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AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Psicologia e educação da infância. Lisboa, Estampa, 1975. A evolução psicológica da criança. São Paulo, Martins Fontes, 2007. Capítulo 1 ZABALZA, M. Diários de aula. Porto, Porto Editora, 1994. PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO: UM ESTUDO A PARTIR DA PSICOGENÉTICA WALLONIANA Ademilson Aparecido Tenório Fernandes Apresentação Toca sinal para O intervalo. É horário do recreio dos alunos e des- para os professores. Estou numa escola da Rede Municipal de Paulo, que atende os ciclos I e II do ensino fundamental regular no diurno, e a educação de jovens e adultos (EJA), etapas inicial, complementar e final, no período noturno. Ouço O barulho dos alunos dirigindo-se à fila da merenda e apro- momento para pôr os assuntos em dia. Descem as escadas e comentando sobre as aulas e os professores. Suas falas sinalizam para as situações ocorridas em sala de aula. Contu- do, sinalizam também para afetos e desafetos ocorridos durante a rea- lização das atividades propostas para aquela noite, sobre as dificulda- des em entender que foi determinado e como fizeram para solucionar essas dificuldades. A professora não tem paciência. Nem entendi que ela queria. Se fosse a professora do ano passado, você entenderia tudinho. Ela explicava quantas vezes fossem necessárias e depois ainda chamava a gente na lousa. 1. Capítulo baseado na tese de doutorado Professores da educação de jovens e adultos trajetórias de sucesso: um estudo a partir da psicogenética walloniana, São Paulo, Pontifí- Universidade Católica, Programa de Estudos Pós-graduados em Educação: Psicologia da Educação, 2011. 28 29AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO Entro na sala dos professores, sento-me à mesa e logo percebo a E aquela aluna? Tão boa, tão esforçada, tão carinhosa com a gente e fazendo chegada dos colegas com seus diários, cadernos, livros e mais livros. Es- EJA... Tá perdendo tempo. Podia até ir pra faculdade se quisesse. tamos a sós agora, sem os alunos. Podemos falar livremente nesse nos- "espaço". E falar é uma das coisas que os professores mais gostam E papo continua, ainda que informal, mas bastante revelador. de fazer. Logo na chegada, já começam as piadas, os comentários e as Como numa peça de teatro, é possível, a partir dos relatos dos cole- notícias do dia. Ambiente germinativo para colocações e discussões. gas, compor cenário, os atores, os protagonistas, os antagonistas, São denúncias, opiniões, percepções, ideias que mereciam ser re- enredo e drama em si. São sentimentos que fluem na sala pequena, gistradas e analisadas. Um campo fértil para iniciar estudo sobre a e onde se tem a ideia de que todos comungam pelo menos um pensar afetividade. Naquele reservado lugar, ainda que de maneira informal, em comum: ser professor não é nada fácil. Os comentários sobre suas discutem-se as várias visões de educação e de prática pedagógica, bem dificuldades com os alunos sobrepõem-se aos relatos de sucesso nas como as emoções e os sentimentos vivenciados pelos professores em aulas. É mais fácil decorar os nomes dos "alunos-problema", pois esses seu dia a dia com as turmas. Entre um gole e outro de café, como que são mais citados. Contudo, é hora de voltar à lida. O sinal toca, os pro- em um confessionário, conversam sobre suas aulas, suas experiências, fessores pegam os materiais e dirigem-se às salas. Encontram-se com suas frustrações e seus sonhos. E eu, como que ousando quebrar nos- alunos e juntos retornam ao espaço comum. "voto de silêncio docente", ouso aqui relatar. A sala dos professores esvazia-se e silêncio volta a reinar naque- le espaço, onde fico sozinho. Nesse momento, uma senhora, aluna da O que se diz na sala dos professores é assunto só nosso! EJA, chama-me à porta da sala dos professores e pergunta-me se eu poderia fazer-lhe um favor: entregar trabalho de Arte para a profes- Parece uma regra de convivência. É um lugar onde se pode comen- sora. Explica-me que terá de ir embora, pois seu filho não está bem. tar do diretor, da coordenadora pedagógica, da secretária da Educação Se não fosse isso, ela mesma entregaria. Respondo afirmativamente, especialmente porque eles não estão ali mesmo para ouvir do pergunto se já identificou trabalho com nome e a turma, e recebo. marido, do vizinho, do salário, do cachorro e dos alunos. Sim, também A aluna agradece e despede-se. O trabalho é um cartaz, feito em metade de uma cartolina. Com se fala muito sobre os alunos na sala dos professores (mesmo contra- riando a vontade de alguns que pedem para mudar de assunto, pois é pequenos pedaços de papel em tons de azul, marrom e bege, aquela senhora desenhou um castelo, com altas torres. Descobri depois que horário de descanso). Entretanto, assunto sempre vem à tona e lá a técnica para a elaboração do trabalho chama-se mosaico. Ficou um estão, novamente, os professores falando sobre comportamento de trabalho muito bonito. um, a inteligência do outro, a justificativa do aluno que sempre chega No verso, a aluna escreveu uma redação com título "Meu castelo atrasado e a força de vontade do outro que mal sabe escrever. que transcrevo a seguir: Cercados por caixas de dicionários e minigramáticas, as mãos brancas caiadas de giz, apelam para a sensibilidade do próximo para que entendam sua atividade. Meu castelo imaginário Estou encerrando ensino fundamental. Provas, trabalhos, muitos Pois é, nem sei por que me dedico tanto... Eles nem sabem copiar da afazeres, tudo isso para compensar nas notas e garantir a minha lousa... Esses alunos da EJA não aprendem mesmo... Nem sei por que vêm conclusão. pra escola. A professora de arte nos deu vários trabalhos em desenhos para Consigo conversar com eles numa boa. Eles me respeitam, me ouvem, fazermos na sala, e desses escolhemos um para passar na cartoli- fazem as atividades. É muito bom dar aula nessa turma. Saio de lá realizada. na e fazer uma atividade em mosaico. 30 31AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO Na semana passada começamos a elaborar O trabalho. Eu es- turmas da EJA, buscando reconhecer a integração afetivo-cognitiva no colhi castelo. Está quase pronto, só que tem um porém: eu estou processo ensino-aprendizagem, nos diversos momentos da ação peda- gostando tanto! Uma terapia. gógica, visando analisar como a afetividade se expressa na atuação do Amanhã, quarta-feira, tenho que entregar trabalho, só que professor, no contexto escolar da EJA, na percepção de seus alunos e não sei se vou poder fazer isso. Podem não acreditar, mas estou do próprio professor. Para além do caráter descritivo, discuti também morando no castelo. como a atuação do professor, ao reconhecer a integração cognitivo-afe- É verdade. Enquanto fazia castelo, dei asas à minha imagina- tiva, pode canalizar a afetividade a serviço do conhecimento. ção, naveguei fundo e consegui viver uma vida de rainha, morando no castelo que eu mesma construí, tijolinho por tijolinho. Ficou lindo! Eu, uma vida de rainha, com criados, mordomos, príncipe e Procedimento metodológico: justificando as escolhas tudo mais. É maravilhoso dar asas à imaginação e viver uma história dife- Diante do referencial teórico assumido nessa pesquisa, que afirma que rente. Navegar no mundo dos sonhos e deixar-se fazer parte deles. no processo ensino-aprendizagem a integração cognitivo-afetiva-mo- Sou uma eterna sonhadora. Vivo cada instante em minha vida tora está sempre presente, e que conhecimento é O objeto desse pro- refletindo onde poderia me encaixar em cada história diferente. cesso, a opção metodológica para a produção de informações deveria compreender as manifestações afetivas no contexto da sala de aula, Termino a leitura, sensibilizado por seu conteúdo e pela beleza da possibilitando assim um maior entendimento delas. Nesse sentido, a execução do trabalho, qual volto a olhar diversas vezes. utilização da filmagem em vídeo, e sua posterior análise, revelou-se um Ponho-me a pensar como nós, professores a exemplo dessa procedimento de pesquisa que atendeu a essas necessidades. Também professora de Arte, com sua proposta de fazer