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FILOSOFIA 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Paulo Niccoli Ramirez 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Paradigmas científicos 
 O objetivo da aula é compreender o processo de surgimento e 
transformação da ciência na cultura ocidental, desde seus primórdios com o 
pensamento aristotélico na Grécia Antiga e passando pela sua influência na 
ciência medieval, a denominada Escolástica, até as rupturas com o pensamento 
medieval com a ascensão da Ciência Moderna, de modo que se procura refletir 
sobre quais os impactos causados por novos métodos científicos criados nos 
séculos XVI e XVII, entre eles a matematização do Universo produzida por 
Copérnico e Descartes, e a experimentação científica, elaborada por Galileu 
Galilei e Newton. Por último, investigaremos o cientificismo positivista do século 
XIX e teorias sobre as dinâmicas das ciências desenvolvidas durante o século 
XX por pensadores como Popper, Kuhn e Feyerabend, preocupados com 
questões em torno das condições que tornam possível uma teoria se tornar mais 
hegemônica que outras ou mesmo o que permite a superação de teses que 
passam a ser consideradas obsoletas no interior dos debates científicos. 
TEMA 1 – ARISTÓTELES E A ORIGEM DA CIÊNCIA 
Veremos no primeiro tema a importância de Aristóteles (384-322 a.C.), 
pois este é considerado o primeiro entre os cientistas na cultura ocidental. Isto 
se deve ao fato de que o pensador grego foi o primeiro a elaborar um método 
científico, o chamado silogismo, que possuía como pano de fundo a crítica ao 
seu mestre Platão. Aristóteles deixará profundas marcas na história da ciência, 
até ser questionado pelos cientistas modernos, a partir dos séculos XVI e XVII, 
conforme veremos nos próximos temas da aula. 
1.1 Materialismo aristotélico versus Idealismo platônico 
Aristóteles é de origem macedônica, império localizado ao norte das 
cidades gregas durante a Antiguidade. Foi discípulo de Platão, porém veio a se 
tornar o seu maior crítico. Aos 17 anos, após a morte do pai, foi estudar em 
Atenas, onde ingressou na Academia de Platão. Durantes duas décadas 
permaneceu na condição de aluno e depois se tornou professor da Academia. 
Desentendimentos teóricos com seu mestre, Platão, levaram Aristóteles de 
 
 
3 
regresso à Macedônia e tornou-se tutor de Alexandre Magno. Quando Alexandre 
se tornou imperador da Macedônia e invadiu a Grécia, dando origem ao período 
denominado como “Helênico”, Aristóteles fundou a sua própria escola em 
Atenas, num local chamado Liceu, por volta de 334 a.C. A escola de Aristóteles 
rivalizava com a Academia de Platão. 
A crítica de Aristóteles ao seu mestre Platão deveu-se ao fato de 
considerar as teorias platônicas demasiadas abstratas à medida que promovia a 
separação entre os Mundos Inteligível e Sensível, a cisão entre corpo e alma, 
além de buscar a verdade apenas no mundo das ideias. Em oposição a estas 
posturas platônicas, Aristóteles acreditava que a filosofia se devia basear naquilo 
que nos é dado a conhecer por meio observação, de modo que o conhecimento 
verdadeiro não estaria presente no mundo das ideias, como queria Platão, senão 
na própria natureza e nos seus fenômenos. 
Por este motivo, isto é, buscar verdades na própria natureza, o projeto 
aristotélico consistia numa investigação sistemática e rigorosa dos fenômenos 
dispostos na realidade concreta, portanto, promoveu uma abordagem científica. 
Foi dessa forma que Aristóteles deu origem à biologia e fortaleceu em sua época 
outras ciências, como a astronomia, meteorologia, geologia, física, ética, 
linguagem e política. 
Platão é considerado um filósofo idealista ou espiritualista por julgar 
que as verdades se encontram no Mundo Inteligível. Aristóteles, por sua vez, 
é considerado filósofo e cientista materialista, pois julga que as verdades 
estão presentes na própria natureza, ou seja, no mundo material, negando 
inclusive as dualidades platônicas, como a oposição entre o inteligível e o 
sensível, alma e corpo, matéria e forma. Para Aristóteles, os sentidos e corpo 
contribuem ao lado da razão para a compreensão e observação da natureza, de 
modo que devem estar em equilíbrio. 
 
