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Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 1 2 FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO Este capítulo trata dos problemas fundamentais da filosofia da educação e os conceitos de filosofia, educação e filosofia da educação. 2.1 FILOSOFIA Do que trata a filosofia? O que caracteriza a filosofia? Com que tipo de saber os filósofos se ocupam? Quais as imagens mais comuns da filosofia e do filósofo? Qual a origem histórica e conceitual da filosofia? Quais são os problemas fundamentais e as áreas da filosofia? O que distingue o saber filosófico de outros tipos de conhecimento como a mitologia, a religião, a ciência e o senso comum? O que caracteriza a filosofia como reflexão crítica? Estas são algumas questões introdutórias ao estudo da filosofia a serem exploradas nesta primeira parte. 2.1.1 A filosofia como amor à sabedoria O termo Filosofia (philein + sophía) tem origem grega, no séc. V a.C., com Pitágoras, e quer dizer “amor à sabedoria”. Um tipo de amor intermediário entre o imperfeito e o perfeito, entre a carência e a plenitude, amor de contemplação, desejo de perfeição. Um tipo de saber, não de culto, de admiração, de veneração, de cópia, de imitação, de repetir e reviver o antigo, mas um saber de investigação, de interrogação. Então filósofo não é aquele que possui a sabedoria e dá conselhos (como o sábio), nem se confunde com aquele que acha que já sabe e por isso não pergunta mais, não tem mais curiosidade de saber (como o ignorante), mas é um amigo da sabedoria, aquele que está em busca da sabedoria; enfatiza mais o sentido de tarefa do saber do que de saber possuído (VITA, 1965). Ao falar da função da filosofia, Platão dizia nos Diálogos que nem os deuses nem os ignorantes desejam sabedoria (PLATÃO, 1979, os textos Banquete e Fédon). A filosofia situa-se na área do conhecimento das ciências humanas, mas não se confunde com as “ciências do homem” do século XVII (modelo mecanicista das ciências da vida, da linguagem, ciência histórica e do Direito e do Estado) nem com as “ciências humanas” do século XIX (ciências da cultura, geografia humana, ciências econômicas e sociais e ciências do psiquismo). (LIMA VAZ, 2004, 7ed, p. 81-85; 122-124). 2.1.2 A filosofia e seus problemas/áreas A filosofia é um tipo de saber que os gregos produziram para responder questões fundamentais da existência humana. Perguntas sobre a realidade, o conhecimento, a verdade, a existência humana, a vida moral, a sociedade, a educação, a arte, a linguagem, entre outras. O ser humano sente necessidade e utiliza de ideias que expliquem e produzam significados e direções, que ajudem a entender, situar e encaminhar a sua vida concreta. Por isso, são questões básicas da vida humana e, nesse sentido, pertencem não apenas aos filósofos mas a cada ser humano que, como ser racional e curioso, tem a necessidade de compreender quem é, em que mundo vive e qual o sentido da sua própria existência (RUSSELL, 2008; PORTA, 2007; EWING, 1984; VITA, 1965). A Ontologia, ou Metafísica, é a área da filosofia que pergunta sobre o que é realidade da qual fazemos parte, qual a sua origem e como se formou, se é finita ou infinita, se é estável ou passageira, se é estática ou movimento, se é dividida em espírito e matéria, como se ordena e como funciona, se é ordenada por algum propósito em si mesma ou pela mente humana, se existe alguma inteligência que a governa ou as coisas operam por acaso, se evolui rumo a alguma finalidade ou acreditamos nela pelo nosso desejo de ordem e estabilidade, se é amigável ou hostil ao ser humano, entre outras. São questões sobre o universo físico e a natureza última da realidade. A Epistemologia, ou Teoria do Conhecimento, é a área da filosofia que pergunta sobre o que é o conhecimento, o que difere conhecimento de crença e opinião, como conhecemos, como se processa o conhecimento, como as pessoas chegam a conhecer o que conhecem, quais as fontes do conhecimento, se as fontes de acesso a realidade são realmente confiáveis ou podem nos enganar, Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 2 quais os diferentes tipos de conhecimento e como eles são estabelecidos e validados, se as ideias são inatas ou dependem da experiência, se conhecer depende de ideias, conceitos, linguagem ou retratamos as coisas como elas são, se a realidade é conhecida em si tal como ela é ou apenas como nós a representamos, como relacionar a realidade externa com as nossas representações internas, o que seria a verdade, o que caracteriza o conhecimento verdadeiro, como podemos saber se uma afirmação é verdadeira, como ter acesso a verdade, como estabelecer verdades que sejam válidas para todos, que tipo de ciência estamos fazendo, entre outras. São questões sobre a natureza, a confiabilidade e a validade das fontes do conhecimento e da verdade e como são alcançadas e avaliadas. A Antropologia é a área da filosofia que pergunta sobre quem é o ser humano, o que significa ser humano, o que é humanização, o que é dignidade humana, o que caracteriza a natureza humana, se ela é singular ou universal, espiritual ou material, se a natureza humana é herdada ou depende do ambiente da criação, sobre o significado da vida/existência humana, se tem algum sentido ou propósito, se há uma causalidade necessária da existência humana ou a vida humana dá- se ao acaso, se o ser humano é livre e até que ponto, se pensamentos e ações humanas são livres ou determinadas por forças ambientais, hereditárias ou divinas, se somos dependentes ou independentes do nosso passado, sobre o que caracteriza o antropos brasileiro, qual a nossa identidade como brasileiros, que imagem temos do ser humano brasileiro, entre outras. São questões sobre a natureza humana e a compreensão de si mesmo. A Ética, ou Filosofia dos Valores ou ainda Axiologia, é a área da filosofia que pergunta sobre o que é um valor, a origem dos valores, como são gerados os valores, porque as pessoas valoram, como justificamos nossos valores, que tipos de valores existem, o que são valores morais, qual o fundamento dos valores morais, se são universais ou relativos, se são possíveis padrões éticos universais, se é possível moral sem religião, se a ética pode ser separada da religião, sobre o que é o bem e o que é agir bem, o que é o justo e quando uma ação é justa, quais critérios distinguem uma ação boa daquela que condenamos, o que ou quem forma a base da autoridade moral, se é preciso alguém superior ou somos livres e responsáveis pelo juízo moral de nossos atos, o que á a liberdade, se as pessoas nascem boas, más ou moralmente neutras, se o ser humano é bom, mau ou neutro por natureza, se é possível ensinar a virtude, se pode-se ensinar alguém a ser bom, se é possível o aperfeiçoamento moral, sobre qual a melhor maneira de ser uma pessoa boa, que vida quero viver, se há algum tipo de vida que vale mais, se existe uma maneira de viver que seja nobre e outra menos digna, se há maneiras de viver que são simplesmente inúteis, se há um modo de vida nobre no que consiste