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FILOSOFIA AULA 2 Prof. Paulo Niccoli Ramirez 2 CONVERSA INICIAL Paradigmas científicos O objetivo da aula é compreender o processo de surgimento e transformação da ciência na cultura ocidental, desde seus primórdios com o pensamento aristotélico na Grécia Antiga e passando pela sua influência na ciência medieval, a denominada Escolástica, até as rupturas com o pensamento medieval com a ascensão da Ciência Moderna, de modo que se procura refletir sobre quais os impactos causados por novos métodos científicos criados nos séculos XVI e XVII, entre eles a matematização do Universo produzida por Copérnico e Descartes, e a experimentação científica, elaborada por Galileu Galilei e Newton. Por último, investigaremos o cientificismo positivista do século XIX e teorias sobre as dinâmicas das ciências desenvolvidas durante o século XX por pensadores como Popper, Kuhn e Feyerabend, preocupados com questões em torno das condições que tornam possível uma teoria se tornar mais hegemônica que outras ou mesmo o que permite a superação de teses que passam a ser consideradas obsoletas no interior dos debates científicos. TEMA 1 – ARISTÓTELES E A ORIGEM DA CIÊNCIA Veremos no primeiro tema a importância de Aristóteles (384-322 a.C.), pois este é considerado o primeiro entre os cientistas na cultura ocidental. Isto se deve ao fato de que o pensador grego foi o primeiro a elaborar um método científico, o chamado silogismo, que possuía como pano de fundo a crítica ao seu mestre Platão. Aristóteles deixará profundas marcas na história da ciência, até ser questionado pelos cientistas modernos, a partir dos séculos XVI e XVII, conforme veremos nos próximos temas da aula. 1.1 Materialismo aristotélico versus Idealismo platônico Aristóteles é de origem macedônica, império localizado ao norte das cidades gregas durante a Antiguidade. Foi discípulo de Platão, porém veio a se tornar o seu maior crítico. Aos 17 anos, após a morte do pai, foi estudar em Atenas, onde ingressou na Academia de Platão. Durantes duas décadas permaneceu na condição de aluno e depois se tornou professor da Academia. Desentendimentos teóricos com seu mestre, Platão, levaram Aristóteles de 3 regresso à Macedônia e tornou-se tutor de Alexandre Magno. Quando Alexandre se tornou imperador da Macedônia e invadiu a Grécia, dando origem ao período denominado como “Helênico”, Aristóteles fundou a sua própria escola em Atenas, num local chamado Liceu, por volta de 334 a.C. A escola de Aristóteles rivalizava com a Academia de Platão. A crítica de Aristóteles ao seu mestre Platão deveu-se ao fato de considerar as teorias platônicas demasiadas abstratas à medida que promovia a separação entre os Mundos Inteligível e Sensível, a cisão entre corpo e alma, além de buscar a verdade apenas no mundo das ideias. Em oposição a estas posturas platônicas, Aristóteles acreditava que a filosofia se devia basear naquilo que nos é dado a conhecer por meio observação, de modo que o conhecimento verdadeiro não estaria presente no mundo das ideias, como queria Platão, senão na própria natureza e nos seus fenômenos. Por este motivo, isto é, buscar verdades na própria natureza, o projeto aristotélico consistia numa investigação sistemática e rigorosa dos fenômenos dispostos na realidade concreta, portanto, promoveu uma abordagem científica. Foi dessa forma que Aristóteles deu origem à biologia e fortaleceu em sua época outras ciências, como a astronomia, meteorologia, geologia, física, ética, linguagem e política. Platão é considerado um filósofo idealista ou espiritualista por julgar que as verdades se encontram no Mundo Inteligível. Aristóteles, por sua vez, é considerado filósofo e cientista materialista, pois julga que as verdades estão presentes na própria natureza, ou seja, no mundo material, negando inclusive as dualidades platônicas, como a oposição entre o inteligível e o sensível, alma e corpo, matéria e forma. Para Aristóteles, os sentidos e corpo contribuem ao lado da razão para a compreensão e observação da natureza, de modo que devem estar em equilíbrio. 