Prévia do material em texto
SÉRIE DE ESTUDOS SOBRE AS DOUTRINAS BÍBLICAS A DOUTRINA DO HOMEM* *Conteúdos adaptados da obra “Teologia Sistemática – Atual e exaustiva”, de Wayne Grudem 1 SUMÁRIO Aula 1: A Criação do Homem ....................................................... 2 Aula 2: O Pecado (parte 1) .......................................................... 12 Aula 3: O Pecado (parte 2) .......................................................... 21 Aula 4: As Alianças entre Deus e o Homem ............................... 28 2 A DOUTRINA DO HOMEM AULA 1: A Criação do Homem Texto Bíblico: 1Coríntios 11.11-12 Nesta aula, falaremos sobre o auge da criação divina, o ser humano, homens e mulheres, mais semelhantes a ele do que qualquer outra coisa criada. Mas, por que Deus nos criou? E como podemos agradá-lo pelo nosso viver? Podem homens e mulheres ser iguais tendo, porém, papéis diferentes? Buscaremos à luz da Bíblia responder a essas perguntas. Antes de iniciarmos nosso estudo, cabe ressaltar que a palavra “homem” será aqui usada para representar a raça humana em geral (incluindo homens e mulheres) e em outros contextos para representar apenas o gênero masculino, como vemos em Gênesis 2:24 : “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe e apegar- se-á à sua mulher, e serão ambos uma só carne”. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA Por que o homem foi criado? 1) Deus não precisava criar o homem, mas nos criou para a sua própria glória. Conforme já mencionamos na aula “Criação” da Doutrina de Deus – parte 2, Deus criou o ser humano e o restante da criação não por uma necessidade, mas por um ato voluntário, revelando sua excelência. Deus nos criou para a sua própria glória. Na análise da independência divina, observamos que Deus se refere aos seus filhos e filhas das extremidades da terra como 3 aqueles “que criei para a minha glória” (Is 43:7; cf. Ef 1:11-12). Portanto, devemos fazer “tudo para a glória de Deus” (1Co 10:31). 2) O nosso propósito na vida O fato de Deus nos ter criado para a sua própria glória determina a resposta correta à pergunta: “Qual o nosso propósito na vida?” Nosso propósito deve ser cumprir a meta para que Deus nos criou: glorificá-lo. Quando falamos no que diz respeito ao próprio Deus, eis aí um bom resumo. Mas quando pensamos nos nossos próprios interesses, fazemos a feliz descoberta de que devemos nos alegrar em Deus e encontrar prazer no nosso relacionamento com ele. Diz Jesus: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10:10). Davi diz a Deus: “Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16:11). Ele anseia habitar na casa do Senhor para sempre, “para contemplar a beleza do Senhor” (Sl 27:4), e Asafe brada: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre” (Sl 73:25-26). Assim, a atitude normal do cristão é alegrar-se no Senhor e nas lições da vida que ele nos dá (Rm 5:2-3; Fp 4:4; 1Ts 5:16-18; Tg 1:2; 1Pe 1:6,8 etc.). Dizem-nos as Escrituras que, quando glorificamos e desfrutamos a Deus, ele se alegra conosco. Lemos: “Como o noivo se alegra da noiva, assim de ti se alegrará o teu Deus” (Is 62:5), e Sofonias profetiza que o Senhor “se deleitará em ti com alegria; regozijar-se-á em ti com júbilo. Os que estão entristecidos por se acharem afastados das festas solenes, eu os congregarei” (Sf 3:17- 18). Essa compreensão da doutrina da criação do homem traz resultados bastante práticos. Quando percebemos que Deus nos 4 criou para glorificá-lo, e quando passamos a agir a fim de cumprir esse fim, então começamos a experimentar uma intensidade de alegria no Senhor que antes não conhecíamos. E quando acrescemos a isso a compreensão de que o próprio Deus se deleita com a nossa comunhão com ele, nossa alegria se torna “inexprimível e plena de glória celeste” (cf. 1Pe 1:8). O homem à imagem de Deus De todas as criaturas que Deus fez, só de uma delas, o homem, diz-se ter sido feita “à imagem de Deus”. O que isso significa? Podemos usar a seguinte definição: o fato de ser o homem à imagem de Deus significa que ele é semelhante a Deus e o representa. Quando Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26), isso significa que ele pretende fazer uma criatura semelhante a si. As palavras hebraicas que exprimem “imagem” (tselem) e “semelhança” (demût) se referem a algo similar, mas não idêntico, à coisa que representa ou de que é uma “imagem”. A palavra imagem também pode ser usada para exprimir algo que representa outra coisa. Essa compreensão do que significa ter sido o homem criado à imagem de Deus é reforçada pela similaridade entre Gênesis 1:26, onde Deus declara a sua intenção de criar o homem à sua imagem e semelhança, e Gênesis 5:3: “Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança [demût], conforme, conforme a sua imagem [tselem], e lhe chamou Sete”. Sete não era idêntico a Adão, mas era como ele em muitos aspectos, assim como um filho é como seu pai. O texto significa simplesmente que Sete era como Adão. Do mesmo modo, todo o aspecto segundo o qual o homem é como Deus faz parte do fato de ser ele à imagem e semelhança de Deus. Todavia, como o homem pecou, ele sem dúvida não é tão plenamente semelhante a Deus como era antes. Sua pureza moral se 5 perdeu e seu caráter pecaminoso certamente não espelha a santidade de Deus. Seu intelecto está corrompido pela falsidade e pelo engano; suas palavras já não glorificam continuamente a Deus; seus relacionamentos muitas vezes são controlados pelo egoísmo, já não pelo amor e assim por diante. Embora o homem ainda seja à imagem de Deus, em cada aspecto da vida alguns elementos dessa imagem foram distorcidos ou perdidos. Em suma, “Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias” (Ec 7:29). A plena medida da excelência da nossa humanidade só se verá novamente na terra quando Cristo voltar e tivermos recebido todos os benefícios da salvação que ele conquistou para nós. No entanto, é animador abrir o Novo Testamento e ver que nossa redenção em Cristo significa que podemos, mesmo nesta vida, gradualmente crescer cada vez mais na semelhança de Deus. Por exemplo, Paulo diz que como cristãos temos uma nova natureza, que “se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3:10). Ao longo desta vida, à medida que vamos crescendo no verdadeiro conhecimento de Deus, da sua Palavra e do seu mundo, e também em maturidade cristã, aumenta a nossa semelhança a Deus. Mais especificamente, nos vamos tornando cada vez mais semelhantes a Cristo na nossa vida e no nosso caráter. De fato, Deus nos redimiu para que sejamos “conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8:29), tendo assim exatamente o mesmo caráter moral de Cristo. Em Jesus vemos a semelhança humana a Deus como ela foi originalmente concebida e deve para nós ser motivo de alegria o fato de ter Deus nos predestinado a ser “conformes à imagem de seu Filho”(Rm 8:29; cf. 1Co 15:49): “Quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele”(1Jo 3:2). 