e como realizá-lo, entre outras. São questões de valor e conduta moral, dos princípios morais, das bases racionais para a boa conduta. A Filosofia Política é a área da filosofia que pergunta sobre o que é a política e para que serve, o que é o Estado e para que serve, o que é o poder, o que é dominação, o que é cidadania, o que é igualdade, o que é democracia, o que diferencia a democracia da ditadura, porque que sociedade, qual a melhor forma de governo, se somos obrigados a obedecer a todas as leis do Estado, o que é progresso. No contexto brasileiro, pergunta quem são os donos do poder, porque o progresso é apenas econômico, porque a desigualdade social e os grandes grupos sociais marginalizados, porque aqui a roda social sempre gira no mesmo lugar, o que poderia alterar nossa estrutura social, porque evitamos falar de desigualdade,exclusão, miséria social como agenda política, porque a pobreza e os discursos transformadores são criminalizados, porque os partidos progressistas são taxados de comunistas, se você acha que problemas como a exclusão social e a violência são meros acidentes, porque trabalhadores são chamados de mão-de-obra e não produtores, porque os políticos podem determinar os seus salários e os trabalhadores não, porque os ricos não vão para a cadeia, porque há pobreza se pagamos tantos impostos, porque há tanta fome se somos o maior produtor de alimentos do mundo, porque os negros não estão nas universidades nem ocupam cargos importantes, porque as igrejas não pagam impostos, porque os excluídos defendem a Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 3 agenda de interesses dos empresários, banqueiros e latifundiários, porque tanta descrença na política mas ao mesmo tempo a exigência de que o Estado resolva todos os nossos problemas, porque privatizar o Estado e quem ganha com isso, se o desmanche do Estado é apenas para os debaixo ou também para os de cima, porque teve ditadura no Brasil, ela esteve a serviço de quais interesses e grupos sociais, se deve-se permitir partidos fascistas numa democracia, porque a reforma agrária já aconteceu nas nações capitalistas desenvolvidas e aqui é visto como coisa de comunista, se na nossa sociedade todos tem chances iguais, porque a maioria da população é pobre mas a maioria dos representantes políticos é rica, sobre a formação do Brasil contemporâneo, o que está bloqueando nossa evolução como sociedade e como nação, entre outras. São questões sobre a realidade social e política que revelam julgamentos de valor em funcionamento na sociedade civil. A Filosofia da Arte, ou Estética, é a área da filosofia que pergunta sobre o que é o belo, porque dizemos que algo é belo ou feio, o que é arte, o que é uma obra de arte, quando há arte, como reconhecemos uma grande peça musical, o que é sensibilidade, o que é criatividade, o que é criatividade artística e como ela difere da criatividade científica, se a arte tem obrigações ou restrições morais, entre outras. São questões sobre os princípios que governam a criação e a apreciação da beleza e da arte, sobre a natureza e valor das obras de arte e a experiência estética. Outras áreas da Filosofia ainda interrogam sobre a educação (Filosofia da Educação), a cultura (Filosofia da Cultura), a história (Filosofia da História), a sociedade (Filosofia Social), a justiça (Filosofia do Direito), a ciência e o conhecimento científico (Filosofia da Ciência), a mente e os fenômenos mentais (Filosofia da Mente), o raciocínio (Lógica), a linguagem (Filosofia da Linguagem), a interpretação (Hermenêutica), Deus (Filosofia da Religião), entre outras. Para Rodrigo (2009), a atividade filosófica visa então ao menos duas coisas (grandes áreas): elucidar a experiência vivida, o mundo que nos rodeia, da esfera o agir, com as quais se ocupam, por exemplo, as áreas da ética, política, estética, antropologia, filosofia social e do direito. E, num sentido mais restrito, elucidar o próprio pensamento, o modo como pensamos, como conhecemos, da esfera do conhecer, com as quais se ocupam, por exemplo, as áreas da epistemologia, lógica, filosofia da linguagem e da mente (RODRIGO, 2009, p. 107-108). As respostas àquelas e outras questões fundamentais são tentativas de entender e sistematizar as leis gerais que governam o funcionamento da realidade, natureza, homem, sociedade. São “chaves de leitura” ou chaves explicativas, interpretativas aplicadas à realidade, ao homem, ao conhecimento, à sociedade, à educação, para explicá-las interpretá-las, conhecê-las. Por exemplo, a filosofia cristã-medieval caracterizava-se pelo modo religioso de pensar, a realidade é dividida em natural e sobrenatural (esta tem prioridade), foi criada por Deus e é governada por leis divinas; o homem foi criado por Deus, é composto de corpo e alma imortal e sua finalidade é a salvação; o conhecimento apenas é possível pela iluminação divina; a ética orienta-se pelos princípios divinos; a sociedade organiza-se em normas divinas e o poder advém de Deus. Já a filosofia moderna caracteriza-se por um novo modo de pensar e responder àquelas questões fundamentais baseado no naturalismo, a realidade é governada não por leis/causas divinas mas naturais, cada fenômeno tem uma causa natural; Descartes, Newton, Galileu tentaram mostrar o funcionamento natural do universo (leis naturais); a base do conhecimento é a empiria, a evidência, comprovação; a natureza é o lugar do homem, o ser humano é um ser pensante racional e cuja razão humana deve iluminar o pensar, o agir, o conhecer e o educar. As respostas às questões fundamentais produzidas pelos filósofos resultam em “filosofias” ou “sistemas filosóficos”, tais como idealismo, realismo, racionalismo, empirismo, criticismo, positivismo, materialismo, existencialismo, estruturalismo, pragmatismo, entre outros. As questões fundamentais também variam de importância, deslocam sua ênfase de uma área para outra no percurso da história da filosofia. Por exemplo, nas filosofias antiga e medieval a ênfase era na ontologia, na filosofia moderna a ênfase era na epistemologia, na filosofia contemporânea a ênfase é na história e na linguagem. Essa evolução histórica da filosofia, com suas diferentes orientações de Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 4 pensamento, acaba produzindo correntes filosóficas muitas vezes dissonantes e até antagônicas, o que faz ser razoável não falar de uma mas várias filosofias. Além disso, as respostas elaboradas pelos filósofos desde os gregos distinguem-se de outras formas de conhecimento elaboradas pela mitologia, religião, ciência ou senso comum. 