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CENTRO UNIVERSITÁRIO UNIRB
BACHARELADO EM MEDICINA VETERINÁRIA
LUANA SOARES NASCIMENTO ARCANJO¹
A UTILIZAÇÃO DE CANABINOIDES PARA TRATAMENTO DE DOR CRÔNICA EM CÃES E GATOS: REVISÃO DA LITERATURA
Salvador
2024
LUANA SOARES NASCIMENTO ARCANJO¹
A UTILIZAÇÃO DE CANABINOIDES PARA TRATAMENTO DE DOR CRÔNICA EM CÃES: REVISÃO DA LITERATURA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Medicina Veterinária, Centro Universitário Unirb, como requisito parcial para a conclusão da disciplina de TCC1.
Professora de TCC1: Me. Livia Maria Sales Lima Magalhães 
Salvador
2024
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Folha de Cannabis Sativa 5
Figura 2 Número de publicações indexadas ao Pubmed “cannabinoids in therapeutics”, nos anos de 1971 a 30 de outubro de 2021. 6
Figura 3 Fisiologia da dor: transdução, transmissão, modulação e percepção (consciência)											 10
Figura 4 Características da dor fisiológica (imagem A) e da dor clínica ou patológica (imagem B). 11
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 Cronograma do projeto de pesquisa
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
THC Delta-9-tetrahidrocanabinol 
CBD Canabidiol
AINEs anti-inflamatórios não esteroides
SEC Sistema Endocanabinoide 
CMPS Glasgow Composite Measure Pain Scale 
IASP Associação Internacional para o Estudo da Dor 
GPCRs G-protein-coupled receptors
SUMÁRIO
1	INTRODUÇÃO	4
1.1 TEMA	6
1.2 PROBLEMA	6
1.3 HIPÓTESE	6
1.4 OBJETIVOS	6
1.4.1 Objetivos geral	6
1.4.2 Objetivos específicos	6
1.5 JUSTIFICATIVA	6
2.	METODOLOGIA	7
3.	REVISÃO DE LITERATURA	7
3.1 O QUE É DOR?	7
3.1.1 Dor Crônica	8
3.2 FISIOLOGIA DA DOR	9
3.3 SISTEMA ENDOCANABINÓIDE	11
3.3.1 Mecanismos de ação dos canabinoides	12
4.	RESULTADOS ESPERADOS	13
5.	CRONOGRAMA	14
REFERÊNCIAS	15
¹ Graduanda do curso de medicina veterinária, do Centro Universitário UNIRB, polo Salvador – e-mail: vetluanasoares@gmail.com 
1 INTRODUÇÃO
 Acredita-se que a Cannabis (figura 1) tenha se originado na Ásia Central e Meridional, onde, desde o período neolítico, era utilizada na confecção de cordas e tecidos. Registros históricos, como o livro Pen-Tsao, de Shennong, datado de 2800 a.C., indicam que a Cannabis foi uma das primeiras plantas a ser reconhecida por suas propriedades terapêuticas e medicinais, sendo empregada no tratamento de dores menstruais, reumatismo, gota e outras enfermidades. Mais tarde, em 1000 a.C., o cultivo da Cannabis foi incorporado ao hinduísmo, onde passou a ser utilizada na preparação de uma bebida tradicional chamada Bhang, que ainda é consumida na cultura indiana e hindu até os dias de hoje. Na mitologia, a Cannabis era a comida preferida do deus Shiva, portanto, tomar bhang, uma bebida que contém maconha, seria uma forma de se aproximar da divindade. Na tradição Mahayana do budismo, fala-se que antes de Buda alcançar a iluminação, ficou seis dias comendo apenas uma semente de maconha por dia e nada mais. Como medicamento a planta era usada para curar prisão de ventre, cólicas menstruais, malária, reumatismos e até dores de ouvido (Psicodelia, 2012).
Figura 1 Folha de Cannabis Sativa
Fonte: Site Shutterstock, 2024
Registros no documento oficial do governo brasileiro (Ministério das Relações Exteriores, 1959) revelam que: "A planta teria sido introduzida em nosso país, a partir de 1549, pelos negros escravos, como alude Pedro Corrêa, e as sementes de cânhamo eram trazidas em bonecas de pano, amarradas nas pontas das tangas" (Pedro Rosado). Encontramos mais evidências que comprovam essa afirmação no livro Bangue (1953) escrito pelo autor Português Garcia da Orta, onde dois personagens africanos descrevem os efeitos da planta.
