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CapituIo dkcimo terceiro 
I. P\ vida 
e o significado da obra 
Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra em 1712. Perdendo a mae no 
momento do parto, recebeu uma educaqao bastante desordenada. Em 1728 dei- 
xou Genebra, e logo encontrou refugio em Les Charmettes, nas proximidades de 
Chambery, junto de Madame de Warens que foi para ele mae, amiga e amante. 
Em 1741 estabeleceu-se em Paris, onde estreitou amizade com Diderot e os enci- 
clopedistas. Em 1750 publicou o Discurso sobre as ciCncias e sobre as artes, em 1755 
o Discurso sobre a desigualdade, que Ihe valeu um imprevisto e 
inesperado sucesso. Em 1758 rompeu com os enciclopedistas por r ' g U ' 
causa de uma divergdncia substancial de avaliaqao a respeito da pensador 
sociedade do tempo. Retirando-se em Montmorency, viveu um do seculo XVl,l 
period0 intenso e fecundo: em 1761 publicou a Nova Heloisa, em - 3 I 
1762 0 contrato social e Emilio, mas as ultimas duas obras foram 
condenadas pelas autoridades civis e eclesiasticas de Paris e de Genebra. Amar- 
gurado, rejeitou seus direitos de cidadao genebrino e se transferiu para Mitiers- 
Travers, no territorio de Neuchitel. Em 1766 aceitou o convite de Hume para ir a 
Inglaterra, mas as relasees com o filosofo inglds foram breves e dificeis. Voltando 
para a Franqa e estabelecendo-se novamente em Paris, completou as Confissdes e 
o Ensaio sobre a origem das linguas. Morreu em 1778. 
Rousseau aparece corno uma figura complexa e controvertida, objeto de di- 
versas interpretaqees tambem opostas entre si, que convdm apenas por considera- 
lo o primeiro grande teorico da pedagogia moderna. certo, em todo caso, que 
Rousseau reune com seus escritos a veia profunda do lluminismo e lanqa as raizes 
do romantismo, exprime traqos inovadores e reaqees conservadoras, o desejo e 
ao mesmo tempo o temor de uma revolu@o radical, a nostalgia da vida primitiva 
e o medo de que, por meio de lutas insensatas, se possa cair novamente naquela . . . 
barbarie. 
Iluminista e romiintico, individualista 
e coletivista, antecipador de Kant e precur- 
sor de Marx, Rousseau foi alvo de diversas 
interpretagtjes e muitos estudos, a ponto 
de, a partir dos anos 50 do sCculo XX, se 
chegar a falar de uma "Rousseau-Renais- 
sance". Definido por Kant corno "o Newton 
da moral" e pel0 poeta H. Heine corno "a 
cabeqa revolucioniria da qua1 Robespierre 
nada mais foi do que a mio executora", 
Rousseau aparece corno figura complexa 
e controvertida. Considerado com razz0 
corno o maior pensador do sCculo XVIII, 
ele se imp& por motivos contrastantes. Para 
278 Quarta parte - (3 Jlurninismo e s e u desenvolvimen+o 
alguns C o teorico do sentimento interior 
como unico guia da vida, para outros C o 
defensor da absor~iio total do individuo na 
vida social, contra as renascentes fraturas 
entre interesses privados e interesses cole- 
tivos; para alguns C liberal, para outros C o 
primeiro te6rico do socialismo; para alguns, 
C iluminista, para outros C antiiluminista; 
para todos i o primeiro grande tedrico da 
pedagogia moderna. 
Como quer que seja lido e interpretado, 
o certo C que Rousseau, nos seus escritos, 
reune a veia mais profunda do Iluminismo 
e langa as raizes do romantismo, expressa 
impetos inovadores e reagbes conservadoras, 
o desejo e, ao mesmo tempo, o temor de 
urna revoluq5o radical, a nostalgia da vida 
primitiva e o medo de que, por causa de lutas 
insensatas, se possa recair naquela barbirie. 
Figura rica e contraditoria, Rousseau fasci- 
na pela complexidade dos sentimentos que 
descreve e pela clara denuncia, em pleno sC- 
culo XVIII, dos perigos de um racionalismo 
exasperado. Com efeito, ele estava persua- 
dido de que, sem os instintos e as paixGes, a 
raziio torna-se estCril e acadimica, ao passo 
que, sem a disciplina da razio, as paixbes 
e os instintos levam ao caos individual e h 
anarquia social. 
Jean-Jacques Rousseau nasceu em Ge- 
nebra, em 28 de junho de 1712. Tendo per- 
dido a miie no momento do parto, transcor- 
reu sua infincia com o pai Isaac, relojoeiro 
e homem que amava boimias. Confiado 
primeiro a um pastor calvinista e depois 
a um tio, recebeu urna educagiio bastante 
desordenada. Aprendiz de gravagiio, Rous- 
seau deixou Genebra em 1728 e, depois de 
urna breve experiincia como camareiro de 
urna familia de Turim, encontrou refugio 
em Les Charmettes, nas proximidades de 
ChambCry, junto de madame de Warens, 
que lhe foi mie, amiga e amante. "Uma 
mulher toda ternura e dogura", como ele 
a recorda, que lhe possibilitou estudar e se 
instruir, sem distraqGes, longe do tumult0 
da cidade. Escreve Rousseau: "Uma casa 
isolada sobre o declive de um vale foi nosso 
refugio: la, durante quatro ou cinco anos, 
desfrutei de um stculo de vida e felicidade 
pura e plena, que oculta com seu esplendor 
tudo aquilo que a minha situagiio presente 
tem de horrivel". 
Em 1741, o filosofo de Genebra dei- 
xa ChambCry e se instala em Paris, onde 
estabelece amizade com Diderot e, por seu 
intermCdio, com os enciclopedistas. Niio 
acostumado com a vida nos salbes, niio se 
sentia h vontade na Paris culta, inquieto e 
insatisfeito por ser musico de segunda clas- 
se e humilde preceptor e caixeiro na casa 
Dupin. 0 conflito entre seu eu profundo e 
o mundo circunstante agugou-se a ponto 
de explodir na condenaqio daquele mundo 
e daquela cultura, em nome da natureza, 
que lhe reservara as alegrias mais belas e 
inesqueciveis. 
Deixemos a Rousseau a tarefa de nos 
contar o acontecimento que o induziu a 
escrever os primeiros ensaios, que o impu- 
seram 2 atengio da Franqa iluminista: "Eu 
ia visitar Diderot, que estava preso em Vin- 
cennes. Como tinha no bolso um numero do 
Mercure de France, fui dando urna olhada 
nele pel0 caminho. Caiu-me sob os olhos o 
quesito da Academia de Dijon ('0 progress0 
das ciincias e das artes contribuiu para a 
melhoria dos costumes?'), que deu origem 
ao meu primeiro escrito (Discurso sobre as 
ciZncias e sobre as artes). Se alguma vez algo 
se assemelhou a urna inspiragiio imprevista, 
tal foi a emogio que me deu aquela leitura. 
De repente, minha mente foi percorrida 
por mil luzes; inumeraveis idCias vivas se 
me apresentaram, junto com urna energia e 
urna confusiio tais que me provocaram urna 
perturbaqiio inexprimivel; invadiu-me um 
torpor semelhante ao da embriaguez [. ..I. 
Tudo o que pude recordar da multidiio de 
grandes verdades que me iluminaram em 
um quarto de hora debaixo daquela arvore 
foi depois escassamente relatado em meus 
tris primeiros escritos principais, ou seja, 
o primeiro discurso [sobre as ciencias e as 
artes], aquele sobre a desigualdade, e o tra- 
tad0 sobre a educagiio (Emilio), trfs obras 
inseparaveis, que formam um todo unico". 
Recordando esse periodo, Diderot escreveu 
que Rousseau era como urn barril de polvora 
que teria ficado sem explodir se niio fosse a 
centelha que partiu de Dijon. 
A publicagiio dos primeiros dois dis- 
cursos, o primeiro em 1750 e o segundo 
em 1755, granjeou-lhe um imprevisto e 
inesperado sucesso. Nesse meio tempo, ele 
se unira a urna mulher rude e inculta, que, 
no entanto, sempre esteve perto dele e com 
a qua1 teve cinco filhos. E ele os confiou to- 
dos, um ap6s o outro, aos Enfants trouvis, 
para niio ser desviado de seus compromissos 
culturais e porque, como havia ensinado Pla- 
tao, a educagiio das crian~as cabe ao Estado. 
A relativa tranqiiilidade familiar e o 
sucesso obtido pelos primeiros ensaios per- 
Capitulo de'cimo terceiro - Sean-Jacques Rousseau: o iluminista "herCticoN 
279 
mitiram-lhe estreitar amizade com as per- 
sonalidades mais conhecidas e colaborar 
na Enciclopbdia com uma strie de artigos 
de cariiter musical, depois reunidos no 
Dictionnaire de musique, e com o verbete 
"Economia politica" (1758). Logo, porCm, 
ele rompeu suas relag6es com os enciclope- 
distas, por uma divergencia substancial de 
avaliagio em relagiio 2 sociedade da 6poca e, 
mais profundamente, em relaqiio a historia 
humana e seus produtos. "Apesar de sucessi- 
vas lamentag6esde longe, e procuremos reunir sob uma so visdo 
esta lenta sucessdo de acontecimentos s de 
conhecimentos em sua ordem mais natural. 
