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B621r Copyright © 2005 Betina Bischof BETINA BISCHOF 2005 Coordenação editorial: Valentim Facioli Capa e projeto gráfico: Antônio do Amaral Rocha da capa: desenhos de Betina Bischof MFN- 29733 CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ B527r Bischof, Betina Razão da recusa : um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade / RAZÃO DA Betina Bischof. São Paulo : Nankin, 2005 160p. RECUSA Inclui bibliografia ISBN 85-86372-83-8 UM ESTUDO DA POESIA DE 1. Carlos Drummond de, 1902-1987 Crítica e interpretação. CARLOS DRUMMOND DE 2. Melancolia na literatura. 3. Poesia brasileira História e crítica. I. Título. ANDRADE CDD 869.91 UNIMONTES Biblioteca Central Prof. Antônio Jorge 05-3124 CDU 821.134.3(81)-1 Unimontes Sistema de Bibliotecas *000091161* Direitos reservados à NANKIN EDITORIAL Rua Tabatingüera, 140, andar, cj. 803 Centro - São Paulo CEP 01020-000 Tel. (0**11) 3106-7567, 3105-0261 Fax (0**11) 3104-7033 www.nankin.com.br E-mail: nankin@nankin.com.br ISBN 85-86372-83-8 2005 Impresso no Brasil Printed in Brazil nankin editorialUNIMONTES BIBLIOTECA SUMÁRIO Reg. Data: / / Agradecimentos 7 Introdução 11 Opaco entrave e mediação 15 0 obstáculo e a dificuldade: um outro registro 49 História, dissolução e poesia 71 UNIMONTES Biblioteca Central Prof. Antônio Jorge A recusa à máquina 103 Bibliografia 147 Eexemplar destinado à doação DTLLC / FFLCH - USP Publicado com o apoio financeiro da CAPES/PROAPAGRADECIMENTOS N percurso de meu primeiro contato com a obra de Drummond e posteriormente nos anos de escrita da tese (defendida em 2002) e, mais recentemente, na reelaboração da tese de doutoramento para pu- blicação, gostaria de agradecer vivamente a algumas pessoas: Aos professores que participaram das bancas de qualificação: José Miguel Wisnik e Alcides Villaça, Joaquim Alves de Aguiar e Aurora Bernardini. Agradeço-lhes as sugestões, contribuições (e também a convivência de tantos anos). Aos professores que participaram da banca de argüição por ocasião da defesa de tese: José Miguel Wisnik, Murilo Marcondes de Moura, UNIMONTES Biblioteca Central Prof. Antônio Jorge Antônio Carlos Secchin e Fábio de Souza Andrade. A Ivone Daré Rabello agradeço a leitura generosa e estímulo ao estudo de Drummond, assim como a indicação de livros e textos. A Viviana Bosi, o incentivo à publicação. A Chantal Castelli, compartilhado itinerário (a viagem a Itabira, a visita à casa de Drummond). A Ana Paulo Pacheco agradeço a leitura minuciosa e clarificadora, as muitas sugestões, a amizade e o estímulo ao trabalho. A Samuel Titan Jr., o incentivo e o convívio de tantos anos. A Anderson Gonçalves, a amizade, a leitura atenta do texto, os co- mentários e indicações. A meu orientador, Davi Arrigucci Jr., que acolheu minha proposta de estudo ainda na iniciação científica e com quem tive a boa fortuna (tanto do ponto de vista acadêmico quanto humano) de conviver, como orientanda, por quase dez anos. Ao Jorge, por tudo que não cabe num agradecimento mas cabe na vida e seus alumbramentos. Por fim, gostaria de registrar meus agradecimentos à FAPESP e à CAPES, pelo auxílio recebido.A meus pais Prof. Antônio Jorge - UNIMONTES Biblioteca Central11 INTRODUÇÃO N confronto com o obstáculo questão recorrente, em maior ou menor grau, ao longo da obra poética de Drummond já se de- lineia o modo pelo qual a subjetividade vê o mundo ou, por outro lado, o modo como um aspecto objetivo se fixa na estrutura erigida em impasse do poema. obstáculo instância privilegiada na poe- sia drummondiana para a incorporação ou expressão das fissuras de um eu todo retorcido ou, visto por outro ângulo, do mundo igualmen- te torto em que lhe é dado viver é constitutivo (segundo a interpre- tação que se quer expor) de uma expressão que faz assomar, no cami- nho truncado e pedregoso que eu lírico é obrigado a trilhar, uma concepção de poesia e também uma ética: a própria escolha do cami- nho dificultoso num mundo retorcido, dando a ver os tons de sombra da realidade, sem encobri-la ou falseá-la. ensombreamento e fechamento do verso drummondiano já foi visto (principalmente em Claro Enigma, que será também o foco cen- tral de nosso estudo) como um retraimento do sujeito em relação ao mundo, que assim se retiraria, estrategicamente, da "praça dos convi- tes" e do embate com a realidade. estudo que aqui propomos busca, afastando-se desse caminho interpretativo, o aclaramento de outra leitu- ra: a possibilidade de ver o desencantamento drummondiano, nessa fase, como um modo ainda, indireto e truncado, de se contrapor às mazelas do seu tempo histórico. A recusa, presente em muitos dos poemas de Drummond, parece articular um vínculo com um sentimento do mundo, revelando os "tons de sombra" (como diz Drummond num poema dedicado "A Goeldi") de que se compõe a realidade. Nesse sentido, o escurecimento do verso12 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 13 ecoa um mundo também escurecido e, no esforço de trazê-lo à tona, embate em que se contrapõem, de um lado, os conteúdos inteiramente desenha igualmente uma poética, amalgamando a dificuldade ao perfil iluminados do oferecimento sublime (do qual não está excluída uma mais nítido no delinear dos "tons de sombra" ali traçados do mundo inflexão de totalidade a "total explicação da vida", já citada) e, de e do sujeito, em Claro Enigma. outro, a própria poética de Drummond, centrada (em oposição aos con- Os ensaios deste livro buscam ver, então, de que maneira a melan- teúdos da máquina), na dificuldade, no escurecimento e no obstáculo. colia, o fechamento e a recusa podem aliar-se ainda a um posiciona- que esse estudo procura, desse modo, é tatear a possibilidade de mento frente aos entraves do mundo (posicionamento do qual não que a recusa melancólica de tantos poemas em Claro Enigma (seja ela excluído um latente sentido político). Na busca pelo aclaramento dessas explícita ou latente) represente ainda uma escolha e uma ação crítica do relações, cada ensaio se articula em torno a um poema central (ao qual poeta, que então transfere para a negatividade dos versos a função de estarão referidos outros poemas de Drummond não necessariamente confronto (e de posicionamento perante os fatos) que antes se fazia por da mesma fase, mas guardando tema ou movimento semelhantes). São meio de uma expressão o mais das vezes ensolarada e direta (pensando eles: "Opaco" em que se delineia o confronto com a metrópole e já ainda em A Rosa do Povo). um movimento de recusa, surgido a partir do eu lírico, que nega a pos- A esses poemas vem juntar-se "Áporo", de A Rosa do Povo, no qual sibilidade de acesso àquilo mesmo que se quer atingir; "Os bens e estudo buscou delinear, de um lado, a representação do obstáculo sangue" em que se busca iluminar a articulação da visão drummon- (central também para os demais poemas analisados) e, de outro, na diana de história (destinada à queda, à destruição), com um ponto de possibilidade de escape, inexistente nos poemas fechados de Claro vista também sobre o tempo presente (resultado da dissolução daquele Enigma, um exemplo que contrasta com os poemas da coletânea de passado). Aqui, o ângulo mais restrito de "Opaco"- pois que centrado 1951, tornando mais clara a mudança que se articula, nessa poesia, na na apreensão do eu lírico abre-se para uma dimensão maior: a derro- passagem de A Rosa do Povo para Claro Enigma. Pois, se há em cada que envolve, não o eu lírico e sua vontade ("Opaco"), mas a disso- "Áporo" um movimento em direção à luz (o escape do labirinto subter- lução de todo um universo do passado mineiro (formador, até certo râneo), nos poemas de Claro Enigma oriundos de um tempo histórico grau, do poeta e de sua apreensão de mundo). Que a derrocada do cam- mais fechado o acesso à luz (à utopia social?) será bastante mais po de atuação do sujeito tenha vínculos também com a dissolução da intrincado, cobrindo-se de escurecimento, desistência e recusa. Que história é um dos pontos de articulação dos ensaios, cuja leitura assim esses elementos, no entanto, podem ter sinal trocado, servindo ainda a esperamos desdobra um mesmo problema, em diferentes campos. uma tomada de posição (também política) frente às iniqüidades do Outro dos poemas analisados e que multiplica, de modo contundente, a mundo é o que se tentará, na condução dos ensaios, aclarar. problemática da negatividade e da recusa é "A máquina do em que parece haver uma mescla entre negatividade (na recusa ao conteúdo sublime da máquina) e ainda a tomada de uma postura crítica (que se faz mediante o refutamento, justamente, de conteúdos avessos à própria poesia de Drummond: a ausência de dificuldade no oferecimento tuito da máquina, a iluminação excessiva "total explicação da vida" etc.). que o ensaio busca, na análise desse poema, é modo pelo qual "A máquina do mundo" desdobra, em suas estrofes, a recusa já presente em "Opaco" (mas restrita, ali, às articulações que o obstáculo desenvol- via com a metrópole a partir do confronto recorrente com a subjetivi- dade). Em "A máquina do mundo", o que parece se desenvolver é um15 OPACO ENTRAVE E MEDIAÇÃO H em muitos poemas de Drummond uma estrutura travada (obstácu- lo ou impasse), que impede o acesso do eu lírico ao objeto buscado. É caso, por exemplo, de "O Lutador", calcado no enfrentamento com as palavras, na labuta irresolvida, que prossegue, após a vigília, "nas ruas do sono". 0 poeta, malgrado o seu desejo, não consegue dominar o ma- terial expressivo ("Luto corpo a corpo,/ luto todo o tempo,/ sem maior proveito/ que o da caça ao vento.") E, no entanto, é do relato dessa luta não resolvida que surge a poesia. poema se articula precisamente na luta vã, na tensão que se sustenta sem encontrar uma resolução. que coloca, lado a lado, a inutilidade da ação (na matéria "narrada" no poema) e uma ação consumada e plenamente resolvida: o poema propria- mente dito, que, ao contar a sua impossibilidade, estrutura-se (na contra- mão do que ele mesmo afirma) e é feito. que aponta, desde já, dois caminhos ao exercício de análise: o estudo da aporia e do impasse (e as articulações que essa aporia tem com a realidade em que está inserida) e, também, a reflexão sobre o modo como o poema, na sua própria configu- ração, se apresenta como uma resposta à imobilidade ou impossibilidade nele mesmo contidas. Isso sem que se abandone o seu aspecto de sombra e negatividade. Pelo contrário: muitas vezes, é no mergulho numa nega- tividade sem brechas que o poema se resolve melhor (e será tarefa da análise, na medida de suas forças, tentar aclarar o sentimento de mundo e a poética presentes no diálogo tenso que ali se arma). A dificuldade é um dos focos dessa poesia, que se faz muitas vezes da narração do percurso tortuoso que é obrigada a trilhar. Em Drum- mond, a expressão toma forma não na possibilidade de alcançar o obje- to ou instância procurados, mas no próprio itinerário da busca, marcado16 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 17 desde sempre pela inquietação e pela aporia. E quando em poemas "Opaco" traz duas imagens recorrentes num intrincado jogo de opo- em que há a tendência para a dissolução de uma dificuldade objetiva- sições. edifício, imagem travada do poema, coloca-se como contrário mente dada caminho parece mais livre e a facilidade de expressão, a outro motivo constante o luar já pela maneira com que, no decor- mais próxima, a aporia reverte-se para os impasses do eu lírico, comu- rer do poema, é apresentado: uma interposição à direção do olhar que mente traduzidos na figura truncada e brusca da recusa. tenta perquirir o céu, à procura de lua e estrelas. Para que a questão se aclare, no contato com a obra, escolhemos um Nesse poema, o desejo manifestado pelo eu lírico refere-se, direta- poema "Opaco", da coletânea Claro Enigma (1951) que, aprofun- mente, a lua e estrelas, sempre barradas pelo bloco de concreto. Por dando-se na questão do obstáculo, numa recusa em facultar ao eu lírico outro lado e em oposição ao edifício, que parece marcar metonimica- o acesso àquilo que ele quer reiteradamente alcançar, traz como sua mente uma idéia de cidade a lua faz surgir, ao longo das estrofes, um matéria central a aporia e a negatividade. campo aberto, que não pode ser vinculado a um elemento específico. poema, contrariamente ao tratamento dado à imagem do edifício re- Noite. Certo cortada em linhas claras na sua vinculação com a metrópole -, mantém muitos são os astros. em aberto o halo de luz que incide sobre as estrofes e que empresta a Mas edifício elas algum sentido que não pode ser delineado com clareza. Em "Opa- barra-me a vista. co". o luar, furtando-se ao choque com o perfil duro e recortado do edifí- cio, parece vincular-se a uma atmosfera própria da lírica que, mesclada Quis interpretá-lo. de memória e nostalgia (o lamento pelo que é inatingível), mas misturada Valeu? Hoje também a uma vontade sempre reafirmada, confere à expressão um tom barra-me (há luar) a vista. de difícil precisão. Vê-se que o poema se constrói sobre uma estrutura de contrastes, de cuja movimentação brota também a negatividade que pene- Nada escrito no céu, tra as suas estrofes: a impossibilidade incontornável que tem o eu lírico sei. de alcançar, com os olhos, objeto do seu desejo. Mas queria vê-lo. edifício é um dos temas recorrentes em Drummond e comumente edifício barra-me tratado com frieza, desconfiança. "Edifício Esplendor" é um dos poemas a vista. em que essa desconfiança aparece, trazendo, igualmente, outro aspecto que interessa à análise estudar: a cidade grande (e suas edificações) como Zumbido espaço não mais receptivo ao homem ainda que o poema comece, de besouro. Motor como se verá, com uma provável alusão a Niemeyer, estabelecendo assim arfando. edifício barra-me um diálogo entre as utopias da arquitetura moderna e aquilo que com elas a vista. contrasta (como parece indicar a seqüência das estrofes): Assim ao luar é mais humilde. "Na areia da praia Por ele é que sei do luar. Oscar risca 0 projeto. Não, não me barra Salta 0 edifício a vista. A vista se barra da areia da praia. a si mesma.18 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 19 No cimento, nem traço trução nacional, de uma sociedade industrial homogênea e coerentemente da pena dos homens. moderna. Com a preciosa colaboração das coalizões conservadoras locais, As famílias se fecham mundialização do capital decapitou essa construção (...)".² em células estanques. No poema de Drummond (mais centrado sobre isolamento bur- guês, mas por esse ângulo contemplando também o todo de uma socie- 0 elevador sem ternura dade estanque), o que parece tomar forma, na passagem do desenho li- expele, absorve vre do arquiteto à célula fechada da casa, é (pensando ainda na suces- num ranger monótono são das estrofes do poema) um contraste entre o projeto da arquitetura substância humana. e a realidade que o corrói por todos os lados, minando-o na base³. O (...)"¹ poema de Drummond expõe, desse modo, um dos ângulos desse des- compasso que aparece, em miúdo, como uma espécie de história da Há aqui um desencontro entre a utopia moderna e aquilo que a ela se vida privada, na passagem do traço criativo para a efetiva moradia, que segue, na estruturação das estrofes. Esse desencontro, se não aparece no fecha o homem na "célula estanque" de sua vida burguesa. poema diretamente como resultado de uma possível falência do projeto Esse quadro, como se há de notar, tem referências (pela separação e moderno, surge ali, ao menos, como contraste entre a "célula estanque" da isolamento das partes) com o que se lê em "Opaco": ali, a cidade aparece casa burguesa e a liberdade do traço, feito em espaço público, de "Edifício representada metonimicamente (ela também reduzida a uma imagem iso- Esplendor". movimento das estrofes faz seguir, à liberdade e leveza da lada), e o sujeito, longe de se identificar com as construções que o cer- criação, a coisificação do homem, expelido e absorvido no ranger monóto- cam, ou de se sentir acolhido no espaço que elas configuram, vê no edi- no do elevador. Está afastada também desse sujeito isolado a "pena dos fício um obstáculo à sua vontade. Cidade e sujeito são aqui oponentes. homens", ou seja, a comunhão e compaixão, ou num outro sentido a pena/caneta do arquiteto, que não o pode acompanhar em seu existir tran- "Lucio Costa e a causa' da arquitetura p. 131. Publicado em Otília Beatriz Fiori Arantes e Paulo Eduardo Arantes. Sentido da formação. Três estudos sobre Antonio cado. A seqüência das estrofes talvez reflita, desse modo, e por um ângulo Candido, Gilda de Mello e Souza e Lúcio Costa. São Paulo, Paz e Terra, 1997, pp. 113-133. próprio, o aspecto mais abrangente da não sustentação do projeto de inte- Cf., citado estudo de Otília Arantes sobre Lucio Costa. Para uma visão próxima, mas com gração da arquitetura moderna (lembrando ainda a alusão a Niemeyer) um ou outro ponto de indagação, ver, de Roberto Schwarz, "Pelo prisma da arquitetura", em numa cidade em que, já a partir da década de 40 ("Edifício esplendor" foi Seqüências Brasileiras [São Paulo, Companhia das Letras, 1999, pp. 199-204]. Nesse texto, publicado em 1942), começa a se tornar patente a derrocada dos espaços crítico procura resumir a tese de Otília para depois apresentar uma possibilidade diversa (público e privado) habitados pelo homem. de interpretação (na forma de pergunta e não de conclusão): "Reduzida ao mínimo, a histó- Um descompasso com alguns pontos em comum àquele que se vê ria arquitetura moderna] seria a seguinte: 0 ânimo utópico da arquitetura, ou seja, os na seqüência de estrofes do poema aparece (e talvez seja interessante planos de redenção social através do novo arranjo do espaço habitado, na casa e sobretudo ampliar a visada) nas reflexões de Otília Arantes sobre a arquitetura na cidade, deram no seu contrário. Em lugar da substância que seria aquela transformação moderna no Brasil: redentora ficou um conjunto de normas de funcionalidade, que se mostraram funcionais "Bem ou mal nossa festejada tradição moderna em arquitetura sempre sobretudo para processo social e material da produção E aqui viria a ressalva: alimentou a fantasia de estar na vanguarda da integração das classes sociais "Nesse sentido, como ficam as experiências modernistas de que mal ou bem se formaram as mais desfavorecidas para ficarmos no eufemismo no processo de cons- noções de beleza de nossa geração e da anterior, noções de que não saberia como abrir mão? Penso no impacto de revelações juvenis, como aquelas propiciadas digamos pelos mó- veis escandinavos, pela religião das tubulações aparentes, pela sobriedade do espaço moder- Poema pertencente à coletânea José. Carlos Drummond de Andrade. Poesia e Prosa. Rio de no, pelo antiilusionismo do palco brechtino etc. Foram absorvidas pela modernização, sem Janeiro, Nova Aguilar, 1983, p. 144. deixar resíduo crítico?"20 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 21 Essa oposição talvez fique mais clara se procurarmos, em "Edifício A interioridade do eu lírico e a exterioridade do mundo contaminam-se Esplendor", o outro ângulo que contrasta com a metrópole. Pois na se- de modo indissociável (embora a alusão à infância e a Minas oscile, no qüência das estrofes não apenas o desenho da arquitetura é contrário, poema, entre a feição de copo de veneno e ainda uma lembrança possível como se viu, à futura destinação do que se constrói; também Itabira, embora que não nostálgica da "casa paterna"). Há um contraste entre com o seu casario, parece criar um constraste em relação à metrópole ranger monótono da máquina e o movimento não automático, mas len- de fechamento e estagnação. to, da casa "calma, branca", que tende a uma imagem quase onírica na Assim, na continuação de "Edifício Esplendor", a itabirana casa alusão às "trinta crioulas sorrindo./ talvez nuas, não me lembro." "lenta, calma, branca" é apresentada como aquela que volta à memória "Opaco" parece criar um confronto semelhante. O edifício é apre- num confronto com a realidade da metrópole. E, no entanto, a casa dos sentado como um obstáculo à luz que, por oposição à cidade, abre-se a primeiros anos do século XX não entra ali propriamente pelo viés da algumas possibilidades interpretativas, entre as quais talvez se possa ver saudade, mas por um sentimento dúbio, que faz doer a lembrança da mesmo levando em conta o caráter aberto que tem ali a referência ao infância e o mundo por ela articulado "copo de veneno" -, quando luar a atmosfera mineira, itabirana, desde sempre contraposta ao duro vista pelo ângulo de concreto do edifício: perfil da metrópole⁵ (ainda que essas instâncias, como já se mencionou, apareçam, ao cabo, mais misturadas do que se esperaria). "Oh que saudades não tenho Em "Opaco", a reiteração do obstáculo pode ser primeiramente sentida de minha casa paterna. como um paralelo à experiência de choque da cidade grande. Já o modo Era lenta, calma, branca, pelo qual o poema se organiza remete a essa questão. ritmo entrecortado, tinha vastos corredores a repetição, o soar de vocábulos soltos, enfáticos são elementos formais que e nas suas trinta portas compõem um duplo da experiência urbana contida, como um eco, na repe- trinta crioulas sorrindo, tição quase automática da imagem do edifício, no poema. talvez nuas, não me lembro. Há em "Opaco" um descompasso entre o eu lírico e aquilo que o rodeia descompasso que ecoará na forma, também ela fragmentada (...) como já se vê pelo primeiro verso, composto de um vocábulo isolado "noite" e um brusco enjambement: Chora, retrato, Vai crescer a tua barba Noite. Certo neste medonho edifício de onde surge tua infância Com esse primeiro vocábulo, logo seguido de um ponto (ao qual como um copo de veneno. vem juntar-se ainda o corte abrupto e violento do verso), já se adentra a atmosfera do poema, o seu espaço temporal e, principalmente, o tom brusco com que o narrado se apresenta e, mais do que isso, se repete: Ao cabo, tanto um lado quanto outro apresentam aspectos negativos, para o eu lírico. Também a infância, no contato com o expelir e absorver contraste entre província e metrópole é freqüente desde início, em Drummond. Aparece, monótono de substância humana, corrompe-se, surgindo não como por exemplo, já no livro Alguma Poesia, em registro irônico: "(...) Aquela casa de nove tempo idealizado, afastado das impurezas do mundo, mas como veneno. andares comerciais/ é muito A casa colonial da fazenda também era. No ele- vador penso na na roça penso no elevador. (...)" 