2.1.3 A filosofia e a mitologia O conhecimento mitológico fundamenta-se na “imaginação”. De origem grega, mythos significa contar, narrar, explicar o desconhecido, um tipo de explicação que o homem primitivo dava aos fatos, histórias mágicas e alegorias que os antigos inventaram para, na falta da ciência, conhecimento da causa, responder àquelas perguntas. Uma narrativa sobre a vida, o mundo físico e social, a religião; sobre a origem, funcionamento e destino da realidade natural e humana; dos acontecimentos e problemas da vida; da natureza, coisas, homens, deuses, astros, bem e o mal, nascimento, morte, família, parentesco, raças, crenças, festas, doenças, comunidade, organização social, distribuição riqueza, conflitos, guerra, poder, dando a estas perguntas respostas explicativas. Para explicar isso, os mitos recorrem ao mistério, ao sobrenatural, aos deuses, à superstição e, por isso, os mitos são explicações primitivas, fantasiosas, divinas. O conteúdo explicativo, que recorre ao sobrenatural, ao desconhecido para explicar o que acontece, não é sistemático, nem lógico, nem demonstrável, mas motivado pela necessidade de compreensão da realidade natural e humana, seus problemas, sobre os acontecimentos da vida. Esta forma de explicar a realidade remete à imaginação primitiva, do homem primitivo da Grécia arcaica (séc. VI a.C.). Depois da explicação, o homem primitivo sente-se conhecedor do fato, domina a situação, “apossa-se intelectualmente do fato”; depois da elaboração de uma história alegórica que faça sentido, o homem primitivo acalma- se e conforta-se diante do temor do desconhecido. O problema é que essas explicações eram repletas de erros e fantasias. A crítica à mitologia daria origem histórica e conceitual à filosofia, pois esta representa a passagem do pensamento mítico para o pensamento filosófico racional. A filosofia torna-se a primeira quebra da mitologia: depender, não da crença, mas da demonstração; no lugar da crença, a razão, compreender, explicar racionalmente. Ela nasce como crítica ao modelo de pensamento fundado nas explicações mitológicas,quando desenvolvem-se formas de conhecimento e explicação da realidade natural, do mundo que cercava os homens, independente do apelo a divindades ou forças sobrenaturais, como faziam a mitologia e a religião. As explicações filosóficas visavam o conhecimento objetivo da verdade, dando aos fatos uma explicação lógica e racional. Os passos iniciais dos primeiros filósofos gregos sinalizam uma interrogação crítica diante das explicações fantasiosas e divinas dos mitos e, para explicar o que veem, não recorrem mais aos mitos, religião, tradição, revelação ou autoridade, mas a uma explicação menos sobrenatural e divina denominada de “explicação naturalista” ou “cosmológica” (por exemplo, Tales de Mileto 640 a.C; Anaximandro 610 a.C.; Anaxímenes 585 a.C.). Isso provoca uma revolução, uma ruptura com as respostas, verdades ensinadas pelos mitos. Agora, a chave da explicação do mundo, da realidade e do homem não mais estaria fora dele, mas no próprio mundo. Isso significa um novo posicionamento, uma nova forma de pensar diante do mito e suas explicações. Este novo tipo de pensamento representa uma ruptura radical com o pensamento mítico enquanto forma de explicação da realidade na forma de desmitologização e dessacralização do mundo. Os primeiros filósofos, os que romperam com a tradição mítica e inauguraram uma forma de pensar naturalista, foram denominados de “pré- socráticos” (séc. VI a.C). Estes buscavam explicar as causas primeiras da realidade natural e humana a partir da própria natureza: o ar, a água, a terra e o fogo. Essas razões não seriam fruto da revelação dos deuses, mas sim resultado do pensamento humano aplicado à natureza e a si mesmo. Foram os pré-socráticos que provocaram essa transição, inflexão explicativa do mundo sobrenatural (mítico) para o mundo natural (physis), procuravam o princípio de tudo nos elementos naturais. O objeto de investigação, especulação filosófica torna-se então a natureza, o mundo natural. O que Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 5 causa e o que move tem um princípio não mais sobrenatural, metafísico, mas natural, físico (arché). É assim que surge o problema cosmológico na filosofia. Apenas posteriormente, com Protágoras (480-411 a.C.), “O homem é a medida de todas as coisas” e Sócrates (469-439 a.C.), “Conhece-te a ti mesmo”, haveria uma transformação explicativa da physis (natureza) para o antropos (homem), veríamos o problema antropológico sobrepor-se ao problema cosmológico, quando o objeto de investigação filosófica torna-se o homem (Antropologia). Se no séc. VII-VI a.C. a filosofia é preocupação com a natureza, apenas no séc. V-IV a.C., com os sofistas e Sócrates, essa preocupação desloca-se para as “questões humanas”. De um mundo voltado para o culto do exterior, a especulação filosófica volta-se para o mundo interior. A chave explicativa não estaria mais no sobrenatural ou na natureza, mas no próprio homem, no seu mundo interior (razão, logos), como revelam as teorizações sobre ética, política e educação em Sócrates, Platão e Aristóteles (PRÉ-SOCRÁTICOS, 1978; RUSSELL, 1977, Primeira parte: Os pré-socráticos; MONDOLFO, 1971, Livro I: O predomínio do problema cosmológico; LARA, 1990). 2.1.4 A filosofia, a religião e a ciência O conhecimento religioso ou teológico fundamenta-se na “crença”, é revelado pela fé divina, religiosa. Sua eficácia não pode ser confirmada ou negada pois lida com o mistério, um conteúdo de origem desconhecido. Diante do mistério, aceita explicações de alguém que já tenha desvendado o mistério, o representante de Deus, o intérprete ou tradutor da mensagem para o mundo terreno. “Fé” significa aceitar a verdade, venha de onde vier, o que implica doutrina, postura dogmática, vale o argumento da autoridade (Papa, Bispo, padre, pastor...). “Conhecimento revelado e aceito pela fé” significa não mediante o auxílio de sua inteligência e razão, mas mediante aceitação dos dados da revelação divina, feita por alguém que se diz representante de Deus. Quem recorre à fé para solucionar um problema, e não questiona a validade de seu proceder, apoia sua alegação numa doutrina dogmaticamente, e não pela conclusão de um argumento racionalmente embasado. É simplesmente uma ideia aceita, que produz respostas e comportamentos, mas tem a desvantagem de não acrescentar nada que não esteja contida na suposição dogmática original. Ao contrário do pensamento científico e filosófico, não é crítico, não é indagação que parte da dúvida e busca a verdade através do uso da razão. Na crença, ao contrário, os valores e os fins já são dados de antemão, todos baseados na autoridade da revelação, apenas depende da fé, da crença incondicional na verdade revelada. Por exemplo, a origem (de onde viemos), o sentido/finalidade (porque estamos aqui) e o destino (para onde vamos) da vida são explicados a partir da crença numa criação divina (metafísica da criação), no entanto disto nada se conhece de fato, explica mas não se conhece ou demonstra e com isso confunde explicar com conhecer, o que se pode pensar com o que é. Não há como demonstrar a relação entre efeito e causa. A filosofia, ao contrário, utiliza não a razão divina mas a razão natural como iluminadora do pensamento e busca alcançar a verdade do conhecimento, não pelo caminho dogmático, mas o da reflexão crítica (cf. adiante cap. 2.1.6). Por exemplo, enquanto o religioso cultua, venera e reproduz os conceitos universais de forma