0 primeiro sentimento do homem foi o de 
sua exist&nco; seu pr~meiro cu~dado, o de sua 
conserva~tdo. 0 s produtos do terra Ihe forne- 
ciam todos os socorros necess6r1os; o instinto 
o induziu a deles fazer uso. Uma vez que a 
fome e outros apetitas o faziam sxperimentar 
vez por outra diversas maneiras de vida, houve 
uma que o convidou a perpetuar sua espbcie; 
s esse impulso cego, desprovido de qualquer 
sentimento do cora$do, ndo produziu mais que 
um ato puramente animal: satisfeita a necessl- 
dade, os dois sexos ndo se reconheciam mais, 
e o proprio fllho ndo era mais nada para a 
mde, logo que pudesse vlver sem ela. Tal foi 
a condi~do do homem nascente; tal foi a vida 
de um animal, limitado primeiro 6s puras sen- 
saq%s, que apenas aproveitava os dons que 
a natureza Ihe oferecia, longe de pensar em 
Ihe arrancar algo. Mas logo se apresentaram 
dificuldades; precisou aprender a venc&-10s: a 
alturo das 6rvores, qua o impedia de chegar a 
seus h-utos, a concorr6nc1a dos an~mais, que pro- 
curavarn alimentor-se deles, a ferocidade dos 
que omeapvam sua vida, tudo isso o obrigou a 
dar-se aos exercicios do corpo; precisou tornar- 
se 6gil, r6pido na corrida, vlgoroso no combate. 
Rs armas noturais, que sdo os ramos de Clrvore 
e as pedras, encontraram-se 1090 ao alcance da 
sua mdo. Rprendeu a superar os obst6culos da 
natureza, a combater sempre que necess6rio os 
outros animais, a disputar sua subsist&nc~a corn 
os propr~os homens, ou a indenizar-se daquilo 
que dsvia ceder ao mais forte. 
h medida que o ganero humano se es- 
palhou, as fad~gas se multiplicaram com os 
homens. R d~feren~a dos terrenos, dos climas, 
das esta@es pode t&-los obrigado o introdu- 
3"Coiso vardade~ra, d ~ z Maqu~ovel. C que algumos 
dlv~sdas prejud~com as reptjblicos, a olgumas ajudom: os 
que prajud~com sdo formodos ds seltos e ocornponhados 
de port~ddr~os; os que ajudom se manthm sam seltos e sem 
portiddr~os. Portanto, ndo podendo prover um fundodor da 
umo repljbl~co sam que hap nelo lnmzodes, deve-se provar 
oo manos qus ndo hap se~tos". Istorie horentine, hvro VII. 
[Noto de Rousseau] 
297 
Capitulo de'cimo terceiro - Jeafi-Jacques Rousseau: o ilumifiista "herCtico" 
zi-las tambbm em sua maneira de vlver. Rnos 
esthrels, invernos longos e rudes, ver6es ar- 
dentes, que tudo consomem, os obrigaram a 
novas industriosidades. Ro longo do mare dos 
rios inventaram as linhas de pesca e os onzois, 
e se tornaram pescadores e consurnrdores de 
peixe. Nas florestas flzeram arcos e flechas, e 
se tornaram capdores e guerreiros. Nos poises 
frlos cobrlram-se de peles dos animals abatidos. 
0 raro, um vulcdo, ou algum acaso afortunado 
f6-10s conhecer o fogo, novo socorro contra o 
rigor do inverno: aprenderam a conservar este 
elemento, depois a reproduzi-lo, e por fim a 
preparar com ele as carnes, que antes devo- 
ravam cruas. 
Esta repetlda aplicaconhecer o instrumento do qua1 
quero me servir, e saber at& que ponto posso 
confiar em us6-lo. 
Eu existo, e tenho sentidos por meio dos 
quais sou impressionado. Eis a primeira verdade 
qus ms atinge e b qua1 sou for~ado a concordar. 
Tenho um sentimento proprio de minha exist&n- 
cia ou ndo a sinto a ndo ser por meio de minhas 
sensac;des? 
Cis a minha primeira dljvida que, no 
momsnto, me 6 impossivel resolver. Com efei- 
to, ssndo continuamente impressionado por 
sensaqdes, ou imediatamente ou por meio da 
msmoria, como poderia saber se o sentimento 
do GU & 0190 fora das proprias sensa@as, ou 
entdo pode ser independente delas? 
Minhas sensagdes se desenvolvem em 
mim, pois elas me fazem sentir minha exist&ncia; 
mas a causa delas me & estranha, pois elas me 
impressionam apesar de mim, e ndo depende 
de mim produzi-las ou anul6-10s. Concabo cla- 
ramente, portanto, que a sensaq50, que @st6 
em mim, e sua causa ou seu objeto, que @st80 
fora do mim, ndo sdo a mesma coisa. 
Rssim, ndo so eu existo, mas existem 
outros ssres, isto 6 , os objetos de minhas sen- 
sa@es; e mesmo que estes objetos ndo fossem 
mas que ~dhias, 6 sempre verdadeiro que estas 
. idbias ndo s6o eu. 
Ora, tudo aquilo que sinto fora de mlm 
e que age sobre meus sent~dos, eu o chamo 
matbrio; e todas as por~des de matbrio que 
concebo reunidas em seres individuais, eu as 
chamo corpos. nssim, todas as disputas dos ide- 
alistas s dos matsrialistas ndo s~gnificam nada 
para mim: as distinst&ios de idade e preparar para a vida social. 
ao estudo dos verdades eternas, ao amor do 
justip s da beleza moral, ds regiaes do mundo 
intelectual, cuja contempla~do faz a delic~a do 
scibio, e dos quais o outro o Ievava para ba~xo, 
em si mesmo, o escravizava ao dominio dos 
sentidos, ds pa~xdes que sdo seus ministros, 
e contranova por seu intermddio tudo aquilo 
que o sentimento do primeiro Ihe inspirava. 
Sentindo-me arrastado, combatido por estes 
dois movimentos contrcirios, eu me diz~a: "Ndo, 
o homem ndo Q uno: eu quero e ndo quero, 
sinto-me ao mesmo tempo escravo e livre; vejo 
o bem e o amo, e fa20 o mal; sou ativo quando 
o u ~ o a razdo, passlvo quando minhas paixaes 
me arrastam; e meu pior tormento, quando su- 
cumbo, & sentir que teria podido resistir". 
Este contraste, e o fato de sentir-me 
julgador e ativo, coisa impossivel para um ser 
puramente material, me demonstra que albm 
do corpo tenho tambhm uma alma imaterial, 
que julga e escolhe, e & o principio ativo de 
meu ser. 
0 homem 6, portanto, livre em suas a@es, 
e como tal animado por uma subst8ncia imate- 
rial; este & o meu terceiro artigo de fd. Destes 
primeiros tr&s deduzireis fac~lmante todos os ou- 
tros, sem que eu continue a apresentci-10s. [...I 
5. 0 sentimento que inclina ao bem 
6 inato no homem 
Existir para nos d sentir; nossa sens~bi- 
lidade & incontestavelmente anterior b nossa 
intelig&ncia, e t~vemos sentimentos antes de 
iddias. Seja qual for a causa de nosso ser, ela 
proveu nossa conserva~do dando-nos sentimen- 
tos convenientes d nossa natureza; e ndo se 
poderia negar que ao menos eles sejam inatos. 
Estes sentimentos, quanto ao ~nd~viduo, sdo o 
amor de si, o medo do dor, o horror da morte, 
o desejo do bem-estar. Todav~a, como n6o se 
pode duvidar, se o homem & soci6vel por sua 
natureza, ou ao menos feito para se tornar so- 
ci6vel, ele ndo pode s&-lo a n6o ser por outros 
sentimentos Inatos, relatives b sua espdcle; 
corn efe~to, se apenas considerarmos a neces- 
sidade fisica, esta certamente deve dispersar 
os hamens em vez de aproxim6-10s. Ora, & do 
sisterno moral formado por meio desta dupla 
relaq5o com SI mesmo e com seus semelhantes 
que nasce o impulso do consc16ncia. Conhecer o 
bem ndo d am6-lo: o homem n6o tem dele um 
conhecimento inato; porbm, logo que sua razdo 
o faz conhecer o bem, sua consc16nc1a o leva a 
am6-lo; b este sentimento que & rnato. 
Portanto, meu amigo, n6o creio que s ~ j a 
impossivel explicar por meio de conssqu&nc~as 
de nossa natureza o princip~o mediat to do cons- 
+c 300 Quarta parte - 0 JI~*minismo e seu desenvolvimento 
ci&ncia, independente da propria razdo. E mes- 
mo que fosse impossivel, ndo seria necess6rio: 
com efeito, uma vez que aquelas qua negam 
este principio admitido e reconhecldo por todo 
o g&nero humano n6o provam de fato que n60 
existe, mas contentam-se em afirm6-lo; quando 
nos afirmamos que existe, estamos igualmente 
bem fundados quanto eles, e a mais temos o 
testemunho interior, e a voz da consci&ncia que 
depde por si propria. 
Consci&ncia! Consci&ncia! lnstinto dlvino, 
voz imortal e celeste; guia seguro de um ser 
ignormte e limitado, inteligentee livre; juiz 
infalivel do bem e do mal, que torna o homem 
semelhante a Deus, 6s tu que fazes a excel&ncia 
de sua natureza e a moralidade de suas a~des; 
sem ti ndo sinto nada em mim que me eleve 
acima dos anlmais, salvo o triste prlvil6gio de 
desviar-me de err0 em erro com o auxilio de 
um intelecto sem regra e de uma razdo sem 
principios. 
