Prévia do material em texto
Direito Internacional Privado Direito Internacional Público e Direito Internacional Privado Conceito de Direito Internacional Público (DIP) É o conjunto de princípios e teorias que inspiram e orientam a elaboração das normas internacionais, destinadas a reger os direitos e deveres dos Estados e outros organismos análogos, resultando em princípios gerais para as relações dos indivíduos. Conceito de Direito Internacional Privado (DIPriv) Para Batalha e Rodrigues Netto: “O direito internacional privado é o ramo do direito interno público que indica a norma aplicável às relações e situações jurídicas em que ocorra o elemento estrangeiro”. Assim, o Direito Internacional Privado é um ramo do Direito Público Interno, vez que lida com regras aplicáveis na coexistência de duas ou mais legislações públicas de soberanias diversas, regulando fatos ou aplicação de normas em relações que envolvam direta ou indiretamente entidades ou pessoas naturais ou jurídicas de Direito Privado. O DIP rege as relações entre Estados e organizações internacionais, enquanto o DIPriv se aplica às relações entre pessoas físicas ou jurídicas de diferentes países. Enquanto o Direito Internacional Público se concentra principalmente nas relações entre Estados soberanos e organizações internacionais, buscando regular questões como tratados, direitos humanos e resolução de conflitos entre nações, o Direito Internacional Privado está mais voltado para regular as relações entre indivíduos e entidades privadas transnacionais. Enquanto o primeiro visa estabelecer normas e princípios que regem a conduta dos Estados no cenário internacional, o segundo busca fornecer estruturas jurídicas para resolver disputas comerciais, contratuais e civis que envolvem partes de diferentes jurisdições. O que difere Evolução Histórica do Direito Internacional Privado ANTIGUIDADE Na Grécia e em Roma, estrangeiros não tinham direitos, sendo excluídos, pois, tais direitos derivavam da religião, desta forma, as leis da cidade não existiam para eles que não podiam exercer o comércio, casar, os filhos nascidos da união de um cidadão e uma estrangeira eram considerados bastardos, entre tantas outras distinções. No ano de 242 A.C., em Roma, havia a figura do pretor de estrangeiros que julgava casos de peregrinos, estabelecendo o ius gentium (um direito comum a todo homem), criando, dessa forma o Jus gentium, que não resolvia o conflito através da indicação de que direito seria aplicado e, sim, regulava a relação dos indivíduos de diferentes origens apenas. Desta forma, não pode ser reconhecido como DIPr. IDADE MÉDIA Ocorrem as invasões bárbaras, o Império Romano cai, existindo um vácuo nas normas, que acabam sendo substituídas pelos costumes dos povos invasores. Surge o sistema da personalidade do direito ou das leis e, cada pessoa é livre para reger sua vida conforme a lei do seu povo. Povos diferentes vivem na mesma região, surgindo, desta forma, a necessidade de normas de DIPr que são consagradas pelo costume. Sistema da personalidade do direito Em qualquer situação fática, cada pessoa tinha essa situação apreciada conforme o direito de sua origem. Em atos extrajudiciais era declarado pelas partes, qual direito por que se governavam. Quando em atos judiciais a parte também tinha que declarar, sendo feita a seguinte pergunta pelo juiz: sub qua leges vivis? Ainda na Idade Média, no período feudal, o sistema da personalidade foi desaparecendo, surgindo o sistema de territorialidade. Surge o princípio jurídico: O direito vale para todos aqueles que residem no território estatal. Feudalismo e o princípio da Territorialidade O feudalismo contribuiu muito pra o sistema da territorialidade, uma vez que, as terras deviam ser protegidas de invasões constantes, assim, o senhor feudal era o “rei” em seu feudo. Os vassalos, por sua vez, deveriam invocar sempre o uso jurídico que vigorava em seu feudo. Sendo assim, se no feudo prevalece a vontade do senhor feudal, não há conflito, então, não se pode falar em DIPr. Corpus Iuris Civilis Os estudiosos dos séculos XI, XII e XIII eram conhecidos como glosadores (interpretadores dos antigos textos romanos) A partir da segunda metade do século XI, após a divisão do Império Romano, os romanos do Oriente formaram o Império Bizantino, cujo principal imperador foi Justiniano, que agrupou e selecionou o que de mais importante havia sobre o Direito, como Constituições e pareceres dos principais jurisconsultos da época, realizando uma compilação nomeada Corpus Iuris Civilis. Durante vários séculos, esse Corpus Iuris Civilis foi a fonte decisiva do direito na Europa, muitas vezes em combinação com princípios locais. A partir do século XI, as cidades do norte da Itália (Bolonha, Florença, Gênova, Veneza, Módena e Pádua) se tornam importantes centros comerciais, trazendo com isso demandas perante as justiças das cidades que começam a desenvolver autonomia normativa, elegendo seus juízes, regendo suas relações com as outras cidades por estatutos. Escolas Estatutárias Do século XIII ao XIV, existiu na Itália a escola dos pós-glosadores que já não cuidavam mais de explicar o direito romano e sim, de revelar novos direitos. Teorias estatutárias Os estatutos continham normas sobre vários campos do direito, sendo legislações próprias de cada cidade. Estes estatutos e os conflitos que se verificavam entre eles foram objetos de estudo das