 
4 
 
Créditos: rook76/Adobe Stock. 
O pintor Renascentista Rafael (1483-1520) foi capaz de traduzir a 
oposição entre o materialismo aristotélico e o idealismo platônico por meio da 
obra A Escola de Atenas (1510), presente no Museu do Vaticano. A obra revela 
a concepção idealista de Platão quando aponta um dos dedos para os céus, 
metaforizando a noção de que as verdades se encontram no Mundo das Ideias 
e apenas podem ser alcançadas com o uso da razão, jamais com os sentidos ou 
o corpo. Já Aristóteles apresenta sua mão indicada para baixo, revelando 
postura materialista ao considerar que as verdades são encontradas na natureza 
e devem ser observadas com a razão e os sentidos. 
 
 
5 
1.2 O silogismo aristotélico 
Aristóteles, na obra Organon (2010), que poderia ser traduzido como 
instrumento ou ferramenta escrita no século III a.C., elabora princípios da lógica 
e, por isso, é considerado pioneiro na ciência, pois pertence a ele o primeiro 
método científico que se tem conhecimento, o silogismo. Aristóteles, em certa 
medida, se opôs aos procedimentos dialéticos de Platão (método de perguntas 
e respostas, cujas conclusões eram um tanto subjetivas e idealistas). O 
pensamento aristotélico se propôs a promover procedimentos de investigação 
científica por meio de observações qualitativas, comuns e cotidianas, a partir da 
correlação entre sensibilidade e racionalidade, para capturar a verdade na 
natureza. Por ser qualitativo, o método Aristotélico era apenas observacional, 
sem contar com experimentos ou procedimentos matemáticos. 
Segundo Marilena Chaui (1994, p. 200), “o silogismo é um conjunto de 
três juízos ou proposições que permite obter uma conclusão verdadeira. Trata-
se de um método dedutivo no qual, de duas premissas, deduz-se uma 
conclusão”. Antes de analisarmos o que é exatamente um método dedutivo e 
proposições, é importante observar os dois exemplos a seguir para um melhor 
entendimento a respeito desse primeiro método científico: 
 
Na sua forma padronizada, o silogismo é constituído por três proposições 
(expressões verbais que resultam em afirmações). As duas primeiras são 
chamadas de premissas e a terceira conclusão. O silogismo é considerado uma 
forma de raciocínio dedutiva. Mas o que é dedução e o que a diferencia da 
indução? Aristóteles preocupou-se com esta distinção na obra Organon (2010). 
Toda dedução inicia seu raciocínio a partir de elementos mais gerais, 
amplos ou universais em direção aos elementos particulares, até que se alcance 
alguma conclusão muito específica. Vê-se que o silogismo é uma dedução 
porque sua primeira e segunda proposições são mais amplas e genéricas do que 
a conclusão. A dedução pode partir de uma hipótese abstrata ou de caráter geral 
para relacioná-los com situações e argumentos factíveis e particulares. Toda 
 
 
6 
dedução é um encadeamento de raciocínios em que o conhecimento sobre algo 
é dado a posteriori. 
A indução, por sua vez, promove procedimentos inversos ao da dedução. 
Parte da observação de elementos particulares, com o objetivo de atingir uma 
conclusão sobre um ponto de vista ou ideia geral, de acesso a todos. Tem-se 
um conhecimento dado a priori, por exemplo, percebemos que “João morreu” ou 
“tenho fome” ou “é dia”. 
1.3 As ciências e o pensamento aristotélico 
 Aristóteles desenvolveu inúmeros estudos para a compreensão da physis 
(natureza), promoveu estudos cosmológicos, físicos, geológicos e biológicos, 
entre outros. Entre suas principais ideias está a noção da geração espontânea, 
que concebia a origem espontânea dos seres vivos a partir da natureza. 
Aristóteles também julgava ser a Terra o centro do universo (este último finito), 
sendo que os demais corpos celestes (Lua,Sol e o firmamento) girariam em 
torno da Terra devido a um Deus materialista, designado como Primeiro Motor 
ou Moto Imóvel. Suponha que apenas a Terra seria constituída dos elementos 
água, terra, fogo e ar e os corpos celestes seriam constituídos por éter, havendo 
rigorosa distinção entre o céu e a Terra. Concebia que os objetos físicos e as 
posições sociais (como senhores e escravos) eram determinados pela natureza. 
 Além de empregar o silogismo (método apenas observacional, e não 
matemático ou experimental), Aristóteles trabalhava com quatros aspectos 
fundamentados em quatro causas, a saber: causa material (do que a coisa é 
feita? Por exemplo, a casa é de tijolos); causa eficiente (o que fez a coisa? A 
construção); causa formal (o que lhe dá a forma? A própria casa); e causa final 
(o que lhe deu a forma?). 
TEMA 2 – A ESCOLÁSTICA E A CIÊNCIA MEDIEVAL 
Investigaremos no Tema 2 a ciência medieval. Será possível observar as 
influências do pensamento aristotélico, que foi associado pela Igreja Católica às 
sagradas escrituras. 
A Escolástica expressa a ciência medieval cristã, ou seja, baseada na 
tentativa de conciliação entre um ideal de racionalidade, tradição grega 
do platonismo e aristotelismo, relacionados com a verdade revelada pela fé 
 