0 trecho é de "Explicação". Poesia "Edifício Esplendor", do livro José. Poesia e Prosa, ed. cit., p. 144. e ed. cit., 98.22 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 23 "Mas o edifício barra-me a vista (...) Hoje barra-me (há luar) a vista (...) "(...) edifício barra-me a vista (...) edifício barra-me a vista". Algo na (Ai, que me arrependo reincidente repetição de uma frase (com pouquíssimas variações) alude, me perdoa, Minas ao insistir na uniformidade da expressão, a um mundo automatizado. de ter vendido Existe aqui, espelhado na repetição monótona com que se apresenta a na bacia das almas frase/obstáculo, algo do mundo da máquina, algo do universo urbano meu lençol de hematita característico das grandes ao louro da estranja Mas aquilo que dá forma ao universo urbano não se limita, no e de ter construído poema, à imagem do edifício. Outros elementos vão sendo somados a filosoficamente esse primeiro, estabelecendo com ele uma trama na qual desponta uma meu castelo urbano noção fragmentária de cidade. Assim, em "Opaco", o edifício engloba sobre a jazida também a questão da sua interpretação: de sonhos minérios. Me arrependo e vendo.)"⁷ "Quis interpretá-lo. Valeu? Hoje filosófico, tido como o pensamento racional, conceitual ("castelo barra-me (há luar) a vista." urbano" que se constrói "filosoficamente"), opõe-se à "jazida de sonhos Amalgama deste modo um pensamento conceitual, interpretativo, à que se relaciona, neste poema, a Minas. Existe, em "Canto sua esfera de concreto, oposta àquilo que se liga a astros e lua, e que mineral", um contraste entre o urbano e a província, entre filosofia e so- compõe um universo da natureza. nho. E no entanto é possível perceber, já aqui, que esse movimento não motivo de uma interpretação (conceitual? filosófica?) ligada à se resolve numa solução simples. A expressão apresenta uma mistura cidade, em oposição a um mundo mais vago e lírico, aparece em alguns complexa, deixando vazar de suas entrelinhas um tom que já não é o da poemas de Drummond, explicitando-se particularmente em "Canto nostalgia e no qual o arrependimento pela venda do lençol de hematita Mineral", de As Impurezas do Branco: e pela construção do castelo urbano, filosófico deixa-se lanhar por sutil por meio da qual poeta pontifica: "Me arrependo e vendo." desejo de interpretação que surge tanto nesse poema como em "Opaco" é constante na obra. Constante é também, no entanto, o des- 6 A utilização da repetição na poesia drummondiana foi comentada por Haroldo de Campos, na moronamento do aparato explicativo, que vai desde a infrutífera tenta- sua análise de "No meio do caminho": "poema pode ser visto e é assim que vêem os tiva de interpretação do edifício, em "Opaco", até a busca das "verda- poetas concretos como uma verdadeira 'concreção' lingüística, pois se utiliza de uma escan- des altas", do "absurdo original e seus enigmas" de "A máquina do dalosa técnica de repetições (e uma extrema redundância, como adverte Max Bense, já se pode em que se apresenta a inusitada recusa do eu lírico frente ao constituir, por sua originalidade, em informação estética), para fazer dela suporte tautológico contéudo totalizante da que o poeta parece recusar não é, no qual se engasta, como uma pérola na sua madrepérola, a emoção-surpresa. me no entanto, o recurso ao pensamento (sabemos que sua poesia é firme- esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão Mestre de Coisas", em Sônia Brayner (org). Carlos Drummond de Andrade. Fortuna mente calcada na busca por um sentido, valendo-se da reflexão no es- Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, 246-252]. De modo diverso do que propõe Haroldo de Campos, que se quer aqui é pensar as raízes dessa "informação estética", ou seja, Poesia e Prosa, ed. cit., pp. 488-489. pensar a forma (e as repetições) como instância na qual se fixa um determinado conteúdo Devo a indicação da proximidade entre "Opaco" e "A máquina do mundo", sob esse ângulo objetivo, ou seja, na qual se dá a ver, também, um mundo de repetições administradas. de meu trabalho, a Murilo Marcondes de Moura.24 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 25 forço recorrente, marcado pela angústia e pela inquietude, para tentar tempo isolar-se dela. Mistura-se a ela intimamente, para, inopinada- chegar a um desenho mais claro do que se repudia é, justa- mente, arremessá-la no vazio com um olhar de desprezo. Esta ambiva- mente, a possível e invasiva explicação de um sentido inteiramente lência tem algo de cativante, quando ele a confessa com reservas."¹¹ oferto e gratuito (sem a marca da busca recorrente), que trouxesse à Também Drummond tem algo de dúbio em relação à cidade mas expressão a facilidade de uma excessiva luz o que acarretaria, para a o aspecto ambivalente será outro (e à análise caberá, ainda, a sua ex- poesia aporética e escurecida de Drummond, um desacordo com o posição). Por pode-se dizer que, no poeta de Itabira, o olhar sobre a mundo (e o sentimento do mundo) que essa poesia constrói e dá a ver. cidade parece guardar, sempre, a visada crítica, o distanciamento em rela- Voltemos à análise de "Opaco". Ali, o edifício, em oposição ao luar, ção "multidões compactas/ escorrendo exaustas/ como espesso óleo/ que une-se em paradigma a outros elementos, sempre vinculados, como se impregna o Drummond não se mistura intimamente à multidão, observou, à idéia de metrópole: o impasse concreto de uma construção não se deixa atrair pela cidade (mesmo que essa atração represente, como frente ao olhar ansioso por ver o ceú abre-se para o impasse racional de aponta Benjamin em Baudelaire, um aspecto de violência). uma interpretação filosófica que, como apresentada e em cotejo com o Convém, para melhor desenvolver a questão, voltar aos poemas e poema de As Impurezas do Branco barra a invasão dos "sonhos minéri- ver qual a especificidade da moderna metrópole em Drummond, ou os". poema é, nesse sentido, a construção de fragmentos que juntos ten- como o Rio de Janeiro das década de 40 (em A Rosa do Povo) e 50 tam, de forma algo caótica, compor o sentido de cidade presente, metoni- (em Claro Enigma) é apreendido pelo poeta. Talvez baste, para ter idéia micamente, na imagem do edifício. A característica de obstáculo soma-se de toda a contundência que o tema pode desenvolver, em Drummond, a à tentativa de interpretá-lo, que por sua vez se soma ao ruído "motor ar- parte V do poema "Nosso tempo"¹³: fando" (ao qual se amalgama ainda a idéia de monótona repetição de frases e do corte brusco e violento do enjambement) compondo, fragmentaria- Escuta a hora formidável do almoço mente, uma percepção da cidade em seus múltiplos contornos. na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se. Benjamin foi um dos críticos que pensaram a relação entre a litera- As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas. tura e a cidade moderna. Vemos em seus ensaios o estudo do impacto Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos! que as multidões urbanas tiveram em diferentes autores, desde o século Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa, XIX. ensaísta comenta que Poe, como "sentia algo de ame- os olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu açador no espetáculo que lhe ofereciam" e aproxima este argumento da Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de visão do poeta de As Flores do Mal: "é (...) esta imagem da multidão [comida, das metrópoles que se tornou determinante para Baudelaire. Se sucum- mais tarde será 0 de amor. bia à violência com que ela o atraía para si, convertendo-o, enquanto Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma flâneur, em um dos seus, mesmo assim não o abandonava a sensação de [indecisa, evoluem. sua natureza inumana. Ele se faz seu cúmplice para quase ao mesmo esplêndido negócio insinua-se no tráfego. Multidões que cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro. 9 para uma abordagem da poesia reflexiva de Drummond, notável estudo de Davi Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul, Arrigucci Jr.. Coração Partido. São Paulo, Cosac & Naify, 2002. 10 "Em Engels e em Poe, encontram-se as primeiras contribuições para uma fisiognomonia da "Sobre alguns temas em Baudelaire" em Walter Benjamin. Charles Baudelaire. Um lírico multidão". Walter Benjamin. "Paris, capital do século em Luiz Costa Lima (seleção, no auge do capitalismo. Obras Escolhidas III. São Paulo, Editora Brasiliense, 1995, p. 121. introdução e revisão técnica). Teoria da literatura em suas fontes. Rio de Janeiro, Francisco Versos de "Anoitecer", poema de A Rosa do Poesia e Prosa, ed. cit., p. 164. Alves, 1983, p. 143. Poema de A Rosa do Povo. Poesia e Prosa, ed. cit., 168.26 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 27 vem na areia, no telefone, na batalha de aviões, Esse fato contribuiu, diz ainda Otília em relação a Lúcio Costa, para toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem. "vincular as razões da nova arquitetura à consciência dramática do sub- desenvolvimento que despertaria depois da guerra, ao projetar a nova verso desconcerta, pela acuidade e precisão do quadro exposto: a capital". Aqui, os pontos não condenáveis matizados e postos em cau- automação do homem (cujo braço ou mão contamina-se do objeto ou no entanto, pelos (des)caminhos que se seguiram: no contra-fluxo do método com o qual trabalha: "braço mecânico", "mão de papel"); de um momento "construtivo, por assim dizer iluminista, de organiza- sua fragmentação e massificação ("As bocas sugam um rio de carne"); ção institucional da cultura e seus correlatos", ou seja, na contrapartida a desumana destribuição de renda e de comida "olhos líquidos de cão "desse aparente avanço, ao menos se tivermos em mente algo como a através do vidro devoram teu osso" imagem que caracteriza com modernização do Brasil, o desrecalque agora, sem a memória ativa da "olhos de cão" aquele talvez uma criança que "devora" não tanto a etapa anterior, perdia o gume e voltava ao programa simplesmente afir- comida de quem come, do lado de cá do vidro, mas o seu próprio mativo de atualização necessária, por sinal comandada por um Estado (que é ao mesmo tempo comida de cão o que vai de par com a redu- forte e ção do outro a bicho e, na percepção daquele que come perante fa- Escolhemos a visada lateral da arquitetura, na tentativa de iluminar os minto, a sensação, de que lhe roem os ossos.) poemas escolhidos, porque esses passam também, de modo bastante pecu- Este é o Rio dos anos 40, na percepção de Drummond. Vê-se aqui o por uma reflexão sobre o espaço que se desmembra frente ao avanço olhar treinado para as mazelas e iniqüidades do mundo (e do modernizador. Esse ângulo engloba, como se viu, realidades para as quais mesmo numa década em que, para muitos, o Rio de Janeiro era ainda volta Drummond: o descompasso entre sujeito e espaço urbano, a der- algo próximo ao paraíso. O poema revela uma apreensão acurada de rocada de um projeto utópico de integração, a fragmentação etc. uma estrutura (econômica, social) que, se ainda não tinha, talvez, posto Voltemos então ao espaço fechado de "Nosso Tempo" (acima citado): a nu todos os seus descaminhos, já existia, então, inteiramente formada Na precisão do quadro que ali se arma está presente (aumentando a e deslizando sobre os trilhos azeitados que a trariam a nossos dias. sua incidência crítica e sua complexidade) um aspecto indistinto: Essas questões refletem-se muitas vezes, em Drummond, sobre o espaço em que de fato se acumulam os esquemas e materiais dessa es- "(...) os negócios, forma indecisa, evoluem. trutura econômica: a cidade. esplêndido negócio insinua-se no tráfego. E aqui somos levados a ainda uma vez, o verso que, em Multidões que 0 cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro. "Edifício Esplendor", alude a Niemeyer (para depois focar-se sobre a Está disimulado no bonde, por trás da brisa do sul" arquitetura burguesa, fechada e coisificante). Façamos, a respeito disso, um parêntese. Otília Arantes, em seu ensaio sobre Lucio Costa, aponta Há algo de impreciso, aqui, a desafiar o verso, que tem de se esfor- como favorável (fazendo-lhe também ressalvas e deixando com isso a para dar a ver o que se encobre, e que caracteriza, justamente, "o nu a complexidade do problema) o surgimento tardio da arquitetura esplêndido sobreposto ao homem e realizado de forma quase moderna no Brasil, que teria pulado a fase modernista, passando direta- autônoma (como indica o lugar de sujeito gramatical na oração: os ne- mente ao moderno e assim evitado, por exemplo, "a miragem do pro- gócios evoluem: negócio insinua-se no tráfego). gresso inocente perseguido pela fantasia grã-fina de um Oswald de A próxima estrofe é igualmente certeira na amarração de algo que Andrade." Lúcio Costa teria se furtado, desse modo, à "velha não se deixa apreender facilmente: cia amena do atraso' provisório, ou positivo de país novo, e que por isso pode entrar num desvio não burguês, ao mesmo tempo compatível "Lucio Costa e a 'boa causa' da arquitetura moderna", em Sentido da formação. Três estu- com reminiscências patriarcais". dos sobre Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza e Lúcio Costa. Ed. cit., pp. 120-121.28 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 29 "Escuta a hora espandongada da volta. que impregna lajedo; Homem depois de homem, mulher, criança, homem, desta hora tenho medo. roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa, (...) homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem imaginam esperar qualquer coisa, Hora de delicadeza, e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se, gasalho, sombra, silêncio. últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa, Haverá disso no mundo? já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam" É antes a hora dos corvos, bicando em mim, meu passado, Espandongado: esfrangalhado, machucado, estragado (Caldas meu futuro, meu degredo; Aulete). Assim retornam para casa esses que adquirem na estrofe o desta hora, sim, tenho mesmo estatuto de chapéu, roupa, cigarro. São esses homens, rebaixa- dos ao plano de coisas, que "imaginam voltar para casa" numa cidade A cidade que assoma da leitura desses poemas vem carregada de que não tem existência comprovada: ela é apenas "suposta". É como se um tom sombrio. Muito do caráter de negatividade que se quer perse- o poeta afirmasse que a cidade (e a casa à qual se volta), tal como os na poesia de Drummond, está presente aqui. Se a poesia pode ser homens a conhecem, nesse momento, não existe ela é imaginada. um campo em que a perplexidade se realiza, aqui vemos, muito marca- Como se a equivalência, sem distinção possível, entre homem e coisa exercício de um olhar crítico que opõe, à difícil e crispada realida- atingisse também, degradando-o, o espaço (a cidade) em que esse de da metrópole, a "Hora de delicadeza,/ gasalho, sombra, silêncio" da mem vive, e já não houvesse lugar para onde voltar. cidade mineira do começo do século XX, mesclada, de forma deter- Vê-se, deste modo, que muito da reflexão sobre as mazelas do ho- a um modo de produção e de convivência em tudo distinto da mem passa, em Drummond, pelo espaço (a cidade) que de fato concen- reificação e do esgarçamento da experiência na cidade caótica, de tra, em sua maior parte, a estrutura e material daqueles descaminhos "sirenes roucas, apitos/ aflitos, pungentes, trágicos" (ainda que Minas (econômicos e sociais). Veja-se, por exemplo, como a questão surge em veja marcada por outras mazelas patriarcalismo, auto- "Anoitecer", poema, também, de A Rosa do Povo: ritarismo o que só confere à questão uma complexidade maior). a hora em que sino toca, Modo contrastivo de pensar a realidade que, ao menos para o autor de mas aqui não há sinos; A Rosa do Povo, parece iluminar tanto um quanto outro pólo de uma há somente buzinas, trama que engloba uma geografia (Minas/metrópole), um mapa afetivo, sirenes roucas, apitos diferentes modos de produção, diferentes impasses e aporias. aflitos, pungentes, trágicos, olhar drummondiano formou-se na Itabira do começo do século uivando escuro segredo; realidade coesa (em oposição à fragmentação da metrópole) até desta hora tenho medo. pela sua disposição no espaço. Da casa "lenta, calma, branca" em que viveu Drummond alcançava-se, à distância de uns poucos metros, a É a hora em que 0 pássaro volta, escola com suas jabuticabeiras, a igreja (ao lado da a câmara mas de há muito não há pássaros; só multidões compactas Poesia e Prosa, ed. cit, 164. escorrendo exaustas em Passeios na Ilba, uma crônica ("Carta aos nascidos em maio") que fala sobre a igre- como espesso óleo ja e as festas religiosas de Itabira, realizadas ao lado (literalmente) da casa em que Drum-RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 31 BETINA BISCHOF enas atravessando a rua, alguns passos à direita). Para se ter idéia do sem necessidade de palavra ou de chicote. do de vida itabirano, nas primeiras décadas do século basta di- que ali o correio demorava três dias para chegar, em lombo de bur- Aos pobres serve de relógio. se Itabira talvez tenha alguma relação com a "vida besta" de "Ci- Só não entrega ela mesma a cada um 0 seu litro de leite dezinha Qualquer" "Um homem vai devagar./ Um cachorro vai para não desmoralizar leiteiro Um burro vai devagar" é verdade também que nesse espaço mínimas e mais prosaicas situações retinham ainda um significado Percebe-se aqui o encanto das coisas miúdas (um pouco à maneira bem que não inteiramente desprovido de Como neste de Manuel Bandeira), que desaparecerá num dos focos tomados pela sensibilidade drummondiana na sua leitura da metrópole: espaço urba- ema em que a simplicidade tem papel determinante e que parece re- lador de uma dimensão humana (na sua relação com o trabalho, com no arredio, que parece antes aguçar a "pobreza da terra", "maior entre os metais/ que a rua misturava a feios corpos,/ duvidosos, na pressa". bichos e as coisas): Lugar de solitude, exílio, em que "outra cidade fora da cidade// na garra de um anzol ia adunca pescaria, mal problema de A mulinha carregada de latões existir, amor sem vem cedo para a cidade Também os versos de "A flor e a náusea" apresentam o espaço o vagamente assistida pelo leiteiro. Rio de Janeiro onde o poeta morou, desde 1934, como detentor de Pára à porta dos fregueses uma atmosfera opressiva: mond cresceu. Vale a pena transcrever trecho sobre Itabira (misturado, de resto, a alusões ao maio dos antigos, ao maio dos trabalhadores etc.) para que se tenha idéia de como se res- "Preso à minha classe e a algumas roupas, piravam, neste espaço, os acontecimentos da vida da pequena cidade de província: "Porque de branco pela rua cinzenta. há em maio dois meses: mês de Maria, e mês de maio propriamente dito. Se sois cristãos Melancolias, mercadorias espreitam-me. romanos, maio bate sinos na vossa infância na vossa madureza, e aspirais incenso, Devo seguir até 0 enjôo? entoais Coeli, Turris Eburnea e não sei que mais invocações encantatórias, e vos Posso, sem armas, revoltar-me? ajoelhais, e assistis à coroação da Virgem, se não a coroais vós mesmos, com a mão antiga e (...) branca que nasce de súbito na ponta de vossos braços Mas, se não sois cristãos, não faz mal, maio ainda é festa (...) Mês de Nossa Senhora coroada de rosas frio mês das Em vão me tento explicar, os muros são surdos. montanhas mineiras, nostalgia de namoradas e rezas, cartuchos de amêndoas que a irmã Sob a pele das palavras há cifras e códigos. trazia da coroação na matriz, que era um grande navio iluminado, conversas no adro, à es- sol consola os doentes e não os renova. pera do leilão de prendas, vagos estremecimentos de poesia, formas infantis de um sonho As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem que mais tarde seria inquietação e carinho franjado de Joaquim-Francisco Coêlho chama a atenção para mesmo motivo, em Confissões de em que Drummond se Percebe-se que a atmosfera de aporia desse espaço tem relação dire- refere, ainda, ao "gosto de ficar rezando ou lembrando-se das rezas decoradas na infância, ta com o mundo melancólico pautado na mercadoria ("Melancolias, quando incenso e a ladainha lenta das novenas faziam a igreja próxima de sua casa des- mercadorias espreitam-me"). É este, provavelmente, o dado que distin- prender-se da âncora e subir e navegar por mares de Apud Joaquim-Francisco gue, de forma nítida, a Itabira do começo do século XX e o Rio de Ja- Coêlho, Terra e Família na Poesia de Carlos Drummond de Andrade Universidade Federal do Pará, 221 (em 18 "Mulinha", poema de Boitempo. Poesia e Prosa, ed. cit., p. 516. 17 Cf. de Chantal Castelli, Lembranças em conflito: poesia, memória e em Boitempo. 