Graps ao c&u, eis-nos libertos de todo 
este aparato espantoso de filosofia: podemos 
ser homens sem ser sapientes; dlspensados de 
consumar nossa vida no estudo da moral, temos 
por menor preGo um guia mais seguro neste 
dQdalo imenso das opinides humanas. Mas n60 
6 suficlente que o guia exista; 6 preclso saber 
reconhec6-lo e segui-lo. 
Mas acreditais que exista sobre toda a 
terra um so homem tdo depravado que nunca 
tenha abandonado seu coraq3o B tent0560 de 
fazer bem? Esta tentag30 & tdo natural e tdo 
doce, qua 6 impossivel resistir a ela sempre; 
e a Iembranp do prazer que ela produziu uma 
vez & suficiente para retom6-la sem repouso. 
Desgrac@amente ela & primeiramente dificil de 
satisfazer; h6 milhares de razdes para recusar- 
se B inclinqdo do proprio coraq3o; a falsa pru- 
d&ncia o encerra nos limites do eu humano; sdo 
necess6rios m~lhares de esfore tentativas de recuperagiio, 
era (para os enciclopedistas) uma perda 
inevitivel, determinada por uma variedade 
de idCias substanciais, por sua vez derivada 
de sensibilidades diferentes em relagio as 
exigencias da luta ideologico-politica" (F. 
Diaz). A ruputura oficial deu-se por aquele 
manifesto anti-philosophes, que C a Lettre a 
dYAlembert sur les spetacles, de 1758. 
Nesse meio tempo, Jean-Jacques se 
havia retirado para o Ermitage de Mont- 
morency, onde habitou em uma casa de 
madame dYEpinay. Aqui ligou-se sentimen- 
talmente com a cunhada dela, madame 
dYHondetot, e acreditou poder realizar o 
sonho de p6r de acordo os philosophes com 
os tradicionalistas. Contudo, por varias ra- 
z6es, o resultado foi a ruptura com Diderot 
e dYHolbach. 
Rompidas as relag6es tambim com 
madame dYEpinay, Rousseau se transferiu 
para o castelo do marechal de Luxemburgo, 
onde viveu um periodo fecundo. Em 1761 
publicou a Nouvelle Hbloise, em 1762 Le 
contrat social e, em 1763, o Emile. Mas 
as conseqiiencias de seu rompimento com 
a philosophie logo se fizeram sentir: com 
efeito, tanto o Emilio como o Contrato 
foram condenados pelas autoridades civis 
e eclesiasticas, tanto em Paris como em Ge- 
nebra, por uma espCcie de conjura entre 
crentes, ateus e deistas. 
Assim, ele abandonou definitivamente 
Genebra e se transferiu para Mitiers-Tra- 
vers, no territorio de Neuchiitel, que de- 
pendia do rei da Prussia. Ai escreveu alguns 
trabalhos polimicos, entre os quais Les 
lettres bcrites de la montagne, em resposta 
2s Cartas escritas d o campo, que Tronchin 
havia escrito em defesa da atitude politi- 
co-cultural genebrina. Manifestando-se 
tambCm aqui alguns motivos de hostilidade 
a seu respeito, porque era personagem inc6- 
moda e polemica contra todos, ele aceitou o 
convite do fil6sof0 David Hume e foi para 
a Inglaterra. Mas as relag6es com o filosofo 
ingles foram breves e dificeis. Tomado de 
mania de perseguigiio, alimentada pelas 
condenag6es genebrina e parisiense, ele 
logo deixou a Inglaterra, voltando A Franga, 
onde se dedicou a viajar para desafogar sua 
inquietude. 
Voltando a se instalar em Paris, foi 
morar em modesto tCrreo da rua Platikre, 
onde dedicou-se a completar as Confessions 
e escreveu os Dialogues ou Rousseau, juge 
de Jean-Jacques, e as Rzveries du promeneur 
solitaire. Juntamente com o ensaio Essai sur 
l'origine des langues, confiou esses escritos 
ao amigo Paul Moultou, para que cuidasse 
de sua publicagio. 
Ja velho e cansado, doente e deprimi- 
do, Rousseau aceitou o convite do marques 
de Girardin, em cujo castelo transcorreu 
os ultimos meses de sua vida em clima de 
relativa tranqiiilidade psicologica. Atingido 
por insolagiio durante um passeio a tarde, 
morreu em 2 de julho de 1778. 
/cLrrr,l~~sques Rousscuu ( 1 7 12- 1778) 
6 0 grirr~tie / )crrsdor tlcfitlitio por K ~ ~ t l t 
c-cjl~o o "Nc~lltorz tlir r~ror i~l" , 
0 [>P/O / ) O C f d H ~ r u cnatureza, sobre o qua1 influi o mito 
quinhentista do "bom selvagem", o 
homem e originariamente integro, 
biologicamente sadio e moralmente 
reto, e mau e injusto apenas depois, 
por um desequilibrio de ordem social: 
a natureza humana, deixada a seu 
livre desenvolvimento, leva ao triunfo 
dos instintos, dos sentimentos e da 
autoconserva@o, e nao da reflexao, 
da razao e da aniquilaqao. 
0 "estado de natureza" e, portanto, 
um mitico estado originario, posto 
aquem do bem e do ma/, do qua1 
o homem progressivamente decaiu 
por causa da "cultura", responsavel 
pelos males sociais da epoca atual: a 
passagem do "estado natural" para o 
"estado civil" marcou para Rousseau 
um verdadeiro regresso. 
dos sentimentos, niio da razio; do instinto, 
n i o da reflexio; da autoconservaqiio, n io da 
opressio. 0 homem n i o C somente raziio, 
alias, originariamente o homem niio C razio, 
mas sentimentos e paix6es. 
&, 0 "estado de natureza" 
como estiwulo de wudanCa 
p a r a o howew wodevno 
Entretanto, embora Rousseau olhe 
nostalgicamente para aquele passado, sua 
atenqiio esta toda voltada para o homem 
presente, corrupt0 e desumano. N i o se 
pode falar de primitivismo ou de culto B 
barbarie, at6 porque Rousseau conhece os 
limites desse estado de vida. A proposito, eis 
um trecho significativo do Discurso sobre a 
desigualdade: "Vagando pela floresta, sem 
trabalho, sem palavra, sem domicilio, sem 
guerra e sem laqos, sem qualquer necessi- 
dade dos seus semelhantes, como tambCm 
sem nenhum desejo de incomodii-los, talvez 
tambCm sem nunca reconhecer algum deles 
individualmente, o homem selvagem, sujeito 
a poucas paix6es e bastando-se a si mesmo, 
nada mais tinha que os sentimentos e os 
conhecimentos proprios daquele estado, so 
experimentava as necessidades verdadeiras, 
olhava apenas o que lhe interessava ver, e sua 
inteligincia n i o ia alCm de sua vaidade. Se, 
por acaso, fazia alguma descoberta, nem po- 
dia transmiti-la, visto que sequer reconhecia 
seus filhos. A arte perecia com seu inventor. 
N i o havia educaqiio nem progresso. As 
geraq6es se multiplicavam em viio e, partin- 
do cada uma do mesmo ponto, os sCculos 
transcorriam e a rudeza da era primitiva 
mantinha-se inalterada; a espicie jii estava 
velha, mas o homem ainda era crianqa." 
Concluindo, o mito do "bom selva- 
gem" C sobretudo uma esptcie de categoria 
filosofica, uma norma de juizo com base na 
qua1 condena-se a estrutura historico-social 
que mortificou a riqueza passional do ho- 
mem, bem como a espontaneidade de seus 
sentimentos mais profundos. Confrontando 
o homem como ele era com o homem como 
ele 6, ou "o homem feito pelo homem com 
o homem obra da natureza", Rousseau pre- 
tendia estimular os homens a uma mudanla 
salutar. 
282 Q U ~ M parte - 0 Jluminismo e s e u desenvolvimen+o 
contra os enci~lo~edistas, mas iluminista 
Rousseau e contra a cultura tal qua1 historicamente se configurou, porque 
ela deturpou a natureza. 0 homem seguiu urna curva de decadencia: o espirito 
competitivo e conflitivo n3o e origindrio, mas derivado, porque 6 fruto da historia. 
Contra a cultura 6 precis0 perseguir a ignorincia razoavel que, 
A ignorsncia segundo Rousseau, nasce de vivo amor pela virtude e consiste em 
razoavel delimitar a propria curiosidade as faculdades que foram recebidas. 
contra a cultura Rousseau considerava, portanto, responsaveis pelos males 
- 3 1-3 sociais justamente as cartas, artes e ciencia em que os enciclope- 
distas apoiavam as causas do progresso, e as considerava como 
nascidas dos vicios da arrogancia e da soberba, e como fonte de ulterior corrupg80; 
a historia desses desvios e injustisas comesou com o nascimento da desigualdade 
entre os homens, que, por sua vez, surgiu com a propriedade. 
