Prévia do material em texto
1 FONOAUDIOLOGIA ASPECTOS CONCEITUAIS 1 Sumário 1. INTRODUÇÃO ................................................................................... 2 2. FONOAUDIOLOGIA ........................................................................... 6 2.1 Fonoaudiologia no Brasil ......................................................... 7 3. PRÁTICA FONOAUDIOLÓGICA ...................................................... 15 4. A INSERÇÃO DA FONOAUDIOLOGIA NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA ........................................................................................... 22 4.1 Uma experiência de organização da fonoaudiologia atuando em equipe multiprofissional na estratégia saúde da família .............. 24 5. PROFISSÃOE FONOAUDIOLOGIA ................................................. 33 6. REFERÊNCIAS ................................................................................ 37 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 1. INTRODUÇÃO A ampla atuação do fonoaudiólogo na educação está sendo consolidada, gradativamente. Para que essa ação possa se firmar e abrir novos espaços, além de uma formação diferenciada, faz-se necessária, primordialmente, uma visão que ultrapasse abordagens com foco na detecção e intervenção clínica remediadora de problemas já existentes, como se a população escolar fosse um conjunto de potenciais “pacientes”. Para refletir sobre o fazer do fonoaudiólogo na educação, deve-se ter em mente que um dos pontos historicamente fracos de nossa educação, desde as etapas mais iniciais, está ligado às grandes dificuldades encontradas para desenvolver habilidades comunicativas orais e, acima de tudo, em linguagem escrita. Sem dominar tais competências, dificilmente, como visto ao longo de muitos anos, a população estudantil chega a ter um bom desempenho acadêmico, o que tem acarretado enormes prejuízos em termos de inserção social e equilíbrio emocional. Cabe ressaltar o objeto central da Fonoaudiologia é o de promover, de forma otimizada, o desenvolvimento da linguagem oral e da linguagem escrita. Seguindo esse princípio, o fonoaudiólogo, em sua ação educacional, deve ter, como prioridade, os principais problemas enfrentados pela educação, com especial atenção para a grande limitação em garantir uma alfabetização e um letramento capaz de garantir um domínio funcional da linguagem escrita, ou seja, certas competências fundamentais em leitura e escrita. O estudante tem uma dificuldade não justificável para ler e compreender, assim como para se expressar claramente através da escrita. O que é mais agravante é o fato de que tal dificuldade não está restrita àqueles alunos que apresentam problemas de aprendizagem em virtude de algum tipo de déficit funcional, como é o caso dos transtornos de aprendizagem, ou que estão participando de programas de inclusão ou de educação especial. Considerando a gravidade dessa situação e a urgência de se buscar respostas que possam modificar tal realidade, as considerações abordadas têm por objetivo levar uma reflexão sobre o fonoaudiólogo que possam contribuir para que sua ação possa ser cada vez mais efetiva na esfera educacional. Para tanto, em primeiro lugar, serão discutidos temas ligados ao fracasso escolar, às 4 etapas iniciais do ensino da leitura e da escrita, como é o caso da diferenciação entre letramento e alfabetização, assim como do papel dos chamados “métodos” de ensino na história de uma dificuldade para ensinar que remonta de longa data. Em um segundo momento, estaremos abordando questões ligadas à inclusão, mais especificamente os entraves à verdadeira inclusão de uma parcela da população de estudantes que apresenta, de acordo com a terminologia do próprio Ministério da Educação, os chamados “transtornos funcionais da aprendizagem”, como, por exemplo, a dislexia e a discalculia. Na década de 90, o advento da formação continuada nas áreas de linguagem, audição, voz e motricidade orofacial propiciou a inclusão do fonoaudiólogo em diferentes setores da saúde. Tal contexto gerou novos desafios acadêmicos, científicos e profissionais que demandaram significativas revisões da prática clínica fonoaudiológica. Atualmente, é possível encontrar o fonoaudiólogo atuando em vários contextos profissionais, a saber: hospitais, escolas, creches, clínicas, empresas, unidades básicas de saúde, meios de comunicação e atividades artísticas (teatro, cinema, canto). Em cada uma dessas instâncias, diferentes métodos e técnicas de intervenção vêm sendo desenvolvidos e aprimorados quanto a procedimentos de avaliação, diagnóstico, terapia e assessoria. Porém, muitas vezes essas práticas não dialogam e/ou não são analisadas numa abordagem que permita a compreensão/valorização das possibilidades de participação do fonoaudiólogo na inserção social e profissional de seus clientes. Nessa direção, ressalta-se que a linguagem falada e escrita desempenha papel fundamental em termos afetivo, social e ocupacional do indivíduo. Prejuízos nesse âmbito podem influenciar a inserção social e o desempenho profissional do indivíduo, seja pela dificuldade de compreensão ou de expressão. Crianças e adultos com dificuldades de comunicação podem sofrer pela exclusão do convívio social e restrições na interação familiar. Em estudo que teve por objetivo desenvolver um programa de orientação fonoaudiológica com familiares de 12 adultos afásicos, verificou-se que as dificuldades nas habilidades comunicativas dos pacientes influenciaram diretamente as relações familiares e sociais de maneira ampla. Além disso, ficou clara a dificuldade dos 5 familiares quanto à utilização de estratégias para facilitar a comunicação com esses sujeitos. Portanto, essas questões, além de resultar em perda de autonomia para o paciente, trazem problemas de discriminação social e dificultam a sua inserção social. Assim, a entrada e participação do sujeito no meio profissional, segundo Rocha-de-Oliveira e Piccinini (2012), não podem ser reduzidas a mecanismos econômicos. A inserção profissional deve ser entendida como um processo histórico e socialmente inscrito e, nessa perspectiva, a comunicação é fator essencial para o desempenho do sujeito nesse processo. Em pesquisa realizada com 30 sujeitos surdos, por meio de entrevista semi-estruturada, verificou -se que a deficiência na comunicação é a maior dificuldade enfrentada por eles. Tal fato é observado especialmente no meio profissional, resistente à aceitação social do sujeito no mercado de trabalho. Outro exemplo da influência das dificuldades de comunicação no meio ocupacional são os profissionais da voz, especialmente oplenamente as condições anteriormente apresentadas. Assim fazendo, a Fonoaudiologia estará marcando o seu espaço entre asciências edefinindo asações que o profissional da áreaestácapacitado a desenvolver, visando a atender à sociedade e seus integrantes de forma objetiva, clara e consistente. 37 6. REFERÊNCIAS BERBERIAN, A. P. Fonoaudiologia e educação: um encontro histórico. São Paulo: Plexus, 1995. COELHO, Ideo Moreira. Ensino de Graduação e Currículo. Texto apresentado no Encontro de Trabalho sobre Currículo. Campinas: PUCCAMP (mimeo), 1991. CO~LHO, Ideo Moreira. Graduação: rumos e perspectivas.Revista Avaliação- Redede Avaliação Institucional da Educação Superior- RAIES. 3(3),1998. DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir – relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. São Paulo: Cortez, 2000. GIERRE, R. N. A natureza da ciência: uma perspectiva iluminista pós-moderna. Colóquio Ciências, Lisboa, n. 6, set./dez., 1989. HODSON, D. Filosofia da ciencia y educatión científica. In: PORLÁN, R.; GARCIA, J.; CAÑAL (Org.). Constructivismo y ensenanza de lãs ciencias. Sevilha: Diada, 1988. p. 5-21. JAQUES, D. Educação: um tesouro a descobrir. Brasília: Cortez, 2000. MOIGNE, J. L. O construtivismo dos fundamentos. Lisboa: Instituto Piaget, 1994. MORIN, E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. PAIXÃO, M. F. C. S. Os desafios da reforma curricular e a formação de ciências da natureza do 1º ciclo do ensino básico. 1993. 378f. Dissertação (Mestrado) – Universidade de Aveiro, Aveiro, 1993. SCAVAZZA, B. L. Um dia da caça, outro... In: FERREIRA, L. P. (Org.). O fonoaudiólogo e a escola. São Paulo: Summus, 1991. p. 119-30. SEBASTIÃO, L. T. Educação infantil e Fonoaudiologia: ouvindo e falando sobre a audição. 2001. 294 f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília, 2001. 38 SMOLKA, A. L. B. A criança na fase inicial da escrita: alfabetização como processo discursivo. 