os alunos colarem pe- contribuíram para essa escolha metodológica os trabalhos com a técni- quenos pedaços de papéis coloridos e montarem figuras conse- ca de autoscopia, a qual, conforme Sadalla (1997, p. 33): "Consiste em guimos afetar nossos alunos, provocando emoções e sentimentos tão realizar uma videogravação do sujeito, individualmente ou em grupo, profundos. E mais: como essa aluna, com a realização desse trabalho e, posteriormente, submetê-lo à observação do conteúdo filmado para artístico e sua produção escrita, conseguiu sensibilizar-me tanto! que exprima comentários sobre ele". Ainda pensando no que ocorreu, começo a imaginar quantas ex- Nesse trabalho, a observação das aulas corrobora uma necessidade periências como essa ocorrem em sala de aula, na interação do pro- metodológica para explicar/elucidar alguns fenômenos ocorridos em sala fessor com seus alunos, e quantos alunos e professores são afetados de aula, bem como algumas situações captadas nas videogravações. (como eu fui!) por essas experiências, seja na forma como profes- A escola onde foram produzidas as informações pertence à Rede sor planeja sua aula, como avalia seu aluno, como acolhe, como Municipal de Ensino (RME) da cidade de São Paulo e fica situada na pe- corrige, como orienta nas atividades, como se mostra predisposto riferia. O período noturno é dedicado aos alunos da educação de jovens a atendê-lo em suas dificuldades, como parabeniza, enfim. De igual e adultos, com uma demanda de 372 alunos matriculados no ano de intensidade, quantos alunos afetam os professores no desenvolvimen- 2008. Essa modalidade de ensino foi implantada nessa escola no ano to das atividades propostas, na recepção que fazem ao professor, no de 2001, e ano após ano a demanda tem aumentado. empenho, no compartilhar suas opiniões, suas confidências e na forma Com apoio da coordenação pedagógica, no início do ano (feve- com que eles próprios administram suas aprendizagens. reiro de 2008), no espaço do Planejamento Anual, foi dada a oportu- Ficamos na sala vazia, eu e todas essas perguntas, que me mo- nidade para que eu apresentasse minha proposta de pesquisa e per- bilizaram a estudar nesse trabalho a atuação dos professores com as guntasse se algum professor seria voluntário para esse trabalho. Uma 32 33AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO professora de Ciências aceitou participar da pesquisa, observando que A videogravação seria um desafio para ela também, porque nunca havia participado de algo dessa natureza. Iniciei, então, os trabalhos de acompanhamento Após os alunos e professores estarem minimamente adaptados a mi- com essa professora, que passo a nomear Maria. nha presença em sala e com a câmera de filmagem, iniciei O processo Definimos também a turma a ser pesquisada quarto termo de gravação. No total, foram gravadas integralmente dez aulas, cinco da e as justificativas para a indicação da turma por parte do corpo docente professora Maria e cinco do professor Jorge. foram que a classe era muito participativa, com boa frequência e com- De posse de todo esse material em vídeo gravado, iniciaram-se a posta em sua maioria por alunos que haviam iniciado seu processo de seleção e a edição das imagens. Esse material foi assistido diversas vezes alfabetização na EJA dessa escola. por mim e, a partir de um minucioso olhar para as filmagens, obtive re- Iniciado processo, os alunos contavam-me, durante as aulas em cortes que melhor ilustravam a interação em sala de aula, bem como os que fazia a observação, que estavam trabalhando num projeto sobre fenômenos que queria discutir. Outro critério utilizado para a seleção foi escrita de um diário eletrônico blog coordenados pelo profes- que os episódios selecionados deveriam ter começo, meio e fim, ou seja, sor de Português, que estivera afastado atuando na Diretoria de Ensi- uma sequência lógica e temporal que possibilitasse a análise pelos de- no havia alguns anos e reassumira suas aulas no mês de abril de 2008. poentes. Outra justificativa para O descarte de alguns trechos alguns Nesse projeto, cada um dos alunos criou sua própria página na inter- episódios excelentes foram excluídos foi minha imperícia no ma- net e, sempre que possível, escreviam textos com temas livres. O pro- nuseio da filmadora, particularmente na fase inicial da videogravação. fessor também criou seus registros em seu blog e todos trocavam men- sagens entre si. Os alunos forneceram-me os endereços eletrônicos e, após visitar As sessões de análise blog³ do professor e também dos alunos, comecei a pensar na possibi- lidade de incluí-lo no processo de pesquisa que estava realizando. Falei Os professores foram entrevistados individualmente no início do ano com professor sobre os procedimentos e as questões que me propu- letivo de 2009 e os alunos foram entrevistados coletivamente em de- nha a discutir com esse trabalho e convidei-o a participar da pesquisa. zembro de 2008, orientados por um roteiro de entrevista pautado em Assim, no primeiro semestre acompanhei somente a professora Ma- questões referentes aos episódios videogravados. Pretendia-se propor- ria, de Ciências, e a partir da Comissão de Classe passei a acompanhar cionar a oportunidade para que os alunos e os professores pesquisa- também esse professor de Língua Portuguesa, que aqui chamo de Jorge. dos pudessem assistir à exibição da filmagem e falar sobre episódio Acompanhei a turma pesquisada pelo menos duas vezes por se- gravado, destacando quais eram as percepções, dos alunos e dos pró- mana, durante um ano letivo. Dessas aulas observadas registrava que prios professores, no que se referia à atuação docente na EJA. Outro me impressionava na dinâmica da classe, as atitudes dos professores objetivo era captar a percepção dos professores e dos alunos de como pesquisados e dos alunos, as interações estabelecidas entre eles, bem essa atuação pode produzir conhecimento. Os episódios foram assisti- como as situações e as falas que pareceram importantes para a análise dos tanto pelos professores quanto pelos alunos na sala de Informáti- do tema. Esses registros foram nomeados Observação Impressionista. ca da própria escola, em momentos diferentes: primeiramente com os Também aproveitei essas aulas para fazer simulações da gravação para alunos, pois tinha de garantir a presença deles na escola para essa fase que os alunos e os professores se habituassem a ser filmados. da pesquisa e O ano letivo já se findava. Depois, realizei a sessão de análise com cada professor individualmente. 2. Quarto Termo F corresponde às sétima e oitava séries do ensino fundamental. A dinâmica para a apresentação dos episódios foi a mesma para 3. Disponível em: . os professores e para os alunos, a saber: inicialmente, informava-se 34 35AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO sobre episódio que seria visto. Depois, cada episódio era exibido por No exercício de leitura e releitura das informações provenientes duas vezes: na primeira vez, os entrevistados assistiam aos episódios das sessões de análise das videogravações, ratificadas pelos registros na íntegra, sem questionamentos, para se acostumarem com as ima- de Observação Impressionista, fica evidente que os alunos são afetados gens na tela. Na segunda exibição já se conversava sobre a filmagem e pela atuação desses professores de forma positiva, ou seja, com vistas propunham-se questões acerca do episódio gravado. ao desenvolvimento do aluno e de seu aprendizado. Em contrapartida, Na sessão de análise com os alunos foi realizada uma entrevista a forma como os alunos respondem a essa atuação afeta professor coletiva. Quando, no episódio a que se assistia, um aluno interagia com em sua prática em nosso caso, também de forma positiva na professor em um plano de destaque, as perguntas eram primeiramen- maneira como percebe seu aluno, fazendo-o repensar suas estratégias, te direcionadas a esse ator privilegiado e, logo em seguida, ampliadas elaborar novas abordagens e buscar informações para que seu trabalho para a participação de toda a turma. pedagógico seja eficiente. Para a entrevista com os professores, utilizei-me do mesmo es- Buscando