6 O ser humano como homem e mulher Em Gênesis 1:27, lemos: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Embora a criação do ser humano como homem e mulher não seja o único aspecto da nossa criação à imagem de Deus, é ele tão significativo que as Escrituras o mencionam logo no mesmo versículo em que descrevem a criação do homem por Deus. Podemos resumir da seguinte maneira os aspectos segundo os quais a criação dos dois sexos representa algoda nossa criação à imagem de Deus: as relações interpessoais harmoniosas, a igualdade em termos de pessoalidade e de importância, e a diferença de papéis e autoridade. - Relações interpessoais A criação de duas pessoas distintas, homem e mulher, e não só o homem, contribui para o fato de sermos à imagem de Deus, pois pode-se considerar que ela reflete em certo grau a pluralidade de pessoas dentro da Trindade. No versículo anterior àquele que relata a criação do ser humano como homem e mulher, vemos a primeira indicação explícita da pluralidade de pessoas em Deus: “Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio” (Gn 1:26). Há alguma similaridade aqui: assim como havia comunhão, comunicação e compartilhamento de glória entre os membros da Trindade antes da criação do mundo (ver Jo 17:5, 24), também Deus fez Adão e Eva de forma tal que deveriam compartilhar amor, comunicação e respeito mútuo no seu relacionamento. É claro que esse reflexo da Trindade viria a se expressar de várias maneiras dentro da sociedade humana, mas certamente existiria desde o princípio na íntima unidade interpessoal do casamento. 7 Além de no casamento, outro modo de também refletir a unidade e a diversidade da Trindade na nossa vida é na união dos crentes na comunhão da igreja. Na genuína comunhão da igreja, os solteiros, bem como os casados, podem se relacionar de modos que reflitam a natureza da Trindade. Portanto, a edificação da igreja e o aumento da sua unidade e pureza também promovem o reflexo do caráter divino no mundo. - Igualdade em termos de pessoalidade e importância Assim como os membros da Trindade são iguais na sua importância e na sua plena existência como pessoas distintas, também homens e mulheres foram criados por Deus iguais na sua importância e na sua pessoalidade. Quando Deus criou o homem, os criou “homem e mulher” à sua imagem (Gn 1:27; 5:1-2). O homem e a mulher foram feitos igualmente à imagem de Deus, e tanto homens como mulheres refletem o caráter divino. E se somos igualmente à imagem de Deus, então certamente homens e mulheres são igualmente importantes para Deus e igualmente valiosos para Ele. Temos igual valor perante Ele por toda a eternidade. O fato de as Escrituras dizerem que homens e mulheres são “à imagem de Deus” deve excluir todo o sentimento de orgulho ou inferioridade, e qualquer ideia de que um sexo é “melhor” ou “pior” do que o outro. Paulo enfatiza: “No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem independente da mulher. Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher” (1Co 11:11,12). Ambos, homem e mulher, são igualmente importantes; um depende do outro; os dois são dignos de respeito. A igualdade de pessoalidade com que homens e mulheres foram criados é enfatizada de uma nova forma na igreja da nova aliança. No Pentecostes vemos o cumprimento da profecia de Joel, na qual Deus promete: “Derramarei do meu Espírito sobre toda a 8 carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão [...] até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias e profetizarão” (At 2:17-18; citando Jl 2:28-29). - Diferenças de papéis Entre os membros da Trindade sempre houve igualdade de importância, pessoalidade e divindade por toda a eternidade. Mas sempre houve também diferenças de papéis e autoridade entre os membros da Trindade. Se os seres humanos devem mesmo refletir o caráter de Deus, então é de esperar algumas diferenças de papéis entre eles, mesmo no tocante a mais básica de todas as diferenças entre os seres humanos: a diferença entre homem e mulher. Paulo torna explícita essa analogia ao dizer: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo o homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1Co 11:3). Assim como Deus Pai tem autoridade sobre o Filho, embora os dois sejam iguais em divindade, também no casamento o marido tem autoridade sobre a mulher, embora sejam iguais em pessoalidade. Nesse caso, o papel do homem é semelhante ao de Deus Pai, e o papel da mulher é análogo ao de Deus Filho. São iguais em importância, mas têm papéis diferentes. Biblicamente, podemos afirmar que os papéis distintos masculinos e femininos existem desde o princípio, mesmo antes do surgimento do pecado no mundo. O fato de ter Deus criado primeiro Adão e só depois de certo tempo, Eva (Gn 2:7, 18-23), sugere que Deus tinha Adão como líder dentro da família. Não se menciona procedimento desse tipo, em duas etapas, na criação de nenhum dos animais. As Escrituras também especificam que Deus fez Eva para Adão, não Adão para Eva. Disse Deus: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2:18). Não se deve supor aqui uma sugestão de importância 9 menor, mas sim que existe uma diferença de papéis desde o princípio. Satanás, depois de ter pecado, tentava distorcer e minar tudo o que Deus havia planejado e criado bom. É provável que Satanás (na forma de serpente), ao aproximar-se primeiro de Eva, tentasse instituir um papel inverso ao incitar Eva a tomar a liderança na desobediência a Deus (Gn 3:1). Isso contrasta com o modo como Deus os abordava, pois ao lhes falar, Deus falava a Adão primeiro (Gn 2:15-17, 3:9). Paulo parece ter essa inversão de papéis em mente ao dizer: “Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1Tm 2:14). Isso sugere pelo menos que Satanás, abordando primeiro a mulher, tentava minar o modelo de liderança masculina que Deus estabelecera no casamento. Nos castigos que Deus impôs a Adão e Eva, não introduziu novos papéis ou funções, mas simplesmente a dor e a distorção nas funções já previamente estabelecidas. Assim, Adão ainda teria a responsabilidade primária de arar o solo e cultivar as lavouras, mas o solo produziria “cardos e abrolhos” e no suor do seu rosto ele comeria o seu pão (Gn 3:18,19). Do mesmo modo, Eva ainda teria a responsabilidade de gerar filhos, mas isso se tornaria doloroso: “Em meio de dores darás à luz filhos” (Gn 3:16). Então Deus também introduziu o conflito e a dor no relacionamento anteriormente harmonioso entre Adão e Eva: “O teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3:16). Em Gênesis 3:16, a palavra traduzida por “desejo” (heb. teshûqāh) significa “desejo de