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FREDERICK EBY Professor de História e Filosofia da Educação na Universidade do Texas undèv ayav História da Educação Biblioteca Moderna M. S. Euzebio Teoria, Organização e Práticas Educacionais 17/09/96 Tradução de Maria Angela Vinagre de Almeida Nelly Aleotti Maia Malvina Cohen Zaide Professoras da Faculdade de Educação da UFRJ Eby, Frederick, 1874-1968. E18h História da educação moderna: teoria, organização e práticas edu- 2. ed. cacionais; tradução de Maria Ângela Vinagre de Almeida, Nelly Aleotti Maia, Malvina Cohen Zaide. 2. ed. Porto Alegre, Globo; Brasília, INL, Edição 1976. 633 p. ilust. 22 cm. Em convênio com Bibliografia. INSTITUTO NACIONAL DO LIVRO 1. Educação - História I. Instituto Nacional do Livro. II. Título. Ministério da Educação e Cultura CDD: 370.9 CCF/CBL/SP-75-1228 CDU: 37(09) EDITORA GLOBO Porto Alegre Índice para catálogo sistemático (CDD) 1976 1. Educação : História 370.9276 História da Educação Moderna de ociosidade e dissipação, tais como vagar pelas tavernas ou tocar música em jantares bailes, que é proibido sob pena de grande multa e Nenhum professor podia ser empregado, a não ser com a aprovação do inspetor eclesiástico. Em nenhum outro Estado havia um padrão tão elevado precisamente estabelecido; mas devido a um número excessivo de condi- ções adversas, não pôde ser atingido. próprio Frederico, em seus últimos Capítulo XIII dias, foi obrigado a transigir, colocando seus soldados inválidos e freqüen- temente ignorantes, como encarregados das escclas. O que foi assim instituído na Prússia, foi também tentado, sob a orien- tação de Felbiger, na recém-adquirida província da Aí a população ROUSSEAU: O COPÉRNICO DA católica e certas modificações nos padrões tiveram de ser feitas, mas, em geral, a lei escolar era semelhante à da Prússia. Felbiger foi mais tarde CIVILIZAÇÃO MODERNA empregado por Maria Teresa, imperatriz da Áustria, para pôr em ação reformas similares em seus domínios. É fácil exagerar a importância do interesse de Frederico pela educação, pois ele prometeu mais do que realmente realizou. Sobre a educação in- É quase impossível exagerar a influência que Rousseau sobre a fantil para as massas, declarou: "No campo aberto é suficiente que apren- evolução da civilização moderna. Sir Henry Maine afirmou-o com exatidão: dam a ler e escrever um pouco; se souberem demasiado, irão para as cida- des e tornar-se-ão secretários ou coisa semelhante." Além disso, não tinha Nós nunca vimos nossa própria geração de fato mundo não viu mais que uma ou duas vezes em todo curso da História uma literatura que tenha grande consideração pelo valor da educação secundária e universitária. exercido tão prodigiosa influência sobre os espiritos dos homens, sobre toda a Estava principalmente interessado na escola para formação de professores espécie tipo de intelecto, como que emanou de Rousseau entre 1749 e numa escola militar para jovens da nobreza. 1. Suas doutrinas revolucionaram pontos de vista sobre governo, religião vida social; mudaram radicalmente as idéias dominantes sobre matri- mônio; obrigaram a reconstrução da Filosofia; inspiraram um novo movi- mento literário; e colocaram a educação em um novo rumo. VIDA E CARÁTER DE ROUSSEAU Meio familiar e formação inicial. Jean-Jacques Rosseau começou sua trágica carreira em Genebra, em 1712, rebento de pais de condições sociais diferentes, mas respeitáveis. O pai recuava sua ascendência a um livreiro que fugira de Paris no século XVI escapar à perseguição por sua fé protestante. A mãe, bela, inteligente e refinada, pertencia a uma família suíça de classe superior. Sujeito ao rigoruso regime que governava a cida- dela do calvinismo, Rousseau jamais foi capaz de atingir a estabilidade interior ou exterior. Sua vida começou com maior dos desastres, a morte de sua mãe, quando ele tinha apenas uma semana de idade. Com um per- manente sentimento de mágoa, ele, muito depois, deplorava sua perda: "Eu custei à minha mãe sua vida, e meu nascimento foi primeiro de meus infortúnios." 0 pai era um relojoeiro famoso, amante da leitura, mas excêntrico e sentimental. Demasiado pobre para pagar a educação ade- quada de seu filho, eΓa também demasiadamente ocupado e insensato para 10) Barnard, German Teachers and Educators, 595. Hartford: Brown & Gross, 1878. Henry. 84. York:278 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização Moderna 279 educar, ele próprio, rapaz. Quando Jean-Jacques tinha seis anos, seu pai valor para 0 psiquiatra que para estudantes de educação. Podem ser tra- ensinou-o a ler, escolhendo como textos alguns velhos romances que tinham tados com pouca minúcia. Um padre teve pena dele, cansado e esfomeado pertencido à sua Uma estranha espécie de cartilha, realmente! Antes por causa de sua vadiagem, alimentou-o e persuadiu-o a aceitar a fé cató- que ele completasse sete anos, OS dois haviam lido em VOZ alta, revezando- lica. Colocado, para sua edificação espiritual, sob a orientação de Mme de se, "noites inteiras juntos, e sem poder parar antes que tivéssemos chegado Warens, uma encantadora mulher, recém-convertida ao catolicismo, Rous- ao fim de um volume". Terminadas estas libertinagens sentimentais, foram seau fez poucos progressos em piedade. Com sua assistência, ele realizou avidamente devoradas outras mais substanciais, entre elas Vidas de Plu- muitos esforços para encontrar uma vocação conveniente. Serviu como tarco e Discursos sobre História Universal de Bossuet. Anos mais tarde, lacaio, estudou para sacerdócio, praticou música e tornou-se, sucessiva- Rousseau pintou um ardente quadro destas reuniões: mente, um funcionário do governo, professor de música e secretário. A lei- tura dos Pensamentos sobre Educação de Locke levou-o a tentar ensino, Eu não posso recordar, sem as mais doces a lembrança daquele e ele foi empregado para dar instrução aos dois filhos de Monsieur de Ma- virtuoso cidadão a quem devo meu Eu vejo as obras de Tácito, Plutarco e Grotius diante dele, entre instrumentos de seu ofício. Ao seu lado está seu filho bly, um importante funcionário em Lião. Como todos seus outros esfor- querido, recebendo a instrução do melhor dos ços, este também resultou em completo fracasso, pcr causa de seu tempera- mento irascível. Voltou novamente para teto hospitaleiro de Mme de As conseqüências desta superestimulação foram desastrosas; Jean-Jac- Warens e, finalmente, tornou-se seu secretário remunerado e seu amante. ques tornou-se um amante apaixonado da leitura, mas totalmente incapaz de Dois aspectos destes anos são de importância especial: as experiências adquirir hábitos e atitudes convencionais da vida normal. Segundo suas acumuladas em suas andanças e seus estudos de certa forma desorgani- Confissões, ele roubou, mentiu, fez trapaças sórdidas, e era inteligente, mas zados. Suas excursões permitiram uma visão viva da miséria revoltante dos indolente, irritável, e completamente sem princípios. camponeses franceses. Seus estudos serviram para familiarizá-lo com os Quando tinha dez anos, seu "melhor dos pais" fugiu e Jean-Jacques problemas sociais e filosóficos comuns que agitavam CS espíritos dos ho- juntamente com um primo, foi enviado para a escola, durante vários anos, mens. Montaigne, Leibniz, Locke, Pope e Voltaire causaram-lhe a mais na aldeia de Bossey. Esta foi a única formação que ele estava destinado profunda impressão. 0 círculo de suas leituras incluía, também, investi- a receber. por algum tempo, foi feliz, brincou com gosto, aprendeu jar- gações científicas, através das quais adquiriu algum conhecimento das dinagem e adquiriu aquele amor místico pela natureza que levava fre- obras de Descartes, Pascal, Kepler e Newton. Governo e educação, gra- qüentemente às lágrimas. Mas mesmo este curto período escolar terminou dualmente, tornaram-se temas centrais de seu pensamento. Isto pode em decepção. Ele voltou para casa com seu primo e partilhou de lições de ser relacionado ao seu estudo da República de Platão, que ele declarou ser desenho e pintura e, durante tempo de lazer, "faziam gaiolas, flautas, "a melhor obra sobre educação jamais escrita". Entre outros livros que pipas, tambores, casas, espingardas de cana e arcos". tiveram uma influência decisiva sobre ele estavam: Ensaios de Mon- Na juventude, Rousseau foi incapaz de se ajustar à vida social e pro- taigne, Ensaio sobre Homem, de Pope e Robinson Crusoé, de Defoe. fissional. Colocado no escritório do escrivão da cidade, foi logo demitido Tão profundamente impressionado ficou ele com último, que 0 selecionou, por incompetência. Aprendiz de gravador, fugiu aos dezesseis anos. mo- dentre todos livros já escritos para "constituir toda a biblioteca para a tivo foi insignificante, as conseqüências importantíssimas. Um do mingo à juventude de Emílio". tarde, vagava ele, como freqüentemente fazia, fora dos muros da cidade, Em 1741 Rousseau, num acesso de ciúmes, rompeu com sua fascinante com diversos companheiros. Ao voltar, encontrando as portas fechadas, amante e partiu para Paris. A despeito de extrema pobreza, excentricidades em vez de enfrentar a repreensão patrão, ele alegremente voltou as e timidez, estabeleceu relações cordiais com Voltaire, Diderot e outros lí- costas a seu lar e cidade natal para tornar-se um vagabundo. Se alguém deres. Ligou-se ao grupo literário e filosófico mais brilhante da França, tivesse podido olhar dentro do coração deste descuidado jovem vagabundo, aceitou seu pessimismo e empenhou-se em sua vida de liberdade. Copiando nada teria notado que prenunciasse futuro gênio que deveria afetar fundamente o curso da civilização. amante apaixonado da música, tinha música, obtinha um magro sustento. Conheceu Thérèse Levasseur, uma uma afinidade mística com a natureza, um agudo sentimento de justiça, um criada vulgar e muito tola, que viveu como sua amante durante 23 anos ligeiro interesse por artes manuais, uma consciência sexual anormal, uma antes que se efetivasse um casamento. Cinco filhos nasceram e, sem de- natureza um tanto tímida e desconfiada, um temperamento instável e um mora, cada um por sua vez foi enviado para 0 asilo dos enjeitados. Nenhum desejo incomensurável de independência. deles foi jamais localizado. Este foi um dos mais indescritíveis atos deste gênio paradoxal. Idade adulta. Os vinte anos posteriores de sua carreira têm mais grande despertar. Rousseau atingiu a idade madura de 37 anos, sem manifestar uma centelha de superioridade intelectual. gênio desper- 2) Rousseau, 20 Dircours on the Origin of tou nele com a instantaneidade de um raio de luz.280 História da Educação Moderna Rousseau: () Copérnico da Civilização Moderna Uma tarde quente em outubro de 1749, Rosseau estava passeando ocio- radoxos, a vida e caráter de Rousseau foram supremos paradoxos. samente pela estrada que leva a Vincennes para visitar Diderot, que estava Era uma criatura de emotividade prodigiosa e paixões incontroláveis, Pe- preso na Ao olhar de relance 0 Mercure de France, sua foi despertada pelo oferecimento de um prêmio da Academia Científica de ríodos de exaltação e alternavam-se com fases da mais profunda melancolia. Seu sentimentalismo atingiu as raias do absurdo. Era irascível, Dijon, para um ensaio sobre a pergunta: progresso das ciências e das artes contribuiu para a purificação ou para a corrupção da moral?" Esta invejoso e rixento. Nenhuma amizade era duradoura, pois pergunta feriu-o como um choque elétrico, e a experiência só pode ser des- ele eΓa sempre ligeiro em armar uma briga com aquele que procurasse crita em seus próprios termos: ajudá-lo. Criatura caprichosa, estava condenado a sofrer "a tempestade a tensão" emocionais da adolescência, através de todos seus dias. No momento em que li isto, eu vi um novo mundo e tornei-me um homem A tendência a lampejos de inspiração esclarece caráter paradoxal de Se alguma vez houve coisa que se assemelhasse a uma súbita inspiração, seu espírito. Idéias novas surgiam na consciência com subitaneidade ofus- foi a emoção dentro de mim a esta leitura. Imediatamente senti meus sentidos cante e poder Aqui se encontra uma explicação para suas mui- oluscados por mil luzes. Grande número de idéias vivas apresentaram-se subita- tas contradições, sua tendência inveterada para empregar paradoxo e sua mente, com uma força e confusão que me lançaram numa indescritivel perturbação. exploração de meias verdades. Ele tentou explicar sua incapacidade de Senti minha cabeça tomada de como uma intoxicação. Uma violenta pal- pitação me oprimia. Não sendo capaz de respirar e de caminhar ao mesmo tempo, pensar com unidade: deixei-me cair sob uma das árvores da avenida, e aí passei meia hora, em agitação, que, quando me levantei, toda a frente de meu casaco estava molhada Hesitando perpetuamente entre meus sentimentos naturais, tendendo ao bem com minhas lágrimas, embora eu não estivesse consciente de tê-las derramado. geral da humanidade, e minha razão, limitando tudo a mim mesmo, en teria per- Oh! Senhor, se 20 menos eu pudesse ter escrito a quarta parte do que vi e manecido toda minha vida neste dilema, fazendo mal embora amando senti debaixo daquela árvore, com que clareza teria eu estabelecido as contradi- bem, em constante contradição comigo mesmo, se um novo saber não houvesse ções de nosso sistema social; com que vigor teria exposto abusos de nossas ins- iluminado meu tituições; com que simplicidade teria mostrado que homem é naturalmente bom e que são estas instituições somente que 0 tornam Estes traços mentais podem, da mesma forma, explicar seus arrependi- Rousseau escreveu uma arrasadora denúncia da civilização. A principal mentos efusivos. No brilhante tributo a sua Genebra natal, ele confessou maravilha não foi que ele