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0 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GESTÃO PÚBLICA MODALIDADE EAD Priscila Bernardes Zampieri CONSIDERAÇÕES SOBRE A GESTÃO PÚBLICA ACERCA DAS ENCHENTES E DE DESASTRES NO RIO GRANDE DO SUL CANDELÁRIA, RS 2024 1 Priscila Bernardes Zampieri CONSIDERAÇÕES SOBRE A GESTÃO PÚBLICA ACERCA DAS ENCHENTES E DE DESASTRES NO RIO GRANDE DO SUL Trabalho de Conclusão apesentado ao Curso de Especialização em Gestão Pública na modalidade EAD, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, RS), como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Gestão Pública. Orientadora: Profª. Dra. Luciana Davi Traverso Candelária, RS 2024 2 Priscila Bernardes Zampieri CONSIDERAÇÕES SOBRE A GESTÃO PÚBLICA ACERCA DAS ENCHENTES E DE DESASTRES NO RIO GRANDE DO SUL Artigo apresentado como Trabalho de Conclusão do Curso de Especialização em Gestão Pública na modalidade EAD, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, RS), como requisito parcial para a obtenção do título de Especialista em Gestão Pública. Aprovado em 31 de outubro de 2024 ___________________________________________ Profª. Dra. Luciana Davi Traverso (Presidente/ Orientador(a)) UFSM ___________________________________________ Profª. Dra. Ranice Hoehr Pedrazzi Pozzer Examinadora UFSM ___________________________________________ Profª. Ms. Jessica da Silva Maciel Examinadora UFSM Candelária, RS 2024 3 AGRADECIMENTOS Primeiramente à Deus que me mostrou essa oportunidade, que me segura pela mão e demonstra de várias formas que me ama e está sempre comigo. Por me dar saúde e me manter persistente e forte durante esta caminhada. Ao meu companheiro de vida Cristiam pelo incentivo e apoio, por todas as vezes que foi necessário me ausentar em função das aulas, ter cuidado tão bem dos nossos pequenos, fazendo de tudo para ficar tudo bem sempre. Obrigada por ser a minha morada e o meu coração, te amo mais que posso dizer e escrever... A minha sogra Marlene, por ser meu braço direito, aquela com quem posso sempre contar em todas as ocasiões, não importando o dia e a hora. A minha mãe, por me auxiliar nos momentos em que tem disponibilidade. A minha mãe do coração Dada, minha fiel incentivadora dos estudos, aquela que sempre diz: faz. Obrigada pelo carinho de sempre. Meus filhos Julia e Gabriel por serem tão importantes, amáveis e compreenderem as vezes em que precisei me ausentar fisicamente. O meu futuro é pra vocês... Aos meus colegas de curso: Thais Giordani por ter segurado a minha mão e não ter me deixado desistir...Cassiane que com maestria, de uma bondade imensa difícil de encontrar nos dias de hoje mesmo sem me conhecer pessoalmente, me mostrou o caminho da pesquisa contribuindo positivamente para que eu conseguisse chegar até o final. A Professora Luciana, minha orientadora, com seu amplo conhecimento acreditou em mim, me incentivando a fazer sempre melhor foi incansavelmente compreensiva, paciente e muito importante durante a realização desse trabalho. Aos meus colegas de trabalho, equipe das Imunizações, especialmente minha colega Nerizane, que muito me incentivou e me compreendeu quando eu mais precisei. Da mesma forma, aos colegas do SAMU, especialmente meu colega Nelcindo que também contribuiu para que eu conseguisse finalizar este estudo, de forma satisfatória. A todos vocês que contribuíram para que esse sonho fosse possível o meu muito obrigada!! 4 RESUMO CONSIDERAÇÕES SOBRE A GESTÃO PÚBLICA ACERCA DAS ENCHENTES E DE DESASTRES NO RIO GRANDE DO SUL AUTOR(A): Priscila Bernardes Zampieri ORIENTADOR(A): Profª. Dra. Luciana Davi Traverso As enchentes são os desastres naturais com maior frequência e afetam a vida de milhões de pessoas a cada ano, principalmente nos países em desenvolvimento e em grandes centros urbanos, com tendência de aumento nas próximas décadas. O objetivo do presente trabalho foi analisar a produção de dissertações e teses, disponíveis no Catálogo de Teses e Dissertações da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (IBICT), cujos trabalhos abordam os desastres naturais do Rio Grande do Sul. Os resultados alcançados revelaram que não existe um planejamento efetivo, com estratégias bem definidas e delimitadas para mitigar as mazelas sociais decorrentes dos impactos ocasionados pelas enchentes para as famílias que residem em área de risco. Aponta-se a importância de um planejamento eficiente e a implementação de programas e políticas públicas que combatam os impactos negativos ocasionados pelas enchentes, oportunizando às famílias uma vida mais digna. Palavras-chave: Enchentes; Gestão Pública; Planejamento. 5 ABSTRACT CONSIDERATIONS ON PUBLIC MANAGEMENT ABOUT FLOODS AND DISASTERS IN RIO GRANDE DO SUL AUTHOR: Priscila Bernardes Zampieri ADVISOR: Profª. Dra. Luciana Davi Traverso Floods are the most frequent natural disasters and affect the lives of millions of people each year, mainly in developing countries and large urban centers, with an increasing trend in the coming decades. The objective of this work was to analyze the production of dissertations and theses, available in the Theses and Dissertations Catalog of the Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations (IBICT), whose works address natural disasters in Rio Grande do Sul. The results achieved revealed that there is no effective planning, with well-defined and delimited strategies to mitigate social ills resulting from the impacts caused by floods for families residing in risk areas. The importance of efficient planning and the implementation of programs and public policies that combat the negative impacts caused by floods is highlighted, providing families with the opportunity to lead a more dignified life. Key-words: Floods; Public Management; Planning. 