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1. Histórico da Proteção Integral da Criança e do Adolescente. 
 
 
Primeiramente, cabe uma breve explicação e distinção das 
garantias constitucionais e dos direitos previstos na Constituição Federal 
de 1988, como José Afonso da Silva sustentou que, 
“Os direitos são bens e vantagens conferidas pela norma, enquanto 
garantias são meios destinados a fazer valer esses direitos, 
instrumentos pelos quais se asseguraram o exercício e gozo 
daqueles bens e vantagens.”1 
 
Porém no contexto de evolução da proteção da criança e do 
adolescente, haviam claras distinções entre as infâncias, de maneira a criticar a 
distinção entre estas duas infâncias na América Latina, Emilio Garcia Mendez, 
afirma: 
“No contexto socioeconômico da chamada “década perdida”, resulta 
supérfluo insistir com cifras para demonstrar a existência de dois tipos 
de infância na América Latina. Uma minoria com as necessidades 
básicas amplamente satisfeitas (crianças e adolescentes) e uma 
maioria com suas necessidades básicas total ou particularmente 
insatisfeitas (os menores).”2 
 
Tal ideal contraria a ideologia do nosso atual Estatuto da Criança e do 
Adolescente conforme nos afirma o grande doutrinador Saraiva: 
“A ideologia que norteia o estatuto da criança e do adolescente se 
assenta no principio de que todas as crianças e todos os adolescente, 
sem distinção, desfrutam dos mesmos direitos e sujeitam-se a 
obrigações compatíveis com a peculiar condição de desenvolvimento 
que desfrutam, rompendo, definitivamente com a ideia até então 
vigente de que os juizados de menores seriam uma justiça para os 
pobres, posto que, analisada a doutrina da situação irregular, 
constatava-se que para os bem nascidos, a legislação baseada 
naquele primado lhes era absolutamente indiferente”.3 
 
 
1 SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo, 8º ed., São Paulo, Malheiros 
Editores, 1992. 
2 MENDEZ, Emílio Garcia. Legislação de Menores na América Latina: uma doutrina em situação 
irregular, ABMP, 1997. 
3 SARAIVA, João Batista da Costa. Adolescente e Ato Infracional: garantias processuais e medidas 
socioeducativas, Porto Alegre, Livraria do Advogado Editora, 1999. 
Ainda neste sentido o autor Antonio Carlos Gomes da Costa discorre 
sobre a teoria da proteção integral, argumenta que, 
 “De fato a concepção sustentadora do Estatuto é a chamada 
Doutrina da Proteção Integral defendida pela ONU com base na 
Declaração Universal dos Direitos da Criança. Esta doutrina afirma o 
valor intrínseco da criança como ser humano; a necessidade de 
especial respeito à sua condição de pessoa em desenvolvimento; o 
valor prospectivo da infância e da juventude, como portadora da 
continuidade do seu povo e da espécie e o reconhecimento da sua 
vulnerabilidade o que torna as crianças e adolescentes merecedores 
de proteção integral por parte da família, da sociedade e do Estado, o 
qual deverá atuar através de políticas específicas para promoção e 
defesa de seus direitos”.4 
 
Isto posto, vemos que hà a necessidade de uma maior proteção a 
criança e ao adolescente, porém esta batalha que se acerca da punibilidade 
em contraponto com a proteção devida por reconhecimento da sua 
vulnerabilidade é destacada desde o início do século XX. 
Como percebe-se a importância de reconhecermos uma proteção 
especial para crianças e adolescentes não é relativamente nova. Como se vê 
na Declaração de Genebra de 1924 que determinava:“a necessidade de 
proporcionar à criança uma proteção especial” 
Da mesma forma, vem corroborar neste sentido a Declaração Universal 
dos Direitos Humanos das Nações Unidas de 1948: “direito a cuidados e 
assistência especiais”. 
Neste mesmo sentido, a Convenção Americana sobre os Direitos 
Humanos,esta que rege nosso ordenamento (Pacto de São José) de 1969, em 
seu art. 19 diz:“Toda criança tem direito às medidas de proteção que na sua 
condição de menor requer, por parte da família, da sociedade e do Estado” 
Esta convenção que deu origem ao principio constitucional da proteção 
integral da criança e do adolescente, tendo em vista a sua necessidade de uma 
proteção especial. 
 