6. ed. São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da Unicamp, 1993.professor, que é aquele que frequentemente procura o fonoaudiólogo para resolver os problemas de voz e que representa uma categoria de risco para esses distúrbios. A relevância do tema começa a ter reflexos nas políticas públicas, com a tramitação no Ministério da Saúde do documento “Distúrbio de Voz Relacionado ao Trabalho”, entendida como qualquer alteração vocal diretamente relacionada ao uso da voz durante a atividade profissional que diminua, comprometa ou impeça a atuação do trabalhador. Em síntese, a atuação fonoaudiológica abrange também processos que visam minimizar os efeitos das dificuldades de comunicação, na medida em que o profissional seja capaz de incorporar em sua prática as implicações psicossociais desses distúrbios e delinear a sua intervenção com o intuito de favorecer a inserção social e profissional de seus pacientes. Feitas essas considerações, o objetivo desta pesquisa foi investigar a percepção dos fonoaudiólogos sobre como sua atuação afeta a integração social e profissional de seus clientes. 6 2. FONOAUDIOLOGIA A Fonoaudiologia ou Terapia da fala e Audiologia, antes denominada logopedia é a ciência que tem como objeto de estudo as funções biológicas e comportamentais envolvidas na comunicação humana. Essas funções incluem funções neurovegetativas (mastigação, deglutição e aspectos funcionais da respiração) e neurológicas, no que se refere ao seu desenvolvimento, aperfeiçoamento, distúrbios e diferenças, em relação aos aspectos envolvidos nas funções auditiva periférica e central, na função vestibular, na função cognitiva, na linguagem oral e escrita, na fala, na fluência, na voz, nas funções estomatognáticas, orofaciais e na deglutição.” O fonoaudiólogo é um profissional da saúde e atua nas funções de pesquisa, orientação, perícias, prevenção, avaliação, diagnóstico e tratamento fonoaudiólogo na área da comunicação oral e escrita, voz, audição e equilíbrio, sistema nervoso e sistema estomatognático incluindo a região cérvicofacial. Este profissional tem ampla autonomia, não sendo subordinado ou mero auxiliar de outras áreas do conhecimento ou especialidades, pode atuar sozinho ou em conjunto com outros profissionais de saúde em clínicas, hospitais, centros especializados em diagnósticos, institutos gerais de perícia, centros de referência em saúde do trabalhador, como auxiliar do poder judiciário no âmbito das perícias judiciais que envolvem a área da audição, fala e linguagem, equilíbrio e demais áreas correlatas, nas esferas civil, trabalhista e criminal, em creches, escolas (comuns e especiais) e comunidades, incluindo o Programa de 7 Saúde da Família, unidades básicas de saúde, unidades de referência para a média e alta complexidade de procedimentos do SUS, emissoras de rádio e televisão, teatro, atendimento domiciliar, empresas de próteses auditivas, indústrias, centros de habilitação e reabilitação, entre outros. Existe ainda a Fonoaudiologia Forense, que é a atuação em processos judiciais que envolvam exames biométricos para identificação através de voz, fala, linguagem, marcha, face, escrita, postura e tudo o mais que se relaciona com realizações humanas. Os registros mais antigos sobre como surgiu a fonoaudiologia são dos anos 30, onde problemas na linguagem em escolares eram discutidos pela medicina e a educação. Na década de 60, deu-se início ao ensino da Fonoaudiologia no Brasil, com a criação dos cursos da Universidade de São Paulo (1961), vinculado à Clínica de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1962), ligado ao Instituto de Psicologia. Ambos estavam voltados à graduação de tecnólogos em Fonoaudiologia, sendo que o primeiro currículo mínimo, fixando as disciplinas e a carga horária destes cursos, foi regulamentado pela Resolução n° 54/76, do Conselho Federal de Educação. Nos anos 70, tiveram início os movimentos pelo reconhecimento dos cursos e da profissão. Foram criados, então, os cursos em nível de bacharelado, e o curso da Universidade de São Paulo foi o primeiro a ter seu funcionamento autorizado, em 1977. 2.1 Fonoaudiologia no Brasil No Brasil, existem 114 cursos de Fonoaudiologia cadastrados pelo MEC. O curso denominado Fonoaudiologia tem duração média de quatro anos contendo as disciplinas básicas da área de Medicina, Psicologia e Pedagogia, além de matérias específicas da área de Física e aulas de Fonética e Linguística. Para saber quais são os cursos existentes é aconselhável visitar o site do Conselho Federal de Fonoaudiologia. A Lei que rege a profissão de Fonoaudiólogo no Brasil é a Lei nº 6.965, sancionada em 9 de Dezembro de 1981, tendo a mesma sido regulamentada pelo Decreto nº 87.218, de 31 de maio de 1982. A referida legislação além de 8 determinar a competência do fonoaudiólogo também criou o Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFFa) e os Conselhos Regionais de Fonoaudiologia (CRFa) que possuem como principal realizam a fiscalização e avaliação do exercício profissional. A profissão possui seu Código de Ética, que elenca e disciplina os direitos, deveres e responsabilidades do Fonoaudiólogo, inerentes às relações estabelecidas em função de sua atividade profissional. De acordo com o código de Ética da Fonoaudiologia, no Brasil, constituem direitos gerais dos Fonoaudiólogos inscritos nos Conselhos Regionais de Fonoaudiologia, nos limites de sua competência e atribuições: 1. Exercício da atividade sem ser discriminado; 2. Exercício da atividade com ampla autonomia e liberdade de convicção; 3. Avaliação, solicitação, elaboração e realização de exame, diagnóstico, tratamento e pesquisa, emissão de parecer, laudo e/ou relatório, docência, responsabilidade técnica, assessoramento, consultoria, coordenação, administração, orientação, realização de perícia e demais procedimentos necessários ao exercício pleno da atividade; 4. Liberdade na realização de estudos e pesquisas, resguardados os direitos dos indivíduos ou grupos envolvidos em seus trabalhos; 5. Liberdade de opinião e de manifestação de movimentos que visem a defesa da classe; 6. Requisição de desagravo junto ao Conselho Regional de Fonoaudiologia da sua jurisdição, quando atingido no exercício da atividade profissional; 7. Consulta ao Conselho de Fonoaudiologia de sua jurisdição quando houver dúvidas a respeito da observância e aplicação deste Código, ou em casos omissos. Conforme normas oficiais, pode atuar em sete áreas distintas: Audiologista O Audiologista é o fonoaudiólogo especialista que se dedica ao estudo do sentido audição, desde a recepção das ondas sonoras pelo ouvido até o completo processamento das informações auditivas pelo córtex do sistema nervoso central, dedicando-se, pois, ao estudo da anatomia, da fisiologia, da 9 neurofisiologia e das patologias de todo o aparelho auditivo. Este profissional sem dúvida, é o mais capacitado para diagnosticar, atestar e tratar os distúrbios da audição e suas consequências no dia-a-dia do indivíduo por eles acometido, daí o porquê vem sendo muito requisitado na esfera do poder judiciário para que realize perícias nas questões que envolvem a audição, pois para o judiciário não basta saber que há lesão e o seu grau, é fundamental para a decisão do Juiz saber de que forma aquela lesão afeta a vida do cidadão. O Audiologista é por vezes confundido com o Otorrinolaringologista que é o especialista que se dedica ao estudo do ouvido, não tendo seu espectro de estudo ampliado para todos os aspectos do sentido da audição, seu processamento e suas influências no processo de linguagem e comunicação humana. O Audiologista realiza exames audiológicos e otoneurológicos (audiometria tonal limiar, audiometria vocal, índice de reconhecimento de fala, imitânciometria acústica, provasde função tubária, teste de reflexos neurológicos estapedianos, emissões otoacústicas transientes e evocadas por produto de distorção, audiometria de tronco encefálico, potenciais evocados de curta, média e de longa latência, monitoração transoperatória em neurocirurgias, vídeonistagmografia comum e infravermelha, vectoeletronistagmografia, rinometria acústica, exames de processamento auditivo central [avaliação de como o sistema nervoso central está processando a audição], dentre outros) para verificar se a função auditiva dos pacientes está normal ou se apresenta algum tipo de problema. Nesta área, o Fonoaudiólogo especialista em audiologia, realiza diagnósticos, prognósticos e estabelece tratamentos ou auxilia no estabelecimento de condutas de outros profissionais da área da saúde tais como pediatras, otorrinolaringologistas, neurologistas, neurocirurgiões, geriatras, clínicos gerais e outros. O audiologista também se dedica ao estudo de física, acústica e psicoacústica, fundamentais para que possa compreender o funcionamento eletrônico complexo das próteses auditivas, o que o habilita a selecionar, ajustar, regular e adaptar aparelhos auditivos de forma precisa, para corrigir a função auditiva afetada por diferentes graus e formas de lesões, de pessoas em todas as faixas de idade a partir dos primeiros