denominadas escolas estatutárias: italiana (séc. XIV); francesa (séc. XVI) holandesa (séc. XVII). No século XVIII ainda surgiram a escola alemã e a segunda escola francesa, mas, estas, só desenvolveram o que já havia sido criado pelas outras três escolas. O primeiro vestígio de DIPr que se tem notícia é do século XII: “Mas, pergunta-se: se homens de diversas províncias, as quais têm diversos costumes, litigam perante um mesmo juiz, qual desses costumes deve seguir o juiz que recebeu o feito para ser julgado? Deve seguir o costume que lhe parecer mais preferível e mais útil, porque deve julgar conforme aquilo que a ele, juiz, for visto como melhor. ” (PONTES DE MIRANDA apud CASTRO, 2000, p.127) Não era a forma ideal. Doutrinas modernas No início do século XIX, surgem o Código Civil de Napoleão (1804), o Código Civil italiano (1865) e o Código Civil alemão (1896), todos contendo regras básicas para solução dos conflitos de leis. Direito Internacional Privado Conjunto de preceitos reguladores das relações de ordem privada da sociedade internacional. É o confronto de normas tendentes a conjugar leis de diferentes países, indicando a lei competente a ser aplicada no caso concreto. A nacionalidade é um conceito importante nesta questão, pois na maioria dos casos estaremos trabalhando com pessoas físicas e jurídicas de diferentes nacionalidades. “ O Direito Internacional Privado é a projeção do direito interno sobre o plano internacional” (BARTIN apud DOLINGER) Segundo Souto (2000, p. 94), o chamado Direito Internacional Privado tem por missão escolher que norma deve ser aplicada a certa situação quando podem ser invocados dois ou mais sistemas normativos para a regulação da mesma. Suas principais funções incluem: Determinação da Lei Aplicável: O DIPriv ajuda a determinar qual sistema jurídico será aplicado a um contrato internacionalou a um litígio transfronteiriço. Isso envolve a análise das regras de conexão e princípios estabelecidos em tratados internacionais e na legislação nacional para determinar qual legislação tem jurisdição sobre o caso. Resolução de Conflitos: Quando ocorrem litígios em contextos internacionais, o DIPriv desempenha um papel fundamental na escolha do tribunal competente para resolver a disputa. Isso envolve a consideração de fatores como a localização das partes, o local de execução do contrato e a lei aplicável. Proteção dos Interesses das Partes: O DIPriv visa proteger os interesses das partes envolvidas em transações comerciais globais. Isso é alcançado através da previsibilidade e estabilidade das regras aplicáveis, o que permite que as partes planejem suas atividades comerciais com segurança jurídica. Harmonização e Unificação: Em alguns casos, o DIPriv trabalha para harmonizar e unificar as regras legais internacionais, facilitando assim o comércio global. Exemplos notáveis incluem a Convenção das Nações Unidas sobre Compra e Venda Internacional de Mercadorias (CISG) e a Convenção de Haia sobre a Lei Aplicável a Contratos Internacionais. Mediação e Arbitragem: O DIPriv também desempenha um papel importante na promoção de métodos alternativos de resolução de disputas, como a mediação e a arbitragem, que oferecem às partes mais flexibilidade na resolução de litígios internacionais. O Direito Internacional Privado é essencial para a facilitação das transações comerciais globais, garantindo que as partes envolvidas tenham regras claras para seguir e mecanismos eficazes para resolver disputas. À medida que a interconexão das atividades econômicas em escala internacional continua a crescer, o DIPriv desempenha um papel cada vez mais vital na promoção da segurança jurídica e na proteção dos interesses comerciais das partes envolvidas. Objetivo do DIPr definir qual lei será aplicada nos conflitos legais internacionais de ordem privada. É o ramo da ciência jurídica que tem por objetivo definir e regular a condição legal das pessoas físicas e jurídicas, seus bens, atos e direitos, visando aplicar-lhes as leis e sentenças dos seus respectivos países, em conexão com as dos países que as recepcionam. Fontes do DIPr As principais fontes do DIPr são as fontes internas de cada sistema (lei, jurisprudência e doutrina). A nacionalidade é fenômeno eminentemente nacional, não podendo sofrer interferência de nenhuma outra soberania, bem como, a condição do estrangeiro, que também é de ordem interna, competência de jurisdição, entre outras situações. Classificação das Normas de DIPriv As normas do DIPriv classificam-se segundo a fonte, natureza e estrutura: A fonte da norma pode ser legislativa, doutrinária ou jurisprudencial, podendo ser, ainda, interna ou internacional, conforme sua criação seja pelos órgãos internos de um Estado ou em coordenação com outros Estados por meio de Tratados e convenções. Quanto à natureza, Normas Indiretas ou indicativas: é geralmente conflitual, pois não soluciona a questão jurídica em si, mas, indica o direito interno a ser aplicado, daí ser classificada como sobredireito. A norma de Direito Internacional Privado conflitual objetiva indicar em situações conectadas com dois ou mais sistemas jurídicos qual dentre eles deva ser aplicado. Não dizem se a pessoa é capaz ou incapaz, se o contrato é válido ou não, se o causador do dano a outrem é civilmente responsável ou não, e assim por diante, apenas indicam qual dentre os sistemas jurídicos de alguma forma ligados à hipótese, deve ser aplicado. Exemplos: Art. 263 do Código Bustamante ; "A forma de saque, endosso, fiança, intervenção, aceite e protesto de uma letra de câmbio submete-se à lei do lugar em que cada um dos ditos atos se realizar.