Apesar dessa relação antiga, os estudos que explicam os mecanismos de ação da planta começaram a pouco tempo (figura 2), pois acreditava-se que os seus efeitos adversos, conhecidos até aqui, eram resultados de sua interação com a membrana celular, e somente em 1960, Raphael Mechoulam, conhecido como o “pai da pesquisa canabinoide” descobriu o principal composto psicoativo da planta, o THC (delta-9-tetrahidrocanabinol) e o isolaram pela primeira vez em 1964. Vinte anos depois, foi a vez do CBD (canabidiol) e em 1985 foi apresentada a síntese pura de Canabidiol que serve até hoje para base de investigação cientifica e aplicações medicinais.
Figura 2 Número de publicações indexadas ao Pubmed “cannabinoids in therapeutics”, nos anos de 1971 a 30 de outubro de 2021
Fonte: José Tiago Campos, Fortaleza, 2022
Adentra-se, assim, às descobertas das moléculas canabinoides, capazes de interagir com o organismo por meio de um sistema endógeno, denominado sistema endocanabinóide, composto de receptores e sinalizadores celulares (Groce, 2017; Malcher- Lopes & Ribeiro, 2019).
1.1 TEMA
A utilização de canabinoides para tratamento de dor crônica em cães e gatos: revisão da literatura.
1.2 PROBLEMA 
Quais são os impactos causados pela dor crônica na qualidade de vida de cães e gatos?
1.3 HIPÓTESE 
A dor crônica pode causar alterações significativas na qualidade de vida de cães e gatos. Quando um animal sofre de dor persistente e contínua, ele pode apresentar mudanças em seu comportamento, tornando-se mais feral ou recluso, dificultando também seu manejo. Além disso, percebe-se alterações no apetite, no sono e redução da sua mobilidade. Desta forma, o animal deixa de desfrutar de atividades simples como comer, interagir com os tutores, explorar e brincar.
1.4 OBJETIVOS
1.4.1 Objetivos geral
O presente trabalho tem como objetivo trazer informações atualizadas baseadas na literatura sobre o uso da cannabis medicinal como opção de tratamento na dor crônica em cães e gatos, visando investigar sua aplicação clínica, seu mecanismo de ação e potencial terapêutico.
1.4.2 Objetivos específicos
· Compreender a fisiologia da dor e seus mecanismos
· Investigar o sistema endocanabinoide 
· Conhecer os mecanismos de ação dos canabinoides, seu potencial terapêutico e eficácia 
1.5 JUSTIFICATIVA
A cannabis medicinal tem potencial para auxiliar no tratamento de diferentes doenças e condições de saúde, a cada avanço, descobrimos novas formas de administração da planta, não só no tratamento de dores crônicas, como também epilepsia, esclerose múltipla, distúrbios alimentares, ansiedade e diversas outras aplicações, entretanto, ainda se faz necessário o aprofundamento da ciência no âmbito da medicina veterinária, onde as evidências ainda são limitadas.
Acredita-se que esse projeto pode ajudar a esclarecer e, além de tudo, a quebrar os preconceitos relacionados à planta, servindo de incentivo a novos estudos e pesquisas, consequentemente contribuir para o avanço da medicina e da ciência. 
2. METODOLOGIA
O presente trabalho consiste em uma pesquisa de caráter explicativo e descritivo, com abordagem qualitativa. A pesquisa foi desenvolvida por meio de uma revisão de literatura em bancos de dados como SciELO, Google Acadêmico, PubVet e Pubmed. Utilizaram-se palavras-chave como "Cannabinoids", "Cannabinoids pain", "THC pain", "Medical Cannabinoids" e "dor crônica". 
A busca priorizou a seleção de artigos e publicações relevantes que apresentassem dados atualizados e evidências científicas consistentes. Os critérios de inclusão e exclusão foram rigorosamente definidos para garantir a qualidade das fontes analisadas, permitindo uma análise fundamentada e crítica dos resultados encontrados. A pesquisa visa contribuir para a compreensão do potencial terapêutico dos canabinoides no manejo da dor crônica, um tema de crescente relevância na medicina contemporânea.
No Google Acadêmico foram selecionados 27 artigos, 
3. REVISÃO DE LITERATURA 
3.1 O QUE É DOR?
A dor é definida como uma “experiência sensorial e emocional desagradável, resultante de uma lesão potencial ou real”, de acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP,2011). Esse fenômeno envolve um processo complexo que serve para proteger a integridade dos tecidos e órgãos, sendo desencadeado por estímulos nocivos que provocam desconforto. Assim, a dor se torna uma questão de relevância clínica, afetando o bem-estar tanto de animais quanto de seres humanos.
