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144 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) c) um caso de amor passageiro, por isso se sentia enganado. d) uma angústia inevitável, por isso seria melhor aquele amor. e) uma opção equivocada, por isso sempre teve medo de amar. Questão 05 (Enem 2015) Cântico VI Tu tens um medo de Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno. MEIRELES, C. Antologia poética, Rio de Janeiro A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o homem em seu aspecto existencial. Em Cântico VI, o eu lírico exorta seu interlocutor a perceber, como inerente à condição humana, a) a sublimação espiritual graças ao poder de se emocionar. b) o desalento irremediável em face do cotidiano repetitivo. c) o questionamento cético sobre o rumo das atitudes humanas. d) a vontade inconsciente de perpetuar-se em estado adolescente. e) um receio ancestral de confrontar a imprevisibilidade das coisas. Questão 06 (Enem 2012) Ai, palavras, ai, palavras Que estranha potência a vossa! Todo o sentido da vida Principia a vossa porta: O mel do amor cristaliza Seu perfume em vossa rosa; Sois o sonho e sois a audácia, Calúnia, fúria, derrota... A liberdade das almas, ai! Com letras se elabora... e dos venenos humanos sois a mais fina retorta: frágil, frágil, como o vidro e mais que o aço poderosa! Reis, impérios, povos, tempos, pelo vosso impulso rodam... MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento). O fragmento destacado foi transcrito do Romanceiro da Independência, de Cecília Meireles. Centralizada no episódio histórico da Inconfidência Mineira, a obra, no entanto, elabora uma reflexão mais ampla sobre a seguinte relação entre o homem e a linguagem: a) A força e a resistência humanas superam os danos provocados pelo poder corrosivo das palavras. b) As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio vinculado aos significado das palavras. c) O significado dos nomes não expressa de forma justa e completa a grandeza da luta do homem pela vida. d) Renovando o significado das palavras, o tempo permite às gerações perpetuar seus valores e suas crenças. e) Como produto da criatividade humana, a linguagem tem seu alcance limitado pelas intenções e gestos. Texto No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. (Andrade, C. Drummond de. "Alguma Poesia". In Reunião Questão 07 (Pucsp) O texto suscitou, desde sua publicação em 1930, muita polêmica na literatura brasileira, provocando adesões e repulsas entusiásticas. É, contudo, um texto com posição marcada na produção de Carlos Drummond de Andrade. Da leitura dele pode-se entender que a) não chega a ser propriamente um poema, porque um simples jogo verbal e lúdico não faz despertar vibrações intelectuais de poesia. b) é um texto de forma aparentemente simples, mas o esquema de repetição, aí, quase absoluta, o descarta do universo poético. c) faz uso irreverente de modismos da linguagem coloquial, marca- se pela repetição, e revela, como poema, consciência da realidade linguística brasileira. d) o uso do verbo ter por haver constitui um erro gramatical e impede o texto de realizar-se como poema. e) a estrutura prosaica da composição e a ausência de recursos imagéticos prejudicam a organização poética do texto. Questão 08 (Fac. Albert Einstein - Medicin 2016) Ode no Cinquentenário do Poeta Brasileiro (...) Certamente não sabias que nos fazes sofrer. É difícil de explicar esse sofrimento seco (...) Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa, anunciando que tua vida passou à toa, à toa. Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino, diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito Aula 30 – Poesia de 30 II 145 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência infiltrado. Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarapitados nos burros velhos. Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite. Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra do Paraguai, a de Bentinho Jararaca ou a de Christina Georgina Rossetti: és tu mesmo, é tua poesia, tua pungente, inefável poesia, ferindo as almas, sob a aparência balsâmica, queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las; é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador e que vem trazer-nos na aurora o sopro quente dos mundos, das amadas exuberantes e das situações exemplares que não suspeitávamos. O trecho acima integra o poema “Ode no Cinquentenário do Poeta Brasileiro”, da obra Sentimento do Mundo de Carlos Drummond de Andrade. Dele NÃO É CORRETO afirmar que a) utiliza construção que se faz por um jogo antitético consubstanciado por significativo uso de anáforas. b) indicia a figura do poeta Manuel Bandeira, objeto da Ode (homenagem), pelas citações de expressivos poemas que conformam seu universo estético. c) revela que o que importa não são os poemas nas particularidades de seus temas, mas o fenômeno poético mesmo em sua essência e que faz do poeta seu misterioso portador. d) apresenta uma quebra do ritmo poético motivada pelo uso reiterado do gerúndio e pela ausência de correlação sintática entre as orações que se mostram propositalmente incompletas. Questão 09 (Faculdade Albert Einstein 2016) Carlos Drummond de Andrade publicou em 1940 a obra Sentimento do Mundo, poesia de cunho social e político e marcada pela resistência diante dos totalitarismos. Poesia engajada e participante. Assim, indique nas alternativas abaixo a que contém trecho que indicia a recusa de escapismos e de fuga da realidade. a) Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede Mas como dói! b) Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. c) Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, A vida presente. d) A noite é mortal, Completa, sem reticências, A noite dissolve os homens, Diz que é inútil sofrer, A noite dissolve as pátrias, Apagou os almirantes Cintilantes! Nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio... Os suicidas tinham razão Questão 10 (Pucsp 2015) Lembrança do mundo antigo Clara passeava no jardim com as crianças. O céu era verde sobre o gramado, a água era dourada sob as pontes outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados, o guarda civil sorria, passavam bicicletas, a menina pisou a relva para pegar um pássaro, o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo em redor de Clara. As crianças olhavam para o céu: não era proibido. A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo. Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos. Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas, esperava cartas que custavam a chegar, nem sempre podiausar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!! Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!! O poema ao lado integra a obra Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade. Da leitura que se possa fazer dele, NÃO é possível concluir que a) é um texto poético narrativo que se organiza a partir de um espaço exterior, com personagens leves e soltas, em ações tranquilas de suaves movimentos. b) se utiliza de verbos inteiramente no tempo passado como forma de configurar a lembrança de que fala o título. c) indicia, por exclusão, um tempo presente, marcadamente oposto ao configurado no poema. d) metaforiza o tempo e o espaço como elementos simbólicos de uma felicidade perdida. e) opera com linguagem fundamentalmente referencial, marcada por estrutura lógica, e distante de qualquer representação simbólica e poética. Questão 11 (Enem 2ª aplicação 2016) Anoitecer É a hora em que o sino toca, mas aqui não há sinos; há somente buzinas, sirenes roucas, apitos aflitos, pungentes, trágicos, uivando escuro segredo; desta hora tenho medo. [...] É a hora do descanso, mas o descanso vem tarde, o corpo não pede sono, 146 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula) depois de tanto rodar; pede paz – morte – mergulho no poço mais ermo e quedo; desta hora tenho medo. Hora de delicadeza, agasalho, sombra, silêncio. Haverá disso no mundo? É antes a hora dos corvos, bicando em mim, meu passado, meu futuro, meu degredo; desta hora, sim, tenho medo. ANDRADE, C. D. A rosa do povo. Com base no contexto da Segunda Guerra Mundial, o livro A rosa do povo revela desdobramentos da visão poética. No fragmento, a expressividade lírica demonstra um(a) a) defesa da esperança como forma de superação das atrocidades da guerra. b) desejo de resistência às formas de opressão e medo produzidas pela guerra. c) olhar pessimista das instituições humanas e sociais submetidas ao conflito armado. d) exortação à solidariedade para a reconstrução dos espaços urbanos bombardeados. e) espírito de contestação capaz de subverter a condição de vítima dos povos afetados. Questão 12 (Imed 2016) Leia os poemas a seguir, de Casimiro de Abreu e Carlos Drummond de Andrade, respectivamente: MEUS OITO ANOS Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida - Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! […] Rezava às Ave-Marias, Achava o céu sempre lindo, Adormecia sorrindo E despertava a cantar! Que doce a vida não era Em vez das mágoas de agora. CONSOLO NA PRAIA Vamos, não chores... A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis casa, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho. Analise as seguintes afirmações a partir dos poemas: I. Embora Casimiro de Abreu integre o período literário romântico, e Carlos Drummond de Andrade, o modernismo, ambos os poemas abordam a passagem do tempo e a ideia de perda de momentos da vida humana: infância e juventude. II. No primeiro poema, o eu lírico apresenta a infância com certo escapismo, fugindo, assim, do momento presente, o qual é resgatado no último verso. III. Identifica-se que, em ambos os poemas, o eu lírico mostra-se pesaroso e inconformado com a passagem do tempo e da vida. Quais estão corretas? a) Apenas I. b) Apenas III. c) Apenas I e II. d) Apenas II e III. e) I, II e III. Questão 13 (Fac. Albert Einstein - Medicin 2017) Oficina Irritada Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler. Quero que meu soneto, no futuro, não desperte em ninguém nenhum prazer. E que, no seu maligno ar imaturo, ao mesmo tempo saiba ser, não ser. Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir, há de fazer sofrer, tendão de Vênus sob o pedicuro. Ninguém o lembrará: tiro no muro, cão mijando no caos, enquanto Arcturo, claro enigma, se deixa surpreender. O texto acima é de Claro Enigma, obra de Carlos Drummond de Andrade. De sua leitura se pode depreender que a) é um poema que segue rigorosamente os procedimentos de construção do soneto clássico e tradicional, particularmente quanto à disposição e ao valor das rimas e ao uso da chave de ouro como fecho conclusivo do texto. Aula 30 – Poesia de 30 II 147 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência b) é um metapoema e revela que o soneto que o autor deseja fazer é o mesmo que o leitor está lendo, como a evidenciar na prática a junção do querer e do fazer. c) utiliza-se de expressões como “tiro no muro” e “cão mijando no caos”, que, além de provocar mau gosto e o estranhamento do leitor, rigorosamente, nada têm a ver com a proposta de elaboração do poema. d) faz da repetição anafórica e do paralelismo dos versos, um recurso de composição do poema que o torna enfadonho e antiestético e revela um poeta de produção duvidosa e menor. Questão 14 (Upf 2016) Um sabiá na palmeira, longe. Estas aves cantam um outro canto. O céu cintila sobre flores úmidas. Vozes na mata, e o maior amor. Só, na noite, seria feliz: um sabiá, na palmeira, longe. Onde é tudo belo e fantástico, só, na noite, seria feliz. (Um sabiá, na palmeira, longe.) Ainda um grito de vida e voltar para onde é tudo belo e fantástico: a palmeira, o sabiá, o longe. CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Nova canção do exílio Considere as afirmações abaixo em relação ao poema “Nova canção do exílio”, de Carlos Drummond de Andrade. I. O poema retoma, de forma intertextual, o conhecido texto da “Canção do exílio”, do poeta romântico Gonçalves Dias. II. A estrutura repetitiva do poema deve-se, exclusivamente, à influência do texto de Gonçalves Dias, uma vez que a repetição não é um procedimento comum no autor de A rosa do povo. III. O exílio a que se refere o título do poema assume ao longo do texto uma dimensão que ultrapassa o aspecto geográfico, assumindo um caráter existencial. Está correto apenas o que se afirma em: a) I. b) II. c) I e II. d) I e III. e) II e III. Questão 15 (Ufpr 2016) Leia, atentamente, o seguinte poema: Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar? Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita. O poema “Amar” integra a segunda parte, “Notícias Amorosas”, do livro Claroenigma, de Carlos Drummond de Andrade. Sobre esse poema, assinale a alternativa correta. a) As indagações repetitivas, nas duas primeiras estrofes, reiteram a inviabilidade do amor diante de um mundo em que tudo é perecível. b) O poeta estabelece uma intensidade da manifestação do amor com relação ao belo diferente da intensidade do amor dispensado ao grotesco. c) Para acentuar a condição inexorável de amar, o poema enumera coisas que, por sua concretude e delicadeza naturais, justificam o amor que já recebem. d) O poema postula uma condição universal, na qual se fundem o sujeito, a ação praticada e os objetos a que essa ação se dirige. e) A última estrofe é a chave explicativa desse soneto e reitera a ineficácia do amor diante de um mundo caótico e insensível. CURSO ANUAL DE LITERATURA Prof. Steller de Paula – VOLUME 2 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência AULA 31 - GERAÇÃO DE 45 – PROSA A GERAÇÃO DE 1945 - PROSA Fortemente marcada pelo fim da Segunda Guerra, pela derrubada da ditadura de Getúlio