meses de vida. 10 Este profissional deve ser consultado regularmente, desde os primeiros dias de vida, onde é realizada uma avaliação da capacidade auditiva do bebê ao nascimento, posteriormente ao completar 1 ano de vida, e ao entrar em idade escolar, ou quando apresentar quaisquer sintomas como dor, sensação de ouvido tapado, tonturas, zumbidos (chiado), estalos, e dificuldades para ouvir. A otoneurologia se dedica a diagnósticos relacionados à função vestibular que participa do controle do equilíbrio do indivíduo, área de fusão entre a fonoaudiologia, otorrinolaringologia e neurologia, cujas doenças desse sistema são popularmente conhecidas como "labirintites". Juntamente com o Otorrinolaringologista, o audiologista, participa da cirurgia de implante coclear (dispositivo eletrônico implantado no nervo da audição) fazendo exames antes e depois do implante para saber se o paciente reagiu bem ao aparelho, indicando ao Otorrino aonde colocar o aparelho na orelha do paciente. O audiologista pode também fazer a monitoração de pacientes em coma, auxiliando no prognóstico destes pacientes, realiza exames eletrofisiológicos da audição para auxiliar no processo de diagnóstico de morte encefálica, e pode realizar monitoração da ototoxicidade* ao paciente quando em uso de certas medicações como é o caso do uso dos antibióticos conhecidos como aminoglicosídios (amicacina, arbecacina, gentamicina, canamicina, azitromicina, neomicina, netilmicina, paromomicina, rodostreptomicina, estreptomicina, tobramicina e apramicina e as antraciclinas - utilizadas em quimioterapias. Este profissional é fundamental em todos os níveis de atenção à saúde, desde a atenção básica, passando pela média até a alta complexidade. Ototoxicidade: danos progressivos nas células sensoriais do sentido da audição e do equilíbrio no ouvido interno: pode resultar em ataxia (andar desequilibrado), vertigens; surdez temporária ou permanente. Linguagem Acompanha o desenvolvimento do bebê desde o nascimento, e a partir daí em consultas regulares, nos aspectos relacionados ao processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem. Estuda problemas relacionados com a aquisição e o desenvolvimento da linguagem, faz diagnósticos de atrasos ou retardos de linguagem, estabelece o tratamento para a habilitação de crianças com atraso 11 ou deficiência desta ordem. Faz avaliação, diagnóstico, prognósticos e estabelece tratamentos para pacientes que adquiriram a linguagem mas a perderam ou passam a apresentar algum distúrbio ou anormalidade por algum motivo, a exemplo de quem sofreu derrame cerebral também chamado de AVE (acidente vascular encefálico), traumas cranianos, isquemias cerebrais, doenças degenerativas do sistema nervoso central (esclerose múltipla, mal de Alzheimer, degeneração olivopontocerebelar, mal de Parkinson, etc.), tumores intracranianos, sequelas de neurocirurgias e outras condições clínicas. Os problemas podem ser retardo na fala ou emissões das primeiras palavras (demora para falar e expressar-se), deficiência na formação de frases - (fala frases de forma incompleta ou mal consegue terminá-las); omissões e acréscimos de sons na fala (pula palavras ou frases inteiras); troca de fonemas (Troca palavras); gagueira (pode ser de origem neural, psicológica ou motora), entre outros. Motricidade Orofacial É a área que estuda a musculatura da face, boca e língua. Soluciona problemas relacionados á: sucção, mastigação, deglutição, respiração, posicionamento da língua de modo errado, dificuldade ou impossibilidade de deglutir alimentos de forma segura que são chamadas de disfagias. É também capacitada para atender problemas de má oclusão (mau alinhamento dentário), tonicidade e mobilidade facial (flacidez muscular de bochecha, lábio e língua), pacientes com bruxismo, entre outros. Realiza avaliações, diagnóstico, prognósticos e estabelece tratamentos para pacientes com comprometimento de alguma das funções primeiramente descritas e que afetam a região da cabeça e pescoço. Também atua na área de estética para quem quer um rosto mais redondo ou mais quadrado ou musculoso e quem tem rugas no canto dos olhos e em outras partes do rosto através de exercícios musculares. Disfagia Anteriormente a disfagia era considerada uma das áreas de atuação do Fonoaudiólogo especialista em Motricidade Orofacial, porém, atualmente se constitui em uma nova especialidade da Fonoaudiologia. A disfagia pode ser definida como dificuldade de deglutição. Caracteriza-se por um sintoma comum 12 de diversas doenças. Pode ser causada por alterações neurológicas como o acidente vascular cerebral (AVC), ou derrame, outras doenças neurológicas e/ou neuromusculares e também alterações locais obstrutivas, como as doenças tumorais do esôfago. Disfagia temporária é comumente observada em pacientes submetidos a cirurgia da coluna cervical via anterior, traumas e pequenos acidentes vasculares cerebrais. O propósito fundamental da identificação da causa da disfagia consiste em selecionar o melhor tratamento que pode variar desde o tratamento de reabilitação fonoaudiológico, a alteração de consistência dos alimentos para evitar a aspiração do conteúdo para o pulmão e pode ter um foco completamente diferente como o cirúrgico no caso de doenças neoplásicas do esôfago. Medidas adicionais paralelas ao diagnóstico das causas seria o de evitar, o máximo possível, as complicações da disfagia: desidratação, infecções pulmonares e subnutrição. Voz O profissional que atua nessa área pode não só prevenir os distúrbios da voz como melhora-la, atuando no aperfeiçoamento e promoção da saúde vocal, tanto na fala como no canto, até a reabilitação das disfonias, com preocupação especial na prevenção dos problemas de voz. Como quando se torna áspera, rouca ou de difícil emissão. A fonooncologia, por exemplo, atua em todos os aspectos e possibilidades de reabilitação do indivíduo que tenha sido acometido por câncer de cabeça e pescoço, assim como promove a inserção do fonoaudiólogo em equipes hospitalares multiprofissionais. Ensinar técnicas que auxiliam a correta postura e seu uso quanto a respiração e impostação vocal por exemplo para quem trabalha na área de telemarketing e em meios de comunicação oral. 13 Saúde Coletiva O profissional que atua nessa área tem como foco a atuação fonoaudiológica no setor público e privado, voltado para uma população específica. É necessário domínio de Epidemiologia, Gestão Pública e Privada,além dos conhecimentos específicos em cada uma das áreas da Fonoaudiologia. Educacional A atuação em fonoaudiologia escolar/educacional contempla ações de promoção de saúde, assessoria, orientação e identificação de características/alterações na área de voz, linguagem, comunicação oral e escrita e audição, tendo como população-alvo alunos, professores, pais, auxiliares em educação, demais profissionais que atuam no ambiente escolar e gestores de instituições públicas e privadas. É de competência do fonoaudiólogo desenvolver ações de consultoria, assessoria e gerenciamento, com participação direta ou indireta em equipe de orientação e planejamento escolar, inserindo aspectos preventivos ligados a assuntos fonoaudiológicos. O capítulo II, artigo 3º da Lei 6965 de 9 de dezembro de 1981 estabelece sua atuação dentro do ambiente educacional e a publicação "Fonoaudiologia na Educação". Trabalha nos tratamentos como: Fonoaudiologia educacional Atuando diretamente no processo de ensino e aprendizagem, essa especialidade da fonoaudiologia tem por função aprimorar e prevenir distúrbios relacionados à linguagem oral ou escrita, bem como audição, motricidade orofacial e voz. Gerontologia Esse profissional tem seus esforços voltados ao bem-estar dos idosos e, portanto, atua para prevenir, diagnosticar e tratar transtornos que envolvem audição, fala e linguagem, além dos movimentos de deglutição, motricidade orofacial e vocalização. 14 Fonoaudiologia neurofuncional Especialidade da fonoaudiologia que trabalha diretamente com pessoas com alterações neurofuncionais, atuando no tratamento de sequelas e danos ao sistema nervoso central ou periférico. Fonoaudiologia do trabalho Responsável por desenvolver programas capazes de permitir a permanência de outros profissionais em seu local trabalho, sem qualquer tipo de restrição, diagnosticando riscos fisiológicos e desenvolvendo programas para a conservação da saúde auditiva nesses espaços. Neuropsicologia Esta especialidade é voltada para a prevenção e o tratamento de distúrbios relacionados à comunicação e sua conexão com questões cognitivas. 