4 Créditos: rook76/Adobe Stock. O pintor Renascentista Rafael (1483-1520) foi capaz de traduzir a oposição entre o materialismo aristotélico e o idealismo platônico por meio da obra A Escola de Atenas (1510), presente no Museu do Vaticano. A obra revela a concepção idealista de Platão quando aponta um dos dedos para os céus, metaforizando a noção de que as verdades se encontram no Mundo das Ideias e apenas podem ser alcançadas com o uso da razão, jamais com os sentidos ou o corpo. Já Aristóteles apresenta sua mão indicada para baixo, revelando postura materialista ao considerar que as verdades são encontradas na natureza e devem ser observadas com a razão e os sentidos. 5 1.2 O silogismo aristotélico Aristóteles, na obra Organon (2010), que poderia ser traduzido como instrumento ou ferramenta escrita no século III a.C., elabora princípios da lógica e, por isso, é considerado pioneiro na ciência, pois pertence a ele o primeiro método científico que se tem conhecimento, o silogismo. Aristóteles, em certa medida, se opôs aos procedimentos dialéticos de Platão (método de perguntas e respostas, cujas conclusões eram um tanto subjetivas e idealistas). O pensamento aristotélico se propôs a promover procedimentos de investigação científica por meio de observações qualitativas, comuns e cotidianas, a partir da correlação entre sensibilidade e racionalidade, para capturar a verdade na natureza. Por ser qualitativo, o método Aristotélico era apenas observacional, sem contar com experimentos ou procedimentos matemáticos. Segundo Marilena Chaui (1994, p. 200), “o silogismo é um conjunto de três juízos ou proposições que permite obter uma conclusão verdadeira. Trata- se de um método dedutivo no qual, de duas premissas, deduz-se uma conclusão”. Antes de analisarmos o que é exatamente um método dedutivo e proposições, é importante observar os dois exemplos a seguir para um melhor entendimento a respeito desse primeiro método científico: Na sua forma padronizada, o silogismo é constituído por três proposições (expressões verbais que resultam em afirmações). As duas primeiras são chamadas de premissas e a terceira conclusão. O silogismo é considerado uma forma de raciocínio dedutiva. Mas o que é dedução e o que a diferencia da indução? Aristóteles preocupou-se com esta distinção na obra Organon (2010). Toda dedução inicia seu raciocínio a partir de elementos mais gerais, amplos ou universais em direção aos elementos particulares, até que se alcance alguma conclusão muito específica. Vê-se que o silogismo é uma dedução porque sua primeira e segunda proposições são mais amplas e genéricas do que a conclusão. A dedução pode partir de uma hipótese abstrata ou de caráter geral para relacioná-los com situações e argumentos factíveis e particulares. Toda 6 dedução é um encadeamento de raciocínios em que o conhecimento sobre algo é dado a posteriori. A indução, por sua vez, promove procedimentos inversos ao da dedução. Parte da observação de elementos particulares, com o objetivo de atingir uma conclusão sobre um ponto de vista ou ideia geral, de acesso a todos. Tem-se um conhecimento dado a priori, por exemplo, percebemos que “João morreu” ou “tenho fome” ou “é dia”. 1.3 As ciências e o pensamento aristotélico Aristóteles desenvolveu inúmeros estudos para a compreensão da physis (natureza), promoveu estudos cosmológicos, físicos, geológicos e biológicos, entre outros. Entre suas principais ideias está a noção da geração espontânea, que concebia a origem espontânea dos seres vivos a partir da natureza. Aristóteles também julgava ser a Terra o centro do universo (este último finito), sendo que os demais corpos celestes (Lua,Sol e o firmamento) girariam em torno da Terra devido a um Deus materialista, designado como Primeiro Motor ou Moto Imóvel. Suponha que apenas a Terra seria constituída dos elementos