tivesse ganho prêmic, mas que membros que tinha "se tornado sábio demasiado tarde. lamentando inutilmente da academia tivessem votado a de seu ensaio, pois tinham em vista aquele tranqüilo descanso que eu havia perdido, na imprudência da juven- algo muito De qualquer maneira, Rousseau alçou-se para a fama Do mesmo modo, sofreu OS tormentos do remorso pelo tratamento e sentiu-se tomado por uma sagrada missão em favor da reorganização desumano dispensado a seus próprios filhos". da civilização. Enquanto escrevia a monstruosidade de sua conduta apode- Os anos seguintes de sua vida foram dedicados a escrever. Em resposta rou-se de sua consciência, como indica a seguinte passagem: a um segundo prêmio oferecido pela academia, escreveu: Qual é a Causa da Desigualdade entre os Homens? Em 1761 discutiu 0 casamento e a vida Leitor, acredite-me quando predigo que quem tiver coração e negligenciar familiar num romance intitulado A Nova No ano seguinte, segui- tais deveres sagrados, derramará por muito tempo lágrimas amargas sobre seu erro, ram-se as duas obras mais importantes, nas quais repousam sua fama de jamais encontrará consolação para gênio: Contrato Social, resultado de muitos anos de reflexão e estudo Ao lado de sua natureza reprovável, existia a capacidade de sentir um dos princípios de governo, e no qual discutiu a educação. Diz-se frêmito por tudo que é sublime e de expressar estas nobres aspirações de que Rousseau passou a última metade de sua vida escrevendo sobre a pri- modo tão comovente, que mundo ficou inspirado. Se não houvesse a meira. Isto é especialmente verdadeiro quanto a sua última obra, as Con- mínima informação a respeito da vida que ele teve, apenas através de seus fissões, na qual despiu sua alma como nenhum outro homem jamais fez. A despeito de sua grande celebridade e incomparáveis serviços à humani- escritos, seríamos compelidos a considerá-lo como um dos mais nobres idea- dade, seus últimos dias não foram mais felizes que primeiros. Morreu listas de mundo. Sua firme crença na bondade original do coração humano, no exílio, na pobreza e na solidão, com a idade de 66 seu desejo de preservar a inocência deste a todo custo, seu profundo senti- mento de justiça e genuína simpatia pela humanidade decaída, seu interesse A natureza paradoxal de Rousseau. De todas as grandes figuras da História nenhuma apresenta enigma mais inexplicável. Criador de pa- 4) Profession of Faith 5) the Origin of 3) Rousseau J. J., VIII: An Emile. de Defour, Correspondence générale J.J. VII, pags. Paris, Librairie deste são da tradução de William H. Armand Colin, Livro282 História da Educação Moderna Rousseau: 0 Copérnico da Civilização Moderna 283 pela preservação da virtude, seu amor à liberdade, sua paixão pela auten- O homem no estado natural. Pelos meados do século XVIII, um tre- ticidade, são todos característicos do idealista. mendo progresso tinha se realizado na compreensão do homem a respeito A ruptura de Rousseau com racionalismo não foi, de forma alguma, de seu próprio ser. Havia muitas razões para isto. Primeiro, a Astronomia um repúdio à função da Ele viu que a faculdade de raciocínio, como havia destruíde a concepção tradicional de que homem é modelo da os enciclopedistas a concebiam, era egoista, cínica e desdenhosa para com criação. Ele não podia mais lisonjear seu ego com a noção de que tudo fora as massas humanas. inútil", declarou ele, "tentar estabelecimento da feito expressamente para seu bem-estat. Então, novamente, o conhecimento virtude apenas sobre as bases da razão." Em sua filosofia, a razão não é um das civilizações antigas grega e romana tinha mostrado que o he mem pode aspecto primordial da alma, mas uma habilidade adquirida, que emerge se desenvolver até um ponto avançado, por suas próprias capacidades na- relativamente tarde no desenvolvimento humano. Além disso, contato íntimo com OS índigenas americanos tinha trazido novo conhecimento do caráter das raças primitivas e do ideal do TEORIAS POLÍTICAS E SOCIAIS DE ROUSSEAU "selvagem nobre". Destas novas concepções emergiu um interesse em discriminar o que Revolta contra a 0 verdadeiro objetivo da Academia de pertence à natureza e o que pertence aos acréscimos artificiais da civili- Dijon era contrastar a imoralidade da Renascença humanista com as vir- zação. Os estudantes de administração relacionaram sua origem a um "esta- tudes da era escolástica. Rousseau não tinha desavenças com Humanismo, do natural" e a "direitos naturais" inerentes. A Filosofia e a Teologia foram mas aproveitou a ocasião para afirmar que as artes e as ciências, em todos adiante na procura de uma base nova e melhor, e descobriram-na na na- tempos e em todas as terras, tinham causado a decadência da virtude. tureza íntima da racionalidade humana. Disto surgiu, da mesma forma, Por toda a parte, a humanidade tornou-se corrupta "à proporção que as conceito de religião natural. Com estas sugestões diante de si, Rousseau artes e as ciências progrediram. A vazante e enchente diárias das marés não são mais regularmente influenciadas pela lua, do que a moral de um pintou seu quadro do homem original no estado natural, e continuou a povo pelo progresso das artes e ciências. À medida que sua luz se levanta mostrar que mudanças e acréscimos tinham sido adquiridos pela ação da em nosso horizonte, a virtude foge, e o mesmo fenômeno tem sido constan- civilização: temente observado em todos OS tempos e lugares". As artes e ciências tor- Quando penso neste homem tal como ele deve ter sido ao sair das mãos nam homens covardes. A proporção que enervam corpo, diminuem da natureza, vejo um animal menos forte que alguns dos animais, menos ágil vigor da mente e corrompem a moral. Os exemplos de virtudes que outros, mas, tomando-o em conjunto, melhor organizado que qualquer um másculas foram OS espartanos, OS citas e OS romanos. As virtudes supremas são: coragem, temperança, simplicidade, resistência, fraternidade e justiça. Rousseau estava admiravelmente apto para dirigir a revolta contra 0 Quanto à mentalidade, homem uma criatura de sentimento e sen- artificialismo e a degeneração da civilização. Um ressentimento pessoal sibilidade, e seus desejos "não vão além de suas necessidades físicas". Não deu-lhe motivo para proferir uma acusação contra todas as instituições tinha relações com seus companheiros, não falava língua alguma e era humanas. Consideremos sua "terrível destituição" em todas as relações destituído de todo raciocínio e imaginação. "As únicas coisas boas que ele humanas vitais. Jamais, como criança ou como homem, gozou do reforço conhece no universo são sua comida, seu companheiro e seu descanso. Os moral que provém de uma vida doméstica normal. Muitos ofereceram-lhe únicos males que teme são a dor e a fome." Como os animais, é embotado amizade, mas sua natureza irascível tornou-lhe impossível aproveitar seu e rude, mas bom e feliz. Rousseau concordava com a descrição de Pope auxílio. Repetidas vezes tentou adquirir a moral que decorre de emprego do estado original: seguro, mas falhou invariavelmente. Orgulhosamente, sua cida- dania, mas permaneceu no exílio a maior parte de seus dias. con- Não havia então orgulho, nem artes para favorecer aquele orgulho; jugal degradou-o e o escandalizou. Um cristianismo falso privou sua alma 0 homem caminhava com a fera, proprietário comum da sombra; sensível das consolações do companheirismo "Certamente, nin- 0 mesmo com sua mesa; mesmo com sua guém foi jamais tão solitário em meio à sociedade quanto ele." Desajustado em todos sentidos, seu gênio buscou consolação e expressão, criando No estado natural homem vivia completamente inconsciente de si imagens de uma civilização mais nobre. "Ele é, por assim dizer, protesto mesmo. 0 fim único de sua conduta era preservar-se da dor e da morte corporificado da individualidade contrariada contra a sociedade que falhou assegurar a satisfação de sua natureza animal. 0 motivo principal de sua em dar à humanidade propósito adequado⁸." conduta Rousseau denominou amor-a-si-mesmo (amour-de-soi) isto é, Longmans, Green and Co., 8) Boyd, The Educational Theory of Jean-Jacques 93. Londres: Rousseau, J.J., Dircourse on the Origin of Inequality, Parte I. 10) Pope, Alexander, Essay on Man.284 História da Educação Moderna Rousseau: 0 Copérnico da Civilização Moderna 285 0 instinto de autoconservação. Neste estado animal, todos indivíduos seu estado original, não era um Não tinha um equipamento eram livres, iguais e de algum dependentes uns dos completo de instintos capazes de determinar todas as suas ações estado de selvageria. A razão elevou homem acima do estado ticamente. A natureza age nos animais, mas o homem é um agente livre. puramente Linguagem, vida familiar e as artes simples foram cria- Neste aspecto 0 homem é menos perfeito que outras criaturas, porém sua das. Mas homem ainda era independente: suas necessidades eram poucas, fraqueza é compensada pela capacidade de compreender e raciocinar. No sua força mais do que necessária e suas virrudes ultrapassavain de muito estado natural, sua compreensão era 0 instrumento de suas poucas e simples seus vícios. Assim, imaginava Rousseau, selvagem vivia sereno e feliz, numa condição de plácida estupidez. Mas uma mudança trágica ocorreu na condição primitiva do homem. A evolução da sociedade. Entretanto, homem não permaneceu De sua inteligência rudimentar emergiram a curiosidade e a capacidade de neste estado natural. Sua imaginação despertou novos e insaciáveis discriminação. No início, uma árvore era tão boa quanto outra, um com- desejos e conduziu a criar necessidades artificiais. Auto-afirmação, auto- panheiro tão atraente quanto outro, e não havia escolha quanto seu ali- engrandecimento e emulação surgiram nos corações dos homens. amor- mento, pois "todos comiam OS mesmos alimentos, viviam do mesmo modo a-si-mesmo inicial, que não era nem nem substituído por e faziam exatamente as mesmas coisas". Todos os homens eram iguais. amour-propre, um calculado e Com 0 novo poder de discriminação, a escolha surgiu e pôs fim à uni- Este novo progresso foi a mãe fecunda de todas as paixões degenerado- formidade e à simples igualdade. Preferência quanto à sua habitação, com- ras corruptoras e dos vícios do homem. Resultaram distinções sociais de panheiro e alimento produziram maior complexidade de A vida superioridade inferioridade que trouxeram em seu a horrível se- familiar evoluiu, a linguagem tornou-se comum, e isto levcu à formação da mente das atrocidades humanas para com homem. Em sua ambição ili- sociedade humana. A estes progressos foi então acrescentado apareci- mitada, cada um procurou subordinar tudo e todos OS demais a ele próprio. mento da propriedade privada, que pôs em ação uma das mais sutis e po- A inreligência humana, com auxílio de uma imaginação inconstante, ex- derosas paixões da alma humana. pandiu seus desejos e criou novas necessidades, ilimitadas na extensão, 0 estado de inocência e felicidade inicial do homem foi destruído por que ele era incapaz de satisfazer através de seu próprio poder recursos. sua inteligência. A racionalidade foi, ao mesmo tempo, a causa de sua Outros indivíduos tiveram que ser utilizados como instrumentos, para sa- moral e de todos seus infortúnios. Levou-o a seu primeiro tisfazer estes desejos. Os indivíduos vieram a ser classificados segundo uma pecado que expulsou de seu jardim de felicidade e colocou-o sob uma escala social e sua igualdade original desapareceu completamente. maldição. verdadeiro problema foi que o homem substituiu a virtude Esta tendência levou à organização da vida social, política e industrial pela astúcia e preferiu auto-engrandecimento à igualdade. No clímax nas classes superiores e inferiores e, assim, à A vida social veio de seu Discurso sobre as Artes e as Ciências, Rousseau profere esta fan- a ser governada por convencionalismo, artificialismo e pedantismo. A reli- tástica oração: gião degenerou em formalismo e hipocrisia. terminou em despo- tismo e tirania. Preconceitos e convenções oprimiram homem por todos Deus Todo-Poderoso! Tu que manténs em Tuas mãos OS espíritos dos homens, livra-nos das artes e ciências fatais de nossos antepassados; dá-nos de volta igno- OS lados e ele perdeu inteiramente poder de agir por sua própria iniciativa. rância, inocência e pobreza, que elas podem nos fazer felizes e são preciosas a "Ele deve fazer como outros fazem, e como OS outros querem que ele Teus olhos. faça." Nesras circunstâncias, a independência foi perdida e a individualida- de destruída; homem mergulhou numa condição de servilismo a seus Origem das artes e ciências. A razão pela qual as artes e ciências companheiros e às instituições e costumes Separou-se definidamente corrompem homem está no fato de que são de origem maligna. Nascem dos outros e separou seus bens dos bens dos outros. Tornou-se agudamente da curiosidade do homem e de seu desejo de melhorar sua sorte. consciente do eu, de sua posição em relação a outros, de seu poder sobre outros e do poder dos outros sobre ele. A Astronomia nasceu da superstição, a da ambição, ódio, falsidade e bajulação; a Geometria, da avareza; a Física, de uma ociosa; e até a A razão, a causa da ruína Os animais são máquinas movi- Filosofia Moral, do orgulho humano. Assim, as artes e as ciências devem seu nas- das por instintos fixos que agem de acordo com as leis uniformes da natu- cimento aos nossos vícios; teríamos menos desconfiança de suas vantagens, se sur- Tal foi a conclusão da filosofia francesa da época. La Mettrie e muitos gissem de nossas virtudes. outros aceitaram a conclusão lógica de que o homem também é apenas Assim é que a a depravação e a escravidão têm sido, em todas as épocas, 0 castigo pelos esforços de nosso orgulho para sair daquele feliz estado de uma espécie de Mas, segundo Rousseau, animal, em ignorância, no qual a sabedoria da providência nos 11) La J. de, Man Traduzido por Carman Bussey. Chicago: Open Court Publishing 1912. 