 
7 
cristã e os textos sagrados. Segundo Aranha, “Escolástica. Designa os filósofos 
e teólogos medievais que ministravam cursos nas escolas eclesiásticas e nas 
universidades entre os séculos IX e XV” (2009, p. 113). 
O principal pensador do período foi São Tomás de Aquino (1225-1274), 
responsável por aristotelizar o cristianismo. A Escolástica também possuía 
apreço por Ptolomeu (90-168 d.C.), pensador grego, astrônomo e geômetra que 
buscou geometrizar o movimento dos corpos celestes em torno da Terra, a partir 
da premissa geocêntrica (a Terra no centro do universo) desenvolvida por 
Aristóteles na Antiguidade. 
Além da tese geocêntrica, a Escolástica reafirmava outras concepções 
aristotélicas, entre elas a distinção da composição da Terra (água, terra, fogo e 
ar) e dos corpos celestes (Sol, Lua e demais estrelas) constituídos por éter. A 
Terra era tomada como imóvel, estática e o universo gira a sua volta, movida 
pelo Primeiro Motor do Universo, no caso, Deus. Apenas as sagradas escrituras 
eram vistas como instrumentos suficientes para se compreender a astronomia e 
o movimento dos corpos celestes, não sendo relacionada à física ou matemática. 
Dessa forma, os corpos celestes eram movimentados segundo a vontade divina, 
cabendo recorrer às sagradas escrituras, segundo Aristóteles e Ptolomeu, para 
fornecer qualquer justificativa a respeito. Empregava-se método silogístico (ou 
silogismo), de caráter qualitativo e não quantitativo (ou seja, não matematiza a 
natureza). 
Veremos no próximo tema que, a partir dos séculos XVI e XVII, com 
ascensão da ciência moderna, os paradigmas aristotélicos e escolásticos serão 
criticados pela nova ciência. 
TEMA 3 – A CIÊNCIA MODERNA 
 A partir de agora vamos compreender as rupturas causadas pela Ciência 
Moderna em relação à tradição aristotélica e escolástica. Pensadores como 
Copérnico (1473-1543), Galileu (1564-1642), Francis Bacon (1561-1626), 
Descartes (1596 – 1650), Newton (1643-1727), entre outros produziram novas 
concepções científicas que deram origem a novos métodos e descobertas 
científicas. 
 
 
 