6 1 INTRODUÇÃO Historicamente, a humanidade tem sido afetada por crises e desastres decorrentes de fenômenos de natureza ambiental e climática, que abalam cidades, construções, economias, cidadãos, governos, meio ambiente, segurança, aspectos emocionais e sentimentais (WILSON; OYOLA-YEMAIEL, 2001). Representando um grande desafio para os governos e comunidades, o Brasil não se encontra em situação diferente do restante do mundo (PEDROSO; HOLM-NIELSEN, 2017). Verifica-se, ao longo dos anos, a importância do planejamento no processo de gestão pública para a execução de programas, serviços e ações preventivas no âmbito da organização e administração do Estado, no combate às enchentes ocasionadas pelas fortes chuvas e que levam a situação de calamidade pública (ARAÚJO, 2012). O Relatório de danos materiais e prejuízos decorrentes de desastres naturais no Brasil: 1995-2014 esclarece que a magnitude dos eventos ocorridos no período de análise do documento demonstrou que a visão popular de que o país é imune a desastres não se aplica, reforçando a importância desse tema em diferentes níveis no poder público (Centro de Estudos e Pesquisas em Engenharia e Defesa Civil da Universidade Federal de Santa Catarina [CEPED/UFSC], 2016). A população tem esperado uma gestão mais efetiva do setor público em relação às situações de desastres, uma vez que a ausência de habilidades de gestão pode induzir a um gerenciamento inadequado, com perda de vidas e propriedades(KAPUCU; USTUN, 2017). Existem aspectos do desastre que vão além dos fatos evidentes, mas que são vistos em obrigações, valores e escolhas em que emoções e desafios da mesma existência coexistem, se acomodam e se conflitam (TAVARES; BARBOSA, 2014). Assim como os desastres apresentam problemas únicos, com peculiaridades que podem exigir diferentes relacionamentos e responsabilidades intergovernamentais, colocando as pessoas em situações desconhecidas, questões éticas muitas vezes manifestam-se por meio de conflitos internos e externos, dúvidas, inseguranças, valores e objetivos diferenciados e conflitantes, pressões políticas de empresas privadas, da opinião pública ou da sociedade civil, entre outros (AUNG et al., 2017). Além disso, a gestão pública também é caracterizada por uma multiplicidade de valores conflitantes, como dilemas entre eficiência e equidade, eficiência e legitimação democrática, equidade e liberdade que podem influenciar direta ou indiretamente gestores e organizações, acarretando em dificuldades para lidar com situações sobre o que deve ou deveria ser feito (ZACK, 2009). 7 Nesse sentido, Koehler, Kress e Miller (2001) alertam que o gestor deve enfrentar a realidade de que provavelmente nenhuma teoria geral de gerenciamento de desastres na gestão pública emergirá, dada a complexidade e incerteza dos eventos. Portanto, Rossy (2011) propõe que gestores aprendam a reconhecer e evitar antecipadamente possíveis lapsos éticos, evitando repercussões “caras” ou “sofridas”, como ações calamitosas, ações judiciais e danos graves para suas organizações, equipes, comunidades e toda uma sociedade, principalmente ao tratar da vida humana. Neste artigo foi realizada uma revisão da literatura sobre a relação enchentes e gestão pública, de modo a oferecer subsídios para uma melhor compreensão destes eventos, que correspondem a cerca de 60% dos desastres naturais registrados no país e 70% na América Latina e Caribe (FREITAS; XIMENES, 2012). Esta revisão pode ser considerada oportuna, uma vez que os desastres naturais ocupam cada vez mais a agenda científica e governamental do país, sendo exemplos a criação do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta aos Desastres Naturais pelo Ministério de Ciência e Tecnologia e da Força Nacional do Sistema Único de Saúde pelo Ministério da Saúde (FREITAS; XIMENES, 2012). Tendo em vista a problemática exposta, este artigo teórico tem como objetivo analisar a produção de dissertações e teses, disponíveis no Catálogo de Teses e Dissertações da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (IBICT), cujos trabalhos abordam os desastres naturais do Rio Grande do Sul. Para alcançar o objetivo exposto, o texto foi organizado na seguinte estrutura: Após a introdução, são resgatados alguns conceitos iniciais sobre a gestão pública de riscos e de desastres e são sinalizadas questões contundentes sobre o tema. Por fim, são apresentadas as considerações finais, onde buscou-se sistematizar a discussão, retomar as principais reflexões e apontar a necessidade de desenvolvimento do tema no Brasil, tendo o cuidado de realizá-lo respeitando as especificidades da cultura brasileira. Por fim, as referências bibliográficas são listadas. 2 REFERENCIAL TEÓRICO Objetivando subsidiar a compreensão e análise do tema ora proposto, o presente referencial teórico aborda as ideias dos principais autores que estudam a temática das enchentes e do planejamento. O planejamento é visto aqui como um paradigma, que irá definir mudanças e novas regras de gestão com a criação de programas de combate às enchentes, na construção de modelos na administração pública, assim como na elaboração de objetivos estratégicos e 8 indicadores sociais na formulação de estratégias, planos e programas, no qual se busca o conhecimento do ambiente afetado pela crise hídrica das últimas enchentes (ARAÚJO, 2012). Ao longo dos anos verifica-se a importância do planejamento no processo de gestão pública para a execução de programas, serviços e ações preventivas no âmbito da organização e administração do Estado, no combate às enchentes ocasionadas pelas fortes chuvas e que levam a situação de calamidade pública (ARAÚJO, 2012). Assim, é preciso que sejam considerados no processo de planejamento, de maneira integrada e articulada, todos os planos da organização, estratégicos, táticos e operacionais. O planejamento tem por objetivo o desenvolvimento de processos, técnicas e atitudes administrativas que possibilitem avaliar as consequências e efeitos desastrosos ocasionados pelas inundações, de modo a reduzir os impactos e aumentando a probabilidade de alcance dos objetivos e desafios estabelecidos pela gestão pública no combate às enchentes [CEPED/UFSC], 2016). A criação de programas pela gestão pública deve priorizar a maximização dos resultados e minimizar os efeitos negativos ocasionados pelos transbordamentos dos rios que deixou milhares de famílias desabrigadas, além de aumentar os números de casos de doenças ocasionadas e questionamentos sobre quais medidas devem ser tomadas pela gestão no combate às crises ambientais hídricas. A base de toda administração de desastres assenta-se sobre a elaboração de planos de emergência, os quais são os documentos que servirão como guia para lidar com os efeitos decorrentes de determinado cenário, estabelecendo procedimentos, definindo recursos materiais e capital humano. A necessidade da elaboração de Planos de Emergência surgiu em função do considerável aumento dos riscos tecnológicos se tornando uma necessidade real e cada vez mais constante (ARAÚJO, 2012, p.11). 