dogmática, acrítica, como algo ideal, perfeito e eterno, o filósofo reflete criticamente, pensando e repensando os conceitos de bem, verdade, justiça, liberdade... Os filósofos gregos descobriram que não há progresso do conhecimento, não há ruptura, criação e inovação na repetição irrefletida da tradição, dos dogmas, no saber de culto, de adoração, como faziam a mitologia e a religião. Já o conhecimento científico fundamenta-se na “evidência”. É programado, metódico, rigoroso, crítico, objetivo. Origina-se da tentativa de compreender o que é a realidade, como funciona, como se ordena a natureza, a sociedade e o homem. Quer saber as causas e leis (regularidade, estabilidade) dos fenômenos através da demonstração, ser capaz de demonstrar a relação causa-efeito e cujos instrumentos mais comuns são a observação e a medida. A chave explicativa científica parte da suposição de que existe uma “ordem natural das coisas” a ser descoberta e identificada, mensurada, catalogada. É um tipo de conhecimento aproximadamente Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 6 exato, que consegue fazer predições, garantir com segurança (probabilidade) eventos futuros a partir da observação da regularidade de eventos passados. O método é indutivo, do particular para o geral. Formula conceitos ou leis gerais e constantes, válidos para todos os casos e, com isso, está menos sujeito ao erro nos prognósticos. Outro aspecto importante é que fatos ou objetos científicos não são dados empíricos espontâneos coletados pela nossa experiência cotidiana (opiniões, senso comum), mas são construídos pelo trabalho da investigação científica. Embora ambos refiram-se ao real, o que distingue a ciência do senso comum é a investigação metódica que se afasta da realidade transformando-a em objeto de investigação e assim permite a construção do conhecimento científico sobre esse real. Dessa forma, a investigação científica é o conjunto de atividades intelectuais, experimentais e técnicas, realizadas com base em métodos (regras), que dão a garantia do conhecimento seguro, através do uso de uma linguagem e instrumentos mais rigorosos e precisos, sistematizados, programados, controlados e que aspiram à objetividade. Ao estabelecer métodos (regras), a ciência garante para seu discurso uma credibilidade (objetividade) que falta ao senso comum, pois este contém muitas crendices, superstições, emoções, preconceitos. Entreas etapas do método científico estão a observação, delimitação, hipóteses, verificação, experimentação, demonstração. Conhecer cientificamente significa então dominar o objeto, saber sua causa, natureza e lei de funcionamento, o que permite controlar, manipular, prever, isso dá a garantia do conhecimento seguro, o domínio do objeto pelo sujeito. O critério de aferição de um conhecimento científico é a evidência, a comprovação experimental; um juízo apenas é verdadeiro se comprovado, demonstrado. Uma questão importante é saber quão isenta é a ciência na produção do conhecimento e saberes científicos num dado contexto histórico. Já a filosofia, embora também seja rigorosa e sistemática, difere da ciência pela visão de conjunto, de relação, de conexão (conhecimento científico é fragmentado, especializado, particularizado), pelo conteúdo teórico (conhecimento científico tem conteúdo empírico) e pelo método a priori da reflexão crítica, exercício do pensamento apenas, anterior e independente da experiência (método científico é a posteriori, depende da experiência). A filosofia, ou o tratamento de problemas filosóficos, restringe- se a temas cuja abordagem não pode dar-se de maneira empírica, não pode recorrer a informações e metodologias empíricas. Por isso, o conhecimento filosófico é um conhecimento a partir dos conceitos, é uma “ciência teórica”, que esclarece os conceitos ou perguntas cujo significado ou resposta não pode ser dado pela empiria, porque as premissas são fundamentadas a priori, seus problemas têm o traço distintivo conceitual. Interrogações sobre o que é o real, o conhecimento, a verdade, a vida humana, a liberdade, a felicidade, a beleza, a educação são questões fundamentais que não são respondidas de modo explicativo (como as ciências naturais, que buscam estabelecer leis e reduzir umas leis às outras), mas de modo compreensivo (como as ciências do espírito, a partir de uma objetivação ou expressão do espírito). Enquanto a ciência quer explicar a realidade, a filosofia quer compreendê-la, entender porque é assim, o sentido das coisas (ARANHA, 2006, p. 21). Por exemplo, o fenômeno da vida parece algo certo e óbvio, mas seu significado, natureza ou essência já parece ser algo mais difícil de explicar e descrever. Enquanto a ciência é apenas descritiva e quer ser valorativamente neutra, a filosofia é crítica, normativa, indica também como deveria ser, implica valoração. A área da filosofia que investiga criticamente o conhecimento científico é a epistemologia. Em Russell encontramos uma definição de filosofia situada entre a religião e a ciência: A filosofia é algo intermediário entre a teologia e a ciência. Como a teologia, consiste de especulações sobre assuntos a que o conhecimento exato não conseguiu até agora chegar, mas, como ciência, apela mais à razão do que à autoridade, seja esta a da tradição ou a da revelação. Todo conhecimento definido pertence à ciência; e todo dogma quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à teologia. Mas entre a teologia e a ciência existe uma Terra de Ninguém, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ninguém é a filosofia (RUSSELL, 1977, Introdução). Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 7 2.1.5 A filosofia e o senso comum O conhecimento comum fundamenta-se na “opinião”. Também denominado de conhecimento ingênuo, embrionário ou vulgar, conhecimento pelo hábito (habituar, acostumar) e não pela consciência ou pensamento investigativo (crítica). Não seria um conhecimento inferior, mas fragmentário, ametódico, assistemático e, por ser herdado, não seria questionado (ARANHA, 2006, p. 19). Antes de conhecermos as coisas pelo conhecimento científico (causa) ou filosófico (reflexão), conhecemo-las de modo espontâneo, pelo hábito, costume, vida cotidiana. É um conhecimento pré-reflexivo, superficial (não é profundo, radical), assistemático (não é metódico) e fragmentado (não pode ser generalizado), baseado em dados empíricos espontâneos adquiridos pela experiência cotidiana para atender às necessidades do dia-a-dia. Distingue o certo do errado, o verdadeiro do falso, sem a preocupação (filosófica) de investigar o que é o certo, o que é a verdade. O pensamento comum não sabe dar razões dessas certezas, explicar como e por que as possui, sendo um juízo natural e primitivo da razão humana, imperfeito no seu modo de ser. As respostas às perguntas fundamentais são geralmente simples, rápidas e superficiais, tiradas (concluídas) imediatamente de hábitos e crenças ou explicações próximas dos fatos primeiros apreendidos pela inteligência. Mas este conhecer as coisas superficialmente não é conhecimento, apenas