8 
3.1 A Revolução Copernicana 
A obra astronômica de Nicolau Copérnico, As Revoluções dos orbes 
celestes (1984), pode ser considerada o marco inicial da ciência moderna. 
Publicada em 1543, pouco antes da morte de Copérnico, as ideias da referida 
obra demonstram o movimento da Terra em torno do Sol (tese heliocêntrica), 
apresentadas pelo pensador como meras hipóteses matemáticas. Afirmar esta 
descoberta como hipótese revelava o temor e cautela da exposição de novas 
ideias diante da Inquisição da Igreja, que encontrava no modelo científico 
aristotélico-ptolomaico o sistema de interpretação do universo condizente com 
as sagradas escrituras. Copérnico, portanto, põe em xeque o sistema 
cosmológico tradicional, dando origem a novos fundamentos científicos. Por ter 
publicado a obra na semana de sua morte, Copérnico nunca soube dos impactos 
de seu pensamento para a cultura ocidental. 
Com a Revolução Copernicana, ocorre a dessacralização da Terra e, 
principalmente, do céu, pois este passa a ser objeto de estudo passível de 
matematização. Copérnico foi o primeiro a combinar astronomia, matemática e 
física e tornou possível a compreensão do movimento da Terra em torno Sol. A 
obra de Copérnico representa uma profunda transformação científica, e será o 
ponto de partida, o alicerce primordial e difusor, principalmente no século XVII, 
do que veio a ser a chamada ciência moderna. Seu pensamento será o aporte 
teórico no desenvolvimento das teorias de Galileu, Kepler, Descartes, Pascal, 
Newton, entre tantos outros. 
Na nova ciência, não há lugar para explicações que recorram à 
causalidade divina, mas, pelo contrário, a ciência é secularizada, laicizada, o que 
significa abandonar a dimensão religiosa que permeava todo o conhecimento 
medieval. Resulta disso um problema moral e ético, pois a humanidade observa 
que é uma pequena parte da criação divina, e mais do que isto, as sagradas 
escrituras da Bíblia, fundamentadas no pensamento aristotélico com a 
Escolástica, não bastam mais como forma legítima de compreensão da ordem 
do mundo. De um lado, surge a concepção de que Deus está muito mais distante 
dos indivíduos do que se pensava; do outro, a humanidade fortalece-se enquanto 
ator do conhecimento e, por isto, exime-se como mero objeto da criação. 
Em homenagem a Copérnico, até hoje são nomeadas com o termo 
“Revolução Copernicana” todas as grandes descobertas científicas relevantes, 
 
 
9 
ainda que não tenham relação com o movimento da Terra em torno do Sol. 
Assim, por exemplo, quando Darwin (1809-1882) publicou sua Origem das 
Espécies, em 1859, sua tese foi afirmada pela comunidade científica como uma 
“Revolução Copernicana”. Freud (1956-1939), quando publicou o livro A 
interpretação dos sonhos, em 1900, e deu ênfase ao papel do inconsciente sobre 
a vida mental, sua obra também foi classificada como uma “Revolução 
Copernicana”. O mesmo correu com Einstein quando elaborou, em 1905, sua 
teoria da relatividade ou recentemente com o experimento do acelerador de 
partículas que identificou a chamada “partícula Deus”. 
3.2 Galileu Galilei e a ciência experimental 
 Galileu Galilei ao tomar conhecimento dos estudos de Copérnico, 
"converteu-se" por volta de 1610 ao pensamento de seu antecessor. A partir da 
leitura de Copérnico, Galileu produziu duas importantes obras, Acerca da opinião 
copernicana, publicada em 1615, e Diálogo sobre os dois sistemas de mundo 
ptolomaico e copernicano, publicada em 1632, levando Galileu a abandonar 
definitivamente o modelo aristotélico-ptolomaico. Auxiliado com a utilização da 
recente descoberta do telescópio, Galileu aperfeiçoa-o, e irá progressivamente 
desenvolver sua mecânica, tendo como aporte teórico a já condenada obra de 
Copérnico, censurada pela Inquisição. 
 Galileu também é considerado o pai da ciência experimental. Trata-se da 
noção de que para alcançar as leis naturais e encontrar as verdades presentes 
na natureza seria necessário manipular artificialmente os fenômenos naturais, o 
que consolidou a partir de então pesquisas feitas em “laboratórios” ou ao menos 
a possibilidade de realizar experimentos científicos. A utilização de telescópios 
por Galileu permitiu-o descobrir as quatro luas de Júpiter em 1610, onde viu que 
giram em torno deste planeta. Galileu observa que o mesmo se daria com o 
movimento da Lua em relação à Terra. 
 Pode-se dizer que Galileu "radicaliza" os argumentos de Copérnico, 
tornando-os mais realistas, pois abandona a questão de os raciocínios 
matemáticos, sobre o movimentoda Terra, apresentarem-se apenas como 
meras hipóteses, portanto, não condizentes com a realidade. Na verdade, afirma 
ser "loucura" negar um procedimento matemático como irreal. Galileu impôs uma 
universalidade da razão natural (entendida como sentidos, discurso e intelecto), 
em que é o sujeito que determina o objeto de análise, combinando observação, 
 