água, terra, fogo e ar e os corpos celestes seriam constituídos por éter, havendo rigorosa distinção entre o céu e a Terra. Concebia que os objetos físicos e as posições sociais (como senhores e escravos) eram determinados pela natureza. Além de empregar o silogismo (método apenas observacional, e não matemático ou experimental), Aristóteles trabalhava com quatros aspectos fundamentados em quatro causas, a saber: causa material (do que a coisa é feita? Por exemplo, a casa é de tijolos); causa eficiente (o que fez a coisa? A construção); causa formal (o que lhe dá a forma? A própria casa); e causa final (o que lhe deu a forma?). TEMA 2 – A ESCOLÁSTICA E A CIÊNCIA MEDIEVAL Investigaremos no Tema 2 a ciência medieval. Será possível observar as influências do pensamento aristotélico, que foi associado pela Igreja Católica às sagradas escrituras. A Escolástica expressa a ciência medieval cristã, ou seja, baseada na tentativa de conciliação entre um ideal de racionalidade, tradição grega do platonismo e aristotelismo, relacionados com a verdade revelada pela fé 7 cristã e os textos sagrados. Segundo Aranha, “Escolástica. Designa os filósofos e teólogos medievais que ministravam cursos nas escolas eclesiásticas e nas universidades entre os séculos IX e XV” (2009, p. 113). O principal pensador do período foi São Tomás de Aquino (1225-1274), responsável por aristotelizar o cristianismo. A Escolástica também possuía apreço por Ptolomeu (90-168 d.C.), pensador grego, astrônomo e geômetra que buscou geometrizar o movimento dos corpos celestes em torno da Terra, a partir da premissa geocêntrica (a Terra no centro do universo) desenvolvida por Aristóteles na Antiguidade. Além da tese geocêntrica, a Escolástica reafirmava outras concepções aristotélicas, entre elas a distinção da composição da Terra (água, terra, fogo e ar) e dos corpos celestes (Sol, Lua e demais estrelas) constituídos por éter. A Terra era tomada como imóvel, estática e o universo gira a sua volta, movida pelo Primeiro Motor do Universo, no caso, Deus. Apenas as sagradas escrituras eram vistas como instrumentos suficientes para se compreender a astronomia e o movimento dos corpos celestes, não sendo relacionada à física ou matemática. Dessa forma, os corpos celestes eram movimentados segundo a vontade divina, cabendo recorrer às sagradas escrituras, segundo Aristóteles e Ptolomeu, para fornecer qualquer justificativa a respeito. Empregava-se método silogístico (ou silogismo), de caráter qualitativo e não quantitativo (ou seja, não matematiza a natureza). Veremos no próximo tema que, a partir dos séculos XVI e XVII, com ascensão da ciência moderna, os paradigmas aristotélicos e escolásticos serão criticados pela nova ciência. TEMA 3 – A CIÊNCIA MODERNA A partir de agora vamos compreender as rupturas causadas pela Ciência Moderna em relação à tradição aristotélica e escolástica. Pensadores como Copérnico (1473-1543), Galileu (1564-1642), Francis Bacon (1561-1626), Descartes (1596 – 1650), Newton (1643-1727), entre outros produziram novas concepções científicas que deram origem a novos métodos e descobertas científicas. 8 3.1 A Revolução Copernicana A obra astronômica de Nicolau Copérnico, As Revoluções dos orbes celestes (1984), pode ser considerada o marco inicial da ciência moderna. Publicada em 1543, pouco antes da morte de Copérnico, as ideias da referida obra demonstram o movimento da Terra em torno do Sol (tese heliocêntrica), apresentadas pelo pensador como meras hipóteses matemáticas. Afirmar esta descoberta como hipótese revelava o temor e cautela da exposição de novas ideias diante da Inquisição da Igreja, que encontrava no modelo científico aristotélico-ptolomaico o sistema de interpretação do universo condizente com as sagradas escrituras. Copérnico, portanto, põe em xeque o sistema cosmológico tradicional, dando origem a novos fundamentos científicos. Por ter publicado a obra na semana de sua morte, Copérnico nunca soube dos impactos de seu