“ Art. 7º LINDB “A lei do país em que domiciliada a pessoa determina as regras sobre o começo e o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família.” Convenção da Haia de 1971 sobre a Lei Aplicável em Matéria de Acidentes Rodoviários, dispõe em seu artigo 3° que: "A lei aplicável é a lei interna do Estado sobre o território do qual o acidente ocorreu." Normas Diretas ou substanciais: São as que dão solução à quaestio juris, destacam-se as regras sobre nacionalidade e sobre a condição jurídica do estrangeiro, umas determinam os titulares da nacionalidade de cada Estado, regulam a aquisição e a perda deste status e outras delimitam os direitos dos estrangeiros. São regras sem qualquer conteúdo conflitual. Ar. 7º, § 5º, LINDB - O estrangeiro casado, que se naturalizar brasileiro, pode, mediante expressa anuência de seu cônjuge, requerer ao juiz, no ato de entrega do decreto de naturalização, se apostile ao mesmo a adoção do regime de comunhão parcial de bens, respeitados os direitos de terceiros e dada esta adoção ao competente registro Normas Qualificadoras ou conceituais: que se restringem a definir determinados institutos para efeito do DIPri. são normas de direito civil que auxiliam a aplicação do direito internacional privado. Ex.: normas sobre o domicílio, qualificação, elementos de conexão, reenvio, direitos adquiridos,.... Art. 7º, § 7o LINDB - Salvo o caso de abandono, o domicílio do chefe da família estende-se ao outro cônjuge e aos filhos não emancipados, e o do tutor ou curador aos incapazes sob sua guarda. Para este fim, qual o conceito de domicílio? Convenção Interamericana sobre o Domicílio de Pessoas Físicas no D.I.Priv aprovada na 2' Conferência Interamericana de Direito Internacional Privado, Montevidéu, 1979, assim define o domicílio em seu artigo 2°: "O domicílio da pessoa física será determinado pelas circunstâncias discriminadas na seguinte ordem: 1. O local de sua residência habitual; 2. O local de seu principal lugar de negócios; 3. Na ausência dos dois fatores acima, o lugar de sua residência; 4. Na ausência de sua residência, o lugar onde a pessoa se encontrar. Não é uma regra de conflito. Também não é uma norma substancial. É uma regra definidora, qualificadora, que colabora com a norma conflitual que indica a lei do domicílio para reger determinadas matérias. Quanto a estrutura Quanto à estrutura as normas podem ser: unilaterais, bilaterais e justapostas: unilaterais invariavelmente são as regras sobre nacionalidade, condição jurídica dos estrangeiros e as normas processuais, eis que nenhum Estado se aventurará a reger a nacionalidade de outros Estados, a determinar regras sobre o direito de estrangeiros em território de outro país ou fixar a competência de tribunais de outros Estados. Art. 7o A lei do país em que domiciliada a pessoa determina as regras sobre o começo e o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família. (LINDB) São bilaterais ou completas quando não objetivam aplicação exclusiva de sua própria lei. O artigo 10, por exemplo, estabelece que “a sucessão por morte ou por ausência obedece a lei do país em que era domiciliado o defunto ou o desaparecido, qualquer que seja a natureza e a situação dos bens.” (LINDB) o artigo 11, que corresponde à regra da lei francesa de 1966, sobre sociedades, estabelece que “as organizações destinadas a fins de interesse coletivo, como as sociedades e as fundações, obedecem à Lei do Estado em que se constituírem”. Ou seja, é indicada a lei do Estado mais ligado ao fato. A tendência do Direito Internacional Privado brasileiro é a de formular normas bilaterais. Há ainda a composiçãode duas normas unilaterais correspondentes que se completam. São as normas justapostas, que resultam no mesmo efeito do que as normas bilaterais. Codificação do DIPriv O Direito Internacional Privado, modernamente, utiliza dois métodos para resolver as relações jurídicas internacionais: a) Uniformizador – torna idênticas as normas de DIPr., para solucionar os conflitos de leis evitando-os na origem, formando o Direito Privado Internacional. b) Conflitual, coordena para harmonizar a convivência entre elementos de leis soberanas diversas, indicando a norma aplicável. A nossa maior experiência americana em matéria de codificação de leis da espécie, ocorreu com o Código de Direito Internacional Privado, conhecido como o Código de Bustamante, aprovado em 1928, projetado pelo jurista cubano ANTONIO SANCHEZ Y BUSTAMANTE, ratificado pelo Brasil, Bolívia, Chile, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, Equador, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua, Panamá, Peru, El Salvador e Venezuela. A codificação é valiosa, evitando no nascedouro os conflitos de leis, mas, depende de muita negociação e interação dos Estado pactuados e a extensão do Código de Bustamante, também fez os participantes da Organização dos Estados Americanos (OEA), deixarem um pouco de lado a ideia de concentrar as forças nos acordos econômicos de padronização dos produtos e nas normas de comércio internacional, como vemos hoje em termos do MERCOSUL. Vale ressaltar que o Código de Bustamante serviu como doutrina para os europeus estruturarem o Mercado Comum