15 3. PRÁTICA FONOAUDIOLÓGICA Para adeptos da vertente epistemológica pós-positivista, também denominada socioconstrutivista, a prática fonoaudiológica realizada de modo meramente clínico e prescritivo é prejudicial, ressalta diferenças culturais entre os descendentes de imigrantes europeus e nativos e contribui para cristalizar o pensamento técnico-especializado no campo da Fonoaudiologia. Categoriza os sujeitos em termos de níveis de hipóteses na desconsideração do envolvimento de n fatores na configuração de problemas fonoaudiológicos e contribui para a manutenção de crenças equivocadas sobre a ciência, a linguagem e os modos pelos quais os problemas fonoaudiológicos podem ser superados. De acordo com Smolka (1989), a prática prescritiva pode colaborar para a manutenção da crença de que os distúrbios de linguagem podem ser superados por meio da memorização de correspondências gráfico-sonoras, excluindo, assim, a participação ativa do sujeito que vivencia o problema do processo da sua configuração e superação. Este tipo de crença sobre a linguagem, como decorrência de memorização gráficomotora, contrapõe-se aos atuais preceitos cognitivistas de construção de conhecimentos humanos. De acordo com tais preceitos, presentes nas teorias cognitivistas piagetiana, ausubeliana e vigotskyana, o conhecimento humano é construído na relação entre pessoas, por um processo ativo de mudança conceitual, de assimilação ou enculturamento, respectivamente, sob influência do próprio contexto social. 16 Nesse mesmo sentido, Sacavazza (1991) chama atenção para o fato de determinados profissionais fonoaudiólogos que atuam em escolas desconsiderarem os fatores humanos naturalmente implicados no processo de desenvolvimento de linguagem, ou seja, os fatores cognitivos, afetivos e sociais próprios da relação humana e de uma dada cultura, acreditarem na linguagem como sendo de ordem meramente biológica, passível de ser modificada apenas com a adesão ingênua do escolar às suas orientações de correção de fala. Esse estudioso atenta para o fato de o profissional diagnosticar distúrbios de linguagem com base apenas na aplicação de testes padronizados de leitura, tal como o Aspa (instrumento de observação de velocidade e níveis de compreensão, a partir de leitura silenciosa ou em voz alta), que visam à detecção da consciência fonológica independentemente de análises mais críticas a respeito do envolvimento de fatores humanos e sociais neste mesmo tipo de consciência (representações próprias da cultura e que estão no imaginário social). Para nós, a concepção de linguagem como uma capacidade de natureza biológica/genética, inata, desenvolvida por meio de exercícios de repetições de sons, é decorrente da formação profissional em uma vertente epistemológica tradicional, assentada em currículos fragmentários mantidos à luz de uma visão positivista de ciência e de ensino da ciência, como se a ciência fosse um campo específico de conhecimentos isolados, e o ensino o modo de difundir os seus resultados. O pensamento positivista assenta-se também em uma concepção de mundo e de realidade como algo objetivo, como se fosse possível de ser verificado por meio de metodologias específicas e únicas. Desconsidera a influência de fatores epistemológicos e culturais relativos ao próprio processo histórico-social de construção de conhecimentos, os modelos de ensino e aprendizagem da ciência em seus vários tempos, e os modelos de prática profissional, de investigação (pesquisa) e de ensino das ciências como próprios de cada um destes vários tempos. Tem influência na produção de conhecimentos científicos, tanto no campo de estudos da Fonoaudiologia como nos demais campos do conhecimento e contribui para a cristalização de teorias que ao longo do tempo perdem o seu poder de explicação. “Marcha a reboque” de interesses políticos e sociais do 17 poder dominante, desde o final do século XI, e contribuiu e continua a contribuir para a consolidação de práticas de diagnósticos de distúrbios de linguagem e de tratamento sob uma ótica “patologizante” e higienista. Na escola, a prática profissional à luz desta visão contribui para a classificação do escolar como um sujeito “doente” que prejudica o trabalho pedagógico dos professores. Esclarecendo melhor, contribui para a consolidação de práticas prescritivas de exercícios de “reabilitação”, de tratamento de diferenças linguísticas em relação a um padrão de linguagem, de correção de fala, segundo padrões linguísticos, para a interpretação de resultados de pesquisas científicas como traduções exatas do pensamento racional, das intenções. Ao desconsiderar a natureza ontológica e epistemológica da ciência, o caráter subjetivo do conhecimento, o próprio profissional acaba por legitimar como correta a sua prática prescritiva, pouco reflexiva e crítica, excluindo, assim, o “outro” do processo da sua construção. De acordo com Gierre (1989), embora a visão positivista tenha sofrido alterações por volta de 1945 e 1960 nos Estados Unidos, ainda preconiza teorias e leis que se propõem a traduzir, com uma suposta exatidão, a natureza e o comportamento humanos, as experiências vividas, numa linguagem tida como exata e transparente, logicamente construída, captada/entendida por toda a comunidade científica. As práticas profissionais assentadas neste tipo de visão supõem a adesão da sociedade a crenças e atitudes de cientistas sem o devido questionamento, ou seja, desconsideram a importância de ações educativas por parte dos profissionais para a melhor elaboração de uma hipótese diagnóstica. Tal visão, positivista, que é conflitante com os atuaispreceitos da educação científica, com os propósitos sociais da ciência, nos introduz em reflexões acerca dos “poderes” da ciência que, de acordo com Morin (1996), escapam hoje ao controle dos próprios cientistas, pois estão a serviço dos interesses do Estado. Para esse estudioso, tal limitação deve nos remeter à autorreflexão e ao autoconhecimento dos fundamentos da própria ciência, processos iniciados por pensadores como Pooper, Kuhn, Lakatos, Feyerabend e, mais recentemente, Bachelard, Morin e Moigne, dentre inúmeros outros estudiosos do conhecimento. As teorias desses pensadores são discordantes em muitos pontos, mas assentam-se, todas elas, 18 no pressuposto da ciência como algo subjetivo, cultural, como um tipo de cultura, um jogo de idéias e práticas em debate, e não como um reflexo do real. Admitem o progresso científico como rupturas de consensos teóricos preestabelecidos que promovem o aparecimento de novos paradigmas, como um tipo de cultura baseada em fundamentos de conhecimento em termos de processos e de articulação de teorias de sujeitos a despeito de relações conflitantes entre os mesmos. Neste sentido, as atividades científicas não podem ser consideradas como atividades de formação profissional independentemente da compreensão do “jogo” que as articula e lhes dá razão e sentido, que capacita o profissional para atuar com ética e sentido social. Este nosso modo de pensar a ciência e seus processos nos leva a admitir a necessidade de formar os profissionais à luz deste mesmo tipo de pensamento e apoia-se, também, na hipótese cognitivista das teorias ausubeliana, na piajetiana e na vygotskyana. De acordo com estas teorias, a construção do conhecimento sofre interferência de múltiplos fatores, um deles o próprio conhecimento dos sujeitos envolvidos nesse processo, o conhecimento dos cientistas e de demais profissionais e o do sujeito comum, que podem deixar de agir de modo a colaborar mais efetivamente para a resolução/superação de problemas complexos, como são os problemas de saúde. Assenta-se, também, em resultados de estudos como os de Sebastião (2000), pesquisadora que desenvolveu um trabalho investigativo no campo da Fonoaudiologia Educacional envolvendo professores, alunos e crianças com otite média. Essa autora considerou as implicações de crenças equivocadas sobre a otite média na configuração e agravamento de distúrbios fonoaudiológicos e de comunicação. E, com base nesta premissa, organizou o ambiente de aprendizagem escolar desenvolvendo dinâmicas educativas voltadas para a transformação destas mesmas crenças. Envolveu professores e mães de crianças com otite em ações educativas visando conscientizá-los quanto à sua participação na configuração, agravamento e/ou prevenção da otite, um problema de ordem biológica, mas que pode determinar o aparecimento de problemas de outras naturezas tais como os fonoaudiológicos, de comunicação. Favoreceu, assim, o entendimento de que, embora esta patologia tenha sido estudada inicialmente 19 no campo das ciências biológicas, e considerada pela comunidade científica como sendo desta ordem, apresenta implicações para a aprendizagem escolar e para o desenvolvimento da linguagem oral e escrita da criança, entre outras. Os resultados de sua pesquisa mostram que a organização do ambiente escolar, com base em conhecimentos que se desenvolvem no campo da Educação e da Fonoaudiologia pode contribuir para o maior impacto social da Fonoaudiologia, uma vez que sujeitos leigos que vivenciam problemas fonoaudiológicos