Rousseau 6 contra os iluministas; n30, porem, contra o Iluminismo, porque 
ele considera a raza"o como o instrumento privilegiado para a superas30 e a vitoria 
sobre os males em que seculos de desvios lan~aram o homem. 0 
A volta caminho da salvas%o e para ele o caminho da volta a natureza 
a natureza e, portanto, da "re-naturaliza@o" do homem por meio de um 
carninhO relineamento da vida social, necessaria urna transforma@o do 
da salva@O espirito do povo, urna reviravolta completa, urna total transfor- 
+ 3 4-6 mas30 das instituis6es que ponham o homem nas condis6es de 
realizar sua mais profunda liberdade. Para tal finalidade e pre- 
ciso recuperar o sentido da "virtude", entendida como transparencia constante 
e mdtua relac30 entre interior e exterior da sociedade, a qua1 hoje encontra-se 
totalmente eiteriorizada. 
Rousseau C contra a cultura, assim co- 
mo ela se configurou historicamente, porque 
ela deturpou a natureza. 
Originariamente sadio, o homem v@- 
se agora desfigurado; outrora semelhante 
a um dew, tornou-se agora pior do que 
animal feroz. 0 homem seguiu uma curva 
de decadhcia. Transferir as desigualdades, 
os desniveis e as injustiqas do presente para 
o homem originario ou referi-las a estrutura 
do homem significa ler o passado com os 
olhos do presente. 
0 espirito competitivo e conflitivo n io 
C originario, mas derivado, porque C fruto 
da historia. Em substiincia, e duramente, 
Rousseau pronuncia um juizo severo e ra- 
dical sobre tudo o que o homem fez e disse, 
corno, por exemplo, sobre a reduqso do ho- 
mem a realidade racional e sobre a exaltaq5o 
dos seus produtos culturais, porque n io fize- 
ram a humanidade progredir, e sim regredir. 
Nem toda ignoriincia deve ser com- 
batida. Ha urna ignorincia que deve ser 
cultivada: " H i urna ignoriincia feroz e 
brutal, que nasce de um espirito perverso e 
de urna mente falsa; existe, em suma, uma 
ignoriincia criminal que degrada a razio, 
multiplicando os vicios. Mas ha, salienta 
Rousseau, urna ignorhcia que podemos 
dizer razoavel, pois delimita a curiosidade 
ao Smbito das faculdades recebidas; urna 
ignoriincia modesta, indiferente a tudo o 
que n5o C digno do homem; urna ignoriincia 
'doce e preciosa', tipica de um iinimo puro 
e contente consigo mesmo". 
2 0 que se chama 
" P v ~ g v e ~ ~ ~ " & urn " v e g v e s s o " 
A posiqio de Rousseau, com efeito, 
foi urna posiqao "escandalosa", porque ele 
considerava como responsaveis pelos ma- 
les sociais justamente aquelas letras, artes e 
Capitulo de'cimo terceiro - Jean-3acsues Rousseau: iluminista "herCtico" 283 
ciincias nas quais os enciclopedistas viam as 
causas do progresso. Nascidas dos vicios da 
arrogiincia e da soberba, as ciincias, as artes 
e as letras n i o fizeram progredir a felicidade 
humana, mas consolidaram os vicios que as 
provocaram, como podemos ler no Discurso 
sobre as ciBncias. 
0 progresso 6, portanto, urna linha que 
procede inexoriivel para o melhor, para a 
perfeiqio? Na realidade, aquilo que para os 
enciclopedistas era progresso, para Rousseau 
era regress0 e ulterior corrupqio. "Todos 
os progressos da espicie humana afastam- 
na continuamente de seu estado primitivo; 
quanto mais acumulamos novos conhecimen- 
tos, mais nos impedimos de adquirir o maior 
e mais importante dos conhecimentos." 
Mas como comeqou essa historia de 
desvios e injustiqas? 
Comeqou com o nascimento da desi- 
gualdade entre os homens. E a desigualdade 
nasceu com o nascimento da propriedade, e 
com as hostilidades conseqiientes. 
3 V i s ~ o pessimista da histbria 
A visiio de Rousseau, portanto, C urna 
visio radicalmente pessimista da historia e 
do seu curso, bem como de seus produtos 
culturais. Voltaire desqualificou o Discurso 
sobre a desigualdade como "um libelo con- 
tra o ginero humano". De fato, imputando 
ao saber e ao "progresso" os problemas 
que os philosophes atribuiam a religizo e 
i s varias formas de superstiqio herdadas do 
passado, Rousseau se colocava contra todos 
os enciclopedistas, particularmente contra 
Voltaire, cujo programa de propaganda das 
novidades teatrais, sobretudo da produeio 
de Molikre, ele tachava de esqualido por 
defender formas culturais que estimulavam 
os vicios e se demonstravamincapazes de 
distinguir o que C fruto de urna falsa cul- 
tura e o que C tipico da natureza humana. 
Rousseau subverte a 6tica de interpreta- 
qio da historia. Em si, o homem n i o C lob0 
para o homem. 0 homem tornou-se tal no 
curso da historia. 0 estado natural n io C o 
estado do instinto violento e da afirmaqio da 
vitalidade sem controle. "Tudo C bom quando 
sai das mios do Autor das coisas", ao passo 
que "tudo degenera nas mios do homem". 
E radical a antitese entre natureza e cultura, 
entre estado primitivo e estado civil em sua con- 
figuraqio sociopolitico-econ6mica. 111 
a sociedade 
Podemos dizer que Rousseau C contra 
os iluministas, niio contra o Iluminismo, 
do qua1 C intirprete e fautor inteligente; ele 
C contra os jusnaturalistas, n i o contra o 
jusnaturalismo. 
Rousseau i um iluminista, porque 
considera a raziio como o instrumento pri- 
vilegiado para a superaqio dos males em que 
sCculos de desvio haviam lanqado o homem, 
e para a vitoria sobre eles. 
Rousseau 6 um jusnaturalista porque 
rep6e na natureza humana a garantia e os 
recursos para a salvaqio do homem. Mas 
C contra os iluministas e jusnaturalistas da 
Cpoca, que consideravam j i encaminhado 
o itineririo da libertaqio. A seus olhos, a 
sociedade ainda estava no prolongamento 
de urna historia de decadincia e superstiqso, 
considerando as artes, as ciincias e as letras 
como baseadas em falsos pressupostos, ou 
seja, na negaqiio daquela riqueza do homem 
que era possivel perceber agindo nos povos 
primitivos e que ele sentia viva dentro de si. 
0 caminho da salvaqao C outro: C o cami- 
nho do retorno a natureza e, portanto, o cami- 
nho da "renaturalizaqio do homem" atravCs 
de urna reimpostaeio da vida social em con- 
diqaes de bloquear o ma1 e favorecer o bem. 
jV6o basta 
reformar as cigncias 
e welhorar as tkcnicas 
A sociedade n i o ode ser curada com 
simples reformas interias ou corn o simples 
progresso das ciincias e das ttcnicas. Torna- 
se necessiria urna transformaqio no espirito 
do povo, urna reviravolta completa, uma 
mudanqa total das instituiqoes. Em outras 
palavras, C necessaria urna grande e dolorosa 
revoluqiio, urna ruptura radical. A racionali- 
dade iluminista, toda exteriorizada, C preci- 
so opor urna racionalidade interiorizada, em 
condig6es de recuperar a voz da consciincia. 
Com efeito, "se o selvagem vive em si mes- 
mo, o homem da sociedade, sempre voltado 
para fora de si, so sabe viver da opiniio dos 
outros e, por assim dizer, C apenas do juizo 
dos outros que ele tira o sentimento de sua 
284 Quarta parte - 0 Jluminismo e seu desenvalvimento 
propria existikcia". A sociedade se exte- 
riorizou completamente, e o homem per- 
deu sua vinculaqio com o mundo interior. 
Assim, C necessario operar urna nova 
sutura entre o interior e o exterior, para 
frear aquele movimento dissolvente ou dis- 
sipar aquelas vis aparzncias que os homens 
seguem, combatendo-se e oprimindo-se uns 
aos outros. Com tal objetivo, C preciso que 
nos apoiemos no potencial de bondade que 
existe no homem, mas em estado virtual 
e n5o manifesto, para assim reconstruir o 
mundo social em urna harmonizaqio total 
e constante das duas vertentes, sem fraturas 
ou conflitos. Em suma, C preciso recuperar o 
sentido da virtude, entendida como constan- 
te transparcncia e inter-rela~io entre interior 
e exterior. 
0 MOVO modelo de raaho 
q u e melhora o homem 
Reentrando em si mesmo, porCm, o 
homem nZo se defronta com urna realidade 
n5o contaminada, mas encontra um espiri- 
to cicatrizado do ma1 que se acumulou ao 
longo da historia. Dai a urghcia de urna 
convers50 que parta do interior do homem 
e, portanto, de um repensamento de todos 
os seus produtos culturais, cuja fungio serii a 
de ajudar a criar instituigdes sociais que nHo 
distorgam o desenvolvimento do homem, 
mas o coloquem em condiqdes de realizar 
sua mais profunda liberdade. 
Rousseau n5o C contra a razio ou 
contra a cultura. Ele C contra um modelo 
de raziio e contra certos produtos culturais, 
porque lhes escapou aquela profundidade 
ou interioridade do homem, i qua1 esti 
ligada a possibilidade de mudanga radical 
do quadro de conjunto, social e cultural. 