 
10 
observação e matematização. É importante que nem Copérnico ou Galileu 
utilizavam fórmulas matemáticas, o que veio a ser desenvolvido apenas no 
século XVII com o pensador francês Descartes, conforme veremos no próximo 
item. 
Galileu promove uma grande ruptura entre ciência e teologia, a qual 
representa um marco da modernidade. Põe-se em questão a compatibilidade 
entre o pensamento desenvolvido a parir da "revolução copernicana" e as 
"sagradas escrituras". Galileu sofreu dois processos de Inquisição, sendo 
perdoado no primeiro. Com o segundo processo, esteve em prisão domiciliar até 
sua morte. 
3.3 A matematização do mundo e a ciência de Newton 
O filósofo francês Descartes será o responsável por conduzir a 
matemática a um patamar mais elevado para a Ciência Moderna. Foi o 
responsável por desenvolver equações, polinômios e introduzir as incógnitas 
matemáticas. A partir de sua ciência foi possível traduzir a natureza por meio de 
equações. Duas de suas obras representam a inauguração da matemática 
moderna: Regras para a orientação do espírito (2012), inacabada e publicada 
postumamente em 1684, e Discurso do método (1996), publicada em 1637. 
O método de Descartes foi proceder de forma matemática, ou seja, de 
modo quantitativo. É o que define como Mathesis Universalis (matemática 
universal). Trata-se do projeto de matematização do mundo. Verifica-se que o 
método cartesiano tem como fontes a geometria e a aritmética. Dessa forma, 
utilizando o método rigoroso do raciocínio matemático, ele esperava construir, 
sobre bases firmes e sólidas, um edifício filosófico que ficasse imune às 
controvérsias presentes no método silogístico de Aristóteles, fundamentado em 
apenas observações qualitativas. 
O método cartesiano matemático está fundamentado em quatro 
princípios: 
1. Verificar – investigar e problematizar se o objeto a ser estudado 
realmente pode ou não ser conhecido, por exemplo, um fenômeno natural, 
e não especulações abstratas; 
 
 
11 
2. Analisar – dividir o objeto a ser conhecido em quantas partes forem 
necessárias (por este motivo, dividimos uma equação em incógnitas, 
parênteses, chaves e colchetes); 
3. Sintetizar – solucionar os problemas iniciando das partes mais simples 
às mais complexas; e 
4. Enumerar (controle) - trata-se da elaboração de rigorosas revisões, a fim 
de observar se o valor das incógnitas é compatível com a equação. 
 Descartes foi o primeiro pensador a empregar os termos máquinas ou 
autômatos em textos filosóficos e científicos. Concebia que as máquinas seriam 
o resultado da tradução operada pela matemática dos fenômenos da natureza. 
Além disso, Descartes pressupunha que com seu método a humanidade 
passaria a ter o poder de dominar a natureza por meio de suas ações. Não está 
mais sob o jugo da natureza, mas, ao contrário, encontra-se na condição de seu 
senhor. De escravo da natureza, com o pensamento cartesiano a humanidade 
passa, agora, a ser seu mestre e possuidor. Descartes afirma que a ciência e as 
máquinas poderiam trazer bem-estar e conforto. 
 Na Inglaterra do século XVI, Francis Bacon foi o responsável por introduzir 
o método experimental e criará corrente filosófica denominado empirismo, ou 
seja, noção de que todos os conhecimentos são obtidos por meio de 
experiências sensoriais e científicas, tema este que será estudado no próximo 
capítulo. Bacon escreveu duas importantes obras. A primeira delas, o Novum 
Organum, publicada em 1620, em que critica o silogismo aristotélico e propõe 
como método de pesquisa a observação empírica da natureza; o processamento 
racional dos dados obtidos; a elaboração de hipóteses fundadas nesses dados; 
e a verificação das hipóteses mediante experimento replicável. Outro livro 
importante foi Nova Atlântida, publicado em 1627, em que afirma que saber é 
poder e defende que as tecnologias poderiam conduzir ao domínio humano 
sobre a natureza. 
 Estas perspectivas influenciaram a física de Newton, o qual desenvolveu 
a descoberta de leis naturais baseadas nos princípios de ação e reação, além 
do aprimoramento da matemática para o estudo do universo. Newton, na sua 
obra Princípia, publicada no ano de 1687, afirmava ter se apoiado nas costas de 
gigantes, ou seja, de seus antecessores que constituíram a Ciência Moderna. 
Newton foi condecorado pela coroa inglesa e foi o primeiro grande cientista a ser 
admirado e protegido contra a perseguição religiosa. Em sua lápide presente na 
 
