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Após 1945, o mundo ingressa na história do tempo
presente, e continua mudando. Em meio a guerras,
'oluções e um ininterrupto desenvolvimento económico,
social e tecnológico, desaparecem sistemas políticos e
valores que pareciam consolidados. No limiar do século
XXI, no contexto de uma nova revolução científico-
:ecnológica e de um processo de globalização ainda mal
impreendido, a humanidade já não sabe de seu futuro e
vive um tempo de dúvidas.
ARTIGOS DE
Daniel Aarão Reis Filho
"O inundo socialista: expansão e apogeu" e "Crise
e desagregação do socialismo"
Maria Yedda Leite Linhares
"Descolonização e lutas de libertação nacional"
Ana Maria dos Santos
"América Latina: dependência, ditaduras e guerrilhas"
Keila Crinberg
"O mundo árabe e as guerras árabe-israelenses"
Marcelo Ridenti
"1968: rebeliões e utopjas"-
Marco António Pamplona
"A questão nacional no mundo contemporâneo"
Octavio lanni
"Globalização e nova ordem internacional"
Celeste Zenha
"Mídia e informação no cotidiano contemporâneo"
ISBN 978-85-200-0529-3 Ciro Flamarion Cardoso
"No limiar do século XXI"
88520llOu"5~29"3'll
. ORGANIZAÇÃO DE
" Daniel Aarão Reis Filho,
Jorge ferreira
e Celeste Zenha
i
Daniel Aarão Reis Filho
Jorge Ferreira
Celeste Zenha
(organizadores)
O século XX
Volume III
O tempo das dúvidas
Do declínio das utopias às globalizações
^-edição
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
Rio de Janeiro
2008
COPYRIGHT C 2000 by Daniel Aarão Reis Filho, Jorge Ferreira e Celeste Zenha
CAPA
Evelyn Grumach
PROJETO GRÁFICO
Evelyn Grumach e João de Souza Leite
PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS
Nerval Mendes Gonçalves
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Art Line
CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
S452 O século XX / organização, Daniel Aarão Reis Filho, Jorge Ferreira, Celeste
v.3 Zenha. - 4a ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
4a ed. 3v.
Conteúdo: v. 1. O tempo das certezas: da formação do capitalismo à Primeira
Grande Guerra - v. 2. O tempo das crises: revoluções, fascismos e guerras - v. 3. O
tempo das dúvidas: do declínio das utopias às globalizações.
Inclui bibliografia e filmografia
ISBN 978-85-200-0529-3
1. História moderna - Século XX. 2. Civilização moderna - 1950-. I. Reis Filho,
Daniel Aarão, 1946-. H. Ferreira, Jorge. III. Zenha, Celeste.
00-1148 CDD - 909.82
CDU - 93
Direitos desta edição adquiridos pela
EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
um selo da
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Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
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Impresso no Brasil
2008
Sumário
APRESENTAÇÃO 7
O mundo socialista: expansão e apogeu, 11
Daniel Aarão Reis Filho
Descolonização e lutas de libertação nacional 35
Maria Yedda Leite Linhares
América Latina: dependência, ditaduras e guerrilhas 65
Ana Maria dos Santos
O mundo árabe e as guerras árabe-israelenses 97
Keila Grinberg
1968: rebeliões e utopias 133
Marcelo Ridenti
Crise e desagregação do socialismo 161
Daniel Aarão Reis Filho
A questão nacional no mundo contemporâneo 185
Marco António Pamplona
Globalização e nova ordem internacional 205
Octavio lanni
O S É C U L O XX
Mídia e informação no cotidiano contemporâneo 225
Celeste Zenha
No limiar do século XXI 249
Ciro Flamarion Cardoso
BIBLIOGRAFIA, FILMOGRAFIA E CRONOLOGIA 277
Apresentação
É nossa esperança que este livro interesse, de modo geral, aos cidadãos e, em
especial, aos estudantes de segundo grau e graduandos de ciências humanas,
ajudando-os a pensar nos problemas do século que expira e a refletir sobre
os desafios do século que se abre. Mas o destinatário principal dos textos é o
professor de segundo grau, que, em seu trabalho cotidiano, dispõe de tão
poucos instrumentos para apoiar suas aulas de história contemporânea, uma
carência que se acentua ainda mais quando se trata da história do século XX
e da história chamada do tempo presente (posterior à Segunda Guerra
Mundial).
Esclarecemos que não apresentamos aqui um manual de história con-
temporânea preocupado em mostrar um panorama o mais minucioso possí-
vel do encadeamento dos processos sociais, económicos, políticos e culturais
que marcaram os últimos cem anos. Os textos preparados para esta coleção,
embora se refiram a esses processos e, frequentemente, na melhor tradição,
adotem o estilo da narrativa, estão mais interessados em levantar e apresen-
tar questões, debater problemas, propor hipóteses interpretativas, em suma,
estimular e enriquecer a reflexão e a perspectiva dos leitores.
Adotamos, na escolha dos professores que redigiram os textos, um crité-
rio básico: o do pluralismo. Estão aqui reunidos, para além da experiência
académica que a todos caracteriza, professores de diversas instituições (UFF,
UFRJ, PUC/RJ, UERJ, USP, Unicamp, UFRGS), de vários estados, de níveis
diferenciados de titulação (professores titulares, adjuntos, doutorandos) e,
acima de tudo, de diversas concepções e orientações metodológicas. Estamos
certos de que a abertura à diversidade e ao contraditório confere vitalidade
ao pensamento crítico de que tanto precisamos para estar à altura das com-
plexidades dos tempos atuais.
O primeiro volume, O tempo das certezas, abre-se com dois estudos in-
trodutórios, redigidos pelos professores Francisco Falcon e Edmilson
Rodrigues, a respeito da unificação do mundo pelo capitalismo e de alguns
O S É C U L O XX
casos, paradigmáticos, de revoluções burguesas. Seguem-se três textos sobre
a expansão europeia e a segunda revolução industrial, de fins do século XIX,
e sobre as resistências que esses processos suscitaram nas metrópoles e no
mundo partilhado pelas potências, sob responsabilidade, respectivamente,
dos professores Edgar de Decca, Francisco Palomanes Martinho, Adriana
Facina e Ricardo Figueiredo Castro. O volume se encerra com uma reflexão
sobre a Primeira Grande Guerra, apresentada pela professora Mareia Motta.
O segundo volume, O tempo das crises, começa com cinco estudos sobre
o período que se estende do fim da Primeira Guerra Mundial ao início da
Segunda Guerra Mundial. Dois textos sobre as décadas críticas, dos anos 20
e 30, a cargo dos professores José Jobson Arruda e Leandro Konder; dois ou-
tros sobre as revoluções russas e a construção do socialismo soviético nos
anos 30, de autoria, respectivamente, dos professores Daniel Aarão Reis e
Jorge Ferreira; e uma reflexão sobre os fascismos, do professor Francisco
Carlos Teixeira da Silva. Segue-se um texto sobre a Segunda Guerra Mun-
dial, do professor Williams Gonçalves. O volume termina com mais dois tra-
balhos a respeito de processos históricos que se desenrolaram após 1945: do
professor Paulo Vizentini, sobre a Guerra Fria, e do professor Enrique
Padrós, sobre as décadas de prosperidade que marcaram os chamados trinta
anos gloriosos do capitalismo internacional.
O terceiro volume, O tempo das dúvidas, dá continuidade à reflexão
sobre os processos da história do tempo presente. São considerados aqui os
seguintes temas: o apogeu e a desagregação do socialismo realmente existen-
te (professor Daniel Aarão Reis), a decomposição dos impérios coloniais e as
lutas de libertação nacional (professora Maria Yedda Linhares), a América
Latina sob o signo da dependência, das ditaduras e das guerrilhas (professo-
ra Ana Maria dos Santos), o mundo árabe e as guerras árabe-israelenses
(professora Keila Grinberg) e o convulsivo e utópico ano de 1968 (professor
Marcelo Ridenti). Quatro estudos fecham este volume e a coleção, todos
sobre questões que já estão na transição do século XX para o século XXI: a
questão nacional no mundo atual (professor Marco António Pamplona); a
nova ordem internacional e o processo de globalização (professor Octavio
lanni); o impacto da revolução científico-tecnológica (professora Celeste
Zenha) e os desafios que se apresentam no limiar de um novo século (pro-
fessor Ciro Flamarion Cardoso).
A respeito dos temas trabalhados, há ainda textos anexos, em cada volu-
me, relacionandonacionalistas de influência comunista.
Os impérios coloniais construídos, em grande parte, ao longo do século
XIX pareciam iniciar, de fato, um processo de liquidação. Na África, na
índia, na Indonésia, era como se ingleses, franceses, belgas, portugueses e ho-
landeses começassem a sentir que a dominação do homem branco sobre o
planeta Terra entrava em fase de extinção. No lugar dos senhores dominado-
res que, a partir do século XVI, em etapas sucessivas, avançaram sobre todos
os oceanos e mares, surgiriam, na esteira da Segunda Guerra Mundial, popu-
lações com identidade cultural própria. Os conquistadores modernos anexa-
ram continentes inteiros, quer sob a dominação de seus soldados e gover-
nadores, quer sob o patrocínio e a díreção de seus comerciantes, religiosos e
aventureiros, reconhecidos hoje como Estados, povos e nações.
Esse movimento, acelerado ao longo dos anos 50 e 60, recebeu a deno-
minação de descolonização, que resultou no fim dos impérios coloniais,
parte de um longo processo de mudança no plano internacional. E foram di-
versos os caminhos da independência.
Afinal, descolonização por quê?
No seu nascedouro, a palavra descolonização já vem carregada de ideologia,
parecendo definir um destino histórico dos povos colonizados: depois de ter
colonizado, o europeu descoloniza, estando, pois, implícita a vontade do
país colonizador de abrir mão de pretensos direitos adquiridos em determi-
nado momento. A generalização do termo implica, de certa forma, uma in-
terpretação eurocêntrica-da História, ou seja, a noção de que só a Europa
possui uma História ou é capaz de elaborá-la. Os outros não têm História:
nem passado a ser contado nem futuro a ser elaborado.
Enquanto o longo processo de colonização resultou de uma ação euro-
peia, a partir do século XVI, extremamente complexa e diversificada, a des-
colonização deve ser vista como um amplo processo histórico ligado à crise
do capitalismo na década de 1930 e à Segunda Guerra Mundial, de devasta-
doras consequências para os impérios coloniais. Os movimentos nacionais
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que estão no bojo da aspiração dos povos colonizados são bastante comple-
xos nas suas diversas possibilidades, realizações e frustrações. Na realidade,
como processo histórico de grande envergadura, a descolonização não foi
ainda concluída no que ela poderia significar em termos de bem-estar e auto-
determinação dos povos que viveram na órbita do colonialismo.
A guerra que se encerrava em 1945, com a derrota da Alemanha, da
Itália e do Japão, deixava atrás de si um saldo negativo para vencidos e ven-
cedores: um passivo em vidas humanas de 100 milhões, entre civis e milita-
res, e o genocídio de 5 milhões de judeus, além de astronómicas perdas ma-
teriais desigualmente distribuídas e calculadas em termos da destruição de
equipamentos urbanos, instalações de infra-estrutura, campos agrícolas, fa-
tores esses que trouxeram o caos para o terreno de batalha em que se trans-
formara a Europa. No entanto, o progresso técnico foi acelerado nesses anos
de conflito, através das novas descobertas para o combate às doenças (DDT,
penicilina) e para o desenvolvimento de meios mais rápidos de comunicação
(radar, aviação supersônica), elementos que iriam apressar a reconstrução do
sistema económico. Mais rapidamente do que no pós-guerra de 1918, o ca-
pitalismo se equipava para a sua reconstrução.
O eclipse da Europa
Naquele momento, falava-se no eclipse da Europa, ressaltando-se o conteú-
do revolucionário do conflito que se encerrava, tendo em vista a importante
participação da URSS na derrota do nazi-fascismo e o seu reconhecimento
como nova potência mundial. Considerava-se, entre vencidos e vencedores
— com temor para uns, com esperança para outros —, que o socialismo era
parte da experiência soviética como uma alternativa de desenvolvimento
para povos, países e nações que gravitavam na órbita do capitalismo.
Considere-se, ainda, o fato de que a ocupação de territórios pelos exérci-
tos inimigos criara uma nova versão de nação em armas, na medida em que
o prestígio da resistência, aluando como guerrilha, contra os exércitos nazis-
tas e fascistas, tanto na Europa como na Ásia, contribuiu para abalar o poder
das burguesias locais, acusadas de colaborar com o inimigo. Os partidos po-
líticos que emergiram no pós-guerra iriam sofrer a influência desses movi-
mentos de opinião pública, internamente, bem como no tocante à situação
das colónias. Tratava-se de uma divisão social interna profunda que marca-
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ria a evolução dos partidos, sobretudo os de esquerda, com larga margem de
prestígio para os partidos comunistas, como ocorreu na França, na Bélgica,
na Holanda, na Grécia, na Jugoslávia.
O eclipse, embora temporário, da Europa correspondia à ascensão mun-
dial dos Estados Unidos, líder de um novo capitalismo, sem rivais e sem con-
correntes. Nação milionária, vencedora sobre o Japão, financiadora e cons-
trutora da vitória em todas as frentes, tinha, no entanto, que encarar o evi-
dente prestígio da União Soviética, conquistado através da extraordinária re-
sistência de seu povo e de seus exércitos à ocupação do país pelas tropas de
Hitler. A investida do exército soviético em direção a Berlim consagrou a vi-
tória final sobre a Alemanha. A partir desse momento, torna-se indiscutível
a liderança dessas duas potências no plano mundial, a URSS e os Estados
Unidos da América.
No Pacífico, o colapso do Japão, definitivo e arrasador, após o lança-
mento de duas bombas atómicas (Hiroshima e Nagasaki), revelava que o cré-
dito da derrota não era somente dos Estados Unidos. Coube à China uma
importante participação na luta contra o Império Japonês. País de propor-
ções continentais e imensa população, a China emergia de um longo período
de guerras internas que resultaram na derrota final das então chamadas for-
ças nacionalistas de Chiang Kai-shek e na vitória dos comunistas de Mão
Tsé-tung. Seria esse um fato decisivo para a evolução e o final desmorona-
mento dos impérios coloniais no Extremo Oriente e no Sudeste Asiático, nas
décadas seguintes.
A formação dos blocos internacionais e a divisão do mundo
O estudo da descolonização não pode ser levado a cabo sem que se tenha em
mente o quadro internacional no qual ela se desenvolve, bem como as ques-
tões estruturais que moldam esse imenso processo de mudança. De um lado,
a hegemonia dos Estados Unidos sobre o mundo capitalista e sua relação
com uma Europa em crise. De outro, o novo prestígio da União Soviética e a
constituição, a partir de 1949, com a inclusão de uma China comunista, do
bloco socialista, integrado pelos países do Leste europeu, que sofreram a
dupla ocupação militar de alemães e soviéticos. Os tratados de paz assinados
em Paris (10 de fevereiro de 1947) traçaram as novas fronteiras da Itália, da
Hungria, da Roménia, da Bulgária e da Finlândia, deixando um saldo alta-
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mente favorável para a União Soviética. Com eles, nasce o bloco socialista e
é dado o sinal de partida à Guerra Fria.
É evidente que a tensão internacional desses anos de pós-guerra teve
forte influência no processo de descolonização, assim como a intensificação
das rivalidades levou a confrontos que não se limitavam à simples oposição
entre comunistas e democratas ou entre capitalismo e socialismo, desenca-
deando conflitos armados prolongados. Já nos anos 60, autores se referiam
a mudanças estruturais no sistema capitalista; daí, as referências a neocapi-
talismo e neocolonialismo. Nas relações colônia-metrópole, os capitais bus-
cam lucros não mais no controle da terra destinada à agricultura de exporta-
ção e nem na construção da rede de transportes, mas em atividades nos seto-
res estratégicos, tais como minérios, combustíveis e modernas indústrias de
transformação.
Por outro lado, cabe a entidades e agências internacionais, sob o coman-
do da superpotência capitalista, dirimir dúvidas e rivalidades, atenuando,assim, conflitos que anteriormente eclodiam na própria esfera interimperia-
lista. Tratava-se de diminuir a competição entre aliados do mesmo bloco. A
ONU, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), além das
organizações militares de defesa de áreas estratégicas (o Atlântico Norte e o
Sudeste da Ásia), eram bem mais do que atenuadores de conflito para se
tornarem articuladores e executores de objetivos centrais da política do
capitalismo.
A tomada de consciência dos povos colonizados
A Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel fundamental no movi-
mento de revolta das colónias contra as metrópoles. A França, a Bélgica, a
Holanda, a Inglaterra estavam envolvidas num conflito de vida e de morte que
comprometia a sua própria sobrevivência como países e como nações. No
caso dos três primeiros, sob ocupação militar alemã, desde 1940, coube aos
movimentos de resistência antifascista, liderados ou inspirados pela estratégia
britânica de luta desesperada contra a Alemanha e, a partir de 1942, pelas or-
ganizações comunistas nos países ocupados, buscar o apoio das colónias.
No caso do Norte da África, sobretudo após a campanha das tropas
blindadas do general alemão Erwin Rommel (1891-1994) — o Afrika Korps
(1941-1943) — no Saara, tendo como alvo o Egito e o Canal de Suez, pôde
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a Inglaterra revidar o ataque, com a brilhante participação das tropas fran-
cesas resistentes ao governo colaboracionista de Vichy e o apelo às popula-
ções locais. A vitória das tropas francesas em Bir-Hakeim (Líbia, junho de
1942), por exemplo, após 16 dias de cerco por parte do general Rommel, foi
decisiva para a recuperação do prestígio francês na região.
Por outro lado, as dificuldades militares por que estavam passando as até
então poderosas metrópoles foram muito importantes para enfraquecer a
imagem das potências colonizadoras junto a seus colonizados. Começava a
ficar seriamente abalado o mito da superioridade do homem branco. A en-
trada do Japão na guerra (dezembro de 1941) em decorrência do ataque a
Pearl Harbor, base dos Estados Unidos no Pacífico, iria comprovar, mais
uma vez, que os outros povos da Terra, que não estavam incluídos, segundo
a ideologia dominante do colonizador europeu, entre os dominadores elei-
tos, seriam capazes de enfrentar os invencíveis da véspera. As vitórias japo-
nesas no continente asiático e no Pacífico, sobre holandeses, ingleses, france-
ses e americanos, foram contundentes. Assim, a extensão do conflito euro-
peu ao Norte da África, ao continente asiático e ao Pacífico passará a envol-
ver, direta ou indiretamente, outros povos e outras regiões julgadas, até
então, inatingíveis. A guerra se tornara mundial; no seu bojo, emergiam e se
multiplicavam as aspirações de independência dos povos dominados.
As dificuldades terríveis por que passavam os países imperiais pareciam
demonstrar que o homem branco era vulnerável. Assim, a desagregação dos
impérios coloniais construídos de longa data insere-se nesse contexto inter-
nacional, e se prolongará nos anos do pós-guerra. A tomada de consciência
dos povos colonizados se dá no momento em que eles são chamados a parti-
cipar na guerra em defesa de suas respectivas metrópoles, obtendo, como re-
compensa, garantias de autonomia ou de independência, nem sempre respei-
tadas (Cardoso, 1973).
A maneira pela qual se desenvolveu essa colaboração dependeu de vários
fatores que têm a ver com as características do processo de colonização de
cada região ou colónia e que foram decisivos no tocante às formas de atua-
ção do imperialismo em situações e momentos específicos (fatores históricos,
económicos, geográficos, estratégico-militares). Assim, por exemplo, regiões
diferentes como a África Negra, o Norte da África (o Magrebe), o Oriente
Próximo, o Sudeste Asiático, o Extremo Oriente não poderão ser compreen-
didas em bloco; a forma de atuação das potências colonizadoras teve certa
especificidade em cada caso, assim como o processo de descolonização deve
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ser encarado, e sua evolução posterior, respeitando-se tais diferenças históri-
cas, como tradições e culturas, níveis de desenvolvimento histórico, recursos
naturais etc. (Linhares, 1967).
Os movimentos nacionais que se manifestam mais ativamente nos anos
da Guerra Fria, como na índia, na Indochina, na Argélia, no Marrocos e na
China, são, na realidade, antigos e têm uma longa história com raízes cultu-
rais profundas. Tais povos têm uma tradição de resistência a invasões estran-
geiras e jamais aceitaram de braços cruzados a dominação do imperialismo
europeu. Não há dúvida, porém, de que o nacionalismo que se manifesta nas
colónias no pós-guerra tem novas feições e seus líderes se apresentam como
porta-vozes de aspirações populares, embora nem sempre de forma coerente.
Por exemplo, o nacionalismo de Nehru (índia) apresenta características aris-
tocráticas e autoritárias que o distinguem de um Lumumba (Congo, ex-
belga) ou de Nasser (Egito).
Outros líderes, como^Ho Chi Minh, que comandou a guerra pela liberta-
ção do Vietnã, ex-Indochina (francesa), simbolizavam a corrente de esquer-
da mais radical e comunista dos movimentos de descolonização. Nem todos
aqueles que se distinguiram nas lutas que foram travadas ao longo desse pe-
ríodo contra a dominação das potências imperialistas merecem ser colocados
na galeria de heróis da pátria. O Congo Belga, por exemplo, após o assassi-
nato de Patrice Lumumba, ou Uganda, com a destituição do Partido Nacio-
nalista de Apoio Milton Obote (o Congresso do Povo de tendência socialis-
ta) pelo general Idi Amin (1971), países esses cujas lideranças ainda lutavam
pela independência e pela melhoria das condições de vida de seus povos,
foram mergulhados na guerra civil e na brutalidade de práticas de opressão
insuportável, ora em benefício dos interesses da ex-metrópole e seus títeres
locais (Tchombe, em Katanga) e o reconhecimento do Zaire de Mobutu pela
Bélgica (1966), ora na implantação de um governo ditatorial cruel como o
que levou o povo de Uganda à mais triste miséria.
É indiscutível que a tomada de consciência dos povos coloniais contra a
dominação por parte do homem branco rico e poderoso, escudado nos seus
exércitos e nas suas marinhas de guerra, cioso de sua superioridade cultural
e tecnológica, de seus bancos milionários, de seus trens e de seus caminhões,
desenvolve-se mais rapidamente nesse pós-guerra mundial, em parte graças à
nova correlação de forças entre os países do mundo capitalista: de um lado,
a própria transformação ocorrida no interior das velhas metrópoles e, de
outro, a divisão entre os vencedores contra o fascismo.
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A crise internacional que se intensifica já a partir de 1947 deu origem a
um longo período de guerra fria, definindo não apenas uma rivalidade entre
dois poderios militares (os Estados Unidos e a União Soviética) ou duas re-
giões da terra, o Ocidente e o Oriente, o Oeste e o Leste, um capitalista e o
outro comunista, mas sobretudo, segundo a propaganda difundida na época,
ou seja, a diferença entre dois mundos e duas concepções de vida, a democra-
cia e a tirania. Essa ideologia, apregoada aos quatro ventos, associava capi-
talismo a liberdade e socialismo ou comunismo a atraso e opressão. Novos
conceitos surgem, como o de Terceiro Mundo, para simbolizar a parte da hu-
manidade que se situaria numa espécie de limbo da História, nem no Pri-
meiro Mundo (o do capitalismo e da democracia, da riqueza e da abundân-
cia) nem no Segundo Mundo (o do comunismo e da ausência de liberdade).
Aos dois primeiros mundos outorgava-se, ainda nos parâmetros da pro-
paganda internacional, o privilégio de serem desenvolvidos, já que detento-
res do controle tecnológico (sobretudo atómico), cabendo ao Terceiro
Mundo, sob este título, um novo adjetivo, o de subdesenvolvido. O subde-
senvolvimento nascia, assim, já carregado da ideologiado capitalismo ao
qual caberia a tarefa de elaborar políticas de ajuda e de assistência a essa
outra parte do planeta, o mundo à parte, isto é, a América Latina, a África,
o Sudeste da Ásia e os arquipélagos do Pacífico. A luta pela descolonização
não traduz somente o desejo de libertação ante os impérios dominadores. Ela
é também, na maioria dos casos, parte da construção de uma nova História
da humanidade em meio a um poder internacional em fase de redefinição
(capitalismo versus socialismo) e aos milhões de condenados da Terra
(Fanon, 1961).
2. APOGEU E CRISE DOS IMPÉRIOS
A expansão da Europa Ocidental — mediterrânea e atlântica —, a partir do
fim do século XV, foi o fato marcante que acompanhou a desintegração do
mundo feudal e o nascimento do capitalismo. Data daí a formação dos pri-
meiros impérios mercantilistas que resultaram da conquista e ocupação das
Américas, caracterizando o domínio sobre oceanos e mares do globo terres-
tre, o início da expropriação da África negra para a comercialização de seus
habitantes como escravos, a conquista do subcontinente indiano, as primei-
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rãs investidas dos comerciantes e missionários da cristandade sobre a China
e seu império, sobre o Japão e o oceano Pacífico com suas ilhas e arquipéla-
gos, além da Nova Zelândia e do continente australiano.
O século XIX acompanhou a reformulação desses impérios em várias re-
giões, entre elas, as Américas (os impérios espanhol e português), a África, ao
longo de seus oceanos e mares, através de suas savanas e florestas, cortando
seus rios e desertos; a Ásia do Oriente Próximo ao Índico, ao Sudeste Asiáti-
co e ao Pacífico. Deles resultou uma nova organização imperial, a partir de
uma certa concepção eurocêntrica do mundo.
O desenvolvimento do capitalismo com base na ideologia liberal do livre
cambismo e na suposição de que a superioridade do homem branco era in-
discutível constituiu o fundamento moral da nova partilha do mundo — a
primeira fora sacramentada no Tratado de Tordesilhas, entre Portugal e a
Espanha, no fim do século XV das grandes navegações oceânicas. Nesses
dois momentos da História Mundial, foi nos gabinetes de ministros e ho-
mens de negócio europeus que se fez a divisão de territórios, com suas rique-
zas e seus habitantes, entre os Estados do mundo capitalista, como fora
antes, em nome de Cristo e das dinastias católicas, também em busca de ri-
quezas. Assim foi, sobretudo, a partilha da África, entre 1880 e 1914
(Wesseling, 1998), em nome do poder civilizatório. A história da África,
como também a de outros povos que passaram a viver na órbita do imperi-
alismo, começava a ser concebida e difundida para a autojustificação do pro-
jeto de dominação europeia.
O apogeu da dominação
No meado do século XIX, quase nada restava dos velhos impérios mercanti-
listas. Estes desapareceram na onda desencadeada pela Revolução Francesa
de 1789-1795, redundando nos movimentos de independência das colónias
da América que haviam sido fundadas pelos ingleses (ao norte), pelos espa-
nhóis (do México ao Chile) e pelos portugueses (Brasil). Somente a Grã-
Bretanha permanecia como grande potência marítima e imperial, embora
procurasse evitar, até 1874, novas anexações, salvo aquelas situadas na rota
da índia pelo Cabo, então conhecidas como as escalas da índia. O crescimen-
to do desemprego provocado pela revolução industrial em curso, então na
fase de desenvolvimento tecnológico poupador de mão-de-obra, aliado ao
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crescimento demográfico e às crises agrícolas irlandesas, permitirá a emigra-
ção em massa para o apossamento de regiões pioneiras nas novas colónias de
povoamento (Canadá, Cabo, Austrália, Nova Zelândia). Nas Antilhas e na
Guiana, é mantido o sistema tradicional de colónias, ou seja, a permanência
da minoria branca, de origem europeia, detendo o controle da agricultura
comercial com trabalho escravo de origem africana.
A partir de 1874, em decorrência da primeira crise que abalou o sistema
capitalista caracterizada como sendo de superprodução, a Inglaterra retoma
o interesse pelo sistema imperialista e sua expansão. Líder incontestada da
revolução industrial, senhora dos mares e, conseqúentemente, aferrada às
concepções de livre comércio e livre navegação, ela seguirá seu curso na de-
fesa do liberalismo económico. De fato, somente no fim do século, a concor-
rência de produtos industriais e práticas comerciais provenientes do então re-
centemente proclamado Império Alemão (1870) começam a ameaçar a hege-
monia britânica.
Por outro lado, também a França republicana, após a derrota do império
de Napoleão III, ante o exército prussiano e a diplomacia de Bismarck (1870-
1871), recupera-se rapidamente na economia e na política e joga-se, com ape-
tite e competência, na corrida colonial, que fora iniciada com a ocupação da
Argélia, na década de 1830. A retomada do projeto imperial francês, conce-
bido pelos políticos republicanos radicais, após o Congresso de Berlim de
1878, e comandada por Jules Ferry e Léon Gambetta, "lançou a Terceira Re-
pública na rota imperial", com a intervenção na Tunísia (Wesseling, 1988,
pp. 26-39), que deu o sinal de partida para o avanço sobre o Norte da África
— o Magrebe, região esta muçulmana, de profunda influência da cultura ára-
be, desde o fim do século VII. Ainda, segundo esse projeto expansionista, a
França, sob a influência de um poderoso grupo colonial instalado nas finan-
ças, no Parlamento e na imprensa, projeta a sua participação na partilha do
mundo não-europeu, ainda fora da órbita de dominação do homem branco.
A França se apresentava, então, como uma espécie de herdeira da políti-
ca dos reis feudais que promoveram as Cruzadas em defesa dos lugares san-
tos da Palestina. Conseqúentemente, passa a se opor, como um prolonga-
mento nos tempos modernos, à presença dos turcos otomanos no Oriente
Próximo. Sediados em Bizâncio, Constantinopla, desde o fim do século XV,
os turcos alargaram o seu domínio sobre a Península dos Bálcãs e, no fim do
século XVII, chegaram com seus exércitos às portas de Viena. Ainda sob o
impacto das primeiras vitórias, construíram um império, avançando sobre as
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l
O S É C U L O X X
terras árabes, penetrando no Norte da África, a partir do Egito, em direção
ao poente, o Magrebe, ou seja, o Mediterrâneo africano.
Ao longo de todo o século XIX, foi o Império Otomano alvo das maqui-
nações das potências europeias. Era comum a opinião de que os turcos esta-
riam acampados nas terras que conquistavam, significando com isso a falta
de coesão política do Império Otomano e, até certo ponto, a prática de asso-
ciar autoridades locais às tarefas executivas e de administração. Era, tam-
bém, uma forma de chamar a atenção para o atraso, a decadência e a inferio-
ridade cultural do regime otomano. Em contrapartida, a Europa levaria con-
sigo a missão civilizadora do homem branco, como uma carga a pesar sobre
os seus ombros, assim pregava o escritor inglês, expressão do imperialismo,
Rudyard Kiplíng (1865-1936).
A arma desenvolvida e usada para promover a ruptura e o desmembra-
mento desse império foi o nacionalismo. Do Adriático ao Mar Negro, do
Danúbio às margens do Mediterrâneo, os povos sob o domínio otomano se
levantaram por sua independência. No entanto, árabes e berberes, do Egito
ao Marrocos, perderam os elos jurídicos que os ligavam ao Império
Otomano para entrarem na órbita de dominação da Europa, segundo uma
partilha decidida pelas potências e pelos interesses de cada uma delas.
Afinal de contas, que interesses eram esses? A política executada e segui-
da consistia em definir o que então era chamado de Equilíbrio do Poder, ou
seja: evitar que uma potência, através de alianças militares ou da extensão
territorial, viesse a exercer o predomínio sobre o continente europeu e a
ameaçar a paz entre os poderosos ou a própria hegemonia britânica sobre os
mares do planeta. O desenvolvimento do capitalismo, acelerado a partir dasegunda metade do século XIX, passara a depender não somente da expan-
são dos mercados, mas também do acesso às matérias-primas cada vez mais
numerosas e diversas, da produção de alimentos, da construção e do contro-
, lê dos meios de transporte e de comunicação. Havia a crença de que o poder
seria posto numa balança, que trataria de fazer uma distribuição razoavel-
mente equitativa entre aqueles que o monopolizavam, parte de uma missão
civilizatória de que a Europa fora incumbida por algum desígnio da História.
Não era, pois, por acaso que se louvava em prosa e verso a superioridade
do continente europeu. A partilha da África, o reconhecimento de áreas
de influência, como reserva de domínio das potências imperialistas, a deno-
minação de protetorados para territórios que mantinham governos nominal-
mente locais, áreas de influência como expressão de uma política de prestí-
0 E S C O L O N I Z A Ç À O E L U T A S D E L I B E R T A Ç Ã O N A C I O N A L
gio e força não-ostensiva, eram algumas das denominações que designavam
a redistribuição de terras e povos para garantir o poder mundial nas mãos de
alguns: a Inglaterra, a França, a Alemanha, a Itália, a Holanda, a Bélgica,
Portugal e a Espanha, estes dois últimos como senhores sobreviventes dos ve-
lhos impérios mercantilistas.
Coube, principalmente, a J. A. Hobson, Rudolf Hilferding, Karl
Kautsky, Rosa Luxemburgo e Lenin, economistas, políticos, ativistas da
Internacional Comunista e antiimperialistas, fundamentados na análise do
capitalismo monopolista e do novo papel do Estado militarista, ver no impe-
rialismo uma etapa na história da humanidade. Afirmava Hobson, econo-
mista liberal inglês: "[...] a análise do imperialismo, com seus naturais supor-
tes, militarismo, oligarquia, burocracia, protecionismo, concentração de ca-
pital e violentas flutuações do comércio, faz com que ele se apresente como
o perigo supremo dos modernos Estados nacionais". Para Lenin, que escre-
veu o seu famoso livro Imperialismo, última etapa do capitalismo (1916), em
meio à Primeira Guerra Mundial, caberia ao nacionalismo, resultante da do-
minação estrangeira, dar o primeiro passo para desencadear a crise final do
capitalismo.
A contundência das ideias de Lenin, aliada à vitória do Partido
Bolchevique na Revolução Russa de 1917, exerceu uma grande influência
sobre os movimentos nacionalistas no interior das colónias, sem que, no en-
tanto, viesse a se cumprir, pelo menos até o momento, a previsão de Lenin
quanto ao fim do capitalismo.
O começo do fim dos impérios
Ao se encerrar o século XIX, após duas décadas de acirradas rivalidades, ne-
gociações e acordos entre as potências em litígio, algumas das principais
questões relativas às áreas em disputa pareciam ter sido resolvidas, como ve-
remos a seguir.
A Inglaterra continuava sendo a grande potência marítima e imperial.
Com a ascensão dos conservadores, depois da crise de 1874, teve início uma
campanha por uma Inglaterra Maior (Greater Britain), o ministro Disraeli
coroou a rainha Vitória imperatriz da índia, e intelectuais como Kipling e
Chamberlain pregavam a missão civilizadora do homem branco. Em nome
da defesa da índia, anexa no Sudeste Asiático a Birmânia (hoje Mianmar) e
sn
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a Malásia. Na África Oriental, apodera-se do Quénia, de Uganda, com o ob-
jetivo propalado de defender as nascentes do rio Nilo e garantir a proteção
do Canal de Suez, em nome da liberdade de navegação; ocupa o Egito, o
Sudão, o Chipre e a Somália; na África do Sul, anexa o interior da Colónia
do Cabo, através de Cecil Rhodes, surgindo as Rodésias (do Norte e do Sul);
em 1902, após a guerra contra os bóeres, antigos colonos holandeses, con-
quista o Transvaal e Orange. Em 1910, outorga o estatuto de Domínio ao
Canadá, à Austrália, à nova Zelândia e à África do Sul.
Às vésperas da guerra de 1914-18, o Império Britânico englobava um
quarto da população da Terra e dominava a produção mundial de arroz,
cacau, chá, lã, borracha, estanho, manganês, ouro, níquel, juta, açúcar, car-
vão, cobre e, ainda, o petróleo do Oriente Médio. Controlava 15% da pro-
dução mundial de trigo, carne, manteiga, algodão, ferro e aço. Além do mais,
85% dos seus 500 milhões de habitantes eram constituídos de negros, india-
nos e amarelos.
A França possuía ~um império colonial menos espetacular do que a
Inglaterra. Fizera-se mais rapidamente. Enquanto os ingleses guardaram a
índia de suas conquistas anteriores, pouco restou aos franceses, após 1815:
Martinica, Guadelupe, Guiana, a Ilha da Reunião, cinco feitorias na índia.
Na década de 1830, a França conquistou a Argélia, com dificuldade, e ane-
xou Libreville, no Gabão, costa ocidental africana. Com as anexações da
partilha imperialista, do fim do século, da política interimperialista que pre-
cede a guerra de 1914-18 e, ainda, após os Tratados de Versalhes que sela-
ram a derrota do Império Alemão e a perda das colónias alemãs, podia a
República Francesa ostentar, em 1939, às vésperas de outro conflito que viria
a ser mundial, um império que fornecia 25% do comércio exportador fran-
cês, ocupando 13 milhões de quilómetros quadrados e com 110 milhões de
habitantes. As suas principais áreas de dominação eram as seguintes:
— Na África do Norte, a Argélia, 8 milhões de habitantes, dos quais
cerca de l milhão de franceses residentes e colonos; a Tunísia e o Marrocos,
como protetorados;
— O Saara, estendendo-se para o sul até as proximidades do Congo; essa
África negra dividia-se, administrativamente, em duas federações: a África
Ocidental Francesa e a África Equatorial Francesa (principais colónias: o
Senegal, a Costa do Marfim, o Sudão Ocidental); Togo e Camarões, ex-colô-
nias alemãs, mandatos da Sociedade das Nações;
— Nas Antilhas, sem alterações; no oceano Índico, Madagáscar; no
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Pacífico, a Indochina (Anam, Laos, Camboja, Cochinchina e Tonquim); na
Oceania, Nova Caledónia, além de pequenas ilhas esparsas (Taiti, por exem-
plo); no Oriente Próximo, os mandatos da Liga das Nações, resultantes da
partilha do Império Otomano, a Síria e o Líbano.
A Holanda, em 1939, conservava a herança do velho império mercanti-
lista: as índias Neerlandesas (Arquipélago de Sonda), Java, famoso por seus
vulcões, Celebes e Sumatra, além de Bornéu e Nova Guiné, concentravam
toda a energia colonizadora da metrópole holandesa. Com 2 milhões de qui-
lómetros quadrados e 70 milhões de habitantes, tinha uma grande importân-
cia para a metrópole colonizadora, uma Holanda de apenas 35 mil quilóme-
tros quadrados e uma população de 8 milhões, que se orgulhava de sua obra
colonial. Generalizara-se, então, a ideia de que se tratava de um modelo
exemplar de empreendimento, prosperidade e organização. Java, por exem-
plo, era apontada como a primeira usina do globo em alimentos (Hubert
Deschamps, 1952), graças ao baixo custo da produção em virtude dos bai-
xos salários, resultante de abundância da mão-de-obra e da ausência de me-
lhores perspectivas de vida para a população local.
A guerra contra a potência colonizadora iria revelar a natureza do falso
paraíso colonial neerlandês. Este é um dos exemplos em que a ocupação
pelas tropas japonesas demonstrou que o colonizador branco não era intocá-
vel e, muito menos, invencível. A guerra contra os ocupantes estendeu-se
contra a potência colonizadora, resultando no surgimento de um país, a
Indonésia, em dezembro de 1949. No início de 1942, as tropas holandesas
capitularam perante a invasão japonesa, provocando a organização de um
movimento nacionalista (Poder para os Filhos do Povo) liderado por
Sukarno e Harta. Após a rendição do Japão (agosto de 1945), tem início a
guerra de libertação nacional contra as forças neerlandesas. O reconheci-
mento da soberania do novo Estado Federal da Indonésia se dará cinco anos
mais tarde, após longas e penosas negociações (15 de agosto de 1950).
A Bélgica, país pequeno e sem tradições colonialistas, entrou na corrida
imperialista como parteda iniciativa pessoal de seu rei Leopoldo n (1835-
1909), que aliava sua fama dinástica (Saxe-Coburgo) aos seus interesses
pelos negócios. Subiu ao trono em 1865 e, em 1876, criou em Bruxelas a
Associação Internacional para a Exploração e a Civilização da África, esti-
mulado pelas viagens e descobertas de David Livingstone, J. H. Speke, H. M.
Stanley. Em pouco tempo, a Associação passava para a direção pessoal do rei
belga e iniciava seus trabalhos de exploração e comercialização dos produtos
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O S É C U L O X X
da imensa região do rio Congo. Em 1886, proclamou o Estado Independente
do Congo, do qual se tornou, em caráter privado, soberano absoluto.
Deixou-o em herança ao país do qual era rei, a Bélgica, passando a intitular-
se Congo Belga.
Como os holandeses na Indonésia, os belgas investiram grandes capitais
no Congo, na exploração de minérios, nas plantações de borracha e nas
obras missionárias. Como na Indonésia, tanto o processo de colonização
quanto o de descolonização notabilizaram-se por seus procedimentos cruéis
e por sua extrema violência. A independência do Congo (Zaire) foi por de-
mais atribulada, tendo passado por várias fases, dos anos 50, sob a lideran-
ça de Patrice Lumumba, à proclamação da independência em 1960 e ao as-
sassinato de Lumumba em 1961, por ordem de Moisés Tshombe, protegido
dos belgas e americanos; entre 1963 e 1964, intervenção por tropas da ONU,
nova intervenção de Tshombe; em 1965, golpe chefiado por Mobutu, que
permaneceu no poder, em meio a reviravoltas, até 1997. A situação interna-
cional (Guerra Fria) provoca e prolonga o estado de anarquia e profunda
violência nesse e em outros processos de libertação.