2.1 As enchentes no Brasil Conforme corrobora São Paulo (2009), a enchente é classificada como a elevação do nível de água de um rio, acima de sua vazão normal. Tal definição é normalmente utilizada como sinônimo de inundação. Inundação é o transbordamento de água da calha normal de rios, mares, lagos e açudes, ou acumulação de água por drenagem deficiente, em áreas não habitualmente submersas. No Brasil, os principais fenômenos relacionados a desastres naturais são derivados da dinâmica externa da Terra, tais como, inundações e enchentes, escorregamentos de solos e/ou rochas e tempestades [...]. Estes fenômenos ocorrem normalmente associados a eventos pluviométricos intensos e prolongados, nos períodos chuvosos que correspondem ao verão na região sul e sudeste e ao inverno na região nordeste. De acordo com EM-DAT, o Brasil encontra-se entre os países do mundo mais 9 atingidos por inundações e enchentes, tendo registrado 94 desastres cadastrados (segundo os critérios já comentados) no período de 1960 a 2008, com 5.720 mortes e mais de 15 milhões de pessoas afetadas (desabrigados/desalojados). Considerando somente os desastres hidrológicos que englobam inundações, enchentes, movimentos de massa, em 2008 o Brasil esteve em 10º lugar entre os países do mundo em número de vítimas de desastres naturais, com 1,8 milhões de pessoas afetadas (SÃO PAULO, 2009, p.18). Os problemas decorrentes das enchentes aumentam cada vez mais em todo o país, se estendendo as cidades e ocasionando prejuízos econômicos, políticos e sociais. Dos impactos pontuais mais comuns causados pelas enchentes nas populações em ambiente urbano podemos citar o impedimento da livre circulação no cotidiano das pessoas, paralisação do transporte de bens e serviços, paralisação dos comércios nas áreas afetadas causando enormes prejuízos financeiros e perdas materiais, além de lesões físicas e perdas humanas de acordo com a intensidade do evento. Dentre outros danos, que abrangem tanto áreas urbanas como rurais, talvez de forma menos visível, mas de relevante importância temos: perda de biodiversidade local, destruição de florestas, destruição de sistema de esgoto residencial com contaminação de fontes deágua potável por material químico e/ou infeccioso, contaminação direta de casas e outras construções, mobilização de produtos químicos estocados (tanques de combustível no subsolo, produtos químicos estocados nos comércios e residências), ou remobilização de produtos agroquímicos (agrotóxicos e fertilizantes) já presentes no ambiente, potencialmente prejudiciais à saúde (XIMENES, 2010 p. 12). Nota-se a grande dimensão que o problema das enchentes ocasiona na vida das pessoas, e traz consigo diversas consequências, perdas materiais e até humanas. Sendo assim, destaca- se a necessidade de analisar esse problema e dos gestores públicos buscarem soluções para esse problema. Os principais fenômenos relacionados a desastres naturais no Brasil são os deslizamentos de encostas e as inundações, que estão associados a eventos pluviométricos intensos e prolongados, repetindo-se a cada período chuvoso mais severo (CARVALHO; GALVÃO, 2006). Apesar das inundações serem os processos que produzem as maiores perdas econômicas e os impactos mais significativos na saúde pública, são os deslizamentos que geram o maior número de vítimas fatais (CARVALHO; GALVÃO, 2006). Nesse viés, o acelerado processo de urbanização verificado nas últimas décadas, em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, levou ao crescimento das cidades na maioria das vezes em áreas impróprias para ocupação, aumentando assim as situações de perigo e de risco a desastres naturais (TOMINAGA et al., 2009). Segundo Tucci (2008, p.63), os principais problemas relacionados com a infraestrutura de água no ambiente urbano são: 10 Falta de tratamento de esgoto: grande parte das cidades da região não possui tratamento de esgoto e lança os efluentes na rede de esgotamento pluvial, que escoa pelos rios urbanos (maioria das cidades brasileiras). Outras cidades optaram por implantar as redes de esgotamento sanitário (muitas vezes sem tratamento), mas não implementam a rede de drenagem urbana, sofrendo frequentes inundações com o aumento da impermeabilização; ocupação do leito de inundação ribeirinha, sofrendo frequentes inundações; Impermeabilização e canalização dos rios urbanos com aumento da vazão de cheia (sete vezes) e sua frequência; aumento da carga de resíduos sólidos e da qualidade da água pluvial sobre os rios próximos das áreas urbanas; deterioração da qualidade da água por falta de tratamento dos efluentes tem criado potenciais riscos ao abastecimento da população em vários cenários, e o mais crítico tem sido a ocupação das áreas de contribuição de reservatórios de abastecimento urbano que, eutrofizados, podem produzir riscos à saúde da população. Entre os dez grupos de desastres, o maior número de óbitos, com 65% do total (1.131 casos), e feridos, com 48% (23.924 casos) tiveram como causa as enxurradas; seguida pelas inundações, com 11% (187 casos) e 17% (8.592 casos), respectivamente. Considerando todos os grupos de desastres, o total geral de óbitos foi de 1.734 casos, e o de feridos foi 49.396. (https://portal.inmet.gov.br/uploads/publicacoesDigitais/impactos-clima-2010-2019.pdf). O maior número de desalojados e desabrigados foi em decorrência das Inundações, representando 47% (1.417.718) dos desabrigados e 46% dos desalojados (325.883). A segunda maior causa foram as enxurradas, com 28% dos desabrigados e 26% dos desalojados. Considerando todos os grupos de desastres, o total geral de desalojados foi de 13.042.579 casos, e o de Desabrigados foi 702.487. 