que depois veio a formar a atual União Europeia que vem funcionando como experiência e modelo de Direito Privado Internacional e Direito Comunitário. Código de Bustamante: https://docs.google.com/file/d/0BwbnJ2EXfmcDODY0ZTk4ZDItYWE1YS00ZWZhLTk1MDQtYzJiMGExNTk3M2Ri/edit?resourcekey=0-8atMzRSeA59155kPr_lvzg Código de Bustamante Convenção De Direito Internacional Privado É fruto da Convenção de Havana de 20.02.1928. Foi promulgado no Brasil pelo Decreto-Lei n° 18.871, de 13.08.1929. Países que o subscreveram: Brasil, Cuba, República Dominicana, Haiti, Panamá, Costa Rica, Nicarágua Honduras, Salvador, Guatemala, Chile, Bolívia, Equador, Peru e Venezuela. Não houve quase divergência entre os signatários, porque cada país escolheu o seu elemento de conexão e exclui o artigo que melhor lhe aprouvesse. O Brasil optou pela não-aplicação dos arts. 52 e 54, uma vez que tratam de matéria atinente ao divórcio. Hoje, tudo isto está superado. O Brasil já traz, na sua legislação, o instituto do divórcio. Tem 427 artigos distribuídos por assunto, ou seja, tratam primeiramente de um título preliminar, contendo regras gerais. A seguir, referem-se à matéria de Direito Civil Internacional, Direito Comercial Internacional, Direito Penal Internacional e, por último, Direito Processual Internacional. Convenção Interamericana Sobre Normas Gerais De Direito Internacional Privado Convenção Interamericana Sobre Conflitos De Leis Em Matéria De Sociedades Mercantins Convenção Interamericana Sobre Prova E Informação Acerca Do Direito Estrangeiro Protocolo De Buenos Aires Sobre Jurisdição Internacional Em Matéria Contratual Convenção Relativa À Proteção Das Crianças E À Cooperação Em Matéria De Adoção Internacional Convenção Sobre A Prestação De Alimentos No Estrangeiro Conceitos importantes Direito Internacional Privado Território: Espaço limitado no qual o Estado exerce sua jurisdição. Territorialidade: Aplicação de leis locais exclusivamente, sem consideração das leis estrangeiras. Extraterritorialidade: Aplicação da lei além das fronteiras do Estado. Conceitos importantes Para que haja a aplicação do direito estrangeiro num determinado país é necessária a existência de regras estabelecidas pela legislação local. Conceitos importantes Constituindo-se como uma das funções do direito internacional privado a decisão da lei aplicável a um conflito, assim, temos a utilização de meios técnicos, indicadores da lei aplicável os chamados “elementos de conexão” para solucionar os conflitos de lei. A norma de direito internacional privado caracteriza-se por uma estrutura de indicação de direito aplicável LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO É na LINDB, a partir do art. 7º, que encontraremos as principais normas de conexão previstas pelo direito brasileiro. Direito Internacional Privado Os conflitos de leis e as formas de solução Conflitos de normas ou leis Os conflitos de normas são as situações em que, por determinada conjuntura, há a possibilidade, ou não, de se aplicar duas ou até mais legislações de diferentes países. Um juiz brasileiro pode aplicar o direito de um outro país???? SIM, desde que esta aplicação do direito estrangeiro tenha sido determinada pelo Direito Internacional Privado brasileiro. Conflitos de Leis Quando estamos numa situação problema, em que as pessoas que estão realizando o negócio têm diferentes nacionalidades, residem em diferentes países e estão realizando um negócio fora de seu território de origem, cabe saber qual é a lei que deve ser aplicada. Pode acontecer que tanto a lei do país de nacionalidade ou de residência das pessoas possa ser aplicada, quanto a lei do Estado onde elas estão realizando o negócio. Daí percebemos um conflito positivo de competência legal. Ou pode ainda acontecer que nenhuma das legislações seja competente para ser aplicada. Temos então um conflito negativo de competência. Para que saibamos resolver tanto o conflito positivo como o negativo, temos de conhecer as regras de DIPRI, que são parte do ordenamento jurídico de cada país e nos indicam como agir. Objeto de Conexão (OC) + Elemento de Conexão (EC) = Regra de Conexão •As Regras de Conexão se aplicam às categorias de relações jurídicas, genericamente consideradas. •Para cada “categoria”, haverá uma regra de conexão própria. •Na terminologia do DIPr, as “categorias de relações jurídicas” –ou: matérias, disciplinas, temas, assuntos, ramos do direito, são chamado de“Objeto de Conexão”. •Cada Objeto de Conexão tem –por suas características intrínsecas –uma vinculação mais relevante com o ordenamento jurídico de um país, sua sede. •Essa vinculação é determinada pela presença, neste país, de um elemento com o fator de atração que exerce a maior “força de gravidade” sobre aquela relação jurídica interjurisdicional. •No DIPr, isso é chamado de Elemento de Conexão. Ele“puxa” a relação jurídica para o campo de incidência do direito do país onde se encontra. •O legislador de cada país determina através do DIPr qual será o Elemento de Conexão para cada Objeto de Conexão. •Desta articulação (OC + EC) surgem as Regras de Conexão. •Para aplicar uma Regra de Conexão, basta identificar o EC, localizar a RC correspondente e aplicar ao caso concreto o direito indicado pela RC. Ex: capacidade, obrigações, sucessões, direitos reais, etc.; Ex.: domicílio, nacionalidade, local de celebração de um contrato, local de situação de um bem; No Brasil, as