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1 CEDERJ – CENTRO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR A DISTÂNCIA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DE AULA PARA EAD (MATERIAL DIDÁTICO IMPRESSO) CURSO: Letras DISCIPLINA: Lugar, ambiente, artes. Educação Ambiental. CONTEUDISTA: José Maurício Saldanha Álvarez AULA 6 – Meio ambiente e política verde. História ambiental brasileira I: De 1500 ao processo da Independência, em 1822. META: Descrever as relações ambientais na América Portuguesa, desde o descobrimento quando a colônia tinha uma produção escravista monocultora destinada aos mercados europeus, até o processo da Independência, quando sua inserção na Modernidade industrial o fez passar de colônia a país independente. OBJETIVOS: Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: 1) Reconhecer a política verde e a educação ambiental como práticas que asseguram ações destinadas a preservar e defender o meio ambiente, os ecossistemas e os biomas brasileiros. 2) Descrever como o processo de produção colonial criou uma cultura voltada ao desprezo pelo ambiente e pela vida humana num processo de alta rotatividade. 3) Reconhecer que a América portuguesa produzia, essencialmente, para mercados europeus sem a preocupação de preservação ambiental ou social prospectivo, apesar de algumas práticas indígenas atingiram o equivalente à sustentabilidade. 2 A política verde Os historiadores franceses Pierre Nora e Jacques Le Goff definiram política como “a história das intervenções coerente e voluntária dos homens em todos os domínios onde são resolvidos os seus destinos” (1995:183). E os destinos dos homens mostram-se cada vez mais ligados à questão ambiental. A colocação dela na agenda política mundial, por parte da ONU, ocorreu na mesma época do surgimento de agremiações igualmente distante da órbita dos governos, as denominadas ONGS ambientais. Nos anos 1960, teve início o combate pela preservação do meio ambiente na Europa e nos Estados Unidos. Ele foi travado contra as grandes corporações poluidoras, governos, a imprensa, e correntes de opinião pública, favoráveis aos métodos poluidores. Uma novidade surgiu no campo da política formal e na luta pelo ambiente: os partidos denominados de Verdes. Como parte do movimento ambientalista, possuem um perfil multifacetado lutando pelo emprego de práticas ambientais sustentáveis, e o equilíbrio entre o desenvolvimento industrial e econômico, levando em conta o meio ambiente e as populações. Esse novo sentimento político mostrou-se essencial para estabelecer uma ordem inovadora e participativa nas relações ambientais. Essas agremiações se articulam mundialmente e mantendo agendas comuns. O movimento ambientalista O movimento ambientalista representou a ecologia na prática e o ambientalismo na teoria (Castells, 1999, II, 144). No caso dos Estados Unidos, algumas vertentes ecológicas implementaram medidas radicais, sabotando obras cuja construção prenunciavam danos ambientais. Outras, partiram para um bem-sucedido ativismo, combinando diversas práticas, produzindo relatórios capazes de angariar impacto midiático e exercendo pressões jurídicas. Entre essas Ongs ambientalistas, a que angariou mais evidência midiática e de resultados é a Greenpeace. Essa é a maior e a mais importante organização ecologista do mundo, disseminando sua atuação em inúmeros países. Apesar de seu princípio modesto conta, atualmente, com um orçamento situado em torno de 100 milhões de dólares. Dispõe entre outros equipamentos do navio Guerreiro do Arco-Íris, o Rainbow Warrior. As Ongs e os partidos verdes desejam afirmar uma democracia em bases cidadãs e inclusivas, tornando-se um modelo para a maioria dos movimentos ecológicos (Castells, II, 1999, 156). Desde seus inícios, a política verde, por meio dessas organizações, alertou a sociedade para o debate ambiental, para a importância da política e da sustentabilidade. Atualmente há, na Europa, uma crescente frente verde surgida no ano de 2004, na cidade de 3 Roma, congregando cerca de 32 partidos nacionais, incluindo membros e não membros da União Europeia. Sua ação se materializa num leque amplo de práticas designadas como políticas verdes. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Verde_Europeu Box de Curiosidade Os indivíduos que a Organização das Nações Unidas denomina de “tesouros humanos vivos (...) são pessoas que possuem um grau muito alto de conhecimento e habilidades necessárias para realizar ou recriar elementos específicos do patrimônio cultural intangível, ou o patrimônio vivo (que) consiste em práticas e expressões, bem como os conhecimentos, habilidades e valores associados, que as comunidades e os grupos reconhecem como parte de seu patrimônio cultural. Esta herança é transmitida de geração em geração, na maior parte oralmente. É constantemente recriado em resposta a mudanças no ambiente social e cultural com indivíduos, grupos e comunidades possuidores de identidade e continuidade de práticas para um desenvolvimento sustentável. O texto da ONU normatizando o que são os tesouros humanos vivos pode ser encontrado em: https://ich.unesco.org/doc/src/00031-EN.pdf Pescadores artesanais na localidade do Baixo Grande, em São Pedro da Aldeia, Laguna de Araruama, RJ. Foto do Autor. A política nacional de resíduos sólidos Esta política visava encerrar, até o ano de 2014, os principais lixões nos municípios brasileiros, mas foi retardada pela carência de recursos. No dia 2 de agosto de 2010, foi sancionado pelo presidente Lula, a Lei 12.305, a chamada política nacional de resíduos sólidos que: “Prevê a prevenção e a redução na geração de resíduos, tendo como proposta a prática de hábitos de consumo