2.2 Enchentes no Rio Grande do Sul As enchentes no Rio Grande do Sul não são um fenômeno novo. O estado tem um histórico de desastres relacionados a chuvas intensas, com eventos significativos registrados desde 1941. Cada episódio traz lições importantes, mas a repetição de tragédias semelhantes indica uma necessidade urgente de melhorias no planejamento urbano e na infraestrutura. Não é exagero quando se fala que as enchentes transformaram diversas cidades do Rio Grande Sul em um cenário de guerra, é um acontecimento devastador que mexeu com todo Brasil (AGÊNCIA JOVEM DE NOTÍCIAS, 2024). Os acontecimentos tem um agravante ainda maior, segundo o Professor do Instituto de Hidráulica da UFRGS, Rodrigo Paiva, tudo aconteceu mais rápido, a população hoje é maior e as áreas de riscos ocupadas também são maiores do que em 1941, ou seja, tudo contribuiu para que o impacto fosse maior (OGLOBO, 2024). 11 As enchentes no Rio Grande do Sul foram influenciadas por combinação de fatores locais e remotos. Enquanto as condições meteorológicas imediatas, como chuvas intensas e sistemas de baixa pressão, são as causas diretas das inundações, a Amazônia tem um papel indireto mas significativo. A alteração dos padrões de chuva devido à degradação da floresta pode aumentar a frequência e a intensidade das chuvas extremas, elevando o risco de inundações no sul do Brasil (EICHLER-BARKER, 2024). Além disso, diversas cidades foram construídas em planícies de inundação, ou seja, áreas planas adjacentes aos rios e córregos que recebem regularmente água durante enchentes e períodos de chuva intensa. Essas áreas atuam como amortecedores naturais, absorvendo o excesso de água e ajudando a reduzir o impacto das cheias em áreas urbanas e rurais. Cidades como Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Ivoti, Portão, Viamão, Eldorado do Sul, Guaíba e Montenegro foram algumas das mais atingidas (AGÊNCIA BRASIL, 2024). As consequências foram diversas e o tempo para recuperação ainda não dá para se estimar. Há perdas materiais, prejuízos para diversos setores da indústria, a maior é a perda de vidas (humana e animal) que ainda estamos contabilizando. As enchentes e alagamentos afetaram 445 cidades, sendo que alguns bairros e cidades inteiras foram submersos e destruídos, provocando grande evacuação de pessoas para abrigos, estes que não são suficientes para as mais de 300 mil pessoas que estão fora de suas casas (AGÊNCIA BRASIL, 2024). Não apenas as propriedades são afetadas pelas enchentes, mas também representam uma séria ameaça à saúde pública. A contaminação da água pode levar à propagação de doenças transmitidas pela água, como a leptospirose e hepatite A. Além disso, o contato com a água contaminada e o estresse causado pela perda de casa e pertences podem desencadear problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão. Além disso, o tratamento de doentes durante os socorros as vítimas tornam-se mais difícil, sendo que vemos muitos remédios faltando e hospitais devastados (EBERSPACHER, 2024). É fato que algumas tragédias ambientais são inevitáveis e imprevisíveis. Entretanto, é impossível não notar o descaso e a negligência do poder público na prevenção de gravidades e extensão dos danos. Após a tragédia, em entrevista ao site Poder360, Eduardo Assad, pesquisador sobre mudanças climáticas no Brasil, relatou que há pelo menos 30 anos cientistas brasileiros alertam para os riscos extremos climáticos, como as ondas de calor e inundação (EBERSPACHER, 2024). Em 2015, o Governo Federal solicitou um relatório denominado “Brasil 2040: cenários e alternativas de adaptação à mudança do clima”, que apresentou projeções dramáticas para o 12 futuro. Entre elas, mortes por ondas de calor, secas no Nordeste, falta de água no Sudeste e aumento das chuvas no Sul. O conteúdo alarmante do relatório exigia dos governantes ações preventivas de logo prazo. O documento, no entanto, foi engavetado, esquecido e ignorado (EBERSPACHER, 2024). Além disso, há uma clara falta de investimento em infraestrutura de drenagem e controle de enchentes. A prefeitura de Porto Alegre cortou verbas de prevenção contra as enchentes em 2023. Em entrevista para Revista Fórum, Augusto Damiani, ex-diretor do Departamento de Esgoto Pluviais de Porto Alegre, afirmou que há falhas no sistema de manutenção. Na enchente desetembro de 2023 já houve dificuldades para fechar as comportas. Segundo ele, esse descaso da prefeitura ocorre desde 2017, colocando a drenagem de Porto Alegre a serviço de interesses comerciais (EBERSPACHER, 2024). Para esse mesmo autor, soma-se a isso que muitas das áreas afetadas são conhecidas por sua vulnerabilidade às cheias, mas medidas preventivas adequadas nunca foram implementadas ou foram insuficientes para lidar com as condições extremas. A urbanização descontrolada, sem considerar os impactos ambientais e as características naturais do terreno, só agrava essa situação. Poucos dias antes do início das chuvas que afligiram o Rio Grande do Sul, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN) enviou ao governador um ofício com um título, no mínimo, incomum: “Alerta ao Estado do Rio Grande do Sul e ao Governador do Estado”, seguido pelo subtítulo que dizia: “Registro para fins de tomada de conhecimento sobre alertas emitidos há várias décadas” (EBERSPACHER, 2024). Por fim, a resposta das autoridades frente ao desastre também foi inadequada e descoordenada. A falta de planos de evacuação eficazes e de sistemas de alerta precoce deixaram as comunidades despreparadas para lidar com a rápida elevação das águas. As equipes de resgate e os recursos de emergência ficaram sobrecarregados, resultando em atrasos cruciais no socorro às vítimas. A ausência de um plano de contingência abrangente reflete a falta de prioridade dada à gestão de desastres por parte do governo municipal e estadual. (EBERSPACHER, 2024). Embora o mundo esteja vivendo uma crise climática, não podemos negligenciar que ações preventivas do poder público poderiam reduzir sensivelmente a tragédia e as mortes no estado. Diante desse quadro, é imperativo que o poder público assuma sua responsabilidade e tome medidas concretas para prevenir futuros desastres, protegendo seus municípios e sua população. Para isso, é necessário investir em infraestrutura, atuando estrategicamente a longo 13 prazo. É importante o governante pensar no futuro, não somente atuando em ações que ofereçam visibilidade para garantir votos ao final do mandato. Em última análise, as enchentes no Rio Grande do Sul representam não apenas uma tragédia humana, mas também um lembrete doloroso da importância da ação preventiva e da necessidade de uma liderança responsável. Não podemos mais nos dar ao luxo de negligenciar a segurança e o bem-estar de nossas comunidades em face das crescentes ameaças climáticas por falta de prevenção. A hora de agir é agora. (https://agenciajovem.org/enchentes-no-rio- grande-do-sul-causas-impactos-e-licoes-para-o-mundo). 