Ele se bate pel0 triunfo da raz50, mas nio 
cultivada por si mesma, sem densidade e au- 
tenticidade, e sim como filtro critic0 e polo 
de agregaqgo dos sentimentos, dos instintos 
e das paixGes, tendo em vista urna efetiva 
reconstrug50 do homem integral, n5o em 
urna direqio individualista, e sim em urna 
diregzo comunitiria. 
0 ma1 nasceu com a sociedade e C com 
a sociedade, desde que devidamente renova- 
da, que ele pode ser expulso e debelado. 
No Contrato social, Rousseau comeca com a frase: "0 homem nasceu livre 
e, todavia, em todo lugar encontra-se em cadeias". 0 objetivo do novo contrato 
social delineado por Rousseau e o de libertar o homem das cadeias e restitui-lo a 
liberdade. lsso comporta a constru@o de um modelo social fundado sobre a voz 
da conscihcia complexiva do homem, aberto a comunidade. 
0 principio que legitima o poder e garante a transformacao 
0s objetivos social e a vontade geral amante do bem comum, que e fruto de 
do novo um pacto de uniao que, instituido entre iguais que permanecem 
contrato social sempre tais, da lugar a um corpo moral e coletivo: a vontade geral 
-- g 1-3 nao 6, portanto, a soma das vontades de todos os componentes, 
mas urna realidade que brota da renuncia de cada um aos proprios 
interesses em favor da coletividade. Esta e, portanto, urna socializa~i30 radical do 
homem, de sua total coletiviza@o, voltada a impedir a emerg6ncia e afirmagao 
de interesses privados: a vontade geral, encarnada no e pelo Estado, e tudo. 
lh- 0 MOVO a~ranjo Rousseau no Contrato social. Romper as 
q kvgeral 6 fruto de um pacto unionis que 
se d i entre iguais, que continuam sendo tais, 
porque, como escreve Rousseau no Contrato 
social, trata-se da "alienagio total de cada 
individuo, com todos os seus direitos, a toda 
a comunidade [dando lugar] a um corpo 
moral e coletivo [. . .] que extrai desse mesmo 
ato sua unidade, seu eu comum, sua vida e 
sua vontade" . 
A vontade geral, portanto, niio C a soma 
das vontades de todos os componentes, mas 
uma realidade que brota da renuncia de cada 
um a seus proprios interesses em favor da 
coletividade. E um pacto que os homens niio 
estreitam com Deus ou com um chefe, mas 
entre si mesmos, em plena liberdade e com 
perfeita igualdade. 
Estamos diante de uma socializa@o ra- 
dical d o homem, de sua total coletiviza@o, 
para impedir que emerjam e se afirmem os 
interesses privados. Com a vontade geral 
pel0 bem comum, o homem s6 pode pensar 
em si pensando nos outros, ou seja, somente 
atravCs dos outros, e deve considerar os ou- 
tros n5o como instrumentos, mas como fins 
em si. NinguCm deve obedecer ao outro, e 
sim todos h lei, sagrada para todos, porque 
fruto e express50 da vontade geral. 
Todos os esforgos que o novo pacto 
social impee, portanto, est5o voltados para 
a eliminag50 dos germes dos contrastes entre 
interesses privados e interesses comunita- 
rios, absorvendo os primeiros nos segundos 
e, graqas h completa redugso do individuo 
a membro da sociedade, impedindo que 
os interesses privados aflorem e rompam a 
harmonia do conjunto. 
Rousseau, portanto, destaca com extre- 
mo vigor a interiorizaq50 da vida social e de 
seus deveres. N5o ha nada de privado. Tudo 
C public0 ou, pel0 menos, deve tornar-se tal. 
Vontade geral. o principio que 
legitima o poder e garante a trans- 
formar;%o social inaugurada pelo 
"novo contrato". Enquanto a vontade 
particular tem sempre como objeto o 
interesse privado, a vontade geral 6, 
ao contrario, amante do bem comum, 
e se propde o interesse comum: ela 
n%o e, portanto, a soma das vontades 
de todos os componentes, mas uma 
realidade que brota da renuncia de 
cada um aos proprios interesses em 
favor da coletividade. 
286 Quarto parte - 0 Jluminismo e seu desmvolvimen+o 
Contrato social. 0 unico caminho 
para remediar a decadhcia da huma- 
nidade e a relativa falta de liberdade 
e, para Rousseau, a estipulaqao de 
um novo contrato social, em vista de 
um renovado "estado civil", contrato 
que se exprime nos seguintes termos 
essenciais: "Cada um de nos p6e em 
comum sua pessoa e todo seu poder, 
sob a direqlo suprema da vontade 
geral". Trata-se da alienaqzo total 
de cada associado, com todos os seus 
direitos, a toda a comunidade, por 
meio da qua1 "se produz imediata- 
mente um corpo moral e coletivo 
unitdrio", cujos associados "tomam 
coletivamente o nome de povo, e 
singularmente se chamam cidadaos, 
enquanto participantes da autori- 
dade soberana, e suditos, enquanto 
submissos as leis do Estado". 
0 homem C essencialmente social, um ani- 
mal politico. As ciincias, as artes e as letras 
devem dar contribuiqiio insubstituivel nessa 
direqiio, sob a lideranqa carismiitica de uma 
espCcie de filosofo-rei de origem plat6nica. 
Trata-se de um guia carismatico e clarividen- 
te, que sabe mobilizar e conjugar os esforqos 
de todos, para que cada qual queira o bem 
comum e fuja do mal, identificado com os 
interesses privados. 
Para tanto, o homem so deve obedecer 
i consciCncia publica que t o Estado, fora 
do qual ha apenas conscizncias privadas 
ou individuais, que devem ser condenadas 
porque s5o nocivas. 
Encarnada no Estado e pel0 Estado, 
a vontade geral C tudo. E o primado da 
politica sobre a moral, ou melhor, e a fun- 
damentaqiio da moral na politica. A defesa 
do bem comum chega a tal ponto que leva 
ao esvaziamento do individuo, de sua indi- 
vidualidade, bem como B sua absorq5o pel0 
corpn social, sem deixar restos. a 
0 principio-guia da obra-prima de Rousseau, o Emilio, consiste na liberdade 
bem guiada pela raza"o, em nao abandonar o homem a voz dos instintos, mas em 
educa-lo a voz superior da razao. 0 process0 educativo. que deve 
serpermanente, deve variar conforme os estagios e preparar para 0 Emilio: 
a vida social. subtraindo o educando as atitudes nefastas, egoistas 
e conflitivas que e precis0 lentamente eliminar no quadro do novo pe,a rarso 
contrato social. E isso comporta a educaqao de todo o homem. , 7-6 
sentimentos e razao. a vontade geral e ao bem comum que sera0 
as colunas da nova estrutura social. 
~apitulo dkcimo terceiro - .=Jean-3aques R o u s s e a u : o iluminista "herCtico" 
287 
S\ e d ~ c a q h o 
8 4 
conforme a voz d a razz0 
Educar para as exigincias do novo 
pacto social C empresa irdua, que exige 
coragem e forqa. Com efeito, n5o se trata 
de abandonar o homem A voz dos instintos, 
mas de educi-lo para subjuga-10s h voz su- 
perior da raz5o. 
Trata-se de urna orientaqiio que, an- 
tes do Emilio, a obra-prima pedag6gica 
de Rousseau, ja,podia ser encontrada na 
Nova Heloisa. E significativo o episodio 
amoroso de Julie e Saint Preux. Sua paix5o 
sem freios e sem vinculos representa o "es- 
tad0 natural". Mas logo a sociedade imp6e 
limites: com efeito, embora continuando a 
amar Saint Preux, Julie C obrigada a casar 
com certo Wolmar. A sociedade o exige e 
o imp6e. 
Pois bem, apesar dessas contradiqoes 
psicol6gicas, quando, no dia do casamento, 
Julie pee-se a refletir sobre o significado da 
liturgia, por sugestiio do oficiante, tendo 
por moldura seus parentes e amigos como- 
vidos, sente em seu interior urna re'volution 
subite, urna espCcie de conversiio que a leva 
a mudar seus sentimentos e a submet&los h 
logica mais ampla da raz5o social. 0 grande 
movimento das paix8es se abranda, o caos 
dos instintos se dissipa e tudo se coloca em 
seu lugar. 
Niio 6 A 16gica do mundo prC-racional 
que se deve obedecer, mas A logica da har- 
monia racional, h qual tudo deve lentamente 
se submeter, em urna espCcie de renovado 
equilibrio de todos os homens e de todo o 
homem. Niio o desequilibrio ou a fratura, 
mas sim a ordem e a hierarquia. Nesse 
context0 e nessa direqiio, Kant se remetera 
a Rousseau, definindo-o como o "Newton 
da moral". 
Um exemplo andogo temos no Emilio, 
que, apaixonado por Sofia, C obrigado por 
seu preceptor, que outra coisa n5o C sen50 
a forqa moral do seu eu superior, a empreen- 
der urna viagem, separando-se dela, a fim de 
dominar sua paixio: "N5o ha felicidade sem 
coragem, nem virtude sem luta: a palavra 
'virtude' deriva da palavra 'forqa', pois a 
forqa esta na base de toda virtude [. . .]. Vi- 
te crescer mais bom do que virtuoso - diz 
o preceptor -, mas quem C somente bom so 
se mantCm tal enquanto encontra prazer em 
st-lo, enquanto sua bondade n5o C aniqui- 
lada pela furia das paixoes [...I. Ate agora, 
tu tens sido livre na apartncia, desfrutando 
unicamente da liberdade precaria de escra- 
vo, ao qual nada foi ordenado. Mas agora 
j i t tempo de seres realmente livre, para que 
saibas ser senhor de ti mesmo e saibas co- 
mandar o teu coraq5o: s6 com essa condiqiio 
se comanda o coraqiio". 