conquistar” e indica que Eva teria o desejo ilegítimo de usurpar a autoridade do marido. Essa interpretação indica que Deus introduz um conflito no relacionamento entre Adão e Eva, e o desejo de Eva de se rebelar contra a autoridade de Adão. Ainda no mesmo texto, a palavra “governará” (heb. mashāl) é um termo forte geralmente associado a governos monárquicos e não em geral à autoridade dentro de uma 10 família. O sentido aqui é que Adão abusará da sua autoridade, dominando a sua esposa com dureza, algo que mais uma vez introduz dor e conflito num relacionamento antes harmonioso. Todavia, a redenção de Cristo reafirma a ordem da criação: “Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor. Maridos, amai vossas esposas e não a trateis com amargura” (Cl 3:18-19; cf. Ef 5:22-33; Tt 2:5; 1Pe 3:1-7). A redenção de Cristo tem por meta eliminar os resultados do pecado e da queda, em todos os aspectos: “Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do Diabo” (1Jo 3:8). O Novo Testamento determina, com respeito ao casamento, que não se perpetue nenhum elemento da maldição nem nenhuma conduta pecaminosa; reafirma, antes, a ordem e a distinção dos papéis que existiam no princípio da excelente criação divina. Em termos de aplicação prática, à medida que crescemos na maturidade em Cristo, passamos cada vez mais a nos deleitar e nos alegrar com as diferençasnos papéis dentro da família humana, diferenças essas determinadas por Deus e sabiamente por ele criadas. PERGUNTAS PARA APLICAÇÃO PESSOAL 1. Como a compreensão de ser criado(a) à imagem de Deus pode interferir em sua forma de pensar e agir? 2. Na sociedade atual, quais legados da queda de Adão e Eva são mais evidentes para você? E como os cristãos devem reagir a isso? 11 PASSAGEM PARA MEMORIZAR I Coríntios 11.11-12: “No Senhor, porém, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher. Pois, assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus”. 12 A DOUTRINA DO HOMEM AULA 2: O Pecado (parte 1) Texto Bíblico: Romanos 5.19 Na aula anterior, falamos sobre a criação do ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus. O homem e a mulher foram criados com o propósito de glorificar a Deus, que os forjou para assumirem papéis diferentes, apesar de receberem o mesmo valor de seu Criador. Contudo, o pecado causou a ruptura do relacionamento harmonioso entre Deus e o ser humano, estendendo seus malefícios ao relacionamento entre homem, mulher e suas gerações. Nesta aula, apresentaremos a definição de pecado, sua origem, e consequências. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA Definição de pecado A história da raça humana que se apresenta nas Escrituras é primordialmente a história do homem num estado de pecado e rebelião contra Deus e do plano redentor de Deus para levar o homem de volta a ele. Portanto, convém agora ponderar a natureza do pecado que separa o homem de Deus. Podemos partir da seguinte definição: pecado é deixar de se conformar à lei moral de Deus, seja em ato, seja em atitude, seja em natureza. O pecado é aqui definido em relação a Deus e sua lei moral. Inclui não só atos individuais, como roubar, mentir ou cometer homicídio, mas também atitudes contrárias àquilo que Deus exige de nós. Percebemos isso já nos Dez Mandamentos, que não só 13 proíbem ações pecaminosas, mas também atitudes errôneas: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o servo, nem a serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo” (Êx 20:17). Aqui Deus especifica que o desejo de roubar ou cometer adultério é também pecado aos olhos dele. O Sermão do Monte também proíbe atitudes pecaminosas como a ira (Mt 5:22) ou a luxúria (Mt 5:28). Paulo arrola atitudes como ciúme, raiva e egoísmo (Gl 5:20) entre as obras da carne, opostas aos desejos do Espírito (Gl 5:22). Portanto, a vida agradável a Deus é aquela que exibe pureza moral não só em atos, mas também em desejos íntimos. De fato, o maior de todos os mandamentos exige que nosso coração se encha de uma atitude de amor a Deus: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Mc 12:30). A definição dada acima especifica que pecado é deixar de se conformar à lei moral de Deus não só em ato e em atitude, mas também em natureza moral. Nossa própria natureza, o caráter íntimo que é a essência daquilo que somos, pode também ser pecaminosa. Antes que fôssemos remidos por Cristo, não só cometíamos atos pecaminosos e tínhamos atitudes pecaminosas, mas também éramos pecadores por natureza. Por isso diz Paulo que “Cristo [... morreu] por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8) e que antes “éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Ef 2:3). O descrente, mesmo dormindo, embora não cometa atos pecaminosos nem nutra ativamente atitudes pecaminosas, é ainda “pecador” aos olhos de Deus; ele ainda tem uma natureza pecaminosa que não se conforma à lei moral de Deus. Finalmente, importa observar que a definição de pecado enfatiza a sua gravidade. Percebemos pela experiência que o pecado é nocivo a nós, que traz dor e consequências destrutivas para nós e para os outros atingidos por ele. Mas se definimos o pecado como a 14 inconformidade à lei moral de Deus, então pecar é mais do que meramente doloroso e destrutivo – é também errado no sentido mais profundo da palavra. Num universo criado por Deus, não deve haver pecado. O pecado se opõe diretamente a tudo que é bom no caráter de Deus, e assim como Deus necessária e eternamente se deleita em si mesmo e em tudo o que ele é, também necessária e eternamente detesta o pecado. É, em essência, a contradição da excelência do caráter moral de Deus. Contradiz a sua santidade e, portanto, ele tem de detestá-lo. A origem do pecado De onde veio o pecado? Como ele penetrou no universo? Primeiro, precisamos afirmar claramente que Deus não pecou e não deve ser culpado pelo pecado. Foi o homem quem pecou, os anjos quem pecaram e nos dois casos o fizeram por escolha intencional e voluntária. Culpar a Deus pelo pecado seria blasfemar contra o caráter de Deus. “Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade e não há nele injustiça; é justo e reto” (Dt 32:4). Abraão pergunta com verdade e força nas palavras: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18:25). E Eliú diz com justiça: “Longe de Deus o praticar ele a perversidade e do Todo-Poderoso o cometer injustiça” (Jó 34:10). De fato, para Deus é impossível sequer desejar injustiça: “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1:13). Embora jamais devamos dizer que Deus pecou ou que ele é culpado do pecado, devemos, porém, necessariamente afirmar que o Deus “que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1:11), o Deus que, “segundo a sua vontade, [...] opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4:35), esse