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Universidade Federal de Pernambuco Programa de pós-graduação em Design – Mestrado Disciplina: Fundamentos do Design Aluno: João Paulo Menezes Resenha Crítica: Design for the Real World: Human Ecology and Social Change. Victor Papanek O livro Design for the real world: Human Ecology and Social Change, segunda edição completamente revisada, foi publicado em Londres, Reino Unido em 1985, pela editora Thames & Hudson, possui 390 páginas e foi reimpresso em 2006, pela mesma editora. Victor Papanek foi designer, professor e autor deste e diversos livros. Nascido em Viena, Áustria, no ano de 1927. Estudou arquitetura e design em Nova York no final da década de 40. Posteriormente, estudou e tornou-se professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (M.I.T.). Atuou como professor em diversos países como Canadá, Suécia, Dinamarca e Reino Unido, como consultor e pesquisador na Austrália, Indonésia e Papua Nova-Guiné, e ainda como designer parceiro da UNESCO e da Organização Mundial da Saúde. Foi professor da Escola de Arquitetura e Design Urbano na Universidade de Kansas, até 1998, ano de sua morte. Publicou a primeira edição de seu livro em 1971, por perceber que não havia um único livro que tratasse das responsabilidades do designer, e que considerasse alta demanda social e moral no âmbito do design. A segunda edição, publicada no Reino Unido em 1985, manteve o tema central, com textos e figuras adicionais para atualização da obra, que havia se tornado o livro mais lido sobre design do planeta, traduzido para 23 idiomas, contrariando a imprensa especializada e organizações profissionais da década de 70 que atacaram e ridicularizaram o autor pelas ideias e críticas presentes na obra. Com texto na forma de ensaio, e inúmeros exemplos de projetos do autor e outros pesquisadores, esta obra é direcionada para leitores com conhecimento na área. O autor convoca os profissionais do design industrial a um envolvimento social e moral, e a um direcionamento de sua atuação para as necessidades do mundo, e com a urgência necessária para solução de problemas reais. Com críticas pesadas ao modelo industrial vigente, marcado por obsolescência programada e estilização, e duros ataques à indústria automobilística americana, Papanek defende e demonstra com inúmeros exemplos que o design pode encarar problemas reais como oportunidades, e propõe uma abordagem com inovação e criatividade em projetos para o “mundo real”. O texto impressiona pela atualidade dos temas, ainda que escrito originalmente há mais de 40 anos. A obra divide-se em duas partes, cada uma com seis capítulos. Neste texto faremos uma análise crítica da primeira parte (os 6 primeiros capítulos) que é intitulada “Como as coisas são” (tradução livre), onde o autor “tenta definir e criticar o design como é praticado e ensinado atualmente” (PAPANEK, 1985. p. XII). Apresenta um panorama da profissão do design industrial. Suas características e atribuições, e condena práticas antiéticas frequentes no sistema produtivo. Definindo inicialmente a profissão, o autor afirma que todos os homens são designers, e que o “design é o esforço consciente e intuitivo de impor ordem significativa” (PAPANEK, 1985. p. 4). Em seguida, relata uma breve história da profissão do design industrial, das primeiras sociedades europeias em 1849, até a década de 1980, em que o planeta encontra-se dividido. Papanek considera que o design contribuiu para aumento das desigualdades sociais e econômicas através do consentimento com o sistema industrial que prioriza o “design à venda” (idem. p. 33) e utiliza os artifícios da obsolescência programada e do apelo meramente estético. O autor convoca os designers contemporâneos a uma “nova cruzada”, abandonando este posicionamento e contribuindo para o atendimento às reais necessidades humanas, com trabalhos muito mais inovadores (idem. p.37). No capítulo quatro, aborda de forma completa as responsabilidades morais e sociais do Design. Questiona: Seu projeto estará ao lado do bem social, ou não? O autor afirma que os designers consideram apenas uma pequena parcela dos verdadeiros problemas de design, e que esta abordagem é insuficiente. Pois a responsabilidade do designer não acaba quando o produto chega ao mercado, questões de uso, segurança do produto, da sobrevivência da empresa, do impacto social e ambiental, dependem do projeto executado. Neste ponto, a crítica é severa, pois o autor não considera que o designer muitas vezes, assim como o usuário, é oprimido pelo imediatismo do mercado. Ao expor anteriormente um texto de Henry Dreyfuss que afirma que o designer pode ocasionalmente perder um cliente, mas não deve perder seu respeito, (PAPANEK, 1985, p.29), o autor demonstra seu parecer de forma inflexível. Declarando que o profissional não deve ser indiferente ao posicionamento empresarial. Papanek afirma que a qualidade é essencial para satisfação do usuário, criticando indústrias que comercializam produtos de baixa qualidade, desrespeitando e colocando em risco os usuários, para maximizar lucros. Inclui neste grupo a indústria automobilística dos Estados Unidos, declarando que “o automóvel americano é o dispositivo assassino mais eficiente desde a invenção da metralhadora” (idem, 1985 p.67). Ainda neste mesmo capítulo, propõe a adesão de uma atitude pelos designers, e que esta pode ser uma resposta para melhora gradativa da sociedade. A atitude chamada por ele de Kymmenykset. Esta palavra tem um significado semelhante a dízimo. Entretanto os designers não contribuiriam socialmente com dinheiro, e sim com 10% de seu tempo de trabalho ou “colheita de ideias” dedicando-se a projetos que favorecem as camadas populares mais necessitadas (idem, 1985. p.69). Com esta declaração o autor