organizar as informações produzidas para discussão, paço e dos mesmos procedimentos adotados na entrevista com os divido-as em dois grandes temas, pensados a partir do exercício de alunos. Essas entrevistas foram realizadas em fevereiro de 2009, três análise dos relatos de professores e alunos e com base na recorrência meses após a videogravação. Conforme o(a) professor(a) falava sobre dos temas: 1. a atuação dos professores e a percepção que alunos e episódio, as perguntas de aprofundamento eram lançadas. professores têm sobre essa atuação; 2. as repercussões dessa atuação no processo ensino-aprendizagem para alunos e professores. Na discussão, ilustro os temas com recortes das falas de alunos e professores oriundos das sessões de análise dos episódios video- Análise das informações gravados. Para discutir as informações, inspirei-me nas contribuições de Szy- manski, Almeida e Prandini (2002), que trazem uma descrição porme- 1. A atuação dos professores e a percepção norizada do processo de condução e análise de entrevistas. Inspirei- que alunos e professores têm sobre essa atuação me, em especial, no trabalho de Almeida (1992). O procedimento adotado para a análise consiste em ler várias ve- Esse tema reúne os relatos que se referem à percepção que alu- zes depoimento para familiarizar-se com texto que descreve a expe- nos têm da atuação dos professores, bem como a percepção que os riência. Como texto é longo e impossível de ser analisado de uma só professores têm de sua própria atuação. Essa atuação engloba diver- vez, pesquisador passa a pôr em evidência os momentos distinguíveis sas atividades realizadas pelos professores, como conceber e preparar na totalidade do depoimento, obtendo as "unidades de significado" determinada aula, como se relacionar com os alunos, como utilizar os parte do pressuposto de que essas unidades podem acessar todo. O materiais, como trabalhar com a avaliação, por exemplo. Por ser um significado é aquele apreendido pelo pesquisador. tema amplo, foi organizado em subtemas, conforme a recorrência nas O pesquisador transforma as expressões do depoente em lingua- sessões de análise. gem do pesquisador; sintetiza, então, todas as unidades de significado transformadas, ou seja, integra todas as unidades em uma descrição a. Atividades planejadas: verifica-se a preocupação dos professores consistente. em ter claros e planejados os objetivos propostos para a aula e suas A categorização surge em decorrência de leituras e releituras e decorrências. Percebe-se também que a atividade planejada não foi emerge dos aspectos comuns contidos nas informações obtidas com pensada necessariamente para todas as turmas, mas para aquela tur- os professores e com os alunos. ma específica. Essa preocupação dos professores remete à preparação 36 37AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO de material e às possíveis mudanças no percurso da atividade, para que b. Aulas diversificadas: os professores falam sobre a importância de todos possam concluí-la. se trabalhar com estratégias diversificadas para poder atingir os alunos da EJA, tendo em vista as especificidades dessa população. Eu tenho isso preparado. Eu sei até onde eu quero chegar, e aí caminhos mais ou menos eu sei, os vários caminhos, dependendo A matéria pode até ser sempre a mesma, mas dependendo da tur- da turma é na hora. Eu sigo um caminho (professora Maria, 1° ma, dependendo do entusiasmo, a gente foca de uma maneira di- episódio)⁴. ferente (professora Maria, 1° episódio). Mas a Hora do Conto, eu trazia toda semana uma história para eles Os alunos relatam sobre a diversidade de atividades propostas pe- lerem... uma história para eles, eu lia (professor Jorge, 5° episódio). los professores e de materiais de ensino usados durante as aulas. Des- tacam fato de a aula não ser monótona, de não se limitar a cópias de Outros relatos revelam a percepção dos alunos sobre O planeja- textos, tampouco a explicações teóricas orais dos professores. mento da atividade e sobre a preparação dos professores antes das aulas. Os alunos apontam, ainda, que fato de as atividades serem Legal também foi dia da música, que a gente envolveu a outra planejadas torna a aula mais interessante e envolvente. tia. Então, sempre tem uma coisa ou outra que a gente tá fazendo (alunos, 5° episódio). [...] parece que sempre traz uma coisa de diferente. Sempre traz uma coisa diferente pra você e isso que é engraçado. No profissio- Na percepção dos alunos, isso revela a importância que professor nal dele mesmo, no Português (alunos, 3° episódio). dá à atualização de conhecimentos, à pesquisa e à leitura, e serve tam- bém de motivação para que os alunos sempre busquem se atualizar. O legal é que O professor deu a oportunidade de ela ler, criando in- centivo pra todo mundo ler. Parece que ele fez de propósito aquela Aí comecei a ter interesse porque ela falou disso, falou de uma re- nota pra ver que os alunos iam falar (alunos, 3° episódio). portagem que ela leu... E aí ela já emenda com outro assunto. Ela faz um assunto encaixar no outro (alunos, 3° episódio). Na análise dos relatos fica claro que a forma como professor planeja suas aulas e a importância que dá ao planejamento das ativi- Os professores buscam incluir os alunos nos assuntos mais atuais dades afetam seu aluno e evidenciam a integração afetivo-cognitiva. e também nas tecnologias de informação, enfatizando a participação Fica em destaque a atuação do professor, incluindo a maneira como se de todos os alunos nas aulas e nos projetos. Mostra-se outra faceta de relaciona com seus alunos, planejada e desenvolvida, levando-se em sua atuação: ainda que alguns alunos tenham dificuldades com a leitura conta a diversidade dos aspectos envolvidos no processo, ou seja, não e a escrita, ou estejam desmotivados para a aula, professor lança mão podemos mais restringir a questão do processo ensino-aprendizagem de novas estratégias (o computador ou jogral, por exemplo) para que apenas à dimensão cognitiva, dado que a afetividade também é parte aluno supere suas dificuldades e envolva-se na atividade proposta. integrante do processo. A análise revela também que os alunos perce- bem quando a atividade é planejada para eles direcionada às suas [...] mesmo você estando fora da sala de aula, ele tá tentando te necessidades e expectativas e isso provoca maior envolvimento. ensinar as coisas [...] Porque, por exemplo, eu sempre fui bom pra leitura, pra fazer poema, poesia. Só que pra mim eu não era 4. Respeitou-se a expressão de alunos e professores. nada. E ele foi, fora da sala de aula, ele foi me pegando de canto, 38 39AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO me ensinando a fazer as coisas, me ensinando a montar blog, me culo que... Que eu fiquei assim, melhorou cem por cento meu cur- ensinou como registrar meu poema. (alunos, 3° episódio). rículo, coisa que eu nem sabia fazer direito (alunos, 3° episódio). Nessa atividade específica (escrita do blog), desenvolvida pelo pro- De modo geral, os relatos relacionados a esse subtema evidenciam fessor Jorge, os computadores e seus recursos são utilizados como um que a aprendizagem é facilitada e torna-se significativa quando profes- meio de interação social, em que conflito cognitivo, os riscos e desa- sor estabelece alguma relação entre os conteúdos e cotidiano dos alu- fios e apoio recíproco entre pares estão presentes, um meio de de- nos, recorrendo a elementos ou a situações que façam parte do ambiente senvolver culturalmente a linguagem e a escrita e propiciar que aluno sociocultural desses jovens e adultos, evidenciando a presença e a im- construa seu próprio conhecimento. Wallon (1975) sinaliza para fato portância da língua portuguesa e das ciências no dia a dia das pessoas. de que uso de novos recursos, aqui aplicados ao processo ensino- A teoria walloniana enfatiza aproveitamento das possibilidades aprendizagem, é gerador de crescimento individual. Nessa perspectiva de cada fase do desenvolvimento e, tendo em vista a população da EJA, de transformação constante pela presença de novos meios, novas ne- podemos inferir a importância de investir em procedimentos pedagógi- cessidades