Portugal, com seu império, ou o que dele restou e resistiu até meados de
nosso século, fazia figura de primo pobre ao lado de seus colegas ricos. Dos
tempos áureos, conservara Diu e Goa, no Índico; uma parte de Timor, no
Arquipélago de Sonda; Macau, perto de Cantão, na China, como uma anti-
ga feitoria; Angola e Moçambique, na África, no primeiro plano, e, no se-
gundo, o Arquipélago de Cabo Verde e Guiné. Eram restos de uma História
brilhante, em certo sentido, os quais contribuíram para revelar o atraso de
uma forma de dominação defasada e retrógrada e denunciar a fragilidade do
sistema económico e social da metrópole. A consequência foi a Revolução
dos Cravos, de abril de 1974, que derrubou o regime ditatorial fundado por
António de Oliveira Salazar, em 1932.
Ao ter início a guerra na Europa, em 1939, o Império Britânico parecia
tão sólido e saudável quanto em 1914. No entanto, sua dominação na índia,
por exemplo, sempre sofreu contestações e provocou revoltas locais. No
Egito, no Sudão Anglo-Egípcio, na África do Sul, em Gana, onde se manteve
ferrenha a oposição da nação Achanti, na Nigéria, de magníficas e invejáveis
tradições culturais, as tropas coloniais inglesas sofreram muitos reveses. A
fórmula britânica do self government (autonomia local) e do indirect rule
(administração indireta) resultou, em grande parte, de negociações entre po-
deres locais e autoridades coloniais; deve ser compreendida, também, como
uma política de cooptação das burguesias e da intelectualidade locais.
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Na medida em que se internacionaliza o conflito, as tropas imperiais en-
tram em cena e a Grã-Bretanha passa a necessitar da cooperação de seus sú-
ditos e colonos. A partir de dezembro de 1941, com a entrada dos Estados
Unidos na guerra e a intensificação do conflito no Pacífico, torna-se mais
clara a estratégia alemã de investir sobre a índia, através do Oriente
Próximo. Daí a guerra no Norte da África em direção a Suez e a importância
que adquire o pequeno império colonial italiano (Líbia, Abissínia, Eritréia).
Da mesma forma, a extensão da guerra ao Pacífico passa a envolver ter-
ritórios sob jurisdição inglesa naquela região. A posição triunfal de uma
nova potência na política mundial, os Estados Unidos, ao lado da agitação
crescente no interior do mundo imperializado e da reação dos partidos de es-
querda na Europa contra a política do imperialismo constituem elementos
decisivos que irão incidir sobre as políticas coloniais, de um lado, e, de outro,
sobre os caminhos da descolonização. Será fundamental a atuação dos inte-
lectuais em todas as partes do mundo. Suas vozes serão ouvidas e irão se unir
em protesto contra a tirania e a desigualdade tornada insuportável.
Coube à Inglaterra a iniciativa da descolonização, ao anunciar através
do primeiro-ministro trabalhista Clement Attlee, em fevereiro de 1947, que
daria a independência da índia até junho de 1948, com o reconhecimento de
um plano de partilha entre indianos (índia) e muçulmanos (Paquistão), cor-
respondendo, assim, ao que vinha sendo exigido de longa data pelas elites lo-
cais do Partido do Congresso (Gandhi e Nehru) e da Liga Muçulmana
(Jinnah Mohamed Ali). Em contrapartida, a Inglaterra se engajava, naqueles
anos, na aplicação de uma política social de grande envergadura, sob o co-
mando dos trabalhistas, em defesa do bem-estar social, o que possibilitou a
seu povo conhecer uma nova era de prosperidade.
3. OS CAMINHOS PARA A INDEPENDÊNCIA
O processo de independência resultou de um conjunto de fatores e de ações
que envolveram o poder colonial e as condições internas específicas das co-
lónias, em uma conjuntura internacional favorável à mudança do status quo
político dos impérios em causa. Em 1942, o Comité Francês de Libertação
Nacional, em oposição ao governo de Vichy, com o objetivo de obter o su-
porte dos movimentos antifascistas no plano internacional e, sobretudo, dos
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setores mais esclarecidos das colónias, proclamava o seu desejo de alterar as
relações coloniais. Em janeiro de 1943, o general de Gaulle, em nome de uma
França Livre, anunciava, em discurso pronunciado na Argélia, a outorga da
cidadania a milhares de muçulmanos. No ano seguinte, em Brazzaville, em
conferência que reunia governadores da África, mas sem a presença de afri-
canos, recomendava-se a integração na comunidade francesa, como se só
existisse uma independência possível, a da França.
Em 1945, já se consolidava a ideia de uma União Francesa, compreen-
dendo a França e as diferentes partes da comunidade. A presença de repre-
sentantes dos povos sob domínio da França (africanos, asiáticos, argelinos,
malgaxes) na Assembleia Constituinte francesa, predominantemente de es-
querda (maioria de socialistas e comunistas), não deixou de causar mal-estar
nos setores conservadores. Na Grã-Bretanha, após a ampla vitória eleitoral
da esquerda trabalhista, transparecia uma tendência a liberar, em alguns
casos, os elos de dependência direta, política e administrativa, do império.
No fundo, apesar da existência de diretrizes gerais por parte das metrópoles,
o movimento de independência das colónias tomará rumos diferentes e espe-
cíficos, em que cada caso terá características próprias.
Fatores diversos incidirão sobre a marcha da descolonização. São fatores
relacionados com a nova posição dos Estados Unidos no cenário mundial e
suas relações conflitantes com a União Soviética. Ambas aspiram chegar à
hegemonia mundial. Ambas dispõem de instrumentos de poder e de dissua-
são e podem influir nas áreas onde o processo de independência é mais com-
plexo: interesses económicos em choque, localização estratégica, posição
ideológica distinta das lideranças locais. Aos Estados Unidos interessava, em
última instância, deter o avanço do comunismo e a expansão da ideologia de
inspiração marxista, inclusive a do nacionalismo, em qualquer parte do
mundo. A União Soviética desenvolvia suas ações em todas as frentes, era
prestigiada nos meios intelectuais e políticos de esquerda e possuía simpati-
zantes nos movimentos nacionalistas anticolonialistas.
O mundo do pós-guerra era polarizado: o bloco ocidental, escudando-se
no Plano Marshall, de caráter económico e financeiro, e na Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN), de carátermilitar, representava o poder
do grande Capital; o bloco oriental, em contrapartida, apoiava-se no Conselho
de Assistência Económica Mútua (Comecon) e, ainda, para questões políticas
de coordenação dos partidos comunistas, no Kominform, e o Pacto de
Varsóvia, de natureza militar, acenava para a mudança, assim se pensava.
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A grande agitação que passou a caracterizar o mundo colonial, com suas
conjunturas específicas, iria, sem dúvida, fazer parte dos objetivos e desíg-
nios dos americanos, bem aparelhados e municiados para qualquer interven-
ção mais incisiva, inclusive militar, sob a bandeira da ONU. Os soviéticos,
por seus próprios meios de vigilância e, também, militares (fornecimento de
armas aos guerrilheiros, auxílio a governos subsidiados), se fazem presentes.
É, nesse sentido, que a rivalidade da Guerra Fria, ao encerrar os conflitos ar-
mados entre os grandes Estados, desloca-os para o mundo dos povos coloni-
zados. Ao contrário da História dos Tempos Modernos, o poder da grande
potência, detentora da bomba atómica, de destruir o mundo inapelavelmen-
te, faz com que as rivalidades se transfiram para os territórios dos deserda-
dos da Terra e aí sejam esvaziadas ou compensadas.
A cronologia das lutas pela independência leva em consideração essa
constelação de fatores. Edward Said chama a atenção para o fato de que, no
auge da política imperialista, eram raros aqueles que poderiam achar que as
coisas mudariam. Nos anos de 1950, todo o Sudeste da Ásia, de dominação
britânica, tinha se tornado independente, da mesma forma a Indonésia se
tinha constituído em luta contra os japoneses e os holandeses. A Indochina,
outra invenção artificial do colonialismo, sob o comando do líder comunis-
ta Ho Chi Minh (1954), se libertava da França, após uma espetacular cam-
panha militar, com o fim em Diem Bien Phu, carreando a admiração interna-
cional para o povo vietnamita. A África de ocupação francesa, inglesa e
belga — África Oriental, Ocidental e do Norte — também chega ao fim em
meio a celebrações e festas mas, também, guerras terrivelmente cruéis, como
foram os casos da Argélia, do Congo Belga, de Uganda, de Angola. Em 1990,
haviam surgido 49 novos Estados africanos (Said, 1995, p. 254).
A independência tardia
Em 1955, reuniu-se em Bandung, na Indonésia, uma conferência convocada
pelo grupo de Colombo, congregando os cinco países recém-independentes
— índia, Paquistão, Ceilão, Birmânia e Indonésia — e, pela primeira vez, os
chefes de Estado de 29 países da Ásia e da África (18 a 24 de abril), que se
apresentavam como um terceiro mundo. Pronunciavam-se pela neutralidade
e pelo socialismo mas declarando-se contra o Ocidente, ou seja, os Estados
Unidos, e contra a União Soviética. Comprometiam-se a ajudar a libertação
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dos povos subjugados. Era o espírito de Bandung, que perdurou por mais de
uma década, até ser diluído ante as dificuldades e desilusões enfrentadas
pelos novos países libertados da dominação colonial direta. No entanto,
Bandung traduziu um momento de esperança na organização mundial e no
futuro da democracia.
A outorga da independência não significava, necessariamente, a conquis-
ta da felicidade para todos e, muito menos, o reconhecimento da autodeter-
minação do novo país no plano económico, político e cultural. Os velhos in-
teresses coloniais tinham raízes profundas, os elos de dependência eram re-
sistentes e as bases das antigas culturas locais, com suas tradições tribais, ha-
viam sido seriamente atingidas e, em muitos casos, destruídas pela ação do
•colonialismo. No plano internacional, o capitalismo se reestruturava no sen-
tido de se adaptar às mudanças, em face da vertiginosa inovação de tecnolo-
gias altamente sofisticadas na sua capacidade de destruição mas, também, no
conhecimento do espaço cósmico, no avanço da cibernética e das ciências da
vida. Chega-se a falar no neocapitalismo que regeria os laços de dependência
neocolonial, ou seja, as metrópoles, em associação com a dinâmica do capi-
talismo hegemónico, continuam a manter os mecanismos de subordinação.
Por outro lado, a crise do regime comunista nos países do bloco soviéti-
co, o fim do estado de Guerra Fria, com a nova política no Extremo Oriente
e a desestalinização da URSS, tudo isso acarreta uma revolução no sistema
mundial. A desagregação da União Soviética revela a fragilidade do regime
comunista e anuncia a existência de uma China que diz permanecer fiel ao
socialismo, parecendo retomar a sua milenar vocação imperial. Assim, as dé-
cadas que separam Bandung deste fim de século assistiram às grandes mu-
danças que afetaram as relações internacionais e reforçaram as bases do ca-
pitalismo como sistema económico mundial.
Na década de 1960, os últimos da Guerra Fria, verificaram-se alterações
e mudanças importantes no estatuto político de Angola, Moçambique, São
Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e o Arquipélago do Cabo Verde, que vêem sua
independência reconhecida, após vinte anos de guerras coloniais (sob a lide-
rança de suas respectivas organizações nacionalistas) e a ocorrência da revo-
lução democrática portuguesa em 1974. Até então, Portugal fazia figura de
último baluarte do colonialismo, tal qual fora concebido e praticado — ul-
tracolonialista, assim intitulado, na época, por autores radicais (Anderson,
1966), expoente de um colonialismo dependente e subdesenvolvido, na me-
dida em que jamais aceitara fazer qualquer concessão ou mesmo sentar à
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mesa de reunião com os líderes nacionalistas autênticos. Entre os mais notá-
veis, distinguiram-se Agostinho Neto, Mário de Andrade e Viriato Cruz do
MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), Amilcar Cabral,
PAIGC (Partido Africano pela Independência da Guiné e de Cabo Verde).
Nesse período, a condenação a Portugal vinha de todas as partes. Na
ONU, restavam-lhe raros aliados, a Espanha (então franquista) e, obviamen-
te, a África do Sul, tristemente notabilizada pelo cruel regime de dominação,
baseado no racismo e na separação absoluta entre brancos (minoria) e ne-
gros (grande maioria), o apartheid; este somente foi abolido em 1992, em
plebiscito, graças à política de Frederik de Klerk, seguido da eleição de
Nelson Mandela como presidente da República da África do Sul (1994).
Apesar da reprovação geral, Portugal continuava a receber suprimentos
em armas pela OTAN, que eram enviadas aos seus exércitos sediados na
África. Em face das pressões externas mas, sobretudo, em vista da revolta in-
terna cada vez mais generalizada entre os africanos, Portugal fez algumas
concessões, tais como: supressão formal do trabalho forçado, supressão do
indigenato, o instituto jurídico que isolava os nativos da minoria local de
evoluídos ou assimilados, e que incluía a possibilidade de ampliar o acesso à
cidadania e a aplicação de sanções do Código Civil e, não mais, do Código
Penal, em matéria de contratos de trabalho. A política africana portuguesa
começava, no entanto, a ser pesada demais aos cofres lusitanos, apesar dos
reforços em munições e outros recursos materiais e financeiros provenientes
de seus aliados, sobretudo da África do Sul.
Entre 1968 e 1972, por exemplo, a maior parte do exército português
(142 mil homens) se encontrava na África, na defesa das colónias em guerra,
enquanto o movimento armado pela libertação tinha o apoio da opinião pú-
blica internacional, contava com a solidariedade africana e com o suporte em
material bélico e assistência aos militantes de países da área socialista e gover-
nos simpatizantes escandinavos. Em 1973, os portugueses tinham perdido o
controle do espaço aéreo (os africanos passaram a dispor de mísseis). Nesse
momento, Amilcar Cabral era assassinado em Conakri (Costa do Marfim),
uma grande perda, sem dúvida. A guerrilha se estende em Angola com capa-
cidade de suscitar o apoio popular. Em Moçambique, a luta armada se apode-
ra de Cabo Delgadoe Niassa. Portugal tenta negociar, oferecendo, em troca,
maior autonomia aos territórios. Finalmente, em 25 de abril de 1974, jovens
oficiais das Forças Armadas em Portugal derrubam a ditadura, apoiados no
povo cujas armas eram os cravos que levavam e a alegria estampada nos ros-
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O S É C U L O XX
tos. Era a democracia em marcha e a decretação do fim do colonialismo. O
exército colonial fora derrotado e voltava-se contra a metrópole, em nome da
liberdade.
Economicamente, as colónias eram importantes para Portugal, sobretu-
do o potencial de Angola — petróleo de Cabinda, minérios e recursos agrí-
colas. Daí serem muitos os interesses em jogo, durante a dominação portu-
guesa e as duas décadas seguintes à declaração de independência. A nova era,
no entanto, não foi de paz. A intransigência do colonialismo português teve
como sucessores os participantes da guerra civil que, mais uma vez, trará o
caos ao país, agora transformado em mais um cenário da competição inter-
nacional, manipulando rivalidades intertribais. A própria divisão do movi-
mento anticolonialista — os três grupos que lideravam a libertação — torna-
se crucial após 1974, que marca o fim da dominação portuguesa: o MPLA,
multirracial e marxista (URSS), com o predomínio da nação quibundo; a
Frente de Libertação Nacional de Angola, anticomunista, apoiada pelos
Estados Unidos e pelo ex-Zaire (Congo), no norte do país; a União Nacional
pela Independência Total de Angola, inicialmente maoísta e que, mais tarde,
recebe o apoio da África do Sul, tornando-se anticomunista e mantendo
como base de atuação a região centro-sul.
Alastra-se a guerra civil, a partir de 1975, com as diferentes facções em
luta recebendo apoio de potências estrangeiras. Daí por diante, predomina o
caos. A maioria maciça de brancos angolanos (350 mil) emigra, uma parte
chega ao Brasil. Tropas sul-africanas invadem Angola, dando suporte ao
UNITA no ataque a Luanda. Cuba passa a apoiar militarmente o MPLA.
Com a retirada de Portugal, Agostinho Neto, líder do MPLA, é proclamado
presidente da República Popular de Angola, cujo regime foi reconhecido
como sendo socialista. Com sua morte, em 1979, a presidência passou a seu
sucessor, José Eduardo dos Santos, sem vislumbre de paz para a região nem
a satisfação dos interesses em jogo.
Em Moçambique, nas suas linhas gerais, a evolução não foi muito dife-
rente no que concerne à descolonização. Oitenta por cento da sua população
são pequenos produtores de subsistência e o país vive praticamente de auxí-
lios externos. A guerra civil que se estendeu entre 1974 e 1990 tem como
saldo negativo a morte de l milhão de pessoas e a saída de 1,7 milhão de ha-
bitantes que passaram à condição de refugiados. A própria declaração de in-
dependência, em 1975, foi acompanhada da saída de 500 mil colonos, uma
sangria ponderável em mão-de-obra qualificada. Seu vizinho poderoso, a
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África do Sul, tem todas as condições para exercer importante influência po-
lítica e económica no país, o que tem sido comprovado nos últimos anos com
o fim do chamado socialismo africano, na década de 1980, após a morte de
Samora Machel, chefe da Frente de Libertação Nacional, primeiro presidente
de Moçambique e que se proclamava comunista. Foi vítima, em 1986, de um
acidente de aviação.
O caso de Guiné-Bissau difere daqueles já mencionados. Não dispunha
dos mesmos atrativos económicos e estratégicos de Angola e Moçambique e
não tinha o peso político que os dois podiam ostentar. A crise do comunismo
internacional também teve suas consequências locais, superadas, porém, já
no início da década de 1990. Sua política interna é orientada no sentido de
uma aproximação mais estreita com a zona franca União Económica e
Monetária do Oeste Africano. Também o Arquipélago de Cabo Verde teve
sua independência proclamada em 1975. Nos últimos anos, vem passando
por um programa de reformas no sentido de adaptar as novas instituições li-
berais à tradição política e administrativa herdada dos anos de governo so-
cialista. Quanto a São Tomé e Príncipe, este tem a peculiaridade de ser o
menor país africano, com uma pequena população de cerca de 40 mil habi-
tantes e, no entanto, sem capacidade de produzir alimentos suficientes para
seu próprio povo. Sua libertação foi conquistada, como o restante, também
em 1975. No momento, vive com dificuldades e na expectativa de desenvol-
ver o turismo local.
Esperanças e frustrações
Ora por meios pacíficos, ora por intermédio de longas e cruéis lutas internas,
por vezes até mesmo com o caráter de guerras civis, como foi o caso no
Congo Belga e em Angola, por exemplo, os velhos impérios coloniais chega-
ram ao fim. Na Ásia, na África, nas Antilhas e nas Guianas, nas ilhas do
Pacífico, onde quer que se tivesse estabelecido o poder do império, criado e
multiplicado a partir da Europa, foi profunda e devastadora a dominação
para as culturas locais e seus sistemas sociais. Por onde o homem branco pas-
sou, ficaram suas marcas como um rastro indelével, e de tal forma que quan-
do foi embora quase nada restava a ser conservado nem desenvolvido pelos
que foram vítimas da sua dominação. Restaram, na maioria, povos ame-
drontados, arriscados a perder até a própria memória impressa, quase imper-
ceptivelmente, no que lhe restava como identidade.
60 61
O S É C U L O X X
Muitos foram os impérios modernos, do século XVI até os Estados
Unidos de nossos dias. Nossa atenção, no entanto, recaiu sobre aqueles que
desapareceram como potências imperiais na segunda metade deste nosso sé-
culo e, assim mesmo, em alguns aspectos apenas. Essa derrocada se constitui
como o fato mais importante do mundo contemporâneo, a História de nos-
sos dias marcada pela violência e pelo genocídio. Conforme diz um historia-
dor do imperialismo: se este (o imperialismo) "avançou implacavelmente nos
séculos XIX e XX, o mesmo se deu com a resistência a ele" (Said, 1995, p.
25). Séria um erro pensar que os dirigentes, como Attlee, De Gaulle ou
Mário Soares, por mais esclarecidos que tenham sido, concederam a inde-
pendência à índia, ou a Gana, à Argélia, ao Senegal ou à Costa do Marfim,
i Angola ou a Moçambique.
Da mesma forma, seria no mínimo ingénuo atribuir o fim da segregação
racial na África do Sul a De Klerk ou mesmo a Mandela, embora tendo sido
importantes, justos e iluminados na sua conduta como chefes de Estado. A
descolonização foi uma conquista dos povos dominados, resultado de uma
resistência longa e nem sempre de aparência espetacular, por vezes silencio-
sa. Foi o que aconteceu na Ásia, no Norte da África, no Sul da África, em
qualquer parte por onde a Europa e, mais tarde, os Estados Unidos passa-
ram, exibindo a sua superioridade de civilizados e as suas convincentes
armas de fogo. Se, por um lado, o imperialismo ampliou seu raio de influên-
cia, por outro, cresceu a capacidade do ser humano de resistir à dominação.
Na índia, no Egito, na Argélia, em Gana, e assim por diante, a instalação
do dominador se fez com violência e igualmente violenta foi a resistência
local. O ato final de independência foi sempre precedido de prolongados dis-
túrbios, quando não de longas e cruentas guerras de libertação (na
Indochina-Vietnã, a guerra contra a França durou de 1946 a 1954; na
Argélia, além da grande resistência armada ao estabelecimento da França, no
século XIX, a guerra final de libertação durou seis anos, de 1954 a 1962).
Que buscavam os conquistadores de impérios? Lucro, poder, glória. Que po-
deriam eles levar às populações conquistadas ou abordadas? O primeiro con-
tato foi sempre destruidor, já desde os primeiros ibéricos que aportaram na
América, no século XV/XVI, até o último marine americano desembarcado
em alguma ilha do Pacífico.
Que caminhos o Ocidente poderia mostrar aos povos conquistados?
Necessariamente aquele por ele mesmo trilhado: o liberalismo político e eco-
nómico, o código civil, o capitalismo e suas leis de mercado, a ganância e o
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lucro a qualquer sacrifício (Linhares, 1981). Tal caminho não poderia ser tri-
lhado pelas sociedades asiáticas e africanas pré-coloniais, como bem advertia
Jean Chesneaux, ao lembrar que o estudo da burguesia asiática não se inscre-
ve diretamente na história da burguesia dos países industrializados
(Chesneaux, 1976). Assim, cada povo constrói a sua própria história, e cada
povo tem uma história que é a sua, diferentemente do que pregavam os colo-
nizadores, tanto no púlpito quanto na banca do professor: o cérebro do nati-
vo, o negro do Zaire, por exemplo, era uma tabula rasa sobre o qual cabia ao
colonizador imprimir o que lhe conviesse! Seria a ideologia do colonialismo.
Conquistada a independência, alguns desses novos Estados entraram no
reino das guerras civis fratricidas e sem retorno. Resta-lhes agora encontrar
o seu próprio caminho e construí-lo, grão por grão, pedra por pedra.
Em conclusão, poder-se-ia dizer que a história do mundo ainda não foi
escrita, e só poderá sê-lo no dia em que os deserdados da terra participarem
do banquete dos herdeiros da terra, como convivas e como donos da casa.
Nesse dia, eles não estarão repetindo como um eco as palavras de ordem que
partem dos antigos patrões, nem se interessarão mais em decorar a primeira
frase do livro de história da classe inicial: nos ancêtres, lês gaulois — nossos
antepassados, os gauleses!
E, para que assim seja, o mundo será repensado em seus valores mate-
riais, seus dogmas económicos, seus sistemas de organização, suas aspirações
hegemónicas e autoritárias, sobretudo suas pretensões imperiais. Claro que
nos referimos a uma utopia e a ela devemos ser fiéis. A crise de identidade e
a crise do sistema político vigente em alguns dos países africanos e asiáticos
(violência, corrupção, nepotismo) fazem parte do que foi aqui apontado
como heranças do colonialismo recente e não extinto de todo.
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América Latina: dependência,
ditaduras e guerrilhas
Ana Maria dos Santos
Professora adjunta aposentada de História da América
da Universidade Federal Fluminense
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1. AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX: DEPENDÊNCIA ECONÓMICA
E CONFLITO SOCIAL
Depois da independência, no século XIX, os países hispano-americanos pro-
curaram estabelecer uma nova ordem económica, política e social e restaurar
os seus vínculos com o mercado mundial. Isto foi conseguido após um perío-
do de anarquia, de guerras civis, de rebeliões, de conflitos regionais e inter-
nacionais, de quarteladas, de golpes e ditaduras. Depois de lutas pelo poder
de durações variadas, organizaram-se repúblicas liberais, com constituições
que seguiam o modelo americano. Em algumas delas, o processo foi logo co-
mandado por oligarquias regionais, que já controlavam a produção para ex-
portação desde a colónia. Estas oligarquias mantiveram forte controle do
Estado, de tal maneira que anulavam o real funcionamento das instituições
liberais. A democracia e a cidadania eram mais de fato que de direito e se li-
mitavam às elites.
Em alguns países o capital externo dominou a produção e o predomínio
político foi disputado por setores afinados com os interesses internacionais.
Nenhum grupo oligárquico nacional conseguiu comandar esse processo e a
produção foi organizada pelo capital estrangeiro. As fontes de produção
para o mercado internacional eram comandadas de fora e não se articulavam
com o restante da economia nacional. Os lucros eram remetidos para as ma-
trizes e as rendas geradas pelo setor exportador não eram reinvestidas em be-
nefício do desenvolvimento geral do país. Os outros setores económicos na-
cionais mantinham o controle da mão-de-obra e a estabilidade política ne-
cessários ao enclave agrícola e o mineiro. Dessa maneira, o capital estrangei-
ro participava das mesmas formas de exploração do trabalhador usadas
pelos setores oligárquicos.
Uma série de reformas procurou constituir um mercado de terras e de
mão-de-obra, necessário à produção para exportação. Houve a expropria-
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O S É C U L O X X
cão das terras da Igreja, das comunidades indígenas remanescentes e das pe-
quenas propriedades. As terras comunais passaram para a propriedade indi-
vidual e logo os camponeses as perderam. Eliminados os obstáculos que imo-
bilizavam as terras, seguiram-se várias formas de exploração da mão-de-
obra tornada disponível por essas reformas. Elas foram acompanhadas de re-
pressão e de leis de trabalho, tanto na produção mineira quanto na agrícola.
A resistência se traduziu nas guerras camponesas reprimidas com violência.
No México, a luta camponesa teve continuidade com a insurreição de
Emiliano Zapata na revolução mexicana de 1910, pressionando pela refor-
ma agrária, que foi depois consagrada na Constituição de 1917, mas aplica-
da muito mais tarde.
No início do século XX, a própria integração ao mercado mundial leva-
ra a um certo grau de modernização e de urbanização. Criou-se uma infra-
estrutura de transporte, comunicações e serviços adequada à produção ex-
portadora e seu escoamento. A diversificação incluiu até uma produção ma-
nufatureira para o incipiente mercado interno. Houve o aparecimento e au-
mento dos setores médios ligados às profissões e à burocracia das empresas
e do Estado. Em alguns setores, chegou-se a organizar um proletariado. Tam-
bém a oligarquia tendia a se diversificar, para incluir banqueiros, empresá-
rios da indústria e do comércio. A tomada de consciência e a pressão políti-
ca desses novos grupos adquiriam feição antioligárquica. Pressionavam por
reformas e ampliação da democracia: tal foi o caso do radicalismo na Argen-
tina e da luta contra a reeleição de Porfirio Díaz em 1910, no México.
No período entre as duas grandes guerras, as crises mundiais de 1920 e
1929 afetaram a economia exportadora da América Latina e, conseqúente-
mente, também o poder da oligarquia. O processo de modernização e diver-
sificaçãoavançou: em alguns países chegou-se até ao desenvolvimento de
uma indústria que substituía as importações de bens de consumo para o mer-
cado interno. Até então, a principal área de influência dos Estados Unidos
eram a América Central e o Caribe. A partir de 1920, sua influência come-
çou a se consolidar no continente e, com a Política de Boa Vizinhança, foram
abandonando a política de intervenção militar direta. Os Estados Unidos
eram o principal inversor na mineração (cobre no Chile), na extração e refi-
no de petróleo (Venezuela), na agricultura tropical e até mesmo no processo
de industrialização que se iniciava.
A organização do movimento operário e sua militância cresceram.
Surgiram partidos de esquerda e reformistas: defendiam o desenvolvimento
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A M É R I C A L A T I N A : D E P E N D Ê N C I A , D I T A D U R A S E G U E R R I L H A S
económico, a luta contra o imperialismo, o fim das desigualdades sociais.
Apesar do refluxo do movimento camponês, a América Latina vivia um am-
biente revolucionário. Aumentou a gravitação das forças armadas na políti-
ca. As pressões das massas eram respondidas com golpes de Estado e por di-
taduras (como na América Central e no Caribe, na Argentina e no Peru). Ou
então foram incorporadas a projetos de desenvolvimento por movimentos
reformistas, nacionalistas e populistas, alguns deles autoritários. Em 1936,
metade dos países latino-americanos vivia sob regimes militares. No México,
Lázaro Cárdenas radicalizou a reforma agrária (1935-37) e expropriou as
companhias de petróleo estrangeiras em 1938.
Após a Segunda Guerra Mundial, e especialmente na década de 1950, as
mudanças no capitalismo internacional levaram a um investimento maior no
processo de industrialização dos países periféricos. O modelo nacionalista e
desenvolvimentista se esgotava e acabaria por ceder lugar ao desenvolvimento
associado. A necessidade de conter a União Soviética e o comunismo, a Guerra
Fria, orientava a política externa dos Estados Unidos no continente e fazia in-
teragir a ação militar, política e económica. Na América Latina, as lutas por
reforma e a instabilidade aumentavam. O movimento camponês renascia, com
novas pressões por reforma agrária. Ampliavam-se o descontentamento social
e os movimentos pela democracia e contra as ditaduras. Chegava ao fim o mo-
delo de aliança populista (suicídio de Vargas e queda de Perón).
Na década de 1960, a necessidade de capital externo, para dar continui-
dade ao processo de desenvolvimento industrial, levava à redefinição dos
vínculos com os centros desenvolvidos e às mudanças nas políticas económi-
cas e sociais. O novo modelo económico não podia mais incorporar o au-
mento das reivindicações operárias. Falharam as iniciativas para desestabili-
zar Cuba e a revolução cubana apresentava para o continente a opção socia-
lista. A criação de focos guerrilheiros em vários países dava uma dimensão
revolucionária aos protestos no campo. Nos anos 60, as soluções políticas
tenderam a se radicalizar. Tornou-se difícil manter o sistema representativo,
quando as alianças entre os grupos sociais se romperam. Começou-se a pro-
curar o desenvolvimento sem as tensões sociais, com segurança e ordem, com
novos golpes de direita: os militares foram de novo chamados à cena.
Aumentou a militarização da política latino-americana, nos anos 60 e
70. De 1962 a 1967, os governos militares ascenderam na Argentina, Peru,
Guatemala, Equador, República Dominicana, Honduras, Brasil e Bolívia. De
1968 a 1973, novos golpes ocorreram no Peru, Panamá, Equador e
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O S É C U L O X X
Honduras e, de 1973 a 1976, no Chile, Uruguai e Argentina. Em muitos paí-
ses, os militares que tomaram o poder nessa época baseavam-se na sua assu-
mida competência para encaminhar o desenvolvimento de seus países. As po-
líticas económicas a serem implementadas deviam estar a salvo das conse-
quências do pluralismo político. A instabilidade dos regimes civis, as lutas
partidárias e as tensões que o próprio desenvolvimento poderia criar eram
vistas como incompatíveis com a ordem e a segurança necessárias às novas
políticas de modernização capitalista.
No final da década de 1970 e no início da de 1980, a América Latina ex-
perimentaria um processo de transição para a democracia, quer pela via re-
volucionária, quer de maneira pacífica, conduzida e pactuada pelos próprios
militares que tinham dominado por tanto tempo o cenário político.
2. ARGENTINA: TRABALHADORES URBANOS E PERONISMO
A independência do domínio espanhol consolidou o domínio da região por-
tenha, intermediária entre as outras províncias e o mercado internacional.
Nos séculos XIX e XX, a economia se desenvolveu em torno da agricultura
cerealífera e da pecuária bovina, especialmente para o mercado europeu. O
Pampa foi aberto à produção e os indígenas, exterminados. Houve mecani-
zação da agricultura, extensão da rede ferroviária, crescimento dos frigorífi-
cos e moinhos, entrada maciça de imigrantes europeus. Um grande fluxo imi-
gratório se dirigia para a cidade, aumentando o mercado urbano, mas a in-
dústria leve somente tomaria impulso depois de 1930.
Após décadas de lutas internas e externas, de caudilhismos e ditaduras,
consolidou-se o domínio de uma oligarquia conservadora (1880-1916) que
afastou as massas da política, mantendo-se no poder graças a acordos políti-
cos entre os presidentes e os grupos dominantes em cada província. A domi-
nação oligárquica foi contestada pelo radicalismo, movimento que expressa-
va a presença de setores médios e de trabalhadores urbanos, de descendentes
de imigrantes, de setores marginais dos proprietários de terra. A União Cívica
Radical (UCR) permaneceu no poder de 1917 a 1930, com reformas peque-
nas que deixavam intactas as bases económicas do poder dos conservadores.
A UCR serviu como freio aos impulsos ascendentes das massas, à mobilização
rural e à atividade sindical, com repressão violenta e massacres (1919-21).
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A M É R I C A L A T I N A : D E P E N D Ê N C I A , D I T A D U R A S E G U E R R I L H A S
O movimento operário argentino atingira níveis mais complexos de or-
ganização e militância já no início do século XX. Sofrera a influência dos
movimentos operários e revolucionários da França, Alemanha, Espanha e
Itália, que, na Argentina, respondiam a uma realidade de más condições de
vida e de oposição da União Industrial que contestava o direito à associação.
O Partido Socialista foi fundado em 1896, mas o anarquismo manteve a sua
influência até 1920. Desde o fim do século XIX, houve tentativas de criação
de uma central obreira e de federações regionais. Reivindicava-se a regula-
mentação da jornada de trabalho, descanso dominical, leis sobre acidentes e
higiene, tribunais arbitrais, direito a pensões. Greves e repressão eram de
grande magnitude, seguidas de violência e de campanhas e leis contra os cha-
mados agitadores estrangeiros.
Em 1920, foi fundado o Partido Comunista, que pretendeu a unificação
do movimento sindical. A Liga Patriótica Argentina tentou criar sindicatos li-
vres e a Ação Católica começou a orientar o movimento sindical. Logo, o sin-
dicalismo argentino se fracionou em três centrais e em sindicatos autónomos.
Em 1929, com a deterioração da economia do país, com crise, desemprego e
greves, formou-se o Comité de Unidade Sindical Classista. As lideranças sin-
dicalistas e socialistas fundaram a Confederação Geral dos Trabalhadores
(CGT), que, em 1935-36 estava sob a direção dos militantes comunistas. Sua
plataforma era luta pelo desenvolvimento da indústria nacional, nacionaliza-
ção das empresas de capital estrangeiro; luta pelas liberdades sindicais e cum-
primento da legislação trabalhista; consolidação do regime democrático sem
abdicar dos seus princípios de reestruturação da sociedade.
A crise de 1929 e a depressão mundial tiveram reflexos económicos e po-
líticos na Argentina. A oligarquia conspirava com os dissidentes radicais, que
denunciavam a inclinação da UCR para a esquerda. Setores liberal-naciona-
listas do exército restauraram,em 1930, via golpe militar, a pseudodemocra-
cia da aristocracia comercial e dos proprietários de terra, especialmente os li-
gados ao capital estrangeiro. Teve início a "década infame" (1932-42). Em
face da perspectiva de vitória dos radicais, os conservadores só se manti-
nham no poder pela fraude eleitoral, pela corrupção governamental e dei-
xando o campo livre para o capital estrangeiro. Os radicais retomaram a ten-
dência insurrecional e a abstenção eleitoral. Perseguiu-se os sindicatos comu-
nistas e o movimento sindical voltou a se cindir com a recriação da União
Sindical Argentina, com a bandeira da luta contra o fascismo.
Os militares se dividiram. Crescia uma facção pró-fascista no exército
71
O S É C U L O XX
que se inclinava pelo abandono do caráter moderador e para um novo tipo
de intervenção com um projeto nacional a ser implementado pelas forças ar-
madas: fez-se circular um artigo clamando pela eliminação dos políticos. O
Grémio dos Oficiais Unidos (GOU) mobilizava oficiais e os organizava em
várias guarnições. Em 1943, teve lugar o golpe militar com caráter antioli-
gárquico, antiliberal, anticomunista. Dissolveu e pôs na ilegalidade os parti-
dos políticos, impôs severas barreiras às atividades sindicais. Decretou inter-
venção nas universidades, a censura, a regulamentação e o fechamento de
jornais e emissoras de rádio. Reprimiu os jornais judeus e comunistas. Pro-
punha um programa de modernização industrial, de guerra e defesa, e o lan-
çamento das bases para a indústria pesada como parte da construção do po-
derio da nação.
A oposição dentro do exército, da marinha e dos grupos democráticos
foi eliminada pela busca de apoio popular e pela cooptação de setores das
forças armadas através de gastos militares e reorganização do exército. Em
outubro de 1943, o coronel Juan Domingo Perón se colocou à frente do
Departamento de Trabalho e Previdência, e dali procurou organizar o movi-
mento dos trabalhadores em benefício do projeto político do seu grupo.
Ofereceu postos governamentais a líderes sindicais, promulgou 29 leis traba-
lhistas novas, tomou parte em 311 disputas, arbitrando 174, concedeu au-
mentos salariais e o 13° salário. Ao mesmo tempo, promoveu a formação de
sindicatos paralelos e a intervenção na CGT, prendeu 48 líderes sindicais e
perseguiu sindicatos que se recusavam a colaborar.
A lei de associações profissionais reconheceu a existência legal dos sindi-
catos e o processo de sindicalização aumentou. A CGT chegou a 500 mil fi-
liados em 1945, passando a 1,9 milhão em 1949 e 2,3 milhões em 1954. Mas
somente os sindicatos com situação legal podiam participar das negociações
coletivas. As reivindicações dos sindicatos articulados ao peronismo eram
atendidas, levando os outros à dissolução. Os sindicatos cumpriam a função
de mediação entre o trabalhador e o poder público. O governo, por sua vez,
buscava a participação dos operários como consumidores e como fonte de le-
gitimação política. A satisfação das reivindicações dos trabalhadores coinci-
dia com o projeto de desenvolvimento económico. A criação de uma base
sindical preparava Perón para uma saída eleitoral em 1946, apesar da cres-
cente oposição de setores democráticos.
Ao fim da Segunda Guerra Mundial aumentava a pressão para que o go-
verno exonerasse Perón. Ela partia dos radicais, comunistas, imprensa, em-
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A M É R I C A L A T I N A : D E P E N D Ê N C I A , D I T A D U R A S E G U E R R I L H A S
presários em geral, políticos conservadores, marinha e setores do exército,
sindicatos, estudantes. Os Estados Unidos apoiavam a mobilização. O regi-
mento do Campo de Mayo, com apoio da marinha, exigiu a renúncia de Pe-
rón, que se demitiu e foi preso. No meio trabalhista houve inquietação pre-
vendo-se a ofensiva patronal contra as conquistas dos trabalhadores; os ofi-
ciais do GOU temeram por seu destino no crescente antimilitarismo. A CGT,
encorajada por Eva Duarte Perón e pelo coronel Domingo Mercante, convo-
cou greve geral para 18 de maio. A polícia foi preparada para o evento pelo
coronel Filomeno Velasco, peronista. Mas, no dia 17 de maio, 200 mil traba-
lhadores marcharam sobre Buenos Aires e Perón falou aos descamisados.
Perón se elegeu com o seu justicialismo: justiça social, independência
económica e soberania nacional, distributivismo, fomento à indústria do-
méstica e política externa independente. Era uma doutrina de harmonia e
bem-estar social, de um governo acima da luta de classes, pensada como uma
alternativa entre capitalismo e comunismo, como uma filosofia social-cristã.
Propunha a transformação das lealdades corporativas ou particulares de
classe, em uma fidelidade mais ampla, à Nação e aos objetivos nacionais.
Dirigentes sindicais fundaram o Partido Laborista, com base nas associa-
ções profissionais. Seu presidente era Luís Gay, líder do Sindicato dos
Trabalhadores em Empresas Telefónicas. Perón procurou ampliar suas bases
de apoio nos sindicatos e trabalhadores e nas massas urbanas. Os sindicatos
se transformaram em mediadores entre os trabalhadores e o poder político.
Estendeu as reformas sociais, a legislação trabalhista e aumentou os benefí-
cios aos sindicatos. Os assuntos trabalhistas ficavam a cargo de Evita, assim
como os instrumentos de assistência social.
Como parte do programa redistributivista e de manutenção dos salários
baixos, taxou os fazendeiros e concedeu subsídios para alimentos. Naciona-
lizou as empresas de serviço público. Com as divisas acumuladas durante a
guerra, estimulou a industrialização. Apoiou a burguesia industrial, conce-
dendo-lhe créditos, tarifas adequadas e controle do câmbio, e acenando com
a contenção do proletariado. No entanto, a burguesia hesitava em apoiar
abertamente o governo. A reforma agrária permaneceu fora do programa.
Nas forças armadas, usava-se a estratégia de preencher com seus membros
altos postos governamentais e de estimular o carreirismo, procurando des-
politizá-las.
Perón permaneceu no poder de 1946 a 1955. Empreendeu forte centrali-
zação do aparelho do Estado ao mesmo tempo que consolidou o sindicalis-
73
O S É C U L O XX
mo argentino. Mas, após 1949, as mudanças nas condições económicas co-
meçaram a afetar o regime e a estimular as tensões sociais. As importações
cresceram muito. A agricultura sofria declínio e estagnação, com as secas,
com a concorrência americana, com a transformação das terras em pastos e
com a expulsão dos arrendatários. Ela não podia mais financiar suprimento
de bens de consumo intermediário e de matérias-primas. Houve aumento da
dívida e da inflação. As reservas cambiais se esgotavam e o déficit aumenta-
va. O novo plano quinquenal procurava os investimentos estrangeiros e a as-
sociação com as multinacionais.