12) Ronsseau Dircourse on the Arts and Pagines referentes 8 EVERYMAN'S LIBRARY, volume intitulado The Social Contract and Discourses. Todas as referências ao The Social Contruct вão desta edição. 20 8238286 História da Educação Moderna Rousseau: 0 Copérnico da Civilização Moderna 287 " Reformas institucionais. Rousseau declarou ser a civilização um erro das leis. Como ele concebia a democracia, "o povo, sendo sujeito a leis, colossal e a sociedade a lonte de todo mal; mas, é estranho dizer-se, no deveria ser o autor Escreveu: fim, ele não exigiu sua abolição. Embora sempre mais ou menos sob a in- fluência deste estranho pessimismo, ele teve esperanças de realizar refor- Eu deveria ter procurado um país no qual direito de legislar fosse conferido mas radicais e imunizar a criança de forma que esta pudesse reagir ao a todos cidadãos; pois quem melhor que eles pode julgar as condições sob as quais eles têm vivido da forma mais conveniente, na mesma veneno dos contatos sociais. Apontou as mudanças necessárias no Estado, Igreja, casamento, vida familiar e escola, a fim de trazê-las de volta ao: 0 governo representativo é errado em princípio, pois "no momento em princípios fundamentais da natureza. que um povo se permite ser representado, já não é mais livre". Além disso Contrato Social inicia-se com 0 paradoxo: homem nasceu livre, acrescentou: "Duvida-se de que, desde o início do mundo, a sabedoria hu- e pcr toda parte está acorrentado." Esta é devida a um antago- mana tenha feito dez homens capazes de governar seus Estes pon- nismo irreconciliável entre estado natural e a sociedade. No estado natu- tos de vista eram absolutamente radicais nos meados do século XVIII e ral todos eram livres e iguais, e ninguém exercia qualquer controle sobre apontaram uma espada para coração do governo Rousseau outro. Preservar esta condição é a função do governo civil. foi 0 profeta da democracia, embora ele próprio não fosse um democrata verdadeiro. Se perguntarmos precisamente em que consiste 0 maior bem de todos, que deveria ser 0 objetivo de todo sistema de legislação, veremos que se resume em homem no estado civil. As opiniões de Rousseau sofreram uma duas coisas principais: liberdade e modificação entre a época de seus primeircs ensaios e a elaboração de 0 Contrato Social. Ele não idealizava mais o homem primitivo, mas esta- A liberdade pessoal pertence ao homem por direito natural e é, para sem- belecia 0 estado civil segundo princípios pre, inalienável isto quer dizer: nunca pode ser, com justiça, perdida, Quando o estado civil emergiu do barbarismo primitivo, produziu muitas vendida, ou de outra forma dispensada. Por esta razão, quando 0 homem modificações na natureza do homem. Houve algumas desvantagens, mas entrou para estado civil, ele 0 fez por um contrato mútuo cu social. estas foram compensadas por uma preponderância de benefícios. A prin- Formando assim 0 Estado, dois fins foram buscados: primeiro, a defesa cipal causa desta mudança evolutiva foi aparecimento da razão; pois, comum; e, segundo, a preservação da liberdade original do homem. 0 "pro- em virtude desta modificação, a humanidade encetou a vida moral. blema" do governo civil é: A passagein do estado natural para estado civil produz uma mudanca muito encontrar uma forma de associação que defenda e proteja, com toda a força comum, importante no homem, substituindo em sua conduta instinto pela justiça, e a pessoa e bens de cada associado, e na qual, cada um, enquanto se une aos dando às suas ações a qualidade moral que antes não somente quan- outros, pode ainda obedecer apenas a ele próprio e permanecer tão livre quanto do a do dever toma o lugar do impulso físico e a lei sucede 20 apetite, que o homem, que até então olhara exclusivamente para si próprio, vê que é obrigado a agir segundo outros princípios e a consultar sua razão, antes de atentar para Rousseau concebia uma sociedade na qual a proteção seria fornecida suas pela cooperação da massa, mas na qual não haveria limitação à liberdade Vê-se por esta nova apresentação, que Rosseau estava agora plenamente individual. Tinha em vista "o nobre selvagem", não como selvagem eΓa cônscio do absurdo de seus princípios iniciais; mas sua inteligência jamais na realidade, mas como era romanticamente encarado e idealizado pelos foi capaz de transcender antagonismo entre a natureza e a sociedade. No escritores do século XVIII. Esta criação imaginária "não está ligada a final, ele procurou fazer isto pela teoria das fases sucessivas no desenvol- nenhum lugar, não tem tarefa definida, não obedece a ninguém, não tem vimento da vida individual. Numa fase, realce era dado ao desenvolvi- outra lei a não ser sua própria vontade, e é compelida a raciocinar sobre mento do selvagem e do indivíduo; em outra, ao desenvolvimento da razão cada ação de sua e do dever; e ainda em outra, ao homem social. Estado existe em virtude da "vontade geral", que é bem universal. As leis são apenas expressão deste interesse comum e deveriam ser aprova- A religião e a Igreja. Na Profissão de Fé de um Vigário Saboiano das unicamente com o consentimento do povo: Estado ideal de Rousseau Rousseau denunciou OS males da Igreja e expôs uma doutrina religiosa é pequeno, como Esparta ou Genebra. Opunha-se fortemente à política do governo representativo, pois cada indivíduo deveria ajudar na elaboração 16) J.J., The Social Contract, pág. 17) ao Discourse on the Origin of 18) Discourse on Political Economy, 252. EVERYMAN'S LIBRARY, The Social 13) J.J., The Social 45. Contract and Todas as desta edição. 14) 19) The Social Contract. Livro 1, Cap. VIII. 15) Boyd, William, op. cit., 93.288 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização Moderna 289 baseada apenas na natureza na razão. Negou milagres, revelações, dogmas a consciência, uma noção do certo e do errado, um senso de justiça, reve- e credos. Como seus contemporâneos, era um deísta, mas seu deísmo era rência e piedade são inatos na alma. grande problema é, não implantar religioso e emocional. Combinou um agnosticismo discreto em relação à virtudes, mas preservar a alma dos vícios que a sociedade nela coloca. possibilidade de revelação com um espírito de reverência pelo Cristianismo. A religião, entretanto, ele acreditava ser uma questão do indivíduo, do 16 A origem dos vícios. Como vício surge pode agora ser pronta- coração e da razão, não um poder institucional, ou um ritual externo. mente visto, segundo Rousseau: casamento e a família. Estas instituições também caíram no âm- Estabeleçamos como um princípio incontestável que OS primeiros movimentos bito do açoite de Rousseau. 0 costume comum, especialmente na França, da natureza são sempre Não há perversidade original no coração humano. era de que pai arranjasse casamento de seus sem consideração Não há um único vício nele, do qual não possamos dizer como entrou e de onde pelos sentimentos e inclinações naturais dos mesmos. Quão absurda a si- veio. Ninguém jamais faz 0 mal como tuação freqüentemente se tornava nós já A Nova Heloisa retrata Todos OS vícios começaram quando 0 homem encetou as relações huma- a revolta da heroína, quando prestes a ser dada em casamento: nas. 0 homem original vivia uma existência Suas necessidades eram Meu pai vendeu-me, então? Sim, considerou sua filha como mera proprie- poucas e simples; e sua força e habilidade eram suficientes para satisfazer dade, entregou-a com tão pouco escrúpulo como um comerciante 0 faria com um completamente cada necessidade. A vida embotada e rude, mas era fardo de mercadorias. Ele adquire seu próprio e ao preço simples, feliz e sem afetação. de todo meu futuro conforto, não, de minha própria Esta condição, infelizmente, sofreu uma modificação radical. Uma vã curiosidade levou 0 homem comparar-se com outros e encorajou-o a con- Os resultados deste método de arranjar uniões deveriam ser verificados ceber novos desejos. Estes desejos não podiam ser satisfeitos por seu pró- na frouxidão da fidelidade conjugal: prio poder e habilidade desamparados. Somente se outros indivíduos ampa- rassem seus esforços poderia ele conseguir todos desejos de seu coração. Em Paris, o casamento é uma instituição diferente do que é em outras partes Tornou-se mais e mais dependente dos outros, e a sociedade tornou-se, do mundo: chamam-na um sacramento e, entretanto, não tem nem a metade da força de um contrato comum. Parece nada mais ser que um acordo particular assim, cada vez mais complexa. A condição original de igualdade dos homens entre duas pessoas, para viverem em comum, usarem mesmo nome e reconhe- foi destruída; em seu lugar, surgiram as classes sociais com divisões de ca- cerem os mesmos filhos. Se em Paris um homem pretendesse ficar ofendido com tegoria e distinções sociais uns poucos que comandam e a maioria que a má conduta de sua esposa, seria tão comumente desprezado como em nosso país obedece. seria por não conhecimento de seu comportamento A categoria social produz um novo e agudo sentimento de individuali- dade. 0 indivíduo compara-se com outros e o amor-próprio (amour-propre) natureza humana é boa. A teclogia dominante sustentava que nasce. Expressa sua natureza na auto-afirmação ou auto-engrandecimento. homem é totalmente depravado, pois pecado é hereditário em todos os aspectos de sua natureza, suas emoções, vontade e razão. Isto constituiu Mas amor-próprio (amour-propre) jamais é satisfeito, e não poderia ser, uma das doutrinas centrais de Tertuliano e de Santo Agostinho e seus porque este sentimento, preferindo nós mesmos aos outros, também exige que seguidores, especialmente de João Calvino e dos port-royalistas. É curioso outros nos prefiram 2 eles uma coisa que é que faz OS homens que, embora Rousseau tivesse nascido e crescido na cidade do calvinismo, essencialmente bons é ter poucas necessidades e comparar-se bem pouco com ele jamais se tivesse cansado de combater esta doutrina pessimista. "Tudo", declarou, "é bom 20 sair das mãos do autor da natureza." Ainda, "oh! não Aí está fonte de todos OS vícios: a emulação provoca ciúme, orgulho, estraguemos o homem natural e ele será sempre virtuoso sem coação e feliz vaidade, inveja e todas as outras fraquezas humanas. sem remorso". Ou, "não há um patife vivo cujas tendências naturais não Perpetuação do mal no indivíduo. Até agora, estivemos conside- tivessem produzido grandes virtudes, se tivessem sido mais bem orienta- rando a origem do mal na raça. Como é transmitido da geração mais velha das". A bondade é, assim, a condição original; a maldade é a adquirida. Se a perversidade fosse natural, o homem teria que tornar-se artificial a fim para a mais nova, é também prontamente visto. 0 lar, a escola, ambiente de tornar-se bom. 0 autor das leis da natureza não teria criado homem social nos corações das crianças desejos e ambições artificiais que mau, assim como não teria feito a lei da gravidade imperfeita. As virtudes, elas não têm 0 poder de satisfazer. Rcusseau mostra como lar introduz estes falsos desejos e leva a criança a dominar outros: 20) Ver 268 21) Rousseau, The New 23) Boyd, William, op. cit., pag. 22) Carta LXXXVI. 24) Rousseau, J.J.,290 História da Educação Moderna Rousseau: 0 Copérnico da Civilização Moderna 291 Uma criança chora tão logo nasce; e seus primeiros anos são passados em lá- mais revolucionária. Tal como Copérnico destruiu a cosmologia medieval, grimas. Num momento, nós corremos e a acariciamos para apaziguá-la e, em Rousseau pôs um fim às concepções teológicas tradicionais da criança, mos- outro, nós a ameaçamos e a espancamos para mantê-la quieta. Ou fazemos que trando que ela é uma criatura da natureza e que age e cresce em harmonia agrada a ela, ou exiginos dela que nos agrada; ou sujeitamo-nos a seus caprichos, com suas leis. ou sujeitamo-la nossos. Não há meio termo; ela deve ou dar ordens ou rece- bê-las. E assim, suas primeiras idéias são as de domínio e servidão. Antes de saber 19 Falsas concepções do ponto de vista adulto. ponto de vista como falar, ela ordena; e antes de saber como agir, ela obedece; e algumas vezes ela é castigada antes de ser capaz de reconhecer suas faltas, ou melhor, de cometer adulto tinha numerosas concepções errôneas e enganosas que foram consi- deradas então bem absurdas. A maior parte do tratamento dado às crian- ças, assim como a maioria dos métodos de instrução, tinham de sofrer revi- Os desejos e OS poderes de um indivíduo deveriam contrabalançar-se são radical. mutuamente. Se seus poderes são maiores que seus desejos, ele carece de A mais importante destas idéias errôneas de que a criança é uma estímulo para auto-realização; se seus desejos ultrapassarem seus poderes, miniatura do adulto, e que crescimento em tamanho e o aumento em resulta um sentimento de frustração e infelicidade. No caso da criança pe- são OS processos de educação. Como conseqüência desta idéia, quena, é fácil implantar desejos totalmente desproporcionados em relação meninos e meninas eram tratados como pequenos homens e pequenas mu- a seus poderes e capacidade para realizá-los. lheres. Eram vestidos segundo as modas absurdas e prejudiciais de seus pais. Tão logo chegam a considerar as pessoas que as cercam como instrumentos que podem usar, elas fazem uso das mesmas para seguir suas inclinações, e para 0 período de Luís XIV também impôs às pobres crianças das classes suprir sua própria fraqueza. É assim que se importunas, tirânicas, impe- superiores cabelo frisado com pó e untado de pomada, casacos bordados, calções riosas, depravadas, indomáveis; uma