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1.2. Conceito de Ética Para se gostar de algo ou de alguém, há de primeiro conhecê-lo bem. O primeiro passo para o conhecimento é aproximar-se do objeto cognoscível e adquirir dele uma noção adequada. Quem não gosta de ética é porque não sabe o que ética significa. O que se entende por ética? Ética é o mesmo que moral? Há quem não faça distinção entre ética e moral. Assim Luc Ferry, para quem ambos os termos são intercambiáveis. Em uma de suas obras, inicia com “uma observação a respeito de terminologia, para que se evitem mal-entendidos. Deve-se dizer ‘moral’ ou ‘ética’, e que diferença existe entre os dois termos? Resposta simples e clara: a priori, nenhuma, e você pode utilizá-los indiferentemente. A palavra ‘moral’ vem da palavra latina que significa ‘costumes’, e a palavra ‘ética’, da palavra grega que também significa ‘costumes’. São, pois, sinônimos perfeitos e só diferem pela língua de origem. Apesar disso, alguns filósofos aproveitaram o fato de que havia dois termos e lhes deram sentidos diferentes. Em Kant, por exemplo, a moral designa o conjunto dos princípios gerais, e a ética, sua aplicação concreta. Outros pensadores ainda concordarão em designar por ‘moral’ a teoria dos deveres para com os outros, e por ‘ética’, a doutrina da salvação e da sabedoria”. 33 Edouard Delruelle emprega os verbetes com sentidos diferentes: “o termo ética permite delimitar uma dimensão do comportamento que escapa à moral... é a dimensão subjetiva e ponderada dos valores e das normas; a forma como cada um se conduz, como cada um se define enquanto sujeito moral”. 34 Por que não? Nada impede de se utilizar essas duas palavras dando-lhes sentidos diferentes. Mas nada obriga, porém, a fazê-lo”. 35 O mais importante é conferir valor, relevância e extrair consequências concretas para esse encontro com a ética, que se pretende definitivo. Conceituar não é o mais importante. Na linguagem rotineira, é comum o uso indistinto, seja do verbete moral, seja da palavra ética. Exprimem o cerne idêntico. Etimologicamente, como visto, provêm da mesma origem. Todavia, para fins de erudição, convém precisar o conceito. Há várias vertentes para se definir ética. Há quem afirme: “A ética, tal como a entendo, é o estudo lógico da linguagem da moral”. 36 Numa visão pragmática, há quem sustente que a moral é ampla e abrangente. Quando suas normas são positivadas, está-se a falar de ética. Por isso é que existem “Códigos de Ética” e não “Códigos de Moral”. Mas para melhor adentrar ao universo ético, é mister conhecer o que outros pensadores dizem sobre ética. Ética é a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. 37 É uma ciência, pois tem objeto próprio, leis próprias e método próprio, na singela identificação do caráter científico de determinado ramo do conhecimento. 38 O objeto da Ética é a moral. A moral é um dos aspectos do comportamento humano. A expressão moral deriva da palavra romana mores, com o sentido de costumes, conjunto de normas adquiridas pelo hábito reiterado de sua prática. Com exatidão maior, o objeto da ética é a moralidade positiva, ou seja, “o conjunto de regras de comportamento e formas de vida através das quais tende o homem a realizar o valor do bem”. 39 A distinção conceitual não elimina o uso corrente das duas expressões como sinônimas. A origem etimológica de Ética é o vocábulo grego “ethos”, a significar “morada”, “lugar onde se habita”. Mas também quer dizer “modo de ser” ou “caráter”. Esse “modo de ser” é a aquisição de características resultantes da nossa forma de vida. A reiteração de certos hábitos nos faz virtuosos ou viciados. Dessa forma, “o ethos é o caráter impresso na alma por hábito”. 40 Como os hábitos se sucedem, tornam-se por sua vez fonte de novos hábitos. O caráter seria essa segunda natureza que os homens adquirem mediante a reiteração de conduta. Sob essa vertente, “moral” e “ética” significam algo muito semelhante. Por isso a aparente sinonímia das expressões “valor moral” e “valor ético”, “normas morais” e “normas éticas”. Todavia, a conceituação de ética ora adotada autoriza distingui-la da moral, pese embora aparente identidade etimológica de significado. Ethos, em grego, e mos, em latim, querem dizer costume. Nesse sentido, a ética seria uma teoria dos costumes. Ou melhor, a ética é a ciência dos costumes. Já a moral não é ciência, senão objeto da ciência. Como ciência, a ética procura extrair dos fatos morais os princípios gerais a eles aplicáveis. “Enquanto conhecimento científico, a ética deve aspirar à racionalidade e objetividade mais completas e, ao mesmo tempo, deve proporcionar conhecimentos sistemáticos, metódicos e, no limite do possível, comprováveis”. 