regras de conexão estão previstas na LINDB COMPONENTES ESTRUTURANTES DAS NORMAS DE DIPrv REGRAS DE CONEXÃO Elemento de conexão é um instituto jurídico (nacionalidade, território, domicílio, situação do imóvel, local onde acontece um fato, local onde é ajuizada uma ação) escolhido pelo legislador de um país e ajuda a determinar qual é a lei a ser aplicada num caso entre nacionais e estrangeiros ou que sua celebraçãoe execução aconteça em países diferentes. Regra de Conexão Objeto de Conexão Elemento de Conexão Resultado da aplicação LINDB Art. 7º. A lei do país em que for domiciliada a pessoa determina as regras sobre o começo e o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família. Personalidade, nome, capacidade e os direitos de família; Domicilio da pessoa. Conflito de leis relacionado a questões como capacidade e direito de família: fato anormal será regulado pelo direito do país onde a pessoa for domiciliada. LINDB Art. 8º . Para qualificar os bens e regular as relações a eles concernentes, aplicar-se-á a lei do país em que estiverem situados. Bens (leia-se: direitos reais); Local de situação dos bens; Conflito de leis relacionado a direitos reais: fato anormal será regulado pela lei do país onde os bens estiverem situados; LINDB Art. 9º. Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem. Obrigações; Local onde a obrigação foi constituída; Conflito de leis relacionado a obrigações: fato anormal será regulado pela lei do país onde a obrigação foi contraída; LINDB Art. 10 A sucessão por morte ou ausência obedecerá à lei do país em que era domiciliado o defunto ou desaparecido, qualquer que seja a natureza e situação dos bens. Sucessões; Domicílio do defunto ou desaparecido; Conflito de leis relacionado a sucessões: fato anormal será regulado pela lei do país onde o defunto era domiciliado; A grande conquista do Direito Internacional Privado é a aplicação do direito estrangeiro sempre que a relação jurídica tiver maior conexão com outro sistema jurídico do que com o do foro (DOLINGER: 2000, p. 243) LINDB: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del4657compilado.htm ESPÉCIES DE REGRAS DE CONEXÃO REGRA DE CONEXÃO SIGNIFICADO Lex patriae Lei da nacionalidade da pessoa natural, pela qual se rege seu estatuto pessoal e sua capacidade Lex domicili Lei do domicílio que rege o estatuto e a capacidade da pessoa natural, a sucessão e o direito de família - LICC, Art. 7º LICC, Art. 8º, §2º LICC, Art. 10 Lex loci actus Lei do local da realização do ato jurídico para reger sua substância - LICC, Art. 7º, §1º Locus regit actum Lei do local da realização do ato jurídico para reger suas formalidades - LICC, Art. 9º §1º Lex loci contractus Lei do local onde o contrato foi firmado para reger sua interpretação e seu cumprimento - LICC, Art. 9º, §2º Lex loci solucionis Lei do local onde as obrigações ou a obrigação principal do contrato deve ser cumprida REGRA DE CONEXÃO SIGNIFICADO Lex voluntatis Lei do país escolhida pelos contratantes (princípio da autonomia da vontade) Não aplicável, só na Arbitragem (Lei 9307/96), art. 2º Lex loci delicti Lei do lugar onde o ato ilícito foi cometido, que rege a obrigação de indenizar - CP, art. 5º Lex damni Lei do lugar onde se manifestaram as conseqüências do ato ilícito, para reger a obrigação de indenizar - CP, arts. 5º, 6º e 7º Lex rei sitae ou Lex situs A coisa é regida pela lei do local em que está situada - LICC, Art. 8º LICC, Art. 12º, §1º Mobília sequntur personam O bem móvel é regido pela lei do local em que seu proprietário está domiciliado - LICC, Art. 8º, §1º Lex loci celebrationis O casamento é regido, no que tange às suas formalidades, pela lei do local da sua celebração - LICC, Art. 7º, §1º REGRA DE CONEXÃO SIGNIFICADO The proper law of the contract Indica o sistema jurídico com o qual o contrato tem mais significativa relação (princípio da proximidade, centro de gravidade ou dos vínculos mais estreitos) Lex monetae A lei do país em cuja moeda a dívida ou outra obrigação legal é expressa Lex loci executionis Lei da jurisdição em que se efetua a execução forçada de uma obrigação (confunde a lex fori) Lex fori Lei do foro, no qual se trava a demanda judicial. Lei mais favorável Critério da lei mais benéfica: proteção de menores, trabalhadores, consumidores; a lei que considera válido o ato (favor negotii) O Brasil utiliza-se deste critério também. Também utiliza esse critério (sucessão com herdeiros brasileiros e tratados internacionais) As espécies em vermelho não têm dispositivo legal específico no Brasil. Gráficos retirados de: Direito Internacional Privado Prof. Luiz Albuquerque Disponível em: https://neccint.wordpress.com/apostilas/apostilas-di-publico/ Dentro do ordenamento jurídico de cada país temos as leis de DIPRI (que são chamadas de leis de foro) e o restante das normas jurídicas (que são chamadas de leis de fundo). A Lei de Foro é o conjunto de artigos que tratam de dois assuntos: como resolver os conflitos de leis no tempo (vigência) e como resolver os conflitos de leis no espaço (territorialidade ou extraterritorialidade) (aqui definindo a teoria de remessa que o país adota e o elemento de conexão que deve ser utilizado em cada caso). A Lei de Fundo é a gama de legislação que disciplina toda a ordem de situações dentro do território do país (penais, trabalhistas, civis, tributárias, previdenciárias, processuais, etc.). Teorias de remessa: teoria