evolução que não provém de um espírito 05 joelhos, meias de seda, uma espada ao lado; tudo que era a mais severa natural de domínio, mas que lhes dá este espírito; não é necessária uma longa tortura para crianças pequenas e experiência para se sentir quão agradável é agir através das mãos de outros, e precisar apenas pôr a língua em ação para pôr universo em Meninas pequenas usavam vestidos compridos e corpetes, como 0 faziam as mulheres. Assim como as pessoas tratavam corpo das crianças, tam- Ainda, Rousseau previne contra este perigo: "É importante acostumá-la, bém tratavam seus espíritos. Esperava-se que compreendessem OS mesmos num período inicial, a não comandar homens, pois ela não é seu senhor, assuntos e se interessassem pelas mesmas idéias que adultos. Eram obri- nem coisas, pois elas não a Assim, é a sociedade que cedo im- gadas a praticar as mesmas convencionalidades da vida polida e, ao mesmo planta, nos corações das crianças pequenas, desejos que elas não deveriam tempo, observar um padrão muito mais rigoroso de comportamento ético. ter e para cuja satisfação elas precisam usar outras pessoas como meros 0 afastamento do tipo adulto era considerado como uma anormalidade instrumentos. É esta inculcação dos sentimentos de superioridade e inferio- e tratado com medidas severas. As amas algumas vezes atavam as ridade que desgraçou a humanidade. Impedir este processo depravador no cabeças dos recém-nascidos, para dar-lhes formas mais bem-feitas. Assim, indivíduo é a suprema tarefa da a conduta da criança eΓa limitada por regras duras, porque estava ligada à perversidade inata do coração humano. Rousseau libertou a infância, com ROUSSEAU FORMULA A NOVA EDUCAÇÃO um golpe audacioso, de todo este artificialismo no vestir e no tratamento da conduta. O novo ponto de vista. Através de todos OS séculos, a teoria e a prática A educação fora considerada como um processo pelo qual a criança deve da educação foram determinadas do ponto de vista dos interesses do adulto adquirir certos hábitos, habilidades, atitudes e um corpo de conhecimentos e da vida social adulta. Ninguém havia sonhado que poderia haver qualquer que a civilização havia conservado. EΓa a tarefa da escola transferir estes, outro ponto de vista através do qual se pudesse encarar a formação dos sem modificação, para cada nova geração. De um lado, a estabilidade da jovens. Rousseau atacou audaciosamente esta afirmação básica, não ape- sociedade dependia do sucesso da transferência, de outro, o sucesso do in- nas como totalmente falsa, mas absolutamente prejudicial. No lugar das divíduo dependia de tê-los adquirido. 0 fato de que as crianças são imita- idéias e opiniões do adulto, colocou as necessidades e atividades da criança doras, de que 0 poder retentor da memória é mais forte na infância, de que e 0 curso natural de desenvolvimento. Nenhuma mudança poderia ter sido elas possuem uma extraordinária habilidade para adquirir linguagem inde- pendente das idéias simbolizadas tudo isto conspirou confundir a pedagogia. 25) 26) Ibid., 27) Ibid., 30. 29) Barnard, German Teachers 479-480. Hartford: Brown and 28) A nasce desamparada e capacidades não são iguais às necessidades. Gross. 1878. Mas, B ajuda que necessita, podemos292 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização Moderna 293 Foi um grande serviço de Rousseau demolir este falso sistema de edu- homem na criança, sem pensar no que ele eΓa, antes de se tornar Este cação. Sua suprema contribuição para a humanidade está em fazer da é estudo ao qual muito me dedico com 0 fim de que, embora meu método possa ser quimérico e falso, possa ser sempre tirado proveito de minhas observações. criança 0 novo ponto central do qual a educação deve ser encarada. Ele Eu posso ter uma concepção muito pobre do que deveria ser feito, mas penso que nos diz que "nós nunca sabemos como nos colocarmos no lugar das crianças; tenho uma opinião correta sobre 0 assunto do qual deveremos tratar. Começai, não penetramos em suas idéias, mas imputamo-lhes as nossas". A meta- pois, por estudar alunos mais completamente, pois é muito provável que morfose da vida humana infância, meninice, juventude e maturidade não são as bases da nova pedagogia. Ensinar e formar consistem, não em incul- car idéias, mas em fornecer à criança as oportunidades para funciona- Ignorantes dos verdadeiros sentimentos, pensamentos e interesses das mento daquelas atividades que são naturais em cada fase. crianças, adultos impõem-lhes deles. 0 princípio do novo método é compreender que a natureza, ela mesma, está desenvolvendo na criança. Outra afirmativa da de amplo alcance, colocava interesses da "Vós devíeis", admoestava ele, pais e professores, "estar completamente sociedade acima dos do indivíduo. "Como um cavalo de sela, 0 homem absorvidos na criança observando-a, vigiando-a sem descanso, e sem deve ser treinado para serviço do homem." 0 indivíduo era sacrificado parecer fazê-lo, tendo um pressentimento de seus sentimentos, por ante- pela massa: Toda a nossa sabedoria consiste em preconceitos servis, todos OS nossos Rousseau descobre a teoria da recapitulação. A tecria que cativou tumes são apenas servidão, aborrecimento e coação. 0 homem civilizado nasce, vive pensamento do século XVIII eΓa de que as grandes épocas da história do e morre numa condição de escravidão. Ao nascimento é atado em cueiros; por sua homem devem ser concebidas como análogas aos períodos na vida de um morte é encravado num caixão; e, enquanto conserva forma humana, é acorren- tado por nossas só indivíduo. A raça humana tinha atravessado as sucessivas fases de infân- cia, meninice, juventude e maturidade, e estava então no período da velhice. A criança era treinada paΓa se ajustar à sociedade existente. esmaga- Em vez de usar as épocas do desenvolvimento individual para lançar mento impiedoso da individualidade provocou ódio amargo de Rous- luz sobre desenvolvimento da raça, Rousseau inverteu a concepção, seau. O indivíduo jamais deveria ser sacrificado aos caprichos superficiais completamente, e utilizou a evolução da raça para explicar desenvolvi- da sociedade: mento do indivíduo. Em seu progresso do nascimento à maturidade, a criança revive as épocas através das quais a raça passou em seu movimento homem é um ser demasiadamente nobre ser obrigado a servir como para a civilização. Começa como um animal; torna-se então um selvagem, um mero instrumento para outros, e não deveria ser empregado naquilo para um solitário ou Robinson Crusoé; atinge então a racionalidade, e, final- que está apto, sem também tomar em consideração que é adequado para ele; mente, emerge como um ser social. Se nós quisermos compreender a in- pois homens não são feitos para suas posições, mas suas posições para os fância, devemos extirpar todas as artificialidades que homem adquiriu através de séculos de crescimento social e olhar 2 vida do ponto de vista A bondade e a felicidade do indivíduo são mais essenciais que desen- simples e direto do homem original. Do que pura analogia literária, volvimento de seu talento para serviço social. Colocando as necessidades Rousseau fez instrumento de uma nova concepção da existência humana. Embora não estivesse ciente do fato, introduzira a teoria da recapitulação, e interesses do indivíduo acima dos da sociedade organizada, Rousseau que deveria receber crescente interesse e apoio da teoria de Darwin da evo- inverteu a ordem universal. Na sociedade ideal e natural, onde a natureza lução biológica, no século XIX. conserva sua simplicidade e inocência originais, todos indivíduos seriam educados juntos e participariam de interesses comuns. Fases de desenvolvimento. 0 reconhecimento de fases no desenvol- O novo ponto de vista de Rousseau começou com sua teoria da evo- vimento da vida individual não novidade. Existira desde Aristóteles e lução da organização social, e foi confirmado por um crescente discerni- tinha sido realçado novamente por Comenius. Mas foi Rousseau quem mento da natureza das crianças. 0 âmago de sua teoria educacional é o tornou um princípio vital para a educação, mostrando sua mais profunda estudo da natureza infantil. Isto ele indicou em termos precisos: significação. De acordo com seu ponto de vista, as diversas fases estão nitidamente Não conhecemos a infância. Agindo segundo idéias falsas que dela temos, diferenciadas umas das outras por características ou funções especiais. Rous- quanto mais longe vamos, mais distantes estamos do caminho certo. Aqueles que seau foi, na realidade, primeiro a introduzir a teoria do desenvolvimento são mais sábios apegam-se ao que é importante para homens saberem, sem por saltos. A súbita emergência de alguma nova função, de um salto, por considerar 0 que as crianças são capazes de aprender. Estão sempre procurando 0 32) J.J., Emile 30) J.-J., Emile, 10. 33) Rousseau, Emile, 31) Boyd, William, cit., 140. Citado do The New 2.294 História da Educação Moderna Rousseau: O Copérnico da Civilização Moderna 295 assim dizer, estava em harmonia com suas próprias experiências tempera- A criança é um animal; tratai-a como um animal. A de dez anos de idade mentais. A primeira fase, do nascimento aos cinco anos de idade é uma é um selvagem: não esperai mais dela que de um Mesmo de doze a fase animal. Então surge a aurora da autoconsciência, primeiro senti- quinze anos, contentai-vos em ver ménino brincar de Crusoé, que, do ponto mento de si mesmo. "A memória difunde o sentimento de identidade sobre de vista social, ele ainda é um todos momentos de sua existência. Ele se torna verdadeiramente alguém." Com 0 início de lembranças associadas do eu "começa propriamente a vida Sendo este o caso, Rousseau opõe-se veementemente à noção tradicional do Aos 12 anos, ele se torna subitamente consciente de si que encarava a educação inicial como uma preparação para a vida adulta. mesmo, de um modo mais profundo; a faculdade racional desperta e, com ela, emergem sentimentos mais elevados. Mas a criança é ainda um ser Que devemos pensar, então, daquela bárbara educação que sacrifica presente a um futuro incerto, que sobrecarrega a criança de correntes de toda espécie e isolado, sem verdadeira vida moral. A fase seguinte é atingida na puber- começa por torná-la infeliz, a fim de preparar para ela, com grande antecedência, com aparecimento do sexo, que é mais importante fator em toda uma suposta felicidade que provavelmente ela jamais desfrutará? Se eu admitisse a história da vida do que a educação é razoável em seu objeto, como poderíamos ver, sem indignação, estas pobres infelizes sujeitas a um jugo insuportável condenadas, como escra- Nós temos dois nascimentos, por assim dizer um para 0 existir, e outro vos das galés, a trabalho interminável, sem nenhuma segurança de que tais para viver; um para a espécie e outro É então que homem sacrifícios sejam algum dia úteis. A idade da alegria é passada no meio de lá- começa realmente a viver, nada humano lhe é grimas, castigos, ameaças e escravidão. A vítima é atormentada para 0 seu sexo é a chave de toda a filosofia do desenvolvimento individual de Mesmo nos anos florescentes, dos 12 aos 15, mesmo princípio pre- Rousseau. valece. criança deve ser ensinado 0 que é útil para ela na época, e não que os adultos imaginam que ela precisará saber quando se tornar um 0 fato é que toda teoria de educação gira em torno de sua concepção homem. dos efeitos das funções sexuais, no corpo e na alma. A criança, na sua opinião, é apenas um neutro, não somente em relação 20 sexo, mas a tudo verdadeiramente ensinar à criança 0 que é útil para uma criança e vereis que humano, e falta-lhe paixão, razão, consciência e todas as outras faculdades adultas. isto toma todo seu Por que induzi-la a estudos de uma idade que ela verdadeiro início da vida (e da educação) aguarda as primeiras atividades das pode não alcançar jamais, levando à negligência aqueles estudos que satisfazem funções sexuais. Quando sexo desperta, há uma irrupção quase catastrófica das suas necessidades atuais? "Mas", perguntareis, "não será demasiado tarde para paixões na esfera da conduta, e um período de tensão e esforço emocionais, que aprender que devíamos saber quando chegar 0 tempo de usá-lo?" Não posso dura muitos anos, é dizê-lo; mas isto eu sei: é impossível ensiná-lo mais cedo, pois nossos verdadeiros mestres são a experiência e a emoção, e homem jamais aprenderá 0 que convém Com aparecimento do sexo tem início propriamente a vida social do a um homem, exceto sob suas próprias condições. criança deveria permanecer indivíduo. A própria natureza impõe sacrifícios ao individualismo. Os na completa ignorância daquelas idéias que estão além de seu alcance. Meu livro todo é um argumento em defesa deste princípio fundamental de mais altos sentimentos da alma começam a florescer e conduzem à evolução natural da vida moral. Qualquer principiante pode encontrar falhas na teoria das fases de Assim como períodos são nitidamente diferenciados em seu apareci- Rousseau. Seu valor não está em sua finalidade, mas no fato de que mento, são também independentes uns dos outros em seu desenvolvimento. lançou as bases para a interpretação genética, de uma forma tão arreba- Cada idade, cada período da vida tem própria perfeição, uma espécie tadora que deverá ser sempre considerada por educadores científicos. de maturidade que é toda Temos freqüentemente ouvido referências a um homem crescido; mas vamos agora considerar uma criança crescida. Este espetáculo OBJETIVOS EDUCACIONAIS DE ROUSSEAU será algo mais novo para nós, e talvez menos O fim último. Não pode ser demasiadamente encarecido que 0 fim Nenhum período deveria ser transformado meramente num meio de atin- último de Rousseau é a preservação da bondade e virtudes náturais do gir 0 seguinte. Cada um é um fim em si mesmo, um todo independente, e não coração humano e da sociedade em harmonia com elas. No mundo físico apenas uma transição para um período superior. Ainda mais, cada fase tem ele observou ordem, harmonia e beleza; no mundo humano, conflito infinito, suas necessidades e desejos especiais próprios, e forma apenas OS hábitos que sejam melhores para a perfeita realização da vida naquele perícdo. fealdade, egoísmo e, como conseqüência, miséria incalculável. A agudeza 37) Boyd, William, cit., 153, 34) J.J., cit., 38) Rousseau, J.J., 44-45. 