pensamento para a cultura ocidental. Com a Revolução Copernicana, ocorre a dessacralização da Terra e, principalmente, do céu, pois este passa a ser objeto de estudo passível de matematização. Copérnico foi o primeiro a combinar astronomia, matemática e física e tornou possível a compreensão do movimento da Terra em torno Sol. A obra de Copérnico representa uma profunda transformação científica, e será o ponto de partida, o alicerce primordial e difusor, principalmente no século XVII, do que veio a ser a chamada ciência moderna. Seu pensamento será o aporte teórico no desenvolvimento das teorias de Galileu, Kepler, Descartes, Pascal, Newton, entre tantos outros. Na nova ciência, não há lugar para explicações que recorram à causalidade divina, mas, pelo contrário, a ciência é secularizada, laicizada, o que significa abandonar a dimensão religiosa que permeava todo o conhecimento medieval. Resulta disso um problema moral e ético, pois a humanidade observa que é uma pequena parte da criação divina, e mais do que isto, as sagradas escrituras da Bíblia, fundamentadas no pensamento aristotélico com a Escolástica, não bastam mais como forma legítima de compreensão da ordem do mundo. De um lado, surge a concepção de que Deus está muito mais distante dos indivíduos do que se pensava; do outro, a humanidade fortalece-se enquanto ator do conhecimento e, por isto, exime-se como mero objeto da criação. Em homenagem a Copérnico, até hoje são nomeadas com o termo “Revolução Copernicana” todas as grandes descobertas científicas relevantes, 9 ainda que não tenham relação com o movimento da Terra em torno do Sol. Assim, por exemplo, quando Darwin (1809-1882) publicou sua Origem das Espécies, em 1859, sua tese foi afirmada pela comunidade científica como uma “Revolução Copernicana”. Freud (1956-1939), quando publicou o livro A interpretação dos sonhos, em 1900, e deu ênfase ao papel do inconsciente sobre a vida mental, sua obra também foi classificada como uma “Revolução Copernicana”. O mesmo correu com Einstein quando elaborou, em 1905, sua teoria da relatividade ou recentemente com o experimento do acelerador de partículas que identificou a chamada “partícula Deus”. 3.2 Galileu Galilei e a ciência experimental Galileu Galilei ao tomar conhecimento dos estudos de Copérnico, "converteu-se" por volta de 1610 ao pensamento de seu antecessor. A partir da leitura de Copérnico, Galileu produziu duas importantes obras, Acerca da opinião copernicana, publicada em 1615, e Diálogo sobre os dois sistemas de mundo ptolomaico e copernicano, publicada em 1632, levando Galileu a abandonar definitivamente o modelo aristotélico-ptolomaico. Auxiliado com a utilização da recente descoberta do telescópio, Galileu aperfeiçoa-o, e irá progressivamente desenvolver sua mecânica, tendo como aporte teórico a já condenada obra de Copérnico, censurada pela Inquisição. Galileu também é considerado o pai da ciência experimental. Trata-se da noção de que para alcançar as leis naturais e encontrar as verdades presentes na natureza seria necessário manipular artificialmente os fenômenos naturais, o que consolidou a partir de então pesquisas feitas em “laboratórios” ou ao menos a possibilidade de realizar experimentos científicos. A utilização de telescópios por Galileu permitiu-o descobrir as quatro luas de Júpiter em 1610, onde viu que giram em torno deste planeta. Galileu observa que o mesmo se daria com o movimento da Lua em relação à Terra. Pode-se dizer que Galileu "radicaliza" os argumentos de Copérnico, tornando-os mais realistas, pois abandona a questão de os raciocínios matemáticos, sobre o movimentoda Terra, apresentarem-se apenas como meras hipóteses, portanto, não condizentes com a realidade. Na verdade, afirma ser "loucura" negar um procedimento matemático como irreal. Galileu impôs uma universalidade da razão natural (entendida como sentidos, discurso e intelecto), em que é o sujeito que determina o objeto de análise, combinando observação, 