e novos recursos, as possibilidades de evolução do indiví- COS diversificados para essa faixa etária, considerando suas particulari- duo são aumentadas, ao interagir com novos desafios e aprendizados: dades e especificidades, bem como utilizar conhecimento prévio da realidade desses alunos no processo ensino-aprendizagem. Não é menos verdadeiro que a sociedade coloca homem em pre- Na análise desse subtema, verifica-se que os professores consideram sença de novos meios, novas necessidades e novos recursos que a importância da integração afetivo-cognitiva, na medida em que pesqui- aumentam possibilidades de evolução e diferenciação individual saram a realidade de seus alunos, revelando interesse por eles, e trans- (p. 165). formaram esses dados em possibilidades (facilitadoras) da aprendizagem. d. Respeito ao ritmo de aprendizagem do aluno: os professores evidenciam Os professores pesquisados demonstram ter a clareza da necessi- sua preocupação de respeitar O ritmo de aprendizagem dos alunos, bus- dade de atividades diversificadas e interessantes que tornem a aula mais cando caminhos para que O aluno possa atingir os objetivos propostos dinâmica. Também têm a clareza de que os alunos são diferentes entre para curso, reforçando a crença em sua capacidade de aprender e se- si e exprimem essas diferenças nos gostos e aptidões para atividades guir aprendendo. Isso é percebido pelos alunos, que em diversos mo- com distintas características (WALLON 1975). O não-atendimento dessas mentos reconhecem essa característica na atuação dos professores. necessidades e a desconsideração das características individuais, como no caso das peculiaridades do aluno jovem e do aluno adulto, geram res- Você tenta de uma maneira, você tenta de outra, você vai por vá- postas negativas dos alunos, como a falta de interesse, baixo nível de rios caminhos até ele conseguir construir um raciocínio lógico do aprendizagem, absenteísmo e, nos extremos, a evasão escolar. que está acontecendo (professora Maria, 1° episódio). C. Atividades relacionadas ao cotidiano dos alunos: alunos comentam 1° episódio caracteriza-se por uma situação da qual emergem fato de as atividades propostas pelos professores apresentarem re- evidências desse respeito por parte dos professores e a importância lação com cotidiano deles e, também, trazerem informações novas para aluno de ter seu ritmo de aprendizagem respeitado. Nesse epi- aos estudantes. sódio, a professora Maria propõe algumas questões para a sala e espe- ra que eles cheguem à resposta, a partir de suas dicas. Nesse momento, E assim ele conversa, ele dá várias dicas bacanas pra gente, sabe. bate sinal do final da aula, mas a professora e alunos permanecem Ele ensina muito. Exatamente, ele deu uma aula pra gente de currí- em sala tentando resolver a questão. 40 41AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO Mesmo quando deu sinal pro recreio, ela esperou que a gente Os alunos relatam a importância da correção da avaliação como acertasse porque ela sabia que a gente sabia. É que faltava algo forma de aprendizagem para eles e como referência para prossegui- pra resposta sair... E a professora teve paciência pra esperar a mento nos estudos. gente encontrar a resposta. Então, eu acho assim, na minha opinião, eu acho muito interes- [...] Isso ela sempre faz: espera a gente chegar no resultado. Ela sante porque ele faz a avaliação, corrige e depois ele volta e dá não é do tipo que dá a resposta e pronto. Ela quer que a gente retorno pra gente de onde a gente errou (alunos, 6° episódio). pense (alunos, 1° episódio). Os relatos, bem como todo conteúdo do 6° episódio evidenciam Uma das características muito citadas nos relatos dos alunos é a cuidado do professor em transformar a correção da avaliação numa paciência da professora como facilitadora da aprendizagem, para que atividade de aprendizagem, na qual os próprios alunos possam constatar eles mesmos encontrem a resposta para as atividades propostas. Para que já aprenderam e que ainda precisam aprender. Em contrapartida, eles, essa característica é a maior reveladora do respeito do professor quando não tratada de maneira correta, a avaliação pode tornar-se pro- ao ritmo de aprendizagem de cada aluno e é fundamental para que a fundamente aversiva, quando aluno discrimina que as consequências aprendizagem ocorra. do processo podem ser direcionadas contra ele próprio, entendendo que ensino e aprendizagem são processos independentes e desvinculados: Uma coisa que eu não tava nem querendo saber, ele foi tendo ensino é tarefa do professor; a aprendizagem é obrigação do aluno. aquela paciência, tendo aquele... Foi aí que eu me interessei, eu Fica claro objetivo do professor na realização de atividades de me interessei de vez (alunos, 3° episódio). avaliação e correção: muito mais do que revelar as notas obtidas, professor utiliza esse momento para fornecer a devolutiva, despertan- e. Momentos de avaliação: subtema avaliação surgiu com grande do interesse e a atenção dos alunos para que a aprendizagem se ênfase durante a realização da sessão de análise das videogravações, efetive por meio da verificação e da correção de seus próprios erros, particularmente quando analisamos 6° episódio, no qual professor e da valorização de seus acertos. Essa atividade também propicia aos fala com a turma sobre a prova realizada na aula anterior, mostrando os alunos maior clareza quanto aos assuntos avaliados e segurança para a erros e os acertos dos alunos. De fato, este é um assunto relevante, pois realização de outras avaliações, na medida em que, de modo geral, os exerce uma grande influência na qualidade das relações que sujeito alunos relatam que a correção é realizada com a participação de toda a estabelece com objeto de conhecimento de que se trata. Como ilus- sala, com momentos para esclarecimento de dúvidas durante.a ativi- tração poderíamos citar medo que alunos sentem em dia de prova dade, e a maneira sensata de professor lidar com os erros dos alunos, e a expectativa que se cria em torno do resultado da nota obtida. sem expô-los a situações desagradáveis. Para os professores pesquisados, a avaliação e sua correção ser- vem como momentos de aprendizagem, de rever erros e acertos e sanar Então, a forma dele ensinar não é dizendo: "Você é burro!". A for- as possíveis dúvidas. ma que ele fala acaba sendo agradável pro aluno, e pensa: "Caram- ba, eu tô errando mesmo". Faz ele observar que está escrito ali. Toda prova, toda avaliação, na aula que eu já terminei de ler, né, Legal é isso aí (alunos, 6° episódio). eu dou esse retorno pra eles, eu faço a avaliação com a classe. En- tão explico os pontos, que está errado, que não deve ser feito, Nos relatos, os alunos referem-se às ações e às posturas do profes- né, e toda avaliação eu dou retorno pra eles" (professor Jorge, 6° sor no processo de avaliação/correção, que afetam as formas de pensar, a episódio). produção de conhecimento e a percepção que aluno tem de si mesmo. 