Deus 15 de fato ordenou que o pecado surgiria por intermédio das decisões voluntárias das criaturas morais. Mesmo antes da desobediência de Adão e Eva, o pecado se fez presente no mundo angélico com a queda de Satanás e dos demônios. Mas com respeito à raça humana, o primeiro pecado foi o de Adão e Eva no jardim do Éden (Gn 3:1-19). O ato de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal é, em muitos aspectos, típico do pecado em geral. Primeiro, seu pecado atingiu a base do conhecimento, pois deu uma resposta diferente à pergunta “O que é verdadeiro?” Deus dissera que Adão e Eva morreriam se comessem da árvore (Gn 2:17), mas a serpente afirmou: “É certo que não morrereis” (Gn 3:4). Eva decidiu duvidar da veracidade da palavra de Deus e então fez uma experiência para ver se Deus falava a verdade. Segundo, seu pecado atingiu a base dos parâmetros morais, pois deu uma resposta diferente à pergunta “O que é certo?” Deus dissera que era moralmente certo que Adão e Eva não comessem o fruto daquela única árvore (Gn 2:17). Mas a serpente sugeriu que seria certo comer do fruto e que ao comê-lo Adão e Eva se tornariam “como Deus” (Gn 3:5). Eva confiou na sua própria avaliação do que era certo e do que seria melhor para ela, negando às palavras de Deus a prerrogativa de definir o certo e o errado. Ela viu “que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento” e, portanto, “tomou-lhe do fruto e comeu” (Gn 3:6). Terceiro, seu pecado deu uma resposta diferente à pergunta: “Quem sou eu?” A resposta correta era que Adão e Eva eram criaturas de Deus, dependentes dele e sempre subordinadas a ele, seu Criador e Senhor. Mas Eva, e depois Adão, sucumbiram à tentação de ser “como Deus” (Gn 3:5), tentando assim colocar-se no lugar de Deus. 16 É importante insistir na veracidade histórica da narrativa da queda de Adão e Eva. Assim como o relato da criação de Adão e Eva está vinculado ao restante da narrativahistórica do livro de Gênesis, também esse relato da queda do homem, que se segue à história da sua criação, é apresentado pelo autor como história objetiva e verídica. Além do mais, os autores do Novo Testamento remontam a esse relato e afirmam que “por um só homem entrou o pecado no mundo” (Rm 5:12), insistindo em que “o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação” (Rm 5:16) e em que “a serpente enganou a Eva com a sua astúcia” (2Co 11:3; cf. 1Tm 2:14). A serpente era sem dúvida uma serpente real, palpável, que falava em virtude da inspiração de Satanás (cf. Gn 3:15 com Rm 16:20; também Nm 22:28-30; Ap 12:9; 20:2). Finalmente, importa observar que todo pecado é em última análise irracional. Na verdade não faz sentido que Satanás se tenha rebelado contra Deus na esperança de poder exaltar-se acima de Deus. Nem que Adão e Eva tenham pensado que poderia advir algum benefício da desobediência às palavras do seu Criador. Foram decisões insensatas. A persistência de Satanás na rebelião contra Deus, mesmo hoje, é ainda decisão insensata, como a decisão de qualquer ser humano de continuar num estado de rebeldia contra Deus. Não é o homem sábio, mas o “insensato”, que “diz [...] no seu coração: Não há Deus” (Sl 14:1). É o “insensato” no livro de Provérbios que irresponsavelmente se entrega a todo o tipo de pecado (ver Pv 10:23; 12:15, 14:7,16; 15:5; 18:2 etc.). Embora as pessoas às vezes se convençam de que têm bons motivos para pecar, quando examinadas à fria luz da verdade no último dia, se verá em cada caso que o pecado em última análise simplesmente não faz sentido. 17 A doutrina do pecado herdado Como o pecado de Adão nos afeta? As Escrituras ensinam que herdamos o pecado de Adão de dois modos. - Culpa herdada: somos considerados culpados por causa do pecado de Adão. Paulo explica os efeitos do pecado de Adão da seguinte maneira: “Portanto [...] por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim [...] a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5:12). O contexto mostra que Paulo não está falando dos pecados que as pessoas efetivamente cometem no dia-a-dia, pois todo o texto (Rm 5:12-21) trata da comparação entre Adão e Cristo. E quando Paulo diz “assim [gr. houtōs, “portanto, dessa forma”; ou seja, por intermédio do pecado de Adão] [...] a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”, está dizendo que por meio do pecado de Adão, “todos [os homens] pecaram”. A ideia de que Deus nos considerava culpados por causa do pecado de Adão é afirmada novamente em Romanos 5:18-19: “Pois assim como, por uma só ofensa, veio juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”. Aqui Paulo afirma explicitamente que pela transgressão de um só homem “muitos se tornaram pecadores”. Quando Adão pecou, Deus considerou todos os futuros descendentes de Adão como pecadores. Embora ainda não existíssemos, Deus perscrutando o futuro e sabendo que iríamos existir, passou a nos considerar culpados como Adão. Essa ideia é 18 também compatível com a afirmação de Paulo de que “Cristo [...morreu] por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8). - Corrupção herdada: temos uma natureza pecaminosa por causa do pecado de Adão. Além de sermos considerados culpados por causa do pecado de Adão, também herdamos uma natureza pecaminosa como consequência do pecado dele. Diz Davi: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu a minha mãe” (Sl 51:5). Alguns equivocadamente julgaram que o que está em questão aqui é o pecado da mãe de Davi, mas isso não é correto, pois todo o contexto nada tem a ver com a mãe de Davi. Em toda essa seção do texto, Davi confessa o seu próprio pecado, dizendo: “Compadece-te de mim, ó Deus [...] apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniquidade [...] conheço as minhas transgressões, [...] Pequei contra ti” (Sl 51:1-4). Davi, ao examinar o seu passado, tanto se abate diante da consciência do próprio pecado que percebe que foi pecador desde o início. Desde a mais tenra lembrança, percebe ele que teve uma natureza pecaminosa. De fato, ao sair do ventre da mãe, já nasceu “na iniquidade” (Sl 51:5). Aqui se vê uma veemente afirmação da inerente tendência ao pecado que se apega a nós desde o princípio. Ideia semelhante se afirma em Salmos 58:3: “Desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras”. Portanto, nossa natureza inclui a disposição ao pecado, tanto que Paulo pode afirmar antes de sermos cristãos “éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais” (Ef 2:3). Qualquer um que já tenha criado filhos pode dar testemunho, por experiência própria, do fato de que todos nascemos com uma tendência ao 19 pecado. As crianças não precisam ser ensinadas a fazer coisas erradas; descobrem isso por si próprias. O que os pais têm de ensinar-lhes é o agir correto, criando-as “na disciplina e na admoestação