ao serem capazes de mudar as suas crenças e atitudes equivocadas passam a ser capazes de colaborar para que o problema vivenciado por eles seja minimizado e até mesmo evitado. Pelo que expomos e sendo convictos da influência da visão filosófica nas práticas profissionais, no estudo que realizamos, nos propusemos a identificar concepções de profissionais que investigam a linguagem. Ou seja, refletimos criticamente sobre a contribuição dos estudos científicos no campo da Fonoaudiologia para a construção de conhecimentos que possam melhor estruturar as ações no interior da escola por parte de profissionais fonoaudiólogos e de demais profissionais envolvidos com esta questão, tornando-as pedagógicas, educativas. Assim, questionamos-vos: a) de que modo a visão mais ou menos positivista de profissionais que investigam a linguagem oral e escrita pode contribuir para a compreensão dos múltiplos fatores envolvidos na configuração de problemas fonoaudiológicos?; b) de que modo atitudes de categorização da linguagem, segundo padrões lingüísticos, e não segundo o entendimento dos processos neles implicados, contribuem para ações educativas envolvendo escolares em fase inicial de alfabetização? Essa nossa opção filosófica e metodológica é calcada na crença de que um corpo teórico de conhecimentos deve ser (sempre) uma relação metodológica, filosófica e crítica, ou seja, que o trabalho científico deve caracterizar um conjunto organizado de idéias que se inscrevem num contexto amplo de diálogo com a história e com a cultura de quem os produz, e que a leitura, sendo apenas mais uma das possíveis leituras sobre o assunto, deve colaborar para a 20 compreensão da ocorrência de relações teórico-metodológicas atreladas a uma visão filosófica de ciência subjacente, mais ou menos positivista, mas que preconizamos humanista, pós-positivista, conforme também a atual LDB, voltada para a valorização da ciência como prática humana e de aplicação social e não como tradução de uma dada realidade a ser transformada a partir da aplicação de técnicas e de atitudes prescritivas, como se fosse possível isentar os próprios sujeitos que vivenciam os problemas, de participarem ativamente na configuração e resolução destes mesmos problemas. A Fonoaudiologia é a Ciência que atua na reabilitação da comunicação de crianças e adultos, que pode estar alterada por diferentes motivos como autismo, síndromes, alterações neurológicas, deficiência auditiva, ou mesmo um atraso de linguagem sem nenhum outro fator associado. A terapia fonoaudiológica visa principalmente facilitar ou aprimorar a comunicação dos pequenos. Muita gente acredita que os fonoaudiólogos trabalham apenas com crianças que “falam errado“. Embora isso seja comum na prática clínica, o profissional pode fazer a diferença em muitas situações que vão desde um atraso de fala e linguagem, passando por dificuldades de leitura e escrita, gagueira, autismo, síndromes, malformações craniofaciais, paralisia cerebral, dentre outros. Quando a terapia fonoaudiológica é realizada com crianças, é muito comum envolver o uso de atividades lúdicas, uma vez que a criança aprende brincando e retém mais informações quando estas são apresentadas de forma que elas possam experimentá-las, descobri-las e não apenas conhece-las e aceita-las. Além das melhorias que refletem diretamente na fala das crianças, o tratamento fonoaudiológico conta com uma série de efeitos que facilitam o dia a dia dos pequenos, e continuarão ajudando com o passar dos anos, refletindo até mesmo na vida adulta. A Fonoaudiologia pode proporcionar à criança uma maneira de se comunicar, e isso vem atrelado a inúmeros benefícios ao longo da vida. 21 1 – A Fonoaudiologia não é apenas sobre fala Muitas pessoas têm a percepção que um fonoaudiólogo deve ser procurado apenas quando há um problema de fala, mas o tratamento fonoaudiológico é muito mais do que isso. Além da linguagem oral, o fonoaudiólogo atua nas dificuldades da linguagem escrita, como nos casos de dislexia, além de auxiliar as crianças com problemas na voz, na respiração e dificuldades para engolir, mastigar ou sugar. 2 – O tratamento fonoaudiológico ajuda com habilidades sociais Quando uma criança cresce com habilidades de comunicação limitada,ou não tem fala funcional, a fonoaudióloga trabalhará as habilidades sociais, através do uso de estratégias diversas como modelagem de vídeo, representação de papéis, aplicativos de terapia específicos, histórias sociais e outras várias estratégias e ferramentas. Neste caso, é importante o uso de comunicação auxiliada. 3 – O desenvolvimento correto da fala e linguagem, auxiliam na leitura O desenvolvimento da linguagem escrita é dependente da linguagem oral adquirida previamente. Aprender a falar os sons corretamente garantirá que as trocas de sons na fala não sejam transportadas também para a escrita. A comunicação é uma habilidade essencial, e está intrínseca ao ser humano. Nós nos comunicamos através da fala, expressões faciais, gestos, contato visual, escrita, digitação e muitas outras formas. Cabe ao fonoaudiólogo então, auxiliar os pequenos nessa trilha até a comunicação eficiente. O desenvolvimento correto da linguagem, fala e audição, ajudam os pequenos a estabelecerem uma comunicação com o mundo e proporciona para eles a confiança necessária para buscar novos desafios, aprender, estabelecer conexões. Cada criança carrega consigo um universo inteiro de possibilidades. Cada uma com suas particularidades e limitações, elas vão crescendo e aprendendo no seu próprio ritmo a explorar o mundo. Cabe aos fonoaudiólogos possibilitar que cada 22 uma delas tenha o poder de estabelecer essa conexões, se comunicar, e compreender o mundo que a rodeia. 4. A INSERÇÃO DA FONOAUDIOLOGIA NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA O fonoaudiólogo é um profissional da saúde, de atuação autônoma, que exerce suas funções nos setores público e/ou privado. É responsável pela promoção da saúde, avaliação e diagnóstico, orientação, terapia, monitoramento e aperfeiçoamento de aspectos fonoaudiólogicos envolvidos na função auditiva periférica e central, na função vestibular, na linguagem oral e escrita, na articulação da fala, na voz, na fluência, no sistema miofuncional orofacial e cervical e na deglutição. Exerce também atividades de ensino, pesquisa e gestão. Historicamente, a Fonoaudiologia tem sua origem marcada por práticas assistencialistas, limitadas a atendimentos individuais, de caráter eminentemente clínico, com ênfase na reabilitação de agravos nas áreas da linguagem oral e escrita, voz, audição e motricidade oral, realizados prioritariamente em consultórios particulares, o que predeterminava sua demanda a uma pequena parcela da população. A atuação do fonoaudiólogo nos serviços públicos teve início entre as décadas de 1970 e 1980, em meio a uma grande demanda e a um número restrito de profissionais que atuava de forma não integrada e sem propostas 23 abrangentes, reproduzindo o modelo clínico/ privatista no qual se formara, mudando apenas seu espaço de atuação, o que impossibilitou a efetividade do trabalho e reconhecimento deste pela população e pelos órgãos competentes. A partir da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), instituído pela Constituição de 1988, e da concepção ampliada de saúde como sendo um bem-estar físico, psíquico e social, surge para a Fonoaudiologia um movimento de reflexão e mudanças que procurava redirecionar a prática fonoaudiológica numa perspectiva social, coletiva e preventiva. Este movimento culminou numa reforma curricular e no fortalecimento da inserção do profissional fonoaudiólogo na Estratégia Saúde da Família (ESF). No contexto da promoção, proteção e recuperação da saúde nos diversos aspectos relacionados à comunicação humana, o fonoaudiólogo inserido na ESF tem como competências: valorizar os princípios do acolhimento, vínculo e responsabilização pela comunidade junto à Equipe Multiprofissional; estimular o autocuidado; apropriar-se das informações demográficas, sanitárias, socioculturais, epidemiológicas e ambientais do território, identificando também os fatores de risco para os distúrbios fonoaudiológicos; e buscar soluções para os problemas encontrados, inclusive com o estabelecimento de prioridades pactuadas com a comunidade e com as equipes de saúde, potencializando a resolutividade das ações. Entretanto, a atuação do fonoaudiólogo na Atenção Primária à Saúde (APS) é marcada pela falta de formação profissional para atuar no nível da promoção da saúde e pela necessidade de investimento em conhecimento científico que fundamentem o crescimento da Fonoaudiologia voltada para uma visão preventiva e coletiva. Nesta perspectiva, a residência vem permitindo a resignificação de concepções e a criação de metodologias de intervenção no campo da promoção e prevenção da saúde. A atuação interdisciplinar com as demais categorias inseridas na residência (Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Psicologia, Serviço Social, Educação Física, Nutrição, Farmácia, Fonoaudiologia, Enfermagem e Odontologia) e com a equipe básica dos Centros de Saúde da Família (CSF), o trabalho intersetorial e a articulação com os serviços de Fonoaudiologia da atenção secundária tem sido ferramentas 24 importantes para realização dos nossos trabalhos potencializando nossas ações na APS. Considerando-se que uma das competências do fonoaudiólogo na ESF é fomentar o desenvolvimento de instrumentos que avaliem os padrões de qualidade e o impacto de suas ações em consonância com as diretrizes do SUS, este artigo buscou mostrar as experiências das fonoaudiólogas inseridas na Residência Multiprofissional em Saúde da Família (RMSF) da Escola de Formação em Saúde da Família Visconde de Sabóia do município de Sobral – CE, que visa, além de formar profissionais capacitados para desenvolver o trabalho na área, oferecer um serviço de qualidade. 