, podendo, por exemplo, atuar como hormônios - como o hormônio de liberação de tireotrofina, o TRH, produzido pelos neurônios do hipotálamo (NELSON; COX, 2018). Tanto as proteínas, quanto os pequenos peptídeos ou oligopeptídios, realizam as mais variadas atividades celulares, tanto estruturais quanto metabólicas. Mas, então, como os aminoácidos se associam para a formação dos peptídeos e proteínas? Para que essa formação aconteça é necessário que os resíduos de aminoácidos se liguem por meio de ligação covalente denominada ligação peptídica, que produz um peptídeo. Caso ocorra o agrupamento de dois aminoácidos, fala-se em dipeptídeo, enquanto que os tripeptídeos são formados pela união de três resíduos de aminoácidos, e os polipeptídios por diversas subunidades (NELSON; COX, 2018). A formação da ligação peptídica é uma reação de condensação, pois é formada pela remoção de elementos de água do grupo α-carboxila de um aminoácido e do grupo α-amino do outro. FIQUE DE OLHO O aminoácido histidina é um aminoácido polar básico devido à presença de um grupo aromático imidazol, que pode estar positivamente carregado ou não em pH 7,0. Os resíduos desses aminoácidos geralmente estão presentes nos sítios ativos de enzimas, funcionando como doadores/aceptores de prótons (NELSON; COX, 2018). 23 Figura 5 - Formação da ligação peptídica entre dois resíduos de aminoácidos Fonte: Elaborada pela autora (2020). #ParaCegoVer: A imagem mostra a representação espacial de dois aminoácidos unidos por uma ligação peptídica que ocorre entre o grupo carboxila (-COOH) de um aminoácido com o grupo amino (-NH2) do aminoácido adjacente, ocorrendo a liberação de uma molécula de água. Na representação espacial, os átomos de carbono estão descritos por esferas cinzas, os de oxigênio por esferas vermelhas, os de hidrogênio por esferas azuis, enquanto que os de nitrogênio por esferas roxas. Em um peptídeo ou nas proteínas, o resíduo de aminoácido na extremidade com um grupo α-amino livre é chamado de resíduo aminoterminal (ou N-terminal), enquanto que o resíduo na outra extremidade, que tem um grupo carboxila livre, é a extremidade carboxiterminal (C-terminal) (NELSON; COX, 2018). 24 As proteínas apresentam uma sequência específica de aminoácidos determinada pelos códons de nucleotídeos presentes em seus genes. Entretanto, algumas proteínas podem conter domínios não proteicos na sua constituição, recebendo a denominação de proteínas conjugadas. Nas proteínas conjugadas, os grupos não proteicos são denominados grupos prostéticos, que são indispensáveis para as funções desempenhadas por essas proteínas. Por exemplo, as glicoproteínas da membrana plasmática das células são importantes no reconhecimento e adesão celular, enquanto que as imunoglobulinas atuam na defesa do organismo (ALBERTS, 2017). Figura 6 - Membrana plasmática com presença de glicoproteínas Fonte: markusblanke, iStock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra uma secção da membrana celular com a bicamada lipídica com algumas proteínas da membrana celular. O foco está nas glicoproteínas em azul escuro, com os oligossacarídeos associados às suas estruturas e na imunoglobulina em verde. As proteínas conjugadas são classificadas de acordo com a natureza do seu grupo prostético. As glicoproteínas possuem um componente de carboidrato na sua constituição. No entanto, as lipoproteínas contêm moléculas de lipídeo. Outras proteínas como as metaloproteínas contêm íons metálicos em sua composição, comopor exemplo a hemoglobina, enquanto que as fosfoproteínas contêm grupos fosfato (CURY, 2017). Entretanto, as proteínas simples são constituídas somente por aminoácidos, como as ribonucleases, que são enzimas que atuam na degradação de moléculas de RNA em pedaços menores (CURY, 2017). FIQUE DE OLHO Comumente, o termo polipeptídio e proteínas são utilizados como sinônimos. Entretanto, apesar de tanto as proteínas, quanto os polipeptídios serem formados de várias subunidades de aminoácidos, as proteínas são moléculas com massa molecular acima de 10,000 u, enquanto que os polipeptídios apresentam massa molecular inferior a 10,000 u (NELSON; COX, 2018). 25 As proteínas também podem ser classificadas de acordo com o formato, podendo ser: • Proteínas fibrosas; • Proteínas globulares. As proteínas fibrosas são moléculas insolúveis em água e filamentosas, que desempenham funções estruturais ou de proteção. O colágeno e a queratina são exemplos de proteínas filamentosas que atuam na composição da pele, conferindo suporte e resistência ao órgão. Figura 7 - Estrutura da queratina Fonte: Molekuul, iStock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra a estrutura fibrosa da proteína queratina. Já as proteínas globulares se caracterizam por apresentar cadeias polipeptídicas enoveladas firmemente em estruturas tridimensionais resultando em formas esféricas, e, ao contrário das proteínas fibrosas, são solúveis em meio aquoso. As enzimas, as imunoglobulinas e as proteínas transportadoras são exemplos de proteínas globulares (BELLÉ; SANDRI, 2014; CURY, 2017). A hemoglobina, responsável pelo transporte de oxigênio na circulação sanguínea, além de ser uma proteína conjugada, é considerada globular devido ao seu formato. A tubulina é outro exemplo de proteína globular, que atua na composição dos microtúbulos. 