2.3 Os impactos que as enchentes causam na sociedade As enchentes trazem impactos para as suas vítimas, dentre as quais se destacam a grande incidência de doenças, perdas materiais e até riscos de vida para as crianças e moradores, que tem suas casas alagadas. Além de trazer impactos financeiros para os municípios, com gastos de abrigos e alimentação para as vítimas das enchentes. Levantamentos de riscos realizados em encostas de vários municípios brasileiros indicam que, em todos eles, a falta de infraestrutura urbana é uma das principais causas dos fenômenos de deslizamentos pelo país. Dessa forma, uma política eficiente de prevenção de riscos de deslizamentos em encostas deve considerar como áreas prioritárias de atuação os assentamentos precários e deve também fazer parte das políticas municipais de habitação, saneamento e planejamento urbano (CARVALHO et al., 2006). De acordo com Poli (2012), as áreas urbanizadas são as que mais explicitam as intervenções do homem no meio natural. As novas edificações, o desmatamento, as canalizações dos cursos d’água, a poluição do ar, da água e a produção de calor acarretam diversos efeitos sobre os aspectos do ambiente. As alterações no meio ambiente, causadas pelas atividades nas cidades são sentidas pelas populações, tais como o aumento da temperatura nos centros urbanos, o aumento das chuvas e, por fim, as enchentes. Essa última consequência da urbanização teve como principal causa a construção de edifícios, indústrias, ruas implantadas em áreas de várzeas ou margens dos rios e é, nos dias de hoje, um problema recorrente nos períodos chuvosos nas principais cidades do mundo. O aumento das desigualdades sociais, da pobreza, da ocupação do solo em áreas inadequadas, em encostas instáveis ou em planícies inundáveis, edificações sem infraestrutura e saneamento básico, falta de espaços comunitários para sociabilidade são alguns dos muitos fatores que implica no processo de gestão de riscos e desastres (FURTADO et al., 2012). 14 Os impactos ocasionados por esta catástrofe natural são sentidos no meio econômico, social e ambiental, pois destrói as plantações da população, invade as casas, ocasionando inúmeros prejuízos materiais e de saúde pública. Por isso, acredita-se ser de vital importância o planejamento da administração pública, no que concerne a execução de programas de combate às enchentes. Nesse viés, a implantação de uma gestão focada nos problemas internos e externos deve embasar o planejamento do governo. Tendo em vista a importância do planejamento na gestão e administração pública, o mesmo deve atender ao interesse público e às necessidades sociais, buscando o bem comum e a satisfação do coletivo. Para tanto é preciso que toda a estrutura administrativa esteja em sintonia e, procure atender, de forma planejada e sistemática, as necessidades do cidadão. A administração pública engloba os princípios constitucionais de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, sendo norteadores para a busca de soluções para as exigências e anseios da coletividade (ARAUJO, 2012). O gerenciamento atual não incentiva a prevenção destes problemas, já que à medida que ocorre a inundação o município declara calamidade pública e recebe recursos a fundo perdido e não necessita realizar concorrência pública para gastar. Como as maiorias das soluções sustentáveis passam por medidas não estruturais que envolvem restrições a população, dificilmente um prefeito buscará este tipo de solução porque geralmente a população espera por uma obra. Enquanto que, para implementar as medidas não-estruturais, ele teria que interferir em interesses de proprietários de áreas de risco, que politicamente é complexo a nível local. Além disso, quando ocorre a inundação ele dispõe de recursos para gastar sem restrições. Para buscar modificar este cenário é necessário um programa a nível estadual voltado a educação da população, além de atuação junto aos bancos que financiam obras em áreas de risco (TUCCI, 2008, p.3). 2.4 Ações e estratégias na busca de redução dos riscos das enchentes Conforme Freitas e Ximenes (2012), para reduzir os riscos das enchentes, é necessário desenvolver estratégias e ações planejadas, principalmente pelo poder público. E a conscientização também é outra ação importante a ser adquirida nesse processo de redução das enchentes. De acordo com Freitas e Ximenes (2012), a conscientização e a sensibilização pública não podem ser dissociadas de processos diretamente orientados para os profissionais do setor saúde. Informações e relatos de experiências de uma localidade podem servir para conscientizar, sensibilizar e treinar profissionais de outras que vivenciam problemas de saúde similares, como, por exemplo, as relacionadas a primeiros socorros e orientações sobre tratamento e prevenção de doenças relativas a enchentes como leptospirose e dengue. Estes 15 relatos e experiências, além de nortearem processos de conscientização, sensibilização e treinamento, também devem se converter em guias de respostas do setor saúde para situações de emergência, que podem envolver, inclusive, situações de maior complexidade, como a contaminação químicaque ocorre em eventos de enchentes. O planejamento urbano é um primeiro passo a ser seguido pelos gestores, aos quais devem atuar de forma preventiva, visando reduzir os riscos das enchentes e as consequências delas decorrentes. As ações de prevenção devem combinar medidas intersetoriais sobre uso e ocupação do solo. Isto envolve medidas sobre a ocupação de margens de rios preservando as áreas de proteção permanente e as unidades de conservação, as