sustentável e um conjunto de instrumentos para propiciar o aumento da reciclagem, da reutilização dos resíduos sólidos (aquilo que tem valor econômico e pode ser reciclado ou reaproveitado) e a destinação ambientalmente adequada dos rejeitos (aquilo que https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Verde_Europeu https://ich.unesco.org/doc/src/00031-EN.pdf 4 não pode ser reciclado ou reutilizado). Institui a responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos: dos fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, do cidadão e titulares de serviços de manejo dos resíduos sólidos urbanos, da Logística Reversa dos resíduos e embalagens pós-consumo. Cria metas importantes que irão contribuir para a eliminação dos lixões e institui instrumentos de planejamento nos níveis nacional, estadual, microrregional, intermunicipal, metropolitano e municipal; além de impor que os particulares elaborem seus Planos de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (...), além disso, os instrumentos da PNRS ajudarão o Brasil a atingir uma das metas do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, que é de alcançar o índice de reciclagem de resíduos de 20% em 2015.” http://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2014/08/entenda-o-plano-nacional-de-residuos- solidos-n-9118.html Fim do Box Os verdes no Brasil Nos anos 1970, sugiram em nosso país ações de luta ambiental desenvolvidas por José Lutzemberg no Rio Grande do Sul, Augusto Ruschi, no Espírito Santo, Fernando Gabeira, no Rio de Janeiro, e Chico Mendes, no Acre. Enquanto as recém-criadas entidades ambientalistas, as chamadas ONGs, iniciaram seu trabalho, surgiu o Partido Verde, congregando políticos militantes, tendo como inspiração as ações dos congêneres europeus. A Constituição Brasileira de 1988 consagrou todo um capítulo ao meio ambiente impondo como elemento essencial, a produção de um Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente (RIMA), a fim de aprovar e viabilizar qualquer projeto econômico ou de infraestrutura, seja privado ou público. Nesse meio tempo, o Ministério da Educação instituiu os Parâmetros Curriculares Nacionais, inserindo na grade curricular temas, lições e ensinamentosde história ambiental. (Henrique Martinez). Box O pensador francês Felix Guattari acredita que “a ecologia ambiental, tal como existe hoje, não fez senão iniciar e prefigurar a ecologia generalizada que aqui preconizo e que tem por finalidade descentrar radicalmente as lutas sociais e maneiras de assumir a própria psique. O movimento ecológico atual tem certamente muitos méritos, mas penso que, na verdade, a questão econômica global é importante demais para ser deixada a algumas de suas correntes arcaizantes e folclorizantes que, às vezes, optam deliberadamente por recusar todo e qualquer engajamento político em grande escala da conotação de ecologia que deveria deixar de ser 5 vinculada a imagem de uma pequena minoria de amantes da natureza e de especialistas de diploma” (Guattari, 2015, p. 36). Fim do box Atividade 1. Atende aos objetivos 1 e 2. Responda as seguintes perguntas: 1. Como você definiria o movimento ambientalista? 2. Estabeleça uma relação entre a sustentabilidade e a política de ativismo ambiental. Respostas comentadas 1. A questão ambiental surgiu na agenda política mundial impulsionada pela ONU, juntamente como aparecimento de agremiações denominadas ONGS ambientais. Desde 1960, na Europa e nos Estados Unidos, travou-se um embate contra empresas poluidoras, governos, a imprensa e correntes de opinião pública. Juntamente com os denominados partidos verdes, nesse processo, entre as Ongs, destaca-se a Greenpeace. 2. Nos anos 1970, a defesa da questão ambiental se consolidou com as atividades de alguns pioneiros locais, como José Lutzemberg, Augusto Ruschi, Fernando Gabeira e Chico Mendes. As recém-criadas entidades ambientalistas, as ONGs, o seguimento do Partido Verde, e um capítulo inserido na Constituição, iniciaram a defesa dos recursos ambientais, enfatizando a mudança das matrizes e a criação de um curriculum ecológico. Retorno ao despertar ambiental O movimento ambientalista surgido nos Estados Unidos no século XIX, como lemos na aula 3, se deveu à pregação de indivíduos como o naturalista norte-americano, David Henry Thoreau (1817-1862). Residindo na Nova Inglaterra, visitou o estado do Maine, que ainda hoje é quase totalmente coberto por matas. Thoreau, após se afastar do litoral civilizado do estado, em 1857, procurou no interior, locais inacessíveis e presumivelmente virgens: “Olhei com reverência para o chão em que estávamos pisando, e para ver o que os Poderes tinham fabricado ali, para ver a forma, o estilo e o material do seu trabalho. Vi aquela terra da qual já ouvimos falar, feita do Caos e da Noite Ancestral. Não se tratava de um jardim humano, mas do planeta intocado. Não era um gramado, um pasto, nem uma várzea, nem um bosque, nem uma campina, nem terra arável, nem um deserto inútil. Era a superfície fresca e natural do planeta Terra, como foi feita para todo o sempre...” (Turner, 2000, 254). 