4.1 Uma experiência de organização da fonoaudiologia atuando em equipe multiprofissional na estratégia saúde da família Territorialização Com os objetivos de caracterizar a população adscrita, identificar os equipamentos sociais e realizar o diagnóstico situacional da área de abrangência dos 14 CSFs da sede do município sobralense, foi realizada a territorialização junto à equipe multiprofissional. Silva (2000) afirma que o fonoaudiólogo deve assumir a saúde como resultante das condições de vida de cada ser e isso implica na necessidade de conhecer o território e as condições dos grupos em que atua. Conforme Santos e Silveira (2009), para que o fonoaudiólogo atue em sintonia com a Estratégia de Saúde da Família (ESF), é imprescindível o conhecimento dos dados relativos à comunicação humana, pois o levantamento dos índices de prevalência das alterações fonoaudiológicas irá permitir o planejamento de ações programáticas, assegurando o acesso das famílias às ações de promoção e proteção da saúde no âmbito da comunicação humana. Partindo-se de uma concepção de territorialização, que denota um caráter permanente de busca do conhecimento de território de atuação, destaca-se neste contexto a busca ativa, permanente dos fatores existentes na área adscrita referentes ao fazer do profissional. 25 Educação Permanente com os Outros Profissionais da Equipe Multiprofissional em Saúde da Família A Educação Permanente em Saúde é uma ferramenta imprescindível às transformações do fazer dos profissionais, visando à atuação crítica, reflexiva, propositiva, compromissada e tecnicamente competente (CECCIM, 2005). Souza et al. (2008) entendem que tal proposta tem como resultado esperado a capacidade de trocas de saberes entre os atores envolvidos, a busca de soluções criativas para os problemas encontrados, o desenvolvimento do trabalho interdisciplinar, a melhoria constante da qualidade do cuidado à saúde e a humanização do atendimento. Nessa proposta, são vários os momentos de Educação Permanente, onde são discutidas as ações fonoaudiológicas, junto aos profissionais da Equipe de Saúde da Família, composta por médico, enfermeiro,técnico de enfermagem, agentes comunitários de saúde e odontólogo. Entre estas ações podemos citar a Educação Permanente com a Equipe de Saúde da Família. Para a caracterização da demanda e desenvolvimento das ações, foram realizadas capacitações para as equipes de saúde, objetivando ampliar o conhecimento destas no que diz respeito ao fazer do fonoaudiólogo. Foram apresentadas as diversas áreas de atuação e discutida a intervenção fonoaudiológica, bem como suas contribuições em todos os ciclos de vida. Dentro da proposta da Educação Permanente foi pactuado um protocolo para acompanhamento dos recémnascidos (RN) de risco visando à detecção precoce de perda auditiva. Neste sentido, em parceria com a Atenção Secundária através do Serviço de Atenção Auditiva da Macrorregião de Sobral (SASA), foram realizadas capacitações para todos os enfermeiros da sede e dos distritos do município de Sobral sobre a Triagem Auditiva Neonatal (TAN). Na ocasião, foram abordados assuntos como: o que é a TAN, como é realizada, especificidades do local para realização do exame, quais os indicadores de risco para a surdez e a importância da mesma para o desenvolvimento da criança. O protocolo empregado está baseado nos indicadores de risco para deficiência auditiva recomendados pelo Comitê Brasileiro sobre Perdas Auditivas na Infância (Portaria 587, de 07 de outubro de 2004, Artigo 2, Inciso 1, Anexo 1, e Portaria 589, de 08 de outubro de 2004, do Ministério da Saúde). 26 Ações de Educação em Saúde A educação em saúde tem papel fundamental na reorientação do modelo assistencial uma vez que resgata o conceito ampliado de saúde e, dentro da perspectiva da educação popular, resgata a corresponsabilidade de todos para a qualidade de vida, traduzindo no indivíduo sua autonomia e emancipação no cuidar de si, da família e do seu entorno (BONFIM et al., 2008). • Curso para Gestantes Goya et al. (2007), discutindo sobre a Educação em Saúde na Atenção Primária, refere que o período da gestação é o momento ideal para a conscientização e incorporação de bons hábitos, pois a gestante encontrasse mais receptiva para adquirir novos conhecimentos e mudar padrões que irão influenciar no desenvolvimento da saúde do bebê. Nesta perspectiva, realizaram-se ações de Educação em Saúde nos Cursos para Gestantes que ocorrem sistematicamente nos CSF. Em tais ações foram enfocados temas sobre a importância de práticas e hábitos gestacionais saudáveis, incentivo ao aleitamento materno, mostrando sua contribuição para a saúde geral da mãe e do bebê e para o desenvolvimento adequado dos órgãos fonoarticulatórios no que diz respeito à mobilidade, força, postura e desenvolvimento das funções de respiração, mastigação, deglutição e fala. Ademais, o momento também foi utilizado para discussão sobre a importância da TAN, também chamada de teste da orelhinha, e sobre os fatores de risco para a deficiência auditiva e de outros distúrbios que envolvem a comunicação humana. Puericultura: Ainda na perspectiva da Educação em Saúde, atuamos junto aos Grupos de Puericultura com o objetivo de potencializar as informações trabalhadas nos Cursos para Gestantes e promover o conhecimento da família em relação ao desenvolvimento da audição, da fala e da linguagem. Considerando a sala de espera como um espaço onde podem ser desenvolvidas estratégias de Promoção da Saúde, passamos a utilizá-la para debater temas como transição alimentar, utensílios utilizados na alimentação, hábitos orais deletérios, aquisição e desenvolvimento da audição, fala e linguagem, reforçando a importância do contexto familiar durante essa fase da vida. 27 Grupo de idosos: As mudanças fisiológicas que ocorrem ao longo do processo do envelhecimento têm grande impacto na qualidade de vida dos indivíduos. Filho et al. (2007), referindo-se a tais mudanças, menciona que, em relação aos aspectos da comunicação, os idosos podem apresentar: comprometimentos funcionais dos órgãos fonoarticulatórios, lentificação dos processos práxicos orofaciais e da fala, mudanças vocais (presbifonia), alterações auditivas (presbiacusia) e das funções neurovegetativas (respiração, mastigação e deglutição), dificuldades para acessar os sistemas de informações conceituais e perceptuais (linguísticos e não linguísticos) e dificuldade para acessar o léxico. Considerando a importância dos aspectos supracitados para a manutenção da atividade dialógica e do bom convívio familiar e social, a contribuição da Fonoaudiologia nos Grupos de Idosos é de fundamental importância e traz como objetivo principal a promoção de um envelhecimento saudável, a partir da manutenção de suas capacidades funcionais. Neste sentido, a Fonoaudiologia passou a contribuir, junto às demais categorias da RMSF e da Equipe de Saúde da Família, nos grupos de idosos existentes em seus territórios de abrangência. Nestes grupos que se reúnem sistematicamente (semanal, quinzenal ou mensal), de acordo com a realidade de cada território, foram realizadas atividades voltadas para a promoção da saúde linguístico-cognitiva tais como: atividades de memória e de atenção, leitura e compreensão de textos; oficinas temáticas abordando temas como saúde vocal e saúde auditiva; exercícios de motricidade oral e, quando identificada alguma alteração importante realizou-se um encaminhamento para avaliação mais detalhada. Educação em Saúde junto aos Hipertensos e Diabéticos Para o acompanhamento das pessoas com hipertensão e diabetes, o Ministério da Saúde criou o Sistema Hiperdia, que é um Sistema de Cadastramento e Acompanhamento de Hipertensos e Diabéticos, captados no Plano Nacional de Reorganização da