políticas de gestão da ocupação das áreas urbanas e das margens de rios combinadas com as de habitação evitando construções inadequadas próximas aos rios e áreas de encosta, drenagem e dragagens de rios, coleta e disposição adequada de resíduos e entulhos, reflorestamento e revitalização dos cursos d'água, entre outras (FREITAS; XIMENES, 2012, p. 12). Outro fator importante é diminuir a vulnerabilidade e ter uma vida mais segura, deve ser realizada a prevenção e a mitigação dos desastres naturais. O ideal seria o impedimento total de qualquer tipo de dano e prejuízo, o que acarretaria numa situação “perfeita”. Entretanto atualmente o que é possível realizará a redução máxima possível dos danos e prejuízos causados pelos desastres naturais. Isso porque, nós, seres humanos, ainda não adquirimos conhecimentos suficientes para controlar e dominar os fenômenos naturais. Desta forma, devem ser realizadas medidas preventivas, não só para reduzir os prejuízos materiais, mas principalmente para evitar a ocorrência de vítimas fatais (MASATO et al., 2006). A implementação de políticas públicas voltadas para a adaptação às mudanças climáticas é essencial. Isso inclui a gestão integrada de bacias hidrográficas, conservação de ecossistemas naturais, e promoção de práticas de desenvolvimento sustentável. Tais medidas não só ajudam a mitigar os impactos de futuros desastres, mas também promovem a resiliência das comunidades (EICHLER-BARKER, 2024). Além disso, para enfrentar os desafios climáticos e suas consequências, é essencial que o Rio Grande do Sul adote medidas de remediação e adaptação com base em políticas públicas abrangentes e sustentáveis. A implementação dessas políticas deve ser orientada por princípios de sustentabilidade e resiliência, garantindo a preservação dos recursos naturais e a proteção das comunidades locais (EICHLER-BARKER, 2024). No Brasil, encontram-se reservatórios com detenção e retenção convencionais, onde algumas cidades como o Rio de Janeiro que dispõe de um sistema de cinco reservatórios para evitar as enchentes na região da Grande Tijuca, finalizado em 2015 e em São Paulo, dois 16 reservatórios de detenção. Já em outros Países como EUA (Filadélfia, Califórnia e Oregon), utilizam das medidas não convencionais, como exemplo no Reino Unido que os sistemas existentes são de captação de águas fluviais, incluindo tanques com controle de pluviais à distância (IPEA, 2024). Nos Países como EUA, Canadá e Nova Zelândia há projetos de restauração de rios urbanos desde 1980 e na Europa, mais especificamente no Rio Isar, um rio que descarrega suas águas no Rio Danúbio, na Alemanha (IPEA, 2024). Assim, nota-se a importância da atuação preventiva, tanto por parte dos órgãos competentes, como também por parte da população, buscando minimizar a incidência das enchentes e de seus riscos aos indivíduos. O que se inclui em ações conscientes e planejadas, para que este problema seja minimizado (MASATO et al., 2006). 3 MÉTODO DE PESQUISA O tipo de pesquisa adotado foi a revisão bibliográfica, já que segundo Vergara (2005, p. 48), “a pesquisa bibliográfica é o estudo sistematizado desenvolvido com base em material publicado em livros, revistas, jornais, redes eletrônicas, isto é, material acessível ao público em geral”. A revisão narrativa é adequada para explorar temas amplos, enquanto uma revisão sistemática é mais exaustiva. Esse tipo de método permite uma ampla descrição sobre o assunto, mas não esgota todas as fontes de informação, visto que sua realização não é feita por busca e análise sistemática dos dados. Sua importância está na rápida atualização dos estudos sobre a temática (VERGARA, 2005). Sendo assim, realizou-se uma revisão narrativa de literatura realizada no Catálogo de Teses e Dissertações da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (IBICT). Os critérios de inclusão foram publicações que respondessem ao objetivo do estudo, com textos completos, disponíveis gratuitamente. Utilizou-se para a busca, os descritores “Gestão Pública”, “Desastres Naturais no Rio Grande do Sul” e “Planejamento”. Foram selecionados inicialmente 23 artigos, dos quais 13 foram excluídos pois não contemplavam o assunto estudado ou estavam duplicados, restando 10 para a amostra final, sendo 8 dissertações e 2 teses, conforme apresenta o quadro 01. Os trabalhos excluídos são 13, cujas publicações não abordassem diretamente a Gestão Pública de desastres naturais no contexto brasileiro e além disso: 1) por irrelevância do tema, pois não se relacionaram diretamente ao tema central de gestão de riscos e desastres naturais. 2) foco em áreas distintas, alguns dos artigos abordavam tópicos que embora interessantes, pertenciam a áreas distintas 17 que não se encaixavam nas linhas de investigações propostas como educação pedagógica, agricultura familiar e análises ambientais que não consideram a gestão de riscos e 3) duplicidade de temas, reflexo da necessidade de manter a originalidade e a variedade nas contribuições científicas. Quadro 01 – Dissertações e teses analisadas Quant Área Dissertação 1 Gestão e Recursos Hídricos 1 Planejamento Urbano e Regional 1 Engenharia Sanitária e Recursos Hídricos 2 Engenharia Civil 3 Geografia Tese 1 Geografia Ambiental 1 Políticas Públicas Comparadas Os itens da pesquisa foram divididos em: 1) informações bibliográficas: título original, autoria, ano de publicação e 2) característica do estudo: delineamento, metodologia, objetivo do estudo. 