10 observação e matematização. É importante que nem Copérnico ou Galileu utilizavam fórmulas matemáticas, o que veio a ser desenvolvido apenas no século XVII com o pensador francês Descartes, conforme veremos no próximo item. Galileu promove uma grande ruptura entre ciência e teologia, a qual representa um marco da modernidade. Põe-se em questão a compatibilidade entre o pensamento desenvolvido a parir da "revolução copernicana" e as "sagradas escrituras". Galileu sofreu dois processos de Inquisição, sendo perdoado no primeiro. Com o segundo processo, esteve em prisão domiciliar até sua morte. 3.3 A matematização do mundo e a ciência de Newton O filósofo francês Descartes será o responsável por conduzir a matemática a um patamar mais elevado para a Ciência Moderna. Foi o responsável por desenvolver equações, polinômios e introduzir as incógnitas matemáticas. A partir de sua ciência foi possível traduzir a natureza por meio de equações. Duas de suas obras representam a inauguração da matemática moderna: Regras para a orientação do espírito (2012), inacabada e publicada postumamente em 1684, e Discurso do método (1996), publicada em 1637. O método de Descartes foi proceder de forma matemática, ou seja, de modo quantitativo. É o que define como Mathesis Universalis (matemática universal). Trata-se do projeto de matematização do mundo. Verifica-se que o método cartesiano tem como fontes a geometria e a aritmética. Dessa forma, utilizando o método rigoroso do raciocínio matemático, ele esperava construir, sobre bases firmes e sólidas, um edifício filosófico que ficasse imune às controvérsias presentes no método silogístico de Aristóteles, fundamentado em apenas observações qualitativas. O método cartesiano matemático está fundamentado em quatro princípios: 1. Verificar – investigar e problematizar se o objeto a ser estudado realmente pode ou não ser conhecido, por exemplo, um fenômeno natural, e não especulações abstratas; 11 2. Analisar – dividir o objeto a ser conhecido em quantas partes forem necessárias (por este motivo, dividimos uma equação em incógnitas, parênteses, chaves e colchetes); 3. Sintetizar – solucionar os problemas iniciando das partes mais simples às mais complexas; e 4. Enumerar (controle) - trata-se da elaboração de rigorosas revisões, a fim de observar se o valor das incógnitas é compatível com a equação. Descartes foi o primeiro pensador a empregar os termos máquinas ou autômatos em textos filosóficos e científicos. Concebia que as máquinas seriam o resultado da tradução operada pela matemática dos fenômenos da natureza. Além disso, Descartes pressupunha que com seu método a humanidade passaria a ter o poder de dominar a natureza por meio de suas ações. Não está mais sob o jugo da natureza, mas, ao contrário, encontra-se na condição de seu senhor. De escravo da natureza, com o pensamento cartesiano a humanidade passa, agora, a ser seu mestre e possuidor. Descartes afirma que a ciência e as máquinas poderiam trazer bem-estar e conforto. Na Inglaterra do século XVI, Francis Bacon foi o responsável por introduzir o método experimental e criará corrente filosófica denominado empirismo, ou seja, noção de que todos os conhecimentos são obtidos por meio de experiências sensoriais e científicas, tema este que será estudado no próximo capítulo. Bacon escreveu duas importantes obras. A primeira delas, o Novum Organum, publicada em 1620, em que critica o silogismo aristotélico e propõe como método de pesquisa a observação empírica da natureza; o processamento racional dos dados obtidos; a elaboração de hipóteses fundadas nesses dados; e a verificação das hipóteses mediante experimento replicável. Outro livro importante foi Nova Atlântida, publicado em 1627, em que afirma que saber é poder e defende que as tecnologias poderiam conduzir ao domínio humano sobre a natureza. Estas perspectivas influenciaram a física de Newton, o qual desenvolveu a descoberta de leis naturais baseadas nos princípios de ação