Prévia do material em texto
1 Beatriz Barbosa Transcrição - Ortopedia (14/10/2019) Osteomielite Definição: Inflamação óssea causada por microorganismo infectante, podendo ser localizada ou disseminada, envolvendo múltiplas regiões do osso. Normalmente é causada por um único agente, mas pode ser polimicrobiana. Exemplo principal e muito associado a Osteomielite é o pé diabético. Classificação: Pode ser classificada segundo: – Duração dos sintomas: Aguda, Subaguda e Crônica. – Mecanismo de infecção: Hematogênico (Geralmente é o que ocorre – bacteremia em foco prévio, acomete adolescentes e adultos). Exógeno (Fratura exposta, iatrogênico, por contiguidade quando pós-traumática). – Resposta do hospedeiro: piogênica e não- piogênica. Osteomielite Hematogênica Aguda Epidemiologia: Tipo mais comum de infecção óssea que normalmente ocorre em crianças 2 anos: a fise funciona como barreira para a disseminação do abscesso metafisário, como a cortical metafisária é mais espessa, a diáfise está em maior risco. Caso a infecção se espalha para diáfise o suprimento sanguíneo endosteal é prejudicado, predispondo a formação de sequestro extenso e osteomielite crônica em casos não tratados. Se houver abscesso subperiosteal, contribui para comprometer o suprimento periosteal. Disseminação: Em menores de 2 anos, ocorre, principalmente, pelo cruzamento dos vasos pela fise. Em articulações com fise intra-articular, como no tornozelo, na fíbula distal, no rádio rádio, cotovelo, fêmur proximal (mais afetado) e úmero proximal, tem risco de artrite séptica. Em crianças mais velhas, a fise funciona como barreira, desse modo a artrite séptica (AS) é mais rara. Em adultos a fise já está fechada, logo a infecção pode se estender diretamente da metáfise para epífise, provocando AS. Em infecções severas, pode ocorrer separação epifisária. Obs.: AS por contiguidade ocorre somente emExames laboratoriais: – Leucócitos: geralmente normais. – VHS: elevado em apenas 50% dos pacientes. – Hemoculturas: normalmente negativas. – Radiografia e cintilografia: geralmente positivas. – RNM: não é usual, ajudando no diagnóstico diferencial (ex. tumor) e no planejamento cirúrgico. – Normalmente necessita biópsia aberta e cultura: nem sempre tem material purulento, mas tecido de granulação é comum. Biópsia identifica o patógeno em 60% das vezes. Obs.: S. aureus e S. epidermidis são os germes mais comuns Classificação: Importante apenas para entender que as infecções podem ser no centro da metáfise, na periferia da metáfise e na diáfise. É essencial saber que não tem nada drenando, desse modo o aspirado não é útil. Tratamento: – Abscesso simples na epífise ou metáfise não tem necessidade de realizar biópsia, devido ao risco de espalhar o agente causador. Deve ser realizado antibiótico intravenoso por 48 horas + 6 semanas de antibiótico VO. – Lesões agressivas ou que não respondem à tratamento clínico: biópsia aberta + curetagem + antibioticoterapia. Osteomielite Hematogênica Subaguda - Abscesso de Brodie É raro, muito específico. Causado por S. aureu. Clínica: paciente que apresenta que abrupta do estado geral. – Dor: intermitente de longa duração. – Sensibilidade local. – Leve edema localizado. – Impotência funcional leve. Radiografia: – Lesão lítica com halo esclerótico. 5 Beatriz Barbosa Transcrição - Ortopedia (14/10/2019) Diagnóstico diferencial: tumores. Osteomielite Crônica Seu marco é a presença de osso morto (sequestro ósseo) infectado, rodeado por osso esclerótico e relativamente avascular, coberto por um periósteo espessado e músculo que gera um tecido subcutâneo cicatricial. O envelope cicatricial avascular torna ATB ineficaz, sendo de difícil manejo. Mesmo com remissão dos sinais sistêmicos devido ao uso do antibiótico, pode ainda existir um ou mais focos ósseos com material purulento envelopado, tecido de granulação infectado ou sequestro. Complicações associadas: Exacerbações agudas na osteomielite crônica podem ocorrer por anos, mas normalmente respondem ao repouso e uso de antibióticos. Infecções secundárias são comuns, culturas de trajeto da fistula usualmente não se correlacionam com as culturas obtidas na biópsia óssea, uma vez que múltiplos organismos podem crescer da cultura da