opinião, um conhecimento sem a preocupação crítica; não questiona, não analisa, não procede com vigor de método ou de linguagem, mas de aceitação passiva, gera certezas ingênuas e não demonstrativas, conhece o fato apenas em sua aparência. No saber comum, não há relação demonstrativa, não se consegue vincular causa e efeito. Por exemplo, uma mulher que já teve filhos dá receitas infalíveis para principiantes; ou qualquer pessoa com dor de cabeça conhece um comprimido eficaz, de alívio (mas ignora a composição do comprimido, a natureza da dor de cabeça, a forma de atuação do medicamento); ou ainda, as receitas homeopáticas (chás, ervas naturais), mas desconhece o funcionamento do organismo. Para Luckesi, o senso comum é um modo de entender a realidade que adquirimos de modo espontâneo em virtude de uma circunstância geográfica, social e histórica. São conceitos, significados e valores adquiridos espontaneamente pela convivência, no ambiente da vida cotidiana, explicações sobre a realidade que nos cerca, sobre o modo de vida, regras morais, rituais sociais e religiosos. E lentamente esses elementos explicativos vão sendo incorporados e assimilados no nosso modo de pensar, agir, na afetividade e, acostumados pelo hábito, dificilmente nos perguntamos se existem outras possibilidades de explicação para tudo que observamos, vivenciamos e participamos. Nesse sentido, o senso comum nasce do processo de acostumar-se a uma forma de interpretação da realidade, sem que ela seja questionada, interrogada, sendo portanto, uma compreensão acrítica da realidade. Esse caráter natural, espontâneo e acrítico implica a necessidade de questionamento, de desvendamento, de reflexão crítica (LUCKESI, 2019, cap. 5). Para Silveira, o senso comum é uma “filosofia espontânea”, uma concepção de mundo que envolve um conjunto de conceitos, crenças, opiniões de um determinado grupo social, do qual todos participantes compartilham espontânea e inconscientemente. Esta filosofia espontânea estaria impregnada na linguagem, na religião, no ambiente sociocultural, faz-se uso daquelas opiniões e crenças em casa, nas escolas, nas igrejas, nas redes sociais. Esta filosofia seria adquirida de modo espontâneo e acrítico, automático, mecânico, inconsciente pelo simples fato de alguém fazer parte de um grupo social e, por isso, ela seria imposta de fora, pelo ambiente e grupos sociais que participamos (família, escola, igreja, clubes, amigos, trabalho), ou seja, um processo histórico que impregnou uma visão de mundo adquirida sem análise crítica (SILVEIRA, 2017, cap. 8). A tradição filosófica enfatizou a distância entre filosofia e senso comum. Em Platão (428- 348 a.C.) encontramos a distinção entre doxa (opinião) e episteme (ciência). Opinião como um tipo de conhecimento ou crença sem nenhuma garantia de validade, limitada ao mundo sensível e a ciência como conhecimento das essências imutáveis (ver adiante cap. 4). Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 8 O problema é que esse tipo de conhecimento opinativo, cotidiano, familiar, habituado, normalizado, naturalizado é um obstáculo para a reflexão filosófica, pois a filosofia, ao contrário, é caracterizadadesde o seu nascimento como uma postura indagadora diante do real. Na vida cotidiana geralmente temos uma atitude natural, irrefletida, diante do mundo que nos rodeia que ignora a nossa consciência como doadora de sentido, este é externo, independente da nossa presença. Por isso, é preciso refletir criticamente sobre nossa vida cotidiana para que se revele a existência da nossa consciência, intencionalidade (HUSSERL, 1986). Dificilmente mudaremos nossas crenças sem reexaminar a nós mesmos (SÓCRATES, 1999). 2.1.6 A filosofia como reflexão crítica A filosofia distingue-se de outros tipos de conhecimento, não apenas pelo tipo de perguntas fundamentais, mas também pelo modo como procura responder à elas, e o principal instrumento da filosofia é a reflexão crítica. “Reflexão” é o exercício do pensamento que volta-se sobre si mesmo para pensar o próprio pensamento; de examinar detidamente, analisar com cuidado, a partir de uma distância crítica, as respostas que já temos em relação àquelas perguntas fundamentais e sobre como as adquirimos (o modo como chegamos a obter as respostas). É debruçar-se sobre o próprio pensamento, torna-lo objeto de investigação, pensar o já pensado, voltar para si mesmo e colocar em questão o que já se conhece (ARANHA, 2006, p. 20). Este pensamento crítico não é algo óbvio, imediato, mas é construído pelo trabalho de reflexão (PORTA, 2007, p. 46-47), problematizando o que parece simples, forçar o não pensado, descobrindo o que há para além do que aparece, do senso comum. Nesse sentido, é sempre tomada de consciência e, por isso mesmo, libertação, emancipação intelectual. Ao fomentar um aprofundamento da compreensão, da consciência do problema, a reflexão crítica promove uma reinterpretação e um salto qualitativo no modo de pensar em relação ao problema ou pensar originário. Noutras palavras, a reflexão filosófica é uma atividade crítica sobre o que nos habituamos a pensar pelo hábito e repetição (rotinas), colocando em questão o que parece óbvio, indiscutível e, por isso, desestabilizando certezas e questionando o convencional. É uma postura crítica que rompe e transcende o modo cotidiano de ver o mundo a partir da sua problematização, que indaga o senso comum e seus preconceitos, ideias estabelecidas, crenças injustificadas, porque são assim e não de outra maneira, o que justifica esse modo de ser e não outro. Trata-se de problematizar o mundo ao redor e as relações mantidas com ele, pois o senso comum não consegue apreender toda a complexidade do real, o que não é aparente, o que não revela-se de imediato (RODRIGO, 2009, p. 107). Isso implica analisar e criticar a própria visão de mundo acolhida do ambiente sociocultural sem análise crítica, uma tomada de consciência e uma crítica da própria “filosofia espontânea”, o que exige a elaboração de uma concepção de mundo de uma maneira consciente e original, se deseja-se ser o guia de si mesmo e não aceitar mais do exterior a marca da própria personalidade, da própria subjetividade (SILVEIRA, 2017, p. 134). Nesse sentido, a reflexão filosófica abre possibilidade da transcendência de uma totalidade fechada para pensar a realidade e o homem de outro modo do sempre normal, do exercício dogmático da mesmice, da imobilidade, cujo círculo gira sem novidade nem criação, que não põe em dúvida e interroga o “sempre mesmo”, apenas contempla. Filosofar então seria repensar o que já pensamos, reconstruir o pensamento (natural, imediato) sobre novas bases, agora da consciência crítica (saber mediato), menos automática, superficial e inútil e mais refletida, elaborada, pensada. Seria quebrar a transição natural do contingente (o que é) ao necessário (deve ser), reaprender a ver o mundo (Merleau-Ponty), passagem do pensar por hábito para o pensar consciente, da realidade vivida para a realidade compreendida (nem sempre o vivido é conhecido), do estar-no-mundo