26 Figura 8 - Estrutura dos dímeros de tubulina na formação dos microtúbulos Fonte: Kateryna Kon, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra a representação esquemática de um microtúbulos formado pela associação de diversas subunidades de e -tubulinas, que são proteínas globulares. Portanto, conforme estudado, as proteínas são estruturas formadas por uma sequência específica de resíduos de aminoácidos, que estão conectados por ligações peptídicas. Além disso, a estrutura da cadeia lateral dos aminoácidos são fundamentais para determinar a função das proteínas. Entretanto, como as cadeias laterais dos aminoácidos interagem e determinam a função proteica? Para responder a essa pergunta, é preciso entender a estrutura molecular das proteínas, que são classificadas em: estruturas primárias, secundárias, terciárias e quaternárias. Figura 9 - Estrutura das proteínas Fonte: ttsz, iStock, 2020. 27 #ParaCegoVer: A imagem mostra a representação esquemática da estrutura das proteínas. Na primeira ilustração nota-se a estrutura primária da proteína formada somente pelos resíduos de aminoácidos ligados pelas ligações peptídicas. A segunda ilustração, mostra a interação química dos aminoácidos formando a estrutura secundária em formato de -hélice. Em seguida, observa- se o dobramento da cadeia polipeptídica sobre ela mesma, formando a estrutura terciaria da proteína. Por último, é ilustrado o enovelamento de quatro cadeias polipeptídicas interagindo entre si formando a estrutura quaternária da proteína. A estrutura primária das proteínas é formada pela sequência de aminoácidos específicos. Então, todas as estruturas primárias das proteínas consistem de um esqueleto idêntico de carbono e nitrogênio unidos pela ligação peptídica, além das cadeias laterais inseridas nos carbonos dos aminoácidos, de acordo com a sequência gênica da proteína. No entanto, a estrutura secundária das proteínas é consequência das ligações de hidrogênio que ocorre entre os átomos de nitrogênio de um aminoácido e de oxigênio de outro aminoácido próximo no esqueleto polipeptídico. Essas reações determinam o arranjo da cadeia polipeptídica no espaço, formando duas estruturas secundárias básicas das proteínas: as -hélices e as folhas- (BELLÉ; SANDRI, 2014; CURY, 2017). A α-hélice, uma estrutura em formato de hélice e voltada para a direita, apresenta os grupos R dos aminoácidos direcionados para o exterior do esqueleto helicoidal. Esse tipo de estrutura secundária é predominante entre as proteínas e pode ser encontrada, por exemplo, na α-queratina. A folha-β, por sua vez, se forma quando duas ou mais cadeias polipeptídicas se alinham lado a lado. As pontes de hidrogênio neste caso se formam entre as cadeias adjacentes (CURY, 2017; NELSON; COX, 2018). A estrutura terciária das proteínas resulta das interações entre as cadeias laterais dos aminoácidos mais distantes nas cadeias polipeptídicas, alterando a conformação tridimensional das proteínas globulares à medida que se enrolam, causando um dobramento da cadeia polipeptídica. As interações nessa estrutura incluem pontes dissulfeto, pontes de hidrogênio, interações eletrostáticas e interações hidrofóbicas. Em uma estrutura terciária de uma proteína pode haver diferentes grupos de estruturas secundarias, ou seja, pode haver tanto -hélices quanto folhas- na mesma proteína (CURY, 2017). No entanto, para a formação de algumas proteínas, como a hemoglobina, ocorre a interação de duas ou mais cadeias polipeptídicas. No caso da hemoglobina, existe a interação de quatro cadeias de mioglobina, cada qual com o seu grupo prostético, em questão representado pelo grupo heme. A organização desses polipeptídios para formar a proteína funcional é chamada de estrutura quaternária (CURY, 2017; NELSON; COX, 2018). Então, devido às interações químicas especificas que ocorrem na estrutura da proteína, 28 qualquer alteração na sequência de aminoácidos impede o correto enovelamento proteico, comprometendo a função desempenhada pela estrutura, como acontece com a alteração da hemoglobina em portadores da anemia falciforme (NETO; PITOMBEIRA, 2002). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 4 ESTRUTURA E PROPRIEDADES DOS LIPÍDEOS, MEMBRANAS CELULARES E CARBOIDRATOS Os lipídeos são moléculas hidrofóbicas encontradas nos organismos na forma de ácidos graxos, triglicerídeos, fosfolipídeos, dentre outros. Essas moléculas atuam em diversas funções, tais como mediadores inflamatórios, hormônios e vitaminas. Entretanto, os carboidratos são moléculas polares que podem variar desde monossacarídeos a até polissacarídeos, que estão envolvidos principalmente em funções do metabolismo energético. 4.1 Estrutura e propriedades dos lipídeos e membranas biológicas Os lipídeos são macromoléculas de natureza hidrofóbica devido à composição estrutural formada principalmente de ácidos graxos com longas cadeias de carbono (C) e hidrogênio (H). No organismo, os lipídeos desempenham funções de armazenamento de energia, sinalização celular, além de atuarem na constituição das membranas celulares. Ao contrário do que estudou-se há pouco sobre as estruturas das proteínas, os lipídeos não são formados por cadeias poliméricas. Entretanto, assim como as proteínas, podem se associar a outras classes de compostos como as proteínas, formando as lipoproteínas, e com os carboidratos, formando os glicolipídeos (BELLÉ; SANDRI, 2014). 