do Senhor” (Ef 6:4). Apesar da nossa capacidade de fazermos o bem em muitos sentidos dessa palavra, pela graça comum de Deus (ou seja, pelo favor imerecido que ele dispensa a todos os seres humanos), nossa corrupção herdada, nossa tendência ao pecado, que recebemos de Adão, significa que, em relação a Deus, nada podemos fazer que lhe agrade. Cada parte do nosso ser está maculada pelo pecado – o intelecto, as emoções e desejos, o coração (centro dos desejos e processos decisórios), as metas e motivos. Diz Paulo: “Sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum” (Rm 7:18) e “para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas” (Tt 1:15). Além disso, Jeremias nos diz que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17:9). Nessas passagens, as Escrituras não negam que os descrentes podem fazer o bem na sociedade humana em certos sentidos. Mas nega que possam fazer qualquer bem espiritual, ou ser bons no tocante ao relacionamento com Deus. Sem a obra de Cristo em nossa vida, somos como todos os outros descrentes, “obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração” (Ef 4:18). Além da nossa incapacidade de fazer qualquer coisa que agrade a Deus, somos também incapazes de nos aproximar de Deus por nossas próprias forças. Paulo diz que “os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rm 8:8). Além disso, a respeito de dar fruto para o reino de Deus e fazer o que lhe agrada, diz Jesus: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15:5). Embora, do ponto de vista humano, as pessoas possam ser capazes de fazer o bem, Isaías afirma que “todas as nossas justiças, 20 [são] como trapo da imundícia” (Is 64: 6; cf. Rm 3:9-20). Os incrédulos nem sequer são capazes de compreender corretamente as coisas de Deus, pois “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2:14). Tampouco podemos nos aproximar de Deus por nossas próprias forças, pois diz Jesus: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6:44). Se Deus dá a alguma pessoa o desejo de se arrepender e confiar em Cristo, ela não deve se demorar nem endurecer seu coração (cf. Hb 3:7-8; 12:17). Essa capacidade de se arrepender e desejar ter fé em Deus não é naturalmente nossa, mas vem pela atuação do Espírito Santo e não dura para sempre. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vossocoração” (Hb 3:15). PERGUNTAS PARA APLICAÇÃO PESSOAL 1. Em sua opinião, de que forma nossa natureza evidencia o estado pecaminoso que herdamos? 2. Como nosso senso de justiça pode atrapalhar a compreensão da verdade que “todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Rm 3:23)? PASSAGEM PARA MEMORIZAR Romanos 5.19: “Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”. 21 A DOUTRINA DO HOMEM AULA 3: O Pecado (parte 2) Texto Bíblico: Romanos 6.23 Na aula anterior, discutimos sobre o pecado cometido por Adão e Eva, que toda a humanidade herdou, tornando-a igualmente culpada perante Deus. Nesta aula, abordaremos sobre nosso estado decaído, que nos leva a efetivamente pecar contra Deus, causando efeitos desastrosos, sendo o pior deles a morte. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA Pecados reais que cometemos Iniciaremos esse tópico com uma verdade fundamental para a sua compreensão: todas as pessoas são pecadoras perante Deus. As Escrituras em muitas passagens dão testemunho da pecaminosidade universal da humanidade. “Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14:3). Diz Davi: “À tua vista não há justo vivente” (Sl 143:2). E diz Salomão: “Não há homem que não peque” (1Rs 8:46; cf. Pv 20:9). No Novo Testamento, Paulo tece uma extensa argumentação em Romanos 1:18-3:20, mostrando que todas as pessoas, tanto judeus como gregos, apresentam-se culpados perante Deus. Diz ele: “Todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado; como está escrito: Não há justo, nem um sequer” (Rm 3:9-10). Ele está certo de que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23). Tiago, o irmão do Senhor, admite: “Todos tropeçamos em 22 muitas coisas” (Tg 3:2), e se ele, que era apóstolo e líder da igreja primitiva, admitiu que cometia muitos erros, então também nós devemos nos dispor a admiti-lo. João, o discípulo amado, que era especialmente íntimo de Jesus, disse: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1:8-10). Existem graus de pecado? No tocante à nossa posição legal perante Deus, qualquer pecado, mesmo aquilo que nos pareça um pecado leve, torna-nos legalmente culpados perante Deus e, portanto, dignos de castigo eterno. Adão e Eva aprenderam isso no jardim do Éden, onde Deus lhes disse que um só ato de desobediência resultaria na pena de morte (Gn 2:17). E Paulo afirma que “o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação” (Rm 5:16). Esse único pecado tornou Adão e Eva pecadores perante Deus, já incapazes de permanecer na santa presença divina. Essa verdade permanece válida durante toda a história da raça humana. Paulo (citando Dt 27:26) a confirma: “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para praticá-las” (Gl 3:10). E Tiago declara: “Qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei (Tg 2:10-11). Portanto, em termos de culpa legal, todos os pecados são igualmente maus, pois nos fazem legalmente culpados perante Deus e nos constituem pecadores. Por outro lado, alguns pecados são piores do que outros, pois trazem consequências mais danosas para nós e para os outros e, no 23 tocante ao nosso relacionamento pessoal com Deus Pai, provocam- lhe desprazer e geram ruptura mais grave na nossa comunhão com ele. As Escrituras às vezes falam de níveis de gravidade do pecado. Quando Deus revelou a Ezequiel visões de pecados no templo de Jerusalém, disse-lhe o seguinte depois de mostrar algumas coisas ao profeta: “Pois verás ainda maiores abominações” (Ez 8:13). Então o Senhor revelou a Ezequiel a imagem de mulheres chorando diante de uma divindade babilônia, e disse: “Vês isto, filho do homem? Verás ainda abominações maiores do que estas” (Ez 8:15). Finalmente, mostrou a Ezequiel vinte e cinco homens no templo, que, de costas para o Senhor, adoravam o sol. Aqui claramente temos graus crescentes de pecado e odiosidade perante Deus. No Sermão do Monte, ao dizer: “Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus” (Mt 5:19), Jesus sugere que há mandamentos menores e maiores. Do mesmo modo, embora admita que é correto dar o dízimo mesmo sobre os condimentos usados em casa, profere condenações contra os fariseus por negligenciarem “os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt 23:23). Nos dois casos, Jesus distingue os mandamentos menores e maiores, sugerindo assim que alguns pecados são piores do que outros no tocante à própria avaliação divina da sua importância. Em geral, podemos dizer que certos pecados trazem