fistula. Erradicação do foco geralmente requer desbridamento cirúrgico agressivo com manejo do espaço morto e administração de antibiótico efetivo. Porém, nem sempre é a melhor opção (ex. pacientes imunossuprimidos ou debilitados), estes casos e desbridamento é limitado, associado ao antibiótico supressivo e suporte nutricional, que ajudam a limitar a drenagem e a dor. Classificação: Tipo anatômico: – Tipo I: Medular – Tipo II: Superficial – Tipo III: Localizada (sequestro cortical que pode ser excisado sem comprometer a estabilidade) – Tipo IV: Difusa (I, II ou III acompanhada da instabilidade mecânica antes ou depois do desbridamento) Classe fisiológica: – Hospedeiro A: Normal (imunocompetente, boa vascularização local) – Hospedeiro B: Comprometido (fatores locais ou sistêmicos que comprometem imunidade ou cicatrização) – Hospedeiro C: Proibitivo (resultado do tratamento é potencialmente mais danoso que a condição atual – por déficit funcional, morbidade antecipada ou baixa chance de cura) Diagnóstico: Obs.: Caso seja uma osteomielite crônica agudizada apresentará os sinais e sintomas da osteomielite aguda, como dor e edema. – Clínico: Avaliar a integridade de pele e partes moles, determinar pontos dolorosos, avaliar estabilidade óssea e NV. – Laboratório: pouco específico e sem relação com severidade, pois na crônica o corpo aprende que aquele quadro já faz parte do organismo. VHS e PCR: elevados na maioria das vezes. Leucocitose: presente em apenas 35%. – Radiografias: destruição cortical, reação periosteal e sequestro. – TC: ajuda para melhor avaliação de áreas de sequestros. – Cintilografia: diferenciar de artropatia neuropática no pé diabético 6 Beatriz Barbosa Transcrição - Ortopedia (14/10/2019) – RNM. Tratamento: Supressão antibiótica, debridamento cirúrgico, reconstrução e controle das morbidades e fatores de risco, como diabetes de tabagismo. Mas geralmente não cura sem cirurgia, o objetivo da cirurgia é erradicação da infecção ao produzir um ambiente vascular viável. Desse modo realiza-se a sequestrectomia com ressecção de osso e tecido mole cicatricial infectado. Nunca deixar o espaço morto. O cimento com antibiótico tem uma concentração local 200 vezes maior que ATB sistêmico/oral, sendo associado também no procedimento. Após cirurgia, manter ATB durante 6 semanas, preferencialmente EV. 7 Beatriz Barbosa Transcrição - Ortopedia (14/10/2019) Infecções Osteoarticulares Artrite Séptica É a invasão bacteriana do espaço articular (sinóvia), tendo a virulência e resposta imune determinante na agressividade do quadro. Possui potencial de sérias complicações, especialmente se atraso no diagnóstico e tratamento. Extremos de idade são mais susceptíveis: crianças novas e idosos, principalmente se fator de risco associado. O diagnóstico é difícil em neonatos, pois os sinais inflamatórios são menos evidentes, como febre, edema, eritema e dor. Esses sinais e sintomas podem ser mínimos ou ausentes, podendo ser os únicos achados observados uma infecção em outro local (ex. cateter umbilical, infecções de garganta), irritabilidade, assimetria na posição dos membros (criança busca uma posição antálgica), desconforto a manipulação (sinal da fralda), pseudoparalisia (MMSS). Em 50% são multifocais Fatores de risco: 1. Artrite reumatóide 2. Osteoartrose 3. Artroplastia 4. Baixo status socioeconômico 5. Uso de drogas intravenosas Pseudomonas 6. Alcoolismo 7. DM 8. Infiltração prévia com CTC intraarticular 9. Úlcera cutânea 10. Trauma 11. Outras causas de ↓ imunidade (câncer, cirrose, uremia) Epidemiologia: – Mais comum que osteomielite, sendo mais frequente em adultos. Porém sequelas mais graves ocorrem em crianças – Predomina no sexo masculino 2:1. – Nas crianças 70% ocorrem entre 1 mês e 5 anos, sendo que metade destas ocorrem antes dos 2 anos – 94% monoarticular: quadril (41%), joelho (23%) – Depois pode acometer tornozelo, cotovelo, punho e ombro. Vias de contaminação: 1. Hematogênica: secundária à bacteremia (IVAS, amigdalite, otite) – mais comum. A clínica é clássica: mãe busca atendimento devido a criança de 2 anos parar de andar no dia anterior, devido quadro de dor em joelho ou quadril. Ao exame a articulação apresenta-se hiperemiada, edematosa e a criança apresenta resistência em deixar o médico avaliar o local. 