41 Poder-se-ia mesmo indagar: “Por que, aliás, ética e não moral? Impõem-se aqui algumas definições, suficientemente abertas e flexíveis, para não congelar, desde o princípio, a análise. A etimologia não poderia nos guiar em nada nesta tarefa: ta êthé (em grego, os costumes) e mores (em latim, hábitos) possuem, com efeito, acepções muito próximas uma da outra: se o termo ‘ética’ é de origem grega e o moral, de origem latina, ambos remetem a conteúdos vizinhos, à ideia de costumes, de hábitos, de modos de agir determinados pelo uso”. 42 A distinção mais compreensível entre ambas seria a de que a ética reveste conteúdo mais teórico do que a moral. Pretende-se a ética mais direcionada a uma reflexão sobre os fundamentos do que a moral, de sentido mais pragmático. O que designaria a ética seria não apenas uma moral, conjunto de regras próprias de uma cultura, mas uma verdadeira “metamoral”, uma doutrina situada além da moral. Daí a primazia da ética sobre a moral: a ética é desconstrutora e fundadora, enunciadora de princípios ou de fundamentos últimos. A ética é uma disciplina normativa, não por criar normas, mas por descobri-las e elucidá-las. Seu conteúdo mostra às pessoas os valores e princípios que devem nortear sua existência. A Ética aprimora e desenvolve o sentido moral do comportamento e influencia a conduta humana. 43 Aliás, identificar as tarefas da Ética pode clarificar o seu conceito. Para Adela Cortina, “entre as tarefas da ética como filosofia moral são essenciais as que seguem: 1) elucidar em que consiste o moral, que não se identifica com os restantes saberes práticos (com o jurídico, o político ou o religioso), ainda que esteja estreitamente conectado com eles; 2) tentar fundamentar o moral; ou seja, inquirir as razões para que haja moral ou denunciar que não as há. Distintos modelos filosóficos, valendo-se de métodos específicos, oferecem respostas diversas, que vão desde afirmar a impossibilidade ou inclusive a indesejabilidade de fundamentar racionalmente o moral, até oferecer um fundamento; 3) tentar uma aplicação dos princípios éticos descobertos aos distintos âmbitos da vida cotidiana”. 44 Se a ética é a doutrina do valor do bem e da conduta humana que tem por objetivo realizar esse valor, 45 a nossa ciência “não é senão uma das formas de atualização ou de experiência de valores ou, por outras palavras, um dos aspectos da Axiologia ou Teoria dos Valores”. 46 Assim, o complexo de normas éticas se alicerça em valores, normalmente designados valores do bom. Há conexão indissolúvel entre o dever e o valioso. Pois à pergunta “o que devemos fazer?” só se poderá responder depois de saber a resposta à indagação “o que é valioso na vida?” 47 Toda norma pressupõe uma valoração e, ao apreciá-la, surge o conceito do bom – correspondente ao valioso – e do mau – no sentido de desvalioso. E norma é regra de conduta que postula dever. 48 Todo juízo normativo é regra de conduta, mas nem toda regra de conduta é uma norma, pois algumas das regras de conduta têm caráter obrigatório, enquanto outras são facultativas. As regras a serem observadas para acessar a internet ou para viabilizar um programa de software, por exemplo, são de ordem prática e exprimem uma necessidade condicionada. 49 Elas se incluem no conceito de regras técnicas, ou seja, preceitos que assinalam meios para a obtenção de finalidades. Àsregras técnicas contrapõem-se as normas, preceitos cuja observância implica um dever para o destinatário. A noção de norma pode ganhar em clareza se comparada com a de lei natural, lembra García Máynez. As leis naturais, ou leis físicas, são juízos enunciativos que assinalam relações constantes entre os fenômenos. Sob o enfoque da finalidade, as leis físicas têm fim explicativo e as normas têm fim prático. As normas não pretendem explicar nada, mas provocar um comportamento. As leis físicas, ao contrário, referem-se à ordem da realidade e tratam de torná-la compreensível. O investigador da natureza não faz juízos de valor. Simplesmente se pergunta a que leis obedecem aos fenômenos. Ao formulador de normas do comportamento não importa o proceder real da pessoa, senão a explicitação dos princípios a que sua atividade deve estar sujeita. 