42 43AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO Dão maior destaque ao processo de correção, evidenciando a importância exercício e antes de você começar a fazer ele já está passando na nele da intervenção pedagógica. A importância de haver essas devolutivas mesa, mesa por mesa, por ordem, perguntando se você entendeu, de avaliações realizadas com os alunos encerra uma atividade de aprendi- se você tá conseguindo fazer, se você terminou ele já corrige ali, na zagem, que exige do professor uma leitura minuciosa do desempenho do hora... (alunos, 6° episódio). grupo e de cada um dos alunos, de seus níveis de conhecimento e de ela- boração sobre conceitos trabalhados, para que essa devolutiva ganhe O envolvimento do professor suscita emoções que se refletem em sentido de uma reorganização dos conteúdos construídos ou a construir sua própria atuação. As manifestações de alegria, empolgação, expec- O que já sei, que ainda não sei ao longo do processo ensino- tativa, percebidas e relatadas pelos próprios professores e pelos alu- aprendizagem. O processo caracteriza-se também como um indicador de nos, direcionam nosso olhar para uma professora que compartilha suas rumos a ser tomados pelo professor, à medida que revela a necessidade conquistas com a turma e que demonstra afetivamente seu interesse e de mudança de abordagem para aquele conteúdo, de retomar um con- sua dedicação no exercício da atividade docente. ceito trabalhado na aula ou de avançar com temas da disciplina. Pode-se dizer também que essa prática certamente contribui para Primeiro porque eu me empolgo a cada ano, a cada vez que eu dou O estabelecimento e a consolidação de uma melhor relação entre uma aula eu me empolgo junto com eles. [...] Eu acho que é uma alunos e a disciplina curricular trabalhada, desmascarando alguns me- expectativa deles, mas é uma expectativa maior minha. [...] Eu sin- dos que alunos possam ter da avaliação, facilitando O engajamento to assim uma resposta, porque eu gosto dessa aula, eu gosto de do aluno na atividade de ensino em questão. A atuação desses profes- dar aquela aula, e quando ele responde daquela maneira, quando sores encontra-se em consonância com as orientações de Wallon refe- ele chega na conclusão, é uma realização a cada aula (professora rentes às formas de reduzir efeitos da emoção que revelam mais um Maria, 1° episódio). aspecto da integração afetivo-cognitiva: Todo aquele que observa, reflete ou mesmo imagina abole em si Destacam-se relatos dos alunos sobre professores os atende- mesmo a perturbação emocional. [...] Não ceder às emoções sig- rem em seus questionamentos e, sempre que solicitados, dirigirem-se às nifica ter adquirido a capacidade de lhes contrapor a atividade dos carteiras dos alunos para eventuais esclarecimentos, tornando explícita sentidos ou da inteligência (WALLON 1975, 86). a disponibilidade em atendê-los. Assim, a avaliação deve ser planejada e desenvolvida como um E você dar O visto no caderno dele é dizer: tá aprovado nessa lição. instrumento sempre a favor do aluno e do processo de apropriação do Então ele vai, cada dia, e com O passar dos dias, ver que ele tá conhecimento. melhor, que ele tá bem, e ele vai investir naquilo (professora Maria, 3° episódio). f. Disponibilidade e comprometimento: relatos dos professores e dos alunos revelam a disponibilidade desses professores em atender aos Essa atuação concretiza-se em ações pedagógicas bastante efeti- alunos, seu comprometimento com um ensino sério e de qualidade vas e direcionadas, como, por exemplo, dar dicas, assistir individualmen- que, além de informar OS alunos, forme para continuar a aprender e te aos alunos, repetir as orientações (comandas) para a execução da a buscar O conhecimento. atividade, elogiar e orientar alunos. Tem alunos que não estão nem aí, só querem pegar a resposta E assim, quando a gente acerta, quando ele vai corrigir no caderno pronta... mas com ele não. Ele passa um exercício, explica, passa na mesa da gente, que a gente acerta, ele não corrige e pronto e 44 45AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO acabou, não. Ele fala: "Parabéns, muito bem" (...). E quando você timentos agradáveis, ou seja, a escrita do professor referindo-se a cada erra ele também diz: "Tem que prestar mais atenção, né?" (alunos, aluno individualmente naquela atividade foi uma maneira de demonstrar 3° episódio). que ele realmente os conhecia, O que lhes causou alegria e admiração. g. Conhecer alunos: conhecer os alunos em suas individualidades No blog ele falou de cada aluno, ele tava explicando, falando da não é tarefa fácil para um professor que atua na EJA, pois em sua maio- EJA. [...] Das características de cada um (alunos, 3° episódio). ria esses alunos possuem uma trajetória de vida difícil e uma trajetória escolar marcada pela exclusão. Nas palavras da professora Maria: "Tem No caso da professora Maria, a proximidade entre ela e os alunos vários sentidos pra ele estudar" (3° episódio). proporcionou inúmeras formas de interação. Possibilitou diálogos in- Na perspectiva walloniana, professor é convidado a conhecer tensos, criando infinitas maneiras de auxiliar os alunos; caracterizou seus alunos como pessoas em sua concretude, em suas condições de uma forma de demonstração de atenção bastante eficiente e facilmen- existência. te notada por eles. Essa proximidade foi muito valorizada pelos alunos Nos relatos, podemos verificar que esses professores sabem "ler" e constituiu-se um modo de interação extremamente afetiva, que ame- seus alunos, identificando suas vontades, necessidades e expectativas, nizava a ansiedade, transmitia confiança e encorajava O aluno a investir compartilhando com eles seus objetivos para as aulas. Outra informa- ção importante que os relatos trazem é a convicção dos professores da no processo de execução da atividade, interferindo significativamente no processo de apropriação do conhecimento trabalhado, deixando-os capacidade dos alunos de aprender. confortáveis para conversar sobre os assuntos da aula, seus problemas, suas dificuldades. Quando a gente lembra, assim, O que mais a gente lembra é a carinha dos alunos, a expectativa, e você vê, assim, estampada a Outra informação importante que aparece nos relatos dos alunos é vontade de aprender (professora Maria, 1° episódio). fato de esses professores observarem, diligentes, a classe, buscando conhecer alunos em todos os seus aspectos, e de procurarem perce- Fundamentada nessa capacidade de professor conhecer seu ber as reais necessidades deles esclarecimentos, retomadas, explica- aluno e nessa importante crença em sua capacidade de aprender, a ções complementares e também os motivos de seu afastamento. atuação do professor volta-se para as conquistas no plano da apren- dizagem, respeitando O ritmo de cada um e motivando-os a chegar ao Parece que ele quer analisar talento dos alunos. [...] Eu fiquei resultado. Sinaliza, também, para O fato de esses professores terem umas duas semanas afastado da escola e ele mandou e-mail atrás objetivos bem definidos para a aula e conhecerem os alunos com quem de mim. Não só eu como alunos do terceiro, lá embaixo, ele pro- estão trabalhando, com seus avanços, possibilidades e limitações. Isso curou saber que tava acontecendo, que era pra mim voltar pra fica claro na fala dos alunos em referência ao episódio comentado. escola, e ele tá sempre querendo saber talento dos alunos pra incentivar os alunos (alunos, 3° episódio). A professora conhece a gente. Se ela conhece, ela sabe que a gen- te chega lá. Isso ela sempre faz: espera a gente chegar no resulta- Na perspectiva walloniana, a escola é um lugar que possibilita do. Ela não é do tipo que dá a resposta e pronto. Ela quer que a nhecimentos e interações, essenciais para a formação da pessoa. gente pense (alunos, 1° episódio). h. A relação dos professores com conteúdo: para os professores, domí- Em uma atividade de Português blog fato de professor ci- nio do conteúdo da disciplina, bem como O prazer de estar lecionando tar as características de cada um dos alunos da turma suscitou neles sen- são fatores necessários para desenvolvimento das aulas. 