A dor pode ser classificada de acordo com sua origem e mecanismo. A dor fisiológica atua como uma resposta temporária a estímulos nocivos, desencadeando reações rápidas de proteção, como o reflexo de retirada. Em contrapartida, a dor patológica surge de processos inflamatórios persistentes ou lesões no sistema nervoso, podendo ser subdividida em dor nociceptiva e neuropática. A dor nociceptiva é aquela resultante da ativação de nociceptores, receptores responsáveis pela detecção de lesões nos tecidos, e pode ser classificada como somática, quando envolve a pele ou o sistema músculo-esquelético, ou visceral, quando está associada aos órgãos internos (Trindade; Batista; Silva, 2013). Já a dor neuropática está relacionada a danos no sistema nervoso, seja central ou periférico, provocanmultido uma sensação dolorosa persistente, mesmo na ausência de estímulos imediatos (Klaumann et al., 2008).
Além disso, a dor pode ser caracterizada quanto à sua duração: 
A dor aguda atua como um mecanismo biológico de proteção e alerta para lesões recentes ou doenças, enquanto a dor crônica, com duração superior a três meses, perde sua função protetora e se torna uma patologia por si só, comprometendo significativamente a qualidade de vida do animal. (Klaumann; Wouk; Sillas, 2008; Mathews et al., 2014).
O sistema nociceptivo, que coordena a percepção da dor, opera através de redes de modulação, regulando a intensidade e a duração da resposta dolorosa. Esse sistema está constantemente ajustando a percepção da dor em resposta a diversos fatores, o que explica por que alguns estímulos podem ser percebidos como mais ou menos intensos dependendo do contexto e da condição fisiológica (Meintjes, 2012).
3.1.1 Dor Crônica
A dor crônica em animais é caracterizada pela persistência da dor por um período superior a três meses, mesmo após a cicatrização de lesões ou na ausência de lesão aparente (Mathews et al., 2014). Essa condição pode afetar significativamente a qualidade de vida dos animais, levando a alterações comportamentais e emocionais, como agressividade, depressão e mudanças nos padrões de atividade.
O manejo da dor crônica em medicina veterinária requer uma abordagem analgésica multimodal, que combina diferentes classes de analgésicos e outras categorias farmacológicas (Mathews et al., 2014; Lee et al., 2013; Fantoni; Martins, 2012). Os medicamentos frequentemente utilizados nos protocolos de analgesia multimodal incluem, AINEs, anestésicos locais, agonistas alfa2-adrenérgicos, opioides, antagonistas NMDA (Mathews et al., 2014). Além desses, há também fármacos adjuvantes, como anticonvulsivantes, por exemplo, a gabapentina (Beckman, 2013; Macintyre et al., 2010; Lamont, 2008b). 
Além das intervenções farmacológicas tradicionais, o tratamento da dor crônica em animais pode incluir o uso de canabinoides como uma estratégia alternativa promissora (Andrade et al., 2022). Assim, a utilização de canabinoides no manejo da dor crônica representa uma alternativa eficaz, podendo ser combinada com outras terapias não farmacológicas, como a fisioterapia e a acupuntura, que também contribuem para a reabilitação e a qualidade de vida dos animais.
A avaliação da dor em animais é crucial no manejo da dor crônica. As escalas unidimensionais, como a escala numérica, a escala descritiva simples e a escala analógica visual, são reconhecidas e utilizadas, mesmo sendo subjetivas. Em contraste, as escalas compostas permitem uma avaliação mais detalhada da condição dos pacientes, levando em conta não apenas a intensidade da dor, mas também informações fisiológicas e comportamentais, resultando em uma avaliação mais precisa, como a escala de dor em cães e gatos ou a Glasgow Composite Measure Pain Scale (CMPS), são ferramentas úteis para que os veterinários monitorem a intensidade da dor e ajustem as intervenções terapêuticas conforme necessário (Mathews et al., 2014).
3.2 FISIOLOGIA DA DOR
A percepção da dor é um fenômeno complexo que envolve uma interação de mecanismos anatômicos e fisiológicos, pelos quais um estímulo nocivo é gerado e, posteriormente, transmitido através de vias neurológicas a partir de receptores especializados chamados nociceptores (Voscopoulos & Lema, 2010). Esses processos são fundamentais para a compreensão da experiência dolorosa e suas implicações no funcionamento do organismo.
O primeiro passo na fisiologia da dor em animais é a transdução (figura 3), onde os nociceptores, localizados em tecidos periféricos, detectam estímulos nocivos, como pressão extrema, lesões mecânicas ou temperaturas elevadas. Esses nociceptores, que são terminações nervosas livres, são sensíveis a diferentes tipos de estímulos: nociceptores mecânicos respondem à pressão, nociceptores térmicos respondem a temperaturas extremas, e nociceptores químicos são ativados por substâncias inflamatórias. A detecção dessas condições é crucial, pois os nociceptores convertem esses estímulos em potenciais de ação, iniciando o processo de percepção da dor (Gozanni, 2003).