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS A amostra analisada consistiu-se em 10 trabalhos acadêmicos, sendo 8 dissertações e 2 teses, que exploram diferentes aspectos da gestão de desastres e inundações, conforme o quadro abaixo: Quadro 02 – Temas abordados nos trabalhos Temas estudados Porcentagem Gestão de Risco e Desastres e Resiliência 40% Inundações e Impactos Ambientais 40% Análise de Políticas Públicas 10% Modelos de Precipitação e Análises hidrológicas 10% 18 Os trabalhos analisados foram estudados nos últimos 8 anos. Observa-se que a área com predominância de dissertações e teses envolve engenharia (5 trabalhos, destes 4 dissertações e 1 tese) e geografia (4 trabalhos, com 3 dissertações e 1 tese). Para melhor análise das informações, os trabalhos foram agrupados por similaridade, onde dividiu-se nos seguintes temas: Gestão de riscos de desastres e resiliência, Estudos sobre Inundações e Impactos Ambientais, Análises de Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável, Modelos de Precipitação e Análise Hidrológica, conforme quadro 1. Quadro 03 - Universidades e períodos dos trabalhos analisados Tema Título Autor Universidade Ano Método Gestão de Riscos de Desastres e Resiliência Ações públicas pós- desastre de 2011 na Região Serrana do RJ e análise da percepção de riscos Alessandra Moraes da Rocha UERJ 2023 Pesquisa quantitativa e qualitativa Gestão de Riscos de Desastres e Resiliência Base para a qualificação urbana sob a ótica da gestão do risco de desastres Lara Jendrzyczkowski Rieth UFRGS 2017 Estudo de caso Gestão de Riscos de Desastres e Resiliência Um arranjo interdisciplinar para gestão de riscos de desastres socio naturais com base na engenharia de resiliência Andréa Jaeger Foresti UFRGS 2015 Estudo de caso Gestão de Riscos de Desastres e ResiliênciaConstrução Socioespacial da vulnerabilidade a movimentos de massa no município de Blumenau – SC Tanice Cristina Kormann UFRGS 2022 Pesquisa qualitativa e quantitativa Estudos sobre Inundações e Impactos Ambientais Avaliação do custo do risco de inundações urbanas: estudo de caso dos danos de inundação em Porto Alegre - RS Valéria Borges Vaz UFRGS 2015 Estudo de caso Estudos sobre Inundações e Impactos Ambientais Análise comparativa dos mapeamentos de suscetibilidade à inundação, nas sub- bacias Rio da Prata do Mendanha e Campinho André Luiz da Silva Filho UFRRJ 2022 Observação de dados Estudos sobre Inundações e Impactos Ambientais Mapeamento geoecológico da suscetibilidade a enchente associada à dinâmica de uso cobertura da terra na bacia hidrográfica do Rio da Guarda - RJ Pâmela Suelen Pereira UFRRJ 2021 Estudo de caso 19 Estudos sobre Inundações e Impactos Ambientais A heterogeneidade e as mudanças na paisagem da bacia hidrográfica dos rios Iguaçu-Sarapuí (RJ) Wallace de Araújo Menezes UFRRJ 2018 Estudo de caso Análises de Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável Políticas públicas para o desenvolvimento rural sustentável: estudo de caso do Programa Rio Rural Helga Restum Hissa UFRRJ 2020 Análise documental Modelos de Precipitação e Análise Hidrológica Aplicação do Índice Padronizado de Precipitação (SPI) e de Vazão (SSI) para análise de eventos de seca na bacia do Rio Suaçuí Grande/MG Gabriela Soares Pereira UNIFEI 2022 Observação de dados Sobre as Universidades, identifica-se que a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) (n:4) e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) (n:4), são as Universidades que mais produziram trabalhos com esta abordagem (8 dos 10 estudos). A UFRGS, aborda temas com ênfase na percepção dos riscos e desastres em assentamentos precários deixando claro que através de um olhar antropológico é possível identificar as áreas sujeitas a desastres naturais e auxiliar na proposição das Políticas Públicas mais adequadas a cada local. Já a UFRRJ, demonstra um olhar mais específico nas questões geoecológicas, com predominância de características físicas e fatores condicionantes quanto aos riscos de inundações. São estudos realizados em populações de regiões de alta propensão para desastres naturais, cujos conhecimentos são aplicados à implementação das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento rural sustentável. Em relação ao método utilizado nos estudos observa-se maior prevalência do formato Estudo de caso representado por 50% (n:5) dos trabalhos analisados, seguido da pesquisa quantitativa e qualitativa com 20% (n:2) e observação de dados presente em 20% (n:2), por último, com apenas 10% (n:1) de representação encontra-se a análise documental. Ainda se citou em 6 dos 10 trabalhos analisados que as enchentes causam não apenas perdas materiais, mas que também representam uma ameaça à saúde pública, resultando na disseminação de doenças, além dos impactos psicológicos como ansiedade e depressão entre as famílias afetadas. Um dos problemas identificados em 05 dos 10 trabalhos analisados é a falta de planejamento estratégico eficiente, onde foi verificado que ações de mitigação dos desastres promovem intervenções concentradas espacialmente, enquanto as áreas mais carentes e periféricas têm sua vulnerabilidade aumentada pela ausência de intervenções públicas ou ainda 20 intervenções individuais mal dimensionadas que geram a falsa sensação de segurança (ROCHA, 2023; KORMANN, 2022; RIETH, 2017; VAZ, 2015; FORESTI, 2015). Um dos trabalhos citou que, contudo, deve-se refletir sobre a importância dos sistemas de proteção contra inundações para segurança da população e quanto ao uso de áreas de risco, que exigem soluções que merecem ser pensadas e planejadas a partir de múltiplos olhares e saberes (VAZ, 2015). Embora haja reconhecimento da importância de planos de emergência e prevenção, eles não estão sendo implementados de forma abrangente. Dois dos trabalhos analisados identificaram que a Gestão Pública preconiza a resposta pós desastre, deixando de investir em políticas de prevenção e mitigação que minimizariam os danos. Ademais, o levantamento de dados e análise bibliográfica do estudo, apontam que muitas áreas vulneráveis continuam sem ações preventivas adequadas (VAZ, 2015; RIETH, 2017). 