6 Albert Bierstadt: Entre as montanhas da Sierra Nevada. Escola do Rio Hudson, circa 1868.O tipo de paisagem que seduzia Thoreau. Fim do Box História ambiental do Brasil 1ª Parte A América Portuguesa: Achados, colonização e desastres ambientais. A história das relações ambientais no Brasil se inicia por um acontecimento matriz, capaz de mudar dramaticamente a vida na América e no Brasil: seu achado por europeus. Como explicou Walter Mignolo, a descoberta ocorreu dentro de um amplo movimento de abertura da Europa renascentista em direção a outros continentes destinados a seu capitalismo mercantil (Mignolo,1995, p.vi.). Já para Hardt e Negri, o movimento renascentista se encantou diante da beleza da terra desconhecida e dos seus habitantes, mas logo mudou drasticamente para a exploração do ambiente americano e de suas populações (Hardt Negri, 2001). A descoberta da América, um continente totalmente ignorado, se deve a comprovação empírica das ideias de Cristóvão Colombo. Assim sendo, para alguns autores, ela não existia. A América teve de ser “inventada” (O’Gorman, 1992,p. 97). Sua natureza luxuriante e de paraíso bíblico, como sugere o livro magistral de Buarque de Holanda, parecia ser uma Visão do Paraiso (Buarque de Holanda, 1992, passim). Em seguida, o Novo Mundo deixou de ser um Paraíso Terrestre para ser um empreendimento de alta lucratividade. O resultado ambiental, mas, principalmente humano, resultou, como escreveu o jesuíta Antonil, no inferno dos negros, no paraíso dos mulatos e no purgatório dos brancos. A colonização na abertura dos tempos modernos “foi um fenômeno global no sentido de envolver todas as esferas da existência, mas seu eixo propulsor situava-se no plano político e econômico” (Novais, 18). A América Portuguesa, durante o processo colonial de 1500 até 1822, conheceu elevadas taxas https://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Bierstadt 7 de destruição ambiental que corresponderam ao avanço da modernidade e de sua conexão com as redes da economia mundial. Por World_Topography.jpg: NASA/JPL/NIMAderivative work: Uxbona (talk) - World_Topography.jpg, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10344087. Mapa com as tramas mercantis da primeira etapa da mundialização. A economia colonial iniciou seu processo de produção com altas taxas de destruição ambiental, gerenciada por uma pequena população livre, composta por colonos europeus. Essa situação inaugurou o que Milton Santos denominou de “produção externalizada”, isto é, a produção feita para satisfazer as necessidades e carências da economia europeia. Para o filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), no século XVI, o “descobrimento de extensas quantidades de ouro e prata nas Américas, a cruzada de extermínio, a escravização e sepultamentos nas minas da população nativa, o início da captura e saque da conquista das Índias Orientais, a conversão do continente africano em zona de caca de escravos negros, são o elemento que registram o primórdio da era de produção capitalista” (MARX, III, 320). Colonização, predação e manejo. A economia colonial foi ordenada desde a Europa. Uma colônia devia complementar em tudo a metrópole, no nosso caso, Portugal. Uma colônia não possuía autonomia e seu mercado interno, apesar de existir, não competia com a produção para o exterior. Assim sendo, conforme o mecanismo externo era acionado, um novo produto era desenvolvido, desprezando o ambiente, a população local. Essa situação levou a sociedade que se implantava a conhecer uma alta taxa de mobilidade. Tão logo se esgotava uma fronteira econômica, ou um produto, os colonos seguiam levando seus escravos para um território onde se iniciava uma atividade econômica nova. Para Alfredo Bosi, “A barbarizarão ecológica e populacional acompanhou as marchas colonizadoras da zona canavieira entre nós, tanto quanto no sertão bandeirante, daí as queimadas, a morte ou a preação dos nativos” (Bosi, 1994, 22). https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=10344087 8 Os colonos europeus desenvolveram um processo eficaz de exploração ambiental baseado nas ferramentas e práticas trazidas da Europa. O grande problema é que essas práticas, com frequência, afetavam gravemente o ambiente. É bem provável que os ameríndios conhecessem um eficaz manejo de solos, pois analisando as práticas pelo grupo Kuikuro, do alto Xingu, sabe-se que eles distinguem os tipos de solo segundo o revestimento florestal que os cobre. São capazes de distinguir as florestas primárias com densa cobertura florestal da floresta secundária, que cresce nas capoeiras, áreas já abertas por ameríndios para cultivos anteriores. Assim sendo, os Kuikuro levam em conta os meios orgânicos e inorgânicos (Berta Ribeiro 1992, 111). Em entrevista recente o botânico, e agora ecologista britânico Ghillean Prance, de 81 anos, relata sua experiência própria após ter vivido 50 anos na Amazônia. Alertando para a dramáticaperda da diversidade, sugere que sigamos a experiência ambiental das tribos indígenas: “Se você olhar o mapa da floresta, verá que as áreas onde ainda vivem os índios são as mais conservadas. Muitas das tribos não destroem grandes áreas e usam a floresta de forma sustentável. Essa é uma coisa que deveríamos aprender com eles, os métodos sustentáveis de manejo da floresta.” https://www.msn.com/pt-br/noticias/meio-ambiente/mudan%C3%A7a-clim%C3%A1tica- %C3%A9-amea%C3%A7a-%C3%A0-biodiversidade-diz-bot%C3%A2nico/ar- BBM6Stc?ocid=mailsignout O idioma tupi-guarani como registro do ambiente brasileiro Ao descrever as práticas coloniais e as ameríndias não devemos esquecer como escreveu Hannah Arendt, que o que resta é a linguagem. O idioma original da Pindorama, o tupi-guarani, tinha uma família linguística complexa que ainda dispõe de falantes no Brasil (http://www.dicionarioinformal.com.br/tupi-guarani/). Na América Portuguesa haviam poucas mulheres europeias. As famílias brasileiras dos primeiros séculos resultavam do matrimônio entre portugueses e índias. Segundo Caldeira, desposar uma indígena era importante para um colono, pois os portugueses adquiriam parentela local e estabeleciam alianças, enquanto sua companheira, conhecedora da terra, o ajudava na sobrevivência no meio desconhecido e hostil (Caldeira, 2017, 33). Resultou, desta forma, que