35) William, 39) Emile; ou Education, 141, edição de EVERYMAN'S LIBRA- 36) Emile, 121. também 46 e Traduzido por Barbara296 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização 297 deste contraste entre mundo da natureza e do homem é devida aos males nacional é privilégio de homens livres". Todas as crianças, "já que são da sociedade e à espécie de educação dada jovens. 0 fim supremo a iguais pela constituição do Estado, deveriam ser educadas juntas e atingido é uma sociedade na qual as nobres virtudes primitivas da mesma maneira". Por de jogos comuns, cantos e formação patriótica gem, resistência, temperança, igualdade, fraternidade, simplicidade e li- 0 Estado constrói um sentimento de solidariedade social. berdade são realizadas por todos cidadãos. A segunda forma de educação era paΓa a civilização existente. Este constituiu 0 problema do Muito antes de ingressar na vida social, Individualidade, problema da, educação. 0 reconhecimento e a a individualidade da criança seu sentimento de independência, bondade liberação do indivíduo no mundo moderno vieram lentamente. A pri- interior, julgamento e resistência deve ser construída para suportar as meira expressão significativa apareceu tempo da Renascença. Era influências degradantes da vida social. Ela deve viver como um selvagem, limitada às classes privilegiadas e aristocráticas e, mesmo então, ape- de modo a poder manter intatas as virtudes primitivas que caracterizam nas os aspectos artísticos e da vida humana estavam envol- a condição humana. vidos. Esta notável manifestação da expressão individual na arte, eru- Rousseau tinha em vista a educação das classes superiores. As classes dição e literatura, rapidamente deu lugar a um formalismo imitativo. A inferiores, ele afirmou, não necessitam educação. As circunstâncias da vida Reforma protestante levou espírito de revolta e expressão individualista produzem nelas o sentimento de igualdade, simplicidade, espontaneidade e para 0 lado religioso da vida. todas as outras virtudes que necessitam. Mas são filhos dos ricos e bem- Enquanto isso, reconhecimento do indivíduo estava fazendo progres- nascidos, que são criados no luxo e artificialismo, que mais necessitam uma SOS rápidos no campo do direito e do governo. Hobbes, Grotius, Pufendorf educação natural. Aqui se a influência de Platão, Montaigne e Locke e Locke expuseram as bases naturalistas dos direitos pessoais e civis do no pensamento de Rousseau. indivíduo. Mas ainda faltava alguém que estabelecesse direitos da indi- Educação geral versus educação especializada. Até então, a edu- vidualidade nas esferas social e filosófica e correlacionasse estas com as cação tinha aspirado produzir gentil-homem erudito para servir a Igreja civil e religiosa. Este foi o profundo serviço realizado por Rousseau. e Estado. Isto envolvia a especialização das capacidades do indivíduo e Por experiência interna e externa ele estava preparado, como nenhum outro sua sujeição a outrem. Rousseau viu nisto uma ameaça direta à integridade homem, a expor e defender importância da individualidade. fundamental do homem. Ao fazer um cidadão ou um trabalhador, a edu- Rousseau não se opunha realmente à vida social, como muitos acredi- cação tornava-o menos homem. Era uma escolha entre 0 indivíduo natural tam. Pelo contrário, ele aspirava capacitar indivíduo a entrar de todo e a distorção de sua natureza original. Em toda esta oposição aos objetivos coração em todas as relações básicas da humanidade. Mas homem de- da educação do passado, Rousseau estava pleiteando um cultivo generoso, veria ingressar numa sociedade que fosse adequada às suas virtudes e liberal, dos dons inatos da criança. Ela deve ser desenvolvida como um capacidades naturais e não numa em que ele seria apenas besta de carga todo, antes que OS moldes constrangedores da especialização tenham uma a serviço dos oportunidade de distorcer seu ser. Na ordem natural das coisas, todos OS homens sendo iguais, sua vocação Há uma grande diferença entre homem natural vivendo num estado de comum é a humanidade, e quem for bem preparado para isto não pode desempe- natureza e homem natural vivendo num estado de Emílio não é um nhar mal qualquer profissão relacionada com ela. Quer seja meu pupilo destinado selvagem a ser banido para um deserto, mas um selvagem feito viver em ao exército, à Igreja ou ao tribunal, pouco me preocupa. Independentemente da profissão de seus pais, a natureza convoca-o para deveres da vida humana. Viver é 0 ofício que desejo ensinar-lhe. Ao deixar minhas mãos ele não será, eu su- Rousseau achou necessário construir dois sistemas de educação para ponho, um magistrado, um soldado, ou um Antes de mais nada ele será condições sociais radicalmente diferentes. Em um dos casos concebeu um um tipo de educação para um Estado e sociedade organizados de acordo com A educação deve preparar homem para um destino instável e um ser natural do homem. Tal Estado é pequeno e compacto, como Esparta ambiente instável. A criança não deve ser educada paΓa uma profissão L' Genebra. Neste Estado, a educação é uma função pública e abrange todas definida ou uma definida posição social. A variação dos indivíduos quanto as crianças. Seu objetivo é desenvolver as virtudes naturais simples e à riqueza e posição torna este preparo para uma única posição extrema- sentimento de solidariedade (esprit de corps). Platão tinha em mente esta mente perigoso. Rousseau chamou a atenção para fato de que a própria forma de educação na sua República. Rousseau expõe este plano em seu sociedade está sempre mudando, e que homem não é uma criatura fixa Discurso Economia Política, em Contrato Social e, finalmente, em e inalterável, porque a natureza humana ainda está em processo de Considerações sobre da Polônia. Declarou que "a educação é a mais importante atribuição do Estado"; e novamente, que "a educação 41) J.J., cit., 10) J.J., Emile, 187.298 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização Moderna 299 Considerando a mutabilidade dos interesses humanos e espírito inquieto, deveria haver uma bela ação ou um homem ilustre em toda a Polônia, cuja fama revolucionário deste século, que derruba, uma vez em cada geração, toda a ordem não ocupasse coração e a memória de modo que ele pudesse fazer relato ins- de coisas existente, podemos conceber um método mais insensato do que de tantâneo educar uma criança como se ela jamais fosse deixar seu quarto ou fosse estar sem- pre cercada de seus Não é evidente que Rousseau estivesse cônscio de como este programa contradizia flagrantemente suas opiniões, tais como foram apresentadas Como não sabemos como será a sociedade cu 0 ambiente futuro, e nem no De fato, ele não teria admitido qualquer contradição. Ambos qual será destino do indivíduo, não podemos educar inteligentemente sistemas eram destinados a preservar aquelas virtudes fundamentais que para futuro. Segue-se deste raciocínio que a criança deve ser educada, constituíam 0 supremo fim da vida e 0 principal bem do Estado. não para algum "future incerto", mas apenas para no presente. Nin- guém repeliu tão completa e audaciosamente apelo para bem futuro 26 Educação familiar. No pai e a mãe são declarados profes- da criança. 0 motivo de Rousseau é que a criança é completamente incapaz sores naturais. Falando do Emílio, Rousseau diz: de visualizar tal bem futuro. Além disso, sendo preparada para usar seus poderes nas condições mutantes de vida, ela está mais bem preparada Ele será mais bem-educado por um pai sensato, embora ignorante, que pelo enfrentar qualquer situação quando esta surgir. mais hábil professor do mundo; pois zelo tomará muito melhor lugar do talento, do que 0 talento lugar do A instituição educacional. Que instituição preparará a criança? A educação é uma função pública ou familiar? Rousseau não sentiu a con- Ao elogiar as virtudes da educação doméstica, Rousseau tinha em vista tradição, defendendo cada uma, segundo as necessidades envolvidas. Há lar da Genebra Escrevendo sobre isto declarou: uma forma de educação pública que é boa para a consecução do fim que É lá que as crianças deveriam ser educadas, as meninas pela mãe, OS meninos ele tinha em vista, e há uma forma seguramente má. Há uma forma de pre- pelo pai. Esta é exatamente a educação adequada para nós, meio termo entre a paro familiar que é má, e outra que é boa. Rousseau condenou o sistema educação pública das repúblicas gregas e a educação doméstica das monarquias, nas de instrução pública nos colégios de sua época com comentário curto e quais todas as pessoas devem permanecer no isolamento, sem nada em comum, ferino de que era um "estabelecimento No Discurso sobre Eco- exceto nomia Política, escreveu sobre educação pública da seguinte maneira: 0 conflito entre a educação estatal e familiar pode ser rapidamente ex- plicado. São fatores cooperantes num pequeno Estado e, através de ambos, A educação pública, portanto, sob regulamentos prescritos pelo governo sob magistrados estabelecidos pelo soberano, é uma das regras fundamentais de governo vida comum, hábitos e sentimentos são comunicados aos jovens. Ambos popular ou legítimo. se unem para desenvolver igualdade, fraternidade, simplicidade, liberdade Conheço apenas três povos que praticaram outrora a educação pública: e todas as outras virtudes. cretenses, lacedemônios e OS antigos persas; em todos estes foi adotada com maior sucesso e, sem dúvida, fez maravilhas entre dois Emilio e 0 isolamento. 0 problema que Rousseau discutiu no é bem diferente do que ele tinha em vista em suas outras obras. Não é Alguns anos depois da publicação do Emílio foi-lhe dada a oportuni- problema de preparar todas as crianças, ricas e pobres, de alto ou baixo dade de planejar um sistema de educação para a Polônia. 0 sistema que nascimento, para uma sorte comum. Não é a comunicação dos hábitos, ele formulou era nacional na finalidade e aspirava moldar cada criança de costumes, ideais e sentimentos da vida nacional. Não é uma preparação para acordo com um padrão nacional, por meio de jogos e de emoções resultantes a cidadania numa pequena comunidade em que todos já estejam num nível. de atividades da comunidade. A coisa importante é conseguir acostumá-las, Emílio é um rebento da riqueza e aristocracia e não está destinado a desde uma idade, à disciplina, à igualdade e à fraternidade, a viver nenhuma outra A educação que ele deve receber não é a necessária "sob olhos de seus concidadãos e procurando aprovação pública". Na se- às crianças dos pobres. Ele deve ser educado como um selvagem, para entrar ção sobre "Educação", Rousseau escreveu: na sociedade tal como ela é, e não como deveria ser. O principal objetivo é imunizá-lo de tal forma que ele possa resistir com êxito a todos OS males Educação nacional é privilégio de homens livres... Aos vinte anos de idade, que deve inevitavelmente encontrar na idade adulta. Para este fim, ele um polonês deve ser um polonês e nada além de um Quando ele estiver aprendendo a ler, eu quero que ele leia sobre seu próprio país. Aos dez anos, de- veria estar familiarizado com todas as suas províncias, estradas e Aos 44) Boyd, The Minor Educational Writings of Jean-Jacques Rousseau, quinze deveria conhecer toda a sua história; aos dezesseis, todas as suas leis. Não Londres: & Son, Ltd., 1910. 45) Rousseau, J.J., Emile, 15. 45) Eby, Frederick, Protestant Nova 42) Rousseau, J.J., up. cit., 9. 43) J.J., on Political Economy, 47) Boyd, William, The Educational Theory of Rousseau,Rousseau: 0 Copérnico da Civilização Moderna 301 300 História da Educação Moderna precisa ser treinado para a independência de julgamento e de força de von- apertadas, que estorvavam OS livres do corpo e dos membros. Por um lado, libertou nenês desprotegidos da prisão da roupa; por outro, tade. Nesta situação, a individualidade é mais necessária que a partici- aceitou processo de fortalecimento para o corpo. Até mesmo na infância, pação dos sentimentos Emílio é um órfão, isolado das relações o encontro de dificuldades é o método da natureza: familiares e de outras crianças. Ele deve viver no campo onde a vida é a mais simples e as relações sociais reduzidas ao mais baixo grau. tutor é Observai a natureza e segui caminho que ela traça. Ela sempre seu único companheiro. incitando a criança para a atividade; enrijece constituição por provas de toda Pode-se agora ver a significação plena da concepção de Rousseau. Emí- espécie; ela ensina, numa hora prematura, 0 que 0 sofrimento e a dor... lio representa, de uma vez, a espécie em sua evolução e indivíduo em Fortalece seus corpos para 28 mudanças de estações, climas elementos, assim como para a fome, a sede a sua necessidade de liberdade, ao passar através dos estágios iniciais de desenvolvimento. A hipótese do é que menino se encontra no Pois, "quanto mais o corpo, mais ele comanda; quanto mais forte é, plano moral e intelectual do homem primitivo. Ele ainda não é comple- melhor ele obedece". tamente moral ou racional. Ele deve ser deixado livre para seguir sua pró- Nada deve ser feito para a criança que ela possa fazer por si mesma. pria tendência e para se desenvolver de acordo com a naturéza. Ele de- Este é único princípio que deveria orientar tratamento da infância. A veria ser dependente de coisas apenas, e não se tornar artificial ou precoce vida é uma luta pela existência: esta é a lei biológica mais fundamental por formação e instrução prematuras. Sua educação, como a do selvagem, uma lei à qual a criança precisa aprender a se conformar. A capacidade de depende de seu ambiente físico natureza e não de condições sociais. andar, de falar e de ser auto-suficiente deve ser desenvolvida em relação direta com as necessidades e com a menor assistência possível. Rousseau A EDUCAÇÃO E OS PERÍODOS DE DESENVOLVIMENTO era contrário à Medicina, e considerava a higiene menos uma ciência que uma virtude ou hábito de viver certo. A educação das crianças é determinada por vários períodos de desenvol- A vida moral e a social são absolutamente estranhas à mente infantil. vimento. Cada fase tem sua própria faculdade dominante, que emerge Mas por esta mesma razão "o período mais perigoso na vida humana é o e se torna essencial para a organização da vida. Os princípios a serem intervalo entre nascimento e a idade de doze anos. É a época em que seguidos num período não valem para outro, pois a tarefa é amparar as germinam erros e vícios". Todos vícios são implantados por afagos e atividades e interesses florescentes da natureza da criança e não lhe excessos imprudentes prodigalizados às crianças. Permitindo-lhes dominar, dar hábitos e idéias convencionais da sociedade. faz-se germinar, em seus pequenos corações, espírito de capricho e um apetite insaciável para auto-engrandecimento. 