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS As enchentes encontram-se entre os desastres naturais que se caracterizam por alta frequência e baixa severidade em termos de óbitos, mas sendo responsáveis por grande proporção de danos à infraestrutura local, às habitações e às condições de vida das comunidades e das sociedades de baixa renda. Isto não exclui a possibilidade de que, principalmente por incapacidade de desenvolver estratégias de prevenção e mitigação, ocorram eventos com grande número de óbitos, como no caso do Rio Grande do Sul (FREITAS; XIMENES, 2012). A análise das condições que propiciam desastres naturais, como as inundações em Nova Friburgo, destaca a necessidade de uma abordagem integrada e participativa na gestão de riscos. Embora exista uma Política Nacional direcionada para a mitigação de desastres, a implementação em nível municipal enfrenta desafios significativos, como a falta de articulação entre os diversos atores e a baixa participação da população. Esse cenário demonstra que, para que as políticas de gestão de risco sejam efetivas, é imprescindível promover a inclusão da comunidade nas discussões e nas decisões que afetam diretamente seu cotidiano. (ROCHA, 2023) Um dos principais achados do estudo de Foresti (2015) é a importância de desenvolver uma Tecnologia Social de Resiliência que esteja alinhada com a cultura local e as necessidades específicas da comunidade. Isso implica em não apenas aplicar soluções pré-estabelecidas, mas adaptar as intervenções de acordo com a realidade de cada território, incluindo os moradores direta e indiretamente envolvidos, criando uma situação de pertencimento social, pode atribuir maior efetividade na gestão de riscos. A promoção de políticas públicas que priorizem o acesso 21 da população adstrita as oportunidades de trabalho, a construção de redes de apoio e a remoção de áreas de risco pode contribuir significativamente para aumentar a resiliência da população diante de desastres sócio naturais (FORESTI, 2015). Além disso, as transformações na cobertura do solo e a impermeabilização das superfícies têm mostrado ser fatores cruciais que agravam a vulnerabilidade das áreas urbanas. A falta de infraestrutura adequada, como esgotamento sanitário e coleta de lixo, acentua os impactos negativos das inundações. Nesse sentido, um planejamento urbano que respeite e preserve os recursos naturais se torna vital. É necessário implementar práticas que favoreçam a permeabilidade do solo e a conservação da vegetação, reduzindo assim a suscetibilidade a inundações (RIETH, 2017; VAZ, 2015). A análise das dissertações e teses abordadas permitiu uma reflexão aprofundada sobre a gestão pública no contexto de enchentes e desastres no Rio Grande do Sul. Constatou-se uma carência de planejamento estratégico e políticas públicas integradas e eficazes que contemplem tanto a prevenção quanto a mitigação dos impactos das enchentes nas comunidades mais vulneráveis. A falta de coordenação entre os diversos atores e a ausência de estratégias de longo prazo se refletem na fragilidade das ações preventivas, limitadas a intervenções pontuais e insuficientes em áreas de risco (VAZ, 2015). Este estudo também revela a importância da implementação de uma gestão de riscos que considere as especificidades de cada localidade, reforçando a necessidade de programas adaptados às realidades sociais, econômicas e ambientaislocais. Isso inclui desde o fortalecimento de infraestrutura básica, como saneamento e drenagem urbana, até a conscientização da população sobre os riscos associados ao uso inadequado do solo e à ocupação de áreas de enchente (RIETH, 2017). Este trabalho se restringiu à análise de dissertações e teses disponíveis na internet o que limitou a abrangência dos resultados, uma vez que publicações em periódicos nacionais não foram consideradas. Essa limitação pode ter impactado a representatividade dos achados, dado que a literatura científica publicada em revistas especializadas oferece um panorama mais atualizado e aprofundado sobre o tema. Apesar destas limitações, acredita-se a pesquisa aponta para a relevância da elaboração do planejamento estratégico por parte da coordenadoria de defesa civil e outros órgãos afins de desenvolver estratégias de prevenção bem como de apoio as famílias vítimas das enchentes para que as falhas apontadas no decorrer da pesquisa sejam minimizadas, e por outro lado, as famílias afetadas possam ter uma melhor condução do problema e assim evitar os prejuízos de ordem financeira, social, e /ou de saúde, que de alguma forma também é afetada (VAZ, 2015). 22 Recomenda-se ainda que futuras pesquisas possam expandir o escopo de análise, incluindo publicações em periódicos nacionais, o que contribuirá para uma compreensão mais ampla e atualizada das práticas e desafios na gestão de desastres em todo o país. Estudos comparativos entre diferentes regiões também podem fornecer insights valiosos sobre a eficácia das políticas de gestão de riscos implementadas em contextos diversos. Além disso, investigações com metodologias empíricas, que incluam dados de campo e a percepção das comunidades afetadas, podem enriquecer a produção acadêmica sobre o tema. Sugere-se que novas pesquisas sejam realizadas em diferentes regiões do país, de forma a se comparar o apoio dado pelo governo nos mais diversos locais. REFERÊNCIAS AGÊNCIA BRASIL. Das 441 cidades em calamidade no RS, só 69 pediram recursos federais. Prefeitos estão focados nas ações de resgate, avaliou ministro. Pedro Peduzzi - repórter da Agência Brasil. Publicado em 11/05/2024. Disponível em: . Acesso em: 01 out. 2024. EICHLER-BARKER, Patrícia. Qual o futuro do Rio Grande do Sul? Conheça as estratégias possíveis e os desafios inevitáveis para reerguer e proteger a região. Publicado em 31 mai. 2024. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2024. 23 FORESTI, Andréa Jaeger. Um arranjo interdisciplinar para gestão de riscos de desastres socio naturais com base na engenharia de resiliência. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Engenharia. Programa de Pós- Graduação em Engenharia Civil, Porto Alegre, 2015. FREITAS, Carlos Machado de; XIMENES, Elisa Francioli. Enchentes e Saúde Pública: uma questão na literatura científica recente das causas, consequências e respostas para prevenção e mitigação. Ciência saúde coletiva, v.17, n.6. Rio de Janeiro. Jun. 2012. FURTADO, Janaína. et al. Capacitação básica em Defesa Civil. 3. ed. Florianópolis: CAD UFSC, 2012. GODOY, A. S. Pesquisa qualitativa: tipos fundamentais. Revista de Administração de empresas, São Paulo, v. 35, n. 3, p.20-29, 1995. DOI: 10.18225/ci.inf.v25i3.639. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rae/a/ZX4cTGrqYfVhr7LvVyDBgdb/?lang=pt. Acesso em: 13 out. 2024. IPEA. Centro de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Sociedade. Controle de Enchentes: Exemplos do uso da tecnologia e inovação para o controle de enchentes . Publicado em: 13/05/2024. Disponível em: . 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