46 47AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO Na minha área, que é a Ciência, a curiosidade é que norteia tudo. (1971), é evidenciada no relato dos alunos sobre as atividades de lei- Então, aluno curioso, na hora que ele tem uma pergunta, ela tem tura, como a relatada abaixo. Os próprios alunos percebem as atitu- que ser respondida (professora Maria, 3° episódio). des dos professores no sentido de criar mecanismos para incentivá-los (contagiá-los) à participação nas atividades desenvolvidas. Os relatos sinalizam uma estreita relação entre saber fazer, gostar de fazer e fazer bem. Em suma, podemos inferir que os profes- O legal é que professor deu a oportunidade dela ler, criando sores têm uma melhor atuação quando, efetivamente, gostam daquilo incentivo pra todo mundo ler. [...] Muitas vezes você, na Suplên- que fazem e do conteúdo curricular que ministram. Os relatos demons- cia, tem muito aluno que fica meio tímido... E tem meu primo, por tram, em diversas situações, a pronta percepção dos alunos acerca da exemplo, que morre de medo de voltar pra Suplência porque ele competência dos professores com relação ao objeto de conhecimento não sabe ler. Mas às vezes professor passa uma certa segurança lecionado e de seu esforço e sua preocupação com sua atualização que deixa aluno confortável. Que nem professor Jorge, todo para atender às novas demandas do mundo moderno. mundo tem medo de ler na sala, mas quando ele chama pra ler um monte de gente vai ler (alunos, 3° episódio). Ela é professora mesmo. Ela sabe ensinar. [...] É muito capaz, né, e ela tem muita segurança naquilo que ela ensina, que ela sabe Em síntese, podemos dizer que os relatos evidenciam que os alu- que ela tá ensinando e sabe que que ela tá ensinando não é uma nos percebem domínio do professor sobre assunto abordado, a for- coisa qualquer. [...] Todo comentário que ela faz ela põe a matéria ma de professor lidar com sua disciplina curricular e com a didática de dela e daí vai esticando resto (alunos, 3° episódio). ensino adotada para desenvolver seus conteúdos, à medida que esses relatos reportam conhecimento dos professores em relação ao que A percepção dos alunos no que se refere à professora e à sua dis- está sendo ensinado e, também, ao modo como está sendo ensinado. ciplina curricular é tão coesa e sincrética que em determinados mo- Evidenciam, também, que a satisfação e O envolvimento do professor mentos não conseguem mais diferenciar a professora da disciplina que têm poder de contagiar os alunos, levando-os a se envolver como leciona. sujeitos ativos no processo de ensino-aprendizagem, vencendo seus medos, expondo suas dúvidas e seus comentários durante as aulas. Eu não vejo a professora Maria falando de outro assunto que não seja Ciências. A gente já vê a professora Maria Ciências (alunos, 3° episódio). 2. As repercussões dessa atuação no processo ensino-aprendizagem para alunos e professores Esses aspectos, somados à eficiente mediação realizada pelos professores, à estreita relação deles com objeto de conhecimento e A atuação desses professores diante de seus alunos gera marcas que com a própria atividade de ensinar, proporcionam aos alunos a segu- sinalizam a aprendizagem ocorrida, tanto nos alunos como nos profes- rança necessária para que se envolvam com os conteúdos das áreas sores. Essa interação é geradora de repercussões que se evidenciam de Língua Portuguesa e Ciências. Além disso, podemos concluir que nos dois polos: na forma como aluno se relaciona com objeto do a dedicação e interesse desses professores pelo objeto de conheci- conhecimento e, também, na maneira como professor atua. mento contagiam os alunos, promovendo interesse pelos conteúdos e a consolidação da aprendizagem. Ah, é assim, uma mistura de emoção e alegria, porque eu, sabe, Considerando que ato de ensinar é uma ação planejada e inten- não sei, eu me sinto muito bem. Eu sinto assim uma resposta, por- cional, essa força do contágio, própria das emoções, conforme Wallon que eu gosto dessa aula, eu gosto de dar aquela aula, e quando ele 48 49AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO responde daquela maneira, quando ele chega na conclusão, é uma a relação ter perdido caráter aversivo (negativo), assumindo, nitida- realização a cada aula (professora Maria, 1° episódio). mente, características prazerosas (positivas). No exercício da análise dessa fala da professora, poderíamos in- Uma coisa que eu não tava nem querendo saber, ele foi tendo ferir que seu relato evidencia, entre outros aspectos, real desejo de aquela paciência, tendo aquele... Foi aí que eu me interessei, eu ensinar bem para que haja a aprendizagem, a necessidade de ser com- me interessei de vez (alunos, 3° episódio). preendida pelos alunos e interesse em proporcionar-lhes experiên- cias de sucesso. Os relatos demonstram também, por meio das verbalizações dos Os professores relatam que, no exercício de ministrar aulas para os sujeitos, a intensidade das marcas decorrentes da mediação da profes- alunos da EJA, repensam sua prática, suas crenças e redirecionam sua sora na vida dos alunos, que a tomam como modelo de profissional a ação para conseguir envolver os alunos nas atividades e alcançar os ob- ser seguido e a qualificam como professora que sabe ensinar. jetivos propostos; eles entendem que sua atuação diante dos alunos deixa marcas para toda a vida. Ela é professora mesmo. Ela sabe ensinar (alunos, 3° episódio). Eu sinto. Sinto. Tanto sinto que eu sei, eu tenho um retorno muitas Ao vivenciarem a eficaz mediação realizada pelos professores, os vezes quando eu encontro alunos meus, né, que já são adultos, que alunos passam a se interessar pelos conteúdos da área em questão e já são pais de família, e me encontram e eles me falam. "E aí, profes- apropriam-se efetivamente deles, numa relação marcadamente positiva sora, ainda estamos aprendendo átomos, prótons". Eles me falam do entre sujeito e objeto de conhecimento, a partir do sucesso do aluno assunto e isso ficou na cabeça deles (professora Maria, 3° episódio). nesse processo de ensino e aprendizagem. Os relatos trazem informações sobre processo de reversão da O senhor não tem noção do valor que eu dou hoje pra cada coisa que eu aprendi (alunos, 3° episódio). antiga aversão de alguns alunos pela prática de leitura e outros con- teúdos da disciplina de Língua Portuguesa. Sinaliza também que esse Podemos concluir que os relatos revelam como a qualidade da processo de reversão deu-se na atuação do professor, no exercício de mediação do professor em sua atuação docente afeta a relação dos respeitar ritmo dos alunos, suas dificuldades, valorizando seus acer- alunos com objeto de conhecimento. Essa atuação, segundo os alu- tos e reconhecendo-os como sujeitos de sua própria aprendizagem. nos, determinou gostar ou não de escrever, gostar de ciências e de atualidades. Em muitos comentários, a atuação dos professores reper- Que nem professor Jorge, todo mundo tem medo de ler na sala, mas cutiu na autoestima dos alunos. Eles se percebiam melhores (alunos) e quando ele chama pra ler um monte de gente vai ler. [...] Tem profes- havia satisfação explícita com produto final da atividade. sor que chega e fala assim: "Hoje é prova, nego gela. Hoje, Os relatos apresentados referentes tanto à atuação dos profes- se professor Jorge fala "Hoje tem prova, ele fala de um sores como a seus impactos nos alunos e em sua prática de ensino jeito que todo mundo faz, pela forma como ele fala. [...] Você acaba mostraram que reconhecimento da integração entre a dimensão afeti- confiando mais em você pra fazer as coisas (alunos, 3° episódio). va e a cognição foi fundamental para bom desempenho dos alunos no processo de ensino-aprendizagem, tendo influenciado, assim, a relação Os relatos mostram que a partir das aulas com professor os alu- que estabeleceram com objeto de conhecimento em questão. nos passaram a se interessar pelos conteúdos da disciplina, a entendê- Em suma, podemos dizer que conhecer (e compreender) alu- los e a gostar desse objeto de conhecimento. Destaca-se fato de no jovem ou adulto como uma pessoa completa, integrada, contex- 50 51AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO tualizada é caminho para que a escola seja promotora de inclusão e combinado com alunos. A atividade planejada consistiria na devolu- não de exclusão social. No outro polo professor as repercussões tiva da avaliação realizada na aula anterior. Nessas primeiras linhas da oriundas dessa forma de atuar são evidenciadas na busca de práticas análise já emergem três aspectos importantes da atuação do professor: pedagógicas significativas e envolventes para os alunos, respeitando- ele planeja suas aulas; esse planejamento é concebido com a partici- os como pessoas completas. pação dos alunos; e ele reserva momentos para dar a devolutiva das avaliações realizadas. Outro ponto que gostaria de evidenciar nessa análise é fato de Retomando 6° episódio: a aula improvisada professor não ter esmorecido diante da baixa frequência de alunos naquele dia, ou seja, não cedeu à frustração, uma vez que havia plane- Gostaria de encerrar a discussão das informações produzidas nas ses- jado aquela aula para toda a sala, para rever os erros e acertos de cada sões de análise das videogravações retomando 6° episódio, no qual um, havia se dedicado à leitura das