50 A norma exprime um dever e se dirige a seres capazes de cumpri-la ou de violá-la. Sustenta-a o suposto filosófico da liberdade. Se o indivíduo não pudesse deixar de fazer o que ela prescreve, não seria norma genuína, mas lei natural. De maneira análoga, careceria de sentido declarar que a distância mais curta entre dois pontos deve ser a linha reta, porque isso não é obrigatório, senão necessário e evidente. É da essência da norma a possibilidade de sua violação. Outra diferença pode ser apontada entre a norma e a lei natural ou física. A lei física é suscetível de ser provada pelos fatos e a norma vale independentemente de sua violação ou observância. A ordem normativa é insuscetível de comprovação empírica. “As normas não valem enquanto são eficazes, senão na medida em que expressam um dever ser”. 51 Aquilo que deve ser pode não haver sido, não ser atualmente nem chegar a ser nunca, mas perdurará como algo obrigatório. Torna-se mais fácil compreender a distinção quando se acena com o ideal da paz perpétua ou da absoluta harmonia entre os homens. É quase certo não se convertam nunca em realidade, mas a aspiração a atingi-las é plenamente justificável, pois tendente a concretizar algo valioso. Não há relação necessária entre validez e eficácia da norma. “A validez dos preceitos reitores da ação humana não está condicionada por sua eficácia, nem pode ser destruída pelo fato de que sejam infringidos. A norma que é violada segue sendo norma, e o imperativo que nos manda ser sinceros conserva sua obrigatoriedade, apesar dos mendazes e dos hipócritas. Por isso se diz que as exceções à eficácia de uma norma não são exceções à sua validez”. 52 Já as leis naturais só se validam se a experiência as não desmentir. A possibilidade de inobservância, infringência ou indiferença humana pelas normas não deve desalentar aqueles que acreditam na sua imprescindibilidade para ordenar o convívio. O homem é um ser perfectível. Pressupõe-se que ele seja recuperável. Esse pressuposto adquire relevância extrema numa era em que as criaturas se comportam em desacordo com as normas. Nada obstante a multiplicação de maus exemplos, a crença original persiste. A hipótese de trabalho é a de que todo ser humano – por integrar a espécie – pode tornar-se cada dia melhor. E essa é sua vocação espontânea. A criatura tende naturalmente para o bem. O papel confiado aos cultores da ciência normativa é reforçar essa tendência, fazendo reduzir o nível de inobservância, transgressão ou indiferença perante a ordem do dever ser. Ainda que o índice de espontâneo cumprimento dos ditames éticos não seja o ideal, há sempre possibilidade de sua otimização, mediante o compromisso íntimo de observá-los na vida individual. E o grupo tem de atuar no sentido de estimular a boa prática, no auxílio àquele que se afastou do trajeto, para reconduzi-lo à senda original. A potencialidade de conversão de um ser humano – matéria frágil, vulnerável às tentações –, para comportar-se eticamente em seu universo, é uma hipótese significativa de trabalho. Ainda que aparentemente a experiência possa demonstrar o contrário, a humanidade só avança no processo de resgate do semelhante se a maioria se convencer de que o homem pode ser recuperado. A luta da parcela sensível da humanidade é ampliar esse espaço de trabalho comunitário, e, por diminuta que possa parecer tal dimensão, tantos e tão desalentadores os maus exemplos, o bom combate continua válido. Sob esse prisma se justificam o estudo, a pregação e a vivência ética. Reafirme-se: não é tão importante definir ética, senão vivenciar ética. Na mania de complicar as coisas, somos pródigos em sofisticar o que pode ser absorvido e melhor assimilado com a singeleza. Na verdade, existe boa dose de sentimentalismo na pregação ética. Um ato humano está correto – moralmente aceitável – se e somente ele provém de boa ou virtuosa motivação que envolva benevolência ou cuidado ou, ao menos, não provenha de má ou inferior motivação envolvendo malícia ou indiferença pela humanidade. 53 OBS: EXPRIMEM - Significa manifestam, revelam ou expressam algo por meio de palavras, gestos ou outras formas de comunicação. VERBETES - Refere-se a uma entrada em um dicionário, enciclopédia ou glossário, contendo informações sobre um termo específico, como sua definição, exemplos de uso, etimologia, entre outros detalhes