o tupi-guarani se tornasse mais falado que o português. Os jesuítas, nos séculos XVI, se referiam ao tupi-guarani ou a língua geral, como “o nosso grego”. Esse idioma traduzia o ambiente e seus significados sendo falado até o século XVIII, quando foi sendo substituído pelo português. Na vizinha República do Paraguai, o http://www.dicionarioinformal.com.br/tupi-guarani/ 9 Guarani é o segundo idioma ao lado do espanhol. É regularmente ensinado e falado enquanto as estações de rádio e de TV paraguaias transmitem em Guarani. Uma lástima é que ele não figure na lista de idiomas do Google. No célebre romance de Afonso Henriques Lima Barreto (1881-1922), Triste Fim de Policarpo Quaresma, o personagem principal, o Major Quaresma, um erudito amanuense que trabalhava no Arsenal de Guerra e sabia o tupi-guarani, redigiu o esboço de um relatório nesse idioma. O documento, por equívoco, foi encaminhado aos superiores que o desconheciam e que o levou a ser classificado como redigido num idioma estrangeiro. Box O jornalista e erudito niteroiense Luiz Antônio Pimentel (1912-2015) redigiu um ensaio intitulado Topônimos tupis de Niterói. Hoje falamos o português, mas com cerca de 200 palavras indígenas incorporadas. Vejamos algumas palavras: Caa: mato; Guaratinguetá: reunião de pássaros brancos; Ibi: terra; Ita: pedra (Itaúna); Itajubá: pedra amarela (ita, ajubá); Itaúna: pedra preta (ita, una). Logo abaixo, um site para pesquisar e contribuir, quem para permitir ao aluno se deslocar no Rio de janeiro e em são Paulo, compreendendo os nomes dos bairros como uma designação ambiental, há muito esquecida: http://www.dicionariotupiguarani.com.br/dicionario/anhangabau/ Fim do Box Voltando à economia e sociedade, veremos que na agricultura da América Portuguesa era baixo o grau de reinvestimento, enquanto a permanência de uma economia predatória esgotava as terras. Segundo Sergio Buarque de Holanda, “A regra era irem buscar os lavradores novas terras em lugares de mato dentro e, assim, raramente decorriam duas gerações sem que uma mesma fazenda mudasse de sítio ou de dono (...). Como a ninguém ocorria o recurso de revigorar os solos gastos por meio de fertilizantes, faltava estímulo a melhoramentos de qualquer natureza” (Holanda, 1963, 27). Para Warren Dean, a história do ambiente no Brasil tem sido a da floresta tropical narrada como uma “história de exploração e destruição.” (Dean 23). Box A viagem das plantas nutritivas A descoberta da América multiplicou as possibilidades alimentares no mundo. O historiador francês Fernand Braudel (1902-1985), em sua obra Civilização material, economia e capitalismo. Séculos XV –XVIII, discorre sobre as revoluções alimentares decorridas da viagem das plantas: 10 “Após a descoberta da América, porém, estes movimentos multiplicaram-se, aceleraram-se. As plantas do Velho Mundo chegaram ao Novo, de um lado, o arroz, o trigo e a cana de açúcar, o cafeeiro; inversamente, as do Novo chegam ao Velho: o milho, a batata, o feijão, o tomate, a mandioca, o tabaco (...). Na Europa e em outras regiões, o interesse dos pobres abrem-lhe as primeiras portas; depois, o crescimento demográfico faz delas necessidades imperiosas. Aliás, se a população do mundo aumentou, não será em parte por causa do aumento da produção hortícola que as novas culturas (americanas) permitem?” (Braudel, 144). Fim do box O açúcar e a colonização A colonização da América Portuguesa teve no açúcar o principal e mais lucrativo gênero colonial durante os séculos XVI e XVII. Os portugueses vinham de uma experiência bem sucedida de plantio e comércio com os holandeses, distribuidores do produto na Europa e que investiram capitais nos engenhos nordestinos (Furtado, 1970,10). Durante o século XVII, a grande riqueza gerada pelo açúcar, transformou as cidades de Salvador e Recife em metrópoles ricas e prósperas. A lavoura açucareira no Nordeste empregou os massapés (ou massapês) litorâneos, cujos solos eram de incrível fertilidade. O ensaísta Gilberto Freire (1900-1987), autor de Casa Grande e Senzala, assim descreveu esse tipo de solo: “O Massapê (...) tem profundidade. É terra doce sem deixar de ser terra firme: o bastante para que nela se construa com solidez engenho, casa e capela. Nessas manchas de terra pegajenta foi possível fundar-se a civilização moderna mais cheia de qualidades, de permanência e ao mesmo tempo de plasticidade que já se fundou nos trópicos. A riqueza do solo era profunda: as gerações de senhores de engenho podiam suceder-se no mesmo engenho; fortalecer-se; criar raízes em casas de pedra-e-cal; não era preciso o nomadismo agrário que se praticou noutras terras, onde o solo era menos fértil, esgotado logo pela monocultura, fez do agricultor quase sempre um cigano à procura de terra virgem”. Conforme a guerra travada pelos holandeses contra espanhóis e portugueses, prosseguia e dificultava a produção nordestina, no Rio de Janeiro, o açúcar começou a ser plantado em maior escala no recôncavo da Baia da Guanabara. Os plantios seguiam as práticas coloniais usuais, sem sustentabilidade. Quando um trecho da mata se esgotava, o plantador derrubava ou queimava mais floresta e ia em frente (Dean, 96). A mão de obra escrava, usada nessas plantations, era inicialmente indígena. Na segunda metade do século XVII, a elevada lucratividade do açúcar permitiu aos plantadores bancar o custo elevado da 11 importação de escravos africanos, comércio infame que se converteu em lucros para as coroas espanhola e portuguesa. Box O padre João Antônio Andreoni publicou em 1711, um livro considerado perigoso pelas autoridades portuguesas, justamente pelas preciosas informações sobre as produções coloniais que passava a estrangeiros, que eram