1) EDUCAÇÃO INFANTIL Natureza do processo educacional nesta fase. Que espécie de pro- O método da natureza na educação de crianças. A educação começa cesso é, exatamente, a educação? Não temos dúvida quanto às opiniões de Rousseau. A verdade, como ele a viu, é que a educação não vem de fora, ao nascer ou antes; e primeiro período de cinco anos refere-se principal- surge de dentro. desenvolvimento interno de nossas faculdades e ór- mente a crescimento do corpo, atividades motoras, percepção sensorial e sentimento. O método da natureza deve ser seguido em todas as coisas. gãos" que constitui a verdadeira "educação da natureza". A primeira edu- cação é a expressão livre e desembaraçada das atividades naturais da Com apaixonado apelo, Rousseau lembrou às mães seus deveres naturais, criança cm relação ao meio físico. A coisa importante é que se permita à e até pôs em voga costume de seus filhos. criança obedecer impulso interior de agir e que ela experimente direta- A individualidade de cada criança deve ser respeitada. É errado mode- mente resultados de seu lar espíritos diferentes segundo um padrão comum. Nossa preocupação não deveria ser alterar a disposição natural da mente, mas evitar degeneração. 2) EDUCAÇÃO DOS CINCO AOS DOZE ANOS DE IDADE A doutrina das diferenças individuais é fundamental Rousseau. Ele escreveu: Métodos usuais de ensino e aprendizagem. Rousseau foi um severo crítico dos métodos então em voga nas escolas. Para a maioria das crianças, Uma natureza necessita de asas, uma outra de algemas; um precisa ser lison- a infância era um período triste, pois a instrução era desapiedadamente se- jeado, outro Um homem é feito para levar 0 saber humano ao ponto vera. A gramática era inculcada na Os professores não tinham mais alto; outro pode considerar a capacidade de ler um força ainda imaginado que as crianças pudessem encontrar qualquer prazer em Rousseau condenou estilo dominante de vestir crianças com roupas 49) Rousseau, pág. 48) Boyd, William, oil., 21 8238302 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização Moderna 303 aprender, ou que tivessem olhos para outra coisa que não ler, escrever e é novo método proposto por Rousseau para a educação neste período. memorizar. A única forma de aprendizagem que professores conheciam Não é que Emílio nada deva aprender; a proibição é dirigida apenas eΓa aprender de cor. Rousseau viu nisto um temívei erro; pois a criança, contra procedimento tradicional. como ele acreditava, não tinha memória autêntica, e lições puramente ver- bais nada significavam para ela. A primeira educação, então, deveria ser puramente negativa. Não consiste, A filosotia da educação predominante, daquela época, era a da disci- absolutamente, em ensinar virtude ou verdade, em proteger coração do plina formal. Isto foi muito claramente estabelecido por um dos criticos vício e a mente do Se puderdes nada fazer e nada permitir que faça, se contemporâneos de Rousseau: puderdes manter pupilo forte e robusto até a idade de doze anos, sem que ele seja capaz de distinguir sua mão direita da esquerda, desde vossas primeiras lições olhos de seu entendimento estariam abertos à A educação é a mesma coisa para 0 homem e para animal. Pode ser reduzida a dois aprender a tolerar a injustiça, aprender a suportar Que faz alguém quando doma um cavalo? Deixado a si mesmo 0 cavalo anda a A "educação negativa", como Rousseau chamou este método, foi adotada passo, trota, galopa, marcha, mas 0 faz quando quer e como quer. Nós ensina- por diversas razões. Primeiro, resultava logicamente do princípio que a mos a mover-se desta ou daquela forma, contrariamente a seus próprios desejos, natureza humana é boa e que se desenvolve em virtude de compulsão inte- contra seu próprio instinto ai está a injustiça; nós fazemos continuar nisto por um par de horas aí está E exatamente a mesma coisa quando fa- rior. Qualquer interferência neste desdobramento natural seria zemos uma criança aprender latim ou grego ou francês. A utilidade intrínseca disto Na verdade, OS males do homem são diretamente devidos à má educação não é ponto principal. 0 objetivo é que ela deve habituar-se a obedecer à von- que ele recebeu. ele pedia: "Evitai que qualquer coisa tade de outra pessoa: que deve ser espancada por uma criatura nascida sua igual. seja feita." Acima de tudo, ele estava irritado com maus métodos de Quando aprendeu tudo isto, pode se sustentar, pode entrar na sociedade... Todos métodos agradáveis de ensinar 0 conhecimento às crianças são falsos motivação e disciplina empregados. Desaprovava decididamente repreen- e Não é uma questão de aprender Geografia ou Geometria: é questão sões, corretivos, ameaças e castigos. Ainda mais forte eΓa sua ira contra de aprender a trabalhar, de aprender a suportar 0 cansaço, de concentrar a pró- recompensas, promessas e prêmios que eram colocados diante dos olhos pria atenção no assunto em questão... Desenvolvei estas idéias e então tereis das crianças para induzi-las a fazer ou aprender alguma coisa estranha aos um livro, exato oposto do Emilio e valendo seus interesses ativos. Rousseau considerava, da mesmo forma, uso da Rousseau viu neste método apenas um meio de escravizar a humanidade. emulação como a base de todo aquele sistema social que organizava a Esta era educação que dependia de livros e da autoridade de outros, e humanidade em grupos ou classes competidores, e enchia coração humano contra tudo isto Rousseau revoltou-se com toda a veemência de seu ser. de inveja, suspeita e má vontade. Também não aceitava conselho de Locke de raciocinar com as crian- A oposição de Rousseau aos livros. Rousseau expressou-se vigoro- ças. Antes da idade de 12 anos, a criança não pode raciocinar e não tem samente sobre sua amarga aversão aos livros: sentimentos morais; conseqüentemente todo apelo a julgamento e incenti- vos morais é prematuro e Somente a experiência constituirá seu Eu odeio livros: ensinam-nos meramente a falar sobre que não sabe- currículo. Ela aprende que gosta, quando gosta e como gosta. Ela não mos... Há um que, no meu modo de pensar, fornece 0 tratado mais feliz sobre está sequer consciente de que está aprendendo, pois está absorvida apenas educação Este livro será primeiro que meu Emílio lerá; por muito tempo constituirá por si toda a sua Qual, então, é este maravilhoso livro? em suas atividades. Ela precisa estar fazendo alguma coisa; e, enquanto Aristóteles? É Plínio? Não, é Robinson age, aprende. Esta descrença nos livros não é limitada a qualquer fase da vida infantil. Naturalismo não é pedagogia branda. Pode-se ser levado a concluir 0 livro vem entre a criança e as coisas. Além disso, conhecimento que a que, adotando um sistema de nada fazer e nada permitir que fosse feito, criança aprende dos livros toma lugar do exercício e da formação de seu Rousseau se tornasse defensor de uma pedagogia branda e próprio julgamento. Somente Robinson Crusoé é valorizado, porque retrata gumas de suas afirmações pareceriam favorecer esta interpretação. Emílio desdobramento natural da vida da criança, neste período de meninice. não está sujeito a nenhum regime, seja qual for, e não são dadas ordens. Ele segue suas próprias inclinações e aprende somente pela experiência. Educação negativa. "Nada façais e nada permiti que se faça." "To- Entretanto, Rousseau tinha em vista algo bem diferente da concepção ordi- mai exatamente oposto da prática usual, e fareis quase sempre 0 nária de vida fácil. Ele aspirava evitar não apenas uma política de laisser- de um lado, mas também a da palmatória, de outro. Ele livrou seu discípulo fictício do pesado jugo do sistema de educação convencional, mas, Mme Citado por The Educational Theory of Jean-Jacques 306. em seu lugar, colocou 0 severo jugo da obtenção de alimento, veste e abrigo. 51) Emile, 52) Ibid., 57304 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização Moderna 305 Críticas ao currículo elementar. Rousseau não estava ansioso por simples e poucas, e facilmente satisfeitas. Seu poder de assegurar-lhes satis- fazer o Emílio aprender, antes de 12 anos, qualquer coisa de caráter con- fação não é ainda proporcional mesmo a estas necessidades simples e, con- vencional, nem mesmo a ler. Ele, entretanto, esperava que um menino vivo, é experimentado um sentimento de fraqueza e dependência. incidentalmente, descobrisse a leitura. Ele se opunha a histórias de fadas e Ele está ainda numa fase de existência pré-social, pré-moral, e é capaz de fantasia para a idade pré-escolar, porque não eram reais, e fazia objeções responder apenas a coisas e à necessidade. A política geral para a sua edu- às fábulas para a idade da meninice. As fábulas de Esopo, escolhidas par- cação é: ticularmente por seu valor moral, tinham constituído por muitos séculos Exercital seu corpo, seus órgãos, seus sentidos e seus poderes, mas conservai o primeiro texto de leitura. Mas precisamente por causa de seu suposto sua alma em repouso, tanto quanto for possivel. Estai de sobreaviso contra todos significado moral que Rousseau as rejeitou. 0 menino ainda não é um ser sentimentos que antecedem julgamento que podem estimar seu moral, e, de qualquer modo, as fábulas são enganosas. Ainda mais, a reação contra a aplicação extrema às línguas antigas atin- então, ele não conhece a vontade de outro, e não deveria ser sujeito giu seu clímax com Rousseau. Ele não acreditava que um menino pudesse à ordens ou castigos. Suas atividades são provocadas pela necessidade, e ele aprender mais de uma língua, e esta deveria ser sua língua materna. pode não ter qualquer sentimento real de responsabilidade ou de dever. A História é um outro estudo para qual foi levantada objeção neste período, e por diversas As crianças não possuem memória autêntica; % objetivo da educação na meninice. 0 ideal de Rousseau para elas são, pois, incapazes de formar idéias exatas sobre a conduta humana Emílio, no final da meninice, é este: ou de julgar as situações históricas. Além disso, a História é demasiadamente Sua aparência, seu porte sua fisionomia revelam confiança em 51 satisfação. limitada a guerras, reis, datas e fatos políticos de importância secundária; Um brilho de saúde está em sua face. Em movimentos, rápidos, mas seguros, não se preocupa com OS acontecimentos significativos, de real valor humano. podeis ver a vivacidade de sua idade, a firmeza da e a experiência Ainda, a História trata da sociedade, e a criança é incapaz de compreender vinda de suas múltiplas atividades. Suas maneiras são francas e livres, mas, nem fenômenos sociais. A História deve, portanto, ser excluída deste período insolentes nein Sua face, que não esteve grudada nos livros, não se inclina sobre seu estômago e não há necessidade de dizer-lhe para levantar a de desenvolvimento. A Geografia, também, é demasiadamente avançada para crianças. 