A orientação económica mudaria para estimular a agricultura e as expor-
tações, e para diminuir o déficit público e a inflação. Diminuiu-se a ênfase na
indústria, no consumo interno, no setor urbano e nos trabalhadores. To-
maram-se medidas para reduzir o consumo, com congelamento dos salários
e controle sobre a oferta de alimentos. Como resultado, aumentaram o custo
de vida, o empobrecimenta geral especialmente no campo, a instabilidade po-
lítica. Mas a política económica falhou. A oposição ao governo vinha de se-
tores altos e médios, com tentativa de golpe por parte de oficiais da reserva.
O governo entrou em conflito com a Igreja. Em 1952 morria Evita, para se
transformar na santa dos descamisados. O controle dos sindicatos através
dos mecanismos trabalhistas e assistencialistas do peronismo começaria a fa-
lhar: em 1954, uma greve espontânea mobilizou os metalúrgicos.
O governo se tornou mais demagógico e repressivo: reprimiu as greves,
submetendo os grevistas à lei militar, expurgou a CGT e as forças armadas.
Procurou silenciar as críticas aumentando a abrangência dos crimes contra o
Estado. Expropriou o jornal La Prensa. Ao mesmo tempo aumentava a pro-
paganda do regime. Em julho de 1955, o líder radical Arturo Frondizi criti-
cou a violência, a corrupção e a políticasugestões bibliográficas, filmográficas e uma cronologia
A P R E S E N T A Ç Ã O
curta, um trabalho realizado com a participação dos graduandos do
Departamento de História da UFF, Rachel Barreto e Roberto Amaral.
Esta apresentação não poderia terminar sem agradecimentos especiais a
todos os professores e estudantes que se conjugaram neste trabalho e confia-
ram no projeto, redigindo os textos e formulando sugestões e críticas, e à edi-
tora, que apostou na sua viabilidade. Registre-se igualmente o apoio da
CAPES, que, no âmbito do PROIN, proporcionou recursos que contribuí-
ram, parcialmente, para a consecução de nossos planos.
O mundo socialista:
expansão e apogeu
Daniel Aarão Reis Filho
Professor titular de História Contemporânea
da Universidade Federal Fluminense
Entre 1945, quando se encerrou a Segunda Guerra Mundial, e 1985, quan-
do teve início o processo da perestroika, o mundo socialista, apesar de pro-
blemas e contradições, conheceu um tempo de sucesso, de expansão e de gló-
ria. No entanto, desde a segunda metade dos anos 70 e, sobretudo, a partir
dos anos 80, começaram a se multiplicar os sinais de uma crise maior, embo-
ra muito poucos imaginassem a sua profundidade.
O estudo da evolução do sistema socialista, encetado pelo presente texto,
considerará, em primeiro e principal lugar, o seu núcleo paradigmático, a
União Soviética, mas também trabalhará, de modo muito rápido, com outras
referências e experiências socialistas: as que tiveram lugar na Europa
Central, desde o término da Segunda Guerra Mundial, as chamadas demo-
cracias populares; as que ocorreram na Ásia Oriental (Coreia e Vietnã) e na
China (triunfo da revolução chinesa em 1949), onde o socialismo se afirmou
por meio de guerras camponesas conduzidas pelos comunistas; as que se de-
senvolveram na Europa Ocidental, com o surgimento de uma alternativa que
se pretendeu radicalmente diferente do modelo soviético: o eurocomunismo;
as que se verificaram na América Latina, com o triunfo da revolução cuba-
na, em 1959, que se transmudou desde o começo dos anos 60 numa revolu-
ção socialista; e, finalmente, as experiências realizadas na África e no mundo
árabe, onde propostas nacionalistas e estatistas, largamente inspiradas nas
experiências soviética e chinesa, haveriam de condicionar as lutas de liberta-
ção nacional e a construção de novos estados nacionais soberanos.
A narrativa se desdobrará em três períodos. Em primeiro lugar, o tempo
da expansão e da supremacia do socialismo soviético, que se estende de 1945
— término da Segunda Guerra Mundial — a 1953-54, quando se encerram
a guerra civil da Coreia e a Guerra do Vietnã contra o colonialismo francês.
Em 1953 desaparece igualmente J. Stalin, que chefiara o governo soviético
durante quase vinte anos. Com ele, como se verá, tenderam também a desa-
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O S É C U L O XX
parecer certas escolhas estratégicas e certos padrões da cultura política até
então prevalecente no âmbito do comunismo internacional.
O segundo período assinala o apogeu do socialismo e, ao mesmo tempo,
o aparecimento de várias crises que passam a solapar o sistema. Ele prolonga-
se de 1953 a 1975, quando triunfa a longa guerra do Vietnã contra os Estados
Unidos. O mundo socialista conheceu nesse período um processo de extrema
diversificação, estendendo-se sua área de influência à América Latina (Cuba),
à África, à Ásia e ao mundo islâmico. Ao mesmo tempo, acentuaram-se as
contradições internas, que desembocaram, em alguns momentos, em invasões
militares e guerras entre os Estados socialistas. Apesar das fraturas expostas,
o socialismo constituía-se numa realidade incontornável do ponto de vista da
dinâmica das relações internacionais. Muitos não avaliavam detidamente
suas contradições internas, seus impasses, preferindo destacar os denomina-
dores comuns que uniam aqueles Estados, movimentos e partidos que reivin-
dicavam referências políticas, económicas e ideológicas que a História consa-
grara como socialistas. Outros ainda insistiam no fato de que o sistema socia-
lista avançava lenta mas sistematicamente, quase sem interrupções, a partir da
Segunda Guerra Mundial, enquanto encolhiam as áreas firmemente controla-
das pelo seu rival maior — o capitalismo internacional e os EUA, em particu-
lar. Não raros analisavam o socialismo, especialmente o socialismo soviético,
como um sistema em ascensão, enquanto os EUA lideravam um bloco de paí-
ses capitalistas condenado ao declínio e à decadência...
No terceiro período, a última década que precedeu o desencadeamento
da perestroika (1975-1985), estuda-se o chamado socialismo desenvolvido.
De um lado, o socialismo nunca parecera tão forte. Mas já havia então sinais
de um processo crítico, que impunha reformas drásticas. Aquele sistema, que
pretendia encarnar o futuro, passou a ser obrigado a examinar suas contra-
dições e impasses, a avaliar seu passado, os problemas acumulados, e a defi-
nir novos rumos.
Os períodos aqui definidos são apenas balizas para orientar a reflexão, e
não marcos rígidos que apenas confundiriam, já que a História, como se
sabe, não se constitui em blocos separados, mas transcorre num fluxo contí-
nuo, sempre remodelado e reorientado pela vontade e pela imaginação dos
seres humanos, agindo segundo suas circunstâncias.
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O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
1. EXPANSÃO E SUPREMACIA DO MONOLITO SOVIÉTICO
A URSS emergiu da Segunda Guerra Mundial, do ponto de vista da econo-
mia e da demografia, semi-arrasada, devastada pelos exércitos nazistas, so-
bretudo em sua parte ocidental, ocupada durante anos. Mas seu prestígio po-
lítico era imenso e sua força militar, incontrastável, particularmente na
Europa. O modelo soviético irradiava força, reconhecida por amigos e inimi-
gos. Afinal, fora capaz de ser o fator decisivo na derrocada do nazismo. Os
povos da URSS, sobretudo o povo russo, embora traumatizados pelos sacri-
fícios impostos, estavam aliviados e orgulhosos, coesos em torno de suas ins-
tituições e de seus dirigentes, entre os quais emergia a figura de J. Stalin,
então incensado como guia político genial.
De modo geral, em todo o mundo, e também naturalmente na URSS,
havia uma grande esperança de que seria possível agora reconstruir um
mundo mais justo, fraterno, solidário, livre e democrático. Não tinham sido
estes os valores em torno dos quais se formara a Grande Aliança que derro-
tara o nazismo?
Entretanto, as exigências do processo de reconstrução do país, ou a ma-
neira como o poder soviético entendeu orientar este processo, e, principal-
mente, as circunstâncias da Guerra Fria, abertamente irrompida desde 1946,
modelaram o futuro de outra forma, fazendo retornar a atmosfera dos rit-
mos febris, da tensão e do medo, típica dos planos quinquenais experimen-
tados ao longo dos anos 30.
Instaurou-se o mundo fechado da bipolarização, a serviço dos interesses
e da dinâmica dos complexos industriais e militares de cada campo, ou seja,
dos setores comprometidos com a corrida armamentista e com toda a sorte
de bens e serviços que apoiavam a produção para a guerra. Neste quadro,
continuaram a merecer a maior prioridade, em termos de investimentos, e os
maiores cuidados, em pessoal e demais recursos, os dinossauros comedores
de ferro e de aço: indústrias de armas e munições, de máquinas e de bens in-
termediários, a produção de energia e a construção de vias de transportes.
A economia de comando, mobilizada (Sapir, 1990) com suas caracterís-
ticas típicas: estatização geral das atividades, planejamento centralizado,
proliferação de agências centrais de controle, ditadura política, relegação, a
um plano secundário, dos interesses imediatos e das demandas das pessoas
comuns por condições melhores de vida, de trabalho, de transporte etc.
Em 1950, o anúncio dos resultados do IV Plano Quinquenal evidenciou
15
O S É C U L O X X
a força e a fraqueza destas escolhas estratégicas. Enquanto a produção de
carvão, de petróleo, de aço e de energia elétrica, entre outras do mesmo tipo,
registravamdo governo, sendo aprisionado. O
apelo de Perón às massas, a possibilidade de armar os trabalhadores e a im-
plantação de mais um estado de sítio mobilizou o exército. Várias guarnições
regionais se revoltaram e Perón renunciou, refugiando-se em um navio de
guerra paraguaio. O general Eduardo Lonardi tomou posse como presidente
da junta militar.
Depois de Perón, a Argentina não conseguiu encontrar a estabilidade, al-
ternando-se períodos de golpes e ditaduras militares. Os governos que se se-
guiram fizeram esforços para destruir o peronismo e a atração que exercia
sobre as massas. Em eleições livres, os peronistas poderiam obter vitórias. O
movimento sindical peronista permaneceu como expressão organizada do
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A M É R I C A L A T I N A : D E P E N D Ê N C I A , D I T A D U R A S E G U E R R I L H A S
setor popular e manteve-se na oposição. Intensificou-se a luta entre militares
e organizações peronistas, que culminou com o Cordobazo de 1969 e 1971.
Como consequência, aumentaram o predomínio e a influência dos militares,
assim como o autoritarismo. A violência se estenderia com o estabelecimen-
to da guerrilha e de novo golpe militar em 1976, que aboliu a CGT. Após o
fracasso da Guerra das Malvinas, começaria o processo de transferência do
poder aos civis.
3. A LUTA PELO SOCIALISMO: A REVOLUÇÃO CUBANA E A
NICARÁGUA SANDINISTA
Depois da guerra pela independência em 1898, Cuba se tornara um país de
faz-de-conta. O intervencionismo americano na guerra contra a Espanha se
perpetuava no século XX, institucionalizado pela emenda Platt à constitui-
ção cubana. O exército fora organizado pelos Estados Unidos e controlado
através de nomeações e promoções políticas. O presidente eleito em 1908 era
funcionário da Cuban American Co. A política era marcada pela luta de fac-
ções das classes dominantes que acabavam em intervenção dos marines.
A ascensão de Gerardo Machado em 1924 transformou a política em
gangsterismo. Sua eleição foi financiada pela companhia de eletricidade, de
propriedade americana. A oposição vinha de um pequeno movimento operá-
rio predominantemente anarquista, na indústria de tabaco e na construção.
Em 1925, foi fundado o Partido Comunista. Os estudantes da Universidade
de Havana lideravam a oposição. Uma greve geral obrigou Machado a dei-
xar Cuba em 1933, substituído por um governo provisório, deposto logo de-
pois pelos estudantes, trabalhadores e soldados, que decretou o fim da emen-
da Platt, o direito ao voto para a mulher, a jornada de 8 horas de trabalho, o
salário mínimo e o direito dos camponeses à terra que cultivavam. Naciona-
lizou-se a companhia elétrica americana. O período ficou conhecido como
"a revolução frustrada".
Em 15 de janeiro de 1934, Fulgencio Batista, que como sargento tinha
participado da rebelião contra Machado, depôs o regime com o apoio ame-
ricano e permaneceu no controle político até 1959. Em 1940, uma nova
Constituição concedia direitos individuais e do trabalhador, previdência so-
cial e limitação do latifúndio. Batista contava com o apoio de alguns líderes
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O S É C U L O XX
comunistas na frente antifascista. Fundou-se também uma nova Confede-
ração dos Trabalhadores Cubanos. Mas a vida política caracterizou-se pela
violência, corrupção, nepotismo e gangsterismo. A oposição vinha do Par-
tido do Povo Cubano (ortodoxo), que pretendia recuperar os ideais da revo-
lução frustrada de 1933, com a plataforma de independência económica, li-
berdade política e governo honesto. Ameaçado de perder o controle das elei-
ções em 1952, um golpe colocou Batista novamente no poder.
A economia cubana caracterizava-se pela monocultura da cana-de-açú-
car, que deslocara as atividades de subsistência da população rural. Era gran-
de a concentração da propriedade e boa parte das terras estava em mãos es-
trangeiras, especialmente americanas. O comércio era quase que exclusiva-
mente com os Estados Unidos. Com a evolução da fabricação do açúcar, as
centrales (usinas) caíram sob o controle americano. Os camponeses perde-
ram as suas terras para os latifundiários, que depois as alugaram a colonos,
que forneciam cana para as centrales.
Vinte centrales detinham 1/5 da área total de Cuba e as condições dos
trabalhadores eram as piores. Os salários foram reduzidos e o tempo de de-
semprego entre as colheitas (tempo morto) estendeu-se por quase nove
meses, durante os quais era grande a miséria: as famílias chegaram a se ali-
mentar de raízes e morar em cavernas. O domínio do capital estrangeiro
também era marcante no tabaco, transporte, energia, bancos, serviços públi-
cos. Ao mesmo tempo, os investimentos em turismo e cassinos faziam de
Havana a Monte Cario do Caribe, com aumento do jogo, da prostituição e
do crime.
Nos anos 40 e 50, o crescimento económico se acelerou e Cuba se tornou
o maior produtor mundial de açúcar, num mercado açucareiro controlado
por grandes especuladores. Novos investimentos foram feitos na mineração
e no turismo. Aumentava a dependência dos Estados Unidos, e com o con-
trole económico vinha a dependência cultural. A distribuição da renda se tor-
nou ainda mais desigual, com alto nível de desemprego e miséria pelo traba-
lho sazonal, que empurrava os migrantes rurais para as vilas miseráveis em
torno das cidades. Os protestos encontravam violenta repressão.
Em face da situação económica e social e do fechamento político depois
do golpe de Batista, a oposição se voltou para a ação armada. Em 26 de julho
de 1953, o advogado Fidel Castro, seu irmão Raul, o jovem pedreiro Juan
Almeida, a bacharel Melba Hernandez, o estudante de economia Abel San-
tamaría, e sua irmã Haydée e 125 outros atacaram o quartel de Moncada,
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em Santiago de Cuba, para controlá-lo e conseguir armas. Derrotados,
foram assassinados 65 deles durante a captura ou rendição; muitos foram
horrivelmente torturados. A autodefesa de Fidel circulou mais tarde com o
panfleto "A História me Absolverá". Por ele, revelou-se um liberal constitu-
cionalista, clamando por um governo democrático. Libertado em 1955, exi-
lou-se no México.
No México, lançou o Movimento 26 de Julho. Um grupo treinou-se em
guerrilha para desembarcar em Cuba. Nele estavam o jovem médico argenti-
no Ernesto Guevara, Camilo Cienfuegos e José António Echeverría, da
Federação de Estudantes Universitários. A situação em Cuba já parecia madu-
ra para a revolução: agitação entre os trabalhadores urbanos e raiva entre os
camponeses. Em 1956, o barco Granma os levou, e mais 81 patriotas, que fo-
ram descobertos e atacados. Procuraram refúgio em Sierra Maestra. Ali resis-
tiram e seguiram a estratégia de abertura de colunas guerrilheiras cercando a
área. Sua estratégia era minar o moral das tropas de Batista, com ataques de
surpresa. Logo descobriram que necessitavam do apoio dos camponeses para
continuar a luta. Os rebeldes se tornaram em camponeses e tomaram medidas
mais radicais, como distribuição das terras dos partidários do regime.
O movimento não se isolou na serra. Os guerrilheiros mantinham conta-
to com bases de apoio na cidade, para obter armas, dinheiro e voluntários.
Grupos urbanos radicais se organizavam e mantinham o governo sob pres-
são, com ataques e manifestações seguidos de violenta repressão. Em 1958,
Batista lançou uma grande ofensiva em Sierra Maestra. Suas tropas foram
derrotadas, e seu comandante Mário Quevedo se juntou aos guerrilheiros.
Duas colunas de guerrilheiros lideradas por Guevara e Cienfuegos foram en-
viadas à capital. Castro seguiu para Santiago. Tropas do exército se recusa-
vam a lutar. Batista fugiu para a República Dominicana, levando consigo
avultada soma em dólares.
O apoio dos camponeses influenciou nas ações do governo revolucioná-
rio. O novo regime promulgou de imediato uma lei de reforma agrária em
maio de 1959, que transformou o agro cubano. Como maiores proprietários
do solo cubano, a lei afetou tremendamente os interesses americanos. As
plantações, as grandes fazendase as propriedades maiores foram expropria-
das: limitou-se o tamanho da propriedade e os camponeses receberam terras.
As plantações de açúcar foram, de início, trabalhadas como cooperativas,
com seus membros recebendo salários e participando dos lucros. Como isso
dividia o campesinato, mais tarde se transformaram em fazendas estatais ou
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O S É C U L O XX
propriedades do povo. Radicalizando ainda mais, todas as propriedades
acima de 67 hectares foram também nacionalizadas e os pequenos agriculto-
res foram organizados na Associação Nacional de Pequenos Agricultores.
De 1959 a 1963, a economia foi cada vez mais coletivizada e controlada
pelo Estado. Em 1960, as empresas estrangeiras foram nacionalizadas.
Prostíbulos e cassinos foram fechados, com grande campanha para reabilitar
as prostitutas. Praias, hotéis e clubes foram abertos a toda a população. A re-
forma urbana diminuiu os aluguéis e proibiu a especulação imobiliária.
Procurou-se limitar a dependência do açúcar e dos Estados Unidos, diversifi-
car a produção agrícola e desenvolver a indústria. Centralizou-se o planeja-
mento económico na Junta Central de Planificação. Houve dificuldades na
produção agrícola e industrial, e o sistema económico foi reorganizado em
1970, afrouxando um pouco o controle do Estado sobre a economia até che-
gar a uma certa expansão nos anos 80.
Uma das belas iniciativas da revolução foi a campanha de alfabetização,
onde jovens formaram brigadas e se espalharam pelo país, vivendo com o
povo e ensinando-o a ler. Junto com as letras se procurava despertar a cons-
ciência política e criar novos cidadãos de uma nova sociedade. Um dos pri-
meiros atos da revolução foi expandir e melhorar as escolas públicas. As es-
colas particulares foram privatizadas. As universidades foram reorganizadas,
para um ensino mais técnico e profissional. No campo da saúde, teve-se de
praticamente começar do zero: metade dos médicos tinha deixado o país.
Mas estabeleceu-se um sistema de saúde estatal disponível para todos os ci-
dadão1., de qualidade e eficiência reconhecidas internacionalmente. Cuba
tornou-se um centro médico de referência mundial.
Ao entrar em Havana, Fidel Castro descrevia seu programa como demo-
cracia humanista sobre a base de liberdade para todos. Estava determinado
a dividir o poder com outros grupos. A revolução nacionalista, porém, se in-
clinava para o marxismo-leninismo. A direção coube a Castro e seus coman-
dantes de Sierra Maestra, Fidèl como primeiro-ministro em 1959. Aliados de
Batista e contra-revolucionários foram presos e executados. Elementos mo-
derados foram afastados do governo. Em 1963, foi criado o Partido Unido
da Revolução Socialista, substituído em 1965 pelo novo Partido Comunista
Cubano, cujo Comité Central era de comandantes fidelistas. Organizações
de massa mobilizavam vários setores da população: em 1960 foi criada a
Federação das Mulheres Cubanas, para ajudá-las a participar plenamente da
vida económica, política e social do país.
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A estrutura do partido se pautava pelo centralismo democrático e enfati-
zava a moralidade comunista, a criação de um novo homem, caracterizado
pelo coletivismo, sacrifício pessoal, amor ao trabalho e ódio ao parasitismo
e à exploração. A nova Constituição, embora optasse pelo presidencialismo,
seguia os modelos do Leste europeu. Foram estabelecidas Assembleias do
Poder Popular (municipais, provinciais e nacionais), com representantes elei-
tos para apresentar e defender os desejos e opiniões dos seus constituintes.
Logo começaram as pressões dos americanos, que temiam o estabeleci-
mento de um Estado comunista em seu quintal. Os Estados Unidos apoiaram
a contra-revolução. Cuba foi bombardeada por aviões que decolavam da
Flórida. Navios eram sabotados em portos cubanos. Cortaram o forneci-
mento de petróleo e a Standard Oil e a Shell se recusavam a refinar o petró-
leo importado da União Soviética. As cotas de açúcar foram reduzidas e as
exportações para Cuba suspensas, com sérios prejuízos para a estrutura pro-
dutiva. Cuba foi expulsa da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Aumentava a sua aproximação com o bloco socialista, mas sem negar seu de-
sejo de negociar com os Estados Unidos.
Em 1961, Fidel declarou que a revolução era socialista. No mesmo ano,
em abril, a Agência Central de Informações (CIA) organizou uma força inva-
sora que desembarcou na baía dos Porcos. Vários atentados foram feitos à vida
de Fidel Castro. O regime cubano se prepararia para enfrentar a contra-revo-
lução, criando Comités para a Defesa da Revolução em cada bairro. Cuba con-
tinuaria a manter sua longa luta de resistência ao imperialismo, sua verdadeira
existência, seguindo como modelo para os povos oprimidos da América
Latina, contando com a solidariedade internacional. No entanto, o bloqueio
americano perdurou e estes se recusaram a abandonar a base de Guantánamo,
continuando a campanha de sabotagem e subversão, com a televisão e o rádio
enviando mensagens anti-revolucionárias a partir da Flórida. A luta cubana
continuava para a liberação das cadeias do subdesenvolvimento.
O modelo cubano viria a influenciar as táticas de revolução na América
Latina. O camponês passou a ser visto como classe revolucionária. Não se
precisava esperar que as condições estivessem maduras para começar a revo-
lução, pois a insurreição mesmo criaria essas condições. Seriam criados
focos, grupos móveis de guerrilheiros para difusão e extensão da luta revolu-
cionária. Acreditava-se na capacidade de uma vanguarda revolucionária em
mobilizar e levar ao triunfo a revolução. Nessa América subdesenvolvida, o
campo formava a área básica para a luta armada: para Che Guevara, o cam-
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O S É C U L O XX
po lideraria a cidade. Essas diretrizes estiveram presentes nas lutas guerrilhei-
ras da Bolívia, Peru e Nicarágua.
Como Cuba, a Nicarágua também era uma zona dentro da geopolítica
dos Estados Unidos. A primeira intervenção armada direta americana veio
em 1855 e a ocupação militar durou de 1912 a 1925 e de 1926 a 1933, pri-
meiro se inclinando para o setor que julgava mais confiável, os conservado-
res e, no final, promovendo um acordo com os liberais. Dessa maneira, as
lutas políticas e as rebeliões populares internas eram marcadas pelo naciona-
lismo, contra o domínio e o controle americano e pela liberação nacional.
O café foi introduzido em 1850 e já em 1890 era o principal ramo de ex-
portação. O cultivo do café foi estimulado através de prémios, subsídios, pu-
blicações técnicas, concessões de terras, construção de telégrafos e ferrovias,
encorajamento do sistema de crédito para financiar a produção. Construiu-
se todo um sistema para garantir o fornecimento de mão-de-obra: recruta-
mento forçado dos indígenas e mestiços através de leis sobre vagabundagem,
taxas de trabalho, endividamento do peão nos armazéns do proprietário e
proibição de cultivar produtos básicos de subsistência. Tudo era para forçar
o trabalho no latifúndio.
As consequências da expansão do café foi a perda das terras pelas comu-
nidades indígenas e pelos cultivadores de produtos de subsistência. Havia
miséria entre os períodos de colheita, rebeliões, fuga para as cidades, monta-
nhas do norte e para a floresta atlântica. A diversificação após a Segunda
Guerra Mundial incluiu algodão, açúcar, banana, madeira, carne e ouro, mas
aprofundou o despojamento dos camponeses. O controle das exportações e
do crédito permanecia em mãos de investidores estrangeiros associados à
elite local.
A ditadura da família Somoza começou a se gestar quando os Estados
Unidos patrocinaram a criação da Guarda Nacional da Nicarágua. Quando
saíram, o comando da Guarda passou para Anastasio Somoza Garcia, filho
de um cafeicultor, educado nos Estados Unidos. Depois de promover o assas-
sinato de Augusto César Sandino, líder liberal da guerrilha contra a ocupa-
ção americana, Somoza consolidou seu controle: expulsou oficiais concor-
rentes, permitiua matança de centenas de homens, mulheres e crianças na
área destinada aos antigos guerrilheiros; permitiu aos militares toda sorte de
corrupção, extorsão e exploração do jogo, prostituição e contrabando. Isto
isolou as forças armadas do povo, tornando-as uma máfia de uniforme, de-
pendentes do líder.
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Em 1936, Somoza depôs o presidente e promoveu novas eleições em que
foi o vencedor. O regime cultivava o apoio dos Estados Unidos, permitindo
o estabelecimento de bases militares e o uso do país como campo de treina-
mento dos opositores do presidente da Guatemala pela CIA, enviando solda-
dos para a Guerra da Coreia. Assassinado em 1956, foi substituído por seus
filhos educados em West Point: Luís, na Presidência, e Anastasio Somoza
Debayle, no comando da Guarda Nacional, que assumiria também a Presi-
dência em 1972.
A família Somoza controlou boa parte da riqueza da nação, explorou o
governo para seu ganho pessoal, recebeu comissões por concessões de terras
e minas e aumentou os laços com bancos e investidores americanos. No ter-
remoto de 1972, que arrasou Manágua, permitiu que a Guarda Nacional se
apossasse do material vindo da ajuda internacional e o vendesse, que sa-
queasse o setor comercial da cidade e ainda canalizou os recursos dos fundos
internacionais de ajuda para seus próprios bolsos. Os recursos para a recons-
trução de Manágua financiaram mansões para os oficiais da Guarda
Nacional.
A insatisfação popular começou a se manifestar mais abertamente con-
tra o governo ao mesmo tempo que parte da elite económica principiava a
negar apoio à ditadura. A economia da Nicarágua era dominada por três
grupos: o Banco Nicaragúense, de proprietários liberais e do algodão; o
Banco de América, da oligarquia conservadora, de empresas comerciais, da
especulação imobiliária e da construção; e a família Somoza e seus colabora-
dores mais próximos, que ultrapassava e concorria com os dois primeiros e
ameaçava a sua estabilidade. Depois de 1972, além das greves e demonstra-
ções, jovens da elite começaram a se juntar à Frente Sandinista de Libertação
Nacional (FSLN) e setores empresariais começaram a ajudar financeiramen-
te o movimento. A repressão, os massacres empreendidos pela Guarda
Nacional contra os camponeses e suas violações dos direitos humanos foram
denunciados pela Igreja Católica e investigados pela Anistia Internacional. O
regime encontrou ainda a pressão de Jimmy Cárter, eleito presidente dos
Estados Unidos em 1977.
Em 1961, foi criada no exterior, por Carlos Fonseca'Amador, Carlos
Borge e Silvio Mayorga, a FSLN, que se engajou numa luta de dezoito anos
contra os Somoza e sua Guarda Nacional. Teve origem nos movimentos es-
tudantis de 1944-1948 e 1959-1961. Os novos guerrilheiros roubaram al-
guns bancos e fugiram para Honduras, de onde começaram a luta. Depois do
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O S É C U L O XX
assassinato de Sandino, os sandinistas originais tinham continuado a luta
contra Somoza e foram eliminados, mas um deles, o velho Santos Lopez, en-
sinou aos guerrilheiros da FSLN a arte de sobreviver nas selvas e as táticas e
estratégias da guerra de guerrilhas. De 1961 a 1963, as forças sandinistas
permaneceram pequenas e sofreram várias derrotas. Depois solidificaram o
apoio rural e urbano, com os camponeses do norte e os estudantes da Frente
Revolucionária Estudantil. A ofensiva de 1966-67 incluiu assaltos a bancos
e o justiçamento de um torturador da Guarda Nacional.
A estratégia era criar focos revolucionários por todo o país, para atrair o
povo à luta, e procurar aliança com camponeses e operários para estabelecer
condições de uma Guerra Popular Prolongada. A brutalidade da repressão
aumentava o apoio camponês aos sandinistas. Em 1974, conseguiram uma
grande vitória ao invadir a festa em homenagem ao embaixador americano
Turner B. Shelton e tomar os importantes convidados como reféns. Em troca
exigiram, e conseguiram, a libertação de prisioneiros sandinistas, uma gran-
de quantia em dinheiro e a transmissão pelos meios de comunicação das
mensagens dos guerrilheiros ao povo da Nicarágua.
A oposição popular ao regime aumentou rapidamente, em 1978, após o
assassinato de Pedro Joaquín Chamorro, líder da União Democrática de Li-
bertação e proprietário do jornal La Prensa. A oposição incluía conservadores
e liberais dissidentes; associações de empresários progressistas; organizações
estudantis e de trabalhadores; partidos cristãos e movimentos evangélicos.
Alguns deles se aproximaram da FSLN, mas outros procuraram ajuda ameri-
cana para uma alternativa não-armada a Somoza: pretendiam tirar Somoza e
manter a Guarda Nacional como garantidora de um regime económico, polí-
tico e social mais democrático, aberto para o restante da elite. O temor de que
a Nicarágua se tornasse uma nova Cuba fez com que a OEA procurasse um
acordo entre Somoza e grupos de políticos tradicionais, sem sucesso.
A FSLN dividiu-se em três facções. Os proletários, saídos da frente urba-
na em 1975, procuravam ampliar o movimento de massa organizando os
operários nas fábricas, nas periferias das cidades. A facção da Guerra
Popular Prolongada vinha da FSLN original e preferia continuar com a anti-
ga forma de luta, de guerrilha rural especialmente no Norte, acumulando
forças. Os terceiristas ou insurgentes se afastaram da ortodoxia marxista-le-
ninista, propunham a união de todas as oposições em uma frente ampla e
conclamavam o povo para a insurreição rural e urbana. Neles se incluíam
Daniel e Humberto Ortega Saavedra e Victor Tirado Lopez. O rápido cresci-
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mento da oposição aos Somoza e as rebeliões espontâneas em várias cidades
impediram que a divisão se aprofundasse.
Em agosto de 1978 o Comandante Zero (Éden Pastora) tomou o Palácio
Nacional, fazendo cerca de 2 mil reféns, ação que teve grande repercussão
mundial e desmoralizou a Guarda Nacional. Foi convocada uma greve geral
e começou a insurreição armada nacional. No princípio de 1979, a FSLN
lançou uma ofensiva no Norte e no Oeste do país. A ofensiva final veio em
junho-julho de 1979 e Somoza fugiu do país. A Junta de Reconstrução Na-
cional, unindo todas as oposições e organizações populares, entrou em
Manágua, com vistas a organizar o país.
O programa de governo tinha sido estabelecido em Punta Arenas, Costa
Rica. Prometia criar um sistema democrático e convocar eleições. Mas o con-
ceito de democracia dos sandinistas era mais amplo: envolvia o melhoramen-
to das condições de vida da população e a ampliação da participação políti-
ca. A reconstrução se associava à transformação das estruturas políticas e so-
ciais em benefício dos excluídos do somozismo. O poder era dividido entre a
democracia burguesa e a popular, com predomínio dos sandinistas.
O governo que se instalou era heterogéneo, refletindo a aliança multi-
classista da luta contra Somoza. Mas a direção coube aos nove membros di-
retores da FSLN, mais popular e organizada. Anunciou-se a criação de uma
"Nova Nicarágua". As liberdades civis e políticas foram respeitadas, mesmo
para os criminosos de guerra e os cúmplices de Somoza. A pena de morte foi
abolida. A liberdade de imprensa foi restabelecida, e os jornais de oposição,
como o novo La Prensa, foram livres para criticar a revolução e manifestar
as preocupações da elite económica. Novos pequenos partidos representan--
do essa minoria não-sandinista também continuaram funcionando. A políti-
ca externa era baseada na autodeterminação e no não-alinhamento.
Em maio de 1980, foi criado e ampliado o Conselho de Estado, compos-
to de representantes dos diversos grupos sociais e das organizações popula-
res ligadas aos sandinistas. Milhares de cidadãos se mobilizavam nessas or-
ganizações, que davam ao povo a oportunidade de participar, e trabalhavam
voluntariamente em projetos governamentais. As forças armadas sandinistas
incluíam o exército, as milícias populares e o Comitéde Defesa Sandinista:
elas se orientavam politicamente para proteger o sistema revolucionário por-
que uma boa parte da Guarda Nacional permanecia em Honduras e Ronald
Reagan, em sua campanha, lamentava o golpe marxista-leninista na
Nicarágua. As eleições foram convocadas para 1985, quando o projeto de
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O S É C U L O XX
reconstrução estivesse mais avançado. Os pequenos partidos de elite protes-
taram contra essas medidas, que qualificavam de traição aos princípios de
Punta Arenas.
O governo confiscou as propriedades da família Somoza e seus associa-
dos, nacionalizou bancos e seguradoras. Empresas privadas honestas e efi-
cientes, assim como grandes propriedades rurais, puderam continuar sendo
exploradas. Foram concedidos empréstimos para que as empresas agrícolas
e industriais pudessem se recuperar. Procurou-se ampliar o número de clien-
tes para os produtos da Nicarágua, incluindo nações não-alinhadas e socia-
listas. As exportações eram feitas através de organizações governamentais.
Nas terras confiscadas, foram instaladas Cooperativas de Produção e
Unidades de Produção Estatal. Estabeleceram-se impostos sobre a renda e a
propriedade. O programa social incluía leis de proteção ao trabalhador,
obras públicas, campanhas de alfabetização, de vacinação, de criação de
agentes de saúde, tabelamento dos aluguéis reforma agrária com o objetivo
mais geral de redistribuiçãò da renda.
Iniciou-se de pronto a hostilidade contra o projeto revolucionário.
Internamente, houve a ação das antigas classes dominantes. Através de seus
partidos, associações de classe, jornais e rádio, criticavam os programas do
governo e pressionavam pela realização imediata de eleições. A alta hierar-
quia católica manifestava sua preocupação com o destino da Igreja em uma
Nicarágua que pensava caminhar para o socialismo. Muitos empresários li-
quidavam seus bens e deixavam o país ou então se recusavam a colaborar,
descapitalizando suas empresas. Externamente, o governo americano acusa-
va a Nicarágua de se tornar um satélite económico soviético. Incidentes na
fronteira de Honduras e a solidariedade com a Frente Farabundo Marti de
Libertação Nacional em El Salvador foram usados para justificar a ação do
governo Reagan contra a Nicarágua.
O governo americano começou a ajudar os contra-revolucionários, a
quem chamava de "lutadores da liberdade", com armas, dinheiro e treina-
mento. A CIA preparou manual para sabotar a Nicarágua. Os contras reali-
zavam incursões no território da Nicarágua a partir de Honduras e da Costa
Rica, com antigos elementos da guarda e mercenários americanos, inclusive
assassinando jovens alfabetizadores. Também se dedicavam à sabotagem, ao
terrorismo, à ameaça aos funcionários eleitorais, ao sequestro, assassinato,
emboscadas, atentados, bombardeio de aeroportos. Em 1984, minaram os
portos da Nicarágua. Tal situação levou ao estado de sítio, trouxe grandes
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prejuízos e gastos. A economia do país entrou em crise, agravada pela reces-
são mundial.
Em 1985, foram realizadas as primeiras eleições limpas da história da
Nicarágua, com observadores internacionais. A FSLN obteve 67% dos votos
e a Presidência. Começaria o processo de consolidar a revolução, que conti-
nuaria a ser impedido pela ação dos contras e dos Estados Unidos.
4. MILITARISMO E POLÍTICA NO PERU: O GOVERNO REVOLUCIONÁRIO DAS
FORCAS ARMADAS
A recuperação da economia exportadora de matérias-primas no Peru rece-
beu novo alento com a Primeira Guerra Mundial e a vinda de capitais exter-
nos: algodão, açúcar, seda, borracha, prata, cobre e petróleo. A retomada da
exportação consolidou uma oligarquia costeira, mercantil e financeira, pro-
dutora de açúcar e algodão, mas manteve os latifundiários tradicionais da
serra (gamonales). Com apoio de investimentos estrangeiros começou-se
também um desenvolvimento industrial. A oligarquia de 55 famílias, asso-
ciada aos haciendados da serra e ao capital estrangeiro, dominou o governo
peruano até 1968.
O processo de modernização aumentava a pressão sobre a terra das co-
munidades e sobre o camponês. A capitalização das minas deprimia a econo-
mia das comunidades vizinhas e reduzia as oportunidades de emprego. O de-
senvolvimento do capitalismo no Peru provocou modificações nos modos de
vida, de trabalho e de organização do camponês. Alterou arranjos seculares
entre latifúndio e trabalhador rural. O termo "camponês" englobava uma
série de situações diferentes no campo, que se caracterizavam pela condição
subalterna, pela sujeição à violência privada do latifundiário. Por não falar
espanhol, por pertencer a outra cultura, por ser índio ou mestiço, o cam-
ponês estava à margem da vida nacional. Não lhe era permitida a organiza-
ção para reivindicar direitos dentro das regras do jogo democrático: sindica-
tos rurais eram considerados subversão.
A partir da década de 1920, apareceram os movimentos de contestação
e se formaram novos agrupamentos políticos de oposição. Em 1924, foi fun-
dada a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA) por Victor Raul
Haya de Ia Torre, com um nacionalismo populista. Em face das pressões dos
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novos grupos contra a oligarquia e contra o capital estrangeiro, o regime se
fechava e ditaduras militares alternavam-se a governos conservadores que
acenavam com pequenas reformas. Na década de 1950, surgiu a Ação
Popular (AP). Também nos anos 50 e 60, os camponeses começaram a se or-
ganizar em comunidades e sindicatos, com greves e invasões, para recuperar
as terras ancestrais e alcançar a verdadeira cidadania.
A luta camponesa esteve centralizada em dois tipos de movimentos: or-
ganizações rurais de massa e unidades de guerrilha. Procurou também se
coordenar em escala nacional e alargar seus objetivos, associando-se a gru-
pos revolucionários urbanos. A estratégia foi primeiro a participação em
larga escala em torno de demandas imediatas e o uso de ações relativamente
não-violentas, como a ocupação das haciendas, revitalizando tradições cole-
tivistas no trato com a terra retomada. A princípio, os grupos armados eram
subordinados e para a defesa dos invasores.
A formação de unidades de guerrilha começou com a chegada de Hugo
Blanco, trotskista que falava quéchua; dos estudantes da Frente Obrero
Campesino Estudantil Popular com Manuel Scorza; de setores dissidentes
dos partidos de esquerda que enxergavam as possibilidades revolucionárias
dos comuneros da serra. O MIR, em 1965, tinha quatro frentes guerrilheiras.
Derrotado, em 1965, o movimento guerrilheiro, após intensa ação das forças
armadas, o campesinato viveria em estado de insurreição latente e se torna-
ria a preocupação crescente dos militares.
No Peru, os setores-chave da economia estavam em mãos do capital es-
trangeiro e companhias americanas eram responsáveis por 90% da exporta-
ção de minerais. A política económica e a luta contra a inflação e o déficit se-
guiam os princípios do liberalismo, sob a inspiração de conselheiros ameri-
canos. A crise económica se agravou em 1965, com a baixa nas exportações
e diminuição da entrada maciça de capitais externos. A moeda foi desvalori-
zada e procurou-se uma política de estabilização com restrições ao gasto pú-
blico, com reforma fiscal e acordos com as companhias de petróleo.
O governo da AP foi marcado pela corrupção, escândalos financeiros,
problemas económicos e crise política, com obstrução no Congresso. A
International Petroleum Company (IPC) esgotara os campos, sem título legal
e sem compensação para os cofres públicos, devido à remessa de lucros e isen-
ções de impostos. Daí surgiu um movimento pela nacionalização da explora-
ção do petróleo. Em troca de novos recursos da Agência Internacional para o
Desenvolvimento (AID), o governo chegou a um acordo com a IPC, garantin-
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do seus altos lucros e o monopólio do refino e distribuição e outras vantagensem clausulas secretas. O fato foi encarado como vergonha nacional.
A perspectiva de ameaça à ordem e às hierarquias institucionais mobili-
zaria novamente, em 1968, os militares peruanos. Para eles, as medidas para
superar as pressões populares, controlar e pacificar o campesinato e afastar
a possibilidade insurgente só poderiam ser levadas a cabo dentro de um ab-
soluto controle do Estado pelas forças armadas. As reformas para evitar a
desordem institucional deveriam ser impostas de cima para baixo, dentro de
um projeto militar, da lógica e da disciplina castrenses. A reforma agrária foi
vista como única maneira de desmobilizar os camponeses e de evitar que, da
luta pela posse da terra, eles passassem à contestação do Estado.