proibidos no império português. Na obra intitulada Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, o jesuíta parece afirmar que para ser senhor de engenho, era preciso ter um saber ambiental significativo para não perder o empreendimento: “Se o senhor de engenho não conhecer a qualidade das terras, comprará salões por massapês e apicus por salões. Por isso, valha-se das informações dos lavradores mais entendidos em atenção somente a barateza do preço, mas também a toda as conveniências que se hão de buscar para ter fazenda com canaviais, pastos, águas, roças e matos; e, na falta destes, comodidade para ter a lenha mais perto que puder ser, (...) muitos vendem as terras que tem por cansadas, ou faltas de lenha” (142-143).Fim do Box Atividade 2. Atende aos objetivos 2 e 3. Responda as seguintes perguntas: 1. Comente as transformações sofridas pelo ambiente da América Portuguesa para se ajustar como espaço de produção dos gêneros, cujos altos preços nos mercados europeus tornava rica a metrópole. 2. Reflita e compare a produção agrícola desenvolvida pela colonização europeia e a praticada pelos povos da floresta. Respostas comentadas 1. O ingresso da América Portuguesa, nas tramas do capitalismo mercantil europeu, substituiu a visão do paraíso pela do lucro. A produção do açúcar empregou o capital e distribuição holandesa, produzindo extensivamente, pois a terra era tão abundante que não valia o custo de recuperá-la. Quando a área se esgotava, ocupava-se outra e mais outra. O trabalho não emprega camponeses pelo alto custo a ser pago em salários, mas adotou-se o escravismo que o racionalismo renascentista tornou um excelente negócio em rede, pois ganhavam os traficantes e a coroa que arrecadava impostos. A rotatividade da mão de obra escrava era grande. 12 2. Os ameríndios não eram regidos pelo espírito do lucro mercantil. Ao plantarem o faziam em trechos de mata limitada visando apenas o consumo de sua comunidade. Praticavam a queimada, mas conheciam um eficaz manejo de solos, distinguindo as florestas primárias com densa cobertura florestal da floresta secundária; seu manejo agrícola e ecológico comportava estratégias adequadas à produção da subsistência e à conservação do solo, produzindo plantas nutritivas e que servem até hoje para alimentar a humanidade, como a mandioca, o milho ente outras. O século XVII brasileiro Fundada em 1567, a cidade do Rio de Janeiro, inicialmente, ocupou o alto do Morro do Castelo, hoje desaparecido. Desde os finais do século XVI, a população da cidade cresceu e desceu o Morro, ocupando a planície costeira e arenosa, cujas lagoas foram drenadas e aterradas. A cidade expandiu-se no século XVII ocupando o recôncavo da baia, desde São Gonçalo até São Cristóvão. Nessa região, uma rede de engenhos se disseminou ao longo dos rios por onde descia sua produção e as pessoas circulavam em canoas e portos. Uma crise dinástica inesperada ocorreu quando o rei português, D. Sebastião (1554-1578), morreu em batalha no Marrocos, em 1578, deixando vago o trono. O reino português e seu império passaram ao às mãos do tio do defunto rei, Felipe II da Espanha. Começou o domínio espanhol que só terminará em 1640. Como os espanhóis eram inimigos dos holandeses, que controlavam o mar e o comércio do açúcar, e o distribuíam na Europa, eclodiu uma guerra entre ambos. Os holandeses não aceitaram perder o rico nordeste brasileiro para seus adversários espanhóis, e iniciou-se uma longa guerra que se estendeu até 1648 (Furtado, 1970,16-17). Mapa de Teixeira Albernz I, mostrando a cidade de Salvador da Bahia em 1625. https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6315228 https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6315228 13 A mineração, as luzes e o século XVIII. A América portuguesa no século XVIII viu a lucratividade do açúcar despencar e deslumbrou-se com a descoberta de ouro e diamantes nas Minas Gerais. Os bandeirantes, que no século anterior devassaram os sertões para escravizar indígenas, em áreas vastas que iam de São Paulo até o Paraguai, voltaram-se para procurar ouro e diamantes. Nas duas últimas décadas do século XVII, algumas bandeiras garimpando pela região das Minas Gerais, onde hoje estão as cidades de Mariana e Ouro Preto, descobriram as primeiras pepitas. Cidade de Ouro Preto, foto do autor. Portugal, ao longo do século XVIII, arrecadou enorme quantidade de ouro e diamantes como um entreposto de onde o metal precioso passava para a Inglaterra (Furtado, 1970, 34). A extração desses minerais resultou em grandes e graves desastres ambientais nos arredores das principais cidades mineradoras da América Portuguesa. Na região se consolidou um núcleo de cidades onde a população, (ao contrário de muitas cidades litorâneas), residia próximo das minas e catas onde trabalhava. Eram cidades como Ouro Preto, a antiga Vila Rica, Sabará, Serro Frio, Mariana, São João del Rei. Nos trabalhos da mineração muitos africanos, originários da Costa do Marfim, trouxeram seu conhecimento metalúrgico. (Dean,113). O lado da prosperidade das primeiras décadas do século XVIII, surgiram os primeiros indícios do elevado custo ambiental da descoberta de ouro e diamantes. A exploração descontrolada desses metais preciosos era realizada predatoriamente e com viés mercantilista. Inicialmente empregava-se a exploração de bateia, realizada junto às margens dos rios, uma atividade insalubre que logo esgotou o metal. Em seguida, alguns mineradores empregaram 14 técnicas hidráulicas mais caras e destrutivas (St. Hilaire, 115). Desviou-se as águas dos rios, causando desbarrancamento das margens e o acúmulo de cascalho e rejeitos, tornando os rios lamacentos e assoreados. As matas locais que forneciam