29 Apesar de serem formados pelas mesmas moléculas, os lipídeos que formam as membranas celulares não possuem a mesma estrutura do colesterol. Então, existem diferentes tipos de lipídeos, dentre eles os ácidos graxos, o colesterol, os triglicerídeos e os fosfolipídeos. Os ácidos graxos são ácidos carboxílicos derivados de hidrocarbonetos que apresentam uma região polar representada pelo grupo carboxila (-COOH) e cadeias apolares que podem conter de 4 a 36 átomos de carbono. Essas cadeias de hidrocarbonetos podem ser saturadas, havendo somente ligações simples entre os carbonos, ou insaturada, contendo uma ou mais duplas ligações. Os ácidos graxos que apresentam uma dupla ligação são chamados de monoinsaturados, enquantoos que apresentam mais de uma, são denominados poli-insaturados (BELLÉ; SANDRI, 2014). Figura 10 - Principais tipos de lipídeos Fonte: Alila Medical Media, Shutterstock, 2020. 30 #ParaCegoVer: Na imagem observa-se a representação esquemática da estrutura dos lipídeos, dentre eles o colesterol, os ácidos graxos saturados e insaturados e os triglicerídeos (saturados, monoinsaturados e poli-insaturadas.) Os ácidos graxos livres são utilizados como fonte de energia por diversos tipos celulares, porém a principal forma de armazenamento é como ésteres de glicerol. Esses ésteres podem ser acilgliceróis, dialcilgliceróis e triacilgliceróis, por conter uma, duas ou três moléculas de ácidos graxos esterificadas ao glicerol, respectivamente (BELLÉ; SANDRI, 2014). No organismo humano, a maioria dos ésteres de glicol são triacilgliceróis, também chamados de triglicérides ou triglicerídeos. Os triacilglicerideos são o principal mecanismo de armazenamento e transporte de ácidos graxos e os principais constituintes dos lipídeos da dieta (BELLÉ; SANDRI, 2014). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: No entanto, os fosfolipídeos são os lipídeos que constituem a membrana biológica. Essas moléculas possuem uma região hidrofóbica, formadas pelas cadeias de ácidos graxos, e por uma porção hidrofílica, sendo, portanto, denominadas moléculas anfipáticas. Os fosfolipídeos são divididos em glicerofosfolipídeos e esfingofosfolipídeos, de acordo com a presença do glicerol ou da esfingosina (BELLÉ; SANDRI, 2014). 31 Figura 11 - Principais tipos de lipídeos Fonte: Soleil Nordic, Shutterstock, 2020. #ParaCegoVer: A imagem mostra uma representação gráfica da molécula de fosfolipídeo, com a cabeça hidrofílica de formato arredondada e duas caudas alongadas hidrofóbicas. Em seguida, há uma monocamada de fosfolipídeos chamada de micela e uma dupla camada de fosfolipídeos denominado lipossoma. A estrutura molecular dos fosfolipídeos possibilita a formação da bicamada lipídica, pois, ao entrar em contato com o meio aquoso, as caudas se voltam para a região interna da membrana, devido as interações hidrofóbicas entre as cadeias dos ácidos graxos. Com isso, a região das cabeças dos fosfolipídeos se voltam para a região exterior da bicamada, em contato com o meio aquoso. Figura 12 - Bicamada de fosfolipídeos das membranas Fonte: CreVis2, iStock, 2020. #ParaCegoVer: Na imagem observa-se uma representação gráfica das moléculas de fosfolipídeos, com a cabeça hidrofílica de formato arredondada e as caudas alongadas hidrofóbicas. 32 As membranas celulares também possuem colesterol na sua constituição. O colesterol é um tipo de esteroide, que são lipídeos formados por 17 carbonos organizados em quatro anéis fundidos. Em uma das extremidades desses anéis, há uma cadeia hidrocarbonada e, em outra extremidade, há uma hidroxila (-OH) ligada ao carbono C3. O colesterol também é a molécula precursora de todos os outros esteroides, dentre eles os hormônios sexuais tais como a testosterona e o estradiol (BELLÉ; SANDRI, 2014). 4.2 Estrutura e propriedades dos carboidratos Os carboidratos ou açucares são moléculas muito abundantes nos mais diversos organismos e são a principal fonte calórica de todo ser vivo. A oxidação dessas moléculas é a principal via metabólica para produção de energia na maioria das células e sob forma de amido e glicogênio, funcionam como reserva energética nas células vegetais e animais, respectivamente (CURY, 2017). Em relação às estruturas químicas, os carboidratos são compostos orgânicos aldeídicos ou cetônicos polidroxilados, que podem ser classificados em: • Monossacarídeos; • Oligossacarídeos; • Polissacarídeos. Os monossacarídeos são formados por uma única unidade de polidroxialdeído ou –cetona, sendo que a glicose é o monossacarídeo mais abundante na natureza. Figura 13 - Estrutura da molécula de glicose Fonte: ttsz, iStock, 2020. 33 #ParaCegoVer: Na imagem observa-se uma representação gráfica da molécula de glicose apresentando seis átomos de carbono. Os monossacarídeos podem ser classificados quanto ao número de carbonos na molécula, sendo que as trioses possuem três átomos de carbono na sua constituição (ex: gliceraldeído), as tetroses são formadas por quatro átomos de carbono, e assim por diante (CURY, 2017). A glicose é um exemplo de hexose e a ribose e desoxirribose, que constituem o RNA e o DNA são exemplos de pentoses. Os oligossacarídeos são formados pela união de dois a seis monossacarídeos. As associações de dois monossacarídeos por ligações glicosídicas formam os dissacarídeos. A sacarose, ou açúcar da cana, é um dissacarídeo formado por glicose e frutose. A lactose é um dissacarídeo encontrado no leite e formado pela associação do monossacarídeo galactose e glicose. No entanto, a maltose é formada pela união de duas moléculas de glicose (CURY, 2017). Os polissacarídeos representam a grande maioria dos carboidratos encontrados na natureza e são formados pela associação de cerca de 20 unidades de monossacarídeos por ligações glicosídicas. O amido e o glicogênio são polissacarídeos de reserva energética formados apenas por resíduos de glicose, sendo classificados como homopolissacarídeos. No entanto, o ácido hialurônico, um polissacarídeo encontrado na matriz extracelular dos tecidos conjuntivos, é formado pela por resíduos de ácido D-glicurônico e N-acetil-glicosamina, sendo classificado como heteropolissacarídeos (CURY, 2017). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 34 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprender sobre os primeiros estudos na área de bioquímica e a importância de se estudar bioquímica; • estudar as características físico-químicas da água, e a importância da manutenção do pH e dos sistemas-tampão na manutenção do funcionamento do organismo; • compreender a estrutura e as propriedades dos aminoácidos e como esses monômeros se organizam na formação de proteínas e enzimas; • entender a estrutura e as propriedades dos lipídeos e a atuação dessa classe de moléculas na composição das membranas celulares; • aprender sobre a estrutura e propriedades dos carboidratos e a suas funções no metabolismo energético. PARA RESUMIR ALBERTS, B. et al. Biologia molecular da célula. 6 ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. BELLÉ, L. P.; SANDRI, S. Bioquímica aplicada: reconhecimento e caracterização. 1 ed. São Paulo: Editora Érica, 2014. CURY, J. A. T.; TENUTA, C. P. M.; ANDALO, L. M. Bioquímica oral: odontologia essencial - parte básica. 1 ed. São Paulo: Artes Médicas, 2017. NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 7 ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. NETO, G. C. G.; PITOMBEIRA, M. S. Aspectos moleculares da anemia falciforme. Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial. Rio de Janeiro, v. 39, n. 1, 2003. Disponí- vel em: . Acesso em: 14 abr. 2020 RODWELL, V. W. et al. Bioquímica ilustrada de Harper. 30 ed. Porto Alegre: AMGH, 2017. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 2 Membranas celulares, vias metabóli- cas e respiração celular Você está na unidade Membranas celulares, vias metabólicas e respiração celular. Conheça aqui a composição e a função das membranas celulares e como elas transportam moléculas pelo corpo, algo tão fundamental para o metabolismo celular. Compreenda também o passo a passo da respiração celular e como ocorre a produção de energia do organismo por meio das principais vias metabólicas do organismo humano e anima como a glicólise, a gliconeogênese, o ciclo de Krebs e fosforilação oxidativa. Bons estudos! Introdução 39 1 LIPÍDIOS, MEMBRANAS E TRANSPORTE DE MEMBRANAS A membrana plasmática é essencial para a vida celular. É uma estrutura que envolve e delimita a célula, mantendo as importantes diferenças entre o meio extracelular e intracelular. A característica principal e comum a todas as membranas biológicas é o fato delas terem uma estrutura básica constituída por uma fina bicamada de fosfolipídios. Utilize o QR Codepara assistir ao vídeo: 1.1 Lipídios: considerações gerais Os lipídios, também chamados de gorduras, constituem a maior parte da membrana plasmática. Eles também são encontrados distribuídos no organismo humano e animal nos adipócitos (que são as células de gordura do corpo). Por possuírem características hidrofílicas (afinidade pela água) e hidrofóbicas (insolubilidade em água), eles permitem que a membrana faça a interação necessária entre os meios intracelular e extracelular. Os lipídios são compostos heterogêneos que têm o ácido graxo como seu componente estrutural básico. Os ácidos graxos são ácidos orgânicos que possuem de 4 a 24 carbonos em sua cadeia considerada longa e uma estrutura que se dá com uma “cabeça” de natureza polar (hidrofílica) e uma “cauda” hidrocarbonada apolar (hidrofóbica), que faz com que os lipídios sejam oleosos ou gordurosos. Eles não solúveis em água mas se dissolvem facilmente com solventes orgânicos apolares (como a acetona, o éter e o clorofórmio). 40 Segundo Molinaro et al. (2013), é possível atribuir aos lipídios uma variedade de funções no organismo, na alimentação e na fabricação de produtos manufaturados. Em relação as funções biológicas, por exemplo, eles: são a mais importante forma de armazenamento de energia do corpo e a segunda fonte de consumo energético celular depois dos açúcares; • possuem importante participação no metabolismo celular, atuando como cofatores, transportando elétrons para dentro da mitocôndria como e sendo mensageiros para os meios intracelular e extracelular; • participam do isolamento térmico da pele (através da camada de gordura) mas auxilian- do o equilíbrio e a manutenção da temperatura corporal; • conferem proteção mecânica e elétrica para as células, nervos e órgãos. 