19 poema de Fazendeiro do Ar. Poesia e Prosa, ed. cit., p. 311. Tese de mestrado apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Univer- 20 "A flor e a náusea", poema de A Rosa do Povo. Poesia e Prosa., ed. cit., p. 161-162. sidade de São Paulo, 2002.32 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 33 neiro da década de 1940 e 1950, que aparece já como um espaço orde- Retomemos, então, a partir do quadro complexo e difícil que se arma nado (ou, por outro ângulo, degradado) pelo capital. Em "A flor e a sobre as relações entre um e outro espaço (Rio de Janeiro e Itabira), o náusea", o tom ríspido, desencantado, sem ênfase recorta um uni- poema central de nossa análise. verso de perplexidade, nessa poesia. Vimos, no início deste texto, que "Opaco" desenha uma estrutura de E no entanto é preciso afirmar, já aqui, que a cidade não tem, em busca em que, contrapondo-se ao desejo que tem o eu lírico de alcançar Drummond, um tratamento linear. Muitas vezes metrópole e província (com os olhos) um determinado objeto lua e estrelas um obstáculo trocam de função e a cidade grande, abandonando o peso que a carac- se coloca, irredutivelmente. teriza em grande número de poemas, passa a representar para essa Essa relação reflete uma estrutura recorrente, em Drummond. Em poesia de resto quase sempre conturbada a liberdade, a ausência de que se desenha o esboço, em riqueza de detalhes, de algo ou alguém culpa, a possibilidade de contato com o outro, a abertura para o mundo. desejados, mas em que o caminho de acesso a esse foco de desejo é re- Veja-se, por exemplo, como essas questões aparecem numa crônica pentinamente quebrado, restando o poeta com uma experiência seca e sobre Itabira (que mais à frente retomaremos): difusa daquilo que almejava alcançar. E, no entanto, alguns destes poemas encontram, numa repentina Seria absurdo isolar, na sensibilidade mineira, um sofrimento brecha, o oblíquo acesso àquilo que, ao longo das estrofes, vinha sendo itabirano? Julgo que não. Sou, Itabira, uma vítima desse sofrimento, que já me enfaticamente negado. exemplo mais conhecido desta precisa técnica perseguia quando, do alto da Avenida, à tarde, eu olhava as tuas casas resigna- está no poema "Áporo", em que um inseto, "perfurando a terra sem das e confinadas entre morros, casas que nunca se evadiriam da escura paisa- achar escape (...) em país repentinamente transmuta-se, gem de mineração, que nunca levantariam âncora, como na frase de Gide, para "(oh razão, numa verde, "antieuclidiana" orquídea. UNIMONTES Biblioteca Central Prof. Antônio Jorge a descoberta do mundo. Parecia-me que um destino mineral, de uma geometria Também "Opaco", que vinha construindo uma cerrada cadeia de dura e inelutável, te prendia, Itabira, ao dorso fatigado da montanha, enquanto barreiras e interdições, subitamente sofre, a exemplo de "Áporo", uma outras alegres cidades, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, reviravolta: ali se afirma, contrariamente a toda a organização do poema diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer. A vida não é um prazer, mas até então, a possibilidade que tem o eu lírico de entrar em contato com uma pena. Foi esta segunda lição, tão exata como a primeira, que eu aprendi o luar (saber do luar). É assim que no poema vem escrito (numa refe- contigo, Itabira, e em vão meus olhos perseguem a paisagem fluvial, a paisagem rência ao edifício): marítima: eu também sou filho da mineração, e tenho os olhos vacilantes quan- do saio da escura galeria para dia "Assim ao luar é mais humilde. Por ele é que sei do luar." Existe, ao que parece, um outro modo de ver o que se opõe a Minas, no poema e na crônica. Se nos poemas apresentados até aqui o espaço Percebe-se, não sem assombro, que o quadro de uma realidade lírica da cidade grande vinculava-se a aspectos negativos da modernidade - a mesclado à nostalgia do que não pode ser alcançado torna-se parado- automação, o uso oclusivo do espaço, o isolamento do sujeito na crô- xalmente perceptível por estar sendo mediado pelo edifício (numa gui- nica o elemento oposto ao fechamento na escura galeria diz respeito, nada do poema que pega de surpresa o leitor, acostumado, desde a pri- justamente, à cidade mundo de claridade e libertação. A negatividade, meira estrofe, à reincidente oposição do obstáculo). Existe, nessa im- nesse texto, está ligada à província, e não à metrópole. prevista mescla, uma troca de características: o edifício, em sua vincu- lação com o luar, torna-se subitamente humilde qualidade originada 21 trecho é de "Vila de Utopia", crônica de Confissões de Minas. Poesia e Prosa, ed. cit., provavelmente de um mundo no qual se mesclam elementos relaciona- 950. dos: natureza, lirismo, simplicidade ("gente que, de humilde, era orgu-BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 35 34 lhosa/ e fazia da crosta mineral/ um solo humano em seu despojamen- portuguêsa: opaco é o "que impede ou reduz passagem da luz" (grifo Por outro lado, sabe-se do luar através da interposição do edifí- nosso) definição que parece ecoar em um verso de Gonçalves Dias, cio que a ele abre um inusitado veio de acesso. revelador para a questão: "Mais luz filtrando/ em mais opacas trevas". Vê-se que o luar pode, numa estrutura complexa, ser apreendido Em que a opacidade pode ser a qualidade que diminui a passagem da através do edifício que o veda, mas que, ao eu lírico inquiridor, torna-se luz, filtrando-a em sua malha escurecida. subitamente opaco (na sugestão do vedando e, ao mesmo O poema de Drummond parece ecoar a palavra complexa que esco- tempo, deixando passar. Neste movimento, os conceitos até então estan- lheu para título, ou seja, parece encontrar respaldo numa postura poéti- ques de um elemento que se relacionava à experiência urbana (o edifí- ca à qual apenas interessa a luz que foi arduamente extraída das trevas cio), contraposto a outro a lua (vinculada a uma possível atmosfera de e que, mesmo assim, não se revela de todo, devendo ainda voltar para a lirismo e natureza), são imbricados numa mesma imagem poética: a da sombra da qual emergiu. Neste sentido, a escuridão (negatividade) teria opacidade. A dicotomia um tanto simplista entre lua e edifício e todas uma função na poesia drummondiana. O percurso que vai da negativi- as implicações que esta dicotomia carrega são aqui trabalhadas numa dade até o alcance do objeto desejado seria idêntico ao próprio percur- forma complexa. Os dois deixam-se apreender justamente pela mescla so, permeado de dificuldades, da construção e elaboração do poema fugidia que realizam com o seu oposto: "por ele é que sei do luar". (que se faz, muitas vezes, não da superação do obstáculo, mas da trama Opaco é nesse sentido uma escolha precisa para título deste poema e complexa que esse obstáculo empresta ao exercício poético). A dificul- pode ser determinante também para entendimento do percurso que a ex- dade torna-se mediadora para que se atinja, mesmo que por um instan- pressão poética realiza, da dificuldade inicial até o constituir-se em poema. te, aquilo que se quer alcançar. Opaco, do latim opacus, tinha, em princípio, o significado de É esse estado de coisas que o movimento intrincado de "Opaco" dá "sombrío, cubierto de sombra, oscuro, tenebroso" (J. Corominas, Dicio- a ver e que guarda também relações com uma poética e uma ética: a nário crítico etimológico de la lengua castellana. Editorial Gredos, de não se afastar, na contemplação da luz, da proposta de revelar os Madrid). "Penetró como latinismo culterano, sinónimo ornamental de entraves do mundo. A obra de Drummond não se compraz nunca no pero el significado nuevo 'no transparente' expresaba una deleite da luz, na contemplação sem arestas e cortes de um mundo oferto idea útil (así ya en Saavedra, 1640, y quizá en Góngora), y en este sen- e acessível (e o que se evita, com isso, é o falseamento da apreensão do tido cuajó el uso de opaco." mundo num tom fácil, sem obstáculos e sem opacidade). Parece haver, no percurso etimológico da palavra, um caminho que Vê-se que em "Opaco" se arma uma trama intrincada entre a nega- conduz o significado de escuro até uma idéia que tem já alguma ligação tividade e o desejo ou utopia para ficar no âmbito de uma palavra com a luz (mesmo que negando-a, em primeira instância). É nesse sen- utilizada por Adorno com relação à arte moderna e que, por mais de um tido que vemos, em Vieira, Grande diccionário portuguez ou Thesouro ângulo, pode ajudar a iluminar o poema de Drummond. Para que possa da lingua portugueza, Porto, 1873, a definição: "Opaco é o corpo que ainda realizar-se, é necessária à de acordo com o pensamento não é transparente, que estorva o passo à luz" (grifo nosso). Aqui, à adorniano, a incorporação da negatividade latente do tecido histórico do completa impossibilidade de curso da luz vem juntar-se uma possibili- qual provém²³ "(...) só através da sua negatividade absoluta é que a dade de transposição. Estorva-se passo à luz", abrindo nesse proces- arte exprime o inexprimível, a utopia. (...) Pela recusa intransigente da so uma brecha, ainda que oclusiva, para a sua passagem. Lê-se ainda, aparência de reconciliação, a arte mantém a utopia no seio do irrecon- seguindo a esteira desses significados, no Dicionário mor da língua 23 que os inimigos da arte nova, com instinto mais sagaz do que os seus apologistas ansiosos, 22 Versos de "Prece de Mineiro no Rio" de A vida passada a limpo. Poesia e Prosa, ed. cit., p. chamam a sua negatividade é a própria substância do que foi recalcado pela cultura estabe- 340-341 (grifo meu). lecida." Theodor W. Adorno, Teoria Estética. Lisboa, Edições 70, p. 31.RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 37 36 BETINA BISCHOF ciliado, consciência autêntica de uma época, em que a possibilidade Fayga exige à madeira real da utopia o facto de a terra, segundo o estado das forças produti- suas paisagens concentradas vas, poder ser aqui e agora o paraíso se conjuga num ponto extremo mundos lenhosos que sobem à vida com a possibilidade da catástrofe no coro de cores, cor Esse movimento (a negatividade como um meio ainda de expressão, ressoando nas coisas, independente de som. na recusa da aparência de reconciliação) o poema drummondiano parece traduzir no brilho logo encoberto pelo obstáculo que configura, na estru- Fayga e perfaz turação do poema, a opacidade (e o truncamento do pleno acesso à luz). a fundação de objetos líricos É a qualidade opaca que mantém intactas, de um lado, a utopia/desejo de sob superfícies falazes. luz (que não se corrompe com um acesso sem entraves, mas continua a Depois bloqueia a luz, e a espessa vibrar no próprio movimento que a tolhe) e, de outro, a negatividade do atmosfera do Não volve em depósito mundo, que, ao se afirmar como obstáculo, impede a dissolução daquela de infinitos esquemas utopia na aparência do reconciliado. bloqueio não destrói a luz, ofere- vibrando noturnamente. cendo-lhe, antes, um novo modo (opaco) de existência. Há algo na forma poética (ou da arte em geral) que pode ser a mani- festação de uma objetividade (a própria situação do mundo) ou como É como se a arte e o poema que dela fala construíssem, sob a super- diz Drummond num poema em que a sombra e os processos de impedi- fície enganadora (falaz) da aparência, a "fundação de objetos mento e obstáculo se manifestam de modo claro daquilo que não está trazendo à tona algo pertinente à própria forma do material (as paisa- inteiramente à vista e que a arte, na das revela. gens concentradas e os mundos lenhosos da madeira). poema aponta, poema sobre a artista plástica, "Fayga começa em surdi- depois e o trecho é iluminador do modo como próprio Drummond na, falando manso e pouco, para depois abrir-se a questões centrais da se utiliza do obstáculo e da negatividade para bloqueio de luz a que arte dialogando também, principalmente, com a poética de Drum- Fayga submete os seus objetos e, principalmente, para o efeito surgido mond, que assim se revela naquilo que fala do outro: com o uso dessa técnica. bloqueio, o obstáculo (a "espessa atmosfera do Não") são receptáculos para uma espécie de conhecimento, para a "Fayga faz a forma apresentação (aos nossos olhos) dos "infinitos esquemas" que ali, justa- flutuar e florir na pauta mente por estarem mediados pela negatividade e envoltos na espessura musicometálica. opaca da luz bloqueada, vibram noturnamente (e deste modo oferecem- Água forte, água tinta se à escuta e ao olhar do poeta/leitor). poema sobre Fayga ecoa "Opaco" e o obstáculo ali configurado de água fina maneira singular. Há, em ambos, o difícil caminho de uma luz bloqueada, lavam a crosta da terra de um "Não" que surge como receptáculo de estruturas que então adqui- rem um perfil mais claro, na densidade do obstáculo como se estivesse varam a delicada ordenação das estruturas plasmada, no tecido de sua forma, a realidade cindida da qual provêm. manifestam Em "Fayga a negatividade surge de uma estrutura trun- diáfano. cada presente já na própria matéria com a qual se trabalha: os mundos 25 Poesia e Prosa, ed. cit, 485-6. 24 Ibid., 46 (grifo nosso).38 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 39 lenhosos, a espessa atmosfera de uma recusa que, em seu aspecto denso o inexpugnável (obstáculo) é o mediador. Porque, como visto, é das (espesso), acolhe um conhecimento do mundo. Em "Opaco", essa ne- dobras que os movimentos dà negatividade imprimem ao poema que se gatividade virá a partir de ângulos variados, e com diverso sentido. extrairá, paradoxalmente, a possibilidade de vir a saber do luar, de ter Convém analisá-la mais de perto. acesso, por entre dois golpes de sombra, ao brilho do objeto desejado Ao estudar o desenvolvimento das estrofes de "Opaco", nota-se que que aqui, talvez, tenha relação direta com a possibilidade ela mesma o obstáculo, que a princípio parecia nascer tão-somente da imagem do ainda iluminadora de ver com clareza os bloqueios do espaço (subje- edifício (obstáculo ao olhar) abre-se para além dele e das suas implica- tivo e objetivo) que o poema contempla. É pelo obstáculo que se sente, ções com a metrópole (repetição reiterada, estrutura caótica, choque, nessa poesia, o peso do mundo e é ao mesmo tempo por ele que se reificação). É assim que, numa guinada inesperada, a função de barrar pode ter a luz de um conhecimento possível desse peso; é pela passa- desprende-se, na última estrofe, da imagem do bloco de pedra (externo gem do obstáculo concreto (edifício) àquele que tem lugar na subjetivi- e objetivo), passando a incidir, numa reviravolta do poema, sobre a pró- dade de um "eu todo que se faz, de certo modo, o tatear da pria interioridade do eu lírico. espessura e opacidade de mundo e E esse tatear lúcido ao mesmo tempo não ofusca, com sua luz não "Não, não me barra mais que opaca, os tons de escuro que revestem os elementos delinea- a vista. A vista se barra dos em "Opaco" (e em outros poemas citados): a metrópole, as relações a si reificadas, o trabalho repetitivo e alienado, obstáculo que está dentro e fora. Pelo contrário, deixa-os expostos. O movimento que vai de uma Após trilhar um caminho que passava pelo edifício (ou que o tinha escuridão a outra (do obstáculo objetivo àquele que absorve também a como mediador, na súbita abertura do poema "por ele é que sei do subjetividade), ao perseguir uma luz não mais que (avançando luar"), o elemento positivo é novamente barrado, quando o poeta, não com dificuldade por entre a materialidade do mundo e as contingências mais se referindo ao obstáculo concreto e visível sobre o qual construíra do sujeito), evidencia um gesto poético que procura trazer à tona o peso todo o transfere para o domínio da subjetividade a função de blo- queio, fechando assim novamente acesso do olhar ao objeto desejado. 27 "Eu todo retorcido" é título da seção em que Drummond, na sua Antologia Poética, reuniu A impossibilidade reverte-se para a interioridade, fazendo aparecer os poemas de "análise da personalidade" (a expressão é de Antonio Candido). Sobre as- como bloqueio o elemento central de toda lírica: a voz e a atitude do pecto retorcido diz ainda mesmo crítico: "(...) essa torção é um tema, menos no sentido sujeito. Vemos que o brilho que poema extrai de um dado positivo (a tradicional de assunto, do que no sentido específico da moderna psicologia literária: um possibilidade de saber do luar) acontece precisamente na passagem da núcleo emocional a cuja volta se organiza a experiência poética." P. 115. "Inquietudes na negatividade do mundo para aquela que, por contaminação, habita tam- poesia de Drummond", em Vários São Paulo, Duas Cidades, 1995. bém o sujeito (o movimento de bloqueio é também parte da subjetivida- 28 A estrutura que transfere bloqueio (neste caso, à lua) para a interioridade do eu lírico é re- de). Uma das questões com as quais se defronta a análise, portanto, é corrente em Drummond: ela aparece, por exemplo, em "Eclipse", do livro Versiprosa, compreender de que maneira o eu lírico interioriza um conflito em que poema no qual motivo para escurecimento do céu passa a ser procurado também na subjetividade de quem contempla. "Lentamente a lua foi desaparecendo/a balcão marino 26 E aqui já se vê que "Opaco" redesenha, em outra chave, motivo da recusa presente em "A de fez a grande volta Às 22h58m/ só se podia tê-la na reprodução de máquina do mundo" ("baixei os olhos, incurioso, lasso, desdenhando colher a coisa oferta Art van der Neer/ famoso pintor de luar em álbuns suíços/ no LP mas tão batido de Beetho- que se abria gratuita a meu engenho"). Os dois movimentos partem da subjetividade, confi- ven. Sobre Lago dos 4 Cantões a flor entre dois abismos/ disse um que leu a Enciclopédia de gurando uma recusa que se explicita no movimento do olbar: "Baixei os olbos" ("A máquina Música/ tu fechaste os olhos/ para ver eclipse à tua maneira/ pois eclipse é também ocultação/ do mundo")/"A vista se barra a si mesma" ("Opaco"). de coisas não meteorológicas/ na faixa ultranictina de teu cone de sombra. (...)".40 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 41 do mundo. Nesse sentido, o poeta não está, como a epígrafe de Claro dos os tempos cujos caminhos são iluminados pela luz das estrelas! Para Enigma talvez pudesse sugerir, afastado do mundo, mas firmemente eles tudo é novo e todavia tudo significa aventura e todavia tudo entranhado nele e nos aspectos aqui já apontados. Tateio lúcido da lhes pertence. mundo é vasto e contudo nele se encontram à vontade, negatividade que se traduz, na imagem desse poema, em opacidade: luz porque fogo que arde na sua alma é da mesma natureza que as estrelas. misturada ao escuro, olhar que, ao debater-se com o seu material e per- mundo e o eu, a luz e o fogo distinguem-se nitidamente e, apesar disso, curso, vê nítidas (e claras) as mazelas e escuridões do mundo. Esse, tal- nunca se tornam definitivamente alheios um ao outro vez, seja o ponto central do poema. Mas há outros dados a considerar. Em sentido diverso, é precisamente esse alheamento de mundo e fato de construir o obstáculo tanto sobre um aspecto exterior sujeito o que salta à vista, no poema de Drummond. Não cabe, nessa quanto sobre a interioridade faz com que a busca, que no poema se efe- expressão, a exaltação de uma positividade que não esteja intrinseca- tua, esteja desde o começo problematizada o que de resto já está suge- mente vinculada aos aspectos negativos da realidade (e daí caráter rido em suas primeiras estrofes. poema se refere a lua e estrelas, nos opaco que tal mescla adquire, na sugestão visual do poema). primeiros versos, como a "nada escrito no céu". Ao afirmar a inexistên- Por outro lado, se não pode mais ler (ou alcançar com os olhos) as cia do lugar-comum que caracteriza a idéia de destino (aquilo que está estrelas e seus significados, o poeta busca aqui outra saída. A resposta escrito nas estrelas), descrê de antemão da solução providencial para de Drummond parece se deslocar, de um objeto alcançável, permeado reconhecer que o conflito está fora e dentro. livre acesso ao objeto de certezas, para o percurso da busca propriamente dito: é o percurso procurado nada traria ao poeta, porque nada está escrito. A possibilida- compreendido pela opacidade, pelo jogo de sombras por entre as quais de de poder ver lua e estrelas no céu seria talvez bela, mas, parodiando a luz passa com dificuldade, aquilo que dá forma e sentido ao poema o poeta, não seria uma solução. e que determina também, muito de perto, uma concepção de mundo e Aqui nos encontramos (e a ponte para a comparação será dada, ain- uma poética. Pois é o eu lírico que escolhe, ao final, toldar a vista. da, pelas estrelas, como se verá) no extremo oposto daquela situação escurecimento, a incorporação do obstáculo, a impossibilidade de abrir estudada por Lukács na epopéia. o verso à instância desejada refletem (na vista que se barra a si mesma) Há, na epopéia contrariamente à radical ruptura sobre a qual uma situação específica. A negatividade é, para essa poesia, problema e poema de Drummond se debruça, como que sobre um precipício -, mediação. Um meio de fazer, mediado pelo obstáculo, que é também uma "perfeita concordância dos actos com as exigências íntimas da um instrumento crítico. A dificuldade aparece aqui como constitutiva da alma (...) Enquanto a alma não conhece ainda em si nenhum abismo expressão poética, em Drummond. que a possa arrastar para a queda ou empurrá-la para os cimos, (...) não É revelador, nesse sentido, que "Opaco" redesenhe a frase central de há acção que não seja para [ela] um vestuário que lhe assenta bem. Ser um poema paradigmático "Nunca me esquecerei desse acontecimento/ e destino, aventura e acabamento, existência e essência são então no- na vida de minhas retinas tão fatigadas" ("No meio do caminho") ou seja, ções que retome o aspecto da pedra/edifício como obstáculo frente ao olhar. Nesta realidade, existe uma possibilidade de leitura (das estrelas, O tema é recorrente, na poesia drummondiana. Convidado por uma daquilo que está escrito no em que se deixa ainda cifrar o mun- revista,³² em 1944, a escrever a sua autobiografia, o poeta fechou do pleno de sentido que confere a forma acabada à epopéia. breve texto sobre a sua vida com a transcrição, precisamente, de "No "Bem-aventurados os tempos que podem ler no céu estrelado mapa meio do caminho" (poema originalmente publicado em 1928), que ar- dos caminhos que lhes estão abertos e que têm de seguir! Bem-aventura- 31 Lukács, Teoria do Romance, ed. cit., 27. 29 Lukács, G. Teoria do Romance. Lisboa. Editorial Presença, s/d, pp. 28-9. 