enorme quantidade de lenha e material de construção foram destruídas. O solo empobrecido afastava a produção de subsistência, obrigando os mineiros a dependerem de alimentos que vinham de longe. Diante da topografia difícil, as construções edificadas empregavam aterros para compensar os desníveis (Vasconcellos, p. 69). Os progressistas centros urbanos mineiros do século XVIII localizavam-se “relativamente perto uns dos outros e, além de sua população estabelecida, logo se criou a sua volta um complexo de produção de subsistência destinada a abastecê-lo”, que chegou até Campos dos Goitacás (Maxwell, p. 109). A riqueza da mineração criou condições para apoiar uma vida social mais refinada, estimulando a cultura. Massaud Moisés afirma que o tempo do arcadismo se iniciou em 1768, com a obra do poeta Cláudio Manoel da Costa (1729-1789) (Moisés, 64). Se por um lado os abastados compravam escravos músicos por fortunas, dessa mesma elite surgiram poetas árcades, enquanto compositores negros e mulatos produziam partituras musicais por encomenda. As mesas das irmandades, como a de São Francisco de Assis, financiava a construção de igrejas, talhas e pinturas. Mineração e diamantes em Serro Frio, 1770, Carlos Julião. Como Saint Hilaire notou, décadas depois, era fácil seguir a mineração, bastava acompanhar seu rastro destruidor (Citado por Paulo Bertran, 1991, 42). “A terra mostrava-se ferida, desventrada, substituída por uma camada de turfa cimento e uma vegetação estéril e 15 maninha, inadaptável à agricultura. A região situada nos arredores de São João del Rei se tornou uma região desértica. O trabalho intensivo das encostas provocou enxurradas e assoreamento nos rios. A obtenção aproximada de uma grama de ouro, teria custado cerca de um metro cúbico de material de ganga. A quantidade aproximada de ouro obtida durante ao longo do século XVIII teria consumido cerca de 4 mil km2 de mata atlântica” (Dean, 115). O Rio de Janeiro, sede do vice-reinado. O Rio de Janeiro na primeira metade do século XVIII tornou-se o principal porto escoador de ouro e diamantes. Sua importância estratégica fez com que ela abrigasse um grande número de militares e prepostos da coroa portuguesa, por causa das guerras do Prata e da administração das Minas Gerais. Em 1763, o vice-reinado foi transferido de Salvador para o Rio, e o centro do poder da colônia, deslocado para o centro sul. A população na cidade cresceu ocupando novas áreas, sofrendo igualmente problemas de abastecimento de água, atendidos pela construção de aquedutos e chafarizes. A mineração em Goiás A capitania de Goiás na época da mineração tornou-se um cenário em transformação, pois a deterioração ambiental é cumulativa, fazendo com que sucessivas crises se associem (Bertran, 1991, 43). Até a própria população empregada na atividade se reduzia.Em vinte anos, escreveu o naturalista francês St. Hillaire, uma geração de garimpeiros e comerciantes ficou reduzida a um terço do que dispunha a geração anterior, “era em pouco tempo reduzida à pobreza e a doença”. Mapa do século XVIII de Mato Grosso, Wikipédia. 16 A cidade de Goiás, iniciada como um arraial dedicado a Santana, foi elevada a categoria de cidade em 1748. Desde 1770, o ouro que era abundante, escasseou ao mesmo tempo em que ocorriam os primeiros fenômenos climáticos adversos. Logo a região era assolada por estiagens prolongadas, e que resultaram no declínio da produção aurífera, provocando o êxodo dos seus habitantes livres e escravos, para regiões mais prósperas. Os rios em Goiás eram fundamentais para a circulação num século XVIII sem estradas. Eles permitiam o desbravamento bandeirista, conduziam pessoas, bens e mercadorias. Suas águas eram força motriz na atividade mineradora lavando toneladas de cascalho (Boaventura, 2007, 35). O rio Vermelho sofreu com queimadas nas matas ciliares e o uso do mercúrio (Cardoso, 312, 2014). Quase um século depois, em 1838, uma enorme enchente assolou e inundou a cidade de Vila Boa de Goiás. No ano de 2001, uma enchente catastrófica destruiu quarenta casas históricas com perda total danificando muitas outras. Essa tragédia ocorreu quando a cidade foi agraciada pela UNESCO com o título de Patrimônio Mundial. A chegada da família real e o contexto da independência Na Europa, a situação política se modificou rapidamente após a revolução francesa que terminou opondo a Grã-Bretanha, baluarte do conservadorismo liberal, à França revolucionária. A ascensão de Napoleão Bonaparte levou a uma guerra de batalhas, mas igualmente comercial, contra a Grã-Bretanha. Portugal ficou ao lado de sua aliada contra a França napoleônica que, em represália, invadiu o país. A família real, apoiada pela marinha inglesa, se transmigrou para o Brasil. Com sua chegada terminou o período colonial. O Brasil deixou de ser colônia e sediou um império europeu, abrindo seus portos. Carta régia declarando abertos os portos no Brasil em 1808. Biblioteca Nacional. Wikipédia. 