do envio e teoria do reenvio. A teoria do envio acontece quando não é possível utilizar a lei do próprio país (por indicação do elemento de conexão nacional), essa permite a remessa da pesquisa para a Lei de Fundo de um outro país. A teoria do reenvio faz a remessa para a Lei de Foro do outro país e, se essa Lei de Foro indicar, por meio de seus elementos de conexão, a lei de um terceiro país, deverá ser feita a pesquisa nesse terceiro país, e assim sucessivamente, até que se encontre o país cuja Lei de Foro indique como competente para o caso a sua Lei de Fundo. “Ocorrerá assim, o Reenvio de primeiro grau quando um país A indicar as normas jurídicas de um país B, e este país receptor considerar-se incompetente, devolvendo ou retornando a matéria de conflito ao país A” (DOLINGER, 2013, p. 297). “Já o Reenvio de segundo grau, ocorre quando o país A indica as normas jurídicas de um país B, e este país receptor considerando-se incompetente, determina a aplicação de um terceiro país C” (DOLINGER, 2013, p. 298). Contudo, o instituto do Reenvio somente poderá ser aplicado se as fontes internas não fizerem proibição do Reenvio. A Lei de Introdução ao Código Civil Brasileiro proíbe expressamente em seu artigo 16 o reenvio. A teoria do envio está prevista no artigo 16 da LINDB: Art. 16 - Quando, nos termos dos artigos precedentes, se houver de aplicar a lei estrangeira, ter-se-á em vista a disposição desta, sem considerar-se qualquer remissão por ela feita a outra lei. “para o direito brasileiro atual o juiz apenas pode aplicar a norma material (substancial) estrangeira indicada pela norma de DIPr da lex fori, estando proibido de aplicar qualquer remissão feita por esta a outra lei. É dizer, não há no sistema de DIPr brasileiro possibilidade de se aplicar a norma de DIPr estrangeira (ou seja, a norma conflitual estrangeira) indicada pela lex fori, senão apenas a norma alienígena material, pois expressamente proibido o reenvio (de qualquer grau) entre nós. Assim, as normas sobre conflitos de leis presentes na ordem jurídica da lex causae serão descartadas da aplicação pelo juiz brasileiro, que deve, ante a impossibilidade total do reenvio, localizar somente a norma substancial estrangeira capaz de solucionar o problema sub judice.” (MAZZUOLI, 2021) O artigo indica que, nos casos dos artigos anteriores (7 ao 15), que estabelecem os elementos de conexão da lei brasileira, se tiver que ser buscada a lei estrangeira, essa buscaserá feita diretamente na Lei de Fundo. Exemplo de situação de envio Um argentino, residente na Argentina, está viajando a trabalho numa feira internacional, na qual representará os produtos de uma empresa argentina. A feira está acontecendo em São Paulo, Brasil. Nessa feira ele faz contato com um inglês, que vive no Chile, e está visitando os estandes, com interesse de identificar produtos que possam ser comprados por sua empresa chilena e distribuídos no Chile com exclusividade. O argentino e o inglês vêm a fechar um contrato de compra e venda internacional ali mesmo na feira. Agora observe! Indivíduo 1 – Argentino, residente na Argentina, representa empresa argentina. Indivíduo 2 – Inglês, residente no Chile, representa empresa chilena. Local onde está acontecendo o contrato – São Paulo, Brasil. Pode acontecer que tanto a lei do país de nacionalidade (Argentina e Inglaterra) ou de residência (Argentina ou Chile) das pessoas possa ser aplicada, quanto a lei do Estado onde elas estão realizando o negócio (Brasil). Para começar a definir a situação, começaremos sempre a fazer a análise pela lei do local onde a situação está acontecendo. Neste caso, será pela lei brasileira. Voltando à situação descrita no exemplo anterior, comece analisando a lei de foro brasileira (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro -LINDB), porque o contrato está acontecendo em São Paulo. A primeira pergunta é se cabe a lei brasileira nesse contrato de compra e venda. Verificando a Lei de Foro Brasileira teremos dois assuntos: a teoria da remessa e o elemento de conexão que o Brasil utiliza no caso de criação de obrigações (contrato). Então, o segundo passo da pesquisa é saber o elemento de conexão da lei brasileira, que, nesse caso específico, está no artigo 9º da LINDB, que diz: Art. 9º - Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem. Nesse caso, o elemento de conexão é o local da constituição da obrigação. Isto é, o local onde o contrato está sendo feito é o Brasil, portanto, o elemento de conexão indica como competente para o caso a própria Lei de Fundo Brasileira, ou seja, se aplicaria o Código Civil Brasileiro. No caso que estamos analisando, pode ser que a lei chilena ou argentina também tivessem elementos de conexão que indicassem elas próprias para serem utilizadas. Estaríamos aí frente a um conflito positivo de competência. Se a lei brasileira, ao invés de indicar como elemento de conexão o país em que se constituir a obrigação, tivesse indicado o país em que se cumprirá a obrigação, caberia a lei de fundo do Chile. Neste caso, a lei brasileira seria negativamente competente (ou incompetente) para ser aplicada no caso. E seria competente a lei chilena, sendo feita a remessa diretamente à Lei de Fundo Chilena, ou seja, ao Código Civil Chileno. No entanto, se o Brasil adotasse, ainda nessa situação, a teoria do reenvio, seria feita a remessa, inicialmente, à Lei de Foro Chilena. Verificando os