atividades realizadas e criado as professor Jorge trabalha com um jogral, que consiste em uma atividade expectativas para aquele encontro. de leitura que "empresta" alguns elementos da música, pois a leitura é Isso sinaliza para fato de que professor conhece seus alunos realizada como se fosse um coral. O motivo dessa retomada deve-se ao e seu cotidiano. E é essa realidade, vivida por todos eles, professor e fato de que, na perspectiva da pesquisa, esse é um caso exemplar da alunos, que norteia seu fazer pedagógico e as decisões a serem toma- atuação do professor, no qual percebemos os aspectos da integração das. O professor tinha a de que fato de a sala estar esva- afetivo-cognitiva em sua prática. ziada devera-se só e tão somente à chuva, pois se isso não tivesse Para essa aula, professor havia combinado com a sala que faria ocorrido os alunos estariam ali, porque tinham planejado com ele aque- a correção de uma atividade realizada na aula anterior. Contudo, nesse la atividade. Nessa situação, a decisão tomada foi adiar a atividade para dia, por causa das fortes chuvas que caíram em São Paulo, a classe fi- que um maior número de alunos pudesse beneficiar-se dela. cou esvaziada, pois muitos alunos trabalham no centro da cidade e vão A partir desse momento, esse professor poderia ter atuado de ma- direto para a escola. A turma estava composta apenas por oito alunos neira "morna" e pensado O seguinte: "Bom, há poucos alunos, não dá (de uma média de 32 presenças). O professor então explica para a clas- para avançar conteúdo nem propor matérias novas, então vou ter de se que que ele planejou para a aula seria adiado para dia seguinte. 'enrolar' nessa aula". Nesse momento, um dos alunos fala para professor que gostou muito Ouvindo um de seus alunos e esse é outro aspecto importan- do texto que ele apresentou na atividade da aula passada Jogral: te na análise desse episódio professor verificou que eles haviam Irremediável, texto de Maria Dinorá e pede para professor explicar gostado do texto da avaliação. Verificou também que havia um questio- que é um jogral. O professor, então, distribui as cópias do texto que namento, uma necessidade, uma curiosidade a ser desvendada: que estavam na atividade e solicita que os alunos comecem a ler e treinem era, afinal, um jogral? a leitura, porque para a atividade que ele desenvolveria O jogral a Esse questionamento mobilizou professor a buscar, em seu re- leitura do texto tinha de estar na "ponta da língua". pertório didático-pedagógico, uma atividade que pudesse responder Após essa fase inicial, professor chama os alunos para a frente anseio e também envolver todos os outros (poucos) alunos pre- da sala, explica que é um jogral e começa a treinar a atividade com os sentes na aula. alunos, com a participação de todos. Pegou em seu material as cópias dos textos que utilizou na avalia- Acredito que foi importante retomar todo esse desencadeamento ção, deu as explicações necessárias sobre que era um jogral e convidou da atividade para melhor explicar a discussão a que me proponho. alunos a participar, com ele, de uma atividade de leitura diferenciada. Seguindo a ordem dos eventos, primeiramente é necessário ob- Numa análise superficial, diríamos que professor "improvisou" servar que professor tinha um plano para aquela aula que havia sido uma aula. Gostaria de me aprofundar nesse assunto, com objetivo de 52 53AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO esclarecer que chamo de "improvisação", e para esse esclarecimento com fato de ter de ler em VOZ alta na frente da classe, professor utilizarei alguns conhecimentos de minha formação em canto popular, acreditava que eles participariam e executariam a atividade a contento. buscando emprestar da teoria musical conceito de improvisação e É a crença de que todo aluno é capaz de aprender à medida que lhe transportá-lo para a análise desse episódio. ofereçam que for necessário para essa aprendizagem, e cabe ao pro- Em teoria musical, a improvisação é entendida como composição fessor estar atento para fornecer aos alunos os recursos necessários instantânea, jogo lúdico com os sons, livre exercício da musicalida- para sua efetivação. de; está, portanto, associada a uma experiência musical intensa e Na improvisação musical, também é necessário ter um bom co- participativa. Saber improvisar significa compreender profundamen- nhecimento rítmico para que suas frases não fiquem monótonas e, por te a proposta musical do autor ouvir "por entre" as notas, escutar último, é preciso ter a criatividade aguçada para criar as linhas melódi- a intenção de cada frase, perceber sentido de cada acorde, sig- cas do improviso, com objetivos interpretativos bem claros. nificado de cada cadência. É ter intimidade com texto musical. Na aula do professor Jorge, conhecimento sobre ritmo de apren- Fazendo uma analogia com a situação descrita no episódio, pode- dizagem de cada um foi respeitado, tendo em vista que professor não mos afirmar que professor, ao propor essa atividade, já imaginava al- obrigou os alunos a ir para a frente da classe declamar. Pelo contrário, gumas intervenções e situações que poderiam decorrer daquela ativi- ele convidou, incitou e estimulou os alunos e, conforme ficaram mais à dade, visto que, como na música, improviso exige do executante uma vontade com a situação, houve a participação de todos. grande fluência, uma vez que ele acontece em "tempo real", e músico Assim como na improvisação musical, em que um maestro geral- (e professor) tem, a cada instante, de antecipar momento seguinte. mente um regente apresenta as linhas melódicas e deixa os músicos Em música dizemos que primeiro passo para a improvisação é a à vontade para improvisar naquele trecho, cabe ao professor fornecer as leitura. Para que esse professor pudesse improvisar essa aula, ele tinha explicações necessárias para a execução da atividade e criar um ambien- a informação, obtida através da leitura de quem são seus alunos, suas te de confiança e respeito, que permita aos alunos participar dessa im- trajetórias, que já sabem, quais são suas necessidades e seus anseios. provisação. O professor Jorge, além de criar esse ambiente propício para A improvisação demanda que músico utilize uma vasta gama a aprendizagem, mostrou estar comprometido com aquela situação de de seu conhecimento musical: é necessário que ele tenha a harmonia aprendizagem, mesmo com a baixa frequência, na medida em que par- (acordes) da música muito bem treinada, pois acordes são a base ticipou de algumas declamações junto com os alunos. Também os in- para a criação das frases da improvisação. centivou a tentar de novo quando erraram, aplaudiu quando acertaram e Nessa aula, professor utilizou seu repertório de conhecimentos comemorou com eles quando conseguiram declamar texto todo. em sua área de formação - Língua Portuguesa dando enfoque às atividades de leitura, atividades que não nasceram ao acaso, mas que já Entra aí seu papel [do professor] de organizador de ambiente, foram experimentadas. Professores como Jorge, em sua atuação, estão transformando um frio ambiente físico em um ambiente acolhe- sempre dispostos a buscar que já foi feito, experiências bem-sucedi- dor, cheio de atrativos, que desperte interesse [...] e proporcio- das, leituras e pesquisas para aprimorar sua prática, como também es- ne atividades significativas, demonstrando que professor está tão dispostos a inventar que ainda não existe, novas alternativas para percebendo as necessidades de seus alunos naquele momento processo ensino-aprendizagem, partindo de sua criatividade, como a (ALMEIDA 2000, p. 84). escrita do blog com alunos da EJA, por exemplo. Outro importante aspecto revelado na análise desse episódio é que No encerramento dessa análise, podemos concluir que nessa ati- professor acreditava no potencial de seus alunos. Em outras palavras, vidade desenvolvida pelo professor Jorge os aspectos da integração mesmo sabendo que esses alunos não conheciam que era um jogral, afetivo-cognitiva evidenciaram-se, e nela mostrou-se um caminho pro- que não estavam acostumados a declamar, nem estavam familiarizados fícuo para a aprendizagem desses alunos. 