 
12 
Abadia de Westminster, em Londres, consta a seguinte frase em latim: “A 
natureza e as leis da natureza estavam imersas em trevas; Deus disse ‘Haja 
Newton’ e tudo se iluminou”. 
 A ciência moderna foi determinante para a consolidação futura da 
Revolução Industrial a partir do século XVIII e também influenciou o movimento 
Iluminista na França. 
TEMA 4 – O POSITIVISMO DE COMTE 
 No século XIX o positivismo de Comte constitui-se como grande síntese 
dos métodos e avanços científicos e industriais europeus. Vamos estudar no que 
consiste esta doutrina e quais as polêmicas causadas por ela, sobretudo por ter 
sido considerada uma teoria designada como eurocêntrica. 
4.1 A ciência, segundo Comte 
Augusto Comte (1798-1857) é fundador do “positivismo” e inventor do 
termo “sociologia”. Afirma a necessidade de uma nova ciência que fosse 
responsável por estudar a morfologia social, ou seja, o processo de 
transformação das sociedades. Duas de suas obras se destacam: Curso de 
filosofia positiva, publicada entre 1830-1842, e Catecismo positivista, que foi 
publicada em 1852. 
Entre as características do positivismo destacam-se a confiança na razão, 
ciência e industrialização; a tendência experimental de sua ciência; a defesa do 
evolucionismo social e do progresso da humanidade; além da rejeição do 
pensamento mítico. Comte foi influenciado pela filosofia de Descartes (a ideia de 
que a razão e a ciência dominam a natureza e produzem bem-estar) e pela 
ciência experimental. Nessa direção, as revoluções científica e Francesa 
contribuíram para que a humanidade alcançasse o mais elevado patamar de 
desenvolvimento da humanidade. Comte relaciona estes eventos à ideia de 
ordem e progresso. Segundo Aranha (2009, p. 32), 
ao criticar o mito e exaltar a ciência, contraditoriamente o positivismo 
fez nascer o mito do cientificismo, ou seja, a crença cega na ciência 
como única forma de saber possível. Desse modo, o positivismo 
mostra-se reducionista, já que, bem sabemos, a ciência não é a única 
interpretação válida do real. 
 
 
13 
As concepções de Comte estão baseadas na observação e exatidão, de 
modo que abandona as teorias e especulações da teologia e metafísica, ou 
filosofias de teor mais abstrato. As ciências que são positivistas são a 
matemática, biologia, astronomia, física, química e a recém-criada sociologia, 
que se baseia em dados estatísticos. Os positivistas afirmam que a ciência é 
cumulativa (progresso) e transcultural (não interessa em qual cultura surgiu, 
serve para toda a humanidade). O positivismo influenciou as correntes que 
defendiam o darwinismo social no século XIX. A frase na bandeira brasileira é 
baseada no lema de Comte sobre o positivismo. Comte afirmava o amor como 
princípio e ordem como base; progresso como objetivo. 
4.2 A lei dos três estados 
Para Comte, a humanidade passa por três estágios de evolução: estado 
teológico, estado metafísico e estado positivo, constituindo o que denominou 
com a lei dos três estados. 
No estado teológico ou fictício, a explicação dos fatos é resultado de 
leiturasreligiosas animistas da natureza, ou seja, as forças naturais são vistas 
como divinas. Trata-se do estágio de sociedades vistas pelos europeus como 
atrasadas e primitivas. Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e, em 
seguida, ao monoteísmo. 
No estado metafísico, a humanidade projeta sua própria psicologia e 
racionalidade sobre a natureza, dando origem a explicações teológicas e 
filosóficas e filosóficas mais abstratas, como as platônicas e medievais sobre a 
origem de Deus e do universo. 
O estado positivo descreve fatos com base em métodos científicos 
modernos, como a matematização e experimentação científica. Abandona-se as 
explicações subjetivas filosóficas. O estado positivo ou científico se baseia nas 
leis da natureza, que permitem obter previsibilidade sobre a natureza e seus 
fenômenos. Este terceiro estágio está relacionado ao processo de 
industrialização, fortalecimento da ciência moderna e dos modelos políticos 
republicanos. 
Para Comte, a lei dos três estados é tanto reflexo da história da 
humanidade quanto do desenvolvimento de cada indivíduo. A criança fornece 
explicações fictícias ao mundo; o jovem é metafísico e tem especulações mais 
 
 
14 
filosoficamente abstratas; o adulto possui uma concepção positivista e científica 
da realidade. 
 