Em outubro de 1968, um golpe militar, sob a liderança do general-de-di-
visão Juan Velasco Alvarado, depôs o governo de Belaunde Terry. O país
passou a ser governado por urna junta militar, que se autodenominou
Governo Revolucionário das Forças Armadas. Visavam a uma revolução na-
cionalista para liquidar o subdesenvolvimento e a dependência, geradores de
miséria, fome, desigualdades e injustiça. Concebiam o desenvolvimento
como um processo de transformação estrutural. Defendiam uma posição hu-
manista, o resgate da cultura peruana e uma política antiimperialista.
Propunham melhorar as condições de vida das camadas populares, que esta-
vam perigosamente predispostas a reagir de forma violenta à sua exploração.
O laboratório de gestação do regime foi o Centro de Altos Estudos
Militares. Recusavam-se os modelos estrangeiros, questionava-se a eficácia
das lideranças civis e dos instrumentos democráticos no Peru. Na repressão às
guerrilhas, entraram em contato com a exploração e marginalização do indí-
gena. A falta de identidade nacional foi vista com dificuldade para constituir
verdadeiros cidadãos e soldados peruanos e para perpetuar um estado de in-
surreição. Ante o comunismo internacional e o expansionismo chileno, asso-
ciavam-se segurança nacional e desenvolvimento. A defesa nacional se ligava
às exigências de bem-estar do povo e ao planejamento económico, social e po-
lítico, para o qual os militares se viam mais capacitados. A sobrevivência da
corporação militar dependeria das mudanças fundamentais na sociedade.
Em 3 de outubro de 1968, a refinaria de Talara e os campos de La Brea e
Paririas, da IPC, foram ocupados, declarando-se caducas as concessões petro-
líferas contrárias ao interesse nacional e reservando as áreas mais importantes
para a reorganização da estatal Petroperu. Outras nacionalizações em setores
estratégicos da economia se seguiram até 1975: minas, ferrovias, transportes
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e comunicações, serviços públicos. Em muitos casos foram pagas indeniza-
ções. Formou-se o Banco da Nação, com aquisição da participação estrangei-
ra nos bancos privados. Estabeleceram-se 200 milhas de fronteiras marítimas
e nacionalizou-se a indústria da pesca. Novas empresas estatais foram criadas.
Procurou-se diversificar os mercados e as fontes de financiamento.
As instalações açucareiras foram ocupadas e transformadas em coopera-
tivas, proclamando-se então a inutilidade do sindicalismo no novo sistema.
Tentou-se estimular a industrialização e a autogestão pelos operários, com
projetos de participação nos lucros. A indústria nacional foi protegida
com tarifas contra a concorrência estrangeira. Organizou-se a Corporação
Financeira de Desenvolvimento. Promoveu-se a reforma universitária, para
despolitizar a Universidade, fixando uma orientação técnica, profissional e
apolítica.
Externamente, o Peru assumiu uma política terceiro-mundista e não-ali-
nhada. Rompeu com o bloqueio a Cuba, reatou relações com a China e ex-
pandiu o comércio com o bloco socialista. Participou do Pacto Andino, mer-
cado comum com Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela e Chile, como
meio para aumentar suas exportações. Manteve uma relação formal com os
Estados Unidos, sem fechar os canais de negociação e realizando novos con-
tratos de inversão com firmas estrangeiras. Renegociou as relações com o im-
perialismo. Os investimentos estrangeiros perderiam seu caráter de enclave:
o cobre produzido por consórcios internacionais seria refinado pelo Estado,
comercializado pela Mineiro-Peru e as empresas comprariam seus insumos
no país. Os Estados Unidos mantiveram atitude cautelosa pela experiência
com Cuba.
Em 24 de junho de 1969, no Dia do índio, o governo promulgou a lei de
reforma agrária. A lei estabelecia a expropriação de todas as grandes pro-
priedades e, no caso da agroindústria, de todo o complexo. Criou-se um
Tribunal Agrário, cujas sentenças seriam rápidas, sem apelação e executadas
imediatamente. Previa indenização, parte em dinheiro e parte em bónus da
dívida agrária, mas segundo o valor declarado pelos proprietários para efei-
to de pagamento de impostos. Anulava os contratos que ligavam a concessão
de terra no latifúndio à prestação de serviços pessoais. E, 48 horas depois do
anúncio, 60% das terras açucareiras já estavam sob controle governamental.
Nos Estados Unidos, a medida foi encarada como progressista, de acor-
do com as recomendações da Aliança para o Progresso, sem características
políticas e com seriedade. Significava a remoção das estruturas arcaicas que
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impediam o desenvolvimento. Enquadrou-se em um projeto maior de desen-
volvimento capitalista nacional. A reforma teve o objetivo de incorporar o
camponês à economia de mercado, fazendo dele um proprietário, de aumen-
tar a produção e a produtividade, de eliminar o latifúndio e transferir capi-
tais privados da agricultura para o setor industrial. Mais radical e extensiva
que em alguns países da América Latina, a reforma agrária peruana foi im-
posta de forma paternalista e autoritária, sem a participação ativa do cam-
ponês. Teve o sentido de reduzir a mobilização política independente ou ra-
dical do camponês da serra.
A fragmentação do latifúndio e a redistribuição de terras previstas não
privilegiavam a apropriação individual por pequenos e médios proprietários.
No caso das empresas agroindustriais, estabeleceu-se o sistema de cooperati-
vas, tendo os antigos empregados como donos. Na serra, foram criadas as
Sociedades Agrícolas de Interesse Social como meio de resolver os conflitos
entre camponeses despojados de suas terras, arrendatários e comunidades vi-
zinhas, todos reivindicando as mesmas terras usurpadas durante séculos. Os
arrendatários receberiam a propriedade e uma indenização. Todos se torna-
riam sócios da cooperativa trabalhada pelos antigos empregados permanen-
tes da hacienda, o que desencadeou protestos dos camponeses. Os que rece-
biam a terra tinham que pagar por ela.
A implantação da reforma agrária moveu-se lentamente e, ao fim do go-
verno militar, menos de 1/4 da população rural dela se beneficiou. Houve re-
sistência, fraude e sabotagem dos grandes proprietários. O governo foi inca-
paz de desenvolver uma política agrícola que beneficiasse o agricultor.
Durante a reforma teve lugar um importante processo de mobilização cam-
ponesa, que reagiu à forma de constituição das cooperativas, aos abusos e
tentativas de evasão da reforma agrária; pressionou pela sua radicalização e
pela organização autónoma do campesinato. Em 1974, a região andina se
viu novamente ante as invasões de terras, com as comunidades enfrentando
as empresas associativas.
Nos meados dos anos 70, a revolução peruana enfrentaria a crise que
deixou para os militares a opção de radicalizar o processo de reforma, com
apoio popular, ou de procurar uma política económica mais ortodoxa, com
apoio da burguesia e classe média. As tentativas de expansão do regime além
das forças armadas e a possibilidade da radicalização das reformas dividiram
os militares. A direita se reorganizava, sob a bandeira do anticomunismo,
com apoio de empresários, produtores agrícolas, associações profissionais, e
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acusavao governo de abandonar a livre empresa e de favorecer uma econo-
mia de Estado. APRA e AP exerciam pressões para o retorno ao governo
civil, com o apoio de setores da marinha e facções militares preocupados
com o isolamento do país na América Latina. Como reação à pressão, o go-
verno se tornava cada vez mais ditatorial.
Em 1975, o general Morales Bermúdez, formado em economia, liderou
o golpe contra Alvarado e logo depois afastou do governo e do comando das
tropas os oficiais progressistas. A nova junta militar recuou do processo re-
formista. Adotou-se uma política económica deflacionária e de estabilização
ortodoxa, de acordo com o Fundo Monetário Internacional: redução dos sa-
lários reais, desvalorização da moeda, abandono do controle dos preços, li-
beração das remessas de lucros por empresas estrangeiras. Também se encer-
rou o processo de reforma agrária. Anularam-se as conquistas dos trabalha-
dores nas cooperativas. Como resultado, fome e desnutrição voltaram a cres-
cer. O protesto popular encontrava a repressão. Depois da greve geral de
1977, foi convocada uma Assembleia Constituinte.
As eleições se fizeram em clima de repressão e trouxeram maioria de cen-
tro-direita. O governo aplicou o receituário neoliberal: diminuição do papel
do Estado na economia; transferência de recursos e de empresas para o setor
privado; promoção da concorrência pela eliminação de subsídios e controles
de preços; desmonte das barreiras tarifárias que protegiam a indústria nacio-
nal, a fim de expô-la à concorrência externa; encorajamento das exportações
de matérias-primas. No começo dos anos 80, a economia peruana afundou.
O empobrecimento, a concentração de renda e a desintegração social avan-
çaram. Aumentaram o crime e a violência. O tráfico de cocaína se espalhou.
Em 1980, o Sendero Luminoso, fundado dez anos antes por facções do
Partido Comunista do Peru (Bandeira Vermelha), iniciava sua ação armada,
sob a liderança de Abimael Guzmán.
5. CONCLUSÃO
Na América Latina, a ordem económica, política e social estabelecida desde
o fim do século XIX modificou-se pela integração ao desenvolvimento capi-
talista, pela modernização e urbanização, e por uma certa industrialização.
Avançando-se no século XX, e especialmente após a crise de 1929 e depois
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da Segunda Guerra Mundial, essas mudanças se refletiriam na estrutura de
classes, nas relações entre os grupos sociais, na natureza do Estado e nas po-
líticas económicas. A organização do movimento operário e sua militância
cresceram, da mesma maneira que os setores intermediários, demandando o
seu espaço político e ampliando as suas reivindicações. A oligarquia tendeu
a se diversificar e a aceitar parcialmente soluções reformistas, redimensio-
nando as suas alianças. A América Latina, porém, ainda conservava a feição
de um continente camponês, apesar do crescimento da população urbana, o
que contribuía para as pressões derivadas da luta pela melhor distribuição de
terra, pelo direito à sindicalização e pela reforma agrária.
Mantinha-se a América Latina sob o signo da dependência e das desi-
gualdades sociais, contra as quais se tentaria mobilizar as forças nacionais.
O desenvolvimento e a industrialização, especialmente a indústria básica,
foram vistos como os motores da independência nacional, da eliminação das
desigualdades sociais e da pobreza, da promoção da democracia e da supera-
ção das repúblicas oligárquicas. Construir as bases económicas da Nação e
ampliar a democracia significavam também afastar os traços, ainda existen-
tes, de uma economia e uma sociedade coloniais que se constituíam em obs-
táculos ao desenvolvimento. Igualmente significava a integração dos setores
populares ao projeto de desenvolvimento nacional.
Neste processo de mudança cresceram significativamente os papéis do
Estado. As soluções nacionais variaram: foram desde a manutenção do Esta-
do burguês e de alguns princípios da democracia . ;presentativa em regimes
autoritários, passando pelo populismo e pela ditadura militar, até o estabele-
cimento do socialismo. Constituíram-se, então, na América Latina, regimes
diversos, a que podemos chamar de nacional-estatizantes, como o peronismo
na Argentina, o socialismo cubano, o sandinismo na Nicarágua e o Governo
Revolucionário das Forças Armadas no Peru.
As ideologias que acompanhavam a constituição desses governos apre-
sentavam-se como revolucionárias e populares, propunham uma nova via
para o desenvolvimento, contra c explorador estrangeiro e contra a desigual-
dade e a injustiça social. Alguns desses regimes, francamente autoritários e,
embora apoiando um projeto capitalista, que favoreciam uma elite burguesa,
dirigiam-se ao povo e propunham uma ampliação da participação democráti-
ca. Outros eram francamente revolucionários ao tentarem eliminar a depen-
dência pela superação do capitalismo que a criara: a Revolução Cubana aba-
laria ainda mais os sistemas tradicionais de dominação na América Latina.
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Em comum tinha ainda o fato de que o Estado se tornaria o agente de coesão
nacional e de mobilização da vontade nacional para o desenvolvimento.
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O mundo árabe e as guerras
árabe-israelenses
Keila Grinberg
Doutoranda em História Social
da Universidade Federal Fluminense
"Mesmo quando há duas partes que têm razão, a justiça é um jogo ilusório,
porque é sempre julgada pelo lado de quem vê."
YORAM KANIUK, escritor israelense
INTRODUÇÃO
A primeira palavra que vem à cabeça de qualquer um que pense em Oriente
Médio é conflito. Região que deu origem às grandes civilizações e a religiões
que ainda hoje encontram seguidores nos quatro cantos do mundo, é triste
constatar que ela tenha passado a ocupar as manchetes dos jornais com
temas tão sangrentos como explosões de carros-bomba, campos de refugia-
dos, assassinatos de políticos e ameaças de guerras até nucleares.
Com aproximadamente 7,2 milhões de quilómetros quadrados situados
na encruzilhada dos continentes asiático, africano e europeu, a região deno-
minada Oriente Médio abrange os países Afeganistão, Arábia Saudita,
Barein, Catar, Egito, Emirados Árabes Unidos, lêmen, Ira, Iraque, Israel,
Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Síria, Turquia e Territórios da Autoridade
Nacional Palestina. O termo não é tão antigo quanto a presença humana no
local; cunhado por ingleses no início do século XX, ele foi usado para desig-
nar as extensões de terra e água a meio caminho entre o mar Mediterrâneo e
as fronteiras da índia, região controlada na época pelo Império Britânico.
Hoje, englobando este vasto conjunto de países que possuem menos em
comum do que se imagina, suas bordas geográficas são os estreitos de
Dardanelos e Bósforo a noroeste, o oceano Índico a sudeste, o vale do rio
Nilo a sudoeste e o Afeganistão a nordeste.
O atual Oriente Médio conta com uma população de cerca de 230 mi-
lhões de habitantes, que, divididos em várias etnias, falam pelo menos seis
línguas diferentes e professam três religiões distintas, para contar só as majo-
99
O S É C U L O XX
rifarias. Aí começam os problemas: para entender os conflitos destes povos
designados genericamente como árabes e judeus, suas alianças e disputas, é
preciso conhecê-los de fato.
Quando Maomé, no século VII, fundou a religião muçulmana, dificil-
mente se poderia imaginar que ela seria um dia a crença de praticamente
todo o Oriente Médio, Norte da África, Sudão, Paquistão, e de parcelas da
índia e da Indonésia. Espremidos entre os impérios Bizantino e Persa, os ára-
bes de então eram pura e simplesmente as pessoas que viviam na península
Arábica. Acreditando que Maomé lhes tinha revelado uma nova fé, adota-
ram Meca como capital religiosa e o Corão como livro sagrado, tornando-se
então muçulmanos (crentes, ou fiéis, em árabe) ou partidários da religião do
islã (também em árabe, submissão a Deus). Depois da morte do profeta, tro-
pas árabes dispuseram-se a propagar a religião através de expansão militare,
em relativamente pouco tempo, constituíram um império que acabou se es-
tendendo por 6 mil quilómetros, do oceano Índico ao Atlântico, dominando
a península Ibérica, o Norte da África e parte dos impérios Bizantino,
Sassânida e Persa, indo até as fronteiras com a índia e a China, e tendo como
sucessivas capitais as cidades de Meca, Damasco, Bagdá e Cairo.1
Nesse império, o islamismo era a religião oficial e a língua árabe tornou-
se rapidamente o principal meio de comunicação. Assim, os povos conquis-
tados pelos árabes muçulmanos foram arabizados e islamizados. Com exce-
ção dos territórios europeus, da Ásia Menor e do Império Persa, todos os
povos conquistados adotaram o árabe como primeira língua; além disso,
fora os cristãos e judeus — que tinham o direito de administrar suas comu-
nidades e beneficiar-se da liberdade de culto mediante o pagamento de um
imposto especial —, todos também passaram a professar a religião muçul-
mana. Tempos mais tarde, alguns destes mesmos grupos conquistados ex-
pandiram ainda mais a fé islâmica, como os berberes do Norte da África, que
a propagaram ao sul do Saara. É por isso que, hoje em dia, mesmo não fa-
zendo parte do Oriente Médio, habitantes de países como a Argélia e o
Marrocos adotam a religião muçulmana e são considerados árabes. Ao
mesmo tempo, nem todos os que se converteram ao islamismo adotaram os
valores, a cultura e a língua árabes, como os turcos, que falam a língua turca,
e os iranianos, que até hoje usam o persa. Não são árabes, portanto. O con-
trário também aconteceu: nem todos os que passaram a ser árabes com o
tempo se converteram ao islamismo, como os católicos e os judeus já men-
cionados. Nem todos os árabes são muçulmanos, e nem todos os muçulma-
100
o M U N D O Á R A B E E A S G U E R R A S A R A B E - I S R A E L E N S E S
nos são árabes. Assim, de um modo geral, são árabes aqueles que se identifi-
cam com a língua, a cultura e os valores dos árabes, e são muçulmanos aque-
les que seguem a religião do islã, fundada por Maomé.
Quase o mesmo pode ser dito dos judeus: primeira das religiões mono-
teístas, o judaísmo nasceu na chamada terra de Canaã, situada entre a mar-
gem direita do rio Jordão e o mar Mediterrâneo, quando os então chamados
hebreus adotaram os preceitos difundidos pelos profetas Abraão e Moisés e
consolidados nos Dez Mandamentos e no Pentateuco, os cinco primeiros li-
vros do Antigo Testamento. Considerando Jerusalém sua capital sagrada, os
judeus posteriormente viveram na região sob o domínio de vários povos e
impérios, nem todos tolerantes. Depois das destruições dos dois templos de
Jerusalém, um pelos neobabilônios e o outro pelos romanos, os judeus se dis-
persaram pelo mundo e, mesmo que sempre tenham existido comunidades
judaicas na região, só em fins do século XIX grupos de judeus europeus co-
meçaram a se organizar politicamente para constituir um lar nacional judai-
co, que — mais tarde ficou decidido — deveria ser localizado na Palestina,
naquela época parte do Império Otomano, onde viviam pequenas comunida-
des de árabes agricultores.2
O surgimento do sionismo, ou o movimento que preconiza a volta a
Sion, colina de Jerusalém que simboliza a Terra Prometida, na década de
1890, foi profundamente marcado pelo crescente anti-semitismo europeu. A
falência da política de integração dos judeus à sociedade europeia, posta em
prática em vários países durante todo o século XIX, ficou evidente quando
massacres de comunidades inteiras de judeus — os chamados pogroms — co-
meçaram a acontecer na Rússia e quando o judeu francês Alfred Dreyfus foi
acusado de passar informações secretas de seu exército para o inimigo ale-
mão. Este episódio, que provocou inúmeras manifestações anti-semitas na
França e é hoje considerado um dos maiores erros judiciários da história
francesa, impressionou vivamente o jornalista vienense Theodor Herzl, que,
também judeu, escreveu o livro O Estado Judeu, publicado em 1896, e orga-
nizou o primeiro congresso sionista na Basileia no ano seguinte.3
Foi em contraposição ao anti-semitismo europeu, portanto, que a ideia
de construção do Estado Judeu ganhou força. Movimento nacionalista como
muitos que sacudiam a Europa naquele momento, a versão política do sionis-
mo pregava a criação de um Estado laico (não necessariamente na Palestina)
que solucionasse os problemas de segurança dos judeus. Muito influenciados
pelo socialismo europeu, a maioria de seus militantes preconizava uma di-
101
O S É C U L O X X
mensão socializante do sionismo, que, através de comunidades coletivistas —
os kibutzitn —, permitisse a criação de uma nova sociedade, baseada em va-
lores igualitários, diferentes daqueles hegemónicos em suas terras natais.
Mesmo assim, nessa época e até meados do século XX, quando o sentimento
anti-semita já tinha virado política oficial na Alemanha nazista, a ideia sionis-
ta foi desconsiderada pela maioria dos judeus, muitos ainda confiantes na
emancipação pessoal ou na integração socialista à sociedade europeia, outros
preferindo adotar a solução individual da imigração para, principalmente, as
Américas. Nem todos os judeus, portanto, tornaram-se sionistas.
O FIM DO IMPÉRIO OTOMANO E A NOVA CONFIGURAÇÃO POLÍTICA DO ORIENTE
MÉDIO
Quando judeus sionistas começaram a emigrar para a Palestina, o Império
Otomano estava em crise. Turcos originários da Ásia Central e convertidos ao
islamismo, os otomanos reunificaram o mundo muçulmano no século XVI,
constituindo um império que duraria até a Primeira Guerra Mundial. Embora
o declínio do império tenha começado ainda em meados do século XVII,
quando o exército otomano foi barrado às portas de Viena, foi só no século
XIX que ele realmente entrou em crise, com o interesse das potências euro-
peias em expandir-se naquela direção. Era a época da disputa por áreas estra-
tégicas no mundo inteiro, e o território otomano era prioridade principalmen-
te para Rússia e Inglaterra. A primeira, já de posse de tratados comerciais que
lhe davam liberdade de navegação e comércio no mar Negro e nos estreitos de
Bósforo e Dardanelos, visava aumentar sua influência nos territórios de popu-
lação eslava dominados pelos otomanos e, com isso, consolidar sua hegemo-
nia na região. O Império Britânico, por sua vez, pretendia controlar as rotas
de acesso às suas áreas de controle na Ásia e, ao mesmo tempo, impedir o
avanço de outras potências. Interessados em comércio e diplomacia, estes paí-
ses estavam, sobretudo, investindo na rivalidade entre si mesmos.
Em 1854, no conflito que ficou conhecido como Guerra da Criméia, a
Inglaterra e sua aliada França apoiaram o Império Otomano na vitória con-
tra a Rússia, e por isso consolidaram definitivamente seu poder na região, fi-
xando as tarifas aduaneiras e controlando todas as trocas comerciais dos en-
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O M U N D O Á R A B E f. AS G U E R R A S Á RA B E - 1 S R A E L E N S E S
dividados otomanos. A este movimento correspondeu um outro, interno, de
igual ameaça à integridade territorial. Eram os movimentos nacionalistas
árabes, que, influenciados pelas mesmas ideias que deram origem ao sionis-
mo e impulsionados pelo exemplo dos sérvios e gregos nos Bálcãs, buscavam
autonomia e independência em regiões de fala árabe, como a Arábia, o
Iraque, o Líbano e o Egito. Contando com ajuda externa, estes movimentos
cresceram e ajudaram a minar ainda mais o império, que, após uma nesga de
modernização com a Revolução dos Jovens Turcos, teve seu golpe final de-
pois da Primeira Guerra Mundial, a última travada pelo Império Otomano
como grande potência.4
O mais importante destes movimentos foi o liderado por Hussein, que,
além de herdeiro da família hachemita, descendente de Maomé, era também
o guardião das regiões mais sagradas do islã, as cidades de Meca e Medina,
situadas na província árabe do Hijaz, na Arábia. Hussein pretendia consti-
tuir um grande "Reino Árabe", que incluiria, além da própria Arábia, a
Síria, o Iraque e a Palestina. Em 1915, ele iniciou uma correspondência com
Sir Henry McMahon, alto comissáriobritânico para o Egito, comunicando
suas pretensões e buscando a concordância britânica para a proclamação de
um Califado Árabe para o islã. Embora tendo inicialmente recusado, o go-
verno inglês acabou dando o aval para a revolta árabe contra os otomanos,
iniciada em 1916 com o auxílio do coronel Lawrence, o famoso Lawrence da
Arábia.5
Ao mesmo tempo, a Inglaterra precisava administrar as pretensões da
França, sua principal aliada na guerra, que estava interessada na Síria, no
Líbano e na Palestina. As negociações entre os dois países resultaram nos
acordos de Sykes-Picot, assinados secretamente, com aprovação russa, ainda
no início da revolta árabe. Neste acordo, as duas potências realizaram a par-
tilha do Oriente Médio e reconheceram um possível Estado Árabe Indepen-
dente, mas não nas fronteiras desejadas pelos árabes. Num texto recheado de
ambiguidades, os ingleses não consideraram a Síria e a Palestina como incluí-
das nas áreas pretendidas pelos árabes, mas, interessados no apoio destes à
derrocada final dos otomanos, nunca se preocuparam em esclarecer comple-
tamente os limites de seus acordos.
Em todas estas negociações, a região mais problemática era a da
Palestina, cobiçada tanto pela França quanto pela Inglaterra; provisoriamen-
te resolvida por uma divisão entre a Inglaterra e uma proposta de administra-
103
O S É C U L O XX
cão internacional nos lugares santos, esta questão foi aprofundada pela decla-
ração feita por Lorde Balfour, em 1917, de que o Império Britânico "encara
favoravelmente, com estima, o estabelecimento na Palestina de um lar nacio-
nal para o povo judeu". De fato, visando conseguir o apoio dos sionistas —
que já somavam mais de 70 mil pessoas nessa época — para salvaguardar seus
interesses na região, e devido a intensas negociações diplomáticas entre repre-
sentantes sionistas e oficiais britânicos, os ingleses colocaram-se em favor das
pretensões sionistas. No entanto, mesmo enfatizando a necessidade de respei-
to aos direitos civis e religiosos das comunidades não-judaicas locais, a
Declaração Balfour não menciona especificamente a existência da comunida-
de árabe no local, causando grande insatisfação entre os membros desta.
Assim, no que se refere à Palestina, a política britânica acabou sendo ex-
tremamente dúbia: numa sucessão de acordos e declarações secretas (eles só
seriam tornados públicos alguns anos depois), os ingleses conseguiram se
comprometer tanto com Hussein e seus seguidores, quanto com os sionistas,
apoiando as pretensões nacionais dos dois sem, no entanto, entrar em deta-
lhes sobre os limites geográficos das futuras nações. Reforçando a posição de
árbitro num conflito largamente antevisto, a Inglaterra ainda garantia, de
quebra, o acesso ao Canal de Suez.
As outras regiões do Império Otomano foram desmembradas após o fim
da Primeira Guerra Mundial, dando origem a novos países e a regiões con-
troladas diretamente por britânicos e franceses, segundo os limites traçados
no acordo Sykes-Picot e com a supervisão da Liga das Nações. A nova con-
figuração geopolítica do Oriente Médio, portanto, ficou sendo a seguinte: a
Turquia torna-se uma República Nacional Independente; a Síria passa a ser
Mandato Francês em 1920; no Iraque e na Transjordânia, os britânicos co-
locam, respectivamente, os irmãos Faissal e Abdallah no trono, ambos filhos
do líder Hussein. Esta divisão e o interesse britânico em controlar as áreas
petrolíferas da região fizeram com que o sonho da criação de um Reino
Árabe fosse por água abaixo, ainda mais porque, agora, Hussein tem um
rival: é Ibn Saud, que, sem ter participado das revoltas árabes e da Primeira
Guerra Mundial, congregava 70 mil homens em uma fraternidade religiosa,
política e militar. Ibn Saud tinha como objetivo unificar a Península Arábica
e, aproveitando a fraqueza de Hussein com a partilha do Oriente Médio, se
proclamou rei do Hijaz, formando a Arábia Saudita, numa atitude que
nunca seria bem aceita pelos seguidores de Hussein.
o M U N D O Á R A B E E A S G U E R R A S A R A B E - I S R A E L E N S E S
ÁRABES E SIONISTAS NA PALESTINA: O INÍCIO DA CONVIVÊNCIA
Quando foi iniciada a colonização judaica na Palestina, em fins do século
XIX, eram raras as cenas de violência entre árabes e judeus sionistas.
Comprando terras de proprietários árabes absenteístas, estabelecidos em
Jerusalém ou em Beirute, muitos judeus chegaram imbuídos dos ideais de
cooperação mútua e, bem ao estilo da época, acreditavam estar trazendo
progresso e civilização para os habitantes da região. E, de fato, inicialmente,
os árabes palestinos se beneficiaram bastante com a nova situação, desfru-
tando do acesso ao novo mercado de trabalho aberto com a criação de co-
munidades agrícolas coletivistas e a existência de novas cidades, como Tel-
Aviv, fundada em 1909.
No início da década de 1930, viviam cerca de 840 mil árabes na
Palestina; destes, apenas 75 mil eram cristãos, que viviam nas áreas urbanas,
eram alfabetizados e tinham acesso aos baixos e médios escalões da adminis-
tração inglesa. Os árabes muçulmanos, no entanto, estavam em situação
bem pior; 70% deles viviam do cultivo de grãos, vegetais, azeite de oliva e ta-
baco em terras que não possuíam. Sempre endividados com seus patrões, a
quem deviam o aluguel das terras que ocupavam, estes agricultores viviam
em estado de grande pobreza. Mesmo assim, a situação deles era melhor do
que a dos outros árabes muçulmanos do Oriente Médio: entre 1922 e 1946,
100 mil árabes entraram na área controlada pelo mandato britânico, buscan-
do as oportunidades económicas criadas com a colonização judaica.
Até o crescimento da imigração judaica na região, portanto, os palesti-
nos não possuíam qualquer reivindicação territorial de cunho nacionalista.
Foi só depois de as potências estrangeiras terem dividido o Oriente Médio,
criando artificialmente países árabes em outras áreas e firmando um com-
promisso pelo estabelecimento de um lar judeu, que os palestinos fundaram
seu próprio movimento nacional, baseados no argumento de que, se os ju-
deus tinham direito àquela terra, eles o tinham também, e mais ainda por lá
estarem há mais tempo do que os sionistas. Pode-se dizer, portanto, que o
sionismo motivou a formação do nacionalismo palestino. Embora algumas
tentativas tenham sido feitas no sentido de construir bases para uma possível
convivência mútua — foram criadas organizações conjuntas, como a União
Internacional de Operários Ferroviários, Postalistas e Telegrafistas, a União
dos Trabalhadores Árabes, com apoio da Histadrut (central sindical judai-
ca), e a Fraternidade Operária —, durante as décadas de 1920 e 1930, judeus
104 105
O S É C U L O XX
e palestinos deram início a urna disputa que não teria fim, já que seus objeti-
vos eram semelhantes e excludentes; ambos queriam pôr fim ao Mandato
Britânico e criar uma nação independente no mesmo lugar.
Neste sentido, a revolta palestina ocorrida na cidade de laffo, em 1921,
foi apenas a primeira de uma série de conflitos, devidamente explorados pelo
governo britânico, que, colocando em prática uma política ambígua e dualis-
ta, ora fazia concessões a palestinos, ora a judeus, contribuindo para que as
duas partes usassem cada vez mais da violência como forma de pressionar
por seus interesses. Um dos mais graves incidentes foi o ocorrido em Hebron,
em 1929, quando judeus foram massacrados por árabes extremistas. Tanto
palestinos quanto judeus formaram, assim, suas organizações de autodefesa;
estes criaram a Haganah, organização que viria a ser a base do exército israe-
lense no futuro, além de unidades paramilitares como o Irgun, chefiada pelo
futuro primeiro-ministro Menachem Begin. Os palestinos compensavam a
falta de organização com o excesso de contingente, desencadeando ataques
em igual intensidade aos dos judeus.
Enquanto se armavam, os judeus também trabalhavam no sentido de
construir as bases de seu futuro Estado, criando instituições, redes de auto-
ajuda e, principalmente, buscando fundos para o incremento da imigração.
Os palestinos,no entanto, agiam de forma diferente: negando-se a criar uma
Agência Árabe (equiparada à Agência Judaica, responsável pela imigração),
eles fecharam-se ao contato com os britânicos, que tinham a partir de então
apenas no mufti de Jerusalém um interlocutor com quem negociar. Ao
mesmo tempo, sem apoio dos outros países árabes, que, já tendo conseguido
suas independências, não fazem grande esforço pela causa palestina, os pa-
lestinos se vêem perdidos entre o abandono de seus vizinhos e a posição bri-
tânica. Esta situação só seria agravada com o aumento da imigração judaica,
motivado pelo crescimento de medidas anti-semitas na Europa. Até então,
era permitida a entrada de 5 mil judeus por ano. O início da perseguição na-
zista, no entanto, fez com que a população judaica da Palestina aumentasse
muito rapidamente. A perspectiva de uma maioria populacional judaica,
portanto, acabou sendo a gota d'água para o início, em 1936, da revolta pa-
lestina generalizada, que, tendo o objetivo de interromper a imigração judai-
ca, dura três anos.6
Assim, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, britânicos, judeus e pa-
lestinos estavam em uma encruzilhada, ainda que de dimensões diferentes: os
judeus, perseguidos na Europa e proibidos de imigrar para a maioria dos paí-
O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S Á RA B E -1 S R A E L E N S E S
sés do mundo, viam na Palestina sua única esperança de sobrevivência; os pa-
lestinos, assustados com as dimensões que a imigração judaica estava toman-
do, temiam perder o pouco que tinham para os sionistas; e os britânicos es-
tavam divididos entre a obrigação do apoio aos refugiados judeus e o temor
de provocar uma aliança entre os árabes e o Eixo, justamente por permitir a
imigração judaica. A declaração de que a Inglaterra "simpatiza com os refu-
giados dos países ocupados pela Alemanha" mas "vê-se obrigada a admitir
que o reinicio da imigração legal judia, nas atuais circunstâncias, corre o risco
de ter a pior repercussão para o país e de constituir uma séria ameaça para os
interesses ingleses no Oriente Médio" é boa demonstração disto (ver quadro
1: As principais ondas de imigração judaica para a Palestina).
Em 1937, um relatório feito pela Comissão Peei, grupo inglês responsá-
vel por investigar os conflitos na Palestina, propõe, pela primeira vez, a par-
tilha da região, veementemente recusada pelos árabes reunidos na Síria no
Congresso Pan-Árabe, em 1938 ("A Palestina é árabe, e preservá-la como tal
é dever de todos os árabes"), mas aceita com reservas pela comissão executi-
va sionista. A situação é compreensível — para quem não tinha nada, qual-
quer proposta é uma vitória, mas para quem ocupava o território inteiro, a
mínima cessão já significaria uma derrota —, mas ela só provocou o aumen-
to da revolta palestina. Assim, revendo sua posição, os britânicos optaram
por restringir radicalmente a entrada de judeus na Palestina em 1939, justa-
mente o ano em que Hitler dá início à guerra que acabaria por exterminar 6
milhões de judeus.
Os ingleses então adotam a política do Livro Branco, limitando a imigra-
ção de judeus a 50 mil por cinco anos; depois disto, a retomada do processo
imigratório ficaria condicionada à concordância dos árabes. Desta vez,
foram os judeus que optaram pela via da violência para rechaçar a decisão
britânica: em 1945, mesmo contra a posição da Agência Judaica, segmentos
extremistas minoritários da comunidade judaica dão início à luta armada
que vai resultar, entre outras ações, na explosão do Hotel King David em
Jerusalém, sede do governo inglês, pelo Irgun. De fato, a posição dos judeus
da Palestina era difícil e dúbia, por conta da necessidade de continuar ao
lado dos ingleses na disputa europeia contra os nazistas: "Combateremos ao
lado da Inglaterra como se o Livro Branco não existisse, e combateremos o
Livro Branco como se a guerra não existisse", dizia o líder Ben-Gurion, da
Agência Judaica.
Mas tal separação de perspectivas já não seria possível: ante o desfecho
106 107
O S É C U L O XX
da guerra e as notícias sobre o genocídio de judeus, aumentava a pressão pú-
blica pela aceitação da entrada daqueles 100 mil que ainda aguardavam, na
Europa ou em navios clandestinos, uma solução para o seu destino. Em
1947, este estado de coisas chega ao clímax: o navio Exodus, que aportou
em Haifa com 4,5 mil judeus sobreviventes de campos de extermínio, é ex-
pulso pelas autoridades britânicas, e é obrigado a voltar para a Alemanha. A
partir daí, tendo perdido o controle da situação — também provocada pelo
aumento da beligerância de palestinos e judeus contra britânicos —, a
Inglaterra leva o problema às Nações Unidas, que, na conturbada sessão de
29 de novembro de 1947, decide pelo fim do Mandato Britânico e pela par-
tilha da Palestina em dois Estados autónomos e independentes: um árabe pa-
lestino e um judeu. Este teria 14 mil quilómetros quadrados, englobando as
áreas entre o deserto do Neguev e o golfo de Acaba, o lado esquerdo do lago
Tiberíades e a zona compreendida entre Tel-Aviv e Haifa, enquanto o pales-
tino, com 11 mil quilómetros quadrados, estaria situado na Cisjordânia e na
faixa de Gaza; a cidade de Jerusalém, cobiçada por ambos os lados, seria in-
ternacionalizada. Novamente, os sionistas aceitam a partilha e os palestinos
a recusam, seguindo o mesmo raciocínio de que seria uma derrota permitir
que os judeus legitimassem sua presença na Palestina.7
Logo que o plano da partilha foi tornado público e a data para o fim do
Mandato Britânico marcada, os choques entre palestinos e judeus intensifica-
ram-se. Massacres de lado a lado, como o da população árabe da aldeia de
Deir Yassin e o dos habitantes do kibutz Kfar Etzion, se sucediam. Ao mesmo
tempo, as forças armadas judaicas organizavam-se para um provável con-
fronto de maiores proporções, enquanto tropas dos países árabes vizinhos ini-
ciavam movimentações. Os britânicos apenas observavam de longe e, no dia
14 de maio de 1948, retiraram-se de Jerusalém. Não havia qualquer represen-
tante da ONU para substituí-los. Estava dado o sinal para o início da guerra.
À proclamação oficial da criação do Estado de Israel, feita por David
Ben-Gurion em Tel-Aviv, correspondeu o ataque dos países árabes ao redor.
Com um exército mais bem armado, o suporte do armamento tcheco e o au-
mento contínuo no contingente de pessoal, por conta da chegada de imigran-
tes europeus, Israel levou a melhor. A superioridade dos israelenses também
era política, já que seus inimigos compunham um bloco nada coeso: o mufti
de Jerusalém pretendia "jogar os judeus ao mar", a Síria pensava na funda-
ção da "Grande Síria" (que incorporaria a Transjordânia, o Líbano e a
Palestina), a Transjordânia aceitava a criação de Israel desde que anexasse
o MUNDO Á R A B E E AS G U E R R A S A R A B E - I S R A E L E N S E S .
parte dos territórios destinados aos palestinos, o Egito preocupava-se em não
deixar que a Transjordânia tivesse êxito, e o Líbano pretendia apenas reafir-
mar sua recente independência.
A recém-criada Liga Árabe escondia em seu nome as profundas diver-
gências de objetivos que a caracterizariam a partir de então, e o resultado
disto pode ser percebido através da divisão territorial ocorrida com o armis-
tício de 1949: além de Israel passar a ocupar um território 21% maior do
que aquele designado pela ONU, o rei Abdallah consegue anexar a
Cisjordânia a seu território (que, a partir de então, passa a ser o Reino da
Jordânia), o Egito toma conta da faixa de Gaza e Jerusalém é dividida. O Es-
tado Palestino não chega a sair do papel, e o lema "O caminho de Jerusalém
passa pela unidade árabe" é bastante revelador do segundo plano ocupado
pela questão palestina entre as prioridades árabes: primeiro a unidade, de-
pois o Estado Palestino.
Os principais perdedores desta guerra, portanto, não são os países árabes,
que vêem a criação do Estado de Israel como um "enclave ocidental" no
Oriente Médio, e sim os palestinos, forçados a se exilar fora do novo território
israelense. A questão é controversa:novos recordes impressionantes, a produção de bens de consu-
mo, e sobretudo a agricultura de grãos, apontavam para uma situação de es-
tagnação ou, em algumas áreas, para o declínio. O V Plano, formalmente
aprovado em fins de 1952, por ocasião do XIX Congresso do Partido
Comunista da União Soviética (PCUS), mas já sendo implementado desde o
ano anterior, manteve e aprofundou estas opções. Era preciso se defender da
Guerra Fria, cujos perigos rondavam. Mais uma vez, os cintos deveriam ser
apertados... e as consciências e vontades, mobilizadas.
O relançamento dos métodos habituais. De um lado, campanhas positi-
vas, para aumentar a produção e a produtividade, emulação entre unidades
de produção, industriais e agrícolas, cidades, regiões, distribuição de prémios,
incentivos morais e materiais, processos de promoção social. De outro lado, o
emprego do Terror, com suas duas faces, coagindo e inibindo, mas também
mobilizando em campanhas cie identificação, delação e derrubada dos chama-
dos inimigos do povo.
Em sua dimensão punitiva, o Terror, mais uma vez, traumatizou a socie-
dade e o próprio partido. Entre os soldados e civis presos pelos nazistas, e re-
cambiados para a URSS logo depois da guerra, um pouco mais de 40%
foram para os campos de trabalhos forçados, sob suspeita de colaboracionis-
mo. Pequenas nações não-russas, na região do Cáucaso, foram deportadas
em bloco, também acusadas de servilismo diante do invasor. Nas fileiras do
partido, do mais alto escalão (queda brusca de N.A. Voznessenski, ministro
do Plano) à base (a depuração alcançou 30% de dirigentes locais no conjun-
to da URSS), a instalação de uma atmosfera de areias movediças.
Pata compensar, as mobilizações em torno de mitos unificadores, com-
provadamente eficazes ao longo da História: a defesa da Pátria ameaçada, a
fortaleza socialista sitiada por um mundo capitalista hostil e o culto à perso-
nalidade do guia genial, o Pai do Mundo do Trabalho, o camarada J. Stalin.
Em 1949, por ocasião do seu septuagésimo aniversário, houve um delírio
inédito de homenagens e festividades. O homem adquiriu dimensões semidi-
vinas. E parecia tanto mais forte quanto mais se fortalecia o sistema que o re-
conhecia como chefe supremo e inquestionável.
Com efeito, o sistema socialista estendia-se para a Europa e para a Ásia,
superando a situação de isolamento que marcara a trajetória da revolução
russa desde 1917.