e reação, além do aprimoramento da matemática para o estudo do universo. Newton, na sua obra Princípia, publicada no ano de 1687, afirmava ter se apoiado nas costas de gigantes, ou seja, de seus antecessores que constituíram a Ciência Moderna. Newton foi condecorado pela coroa inglesa e foi o primeiro grande cientista a ser admirado e protegido contra a perseguição religiosa. Em sua lápide presente na 12 Abadia de Westminster, em Londres, consta a seguinte frase em latim: “A natureza e as leis da natureza estavam imersas em trevas; Deus disse ‘Haja Newton’ e tudo se iluminou”. A ciência moderna foi determinante para a consolidação futura da Revolução Industrial a partir do século XVIII e também influenciou o movimento Iluminista na França. TEMA 4 – O POSITIVISMO DE COMTE No século XIX o positivismo de Comte constitui-se como grande síntese dos métodos e avanços científicos e industriais europeus. Vamos estudar no que consiste esta doutrina e quais as polêmicas causadas por ela, sobretudo por ter sido considerada uma teoria designada como eurocêntrica. 4.1 A ciência, segundo Comte Augusto Comte (1798-1857) é fundador do “positivismo” e inventor do termo “sociologia”. Afirma a necessidade de uma nova ciência que fosse responsável por estudar a morfologia social, ou seja, o processo de transformação das sociedades. Duas de suas obras se destacam: Curso de filosofia positiva, publicada entre 1830-1842, e Catecismo positivista, que foi publicada em 1852. Entre as características do positivismo destacam-se a confiança na razão, ciência e industrialização; a tendência experimental de sua ciência; a defesa do evolucionismo social e do progresso da humanidade; além da rejeição do pensamento mítico. Comte foi influenciado pela filosofia de Descartes (a ideia de que a razão e a ciência dominam a natureza e produzem bem-estar) e pela ciência experimental. Nessa direção, as revoluções científica e Francesa contribuíram para que a humanidade alcançasse o mais elevado patamar de desenvolvimento da humanidade. Comte relaciona estes eventos à ideia de ordem e progresso. Segundo Aranha (2009, p. 32), ao criticar o mito e exaltar a ciência, contraditoriamente o positivismo fez nascer o mito do cientificismo, ou seja, a crença cega na ciência como única forma de saber possível. Desse modo, o positivismo mostra-se reducionista, já que, bem sabemos, a ciência não é a única interpretação válida do real. 13 As concepções de Comte estão baseadas na observação e exatidão, de modo que abandona as teorias e especulações da teologia e metafísica, ou filosofias de teor mais abstrato. As ciências que são positivistas são a matemática, biologia, astronomia, física, química e a recém-criada sociologia, que se baseia em dados estatísticos. Os positivistas afirmam que a ciência é cumulativa (progresso) e transcultural (não interessa em qual cultura surgiu, serve para toda a humanidade). O positivismo influenciou as correntes que defendiam o darwinismo social no século XIX. A frase na bandeira brasileira é baseada no lema de Comte sobre o positivismo. Comte afirmava o amor como princípio e ordem como base; progresso como objetivo. 4.2 A lei dos três estados Para Comte, a humanidade passa por três estágios de evolução: estado teológico, estado metafísico e estado positivo, constituindo o que denominou com a lei dos três estados. No estado teológico ou fictício, a explicação dos fatos é resultado de leiturasreligiosas animistas da natureza, ou seja, as forças naturais são vistas como divinas. Trata-se do estágio de sociedades vistas pelos europeus como atrasadas e primitivas. Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e, em seguida, ao monoteísmo. No estado metafísico, a humanidade projeta sua própria psicologia e racionalidade sobre a natureza, dando origem a explicações teológicas e filosóficas e filosóficas mais abstratas, como as platônicas e medievais sobre a origem de Deus e do universo. O estado positivo descreve fatos com base em métodos científicos modernos, como a matematização e experimentação científica. Abandona-se as explicações subjetivas filosóficas. O estado positivo ou científico se baseia nas leis da natureza, que permitem obter previsibilidade sobre a natureza e seus fenômenos. Este terceiro estágio está relacionado ao processo de industrialização, fortalecimento da ciência moderna e dos modelos políticos republicanos. Para Comte, a lei dos três estados é tanto reflexo da história da humanidade quanto do desenvolvimento de cada indivíduo. A criança fornece explicações fictícias ao mundo; o jovem é metafísico e tem especulações mais 14 filosoficamente abstratas; o adulto possui uma concepção positivista e científica da realidade. Comte propôs uma nova religião à humanidade em seu Catecismo Positivista. A ideia era substituir os santos e os templos religiosos cristãos por filósofos, cientistas e templos da racionalidade. O positivismo foi empregado como álibi pelos europeus durante o século XIX e XX para exercer o Imperialismo e Neocolonialismo na Ásia, África e Américas do Sul e Central. A ideia era levar ordem e progresso às sociedades ditas primitivas, ou seja, que se encontravam no suposto estado teológico ou fictício. O positivismo é visto hoje como uma teoria eurocêntrica que flerta com o racismo. TEMA 5 – DINÂMICA DO DESENVOLVIMENTO DAS CIÊNCIAS O Tema 5 é dedicado ao estudo das dinâmicas do desenvolvimento da ciência. Trata-se de investigar diferentes abordagens a respeito do que exatamente condiciona uma teoria a se tornar hegemônica ou mesmo destronar teses científicas que passam a ser consideradas obsoletas. Quando tratamos de uma teoria sobre a ciência, utilizamos o termo epistemologia (do grego episteme, "ciência", e logos, "teoria"). Karl Popper (1902-1994), na obra A lógica da pesquisa científica, publicada em 1934, desenvolve premissas positivistas e evolucionistas, pois toma a ciência como sendo cumulativa, ou seja, progride ou se aprimora estado teológico ou fic�cio estado meta�sico estado posi�vo ou cien�fico A lei dos três estados 15 conduzindo a conhecimentos superiores em relação aos anteriores desenvolvidos. A ciência se situa a partir da imaginação e na crítica como principais aspectos da racionalidade humana. Segundo Popper, a ciência é uma atividade que se caracteriza pela ousadia imaginativa das suas hipóteses. Estas formulações estão fundamentadas em experiências científicas, que podem abolir, criticar e falsear doutrinas científicas vigentes. Popper parte do pressuposto de que não podemos atingir a verdade de uma teoria, ou seja não podemos abarcar todos os casos a que a ciência se propõe. Dessa forma, o filósofo estabelece como método mais correto para as ciências o método da refutação e o critério de falseabilidade. Este critério está relacionado à necessidade de submeter uma teoria à prova, buscando demonstrar ou provar sua falsidade ou refutá-la amparada com base em métodos científicos, a ponto de descartar sua validade. Este método de pesquisa científica consiste em formular hipóteses e, depois, por meio de rigorosos exames e avaliações experimentais, procurar refutá-las. Se determinadas teorias permitem ser testadas, criticadas e resistirem ao princípio da falseabilidade, então elas poderão ser consideradas teorias científicas aceitas. Thomas Kuhn (1914-1996), no livro A estrutura das Revoluções Científicas, publicado em 1962, apresentará uma abordagem diferente a respeito do desenvolvimento das ciências. Kuhn procurou demonstrar de que forma ocorrem as transições e rupturas do pensamento científico predominante. Avalia a existência de fases denominadas "normais" da ciência com o estabelecimento de paradigmas, que contribuem com os demais cientistas para a solução de problemas, promovendo o progresso por meio de acumulação de descobertas. Paradigma é um modelo ou padrão a seguir. Etimologicamente, a palavra vem do grego paradeigma (modelo ou padrão), de modo que corresponde a algo