 
Comte propôs uma nova religião à humanidade em seu Catecismo 
Positivista. A ideia era substituir os santos e os templos religiosos cristãos por 
filósofos, cientistas e templos da racionalidade. O positivismo foi empregado 
como álibi pelos europeus durante o século XIX e XX para exercer o Imperialismo 
e Neocolonialismo na Ásia, África e Américas do Sul e Central. A ideia era levar 
ordem e progresso às sociedades ditas primitivas, ou seja, que se encontravam 
no suposto estado teológico ou fictício. O positivismo é visto hoje como uma 
teoria eurocêntrica que flerta com o racismo. 
TEMA 5 – DINÂMICA DO DESENVOLVIMENTO DAS CIÊNCIAS 
O Tema 5 é dedicado ao estudo das dinâmicas do desenvolvimento da 
ciência. Trata-se de investigar diferentes abordagens a respeito do que 
exatamente condiciona uma teoria a se tornar hegemônica ou mesmo destronar 
teses científicas que passam a ser consideradas obsoletas. Quando tratamos de 
uma teoria sobre a ciência, utilizamos o termo epistemologia (do grego episteme, 
"ciência", e logos, "teoria"). 
Karl Popper (1902-1994), na obra A lógica da pesquisa científica, 
publicada em 1934, desenvolve premissas positivistas e evolucionistas, pois 
toma a ciência como sendo cumulativa, ou seja, progride ou se aprimora 
estado teológico ou fic�cio
estado meta�sico
estado posi�vo ou cien�fico
A lei dos três estados 
 
 
15 
conduzindo a conhecimentos superiores em relação aos anteriores 
desenvolvidos. A ciência se situa a partir da imaginação e na crítica como 
principais aspectos da racionalidade humana. Segundo Popper, a ciência é uma 
atividade que se caracteriza pela ousadia imaginativa das suas hipóteses. Estas 
formulações estão fundamentadas em experiências científicas, que podem 
abolir, criticar e falsear doutrinas científicas vigentes. 
Popper parte do pressuposto de que não podemos atingir a verdade de 
uma teoria, ou seja não podemos abarcar todos os casos a que a ciência se 
propõe. Dessa forma, o filósofo estabelece como método mais correto para as 
ciências o método da refutação e o critério de falseabilidade. Este critério está 
relacionado à necessidade de submeter uma teoria à prova, buscando 
demonstrar ou provar sua falsidade ou refutá-la amparada com base em 
métodos científicos, a ponto de descartar sua validade. Este método de pesquisa 
científica consiste em formular hipóteses e, depois, por meio de rigorosos 
exames e avaliações experimentais, procurar refutá-las. Se determinadas teorias 
permitem ser testadas, criticadas e resistirem ao princípio da falseabilidade, 
então elas poderão ser consideradas teorias científicas aceitas. 
Thomas Kuhn (1914-1996), no livro A estrutura das Revoluções 
Científicas, publicado em 1962, apresentará uma abordagem diferente a respeito 
do desenvolvimento das ciências. Kuhn procurou demonstrar de que forma 
ocorrem as transições e rupturas do pensamento científico predominante. Avalia 
a existência de fases denominadas "normais" da ciência com o estabelecimento 
de paradigmas, que contribuem com os demais cientistas para a solução de 
problemas, promovendo o progresso por meio de acumulação de descobertas. 
 Paradigma é um modelo ou padrão a seguir. Etimologicamente, a palavra 
vem do grego paradeigma (modelo ou padrão), de modo que corresponde a algo 
que servirá de exemplo ou modelo a ser seguido. 
No entanto, há “situações de crise”, que ocorrem quando os paradigmas 
já não são mais suficientes e não resolvem uma série de questões, dando origem 
à transição a novos modelos científicos que se contrapõem ao predominante. Foi 
o que ocorreu com a ciência de Aristóteles e a Escolásticas, que perderam sua 
hegemonia com ascensão da Ciência Moderna. Isso significa dizer que toda 
ciência passa por momentos de apogeu e crise, até se tornar obsoleta. 
Para Kuhn, a superação dos paradigmas poderá dificultar a continuidade 
de certos esforços científicos realizados para solucionar problemas quando 
 