elementos de conexão que a Lei de Foro Chilena indica, poderiam se configurar duas situações: a primeira, em que o elemento de conexão chileno indicasse, também, o país de cumprimento da obrigação, remetendo para a sua própria Lei de Fundo a pesquisa; a segunda, em que o elemento de conexão do Chile indicasse elemento de conexão diferente, que poderia ser o do país em que se constituísse a obrigação, devolvendo a competência para a Lei de Fundo Brasileira, ou que indicasse como elemento de conexão o país de origem dos produtos, no caso a Argentina, caso em que seria feita a remessa para a Lei de Foro Argentino, que poderia indicar a sua própria Lei de Fundo ou a Lei de Foro de outro país, fazendo mais uma remessa. Quando acontece um conflito de normas no tempo, temos a realização de um ato (um contrato) na vigência de uma lei e a execução desse ato (contrato) na vigência de uma nova lei. Nesses casos a LINDB prevê que a lei mais nova sempre será aplicada, a não ser que se trate de três situações: direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada. No caso de direito adquirido, significa que, quando a lei nova entrou em vigor, o direito do indivíduo já tinha se materializado conforme o que preceituava a lei mais antiga, adquirindo o direito. O caso de ato jurídico perfeito diz respeito aos atos que, ainda na vigência da antiga lei, já tinham sido finalizados, cumprindo todas as formalidades legais para sua concretização que a lei antiga exigia. A coisa julgada diz respeito aos processos que já se encontravam julgados ainda na vigência da antiga lei e que não seja possível mais nenhuma forma de recurso da sentença. Não se enquadrando em nenhuma dessas situações, o artigo 6º da LINDB prevê que a lei nova seja aplicada aos casos: Art. 6º - A lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada. Principais elementos de conexão presentes na legislação brasileira O primeiro elemento de conexão que nos interessa é aquele que diz respeito às pessoas, que define o início e o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família. As leis pessoais (que dizem respeito às pessoas) podem ser definidas por três diferentes elementos de conexão: pela lei da nacionalidade da pessoa; pela lei do território em que se encontre; pela lei do local de seu domicílio. Na Legislação Brasileira foi escolhido como elemento de conexão o domicílio (residência) do indivíduo para determinar as leis pessoais, conforme o artigo 7º da LINDB: Art. 7º - A lei do país em que for domiciliada a pessoa determina as regras sobre o começo e o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os direitos de família. Assim, na situação-problema, para identificar se os sujeitos envolvidos eram ou não capazes civilmente para realizarem o contrato, deve-se procurar pela lei do domicílio deles. No nosso exemplo, para o argentino, como reside na Argentina, deve-se pesquisar a lei argentina para saber se ele já é civilmente capaz. Para o inglês, como sua residência é no Chile, deve-se pesquisar a lei chilena para saber da sua capacidade civil. Como o Brasil adota a teoria do envio, basta buscar diretamente a Lei de Fundo do Chile e da Argentina. Para as pessoas jurídicas, a LINDB estabelece como elemento de conexão a lei do país em que se constituíram, ou seja, onde a pessoa jurídica for inscrita: Art. 11 - As organizações destinadas a fins de interesse coletivo, como as sociedades e as fundações, obedecem à lei do Estado em que se constituírem. A legislação aplicável para os atos em geral e para as obrigações tem como elemento de conexão a lei do local em que se constituíram, isto é, o lugar onde esses atos venham a acontecer. O artigo 9º da LINDB é que trata desse elemento: Art. 9 - Para qualificar e reger as obrigações, aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem. § 1º. Destinando-se a obrigação a ser executada no Brasil e dependendo de forma essencial, será esta observada, admitidas as peculiaridades da lei estrangeira quanto aos requisitos extrínsecos do ato. § 2º. A obrigação resultante do contrato reputa-se constituída no lugar em que residir o proponente. Conforme o artigo, o local em que se constituir a obrigação é o elemento que define a lei a ser aplicada. Mas se a obrigação for feita em outro país e tiver que ser executada no Brasil, deverão ser respeitadas as exigências que a Legislação Brasileira tiver para o cumprimento da obrigação. Essa regra também vale quando a obrigaçãofor contraída aqui no Brasil para ser cumprida em outro país. Quando se faz uma proposta e essa é aceita pela outra parte, de um outro país, vale como local do contrato o domicílio do proponente. quando o assunto diz respeito a bens imóveis, aplica-se a lei do local onde está situado o imóvel. Assim, se for o caso de transferência de imóvel, de questões de posse sobre o bem, sempre será aplicada a lei do país em que estiver situado o imóvel, conforme prevê o artigo 8º da LINDB: Art. 8º - Para qualificar os bens e regular as relações a eles concernentes, aplicar-se-á a lei do país em que estiverem situados. No caso de bens móveis, aplica-se a lei do país do domicílio do indivíduo que possui o bem. O parágrafo primeiro do artigo 8º da LINDB é que define: § 1º. Aplicar-se-á a lei do país em que for domiciliado o proprietário, quanto aos bens móveis que ele trouxer ou se destinarem a transporte para outros lugares. Nos casos de casamento, aplica-se o critério