3) A IDADE DA Assim, Rousseau excluiu não apenas as matérias mais antigas que ti- nham constituído currículo durante séculos, mas, também, os novos Aparecimento da razão. Quando rompeu com os líderes da Ilustração, assuntos da era realista. Em nenhum aspecto Rousseau violou tanto a tra- por causa do realce exagerado que davam à razão, Rousseau reagiu tomando dição universal quanto na rejeição da instrução religiosa. A criança não uma posição extremada e negou valor da natureza racional. Mais tarde deve ouvir falar de Deus, até atingir a idade da razão. Esta idéia teve con- viu 0 seu eΓΓo e atribuiu à razão uma função genuína, embora subordinada. seqüências de longo alcance na educação. Como ele a concebia, a razão não se origina da sensação, como sustentavam OS materialistas; é um princípio original e inato, como acreditavam os Atividades práticas constituem o currículo. As atividades que sur- racionalistas. E uma faculdade natural, que teve sua origem na vida emo- gem naturalmente das necessidades de vida constituem o currículo em cada período. As necessidades da meninice são simples, tendo relação apenas com 0 período de 12 a 15 anos Rousseau chamou de a "Idade da Razão", a preservação da existência. Primeiro vêm brinquedo e desportos, que aper- pois o aparecimento do julgamento racional é seu traço característico. feiçoam o corpo, trazendo saúde, crescimento e força. Depois, a criança se Autoconservação é a necessidade fundamental da vida, a expressão ex- empenha também em garantir um meio de vida. "A agricultura é 0 primeiro pontânea da animalidade interior, biológica. Nossos primeiros impulsos são emprego do homem; é mais honroso, o mais útil e, conseqüentemente, naturalmente de autodefesa, e todo nosso comportamento é para o bem- mais nobre que ele pode praticar54." A criança aprende como manusear a estar individual. As experiências sensoriais não constituem a origem da vida enxada e a pá, torno, martelo, a plaina, a lima de fato, OS instru- mental, como Locke e outros pensavam. Não é o que vem de fora, mas o mentos de todos OS ofícios. Estas atividades levam-no a medir, contar, pesar que provém de dentro que produz comportamento humano e determina e comparar objetos com OS quais lida. Ele avalia distâncias, aprende a o curso do desenvolvimento. observar cuidadosamente e a desenhar as coisas que observa. Linguagem, 0 aparecimento da autoconsciência é um fato de mais profunda signifi- canto, Aritmética e Geometria são aprendidos, não como matérias formais de cação que mero aumento de experiências sensoriais. É um princípio de aula, mas como atividades que estão relacionadas com situações da vida. Antes dos 12 anos, a criança não pode raciocinar. Suas necessidades são 55) Rousseau, cit., 60, 56) Ibid., 54) Rousseau, J.-J., Emile, pág. 178.306 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização Moderna 307 vida superior, que confere unidade e continuidade a todos OS variados movi- em relação com as atividades, é necessário que estas sejam desenvolvidas mentos e experiências do espírito. Assinala a passagem da fase de mero em um alto grau, antes que a razão apareça. "A infância é o sono da sentimento animal para OS mais altos sentimentos e faculdades da alma. razão." Além disso, Rousseau declarou: "De todas as faculdades do homem, Destes sentimentos surge a vida humana superior, pois eles constituem a razão é a que se desenvolve com a maior dificuldade e por motivos de todas as atividades adultas. As concepções psicológicas de Rous- Somente quando a criança atinge a idade de 12 anos, a razão principia a seau como um protesto direto contra materialismo e despertar; e tempo para seu desenvolvimento ininterrupto é excessiva- racionalismo correntes⁵⁷. mente curto. Quando a força do jovem cresce desproporcionalmente às suas O que causa aparecimento do julgamento racional fase especí- necessidades, a razão desperta a fim de dar orientação, pois esta é a função fica? A explicação que Rousseau ofereceu é uma das mais profundas teorias da vida racional. que ele desenvolveu. A vida interior da criança está condicionada pela re- A educação durante a idade da razão. A razão, pois, não é uma lação que suas necessidades têm com a força que ela pode exercer, para a entidade divina, mas apenas uma faculdade acessória. Esta é a idade em satisfação destas necessidades. Na infância, súas necessidades são simples que começa a verdadeira educação, por interferência humana. Até esta e poucas, e seu poder é fraco. "Na idade de doze a treze anos, a força da época, a evolução da criança foi determinada por leis naturais; e com a criança se desenvolve muito mais rapidamente do que as suas necessi- ação destas leis educador deve intervir. Entretanto, a nova fase "é período de trabalho, de instrução e de estudo". Devido a este aumento de poder muscular pré-pubertário, jovem é Os professores cometeram inúmeros erros porque não compreenderam muito mais forte do que é necessário para satisfazer suas necessidades, que a natureza da razão e a época em que ela surge. 1) 0 primeiro equívoco continuaram até então poucas e simples, contanto que sua natureza não foi a tentativa de educar a criança através da razão. Até Locke aconselhou tenha sido corrompida por uma imaginação precoce. "Aquele cuja força isto. Mas esta prática coloca carro adiante dos bois: "E começar pelo excede seus desejos tem algum poder para poupar; é certamente um ser fim, e confundir instrumento com o trabalho." Todos OS esforços para ra- muito E é esta preponderância da força a satisfação de suas ciocinar com as crianças, antes de surgir a razão, é somente tolo, mas necessidades que provoca 0 aparecimento da razão. prejudicial. Relação da inteligência com a atividade. Nossas necessidades ou 0 comum dos pais, é supor seus filhos capazes de raciocinar logo desejos são a causa original de nossas atividades; por sua vez, nossas ativi- que conversar com eles como fossem pessoas A razão é dades produzem inteligência, a fim de orientar e dirigir nossa força e nossas instrumento que usam, embora todos os outros devessem ser usados primeiro, paixões, pois a "razão é o freio da força". a fim de formar sua razão; pois é certo que, de todo conhecimento que homens adquirem, ou são capazes de adquirir, a arte de raciocinar é a última a mais Na proporção em que um ser sensível se torna ativo, ele adquire um discer- difícil de nimento proporcional seus poderes; e é unicamente com poder que excede que é necessário para a autoconservação, que passa a se desenvolver nele fa- 0 desígnio da natureza é obviamente, fortificar corpo antes da mente. culdade especulativa, adequada a empregar este excesso de poder em outros Quando se permite que ela desperte na época adequada, a razão planeja o Se, então, cultivardes a inteligência de aluno, poder que ela deverá futuro da criança. governar... Deixai-o ser um homem vigoroso, e breve por força da Que fará então nosso aluno com aquele excesso de faculdades e poderes que Razão, uma faculdade acessória. Visto como a inteligência evoluiu ele tem em mão no presente, mas de que ele terá necessidade num período subse- qüente da vida? Ele projetará para futuro, por assim dizer, que é para tempo atual. A criança robusta fará provisão para homem 57) Rousseau Pastor de Montmolin que um de seus objetivos, planejar 0 Emilio, claramente contra 0 livro infernal, De l'Esprit, que segundo detes- de seu autor, pretende que sentimento julgamento a mesma coisa, que eviden- 2) Um segundo erro foi substituir esforços mentais da própria crian- importa em estabelecer Rousseau escreveu B respeito desta obra pu- blicada por 1758: "A primeira aparição da obra l'Esprit, resolvi 08 ça pela autoridade. principios que julguei perigosos. Executei 0 empreendimento. Quando soube que autor fora imediatamente minhas folhas Quando tudo estava tive a oportunidade de expressar meus sentimentos sobre 0 mesmo assunto om outras obras (Emile Se alguma vez substituirdes em sua mente razão pela autoridade, ele não La Nouvelle mas sem mencionar nome do autor do livro." Aqui esta, raciocinará mais; será apenas joguete das opiniões de outros... um dos verdadeiros segredos das obras de Rousseau. Citado por M., The Philosophy of Helvetius, 152-153. Nova York: Teachers College, Columbia University, Compelido a aprender por si mesmo, usa sua própria razão e não a dos outros; 1926. 58) Rousseau, J.-J., Emile, 59) 131. 61) Rousseau, J.J., op. cit., 60) Ibid., 84. Nos agora sabemos que Rousseau errado com relação 62) Rousseau, J.J., The New Carta to da força anterior à puberdade; e, também, que puberdade chega mais do que pen. 63) Rousseau, J.J., Emils, pág.308 História da Educação Moderna Rousseau: 0 Copérnico da Civilização Moderna 309 pois com objetivo de nada conceder à opinião, nada deveis conceder à autori- 0 currículo. Para a instrução intelectual nenhum currículo definido dade... Ele tem um espírito que é universal, não através de seu conhecimento, é 0 mais cuidadoso esboço deve ser encontrado no Robinson mas através de sua facilidade em adquiri-lo; um espírito que é aberto, inteligente, pronto para Crusué. Por força das circunstâncias, Crusoé necessita utilizar sua inteli- gência para viver. Não está interessado em relações humanas, pois não as 3) 0 maior erro da pedagogia tradicional consistiu em atribuir à razão tem. Os fenômenos da natureza absorvem seu pensamento; mas apenas um poder de controle que ela não possui. Este foi 0 erro dos racionalistas. aqueles que dão uma genuína contribuição à sua autopreservação recebem Como a razão aparece mais tarde que as paixões, e como emerge das mes- atenção. A Geografia e a Astronomia são as primeiras matérias de interesse; mas, está a elas. Não é 0 guia digno de confiança para a con- estas devem ser aprendidas diretamente da natureza. Depois, seguem-se Rousseau escandalizou a filosofia declarando que "a divina voz do vários fenòmenos das ciências físicas. Estas, por sua vez, conduzem à agri- coração do homem e sua consciência interior, apenas, são guias infalíveis cultura às artes e ofícios manuais. Mas, quando Emílio tem bom e capazes de trazer-lhe felicidade". conhecimento destes, deve ser exercitado mais tecnicamente no entalhe em madeira. Este é currículo dos 12 aos 15 anos de Imaginação. De todas as faculdades que emergem nesta fase, Rous- Ver-se-á que adquiriu apenas conhecimento físico. Ele não seau tinha uma aversão definida pela imaginação. Jamais pensou na imagi- conhece nem mesmo termo história, nem que significam ética e meta- nação como produzindo alguma coisa boa. Ela cria necessidades dispensáveis física. aprende as relações essenciais do homem com as coisas, mas e artificiais, que surgem da rivalidade social. Ela inflama a paixão, e é, nada sobre as relações humanas. A preocupação central de Rousseau era portanto, a única faculdade responsável pelos vícios e males da vida social triplice: 1) implantar um gosto pelo conhecimento, isto quer dizer, uma e moral. permanente curiosidade. "Meu propósito", afirmou ele, "não é absoluta- Curiosidade e utilidade como motivações. Como sentimento da mente dar-lhe conhecimento, mas ensiná-lo como adquiri-lo quando necessá- necessidade causa a atividade do corpo, assim a curiosidade causa a ati- rio, fazer com que estime exatamente pelo que vale, e fazê-lo amar a verdade vidade da mente. É poder motivador para a vida intelectual. A criança é acima de qualquer outra 2) Pensar claramente. Refletindo 0 prin- curiosa, porque cada objeto ou situação tem importância para sua luta cípio de clareza de Descartes, escreveu: "O espírito de meu sistema é pela vida e bem-estar. Como a curiosidade é causada pelo desejo de bem- nunca permitir que alguma coisa entre em sua mente, exceto idéias que estar, só se relaciona com aquilo que será de real utilidade para a criança. são exatas e 3) Fornecer método certo. "Não se pretende ensi- A utilidade, é, portanto, primeiro e único princípio que determina nar-lhe as ciências, mas dar-the 0 gosto por elas e métodos para aprendê-las, currículo neste período. quando este gosto estiver mais bem desenvolvido. Sem dúvida, este é Todos OS meios artificiais que OS professores empregam para induzir as princípio fundamental de toda boa crianças ao trabalho, tais como sentimento de honra, orgulho, competi- método de ensino. Devemo-nos voltar para método de Rousseau ção, ou a aprovação dos mais velhos, são inúteis e perniciosos. 0 verda- para apreciar quão plenamente ele antecipou a filosofia pragmática da deiro motivo aprender é desejo de saber ou a utilidade e serviço do aprendizagem intencional. "Sem dúvida, nós extraímos noções muito mais conhecimento. Rousseau concordou com Bacon e Locke, exaltando a utili- claras e muito mais exatas das coisas que aprendemos por nós mesmos, dade como a melhor motivação. que daquelas que obtemos pela instrução de aversão de Rousseau pela emulação. A competição, ou emula- 0 grande princípio do método de Rousseau eΓa que nada deveria ser ção, sempre fora uma das principais motivações nas escolas. Rousseau con- aprendido sob a autoridade de outros. "Sujeito em todas as coisas a uma siderava-a como grande mal da vida social e proibiu totalmente 0 seu autoridade que está sempre ensinando, discípulo nada faz, exceto à emprego. de Com que fim desejais que ele pense, se pensais tudo por Este princípio de pesquisa independente foi, provavelmente, o Que jamais haja comparações com outras crianças; tão logo comece a racio- resultado da influência de Pela mesma razão, uso de livros cinar não deixai que tenha rivais, nem competidores, mesmo na corrida. Eu preferiria cem vezes que ele não aprendesse 0 que pode aprender somente através de inveja era "Que não haja outro livro a não ser mundo... A e de Não pode haver dúvida que foi esse severo ataque de Rousseau que 66) J.-J., op. 189. desacreditou uso da emulação na pedagogia moderna. 67) 143. 68) 144. 69) 152. 70) 81-65. 64) Rousseau, J.-J., op. cit., 187 71) 137. 65) Ibid., 161.310 História da Educação Moderna Rousseau: 0 Copérnico da Civilização Moderna 311 criança que não pensa ela apenas não está recebendo instrução, lumbre da experiência, como que por acaso, eu inventaria, pouco pouco, instrumento que deve mas está aprendendo palavras." Princípio central do método. Rousseau colocou o Emílio em situa- Retrato do jovem ideal. Rousseau descreve menino ideal, no final ções que obrigavam a depender de sua própria força, a obter seu próprio deste período de vida, como diligente, moderado, paciente, firme e cheio de pão, a pensar seus próprios pensamentos, a chegar às suas próprias conclu- coragem e resistência. sões, na realidade, a usar seu próprio cérebro e jamais depender das opiniões [Ele] tem todas 28 virtudes que estão relacionadas com ele A fim de outros. Como Crusoé, ele deve depender de seus próprios poderes e inte- de ter também as virtudes sociais, falta-lhe apenas conhecer as relações que as ligência. exigem... Ele não tem defeitos e nem vícios. Tem um corpo sólido, membros À objeção de que tal método seria demasiadamente incômodo e exigiria ágeis, um espírito preciso sem preconceitos um coração livre e sem um tempo excessivamente longo, Rousseau respondeu da seguinte maneira: 4) A EDUCAÇÃO DOS QUINZE AOS VINTE ANOS temeis que eu sobrecarregue sua mente com esta massa de conhecimento. Puberdade. 