.ad 0 c~rande principio 
J&i a 
d a liberdade bem g ~ i a d a 
Com efeito, o principio-chave do ro- 
mance pedagogic0 Emilio (uma das maiores 
obras-primas da literatura pedagogica de 
todos os tempos) n io t constituido pela 
liberdade caprichosa e desordenada, e sim 
por urna "liberdade bem orientada". Para 
tanto, "n5o se deve treinar urna crianqa 
quando n5o se sabe conduzi-la aonde se 
quer, somente atravCs das leis do possivel e 
do impossivel, cujas esferas, sendo-lhe igual- 
mente desconhecidas, podem ser ampliadas 
ou restringidas diante dela como melhor 
convier. Pode-se prendt-la, impeli-la ou det& 
la sem que ela se d2 conta, somente atravts 
da voz da necessidade. E pode-se torna-la 
mansa e d6cil somente atravCs da forqa das 
coisas, sem que nenhum vicio tenha condi- 
$50 de germinar em seu coraqiio, porque as 
paix8es nunca se acendem quando siio vis 
em seus efeitos."Essa strie de elementos e de artificios 
devem servir ao preceptor para tornar mais 
facil o desenvolvimento ordenado de todas 
as potencialidades humanas. 0 amor por si 
mesmo deve transformar-se em amor pela 
comunidade e tornar-se amor pelos outros. 
As paixoes, que "siio os instrumentos de 
nossa conservaqiio", devem se transformar 
em estratigias de defesa da comunidade. 
0 s instintos devem amadurecer, a ponto de 
oferecer densidade e consisthcia A razso, i 
qual cabe a conduqio da vida cornunitaria. 
Para tanto, o itinerario deve ser gradual e 
respeitar os estigios de desenvolvimento. 
Antes de mais nada, o preceptor niio 
deve considerar a crianqa como urn adulto 
em miniatura. 0 process0 educativo, que 
288 Quartu parte - 0 Jluminismo e reu desrnvolvimen+o 
deve nos acompanhar em todas as fases 
de nossa vida - educaqgo permanente -, 
deve variar segundo os estagios: "A natureza 
quer que as crianqas sejam crianqas antes de 
serem homens. A infibcia tem certos modos 
de ver, de pensar e de sentir inteiramente 
especiais, nada i mais tolo do que querer 
substitui-10s pelos nossos". 
Respeitando esse estagio, do nascimen- 
to aos doze anos de idade, i preciso enfatizar 
o exercicio inteligente dos sentidos. Seguin- 
do as sugestoes do contemporineo e amigo 
Condillac, Rousseau escreve: "As primeiras 
faculdades que se formam e se aperfeiqoam 
em nos s5o os sentidos, que, portanto, deve- 
riam ser cultivados em primeiro lugar, mas 
que, ao contrario, s5o esquecidos ou inteira- 
mente relegados. Exercitar os sentidos n5o 
quer dizer somente usa-los, mas aprender a 
julgar bem atravCs deles, ou seja, por assim 
dizer, aprender a sentir, porque n5o sabemos 
tocar, nem ver, nem ouvir sen50 no mod0 
pelo qual aprendemos". Dai a exigEncia de 
educar a crianqa a desenvolver livremente 
a necessidade de mover-se, de brincar e de 
tomar posse de seu proprio corpo. 
4 A educaG6o dos doze 
aos quinze anos 
Dos doze aos quinze anos i preciso 
desenvolver uma educa@o intelectual, 
orientando a atenq5o do jovem para as cien- 
cias, da fisica B geometria e a astronomia, 
mas atravis de um contato direto com as 
coisas, com o objetivo de faze-lo captar a 
regularidade e, portanto, a necessidade da 
natureza. Mais que aprender a ciencia, i 
preciso educar a crii-la, respeitando os rit- 
mos aos quais se devem adequar a vida sem 
deturpa-la. E o period0 no qual os instintos 
e as paixoes, confrontando-se com as leis 
da realidade, com a resistencia das coisas, 
com os limites que elas nos estabelecem e, 
ao mesmo tempo, com os pontos de apoio 
que elas nos oferecem, devem se dobrar 
progressivamente, transfigurando-se na 
mais ampla logica da racionalidade natural. 
A forqa das coisas, a dura necessidade da 
realidade, constituem o banco de provas 
da educaq50. 
$: A e d u c a G 5 0 dos quinze 
aos vinte e dois anos 
Dos quinze aos vinte e dois anos, a 
atenq5o deve se concentrar na dimens50 
moral, no amor ao proximo, na necessidade 
de compartilhar os sofrimentos do proximo 
e esforqar-se por alivia-los, no sentido da 
justiqa e, portanto, na dimens50 social e 
comunitiria da vida individual, pela qual 
comeqa o seu ingress0 efetivo no mundo dos 
deveres sociais. Como complemento desse 
itinerario, cuidar-se-a tambim da educaqao 
para o casamento, que n5o C o lugar da 
espontaneidade ou do amor passional e 
puramente emotivo, mas da transfiguragiio 
dessa carga passional naquela alegria espiri- 
tual que deriva da subordinaqgo da pr6pria 
vida aos deveres da coletividade. 
6 A educac&o corno carninho 
para a sociedade renovada 
0 itinerario pedagogico, que deve pre- 
parar para a vida social, subtrai o educando 
daqueles comportamentos nefastos, egoistas 
e conflitivos que 6 preciso eliminar lenta- 
mente no quadro do novo contrato social. 
Isso comporta a educaq5o do homem inteiro, 
sentimentos e raziio, para a vontade geral 
e para o bem comum que s5o os pilares da 
nova construqiio social. 
A educaq5o i o caminho para a socie- 
dade renovada, com todo o seu rigor e a sua 
expans50 social, bloqueando no berqo toda 
forma de egoismo, bem corno toda forma de 
ansiedade pel0 futuro, que apaga a alegria 
do presente. A certeza de uma sociedade 
harmhica, dominada pela vontade geral, 
evita os falsos sentimentos provocados por 
uma sociedade competitiva, e nos convoca 
a desfrutar o presente e toda situag50, livres 
dos temores e dos fantasmas da imaginagio 
de um futuro competitivo e conflitivo. 
A pedagogia de Rousseau se ilumina no 
quadro do Contrato social e, portanto, de 
uma vida politica renovada que, explicitan- 
do as condiq6es de pertenga e as garantias 
de desenvolvimento, encarna o verdadeiro 
preceptor do Emilio. 
Capitalo dLcimo terceiro - j e n n - 3 a c q u e s R o u s s e a u : o iluminista "herCtico" 
289 
A proposito da religiao, Rousseau procura chegar a urna atitude "verdadei- 
ramente natural", que coincide com a natureza humana, com a voz da consciencia 
filtrada pela razao social. As linhas fundamentais desta religiio natural, que exclui 
todo aspect0 sobrenatural (corno a divindade de Cristo, os milagres ou as profecias) 
porque considerado nocivo a vida social e ofensivo a Iogica, sao 
expostas no capitulo IV do Emilio, com o titulo "Profissao de fe AS linhas 
do vigario saboiano". fundamentais 
Rousseau distingue entre urna religiao do homem e urna da religiao 
religiiio do cidadso. No que se refere a religizo do homem, as do homem 
verdades a manter sao duas: a existhcia de Deus e a imortali- da religiao 
dade da alma; ao lado da religiao do homem, 6 precis0 depois $ii;-;dd"O 
estabelecer urna profissao de fe puramente civil, da qua1 cabe ao 
soberano fixar os artigos, n%o tanto como dogmas religiosos, e 
sim como sentimentos de sociabilidade, sem os quais e impossivel ser bons cida- 
daos e suditos fieis. NSo e a Igreja, mas o Estado que e, portanto, o linico orgao 
da salvac;ao individual e coletiva, porque lugar privilegiado do desenvolvimento 
integral das potencialidades humanas. 
Da mesma forma como pretendia recriar 
urna sociedade verdadeiramente natural, 
isto 6, em condig6es de recuperar as instin- 
cias originarias da natureza humana, mas 
submetida i s exigincias da raziio, tambim 
a prop6sito da religiiio Rousseau procura 
alcangar urna atitude "verdadeiramente 
natural", coincidente com a natureza hu- 
mana, com a voz da consciencia, filtrada 
pela raziio social. 
Se a preocupaq50 principal i a garantia 
da convivhcia no quadro da vontade geral 
e do bem comum, a religiio deve traduzir 
essas inst2ncias e fortalecs-las atravis de 
urna estreita relagiio com a vida politica. 
As linhas fundamentais dessa religiiio 
natural, que marginaliza como nocivo para a 
vida social e ofensivo i 16gica da raziio tudo 
o que i sobrenatural, como a divindade de 
Cristo, os milagres ou as profecias, estio ex- 
postas no capitulo IV do Emilio, sob o titulo 
"Profissiio de f i do vigirio saboiano". 