1.2 Constituição e funções das membranas celulares Os fosfolipídios estão arranjados em duas camadas, tanto nas células eucariontes quanto nas células procariontes. Como já mencionado, sua estrutura é composta por 1 cabeça e 2 caudas. Por isso, a membrana se organiza da seguinte forma: Cabeça é hidrofílica e se volta para os meios que estão em contato com a água. Caudas são hidrofóbicas e se localizam no meio da estrutura (portanto, longe da água). Além disso, também há moléculas de proteínas presentes em sua estrutura: elas são fluidas e ficam se deslocando na membrana. Algumas dessas proteínas se inserem ao atravessar a dupla camada de fosfolipídios - são as chamadas proteínas integrais. Outras estão localizadas apenas na superfície da membrana e são as chamadas proteínas periféricas. A membrana possui, então, proteínas que vão permitir livres passagens por elas, proteínas carreadoras, sinalizadoras, receptoras etc. FIQUE DE OLHO Além de exercerem funções na estocagem de energia e serem os maiores componentes das membranas biológicas, os lipídios ou seus derivados também atuam como vitaminas e hormônios. As vitaminas lipossolúveis A, D, E e K são formadas a partir dos lipídeos que não contém ácidos graxos em sua constituição. O colesterol, apesar de ter fama de vilão, é fundamental para a síntese de todos os hormônios esteroidais. 41 Nas proteínas periféricas existe uma estrutura chamada de glicocálix que é responsável pelo reconhecimento celular. Isso significa que qualquer defeito na sua síntese pode fazer com que as células não se reconheçam e, assim, não consigam formar tecidos. Então, é possível resumir da seguinte forma: as proteínas são responsáveis pela maior parte das funções da membrana, atuando como receptores específicos, enzimas, proteínas transportadoras, entre outras funções. Já a bicamada lipídica compõe a estrutura básica das membranas celulares (MURRAY, 2014). Figura 1 - Composição básica de uma membrana celular Fonte: Kallayanee Naloka, Shutterstock (2020). #ParaCegoVer:A imagem mostra a bicamada de fosfolipídios que compõem as membranas celulares, com as proteínas integrais e periféricas, além de vários receptores espalhados. As membranas possuem duas funções primordiais para o metabolismo e funcionamento de todos os tecidos: • isolar a célula do meio externo; • controlar a entrada e saída de substâncias, função conhecida como permeabilidade sele- tiva. 1.3 Mecanismos de transportes através de membranas É a própria membrana celular que determina qual tipo de molécula será transportada para o meio externo ou para o seu interior. Além disso, ela também irá ditar a velocidade que esse transporte ocorre. A permeabilidade seletiva é o resultado de sua composição lipídica, pois isso permite a penetração de substâncias apolares e dificulta ou impede a passagem de substâncias hidrossolúveis O transporte através de membranas vai permitir a passagem de moléculas essenciais para o metabolismo, como, por exemplo, o oxigênio e a glicose, e eliminar aquelas substâncias que não são mais úteis para o corpo, como o gás carbônico (CO2). Segundo Berg et al. (2014), a presença das proteínas na membrana e suas funções podem ser separadas em quatro diferentes grupos: 42 Canais ou poros são passagens que tornam possível a interação entre os meios intracelular e extracelular. Zonas de difusão facilitada são locais com uma grande concentração de moléculas de uma determinada espécie. Nessas áreas a passagem será de substâncias ou moléculas semelhantes e por conta disso é considerada passagem facilitada. Receptores estão localizados na parte interna e externa da célula. Sua estrutura permite que se ligue à certas moléculas dando continuidade a uma determina reação ou mensagem. Quando os receptores se unem ao mensageiro podem gerar alterações baseadas em cargas ou em mudanças na estrutura proteica. Bombas (ou operadores) realizam o transporte ativo, isto é, aquele contra o gradiente eletroquímico. O operador que permite a entrada da molécula na célula não será o mesmo que permite a saída, então podemos dizer que o sentido é unidirecional. A molécula a ser carreada se acopla ao operador, que altera a sua conformação e a segura. Para esta molécula ser liberada, esse operador é hidrolisado por um ATP, voltando ao seu estado inicial. O exemplo mais conhecido é a bomba de sódio e potássio. É importante relembrar aqui que a concentração de uma solução nada mais é do que a relação entre a quantidade de soluto e a quantidade de solvente. O solvente sempre será a água, justamente porque se trata do corpo humano e animal. Então, há dois meios disso ocorrer: Meio hipertônico • quando há muito soluto no meio extracelular e pouco soluto no interior da célula. Meio hipotônico • quando há pouco soluto no meio extracelular e uma maior quantidade de soluto dentro da célula. Assim, é possível resumir o transporte através de membranas da seguinte forma: quando gasta energia para executar o transporte de uma molécula, a célula está realizando o transporte ativo. Já quando ela consegue transportar uma molécula sem nenhum gasto de energia, está realizando o transporte passivo. O transporte passivo é dividido em algumas categorias. 