32 Ver "Autobiografia para uma revista" em Confissões de Minas. Poesia e Prosa, ed. cit., 30 Verso de "Opaco". p. 928.42 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 43 remata, assim, não a vida, que ainda seria longa, mas já uma parcela "estação "(...) o Drummond que decifrara (ou cifrara) o dela e a publicação de quatro livros. mistério gramatical' de 'Áporo', poeta da perquirição ontológi- Alguns anos mais tarde (1951), surge outro poema a que signifi- ca sobre próprio poema; Drummond que emprestara a 'gravata cha- cativamente se deu o nome de "Legado" em que é retomada, nova- mejante' de Neruda e saudara Maiakóvski, que quisera ver seu poema mente em posição central, a imagem da pedra/obstáculo: pelo o Drummond participante de tempo' (A Rosa do Povo, capaz de aparar o 'élan' tribunício no gume Que lembrança darei ao país que me deu acerado da ironia ou da derrisão, de repente (e não por acaso nas circun- tudo que lembro e sei, tudo quanto senti? voluções de 'guerra fria' do segundo pós-guerra) começou a entediar-se Na noite do sem fim, breve tempo esqueceu dos acontecimentos. événements m'ennuient', Valéry, é a significa- minha incerta medalha, e a meu nome se ri. tiva epígrafe de Claro enigma. E ei-lo a praticar esse tédio alienante, re- escrevendo em soneto ('Legado') o seu 'No meio do caminho tinha uma E mereço esperar mais do que os outros, eu? pedra', que virou 'uma pedra que havia em meio do em polida Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti. e castiça chave-de-ouro. Isto para nos demonstrar, talvez como se fosse Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu, possível prestar tributo à tradição viva senão pela criação viva sua mes- a vagar, taciturno, entre talvez e se. tria do idioma, sua familiaridade com as formas fixas, sua perícia metri- ficante, sua incorporação enfim a uma 35 Não deixarei de mim nenhum canto radioso, Se há, de fato, formas fixas, expressão elevada, mestria do idioma e uma matinal palpitando na bruma perícia metrificante, em Claro Enigma, esses mesmos aspectos devem e que arranque de alguém seu mais secreto espinho. ser vistos (acreditamos) em função do efeito de estranhamento e des- concerto que ali surge, não a contrapelo da forma fixa, mas precisamen- De tudo quanto foi meu passo caprichoso te pelo confronto que essa forma "classicizante" estabelece com moti- na vida, restará, pois 0 resto se esfuma, vos que lhe são incompatíveis (se se levar em conta a mesma tradição uma pedra que havia em meio do caminho.33 mencionada por Haroldo de Campos) dor, abafamento, escuridão, mijo, caos (para ficar apenas nas imagens de um dos poemas do livro, Chama a atenção, ao longo da obra, esse motivo drummondiano (o "Oficina Irritada"). Assim, o sentido da tendência a uma expressão motivo do entrave), escolhido tanto para arremate da autobiografia classicizante, no livro de 1951, não seria o de uma capitulação à expres- quanto para o fecho imaginário dado à vida agora, no entanto, em são conservadora, mas o da busca de um descompasso ainda maior, forma de soneto e numa linguagem rebuscada, em versos alexandrinos. uma vez que a ruptura entre estrutura e tema faz com que um terceiro uso das formas fixas, em Claro Enigma, merece por si só comentá- componente do poema seja, justamente, a tensão crescente que ali se rio. Já foi interpretado como uma guinada conservadora, que ecoaria, no configura. Nesse sentido, o recurso às formas clássicas é, contrariamen- campo da forma, o retraimento do sujeito, o tédio frente aos aconteci- te ao que se poderia supor, um modo de expor à apreensão do leitor não Haroldo de Campos, por exemplo, viu no livro de 1951 uma o mundo ordenado do qual se originariam as tais formas, mas, pelo contrário, a não ordenação do mundo, a desarmonização crescente, a 33 Poema de Claro Enigma. Poesia e Prosa, ed. cit., pp. 263-264. tensão e a ruptura que se incorporam ao poema, justamente, no des- 34 Cf. a ampla exposição de Vagner Camilo com relação à recepção crítica de Claro Enigma: 35 "Fortuna e infortúnio críticos", em Drummond. Da rosa do povo à rosa das trevas. São "Drummond, Mestre de Coisas", em Carlos Drummond de Andrade. Coleção Fortuna Crí- Paulo, Ateliê, 2000, 23-46. tica. Ed. cit., p. 248.44 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 45 compasso e desarmonização de sua forma e tema³⁶. Assim, um recurso violência latente do mundo (ainda mais acirrada por estar contraposta à conservador (o recuo a formas anteriores ao modernismo) tem aqui si- forma clássica e fixa do soneto). E com isso oferece, na exposição des- nal trocado: ao potenciar o descompasso (entre a forma e o seu tema), sa violência, a possibilidade de apalpar que é brusco, a possibilidade traz à tona não (como muitos viram no desencantamento drummondia- de sentir o choque e descompasso (o que se configura, tornando mais na em Claro Enigma) um descaso em relação aos acontecimentos, mas, complexo o movimento do poema, como uma positividade). assim antes, um modo de apresentar esses acontecimentos sob uma luz diver- que da negatividade mais intrincada se pode ter, ainda (ecoando a lua e sa e precisa. É esse aspecto do mundo que o recurso às formas fixas estrelas de "Opaco", que por instantes rompem a barreira intransponí- salienta (no seu embate com temas que lhe seriam "impróprios"). Nesse vel do obstáculo) o surgimento de um brilho inesperado: "enquanto sentido, Claro Enigma alinha-se com aquelas formas de arte que bus- claro enigma, se deixa surpreender". cam incorporar a dissonância do mundo (e não com aquelas que esca- Há, nesses poemas, a possibilidade (muito truncada, avançando com moteiam essa dissonância sob a aparência falsa de uma organização e dificuldade) da apresentação de um tom positivo que, justamente por acabamento perfeitos). Que essa dissonância surja por meio da forma seu aspecto difícil, não se deixa decompor e falsear. Ao mesmo tempo fixa e clássica é inusitado e dá o que pensar. em que se constrói, de maneira irritada, um soneto voltado ao sofri- exemplo mais patente, talvez, do descompasso apontado está mento, surge também, de modo inesperado num poema que incorpora em "Oficina Irritada", poema imediatamente anterior a "Opaco (e que como poucos a violência latente do mundo, a estrela: "(...) tiro no com ele dialoga, em mais de um sentido). Em suas estrofes, toda a ne- cão mijando no caos, enquanto claro enigma, se deixa gatividade brota do próprio exercício poético. poeta escreve com surpreender". raiva o seu soneto "escuro,/ seco, abafado, difícil de ler". que vem Difícil é precisar qual seria a função desses lampejos de luz, em poe- à tona (além da dissonância provocada pelo contraste entre a forma mas tão fechados e tão imersos em treva. Uma primeira hipótese é a de classicizante e o tema irritado) é o sofrimento a que se destina o que a luz (ainda que opaca) marca, em Drummond, a possibilidade de um poema: "Quero que meu soneto, no futuro./ não desperte em ninguém olhar certeiro sobre as mazelas do mundo (que, no momento em que se nenhum prazer". "Esse meu verbo antipático e impuro/ há de pungir, há define como um exercício de lucidez, furta-se à negatividade abafada e de fazer sofrer". sem saída, compondo, assim se traduzido pictoricamente um lampejo No gesto violento, que engloba todos os aspectos do exercício lite- ou reflexo). É essa fresta de luz que, "em Opaco", para continuar a exer- rário (da escrita ao leitor), poema parece incorporar, igualmente, a cer a sua função, deve-se fechar novamente em impossibilidade sem a qual não poderia continuar a ser uma reflexão sobre o negativo, transfor- 36 Nesse sentido, a leitura aqui exposta segue por uma via contrária àquela apresentada por José mando-se em pura exposição de uma luz excessiva e fácil. Guilherme Merquior, em Verso Universo em Drummond. (Rio de Janeiro, José Olympio, Veja-se, como exemplo não do fechamento final, mas da possibi- 1976). Diz crítico aspecto mais evidente do estilo lírico de Drummond na época de lidade de irrupção da luz em um contexto em que ela não seria esperada Claro Enigma é seu feitio clássico" (p. 190). "Por 'classicismo' entendemos invariavelmente o poema dedicado "A Goeldi", que, se principia expondo em imagens tanto simples uso dos temas 'clássicos' (...), quanto um período artístico ou literário (...), recorrentes a negatividade e a escuridão que contaminam a obra do gra- que tratem os temas antigos ou não, obedecendo a um normativismo inspirado, ou que se vurista, termina mais à frente por abrir uma brecha (ou "tarja") de cor e julga tal, pelo estilo dos clássicos da (...) Entretanto, conceito de 'classicismo' luz ("reflexo") nesse quadro cerradamente implica também algo mais, a idéia de estilização: com efeito, não há classicismo sem uma certa abstração do real. Antes mesmo de seguir cânon antigo, toda mímese classicista seja ela plástica ou literária se despoja deliberadamente do desejo de representação 'rea- lista', concreto, da natureza e da sociedade" (pp. 191-192). 37 "Estrela de primeira grandeza da constelação de Bootes" (Dicionário Caldas Aulete).46 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 47 "(...) firmar como contraponto à negatividade cortante e violenta como em Céu nublado, chuva incessante, atmosfera de chumbo poucos poemas de Drummond. Antes, fica a soar ali como uma impossi- são elementos de teu reino bilidade nesse tempo presente. A menção à luz (Arcturo), em "Oficina onde a morte de guarda-chuva Irritada", parece desse modo deslocada, trazida de uma outra realidade comanda (mas aludindo, ainda, como já se observou, a uma organização outra do poças de solidão, entre urubus. mundo, dos homens, do trabalho e da literatura). Dissemos que "Oficina Irritada" reconhece, apesar da menção à Tão solitário, Goeldi! mas pressinto estrela, a impossibilidade que tem a luz de fazer frente à negatividade no glauco reflexo furtivo do mundo. É esse reconhecimento que dá o que pensar. Pois ele não que lambe a canoa de teu pescador nos parece um retraimento do sujeito lírico em relação às dificuldades e na tarja sangüínea a irromper, escândalo, de teus negrumes (político-sociais) do mundo, mas antes o mergulho, certeiro e determi- uma dádiva de ti à vida. nado, nesse mesmo mundo. Mergulho cujo resultado não pode ser outro se o poema quiser permancer fiel à possibilidade de fixar, em Não sinistra, sua forma, aspectos do real senão a exposição, sem meios tons, do mas violenta escuro em que está inserido. O aspecto brusco, a sombra, a negativida- e meiga, de não são resultado da escolha subjetiva do poeta em retirar-se do destas cores compõe-se a rosa em teu mundo. São, antes, aspectos dessa realidade que o eu lírico, escolhendo (pelo contrário) olhar de frente, incorpora, também pela forma trun- No sentido que esses poemas constroem, o surgimento de uma luz cada, difícil ao poema. mediada pela opacidade, mesmo na expressão mais escurecida, talvez dê que se tem aqui é uma objetividade da lírica (a incorporação, pelo conta de uma postura ainda capaz de pensar uma possibilidade (protegi- poema, de estruturas que dizem respeito não tanto ao sujeito, mas ao da, num movimento dialético, pela escuridão que não deixa que ela se mundo do qual provêm). O que parece estar em jogo, na expressão falseie ou torne-se expressão banal). A lista da tendência utópica seria truncada e escurecida, é como se lê em "Fayga Ostrower" a "funda- vasta, e pode ser formada, por oposição, a partir dos aspectos que se ção de objetos líricos": aquilo que é fundado (pela artista plástica/pelo aglutinam na figura do obstáculo: em "Opaco", a repetição desumaniza- poeta) mas que não depende de um aparato subjetivo para a sua mani- da, a subjetividade retorcida, a metrópole em "Oficina Irritada", festação. que passa pela voz lírica (portanto centrada no sujeito) é a a violência que penetra até mesmo o fazer literário que já não é uma fundação (mais do que criação) de um lirismo objetivo. oficina privilegiada, dobrando-se ao tom eriçado e violento; em "A A fundação de objetos líricos, aliada ainda ao travamento da ex- Goeldi", a solidão, a "atmosfera de chumbo". De todo modo, seja qual pressão (ao obstáculo) empresta ao poema, no qual se fixam os esque- for a instância à qual a já diminuta luminosidade desses poemas se refere mas (infinitos) do real, a possibilidade de dar a ver os conteúdos que ali (por oposição, na lista apresentada), ela não se sustenta (mesmo em "A tomam forma e que, justamente no confronto com o obstáculo, são pos- que finda com a menção à luz, vê-se que, no todo da obra que o tos a vibrar, na escuridão que os acolhe (noturnamente como se lê em poema contempla, a luz é exceção num quadro de exílio, escuridão e "Fayga Ostrower"). morte). Em "Opaco", a luz mergulha novamente no escuro do qual sur- Esse obstáculo é então central, para a poesia de Drummond poe- giu; e em "Oficina Irritada" (também de Claro é incapaz de se sia que afasta, como não pertencente à sua estrutura (ou aos seus "ob- jetos líricos") a excessiva luz, a expressão fluida e melodiosa, a posi- Versos de "A Goeldi", do livro A vida passada a limpo. Poesia e Prosa, ed. cit., p. 339. tividade sem interrupção e cortes. É assim que em lugar do canto ra-48 BETINA BISCHOF 49 dioso, ou da melodia órfica, mencionados em "Legado" como uma 0 OBSTÁCULO E A DIFICULDADE: impossibilidade, vemos surgir a pedra em meio do caminho. É essa UM OUTRO REGISTRO que restará, "pois o resto se esfuma", ao cabo de uma vida ("De tudo quanto foi meu passo caprichoso/ na vida, restará, pois o resto se es- uma pedra que havia em meio do caminho"). que se desinte- gra e que talvez, contrariamente à pedra, se relacione com aspectos positivos assim o como característica não mais possível em um mundo moderno, torto, deixando que na base do poema pudesse ser recuperado aquilo que sempre foi central para essa poesia: lo, o entrave, a negatividade. É esse, talvez, seu "legado": fazer do aspecto negativo não ape- " nas assunto ou tema, mas algo constitutivo de sua poética e da tenta- poro", de A Rosa do Povo, é um dos poemas em que se pode tiva de expressão do poeta. A pedra deixa de ser apenas um obstáculo distinguir (num primeiro momento) um motivo já estudado na psicológico, social ou moral, para se transformar num elemento de poesia de Drummond por Antonio Candido, no ensaio publicado em É como se, no final intuído, sobrasse ("o resto se esfuma") Vários escritos: a prisão em meio ao chão, a se desdobrar em mais de o fazer dificultoso que caracteriza a sua poesia e que compõe, em tra- uma direção "os estados angustiosos de sonho (...) e, no caso extre- ços nítidos, a atmosfera truncada que se condensa numa visão clara mo, [o] sepultamento que se abre, em "Áporo", tanto ao conteú- sobre o escuro do mundo. do latente das impossibilidades do sujeito, quanto ao sentido igual- mente preso e bloqueado do mundo e de suas impossibilidades. Será necessário à análise, então, aclarar as várias camadas de significação do bloqueio em meio ao chão (e também como se dá, ao final, o desatar do nó ali constituído), observando como se articulam, no espaço fechado e a interioridade e o mundo. É possível começar a pensar sobre "Áporo" de dois pontos distintos: aquele que se curva sobre o confinamento (que mantém, como se espe- ra mostrar, ligações com a interioridade do eu lírico e seus espaços de eleição), e aquele que se vincula ao mundo exterior (na alusão, por exemplo, ao "país bloqueado", por meio da qual se introduz no poema um foco objetivo, do qual não se pode excluir a possibilidade de um sentido político). 39 No sentido de Antonio Candido, para quem, na boa crítica, "saímos dos aspectos periféricos Um inseto cava da sociologia, ou da história sociologicamente orientada, para chegar a uma interpretação cava sem alarme estética que assimilou a dimensão social como fator de arte. Quando isto se dá, ocorre perfurando a terra paradoxo assinalado inicialmente: externo se torna interno e a crítica deixa de ser socio- sem achar escape. lógica, para ser apenas crítica." "Crítica e sociologia", em Literatura e São Paulo, Publifolha, 2000 (Coleção grandes nomes do pensamento brasileiro) p. 8. "Inquietudes na poesia de em Vários Escritos. Ed. cit., p. 118.50 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 51 Que fazer, exausto, A dificuldade com que se debate o inseto está, no poema, potencia- em país bloqueado, lizada. espaço físico criado pelas imagens paradas é de tal modo enlace de noite opressivo, que temos a impressão de que se rompem, sob peso da raiz e minério? negatividade sem brechas, os limites entre a objetividade e o que é inte- rior, entre o que acontece no espaço e que atinge, deste modo, um inse- Eis que labirinto to que busca saída e aquilo que sugere, mesclando-se à ação que ali (oh razão, mistério) toma corpo, algo da interioridade do sujeito, central à expressão lírica, presto se desata: e que talvez possamos ver espelhado neste inseto emparedado e confi- em verde, sozinha, nado em um espaço fechado, sem solução. antieuclidiana, Desse modo, talvez não seja aleatório encontrar, no poema que an- uma orquídea forma-se. tecede "Áporo", em A Rosa do Povo, a referência a uma mescla possí- vel entre o eu lírico e o inseto: Drummond compôs este poema com economia de linguagem, com concisão de meios. resultado é uma expressão estilizada, recortada; "(...) E vi minha vida toda poema de fala breve, que assim substitui o ritmo longo por esse verso contrair-se num inseto. de tomadas rápidas, sucinto e seco. Seu complicado instrumento que se nota em "Áporo", à primeira vista, é um adensamento do de e de hibernação, verso. poeta escolhe a forma breve, e com ela realiza, em contraste sua cólera zumbidora, com os meios escassos selecionados para a sua feitura, o arco da narra- seu frágil bater de élitros, tiva: modulação de um processo que, acontecendo no tempo, conta a seu brilho de pôr de tarde história de uma reviravolta. e suas imundas patas... A primeira estrofe do poema descreve um esforço de ação, caracteri- zado por três verbos (dois deles simplesmente repetidos e um com sig- nificado semelhante): "cava", "cava", "perfurando". Essa ação, embora A identificação do eu com o inseto é, ela própria, problemática: o reiterada, não encontra solução e fica a rodar no vazio. Marcas deste errar inseto, contração (da vida) do eu lírico, carrega aspectos negativos: "có- sem saída são as repetições da primeira estrofe: "cava", "cava sem", "sem lera", fragilidade, imundície ("imundas patas"). Já aparece aqui, de achar". O sujeito, cativo de um labirinto, vaga em círculos, recomeça, certo modo, a negatividade que contaminará o próximo poema da cole- reinicia a sua busca. Ele tem um objetivo: achar saída, liberdade, o que tânea ("Áporo"), no qual, a esses primeiros elementos, se somará ainda lhe é negado: "cava, cava, (...) sem achar O percorrer do labi- o confinamento e a impossibilidade. rinto subterrâneo, à procura de uma saída, mostra-se vão. Não há abertura para este desejo/inseto. Não há brecha nem solução. As imagens que con- "Rola Mundo", em A Rosa do Povo. Poesia e Prosa, ed. cit., pp. 176-177. Também em Fa- figuram a situação de fechamento são, coerentemente, truncadas, aporé- zendeiro do Ar há um poema em que Drummond se utiliza da figura do inseto para repre- ticas: "sem (...) escape", "bloqueado", "enlace de "labirinto". sentar-se a si mesmo: "Neste brejo das almas/ que havia de inquieto/ por sob as águas cal- Permeando todas essas referências claustrofóbicas, a exaustão³. Era um susto secreto./ eram furtivas palmas/ batendo, louco era um desejo obscuro/ de modelar vento/ eram setas no muro// e um grave sentimento/ que hoje, varão 2 Grifo meu. maduro/ não punge, e me atormento." (Grifo meu) "No exemplar de um velho livro". Poe- 3 "Que fazer, exausto./ em país bloqueado" sia e Prosa, ed. cit., 310.52 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 53 "Áporo" principia com uma narrativa (a primeira estrofe) sobre a objetivo. E, no entanto, não será por essa via que nos aproximaremos impossibilidade de saída e a inutilidade da ação (de cavar). do poema, mas por outra (a da subjetividade), que lhe é complementar já Antonio Candido observara esse jogo de ecos entre a interioridade Um inseto cava e o que está fora, afirmando, a respeito das negatividades dessa poesia, cava sem alarme que em Drummond a deformação do mundo "se articula com a defor- perfurando a terra mação do indivíduo, condicionando-a e sendo condicionada por sem achar escape. Nota-se que a segunda estrofe de "Áporo" apresenta um trecho que contém não mais uma espécie de narração, como nos primeiros versos, A dificuldade da ação é um tema drummondiano, que será mais res- mas um comentário, uma observação saltado duas coletâneas à frente, em Claro Enigma, mas que já aqui se faz sentir, de maneira forte, embora desfecho seja outro. A possibili- "Que fazer, exausto, dade de oferecer ainda, ao cabo, uma saída, ou, por outro lado, de fe- em país bloqueado, char totalmente qualquer escape possível, pertence, grosso modo, a enlace de noite duas épocas distintas (a primeira estaria mais presente no livro de 1945 raiz e minério?" A Rosa do Povo e a segunda, seis anos depois, em Claro Enigma). parecendo introduzir o sujeito da fala que, a partir da situação de A oposição entre travamento e possibilidade de saída acontece, às aporia, tece a pergunta, denotadora da sua presença. Pergunta que não vezes, no interior do mesmo livro como aponta Vagner Camilo, com- é, ainda, a busca de uma resposta, ou a intuição de uma saída, mas sim- parando "A máquina do mundo" e "Relógio do rosário", em seu estudo plesmente aquilo que resta quando todas as possibilidades já foram sobre Claro Enigma. No primeiro poema, escreve Camilo, o "desvelar exauridas e queda-se enredado, "exausto", "bloqueado". sublime dá-se sob a forma de um clarão em meio à escuridão exterior e Esta segunda estrofe, construída em indagação, ecoa um poema fa- interior ('vinda dos montes e do meu próprio ser entre moso de Drummond, "José", do livro homônimo, em que a pergunta, o 'fecho da tarde' com o declínio do dia em estreita correlação com o repetida à exaustão, não leva a nenhuma resposta, sendo antes um com- da crença na validade do conhecimento que se ofertará, gratuito, ao ponente da absoluta aporia com a qual se defronta o sujeito: viandante e a noite em que impera 'a treva mais indicando a falta de perspectivas do caminhante que refaz o caminho de volta, de E agora, José? pensas' (...). Já em 'Relógio do Rosário' ocorre o contrário: a A festa acabou, sombra que baixa do som do relógio irrompe em meio ao dia claro e, a luz apagou, após eu lírico desvelar essa verdade sombria, há o retorno à realidade povo sumiu, diurna, acompanhado de todo um jogo de luzes e cores"⁵ a noite esfriou, Em "Áporo", esse primeiro momento de travamento (que nos per- e agora, José? mitiu aproximar poema de uma reflexão sobre situações análogas, em (...) Claro Enigma) abre para a dimensão social do impasse, na alusão ao Com a chave na mão "país bloqueado". Seria possível, então, começar a análise com a inter- quer abrir a porta, pretação, justamente, da situação pela qual passa esse país, focalizando não existe porta; o que se estrutura no poema a partir do seu ângulo mais abrangente e quer morrer no mar, 6 Vagner Camilo, Da Rosa do Povo à Rosa das Trevas. Ed. cit., p. 300. "Inquietudes na poesia de Drummond", em Vários Escritos. Ed. cit., 121.54 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 55 mas mar secou; Vê-se, neste desenrolar de sucessos, que "Áporo" não é, em sua quer ir para Minas, essência, um poema imagético, plástico. Apesar de lidar com imagens Minas não há mais. muito bem construídas (e que tem no espaço claustrofóbico a sua di- José, e agora? mensão maior), seu ponto forte está na transformação, que cai cortan- (...) te sobre o quadro parado das imagens, estabelecendo um contraste pre- Sozinho no escuro ciso entre uma situação de prisão e fechamento e a reviravolta subita- qual bicho-do-mato, mente introduzida. sem teogonia, Voltemos, então, a sondar obstáculo e o confinamento, que se enre- sem parede nua dam, por sua vez, a uma concepção de poesia, em Drummond. obstá- para se encostar, culo é visto, em "Áporo", a partir de um ângulo que não toma distância sem cavalo preto em relação ao seu objeto. Neste poema, aquele que se debate num espaço que fuja a galope, sem saída não está frente a um entrave, (como é o caso do eu lírico, em você marcha, José! "Opaco"), mas no interior daquilo que lhe impede o movimento. que José, para se tolhe não é o seu direcionamento em relação a algo que ele queira al- cançar, mas a própria possibilidade de movimentação e saída. É sintomá- A pergunta aponta, nesse poema, para a ausência de possibilidades. tico, nesse sentido, que o obstáculo (tornado espaço claustrofóbico) ve- A indagação ecoa no vazio, depois que a própria realidade conhecida nha representado na forma de um labirinto feito de terra, emaranhado de esgarçou-se, fez-se pó: "quer morrer no mar, mas o mar secou:/ quer ir raízes, escuridão e ferro (minério). Minério, terra e escuridão que não para Minas./ Minas não há mais."