do domicílio para definir as leis pessoais dos noivos, e o critério da territorialidade (onde acontece o ato) para definir lei que regulará o ato do matrimônio. No caso de anulação do casamento, vale a lei do primeiro domicílio conjugal. Já no caso de dissolução do vínculo, por separação judicial ou divórcio, vale qualquer dos domicílios dos cônjuges, não sendo necessário entrar com o processo somente no local onde aconteceu a celebração do casamento. Mas é necessário que seja feita a averbação do divórcio junto à autoridade em que foi celebrado o casamento, observando o que diz a lei desse país para esse tipo de ato. Ainda, no caso de sucessão, o artigo 10 da LINDB estabelece como elemento de conexão para regular o direito à herança, a lei do país em que era domiciliado o defunto: Art. 10 - A sucessão por morte ou por ausência obedece à lei do país em que era domiciliado o defunto ou o desaparecido, qualquer que seja a natureza e a situação dos bens. Nas questões comerciais, o que vale é a lei pessoal do comerciante para definir sua condição de comerciante, bem como a lei do local dos atos definem se eles são atos caracterizados como comerciais ou como civis. Quanto à definição de competência para julgar, define-se a jurisdição pelo domicílio do réu ou pelo local de cumprimento da obrigação. Também se define pela localização do imóvel, se disser respeito a ações relativas a esse tipo de bem. O artigo 12 da LINDB é que define esses elementos de conexão: Art. 12 - É competente a autoridade brasileira quando for o réu domiciliado no Brasil ou aqui tiver de ser cumprida a obrigação. § 1º. Só a autoridade judiciária brasileira compete conhecer das ações relativas a imóveis situados no Brasil. Ainda, com relação ao cumprimento, no Brasil, de atos processuais provenientes de outros países, há a necessidade que estes atos recebam, do STJ – Superior Tribunal de Justiça, o exequatur, que é o reconhecimento de legitimidade e autoridade do ato. O parágrafo segundo do artigo 12 da LINDB é que estabelece esta formalidade: § 2º. A autoridade judiciária brasileira cumprirá, concedido o exequatur e segundo a forma estabelecida pela lei brasileira, as diligências deprecadas por autoridade estrangeira competente, observando a lei desta, quanto ao objeto das diligências. Constituição Federal Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: i) a homologação de sentenças estrangeiras e a concessão de exequatur às cartas rogatórias Já para o levantamento de provas judiciais, vale a lei do país onde estas provas foram produzidas, não se admitindo provas que lei brasileira desconheça (produzidas sob tortura, por exemplo). O artigo 13 da LINDB é que estabelece este elemento: Art. 13 - A prova dos fatos ocorridos em país estrangeiro rege-se pela lei que nele vigorar quanto ao ônus e aos meios de produzir-se, não se admitindo os tribunais brasileiros provas que a lei desconheça. Para o cumprimento, no Brasil, de sentenças estrangeiras, a LINDB estabelece como exigência, no artigo 15, a homologação da sentença pelo STJ: Art. 15 - Será executada no Brasil a sentença proferida no estrangeiro, que reúna os seguintes requisitos: a) haver sido proferida por juiz competente; b) terem sido as partes citadas ou haver-se legalmente verificado a revelia; c) ter passado em julgado e estar revestida das formalidades necessárias para a execução no lugar em que foi proferida; d) estar traduzida por intérprete autorizado; e) ter sido homologada pelo Supremo Tribunal Federal. (Vide art.105, I, i da Constituição Federal) Modificou para competência do STJ Art. 17. As leis, atos e sentenças de outro país, bem como quaisquer declarações de vontade, não terão eficácia no Brasil, quando ofenderem a soberania nacional, a ordem pública e os bons costumes. Art. 18. Tratando-se de brasileiros, são competentes as autoridades consulares brasileiras para lhes celebrar o casamento e os mais atos de Registro Civil e de tabelionato, inclusive o registro de nascimento e de óbito dos filhos de brasileiro ou brasileira nascido no país da sede do Consulado. § 1º As autoridades consulares brasileiras também poderão celebrar a separação consensual e o divórcio consensual de brasileiros, não havendo filhos menores ou incapazes do casal e observados os requisitos legais quanto aos prazos, devendo constar da respectiva escritura pública as disposições relativas à descrição e à partilha dos bens comuns e à pensão alimentícia e, ainda, ao acordo quanto à retomada pelo cônjuge de seu nome de solteiro ou à manutenção do nome adotado quando se deu o casamento. § 2o É indispensável a assistência de advogado, devidamente constituído, que se dará mediante a subscrição de petição, juntamente com ambas as partes, ou com apenas uma delas, caso a outra constitua advogado próprio, não se fazendo necessário que a assinatura do advogado conste da escritura pública. Art. 19. Reputam-se válidos todos os atos indicados no artigo anterior e celebrados pelos cônsules brasileiros na vigência do Decreto-lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942, desde que satisfaçam todos os requisitos legais. Parágrafo único. No caso em que a celebração desses atos tiver sido recusada pelas autoridades consulares, com fundamento no artigo 18 do mesmo Decreto-lei, ao interessado é facultado renovar o pedido dentro em 90 (noventa) dias contados da data da publicação desta lei. image2.png image3.jpeg