consequências mais danosas do que outros se desonram mais a Deus, ou se geram mais dano a nós mesmos, aos outros ou à igreja. Além disso, os pecados cometidos deliberada, repetida e conscientemente, de coração endurecido, desagradam mais a Deus do que aqueles que se cometem por ignorância e que não são 24 repetidos, ou cometidos com uma combinação de motivos bons e impuros e seguidos por remorso e arrependimento. Assim as leis que Deus transmitiu a Moisés em Levítico tratam de casos em que as pessoas pecam “por ignorância” (Lv 4:2,13,22). Pecado não intencional é assim mesmo pecado: “Se alguma pessoa pecar e fizer contra algum de todos os mandamentos do Senhor aquilo que se não deve fazer, ainda que o não soubesse, contudo, será culpada e levará a sua iniquidade” (Lv 5:17). Porém, as penalidades impostas e o grau de desagrado de Deus resultante do pecado são menores do que no caso do pecado intencional. Por outro lado, os pecados cometidos “atrevidamente”, isto é, com arrogância e desdém pelos mandamentos de Deus, eram encarados com muita gravidade: “Mas a pessoa que fizer alguma coisa atrevidamente, quer seja dos naturais quer dos estrangeiros, injuria ao Senhor; tal pessoa será eliminada do meio do povo” (Nm 15:30; cf. vv. 27-29). É fácil perceber que alguns pecados trazem consequências muito mais desastrosas para nós, para os outros e para o nosso relacionamento com Deus. Se eu cobiçasse o carro do vizinho, isso seria pecado perante Deus. Mas se essa cobiça me levasse de fato a roubar-lhe o carro, o pecado então seria mais grave. Se no ato do roubo eu lutasse contra o meu vizinho e o ferisse, ou descuidadamente ferisse outra pessoa dirigindo o carro, o pecado seria ainda mais grave. Segundo as Escrituras, porém, todos os pecados são “mortais”, pois mesmo o mais leve deles nos torna legalmente culpados perante Deus e merecedores do castigo eterno. No entanto, até o mais grave dos pecados é perdoado quando a pessoa se entrega a Cristo em busca de salvação (repare, em 1Co 6:9-11, a combinação de uma lista de pecados que excluem do reino de Deus e a afirmação de que os coríntios que os haviam cometido foram salvos por Cristo). 25 O que acontece quando um cristão peca? Ainda que sejamos perdoados, permaneçamos na condição de filhos de Deus e ele não deixe de nos amar, quando pecamos Deus se desgosta conosco. Paulo nos diz que os cristãos podem entristecer “o Espírito de Deus” (Ef 4:30); quando pecamos , lhe causamos pesar e ele se desgosta conosco. O autor de Hebreus nos lembra de que “oSenhor corrige a quem ama” (Hb 12:6, citando Pv 3:11-12) e que o “Pai espiritual [...] nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12:9-10). Tema semelhante se encontra em Apocalipse 3, onde Cristo ressurreto fala do céu à igreja de Laodicéia, dizendo: “Eu repreendo e disciplino a todos quantos amo. Sê, pois zeloso e arrepende-te” (Ap 3:19). Aqui, novamente, o amor e a repreensão do pecado se encontram na mesma frase. Assim, considerando a necessidade da confissão regular e arrependimento dos pecados, Jesus nos exorta a orar diariamente: “Perdoa os nossos pecados, como também nós perdoamos aqueles que pecam contra nós” (Mt 6:12, tradução do autor; cf. 1Jo 1:9). Quando nós, cristãos, pecamos, não só nosso relacionamento pessoal com Deus se interrompe. Prejudicam-se também nossa vida cristã e nosso fruto no ministério. Jesus nos faz um alerta: “Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim” (Jo 15:4). Quando nos afastamos da comunhão com Cristo por causa do pecado, diminui a intensidade com que permanecemos em Cristo. Os autores do Novo Testamento frequentemente falam das consequências destrutivas do pecado na vida dos crentes. De fato, muitas seções das epístolas se dedicam a repreender e afastar os cristãos do pecado que estão cometendo. Paulo diz que se os cristãos se entregam ao pecado, cada vez mais se tornam “servos” do pecado 26 (Rm 6:16); porém Deus quer que os cristãos subam pelo caminho da crescente justiça. Se nossa meta é constantemente crescer em plenitude de vida até o dia da nossa morte, quando passaremos à presença de Deus no céu, então pecar é fazer meia-volta e começar a descer, afastando-nos da meta de semelhança a Deus; é seguir na direção que leva “para a morte” (Rm 6:16) e para a eterna separação de Deus, caminho do qual fomos resgatados quando nos tornamos cristãos. Pedro diz que os desejos pecaminosos que se alojam no nosso coração “fazem guerra contra a alma” (1Pe 2:11) – a metáfora militar traduz corretamente a expressão de Pedro e dá a ideia de que os desejos pecaminosos em nós são como soldados numa batalha, cujo alvo é destruir nosso bem-estar espiritual. Ceder a esses desejos pecaminosos, nutri-los e afagá-los no nosso íntimo é alimentar, abrigar e acolher as tropas inimigas. Se nos entregamos aos desejos que “fazem guerra” contra a nossa alma, inevitavelmente temos alguma perda de força espiritual, diminuição de poder espiritual e de eficácia na obra do reino de Deus. O castigo do pecado Embora o castigo divino do pecado funcione realmente como elemento inibidor contra novos pecados e como alerta àqueles que o testemunham, não é essa a razão principal pela qual Deus pune o pecado. A razão primeira é que a justiça de Deus o exige, para que ele seja glorificado no universo que criou. Ele é o Senhor que pratica “misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” (Jr 9:24). Paulo discorre sobre Cristo Jesus, “a quem Deus propôs como propiciação pelo seu sangue, mediante a fé” (Rm 3:25, tradução do autor). Depois o apóstolo explica por que Deus propôs Jesus como “propiciação” (ou seja, sacrifício que carrega a ira de Deus contra o pecado e, portanto, transforma a ira divina em graça): 27 “para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente” (Rm 3:25). A propiciação do Calvário, portanto, demonstrou claramente que Deus é perfeitamente justo, pois tinha “em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Rm 3:26). Logo, na cruz temos uma clara demonstração da razão pela qual Deus castiga o pecado: se ele não castigasse o pecado, não seria um Deus justo e não haveria justiça suprema no universo. Mas, castigando o pecado, Deus se revela justo juiz de tudo e faz-se justiça no universo. PERGUNTAS PARA APLICAÇÃO PESSOAL 1. Você acha que todos os pecados são iguais perante Deus? E as consequências dos pecados: são iguais ou diferentes? 2. Que significados você relacionaria à cruz a partir desta aula? PASSAGEM PARA MEMORIZAR Romanos 6:23: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. 