17 A mediação entre as plantas: novas viagens intercontinentais. A necessidade dos britânicos de diversificar sua produção agrícola no ultramar levou a criação de um laboratório destinado a aclimatar plantas de diferentes partes do mundo: o Jardim botânico de Kew. Esse complexo de estufas, jardins e laboratórios, datavam do século XVIII. Ele foi um bem sucedido projeto de poder britânico, envolvendo atividades científicas e dando suporte à política imperial, proporcionando lucros e triunfos para a economia britânica. Desde 1770, que a política da coleta de espécimes exóticos para aclimatação era uma forma de biopoder desenvolvido pela Grã-Bretanha. Tratava-se de um sistema de coleta e transferência de espécies lucrativas, que redundou em conhecimentos e riquezas para seu país. Eram operações complexas que contavam com apoio do Estado, em estreita cooperação com o Almirantado, empregando funcionários reais treinados em Kew. Foram criados outros jardins botânicos britânicos em Madras, Índia, São Vicente, Calcutá, Santa Helena, Jamaica, Cidade do Cabo, e Trinidad Tobago (Martins, 106). Também a França desenvolvia política similar à inglesa desde o jardim botânico real, em Paris. Realizando experiências nas ilhas Maurício e no Oceano Índico, transplantaram espécies de um bioma tropical para outro bioma tropical (Luciana Martins, 106). Atividade 3. Atende aos objetivos 2 e 3. Responda as seguintes perguntas: 1. Explique como a exploração aurífera do século XVIII constitui a principal atividade econômica da colonização, enriquecendo a metrópole. 2. Relate a ocorrência da viagem das plantas e sua aclimatação e inserção na produção mundial de alimentos? Respostas comentadas 1. A América Portuguesa no século XVIII abandonou atividades econômicas, como o açúcar, devido ao esgotamento das terras, e a concorrência holandesa. Na busca de riquezas minerais como ouro e diamantes, os bandeirantes paulistas, que conheciam a terra os encontraram nas Minas Gerais. Nesta região, onde hoje está a cidade de Ouro Preto, se consolidou um núcleo de cidades prósperas nas quais a população era fixa e residia junto às minas e catas. O Rio de Janeiro tornou-se o principal porto escoador de ouro e diamantes, que a metrópole arrecadou 18 ao longo do século XVIII, muito embora ela se tenha tornado um entreposto onde o metal precioso passava às mãos da Inglaterra. 2. As plantas viajam, desde muito tempo, e algumas espécies se adaptam aos novos biomas sem grandes dificuldades, outras necessitam de aclimatação adequada. Desde a descoberta da América, uma enorme quantidade de plantas deixou o Novo Mundo, rumo a outros continentes, procurando atender interesses do capitalismo. Um dos laboratórios mais bem sucedidos neste processo foi o Jardim botânico de Kew, na Inglaterra, um projeto de biopoder imperial britânico, envolvendo atividades científicas, que fornecia suporte permitindo lucros para a economia britânica. Instituições similares foram criadas em suas colônias, enquanto a França desenvolvia uma política semelhante, aclimatando e transferindo plantas para outros biomas. O Brasil, como o Reino Unido, terá o Jardim Botânico no Rio de Janeiro, desenvolvendo atividades similares. Brasil, Reino Unido a Portugal e Algarves. O Rio de Janeiro tornou-se a capital desse império português mundial e, obviamente, não estava preparada para essa função. O resultado foi um crescimento vertiginoso da cidade que recebeu imigrados portugueses, além de brasileiros vindos de outras regiões. Graças a abertura dos portos, e dos tratados de comércio, chegaram inúmeros muitos estrangeiros, comerciantes, refugiados, diplomatas e cientistas (Neves e Machado, p. 45). O Reino Unido e o Brasil na posição central nas comunicações marítimas do império português. Wikipédia. Com isso, a cidade dinamizou seu território e incorporou velozmente novos bairros, modificando vagarosamente alguns costumes. A natureza, porém, era o grande atrativo que impacta a todos os que entravam pela baia da Guanabara. Inúmeros naturalistas europeus, que vieram em pesquisa ao Brasil, realizaram atividades que hoje talvez descrevêssemos como pirataria. Um grupo de britânicos que estava no Rio de Janeiro coletando vegetais, em 1814, recebeu dos seus superiores a seguinte diretriz: 19 “Vocês deverão empenhar-se em coletar, nas vizinhanças da cidade, numa distância a ser percorrida a pé, sementes e folhas de todas as plantas não existentes nas coleções reais de Kew que tiverem a sorte de encontrar; entretanto, deverão evitar expor-se ao calor abrasador do clima, coletando durante as manhãs e noites, passando a parte quente do dia separando e arrumando as amostras, empacotando as sementes etc., e não deverão, de modo algum, confiar no vigor de sua juventude, na resistência de sua constituição , mas diligentemente conformar-se às práticas dos nativos, evitando os perigos do clima e os riscos de visitar as regiões insalubres” (Martins, 108). Box No passado, Portugal proibia a presença de estrangeiros no Brasil exercendo uma política de sigilo (Bicalho 2003, 109). A chegada da Família Real mudou esse quadro conforme assinala o célebre naturalista francês do século XIX, Fernand Denis: “Mais que isso, por espaço de cento e cinquenta anos, só Pison, Barléu e os antigos viajantes do século XVI, podem ser consultados acerca do seu estado comercial, da sua geografia e produções: uma política absurda proíbia que estrangeiros se aproximassem do Brasil (...). Em poucos anos as coisas mudaram muito, sem dúvida, e os brasileiros são os primeiros a solicitar as Luzes, que lhes negava um governo que procurava deixá-los na ignorância. Desde o princípiodo século atual, o Brasil tem sido visitado em todas as direções pelos mais ativos e instruídos viajantes” (Denis, 1980, p.66 ). Fim do Box A valorização econômica O Reino Unido adotou políticas ambientais alinhadas, ao menos no papel, com o que se fazia na Europa. D. Joao VI, seguindo essa orientação mercantilista, instituiu o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, cuja atividade principal era aclimatar de plantas, vindas do Império Português, para serem adaptadas de forma lucrativa. A criação deste estabelecimento no Rio de Janeiro deu início a um tímido processo de valorização da Mata Atlântica. Mas, após a Independência, em 1822, os brasileiros abandonaram, segundo Warren Dean, o interesse em investigar e racionalizar o uso da floresta (Dean, 159). Ao mesmo tempo, os povos que a habitavam, ou eram integrados, ou simplesmente exterminados, perdendo-se um importante saber não letrado. Durante a vigência do Reino Unido, muitos brasileiros da elite local foram colocados em postos chave da administração, enquanto o comércio floresceu graças à abertura dos portos. 