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A ADAPTAÇÃO DAS CRIANÇAS NA CRECHE “TIA GRACINHA” Com sede e atuação na comunidade Maxi, localizada em área rural do município de Água Branca, estado de Alagoas, região que concentra muitas famílias de baixa renda, que sobrevivem da agricultora (de subsistência) e da criação de animais e do auxílio pecuniário de programas federais. Assim, devido à baixa escolaridade, falta de qualificação profissional e oportunidades de trabalho formal e renda, vivem em situação de vulnerabilidade social, atrelada à carência de equipamentos e serviços públicos básicos como, por exemplo, creches, escolas, posto de saúde, entre outros. Nesse sentido, a Creche Municipal Professora Maria das Graças da Silva, mais conhecida como “Tia Gracinha” surgiu com o objetivo de atender estudantes num espaço cuidadosamente preparado para que se desenvolvam brincando, interagindo socialmente, participando de atividades didático-pedagógicas, alimentando-se, tendo carinho e atenção, direitos esses necessários desde seus primeiros anos de vida. Nesse contexto, esta creche, mantida com recursos da Prefeitura de Água Branca e da União busca garantir o direito dos estudantes de até 4 anos de idade de se educar, brincar e ser cuidado, a fim de criar condições para o seu pleno desenvolvimento em seus aspectos físico, afetivo, psicológico, intelectual, ético, cultural e social, complementando a ação da família e da comunidade. A experiência que consideramos inspiradora e que buscaremos descrever tem como foco principal o processo de assimilação na creche municipal “Tia Gracinha” com os pequenos de 1 ano e 6 meses a 3 anos. Ao longo do primeiro ano nesta instituição, considerando que sua implantação se deu em meados de 2023, realizamos diversas observações sobre o dia a dia dessas crianças e o seu processo de adaptação ao novo espaço. Inicialmente, foi necessário compreender o funcionamento da creche e quais eram os objetivos educacionais que ela almejava. Porque antes disso, havia uma tendência para acreditar na creche como uma instituição sem fins necessariamente pedagógicos; em outras palavras, ainda havia uma concepção de creche como um lugar que deve deixar transparecer confiança de modo que os pais e/ou responsáveis pudessem deixar seus filhos enquanto trabalham, sabendo onde eles estão protegidos, alimentando-se, descansando e brincando constantemente. Todavia, com a adesão ao Programa Escola em Tempo Integral, programa do Governo Federal, em 2024, que busca o cumprimento da meta 6 do Plano Nacional de Educação 2014-2024, política de Estado construída pela sociedade e aprovada pelo parlamento brasileiro, visando especificamente fomentar a criação de matrículas em tempo integral e, simultaneamente, ampliar a carga horária das instituições de ensino, fizeram que, por meio das formações, palestras, webinários, ... a noção de creche “assistencialista” desse lugar a uma concepção de creche que ressignifica seu espaço físico, em que o planejamentos de suas ações/atividades deve acontecer de forma consciente e responsável para favorecer a interação e o desenvolvimento integral das crianças, oferecendo ambientes diversificados e estimulantes. É certo que os desafios enfrentados para a implementação do Programa Escola em Tempo Integral na creche “Tia Gracinha” foram e continuam sendo enormes, haja vista que não havia ainda, para um trabalho educacional na perspectiva de educação integral, nenhum modelo prévio de creche funcionando com jornada ampliada, em tempo integral, tendo que se debruçar sobre o ordenamento jurídico que imprime respaldo ao supracitado programa e sobre a Proposta Municipal de Educação Integral em Tempo Integral para construir a proposta pedagógica da creche. A única certeza era a existência de uma demanda real de muitas crianças em situação de risco e vulnerabilidade social, apresentando sinais de dificuldades, crianças com sofrimento prolongado de adaptação na rotina, com recusa alimentar e transtorno de sono, outras com infecções recorrentes. É certo que o trabalho desenvolvido nas creches é sério e estruturado, apresentando rotinas pedagógicas, projetos, planejamentos e diários a serem preenchidos, ou seja, responsabilidades que estão presentes em qualquer instituição de ensino. Também é fato que a dinâmica de trabalho numa creche tem suas próprias características que a diferem de outros espaços/etapas/modalidades