43 O transporte passivo por difusão é a passagem de partículas de soluto do meio mais concentrado para o meio menos concentrado. Imagine, por exemplo, que uma sala esteja lotada de alunos enquanto o pátio possui pouca gente. Não é mais fácil que esses alunos que estão em grande número na sala saiam para o pátio e ganhem mais espaço do que os que estão lá fora entrarem e se apertarem ainda mais? O mesmo raciocínio vale para os meios intra e extracelular: quando existe maior quantidade de partículas de soluto no interior, o normal é que essas partículas saiam para o meio onde há menos partículas. Entretanto, nem todas as moléculas possuem o mesmo tamanho e conformação. Então, a difusão se divide ainda em duas formas em relação ao tamanho das moléculas a serem transportadas: Difusão simples • as moléculas que possuem menor tamanho atravessam a camada de fosfolipídios sem precisar de transportadores, seguem apenas a favor do gradiente de concentração.Difusão facilitada • as moléculas maiores que não conseguem passar entre os fosfolipídios necessitam de transportadores que funcionam como canais por onde as moléculas maiores podem entrar ou sair da célula. Assim, quando não há nenhum gasto energético, o transporte ocorre por osmose. Porém, diferenteme da difusão, o que será transportado não é mais o soluto e sim partículas de solvente (que, na célula animal, é a água). Na osmose ocorre a passagem de partículas de água de um meio menos concentrado (hipotônico) para o meio mais concentrado (hipertônico). A água está indo a favor do gradiente de concentração, pois o meio hipertônico precisa mais da água para ser diluído. Portanto, ele “puxa” a água para si. É importante lembrar que no organismo animal as células estão mergulhadas em um meio isotônico, ou seja, que tem a mesma concentração que a célula. Imagine, por exemplo, um peixe de água salgada sendo colocado na água doce. Se isso acontecer, suas células serão hipertônicas em relação ao meio que agora é hipotônico: a água irá começar a entrar no peixe, pois é atraída para onde existe maior quantidade de soluto. Como nesse exemplo, a diferença de concentração de solutos é muito grande, a água entrará em excesso e irá romper as células do peixe que ficará muito inchado e morrerá. No transporte ativo, por sua vez, haverá a passagem de partículas do meio menos concentrado para o meio mais concentrado. Ou seja: contra o gradiente de concentração, o que faz com que haja gasto de energia. O exemplo mais conhecido é a bomba de sódio potássio. Na membrana das células existe um transportador chamado (Na,K) – ATPase (leia-se sódio potássio atpase) que é 44 responsável por bombear sódio e potássio em sentidos contrários. Se a concentração de potássio é muito maior no interior da célula e a concentração de sódio é muito maior no exterior, então o transportador vai levar ions potássio do menos concentrado para a área mais concentrada e vai levar ions sódio para área menos concentrada para a área mais concentrada. 2 INTRODUÇÃO AO METABOLISMO: VISÃO GERAL E INTEGRADA O metabolismo celular é o conjunto de reações que ocorrem dentro e fora da célula a fim de sintetizar as biomoléculas ou degradá-las para produção de energia. As reações dele podem ser classificadas em duas: Reações exergônicas são as reações catabólicas que geram energia e degradam moléculas orgânicas e nutrientes, acontecendo em situações que o corpo necessita de energia como, por exemplo, no jejum. Reações endergônicas são aquelas que absorvem energia (como as reações de anabolismo) e sintetizam macromolécula quando a célula dispõe de substrato suficiente. A esse conjunto de reações anabólicas e catabólicas conectadas e sincronizadas é dado o nome de metabolismo. A alimentação provê ao organismo as biomoléculas que fornecem energia, como os lipídios, os carboidratos e as proteínas. Se essas biomoléculas não forem ingeridas em quantidades ideais ou caso haja uma demanda muito grande de energia, como durante um exercício físico intenso, elas precisarão ser mobilizadas das reservas corporais. 2.1 Metabolismo dos carboidratos A glicose é ingerida na dieta por meio da degradação de açúcares maiores, como o amido e da sacarose. Os organismos quimiotróficos são os que obtêm energia por meio de reações químicas, como os organismos humano e animal. A energia é produzida por meio da oxidação de moléculas com o objetivo final de gerar ATP, a famosa moeda energética fundamental para o desenvolvimento celular. 45 2.2 O papel do ATP O ATP é um nucleotídeo trifosfato que contém uma base nitrogenada adenina, uma ribose e três grupos fosfatos. É conhecido como moeda energética pois sua função é participar das reações de transferência de energia celular. Quando as reações catabólicas e anabólicas, embora opostas, acontecem de forma acoplada e complementar, a energia disponível é maximizada. Enquanto o catabolismo ocorre espontaneamente, por ser uma reação exergônica que produz ATP, o anabolismo é endergônico e para que possa ocorrer necessitará de energia. (MOLINARO et al., 2013) Essas duas reações são acopladas quando há produção de uma molécula de energia em uma reação espontânea que será utilizada como fonte de energia em uma reação não espontânea, essa molécula é o ATP que é comum a todos os organismos. O ATP e o ADP (adenosina difosfato) são análogos e capazes de produzir entre si um ciclo de hidrólise (quando uma molécula é quebrada ou alterada por uma molécula de H20) e fosforilação (quando um grupo fosfato é incorporado em uma molécula) que é fundamental para a troca de energia entre sistemas biológicos. Assim, quando o ATP é hidrolisado gera energia + ADP. Consequentemente, quando o ADP incorpora um fosfato consome energia e gera ATP. Essas reações estão ilustradas na imagem a seguir: Figura 2 - Reações anabólicas e catabólicas do metabolismo celular Fonte: Chutima Terapimonjun, Shutterstock (2020). #ParaCegoVer: A imagem mostra a representação da energia liberada pelo catabolismo e consumida pelo anabolismo. 