Rousseau distingue uma religiiio d o 
homem de urna relzgiiio do cidadiio. No que 
se refere $ religiiio do homem, sQo duas as 
verdades a reter: a existincia de Deus e a 
imortalidade da alma. A primeira 6 admitida 
porque representa a unica explicaggo para 
o movimento da matiria, para a ordem e a 
finalidade do universo. A segunda deriva 
da impossibilidade de que o mau triunfe 
sobre o bom. 141 
O cristianismo 
como religiZio 
qMe separa o homem 
do cidadZio 
E quanto ao cristianismo? Corn o dogma 
do pecado original e da salvagio sobrenatu- 
ral, a doutrina cristii foi urna das causas da 
corrupqio da vida social. Trazendo para o 
imbito do espirito os valores e os vinculos 
mais profundos entre os homens, enquanto 
filhos de Deus e, portanto, irmiios, o cristia- 
nismo conquistou o conceit0 de comunidade 
universal, mas somente em nivel espiritual. 
Forgando e impelindo no intimo as forgas 
dos homens, deixou indefesa a comunidade 
no plano das relagoes sociais e terrenas. 
Sendo ultramundana, tal religiiio gerou uma 
sociedade universalque, sendo somente 
espiritual, abriu as portas a toda forma de 
tirania e egoismo. 
No cristianismo trata-se de urna in- 
terioridade da separada da exterioridade: 
290 Qua, pa& - O Jluminismo e seu de+envolvimen+o 
a primeira C lugar de unidade; a segunda, 
sendo solta e distanciada da primeira, C lugar 
de prepotencia e de toda forma de egoismo. 
A medida que separa a teologia da poli- 
tics, o homem do cidadiio, o espago privado 
e interior do espago publico, o cristianismo 
deve ser combatido, porque niio contribui 
para o aperfeigoamento da vida politica. 
Esta, ao contrario, exige uma religiiio que 
fortalega sua sacralidade e garanta sua es- 
tabilidade. 
Por conseguinte, ao lado da religiiio 
do homem, essencializada na existfncia de 
Deus e na imortalidade da alma, C preciso 
p6r "uma profissiio de fC puramente civil, 
cujos artigos cabe ao soberano fixar, niio 
mais precisamente como dogmas de religiiio, 
mas como sentimentos de sociabilidade, 
sem os quais C impossivel ser bom cidadiio 
e sudito fiel". Esses artigos siio os mesmos 
da religiiio do homem ou religiiio natural, 
acrescidos da "santidade do contrato social 
e das leis" e tambCm de um dogma negativo, 
a intolerhcia. Esse dogma implica que "C 
preciso tolerar todas aquelas religides que, 
por seu turno, toleram as outras, desde que 
seus dogmas niio contenham nada de con- 
tr6rio aos deveres do cidadiio. Mas quem 
quer que ouse dizer que fora da Igreja n5o 
ha salvagiio deve ser expulso do Estado". 
Com efeito, niio C a Igreja, e sim o Es- 
tad0 o unico orgiio de salvagiio individual 
e coletiva, por ser o lugar privilegiado do 
desenvolvimento integral das potencialida- 
des humanas. 
Como certo estudioso salientou, a 
"revolugiio" que Rousseau queria atuar 
termina por conduzir a concepgiio de um 
Estado Ctico que engloba todos os valores, 
e tal Estado arrisca ser verdadeiramente 
totalitiirio. 
Capitulo dkc imo terceiro - j e a ~ - 3 a r ~ u e s Rousseau: o i lumi~ista "hev&ticon 
291 
ROUSSEAU 
0 CAMINHO DO RETORNO A NATUREZA 
I Do ESTADO DE NATUREZA, 
I 
dimenslo ideal de uma humanidade 1 originariamente integra, biologicamente sadia e moralmente reta 1 
1 em primeiro lugar pela instituiqlo da 
p r o p r i e d a d e 1 
1 
chegamos 
ao "ESTADO CIVIL", 2 CULTURA, 
em que predomina 
o espirito competitivo e conflitivo, 
e as letras, as ciCncias e as artes 
s lo fruto dos vicios 
da arroghcia e da soberba. 
0 homem 
seguiu por isso uma curva 
I de decadcncia, tornando-se 
I sempre mais sujeito 
B maldade e B injustiqa: 
I "0 homem nasceu livre, e todavia 
em todo lugar se encontra em cadeias" 
I 
t 
0 caminho da salvaflo da humanidade 6 , portanto, 
o caminho da RENATURALIZACAO do homem 
1 mediante um redelmeamento global da vida social. 
I Isso pode se dar unicamente por um novo 
I 
I CONTRATO SOCIAL, 
1 pacto de unilo instituido entre iguais que permanecem sempre tais: 
ele d6 lugar a um corpo moral e coletivo (o Estado) I 
I regulado pela 
I 
VONTADE GERAL ~ amante do bem comum: 
1 a realzdade que brota da renuncra 
de cada u m dos componentes da sociedade I aos prdprios interesses particdares e m favor da coletiuidade. 
I 
I Este C o verdadeiro principio que legitima o poder 
I 
I e garante a transformaflo social: 
1 a vontade geral, encarnada no e pel0 Estado, C tudo. 
Quarta parte - O Jluminismo e seu desewolv imento 
nascarn dos vicios 
dos homsns 
0 pn'rneiro ataque decisivo dssferido por 
Rousseau contra a modernidads rernonta oo 
Discurso sobre as ci&ncias e as artes, escrito 
entre outubro de 1 749 e rnorgo de 1 750, por 
ocosido de urn concurso orgonizado pslo 
Rcadernia de Dijon. 
R tsss de fundo sustsntada por Rous- 
ssau C que o progrssso das ci&ncios s das 
artes "nodo ocrescenta 2, verdadeiro felici- 
dade do hornem, mas, antss, corrompe ssus 
costumes". De to1 modo ele submetio 2, critico 
ssvera a id& Cora aos enciclopedistos, 
ssgundo a qua1 entre o progress0 do sober 
cientifico e o melhoria das concligaes sociais, 
politicas e morais da humanidade subsistiria 
uma correspond&ncia substancial. 
Era tradi@o antiga, passada do Egito para 
a GrQcia, qua um Deus inirnigo do repouso dos 
homens fosse o inventor das ci&ncias. Qual 
opinido, portanto, dela deviam ter os proprios 
egipcios, junto aos quais elas haviam nascido? 
0 fato Q que elss viam de perto as fontes que 
as tinham produzido. De fato, tanto se revirar- 
mos os anais do rnundo, corno sa suprirrnos com 
pesqulsas filosoficas as crbnicas incertas, ndo 
encontraremos paro as ci&ncias humanas uma 
origem que responda ?I idQia que delas gosta- 
mos de ter. A astronomia nasceu do supersti@o; 
a eloqu&nc~a, da ambi@o, do odio, da adula- 
@o, da rnentira; a gsometria, da ovaraza; a 
fisica, de uma vd curiosidads; todas, e a propria 
moral, do orgulho hurnano. As ci&ncias e as artes 
devem portanto seu nascirnento a nossos vicios: 
duvdariamos msnos de suas vantagens caso o 
d~v6sssrnos ds nossas virtudes. 
Seu vicio de origern est6 ainda muito 
reproduzido em ssus objetos. Que faremos 
das artes, sem o luxo que as aliments? Sem 
a injustip dos homens, para o que serviria a 
jurisprud&ncia? 0 qua se tornam a historia, se 
ndo houvesse tiranos, guerros, conspiradores? 
Quem desejaria, em uma palavra, passar a 
vida em estQreis contampla~bes, se coda um, 
nada mais consultando a n8o ser os dsveres 
do homem e as necessidades da naturaza, ndo 
tivesse tsrnpo sendo para a patrio, para os in- 
felizes 5 para os amigos? Somos n6s portanto 
feitos para rnorrer apegados a beira do po~o, 
pro, dentro do qua1 a verdade se retirou? Esto 
irnica reflex60 devsria frear desde os primeiros 
passos todo homem que procurasse seriarnente 
instruir-ss corn o sstudo da filosofia. 
Quantos psrigos, quantos falsos caminhos 
na pesquisa cientifica! for quantos erros, mil 
vezss mais perigosos do que uteis para a ver- 
dade, ndo 5 preciso passar para a ela chegar? 
0 dano Q visivel, porque o falso & suscetivel de 
uma infinidada de combina@es; mas a verdade 
tem apenas um so modo de ser. Quem est6 do 
outro lado, que a busque com toda a sinceri- 
dade? Mesmo com a rnelhor boa vontade, corn 
qua1 sinal estamos seguros de reconhec&-la? 
Nesta multiddo de sentimentos divsrsos, qua1 
ser6 nosso criteriurn para dela bem julgar? E, o 
que Q mais dificil, caso no fim a sncontrsmos, 
qusm de nos sabera dela fozer born uso? 
Se nossas ci&ncias s60 vds no objetivo 
a qus se propbem, sdo ainda mais perigosas 
pelos efsitos que produzern. Nascidas no ocio, 
por sua vsz o alimentam, s a parda irrepar6vel 
de tempo & o primeiro prejuizo que necessaria- 
msnte produzem para a sociedade. Tanto na 
politica como no moral, & um grande ma1 ndo 
fazer o bem; e todo cidad8o inljtil pode ser 
considerado um hornem prsjudicial. 