Na sequência, durante a transmissão (figura 3 e 4), os impulsos gerados são conduzidos por fibras nervosas especializadas. As fibras A-delta, que são mielinizadas e conduzem sinais rapidamente, são responsáveis pela dor aguda e localizada. Em contraste, as fibras C, que são não mielinizadas, transmitem sinais de dor mais difusa, como a dor crônica. Essa diferenciação é crucial, pois impacta a forma como a dor é percebida e localizada, com os sinais viajando pela via espinhal até o cérebro, onde são interpretados.
Figura 3 Fisiologia da dor: transdução, transmissão, modulação e percepção (consciência)
Fonte: Bulário Vetsmart, Agener União, 2018
Na etapa de modulação (figura 3 e 4), ocorre o processamento desses sinais na medula espinhal, onde a dor pode ser amplificada ou inibida. Esse processo envolve interneurônios e a liberação de substâncias neuroquímicas, como serotonina, noradrenalina, endorfinas e substância P. Essas substâncias modulam a transmissão dos sinais de dor, influenciando tanto a intensidade quanto a qualidade da dor percebida. A modulação é vital para a resposta do organismo a estímulos dolorosos, podendo resultar em hiperalgesia (aumento da sensibilidade à dor) ou alodinia (dor devido a estímulos normalmente não dolorosos).
Finalmente, na etapa de percepção (figura 3 e 4), os sinais de dor atingem o cérebro, onde são processados por estruturas como o tálamo, córtex somatossensorial e sistema límbico. O tálamo atua como uma estação de retransmissão, enquanto o córtex somatossensorial é responsável pela localização e intensidade da dor. O sistema límbico, por sua vez, associa a dor com emoções e memórias, o que pode afetar a resposta do animal à dor. Fatores individuais, influenciam essa interpretação, tornando a experiência da dor única para cada animal. 
Figura 4 Características da dor fisiológica (imagem A) e da dor clínica ou patológica (imagem B).
Fonte: Luna SPL & Carregaro AB. Anestesia e analgesia em equídeos, ruminantes e suínos. Ed Medvet 2018²
A modulação da dor em animais é fortemente influenciada por fatores emocionais e psicológicos, como estresse e medo. Isso faz com que, muitas vezes, a dor seja subestimada ou não reconhecida de imediato pelos cuidadores e profissionais. Portanto, o manejo adequado da dor em medicina veterinária deve incluir abordagens multimodais, combinando terapias farmacológicas com técnicas não farmacológicas, para garantir o conforto e bem-estar do animal (SteagalL et al., 2018).
3.3 SISTEMA ENDOCANABINÓIDE
O Sistema Endocanabinoide (SEC) é um complexo sistema biológico que desempenha um papel essencial na manutenção da homeostase em mamíferos. Ele é composto por três elementos principais: os endocanabinoides,que são compostos lipídicos endógenos produzidos pelo próprio organismo; os receptores canabinoides, principalmente CB1 e CB2, localizados em diferentes tecidos e órgãos; e as enzimas responsáveis pela síntese e degradação dos endocanabinoides. Este sistema está amplamente envolvido na regulação de várias funções fisiológicas, como dor, inflamação, humor, apetite, memória e resposta imunológica.
3.3.1 Mecanismos de ação dos canabinoides
A cannabis contém mais de 60 fitocanabinoides com atividade farmacológica. O principal fitocanabinoide responsável pela ação psicoativa é o Δ9-tetrahidrocanabinol (THC), que também possui propriedades terapêuticas, como anti-inflamatória, analgésica, relaxante muscular, estimulante de apetite, broncodilatadora e redutora da pressão ocular. Outro fitocanabinoide importante é o canabidiol (CBD), associado a efeitos ansiolíticos, antieméticos, antipsicóticos, imunomoduladores e anti-inflamatórios. A cannabis com maior concentração de THC é chamada de maconha, enquanto aquela com predominância de canabidiol é conhecida como cânhamo industrial.
São moléculas sinalizadoras lipídicas produzidas endogenamente e desempenham um papel crucial na manutenção da homeostase ao atuarem em diversos sistemas fisiológicos, como o sistema nervoso central e periférico, o sistema imunológico, e o sistema cardiovascular (Matos, 2017). Os dois principais endocanabinoides identificados são a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG), ambos derivados de ácidos graxos poli-insaturados.