⁸ podem ser dissociados de Minas, na poesia de Drummond, e assim tra- Se em "José", no entanto, a pergunta fecha o poema, restando no ar uma zem um contrapeso concreto para preencher uma matriz à primeira vista atmosfera de irresolução, uma impossibilidade de se agarrar a que quer que desvinculada de referências para com a experiência do poeta. seja, em "Áporo", por outro lado, essa situação de desesperança, esse clima A força que imagens (mesmo que fugidiamente) ligadas à terra de abafado e fechado encontra, subitamente, uma saída. Há, no poema de A origem podem ter, na poesia de Drummond, já foi apontada por Alfredo Rosa do Povo, a introdução de um movimento poético inesperado, que Bosi, em seu estudo sobre "A máquina do mundo". Neste poema, mar- quebra a sucessão eternamente recorrente e viciosa de ações iguais, ofere- cado pelo uso rarefeito da alegoria, o crítico notou o peso que uma só cendo um "escape" a esse inseto que vaga entre paredes multiplicadas. referência a Minas é capaz de introduzir, no tom geral do narrado: Apoiado pela precisa introdução da expressão "Eis que" resga- ta-se o inseto de um tempo sem saída, estagnado, paralisado, para o "uma só metáfora revolve as raízes familiares do poeta e muda o registro alegó- tempo dos acontecimentos. Deste modo é elaborado, no poema, o desa- rico em símbolo animista: tar do labirinto e o surgimento da orquídea, que, por sua carga inespe- rada em relação ao anterior estado de coisas, traz um sentido de revira- sono rancoroso dos minérios. volta implícito nesta sua aparição. Por essa única fenda, entreaberta em um átimo, é possível divisar as Poesia e Prosa, ed. cit., p. 152. Minas, Itabira e suas pedras, subsolo de orgulho, a dor da 8 Se a referência a Minas talvez sugira apoio de um espaço ligado à biografia do poeta, é pre- ciso dizer que que se procura, aqui, são estruturas análogas de impasse e aporia e não, 9 Alfredo Bosi. "A máquina do mundo, entre símbolo e a alegoria", em Céu/Inferno. São necessariamente, uma explicitação para a dificuldade. Paulo, Ática, 1988.56 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 57 Existe uma situação análoga no poema de A Rosa do Povo. que Um dos ângulos que, aliando-se à profundidade da terra, vê o con- ressoa em "Áporo" e que parece se ligar à escuridão, àquilo que é ver- finamento do homem e o revela em sua dimensão terrível, na obra de tido para o fundo, encontra eco em outros poemas ou crônicas de Drummond (ou nos livros por ele organizados), é o do trabalho que Drummond, em que também se descrevem as terras mineiras num exer- aparece não diretamente no poema estudado, mas no confronto desse cício de penetração ou escavação. Veja-se, por exemplo, "A palavra poema com outros textos de Drummond em que se privilegia o confina- Minas", de As impurezas do branco: mento em meio ao chão. Na seleção de textos sobre Minas que Drummond fez para a coleção Minas é uma palavra montanbosa Brasil, Terra & Alma, o poeta, tendo dividido o livro em seções (a exem- Madu plo das coletâneas de sua própria lavra, como Antologia Poética, Claro Enigma etc.), dedicou a um dos primeiros temas "Ouro, Diamante & Minas não é palavra montanhosa. É palavra abissal. Minas é dentro Mais" alguns escritos que abordam a questão mineira por meio do en- foque que viemos perseguindo, ou seja, a profundidade da terra, aliada e fundo. ainda a uma atmosfera opressiva. Uma vez que esses textos foram colhi- As montanhas escondem que é Minas. No alto mais celeste, subterrânea, dos pelo próprio Drummond, talvez não seja de todo inadequado achar, é galeria vertical varando 0 ferro entre a visão de mundo (e de Minas) dos seus autores e aquela do organi- zador da coletânea, alguma semelhança e proximidade. Vejamos então para chegar ninguém sabe onde. dois desses escritos um de Richard Burton, o outro de Luc Durtain (os Ninguém sabe Minas. A pedra dois sobre Morro Velho, "a mais profunda mina do mundo"): buriti a carranca "Olhando agora para Oeste, imenso palácio das trevas, escuro em longa 0 nevoeiro perspectiva, apresenta-se com um aspecto tremendo; acima de nós parecia raio haver um céu sem atmosfera. As paredes ou eram negras como superfície po- selam a verdade primeira, sepultada lida e úmida, ou se abriam em projeções monstruosas, em parte revelando e em eras geológicas de sonho. em parte escondendo os recessos cavernosos e tenebrosos. Apesar das lâmpa- das a noite nos oprimia com um peso e a única medida da distância era uma Só mineiros sabem. E não dizem centelha aqui e ali brilhando como uma estrela isolada. Realmente dantesco era nem a si mesmos 0 irrevelável segredo 0 golfo entre os imensos flancos da montanha que pareciam ir cair a todo 0 chamado Minas.¹⁰ momento. Tudo parecia mudado, até mesmo timbre de uma familiar, ruído agudo da triste batida do martelo sobre ferro perfurante e deste na Vê-se que o poema marca, de maneira incisiva, a qualidade que se pedra chocava 0 ouvido (...). Outros sons conhecidos pareciam estranhamente liga a Minas, nesta sensibilidade poética que a cerca por tantos lados, que complicados pelo eco; eram burburinho da água no caminho subterrâneo, 0 a lê a partir de múltiplos ângulos. Enfatiza-se, ali, a vertiginosa profundi- tinir das pedras de ouro atiradas nos baldes e ranger da corrente e da caçam- dade, galeria vertical, que atrai para interior o sujeito lírico que sobre ba. Através deste inferno passam gnomos e gênios à maneira de fantasmas, figu- ela se debruça. Parece haver neste poema uma descrição, ainda mais de- ras meio despidas, embuçadas pela neblina. Aqui homens escuros, brilhando talhada, do espaço geográfico que ronda inseto, em "Áporo". com suor em rosário, suspensos por correntes em posições que pareciam hor- ríveis; ali eram eles balouçados de lugar para lugar como Leotardo; acolá subi- 10 Poesia e Prosa, ed. cit., p. 490-491. am por cordas acima como Trogloditas; adiante andavam sobre andaimes, os58 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 59 quais só de serem olhados, de baixo, fariam um temperamento nervoso ficar Apraz-vos descer, descer cada vez mais? Encontrareis, no túnel H, as vertiginoso. (...) Era um lugar: estrebarias das mulas prisioneiras, que permanecem meses sem ver sol. Do poço 41 em diante, 0 ar principia a queimar-vos as faces. 0 famoso poço 43: Em que os pensamentos eram muitos banhado de suor e dobrado sob a curvatura da abóbada muito baixa, E as palavras eram poucas começareis a ouvir, cada vez mais perto, 0 metralhar das puas elétricas. Na Mas seu efeito se conservará em nossa retina mental enquanto nossos densa poeira, agitam-se dorsos nus, ombros enfarinhados, axilas rorejantes. De cérebros exercerem suas funções. mão em mão, corre incessantemente a moringa d'água. (...) É insuportável, Ao fim de duas horas deixamos esta caverna catedrálica listada de ouro e também, 0 contato do olhar com essas caras, onde, ao orgulho acre de passamos incólumes do minério aos gramados." [1868] 11 tamanha tarefa se mistura uma queixa secreta... Lá no alto, a dous quilômetros acima dessas cabeças, como sonhos esqueci- Antes de comentar as implicações desse texto, talvez se pudesse dos, os montes, as árvores, as sociedades e as leis; lá, nas profundezas, a vizinhan- apontar, já aqui, o mesmo movimento visto em "Áporo" do claro para ça terrível do fogo central. Em verdade, os fantásticos seres que penam, aqui, atin- o escuro, da fantasmagórica escuridão (ligada aos minérios), para o gem uma das raias desse mundo chato onde vivemos. Eles se evadem para baixo, gramado. Movimento que aparecerá também numa crônica de Drum- como 0 aviador para alto. Seus lábios desenham uma curva sequiosa. mond, como se verá, e que talvez permita entrever, na prisão em meio Pesa-lhes a carga de dous quilômetros de rocha, a carga de prodigiosa ao chão do poema de A Rosa do Povo, ecos de um tema também trata- espessura? Não. Eles suportam, em segredo, a carga de um mundo. do, à sua maneira, pelos cronistas escolhidos por Drummond. (...) Sobre Morro Velho há ainda, na antologia, um texto de Luc Durtain, Três turmas de trabalhadores mergulham diariamente na mina. Dous mil e datado de 1932: oitocentos operários labutam na superfície. E qual resultado, em toda a evidência mísera e terrível? Em troca de tal "Já acentuei que Morro Velho é a mais profunda mina do mundo: 2.538 esforço, de tanta ciência, de tamanha dor e energia, menos de dez quilos de metros, exatamente. Vale apontar que furo mais atrevido na crosta do globo ouro por dia. (...) mais aventuroso mergulho das forças humanas da Terra foi feito em busca Segurei uma dessa barras, que são de 28 quilos. Cada uma representa do ouro. veeiro desce obliquamente. A mina acompanha, aprofundando-se labor de 4.300 homens, durante três dias. 12.900 diárias de trabalho, sem em seis galerias superpostas. Umas são verticais: os poços. Outras horizontais: contar as somas empregadas nos edifícios e nas máquinas. os túneis. (...) 0 pedaço de metal tem a forma de um cubo amarelo-claro e as dimensões Primeiro poço: queda de 700 metros, numa estreita gaiola de metal. Segun- de um tijolo. Incrivelmente pesado. Tão pesado que, ao peso material, parece do túnel e, depois de curta caminhada horizontal, segundo poço. ar faz-se ajuntar-se outro, misteriosamente. Todas as revelhas verdades sobre magní- morno. Havendo partido de 1.000 metros de altitude, eis-nos já muito abaixo fico esforço do homem, os absurdos e as injustiças que 0 gravam, fervem no do nível do mar: a espessura do mundo começa a pesar sobre nós. (...) Entre- vosso coração, quando sopesais uma dessas barras trágicas."¹² tanto, os ouvidos sofrem a moléstia dessa pressão repentina. Ainda hoje torno a sentir, com freqüência, a mesma angústia. Ainda hoje torno a ver aquelas Pode-se talvez conceber o motivo por que Drummond escolheu esse macilentas figuras, de volta do seu lidar subterrâneo. texto para figurar na seleção de escritos sobre Minas: há, nele primeira- 11 "Morro Velho" (texto da autoria de Richard Burton, extraído de Viagens aos do 12 Apud Drummond (org.) Minas Gerais, Coleção Terra & Alma, ed. cit., pp. 0 Apud Minas Gerais, Coleção Brasil, Terra & Alma. Seleção e apresentação de Carlos trecho foi extraído de "A mais profunda mina de ouro do do livro Imagens do Bra- Drummond de Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1967, p. 24. sil e do Pampa, de Luc Durtain. Trad. de Ronald de Carvalho. Rio de Janeiro, Ariel, 1934.60 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 61 mente e em grau bem menor a descrição de uma característica que ensaio sobre "Opaco", e que aqui retomaremos, em outra chave), em reaparece, comumente, na obra do próprio Drummond: a visão de Mi- que o mundo mineiro se inclina para a subjetividade, para a inflexão nas como uma terra de profundezas característica que, no texto de psicológica de um eu marcado pela sensibilidade e pelo aspecto emo- Durtain, é tensionada ao máximo, recebendo ainda aquela que seria cional (guardando ainda uma sutil analogia para com o poema central outra das grandes linhas de força da poesia drummondiana: o horror deste capítulo na impossibilidade de movimento que surge tanto na ante as formas de produção e decorrente exploração do homem no ca- crônica quando em "Áporo"): pitalismo. Deste modo, a imagem que contempla o mundo abissal, que se debruça sobre o que é dentro e fundo abre-se aqui a um impasse e a "(...) Seria absurdo isolar, na sensibilidade mineira, um sofrimento uma aporia não mais do sujeito em sua individualidade, mas do homem itabirano? Julgo que não. Sou, Itabira, uma vítima desse sofrimento, que já me em meio a um sistema de produção e talvez não seja à toa que esses perseguia quando, do alto da Avenida, à tarde, eu olhava as tuas casas resigna- textos colhidos pelo poeta de Itabira misturem, de modo contundente, o das e confinadas entre morros, casas que nunca se evadiriam da escura paisa- trabalho e o confinamento, o trabalho e a desumanização do homem. gem de mineração, que nunca levantariam âncora, como na frase de Gide, para Somando-se as estrofes de "Áporo" e os textos da antologia vemos a descoberta do mundo. Parecia-me que um destino mineral, de uma geometria surgir, na sobreposição do tema da clausura em meio à terra, alguns mo- dura e inelutável, te prendia, Itabira, ao dorso fatigado da montanha, enquanto tivos interligados: se de um lado (em "Áporo") se desenha, de modo ní- outras alegres cidades, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, tido, o confinamento daquele que se debate num espaço sem saída, pode- diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer. A vida não é um prazer, mas se ver, de outro, mesclada a essa aporia individual (e de modo algum uma pena. Foi esta segunda lição, tão exata como a primeira, que eu aprendi alheia a ela), a aporia de um tempo histórico (espelhada no quadro notá- contigo, Itabira, e em vão meus olhos perseguem a paisagem fluvial, a paisagem vel e terrível que se delineia nos textos de Burton e Durtain). marítima: eu também sou filho da mineração, e tenbo os olbos vacilantes UNIMONTES Biblioteca Central Prof. Antônio Jorge No confronto com esses escritos (e lembrando ainda as ressonâncias quando saio da escura galeria para 0 dia claro." históricas que tem o poema publicado em 1945), vê-se que a imagem de confinamento oscila (no eco que cria com outros textos de Drum- Essa crônica parece englobar, de certa forma, elementos e espaços aná- mond) em relação a um ou outro pólo o social e individual. (Oscila- logos àqueles vistos em "Áporo" (e também, à frase final do texto sobre ção que, de resto, não é aleatória num poeta para quem o mundo torto Morro Velho de A última sentença (grifada) do trecho escolhido parece definir, diretamente, um eu todo retorcido. Ou como ele mesmo parece mesmo, de um modo surpreendente, uma paráfrase desse poema, diz (em um poema em que a pobreza de mundo e sujeito é uma só): "O em seu movimento central: a saída, o escape que ali acontece, do labirinto, tempo pobre, o poeta pobre/ fundem-se no mesmo "escura galeria", para o "dia claro": o surgimento da orquídea. Também as imagens dos poemas (ou textos em prosa) oscilam entre Pode-se ver, além disso, na crônica, um espaço em que se estrutura um e outro aspecto. Desse modo, se nos escritos sobre "Morro Velho" uma possibilidade de reflexão sobre a cidade (em muito diverso, em seu (a mina) o aspecto do confinamento e sofrimento no interior da terra desenvolvimento, daquilo que se observava em "Opaco"). Pois existe, tem sentido claramente objetivo, há textos de Drummond em que a des- ao que parece, um outro modo de ver o que se opõe a Minas, na crôni- crição das "escuras galerias" é tomada não mais em relação à realidade concreta, como faz o texto de Durtain, por exemplo, mas como uma 14 trecho é de "Vila de Utopia", de Confissões de Minas. Poesia e Prosa, ed. cit., p. 950 espécie de metáfora que se mescla à interioridade e a um modo de sen- (grifo meu). É interessante lembrar, igualmente, que Confissões de Minas eA Rosa do Povo tir. Há uma crônica de Confissões de Minas (já abordada, neste livro, no são livros publicados proximamente (o primeiro é de 1944, segundo, de 1945). 15 "Ao fim de duas horas deixamos esta caverna catedrálica listada de ouro e passamos incólu- 13 Versos de "A flor e a náusea", do livro A Rosa do Povo. Poesia e Prosa, ed. cit., 161. mes do minério aos gramados"62 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 63 ca. Se na análise que fizemos de "Opaco" o espaço da cidade grande Também inesperado adjetivo que acompanha a transformação em era ligado, num primeiro momento, a aspectos negativos da modernida- orquídea, em "Áporo", pode ser melhor compreendido quando em co- de a automação, o uso oclusivo do espaço, a linguagem corroída, tejo com a crônica de Confissões de Minas. É assim que a expressão esgarçamento dos vínculos entre os homens -, na crônica o elemento antieuclidiana dessa flor antigeométrica, que se furta a uma geometria confrontado ao enlace de raiz e minérios constitui-se como um mundo recortada e angulosa, pode se aclarar em confronto com "Vila de Uto- de claridade e libertação. pia", texto em que parece estar exposta (pelo avesso) a fonte da qual Itabira é vista na crônica de Confissões de Minas como uma realidade provém. Veja-se ainda uma vez este trecho da crônica: "Parecia-me que fadada a existir num ambiente preso à natureza e marcado, profundamen- um destino mineral, de uma geometria dura e inelutável, te prendia, te, pela atividade de extração (e posterior derrocada) do ouro e do ferro: Itabira, ao dorso fatigado da montanha, enquanto outras alegres cida- "casas resignadas e confinadas entre morros, (...) que nunca se evadiriam des, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, diziam que da escura paisagem de mineração, que nunca levantariam âncora, como a vida não é uma pena, mas um prazer."¹⁶ De um lado, a dura geome- na frase de Gide, para a descoberta do mundo"; casas que, opondo-se ao tria de um destino mineral; de outro, a antieuclidiana orquídea (como movimento de saída, prendiam-se ao "dorso fatigado da montanha", por se vê em "Áporo") e o sentimento a liberdade que se liga às cidades um "destino mineral" de "uma geometria dura e (como lemos na crônica). Desse modo, a aporia de um confinamento A "descoberta do mundo", na frase de Gide, relaciona-se, por sua em meio ao chão (na geometria inelutável) transforma-se numa flor vez, a cidades banhadas pela fluidez do rio e amplidão do mar "en- antigeométrica (antieuclidiana), numa metamorfose que, nesse poema, quanto outras alegres cidades, banhando-se em rios claros ou no pró- parece ter relação direta, por sua vez, com as implicações contidas no prio mar infinito, diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer"; vocábulo que dá título ao poema. realidades urbanas com vida e movimento e não como aparece na Décio Pignatari já mostrou¹⁷ que uma das fecundas vertentes de crônica dedicada a Itabira espaços marcados, quase que exclusiva- entrada no labirinto de sentidos aqui proposto pode ser a do estudo pro- mente, pela paisagem abandonada e reclusa da atividade mineradora. priamente dito da palavra "Áporo". Esse vocábulo, lemos em seu en- Se a flor (orquídea) se opõe, em "Áporo" (por representar a liberda- saio, desmembra-se em mais de um significado. São os mais comuns: de, a saída), a um mundo de confinamento, de estagnação e imobilida- inseto, problema de difícil (ou impossível) solução e orquídea. de, talvez pudéssemos vê-la relacionada, em alguma instância, àquilo eixo central do poema a linha principal sobre a qual se desen- que na vivência do poeta é contrário a esse quadro de estagnação e rola o relato está contida nestes três significados: o problema; o inse- clausura; numa das vertentes teríamos (ajudados mais uma vez pelo to, enredado a esse grau elevado de dificuldade; e a orquídea (a sua paralelo já estabelecido pela crônica), a alegria, o movimento, a cidade superação e reviravolta). Ao ler "Áporo", temos uma idéia da sua gêne- e talvez não seja à-toa que um dos poemas mais conhecidos de A se, de seu processo de feitura, ou seja, uma sugestão de como ele teria Rosa do Povo traga uma flor que nasce em meio à geografia urbana, sido arquitetado: o contato com as palavras, numa possível consulta ao furando o chão de asfalto: "Uma flor nasceu na rua!/ Passem de longe, dicionário; o nascimento de uma "movimentação" poética no confronto bondes, ônibus, rio de aço do tráfego./ Uma flor ainda desbotada/ ilude dos diversos significados do o surgir de alguma emoção especial, a polícia, rompe o asfalto." É verdade que, neste poema, a cidade não ligada, provavelmente, ao mythos divisado na possibilidade de organi- representa, como aparece na crônica, um dado positivo. E, no entanto, zação das palavras; o desdobramento desse mythos em poema. a flor que fura asfalto parece significar, por um momento, a possibi- lidade de existência de uma outra cidade, de uma cidade em que o de- 16 Grifo meu. sejo não estivesse (como na metrópole de "Opaco"), confinado, mas 17 Décio Pignatari. "Áporo", em Contracomunicação. São Paulo, Editora Perspectiva, 1971, onde pudesse se espraiar num espaço não bloqueado e justo. pp. 131-137.64 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 65 "Áporo", neste sentido, parece ter existido em um limbo de dicionário dificuldade áporo eixo organizador do poema (provavelmente a pri- questão central para meira significação que saltou aos olhos do poeta, no confronto com o Percebe-se que alguma coisa nas três imagens-chave se estruturou, nome), à qual se referem, de um lado, o inseto enredado a esta carga de durante a elaboração do poema, a partir de uma organização prévia, ine- aporia na narrativa inventada por Drummond e, de outro, a orquídea: a rente ao poeta itabirano. As três imagens no seu primeiro estado, de sua superação, a possibilidade de reviravolta e mudança. que nos dá dicionário¹⁹ foram, ao que tudo indica, agrupadas ao redor da noção de indícios da organização interna que a poesia pode sofrer, neste poeta, capaz de conferir a imagens aleatórias, um perfil particu- 18 dicionário é uma das vertentes de atração da poesia drummondiana. Aparece em poemas larizado, um mythos inerente à sua que, não por acaso, enumeram as ações cotidianas realizadas por Drummond: "Falta pouco Nesse sentido, a motivação do poeta tem, claramente, relação com para acabar/ uso desta mesa pela manhã/ o hábito de chegar à janela da esquerda/ aberta a passagem da dificuldade para a resolução, do bloqueamento para a sobre enxugadores de roupa./ Falta pouco para acabar/ a própria obrigação de roupa/ possibilidade de saída, criando, deste modo, quase que uma metáfora obrigação de fazer barba/ a consulta a dicionários/ a conversa com amigos pelo telefone. formal da atração drummondiana pela possibilidade de transforma- (...) (grifo meu) "Falta pouco", da coletânea Falta que ama. A referência ao dicionário, ção. É isto, provavelmente, o que se movimentou, em Drummond, no freqüente, em sua poesia, volta em "Andrade no dicionário" (de Menino Antigo), que se faz contato com as imagens, primeiramente paradas, mas que suscitaram só com verbetes: nele, pela possibilidade de serem colocadas em processo, a vontade "Afinal de tatear a modificação das coisas: transformação de inseto em orquí- que é andrade? andrade é árvore dea, metáfora de outras possíveis transformações (das quais não se de folhas alternas flores pálidas exclui, está claro, a possibilidade de transformação social, tão presen- hermafroditas te, de resto, no livro de 1945). de semente grande Voltemos, para melhor desenrolar a análise, ao começo. Percebe-se andrade é córrego é arroio é riacho que há, na base do poema, uma motivação inusitada e avessa à pura igarapé ribeirão rio corredeira inspiração poética: a provável e prosaica consulta ao dicionário, que andrade é morro então teria dado ao poeta material sobre o qual trabalharia. Estamos, povoado ao que parece, diante de um modo desromantizado de viver o processo ilha de motivação poética, a feitura propriamente dita do poema. perdidos na geografia, no sangue." 