Respondei-me, portanto, Filosofos ilustres, 
vos que sabeis por qua1 razdo os corpos se 
precipitam no v6cuo: quais s80, nas revolu~bes 
dos planetas, as relag3es das 6reas percorridas 
em tempos iguais, quais curvas t&rn pontos 
conjugodos, pontos de desvio e da reflexdo; 
como o homern v& tudo em Deus; como a alma 
e o corpo ss correspondem sem comunica~do, 
como o fariarn dois relogios; quais astros podem 
ser habitados; quais insetos se produzem de 
modos extraordrn6rios. Respondei-me, digo, 
vos, de quem recsbemos tantos conhecimentos 
sublimes: se tombern vos ndo tiv6sseis apren- 
dido nada dessas coisas, seriamos por isso 
menos numerosos, menos bem governados, 
menos temiveis, menos florescentes ou menos 
perversos? Meditai novamknte, portanto, a 
respe~to da importcncia de vossas obras; e se 
os trabalhos dos mais ilurninados cientistas e 
da nossos melhores cidaddos nos oferecern 
t8o pouca utilidade, dizei-nos o que devemos 
pensar dessa rnult~ddo de escritores obscuros e 
literatos ociosos, que davoram em pura perda 
os recursos do Estado. [. . .] 
Se o culto das ci&ncios & prejudicial paro 
as qualidades guerreiras, ainda mais danifica 
as qualidades morais. Desde nossos primeiros 
Capitdo dkcimotevceiro - j e a n - j a q ~ e s Roussea~ : o i l~minista "herktico" 
anos uma educqdo insansata enfeita nosso 
espirito e corrompa nosso juizo. Vejo de toda 
porte institutos imensos, onde se educa corn 
grandes despesas a juventude para ensinar- 
Ihe todos as coisas, exceto seus deveres. 
Vossos filhos ignorardo sua propria lingua; 
mas Falardo outras que ndo estdo em uso ern 
nenhurn lugar; saberdo cornpor versos que rnol 
poderdo cornpreender; sem s a b r discernir o 
erro da verdade, possuirdo a arts de torn6-10s 
irreconheciveis aos outros com balos argurnen- 
tos; mas as palavras de magnanirnidade, de 
equidade, de ternperanca, de humanidads, de 
coragem, ndo saberdo o que sejarn; este doce 
nome de patria ndo tocar6 jarnais seu ouvido; 
e se ouvirem falar de Deus, ser6 ndo tanto 
para o reverenciar, mas para dele ter rnedo. 
Eu teria gostado mais, dizia urn sdbio, que meu 
aluno tivesse passado o tempo em urn jogo de 
bola; ao rnenos o corpo seria mais galhardo. 
Sei que 6 preciso ocupar os rapazes, e qua o 
ocio 6 para ales o perigo mais temivel. 0 que 
& preciso, portanto, que aprendam? Cis ai um 
grande problems! Que aprendam aquilo que 
devem fazer quando forem homens e ndo aquilo 
que devern esquecer. [. . .] 
Todavia, se o progresso das ciencias e 
das artes nada acrescentou b nossa verdadeira 
felicidade; se corrompeu nossos costumes, e 
se a corrup~do dos costumes corroeu a pureza 
do gosto, o que pensaremos entdo daquela 
multiddo de autores slernsntares, que remo- 
veram do templo das mums as dificuldades 
que Ihe vdavarn o acesso, dificuldadss que 
a natureza havia espalhado como prova das 
Forgx daqueles qua tentossem sober? 0 que 
pensaremos entdo daqueles compiladores de 
obras, qua indiscretamante arrornbaram a porto 
das ciencias e introduziram em seu santudrio 
um populacho indigno de a ele se aproxirnar, 
enquanto seria desej6vel que todos aqueles 
qus ndo podiam continuar mais longe na car- 
reira literdria tivessem sido rejeitados desde a 
entrada, e houvessem sido voltados para artes 
uteis r3 sociedade? Um homem que ser6 por 
toda a vida um mau versificador, um ge6metra 
de qualidade inferior, ter-se-ia tornado talvez 
urn grande fabricante de tecidos. Ndo houve 
necessidade de mestrss para aqueles que a 
natureza destinava a criar discipulos. 0 s Veruld- 
mio, os Descartes, os Newton, estes mestres do 
g&nero humano, eles mesmos ndo os tiveram; e 
quais guias os ter~am conduzido at6 onde seu 
grande g&nio os Ievou? 0 s mestres ordin6rios 
so teriam podido apequenar o intelecto deles, 
obr~gando-o b estreita capacidade do mesmo. 
for causa dos primeiros obst6culos aprenderam 
a fazer esforc;os e se axercitaram para superar 
o imenso @spa50 que percorreram. Sa devemos 
permitir a algu6m entregar-se ao estudo das 
ci&ncias e das artes, 6 t6o-somente bqueles que 
se sentirBo com a forea de caminhar por si sos 
sobre suas pagodas s de ultrapassa-10s: a esse 
pequeno nljmero pertenca elevar monumentor; 
d gloria do espirito humano. 
J.-J. Roussaau, 
Discurso s o h as ci&ncias a sobm as arks. 
a vontada garal 
e cr sobsranicr 
0 Contrato social ( 1 762) se abre corn 
a cdebre Frase: "0 homem nosceu livre, e 
ern todo lugor estd ocorrentodo". Embora 
n6o sabendo explicar porque acontega tal 
rnudanp, Rousseau se prop& individuor as 
caracterkticas constitutivas de urn0 socieda- 
de nova e perhito q u ~ posso devolver ao 
hornern suo liberdode originciria. 
E desso Forrna o FilosoFo de Genebra 
desenho umo sociedade na qual o triunfo 
nos deliberagdes pliblicas cab@ sempre a 
vontade geral, a qual C fruto do pacto de 
unido com o quo1 coda individuo alieno to- 
talmsnte os proprios direitos, cedendo-os 2, 
comunidade; o exercicio da vontade gsrol d a 
soberania, qus jomois pode ssr alienado. 
1. 0 pacto social 
Suponho que os homens tenham chegado 
ao ponto em que os obstdculos, que prejudi- 
cam sua conservacdo no estado de natureza, 
tornern corn sua resist&nc~a a diantelra sobre 
as foreas qus coda individuo possa empregar 
para manter-se em tal estodo. EnMo aquele 
estado origindrio ndo pode mais subsist~r; e o 
g&nero humano pereceria, caso ndo mudasse 
seu modo de ser. 
Ora, como os homsns ndo podem gerar 
novas foreas, mas apenas unir e dir~gir as 
exlstentes, eles ndo t$m mais outro meio de 
conservar-se, a ndo ser formando por agrega- 
$60 uma soma de foreas, que possa prevalecsr 
sobre a resistencia, coloc6-las em movimento 
para um so escopo, e faz&-las operar de acordo 
com ele. 
Esta soma de forcps so pode nascer do 
concurso de diversos homens, mas, sendo a 
for~a e a libsrdade de coda homem os prlmeiros 
I , 294 Quarta parte - 0 J lumi~ i~mo e seu desenvolvimento 
instrumentos de sua conservaRousseau salievzta o fato de que tudo 
& O M deve se tornar publrco. 
Aqui e reprodundo o frontispicto da ohra. 
295 :11 
Capitdo de'cimo terceiro - Jean- Jacques R o m s e a u : o iluminista "herktico" 
representado a ndo ser por si masmo; el@ pode 
transmitir o poder, mas ndo a vontade. 
Com efeito, se ndo & impossivel que 
uma vontads privada esteja de acordo sobre 
algum ponto com a vontade geral. & impossi- 
vel ao menos que este acordo seja dur6val e 
constante; porque a vontade individual tende 
por sua natureza ds prefer&ncias, e a vontade 
geral b igualdade. € mais impossivel ainda 
qua haja um garante de tal acordo quando at& 
seria necessario qua sempre axistisse; isso ndo 
seria resultado de arte, mas de puro acaso. 0 
soberano pode bem d im: "Quaro atualmente 
aquilo qua quar aquele determinado homem, 
ou pelo menos aquilo que ele diz querer", mas 
ale ndo pode dizer: "Rquilo que aquele homem 
ir6 querer amanhd, eu o quero ainda", pois 6 
absurd0 qua a vontade d& a si propria cadeias 
para o futuro, e ndo depends de nenhuma von- 
tade o consentimento com uma coisa contr6ria 
ao barn daquela que quer. Se, portanto, o povo 
prometer simplesmente obedecer, neste ato ele 
se dissolve, perde sua qualidads de povo; a 
partir do momanto que h6 um patrdo, ndo h6 
mais um soberano, e dai por diante o corpo 
politico est6 destruido. 
lsso ndo quer dizer qua as ordens dos 
chefes n60 possam passar como vontade geral, 
at& que o soberano, embora livre de se opor, se 
abstenha disso. Em tal caso, do sil&ncio univer- 
sal se deve presumir o consenso do povo. Mas 
isto ser6 explicado mais amplamente. 
b. A sobarania 6 indiiisival 
Pela propria razdo de que a soberania 6 
inalien6vel, ela Q indivisivel; porque ou a von- 
tade & gerall ou ndo 6; ela ou 6 a do corpo po- 
pular ou apenas ds uma parte. No primeiro caso 
esta vontade declarada & um ato de soberania 
e produz lei; no segundo B tdo-somente uma 
vontade particular ou urn ato de magistratura; 
quando muito, um decreto. 
Nossos politicos, porbm, ndo podendo 
dividir a soberania em seu principio, dividern-no 
em seu objeto: eles a divrdem em for

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