28 A DOUTRINA DO HOMEM AULA 4: As Alianças entre Deus e o Homem Texto Bíblico: Hebreus 13.20-21 Na aula anterior, concluímos o estudo da doutrina do pecado, compreendendo o quanto o pecado é danoso para o nosso relacionamento com Deus, para nós mesmos e para os outros. No entanto, ainda há esperança de regeneração e anulação da condenação do pecado. Nesta aula, abordaremos sobre as alianças estabelecidas entre Deus e o homem, dentre as quais está a aliança que possibilitou a redenção da humanidade. EXPLICAÇÃO E BASE BÍBLICA Desde a criação do mundo, o relacionamento entre Deus e o homem tem sido definido por promessas e requisitos específicos. Deus revela às pessoas como ele deseja que ajam e também faz promessas de como agirá com eles em várias circunstâncias. A Bíblia contém vários tratados a respeito dos elementos que definem as diferentes formas de relacionamento entre Deus e o homem que ocorrem nas Escrituras, e frequentemente chama esses tratados de “alianças”. Podemos apresentar a seguinte definição das alianças entre Deus e o homem nas Escrituras: “Uma aliança é um acordo imutável e divinamente imposto entre Deus e o homem, que estipula as condições do relacionamento entre as partes”. Apesar de esta definição incluir a palavra “acordo” para indicar que há duas partes, Deus e o homem, a frase “divinamente imposto” também é incluída para mostrar que o homem jamais pode 29 negociar com Deus ou alterar os termos desse acordo: ele apenas pode acertar as obrigações da aliança ou rejeitá-la. Essa definição também nota que as alianças são “imutáveis”. Elas podem ser suplantadas ou substituídas por outra aliança ou pacto, mas uma vez estabelecidas, não podem ser alteradas. O relacionamento de aliança entre Deus e o homem ocorre em várias formas em toda a Bíblia. Nesta aula, trataremos de duas classificações de alianças: a aliança das obras e a aliança da graça. A aliança das obras Logo nos primeiros capítulos de Gênesis, parece bastante claro que havia um compromisso legal no Jardim do Éden estabelecendo elementos que definiam as condições do relacionamento entre Deus e o homem. Os dois lados são evidentes, conforme Deus fala a Adão e lhe dá mandamentos. Os requisitos do relacionamento estão claramente definidos nas ordens que Deus deu a Adão e Eva (Gn 1:28-30; cf. 2:15) e na ordem direta a Adão: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16-17). Nessa declaração a Adão acerca da árvore do conhecimento do bem e do mal há uma promessa de punição pela desobediência – a morte, compreendida de forma mais plena como significando morte em um sentido extenso: a morte física, espiritual e eterna, e a separação de Deus. Na promessa de punição pela desobediência há uma promessa implícita de bênção pela obediência. A bênção consistiria em não receber a morte e fica implícito que ela seria o oposto da “morte”. Envolveria a vida física sem fim e a vida espiritual no sentido de relacionamento com Deus que perduraria perpetuamente. A presença da “árvore da vida no meio do jardim” (Gn 2:9) significava também a promessa da vida eterna com Deus, se Adão e Eva cumprissem os requisitos de um relacionamento de 30 aliança, obedecendo a Deus completamente até que eledecidisse que seu tempo de teste havia se completado. Após a queda, Deus retirou Adão e Eva do jardim, em parte para que não mais pudessem “tomar da árvore da vida, e comer, e viver eternamente” (Gn 3:22). Outras alianças nas Escrituras geralmente têm um “sinal” exterior associado a elas (tal como a circuncisão, ou o batismo e a ceia do Senhor). Nenhum “sinal” a respeito da aliança das obras em Gênesis é claramente designado como tal, mas se fôssemos escolher um, provavelmente seria a árvore da vida no meio do jardim. Participando daquela árvore, Adão e Eva estariam participando da promessa da vida eterna que Deus daria. O fruto em si não possuía propriedades mágicas, mas era um sinal exterior pelo qual Deus garantia que a realidade interior ocorreria. Apesar de podermos nos referir à aliança que existiu antes da queda utilizando vários termos (tais como Aliança Adâmica ou Aliança da Natureza), a designação mais natural parece ser “aliança das obras”, visto que a participação nas bênçãos da aliança depende claramente da obediência ou “obras” por parte de Adão e Eva. Visto que todos nós (cristãos e não cristãos) temos uma natureza pecaminosa, não somos capazes de cumprir os requisitos da aliança das obras por nós mesmos e assim receber os benefícios – da forma que essa aliança se aplica diretamente às pessoas, traz apenas punições. Para os cristãos, Cristo preencheu os requisitos dessa aliança com sucesso de uma vez por todas, e obtemos os seus benefícios não pela obediência de fato da nossa parte, mas por confiar nos méritos da obra de Cristo. Na verdade, cristãos que hoje se sentem obrigados a tentar obter o favor de Deus através da obediência estariam se alienando completamente da esperança da salvação. “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição [...] É evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus” (Gl 3:10-11). Os cristãos foram libertos da aliança 31 das obras pela virtude da obra de Cristo e pela sua inclusão na nova aliança, a aliança da graça. A aliança da graça Quando o homem falhou e não conseguiu obter as bênçãos oferecidas pela aliança das obras, foi necessário que Deus criasse um novo caminho, pelo qual o homem pudesse ser salvo. O restante das Escrituras após o relato da queda em Gênesis 3 narra como Deus operou na história um surpreendente plano de redenção por meio do qual pessoas pecaminosas poderiam chegar a ter um relacionamento com ele. As partes dessa aliança da graça são Deus e o povo que ele redimirá. Mas nesse caso Cristo cumpre um papel especial como “mediador” (Hb 8:6, 9:15, 12:24). No sentido de que preenche os requisitos da aliança em nosso lugar e assim nos reconcilia com Deus (não havia mediador entre Deus e o homem na aliança das obras). A condição (ou requisito) para a participação na aliança é fé na obra de Cristo, o redentor (Rm 1:17, 5:1 etc.). Esse requisito de fé na obra redentora do Messias era também a condição para se obterem as bênçãos da nova aliança no Antigo Testamento, como Paulo demonstra claramente através dos exemplos de Abraão e Davi (Rm 4:1-15). Eles, a exemplo de outros crentes do Antigo Testamento, foram salvos por aguardar a obra do Messias que viria e por crer nela. Mas enquanto a condição inicial da aliança da graça é sempre apenas a fé na obra de Cristo, afirma-se que a condição de permanência na aliança é a obediência aos mandamentos de Deus. Apesar dessa obediência não nos obter mérito diante de Deus no Antigo Testamento e tampouco no Novo Testamento, se a nossa fé em Cristo é genuína produzirá obediência (veja Tiago 2:17) e a obediência a Cristo é vista no Novo Testamento como o sinal 32 necessário que comprava que somos crentes verdadeiros e membros da nova aliança (veja 1Jo 2:4-6). A promessa de bênçãos na aliança era uma promessa de vida eterna com Deus. Essa promessa