0 acontecimento mais crucial em toda a história da vida Exatamente contrário é verdadeiro: eu ensino muito mais a ignorar estas coisas do que 2 conhecê-las. Mostro-lhe caminho para aprender, facilmente, na do ser humano é aparecimento do sexo. "Nós nascemos duas vezes: uma verdade, mas longo, ilimitado e demorado para percorrer. para a existência, e outra para a vida; uma vez para a espécie e novamente Compelido a aprender por si mesmo, ele usa seu próprio raciocínio e não para Isto assinala nascimento da alma. Até então, a vida fora dos outros: pois, a fim de nada conceder à opinião, nada deveis conceder à uma existência animal; agora emergem sentimentos humancs. período social. princípio genético é a doutrina mais construtiva A substituição do objeto pelo símbolo é condenada. segundo que Rousseau deu ao mundo. Seu plano de isolamento, sua insistência sobre princípio de Rousseau é igualmente positivo: Tudo deve ser aprendido pela a individualidade e seu naturalismo são, em suma, apenas relativos e pre- observação direta de coisas "Por que não começar mostrando-lhe paratórios para algo mais importante. Seu verdadeiro objetivo era idealista, próprio objeto, de modo que ele possa saber, pelo menos, de que estais desenvolvimento das virtudes mais altas, tais como a simpatia, a gene- rosidade, a amizade, a igualdade, a gratidão e a justiça universal. Mas estas Rousseau não poderia condenar mais vigorosamente a prática antiga de são produtos das relaçoes humanas e são suscetíveis de desenvolvimento substituir objeto pela palavra, ou algum outro símbolo. A respeito disto, apenas no coração adolescente. disse: "Nunca deveis substituir a própria coisa pelo sinal, exceto quando Limitações da mente infantil. A mente da criança é limitada a um é impossível mostrar a coisa; pois sinal absorve a atenção da criança e baixo nível de experiência. Ela conhece as coisas mas não compreende suas fá-la esquecer a coisa E ainda: "Coisas! Coisas! Jamais relações mútuas ou com homem. Ela ainda não se conhece completamente repetirei suficiente que damos demasiado poder às palavras. Com nossa e, como não pode julgar outros. Ela é, portanto, incapaz educação verbalística, nada mais formamos que de experiência social e religiosa; por conseguinte, não apreciar e aluno deve inventar aparelhos. Um outro princípio sobre o qual compreender significado da vida. 0 mundo do espírito, moralidade, arte Rousseau insistia repetidamente é de que aluno deveria fazer toda a e filosofia está ainda selado para ela. Não obstante, são estes OS interesses sua própria aparelhagem. Depois de observar fatos geográficos, deve fazer que elevam a humanidade acima do nível do selvagem. Até a idade de 15 cartas, mapas e globos. Da mesma forma, microscópio e telescópio de- anos, Emílio nada sabe de História, moral ou a respeito da sociedade; ele vem ser "inventados" pelo aluno⁷⁶. Novamente, em outra passagem escre- pode generalizar muito pouco e compreender apenas poucas abstrações. veu: desenvolvimento crucial. Todas as mais altas experiências e sen- timentos surgem como resultado do aparecimento da vida sexual. "Tão Eu desejaria que pudéssemos fazer a nossa aparelhagem; e eu não começaria fazendo 0 instrumento antes da experiência; mas depois de ter captado um vis- logo 0 homem tem necessidade de uma companheira, não é mais um ser isolado, seu coração não está mais só. Todas as suas relações com a sua 72) Rousseau, J.J., op. cit., 188-189, 73) Ibid., pág. 137. 77) Rousseau, J.-J., op. cit., 161. 74) 141. 78) 190-191. Ibid., pag. 157. 79) Ibid., 192. pag. 188.312 História da Educação Moderna Rousseau: Copérnico da Civilização Moderna 313 espécie e todas as afeições de sua alma nascem com A vida sexual Como será ele afetado pelo belo espetáculo da natureza, se não conhece a mão desperta muitos outros sentimentos que são secundários a ela. Entre estes que cuidou de estão a apreciação da beleza e do sublime, a percepção das relações huma- nas, o sentimento da vida moral e social e as emoções religiosas. 0 despertar dos sentimentos interiores deve preceder a atribuição destes sentimentos a causas externas. A integração íntima de sentimento, pensa- Vida social e moral. Tendo, através de seus próprios sentimentos mento e vontade deve ocorrer antes da intuição de que o mundo externo é em evolução, se tornado consciente de sua dependência, Emílio é agora igualmente uma unidade. 0 jovem deve "partir do estudo da natureza obrigado a começar estudo de sua própria natureza e de suas relações para a procura de seu Autor". Com este desenvolvimento interior e integra- com outros. "O estudo adequado para homem é de suas relações. ção, nasce mundo do espírito, moralidade, dever, arte, religião e Quando ele começa sentir sua natureza moral, ele deveria estudar-se a É este desdobramento interior e enriquecimento da experiência que eleva- si mesmo através de suas relações com os homens; e esta é a ocupação de ram a civilização acima do nível do selvagem. toda sua vida, começando pelo ponto a que chegamos Discutindo a educação durante período da adolescência, Rousseau currículo. 0 currículo deste período incluirá conhecimento da escreveu: "É nesta idade que professor hábil começa sua verdadeira natureza humana e da ordem social que, hoje em dia, poder-se-ia classifi- função como observador e filósofo, que conhece a arre de explorar cora- car como Psicologia, Sociologia e Ética. Rousseau não tinha em ini- ção enquanto tenta moldá-lo⁸²." Antes de mais nada, está a necessidade cialmente, 0 estudo destes assuntos em livros, mas em situações concretas de afastar as paixões más: da vida, as experiências quentes das relações efetivas dos homens A história em forma de biografia e que agora conhecemos como história Meu Emílio, tendo até então olhado somente para ele mesmo, 0 primeiro social, ele admitiria. Na literatura, Rousseau preferiria antigos, embora olhar que ele lança sobre seus companheiros leva-o a comparar-se com eles, e um olhar de relance também fosse lançado aos modernos. Para 0 treina- primeiro sentimento que a comparação provoca dentro dele é desejar primeiro mento moral de moços ele recomendou fábulas. A religião, também, deve lugar. Este é ponto em que o amor a si mesmo transforma-se em amor-próprio em que começam a surgir todas as paixões que dele dependem. Mas, a fim de desempenhar um papel; mas deve ser uma religião natural do coração hu- decidir quais das suas paixões que deverão predominar em seu caráter, se serão mano e não dogmas e credos da Igreja. as humanas e beneficentes, ou as cruéis e malevolentes, se serão paixões de bene- volência e comiseração, ou de inveja e cobiça, é necessário saber que lugar ele aspi- A educação de meninas. A educação do menino começa com natura- rará entre lismo e individualismo radicais, mas termina desenvolvendo um idealista romântico. A educação da menina continua inevitavelmente tradicional. Em segundo lugar, Rousseau faria agora surgir as emoções superiores, Rousseau justificou-se com argumentos bem banais: como amizade, simpatia, gratidão, amor, justiça, bondade e filantropia. Estas emoções devem ser despertadas pelo estudo da natureza mental, Toda a educação das mulheres deve ser relacionada com a dos homens. Agra- cial e moral do homem. Estes assuntos devem não somente ser estudados dá-los, ser-lhes úteis, fazerem-se amadas e honradas por eles, educá-los quando jovens, cuidar deles quando crescidos, aconselhá-los, consolá-los, tornar-lhes a vida indiretamente, através de livros, mas ser experimentados na vida. Rousseau agradável 6 doce estes são deveres das mulheres em todos tempos e que permanece fiel ao naturalismo, mesmo no desdobramento das mais altas lhes deveria ser ensinado desde a atividades. Tudo deve vir do desenvolvimento genético dos sentimentos intericres, pois tudo é subjetivo. verdadeiro trabalho da educação é Esta estranha negação da personalidade independente das mulheres só aparecimento interno, crescimento, exercício e integração das afeições, sen- pcde ser explicada na base de que Rousseau não teve contato algum com timentos e paixões. Não é tanto descoberta exterior, ou observação da reali- mulheres de caráter e sua concepção da personalidade humana não eΓa dade, como a evolução de sentimentos íntimos, que confere aos fenômenos suficientemente ampla para incluir as virtudes femininas. Ele, assim, con- exteriores significado, uso e valor. clui com o extremo oposto. espetáculo vivo da natureza está no coração do homem; e, para vê-lo, ele precisa ser sentido... Como irá canto dos pássaros causar-lhe uma emoção arrebatadora, se acentos do amor e do prazer são-lhe ainda desconhecidos? Educação, uma série de antinomias. Chegando a um julgamento final da filosofia de Rousseau, é necessário compreender que ele encontrou na natureza humana, na sociedade e, na educação, ten- 80) Rousseau, J.J., cit., pág. 196. 81) Ibid., 82) 205. 84) 83) Ibid., 210-211. 85) 263.314 História da Educação Moderna dências e princípios contraditórios. 0 fato dele ter tentado transcender estes conflitos e alcançado um nível mais alto de reconciliação dá-nos um res- peito mais profundo por sua genialidade. Antes de mais nada, encontrou na profundidade de sua própria natureza um conflito entre o real e ideal que lembra fortemente a luta semelhante de S. Paulo. Capítulo XIV Contemplando a natureza do pareceu-me que eu poderia discernir dois princípios distintos, um dos quais eleva-o 20 estudo das verdades eternas, ao amor da justiça e da beleza moral, às regiões do mundo intelectual onde 0 homem sábio gosta de meditar, enquanto o outro rebaixa-o à sua própria insignificância, TRANSIÇÃO DO CONTROLE DA EDUCAÇÃO sujeita-o ao domínio dos sentidos às paixões que 03 servem c, por meio deles, frustra tudo que 0 sentimento do primeiro princípio nele Eu desejo e ainda assim não desejo... Eu me sinto, ao mesmo tempo, um escravo e um homem DA IGREJA PARA O ESTADO livre. Eu vejo bem e amo, e ainda assim faço mal. Sou ativo quando atendo à razão, passivo quando minhas paixões me desencaminham; e meu pior tormento, quando sucumbo, é sentir que estava em meu poder Principais causas da transição. As últimas décadas do século XVIII Um conflito semelhante é encontrado entre a natureza humana e a viram uma mudança surpreendente na atitude de muitos legisladores com sociedade. Esta luta surge entre a educação geral para a humanidade e a relação acs direitos do povo, e na dos Estados com referência à educação. formação de um cidadão. "Compelidos a opormo-nos à natureza ou às Essas mudanças foram devidas a várias causas, das quais as principais nossas instituições sociais, devemos escolher entre fazer um homem e um foram: 1) o desenvolvimento do sentimento filantrópico; 2) as doutrinas cidadão, pois não podemos formar ambos 20 mesmo dos fisiocratas; 3) o aprofundamento do senso dos direitos dos indivíduos Novamente, a educação geral e a formação vocacional são antagônicas. e da importância da personalidade; e 4) estudo da origem e da natureza Rousseau defendia a causa da cultura geral de preferência à formação vo- do governo civil. cacional. Entre OS numerosos outros conflitos que ele procurou resolver estão: a O Novo Humanitarismo. elemento mais significativo na situação liberdade da natureza e a convencionalidade da sociedade, 2 espontanei- do mundo ocidental, ao findar século foi a preocupação espontânea dade original da criança e 0 sistema da disciplina formal, naturalismo e pela melhoria moral e religiosa das classes desamparadas. Este interesse idealismo, sentimento de liberdade e de dever ou obediência, a bondade pelo bem-estar das massas, e, particularmente, das crianças menores, não natural do coração humano e a depravação social, a psicologia da memória era tanto uma questão religiosa como fora no século precedente. Por e a da razão, poder da imaginação ou fantasia e sentimento da realidade, aquela época o Démia e La Salle e Irmãos das Escolas Comuns sensibilidade e razão, e homem e mulher. Rousseau lutou para encontrar tinham representado espírito cristão católico na assistência aos jovens. algum meio de reconciliar estas várias antinomias na natureza humana. Entre luteranos foi movimento pietista, com Francke como líder, e na Tentou reconciliá-las atribuindo-as a fases sucessivas do desenvolvimento. Igreja Anglicana, a S.P.G. e a S.P.C.K., que fundaram escolas de cari- Ficou longe do sucesso; mas, de fato, também nenhum outro educador foi dade na Inglaterra e na América. Mas nenhum desses movimentos, embora inteiramente bem sucedido ao harmonizar estes princípios contrastantes. admiráveis, recebeu amparo geral e correspondeu às deploráveis necessida- des da época. de outro quadrante que deveria surgir um movimento maior, a saber: crença na dignidade da pessoa humana e seu aperfeiçoa- mento através da inteligência esclarecida. Despotismo esclarecido e educação. A nova atitude em relação ao homem manifestou-se em duas formas de governo: despotismo esclarecido, a leste do Reno, e democracia na França, Inglaterra e América. Os dés- potas esclarecidos estavam sobremaneira influenciados pelos princípios dos fisiocratas; republicanos seguiam pensadores políticos britânicos e franceses. Muitos desses pensadores estavam sob a ilusão de a legis- 86) Rousseau, J.J., Profession of Faith of a Vicar. lação tem poder ilimitado para moldar indivíduo e controlar a sociedade J.J., Emile, 5. por meio da educação. 0 plano geral do universo, como eles 0 concebiam,