Atenção à Hipertensão Arterial e ao Diabetes Mellitus, em todas as unidades ambulatoriais do Sistema Único de Saúde, gerando informações para os gerentes locais, gestores das secretarias municipais, estaduais e Ministério da Saúde. Além do 28 cadastro, o Sistema permite o acompanhamento, a garantia do recebimento dos medicamentos prescritos, ao mesmo tempo em que, a médio prazo, poderá ser definido o perfil epidemiológico desta população, e o consequente desencadeamento de estratégias de saúde pública que levarão à modificação do quadro atual, a melhoria da qualidade de vida dessas pessoas e a redução do custo social. Considerando-se que, como colocado por Goya et al. (2007), o paciente com Diabetes apresenta, frequentemente, xerostomia (boca seca), sensibilidade dolorosa da língua e distúrbio de gustação e o risco potencial de pacientes com hipertensão de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), passamos a colaborar com os grupos do Hiperdia no intuito de acompanhar os usuários e sensibilizá-los na adesão às abordagens terapêuticas sugeridas. Educação em Saúde para os Profissionais da Voz Trata-se de uma proposta articulada entre o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), fonoaudiólogos do SASA e da RMSF, no sentido de desenvolver estratégias de Promoção em Saúde por meio da prevenção dos agravos da voz. Foram realizadas várias atividades tendo como meta sensibilizar a população em geral e, especificamente as pessoas que usam a voz no cotidiano do trabalho (professores, radialistas, cantores, telefonistas, entre outros), orientando-as na prevenção das alterações vocais. Ações de Assistência Fonoaudiológica • Triagem Auditiva de Escolares Para escutarmos todos os componentes auditivos precisam estar íntegros, pois qualquer alteração, por mais discreta que seja, pode trazer grandes prejuízos ao ser humano resultando em complicações, inclusive na esfera educacional. Umas das maneiras de realizar a detecção de alterações auditivas são os Programas de Triagem Auditiva Escolar. Northern e Downs (2005) definem a triagem auditiva como um processo de aplicação de testes, exames ou outrosprocedimentos rápidos e simples a um número geralmente grande de pessoas, não tendo a pretensão de diagnosticar. Entretanto, as pessoas identificadas como achados suspeitos são encaminhadas para realização do diagnóstico e tratamento. A detecção precoce 29 e a intervenção imediata em crianças com perda auditiva otimiza o potencial linguístico, emocional e social, aumentando o desempenho acadêmico. A triagem auditiva escolar no município de Sobral ocorre anualmente em todas as escolas da sede e distritos do município e contempla os alunos do segundo ano do ensino fundamental. Para a realização da triagem no ano de 2009 houve, em parceria com o SASA, uma oficina com os fonoaudiólogos da RMSF visando a pactuação coletiva do Protocolo da Saúde Auditiva dos Escolares. O protocolo é validado cientificamente pela Sociedade Brasileira de Otologia e adaptado pelo SASA. Posteriormente foi realizada uma oficina para os professores que iriam realizar a pré-triagem dos alunos. Em seguida, os profissionais que iriam participar da pré-triagem e da triagem foram submetidos a uma avaliação auditiva, para saber se estavam aptos à aplicação dos testes. Os alunos que falharam na pré-triagem foram triados individualmente pelas fonoaudiólogas que realizam, além da meatoscopia, uma varredura nas frequências de 500, 1, 2 e 4 Khz. Os que também falham na triagem são encaminhados para o SASA para posterior diagnóstico. Apesar da triagem ser um procedimento necessário e importante, apenas a detecção de alterações não é suficiente. É necessária a realização de ações educativas no que diz respeito à saúde auditiva. Por esse motivo, paralelo à realização do exame, os professores e alunos foram sensibilizados quanto à importância da audição para o processo de aprendizagem, através de orientações e do vídeo “Timpinho, o amigo da audição”, produzido por Tavares e Holanda (2004). • Triagem Auditiva Neonatal - TAN O programa de TAN é considerado um método bastante eficaz de avaliação e detecção precoce de alterações auditivas. O diagnóstico audiológico antes do primeiro ano de vida possibilita a intervenção médica e fonoaudiológica no período de maturação e plasticidade funcional do sistema nervoso central, prevenindo futuras alterações e permitindo à criança um desenvolvimento de linguagem, bem como um desenvolvimento social, comparável aos das crianças normais na mesma faixa etária. A partir da implementação do protocolo da TAN, pactuado entre o SASA e a Atenção Básica, foram preconizadas ações para o acompanhamento dos RNs de risco para deficiência auditiva. Para tanto, foram capacitados enfermeiros que atuam na ESF e definido como um dos fazeres da Fonoaudiologia na Atenção 30 Primária à Saúde monitorar o preenchimento do questionário de avaliação de indicadores de risco para deficiência auditiva, realizado pelo enfermeiro, encaminhar o RN de risco para o Teste da Orelhinha e realizar visitas domiciliares com o objetivo de garantir os retornos para o re-teste sempre que necessário, além de orientar as famílias quanto à estimulação da audição, da fala e da linguagem. • Visitas domiciliares Takahashi e Oliveira (2001) definem a visita domiciliar como uma categoria de atenção fundamental na saúde da família que possibilita o diagnóstico da realidade do indivíduo e a realização de ações educativas. Deve ser programada e utilizada com o intuito de subsidiar intervenções ou planejar ações. A demanda para as visitas domiciliares é trazida pelos profissionais da equipe de saúde. Geralmente esta visita é realizada para os usuários que se encontram acamados sem condições de se deslocarem até o CSF. Nestas visitas são realizadas orientações aos usuários e cuidadores, acompanhamento semanal, quinzenal, ou mensal, de acordo com a necessidade. Frequentemente os usuários que demandam visita domiciliar são pessoas com sequelas de AVC que apresentam dificuldades relacionadas à linguagem expressiva e/ou receptiva (afasia) e dificuldades para alimentar-se (disfagia). Ainda, dentro do grupo de usuários que demandam vistas domiciliares incluemse, em menor proporção, aqueles portadores de mal de Parkinson, Doença de Alzheimer e outras doenças crônicas degenerativas, além de crianças com disfunção neuromotora. Outro público alvo das visitas domiciliares são os usuários de próteses auditivas, sejam estas crianças, adolescentes, adultos ou idosos, que apresentam resistência, dificuldades ou desistência quanto ao uso do aparelho auditivo. Através das visitas, procuramos sensibilizar os usuários quanto ao uso do benefício adquirido, além de encaminhar os usuários com próteses com defeito ou mal adaptadas para o SASA. As atividades deste grupo são realizadas com a presença da fonoaudióloga e da psicóloga do serviço com o objetivo de acolher os protetizados que, por algum motivo, não estão fazendo uso da prótese, buscando resolutividade dos casos e garantindo o uso do benefício. • Atendimento Ambulatorial Marin et al. (2003) evidenciam que as ações da Fonoaudiologia em saúde público-coletiva devem ser organizadas de acordo com a necessidade da população e incorporar intervenções nos diferentes níveis 31 de atenção à saúde. Nos espaços do CSF ou em outros espaços do território, é realizado atendimento clínico aos usuários que apresentam dificuldades e/ou alterações fonoaudiológicas, além de orientações e, na maioria das vezes, acompanhamento fonoaudiológico. O atendimento busca contribuir para a universalização e integralidade da atenção à saúde. A partir do prognóstico, algumas demandas são atendidas no próprio CSF e outras são encaminhadas para o serviço da atenção secundária, tornando mais resolutivo o atendimento. A demanda existente se caracteriza principalmente por crianças com atraso no processo de aquisição e desenvolvimento da fala; alunos encaminhados pela escola com queixas de dificuldade de aprendizagem e crianças com distúrbios neurológicos, alterações no sistema sensório-motor-oral e com dificuldades cognitivas. Além disso, também é comum usuários com queixas vocais e gagueira. • Outras Ações Várias campanhas foram desenvolvidas em parceria com o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) e o SASA, a saber: Campanha da voz Durante a Campanha Nacional da Voz foram realizadas ações com o intuito de promover a saúde e prevenir agravos que pudessem comprometer a saúde vocal da população. Neste sentido, com o intuito de sensibilizar alunos e professores quanto aos cuidados com a voz e os prejuízos dos hábitos vocais inadequados foi utilizada a encenação de uma peça nas escolas municipais. Também foram desenvolvidas ações educativas por meio de distribuição de folders, orientações sobre cuidados com a voz e prevenção do câncer