é frequentemente repetida em todo o Antigo e Novo Testamentos. Deus prometeu que lhes seria Deus e que eles seriam seu povo. “Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência” (Gn 17:7). “Eu serei o seu Deus [...] Farei com eles aliança eterna” (Jr 32:38- 40; cf. Ez 34:30-31, 36:28, 37:26-27). Esse também é um tema escolhido no Novo Testamento. Falando sobre a nova aliança, o autor de Hebreus cita Jeremias 31: “Eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Hb 8:10). Essa bênção se cumpre na igreja, que é o povo de Deus, mas encontra seu cumprimento maior no novo céu e na nova terra, conforme João os vê em sua visão da era vindoura: “Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles (Ap 21:13). O sinal dessa aliança (o símbolo exterior e físico da inclusão na aliança) varia entre o Antigo e o Novo Testamentos. No Antigo Testamento o sinal exterior do início do relacionamento dentro da aliança era a circuncisão. O sinal da permanência no relacionamento era continuar a observar todas as festas e leis cerimoniais que Deus deu ao povo em várias ocasiões. No Novo Testamento, o sinal do início do relacionamento dentro da aliança é o batismo, e o sinal da permanência é a ceia do Senhor. Esta aliança é chamada “aliança da graça” porque é inteiramente baseada na “graça” de Deus, que é seu favor imerecido para com aqueles que ele redime. 33 Várias formas de aliança Apesar dos elementos essenciais da aliança da graça permanecerem os mesmos por toda a história do povo de Deus, os termos específicos da aliança variam conforme a ocasião. Na época de Adão e Eva havia apenas uma singela sugestão da possibilidade de um relacionamento com Deus na promessa da semente da mulher em Gênesis 3:15 e na provisão graciosa, da parte de Deus, de vestir Adão e Eva (Gn 3:21). A aliança que Deus fez com Noé após o dilúvio (Gn 9:8-17) não prometia as bênçãos da vida eterna ou a comunhão espiritual com Deus, mas prometia apenas que a terra não mais seria destruída por um dilúvio. Nesse sentido a aliança com Noé, apesar de certamente depender da graça (ou favor imerecido) de Deus, parece ser bem diferente quanto às partes envolvidas (Deus e toda a humanidade, não apenas os remidos), quanto às condições especificadas (não se requer fé nem obediência do homem) e quanto à bênção prometida (que a terra não seria destruída outra vez por um dilúvio, o que é evidentemente distinto da promessa da vida eterna). O sinal da aliança (o arco-íris) também é diferente no sentido de que não requer nenhuma participação ativa ou voluntária do homem. Mas desde a aliança com Abraão (Gn 15:1-21; 17:1-27), os elementos essenciais da aliança da graça estão presentes. De fato, Paulo pôde dizer que “a Escritura [...] preanunciou o evangelho a Abraão” (Gl 3:8). Além do mais, Lucas nos relata que Zacarias, pai de João Batista, profetizou que a vinda de seu filho para preparar o caminho para Cristo era o início da atuação de Deus para cumprir as antigas promessas da aliança com Abraão (“para usar de misericórdia com os nossos pais e lembrar-se da sua santa aliança e do juramento que fez a Abraão, o nosso pai”, Lc 1:72-72). Portanto as promessas da aliança com Abraão permaneceram em vigor mesmo quando se cumpriram em Cristo (veja Rm 4:1-25; Gl 3:6-18, 29; Hb 2:16, 6:13-20). 34 - O que é a “velha aliança” que contrasta com a “nova aliança” em Cristo? A velha aliança não é a integralidade do Antigo Testamento, pois as alianças com Abraão e Davi jamais são chamadas “velhas” no Novo Testamento. Pelo contrário, apenas a aliança sob Moisés, a aliança feita no monte Sinai (Êx 19-24) é chamada “velha aliança” (2Co 3:14; cf. Hb 8:6,13), a ser substituída pela “nova aliança” em Cristo (Lc 22:20; 1Co 11:25;2Co 3:6; Hb 8:8,13, 9:15, 12:24). A aliança mosaica era a ministração de leis escritas detalhadas, dadas em certa ocasião para restringir os pecados do povo e para ser um tutor que conduzia as pessoas a Cristo. Paulo afirma: “Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi adicionada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa” (Gl 3:19) e: “A lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo”. Apesar do sistema sacrificial da aliança mosaica não remover realmente os pecados (Hb 10:1-4), prefigurava o fato de que Cristo levou os pecados, sendo o sumo sacerdote perfeito que também foi um sacrifício perfeito (Hb 9:11-28). Contudo a aliança mosaica em si mesma, com todas as suas leis detalhadas, não poderia salvar as pessoas. A nova aliança em Cristo, então, é muito melhor porque cumpre as promessas feitas em Jeremias 31:31-34, citadas em Hebreus 8: “Agora, com efeito, obteve Jesus ministério tanto mais excelente, quanto é ele também Mediador de superior aliança instituída com base em superiores promessas. Porque, se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito, de maneira alguma estaria sendo buscado lugar para a segunda. E, de fato, repreendendo-os, diz: Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá, não segundo a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os conduzir até fora da terra do Egito; pois eles não 35 continuaram na minha aliança, e eu não atentei para eles, diz o Senhor. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor: na sua mente imprimirei as minhas leis, também sobre o seu coração as inscreverei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. E não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior. Pois, para com as suas iniquidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei. Quando ele diz Nova, torna antiquada a primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido está prestes a desaparecer (Hb 8:6-13). Nesta nova aliança há bênçãos muito maiores, pois Jesus, o Messias, já veio; ele viveu, morreu e ressuscitou entre nós, expiando de uma vez para sempre todos os nossos pecados (Hb 9:24-28); ele nos revelou Deus de forma mais plena (Jo 1:14; Hb 1:1-3); ele derramou o Espírito Santo sobre todo seu povo com o poder da nova aliança (At 1:8; 1Co 12:13; 2Co 3:4-18); ele escreveu suas leis em nosso coração (Hb 8:10). Esta nova aliança é a “aliança eterna” (Hb 13:20) em Cristo, através da qual teremos sempre comunhão com Deus, e ele será nosso Deus, e nós seremos seu povo. 36 PERGUNTAS PARA APLICAÇÃO PESSOAL 1. Em sua opinião, que “sinais” podem confirmar a aliança entre Deus e os verdadeiros crentes? 2. Que significados a aliança da graça traz para a sua vida? PASSAGEM PARA MEMORIZAR Hebreus 13.20-21: “O Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna trouxe dentre os mortos nosso Senhor Jesus, o grande Pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda boa obra, para fazerdes a sua vontade, realizando em nós o que perante ele é agradável, por meio de Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém”.