54 55AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS CONSTRUINDO TRAJETÓRIAS DE SUCESSO Fica a percepção de que se a formação do professor, assim como processo de colar pedacinhos de papéis coloridos na montagem de suas crenças pedagógicas, valorizam a expressão, a criatividade, a inven- uma figura, a professora solicitou aos alunos que escrevessem uma re- ção, a criação, então improviso passa a ser um valioso instrumento dação sobre que representava a conclusão do ensino fundamental pedagógico. O professor que conserva, ao longo de sua carreira, a capa- para eles, e a figura que tinham de compor usando a técnica de mosaico cidade e hábito de se encantar com as descobertas (o que Paulo Freire deveria estar relacionada com a produção escrita. [1979] chama de "espanto") acaba por contagiar os alunos, motivan- A ilustração escolhida pela aluna para representar esse momen- do-os a arriscar-se também na experiência da aprendizagem mais um to em sua vida foi a de um castelo, com altas torres, e sua redação aspecto da integração afetivo-cognitiva. foi reveladora dos momentos agradáveis de aprendizagem que viveu na escola, das dificuldades para concluir curso, bem como de seus anseios e perspectivas de continuar estudando. Revelou também seu Considerações finais esforço para retomar os estudos e sua alegria ao sentir-se pertencente ao "mundo dos estudantes", que associa com "mundo dos sonhos" Após todo caminho percorrido na produção deste trabalho, gostaria que idealizou para sua vida. de retomar alguns aspectos que considero importantes. Nessa emprei- Wallon (1986) elucida-nos essa situação: "[...] Os meios em que tada, pretendo avaliar a pesquisa desenvolvida enfocando tanto pro- vive e aqueles com os quais sonha são a forma que deixa nela sua mar- cesso quanto produto. ca. Não se trata de uma marca recebida passivamente" (p. 171). Primeiramente, esse trabalho revelou-me que processo ensino- Os resultados revelam que essa atuação é percebida pelos alunos e aprendizagem é composto de avanços e retomadas. Às vezes, é neces- ressaltam a integração da dimensão afetiva nos processos de ensinar e sário voltar alguns passos, olhar novamente O evento, mudar ângulo aprender. Revelam também que a atuação docente deixa marcas que re- para obter uma visão melhor, criar coragem para desnudar-se de olha- percutem no processo ensino-aprendizagem. Gostar de ler, de escrever, de res enviesados, criar. pesquisar novos assuntos científicos está entrelaçado com as experiências Volto agora, novamente, meu olhar para a redação da aluna que, na obtidas com esses professores, que consideram a importância da integra- gênese dessa pesquisa, deixou aos meus cuidados seu trabalho de Arte. ção cognitivo-afetiva em sua atuação. De igual modo, gostar de planejar Recomponho mentalmente a cena, que agora ganha uma nova leitura. aulas melhores, pesquisar assuntos interessantes e incluí-los em seu plane- E esta se torna possível devido à aprendizagem construída no exercício jamento, procurar novas estratégias para abordar um assunto, buscar um dessa pesquisa, e que muito contribuiu para minha formação docente. relacionamento mais próximo e profícuo com seus alunos, reconhecendo- Em uma análise prévia (tendo em vista que trabalho dessa aluna como resultantes de múltiplas determinações, bem como acreditar em não faz parte do corpo de informações delimitadas para discussão), po- sua capacidade de aprender são evidências de uma atuação que considera demos concluir que essa professora tinha um objetivo específico para e canaliza a afetividade a serviço do conhecimento, comprometendo-se aquela atividade: ensinar a técnica de mosaico. Contudo, se apurarmos com a formação do indivíduo em todos os seus aspectos. olhar, se fizermos a observação como nos orienta Wallon, fazendo Os relatos trazem uma tônica otimista em relação à atuação dos perguntas ao real, poderemos perceber que havia outros objetivos que, professores pesquisados e às características do trabalhado pedagógico embora não explicitados, compunham a atuação da professora. por eles desenvolvido na percepção de seus alunos. Realmente, a pro- No desenvolvimento da atividade, além de focar conhecimento fessora Maria e professor Jorge são legítimos representantes de profes- teórico que compõe ensino de Arte técnica de mosaico a pro- sores que estão construindo trajetórias de sucesso, para eles próprios e fessora reconheceu alguns aspectos da dimensão afetiva e canalizou- para seus alunos. para a produção de conhecimento, O que tornou a atividade muito Acredito que a discussão sobre como a afetividade se expressa na mais significativa, como nos revela trabalho da aluna. Para além do atuação de professores, no contexto da EJA, na percepção de alunos 56 57AFETIVIDADE, APRENDIZAGEM E EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS e dos próprios professores, sobre de que forma professor, em sua Capítulo 2 atuação, ao reconhecer a integração cognitivo-afetiva, pode canalizar a afetividade a serviço do conhecimento foi contemplada. PROFESSORES INICIANTES NA Fundamentado na discussão realizada neste trabalho, pode-se con- EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: cluir que quando considera aluno como indivíduo concreto, aceita-o EMOÇÕES E SENTIMENTOS como digno de valor e capaz de aprender, e propõe-se a canalizar a afe- tividade a serviço do conhecimento professor tem melhores condições ENVOLVIDOS NA ATUAÇÃO de promover um ensino de qualidade e uma efetiva aprendizagem. Andrea Jamil Paiva Mollica ajmollica@uol.com.br Referências bibliográficas ALMEIDA, L. R. O projeto noturno: incursões no vivido por educadores e alunos de escolas públicas paulistas que tentaram um novo jeito início de caminhar. Tese (Doutorado). São Paulo, Pontifícia Universidade Católica, 1992. E a porta se abriu... De um lado, olhares curiosos, expressões de ansie- Wallon e a educação. In: MAHONEY, A. A., ALMEIDA, L. R. dade, corpos agitados; de outro, coração batendo forte, movimentos (orgs.). Henri Wallon Psicologia e educação. São Paulo, Loyola, 2000. trêmulos e uma VOZ baixa: "Bom dia!". No primeiro caso, alunos de um FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, curso de alfabetização de jovens e adultos esperando ansiosamente 1979. para conhecer a nova professora; no segundo, uma docente que atua- SADALLA, A. M. F. A. Com a palavra, a professora. Tese (Doutorado em ria pela primeira vez e que não tinha clareza de como agiria na situação. Educação). Campinas, UNICAMP, Faculdade de Educação, 1997. Este brevíssimo relato traz minha experiência inicial como professora. SZYMANSKY, H., ALMEIDA, L. R., PRANDINI, R. C. A. R. A entrevista na Naquela ocasião eu era muito jovem, acabara de terminar antigo pesquisa em educação: a prática reflexiva. Brasília, Editora Plano, 2002 curso de Magistério e estava no início do curso de Pedagogia. Muitas (Série Pesquisas em Educação, 4). eram as dúvidas que eu possuía sobre a prática educacional; entretan- WALLON, H. A evolução psicológica da criança. São Paulo, Martins Fontes, to, as dúvidas a respeito da atuação com jovens e adultos eram ainda 1995. maiores, pois, além de nunca ter trabalhado, nunca tinha estudado te- As origens do caráter na criança. São Paulo: Difusão Europeia do mas referentes ao ensino com aquele tipo específico de aluno. Apesar Livro, 1971. de meu entusiasmo com a profissão e de algumas experiências bem- Psicologia e educação da infância. Tradução de Ana Rabaça. Lisboa, sucedidas, fruto de saberes que foram sendo construídos no dia a dia, Estampa, 1975. lembro-me bem das dificuldades do cotidiano e de algumas frustrações Os meios, os grupos e a psicogênese da criança. In: WERE- que marcaram meu começo na carreira docente. BE, NADEL-BRULFER, J. (org.). Henri Wallon. São Paulo, Ática, Além de não possuir nenhuma formação na área da educação de 1986. jovens e adultos (EJA), eu não tinha apoio da equipe escolar (direção, 1. Capítulo baseado na dissertação de Mestrado Tornar-se professor da EJA: um estu- do priorizando a dimensão afetiva, São Paulo, Pontifícia Universidade Católica, 2010. 58 59

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