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O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O í A P O G E U
A oeste, graças ao avanço das tropas soviéticas até Berlim, foi possível,
em primeiro lugar, anexar à URSS importantes territórios: os chamados Esta-
dos bálticos (Letónia, Estónia e Lituânia), a parte oriental da Polónia e uma
porção da Roménia — transformada em República Soviética da Moldávia.
Com este movimento, Moscou recuperou as fronteiras do velho Império
Tzarista, perdidas em 1917. Ironia da história: o traçado desta geografia fize-
ra parte do acordo germano-soviético assinado em agosto de 1939...
Na área da Europa Central (Polónia, Tchecoslováquia, Alemanha Orien-
tal e, depois, República Democrática Alemã (RDA), Hungria, Roménia,
Albânia, Bulgária e lugoslávia), quase toda ocupada pelos exércitos soviéti-
cos, a expectativa de Moscou era formar um cinturão de Estados no mínimo
não-hostis. Com efeito, na fase final da guerra, havia um acordo entre as po-
tências da Grande Aliança de que os países da área não poderiam ser inimigos
da URSS, como tinha sido o caso depois do triunfo da revolução russa, em
1917. Mas nem por isso seriam tangidos ao socialismo. O consenso, que
abrangia igualmente muitas regiões do mundo (Europa Ocidental, Ásia e
América do Sul), era o de organizar, em toda parte, governos de união nacio-
nal, com ampla participação, inclusive de comunistas e socialistas. Mais
tarde, eleições livres teriam lugar, cada povo definindo seu futuro como bem
lhe aprouvesse. A construção era coerente com os valores que haviam mobili-
zado os povos contra o nazismo e inspirada, na medida em que era sensível às
particularidades de cada região e de cada país. Mas não resistiu à prova da
Guerra Fria e de suas exigências.
Assim, no caso da Europa Central, sociedades extremamente diversifica-
das, historicamente constituídas em suas especificidades políticas, linguísti-
cas, religiosas e culturais, tiveram que entrar num molde único, rígido e cen-
tralizado, o modelo soviético. Foram revogados com maior ou menor rapi-
dez os governos de união nacional, e se unificaram em ritmo marcial os par-
tidos socialistas e comunistas locais. A repressão cuidou das oposições à ma-
neira soviética, com direito a grandes processos públicos, torturas e confis-
sões. Nasciam as democracias populares, que nunca foram democráticas,
tampouco populares... condicionadas, desde o início, por uma aliança sub-
missa com o poderoso vizinho (Claudin, 1983).
No outro extremo do mundo, na Ásia Oriental, o socialismo faria outros
avanços, aí sem praticamente ajuda nenhuma dos soviéticos.
O processo social, mais uma vez, surpreenderia a todos, impondo situa-
ções imprevistas, difíceis de analisar. Revoluções nacionalistas radicais,
tendo os camponeses como principal força social, baseadas em organizações
17
O S É C U L O X X
armadas de massas, os exércitos guerrilheiros populares, estavam se candida-
tando ao poder num certo número de países que haviam sido parcial ou to-
talmente ocupados pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial
(China, Coreia, Vietnã, Indonésia, Birmânia, Malásia, Filipinas etc.). O pro-
blema, para as potências capitalistas, sobretudo para as europeias, é que os
comunistas asiáticos e seus aliados tinham a hegemonia, ou grande influên-
cia, em quase todos estes exércitos guerrilheiros...
Entre as potências da Grande Aliança, como já foi referido, havia o acor-
do de que, nestes países, também deveriam se organizar governos de união
nacional, eleições livres etc., em suma, a mesma metodologia prevista para
outras partes do mundo. Mas ninguém imaginou, nem mesmo os soviéticos,
que os comunistas pudessem vencer eleições e se assenhorear do poder.
Em 1945, os comunistas vietnamitas, liderados por Ho Chi Minh, apro-
veitando-se da derrocada do Japão, e antes que os europeus, no caso, os fran-
ceses, chegassem para tentar reocupar o lugar de potência colonial perdida
durante a guerra, proclamaram a independência nacional. Tiveram o cuida-
do de afirmar bastante bem sua autonomia e seus vínculos à nação a que per-
tenciam. Não eram peões, nem muito menos agentes de Moscou. O mesmo
fariam os comunistas chineses, ao longo das difíceis negociações que se esta-
beleceram logo depois da rendição dos japoneses com vistas à constituição
de um governo de união nacional da China. Mantiveram conversações com
representantes civis e militares do governo americano, emitiram os sinais
possíveis no sentido de mostrar suas especificidades nacionais e suas perspec-
tivas de autonomia.
Ocorrera, de fato, ao longo da guerra, na Ásia Oriental, um fenómeno
novo: com epicentro na base vermelha de Yanan, no noroeste da China, con-
trolada pelos comunistas chineses, constituiu-se uma espécie de internacional
comunista asiática, bastante frouxa em termos orgânicos, mas razoavelmen-
te afinada em termos sociais, estratégicos e programáticos. Seus denomina-
dores comuns, de uma forma muito esquemática, podem ser assim sintetiza-
dos: desenvolver a luta nacional de forma radical, libertando as nações da
Ásia de qualquer tipo de colonialismo; basear-se fundamentalmente nos
camponeses, mobilizados em torno de programas de reforma agrária; formar
alianças as mais amplas, incluindo a burguesia e pequena burguesia urbanas,
desde que estivessem dispostas a lutar com os camponeses pela independên-
cia nacional; conduzir a luta de forma armada, apoiada em exércitos guerri-
lheiros populares, cercando as cidades a partir dos campos em guerras popu-
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O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
lares de longa duração. Após a Segunda Guerra Mundial, começou a surgir
uma história oficial israelense defende que os
cerca de 750 mil palestinos que deixaram suas terras — metade da população
palestina local — o fizeram instigados pelos seus vizinhos árabes, que preten-
diam usá-los na luta contra Israel, enquanto que a explicação árabe defende a
tese da expulsão pelas forças armadas israelenses. Até hoje objeto de polémica,
principalmente entre os representantes da mais recente historiografia israelen-
se, que enfatiza a grande responsabilidade de Israel no êxodo dos refugiados
palestinos, o fato é que, em 1950, 957 mil pessoas — cerca de metade da po-
pulação palestina — viviam nos campos criados pela UNRWA (agência criada
pela ONU em 1949 para tratar dos problemas dos palestinos refugiados da
guerra), sem o direito de retornar às suas casas, nem de, à exceção da Jordânia,
estabelecer residência nos países árabes vizinhos. Ao mesmo tempo, a Lei do
Retorno, aprovada em 1950 pelo Parlamento de Israel, concede cidadania is-
raelense a todos os judeus que desejarem imigrar para o novo país, assim como
aos 160 mil árabes palestinos que permaneceram em seus locais de origem. É
assim que o momento de fundação do Estado de Israel, solução dos problemas
dos refugiados judeus da Segunda Guerra Mundial, está indelevelmente ligado
à criação do problema dos refugiados palestinos que, passados mais de cin-
quenta anos, ainda persiste.8
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O S É C U L O XX O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S A R A B E - 1 S R A E L E N S E S
A BUSCA DA IDENTIDADE ÁRABE
A derrota da Liga Árabe no conflito que resultou na independência do Estado
de Israel deixou marcas profundas na cultura política árabe. Para muitos, o
sionismo era uma nova versão do colonialismo das grandes potências mun-
diais, e só uma união nacional árabe poderia libertá-los do domínio estrangei-
ro. De fato, desde a dissolução do Império Otomano que o mundo árabe está
à busca de sua identidade, perdida quando a unidade muçulmana garantida
pelas autoridades otomanas deixou de existir. À ocidentalização trazida pelas
potências europeias, os árabes não tinham nenhum projeto a contrapropor.
Desde então, para superar o sentimento de derrota histórica para valores e
princípios dos quais não compartilham, muitos árabes voltam-se para o pas-
sado, buscando na "Idade de Ouro", ou seja, na época de Maomé, a solução
para os problemas contemporâneos. Assim, movimentos como o da
Irmandade Muçulmana, formado em 1928 no Egito, defendiam o uso do islã
para alcançar o progresso, pretendendo que a observância dos preceitos reli-
giosos abrissem as portas para a modernidade. Outros movimentos, como o
arabismo, defendiam o oposto: que a base de união dos árabes fosse a criação
de uma nação única, que unisse a cultura e a experiência histórica árabes e
seus interesses em comum.9
Até o fim da guerra de 1948, portanto, o nacionalismo árabe não passa-
va de um projeto fragmentado. A partir desse momento, além do sionismo,
a Guerra Fria viria dar forte impulso a este movimento, conferindo-lhe um
cunho popular inexistente até então. A unidade árabe era fortalecida pela
ideia de Terceiro Mundo, a partir da qual os países em processo de desenvol-
vimento, mantendo o descompromisso com os blocos americano e soviético,
exerceriam uma ação conjunta, especialmente na Assembleia Geral das
Nações Unidas.
É neste contexto que surge a liderança política do oficial egípcio Gamai
Abrlel Nasser. Revoltado com a derrota para Israel e com a corrupção do alto
escalão de seu próprio país, Nasser toma o poder no Egito, em 1952, com
um pequeno grupo clandestino de oficiais, os chamados oficiais livres, após
o assassinato do primeiro-ministro e do guia supremo da Irmandade
Muçulmana. Embora não tenha conseguido canalizar todas as forças políti-
cas egípcias e tivesse uma ideologia vagamente constituída como "socialismo
árabe", que oscilava entre a simpatia à Irmandade Muçulmana e a adesão ao
Partido Comunista, o nasserismo foi amplamente aceito nos outros países
árabes. Apoiando-se nos princípios do reencontro da dignidade árabe e da
necessidade do progresso económico, Nasser se constituiu num símbolo po-
pular da unidade e do não-alinhamento às potências estrangeiras, que se ma-
terializou na construção da barragem de Assuã e na nacionalização da
Companhia do Canal de Suez em 1956.
Esta última foi a gota d'água para o início de um conflito que envolveu
as principais potências mundiais. Dispostas a aplacar a independência políti-
ca de Nasser, essas potências cancelaram um empréstimo do Banco Mundial
para a construção da barragem de Assuã. O líder egípcio revidou imediata-
mente, nacionalizando a companhia que gerenciava o Canal de Suez.
Construído em 1869, o canal estava aberto a todas as nações, mas era admi-
nistrado pelos britânicos, que o consideravam vital para a manutenção de
seu poder marítimo e interesses coloniais. Agora, Nasser acusava o bloco ca-
pitalista de boicotá-lo, por conta das relações entre o Egito e o bloco soviéti-
co, e ameaçava buscar fundos de recuperação económica na URSS. A respos-
ta foi rápida: com apoio britânico e francês, e preocupado com a alteração
no equilíbrio de forças da região, Israel realiza pequenos ataques no Egito,
na região da faixa de Gaza, adotando a doutrina militar do ataque preventi-
vo. Em retaliação, este país fechou o Canal de Suez e o acesso ao golfo de
Acaba aos navios israelenses. Este é o motivo imediato para a invasão de
Israel, que em pouco tempo toma o deserto do Sinai e chega às portas da ci-
dade do Cairo. A intervenção da ONU não demorou a resolver o conflito,
mas ele deixou marcas por toda parte.
Inicialmente, ficou claro para as potências europeias, principalmente
para a Grã-Bretanha, que a era dos impérios coloniais estava definitivamen-
te sepultada. Certas do apoio americano à ofensiva, elas não só foram inca-
pazes de administrar o conflito, não conseguindo derrubar Nasser ou revo-
gá-lo da intenção de fechar o Suez, como foram obrigadas a acatai a decisão
das Nações Unidas de interrompê-lo. Por outro lado, este acontecimento foi
decisivo na disputa de áreas estratégicas entre EUA e URSS. Aproveitando o
vácuo de poder criado pela decadência britânica, os EUA tomaram a posição
de não defender as ações das potências europeias, para impedir uma polari-
zação na qual a URSS acabaria por consolidar a simpatia de que já dispunha
no mundo árabe. Mesmo assim, os americanos não permitiram que as amea-
ças soviéticas de um ataque nuclear à Inglaterra e França ganhassem força,
prometendo devolver na mesma moeda se tal fato se realizasse.
De diferentes formas, foram os próprios países do Oriente Médio que
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O S É C U L O XX
saíram fortalecidos com o confronto. Israel liderou a invasão e acabou con-
quistando toda a península do Sinai, só concordando em se retirar com a pre-
sença de tropas da ONU no local. Sua aliança com a França e a Inglaterra re-
força o mito árabe de serem os israelenses o trampolim do imperialismo oci-
dental. Nasser tira proveito desta situação e, por ter enfrentado com êxito os
fortes países estrangeiros — o canal é reaberto em 1957, já sob administra-
ção egípcia —, acaba consolidando seu nome como a maior liderança do
mundo árabe, dando impulso ao projeto de unificação de uma única nação,
principalmente com a criação da República Árabe Unida, que englobava
Síria e Egito.
Este consenso, no entanto, não duraria por muito tempo; a partir da dé-
cada de 1960, os recursos petrolíferos do Oriente Médio, principalmente do
Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Líbia e Argélia, passam a ser efetivamente
importantes para a economia mundial. Assim, se Nasser pretendia usar a ri-
queza dos Estados produtores de petróleo como um instrumento para criar
um bloco árabe sob liderança egípcia, a Arábia Saudita e os outros países do
Golfo Pérsico queriam usar sua própria riqueza para alcançar maior influên-
cia nos assuntos árabes. Estas divergências demonstram que as pretensões do
nasserismo tinham limites claros. Em 1961, os sírios rompem com os egípcios,
opondo-se à supremaciados nasseristas em seu país. No Iraque, a direção do
movimento pela união árabe é disputada por Kassem, novo líder local. Apesar
de todas as divergências, um ponto é comum: o apoio da URSS à causa árabe,
o que intensifica os contatos e o apoio entre Israel e os Estados Unidos.
A política defendida por Nasser fez com que o Egito ocupasse a posição
de principal defensor dos interesses árabes nas relações com Israel. Nesse
momento, a fidelidade à causa árabe exigia a tomada de posição contra o
Estado de Israel. Isto incluía, evidentemente, os palestinos, que até 1964 ti-
nham na liderança egípcia seu principal porta-voz. Nesse ano, uma conferên-
cia da cúpula dos líderes árabes criou a Organização pela Libertação da
Palestina (OLP), que ficara sob controle do Egito e de forças ligadas aos
exércitos árabes vizinhos a Israel. Ao mesmo tempo, grupos de palestinos
educados no exílio começaram a agir no sentido de organizar movimentos
genuinamente palestinos: assim foi criado o Fatah, liderado por lasser
Arafat, que defendia o confronto direto com Israel e a independência em re-
lação aos outros países árabes; e outros movimentos nacionalistas menores,
igualmente defensores da luta armada e da utilização das táticas terroristas.
Em 1967, alguns grupos começaram a empreender ações diretas contra
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O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S A R A B E - 1 S R AE L E N S E S
Israel, que, por sua vez, retaliava contra a Jordânia e a Síria. Com informa-
ções nunca confirmadas de que Israel planejava um ataque às fronteiras sí-
rias, o Egito faz um acordo de defesa mútua com este país, mais como uma
forma de controlar o conflito — não permitindo que outras lideranças amea-
çassem a posição egípcia — do que com vistas a estendê-lo. Ao mesmo
tempo, entendendo que a internacionalização do golfo de Acaba e a presen-
ça de tropas da ONU na península do Sinai eram uma afronta à sua sobera-
nia, Nasser pede a retirada dessas tropas, enquanto fecha novamente o golfo
de Acaba à navegação israelense. É difícil ter a dimensão das pretensões de
Nasser; ao que parece, ele não desejava a guerra, mas sim criar uma situação
que, obrigando a intervenção dos Estados Unidos, resultasse em um arranjo
político em seu favor. Ao mesmo tempo, talvez contasse que, no caso de uma
guerra, o apoio da URSS fosse suficiente para que saísse vitorioso. Mas não
aconteceu uma coisa nem outra.
Para Israel, toda esta situação foi considerada uma declaração de guerra.
Não disposto a negociar um acordo que resultasse na preponderância do
Egito, apostava na superioridade de seu exército. Ao mesmo tempo, no caso
de um conflito armado, contava com a ajuda americana. E foi de fato o que
aconteceu: no dia 5 de junho de 1967, Israel destruiu a força aérea egípcia;
em poucos dias, os israelenses ocuparam toda a península do Sinai, a Cisjor-
dânia, as colinas do Golan (então pertencentes à Síria) e, principalmente,
anexaram Jerusalém, no conflito-relâmpago que ficou conhecido como
Guerra dos Seis Dias.
Esta guerra mudou definitivamente o equilíbrio de forças no Oriente
Médio. A partir de então, ficou claro que Israel era o país militarmente mais
poderoso da região, o que aumentava seus atrativos para os Estados Unidos.
Por isso mesmo, Israel pretende conservar suas conquistas, que lhe trariam
fronteiras seguras e defensáveis. A questão é que as novas fronteiras lhe tra-
riam o controle sobre um número muito maior de palestinos, majoritaria-
mente alocados em campos de refugiados. Isto fez com que o sentimento de
identidade palestina se fortalecesse e contribuiu para que fossem intensifica-
dos os ataques terroristas contra Israel. Também para os Estados árabes, a
rápida vitória israelense representou uma grande humilhação e aumentou a
hostilidade árabe geral contra Israel. Divididos entre a possibilidade de reta-
liação e a solução dos problemas pela via política, os países árabes aceitaram
a Resolução 242 da ONU, que previa a retirada progressiva das tropas israe-
lenses dos territórios ocupados. Encastelados em suas posições, os dois lados
113
O S É C U L O XX
agora negavam-se à negociação: setores do governo israelense divergiam
quanto ao futuro dos territórios, alegando a necessidade da existência de um
cordão de isolamento que os protegesse dos inimigos vizinhos, e os árabes
uniram-se nos três "nãos", proferidos na Conferência de Cartum, ainda no
ano de 1967: "Não à paz com Israel, não a qualquer negociação com Israel,
não ao reconhecimento de Israel".10
Mas um novo fator veio contribuir para o desenrolar dos acontecimen-
tos: apelando para a luta armada, grupos de fedayim (guerrilheiros) e mem-
bros da organização palestina Fatah voltaram a atacar Israel. Alceados na
fronteira entre Israel e a Jordânia, estes grupos constituíam-se cada vez mais
em um fator de desestabilização da região, pela força de seus ataques, e em
uma nova liderança, já que, a cada atentado, dispunham de mais populari-
dade entre a população árabe. Como Israel revidasse aos ataques, aumenta-
vam também as pressões políticas sobre Nasser de que assumisse uma posi-
ção de controle do conflito. Mas não foi isto o que aconteceu: em 1970,
Nasser morre de um súbito ataque cardíaco, sendo substituído por Anuar
Sadat, mas deixando vazia a liderança do mundo árabe. Enquanto isso, o ter-
rorismo cresce: aviões israelenses são sequestrados, atletas israelenses são
massacrados na Olimpíada de Munique de 1972. O poder e a popularidade
dos palestinos envolvidos em ações terroristas chegam a tanto que, onde
quer que estivessem, constituíam um poder à parte, quase um Estado dentro
do Estado. Sua autonomia em território jordaniano chegou a tal ponto que,
em 1970, o rei Hussein decide reprimi-los, já que estava sendo impossível
controlá-los. Para manter a soberania e a governabilidade em seu próprio
reino, o monarca desfere uma intensa ação repressiva contra os palestinos,
que resulta em 4 mil mortos e um sem-número de expulsões, no episódio que
ficou conhecido como Setembro Negro, depois repetido no Líbano.
As retaliações de Israel, o desejo de revidar aos acontecimentos de 1967
e a escalada do terrorismo precipitaram mais um confronto direto com Is-
rael. Na tentativa de recuperar os territórios perdidos, o Egito e a Síria inva-
dem Israel no Yom Kippur (Dia do Perdão, em que os judeus ficam em jejum)
do ano de 1973; apesar das muitas perdas, Israel consegue rechaçar o ataque,
avançando em território egípcio até a entrada da cidade do Cairo. O provi-
sório acordo de paz determinado pelas superpotências garante a saída das
tropas israelenses. Sem vitórias espetaculares de nenhuma parte, esta guerra
veio consolidar o poderio militar israelense, o apoio dos Estados Unidos ao
Estado de Israel, mas ao mesmo tempo representou um baque no mito de in-
114
•
O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S Á RA B E -1 S R A E L E M S E S
vencibilidade de Israel: pegos de surpresa, eles necessitaram do apoio ameri-
cano para enfrentar o ataque dos árabes, e suas perdas humanas foram tais
que abalaram a autoconfiança israelense. Ao mesmo tempo, essa foi a pri-
meira guerra em que os países árabes usaram o petróleo como arma política:
ameaçando reduzir a produção enquanto Israel continuasse ocupando terras
árabes, a tática teve sucesso, ainda mais porque, exatamente nessa época, um
aumento nas necessidades dos países industriais tornava a Organização dos
Países Exportadores de Petróleo (OPEP) mais poderosa, tanto que, em fins
de 1973, aumentaram em 300% o preço do produto.
A política de usar o petróleo como arma teve, no entanto, uma outra
consequência: a intervenção americana, que foi feita para salvaguardar seus
próprios interesses, passou a ser permanente, aumentando inclusive a depen-
dência dos países árabes em relação a este país. Foi assim que os Estados
Unidos passaram a ocupar o papel de mediadores no conflito, tentando for-
mular, a partir da gestão do presidente Jimmy Cárter, uma política conjunta
com a URSS para resolução dos conflitos no Oriente Médio. Embora esta
perspectiva nãotenha sido de todo bem-sucedida, a paz entre Israel e o Egito
acabou sendo feita sob os auspícios dos Estados Unidos, através do histórico
acordo de Camp David, em 1978. Segundo o acordo, além da formalização
da paz, os israelenses se retirariam do Sinai e seriam iniciadas negociações
nos próximos cinco anos para discutir a concessão de autonomia às colónias
de Gaza e da Cisjordânia, onde vivia a maioria dos palestinos.
Embora saudada no mundo inteiro como o início da aproximação que
poria fim ao conflito já quase centenário, o acordo de Camp David foi mar-
cado por manifestações hostis em todos os países árabes. Os palestinos o re-
jeitaram, por sequer terem sido consultados sobre o destino dos territórios
onde viviam, e a Síria e a Líbia o consideraram uma traição, passando a lide-
rar um movimento que condenaria o Egito ao ostracismo. Não foi à toa que,
três anos depois, Sadat foi assassinado por militantes que se opunham à sua
política de aproximação com Israel e o Ocidente. Mesmo assim, as linhas
principais de sua política foram mantidas por seu sucessor, Hosni Mubarak.
A partir de então, o mundo árabe se veria genericamente dividido entre aque-
les países chamados "pró-Ocidente", cuja política aceitava a ingerência ame-
ricana e a negociação com Israel, corno o Egito, e os outros, que tentavam
manter uma política independente, caracterizada por relações em diferentes
níveis com a URSS, como a Síria, o Iraque e a Líbia.
115
O S É C U L O XX
Nesse princípio da década de 1980, no entanto, outros fatores passaram
a influenciar a arena política do Oriente Médio, criando novos focos de con-
flito: ao impasse entre Israel e os palestinos (acrescido, logo depois, da pro-
blemática do Líbano) vieram se somar os problemas no Golfo Pérsico, com
a revolução islâmica, a Guerra Irã-Iraque e, posteriormente, a invasão do
Kuwait pelo Iraque e a Guerra do Golfo.
Apesar de não ser um país árabe, os acontecimentos que revolucionaram
o Ira em 1979 abalaram toda a região. Desde os anos 20 governado pela di-
nastia Pahlevi, o Ira vinha sendo modernizado t ocidentalizado pelas suces-
sivas gerações de xás, que viam na observância estrita da religião um atraso
a ser superado. País de numerosa população xiita, no entanto, o regime mo-
dernizante sempre precisou contar com uma grande dose de repressão, para
conter a oposição dos grupos religiosos, que se fazia cada vez mais popular.
Na década de 1970, este movimento conheceu um líder, que, refugiado na
França, preparava-se para voltar ao país: era o aiatolá Khomeini, que apela-
va aos muçulmanos para~que restaurassem a autoridade do islã na socieda-
de. Para Khomeini e seus seguidores, a religião poderia fornecer as resolu-
ções dos problemas de forma que o Estado moderno fora incapaz de fazer.
Incentivando a solidariedade através da organização de redes de ajuda
mútua, de escolas e postos de saúde, eles mobilizam milhares de fiéis, dando
início à revolução islâmica, em 1979, que resulta na proclamação da
República Islâmica no ano seguinte.11
Embora esta não tenha sido a única razão, foi a gota d'água para que o
Iraque invadisse o Ira em 1980. Mesmo tendo uma questão de fronteira mal
resolvida desde 1975, o governo laico de Saddam Hussein preocupava-se
com a grande popularidade que o novo regime islâmico poderia alcançar
entre a sua população, cuja maioria também era xiita. Assim, a guerra tem o
objetivo de, além de obter um acordo sobre a questão das fronteiras, destruir
o regime de Khomeini e conquistar a chefia moral do mundo árabe, vaga
desde a exclusão do Egito da Liga Árabe. Se a guerra não provocou maiores
cisões na sociedade iraquiana, ela o fez no mundo árabe: a Síria apoiou o Ira
por conta de sua própria rivalidade com o Iraque, e os outros países ficaram
do lado deste, na esperança de que a derrota do Ira pudesse conter a ameaça
aos seus próprios regimes políticos.
A guerra dura oito anos e só acaba com o cessar-fogo proclamado pelas
Nações Unidas, sem que nenhum dos lados possa proclamar-se vencedor; ne-
nhum dos dois conquistou territórios, e as perdas em vidas foram monumen-
116
O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S Á R AB E - 1 S R A E L E N S E S
tais para os dois lados. Ao mesmo tempo, pode-se dizer que os objetivos de
ambos foram alcançados: o regime islâmico não caiu (ao contrário, consoli-
dou-se, principalmente depois da comoção causada pela morte de Khomeini
em 1989), nem a revolução iraniana se espalhou pelo Golfo Pérsico, pelo
menos até então.
O confronto entre Ira e Iraque também revelou ao mundo a crescente im-
portância do petróleo na região; as grandes potências só intervieram quando
foram atingidos navios petroleiros que, se destruídos, poderiam prejudicar o
suprimento do combustível ao Ocidente. Além disso, com o fim da guerra, o
Iraque despontou como o protetor dos regimes dos países do Golfo Pérsico,
em lugar da Arábia Saudita, que até então ocupava esta posição. Afinal, este
país dominava o Conselho de Cooperação do Golfo, criado em 1981, em de-
trimento do Ira, favorável a uma organização islâmica, e do Iraque, partidá-
rio de um conselho geral árabe; assim, fazendo uma política que favorece os
países do golfo em prejuízo das outras regiões árabes do Oriente Médio, a
Arábia Saudita contribui para o acirramento das rivalidades, além de permi-
tir o aumento das desigualdades sociais entre os países de maiores e menores
reservas petrolíferas. Países como o Kuwait tinham uma renda per capita de
13 mil dólares por ano, ao passo que os mais pobres, como o Egito, conta-
vam apenas com 650 dólares.
Esta situação de rivalidades e tensões é agravada com a crise económica
do Iraque, que, devendo 70 bilhões de dólares ao fim da guerra com o Ira,
busca uma saída que, ao mesmo tempo, solucione seus problemas internos t
consolide sua liderança no mundo árabe. Esta solução foi a invasão de
Kuwait, ocorrida em agosto de 1990. Usando como argumento a divisão ar-
tificial entre os dois países feita pelos ingleses e acusando o Kuwait de causai
baixa no preço do petróleo, por vender mais do que a cota estabelecida pela
OPEP, Saddam Hussein provoca a primeira grande crise internacional após o
fim da Guerra Fria, que realiza alianças antes impensáveis, como entre os
EUA, URSS e a Síria, sem contar com a oposição da Arábia Saudita, ameaça-
da diretamente pela agora maior potência militar da região.
Liderada pelos Estados Unidos e com autorização da ONU, uma grande
coalizão internacional ataca o Iraque em 1991. Tentando envolver seus tra-
dicionais aliados diretamente no conflito para rachar a aliança da OTAN, o
Iraque lança alguns mísseis em Israel, na esperança de que este declare guer-
ra e force a entrada dos outros países da região. Mas seu cálculo não funcio-
na; orientado pelos Estados Unidos, Israel não se envolve no conflito, e o
117
O S É C U L O XX
único a apoiar Hussein é lasser Arafat. Com isso, as forças militares do
Iraque são rapidamente destruídas. O poder americano, no entanto, não é
suficiente para derrubar o regime de Saddam Hussein, que, mesmo sofrendo
o embargo económico imposto pelas grandes potências, continua se susten-
tando no Iraque.
Ao fim da guerra, a responsabilidade maior sobre a administração do
conflito recai sobre os Estados Unidos; por conta da crise da URSS, despon-
tam finalmente como o único mediador possível para garantir a estabilidade
no Oriente Médio, e ela depende, nesse momento, basicamente da busca de
uma solução para a questão palestina.
A QUESTÃO PALESTINA
Desde o início da década "de 1970, com a escalada do terrorismo palestino,
fica claro que uma solução deve ser encontrada para o problema dos refugia-
dos palestinos. Além disso, como reza a cartilha do direito internacional, a
condição de refugiado é provisória, não permanente, e o fortalecimento de li-
deranças como lasser Arafat fazia questão de lembrar ao mundo todo, e em
especial a Israel, que o custo a pagar pelo desprezo à situação dos palestinos
seria alto para ambos os lados.
A questão é que nem todos concordavam com isso.Em Israel, desde as
conquistas das terras consideradas bíblicas n2 Guerra dos Seis Dias — a
Samaria e a Judéia (que compõem a Cisjordânia), o Sinai e as colinas do
Golan são transformados em territórios ocupados, enquanto que a Cidade
Velha de Jerusalém é anexada pelo Estado de Israel —, a interpretação de que
a era messiânica estava para começar torna-se popular entre os judeus ultra-
ortodoxos que, liderados pelo rabino Kook, defendem a anexação de todos
esses territórios. Para estas pessoas, os palestinos não tinham qualquer direi-
to àquelas terras, que pertenceriam aos judeus por direito divino e histórico.
Diante da recusa do governo israelense em autorizar a colonização dessas
áreas, foram constituídos grupos, como o Gush Emunim (Bloco dos Fiéis),
que passaram a fazê-lo de forma clandestina, ao mesmo tempo que participa-
vam de uma articulação de direita, formada também por Menachem Begin
(ex-militante do Irgun) e por militares que defendiam a manutenção de um
escudo territorial contra ataques árabes, para tomar o poder.
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O M U N D O Á R A B E í AS G U E R R A S Á R AB E -1 S R A E L E N S E S
Isto aconteceu em 1977, quando Begin tornou-se primeiro-ministro à
frente do partido Likud, e a partir daí a colonização dos territórios ocupados
tornou-se política oficial do novo governo. Assim, foi organizada uma rede
de assentamentos, localizados principalmente na Cisjordânia, em que eram
oferecidas vantagens económicas para aqueles que, não necessariamente re-
ligiosos, desejassem mudar-se para lá. Logo, dar-se-ia o passo para a anexa-
ção futura dos territórios e, no caso dos ultra-ortodoxos, estariam abertos os
caminhos da redenção messiânica.
Esta política israelense era fortalecida pela atuação da guerrilha palesti-
na, liderada pela OLP. Desde o início da década de 1970, os ataques terroris-
tas multiplicavam-se, o que reforçava o argumento da impossibilidade de
qualquer negociação. Com os acordos de Camp David, a situação da OLP
complicava-se, já que o Egito não era mais um aliado. Assim, a direção da
organização decide pela mudança de orientação política, passando a buscar
soluções diplomáticas para a luta pelo reconhecimento da autodeterminação
dos palestinos.
Esta opção não é feita sem dificuldades; muitos palestinos, a essa altura,
nascidos e criados em campos de refugiados, relutam em desistir da luta ar-
mada. É assim que novos grupos, como a Frente Popular de Libertação da
Palestina e futuramente o Hamas, vão criando dissensos que tendem a se
aprofundar com o tempo. Apegada a uma carta de intenções mais radical
que seus próprios líderes, a OLP se vê continuamente identificada com sua
facção extremista, já que, para ter sob seu comando o conjunto dos vários
pequenos grupos palestinos, é obrigada a apoiar atos dos quais nem sempre
está a favor. É neste contexto, de atos terroristas palestinos e incremento na
colonização dos territórios, que se dá a invasão do Líbano por Israel em
1982. Um dos mais fracos Estados do mundo árabe, há anos que o Líbano
vinha sendo palco de uma guerra civil entre cristãos e muçulmanos que não
via fim; além disso, o desejo de ver este território anexado ao seu Estado faz
com que a Síria se aproxime mais e mais do Líbano, chegando a intervir efe-
tivamente em 1976. Depois dos acordos de Camp David, os palestinos con-
centram-se mais e mais naquela região, aliando-se aos sírios. Com o início
das ofensivas de Israel ao sul do Líbano, onde se localizam as bases da OLP,
o conflito se acirra.
Em 1982, Israel inicia uma ofensiva no Líbano, com a justificativa de re-
chaçar focos de guerrilha ao norte do país, mas, na verdade, com o objetivo
de eliminar "qualquer presença física ou simbólica, sob forma militar ou or-
1 19
O S É C U L O X X
ganizacional" dos palestinos no Líbano, além de garantir no poder o presi-
dente cristão Bachir Gemayel, aliado de Israel. Indo mais longe do que acon-
selhava a prudência, Israel invade a cidade de Beirute, matando civis e au-
mentando ainda mais o número de refugiados que existiam na região.
Mesmo assim, como era grande a capacidade de resistência dos palestinos, os
choques com o exército israelense causavam grande número de baixas de
ambas as partes, o que começou a gerar certo descontentamento por parte da
população israelense, que passou a criticar o afã de seu Estado em prosseguir
nos ataques.
Esta posição foi consolidada a partir dos massacres dos campos de refu-
giados de Sabra e Chatila, quando mais de mil civis foram mortos por uma
facção cristã treinada e mantida por Israel, em área controlada por este país.
Caindo como uma bomba na opinião pública israelense, a notícia do aconte-
cimento rachou a sociedade ao meio: o movimento Paz Agora conseguiu reu-
nir 400 mil pessoas (10% da população israelense) em uma manifestação gi-
gantesca pelo fim da guerra, considerada "o Vietnã de Israel". Pela primeira
vez, soldados recusavam-se a ir para os campos de batalha, alegando razões
de consciência. Estava rachado o consenso sionista. Pouco tempo depois,
caía Ariel Sharon, ministro da Defesa de Israel, e, apesar da vitória israelen-
se nos campos de combate — a liderança da OLP realmente deixou o país,
mudando-se para a Tunísia —, as pressões internas obrigaram o primeiro-
ministro Begin a renunciar.
Amargando mais uma derrota, a OLP entra em crise; suas táticas de ne-
gociação não mais seduziam suas bases, principalmente aqueles 2,5 milhões
de habitantes da Cisjordânia e da faixa de Gaza. O desespero desta popula-
ção foi o que levou à intifada (ressurreição), ou "revolução das pedras", que
começou espontaneamente em 1987 e tomou de surpresa tanto Israel quan-
to a OLP. Armados com paus e pedras, jovens palestinos atacavam soldados
israelenses, que reagiam à bala. Mais do que rapidamente, grupos islâmicos
extremistas como o Hamas, que pregavam a destruição de Israel e não reco-
nheciam a liderança da OLP, começaram a participar dos ataques. Assustado
com a possibilidade de perder de vez a liderança da população palestina,
Arafat usa a intifada como instrumento de propaganda, angariando a simpa-
tia mundial aos revoltosos. Ao mesmo tempo, na reunião do Conselho
Nacional Palestino de 1988, ele renuncia de vez ao terrorismo, ao mesmo
tempo que proclama o reconhecimento do direito de Israel à existência e en-
fatiza a necessidade próxima de criação do Estado Palestino.
120
O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S A R AB E - 1 S R A E L E N S E S
A mudança de orientação da OLP representou um sério problema para o
governo israelense. Como este continuasse a se recusar a negociar com aque-
les com quem até os Estados Unidos já conversavam, começaram as pressões
para que esta política fosse modificada, ainda mais depois da Guerra do
Golfo, na qual este país consolidou sua posição de grande mediador dos con-
flitos locais e mostrou ser, mais uma vez, quem garantia em última instância
a segurança de Israel. Além disso, a OLP havia saído extremamente enfra-
quecida dos conflitos no Golfo, por ter sido a única instituição a apoiar o
Iraque, e precisava reconquistar espaços políticos; Israel, por sua vez, por
conta das rivalidades produzidas pelo mesmo confronto, deixou sua posição
de isolamento, aproximando-se da Jordânia e da Arábia Saudita. Hora me-
lhor não havia para o início do processo de paz.
A primeira conferência de paz, portanto, sairia em 1991, mesmo com a
má vontade do primeiro-ministro israelense Itzhak Shamir; mais radical do
que Begin, que já havia aceitado negociar com Sadat nos anos 70, Shamir só
cedeu quando os EUA ameaçaram congelar empréstimos a Israel. Mesmo
assim, as conversações não avançaram muito. Isto só foi acontecer quando,
envolvidos na campanha eleitoral israelense de 1992, o partido Avodá (tra-
balhista) encampou a paz em seu discurso político, conseguindo, por isso, a
vitória contra o Likud, tendo Itzhak Rabin, antigo membro da linha dura do
exército israelense, como primeiro-ministro. A partir daí, as intenções come-
çam a dar frutos: os palestinos concordam com os planos de autonomiagra-
dual para os territórios, começando por Gaza, e, em 1993, depois aceitos por
ambas as partes os termos dos acordos de Oslo, Arafat e Rabin realizam o
histórico aperto de mãos na Casa Branca, sob o olhar aprovador do presi-
dente americano Bill Clinton (ver quadro 2: a dispersão dos refugiados pales-
tinos [l 996]). 12
O acordo previa a autonomia palestina sobre Gaza e a cidade de Jericó,
na Cisjordânia, com a retirada do exército de Israel e a substituição por uma
polícia palestina; aos poucos, a autonomia englobaria outras áreas, forman-
do, por fim, a Autoridade Nacional Palestina, que o governo israelense ainda
não tinha coragem de chamar de Estado. O clima bom criado pelas negocia-
ções foi alimentado pelo acordo de paz com a Jordânia, em 1994; ele deu iní-
cio a uma fase de cooperação económica entre Israel e vários países árabes,
como o Marrocos, a Tunísia e a própria Jordânia.
A situação não estava tão boa para Arafat, que continuava enfrentando
a oposição de grupos fundamentalistas como o Hizbolá, que não aceitavam
o acordo de paz e continuavam assassinando judeus indiscriminadamente
121
O S É C U L O XX
nos territórios, e para Rabin, que tinha que enfrentar a oposição interna dos
fundamentalistas judeus, os colonos ultra-ortodoxos que habitavam os terri-
tórios e se recusavam a deixá-los, participando também eles de manifesta-
ções violentíssimas contra aqueles que consideravam seus inimigos: em
1994, o colono americano Baruch Goldstein matou 29 muçulmanos que re-
zavam na Tumba dos Patriarcas, em Hebron, lugar sagrado para muçulma-
nos e judeus. Morto após o atentado, a atitude de Goldstein foi duramente
criticada pelo governo israelense, mas ele foi enterrado como herói por seus
correligionários. A escalada de violência parecia não ter limites, e realmente
não tinha: em novembro de 1995, foi a vez do primeiro-ministro Rabin ser
assassinado pelo fundamentalista religioso judeu Ygal Amir, ao fim de uma
manifestação de paz em Tel-Aviv.13
O assassinato de Rabin abriu uma grande ferida na sociedade israelense:
pela primeira vez, um atentado dessas proporções era cometido por um
judeu, que alegava que Rabin estava impedindo a continuação do processo
messiânico. Mesmo que í demora em implementar os acordos, o aumento de
atos terroristas nas cidades de Jerusalém e Tel-Aviv e o violento discurso do
Likud contra a paz contribuíssem para a queda de popularidade de Rabin, a
maioria da população não esperava tal atitude. Uma semana após o atenta-
do, 74% da população passavam a apoiar o processo de paz. Mas isto não
seria suficiente para que o partido Avodá voltasse a vencer as eleições, repre-
sentado por Shimon Peres; os numerosos atentados terroristas palestinos que
voltaram a ser perpetrados em Israel acabaram por fazer pender a balança
para o lado do Likud, e Benjamin Netanyahu assumiu o governo israelense
em 1996 com a promessa de frear todas as negociações possíveis com os pa-
lestinos. A pressão americana, no entanto, o obrigou a fazer algumas conces-
sões, que resultaram nos acordos de Wye, em 1998, que, por sua vez, leva-
ram à crise de seu governo de coalizão de direita, obrigando-o a antecipar
eleições gerais para 1999, um ano antes do previsto.
CONCLUSÃO
Haverá paz no Oriente Médio? O impasse nas negociações entre palestinos e
israelenses, a pobreza da população dos territórios da Autoridade Nacional
Palestina, as tentativas de continuação da construção de bairros israelenses
em áreas destinadas à devolução aos palestinos e as denúncias de corrupção
122
o MUNDO Á R A B E E AS G U E R R A S A R A B E - I S R A E L E N S É S
que marcam o governo de Arafat são uma sombra no andamento do proces-
so de paz, que ainda está longe de acabar. Mesmo assim, a estabilização da
Autoridade Nacional Palestina faz com que, hoje, poucos se recusem a admi-
tir que a fundação oficial do Estado Palestino é apenas uma questão de tempo.