4 COSTA,Antônio Carlos Gomes da. Natureza e implantação do novo Direito da Criança e do 
Adolescente. In: PEREIRA, Tânia da Silva (coord.). Estatuto da Criança e do Adolescente: Lei 
8.69/90: estudos sócio-jurídicos. Rio de Janeiro: Renovar, 1992. 
Efetuando uma comparação com o exposto no Congresso realizado em 
Paris, para debater a respeito dos direitos da criança e do adolescente, conclui-
se que ao aprovar este projeto de Lei que encontra-se em tramite, estaríamos 
regressando no tempo em que adultos e menores eram tratados sem distinção, 
e desconsiderando toda a evolução de tratamento aos desiguais que tanto 
prezamos e prevemos em nossa Constituição Federal, para punir 
proporcionalmente e adequadamente cada um. 
Ainda neste sentido, podemos citar dois episódios fundamentais para a 
afirmação do Direito do Menor no início do século XX. Evento que foi de grande 
importância por ter influenciado diretamente na criação dos juízos de menores 
por toda a Europa e América Latina, e principalmente por ter assentado os 
princípios do novo direito. 
O Primeiro Congresso Internacional de Menores, realizado em Paris, no 
ano de 1911, como destaca Emílio Garcia Mendez ao analisar as conclusões 
deste congresso: 
“que servem para legitimar as reformas da justiça de menores as 
espantosas condições de vida nos cárceres onde os menores eram 
alojados de forma indiscriminada com adultos e a formalidade e a 
inflexibilidade da lei penal, que obrigando a respeitar entre outros, os 
princípios da legalidade e de determinação da condenação, impediam 
a tarefa de repressão-proteção própria do direito de menores”.5 
 
João Batista da Costa Saraiva, respeitado doutrinador neste tema, 
conclui que: 
“ a política, na época era de supressão de garantias (como o principio 
da legalidade) para a assegurar a “proteção” dos menores. Para 
combater um mal, a indisposição de tratamento entre adultos e 
crianças, criava-se em nome do “amor a infância”, aquilo que resultou 
um monstro: o caráter tutelar da justiça de menores, igualando 
desiguais”.6 
 
5 MENDEZ, Emílio Garcia. Adolescentes e Responsabilidade Penal: Um debate Latino-Americano. 
Porto Alegre: AJURIS, ESMP-RS, FESDP-RS, 2000. 
6 SARAIVA, João Batista da Costa. ADOLECENTE EM CONFLITO COM A LEI – da indiferença à 
proteção integral. Porto Alegre: Livraria do Advogado. 3ª Ed. 2009. 
 
Apesar da evolução até os dias atuais em que há na Constituição 
Federal Brasileira, o princípio da Proteção Integral do Adolescente que 
deveria ser amplamente aplicado em favor dos “menores infratores”, este 
é levianamente esquecido no momento necessário de sua aplicação, 
conforme ressalta Aury Lopes Jr. : 
“é fundamental buscar-se uma maior eficácia dos direitos de defesa e 
da fundamentação das decisões judiciais. Outro aspecto preocupante 
é a ilusão de que ‘todos no processo estão a serviço da defesa do 
adolescente’. É uma falácia garantista similar àquela existente na 
execução penal (e o discurso de que ‘todos são defensores do 
apenado’ quando na verdade ninguém o é!) e que se transforma, na 
realidade num hibridismo inquisitorial em que todos estão contra o 
imputado (ou pelo menos ninguém esta realmente a seu favor).7 
 
Deste modo percebe-se que a evolução da proteção integral da criança 
e do adolescente é ainda muito necessária, pois mesmo que ‘veladamente’, 
queremos igualá-los aos plenamente capazes que são regidos pelo Código 
Penal Brasileiro. Esquecendo assim que estes possuem uma legislação 
própria, pois como previsto na Constituição Federal são pessoas em 
desenvolvimento. 
 
 
Relativização das medidas socioeducativas do ECA com as 
modificaçõesprevistas no projeto de Lei 5524/2013. 
 
Conforme o Art. 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente traz as 
medidas socioeducativas que podem ser aplicadas aos adolescentes: 
Art. 112. Verificada a prática de ato infracional, a autoridade 
competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas: 
I - advertência; 
II - obrigação de reparar o dano; 
III - prestação de serviços à comunidade; 
IV - liberdade assistida; 
V - inserção em regime de semi-liberdade; 
VI - internação em estabelecimento educacional; 
VII - qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI. 
 