para ser-no-mundo, passagem do senso comum à consciência filosófica (SAVIANI, 2002). E isso implica deseducar o pensamento para reconstruí-lo sob novo fundamento rumo à autonomia Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 9 intelectual. Ao avançar na conquista de uma filosofia crítica, uma concepção de mundo menos espontânea e mais sistemática e rigorosa, estaríamos nos aproximando daquela filosofia praticada pelos filósofos e que permite-lhes ser guias de si mesmos, pensar com a própria cabeça (SILVEIRA, 2017, p. 136). A filosofia seria uma reflexão sobre os problemas da realidade de modo radical, profundo, até a raiz, uma compreensão da complexidade e não visão simplista incapaz de relacionar os diferentes aspectos envolvidos ou que reduz tudo a um ponto de vista que “resume tudo”; sistemático, metódico, rigoroso, tradução conceitual do problema em termos de fundamento, sistematização do conhecimento e dos fundamentos da ação; e de conjunto, amplitude, relação, conexões inusitadas. O caminho filosófico para a sabedoria seria educar o pensamento a pensar de forma profunda, rigorosa e ampla (SAVIANI, 2002, p. 17). Não obstante, o principal obstáculo ao estudo da filosofia não seria ainda não sabermos o suficiente, mas já sabermos demais. Nesse sentido, seria tarefa do filosofar tirar as respostas durante o tempo suficiente para que se possa ter a experiência da sabedoria do desconhecedor. Nada adiantaria substituir as respostas velhas por novas, mas sim desvencilhar-se da dependência das respostas, perturbar o estabelecido e retomar um questionamento inocente, que deixaria toda segurança para trás e cuja força não resultaria das respostas mas das perguntas (KOLAK & MARTIN, 2004, Introdução). Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 10 2.2 EDUCAÇÃO Em que sentido a educação é um problema filosófico? O que caracteriza uma filosofia da educação espontânea? E o que caracteriza uma filosofia crítica da educação? Qual a relação entre filosofias da educação e teorias educacionais? Em que sentido as filosofias educacionais fundamentam a formação e a prática docente? Estas são algumas questões introdutórias ao estudo da filosofia da educação a serem exploradas nesta segunda parte. 2.2.1 A educação como problema filosófico A filosofia da educação ocupa-se com o problema do educar, seu sentido, finalidade, relevância, objetivos. Examina e avalia criticamente as concepções filosóficas subjacentes às teorias e práticas pedagógicas, as concepções de educação reproduzidas em discursos e práticas que predominam no cotidiano escolar e desafiar os futuros educadores a sistematizar criticamente a fundamentação filosófica da sua prática docente. É o campo de investigação mais geral da educação pela filosofia. Busca investigar e responder o que é educação, porque é relevante educar, educar e aprender para quê e para quem, qual deve ser a finalidade da ação pedagógica, ela deve produzir quais resultados, porque escola e qual tipo de escola, a quem interessa a escola, quem são os sujeitos do processo educativo, quais os papéis do professor e do aluno, o que é um bom professor, que tipo de aluno a escola busca formar, o que é ensinar e o que é aprender, como a educação ocorre (métodos e procedimentos de ensino), currículo para que e para quem, o que ensinar e o que aprender (conteúdo), a função do material didático, a relação ensino-aprendizagem, sobre formação docente (políticas públicas/legislação sobre formação docente, projetos pedagógicos dos cursos de licenciatura) e prática pedagógica. Além disso, a discussão filosófica sobre educação também buscar elucidar outros problemas educacionais, examinando criticamente o sentido da educação atual (concepção de educação que predomina na legislação educacional e nas práticas docentes escolares), se educação é direito ou privilégio, se educação transforma ou confirma e sustentaa estrutura social vigente, se educação/escola é algo mais que adaptação ao existente, os motivos do descaso com a educação pública e o conhecimento científico e a quem isso interessa, os motivos da desvalorização social da profissão do magistério, do porque os jovens não poderem pensar na escola a realidade que eles veem todos os dias (como a fome, miséria, desemprego, injustiça), sobre os desafios para uma docência que pretende ser crítica e transformadora, além de discussões temáticas sobre educação profissionalizante, escola cívico-militar, homeschooling, escola sem partido, entre outras. Estes problemas educacionais fazem parte do dia-a-dia da prática docente e revelam diferentes fins educacionais. Todos concordam que a educação possui uma finalidade, mas são muitas as divergências na hora de defini-la. Será que todos que falam de educação usam o termo no mesmo sentido, com significado idêntico? E existe uma teoria da educação superior às demais? Uma breve retrospectiva histórica mostra como as finalidades da educação são diversas, variando conforme cada época, que várias são as respostas, lidam com concepções diferentes de educação, inclusive muitas vezes incompatíveis entre si (COTRIM & PARISI, 1982, cap. 1, p. 19). Para uns, a educação deve despertar a alma para o conhecimento. Para outros, deve ser caminho para a felicidade ou desenvolver a espiritualidade. Para outros ainda, deve permitir a maioridade racional, ou formar o pensamento autônomo e o caráter, ou respeitar o desenvolvimento da criança, ou ensinar a pensar cientificamente, ou formar consciência crítica e revolucionária, ou formar espíritos livres ou promover o cultivo de si mesmo. Além disso, as finalidades da educação ainda podem ser vistas pelo enfoque do Estado, da igreja, dos sociólogos, economistas, psicólogos, da escola, dos professores, dos pais e da própria criança. Diante disso, como resolver, conceitualmente, o problema do educar, da finalidade da educação? Para Rocha (2022, p. 121), este problema não tem tanto a ver com a execução da educação, uma dificuldade de tipo prática e que situa-se no campo da pedagogia, mas tem a ver com Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 11 a caracterização da educação, uma dificuldade de tipo conceitual e que situa-se no âmbito da filosofia. Elucidar a finalidade da educação ou das diferentes teorias pedagógicas é um problema filosófico na formação do educador porque deve, necessariamente, ser respondido pelo docente. Primeiro, para superar uma filosofia da educação espontânea e elaborar de forma consciente e crítica uma concepção pedagógica própria, tendo clareza da teoria que sustenta as práticas educativas (LUCKESI, 2019; SILVEIRA, 2017). Segundo, para orientar melhor a organização do processo didático: o planejamento da prática docente, as situações de ensino (objetivos, conteúdos, metodologia, avaliação), as estratégias de ensino (exposição oral, estudo dirigido, trabalho em grupo, seminários, debate). Conteúdos e metodologias de ensino-aprendizagem são escolhidos em virtude da direção da educação, são instrumentos para operacionalizar a finalidade da educação Apenas é possível escolher