20 O processo da Independência Durante a vigência do Reino Unido, os proprietários brasileiros vendiam seus produtos sem passar por intermediários portugueses, ingressando na economia da Revolução industrial. Essa situação de autonomia americana resultou desprestígio e empobreceu a elite portuguesa que desencadeou, em 1820, uma revolução liberal na cidade do Porto, determinando à Família Real, o regresso à Europa enquanto tramava a volta do Brasil à condição de colônia. Após o retorno da Família Real, o príncipe D. Pedro, que permaneceu no Brasil, fez a independência com apoio popular e das elites. A independência não foi, no entanto, um projeto unânime. Em determinadas províncias, especialmente ao norte, no Maranhão, por exemplo, onde havia mais ligação com Portugal do que o resto do país, as elites oscilavam em sua lealdade. Em abril de 1821, as Cortes na metrópole, declaram que as províncias brasileiras não mais deviam obediência ao Rio de Janeiro mas, após o Fico, era irreversível o rompimento. Apesar da disposição de muitos brasileiros em separar-se da metrópole, as elites roubaram a independência do povo. O rompimento definitivo foi realizado sob a forma de um compromisso. Enquanto D. Joao VI reinava em Portugal, seu filho, D. Pedro I, governava o Brasil. As elites farão uma independência sem democracia, sem república, sem classes médias, sem industrialização. Procurarão frear o liberalismo, adotando uma forma monárquica de governo. Mantiveram o escravismo em suas fazendas de café. Ampliaram seu poder mantendo o enorme país unido, tendo como foco da autoridade central a cidade do Rio de Janeiro (Neves e Machado, 56). Atividade final. Atende ao objetivo 3. Descreva como a chegada da Família Real implicou num processo de inserção do Brasil, nos mercados mundiais, na época da revolução dual e levou à Independência. Resposta comentada A chegada da Família real portuguesa extinguiu o estatuto de colônia, abriu os portos ao comércio liberal, e as novas medidas levaram o Brasil a se tornar a cabeça do império português como um Reino Unido. Os planos de D. João VI, com uma orientação mercantilista, instituiu o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, enquanto brasileiros da elite integraram a administração, vendendo seus produtos aos mercados europeus, ingressando na economia da Revolução Industrial. A autonomia americana levou Portugal a planejar volta do Brasil à posição de colônia. O príncipe D. Pedro realizou a independência com apoio popular e das elites que lograram frear o liberalismo político, adotando um governo monárquico, 21 mantendo a agricultura escravista e abalando o ambiente com o plantio do café e assegurando seu poder político local. Conclusão A política ambiental moderna, entendida como prática verde, tornou-se uma importante estratégia social para a preservação do planeta mediante políticas ambientais sustentáveis. A colonização, que iniciou os tempos modernos, foi um processo mundial e que conectou, desde seu início, as várias regiões de planeta. Destinada a complementar a riqueza da metrópole, e satisfazer o desejo dos nascentes mercados internacionais, a colonização montou uma economia local atendendo a produção externalizada, garantindo grande lucros com gêneros como o açúcar e minerais preciosos. A produção agrícola revestiu-se de caráter predatório diante da aparente e inesgotável quantidade de terra. Ao lado da depredação ambiental e o uso da mão de obra escrava, mineração resultou em graves desastres ambientais nas regiões de exploração, como Minas gerais e Goiás. Tema da próxima aula A independência inseriu o país numa nova divisão intranacional do trabalho. A escravidão colonial foi mantida até 1888, e o país continuou sua vocação de produtor de commodities, alicerçando o apogeu do Segundo Reinado. A chegada da ferrovia, e a crescente urbanização e instalação de primeiras indústrias, ampliaram a destruição da mata atlântica até 1930, apesar de eventuais medidas preservacionistas. Após 1945, o país entrou numa fase de acelerada industrialização, progresso material, crescimento desordenado da urbanização e da economia de consumo. O golpe de 1964, e o regime que se seguiu, criou condições para nova investida capitalista resultando em obras como a Transamazônica. A crescente industrialização criou graves problemas ambientais, colocando essa política sob suspeita. Veremos a ação de pioneiros da preservação, como Ruschi e Chico Mendes. A redemocratização conviveu com a urbanização e, além disso, a industrialização e o crescimento vertiginoso do agronegócio consolidaram uma nova política ambiental brasileira com o Partido Verde, o Ministério do Meio Ambiente e uma legislação ambiental. Leituras sugeridas Caldeira, Jorge. História da Riqueza no Brasil. Cinco séculos de pessoas, costumes e governos. Rio de Janeiro, Estação Brasil, 2017. 22 Dean Warren. A Ferro e Fogo. A História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira. São Paulo Companhia das Letras, 2004. Bibliografia Andreoni, João Giovanni Antônio, Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. 2 edições, o Paulo, Companhia Editora Nacional, S/D. Barreto Afonso Henriques Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Gráfica Editora Brasileira, Ltda, 1948. Bertran Paulo. Desastres ambientais na capitania de Goiás. In Ciência Hoje. A história dos desastres ambientais. 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