de cabeça e pescoço nos principais espaços públicos da cidade. Nestes momentos, além da participação dos fonoaudiólogos de várias instituições, houve a participação de otorrinolaringologistas, enfermeiras, fisioterapeutas, assistentes sociais e psicólogas, em uma mobilização interdisciplinar voltada para a promoção à saúde vocal. Realizaram-se também, triagem fonoaudiológica da voz através da ficha enviada pelo Conselho Regional de Fonoaudiologia (8ª Região) e encaminhamentos para os otorrinolaringologistas do município de Sobral-CE. Campanha de prevenção do câncer de boca. Com o objetivo de informar a população quanto aos fatores de risco, sintomas, medidas de prevenção e detecção precoce do câncer de boca, a campanha foi realizada de forma interdisciplinar (fonoaudiólogo, cirurgião dentista, terapeuta ocupacional e fisioterapeuta), sendo abordadas 32 principalmente a importância do autoexame e da prevenção dos fatores de riscos. Campanha de combate e prevenção à surdez O objetivo principal da campanha foi informar à população sobralense sobre a surdeze como preveni-la. Em 2008, o enfoque foi dado à prevenção da perda auditiva nos trabalhadores expostos a níveis de pressão sonora elevada. Foram realizadas ações de educação em saúde em diversas empresas formais e informais dos territórios de abrangência, sensibilizando para a importância da proteção auditiva e para o acompanhamento anual da audição. Também atuamos nos principais pontos da cidade, com distribuição de folders, informação sobre os fatores de risco para a perda auditiva e encaminhamento para a realização de exame para as pessoas com queixas auditivas. Em 2009, a campanha focou a saúde auditiva dos alunos matriculados no ensino fundamental, com a realização de ações educativas nas escolas do município. Para sensibilizar as crianças foi confeccionado um boneco, baseado no vídeo de Tavares e Holanda (2004), denominado de Timpinho - o amigo da audição. Este personagem informava aos professores e alunos nas salas de aula sobre os cuidados com a audição e a importância da detecção precoce da perda auditiva. Em relação à saúde auditiva dos trabalhadores, as ações nas empresas continuaram. Foram priorizadas as empresas informais, onde através de visitas das alunas da RMSF com a enfermeira e o técnico de segurança do CEREST, foram realizadas medições do nível de ruído do ambiente de trabalho, além da distribuição de equipamentos de proteção auditiva individual e orientações quanto à importância do uso e a forma correta de usá-los. 33 5. PROFISSÃOE FONOAUDIOLOGIA Ao longo da história da Fonoaudiologia, o profissional da área tem desenvolvido uma série de papéis e funções que, à medida que vai atuando, vão se diferenciando, como conseqüência do desenvolvimento científico, do ambiente e de sua própria atuação. Analisando os papéis e funções desempenhados pelo fonoaudiólogo, pode-se considerar que os mesmos têm por base essa caracterização geral anteriormente referida por Witter (1977), tendo em vista as ações deste profissional terem objetivos definidos e práticos: recorrer a técnicas aprendidas durante a sua formação acadêmica e pós- acadêmica; aplicar tais técnicas após uma seleção criteriosa em função de cada problema a ser resolvido; ser membro de grupos profissionais e científicos e estar sujeito às leis e código de ética da profissão. Pode-se dizer que algumas das condições apresentadas por Witter são preenchidas satisfatoriamente pela Fonoaudiologia, como profissão, não havendo entre os fonoaudiólogos divergências quanto a elas. Outras, porém, carecem de maiores discussões entre os próprios profissionais. Tais discussões, provavelmente, evidenciarão que as divergências estão mais relacionadas ao grau em que os itens satisfazem o critério, e não à negação do próprio critério. É fundamental, pois, para a própria profissão, que os papéis e funções do profissional fonoaudiólogo sejam estudados, esclarecidos e melhor especificados, o que irá definir suas possibilidades, limitações e a própria abrangência de seu trabalho. 34 Essa definição de papéis e funções inicia-se na própria universidade, ao congregar um grupo de professores intelectualmente curiosos, atualizados nos últimos avanços de sua área, bem informados em relação às controvérsias recentes e tópicos atuais do conhecimento fonoaudiológico. Halpern et aI. (1998), focalizando a Psicologia, afirmaram ser estaciência, em vários aspectos, diferente de outras ciências. Ela seaplica a diferentes contextos e inclui em sua prática a ciência da pedagogia; dessaforma, a pesquisa sobre ensino e aprendizagem, em todos os níveis (a aprendizagem pré-natal e a aprendizagem em todas as fasesda vida humana), em todos os ambientes e com todas as populações, se torna necessária. Outros contextos, como a realização de laudos periciais usados para auxiliar juízes em questõeslegais, o desenvolvimento de softwares eoutras formas de mídia, a elaboração de material de divulgação com orientação para problemas na área,a revisão e estabelecimento de atividades comunitárias usando o conhecimento psicológico também fazem parte da ação do profissional dessecampo de conhecimento. O mesmo pode ser dito da Fonoaudiologia, quando se considera que suas açõesacadêmicas, práticas e clínicas, requerem informações provenientes da ciência pedagógica, na medida em que, ao realizar atividades de avaliação e terapia dos distúrbios da comunicação, a relação entre ensino e aprendizagem insere-se no fazer fonoaudiológico. A elaboração de parecer técnico em laudos periciais, de orientações escritas com base no conhecimento fonoaudiológico, assim como o desenvolvimento de softwares ede outras formas de mídia são também pertinentes ao fonoaudiólogo. Esta multiplicidade de ações exige do profissional, seja ele psicólogo ou fonoaudiólogo, um conhecimento amplo, diversificado e integrado. Como todo conhecimento novo, será limitado se não estiver integrado em um corpo mais amplo de conceitos e fatos: a integração ou síntese se torna valiosa e, ao mesmo tempo necessária, tanto quanto a geração de dados originais. É a partir disso que sepode avançar na área,criando um novo conhecimento baseado em trabalho de revisão, de "metaciência", o qual possibilita uma visão abrangente do saber, ao mesmo tempo que o destaca (HALPERN et aI., 1998). Este conhecimento deve ser gerado por meio de pesquisa, a partir de dados originais, com modelos de inquisição e métodos de 35 coleta adequados, o que permitirá a geração de teoria e a disseminação do saber adquirido em periódico de referência. Além disso, o conhecimento assim elaborado será aberto à discussão, revisão e réplica, que pode também ser considerada pesquisa original, desde que ofereça um resultado novo, diverso do previamente encontrado. O saber é criação, organização, disseminação e aplicação de conhecimento e o seu valor depende de sua qualidade, da possibilidade de preencher as necessidades presentes e futuras da sociedade. Ele pode ser avaliado segundo aspectos definidos por Oiamond e Adams (1995). Para estes autores, o "saber" requer um alto nível de domínio do conteúdo específico, deve ser inovador, além de ter significância e impacto. Ele deve ser decorrente de pesquisa que possa ser replicada e elaborada, cujos resultados possam ser documentados e revistos pelos pares. O peso de cada um dessesfatores pode variar, dependendo do contexto. Assim, a formação do fonoaudiólogo deve ir além da transmissão de conhecimentos, teorias e técnicas. A capacitaçãoteóricadevealiar-seàderaciocínio, àde criatividade e à de direcionamento para a interdisciplinaridade. Esta torna o conhecimento mais abrangente e flexível, o que não é possível em uma visão única, considerando-se que apenas uma áreade conhecimento não consegue abranger todos os aspectos envolvidos na formação, desenvolvimento e aprendizagem do ser humano (FERRElRA, 1991). A concepção holística do indivíduo e a necessidade de seevitar a fragmentação passam a estimular a cooperação entre asdisciplinas e incentivam o trabalho interdisciplinar. Essetipo de trabalho cooperativo, que viabiliza um aumento nas possibilidades de investigação e solução de problemas, requer a homogeneização da terminologia, o rompimento de hierarquias entre asdisciplinas ea colaboração e confiança entre os membros. É um tipo de enfoque muito utilizado na área médica e que a Fonoaudiologia tem buscado integrar na sua prática. A Fonoaudiologia é uma ciência que ainda necessita identificar-se como tal, pela construção de um referencial teórico próprio, pela caracterização da efetividade de suas intervenções "habilitativas" e reabilitativas , usando como 36 recurso a pesquisa original, a réplica e a pesquisa de síntese. Ao mesmo tempo, para seestruturar eprogredir como profissão, é imprescindível que haja um esforço dos profissionais da área, de modo a preencher