O mecanismo de ação dos endocanabinoides envolve a ativação de receptores canabinoides específicos, predominantemente os receptores CB1 e CB2, que são receptores acoplados à proteína G (G-protein-coupled receptors - GPCRs). O receptor CB1 é abundantemente encontrado no sistema nervoso central, particularmente em áreas responsáveis pela modulação da dor, memória, e controle motor, como o córtex cerebral, o hipocampo e os gânglios da base (Di Marzo et. al, 2011). Já o receptor CB2 é predominante em células do sistema imunológico e em tecidos periféricos, exercendo um papel relevante na regulação de respostas inflamatórias, ligado a liberação de quimiocinas, citocinas e migração celular de macrófagos e neutrófilos e imunomodulação, este por sua vez está ligado ao alívio da dor, por modular a liberação da dopamina no sistema (Zhang et. al, 2017).
Uma das características mais notáveis do sistema endocanabinoide é sua função de sinalização retrógrada. Diferente de neurotransmissores convencionais, que são liberados da célula pré-sináptica, os endocanabinoides são sintetizados "sob demanda" na célula pós-sináptica em resposta à atividade neural. Uma vez liberados, eles atravessam a membrana celular e se ligam aos receptores CB1 localizados na célula pré-sináptica, inibindo a liberação de neurotransmissores excitatórios, como o glutamato, ou inibitórios, como o GABA. Esse mecanismo contribui para a regulação da excitabilidade neuronal, modulando processos como a percepção de dor, memória, e resposta ao estresse.
Além disso, os endocanabinoides são rapidamente degradados após cumprirem sua função. A anandamida é degradada principalmente pela enzima amido hidrolase de ácidos graxos (FAAH), enquanto o 2-AG é catabolizado pela monoacilglicerol lipase (MAGL). A ação dessas enzimas garante que os endocanabinoides não permaneçam em excesso nos tecidos, prevenindo disfunções no sistema de sinalização. 
Em termos de efeitos terapêuticos, o sistema endocanabinoide tem sido alvo de estudos devido à seu potencial modulação de condições patológicas, como dor crônica, inflamação, ansiedade e epilepsia. A capacidade dos endocanabinoides de influenciar tanto receptores no sistema nervoso quanto no sistema imunológico faz com que seu mecanismo de ação seja uma área de grande interesse para o desenvolvimento de novos tratamentos.
4. RESULTADOS ESPERADOS
Este estudo busca aprofundar o conhecimento sobre o uso de canabinoides no tratamento da dor crônica em cães, explorando seu potencial terapêutico e contribuindo para a construção de uma base científica sólida sobre o tema. A pesquisa procura não apenas demonstrar os benefícios clínicos dessa abordagem, mas também desmistificar conceitos errôneos e preconceitos históricos relacionados à utilização da cannabis em contextos médicos. Ao integrar evidências científicas e práticas éticas, espera-se que os resultados deste trabalho ampliem as opções terapêuticas disponíveis para o manejo da dor em animais de pequeno porte, especialmente aqueles acometidos por condições crônicas que impactam diretamente sua qualidade de vida. 
Além disso, ao abrir espaço para novas perspectivas de uso clínico da planta, este projeto pode desempenhar um papel significativo no incentivo a investigações futuras e na promoção de debates fundamentados, que contribuam para a aceitação e regulamentação do uso responsável de derivados da cannabis. Assim, acredita-se que esta pesquisa tenha o potencial de fortalecer o desenvolvimento da medicina veterinária, demonstrando que o uso adequado de canabinoides pode ser uma ferramenta valiosa tanto para o bem-estar animal quanto para o avanço científico.
5. CRONOGRAMA
O quadro abaixo (quadro 1) representa um cronograma elaborado para conclusão e entrega do projeto de pesquisa da disciplina de TCC 1, visando programar cada etapa, gerando além disto, uma estimativa para entrega do trabalho na disciplina de TCC 2, no semestre de 2025.1
Quadro 1 Cronograma do projeto de pesquisa
	CATIVIDADES/MÊS
	2024.2
	2025.1
	
	AGO
	SET
	OUT
	NOV
	DEZ
	JAN
	FEV
	MAR
	ABR
	MAR
	MAI
	JUN
	Escolha do tema
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Definição do problema/ objetivos
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Revisão de literatura
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Elaboração do projeto de pesquisa
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Entrega do projeto de pesquisa
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Construção dos Resultados
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Construção da Discussão
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Conclusão
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Formatação e revisão ortográfica
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Entrega da Monografia
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	Defesa da Monografia
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
	
Fonte: Arquivo pessoal, 2024
REFERÊNCIAS
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