0 poema mais conhecido em que aparece a alusão ao dicionário (fazendo dele quase a de- Sob esse aspecto, o fazer poético de "Áporo" parece se aproximar, finição de uma poética) é "Procura da Poesia", de A Rosa do Povo: "Penetra surdamente no em certa medida, da idéia de poesia "desentranhada" de Bandeira: poe- reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser Estão paralisados, mas sia presente nas coisas quotidianas, e que se extrai dos materiais mais não há há calma e frescura na intata./ Ei-los sós e mudos, em estado corriqueiros, como se vê num depoimento do próprio Bandeira: "O poeta muitas vezes se delicia em criar poesia, não tirando-a de si, dos de dicionário. (...)" 19 Também em Guimarães Rosa pode-se observar fascínio (tão drummondiano) que o dici- seus sentimentos, dos seus sonhos, das suas experiências, mas onário exerce: "Hoje, um dicionário é ao mesmo tempo a melhor antologia lírica. Cada pa- garizando-a', como disse Couto de Barros, dos minérios em que ela jaz lavra é, segundo sua essência, um poema. Pense só em sua gênese. No dia em que completar cem anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário. Talvez um 20 Tomado neste sentido, 0 poema beira de uma maneira aguda aquela visão da modernidade pouco antes. E este fará as vezes de minha autobiografia." Em João Guimarães Fortu- que aborda a obra pela consciência que se tem de sua feitura, de sua realização, e que tem na Crítica. Eduardo Coutinho (org). "Diálogo com Guimarães Rosa". Rio de Janeiro, Civili- nos textos de Valéry uma representação privilegiada. Variedades. Iluminuras, São Paulo, zação Brasileira, 1991, pp. 62-91. 1991, p. 211.RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 67 66 BETINA BISCHOF sepultada: uma notícia de jornal, uma frase ouvida num bonde ou lida senrolar dos acontecimentos aparece constrastando com a importân- numa receita de doce ou numa fórmula de cia que ali parece ter de modo silencioso, não descritivo, no poema. "Áporo" parece ser um poema nascido de uma atitude Temos registro do primeiro estado de coisas, bloqueado, travado, e do ou seja, aquela que permite entrever o poético, por exemplo, numa se- súbito irromper da orquídea. Mas o momento preciso da passagem de qüência de sinônimos lidos aleatoriamente durante a consulta ao dicio- um estado a outro e de suas causas e motivações é apenas circunda- nário e que assim deixa de lado (num primeiro momento) a subjetivida- do, no poema, por referências turvas. A rigor não existe ali nenhuma de como fonte de inspiração ou matéria poética, para voltar-se à simpli- alusão ao fator propriamente dito da mudança: cidade da motivação que se choca com a sensibilidade do poeta de fora "Eis que labirinto para dentro, por meio de uma espécie de objetivação do lirismo²² que (oh razão, mistério) parece provir antes do esmiuçamento das possibilidades contidas no presto se desata: vocabulário que da interioridade ou afetividade do sujeito. E, no entanto, o movimento objetivo que brota deste material poéti- em verde, sozinha, parece reverter, também, paradoxalmente, para os temas e motivos antieuclidiana, que orientam o tatear da subjetividade (o confinamento, movimento uma orquídea forma-se" bloqueado e sufocante, a impossibilidade, a aporia). poema, basean- do-se inicialmente nos movimentos de um inseto que então em fun- O não preenchimento do sentido; a não explicitação da transforma- ção do nome comum se metamorfoseia em orquídea, parece trazer ção; a narração feita por flashes que não mantêm, entre si, um desen- marcas que se igualmente, aos impasses do eu lírico, além de volvimento linear são recursos utilizados por Drummond em muitos de se aproximar, por outro lado, do próprio tempo histórico em que foi seus poemas e nos quais se vê, com clareza, a incorporação da escrito (abrindo-se a um sentimento do mundo de que depende, prova- herença modernista, de que ele bebeu, mesclada ainda a um perfil pró- velmente, em certo grau, a objetivação do lirismo de que falamos). É prio, que utilizaria as marcas vanguardistas na construção de uma ex- esta premissa e essa mescla que tentaremos desenvolver. pressão individual, matizada por temas e formas que lhe são peculiares. "Áporo" como observado, uma reunião de dificuldades que, repenti- Em "Áporo", esse estilo está a serviço de uma espécie de lacuna na namente, de modo não explicado ("oh razão, mistério"), encontram a sua narração do mythos, de uma não explicitação da aludida transformação. resolução, a sua brecha de luz e liberdade. Entre um momento e outro, algo Em "Áporo", as palavras apenas rondam, sem tocá-lo (oh razão, misté- no poema se faz. Algo atropela o mundo parado das imagens recorrentes, rio), aquilo que fugidiamente constitui centro do poema. do espaço estagnado e claustrofóbico, dando origem a um fato, um aconte- Esse não preenchimento de sentido, essa sugestão que paira sobre a cimento. Esse momento, vértice da peripécia, parece ser a mola mestra do velada metamorfose do poema pode estar vagando, a despeito de sua poema. Narra-se ali, de maneira concisa, o instante crucial de um aconteci- inexatidão, por sobre questões concretas: a transformação que toma mento, nó, subitamente desfeito, de uma transformação. corpo no poema e que não relata causas ou percursos talvez englo- O poema, nesta sua mudança violenta, expressa aquele ponto sensí- be, pela natureza mesma do seu movimento não determinado, sentido vel que é momento da reviravolta (de um fato histórico, de uma pele- que anima a coletânea como um todo e que tem na transformação (so- ja, de uma biografia). E, no entanto, o arco que verga e modifica o de- cial? histórica?) um dos seus pólos mais fortes. Desse modo, é possível que 0 mito básico do poema de Drummond 21 Manuel Bandeira, Poesia e Prosa, Rio de Janeiro, José Aguilar, 1958, p. 284. a passagem do bloqueio para a liberdade estabeleça um eco com 22 A expressão é de Davi Arrigucci Jr.. Cf. Humildade, Paixão e Morte. A Poesia de Manuel fatos históricos obviamente sentidos com intensidade pelos que vive- Bandeira. São Paulo, Companhia das Letras, 1990, 92. ram aquela época (e que poema resguarda, no entanto, na não delimi-RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 69 68 BETINA BISCHOF tação dos motivos da transformação). A suposição ganha envergadura res/ em direção a algo não mais disforme (no sentido do uma vez que esses motivos (e, mais especificamente, o da guerra) apa- caos sem contorno os rios desatados da opressão e da guerra). Lê- recem textualmente em poemas de A Rosa do Povo: "Com o Russo em se, desse modo, que o nelumbo nasce em "cor, em forma". A orquídea, Berlim", "Mas viveremos", "Telegrama de Moscou", "Carta a Stalin- por sua vez, em Há aqui uma procura pela es- grado". eco de um tempo presente, em "Áporo", também ganha força trutura (que talvez se possa ver como um duplo, também, da procura se lembrarmos que há nesses poemas, algumas vezes como na ima- por uma forma em poesia oposta, como já se afirmou, ao caos sem gem que se aviva, em cor e forma, ou no algo novo que brota (em "Vi- fronteiras, desatado, dos horrores da Segunda Guerra, que combinavam são 1944") uma forte semelhança com a imagem central do poema a essa desarticulação o informe e irracional). Poema e flor são aquilo que, em contraste a um mundo de escuridão analisado o surgimento da flor: e confinamento (pensando mais uma vez em "Áporo"), adquire uma estrutura, que permite sair da escura galeria das ações repetitivas, da "(...) procura vã, para dia claro da possibilidade e da construção (também Meus olhos são pequenos para ver literária). É neste sentido que se deve ver vocabulário acurado e com- atrás da guerra, atrás de outras derrotas, plexo que caracteriza a flor, nesta coletânea (áporo, nelumbo) vocabu- essa imagem calada, que se aviva, que em cor, em forma e profusão. lário aparentemente tirado de dicionários e livros especializados -, como um esforço para dar nome/forma, nos mais variados modos pos- (...) síveis, ao símbolo que passeia pelo livro e lhe dá envergadura crítica. Meus olhos são pequenos para ver que se busca em "Áporo", ao que parece, é o escape da negativi- mundo que se esvai em sujo e sangue, Outro mundo que brota, qual nelumbo dade por meio da ação (de cavar) e da transformação (em orquídea). mas vêem, pasmam, baixam Duas coletâneas à frente, em Claro Enigma, ação e trasformação serão muitíssimo mais problemáticas, desaparecendo, às vezes, de todo, no Há aqui a utilização da metáfora da flor (na verdade, um símile, fechamento do verso e escurecimento de mundo e sujeito. E, no entan- nelumbo) para falar da superação de uma realidade histórica to, o tatear de uma luminosidade (utopia?), nos textos com os quais re- sufocante. (Nelumbo, na definição do dicionário de Caldas Aulete, é um lacionamos "Áporo", neste capítulo (a saída "da escura galeria para o "Gênero de plantas herbáceas da família das ninfeáceas (Nelumbium), dia claro" como se lê na crônica de Confissões de Minas ou o pró- naturais da América e do Sul da Ásia. Uma das suas espécies é por alguns prio movimento de "Áporo" que vai do fechamento sob a terra ao considerada como sendo o lótus dos egípcios. Tem flores parecidas com romper da flor), talvez ainda possa existir, seis anos à frente, em Claro as da magnólia"). Essa flor, por sua vez, chama a atenção não só por vir Enigma, rodeado pela negatividade que lhe é, ao mesmo tempo, obstá- revestida de um aspecto metafórico (a superação do horror, cifrada em culo e mediação. Esperamos que a questão se aclare nos próximos ca- sua forma), mas também por sua origem não prosaica (nelumbo é flor de pítulos do livro, dedicados a poemas de Claro Enigma. dicionário, poderíamos dizer). Será necessário, então, comentar o aspecto rebuscado dessa flor (conhecida de poucos) e de outras ainda, que pare- 24 Trechos de "Visão 1944". 25 "em verde, uma orquídea forma-se". É curioso que a metáfora que cem compor um vocabulário especializado e raro. A flor é, nesses poemas, símbolo de transformação, de superação do se utiliza de uma imagem vegetal é recorrente, em A Rosa do Povo (juntamente com a do horror ("sujo e sangue", "gritos (...) rios desatados, (...) pode- confinamento em meio ao chão). Veja-se, por exemplo: "Meus olhos são pequenos para ver/ países mutilados como troncos./ proibidos de viver, mas em que a vida/ lateja subterrânea e vingadora". Trecho de "Visão 1944" (grifos meus). Grifos71 HISTÓRIA, DISSOLUÇÃO E POESIA U dos temas recorrentes da poesia de Drummond diz respeito ao passado itabirano, mineiro a família, as lavras, fazendas, hábitos que entram em seus poemas não por uma vontade de tornar novamen- te presente aquilo que se foi, mas a partir de um ponto de vista que, de- bruçando-se sobre a ação corrosiva do tempo, os apresenta sob o aspec- to da sua dissolução. Vê-se nesse processo o progressivo esfacelamento de um mundo outrora pautado pela mineração, pelas terras de semea- dura, pelos bens e o sangue. Sérgio Buarque de Holanda, comentando esse ângulo da poesia drummondiana, notou-lhe com acuidade o cará- ter: "Nada do que faz a qualidade essencial dessa obra pode suprir-se com engenho ou artifício. Essa essência, que não é fabricável, que cer- tamente não depende do puro arbítrio, que traça, em verdade, os limites derradeiros de qualquer elucidação crítica, invade e impregna toda a poesia de Drummond como um estranho travo ancestral, vindo do fun- do dos séculos história é diz poeta), revogando afi- nal, ou sublimando, a atração constante das coisas do tempo ('les événements Os poemas se deixam carregar, nesta faceta da poesia de Drummond, por uma carga pesada de história que tem, aqui, um aspecto peculiar: história que se dirige, inevitavelmente, para a queda, para a dissolução.² Sérgio Buarque de Holanda. 0 Espírito e a Letra. Estudos de crítica literária II 1948-1959. São Paulo, Companhia das Letras, 1996, p. 509. Luiz Costa Lima estudou tema em seu "0 princípio-corrosão na poesia de Carlos Drum- mond de Andrade": "Corrosão 0 crítico], como a empregaremos, não se confunde com derrotismo ou absenteísmo. Ao contrário, no contexto drummondiano ela aparece como aRAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 73 72 BETINA BISCHOF Veja-se, num poema de Boitempo, a progressiva fragmentação dos atinge toda a região de Minas, nos Oitocentos (continuação da crise elementos que formavam a realidade mineira do século XIX: iniciada já no século XVIII)⁴ e que teria, na memória deste poeta, um lugar sempre cativo ("país das remembranças"). De mil datas minerais enfoque, por sua vez, que vê no percurso histórico um processo de com engenhos de socar destruição e ruína tem provavelmente ligação (e é esse aspecto que ten- de lavras lavras e mais lavras taremos desenvolver) com um olhar crítico que se estende também sobre e sesmarias o presente, resultado das transformações daquele passado. Pois se o pre- de bestas e vacas e novilhas sente é visto como uma época escurecida, há coerência na interpretação de terras de semeadura que enxerga processo histórico que nele deságua como derrocada e dis- de café em cereja (quantos alqueires?) solução. Deste modo, a consideração do processo histórico parece ser, de prata em obras (quantas oitavas?) igualmente, um meio de pensar criticamente o tempo presente, os homens de escravos, de escravas e de crias presentes. O foco sobre a decadência mineira seria, segundo esse ângulo de ações da Companhia de Navegação do Alto Paraguai de interpretação, uma maneira de trazer à reflexão algo mais abrangente da aurifúlgida comenda no baú que o já complexo período histórico da decadência da extração do ouro enterrado no poço da memória e da sua repercussão na poesia de Drummond. restou, talvez? este pigarro.³ Vejamos como isso aparece nos textos, começando pela interroga- ção (espécie de ubi sunt⁵ drummondiano) em "Vila de Utopia", de Con- Existe aqui o fascínio da dissolução, o encanto (negativo) daquilo fissões de Minas: que se desintegra. poeta lembra o que foi e não é mais. fim desola- do e sem queixas do poema diz do que resta e que, na figura desconcer- Itabira, onde estão tuas trinta fábricas de ferro do tempo do Barão de tante do pigarro, mescla-se a uma sutil e corrosiva ironia. Restar que, Eschwege, com os seus cadinhos dotados de trompas e martelos hidráulicos (...)? sobrante da lenta dissolução a que é submetido o universo anterior, for- "- Onde estão, Itabira, os escravos e os faiscadores de João Francisco de ma um dos grandes temas da poesia de Drummond. Andrade e do Capitão Tomé Nunes, varejando os regatos e as encostas de San- Existe aqui uma experiência pessoal (a do descendente gauche de tana e da Conceição e produzindo mais de sete mil oitavas de ouro, quando já uma família cujos bens e modo de vida se diluem, irremissivelmente, ao a mineração declinava no longo do tempo), que se amalgama, de modo inextricável, a um aconte- cer histórico: a decadência ou refluxo da mineração nas Minas Gerais "No Tribunal do Clã Mineiro: Culpa Familiar" e "Culpa, História e Natureza", do livro de do começo do século XIX e, posteriormente, a derrocada de fazendas, Vagner Camilo, Drummond. Da Rosa do Povo à Rosa das Trevas. São Paulo, Ateliê, 2001. ubi sunt é, como se sabe, uma fórmula correspondente ao início de uma pergunta mais lavras e criação vendidas ou perdidas na lenta dissolução dos bens. Não longa: Ubi sunt qui ante nos in (boc) mundo fuere? (Onde estão os que viveram neste se pode, neste sentido, separar o aspecto que se liga à dissolução e à mundo antes de nós?) Topos que, na pergunta por aqueles que se foram, ilustra a fugacidade fragmentação, na poesia de da decadência e dissolução que e fragilidade da vida e de toda glória terrena. Davi Arrigucci, em sua análise do poema "Pro- fundamente", de Bandeira, toca também nesse ponto, e interessante é comparar, então, como maneira de assumir a História, de se pôr com ela em relação aberta (...) semblante da em Bandeira e Drummond 0 mesmo tema aparece de forma variada: mais pessoal no poeta História é algo de permanente corroer. 0 princípio-corrosão é, por conseguinte, a raiz que pernambucano; mais universal e mais distanciado no tempo, incidindo sobre toda uma re- irradia da percepção do que é contemporâneo." Lira & Antilira. Mário, Drummond, gião em Drummond. Cf. Davi Arrigucci Jr., Humildade, Paixão e Morte a Poesia de Ma- Cabral. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995, P 131. nuel Bandeira. São Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 217. 6 "Herança", do livro Boitempo. Poesia e Prosa, ed. cit, p. 520. Poesia e ed. cit., p. 947.74 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 75 barão de Eschwege, aqui citado (os dados relativos às sete mil me). O resíduo é, assim, de acordo com o que se vai depreendendo da oitavas de ouro foram provavelmente colhidos de uma tabela por ele leitura dos poemas que se debruçam sobre o tema e que próprio transcrita em Pluto Brasiliensis), fornece matéria (histórica) para outros poema aqui citado enfatiza tanto aquilo que dá fim a um acontecer relatos ou poemas de Drummond, como é o caso de "Os bens e o san- histórico, quanto o que resume, numa imagem carregada, o caráter e o gue", que analisaremos a seguir. pathos daquilo que se foi. Eschwege, que esteve em Minas a serviço da Coroa Portuguesa com Com relação à história mineira, pode-se citar, talvez, uma observa- a missão de tentar amenizar o franco quadro de decadência econômica ção de Roberto Schwarz (sob mais de um ponto pertinente): declí- que assolava a região, dá-nos um relato preciso da situação em que se nio de Minas, devido ao esgotamento do ouro e dos diamantes, é uma encontrava a mineração, naquela época. Até 1814, diz, "já haviam sido especialidade universitária própria, com polêmicas estabelecidas, em abandonadas centenas de lavras e, de então para cá⁷, o serviço, nas que que um leigo não se arrisca. Para nossos propósitos sumários, contudo, ainda se acham em atividade, foi reduzido à metade. (...) empobrecen- basta notar que na bibliografia o seu movimento vem descrito ora como do, os proprietários não puderam custear mais os trabalhos, que se tor- involução, ora como um crescimento peculiar. Num caso, a ênfase está navam cada vez mais difíceis".⁸ na perda de ligação com o mercado mundial de metais e pedras, a que poema de Drummond, "O Resto", ecoa, rispidamente, o resultado correspondem o empobrecimento e a regressão da sociedade, que fica dessa decadência: quase sem contato com a civilização. No outro, o foco está no rearranjo e na expansão sui generis desta mesma sociedade, agora mais voltada No alto da cidade para dentro, para os mercados locais e regionais, crescendo com menos a boca da mina desigualdade e mais ligada às necessidades elementares da população. a boca desdentada da mina de ouro que é retrocesso para uns é avanço e civilização para outros, sendo onde a lagartixa herdeira única que a opinião a respeito não pode ser igual nos diferentes setores da de nossos maiores sociedade. Indiretamente, o conflito diz respeito às alternativas do país grava em risco rápido e à sociedade no frio, na erva seca, no cascalho Também em Drummond ponto de vista que incide sobre o esgota- epítome-epílogo mento da atividade mineradora parece ter relações com o país ou com da o seu sentimento de um país, ou de mundo. E, no entanto, seu ponto de vista difere daqueles dois apontados por Roberto Schwarz, cruzando, Esse resto, que também é chamado, em Drummond, de resíduo ou ao que parece (quanto ao seu efeito crítico), um com o outro: ao privi- ruína ("e a ânsia de acabar, que não espera/ o termo veludoso das ruí- legiar, na história mineira, a idéia de dissolução e decadência, poeta, nas/ nem a esvoaçante morte de configura-se, neste fugindo às leituras que, assumindo tal ponto de vista, lamentam a perda poema, como epítome-epílogo remate, fecho, conclusão (epílogo), de contato com mercado internacional, volta-se para uma expressão mas também, sumário de uma obra histórica, resumo histórico (epíto- que parece antes distinguir, com acuidade, as marcas de dissolução (não apenas do vínculo de uma classe dominante com o mercado, mas da 7 Eschwege esteve no Brasil de 1810 a 1821. própria organização do mundo moderno e mineiro) que, tendo início 8 W.L. von Eschwege. Pluto Brasiliensis. Belo Horizonte, Edusp/Itatiaia, 1979, Vol. 2. p. 50. (como tema, em sua poesia) nas Minas do século XIX, estendem-se 9 "O resto", poema de Boitempo. Poesia e Prosa, ed. cit., p. 509 (grifo meu). 10 Verso de "A um Hotel em Demolição", do livro A Vida Passada a Limpo. Poesia e Prosa, ed. Cf. Duas Meninas. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 74. cit., 351-358.76 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 77 também para o presente ("tempo de partido,/ tempo de homens parti- estavam ainda em operação (pálidas sombras do que haviam sido pou- dos", "hora pressentida [que] esmigalha-se em pó na cas décadas atrás) e dessas, dois-terços das lavras tinham somente dez Desse modo, privilegiando o segmento que se vincula, comumente, escravos ou menos ainda¹⁴ Itabira é uma exceção neste quadro. às classes dominantes mineiras (a idéia de que o esgotamento do ouro Eschwege nos fala de duas lavras, em toda região de Minas, que foi antes derrocada que uma adaptação econômica a outra realidade), atingiam um número de 100 ou mais Uma delas localizava- Drummond volta-se, ao mesmo tempo, para a margem oposta: ou seja, se precisamente em Itabira do Mato Dentro e pertencia ao capitão para o lugar (o próprio tempo presente, fragmentado e dissolvido) a Tomé, cuja memória, fixada e transmitida pela tradição popular, alcan- partir do qual com nitidez e acuidade (e por aproximação), o çaria ainda a infância de Drummond que, tempos depois, já adulto, lan- desmantelamento que contamina a economia mineira dos séculos XVIII çando mão das lembranças de seus primeiros anos, pôde ainda escrever, e XIX (do qual o presente é resultado). lamento volta-se não à perda em Confissões de Minas: "Se me debruçava sobre o passado, era para de poder de uma classe, mas à tendência da história para a derrocada ouvir uma que cantava, toldada de álcool: (paralelamente ao que se vê, por exemplo, nos estudos de Benjamin sobre a sensibilidade barroca, que mais à frente abordaremos). Marcas Capitão Tomé dessa torção, na poesia drummondiana (unindo uma e outra interpreta- É ouro só, ção no que diz respeito à exaustão da atividade mineradora) podemos Os herdeiros dele sentir já no peso que faz vergar esses poemas sob uma carga específica É molambo só..."