Simultaneamente, os anos 90 foram testemunha do agravamento das
condições sócio-econômicas da maioria da população árabe. O crescimento
económico propiciado pela produção petrolífera não correspondeu a uma
elevação no padrão de vida geral, ainda mais porque a população árabe con-
tinua crescendo muito e os sistemas políticos da maioria dos países do
Oriente Médio não têm como objetivo uma distribuição mais justa da rique-
za. Com isso, vem aumentando o fosso entre os poucos ricos e os muitos po-
bres da região, o que contribui para a maior descrença nas formas tradicio-
nais de se fazer política e, conseqiientemente, no fortalecimento dos movi-
mentos fundamentalistas.
De fato, embora não se pretenda reduzir um fenómeno religioso a suas
causas sócio-econômicas, é de assustar o número de partidos que vêm se for-
talecendo e ganhando apoio popular em diversos países muçulmanos, usan-
do muitas vezes a violência para alcançar seus objetivos. A Argélia e o
Afeganistão são apenas os exemplos mais evidentes desta situação, e a contí-
nua existência de grupos fundamentalistas entre a população palestina é
prova da vitalidade de suas ideias.14
Da mesma forma, Israel, hoje, vive as consequências do profundo dissen-
so ideológico e cultural entre judeus seculares e fundamentalistas. Acirrando
um conflito que teve origem no próprio momento de fundação do Estado,
opostos à paz com os árabes e à pluralidade política e religiosa, os judeus fun-
damentalistas são a maior ameaça à consolidação da democracia em Israel.
É um quadro de perplexidade, este pintado no limiar do século XXI: nas-
cidos sob o signo da modernização ocidentalizante, os Estados nacionais do
Oriente Médio se deparam, cada vez mais, com movimentos que unem polí-
tica à religião, criando fundamentos históricos em acontecimentos ocorridos
há séculos e séculos para as opções que defendem, quase nunca pela via da
negociação e do direito. Isto muda completamente a situação com a qual is-
raelenses e árabes estavam acostumados a lidar há quase um século, quando
o inimigo era o vizinho. Agora, o perigo está no lado de dentro.
1 2 3
O S É C U L O XX
QUADRO l
As principais ondas de imigração judaica para a Palestina
PERÍODO
1882-1903 (!' alia)
1904-1923 (2'-y aliás)
1932-1938 (5a alia)
1939-1948 (61 alia)
1948-1951
1952-1960
1961-1964
1965-1971
1972-1974
1975-1989
a partir de 1989
NÚMERO
20/30.000
35/40.000
217.000
153.000
687.000
54.000
165.000
75.000
228.000
-- 81.000
116.000
143.000
230.000
450.000
ORIGEM
Rússia
Rússia e Europa Oriental
Alemanha e Polónia
Refugiados dos campos de
concentração europeus
Países árabes e Europa Central
Norte da África
Egito (1956)
Europa Central
Marrocos
EUA e Europa Ocidental
América Latina
URSS
EUA, Europa Ocidental,
América Latina, Ira (1979),
Etiópia (1985-1986)
Ex-URSS
Fonte: François Massoulié. Os conflitos do Oriente Médio. São Paulo, Ática, 1994, p. 64.
QUADRO 2
A dispersão de refugiados palestinos (1996)
PAÍS
Jordânia
Cisjordânia
Gaza
Líbano
Síria
Total
NÚMERO
1.358.706
532.438
716.930
352.668
347.391
3.308.133
Fonte: Rosemary Sayigh. "L'avenir brouillé dês refugies", in Lê Monde Diplomatique;
manière de voir 34, maio 1997, p. 24.
124
o M U N D O Á R A B E E A S G U E R R A S A R A B E - I S R A E L E N S E S
NOTAS
1 O islamismo e Jerusalém — A relação entre Jerusalém e o islamismo começou quando,
tendo conquistado a cidade durante a expansão imperial, os muçulmanos construíram
o Domo da Rocha e a Mesquita Aqsa, o primeiro complexo de prédios religiosos do
islã, em cima do Monte do Templo. A escolha da cidade foi importante; por ser a mais
sagrada para o judaísmo e o cristianismo, ela fez parte da estratégia de legitimar a nova
religião e o novo império que então nasciam. O local selecionado foi a rocha sobre a
qual Abraão ter-se-ia disposto a sacrificar seu filho Isaac em nome da fé monoteísta, e
onde mais tarde teria repousado a Arca do Templo. Para os muçulmanos, a cidade pas-
sou a ser sagrada porque nela foi construído o santuário da "revelação final", que,
substituindo o Templo judaico de Salomão, continuava asrevelações feitas a judeus e
cristãos mas corrigia os erros nos quais estes haviam incorrido. Além disso, mesmo que
a palavra "Jerusalém" nunca tenha sido mencionada no Corão, o versículo 17:1 conta
que Deus teria levado Maomé em uma jornada, à noite, da mesquita sagrada, em Meca,
para a mesquita mais distante (em árabe, al-Masjid al-Aqsa). Embora uma interpreta-
ção considere que essa mesquita seja no céu, a interpretação contemporaneamente acei-
ta pelos muçulmanos entende que a mesquita distante localizava-se em Jerusalém.
2 O judaísmo e Jerusalém — De acordo com o Antigo Testamento, Jerusalém passou a
ser sagrada para os judeus quando o rei Davi trouxe a Arca Sagrada para esta cidade,
construindo um palácio real, fortalecendo suas fortificações e fazendo de Jerusalém a
capital do Reino de Israel. Durante o reinado de seu filho Salomão, um grande templo
foi construído no Monte do Templo, no lugar onde Abraão teria levado seu filho Isaac
para o sacrifício. A partir de então, ela passou a ser o centro da vida judaica. Mesmo com
a destruição deste templo e do seguinte que o substituiu, e com a dispersão dos judeus
pelo mundo, Jerusalém continuou sendo a direção para onde os judeus se voltavam em
suas orações. Para estes, a peregrinação a Jerusalém é considerada uma alia (subida, em
hebraico), por ser o lugar espiritualmente mais elevado passível de ser alcançado.
Jerusalém permanece também como o símbolo da fidelidade dos judeus à religião, ex-
pressa no salmo "Se eu esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão destra perca a sua
destreza...".
3 Os vários sionismos — A palavra "sionismo" esconde várias correntes distintas. Embora
todas tenham em comum o objetivo de criar um lar judaico, não havia consenso quanto
à forma, os motivos, nem ao local onde isto deveria acontecer. Ainda antes de Theodor
Herzl escrever seu O Estado Judeu, alguns religiosos já proclamavam a necessidade do
retorno dos judeus a Sion, formando a corrente do sionismo religioso. Para Herzl e seus
seguidores, o sionismo devia visar, através da ação política e diplomática, à fundação de
um Estado "normal", não necessariamente na Palestina — chegaram a considerar a pro-
posta britânica de migrarem para Uganda —, onde os judeus estivessem livres das perse-
guições anti-semitas; para Ahad Ha'am, adepto do sionismo cultural, Israel deveria se
tornar um refúgio para a preservação da cultura e identidade judaicas, que corriam o
125
O S É C U L O X X
risco de se perder com a assimilação existente nos países ocidentais da Europa. Há ainda
os sionistas práticos, como David Ben-Gurion, que, depois da derrota da via diplomáti-
ca, optam pela infiltração na Palestina, mesmo ilegalmente, e os "revisionistas", que, li-
derados por Zeev Jabotinski, pretendem conquistar toda a Palestina e a Transjordânia,
mesmo que à força. Unidos pelo objetivo comum da criação do Estado até 1948 (à exce-
ção dos "revisionistas", os únicos a não aceitarem o plano de partilha da ONU), estas
correntes demonstraram suas profundas divergências após a fundação do Estado de
Israel, quando tornaram explícitos os seus distintos projetos para o país.
4 Os Jovens Turcos — Em fins do século XIX, desenvolveram-se no Império Otomano
vários grupos de oposição ao sultão e seu governo. O mais importante deles foi o do
conjunto de oficiais chamados "Jovens Turcos", organizado no Comité para a União e
o Progresso. Em uma grande revolta em 1908, forçaram o sultão a instituir um gover-
no parlamentar constitucional. Prometendo igualdade étnica e religiosa, os Jovens
Turcos levaram adiante o programa de reforma e modernização do império, abrindo es-
colas femininas e discutindo a extensão dos direitos de cidadania às mulheres. Esse pro-
jeto, no entanto, durou pouco: assolado pelas dívidas e pela Primeira Guerra Mundial,
o ministro da Guerra, Enver Pasha, adotou uma política austera, justificando-a pela
manutenção da ordem e da segurança nacional, que resultou inclusive na repressão a
várias minorias nacionais, como os arménios e os curdos.
5 Lawrence da Arábia — Thomas Edward Lawrence, coronel britânico, era o encarrega-
do de representar o Foreign Office (Assuntos Exteriores) junto a Hussein, negociando
com ele a implementação do "Reino Árabe", tão logo a guerra acabasse. Confidente de
Faissal, filho de Hussein, Lawrence participou da revolta árabe contra o Império
Otomano em 1916, o que lhe valeu glória, a fama de "rei não-coroado dos árabes" e a
alcunha "Lawrence da Arábia". Como o grande "Reino Árabe" prometido nunca
tivesse saído do papel, apesar de seu envolvimento, Lawrence resolveu desaparecer da
cena política. Com um pseudónimo, tornou-se soldado raso da força aérea britânica e
acabou morrendo em 1935, num acidente de moto.
6 O mufti de Jerusalém — Amin al-Husseini (1893-1974) foi a maior autoridade árabe sob
mandato inglês. Descendente de uma importante família de Jerusalém, Husseini comple-
tou seus estudos na Faculdade de Teologia egípcia de Al Azhar. Após ter servido no exér-
cito otomano durante a Primeira Guerra, Husseini tornou-se presidente do Clube
Nacionalista Árabe, onde começou a desenvolver suas atividades anti-sionistas. Desde a
década de 1920, participou de violentos ataques contra judeus; condenado à prisão pelos
ingleses, recebeu anistia e foi escolhido o Grande Mufti de Jerusalém pelas autoridades
mandatárias, além de presidente do Conselho Supremo Muçulmano, passando a ser, si-
multaneamente, o representante oficial e religioso da população árabe. Durante a revol-
ta de 1936, foi obrigado a fugir para o Iraque; de lá, apoiado pela Alemanha nazista,
participou de um golpe de Estado contra os ingleses. Aliado dos alemães, apoiou o recru-
tamento de voluntários muçulmanos para lutar no exército nazista nos Bálcãs. Depois do
fim da guerra, Husseini participou da criação da Liga Árabe no Egito e, a partir de então,
tentou criar governos árabes na Palestina, sem ter obtido sucesso nem apoio do mundo
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O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S Á RA B E - 1 S R A E L E N S E S
árabe. Em 1959, sem qualquer crédito entre os líderes árabes, Amin al-Husséini retirou-
se dá vida pública, indo residir no Líbano, onde faleceu quinze anos depois.
7 O Holocausto e a criação do Estado de Israel — Ainda hoje, é difícil determinar a in-
fluência tida pelo Holocausto na decisão da ONU. Não fosse a comoção pública gera-
da pelo extermínio em massa de milhões de judeus, talvez os países não se decidissem
em favor da criação de Israel; por outro lado, com ou sem massacre, a situação na
Palestina já havia se tornado insustentável, e a decadência do Império Britânico era uma
realidade nos quatro cantos do mundo. O fato é que, com aqueles que pereceram no
Holocausto, morreram também as outras correntes políticas judaicas existentes antes
da guerra. Boa parte daqueles que haviam optado por ficar na Europa o fizeram na es-
perança da integração ou, principalmente, da erradicação do anti-semitismo através da
instauração da sociedade socialista, onde as diferenças — fossem quais fossem — não
teriam razão de ser. Ao fim da guerra, estavam quase todos mortos, e com eles os vá-
rios e populares partidos socialistas judaicos. Embora alguns tenham sido recriados
posteriormente, nenhum logrou obter a pujança de antes; ao mesmo tempo, aqueles ho-
mens que sobreviveram — e talvez justamente por isto — ficaram mais e mais simpáti-
cos ao sionismo, o que, sem dúvida, contribuiu para o fortalecimento da causa.
8 A Declaração de Independência do Estado de Israel — País até hoje sem Constituição,
por conta das divergências entre seus fundadores, Israel tem na sua Declaração de Inde-
pendência, lida por Ben-Gurion em Tel-Aviv no dia 14 de maio de 1948, seu documen-
to fundador. Ele explicita os diferentes projetos concomitantes naquele momento,
quando, para alguns, Israel devia ser um Estado nacional moderno e laico, aberto às di-
ferenças étnicas e religiosas e, para outros, devia ser regido pela Halachá, as leis religio-
sas escritas e aplicadas para judeus. Seguem trechos: "ATerra de Israel foi o lugar de
nascimento do povo judeu. Aqui se formou sua identidade nacional, espiritual e religio-
sa. Aqui os judeus conquistaram independência e criaram uma cultura de importância
nacional e universal. Aqui escreveram a Bíblia e ofereceram-na ao mundo. Exilado da
Terra de Israel, o povo judeu conservou-se fiel a ela durante os séculos de sua dispersão,
nunca deixando de rezar e esperar por sua volta e pela restauração da liberdade nacio-
nal. [...] O Estado de Israel será aberto à imigração de judeus de todos os países onde
estão dispersos; ele desenvolverá o país, para benefício de todos os seus habitantes; será
fundado sobre os princípios de liberdade, justiça e paz ensinados pelos profetas de
Israel; assegurará uma completa igualdade dos direitos sociais e políticos a todos os
seus cidadãos, sem distinção de credo, raça ou sexo; garantirá a plena liberdade de
consciência, culto, educação e cultura; assegurará a salvaguarda e a inviolabilidade dos
lugares santos e dos credos de todas as religiões e respeitará os princípios da Carta das
Nações Unidas. [...] Nós lançamos um apelo ao povo judeu de todo o mundo para se
ligar a nós na tarefa da imigração [...], e a nos assistir no grande combate a que nos en-
tregamos, para realizar o sonho perseguido de geração em geração: a redenção de
Israel. Confiantes no Eterno Todo-Poderoso, assinamos esta declaração sobre o solo da
pátria, na cidade de Tel-Aviv, nesta sessão da assembleia provisória do Estado, realiza-
da na véspera do shabat, 5 lyar, 5708, 14 de maio de 1948."
127
O S É C U L O XX
9 A Irmandade Muçulmana — "Estabelecidos desde o início do movimento, estes prin-
cípios continuam em vigor. 1. Creio que tudo está sob a ordem de Deus; que Maomé
assegura a veracidade de toda profecia dirigida a todos os homens, [...] que o Corão é
o livro de Deus, que o islã é uma lei completa para dirigir esta vida e a próxima. [...] 2.
Creio que a ação correta, a virtude e o conhecimento estão entre os pilares do islã.
Prometo agir corretamente, realizando as práticas do culto e evitando as coisas más;
terei prazer nos bons costumes, abominarei os maus, difundirei ao máximo os hábitos
muçulmanos [...], reforçarei os rituais e o idioma do islã e trabalharei para difundir as
ciências e os conhecimentos úteis em todas as classes da nação. [...] 4. Creio que o mu-
çulmano é responsável por sua família, que ele tem o dever de conservá-la em boa
saúde, na fé e nos bons costumes. Prometo fazer o possível para tanto e insuflar os en-
sinamentos do islã nos membros de minha família. Não deixarei meus filhos entrarem
numa escola que não preserve as suas crenças e os seus bons costumes. Suprimirei deles
todos os joinais, livros e publicações que negam os ensinamentos do islã, assim como
as organizações, grupos e clubes desse tipo. 5. Creio que o muçulmano tem o direito
de fazer reviver o islã pela renascença dos seus diferentes povos, que a bandeira do islã
deve cobrir o género humano e que cada muçulmano tem por missão educar o mundo
segundo os princípios do islã. Prometo ainda lutar para realizar essa missão enquanto
eu viver, e para isso sacrificar tudo o que eu possuo."
François Massoulié. Os conflitos do Oriente Médio. São Paulo, Ática, 1994, p. 29.
10 A Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU— "O Conselho de Segurança
da ONU, expressando a inquietude que continua a causar-lhe a grave situação no
Oriente Médio, [...] 1. Afirma que a obediência a sua Carta de Princípios exige a ins-
tauração de uma paz justa c duradoura no Oriente Médio, que deverá compreender a
aplicação dos dois princípios seguintes: I. Retirada das forças israelenses dos territó-
rios ocupados no recente conflito; II. Cessação de todas as declarações de beligerância
e de todos os estados de beligerância; respeito e reconhecimento pela soberania, inte-
gridade territorial e independência política de cada Fttado da região e pelo seu direito
de viver etn paz dentro de fronteiras seguras e reconhecidas, protegido contra ameaças
de força; 2. Afirma ainda a necessidade: a) De garantir a liberdade de navegação pelas
vias navegáveis internacionais da região; b) De se alcançar uma solução justa para o
problema dos refugiados; c) De garantir a inviolabilidade territorial e a independência
política de cada Estado da região, através de medidas que compreendem a criação de
zonas desmilitarizadas [...]."
11 Os xiitas — Do árabe shia (partido), são os muçulmanos partidários de Ali, primo e
genro de Maomé, que sustentam que só as tradições do Profeta transmitidas através de
membros de sua família podem ser aceitas. O grupo a que se opõem é o dos sunitas,
que seguem também a suna (lei, regra tradicional, em árabe) e os ensinamentos dos
quatro primeiros califas (soberanos sucessores de Maomé). Usualmente identificados
com a ala radical do islamismo, esta definição não é necessariamente correta, já que os
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O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S Á R A B E - 1 S R A E L E N S E S
sunitas também adotaram atos de extremismo, como o assassinato do presidente egíp-
cio Anuar Sadat. Mesmo assim, apoiando o regime fundamentalista do aiatolá
Khomeini, os xiitas reviveram a jihad (guerra santa), que proclama o combate do islã
contra todos os inimigos, heréticos e "corruptores da terra", como o escritor Salman
Rushdie, que, por ter utilizado elementos da tradição muçulmana em seu livro Versos
satânicos, foi condenado à morte através da fatwa (julgamento religioso emitido pelo
aiatolá).
12 A literatura da paz — "Fui escolhido, junto com meu colega e amigo Yoram Kaniuk,
como co-presidente do comité [misto de intelectuais — israelenses e palestinos — con-
tra a ocupação e pela paz e a liberdade de expressão]. Cada um de nós se esforçou em
compreender as dificuldades que o outro encontrava, as pressões que sofria por parte
de sua sociedade, e respeitar suas dificuldades. [...] Estou comovido por constatar que
essa amizade tardia que me une a esses colegas judeus ressuscita em mim as lembran-
ças de juventude, do tempo em que eu era aluno da escola em Haifa, minha cidade
natal. A política não existia para nós, nessa época, e sólidos vínculos de camaradagem
e de amizade nos uniam a nossos companheiros judeus: frequentávamos a mesma es-
cola e morávamos na mesma rua."
Emil Habibi, escritor palestino, primeiro árabe israelense a ocupar uma cadeira
na Knesset (Parlamento) de Israel.
13 O fundamentalismo religioso — Movimento que usa a religião como fundamento de
posições políticas, o fundamentalismo (ou integrismo) é também uma tentativa de con-
servar as tradições, opondo-se a qualquer tipo de modernização. Embora todos os fun-
damentalistas sejam fervorosos adeptos de suas religiões, nem todos os religiosos orto-
doxos são fundamentalistas. Em Israel, por exemplo, são fundamentalistas aqueles ju-
deus que justificam a violência contra os palestinos através do suposto direito bíblico
de propriedade das terras da Cisjordânia. Os muçulmanos fundamentalistas, por sua
vez, são aqueles que concordam em matar os considerados infiéis, usando a jihad
(guerra santa) em nome da defesa dos princípios do islã.
14 A condição feminina no islamismo — "A imagem de mulheres cobertas da cabeça aos
pés, fugindo da fúria dos estudantes da milícia talibã [alunos do islã], que tomou o
poder no Afeganistão, chocou o mundo. [...] Às vésperas do século XXI, os talibãs
exigem que as mulheres restrinjam seus movimentos ao espaço interno do lar e cu-
bram totalmente o corpo. Proíbem-nas de trabalhar fora e ir à escola, ao menos en-
quanto os líderes religiosos [mulas] analisam o que devem aprender. Andar na rua, so-
mente acompanhada de um parente do sexo masculino. De ônibus, só respeitando a
divisão feita com uma corrente para que homens e mulheres não se sentem próximos
uns dos outros. Aquelas que ousam desobedecer são severamente punidas. Há diver-
sos relatos de espancamento de mulheres na rua por não estarem adequadamente ves-
tidas. [...] Confusão semelhante vivem as mulheres da Arábia Saudita, especialmentedepois que a Guerra do Golfo levou para seu país centenas de militares americanas
129
O S É C U L O X X
que fazem tudo o que elas nunca sonharam. [...] [Lá], as mulheres que mostram de-
mais o corpo podem ser castigadas pela polícia religiosa, e vídeos, livros e publicações
são censurados. Como no Afeganistão, cinema, música, álcool, pornografia e jogo são
expressamente proibidos. Apesar disso, com um número cada vez maior de mulheres
chegando às universidades e viajando para estudar no exterior, as reivindicações co-
meçam a crescer. Sabe-se que muitas delas usam roupas ocidentais e até jeans por
baixo das túnicas. As jovens recém-formadas queixam-se da falta de oportunidades de
trabalho."
Sônia de Souza Costa, "Mulher invisível: a revolução no Afeganistão reabre o de-
bate sobre a condição feminina no islamismo", Revista Manchete, 12/10/1995,
pp. 14-19.
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131
r
1968: rebeliões e utopias
Marcelo Ridenti
Professor Iivre-docente do Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas da Unicamp
INTRODUÇÃO
As novidades dos movimentos sociais e culturais de 1968 levaram o jornalis-
ta Zuenir Ventura a chamá-lo "o ano que não terminou", pois as bases em
que se apoiam as sociedades do presente teriam um forte laço de continuida-
de com aquele ano de ruptura com o passado. Contudo, assim como nenhum
raio cai com céu azul, os eventos marcantes de 1968 foram gestados nas con-
dições históricas precedentes. Em outras palavras, os acontecimentos ex-
traordinários de 1968 devem ser pensados como uma condensação da expe-
riência histórica passada e prenúncio da História futura.
Nos anos imediatamente anteriores a 1968, foram vitoriosas ou estavam
ocorrendo inúmeras revoluções de libertação nacional: a revolução cubana
de 1959, a independência da Argélia em 1962, e a Guerra do Vietnã. O su-
cesso dessas revoluções é fundamental para a compreensão das lutas e do
ideário contestador de 1968: havia povos subdesenvolvidos que se rebela-
vam contra as grandes potências, para criar um sonhado mundo novo.
Por outro lado, os revoltosos de 1968 criticavam o modelo soviético de
socialismo, tido como burocrático e acomodado à ordem internacional esta-
belecida pela Guerra Fria, sem interesse em incentivar as transformações so-
ciais, políticas e económicas necessárias para chegar ao comunismo. Esse
modelo só ruiria de vez com a desagregação da União Soviética, em 1991,
mas já era contestado em 1968, por exemplo, no interior do Partido
Comunista na Tchecoslováquia, cuja Primavera de Praga foi destruída pela
intervenção militar soviética. A revolução cultural proletária, em curso na
China a partir de 1965 — que mais tarde viria a revelar seu lado trágico —,
também parecia a setores jovens do mundo todo uma resposta ao burocratis-
mo de inspiração soviética.
Movimentos de protesto e mobilização política surgiram por toda parte
em 1968: das manifestações nos Estados Unidos contra a Guerra do Vietnã
1 3 5
O S É C U L O XX
à Primavera de Praga; do maio libertário dos estudantes e trabalhadores
franceses ao massacre de estudantes no México; da alternativa pacifista dos
htppies, passando pelo desafio existencial da contracultura, até os grupos de
luta armada, espalhados mundo afora.
O comportamento das pessoas também mudava, por exemplo, nas rela-
ções entre os sexos (emancipação feminina crescente), no uso de anticoncep-
cionais e de drogas, na consolidação da televisão como principal meio de co-
municação de massas, ocupando lugar cada vez maior no cotidiano das po-
pulações etc. Travavam-se lutas radicais de negros, mulheres e outras mino-
rias pelo reconhecimento de seus direitos. Grupos da chamada nova esquer-
da sonhavam com a construção de uma sociedade alternativa, de um homem
novo, nos termos de Che Guevara, recuperando o jovem Marx. Enfim, os
sentimentos e as práticas de rebeldia contra a ordem e de revolução por uma
nova ordem fundiam-se criativamente.
GUERRA DO VIETNÃ E SUAS REPERCUSSÕES EM 1968
O ano de 1968 iniciou-se com uma virada no andamento da Guerra do
Vietnã, conhecida como ofensiva do Tet: a partir de 30 de janeiro, por oca-
sião dos feriados do Ano Novo lunar (Tet), os comunistas do Vietnã do
Norte atacaram maciçamente o Vietnã do Sul e as forças americanas ali se-
diadas. Os comunistas perderam de 30 a 40 mil homens, sem conseguir man-
ter as posições inicialmente conquistadas, o que fez os analistas em geral
abordarem a ofensiva como uma derrota militar. Contudo, pode-se conside-
rá-la como uma vitória política, pois a ousadia da ofensiva e as baixas ame-
ricanas provocaram impacto no governo e na opinião pública dos Estados
Unidos, que até então pareciam estar vencendo a guerra sem maiores dificul-
dades, depois de três anos de presença ativa na região. Eles estavam lá para
impedir a queda do governo capitalista do Vietnã do Sul, acossado pelos
guerrilheiros comunistas da Frente Nacional para a Liberação do Vietnã do
Sul — chamada pejorativamente pelos americanos de Vietcong.
O Vietnã era palco de uma das revoluções de libertação nacional da
época, que tanto empolgaram militantes do mundo todo, contagiados tam-
bém pelo êxito da revolução cubana de 1959 e pela independência da Argélia
de 1962, dentre outros exemplos de combates de povos para superar o sub-
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1 9 6 8 : R E B E L I Õ E S E U T O P I A S
desenvolvimento e livrar-se de dominações imperialistas ou ainda colonialis-
tas (caso sobretudo de alguns países da África).
Desde o início dos anos 60, os EUA passaram a mandar conselheiros mili-
tares ao Vietnã do Sul; já estavam lá 16.300 soldados em 1963, mas não deve-
riam entrar em combate, a princípio. O suposto ataque, nunca comprovado, a
dois destróieres americanos no Golfo de Tonquim, em agosto de 1964, serviu
de pretexto para o envolvimento militar direto dos Estados Unidos na guerra.
O Vietnã dividira-se em dois após a libertação do jugo colonial francês,
uma metade comunista, a outra capitalista, no intrincado jogo político da
época da Guerra Fria, em que a União Soviética e os Estados Unidos dispu-
tavam palmo a palmo a hegemonia política no cenário internacional.
Enquanto soviéticos e chineses forneciam armas e apoio logístico aos comu-
nistas, os americanos resolveram intervir diretamente na guerra, enviandotropas. Sucede que eles não esperavam encontrar lá tantas dificuldades: os
vietnamitas — apesar de serem um povo pobre, agricultor e subdesenvolvido
— têm uma tradição guerreira milenar, que havia sido recentemente provada
na luta feroz de independência contra a França (1945-54). Transformou-se
num pesadelo o que inicialmente se anunciava como mais um passeio das
forças armadas americanas num país estrangeiro, para salvá-lo do império
comunista do mal e garantir os valores democráticos da "civilização ociden-
tal": em 1968, já haviam morrido 14.692 americanos no Vietnã, além de
92.820 feridos.
Até a ofensiva do Tet, a maioria da imprensa e da população dos EUA
apoiara a guerra. Essa situação foi mudando com as crescentes baixas nas pró-
prias fileiras, a ousadia guerreira dos vietnamitas e o envolvimento bélico cres-
cente dos EUA. Foi-se tornando inaceitável para seus próprios cidadãos ver
todos os dias na televisão os horrores de uma luta em que a mais rica potência
mundial despejava toneladas de bombas num dos países mais atrasados do
mundo e, mesmo assim, ia perdendo a guerra, com alto custo em vidas de
americanos. Derrotados militar e moralmente, eles só voltariam para casa em
março de 1973, com o saldo de 57.605 mortos em combate.
O eventos históricos diferenciados de 1968 em todo o mundo estiveram
diretamente marcados pelas repercussões da Guerra do Vietnã: do Brasil ao
Japão, da Tchecoslováquia ao México, da Itália à Austrália, da França aos
Estados Unidos. Essas repercussões ganhavam sentido um pouco diferente,
conforme a conjuntura local de cada país ou região em que se espalhavam os
protestos contra a guerra, ou ainda de acordo com setores distintos da popu-
137
O S É C U L O XX
lação de cada país. Por exemplo, na América Latina, inclusive no Brasil, re-
percutia sobretudo em setores da juventude o chamamento de Che Guevara
para que se constituíssem no continente novos Vietnãs contra o domínio im-
perialista dos EUA. A ideia de seguir o exemplo revolucionário vietnamita
teve muitos adeptos na Europa e até mesmo nos Estados Unidos; contudo,
nesses países, entre os cidadãos que se opunham à guerra, predominavam os
argumentos pacifistas e liberais, de respeito aos direitos humanos e de auto-
determinação dos povos.
Seria preciso fazer estudos específicos sobre a repercussão particular da
Guerra do Vietnã nas lutas de 1968 em cada país. Mas é um fato que em pra-
ticamente todos os cantos da Terra levantaram-se ondas de indignação con-
tra a guerra.
Evidentemente, a guerra marcou o ano de 1968 com mais intensidade no
país em que ela se deu, o Vietnã, onde cada momento da vida de seus habi-
tantes tinha ligação com as consequências e horrores das batalhas. Já para a
população do outro contendor, os EUA, a guerra estava fisicamente distante,
mas não deixava de impor sua presença ao longo de 1968: nas televisões, nos
jornais, nas famílias que enviavam seus filhos para a guerra e por vezes os
perdiam, nas vidas dos veteranos que retornavam com traumas e dificulda-
des de reintegração social, nas canções e outras obras de arte, nos protestos
de rua, nos movimentos pacifistas, nos jovens que desertavam ou se recusa-
vam a servir o exército etc.
Se, em movimentos contestadores de outros países, a Guerra do Vietnã
foi um dos aspectos presentes, nos EUA ela se constituiu no aspecto central.
A ela estiveram ligados eventos marcantes de 1968, como os distúrbios e
protestos radicais dos negros e de outras minorias, a campanha política para
a Presidência, a revolta dos estudantes e a emergência da contracultura. Nos
Estados Unidos, 1968 representou os estertores de movimentos sociais ante-
riores, como o dos direitos civis, e o esgotamento da visão liberal-social-de-
mocrática, herdeira do New Deal de Roosevelt. Por outro lado, 1968 anun-
ciou movimentos que se desenvolveriam nos anos seguintes, como os das
mulheres, dos homossexuais, do meio ambiente etc.
A partir de meados dos anos 50, florescera nos EUA um importante mo-
vimento pelos direitos civis dos negros, que sofriam forte segregação. A lide-
rança negra mais importante nesse período foi a do pastor Martin Luther
King, grande orador, pacifista, que teve seu auge político nas grandes mani-
festações negras de Birmingham, no Alabama, em 1963. Ganhador do Prê-
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1 9 6 8 : R E B E L I Õ E S E U T O P I A S
mio Nobel da Paz em 1964, ele foi um dos responsáveis pelas conquistas his-
tóricas das leis de 1964-65, que garantem formalmente aos negros os mes-
mos direitos civis de qualquer cidadão americano. Por exemplo, a nova legis-
lação proibia que escolas não admitissem negros, incentivando a educação
pública inter-racial.
Em 1968, contudo, as circunstâncias haviam mudado. Com o surgimen-
to de vários grupos radicais negros — a afirmar o black power, o poder
negro, contra a sociedade excludente dos brancos — passavam a ser contes-
tadas as propostas de King, de integração racial e de não-violência. No prin-
cípio de 1968, King já havia perdido muito de sua influência sobre as novas
gerações. Não obstante, em abril, ele foi vítima de um atentado racista que o
matou, em Memphis, transformando-o em mártir da causa negra. A reação
dos negros diante do assassinato foi variada: da prostração até explosões es-
pontâneas de violência revanchista. Grupos radicais — como os Panteras
Negras —, procuraram conter os ânimos populares, temendo que revoltas
desorganizadas pudessem dar ao governo o pretexto que esperava para liqui-
dá-los. De fato, conseguiram manter a calma em metrópoles como Nova
York, Los Angeles, Cleveland e Detroit. Mas os distúrbios raciais espalha-
ram-se por mais de 150 cidades, como Washington, Seattle e São Francisco,
gerando inúmeras mortes, ferimentos e prisões.
Apesar das divergências, tanto os adeptos de King como os do black
power posicionavam-se contra a Guerra do Vietnã, até porque os negros es-
tavam na linha de frente nos campos de batalha e o belicismo era identifica-
do com os setores brancos mais retrógrados. As posições dos movimentos
negros variavam da moderação de King — que em 1965 já se declarara con-
trário a "uma das guerras mais sem sentido da/História" — até o terceiro-
mundismo radical (e minoritário) de líderes como Stokely Carmichael, que
em 1967 fizera um discurso em Havana pela revolução total, inserindo as
reivindicações afro-americanas como parte das lutas para "mudar as estrutu-
ras imperialistas, capitalistas e racistas dos Estados Unidos".
Em 1968 também se desenvolveu nos EUA um capítulo importante da
busca das mulheres pela igualdade entre os sexos. Elas participaram ativa-
mente da luta contra a Guerra do Vietnã, imposta pela sociedade "fálica e
imperialista". O mesmo ocorreria em seguida com movimentos de homosse-
xuais, gays e lésbicas.
No campo da política institucional, os eventos libertários de 1968 — no-
tadamente o combate à Guerra do Vietnã — também tiveram força significa-
139
O SÉCULO XX 1968: R E B E L I Õ E S E UTOPIAS
tiva. 1968 foi um ano de eleições presidenciais nos EUA. As engrenagens do
sistema político tradicional continuavam a funcionar. Até porque, como bem
já se observou, o 1968 americano foi mais acapitalista do que anticapitalis-
ta. O Partido Republicano, mais conservador, indicou Richard Nixon para
concorrer à Presidência. Era o homem forte, que prometia defender o sonho
americano para agradar à maioria silenciosa, chocada com as ondas de rebel-
dia que invadiam as ruas e com as mudanças de comportamento da juventu-
de e das minorias, especialmente dos negros. Apesar de conservador, Nixon
detectava o mal-estar com a Guerra do Vietnã e prometia encontrar uma so-
lução para retirar os EUA do conflito — promessa que, depois de eleito, não
cumpriria nesse mandato.
No Partido Democrata, a luta interna pela candidatura à Presidência foi
dura, especialmente depois que o desgastado candidato natural do partido, o
presidente Lyndon Johnson, desistiu de pleitear a reeleição. Concorriam: o
vice-presidente Hubert Humphrey — homem da máquina partidária —, o
herdeiropolítico do presidente John Kennedy, seu irmão Robert Kennedy, na
época defensor de uma plataforma de abertura para os direitos sociais e
Eugene McCarthy, com um programa próximo do de Kennedy, porém mais
explicitamente comprometido com a retirada dos americanos do Vietnã, o
que lhe valia maior apoio das bases universitárias. A disputa pela indicação
democrata era acirrada, com ligeira vantagem para Kennedy, quando ele foi
assassinado num atentado, em Los Angeles, no dia 5 de junho.
O atentado foi um reflexo da política dos EUA, pró-Israel, nos conflitos
que agitavam o Oriente Médio, especialmente desde a Guerra dos Seis Dias,
que estava completando um ano na data do atentado a Kennedy. Ele foi ba-
leado por um palestino que morava na Califórnia. Robert Kennedy — tão
pró-Israel quanto os demais candidatos — era alvo preferencial pelo seu
prestígio pessoal e de sua família.
A Convenção do Partido Democrata, realizada em Chicago, no fim de
agosto, acabou indicando Humphrey candidato, tido como continuador da
política já desgastada do presidente Johnson, especialmente em relação à
Guerra do Vietnã. O partido saiu dividido da convenção, estreitando demais
suas possibilidades de vitória nas eleições, vencidas por Nixon em novembro.
Para agravar a situação dos democratas, nos dias de sua convenção,
Chicago foi palco de verdadeira batalha campal entre a polícia e os manifes-
tantes contra a Guerra do Vietnã — compostos por pacifistas do movimento
hippy e por jovens organizados em agrupamentos de esquerda. Transmitidos
pela televisão, esses conflitos chamaram mais a atenção do público do que a
Convenção Democrata (ainda em 1965, cerca de 93% dos lares americanos
tinham televisão, e cada americano assistia em média a cinco horas diárias da
programação, o que fazia desse veículo o principal meio de comunicação,
com repercussões políticas evidentes). A reação da imprensa e da maioria da
população foi de indignação com a violência policial, mas também de temor
em relação às atitudes dos jovens, vistos como drogados, libertinos e arrua-
ceiros que buscavam desestabilizar o sistema político constituído.
O terreno estava aplainado para Nixon. Guardadas as devidas propor-
ções, ele significou para os EUA da época algo parecido com De Gaulle na
França: o pulso firme capaz de manter a lei e a ordem contra as ameaças dos
movimentos libertários de 1968. Nixon foi apoiado nas urnas pela maioria
da população, temerosa de eventuais mudanças, simbolizadas no imaginário
do cidadão mediano pela desordem da contracultura.
A Guerra do Vietnã também foi o eixo em torno do qual se articulou o
movimento de contracultura, pregando paz e amor, convocando o jovem
para que "faça amor, não faça guerra". No campo musical, esse movimento
foi especialmente significativo, nas canções de Janis Joplin, Jimi Hendrix,
The Mamas and the Papas, Simon & Garfunkel, entre outros, cujos precur-
sores foram Bob Dylan e Joan Baez, que cantavam denúncias ao racismo e à
Guerra do Vietnã, em 1968. Bandas inglesas famosas internacionalmente,
como os Beatles e os Rolling Stones, também estavam afinadas com a contra-
cultura. Paralelamente, desenvolvia-se a pop art, com Andy Warhol, Roy
Lichtenstein ou Jasper Johns. Na literatura destacavam-se novos temas, in-
troduzidos por escritores como Norman Mailer e John Updike. Na
Broadway entrava em cartaz a peça Hair, abordando o cotidiano da juven-
tude e a contestação dos valores tradicionais.
Além da nova música e do parentesco com manifestações em todas as
artes, a contracultura caracterizava-se por pregar a liberdade sexual e o uso
de drogas — como a maconha e o LSD, cujo uso era considerado uma forma
de protesto contra o sistema. O amor livre e as drogas seriam liberadores de
potencialidades humanas escondidas sob a couraça imposta aos indivíduos
pelo moralismo da chamada sociedade de consumo. Aliás, contra os valores
dessa sociedade, começaram a se formar comunidades alternativas, com eco-
nomias de subsistência no campo e um modo de vida inovador, como as do
movimento hippy.
A contracultura era particularmente difundida nos meios universitários,
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O S É C U L O X X 1 9 6 8 : R E B E L I Õ E S E U T O P I A S
caso de Columbia em Nova York e Berkeley na Califórnia. Ficaria famosa a
frase "não confie em ninguém com mais de trinta anos" — afinal, a taxa de
natalidade crescera consideravelmente nos EUA, do pós-guerra ao fim dos
anos 50 e início dos 60, fenómeno conhecido como baby boom, de onde pro-
vinham os jovens universitários de 1968.
O movimento estudantil americano foi muito significativo de 1964 a
1970. Diferentemente da França e do Brasil, 1968 não foi o ápice do movi-
mento estudantil nos EUA, apenas um momento significativo das lutas que
se articulavam em torno do combate à Guerra no Vietnã e ao serviço militar
obrigatório, mobilizando os jovens muito além da minoria mais identificada
com a contracultura. Mas eles jamais conseguiram romper o isolamento dos
campi universitários, tendo sido sempre vistos à distância e com desconfian-
ça pelo restante da população — ao contrário do que ocorreu na França, por
exemplo. De modo que é preciso atentar para as especificidades das lutas de
jovens e estudantes em cada um dos países em que elas se deram, como será
exposto a seguir.
1968 ESTUDANTIL E OPERÁRIO NA FRANÇA
Se é legítimo dizer que houve um movimento social mais destacado no ano
de 1968, sem dúvida foi o dos estudantes, que se mobilizaram em todos os
cantos do globo, nos países avançados e nos subdesenvolvidos, nos capitalis-
tas e nos comunistas. Os movimentos estudantis tiveram suas especificida-
des, pois ocorreram em países diferentes, cada um dos quais com sua própria
organização social e educacional, passando por diversas conjunturas políti-
cas. Todavia, eles também apresentaram significativos pontos de identidade,
na medida em que havia vários aspectos históricos supranacionais, isto é, co-
muns aos vários Estados onde houve agitação estudantil. Por isso, alguns
chegam a falar numa Internacional Estudantil espontânea, movimento não
organizado politicamente em termos internacionais, mas com inúmeras afi-
nidades entre seus componentes.
Cada um dos movimentos estudantis de 1968 mereceria destaque. Na
impossibilidade de tratar de todos eles, vale a pena deter-se um pouco no
mais conhecido de 1968: o de maio, na França, que costuma ser tomado co-
mo referencial para o estudo da época. Isso não significa que os movimentos
142
de outros países tenham sido mero reflexo do francês. A própria cronologia
de 1968 atesta que movimentos estudantis importantes — como o brasileiro
— precederam o maio francês, ainda que posteriormente tenham sofrido sua
influência.