conteúdos e metodologias quando houver clareza em que direção educar (FARIAS et al, 2008). Terceiro, para evitar o ecletismo educacional, a combinação de elementos de diferentes pedagogias cruzando-se nas práticas docentes. Cada teoria tem interpretações diferentes sobre o papel da escola, do professor, do aluno, do que aprender e como aprender, mas geralmente essas teorias são assimiladas de forma precária, sem rigor e sistematicidade. A ausência de instrumentos conceituais apropriados para identificar e criticar essas teorias e posicionar-se conscientemente sobre elas tende a produzir uma prática docente que reproduz mecanicamente modelos de docência assimilados no percurso escolar ou as práticas pedagógicas que predominam no ambiente de trabalho escolar ou ainda as orientações do livro didático ou da apostila ou ambas (SAVIANI, 2002; SILVEIRA, 2017). Quarto, para evitar a adesão precipitada e repetição acrítica de conceitos e bordões pedagógicos apresentados como novidades pedagógicas sem conhecê-los exatamente e sem duvidar das suas implicações políticas e ideológicas (SILVEIRA, 2017). Esta tarefa da filosofia da educação é importante para que a prática educativa não seja apenas empírica, uma filosofia da educação espontânea baseada no senso comum, sem consciência de seus fundamentos conceituais, mas ao contrário, seja intencional, consciente, crítica e quem sabe transformadora. Para Martins (1993), a filosofia da educação é um saber global, compreensivo e crítico das ações educativas capaz de promover análises críticas: Hoje a “educação” supõe um esforço permanente para o homem ser ele mesmo, libertar-se das “cadeias que o atam” nas diferentes situações: se queremos adultos que pensem, devemos educar crianças que pensem (Kant). A Filosofia é imprescindível se desejamos que a “educação para aprender” se transforme numa “educação para pensar” (...). O exercício da reflexão criativa/autônoma sobre a educação e as implicações socioculturais e humanas leva a Filosofia da Educação a dar uma capacidade geradora de pensamento: “fazer com que o aluno pense por si mesmo”. Assim, devemos entender a Filosofia da Educação no ajudar a pensar (linguagem/realidade), mais que transmitir os conhecimentos filosóficos (MARTINS, 1993, p. 173-174). Para Jales (2002), a reflexão filosófica da educação deve promover na pedagoga e no pedagogo a capacidade de articular os diversos sentidos da educação: A Filosofia utilizará a Educação como pano de fundo, como tela onde se projetam preocupações com a construção do homem educado, de que estamos sempre falando. Neste sentido, a Escola não será apenas o local onde os alunos aprendem competências, necessárias sem dúvida, mas insuficientes para fazer desabrochar a personalidade do educando. Um curso de Pedagogia não poderia ser procurado apenas porque prepara técnicos que saberão lidar com as várias faces do complexo processo educacional. Saber lidar com este processo é sem dúvida importante, mas o Pedagogo deverá ser muito mais. Deverá ser o articulador entre os diversos sentidos que a educação detém (JALES, 2002, p. 61-62). Antes do exame minucioso de algumas filosofias da educação e das concepções de educação presentes na história da educação brasileira, cabe identificar e problematizar a partir da reflexão Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 12 crítica aspectos da concepção educativa dos próprios educandos e de suas representações sobre a prática docente escolar. 2.2.2 Filosofia espontânea da educação Um passo importante no esforço de filosofar sobre educação num curso de formação docente é identificar e problematizar os sentidos da própria concepção educativa, bem como os aspectos centrais que orientam a prática docente do cotidiano escolar para, num momento seguinte, empreender uma crítica e reformular sua própria concepção pedagógica, bem como sistematizar uma postura crítica da prática docente predominante no ambiente escolar. Vimos anteriormente (cap. 2.1) que herdamos uma visão de mundo de modo inconsciente e acrítica pelo simples fato de estarmos inseridos num ambiente sociocultural. O mesmo vale para nossa visão de mundo sobre educação. Todos herdam uma certa concepção de educação, um certo modo de interpretar um conjunto de conceitos, valores, crenças relacionadas à educação a partir do seu grupo sociocultural. Seja sobre o papel social da escola, sua organização e regulamentos, os papéis do professor e do aluno e a relação entre eles, o tipo de conteúdo e as metodologias das aulas, os resultados a serem alcançados, as expectativas dos pais, o futuro profissional dos filhos, seja sobre o uso de conceitos relacionadosà educação, tais como “escola tradicional”, “educação conteudista”, “educação bancária”, “pedagogia não-diretiva”, “pedagogia nova”, “pedagogia crítico-social”, “professor reflexivo”, “educação tecnicista” ou “pedagogia das competências”, todas essas interpretações e definições carregam a dimensão da historicidade (construídas socialmente e impostas pelo ambiente/grupo social) e da assimilação espontânea, mecânica e acrítica. Silveira denomina isso de “filosofia da educação espontânea” (SILVEIRA, 2017, p. 137). Em contrapartida, todo educador deveria problematizar, tomar consciência e empreender uma crítica da sua filosofia da educação espontânea e elaborar uma concepção de educação própria de maneira consciente, coerente e sistematizada. Isso ajudaria ao futuro educador a conhecer melhor a si mesmo, a tomar consciência de que sua visão de educação e escola é socialmente condicionada e geralmente é internalizada sem análise crítica. Os instrumentos conceituais e metodológicos da filosofia da educação ajudam a tornar essa crítica possível. O problema é que nem todos os cursos de formação docente oferecem essa disciplina e, com isso, a oportunidade de os futuros docentes empreenderem essa autocrítica (SILVEIRA, 2017, 138-139). Sobre o papel da filosofia da educação, ainda escreve Silveira: A filosofia da educação deve se constituir como o estudo das principais teorias pedagógicas que orientam as políticas educacionais e também as práticas dos educadores, com o objetivo de explicitar e problematizar suas características, seus pressupostos filosóficos, epistemológicos, políticos e ideológicos e suas implicações no trabalho pedagógico. Isso para que os licenciandos adquiram condição de identificar e problematizar as marcas de sua própria concepção educativa e, com o tempo, reformulá-la e torná-la unitária e crítica (SILVEIRA, 2017, p. 141). Outro passo importante no esforço de filosofar sobre educação é resgatar as representações discentes sobre aspectos essenciais da prática docente do cotidiano escolar, como as concepções de educador e educando, de conhecimento, de conteúdo, de material didático e das estratégias de ensino. Luckesi denomina esta tarefa de “diagnóstico do senso comum pedagógico” (LUCKESI, 2019, cap. 5). A tarefa consiste em fazer um inventário dos valores que orientam o cotidiano escolar através da prática docente, seja sobre os significados comuns dos