 
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emerge um novo paradigma, estabelecendo crises nas ciências. Os paradigmas 
são superados quando há uma ruptura radical capaz de modificar de modo 
significativo as condições dominantes e hegemônicas. Cria-se dessa forma um 
novo paradigma que provoca disputas com a ciência, antes predominante. 
Feyerabend (1924-1994) foi um polêmico estudioso das ciências. No ano 
de 1975 publicou o livro Contra o método. É considerado um teórico anarquista 
porque observa a não existência de verdade absoluta nas ciências. Opõe-se a 
Popper, que afirma a ciência como racional e cumulativa, e igualmente critica 
Kuhn, que argumentou, conforme vimos, que uma teoria é dotada de paradigma. 
Abandonou o empirismo e as correntes positivistas. Feyerabend considera que 
as abordagens metodológicas não são instrumentos de descoberta definitivas e 
defende o pluralismo metodológico. Afirma que no ponto de vista metodológico 
tudo vale. Considera que uma teoria se torna dominante devido ao seu caráter 
mais persuasivo em relação a outras teorias, isto é, depende de que forma foi 
escrita, por quem e quais recursos retóricos e propagandísticos foram utilizados 
a fim de convencer a comunidade científica. 
NA PRÁTICA 
 Diferentes campos da ciência como a medicina, a psicologia, a 
engenharia, a química e física promovem sucessivos avanços científicos e 
progressos tecnológicos. Temos como exemplo o avanço de diversos métodos 
voltados ao combate a doenças entre outras pestes e pandemias. São 
desenvolvidos computadores, máquinas, robôs ou mesmo remédios que 
permitem fornecer melhor qualidade de vida e saúde aos indivíduos. Faça uma 
pesquisa e debata com seus colegas e professores a respeito de algum avanço 
científico que tenha contribuído com a humanidade e tenha modificado a forma 
como vivemos ou entendemos o mundo. 
FINALIZANDO 
 Estudamos com o primeiro tema o surgimento da ciência na cultura 
ocidental por meio do pensador grego da Antiguidade, Aristóteles. Observamos 
que seu método silogístico teve fundamento em observações apenas 
qualitativas. Porém influenciou a ciência medieval, denominada Escolástica, 
conforme vimos no segundo tema. Em seguida, avaliamos a Ciência Moderna e 
 
 
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a ruptura promovida por ela em relação à tradição escolástica-aristotélico com 
Copérnico, Galileu, Descartes, Bacon e Newton entre os séculos XVI e XVII. 
Estudamos também o positivismo de Comte desenvolvido durante o século XIX 
como reflexo otimista dos avanços da industrialização e da Ciência Moderna. Por 
fim, investigamos compreensões do desenvolvimento das ciências a partir das 
abordagens epistemológicas no século XX desenvolvidaspor Popper, Kuhn e 
Feyerabend. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
ARANHA, M. L. de A. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna. 
2009. 
ARISTÓTELES. Órganon: categorias, da interpretação, analíticos anteriores, 
analíticos posteriores, tópicos, refutações sofísticas. Bauru: Edipro, 2010. 
BACON, F. Nova Atlântida. São Paulo: Nova Cultural, 1999a. (Col. Os 
Pensadores). 
BACON, F. Novum Organum ou Verdadeiras interpretações acerca da 
natureza. São Paulo: Nova Cultural, 1999. 
COMTE, A. Catecismo positivista. Rio de Janeiro: Apostolado Positivista do 
Brasil, 1934. 
COMTE, A. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1983. 
COPÉRNICO, N. As revoluções dos orbes celestes. Lisboa: Fundação 
Calouste Gulbenkian, 1984 
CHAUI, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 1994. 
DESCARTES, R. Discurso do método. São Paulo: Nova Cultural, 1996. 
DESCARTES, R. Regras para a orientação do espírito. São Paulo: Martins 
Fontes, 2012. 
DARWIN, C. A origem das espécies. Rio de Janeiro: Hemus Editora, 1987. 
FREUD. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1987. 
GALILEU. Diálogo sobre los dos Máximos Sistemas del Mundo Ptolemaico 
y Copernicano. Madrid: Alianza Editorial, 1994. 
KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 
2000. 
NEWTON. Principia. São Paulo: Edusp, 2002. 
POPPER, K. R. A lógica da pesquisa científica. São Paulo: Ed. Cultrix, 1993.