Vargas e pelo clima de euforia daí decorrentes no país, a geração de 45 colocou em segundo plano as preocupações políticas, ideológicas e culturais dos artistas da década de 30 e privilegiou a questão estética. Assim, a aventura da linguagem, a preocupação com a forma e com o rigor do texto tornam-se o objetivo básico desta geração, que teve grandes expoentes tanto na poesia, quanto na prosa de ficção. Acho que devemos fazer coisa proibida - senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres. CLARICE LISPECTOR PRINCIPAIS OBRAS Romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Mação no Escuro (1961); A Paixão Segundo GH (1964); Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977). Contos: Alguns Contos (1952); Laços de Família (1960); A Legião Estrangeira (1964), contos e crônicas; Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974); Onde Estivestes de Noite? (1974); A Bela e a Fera (1979). Crônicas e entrevistas: De Corpo Inteiro (1975), entrevista; Visão do Esplendor (1975) crônicas; A Descoberta do Mundo (1984) crônicas. Infantil: O Mistério do Coelho Pensante (1967); A Mulher que Matou os Peixes (1969); A Vida Íntima de Laura (1973); Quase de Verdade (1978). "Há três coisas para as quais nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar meus filhos. (... ) A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a minha infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei porque, foi esta a que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever." Clarice Lispector Clarice Lispector é a principal representante da nossa prosa intimista. Sua obra é, toda ela, uma obra de educação existencial. Segundo Alfredo Bosi, “há na gênese dos seus contos e romances tal exacerbação do momento interior que, a certa altura do seu itinerário, a própria subjetividade entra em crise. O espírito, perdido no labirinto da memória e da auto-análise, reclama um novo equilíbrio.”. Através de uma profunda introspecção psicológica, suas personagens estão constantemente se questionando, se interrogando, buscando o autoconhecimento. E ao acompanharmos esse processo, nós também passamos a nos conhecer melhor, a conhecer melhor a natureza humana, sua complexidade. Sua linguagem se constrói numa prosa-poética que apresenta uma aparência de simplicidade: o vocabulário é simples, a estrutura sintática é simples. Mas essa simplicidade é enganosa, pois a prosa de Clarice é extremamente metaforizada, exigindo do leitor uma capacidade de interpretação incomum. Observe: O Banho Imerge na banheira como no mar. Um mundo morno se fecha sobre ela silenciosamente, quietamente. [...] Seres nascidos no mundo como a água. Agita-se, procura fugir. Tudo — diz devagar como entregando uma coisa, perscrutando-se sem se entender. Tudo. E essa palavra é paz, grave e incompreensível como um ritual. A água cobre seu corpo. Mas o que houve? Murmura baixinho, diz sílabas mornas, fundidas. O quarto de banho é indeciso, quase morto. As coisas e as paredes cederam, se adoçam e diluem em fumaças. A água esfria ligeiramente sobre sua pele e ela estremece de medo e desconforto. Quando emerge da banheira é uma desconhecida que não sabe o que sentir. [...] O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo? — Palavras muito puras, gotas de cristal. Sinto a forma brilhante e úmida debatendo-se dentro de mim. [...] No momento em que fecho a porta atrás de mim, instantaneamente me desprendo das coisas. [...] No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física. [...] Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem. O enredo em Clarice, os fatos, os acontecimentos, têm importãncia secundária, importam como gatilhos que despertam reflexões, questionamentos, crises internas nas personagens. O objetivo de Clarice Lispector é sondar o universe interno das personagens. TEXTOS CRÍTICOS "Em relação a Perto do Coração Selvagem, se deixarmos de lado as possíveis fontes estrangeiras de inspiração, permanece o fato de que, dentro de nossa literatura, é uma performance da melhor qualidade. A autora - ao que parece uma jovem estreante - colocou seriamente o problema do estilo e da expressão. Sobretudo desta. Sentiu que existe uma certa densidade afetiva e intelectual que não é possível exprimir se não procurarmos quebrar os quadros da rotina e criar imagens novas, novos torneios, associações diferentes das comuns e mais fundamente sentidas. A descoberta do cotidiano é uma aventura sempre possível, e o seu milagre uma transfiguração que abre caminhos para mundos novos.“ SEMANA 31 - LITERATURA - Geração de 45 - Prosa - STELLER