que servirá de exemplo ou modelo a ser seguido. No entanto, há “situações de crise”, que ocorrem quando os paradigmas já não são mais suficientes e não resolvem uma série de questões, dando origem à transição a novos modelos científicos que se contrapõem ao predominante. Foi o que ocorreu com a ciência de Aristóteles e a Escolásticas, que perderam sua hegemonia com ascensão da Ciência Moderna. Isso significa dizer que toda ciência passa por momentos de apogeu e crise, até se tornar obsoleta. Para Kuhn, a superação dos paradigmas poderá dificultar a continuidade de certos esforços científicos realizados para solucionar problemas quando 16 emerge um novo paradigma, estabelecendo crises nas ciências. Os paradigmas são superados quando há uma ruptura radical capaz de modificar de modo significativo as condições dominantes e hegemônicas. Cria-se dessa forma um novo paradigma que provoca disputas com a ciência, antes predominante. Feyerabend (1924-1994) foi um polêmico estudioso das ciências. No ano de 1975 publicou o livro Contra o método. É considerado um teórico anarquista porque observa a não existência de verdade absoluta nas ciências. Opõe-se a Popper, que afirma a ciência como racional e cumulativa, e igualmente critica Kuhn, que argumentou, conforme vimos, que uma teoria é dotada de paradigma. Abandonou o empirismo e as correntes positivistas. Feyerabend considera que as abordagens metodológicas não são instrumentos de descoberta definitivas e defende o pluralismo metodológico. Afirma que no ponto de vista metodológico tudo vale. Considera que uma teoria se torna dominante devido ao seu caráter mais persuasivo em relação a outras teorias, isto é, depende de que forma foi escrita, por quem e quais recursos retóricos e propagandísticos foram utilizados a fim de convencer a comunidade científica. NA PRÁTICA Diferentes campos da ciência como a medicina, a psicologia, a engenharia, a química e física promovem sucessivos avanços científicos e progressos tecnológicos. Temos como exemplo o avanço de diversos métodos voltados ao combate a doenças entre outras pestes e pandemias. São desenvolvidos computadores, máquinas, robôs ou mesmo remédios que permitem fornecer melhor qualidade de vida e saúde aos indivíduos. Faça uma pesquisa e debata com seus colegas e professores a respeito de algum avanço científico que tenha contribuído com a humanidade e tenha modificado a forma como vivemos ou entendemos o mundo. FINALIZANDO Estudamos com o primeiro tema o surgimento da ciência na cultura ocidental por meio do pensador grego da Antiguidade, Aristóteles. Observamos que seu método silogístico teve fundamento em observações apenas qualitativas. Porém influenciou a ciência medieval, denominada Escolástica, conforme vimos no segundo tema. Em seguida, avaliamos a Ciência Moderna e 17 a ruptura promovida por ela em relação à tradição escolástica-aristotélico com Copérnico, Galileu, Descartes, Bacon e Newton entre os séculos XVI e XVII. Estudamos também o positivismo de Comte desenvolvido durante o século XIX como reflexo otimista dos avanços da industrialização e da Ciência Moderna. Por fim, investigamos compreensões do desenvolvimento das ciências a partir das abordagens epistemológicas no século XX desenvolvidaspor Popper, Kuhn e Feyerabend. 18 REFERÊNCIAS ARANHA, M. L. de A. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna. 2009. ARISTÓTELES. Órganon: categorias, da interpretação, analíticos anteriores, analíticos posteriores, tópicos, refutações sofísticas. Bauru: Edipro, 2010. BACON, F. Nova Atlântida. São Paulo: Nova Cultural, 1999a. (Col. Os Pensadores). BACON, F. Novum Organum ou Verdadeiras interpretações acerca da natureza. São Paulo: Nova Cultural, 1999. COMTE, A. Catecismo positivista. Rio de Janeiro: Apostolado Positivista do Brasil, 1934. COMTE, A. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1983. COPÉRNICO, N. As revoluções dos orbes celestes. 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