educativos. Tudo é pensado e elaborado considerando a faixa etária das crianças, de maneira que não prejudique os interesses e necessidades específicas dessa etapa. Os saberes e fazeres na creche são estruturados em campos de experiência, definidos pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC, devendo ser abordados de modo lúdico, por intermédio de brincadeiras, expressão, exploração, observação, jogos, entre outros, potencializando o desenvolvimento pleno das crianças. No caso da creche “Tia Gracinha”, sua proposta pedagógica está na pautada na BNCC e no Referencial Curricular de Alagoas – ReCal, bem como no Referencial Curricular da Rede Pública Municipal de Ensino de Água Branca, e a abordagem das habilidades e competências, estruturadas em campos de experiências, tem como ponto de partida um tema gerador por bimestre, sendo eles: Identidade, Meio ambiente, Diversidade e Arte. Essa estratégia tem como objetivo ampliar o espectro de materialização de uma educação que busca garantir o desenvolvimento humano em todas as suas dimensões: intelectual, física, afetiva, social e cultural. Nessa perspectiva, as crianças são vistas como sujeitos de direitos, sendo compreendidas como seres concretos, situados historicamente e que vivenciam a experiência da infância em contextos diversificados de acordo com a cultura da qual fazem parte, sendo afetadas e também produzindo novas configurações no espaço social a partir de suas maneiras particulares de ser e estar no mundo. Vale destacar que a Constituição Federal de 1988 abriu precedentes para a criação leis que possibilitaram com que os infantes transitassem da posição de anônimos para sujeito de direitos e autores sociais. Dentre elas, está o Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei federal nº 8.069/1990 - e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei 9394/96 - que em seu artigo 29 assegura: “A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família. (BRASIL, 2010, p.25-26).” É importante acrescentar que na creche “Tia Gracinha”, os profissionais de educação, especificamente os educadores, recebem treinamento regularmente, por meio de formações promovidas por técnicos da Secretaria Municipal de Educação - SEMED para que possam acompanhar todo o processo em torno da adaptação e desenvolvimento das crianças, desde o primeiro dia. Há crianças que apresentam dificuldades logo ao chegarem, não desejam permanecer. A mãe precisa deixar o filho rapidamente, muitas vezes saindo em lágrimas e deixando a criança em prantos. Essas crianças são as que mais demandam atenção, pois não acreditam que a mãe voltará. Não se alimentam, não dormem, não brincam e têm grandes dificuldades para socializar. Logo, os educadores, uma vez capacitados, precisam conquistar gradualmente a confiança dessas crianças, até que em determinado momento as crianças se adaptem. Logo, vê-se que é crucial que os educadores estejam preparados tecnicamente e comprometidos com o projeto de adaptação, pois esse período exige muita atenção e dedicação. Na creche “Tia Gracinha”, os educadores acolhem as crianças com alegria e organiza a sala, dividindo-a em diferentes áreas, como o canto da história, o canto da pintura, o canto dos blocos de montar, entre outros. A linguagem musical também é amplamente utilizada para promover descontração, com músicas de entrada, do lanche, do almoço, da higiene, do soninho e da despedida. Uma das vivências dignas de ser rememoradas, acontecida ainda na segunda semana de atividades desteano, foi quando as educadoras se prepararam para acolher as crianças: organizaram a sala com os cantinhos, colocaram tatames no chão para evitar acidentes e criaram um ambiente sonoro agradável. Nesta ocasião, uma educadora novata adentrou sua sala antes e fez a recepção e o acolhimento das crianças, percebendo que acertou no modo de recebê-las. Segundo o profissional, esse fato o motivou e facilitou todo o processo de integração. Logo, com base nas vivências e experiências na creche “Tia Gracinha”, enfatizamos a necessidade de aprofundar a reflexão sobre as experiências das crianças nos espaços de educação formal, bem como consideramos de grande importância para a educação da primeira infância, a elaboração de proposições teóricas e metodológicas que possam analisar com criticidade as aproximações e distanciamentos entre o ensino, os direitos de aprendizagem, as interações e a brincadeira.