demonstra uma esperança que muitos podem considerar ingênua e distante, diante da imersão característica da profissão de design em uma sociedade orientada ao lucro. Em seguida, o autor critica o que ele chama (em uma tradução livre) de cultura descartável. Demonstra posições de mercado das indústrias que convencem os usuários, por meio de publicidade, à substituição de seus bens por considera-los obsoletos. Jogando no lixo seus móveis, roupas e aparelhos, mesmo que ainda funcionem. Além de persuadi-los a comprar produtos inúteis que não serão utilizados. Esta constante troca de produtos em ritmo acelerado produz lixo em escala global (PAPANEK, 1985. p 87). Considera aceitável a mudança de produtos que sofreram uma grande atualização tecnológica. Mas propõe como solução para o problema gerado pelos bens “descartáveis”, o arrendamento de produtos, e não a posse por parte do usuário. Demonstrando casos em que o aluguel é mais vantajoso economicamente que a sua posse, principalmente por questões de impostos e manutenção (idem 1985. p 98). Com esta proposta, contrária à engenharia do consumo idealizada nos anos 30 por Earnest Elmo Calkins (SUDJIC, 2010. p. 14), Papanek antecipava soluções que hoje são sugeridas por teóricos do design para sustentabilidade, a exemplo de Manzini que nomeou uma solução semelhante a esta de “mix integrado de produtos e serviços” (MANZINI, 2008. p.271) e Vezolli, que utiliza o termo Sistema produto-serviço (ou PSS- product-service System), que visam a redução de consumo de bens, em um sistema produtivo baseado na satisfação do usuário. Mesmo com esta sugestão, Papanek é realista e questiona se “as estratégias de design e marketing são possíveis sob um sistema remanescente do capitalismo privado” (1985. p. 101). Esta é a grande crítica que recai sobre ambientalistas e designers para a sustentabilidade dos dias atuais, eventualmente considerados utópicos e contra culturais ao propor mudanças profundas para o mercado. Por outro lado, inovações de sistemas podem significar oportunidades de negócio para empresas, e melhoras qualitativas dos produtos para o usuário. Mesmo com o questionamento, Papanek reconheceque “respostas inovadoras para a questão da obsolescência e valor devem ser encontradas” (idem. p. 101). No sexto capítulo, o último a que corresponde este texto, o autor defende que o designer deve tentar educar seu cliente e os consumidores (PAPANEK, 1985. p.103). Reprovando o design que exclui a maior parte da população (idem, p. 117). Mais uma vez, responsabilizando o designer por problemas mercadológicos, desconsiderando fatores práticos da profissão. Talvez por estar em um país desenvolvido onde a profissão tenha um reconhecimento social consolidado, realidade ainda distante do mercado brasileiro. Também demonstra que há projetos necessários, que requerem soluções urgentes, como instrumentos para deficientes visuais e auditivos, dispositivos de segurança para crianças, equipamentos agrícolas (idem p.127, 131, 140), ou problemas no transporte de cargas em que, por exemplo, sugere o retorno da utilização de aeronaves mais leves que o ar e navios veleiros (idem p. 144). Reafirma que os profissionais não podem simplesmente sentarem em seus escritórios permanecendo alheios a esta realidade (idem .p.140). Observando o texto, pode-se considerar que o autor responsabiliza demasiadamente o design por muitos males sociais, ambientais e econômicos, e por outro lado, considera o design como detentor do poder de solucionar tais problemas. Entretanto, ao finalizar a primeira parte de seu livro, Papanek, de forma coerente, contrapõe-se a esta perspectiva afirmando: “Tudo que eu estou dizendo é que muitos problemas poderiam ser amenizados através da capacidade de uma intervenção de design. Isto significará uma nova interpretação para os designers, não mais como ferramentas nas mãos da indústria, mas como defensores dos usuários.” (PAPANEK, 1985. p. 146). Podemos concluir que o texto tem grandes contribuições para o posicionamento ético dos profissionais da área de design, tema pouco abordado na academia e no mercado de trabalho. Com críticas ásperas e frases de efeito, o autor procura conscientizar os designers de sua responsabilidade moral como idealizadores de artefatos que têm com grande peso social, econômico e ambiental. Neste sentido identificamos a surpreendente atualidade texto, que aborda três áreas distintas, porém interconectadas, chamadas por Vezolli de “dimensões do desenvolvimento sustentável”: A dimensão Ambiental; A dimensão Socioética; e a dimensão Econômica e Política (VEZOLLI, 2010. p. 22). Áreas constantemente discutidas por líderes de Estados em acordos internacionais ligados ao desenvolvimento sustentável. Portanto a obra é imprescindível para designers, principalmente da área da sustentabilidade. Sendo clássica e pioneira, propondo soluções inovadoras para diversos problemas. E, por fim, se observarmos por outro ângulo, podemos presumir a emergência da leitura e da consideração destes aspectos no meio do design, pois a obra nos deixa transparecer que desde a década de 70, infelizmente, poucas mudanças ocorreram. Referências Bibliográficas PAPANEK, Victor. Design for the Real World: Human Ecology and Social Change. 2ª Edição Completamente revisada. Londres - Reino Unido: Thames & Hudson, 2006 LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia Científica. 5ª Edição. São Paulo: Atlas 2003. SUDJIC, Deyan. A linguagem das coisas. Rio de Janeiro: Intrísseca, 2010 VEZOLLI, Carlo. Design de sistemas para a sustentabilidade: Teoria, métodos e ferramentas para o design sustentável de sistemas de satisfação. Salvador: EDUFBA, 2010 MANZINI, Ezio. O desenvolvimento de produtos sustentáveis. 1ª Edição, 2ª Reimpressão. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008