7 LOPES JR.,Aury. Introdução Crítica ao Processo Penal: fundamentos da instrumentalidade garantista. 
Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2004. 
§ 1º A medida aplicada ao adolescente levará em conta a sua 
capacidade de cumpri-la, as circunstâncias e a gravidade da infração. 
§ 2º Em hipótese alguma e sob pretexto algum, será admitida a 
prestação de trabalho forçado. 
§ 3º Os adolescentes portadores de doença ou deficiência mental 
receberão tratamento individual e especializado, em local adequado 
às suas condições.8 
 
Considerando-se mais grave a internação, em relação a todas as 
demais medidas, e mais grave a semiliberdade, em relação às medidas 
em meio aberto. 
Ainda assim, o projeto de Lei 5524/13 pretende aumentar o tempo de 
internação do menor, julgando que o tempo previsto no ECA não seja 
considerado suficiente, e desconsiderando assim a função de reabilitação do 
menor, transformando em uma pena/punição. 
Façamos uma comparação com as previsões legais do Estatuto da 
Criança e do Adolescente e das mudanças previstas no projeto. Primeiramente 
as previsões do ECA: 
Art. 121. A internação constitui medida privativa da liberdade, sujeita 
aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição 
peculiar de pessoa em desenvolvimento. 
§ 1º Será permitida a realização de atividades externas, a critério da 
equipe técnica da entidade, salvo expressa determinação judicial em 
contrário. 
§ 2º A medida não comporta prazo determinado, devendo sua 
manutenção ser reavaliada, mediante decisão fundamentada, no 
máximo a cada seis meses. 
§ 3º Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá 
a três anos. 
§ 4º Atingido o limite estabelecido no parágrafo anterior, o 
adolescente deverá ser liberado, colocado em regime de semi-
liberdade ou de liberdade assistida. 
§ 5º A liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade. 
§ 6º Em qualquer hipótese a desinternação será precedida de 
autorização judicial, ouvido o Ministério Público. 
§ 7o A determinação judicial mencionada no § 1o poderá ser revista a 
qualquer tempo pela autoridade judiciária. 
Art. 122. A medida de internação só poderá ser aplicada quando: 
I - tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou 
violência a pessoa; 
II - por reiteração no cometimento de outras infrações graves; 
III - por descumprimento reiterado e injustificável da medida 
anteriormente imposta. 
§ 1o O prazo de internação na hipótese do inciso III deste artigo não 
poderá ser superior a 3 (três) meses, devendo ser decretada 
judicialmente após o devido processo legal. 
§ 2º. Em nenhuma hipótese será aplicada a internação, havendo 
outra medida adequada.9 
 
 
 
8 REPÚBLICA, Presidência da. LEI 8.069 – ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. 1990. 
9 Ibidem 
Percebe-se assim que as medidas do ECA tem intuito de reeducar o 
adolescente e não penalizá-lo diretamente como o Código Penal é usado, pois 
tratam-se de sujeitos completamente diferentes para sua aplicação. 
Salientando que conforme previsto no Estatuto, nenhuma internação 
deve ser superior a 3 anos, o que vale apreciar as mudanças solicitadas no 
projeto em análise: 
 
 Art. 121. (...) 
(...) 
§ 3º O período de internação não será: 
I) menor que 8 (oito) e nem maior que 14 (quatorze) anos no caso do 
ato infracional constituir crime hediondo e o agente tiver na data do 
ato mais de 16 (dezesseis) anos; 
II) menor que 3 (três) e nem maior que 8 (oito) anos no caso de o ato 
infracional constituir crime hediondo e o agente tiver na data do ato 
mais de 14 (quatorze) e menos de 16 (dezesseis) anos; 
III) superior a 3 (três) anos nos demais casos. (NR) 
(...) 
§ 7º-A. A internação a que se refere os incisos I e II do § 3º deste 
artigo dependerá de avaliação psicológica para determinar se o 
menor infrator tinha capacidade para entender o caráter ilícito do ato 
e determinar-se de acordo com este entendimento. (AC) 
 
Ressaltando ainda, a previsão de crime hediondo no ECA, que é mais 
uma das medidas a serem implementadas pelo projeto em análise, que 
obviamente quer igualar o ECA ao Código Penal Brasileiro, de modo que seria 
praticamente irrelevante dizer que o Estauto da Criança e do Adolescente é 
visando uma proteção especial ao menor, e que visa reeducar com suas 
medidas socioeducativas.

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