¹⁶ de melancolia e abafamento. A derrocada do ouro tem, desse modo, para Drummond, um sentido tanto objetivo, histórico, quanto metafóri- A tardia decadência da mineração, em Itabira¹⁷, fez com que a memó- o poeta se vale do quadro de dissolução para pensar e significar ria das gerações ligadas ao ouro alcançasse ainda os primeiros anos do outras matérias em derrocada, no mundo. Assim, ainda que fixe a sua partida numa espécie de lamento pela decadência da produção do ouro no período que vai de 1801 a 1820. As cidades mineiras esvaziaram-se e a maioria e, posteriormente, do ferro, Drummond amalgama, a esse lamento, uma das lavras foi abandonada. A população, empobrecida, se dispersou pelo interior e tentou a visão que tem o seu enfoque sobre as dissoluções de um modo de vida sobrevivência, dedicando-se principalmente à pecuária e à produção de subsistência. Amilcar e que, ao afiar essa visão, termina por expor um quadro em que o pró- Martins Filho e Roberto Martins. "Slavery in a Nonexport Economy: Nineteenth-Century prio presente se deixa impregnar por uma melancolia sem remissão (e o Minas Gerais Revisited. Hispanic American Historical Review, vol. 63, n. 3, 1983, Duke resultado é um quadro crítico também voltado ao tempo em que se en- University Press. 539. contram o poeta e seus leitores). Amilcar Martins Filho e Roberto Martins, op. cit., p. 540. Voltemos, no intuito de aprofundar a questão, às Minas do século 15 Triste maneira, no século XIX, de referir-se à riqueza de um empreendimento. Drummond a XIX (e ao papel peculiar de Itabira, no período). Se o período de 1800 incorpora, claramente a partir de um ângulo crítico como no poema "Herança", em que a 1820 se caracteriza pela ampla decadência da mineração, iniciada já na lista de bens (engenbos de socar, bestas, vacas e terras de semeadura, café na segunda metade do século XVIII¹³ em 1814, apenas 517 lavras em cereja, prata em obras), constam também escravos, escravas e crias. 16 Trecho de "Vila de Utopia", do livro Confissões de Minas. Poesia e Prosa, ed cit., p. 947. 12 Trechos de "Nosso tempo", poema de A Rosa do Povo. Poesia e Prosa, ed. cit., 165-170. 17 Também com relação ao ouro produzido naquela época os números de Itabira sobressaem. 13 Minas não podia mais ser caracterizada, já no começo do século XIX, como economia Poucas lavras (apenas as de Catas Altas, com 6.515 e 6.495 oitavas cada uma) produzem voltada para a mineração. A produção de ouro, que alcançara uma média anual de 10.036 mais. As do C. João Francisco de Andrade, em Itabira (que será mencionado, juntamente quilos período que se estende de 1736-51 (os dados são de Roberto Martins), declinou com Capitão Tomé, no poema "Os bens e 0 sangue") produzem, em 1814, 3.260 oitavas; progressivamente durante toda a segunda metade do século, até apenas 1.883 quilos por ano as do Capitão Tomé, 979 e as do C. João Francisco e sócio, 1.628; a produção dos faiscadores78 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 79 século XX, como atesta essa canção que, atravessando o século, chega aos ouvidos do menino (que ali nasceria, em 1902), narrando a grandeza ("é ouro só") e posterior esfacelamento de uma atividade econômica ("é Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847 molambo só"). A história tem, neste caso, uma transmissão oral, ligada às nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não de canções de domínio popular, e deste modo chega, de forma ainda viva [valete pela de algum ancião ao ouvido de um poeta que sentiria como em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanésia Capão poucos a marca do tempo a impregnar objetos, gestos e resíduos. diante do estrume em q se movem nossos escravos e da viração Há, nestes poemas sobre Minas, uma concepção para a qual importa perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros de forma marcante a história. A Minas de que fala Drummond é im- fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros, pregnada de passado motivo que não escapou a um grande historiador deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus como Sérgio Buarque: "A mesma paisagem que emudeceu diante de [e domínio Cláudio Manuel da Costa, sempre enleado com as ninfas do Mondego, e abrangendo desde os engenhos de secar areia até ouro mais e que Alphonsus povoou de santos, de sinos, de hinos mais medievais [fino, do que barrocos ou rococós, reservou-se intacta ao outro grande poeta nossas lavras mto. nossas por herança de nossos pais e sogros de Minas Gerais. Não é entretanto a presença física ou simplesmente [bem-amados decorativa da paisagem mineira que importa a Carlos Drummond de dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados. Andrade, mas alguma coisa de mais fundamental, que esquivando-se, Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa melhor embora, a qualquer tentativa de descrição e definição, pôde impor-se já [letra aos seus primeiros leitores."¹⁸ estes nomes q em qualquer tempo desafiarão tramóia trapaça e Um dos grandes poemas que abordam este quadro temático é "Os [treta: bens e o sangue", da coletânea Claro Enigma. Ali, escuta-se lamento dos antepassados do poeta que prevêem a sua futura inaptidão e des- ESMERIL PISSARRÃO conhecimento em relação aos elementos do mundo mineiro -, narrando CANDONGA CONCEIÇÃO a dissolução dos bens e a sorte do futuro descendente, votado à perda ("Este hemos por bem/ reduzir à simples/ condição ninguém"), mas E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo snr. que, ao final, "despojado dos bens mais sólidos e rutilantes (...) [irá] [Raimundo Procópio tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna/ e concentrando seu e a d. Maria Narcisa sua mulher, e q não for vendido, por fervor numa riqueza só, abstrata e una." [alborque de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas, lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas, q trocar é nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique [esclarecido: é de 7.772 oitavas. Pode-se citar, para efeito de comparação, lavras que, naquela época, pro- somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido duziam 165, 57, 11, 8 oitavas por ano cada uma (em Congonhas do Campo). Pluto Brasi- de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos liensis, ed. cit., vol pp. 36-37 (para Itabira) e 22-23 (para Congonhas). [serros. 18 Sérgio Buarque de Holanda. mineiro Drummond I" em 0 espírito e a letra. São Paulo, De nossa mente lavamos ouro como de nossa alma um dia os Companhia das Letras, 1996, p. 558. [errosBETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 81 se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos (e melhor não fora nado) tataranetos despojados dos bens mais sólidos e rutilantes que de nada lhe daremos [portanto os mais completos sua parte de nonada irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna e que nada, porém nada e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.¹⁹ há de ter desenganado. (...) E nossa rica fazenda II já presto se desfazendo vai-se em sal cristalizando Mais que todos deserdamos na porta de sua casa deste nosso oblíquo modo ou até na ponta da asa um menino inda não nado de seu nariz fino e frágil, de sua alma fina e frágil Drummond parece ter se baseado, para a ortografia deste trecho principalmente em re- de sua certeza frágil lação ao uso diferenciado do q em documentos antigos. Um deles 0 encantou de tal for- frágil frágil frágil frágil ma (é um ex-voto, localizado na capela de Nossa Senhora do que ele copiou, inte- gralmente, "curioso pela disposição gráfica e pela convicção do milagre que aí se regis- mas que por frágil é ágil, tra." (grifo meu). e na sua mala-sorte "MERCE Q FFS Na. Sa. DO AOCAPPam. se rirá ele da morte. MAIOR LVCAS RIBEIRO REGENTE DESTA Va. REAL DEN Sa. DA CONCEIÇAM III OQVAL VINDO DEFAZER AFEST A ADa. Sa. DEQ HERA IVIS OACOMETERAM Este figura em nosso TEMERARIAMEMte. QVTRO SOLDADOS DOS pensamento secreto. DRAGOIS EDEPOIS TODOS os MAIS DA Num magoado alvoroço COMPa. COMD EZEIO DEOMATAREM queremos marcado MAS NEM COMASESPADAS NEM COM a nos negar; depois VARIOS TIROS Q LHEDERAM FOI POSI de sua negação VEL Q CONSEGVISEM 0 IMTENTO POR nos buscará. Em tudo Q AMAI DE DEOS DEV FORÇAS AO SEU será pelo contrário DEVOTO Pa. Q DETUDO SEDEFENDESE SE seu fado extra-ordinário. M RESEBER OMENOR PERIGO NEM EMSI Vergonha da família NEM EM OSESCRAVOS Q OACOMPANH que de nobre se humilha AVÃO E DEAGRADECIMENTO na sua malincônica MANDOV FAZER ESTA MEMORIA Q SOSS tristura meio cômica, EDEO EM 0 S29 DE DEZENBRO DE 1720." dulciamara nux-vômica. "Viagem de em Confissões de Minas. Poesia e Prosa, ed. cit., 956.82 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 83 Vai cair do cavalo IV de cabeça no valo. Este hemos por bem Vai ter catapora reduzir à simples amarelão e gálico condição ninguém. vai errar o caminho Não lavrará campo. vai quebrar 0 pescoço Tirará sustento vai deitar-se no espinho fazer tanta besteira de algum mel nojento. Há de ser violento e dar tanto desgosto sem ter movimento. que nem a vida inteira Sofrerá tormenta dava para contar. E vai muito chorar. no melhor momento. (A praga que te rogo Não se sujeitando para teu bem será.) a um poder celeste (...) ei-lo senão quando de nudez se veste, VIII roga à escuridão abrir-se em clarão. ó meu, ó nosso filho de cem anos depois, Este será tonto que não sabes viver nem conheces os bois e amará no vinho pelos seus nomes tradicionais... nem suas cores um novo equilíbrio marcadas em padrões eternos desde Egito. e seu passo tíbio ó filho pobre, e descorçoado, e finito sairá na cola ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais de nenhum caminho. com a faca, formão, o couro... ó tal como quiséramos para tristeza nossa e consumação das eras, V para 0 fim de tudo que foi grande! ó desejado, Não judie com menino, ó poeta de uma poesia que se furta e se expande compadre. à maneira de um lago de pez e resíduos letais... Não torça tanto pepino, És nosso fim natural e somos teu adubo, major. tua explicação e tua mais singela virtude... Assim vai crescer mofino, Pois carecia que um de nós nos recusasse sinhô! para melhor servir-nos. Face a face te contemplamos, e é teu esse primeiro Pedimos pelo menino porque pedir é nosso destino. e úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro.²⁰ Pedimos pelo menino porque vamos acalentá-lo. Pedimos pelo menino porque já se ouve planger sino 20 Optamos por transcrever apenas as estrofes analisadas mais detidamente, na interpretação do tombo que ele levar quanto monte a cavalo. do poema.84 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 85 Este é um poema que narra a derrocada de um mundo (o mundo das e 0 menino crescerá sombrio, e os antepassados no cemitério oligarquias, das grandes fazendas, do contato direto com a terra e sua se rirão se rirão porque os mortos não choram." (estrofe VI) produção, dos costumes e hábitos arraigados pelo tempo alongado de convivência com a atmosfera mineira). futuro descendente está já Essa estrofe carrega, de maneira compacta, os desdobramentos da previsto na maldição que lhe rogam os antepassados (" Vai cair do história mineira (e brasileira): a venda das minas para os ingleses, já no cavalo/ de cabeça no valo./ Vai ter catapora/ amarelão e gálico/ vai errar declínio da atividade mineradora, o esgotamento do ouro, a produção o caminho/ vai quebrar o pescoço/ vai deitar-se no espinho/ fazer tanta de ferro, o fim da escravidão, o fim da monarquia e, nos primeiros anos besteira/ e dar tanto desgosto/ que nem a vida inteira/ dava para contar./ da república, o menino doentio, previsto e desejado, por avós, bisavós e E vai muito chorar./ (A praga que te rogo/ para teu bem será.)" (Estrofe tataravós, "para (...) consumação das para o fim de tudo que foi V). A praga, em seu corte ríspido, segue de perto a curva da decadência grande!". É à futura poesia deste menino, em tudo avesso ao saber e às de uma região e de uma família, da qual futuro descendente será o atividades compartilhadas pelos seus antepassados nosso filho de ponto culminante, o resumo, o fim. Dizem os antepassados: "Este he- cem anos depois,/ que não sabes viver nem conheces os bois/ pelos seus mos por bem/ reduzir à simples/ condição ninguém./ Não lavrará cam- nomes tradicionais... (...)/ filho pobre, e descorçoado, e finito/ ó inap- po./ Tirará sustento/ de algum mel nojento" (estrofe IV) versos que to para as cavalhadas e os trabalhos brutais/ com a faca, o formão, ecoam, ainda, surpreendentemente, o famoso poema de Sentimento do que caberá a narração da dissolução sofrida por este mundo. Mundo, "Confidência do Itabirano": Tive ouro, tive gado, tive fazen- Mundo que, decaindo, pode encontrar ainda representação e permanên- das./ Hoje sou funcionário público./ Itabira é apenas uma fotografia na cia (epílogo/epítome) na poesia. parede./ Mas como Há, com efeito, em "Os bens e o sangue", a sutil menção a uma poé- No poema de Claro Enigma, a dissolução dos bens de uma família tica. A poesia é, nesse poema, caracterizada como uma expressão e a dissolução geral dos modos de produção, em Minas, já estão previs- tas pelos antepassados que olham para o futuro e enxergam lá a marca "que se furta e se expande à maneira de um lago de pez e resíduos" da destruição. que mais uma vez aponta para a dissolução que assola diferentes tempos, nesta poesia: o passado e neste poema específico uma poesia que se faz daquilo que resta, poesia destilada ao longo dos o futuro (no caso do vaticínio feito a partir ainda do século XIX): anos e que permanece, quando o líquido que a originou se esvaiu. Pez, modo de expansão desta poesia é, com efeito (na definição do dicioná- "E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo rio Aurélio), um resíduo da destilação de líquidos densos. Aquilo que e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada sobra, pode-se dizer, quando o líquido se esvai, e ainda o legado, feito e secado 0 ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro sólido, que se deixa recolher, num fundo de memória. A utilização do taparão 0 vale sinistro onde não mais haverá privilégios, vocabulário é precisa para o modo como o poético é caracterizado, nes- e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros camaradas; te poema. Sarro, de que é feito o úmido beijo na boca dos antepassa- e a besta Belisa renderá os arrogantes corcéis da monarquia, dos²², pode ser (seguindo as alusões de uma poesia que resta, permane- e a vaca Belisa dará leite no curral vazio para 0 menino doentio, ce): borra, principalmente depois de seca, que vinho e outros líquidos deixam aderente ao fundo das vasilhas; resíduo de nicotina que fica no 21 Poesia e ed. cit., 121. Percebe-se aqui a proximidade entre funcionalismo públi- tubo de cachimbos e piteiras; crosta formada sobre os dentes que não ("hoje sou funcionário público") e "mel nojento" (modo de tirar sustento) a que se se fuligem deixada nas armas pela pólvora. referem os antepassados, em "Os bens e sangue". A fotografia na parede, funcionalismo seriam, desta forma, também uma espécie (negativa) de sobra, resíduo. 22 "é teu esse primeiro/ e úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro."86 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 87 A definição do dicionário parece curiosamente delinear um espaço, sentido há, nesses poemas, misturado à melancolia e à dissolução, quase se a tomarmos em relação ao fundo mineiro que aqui está implicado que um aprendizado histórico da expressão poética. (com suas vasilhas, cachimbos, piteiras, fuligem, pólvora). A poesia Já se observou que a lenta pulverização de terras, vultos, lavras pa- parece ser, no sentido que o poema produz e que a imagem contida no rece se filtrar, em "Os bens e o sangue", deixando ao cabo um objeto vocabulário utilizado enfatiza, esta borra que vinho deixa aquilo desejado, que se confunde com a poesia. Esta é, em relação à família, que se recolhe depois da esfacelação de um mundo, da pulverização de em relação ao mundo que se esvai, aquilo que conserva ainda um res- uma Minas antiga, arcaica, mitológica. A poesia é o que sobra, o que se quício daquela realidade; aquilo que, na antevisão do fim, foi desejado solidifica, nas mãos cuidadosas do poeta: resíduo de um líquido denso, para uma oblíqua permanência: fuligem de memória e experiência.²³ Ao mesmo tempo, também o modo de caracterizar o valor desta poesia se faz pelo avesso. Ela não é "Pois carecia que um de nós nos recusasse brilhante, iluminada, bela. As suas características são (lembrando os para melhor servir-nos." sinônimos de sarro) a borra, o resíduo de nicotina, a crosta sobre os dentes que não se limpam, a fuligem. A poesia eleita para a celebração Chama a atenção, aqui, a negativa que se transformará, mais à frente, do fim é cantada como um avesso da expressão comemorativa. em um sentido positivo o que, por sua vez, não é de todo estranho à ex- É neste sentido, então, que a construção do poema parece ter uma pressão de Drummond. repúdio como uma forma de celebração ou relação também com tempo presente. Carregando em si própria as mar- como forma de afeto aparece em vários de seus poemas. Podemos observá- cas da destruição poesia que se "expande à maneira de um lago de pez lo, por exemplo, em outro grande poema de Claro Enigma, "A mesa". e resíduos" (como se lê em "Os bens e o sangue"), ela conhece por dentro "Repara", diz o poeta ao pai, na festa que imaginou para a celebra- os descaminhos do que se deixa colher pela dissolução e está preparada ção dos seus anos, "tenho todos os defeitos/ que não farejei em ti,/ e para esquadrinhar os processos de dissolução e negatividade. A derrocada nem os tenho que tinhas,/ quanto mais as qualidades./ Não importa: sou e o esfacelamento de uma dada realidade não aparecem, portanto, como teu filho/ com ser uma negativa/ maneira de te afirmar". Vê-se que a temas, somente (a derrocada do ouro, das minas, dos hábitos e modos de afirmação, nesta poesia pouco dada a arroubos expressivos, é construí- vida mineiros ou, no presente, a destruição de um espaço propício ao da muitas vezes pelo avesso. É na recusa que se encontram o afeto, a homem, do trabalho ainda humanizador etc.). Eles fazem parte do pró- inclinação amorosa resguardados de qualquer sentimentalismo ou prio modo de ser dessa poesia, cujo modo de expansão é o mesmo do facilidade. Também em outro poema dedicado a Minas "Prece de resíduo. ângulo que vê a marca de destruição que assola as Minas no Mineiro no Rio" vem à tona a temática de uma oposição que pode já século XVIII e começo do XIX parece servir, na expressão drummondia- ser um modo de acercar-se do objeto negado. Diz o poeta, dirigindo-se na, para a constituição de uma expressão poética que traz já em si, como ao Espírito de Minas: sua forma e matéria, a marca (a negatividade, a dissolução) que esta poe- sia se esforça por trazer à tona, também em seu tempo presente. Neste "(...) Por vezes, emudeces. Não te sinto a soprar da azulada serrania PRECE 23 "Vemos neste ponto como antigo legado cafezais. lavras e 'desde os engenhos de socar onde galopam sombras e memórias areia até ouro mais fino' foi extinto pela conjura dos mortos. Mas a herança abolida, de gente que, de humilde, era orgulhosa a própria estirpe, enfim renegada, não se irão perder: é fino ouro do passado que se res- e fazia da crosta mineral taura agora, transfigurando-se em poesia. A poesia de Claro Enigma, uma das mais altas um solo humano em seu despojamento. de nosso país e de nosso tempo." Sérgio Buarque de Holanda. "Rebelião e Convenção Outras vezes te invocam, mas negando-te, op. cit., p. 510. como se colhe e se espezinha a rosa.88 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 89 Os que zombam de ti não te conhecem no, urbanizado". Drummond, continua Merquior, "conservará sempre na força com que, esquivo, te retrais estofo de um liberal de esquerda. Nada há, pois, de cego ou de ingê- e mais límpido quedas, como ausente, nuo na sua maneira de considerar ser social da família patriarcal: ele quanto mais te penetra a realidade. (...)" se dá conta, perfeitamente, de seus aspectos repressivos, até mesmo ti- rânicos. Contudo, em Drummond, a visão social se liga a uma autênti- Há aqui uma invocação que se faz pelo avesso "como se colhe e ca crítica da cultura; à crítica da burguesia (incluindo a burguesia se espezinha a rosa". Motivo que não está distante dos versos de "Os senhorial das se junta uma análise não menos desencantada bens e o sangue", nos quais os antepassados, em seu discurso, buscam do estilo de vida da sociedade moderna, 'burguesa' ou não. Nisso resi- uma recusa que será, ao mesmo tempo, um ato de celebração. de uma diferença fundamental entre macro-realismo drummondiano Delineia-se aqui um campo comum a outros poemas de Drummond, e a sóciologia limitada e míope da maior parte da literatura socialista. nos quais há a apresentação de uma dificuldade ou negatividade que se Sem de forma alguma abandonar sua lucidez no tocante ao patriarca- transforma na mediação para que se possa atingir, ainda, objeto bus- lismo, Drummond, pelo contraste que estabelece entre estilo existen- cado (e barrado por aquela mesma negatividade). A questão é intrinca- cial da sociedade patriarcal e das massas urbanas alienadas, se re- da e parece ter relações, como já se viu na análise de "Opaco", com o concilia dialeticamente com o grupo familiar de feição tradicional, se- movimento que ali se estabelece entre a negatividade e um ligeiro (e guramente menos frio e inumano que espaço vital reificado da grande opaco) lampejo de luz; opaco para que se possa manter o lampejo cidade. É então que a perda de Itabira se torna dolorosa, ainda que mediado pela escuridão e pelo impasse no domínio do irreconciliado, poeta, testemunha perfeitamente consciente de uma época de transição, e que se perderia, por exemplo, se fosse retirado o bloqueio à exposição e sem jamais identificar-se, a rigor, com qualquer forma social, não sem entraves da luz (em "Opaco"), ou ao escancaramento sem barreiras chegue a pregar a restauração de qualquer do afeto e da celebração (em "Os bens e o sangue"). Vemos aqui a família e espaço mineiro como capazes de suscitar uma Deste modo, se é verdadeiro vislumbrar, nos poemas de Drummond UNIMONTES Biblioteca Central forma de crítica à burguesia incluindo paradoxalmente a burguesia senho- voltados ao passado mineiro, uma crítica a esse mundo, aliada ainda a rial das fazendas, mas afunilando-se, mais detidamente, em direção ao es- uma culpa pela origem patriarcal, igualmente necessário será procurar tilo de vida da moderna sociedade das metrópoles, burguesa ou não, que a nesses poemas uma linha que, fugindo da primeira instância citada (em- experiência mineira fazia assomar como "massas urbanas alienadas". bora sem negá-la, completamente), vê o passado ali exposto como uma Merquior aponta a crítica à sociedade das metrópoles e à alienação espécie de