papéis do educador e do educando, do conhecimento, do conteúdo e o material didático, dos métodos e procedimentos de ensino. Segundo Luckesi (2019), na prática pedagógica escolar impera o senso comum, o educador escolar no seu dia-a-dia não orienta-se por uma filosofia criticamente construída, mas por um senso comum adquirido por acúmulo espontâneo de experiências ou por introjeção acrítica de conceitos e valores dominantes; que a prática pedagógica vem sendo realizada sem uma constante reflexão Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 13 crítica sobre o próprio agir docente, seu sentido e finalidade. Raramente os docentes se questionam sobre o fundamento, o significado das práticas predominantes, se realmente seria esse que gostariam de perseguir como finalidade de suas ações docentes. Ao não buscar elucidar criticamente o sentido da ação pedagógica, os docentes tendem a seguir o significado dominante no ambiente escolar (LUCKESI, 2019, cap.5, p. 93-96). Em contrapartida, cumpre investigar também as razões pelas quais o senso comum continua orientando a compreensão e direcionamento da prática pedagógica apesar de seus limites teóricos, desvendar novas perspectivas capazes de ultrapassar os limites do senso comum como fundamentação teórica e prática do pensar e agir docente, em vista de um entendimento mais consciente, crítico, organizado da condução da prática pedagógica (LUCKESI, 2019, p. 106-107). 2.2.3 Filosofia crítica da educação Uma filosofia crítica da educação começa com a problematização e exame crítico da filosofia espontânea da educação dos próprios educandos e de suas representações sobre a prática decente predominante capaz de permitir uma organização mais consciente e sistemática do pensamento educacional e da prática educativa. Ao tomar as representações dos alunos sobre alguns conceitos educacionais essenciais e sobre a prática docente, sobre os entendimentos que definem e orientam a ação pedagógica docente, e problematizá-las, a reflexão filosófica estará despertando senso crítico, uma maior clareza teórica sobre os fundamentos do pensar e agir docente, conscientizando os educandos para a necessidade de aproximar-se de um conhecimento mais sistematizado, rigoroso, profundo sobre educação e prática pedagógica. Juntamente com a análise crítica, também é importante que os educadores em formação busquem elaborar uma visão própria sobre os principais aspectos que envolvem a prática pedagógica, que tenham uma posição própria sobre qual deveria ser a finalidade da educação, o papel do educador e do educando, do conhecimento, do conteúdo e do material didático, dos métodos e procedimentos de ensino. Além disso, como educadores em formação, é imprescindível fazer um exame crítico no que diz respeito às políticas públicas educacionais de formação docente (ver adiante cap. 3.5, cap. 4.5 e “Conclusão”). 2.2.4 Filosofias educacionais e teorias pedagógicas Para Sócrates, educação é iluminar a inteligência, despertar a alma para o conhecimento, para o autoconhecimento, para aprender a ser o que se é e a cultivar a areté (virtude) individual por meio da maiêutica. Para Platão, a educação tem a finalidade de desenvolver a sabedoria (intelectual), para afastar do senso comum (opinião) e conduzir para o conhecimento (episteme) e para construir uma cidade justa pelos meios educacionais por meio do exercício da inteligência teórica. Para Aristóteles, educação é caminho (finalidade) para felicidade, vida boa (estado de perfeição através do exercício do entendimento prático (virtude). Para Santo Agostinho, a educação está a serviço do desenvolvimento da fé e espiritualidade do ser humano, é caminho para aprimoramento religioso e espiritual. Para Descartes, a educação visa disciplinar o espírito, propiciar a introspecção de regras para o surgimento da maioridade racional, para substituir a fase da vontade (infantil) pela fase racional (homem). Para Locke, a educação deve privilegiar os aspectos naturais do humano, desenvolver e preencher a razão que se encontra apenas em potência (tabula rasa). Para Kant, a educação deve formar o pensamento autônomo (homem esclarecido) e o caráter (moral). Cap.2 - Filosofia da Educação – Jorge Adriano Lubenow 14 Para Rousseau, a educação deve respeitar o desenvolvimento físico e cognitivo natural da criança, os talentos naturais próprios da natureza humana/criança, desenvolver senso crítico para a cidadania e evitar a degeneração/corrupção da sociedade/adultos. Para Comte, a educação deve formar o homem positivo, o ser social capaz de organizar o mundo humano com o mesmo método das ciências experimentais, pensar científica e universalmente a partir de evidências. Para Marx, a educação tem por finalidade formar a consciência crítica (desalienação, crítica à educação/escola burguesa) e revolucionária (emancipação da classe trabalhadora), por meio da conjugação de trabalho intelectual e manual, em vista de uma sociedade comunista. Para Nietzsche, a educação é formação cultural ampla, clássica humanista (alemã autêntica: reforma, música, arte, filosofia, literatura), para formar espíritos livres e não apenas para instruir. Para Dewey, a educação seria um processo ativo e construtor, constante reorganização e reconstrução da experiência humana pela reflexão, habilitando o espírito humano a melhor dirigir a inteligência e a qualidade das experiências futuras; não seria preparaçãopara a vida, mas aprendizagem já integrada à vida, capaz de reconstruir e transformar a própria vida. Para Adorno, a educação deve ser emancipadora (crítica da semicultura), formação cultural dialética, uma conjugação de formação humanística, científica e artística. Para os existencialistas, a educação deve promover o cultivo de si, livre dos determinismos dos modelos ideais metafísicos de homem, e que enxerga nesse vazio a oportunidade de tornar-se uma coisa totalmente outra, de torna-se o que nunca foi, a possibilidade de criação existencial própria, a autocriação emancipada. Algumas destas filosofias educacionais fundamentam teorias educacionais metafísicas e essencialistas, outras fundamentam teorias educacionais mais naturalistas e científicas, outras ainda fundamentam teorias educacionais mais dialéticas e existencialistas. Sobre as concepções de educação e sua presença na história da educação brasileira e na formação e prática docente, ver adiante cap. 3. Referências ARANHA, Maria L. A. Filosofia da educação. 3.ed. São Paulo: Moderna, 2006. COTRIM, Gilberto; PARISI, Mário. Fundamentos da educação: história e filosofia da educação. 6.ed. São Paulo: Saraiva, 1982. EWING, Alfred C. As questões fundamentais da filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1984. FARIAS, Isabel M. S.; SALES, Josete O. C. B.; BRAGA, Maria M. S. C.; FRANÇA, Maria S. L. M. Didática e docência: aprendendo a profissão. Fortaleza: Líber, 2008. HUSSERL, Edmund. A ideia de fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986. JALES, Carlos A. Filosofia da educação no curso de pedagogia. 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