Durante a Segunda Guerra Mundial, parte da França foi ocupada pela
Alemanha nazista, que também instalou ao sul, em Vichy, um governo fran-
cês colaboracionista, liderado por Pétain, que havia sido herói nacional da
Primeira Grande Guerra. Com a liberação da França e o fim da guerra, ins-
titui-se a Quarta República, na qual o país foi dirigido por partidos de cen-
tro esquerda, que promoveram a modernização da sociedade, acompanhada
de direitos sociais e liberdades democráticas, com ajuda financeira do Plano
Marshall, bancado pelos EUA, temerosos de possíveis avanços comunistas
na Europa. Mas os governos de orientação social-democrata tiveram de con-
viver com os problemas gerados pelos resquícios coloniais franceses: espe-
cialmente a partir de 1954, intensificou-se a luta pela independência da
Argélia, que viria a dividir a opinião pública francesa até 1962, quando se
efetivou a independência.
A crise gerada pela guerra na Argélia acabou reconduzindo a centro di-
reita ao poder, em junho de 1958, sob o comando do general De Gaulle, líder
carismático que comandara a resistência no exterior, durante a Segunda
Guerra Mundial, e dirigira o governo provisório, no pós-guerra. A partir de
1958, o poder Executivo ganhou força, no período que se convencionou cha-
mar de Quinta República, com a entrada em vigor de nova Constituição,termo, ainda algo impreciso, o maoísmo (de Mão Tsé-tung, presidente do
Partido Comunista Chinês e principal estrategista do Exército Popular de
Libertação (ELP)), para designar todas estas novidades que poucos analistas
estavam dispostos a levar a sério (Reis Filho, 1981).
A respeito dos méritos e dos deméritos do maoísmo, muito já se escre-
veu. O fato que nos basta aqui é que suas referências estavam sendo capazes
de mobilizar vontades e constituir forças capazes de aspirar ao poder políti-
co. O recuo da História, hoje alcançado, já não permite dúvidas quanto à
real autonomia destes movimentos guerrilheiros e destes comunistas em rela-
ção a Moscou. Nem o grande Stalin confiava neles, nem eles tinham por que
confiar em Stalin.
Contudo, nada disto foi considerado. Uma vez mais, a irrupção da Guer-
ra Fria teve, aqui também, efeitos uniformizadores ignorando particulari-
dades e autonomias, e escolhendo aliados mesmo que estes, muitas vezes, não
tivessem nenhum compromisso com a democracia nem tivessem se destacado
na luta contra os japoneses. Quanto às lutas de libertação nacional na região
da Ásia Oriental, elas seriam, de modo geral, derrotadas (Birmânia, Filipinas,
Malásia), ou se veriam, progressivamente, encurraladas, empurradas, literal-
mente, até cair na órbita do socialismo soviético (China, Vietnã e Coreia).
As sucessivas crises que então sobrevieram, como a de Berlim, cujo blo-
queio estendeu-se de novembro de 1948 a maio de 1949, e, mais grave, a da
Coreia, que virou guerra civil, entre 1950 e 1953, dando asas à intervenção
direta dos EUA (sob o manto das Nações Unidas), para defender o governo
aliado da Coreia do Sul, e da China, para sustentar os norte-coreanos, só fi-
zeram apertar os nós da aliança entre URSS e comunistas asiáticos.
Do ponto de vista dos EUA, estava sendo criada em torno da Ásia e da
China, em particular, uma cortina de bambu, equivalente à cortina de ferro
(expressão cunhada por W. Churchill), que separava a Europa em duas par-
tes inconciliáveis. Nesta leitura, todos os comunistas asiáticos não passavam
de peões de Moscou. Estas circunstâncias diminuíram drasticamente as mar-
gens de manobra no sentido da construção de um socialismo próprio, origi-
nal. De fato, a aliança com a URSS, na forma como se realizou, e consideran-
do as circunstâncias da época, implicava empréstimos, assessores, mas, prin-
cipalmente, importação de modelos de organização política e económica in-
compatíveis com a diversidade e com a especificidade. Uma aliança graníti-
ca, como então se dizia.
19
O S É C U L O X X
Dela escapou apenas a Jugoslávia, à custa de muita ousadia e determina-
ção. Os comunistas iugoslavos, e os vários povos que constituíam a federa-
ção iugoslava, sob liderança de J. Tito, recusaram as ambições soviéticas e
enfrentaram as campanhas de todo o tipo feitas para desestabilizar seu go-
verno. Em torno de um projeto próprio — o então chamado socialismo au-
togestionário —, conquistaram sua autonomia, e saíram vitoriosos, mas foi
a exceção que confirmou a regra.
A regra era o bloco sem falhas e sem fissuras, um monolito coeso em
torno da URSS e de J. Stalin. Num mundo de combate acirrado, dizia-se, não
havia alternativa, nem qualquer tipo de desvio podia ser tolerado. Era a me-
lhor maneira de vencer, e o socialismo venceria. Pelo menos, uma coisa era
certa: o sistema socialista estava se expandindo.
2. APOGEU E CRISES DO SOCIALISMO MONOLÍTICO
A morte de J. Stalin, em 1953, foi diversamente apreciada. Nos campos de
trabalhos forçados na URSS houve imenso júbilo, e algumas tentativas de
motim, logo esmagadas a ferro e fogo. Um pouco por toda a parte, analistas
apressados anunciavam que a morte do Grande Chefe desencadearia o caos
na URSS. Contudo, não foi isto que aconteceu. Houve, certamente, uma
grande dor e um profundo sentimento de desamparo no país. Entre os comu-
nistas e seus aliados, em todo o mundo, consternação. Mas a perda seria as-
similada em tempo relativamente rápido, operando-se a sucessão sem con-
vulsões maiores. O sistema parecia ter reservas, e sobreviveu sem grandes so-
bressaltos à morte do guia genial. Entretanto, alguns aspectos essenciais das
orientações e da cultura política ligadas ao nome de Stalin — o stalinismo —
passaram a ser questionados e superados.
O embate sem quartel às forças do capitalismo internacional, numa at-
mosfera de enfrentamentos de vida ou morte, foi dando lugar a propostas
mais conciliatórias, baseadas numa outra política, a da coexistência pacífica
entre sistemas diferentes. A URSS não abdicava do triunfo do socialismo,
considerado inevitável historicamente. Mas os caminhos nesta direção se-
riam menos lineares. O socialismo, segundo as novas orientações, iria de-
monstrar sua superioridade em todos os níveis. Com o tempo, somente uma
minoria de empedernidos se manteria na defesa do capitalismo. Eles seriam
20
O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
vencidos, mas estariam tão enfraquecidos que não seria difícil sua neutraliza-
ção. De preferência com um mínimo de derramamento de sangue. Era funda-
mental, nesta perspectiva, evitar o apocalipse nuclear, denunciar a corrida ar-
mamentista, encurralar e isolar os círculos mais agressivos do imperialismo.
Do ponto de vista do campo socialista, a URSS passou a admitir abertu-
ras antes consideradas inconcebíveis, como, por exemplo, a de que poderia
haver, em tese, vários caminhos para alcançar o socialismo. Em lugar do mo-
nolito, centrado em Moscou, um esboço de policentrismo socialista.
Em síntese, grandes mudanças, reorientações capitais em termos de polí-
tica internacional. Elas criariam as condições para o fim da Guerra da Coreia
(conversações de Panmunjom/1953), para os acordos que puseram fim à
guerra nacional do Vietnã contra o colonialismo francês, reconhecendo, no
norte do país, a independência da República Democrática do Vietnã
(Conferência de Genebra/1954), para a reconciliação com a lugoslávia (visi-
ta de dirigentes soviéticos a Belgrado/1955) e, finalmente, mas não menos
importante, para uma distensão significativa nas relações com os EUA (visi-
ta de N. Kruchev aos EUA/1959).
No plano interno, mudanças não menos capitais estavam em curso.
Em primeiro lugar, um processo geral de institucionalização da revolução
na sociedade soviética, compreendendo uma série de medidas ou políticas: a
afirmação da supremacia do Partido Comunista (a rigor, esta referência nunca
fora abandonada na teoria, mas, na prática, nos tempos áureos da ditadura de
J. Stalin, o partido perdera quase que completamente sua força política); a ên-
fase no caráter coletivo da direção política, em todos os níveis; a defesa do res-
peito ao que se passou então a chamar a legalidade socialista; a eliminação ou
subordinação de organizações que haviam ganho considerável autonomia
dentro do Estado e que funcionavam como verdadeiros estados dentro do
Estado (polícia política, assessoria particular do ditador etc.).
Ao mesmo tempo, deu-se início a um processo de liberalização dos con-
troles e da repressão — como se fosse um degelo, título da novela do escritor
russo, I. Ehrenburg: anistia para os presos políticos e comuns, afrouxamen-
to dos controles sobre os meios de comunicação, incentivo à crítica e revita-
lização das instâncias coletivas de decisão, anúncio de políticas descentrali-
zantes e democratizantes.
No plano do desenvolvimento económico, agitavam-se novas referências
e prioridades: era preciso agora conferir maior atenção às necessidades das
pessoas comuns: habitações populares, transportes coletivos, saúde e educa-
2 1
O S É C U L O XX
cão, agricultura etc. N. Kruchev, o dirigente então em ascensão, gostava de
dizer que o socialismo era bom, mas seria melhor com manteiga... ou seja,
chegara o momento de prestar atenção às demandas imediatas da população,
elevar seus níveis de vida, melhorar suas condições de trabalho. Toda uma ên-
fase foi atribuída à agricultura, conhecido ponto fraco da economia soviética,
desde os anos 30, quandoque
dava poderes maiores ao presidente, em detrimento do poder Legislativo. De
Gaulle, a princípio favorável a manter tropas na Argélia, mudou de rumo e
combateu a extrema direita, bem-organizada e colonialista, conseguindo
levar a bom termo a crise da Argélia. Ele comandaria a França com pulso
firme e sem maiores problemas até 1968.
Os eventos de maio viriam a constituir-se numa surpresa, pois a econo-
mia estava estabilizada e predominava certo marasmo político também no
pólo mais forte à esquerda, o Partido Comunista Francês (PCF). Chocado
pela crise do stalinismo após 1956, e muito burocratizado, ele não se mostra-
va capaz de ameaçar a ordem estabelecida.
A França mudara e as instituições já não davam conta de representar a
sociedade — foi o que se descobriu em maio de 1968, quando o país entrou
em ebulição a partir da mobilização estudantil.
Os estudantes tinham tradição de luta, inclusive no período mais recen-
143
O S É C U L O XX
te, quando se posicionaram pela retirada francesa da Argélia, com inúmeras
manifestações de rua até 1962. A partir do fim dos anos 50, formaram-se or-
ganizações da juventude à esquerda do PCF, que ganhavam força crescente.
Em 1968, havia no meio estudantil correntes trotskistas, maoístas e anar-
quistas. Elas tiveram importância no movimento, mas estiveram longe de di-
rigi-lo: as manifestações de massas foram autónomas e espontâneas, marca-
das pela recusa de qualquer organização nos moldes tradicionais e profunda-
mente críticas do burocratismo, da hierarquia e da cisão que costuma ser ge-
rada na relação entre dirigentes é dirigidos.
Em 22 de março de 1968, os estudantes ocuparam a Universidade de
Nanterre, nos arredores de Paris, em protesto contra a prisão de seis estudan-
tes do Comité Vietnã nacional. Em homenagem a esse dia — que costuma ser
caracterizado como o marco inicial do movimento que se estenderia até
junho —, formou-se o grupo 22 de Março, crítico dos métodos organizacio-
nais marxistas-leninistas; seu membro mais destacado foi Daniel Cohn-
Bendit, estudante de nacionalidade alemã radicado na França, que passou a
ser processado. Em maio, a agitação atingiria a tradicional Sorbonne, que
acabou sendo ocupada pela polícia, gerando revolta dos estudantes, que
foram para as ruas protestar e enfrentar a polícia no Quartier Latin (bairro
universitário no coração de Paris). Os eventos geraram prisões e crescentes
ondas de protesto estudantil para libertar os colegas.
No dia 10 de maio, cerca de 15 mil manifestantes são impedidos de en-
trar no Quartier Latin, cujos principais pontos haviam sido fechados pela
polícia. Mesmo assim, os estudantes resolvem ocupar o bairro, são atacados
pela polícia e acontece verdadeira batalha, de mais de quatro horas. A vio-
lência do combate incendeia a França: os estudantes ocupam todas as facul-
dades; vão se sucedendo passeatas e enfrentamentos com a polícia. O gover-
no cede, libera a Sorbonne e todo o Quartier Latin no dia 13. Imediatamente,
os estudantes ocupam a universidade e tratam de levantar barricadas para
defendê-la, nos moldes da tradição republicana francesa. Forma-se uma co-
muna estudantil no bairro, que promove comícios, debates e festas, sem que
se destacassem líderes específicos, num clima de total liberdade, recusa em
relação à ordem estabelecida e suas instituições, inclusive os partidos de es-
querda consolidados, notadamente o PCF. Este, por sua vez, via no movi-
mento um esquerdismo juvenil estéril.
O movimento de maio inaugurava novo estilo de ação e manifestação,
fora de partidos ou sindicatos, recusando qualquer tipo de tutela política,
144
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embora estivessem muito ativos no movimento pequenos grupos de esquer-
da e, principalmente, a União Nacional dos Estudantes da França (UNEF), o
Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup), entidade dos docentes
universitários, entre outros órgãos de estudantes e professores, inclusive se-
cundaristas.
No dia 13 de maio, a situação agravou-se para os partidários da ordem:
percebendo o ânimo dos operários de suas bases, a Confederação Geral do
Trabalho (CGT), central sindical ligada ao PCF, e a Confederação Francesa
Democrática do Trabalho (CFDT), próxima dos socialistas, declararam uma
greve de 24 horas em solidariedade aos estudantes e fizeram uma manifesta-
ção de centenas de milhares de pessoas. Começaram a suceder-se greves e
ocupações espontâneas de fábricas, que logo paralisariam a França.
Os estudantes franceses conseguiram o que queriam: solidariedade e
ação conjunta com os trabalhadores, cuja atividade política já não era con-
trolada por qualquer organização. Não obstante, essa solidariedade nas ruas
não significou a constituição de um comando organizado operário-estudan-
til de novo tipo, mesmo porque a insurreição estudantil, espontânea e com-
bativa, não tinha uma proposta de organização política ou sindical — ao
contrário, uma característica do maio universitário era a recusa a qualquer
organização, apesar dos esforços dos grupos de vanguarda trotskistas e
maoístas. Naquele momento, tratava-se mais de negar os valores e a ordem
estabelecidos do que de propor qualquer alternativa concreta. Nessa medida,
era de esperar que, cedo ou tarde, apesar de abalada, a CGT retomasse sua
hegemonia sobre a maioria dos operários de esquerda.
Nos meios operários e estudantis, misturavam-se os propósitos, que va-
riavam desde o desejo de melhorias salariais e trabalhistas dentro da ordem
reformada, passando pela contestação radical da sociedade do bem-estar e
do consumo, até as propostas revolucionárias anticapitalistas. Bandeiras ver-
melhas (marxistas) e pretas (anarquistas) espalhavam-se pelas ruas e monu-
mentos; frases libertárias e criativas eram pichadas nos muros; revoltosos
ocupavam barricadas em clima de festa e prazer, abraçavam-se e beijavam-se
em público; apareciam declarações de apoio às lutas de libertação nacional
no Terceiro Mundo, especialmente no Vietnã; o rosto de Che Guevara, assas-
sinado em 1967, ressurgia em bandeiras e cartazes; manifestantes entoavam
a Internacional.
Vários artistas aderiam ao movimento, que interrompeu o Festival de Ci-
nema de Cannes e ocupou o tradicional Teatro Odéon. Em 20 de maio, havia
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O S É C U L O XX
10 milhões de trabalhadores em greve, além de todo o sistema universitário.
A França parou de trabalhar: metade do país sonhava com transformações,
a outra metade as temia, resguardando-se, intimidada, para dar o troco na
primeira oportunidade. O filósofo Jean-Paul Sartre declarava que o movi-
mento estudantil estaria preparando a verdadeira via ao socialismo e à liber-
dade, que seriam inseparáveis. Sucediam-se declarações de apoio de expres-
sivos intelectuais de esquerda, na França e no exterior, como Herbert
Marcuse, autor de .livros afinados com o ideário do movimento, ainda antes
de seu surgimento.
Mesmo sem jamais terem obtido controle sobre o conjunto dos revolto-
sos, floresceram pequenos e variados grupos contestadores: trotskistas, anar-
quistas, maoístas e outros, como os situacionistas, autores de muitas das fra-
ses mais criativas pichadas nos muros de Paris e outras cidades. Os situacio-
nistas eram herdeiros e dissidentes do surrealismo, propunham uma fusão
entre a política e a arte, bem como a "revolução integral na vida cotidiana".
Em 1957, eles haviam criado uma Internacional Situacionista, que a princí-
pio era mais artística que política, invertendo esses pólos em meados dos
anos 60, ao defender a autogestão e a revolução proletária como uma festa,
em que a regra é gozar a vida. As ideias de festa de libertação coletiva e de
fruição dos prazeres pessoais foi muito marcante na França de 1968.
Situacionistas escreveram alguns dos livros mais significativos e influen-
tes no período, como A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, e Tratado
de saber-viver para o uso das novas gerações, de Raoul Vaneigem. Ambos
foram publicados em 1967, ano do filme A chinesa, de Jean-Luc Godard,
que profetizara o maio de 68 e a influênciasobre setores da juventude da re-
volução cultural, em curso na China a partir de 1966. Essa influência basea-
va-se em imagens ideais libertárias, projetadas no exterior pela revolução
cultural — imagens que talvez tivessem ténue ligação com seu real significa-
do na pátria de Mão.
A identidade de alguns jovens revoltosos franceses de 1968 com a revolu-
ção cultural chinesa dava-se porque viam nela: o combate ao processo de bu-
rocratização nos países socialistas; uma política externa de solidariedade com
as nações do Terceiro Mundo; a ênfase na ação espontânea das massas no pro-
cesso de ruptura da divisão entre campo e cidade, trabalho intelectual e traba-
lho manual; igualitarismo social, em detrimento das forças do mercado; admi-
nistração popular direta; uso da energia e do entusiasmo da juventude etc.
Nas circunstâncias descritas, a insubordinação e as greves estudantil e
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operária levaram a uma crise geral de autoridade na França, propagada aos
quatro cantos pela imprensa escrita, pelo rádio e pela televisão, que levavam
ao mundo palavras, sons e imagens da contestação. O governo sentia-se po-
liticamente frágil para enfrentar a revolta e temia lançar mão de armas con-
tra o manifestantes, o que poderia levar a uma guerra civil, recurso a que re-
correria apenas em último caso. Por outro lado, até mesmo instituições con-
solidadas de esquerda, como o PCF e a CGT, sentiam questionada sua auto-
ridade sobre os trabalhadores. O presidente De Gaulle mantinha negociações
com os comunistas para a ruptura do impasse, que surpreendia e ameaçava
os dois lados. Esboçou-se o acordo de Grenelle (rua do Ministério do
Trabalho), entre governo, patrões e operários, fazendo concessões trabalhis-
tas. Mas o movimento grevista não arrefeceu de imediato.
Em 29 de maio, De Gaulle chegou a sair subitamente de Paris para man-
ter conversações secretas com generais do exército no exterior, particular-
mente Massu, comandante das forças francesas sediadas na Alemanha
Ocidental. Rearticulavam-se os conservadores: os generais garantiram apoio
a De Gaulle, se preciso, usando a força para restabelecer a ordem. Em con-
trapartida, o presidente comprometeu-se a libertar os últimos militares ainda
presos, devido a suas ações terroristas na França, contra a independência da
Argélia.
De Gaulle retornou decidido a, mais uma vez, colocar ordem na casa fran-
cesa: no dia 30 de maio, dissolveu o Parlamento e convocou eleições gerais.
Ameaçada pelo desenrolar dos acontecimentos, a maioria silenciosa conserva-
dora abandonava suas tocas, ia às ruas de Paris em apoio ao presidente, fazen-
do manifestações de centenas de milhares de pessoas. Revertia-se a situação. A
própria esquerda institucionalizada, esperançosa de vencer nas urnas, tratava
de garantir um desenrolar normal do pleito, preparando o fim da greve. Isso
valia tanto para os comunistas, liderados por Georges Marchais, como para os
socialistas, capitaneados por François Mitterrand e Mendès-France.
Em seguida, o governo implementaria medidas do acordo de Grenelle e,
por outro lado, mandaria a polícia recuperar fábricas, repartições públicas e
estabelecimentos escolares ocupados por revoltosos. Encontrou pouca resis-
tência, que se estendeu num ou outro local isolado até o fim de junho. No dia
12, o governo colocou na ilegalidade 11 grupos revolucionários estudantis,
proibiu manifestações e prendeu militantes. No dia 23, a direita francesa
venceu o primeiro turno das eleições gerais, com 43,65% dos votos para can-
didatos gaullistas. A vitória foi confirmada no segundo turno, em 30 de
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junho: o centro e a direita conseguiram 358 cadeiras no Parlamento, de um
total de 485.
Derrotado o movimento de maio, intelectuais e militantes franceses bus-
caram explicá-lo. Até hoje não há consenso nas interpretações, muitas vezes
contraditórias entre si. Por exemplo, alguns pensam que os eventos de maio
na França foram um fenómeno essencialmente estudantil e de juventude, a
comprovar que a luta de classes já não seria adequada para compreender os
movimentos sociais contemporâneos; ao passo que outros entendem que o
caráter distintivo do movimento foi a greve geral dos trabalhadores, que lhe
deu o conteúdo fundamental de classe. Alguns vêem os movimentos estudan-
tis de 68 como um passo importante para adaptar a Universidade à vida mo-
derna, pois até então ela estaria ultrapassada, em descompasso com as novas
necessidades do mercado de trabalho. Outros contestam essa interpretação:
os estudantes de 68 não estariam à procura de uma carreira dentro da
ordem, mas buscavam contestá-la radicalmente, promovendo uma grande
recusa de todos os aspectos da ordem estabelecida. Segundo certos autores,
1968 é um mito em grande parte criado pela mídia; para outros, é o ano fun-
dador de uma forma inovadora de fazer política, que teria aberto um novo
período na História. Para uns, maio foi uma revolta individualista, o adven-
to atrasado na França de um consumismo permissivo, que anunciaria o flo-
rescimento subsequente da ideologia capitalista, ao combater as noções de
proletariado e de nação como sujeitos coletivos. Para outros, significou a
abertura de uma brecha no sistema, um vislumbre de que a revolução socia-
lista e libertária seria possível na Europa.
Philippe Bénéton e Jean Touchard chegaram até a construir uma classifi-
cação de oito tipos diferentes de interpretações sobre maio de 68 na França
— tipos que talvez também possam ser válidos para pensar outros movimen-
tos daquele ano. Maio de 68 seria visto como: 1. complô anticapitalista para
subverter a ordem; 2. crise da Universidade, ligada essencialmente à margi-
nalização social dos estudantes; 3. revolta da juventude; 4. crise da civiliza-
ção, geradora de consumismo numa sociedade tecnificada; 5. conflito de
classe de um novo tipo, mais cultural e político do que económico; 6. confli-
to de classe de tipo tradicional; 7. crise política, dada a ausência de alterna-
tivas viáveis; 8. encadeamento de circunstâncias. Keith Reader aumentou
essa tipologia: 9. exercício de modernização social, prefigurando o ressurgi-
mento do individualismo nos anos 70 e 80; 10. oportunidade revolucionária
perdida ou traída; 11. interpretações culturais.
A despeito de todas essas interpretações, está longe de fechar-se o leque
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de hipóteses para compreender o fenómeno. Isso talvez seja indicativo de que
maio de 1968 na França e o conjunto mundial dos movimentos daquele ano
ainda estão carregados de atualidade.
1968 NO BRASIL
No Brasil, acima da influência dos fatores internacionais e da identidade com
movimentos contestadores de outros países, 1968 teve especificidades locais
determinantes. O movimento estudantil daquele ano, por exemplo, nasceu
de uma dinâmica de luta própria, anterior a maio de 1968.
Em 31 de março de 1964, um golpe militar interrompera o processo de
democratização política e social, marcado pela mobilização popular em
busca das reformas de base, que permitiriam melhor distribuição da riqueza
e de direitos. O golpe deu fim às crescentes reivindicações de trabalhadores
urbanos e rurais, estudantes, intelectuais e militares de baixa patente, cuja
politização ameaçava a ordem estabelecida.
A falta de resistência ao golpe gerou surpresa e foi atribuída por muitos
aos erros dos dirigentes dos partidos de esquerda, que não se prepararam
para resistir, notadamente o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Formara-se
uma corrente de opinião favorável à criação de uma vanguarda realmente re-
volucionária, para opor uma resistência armada à ditadura e avançar em di-
reção à superação do capitalismo.
Em outubro de 1965, o regime extinguiu os partidos constituídos. Impôs
normas que levariam à existência legal de apenas dois partidos: a situacionis-
ta Aliança Renovadora Nacional (Arena) e a oposição moderada do
Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que viria a ser calada com cas-
sações de políticos e outrosmecanismos, sempre que se excedesse aos olhos
dos governantes.
Fora do campo institucional, vários grupos procuravam combater a dita-
dura e organizar os movimentos populares: além do PCB, a Ação Popular
(AP), o Partido Comunista do Brasil (PC do B), a Política Operária (Polop) e
dezenas de pequenos grupos que comporiam a "nova esquerda revolucioná-
ria" — caso da Ação Libertadora Nacional (ALN) e da Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR). Dada a. repressão que praticamente dizimou os seto-
res combativos do sindicalismo e de outros movimentos populares, a princi-
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O S É C U L O XX
pai fonte de recrutamento de militantes estava no meio estudantil, berço do
único movimento de massas que se rearticulou nacionalmente nos primeiros
anos do pós-64, lançando-se em significativos protestos de rua em 1968.
1968 iniciou no Brasil com manifestações de estudantes. Por um lado,
eles reivindicavam ensino público e gratuito para todos, uma reforma que
democratizasse o ensino superior e melhorasse sua qualidade, com maior
participação estudantil nas decisões, mais verbas para pesquisa — voltada
para resolver os problemas económicos e sociais do Brasil. Por outro lado, os
estudantes contestavam a ditadura e o cerceamento às liberdades democráti-
cas. Naquela época, a maioria dos universitários estudava em escolas públi-
cas e o acesso ao ensino superior era bem mais restrito que nos dias de hoje,
havendo uma demanda muito maior que a oferta de vagas.
As manifestações estudantis de rua vinham acontecendo desde 1966,
com repressão policial, mas foi em 1968 que amadureceu a rebelião estudan-
til. No início do ano, mobilizaram-se por mais vagas os excedentes (estudan-
tes que obtinham média nos vestibulares, mas não entravam na Universidade
porque o número de aprovados excedia o número de vagas disponíveis); en-
quanto os frequentadores de um restaurante estudantil carioca, conhecido
como Calabouço, pleiteavam sua ampliação e melhoria. Essas reivindicações
específicas associavam-se à luta mais geral contra a política educacional e
contra a própria ditadura.
O primeiro grande conflito de rua de 1968 surgiu em torno do restauran-
te Calabouço, que foi invadido a tiros pela polícia em 28 de março. Resul-
tado: vários feridos e um morto, o secundarista Edson Luís de Lima Souto.
O corpo foi levado para a Assembleia Legislativa. Compareceram ao enterro
milhares de pessoas, enquanto no resto do país houve passeatas de protesto.
Numa delas, em Goiânia, a repressão policial matou mais um estudante.
Em abril e maio, ocorreram novas manifestações públicas, mas os estu-
dantes em geral recolheram-se no interior das faculdades, para refazer forças.
Enquanto isso, nos sindicatos de trabalhadores, esboçavam-se movimentos de
contestação, dos mais moderados aos mais radicais. Em abril, estes últimos li-
deraram uma greve em Contagem, cidade industrial próxima a Belo Ho-
rizonte: abalado pelo surgimento inesperado do movimento operário, o gover-
no fez concessões. Já os setores mais moderados constituíram o Movimento
Intersindical Antiarrocho (MIA), logo abortado. A entidade chegou a convi-
dar o governador de São Paulo, Abreu Sodré, para o comício de 1° de Maio na
Praça da Sé. Esperançoso de conseguir algum respaldo popular para seu pro-
jeto de vir a tornar-se presidente da República, indicado pelo regime, Sodré
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1 9 6 8 : R E B E L I Õ E S E U T O P I A S
compareceu ao ato. Arrependeu-se: grupos operários de Osasco e do ABC, es-
tudantes e militantes da nova esquerda resolveram expulsar do palanque o go-
vernador e os dirigentes sindicais considerados pelegos, que tiveram de refu-
giar-se na Catedral. Depois de queimar o palanque, a pequena multidão de re-
voltosos saiu em passeata, gritando: "Só a luta armada derruba a ditadura."
Em junho, o movimento estudantil ganharia novamente as ruas, atingin-
do seu ápice em todo o país. Ocorriam greves, ocupações de faculdades, pas-
seatas etc. Os estudantes exploravam as divergências na cúpula do regime,
indecisa entre a abertura e o fechamento político nacional. O palco principal
era o Rio de Janeiro, onde os estudantes conseguiam adesão popular a suas
manifestações: no dia 19 de junho, mais de cem pessoas foram presas após
sete horas de enfrentamento nas ruas; no dia 21, as cenas repetiram-se, ainda
mais agravadas, com quatro mortos, dezenas de feridos e centenas de presos
durante a sexta-feira sangrenta. No dia 22, ocorreu a primeira de uma série
de ocupações de escolas pelo país afora, na tradicional Faculdade de Direito
de São Paulo, logo seguida pela Faculdade de Filosofia. Sucediam-se protes-
tos, manifestações, ocupações e passeatas também em Belo Horizonte,
Curitiba, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, João Pessoa,
Florianópolis, Natal, Belém, Vitória, São Luís e outros centros universitários.
No dia 26 de junho, teve lugar a Passeata dos Cem Mil, em que estudan-
tes, intelectuais, artistas, religiosos e populares tomaram as ruas do Rio de
Janeiro para protestar contra a repressão policial às manifestações e contra a
ditadura. Dada a pressão da opinião pública, o governo não reprimiu a pas-
seata, na qual foi escolhida uma comissão ampla para iniciar um diálogo
com o governo, que não prosperou. O movimento estudantil entrava num
impasse: as autoridades não faziam concessões e intensificavam a repressão.
Paralelamente, uma organização paramilitar de extrema direita, o Comando
de Caça aos Comunistas (CCC), composto por estudantes e policiais, reali-
zava uma série de atentados terroristas.
Em julho, operários fizeram uma greve em Osasco, cidade da Grande
São Paulo. Na época, Osasco foi chamada "a Meca das esquerdas", devido
à atração exercida pela combatividade do Sindicato dos Metalúrgicos — em
contraste com a mobilização operária escassa em quase todo o país. José
Ibrahim, presidente do Sindicato, e os principais líderes do movimento eram
também estudantes, muito influenciados pelo exemplo da revolução cubana.
Decidido a não fazer mais concessões, o governo reprimiu duramente a
greve. A maioria de seus líderes caiu na clandestinidade; os que ainda não
eram militantes de organizações de esquerda passaram a sê-lo.
1 5 1
O S É C U L O XX
Em 3 de agosto de 1968, foi preso o principal líder estudantil carioca,
Vladimir Palmeira. No dia 29, a Universidade de Brasília foi violentamente
invadida pela polícia. O número de passeatas e de participantes ia diminuin-
do drasticamente. Em 3 de outubro, morreu um estudante na Faculdade de
Filosofia da USP, em ataque de estudantes de direita abrigados na Univer-
sidade. Mackenzie, na rua Maria Antônia, em São Paulo. Nos dias seguintes,
houve passeatas e choques com a polícia. Esta, no dia 15 de outubro, des-
mantelou o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna,
prendendo todos os presentes, cerca de 700 universitários. Era o fim do mo-
vimento estudantil de 1968. Muitos de seus integrantes passariam a concen-
trar suas atividades na militância política clandestina contra a ditadura, em
organizações de esquerda — algumas delas já começavam a fazer uma ou
outra ação armada em 1968.
A contestação radical à ordem estabelecida difundia-se socialmente na
música popular, na literatura, no teatro, no cinema e nas artes plásticas.
Romances como Quarup, de António Callado; filmes como Terra em transe,
de Glauber Rocha, e Os fuzis, de Ruy Guerra, entre outros do Cinema Novo;
peças encenadas no Teatro de Arena e no Oficina; canções como Pra não dizer
que não falei das flores (Caminhando), de Geraldo Vandré, Procissão, de
Gilberto Gil, Soy loco por ti, América, de Capinam e Gil, e outras de compo-
sitores como Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento
e seus parceiros; as exposições de artes plásticas, caso da Nova Objetividade
Brasileira, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; enfim, inúmeras
manifestações culturais diferenciadas, entre 1964 e 1968, cantavam em verso
e prosa a esperada revolução brasileira — com base principalmente na ação
das massas populares, em cujas lutasa intelectualidade de esquerda estaria or-
ganicamente engajada.
Em 1968, os setores artísticos críticos da ordem estabelecida estavam di-
vididos, grosso modo, em dois grandes campos: o dos nacionalistas e o dos
vanguardistas. Os primeiros procuravam usar uma linguagem autenticamen-
te brasileira, na luta pela afirmação de uma identidade nacional-popular que
seria, no limite, socialista. Já os vanguardistas — capitaneados pelo movi-
mento tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil — criticavam o nacio-
nal-popular, buscando sintonizar-se com as vanguardas europeia e america-
na, particularmente com a contracultura, incorporando-as criativamente à
cultura brasileira. Apesar das divergências e das rivalidades entre eles, os ar-
tistas engajados nos dois campos viriam a sofrer perseguições, censura a suas
obras e até mesmo prisão e exílio.
1 5 2
1 9 6 8 : R E B E L I Õ E S E U T O P I A S
O ano de 1968 encerrou-se no Brasil sob o signo da repressão: em 13 de
dezembro, o regime civil-militar baixara o Ato Institucional número 5 (AI-
5), conhecido como "o golpe dentro do golpe". Com ele, os setores militares
mais direitistas oficializaram o terrorismo de Estado, que passaria a deixar
de lado quaisquer pruridos liberais, até meados dos anos 70. Agravava-se o
caráter ditatorial do governo, que colocou em recesso o Congresso Nacional
e as Assembleias Legislativas estaduais, passando a ter plenos poderes para:
cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos dos cidadãos, demitir
ou aposentar juizes e outros funcionários públicos, suspender o habeas cor-
pus em crimes contra a segurança nacional, legislar por decreto, julgar cri-
mes políticos em tribunais militares, entre outras medidas autoritárias.
Paralelamente, nos porões do regime, generalizava-se o uso da tortura, do as-
sassinato e de outros desmandos. Tudo em nome da segurança nacional, tida
como indispensável para o desenvolvimento do posteriormente denominado
milagre brasileiro na economia.
Com o AI-5, foram presos, cassados, torturados, mortos ou forçados ao
exílio inúmeros estudantes, intelectuais, políticos e outros oposicionistas. O
regime instituiu rígida censura a todos os meios de comunicação e manifesta-
ções artísticas, colocando um fim à agitação política e cultural do período.
Não seria tolerada qualquer oposição ao governo. O ano rebelde de 1968
seria sucedido por anos de chumbo.
OUTROS 1968s
1968 foi um ano de agitação e protesto em países do mundo todo: México,
Itália, Alemanha, Japão, Egito, Senegal, Suécia, Bélgica, Holanda, Inglaterra
etc. Para dedicar algumas palavras a mais à América Latina, vale destacar o
movimento estudantil do México.
De 26 de julho a 2 de outubro de 1968, o México viveria dias de protes-
tos, passeatas, repressão e luto nas ruas, tomadas por estudantes e professo-
res. Eles desafiavam o poder do Partido Revolucionário Institucionalizado
(PRI), condutor de um sistema político autoritário, fechado e corrupto, vi-
gente há décadas. Setores das classes médias opositoras do regime conse-
guiam conviver com ele, em parte, pela autonomia concedida pelo governo à
maior universidade do país — a Universidade Autónoma do México (Unam),
escola pública, respeitada como intocável templo do saber. Essa autonomia
1 5 3
O S É C U L O XX
foi ameaçada quando a polícia ocupou a Unam, no dia 18 de setembro de
1968, em resposta a protestos e a uma greve. Encabeçados pelo reitor, pro-
fessores, funcionários e estudantes saíram em defesa da universidade.
A partir daí, ocorreu nova série de atos públicos duramente reprimidos,
que deixaram vários mortos e feridos. O mais trágico deles foi o de 2 de ou-
tubro. Às vésperas dos Jogos Olímpicos do México, sequioso por garantir a
lei e a ordem para o evento, o governo — articulado com a Central de
Inteligência Americana (CIA) — mandou a polícia abrir fogo contra os ma-
nifestantes na Praça das Três Culturas, Tlatelolco. No massacre, morreram
centenas de pessoas, cerca de 1,5 mil foram presas, outras tiveram de se es-
conder. Com isso, o governo logrou desarticular o movimento universitário.
No âmbito da América Latina, também é essencial observar que 1968 foi
um ano importante para a mudança de postura de setores significativos de
uma das instituições mais importantes: a Igreja Católica. Em agosto, foi rea-
lizada em Medellín, na Colômbia, a Conferência Episcopal Latino-America-
na (Ceiam), na qual se esboçaram a opção preferencial pelos pobres e a defe-
sa dos direitos humanos, constantemente violados pelas ditaduras que domi-
navam a região.
Não foi, contudo, apenas nos países capitalistas que tiveram lugar as ma-
nifestações de 1968. Também em sociedades ditas socialistas — como
Polónia, lugoslávia e Tchecoslováquia — estudantes e outros setores sociais
ganharam as ruas para expressar sua insatisfação com regimes burocratiza-
dos e autoritários, com raízes stalinistas, muito distantes das promessas li-
bertárias da tradição de pensamento marxista, inclusive da experiência dos
primórdios da revolução soviética.
Um dos eventos mais significativos de 1968 foi a Primavera de Praga. Em
janeiro, o reformador Alexander Dubcek foi escolhido primeiro-secretário do
Partido Comunista (PC), o cargo mais alto na direção do país. Iniciava-se a
breve experiência que eles chamaram de socialismo democrático, ou "socialis-
mo de face humana". O planejamento económico ficava a cargo de Ota Sik,
que inovava, ao flexibilizar o controle económico estatal centralizado. De ja-
neiro a agosto de 1968, a Tchecoslováquia conheceu extraordinário floresci-
mento cultural e político. Abriu-se espaço para a discussão política ampla,
houve descentralização das decisões, criaram-se conselhos de trabalhadores, a
história recente do país era debatida e as artes ganharam impulso.
O estopim do processo que conduziu à Primavera de Praga foi a posição
assumida, em julho de 1967, por alguns autores presentes ao 4° Congresso
da União dos Escritores Tchecoslovacos, que reivindicavam o fim da censu-
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1 9 6 8 : R E B E L I Õ E S E U T O P I A S
rã, novas relações entre política e cultura, entre os cidadãos e o Estado. A in-
satisfação nos meios intelectualizados foi-se avolumando, inclusive na dire-
ção do PC, que afastou o até então todo-poderoso Novotny. A luta contra as
velhas estruturas ganhou a adesão sobretudo dos jovens, afinados com a
onda juvenil libertária internacional.
Sentindo-se ameaçadas pelos ventos liberalizantes, as burocracias no
poder nos demais países do Leste europeu trataram de reprimir o mau exem-
plo: em 20 de agosto de 1968, tropas do Pacto de Varsóvia — lideradas pelas
forças armadas da União Soviética — invadiram a Tchecoslováquia para re-
colocar no poder gente de sua confiança. Houve protestos e escaramuças que
deixaram cerca de 30 mortos e centenas de feridos ao longo da ocupação de
um mês. Contudo, predominou a resistência passiva, estampada, por exem-
plo, em frases criativas pichadas nos muros de Praga, com espírito irónico
próximo daquele de maio de 68 em Paris: "circo russo na cidade: não ali-
mentem os animais"; "Ivan, pense na tensão sexual de Lena"; "grande expo-
sição de armas soviéticas na praça Venceslau: entrada franca, saída difícil".
O exército tchecoslovaco ficou nos quartéis, devidamente instruído por
generais locais, inimigos das reformas. A população saiu às ruas para protes-
tar, houve uma greve geral, o PC realizou um congresso clandestino, mas os in-
vasores mantiveram o controle da situação. Após instalar no comando do PC
homens de sua confiança, os invasores deixaram o país; então, caberia à polí-
cia política da própria Tchecoslováquia fazer o trabalho sujo da repressão.
Talvez tenha sido a última oportunidade perdida para reformar o socialismo
real: os documentos da época atestam que a ideologia do movimento tchecos-
lovaco era de avanço socialista, não de retorno ao capitalismo. O socialismo
real no Leste europeu, apodrecido em suas estruturas internas, viria a ruir
como um castelo de cartas, mais de vinte anos depois, em outra conjunturain-
ternacional, dando lugar ao retorno do capitalismo, cujos novos capitães de
empresa seriam os mafiosos que operavam no câmbio negro durante o socia-
lismo e os próprios burocratas que tanto haviam defendido o comunismo...
CONCLUSÃO
Em 1968, o mundo já seria uma aldeia global, na expressão célebre da época,
do sociólogo canadense Marshall McLuhan, que anunciava o fim da era da
imprensa escrita e sua substituição pela era da comunicação audiovisual ime-
155
O S É C U L O XX
diata em todo o mundo. A rápida difusão das notícias pela aldeia global po-
de ser considerada um dos aspectos para compreender a generalização inter-
nacional de eventos como os protestos estudantis de Paris ou a Guerra do
Vietnã. A influência da televisão na França, no Brasil e em outros países,
seria maior nos anos 70, mas já era considerável no fim da década de 1960.