2. Contiguidade: osteomielite, erisipela e celulite. 3. Disseminação da osteomielite:sobe após 6h de infecção, pico em 2 dias, normaliza após 1 semana de tratamento - mais sensível e mais específico. – Hemocultura: pedir sempre – identifica bactéria em 30-60% dos casos. – Punção articular: sempre realizar se suspeita de AS, antes de iniciar ATB e de preferência guiado por US ou fluoroscopia. Obs.: Chegou um bebê com bloqueio articular, principalmente em quadril e joelho, desconfie de artrite séptica devido a presença de imunossupressão. Critérios importantíssimos Exames de imagem: Obs.: Ajudam a confirmar, mas não são diagnósticos. Lembre sempre dos critérios de Kocher. – Raio X normal nos primeiros dias, evolui com diminuição do espaço pela destruição da cartilagem e, se não tratada adequadamente ocorre destruição generalizada, artrose, osteomielite, perda óssea e luxação. – USG: detecta precocemente pequenas coleções de fluido intra-articular e deve ser realizar bilateralmente para comparativo. – TC: mostra edema, derrame e abscessos, apresentando melhor resolução para estruturas ósseas. – Cintilografia: normalmente mostra área de inflamação, mas pode estar normal nos primeiros dias (24-72h). – RNM: útil em infecções de difícil acesso, sendo melhor resolução para diferenciar infecção óssea e de partes moles. Tratamento - Princípios que devem ser seguidos (basear na idade e fatores de risco) 1. Drenagem adequada (exceto se gogococo) e punção; 2. Antibiótico (empírico) para diminuir efeitos sistêmicos até o resultado das culturas. Após resultados reavaliar o ATB utilizado. Em geral o tempo de uso é de 3 semanas, , EV, por volta de 7-10 dias (VO). H. influenzae, Neisseria e Strepto precisam de menos tempo, geralmente 2 semanas, Estáfilo e BGN precisam de 4-6 semanas. Período maior se quadril ou ombro acometidos, imunocomprometidos ou resposta inadequada. 9 Beatriz Barbosa Transcrição - Ortopedia (14/10/2019) 3. Repouso em posição estável. – Na ortopedia: oxicilina + gentamicina – Quando gonocóccica: ceftriaxone Obs.: Se culturas forem negativas, terapia empírica é continuada. Complicações: – Sepse sistêmica – Artrose precoce – ONCF – Fechamento fisário – Distúrbio de crescimento – Sinovite e Artrofibrose – Rigidez articular – Persistência da infecção – Luxação Prognóstico: – Principal fator: atraso no tratamento. – Não existem resultados insatisfatórios se sintomas presentes há menos de 3 dias. Sinovite Transitório do Quadril Também chamada de coxite fulgaz, quadril em observação e sinovite tóxica. Representa a causa de dor mais comum no quadril e de claudicação não traumática na infância. Acomete principalmente adolescentes, mas a média de idade é de 6 anos, sendo mais comum em meninos e pessoas brancas. Além disso, em 95% dos casos é unilateral o acometimento. Etiologia: Causa específica é desconhecida, porém existe um consenso sobre a relação com infecções recentes, sejam elas virais ou bacterianas, mas principalmente com foco amigdaliano - 30 a 42% casos. Pode ainda ser causada por traumas ou reações de hiperssensibilidade alérgica. Clínica: Obs.: Semelhante à um quadro de artrite séptica, porém, em uma criança saudável, ou seja, não tem queda do estado geral. – Dor aguda monoarticular. – Claudicação e diminuição da ADM. – Membro em flexão e rotação externa. – Febre baixa (raramente > 38°C) – Sintomas podem durar: 1 a 10 dias. É um quadro autolimitado, os sintomas apresentam resolução gradual e completa após 10 dias a 8 sem. Recorrência de 4%-10% e sequelas ou condições associadas são raras e leves. 10 Beatriz Barbosa Transcrição - Ortopedia (14/10/2019) Exames diagnósticos: – Raio X: pode mostrar sombra muscular e edema capsular. – USG: pode mostrar efusão articular, porém não é diagnóstico. – Cintilografia: mostra diminuição da perfusão da cabeça na fase inicial. – Laboratório inespecífico: leucócitos de 10 a 14 000 e VHS próximo de 20 mm - Auxiliam como diagnóstico diferencial. Obs.: O diagnóstico é de exclusão. Tratamento: – Sintomático: repouso até melhora da dor e retorno do movimento e AINES. Articulações sem repouso tem seus sintomas prolongados. 