alimento (adubo) tanto de um olhar mais acurado sobre como uma visão surgida da possibilidade de contraste com o passado presente, quanto da própria poesia, feita à maneira de pez e resíduos, e itabirano. Sem desacreditar o seu argumento, poderíamos talvez acres- assim especialmente apta para pensar, como já apontado, a dissolução e centar outro: o de que a poesia que se curva sobre Minas, vendo esse a negatividade. espaço de eleição, predominantemente, como palco de dissolução e Há uma passagem do livro de José Guilherme Merquior sobre derrocada, de certo modo afia, no exercício que vislumbra a queda, o Drummond que situa o aspecto mineiro (e a crítica a ele) sob uma luz olhar sobre o resultado daquela dissolução (o tempo presente, os ho- que pode ser interessante para um confronto com "Os bens e o sangue". mens presentes), que incorpora, da dissolução de que é resultado, o fei- trecho é longo, mas convém transcrevê-lo: tio permeado de negatividade. "A ambivalência dos sentimentos de Drummond no que refere ao Nesse sentido, "Os bens e o sangue" propõe-se a uma dupla leitura, núcleo familiar e também aos antepassados parece no fundo confirmar que se abre a diferentes e por vezes contraditórios aspectos capazes sua posição particular de homem que cavalga dois mundos sociais, dois universos de cultura: Brasil tradicional da fazenda e o Brasil moder- 24 Verso Universo em Drummond. Ed. cit., pp. 93/94 (grifos meus).90 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 91 de abarcar, numa mesma expressão, a conjura e o movimento de afeto, neles duas questões parecem envolvidas: a idéia de que a história, os a destruição e aquilo que a ela se furta, a "praga" e o movimento de apro- fatos e a existência são elementos que se esfarelam sob a ação do ximação. Exige-se, também, para a leitura do poema, a sondagem de tempo; e a idéia de que algo se subtrai à dissolução ("de tudo fica um uma visão de poesia como o resultado torto, escurecido da dissolu- pouco"), de que há um resíduo, mesmo na pulverização mais intensa, ção do passado e das coisas e entes que o constituíam e que agora, pa- que permanece. fato de que esse resíduo pode ser, além de uma per- radoxalmente, são aqueles que fornecem o adubo e o olhar cortante manência, a condensação resumo histórico da dissolução e derroca- sobre o presente à expressão do poeta: da que lhe dá origem (a epítome, como se lê em "O resto") deve tam- bém ser considerado. Há outro poema, em Claro Enigma ("Morte das "És nosso fim natural e somos teu adubo, Casas de Ouro Preto"), central para estudo dessa questão: tua explicação e tua mais singela "(...) A dissolução retém em Drummond, deste modo, um peso que será Morrem, severas. É tempo a sua marca. resíduo, resultado da destilação de um universo que se de fatigar-se a matéria evaporou, deixa-se impregnar por aquilo que se foi matéria pesada, por muito servir ao homem, pois que proveniente da destruição a que é submetida a realidade an- e de barro dissolver-se. terior como se vê, por exemplo, nas imagens de "Resíduo", em A Nem parecia, na serra, Rosa do Povo. que as coisas sempre cambiam de si, em si. Hoje, vão-se. "(...) De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco. chão começa a chamar Dos gritos gagos. Da rosa as formas estruturadas ficou um pouco (...)". faz tanto tempo. Convoca-as a serem terra outra vez. Considerando deste modo os poemas em que surge, de forma con- Que se incorporem as árvores tundente, a imagem de um resíduo, de algo que ficou, percebemos que hoje vigas! Volte 0 pó a ser pó pelas estradas! 25 Verso que parece ecoar outro poema, também admirável: "Terra a que me inclino sob frio A chuva desce, às canadas. de minha testa que se alonga, Como chove, como pinga e sinto mais presente quanto aspiro no país das remembranças! em ti fumo antigo dos parentes, Como bate, como fere, minha terra, me tens; e teu cativo como traspassa a medula, passeias brandamente como punge, como lanha como ao que vai morrer se estende a vista 0 fino dardo da chuva de espaços luminosos, intocáveis: em mim que resiste são teus poros. (...)" (...) "Elegia", poema de Fazendeiro do Ar, Poesia e Prosa, ed. cit, p. 322.92 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 93 Lá vão, enxurrada abaixo Este poema revela o olhar que pesquisa a dissolução, "esse agudo as velhas casas honradas olhar afiado/ de quem é douto no assunto./ (Quantos perdi me ensina- em que se amou e pariu, ram)". Expõe-se aqui o observador pronto a descobrir a morte (a disso- em que se guardou moeda lução, de que a chuva, nesse poema, é agente privilegiado) e, na morte, e no frio se bebeu. este dado ainda inconcluso, que se confunde com a figura do amor. Há Vão no vento, na caliça, em "Morte das Casas de Ouro Preto" quase que um cansaço da história: no morcego, vão na geada tempo/ de fatigar-se a matéria/ por muito servir ao e de barro dissolver-se." Morrem as edificações e, com elas, a história, exau- (...) rida, das gerações que habitaram "as velhas casas honradas/ em que se amou e pariu,/ em que se guardou moeda/ e no frio se bebeu". Sobre a cidade concentro A morte das casas tem, neste sentido, uma feição peculiar. Toma olhar experimentado, corpo, ali, a observação de uma Ouro Preto que se deixa consumir pelas esse agudo olhar afiado águas, e que corre o perigo de ver as marcas de história e de vida trans- de quem é douto no assunto. formarem-se em elementos da natureza: (Quantos perdi me ensinaram.) Vejo a coisa pegajosa, "O chão começa a chamar vai circunvoando na calma. as formas estruturadas faz tanto tempo. (...) Não basta ver morte de homem Que se incorporem as árvores para conhecê-la bem. hoje vigas. Volte pó Mil outras brotam em nós, a ser pó pelas estradas!" à nossa roda, no chão. A morte baixou dos ermos, A história, como se vê, parece ter aqui uma inclinação para natura- gavião molhado. Seu bico lizar-se (virar pó, tornar a ser árvore). poema se oferece, sob essa vai lavrando 0 paredão faceta, como um emblema do declínio que ronda a existência questão que, por mais de uma razão, se aproxima do aspecto estudado por Ben- e dissolvendo a cidade. jamin em A Origem do drama barroco alemão livro que se debruça, Sobre a ponte, sobre a pedra, justamente, sobre a concepção barroca da história destinada à destrui- sobre a cambraia de Nize, ção: "Nisso consiste o cerne da visão alegórica: a exposição barroca uma colcha de neblina mundana, da história como história mundial do sofrimento, significati- (já não é a chuva forte) va apenas nos episódios de e com isso o crítico alemão me conta por que mistério abre também a sensibilidade barroca para a dimensão moderna a ou- amor se banha na morte.²⁶ tra época de declínio que o seu ensaio, indiretamente, focaliza. Benjamin, em seu livro, comenta a diferença entre a representação simbólica e alegórica por meio da categoria temporal que a vinculação 26 Poema de Claro Enigma, da divisão "Selo de Minas". Poesia e Prosa, ed. cit., p. 288. 27 Walter Benjamin. Origem do drama barroco alemão. São Paulo, Brasiliense, 1984. p. 188.94 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 95 alegoria/declínio expressa de maneira contundente: "A relação entre o fábricas, (...) nos objetos que começam a extinguir-se, nos pianos de símbolo e a alegoria pode ser compreendida, de forma persuasiva e cauda, nas roupas de mais de cinco anos, nos locais mundanos, quando esquemática, à luz da decisiva categoria do tempo (...). Ao passo que no a moda começa a Não seria descabido imaginar que a símbolo, com a transfiguração do declínio, rosto metamorfoseado da poesia de Drummond se deixa impregnar, também, de uma visão seme- natureza se revela fugazmente à luz da salvação, a alegoria mostra ao lhante. Se a tendência pode ser vista como uma crítica ao capitalismo e observador a facies hippocratica da história como protopaisagem petri- à coisificação que lhe é inerente, ela guarda igualmente, e de modo ficada. A história em tudo o que nela desde o início é prematuro, sofri- mais acentuado, a visão de mundo e de história que viemos tentan- do e malogrado, se exprime num rosto não, numa do perseguir: aquela que vê a existência como marcada por um proces- O olhar drummondiano sobre a dissolução do passado como um so de dissolução (de que o resíduo seria, a um só tempo, emblema e modo de pensar também o presente época de declínio (para usar o permanência). termo de Benjamin) que torna significativa, também nesse tempo, a Veja-se, ainda, quanto à destruição de um mundo conhecido, o visão da história como destinada à derrocada e à queda reflete-se, de poema "Remate", de Lição de Coisas: certa forma, no direcionamento que muitos vêem no estudo do crítico alemão, ou seja: uma reflexão sobre o barroco que é também uma refle- "Volta filho pródigo xão sobre a modernidade época mais afeita à dissolução e ao que é à casa do pai negativo e esfacelado do que os períodos que, afastando-se do aspecto e 0 próprio pai é morto Adão. fragmentário da alegoria, se aproximam da possibilidade de representa- Onde havia relógio ção Estão contidos, nesse modo de ver a história: a melan- e cadeira de balanço colia; o caráter fragmentário e não passível de totalização do mundo vacas estrumam a superfície. o sentido da inevitável queda; a ausência de transcendência. (...) Este é um aspecto; há outro, talvez mais evasivo e particularizado. Deixa de haver havido A atenção voltada para o que se dissolve parece delinear em Drum- na ausência de fidelidade mond (na derrocada de objetos que já tiveram utilidade e agora se e traição. transformaram em pó) também uma crítica, ainda que mais sutil, à in- Jogada no esterco verde dustrialização e à alienação, implícita nas coisas que envelhecem e que a agulha do gramofone não têm, portanto, serventia dentro do moderno mercado capitalista. varre de ópera vazio. Benjamin, em outro texto, já demonstrara o papel importante dos obje- tos que carregam em si a marca da dissolução, de tudo que parece não trecho expressa como poucos a ausência, a dissolução e a sua re- se encaixar no mundo do industrialismo, para a visão revolucionária presentação num resíduo que é quase nada. A agulha do gramofone dos surrealistas com suas "iluminações profanas": Breton, diz ele, "foi sobre esterco e, de modo ainda mais incisivo, a substituição de relógio o primeiro a ter pressentido as energias revolucionárias que transpare- e cadeira de balanço por vacas que estrumam a superfície expressam, cem no nas primeiras construções de ferro, nas primeiras de um lado, a vasta destruição que sofreu uma realidade constituída e, de outro, conseguem ainda fazer soar, na figura ínfima do resíduo redu- 28 Idem ibidem. 29 também, para um estudo que se aproxima, em alguns pontos, do pensamento benjaminia- 30 Benjamin, surrealismo. último instantâneo da inteligência européia", em Obras Esco- no acerca da alegoria, ensaio de Davi Arrigucci Jr. sobre a poesia de Murilo Mendes, "Ar- Magia e técnica, arte e política. São Paulo, Brasiliense, 1985, p. 25. quitetura da em 0 cacto e as São Livraria Duas 1997. 31 Poesia e Prosa, ed. cit., p. 375.96 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 97 zido a figura da natureza (estrume, vacas), um pouco do pathos e do e natureza estão ligadas de maneira inextricável. que confere a um caráter que habitava o que se foi (e que a imagem da ópera sobre quadro já bastante estudado a naturalização da história e seus víncu- vazio expressa cabalmente). Esse processo, que dissolve a história, los com períodos de declínio, como observou Walter Benjamin na sua transformando o resíduo que daí resulta em elemento natural (esterco, referência ao barroco um aspecto peculiar, no Brasil (país para qual pó, árvores), encontra um eco interessante (a história de Ouro Preto, a a questão literária, em Benjamin abarca também aspecto históri- história dos bens e o do sangue) no próprio processo colonizador brasi- no traçado de planejamento das cidades, caminhos etc., ou seja, no leiro - de certa forma tangencial à linha da natureza, mais do que à li- próprio processo de sua formação). nha planejada e prevista, como ressaltou Sérgio Buarque de Holanda O "tempo de fatigar-se a matéria por muito servir ao a em Raízes do Brasil. porta que se vai ruindo; a chuva monorrítmica que sobre a história Antonio Candido, em sua introdução ao livro de Sérgio Buarque, goteja; "vacas [que] estrumam a a incorporação das árvo- faz uma referência precisa a essa questão, que opõe a colonização res, hoje vigas; o pó, que volta a ser pó pelas estradas ecoam, nestas portuguesa à espanhola: primeiras cidades mineiras da colônia, um processo de planejamento e o espanhol acentua caráter da cidade como empre- construção das cidades (e também dos caminhos que a elas levavam) sa da razão, contrária à ordem natural, prevendo rigorosamente o plano próximo ao elemento natural. A naturalização da história parece ter, das que fundou na América, ao modo de um triunfo da linha reta, e que desse modo, nos poemas de Drummond, um aspecto peculiar como se na maioria buscavam as regiões internas. A isso correspondia o intuito nestes primeiros agrupamentos (divisados em sua poesia) o próprio tra- de estabelecer um prolongamento estável da metrópole, enquanto os çado das ruas e praças contribuísse para uma futura dissolução da ma- portugueses, norteados por uma política de feitoria, agarrados ao litoral, téria, não assentada sobre pilares firmes.³³ Há aqui, mais uma vez, um de que só se desprenderiam no século XVIII, foram 'semeadores' de eco de passado em sua poesia. A tendência para a naturalização da his- cidades irregulares, nascidas e crescidas ao deus-dará, rebeldes à norma tória (tal qual vemos, por exemplo, em "Morte das casas de Ouro Pre- abstrata. Esse tipo de aglomerado urbano chega a contradizer to") constituiria um modo de se curvar sobre um tempo remoto como quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da se nesses poemas se delineasse o processo de colonização irregular, A questão é próxima, de certo modo, ao desenvolvimento de alguns feito ao deus-dará, rebelde à norma abstrata, apontado por Sergio dos poemas de Drummond, que também se curvam sobre a proximida- de entre história e natureza. Assim, embora não haja nenhum vínculo 33 Eschwege já havia apontado, com relação aos caminhos que serviam Ouro Preto (Vila Rica), causal (não se diria, por exemplo, que o tema da naturalização da histó- a falta de planejamento de que fala Sérgio Buarque (em relação às cidades): "Durante mi- ria surge em Drummond porque ele é poeta de um país onde a proximi- nhas viagens pelos sertões (...) verifiquei, mais de uma vez, erros de traçado. Como exemplo, dade entre história e natureza estava presente no processo mesmo de pode ser citado sinuoso caminho que é a estrada que liga Rio a Vila Rica, e que, ainda colonização), é interessante ver que o vínculo entre a história e a natu- hoje [provavelmente 1821], conserva a caraterística primitiva. Assim como homem, esten- reza enlaça-se à sensibilidade do poeta mineiro. Se nos poemas de de-se ele ao acaso, ora por montanhas escarpadas, ora, que é pior, pelos vales, de modo Drummond (e também no pensamento de Walter Benjamin sobre o bar- que, alongando-se por 86 léguas, poderia ser encurtado, desde que se adotasse um traço roco alemão) que está em jogo é uma tendência da história para a conveniente." Pluto Brasiliensis, ed. cit., vol. I. 30. Também Drummond descreve a "pri- queda e dissolução, no aspecto do planejamento das primeiras cidades meira Itabira, a Itabira do ouro", como uma cidade mal planejada, que "não tinha outra (apreendido por Sérgio Buarque), que se vê é uma história que já forma senão a que lhe traçaram, com a ponta do pé, os desbravadores sequiosos, na sua nasce enleada à paisagem. Tanto num quanto noutro exemplo, história 'exploração insensata e ruinosa das Vila de Utopia, em Confissões de Minas. Poesia e Prosa, ed. cit., p. 984. (0 trecho entre aspas é, como nos informa Drummond, extraído de 32 Raízes do Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1995, p. 16. Pluto Brasiliensis).98 BETINA BISCHOF RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 99 Buarque em Raízes do Brasil. Existe uma aproximação possível entre o os feriados antes gozados, presente (as casas não assentadas sobre pilares firmes) e o passado (o ele leva consigo como processo falho de colonização, que desde o início aproximava como a laranja leva no gomo faz agora o poema a cidade e a natureza; a história e o pó). sua doce razão de ser, Se o resíduo guarda uma face que, espelhando a decadência de um ou senão, como 0 peixe leva mundo constituído, segue esta decadência até ver os elementos que em seu volteio pelas águas habitavam a história transformarem-se em figuras da natureza, talvez a arte e ciência de nadar seja igualmente importante, para a compreensão do seu movimento, a (no seu caso, é arte de amar). característica que nele pudemos distinguir, ou seja: a de se oferecer, de (...) um lado, como epílogo, fim e conclusão de uma realidade constituída e, De outro amante assim tão gamado de outro, como epítome resumo e condensação de um passado que se juro não sei, que este encanece dissolveu, mas que deixa impregnado de seu ser as ruínas (o resto) sem azedume em face à sorte sobrantes dessa dissolução. Um dos itens que ficam seria, como se lê que tanto exige de ternura em "Os bens e o sangue", a própria expressão poética (que se "expande e de defesa contra a morte à maneira de pez e resíduos"). Neste sentido, a poesia guarda, em sua morte, eterna ameaça própria constituição, a dissolução inevitável, tornando-se, com isso, a pairar sobre sua amada. instrumento especialmente pertinente para pensar a dissolução. (...) Um dos exemplos mais contundentes da utilização do resíduo na Já que pequei por indiscreto, expressão poética de Drummond talvez esteja em "Ausência de Rodri- darei todo serviço: 0 nome go", poema que se debruça como poucos sobre a questão do desapare- da namorada rodriguiana cimento das coisas (ou, neste caso específico, das pessoas), e sobre a (...) é a Arte Antiga do Brasil, pergunta pelo que fica. Rodrigo Melo Franco de Andrade, de que fala o que com seu diadema de História poema, foi amigo e chefe de Drummond no Patrimônio Histórico e no dia 23 de abril Artístico Nacional (DPHAN), de 1945, ano em que o autor de Alguma há trint'anos nele encontrou Poesia ingressou no serviço público daquele órgão, até 1962, ano de mais fiel e humilde escudeiro sua aposentadoria. Há sobre Rodrigo um outro poema de Drummond, publicado na Não deixa de ser curioso que Drummond poeta, como se viu, fas- Antologia Poética a partir de sua quinta edição e que pode nos ajudar cinado pelo resíduo, pela dissolução, pelas ruínas e por aquilo que a na tarefa de lhe compor o perfil: elas se subtrai tenha justamente trabalhado, por quase 20 anos, sob a chefia de Rodrigo Melo Franco de Andrade, no Patrimônio Histórico e "Mestre Rodrigo, o do DPHAN, Artístico numa função que "tanto exige de ternura/ e de que me perdoe se neste canto defesa contra a morte/ morte, ruína, eterna ameaça". Seria possível hoje canto a gentil balzaca de seus encantos e quebrantos, 34 "Velho amor". Poema Poética (organizada pelo autor). Rio de Janeiro, José aquela que, noite após noite, Olympio, 1983, p. 253-256 (grifo meu). e dia após dia, inclusive 35 Drummond aposentou-se, em 1962, como chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos os domingos outrora livres, e Tombamento do DPHAN.RAZÃO DA RECUSA (Um estudo da poesia de Carlos Drummond de Andrade) 101 100 BETINA BISCHOF perguntar se esse contato com o passado, com "as traças esfareladas de As coisas que restituiu ao sol da História não cantam, não me contam de Rodrigo. capelas", com as "fortalezas em cacos", em algum sentido adensou um olhar que se voltava ao passado enxergando ali dissolução e perda (e A mosca bailarina ainda a necessidade da conservação daquilo que se esgarça e se desfaz). O outro poema sobre Rodrigo, a que nos referimos anteriormente pousa no tampo de vidro e que nos interessa mais de perto ("Ausência de Rodrigo"), pertence à na mesa em que Rodrigo trabalhava coletânea As Impurezas do Branco e foi provavelmente escrito em na mesa em que na mesa 1969 (o livro é de 1973), ano da morte do amigo que conheceu ainda na. em Belo Horizonte, no excepcional círculo de amigos de que foi um dos A desaparição, de que o significante dá conta, mais do que o sentido A mesa em que Rodrigo trabalhava das palavras, nos atinge num baque surdo neste poema que, narrando a morte, incorpora-a, imita e devolve a sua forma. As palavras, aos pou- está vazia. cos se dissolvendo, ao longo dos versos, nos contam da implacável des- (...) truição das coisas e pessoas a ressoar na frase que, aos olhos do leitor, se esvai e quase desaparece. Os resíduos de versos expressam a questão Procuro que não vejo Rodrigo míope curvado que, não mencionada no decorrer do poema, deixa-se, no entanto, sig- sobre traças esfareladas de capelas nificar pela palavra que, esfarelando-se, converte-se quase em desenho emblema que remete à morte. Volta, aqui, de certo modo, a idéia de e fortalezas em cacos maquinando contornando insistindo que essa poesia incorpora, em sua própria estrutura e modo de o resíduo e a dissolução (o que a torna propícia a pensar a destruição e provendo. dissolução não só do passado, mas também do tempo presente e das (...) coisas que nele se esfacelam). Os dois tempos, no sentimento do mundo Dele não há notícia melodiosa drummondiano, apresentam a exposição da história como destinada à em alguma parte de Alcântara ou Sete Povos? queda, à dissolução visão "significativa apenas nos episódios de declí- Nem a mesa ondulada companheira nio" (para citar ainda uma vez Walter Benjamin). Neste poema, são a ausência de palavra, o verso carcomido, a disso- conserva movimento de dedos escrevendo lução da expressão que nos dão notícia da morte. Aqui, de fato, a poesia de manhã de janeiro a noite de dezembro se expande (tal como lemos em "Os bens e o sangue") à maneira de 0 relatório das injúrias pez e resíduos como se ela se articulasse, em sua própria forma, para que, mais que tempo, os homens imprimiram estar apta à sondagem dos tons ensombreados do presente, que encon- tram no resíduo de um lado o resumo daquilo que sofreu a derrocada a lajes memorandas? (sendo com isso uma imagem cifrada da história ali contida) e de outro uma reflexão sobre o presente resultado direto (e portanto também 36 Para mais informações sobre Rodrigo Melo Franco de Andrade, ver Beira-Mar livro de negativo) daquele esfacelamento. Pedro Nava que traz um relato precioso sobre o grupo de mineiros e modernismo nos anos 20. principalmente sobre Rodrigo e Drummond, as páginas 166-176. Beira-Mar memó- rias/4. Rio de Janeiro, José Olympio, 1979.