46 A molécula de ATP é produzida em três importantes vias metabólicas que, juntas, formam o processo de respiração celular: • Glicólise; • Ciclo de Krebs; • Fosforilação oxidativa. 3 GLICONEOGÊNESE No corpo humano e animal existem órgãos que não conseguem sobreviver sem a entrada de glicose em suas células. Antes de darmos início aos estudos das via metabólicas que produzem ATP a partir de uma molécula de glicose, é importante entender qual mecanismo o corpo usa quando ela ainda não está disponível em concentrações ideias, como acontece, por exemplo, no jejum. O organismo, nesse caso, mobiliza glicose que fica estocada na forma de glicogênio armazenado no fígado. Assim, a gliconeogênese nada mais é do que a síntese de glicose a partir de compostos não glicídios – o que é importante sempre que o organismo está em hipoglicemia, ou seja, com a taxa de glicose na corrente sanguínea baixa. Isso porque algumas células do corpo, como o cérebro e as hemácias, usam exclusivamente a glicose como fonte de energia e, por isso, sua concentração sanguínea não pode diminuir muito (KLEIN, 2014). É importante não confundir gliconeogênese como o inverso da glicólise, ainda que a glicólise vá de glicose até piruvato e a gliconeogênese vá de piruvato até à glicose. Segundo Murray et at. (2014), embora as duas vias tenham sete reações em comum, há enzimas diferentes atuando nas reações de cada uma. Na verdade, quando uma via é estimulada, a outra será inibida, ainda que sua regulação seja feita por enzimas distintas. Outro ponto que separa as duas vias é que a gliconeogênese, além de consumir dois ATPs, necessita também de dois GTPs (uma molécula rica em energia, que, no lugar da adenosinam tem uma guanina) para a formação de glicose. Ela também é uma via irreversível por demandar muito do organismo, diferente das reações da glicólise que são quase todas reversíveis. 47 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 3.1 Reações e etapas da gliconeogênese A primeira reação para extrair glicose da molécula de glicerol é catalisada pela enzima glicerol quinase que, ao quebrar a molécula de ATP, transfere seu fosfato para o carbono 3 do glicerol, formando o glicerol-3-fosfato. Em seguida, pela ação da enzima glicerol 3-fosfato desidrogenase, ele é oxidado, perdendo hidrogênios transferidos para o NAD+. Ao final dessa reação há a diidroxicetona. Essa molécula, porém, é um composto intermediário da glicólise e, por isso, além de ser usada para produzir piruvato pela glicólise, pode ser usada também para produzir moléculas de glicose na gliconeogênese. Como mencionado anteriormente, a glicose, na gliconeogênese, também pode ser obtida a partir do lactato e dos aminoácidos. Quando os músculos estão em alguma atividade física intensa fazem a fermentação lática, a glicose é convertida em lactato, que chega ao fígado e se converte em piruvato, que será utilizadona gliconeogênese para formar glicose. O tecido muscular é rico em proteínas, que podem ser quebradas em aminoácidos e transportados sob a forma de alanina e glutamina. A alanina é transportada até o fígado, onde será convertida em piruvato (KLEIN, 2014). Na gliconeogênese existem três desvios que contornam os passos irreversíveis da glicólise. O objetivo do primeiro desvio é converter o piruvato em glicose e, para que essa reação se inicie, a molécula de piruvato vai reagir com 1 molécula de gás carbônico, 1 de ATP e 1 de água que terá como produto 1 molécula de oxalacetato, 1 molécula de ADP e 1 fosfato inorgânico (que foi liberado do ATP). Na segunda reação da gliconeogênese também haverá gasto de energia, mas, ao invés de utilizar uma molécula de ATP, será utilizada uma molécula de GTP. Então, o oxalacetato vai reagir com o GTP formando 1 molécula de fosfenolpiruvato, 1 molécula de gás carbônico e 1 GDP. Quando 48 uma molécula descarboxila (libera gás carbônico), ela também libera energia, que foi usada para produzir o fosfoenolpiruvato. Esse é o primeiro desvio que as reações da glicólise precisam sofrer para que o piruvato seja convertido em glicose. Pois, como já se sabe, a gliconeogênese não é o inverso da glicólise. No segundo desvio ocorre a reversão da molécula de frutose-1,6- bifosfato, exigindo a incorporação de uma molécula de água. Com isso, é tirado um fosfato da molécula que vira frutose-6-fosfato + fosfato inorgânico. A gliconeogênese reverte essa reação sem que haja recuperação do ATP pois isso seria termodinamicamente impossível. Como a gliconeogênese tem o objetivo de restaurar os níveis de glicose no sangue, é fundamental que a glicose formada na via seja liberada pela célula. E, para isso, é necessário retirar um fosfato da molécula de glicose-6- fosfato, pois era ele que fazia com que, lá no início da glicólise, a molécula de glicose ao entrar na célula não conseguisse retornar. Assim, o terceiro desvio acontece de forma parecida com o segundo: ele irá reverter a glicose- 6-fosfato também por uma hidrólise, ou seja, acrescentando uma molécula de água como no desvio anterior. Ao retirar um fosfato, gera uma molécula de glicose livre e um fosfato inorgânico para que possa, enfim, suprir as necessidades energéticas do corpo naquele momento. Para recapitular o que foi estudado até aqui, lembre-se que, quando há demanda de mais energia, o músculo utiliza glicogênio e a quebra de glicogênio nele não depende do estado alimentar do indivíduo. Já o fígado é o órgão responsável pela