11 Beatriz Barbosa Transcrição - Ortopedia (14/10/2019) Osteoporose Osteoporose é um termo introduzido na Europa no século XIX, para descrever o achado histológico de porosidade do osso. Caracteriza uma doença osteometabólica marcada pela diminuição da densidade óssea, responsável por maiores risco de fraturas. NIH – leva em consideração o comprometimento da força óssea: densidade (70%) + qualidade (30%). Definição pela OMS: Densidade mineral óssea (DMO) igual ou menor que 2,5 desvios padrão, abaixo da média normal para um indivíduo jovem. – DMO: determinada pela massa óssea máxima (adquirida no período de crescimento do osso, ao longo da juventude) e pela perda da mesma ao longo dos anos, devido a fatores externos/ambientais. Epidemiologia: Epidemiologicamente falando, todos nós vamos ter osteoporose. Aproximadamente 50% das mulheres e ¼ dos homens com mais de 50 anos sofrerão alguma fratura relacionada à osteoporose. Relacionado com o aumento da idade e a raça, uma vez que mulheres brancas tem mais chances de fratura osteoporótica. Prevenção: é basicamente a redução dos o riscos de fraturas. Patogênese: As primeiras décadas de vida são essenciais para o aumento do tamanho do esqueleto, ou seja, sua modelagem e aumento da DMO, que tem seu pico por volta dos 18 aos 30 anos. Após esse período, ocorre estabilização e diminuição gradual. Durante a menopausa tem se um diminuição de 25-50% dos níveis de estradiol e estrona, que promovem a perda óssea acelerada, entre 5 e 10 anos, uma vez que são fatores protetores. Desse modo, temos um desequilíbrio entre a formação e reabsorção óssea. Existem alguns fatores determinantes, como a hereditariedade (60-80% dos quadros), doenças que interferem no crescimento e hormônios, fatores ambientais, como exercícios, nutrição, etilismo e tabagismo. Etiologia: – Primária/Idiopática: comum do envelhecimento. – Secundária: mais comum em homens, principalmente devido o alcoolismo, malignidades, uso prolongado de corticoides, fatores hormonais, hereditários, nutricionais, sedentarismo, hematológicas, hematológicas, metabólicas, baixa de cálcio e vitamina D, entre tantas outras possibilidades. Clínica: doença silenciosa – Baixo peso e redução da estatura. – Perda de massa muscular. – Dor devido fraturas, principalmente em coluna vertebral, fêmur proximal, punho e costelas. Diagnóstico Laboratorial: – Hemograma Completo – Função renal, cálcio sérico, TSH, Vit. D, clearence de creatinina e calciúria de 24hs – Testosterona, PTH, eletroforese de proteínas. 12 Beatriz Barbosa Transcrição - Ortopedia (14/10/2019) – Marcadores de metabolismo ósseo: matriz óssea contém 90% de colágeno I e 10% de proteínas não- colágenas – Marcadores de formação óssea: osteocalcina, fosfatase alcalina, propeptídeos – Marcadores de reabsorção óssea: hidroxiprolina urinária, piridinolina, desoxipiridinolina e telopeptídeos Diagnóstico por imagem: – Radiografia: coluna e fêmur proximal. – US quantitativa: calcâneo. – TC quantificada: mede a densidade óssea volumétrica real. Porém de alta exposição à radiação, sendo pouco usada. – RNM. – Densitometria Óssea - padrão ouro. Obs.: Deve ser realizado do lado não dominante. Prevenção: – Medidas não-farmacológicas: atividades físicas (tração e contração), nutrição, evitar tabagismo a álcool e prevenção de quedas, ou seja, acompanhamento multidisciplinar. – Tratamento medicamentoso: diversos, mas essencial saber e receitar cálcio e vitamina D para todos os idosos sempre. 1. Suplementação de Cálcio 500 a 1000mg/dia 2. Vitamina D 400-800UI Obs.: Sempre associar Ca + Vit. D. Obs.: Terapia de reposição hormonal para pacientesque não apresentam contraindicação. Bifosfonatos: geram inibição da reabsorção óssea, diminuindo o risco de fraturas. Mas possui efeitos adversos, como esofagite, dispepsia, diarreia e dores abdominais, fratura patológica. Super importante saber: – Abaixo de -2,5DP: uso de bifosfonato e/ou TRH ou Moduladores Seletivos do Receptor de Estrógeno (SERMs). – Entre -1 e -2,5DP: TRH como prevenção, junto a atividade física, nutrição, evitar tabagismo e consumo de bebidas alcoólicas. – Acima de -1DP: eliminar fatores de riscos. “Não há tratamento específico para a osteoporose, mas sim para cada paciente, consideradas suas condições individuais e comorbidades.”