liberação de glicose na corrente sanguínea, e a síntese e a degradação do glicogênio estão diretamente ligadas à taxa de glicemia. A gliconeogênese é regulada de algumas formas. A enzima piruvato carboxilase é ativada quando há excesso de acetil-CoA, que sinaliza que a produção de energia já atingiu um determinado nível em que já não é necessária a conversão da glicose em ATP e, com isso, a glicose pode ser armazenada. Um outro ponto de regulação é a reação catalisada pela enzima frutose1,6- bifosfatase, que é ativada na presença de ATP e excesso de energia na célula. E, novamente, a síntese de glicose é preferida para que possa ser estocada posteriormente. Quando a glicemia está reduzida, o hormônio glucagon sinaliza ao fígado para que ele sintetize e libere mais moléculas de glicose para o sangue. O fígado faz a quebra do glicogênio estocado ativando a via gliconeogênese. O inverso também será regulado pelo fígado: em situações de hiperglicemia, o hormônio insulina sinaliza a entrada da glicose nas células e ativa a via de glicólise para a produção de energia (MOLINARO et al., 2013). 49 4 GLICÓLISE Segundo Klein (2014), a glicose é a fonte de energia utilizada pelo cérebro e pelas hemácias dos mamíferos. A molécula de piruvato obtida nessa via pode ser metabolizada de duas formas: Sem oxigênio • a partir das fermentações láctica e alcoólica. Com oxigênio • no caso da fosforilação oxidativa, que gera maior quantidade de ATPs. Assim, a glicólise, por sua vez, é a via metabólica anaeróbica (que acontece na ausência do oxigênio), transformando a glicose em duas moléculas de piruvato e produzindo duas moléculas de ATP. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 4.1 Etapas e reações da glicólise A molécula de glicose possui receptores específicos conhecidos como glut que variam dependendo de sua localização. Os receptores glut 1 e 3 não dependem de insulina e são FIQUE DE OLHO A glicose-6-fosfato pode ainda se transformar em outro elemento no fígado, chamado de ácido glucorônico. Isso ocorre por meio da enzima glucoroniltransferase, um elemento que faz parte da via de detoxificação hepática e transforma elementos lipossolúveis em hidrossolúveis possibilitando sua excreção. 50 responsáveis pela captação basal de glicose na maioria das células. O glut 2 se localiza no fígado e no pâncreas e vai transportar a glicose somente quando esta estiver em grandes concentrações. Já o receptor glut 4, no tecido adiposo e muscular precisa da ação da insulina para seu funcionamento. O cérebro necessita da entrada da glicose a todo momento e não depende de insulina para isso. Além de produzir 2 ATPs, a glicólise inicia a oxidação da molécula de glicose, o que significa dizer que a glicose começa a perder hidrogênios e elétrons. Estes serão passados para o NAD+ que se converte em NADH (coenzima Dinucleótido de Nicotinamida e Adenina). O NADH tem como função levar elétrons ricos em energia para a cadeia respiratória. Segundo Berg et at. (2014), a glicólise acontece em 10 reações. Em primeiro lugar há o chamado período pós prandial. Neste momento, ocorre quando a glicose entra na célula, e para que não saia é modificada incorporando um fosfato no carbono 6, com isso não consegue atravessar a bicamada lipídica da membrana celular por ser uma molécula com carga negativa. Formando o composto glicose-6-fosfato. Essa reação será catalisada pela enzima hexoquinase e isso envolve a quebra de 1 ATP. O primeiro ATP é gasto nesse momento. Depois disso, há a conversão da glicose-6-fosfato em frutose-6-fosfato. Isso ocorre através da a enzima fosfoglicose isomerase. É importante destacar que as moléculas de glicose e frutose são moléculas isômeras, o que muda de uma para outra é o formato da molécula. A frutose é uma molécula mais simétrica e isso vai facilitar quando a molécula for partida ao meio para gerar dois compostos com três carbonos cada. Em seguida, ocorre a conversão da frutose-6-fosfato em frutose-1,6- bifosfato. Isso é possível a partir da incorporação de mais um fosfato (proveniente do ATP) agora no carbono 1. Essa incorporação torna a molécula ainda mais simétrica e a deixa pronta para ser dividida ao meio. A enzima que catalisa essa reação é fosfrutoquinase. Nesse momento ocorre, então, o gasto do segundo ATP da glicólise. Em um quarto momento, a molécula de frutose é partida ao meio pela enzila aldolase, o que gera uma molécula de diidroxicetonaS fosfato e de uma molécula de gliceraldeído-3-fosfato. Como a diidroxicetona não é utilizada na glicólise é necessário que seja convertida em gliceraldeído-3- fosfato (como são moléculas muito semelhantes, ou seja, isômeras, podem se converter uma na outra). A isomeração ocorre pela ação da enzima triose fosfato isomerase. Assim, são formadas duas moléculas de gliceraldeído-3-fosfato. Quando chegamos nessa etapa, todas as próximas reações estarão acontecendo em dobro, pois foram geradas duas moléculas de gliceraldeído. Em seguida, há a conversão do gliceraldeído em 1,3-bisfosfoglicerato. Nessa reação está sendo produzido NADH e está sendo incorporado um fosfato inorgânico ao carbono 1. A enzima responsável é a gliceraldeído 3 -fosfato desidrogenase e essa enzima faz essa reação em duas 51 etapas: Na primeira gera o NADH e, então, promove a entrada do fosfato. Quando o fosfato vem de um ATP, vem de uma molécula rica em energia, porém se é proveniente de um fosfato inorgânico