Nos EUA, ela já era enorme em 1968.
Contudo, se os meios de comunicação de massa tiveram um papel consi-
derável para informar os agentes sociais das agitações que se iam sucedendo
em todas as partes do mundo, isso não significa que os protestos se espalha-
ram como reflexo do fenómeno da televisão, ou como mera imitação, mas
porque estavam dadas as condições para que as notícias recebidas tivessem
repercussão e as informações incorporadas colaborassem na construção de
novas ações criativas, política e culturalmente.
Algumas condições materiais eram compartilhadas pelas diversas socie-
dades em que houve o florescimento cultural e político de 1968 — além das
especificidades locais. Essas condições eram mais significativas nos países
centrais, mas importantes também em países em desenvolvimento, como o
México e o Brasil: crescente urbanização, consolidação de modos de vida e
cultura das metrópoles, aumento quantitativo das classes médias, acesso cres-
cente ao ensino superior, peso dos jovens na composição etária da população,
incapacidade do poder constituído para representar sociedades que se reno-
vavam, avanço tecnológico (por vezes ao alcance das pessoas comuns, que
passaram a ter cada vez mais acesso, por exemplo, a eletrodomésticos, nota-
damente aparelhos de televisão, além de outros bens, como a pílula anticon-
cepcional — o que possibilitaria mudanças consideráveis de comportamento)
etc. Essas condições materiais não explicam por si sós as ondas de rebeldia e
revolução, apenas abriram possibilidades para que frutificassem ações políti-
cas e culturais inovadoras, buscando colocar a imaginação no poder.
Foram características dos movimentos libertários de 1968 no mundo
todo: inserção numa conjuntura internacional de prosperidade económica;
crise no sistema escolar; ascensão da ética da revolta e da revolução; busca
do alargamento dos sistemas de participação política, cada vez mais desacre-
ditados; simpatia pelas propostas revolucionárias alternativas ao marxismo
soviético; recusa de guerras coloniais ou imperialistas; negação da sociedade
de consumo; aproximação entre arte e política; uso de recursos de desobe-
diência civil; ânsia de libertação pessoal das estruturas do sistema (capitalis-
ta ou comunista); mudanças comportamentais; vinculação estreita entre
1 5 6
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lutas sociais amplas e interesses imediatos das pessoas; aparecimento de as-
pectos precursores do pacifismo, da ecologia, da antipsiquiatria, do feminis-
mo, de movimentos de homossexuais, de minorias étnicas e outros que vi-
riam a desenvolver-se nos anos seguintes.
Já se disse, com propriedade: o ano de 1968 não deve ser mitificado, mas
sua importância não pode tampouco ser minimizada. As contestações de
1968 marcaram a História contemporânea. A profundidade e a extensão des-
sas marcas são até hoje objeto de muita discussão. Talvez o fascínio de 1968
venha de sua ambiguidade na promessa de construir formas de futuro reno-
vadas, quer de um novo tipo de capitalismo, quer de socialismo. No entanto,
o peso do passado viria a provar-se muito maior do que os militantes de 1968
supunham — tão grande que muitos militantes da época viriam a passar para
o campo conservador vitorioso, chegando até mesmo a ocupar cargos como
os de primeiros-ministros e presidentes da República de governos que adotam
medidas neoliberais em todo o mundo de hoje. Em que medida as promessas
libertárias de 1968 foram, não foram, estão sendo ou ainda poderão ser cum-
pridas? As interrogações sobre 1968 permanecem em aberto.
FRASES PICHADAS NOS MUROS FRANCESES EM MAIO DE 1968
"É proibido proibir"; "a imaginação no poder"; "sejamos realistas, peçamos
o impossível"; "a mercadoria, nós a queimaremos"; "a barricada fecha a rua
mas abre o caminho"; "a palavra é um coquetel molotov"; "a humanidade
nunca será feliz até o último capitalista ser enforcado nas tripas do último
burocrata"; "o homem [...] é violento quando oprimido, doce quando é
livre"; "nosso modernismo não passa de uma modernização da polícia";
"limpeza = repressão"; "as fronteiras que se danem"; "corra, camarada, o
velho mundo está atrás de você"; "a felicidade é uma ideia nova na Escola de
Ciência Política"; "não mude de emprego, mude o emprego de sua vida";
"você está sendo intoxicado: rádio, televisão, jornal, mentira"; "estamos
tranquilos: 2 + 2 não são mais 4"; "a liberdade do outro amplia a minha ao
infinito" (frase original do anarquista clássico, Bakunin); "abrir as portas
dos asilos, das prisões e outros liceus"; "acho que meus desejos são realida-
de porque acredito na realidade de meus desejos"; "faça amor, não faça guer-
ra"; "inventem novas perversões sexuais"; "aquele que fala de revolução
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O S É C U L O XX
sem mudar a vida cotidiana tem na boca um cadáver"; "quanto mais eu faço
amor, mais eu tenho vontade de fazer a revolução; quanto mais eu faço a re-
volução, mais eu tenho vontade de fazer amor"; "o sexo da noite sorriu ao
olho unânime da revolução"; "levemos a revolução a sério, mas não nos le-
vemos a sério"; "revolução, eu te amo"; "a morte é necessariamente uma
contra-revolução ".
1 9 6 8 : R E B E L I Õ E S E U T O P I A S
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Ridenti, Marcelo S. 1993. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo, ed. Unesp/FA-
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158 159
L. Brejnev entre alunos
das escolas primárias: o
apogeu do socialismo
realmente existente
Homenagem tradicional:
recém-casados no
mausoléu de Lenin
O mundo socialista: expansão e apogeu Descolonizacão e lutas de libertação nacional
Monumento a luri
Gagarin, herói soviético
primeiro homem a ir
ao espaço
O urso Panda vence o Tio
Sam: cartaz celebrando os
Jogos Olímpicos de
Moscou, em 1980,
boicotados pelos EUA
A descolonizaçáo dos Estados novos, 1945-1990
A descolonização no sudeste asiático e na África
inoiogia aas
descolonizações no
Sudeste Asiático e na África
ORIENTE MÉDIO
lèmen do Norte
Arábia Saudita
Iraque
Jordânia (Transjordània)
LJbia, Síria
Israel (divisão da Palestina)
Alguns arquipélagos e ilhas - B
a Guiana -, no Caribe e no
Pacifico, não são independentes.
Bahrern l 1971
Émirados Àratws J
A descolonização entre 1945 e 1990
Ernesto Che Guevara:
símbolo de uma revolução
autónoma e libertária
A descotonização no mundo pós-Segunda Guerra Mundial:
África, Ásia e ex-União Soviética
A vitória da Frente
Sandinista de Libertação
Nacional (FSLN), em
1979: última vaga da
onda revolucionária dos
anos 1950-1960
í
Os sucessivos mapas de Israel: da formação do Estado aos
dias atuais (1947-1999)
As disputas entre israelenses e palestinos: as terras
declaradas governamentais pelo Estado de Israel
e o mapa da autonomia palestina
- FlPOCHMCb, MOfl CYflbBA
B TBOMX PYKAXI
POCCHfl OBJBÁMiO
B03POPCS!
EJlbtLHH
A Rússia gnta para os
russos: "Acordem, minha
sorte está nas vossas
mãos!" Cartaz feito para
as eleições de 1991
O estranho ano que
subverteu o mundo
1968: paz e amor
contra a guerra, flores
contra baionetas
Cartaz da campanha
eleitoral de B. leltsin,
em 1991: "A Rússia
fatalmente renascerá!
Para presidente, o
deputado do povo!"
1968 e as promessas de
emancipação: a dança, as
drogas, o sexo e o rock
A condecoração do
carcereiro: S. Evstigneev,
chefe de campos de
rnnrpntrarãn annc 1Q80
O desamparo dos
desamparados:
o comandante da mentira
(quadro de Piotr
Belov, 1986)
A nova russa, numa nova Rússia A longa luta das nacionalidades:
identidade, autonomia, independência
A questão nacional no mundo contemporâneo
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A URSS: um império que explodiu
Globalização e nova ordem internacional
Num mundo cada vez mais integrado,
o crescimento das desigualdades
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A sociedade em rede: o crescimento ininterrupto da teia
A teia mídiãtica: a família
em torno da televisão
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l[M)OOa20.000e militarmente com a maior potência mun-
dial — os EUA.
Mais tarde, as demais economias socialistas — na Europa Central, na
164
C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O D O S O C I A L I S M O
Ásia Oriental, no Caribe — apresentariam, sobretudo nos anos imediata-
mente posteriores à conquista revolucionária do poder, estas mesmas carac-
terísticas virtuosas, atribuídas por muitos à estatização da economia e ao
planejamento centralizado — grande dinamismo económico e invulgar capa-
cidade de automodernização.
Ora, a partir dos anos 70, justamente, começaram a surgir novos e im-
previstos indícios, como se estivesse havendo uma espécie de inversão de
temperatura e pressão. A princípio, de uma forma quase que sub-reptícia,
apenas do conhecimento dos serviços de espionagem e de contra-espionagem
ou de alguns especialistas refinados. Depois, cada vez mais claramente, apa-
recendo em conferências académicas, transbordando para os veículos de co-
municação de massa: os países socialistas já não estavam mais conseguindo
fazer avançar a economia nos ritmos anteriores. O mais grave é que o pro-
cesso não se referia apenas a índices quantitativos — que declinavam de
forma visível, embora ainda fossem positivos — mas, principalmente, a índi-
ces qualitativos — relativos aos produtos, aos procedimentos tecnológicos
adotados, aos métodos de organização da gestão administrativa e do traba-
lho. Enquanto os grandes países capitalistas, sobretudo os EUA, até como
resposta à crise económica dos anos 70, ingressavam firmemente numa nova
revolução científico-tecnológica, descobrindo novas fronteiras económicas
— a informática, as telecomunicações, a robótica, a biotecnologia, a produ-
ção de novos materiais —, transformando a produção e a sociedade, anun-
ciando mutações civilizatórias (Dreifuss, 1997), os Estados socialistas pare-
ciam incapazes de sequer acompanhar o processo.
As contradições — alguns já falavam em impasses — não se limitavam à
economia. Cada vez se tornava mais difícil manter padrões centralistas e di-
tatoriais de dominação — dos partidos comunistas e/ou de líderes carismáti-
cos — sobre sociedades crescentemente urbanizadas, instruídas e informadas
(Lewin, 1988). O discurso igualitário transmudava-se em retórica vazia em
face das desigualdades gritantes que separavam os membros do partido e das
elites políticas e económicas e o resto da população. Instaurava-se uma pro-
funda crise de referências, o desinteresse, a apatia e o cinismo num contexto
de defasagem entre valores proclamados — nos quais as próprias elites, visi-
velmente, já não acreditavam mais — e valores reconhecidos e praticados.
Mesmo entre os países socialistas, para além dos conflitos ideológicos,
políticos e armados, já referidos, reproduziam-se, na normalidade de suas re-
lações, mecanismos de subordinação estranhos à teoria do internacionalismo
165
O S É C U L O XX
proletário e típicos dos laços estabelecidos entre potências capitalistas e paí-
ses ditos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.
Assim, o mundo socialista surpreendeu-se em profunda crise interna,
agravada pelas pressões agressivas do mundo capitalista, animado por seus
êxitos económicos e pela renascente onda neoliberal, nucleada pela Ingla-
terra de Margaret Thatcher e pelos EUA de Ronald Reagan.
Tal é o contexto em que se desdobram as tentativas de reforma empreen-
didas pelo socialismo contemporâneo que passaremos agora a narrar: a as-
censão de M. Gorbachev e a política da perestroika (reestruturação) soviéti-
ca; os estremecimentos e a derrocada do socialismo na Europa Central e, um
pouco mais tarde, da própria URSS, a política das Quatro Modernizações na
China e, finalmente, as tentativas desesperadas de Cuba e demais periferias
do mundo socialista, incluindo-se aí o eurocomunismo.
A URSS E A PERESTROIKA
A eleição de M. Gorbachev para o cargo de secretário-geral do Partido
Comunista da União Soviética, em março de 1985, exprimiu um consenso ge-
nérico favorável a reformas, embora ainda não houvesse um programa clara-
mente definido em relação a metas, prazos e ritmos. Uma coisa era certa: a
URSS não poderia mais continuar sendo governada por aquela gerontocracia
que se havia constituído nas altas cúpulas do Estado e do partido e da qual
eram genuínos representantes os antecessores imediatos do novo secretário-ge-
ral: L. Brejnev, I. Andropov e K. Chernenko, aptos, no melhor dos casos, ape-
nas a tocar os negócios correntes, mas incapazes de enfrentar os grandes desa-
fios, internos e externos, colocados pelos sinais críticos que se multiplicavam.
M. Gorbachev surpreenderia o mundo com propostas inesperadas, so-
bretudo em relação à corrida armamentista: moratória unilateral dos testes
nucleares, redução de 50% dos armamentos estratégicos, diminuição dos
mísseis intermediários, destruição dos arsenais nucleares até o ano 2000,
controles estritos sobre as armas convencionais. Por outro lado, advogava a
desativação dos conflitos regionais, inclusive levantando, sem constrangi-
mentos, a delicada questão do Afeganistão.
No mundo capitalista houve espanto e incredulidade. Sabia-se que a
URSS estava disposta a fazer concessões para se aliviar do chamado fardo
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C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O D O S O C I A L I S M O
militar, que era de seu interesse concentrar recursos no atendimento das de-
mandas de sua população cada vez mais urbanizada e sofisticada. Mas não
se esperava tanta ousadia. Alguns críticos, inclusive, denunciariam
Gorbachev como um perigoso farsante, prometendo o que não tinha condi-
ções de cumprir. As comparações com N. Kruchev eram inevitáveis. Também
este último pretendera inovar, mas acabara preso nas malhas do sistema e li-
quidado por ele.
Entretanto, e rapidamente, o líder soviético afirmou-se na cena interna-
cional, ganhando simpatias, quebrando resistências e preconceitos, conquis-
tando, com suas propostas e seu charme, a atenção dos líderes e das popula-
ções dos principais países capitalistas, assim como do resto do mundo.
No plano interno, porém, prevaleciam os apelos tradicionais à discipli-
na, ao trabalho e à necessidade de se conseguir um novo equilíbrio entre o
pesado centralismo estatal e a autonomia das empresas. O mote do novo go-
verno, num primeiro momento, resumia-se numa palavra: acelerar (uskorie-
nie). Acelerar a produção (Féron, 1995), romper a pasmaceira, superar a es-
tagnação, termo inventado para designar os regimes anteriores e a era de L.
Brejnev, em particular.
Em outubro de 1985 apareceu uma nova palavra, que se tornaria mun-
dialmente conhecida: perestroika, ou seja, recolocar as coisas em construção,
reconstruir, reestruturar. Tratava-se, portanto, de algo bem mais profundo
do que apenas pôr o pé no acelerador, era preciso considerar fatores de or-
dens diversas, estruturais, imaginar reformas que pusessem em questão as es-
truturas económicas do país.
O livro escrito por M. Gorbachev, com o título, justamente, de
Perestroika (Gorbachev, 1987), virou campeão de vendas na URSS e em todo
o mundo. Fazia uma análise sem concessões dos males mais evidentes da eco-
nomia soviética: desperdícios, negligência ante as demandas dos consumido-
res, preocupação exagerada com a quantidade e subestimação de critérios
qualitativos, centralismo excessivo. E apontava para novos horizontes: uma
sociedade produtiva, autónoma, harmónica, comprometida com a paz e a
prosperidade.
A questão era saber como transitar do socialismo realmente existente
para a nova sociedade que se almejava construir. Do homem velho, empare-
dado nos métodos e conceitos superados, para o Homem Novo, portador de
todas as virtudes. Em suma, como sair do Presente para o Futuro.
O XXVII Congresso do Partido Comunista, reunido em fevereiro de
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O S É C U L O XX C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O D O S O C I A L I S M O
1986, quase um ano depois da eleição de M. Gorbachev, pouco avançou
neste sentido, indicando a existência de indecisões, dúvidas, divergências.
Enquanto uns preferiam denunciar as carências do sistema,mas reconhecen-
do os aspectos positivos, outros, ao contrário, defendiam as conquistas, res-
salvando a existência de contradições. No conjunto, porém, os debates per-
maneciam num plano geral, não tendo sido possível definir programas con-
cretos de enfrentamento e superação dos problemas. Todos eram a favor de
acelerar (uskorienie). Ninguém era contra reestruturar (perestroika). Mas as
coisas não saíam do lugar. Como se houvesse ali resistências que não ousa-
vam aparecer claramente.
Houve então o desastre da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Pela
primeira vez, desde a revolução pelo alto em fins dos anos 20, a URSS expu-
nha de modo tão evidente suas feridas. Para os soviéticos e para todo o
mundo. Os partidários das reformas utilizaram-se então do acontecimento
para reforçar as críticas às mazelas do sistema. E fizeram surgir um outro
termo russo, que também daria a volta ao mundo: glasnost, ou seja, publici-
dade dos atos de interesse público ou, numa outra versão, transparência. Se
tivesse havido transparência na gestão da usina, argumentaram os reformis-
tas, o desastre teria sido certamente evitado.
As reformas pareceram ganhar alento. Em novembro de 1986, aprovou-
se uma lei sobre o trabalho individual privado. Em maio de 1987, um novo
estatuto para as cooperativas. Em ambas as iniciativas, a intenção de auto-
nomizar as atividades económicas, enfraquecendo os controles centralistas
tradicionais. Mas os receios ainda eram muito grandes, de modo que a nova
legislação veio marcada por uma série de restrições e sanções, desestimulan-
do, na prática, aquilo que se queria, na teoria, encorajar. Em meados de
1988, não havia mais do que 370 mil pessoas legalmente habilitadas para o
trabalho individual, autónomo, e mais 246 mil nas cerca de 20 mil coopera-
tivas em funcionamento. Para um país de 280 milhões de habitantes, não
fazia muita diferença.
Em junho de 1987, mais um avanço formal: aprovou-se uma lei sobre a
autonomia da empresa, para vigorar a partir de janeiro do ano seguinte. M.
Gorbachev dizia que era preciso substituir métodos essencialmente adminis-
trativos por métodos essencialmente económicos, conferindo às empresas
autonomia para estabelecer contratos com fornecedores e clientes, admitir e
demitir funcionários, estabelecer metas e beneficiar-se com os ganhos obti-
dos. O Plano Quinquenal tenderia a assumir caráter indicativo, limitando-se
a fixar índices de produtividade a serem considerados pelas empresas.
Entretanto, como pretender que as empresas pudessem se tornar autóno-
mas sem haver um sistema bancário definido para apoiá-las, sem uma refor-
ma de preços, até então fixados arbitrária e administrativamente, sem uma le-
gislação prevendo — e regulando — a demissão dos trabalhadores, sem lei de
falências? Ora, nada disso fora debatido ou votado, de sorte que a autonomia
das empresas ficava suspensa no ar, expressão mais de um desejo, do que de
uma política, sem condições de fixar-se na realidade. E assim a economia não
se reestruturava.
Mas a glasnost fazia progressos. Aproveitando-se das brechas abertas, e
das margens de liberdade garantidas, começou um processo impiedoso de
críticas ao sistema. Nada parecia escapar àquela sociedade subitamente des-
perta. O arco das denúncias não podia ser mais amplo. O meio ambiente de-
predado, comprometendo a atual e as futuras gerações; o alcoolismo e o con-
sumo de drogas em geral; a má qualidade dos produtos oferecidos aos con-
sumidores, evidenciando a subestimação dos interesses dos cidadãos; os mé-
todos burocráticos e autoritários de gestão e administração; as penosas con-
dições das mulheres, obrigadas a cumprir estafantes jornadas de trabalho
fora do lar, e ainda a desincumbir-se do trabalho doméstico (sem o auxílio
dos eletrodomésticos, caros e de baixa qualidade), e aturar as intermináveis
filas e o machismo renitente do homem soviético. Como se não bastasse,
ainda eram carentes de educação sexual e/ou de suficiente disponibilidade de
métodos anticoncepcionais. Entre outras estatísticas alarmantes, citava-se o
fato de que a URSS, com o equivalente a 5 ou 6% da população mundial, re-
gistrava 25% dos abortos no mundo, segundo a Organização Mundial da
Saúde, duas a quatro vezes mais do que nos demais países socialistas, seis a
dez vezes mais do que nos países capitalistas. Nem a educação e a saúde, con-
sideradas até então setores modelares do socialismo soviético, eram poupa-
das, acusadas de equipamento obsoleto e pessoal mal treinado. Sem falar nas
desigualdades irritantes que privilegiavam os comunistas, sobretudo os diri-
gentes, estes seres mais iguais entre os iguais (Orwell, 1984).
Finalmente, mas não menos importante, a corrupção, invadindo e trans-
bordando por todos os poros da sociedade.
O escândalo do tráfico do algodão no Usbequistão, entre outros, chocou
a sociedade: 4 milhões de toneladas em cerca de dez anos haviam sido desvia-
dos. A fraude envolvia altas autoridades, inclusive em Moscou, mas implica-
va milhares de pessoas. Não havia como colocar toda aquela gente na cadeia.
Na verdade, tratava-se de uma prática largamente disseminada. Para escapar
168 169
;
O S É C U L O XX
dos rigores e da ineficácia do centralismo excessivo, constituíam-se na URSS
redes autónomas de poder para impulsionar atividades, negócios, autoprote-
ção, como se fossem feudos, embora o conceito fosse impróprio. Na própria,
cúpula do poder não existira durante anos o grupo (que as más línguas cha-
mavam de máfia) de Dniepropetrovsk (formado em torno da construção da
grande hidrelétrica do mesmo nome), cujo chefe era o próprio L. Brejnev?
Voltara também com grande ênfase o debate sobre o stalinismo, agora não
mais restrito, como nos tempos de N. Kruchev, aos anos 30 e ao âmbito do
partido. Questionava-se agora a coletivização forçada. A questão dos campos
de trabalho. As antigas dissidências, os líderes apagados da memória como
Bukharin e Zinoviev. O próprio Trotski, figura maldita, emergia do passado.
Solicitava-se, agora, sua reinclusão no panteão das lideranças revolucionárias.
Um grupo de jornais e revistas, entre os quais se destacavam Ogoniok (V.
Korotitch) e Notícias de Moscou (E. lakovlev), abria espaço para denúncias,
críticas e artigos heréticos. As edições e reedições esgotavam-se, disputadas
nas ruas. Havia uma atmosfera de ajuste de contas. Uma ânsia de tabula ra-
sa, como um messianismo às avessas. Em parte alguma, argumentava-se,
houvera tantos desastres e tanta ignomínia como na URSS. Os chefes, tira-
nos. Os génios, imbecis. O paraíso socialista, um inferno. O Homem Novo,
uma farsa.
A resistência começou a se explicitar, rejeitando com violência as críticas,
numa reação de ex-combatentes. O receio da mudança: aonde aquilo tudo
iria parar? Afinal, tratava-se de renovar ou de destruir o socialismo? Todos
ainda se diziam favoráveis à perestroika e à glasnost, mas o que significavam
exatamente aquelas palavras?
Na alta cúpula, sob o fogo contraditório de reformistas (partidários de ra-
dicalizar a perestroika) e conservadores (receosos de que o processo pudesse
perder o rumo), instalava-se a dúvida. Duas reuniões do Comité Central, rea-
lizadas em junho e outubro de 1987, evidenciaram uma atmosfera de oscila-
ções. Na primeira, efetuaram-se mudanças importantes, reforçando as corren-
tes reformistas. Contudo, na segunda, demitiu-se B. Yeltsin, que dirigia então
o partido em Moscou e que se notabilizara na denúncia às resistências à pe-
restroika, convertendo-se, em função de sua ação e de seus discursos, numa
espécie de líder da corrente reformista. Nas duas reuniões, como se fosse um
pêndulo, dando no cravo e na ferradura, fortalecia-se, sempre, M. Gorbachev,
numa posição de liderança, distante de extremos considerados igualmente
equivocados. Internacionalmente, seu prestígio continuava alto, ascendendo,
170
C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O D O S O C I A L I S M O
consagrado como o The man of the year, da revista Time. Na URSS, porém,
avolumavam-se as contradições.
Convocou-se, então, no intuitode resolver os impasses, a XIX Confe-
rência Pan-Soviética do Partido Comunista. Congregando milhares de dele-
gados, eleitos num processo de grandes debates a respeito de teses previa-
mente publicadas, esperava-se que dali pudesse se constituir a requerida legi-
timidade democrática para fixar rumos e avançar na sua consecução.
Mais uma vez, fez-se o consenso sobre generalidades: críticas ao centra-
lismo, ao quantitativismo, ao autoritarismo, elogio da autonomia, dos crité-
rios qualitativos, da democracia. A principal decisão, contudo, foi a de...
convocar uma outra assembleia, a ser eleita por toda a sociedade, um Con-
gresso dos Deputados do Povo, formado por 2.250 eleitos. Eles debateriam
uma agenda e elegeriam um Soviete Supremo, com cerca de 500 deputados,
que, por sua vez, através do voto secreto, elegeria um presidente com amplos
poderes para implementar as deliberações tomadas.
Mudanças políticas importantes, sem dúvida. Na prática, o partido esta-
va passando à sociedade os poderes para eleger deputados que decidiriam o
rumo do país. O presidente a ser eleito não seria mais responsável perante o
partido, mas perante a assembleia que o elegera. No entanto, em termos de
programas concretos para fazer avançar a perestroika, salvo a legislação já
aprovada, de efeitos escassos, as coisas continuavam empacadas.
Seguiu-se a campanha para a eleição do Congresso. Os debates, acalora-
dos, contraditórios, públicos, mobilizaram intensamente uma sociedade
acostumada ao silêncio, mas que parecia tomar gosto por aquela agitação.
Nunca jornais e revistas venderam tanto suas edições, nem as emissões de
rádio e televisão foram tão ouvidas e vistas quanto naqueles meses do inver-
no de 1988-89. Todos os termas foram debatidos: desde questões relativas à
organização geral da sociedade, como, por exemplo, de que modo poderiam
ser combinadas as virtudes do mercado e do plano, até assuntos atinentes ao
cotidiano, como as questões do aborto, das drogas, dos hospitais, dos salá-
rios. M. Gorbachev aparecia em toda a parte, incentivando, suscitando o de-
bate e a crítica, visitando minas, fábricas e kolkhozes. Permanecia como o
grande líder do processo, galvanizando as vontades, consagrando-se. Tudo
aquilo começara em 1985, há quase quatro anos, mas, agora, finalmente,
havia a esperança de que as reformas, devidamente respaldadas por amplas
maiorias, se convertessem em realidade palpável.
Entretanto, certas dissonâncias começaram a surgir, formuladas, com
171
O S É C U L O XX
frequência, pelas pessoas comuns. Corria a anedota de que as pessoas, ao
abrirem a geladeira, não encontravam a perestroika. As filas aumentavam de
tamanho. Reapareceu o racionamento de alguns produtos, como a gasolina,
a manteiga, a carne e o açúcar. A colheita de cereais, em 1988, fora um fra-
casso, quase 20% a menos do que o patamar alcançado dez anos antes. Gor-
bachev responsabilizava o passado, naturalmente. Mas aquele passado esta-
va custando a passar. Afinal, a perestroika viera para melhorar ou para pio-
rar a vida das pessoas?
Uma outra catástrofe, um terremoto na Arménia, em dezembro de 1988,
uma espécie de novo Chernobyl, contribuiu para estimular as incertezas, evi-
denciando as carências técnicas, a precariedade do socorro, a falta de medi-
camentos, os erros grosseiros no planejamento da construção dos prédios. A
URSS, superpotência, mostrava, mais uma vez, suas chagas e elas pareciam,
estranhamente, com as dos países subdesenvolvidos.
Apesar de tudo, a participação nas eleições foi maciça. Contudo, os re-
sultados geraram apreciações diversas. De um lado, os partidários da acele-
ração das reformas foram vitoriosos nos grandes centros urbanos. B. Yeltsin,
por exemplo, embora tendo sido expurgado do Bureau Político em fins de
1987, teve quase 90% dos votos em Moscou. De outro lado, na URSS pro-
funda, em 25% das circunscrições, houve candidaturas únicas, embora a lei
facultasse múltiplos candidatos. Nas 17 regiões do Casaquistão, república
soviética da Ásia Central, os primeiros-secretários do partido foram candida-
tos únicos e, naturalmente, vencedores.
Um outro aspecto que se evidenciou no processo eleitoral: o reforço das
identidades nacionais, sobretudo nos chamados países bálticos (Lituânia,
Letónia e Estónia), onde se constituíram, e foram vitoriosas, as autodenomi-
nadas frentes populares, que já começavam a advogar a separação da URSS.
A questão nacional, largamente subestimada pelas elites dirigentes sovié-
ticas, tenderia, desde então, a se afirmar no centro da cena política.
O primeiro alarme soara em dezembro de 1986, no Casaquistão. A ten-
tativa, contrariando as tradições, de impor um russo como primeiro-secretá-
rio do partido desencadeara a cólera popular na capital do país, Alma-Ata,
obrigando Moscou a recuar. No ano seguinte, no centro do sistema, na pró-
pria Rússia, surgira uma organização ultranacionalista, Patniat (Memória).
Poucos meses depois, ainda em 1987, uma grande manifestação nacionalista
em Riga, capital da Letónia, reivindicou autonomia e respeito pela identida-
de do país. Ainda naquele ano, em Kiev, na Ucrânia, houve uma verdadeira
C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O D O S O C I A L I S M O
batalha campal entre russos e ucranianos. O estopim fora um banal jogo de
futebol, mas foi possível perceber a força dos ódios nacionais latejando.
Como se o vírus do nacionalismo estivesse à solta.
Em fevereiro de 1988, veio à luz o conflito entre arménios e azerbaijanos
em torno da região do Alto Karabach. Tratava-se de um território majorita-
riamente povoado de arménios encravado na República do Azerbaijão. O im-
bróglio fora criado ainda no período de Stalin. Ora, os arménios queixavam-
se de discriminação e de perseguições. E solicitavam a transferência do terri-
tório para a jurisdição da República da Arménia. No Azerbaijão, a popula-
ção sentiu-se ameaçada e reagiu com massacres (pogroms), a arma tradicio-
nal do nacionalismo exacerbado. Os arménios deram o troco e se instaurou
uma verdadeira guerra civil, que não foi possível debelar até o fim da URSS.
Assim, desenharam-se múltiplos focos de tensão. No Extremo Ocidente,
os países bálticos e a Moldávia. Em novembro de 1988, o Parlamento esto-
niano proclamou o primado das leis da república sobre as leis soviéticas. Em
fevereiro do ano seguinte, a Lituânia anunciou seu direito à autodetermina-
ção. No Cáucaso, as nacionalidades não paravam de se engalfinhar, suceden-
do-se grandes manifestações nacionalistas nas capitais da região. Numa
delas, em Tbilissi, na Geórgia, em abril de 1989, o exército soviético abriu
fogo contra os manifestantes, matando 16 pessoas. Na Ásia Central, a iden-
tidade muçulmana surgia das sombras. Até os ucranianos e bielo-russos, es-
tes últimos sem nenhuma tradição estatal nacional, formulavam programas
nacionalistas. Entre os próprios russos apareciam vozes pregando a ideia de
que talvez fosse o caso liquidar com aquele império, que cada um seguisse o
seu caminho.
Entretanto, o Congresso dos Deputados do Povo instalara-se. Grandes
maiorias aprovaram todas as reformas propostas por Gorbachev, elegendo-o
presidente do Parlamento com 94,35% dos votos. Todos os poderes lhe
foram concedidos. Aparentemente, contudo, as coisas não melhoravam. Em
julho, um amplo movimento grevista nas minas de carvão espalhou-se pela
Ucrânia. Durou duas semanas e estimulou uma série de outras manifestações
por toda a URSS. As prateleiras das lojas continuavam vazias. A escassez e as
filas, o racionamento e o mercado negro atormentavam o cotidiano das pes-
soas comuns. Até os preços do petróleo, principal produto de exportação e
gerador de divisas, despencavam nas cotações internacionais, aumentando
os déficits e provocando inflação. A impressionante popularidade de
Gorbachev no mundo, que, em toda uma primeira fase, legitimara com o
172
1 7 3
O S É C U L O XX
selo internacional suas promessas e ousadias, pesava cada vez menos em face
do descalabro que passara a dominar a sociedade e a economia soviéticas. De
queadiantava todo o prestígio do líder da perestroika, se os capitais interna-
cionais teimavam em não afluir? Quanto aos empréstimos e aos financia-
mentos das agências internacionais, aportavam a conta-gotas, não conse-
guindo alterar o quadro crítico.
Sucediam-se as equipes económicas e as propostas mais originais e inte-
ressantes. Contudo, nada, ou quase nada, funcionava. As reformas, os decre-
tos e as leis eram anunciados, mas não passavam à realidade, como se traga-
dos por mal definidas resistências.
Em 1989, o socialismo desapareceu na Europa Central. Um prenúncio?
Na Polónia, o Solidariedade assumira o poder. Na República Democrática
Alemã, apresentada como o mais próspero país socialista do mundo, grandes
manifestações tinham levado à queda do todo-poderoso E. Honecher e, um
pouco mais tarde, à do Muro de Berlim, erguido em 1961, e que parecia eter-
no. Na Hungria, eleições livres eram convocadas e nenhum analista previa a
vitória dos comunistas locais. Pouco depois, uma revolução pacífica, dita de
veludo, na Tchecoslováquia e uma outra, violenta, na Roménia, apearam os
comunistas do poder. Indagado sobre como a URSS reagiria a esta debanda-
da, o porta-voz de Gorbachev cantarolou os versos de My way, ou seja, como
na canção, cada um seria livre para traçar o próprio destino. Desta vez os tan-
ques permaneceriam tranquilos nos quartéis.
Como não poderia deixar de ser, o processo fulminante de desmantela-
mento das mal chamadas democracias populares reforçou as correntes que
estavam apostando na desagregação da URSS. Os parlamentos dos países
bálticos, eleitos em 1989, aprovavam leis que apontavam para a secessão. De
um lado, criavam símbolos típicos de estados-nações, como bandeiras e
hinos próprios. De outro lado, estabeleciam legislações que garantiam auto-
nomia em assuntos fiscais e culturais, enfatizando sempre que as leis das re-
públicas deveriam primar sobre as da União, num desafio claro às tradições
centralistas soviéticas. Na Lituânia, num gesto ousado, em março de 1990, o
Parlamento local proclamou a independência do país. M. Gorbachev reagiu
com dureza ao ato e até mesmo líderes políticos ocidentais, como F.
Mitterrand e H. Khol, aconselharam prudência aos lituanos.
No Cáucaso, assim como na Ásia Central, generalizava-se uma situação
de guerra civil. As tentativas conciliatórias eram recusadas num contexto de
massacres de caráter étnico. As contradições radicalizavam-se e pareciam
174
C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O D O S O C I A L I S M O
fugir do controle. Em toda a parte, os parlamentos locais proclamavam a res-
pectiva soberania, ou seja, somente admitiam as leis da União quando não
entrassem em desacordo com á própria legislação. Na prática, era um pro-
cesso de secessão que ainda não dizia o seu nome. Contudo, e apesar das evi-
dências, quase ninguém ainda ousava dizer o indizível: a URSS estava pres-
tes a desaparecer.
Das próprias nações eslavas (Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia), considera-
das até então como os mais sólidos baluartes da União Soviética, desponta-
vam forças desagregadoras. Em junho de 1990, depois de eleger triunfalmen-
te B. Yeltsin seu presidente, o Parlamento russo aprovou a soberania. No mês
seguinte, os parlamentos da Ucrânia e da Bielo-Rússia tomaram, por ampla
maioria, a mesma decisão política.
M. Gorbachev, apoiando-se na tradição, aparentava ainda estar nos con-
troles. Em julho de 1990, quando do XVIII Congresso do Partido Comu-
nista, conseguiu aprovar todas as suas propostas. Em setembro do mesmo
ano, o Soviete Supremo voltou a lhe conferir poderes extraordinários para
implementar as reformas consideradas necessárias por decreto. Mas de que
lhe servia concentrar poderes, se, visivelmente, não sabia como exercê-los?
Não definia um programa claro de enfrentamento das crises. Oscilava entre
reformistas e conservadores.
No segundo semestre de 1990, passou a chamar para o governo homens
mais decididos a preservar, a qualquer custo, a URSS de um processo de de-
sagregação, do que conduzi-la no rumo das reformas tão anunciadas mas
que não se concretizavam. No Ministério do Interior (B. Pugo), no KGB (V.
Kriuchkov), no cargo de primeiro-ministro (V. Pavlov), no comando das re-
lações externas (A. Bessmertnykh), no novo posto de vice-presidente da
URSS (G. lanaev), instalavam-se personagens estranhos às perspectivas da
perestroika/glasnost. Ao mesmo tempo, seus aliados mais fiéis, como E.
Chevarnadze, ex-ministro de Relações Exteriores, e A. lakovlev, ex-respon-
sável pelas questões ideológicas no Partido Comunista, afastavam-se do cen-
tro do palco, denunciando conspirações golpistas, favoráveis à restauração
da ditadura do Partido Comunista.
A muito custo, conseguiu-se formular a proposta para um novo pacto fe-
derativo. Teria o nome de União das Repúblicas Soberanas e seria levado a
referendo em todas as repúblicas soviéticas.
As correntes mais radicais, porém, sobretudo entre as nações não-russas,
recusavam-se sequer a participar do referendo, preferindo a solução do des-
175
O S É C U L O XX
compromisso total com a URSS. Na Lituânia, onde o processo independen-
tista fora mais longe, sucediam-se as manifestações. Em janeiro, choques
com tropas especiais enviadas por Moscou resultaram em mortes de manifes-
tantes, radicalizando os antagonismos. Gorbachev desautorizou os coman-
dantes locais, deplorou os excessos e mandou instaurar inquéritos.
A perestroika aproximava-se do fim?
Em 17 de março de 1991, afinal, houve o referendo tão anunciado. Mais
uma consulta à população. Seis repúblicas não participaram do voto
(Lituânia, Letónia, Estónia, Geórgia, Moldávia e Arménia). A grande maio-
ria, 76,4%, votara pela manutenção da União. Mas o voto era carregado de
ambiguidades porque, no âmbito de várias repúblicas, como na Ucrânia,
votou-se também, e também por ampla maioria, em favor da soberania local
e regional, o que relativizava em muito o sim dado à União Soviética.
De sorte que, uma vez mais, todas as ilações eram possíveis.
A Geórgia, por exemplo, proclamou sua independência, em abril de
1991. O mesmo já fizera a Lituânia, reafirmando sua independência em fe-
vereiro, através de um referendo, com 90,5% dos votos favoráveis.
Foi nesta atmosfera oscilante que se abriram as conversações a respeito
de um novo Tratado da União. Um novo pacto, capaz de reconhecer a auto-
nomia das repúblicas, porém, mantendo a União.
Foi uma barganha dura. Participaram as três repúblicas eslavas (Rússia,
Ucrânia e Bielo-Rússia), as cinco da Ásia Central (Turcomenistão, Tadjiquis-
tão, Casaquistão, Usbequistão e Quirguistão) e a do Azerbaijão, no Cáucaso.
Formulou-se um texto que agradou a todos mas completamente inócuo. Não
seria possível reconstruir uma União em bases tão indefinidas.
Nessa ocasião, em eleições diretas, inéditas na história da URSS, realizadas
em junho de 1991, B. Yeltsin foi eleito presidente da República da Rússia, logo
no primeiro turno, com 57,3% dos sufrágios. Ao mesmo tempo, aliados seus
foram eleitos, também pelo voto direto, prefeitos das principais cidades russas,
como Leningrado e Moscou. Rapidamente, B. Yeltsin e seus simpatizantes, em
decorrência da legitimidade democrática adquirida, começaram a radicalizar
seus propósitos favoráveis à soberania da Rússia. Neste sentido, cabia ao novo
governo russo exercê-la, em todos os níveis (controle das riquezas, arrecadação
de impostos, política externa, organização das forças armadas etc.). Se o fizes-
se, de fato, que poder restaria à União e a M. Gorbachev?
Em agosto de 1991, afinal, foi possível chegar a um texto de compromisso
sobre uma nova União, renovada. Mais uma vez, contudo, nada ficava clara-
C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O D O S O C I A L I S M O
mente definido: impostos, jurisdições respectivas, forças armadas, diplomacia,
prevaleciam as declarações genéricas, exprimindo indecisões, divergências.
M. Gorbachev parecia desorientado. No plano internacional, seu prestí-
gio não mais rendia dividendos para seu país. Os investimentos tardavam.
Os empréstimosocorrera a terrível e desastrosa coletivização força-
da dos camponeses. Houve reajustes de preços, definição de uma política de
incentivos, atribuição de créditos para a expansão da indústria química (adu-
bos, pesticidas etc.) e, sobretudo, uma agressiva política de desbravamento de
terras virgens — a meta era melhorar substancialmente o abastecimento do
povo, igualando, e superando, os níveis de produtividade registrados pelos
países capitalistas avançados.
O XX Congresso do Partido Comunista, realizado em fevereiro de 1956,
consagrou todas estas mudanças de rumo, consolidando o clima de degelo.
Entretanto, no fim dos trabalhos, N. Kruchev reservara para os delegados uma
surpresa: leu para eles um informe, reservado (dito secreto), em que se formu-
lavam gravíssimas denúncias a J. Stalin. O guia genial era apresentado como
um reles criminoso, o dirigente semidivino foi descido aos infernos, virou de-
mónio. A URSS tornara-se uma grande potência, não graças a Stalin, como
todos até então imaginavam, mas apesar dele, de seus erros e de seus crimes.
Foi uma comoção. Os delegados ficaram aturdidos, mas consagraram a
liderança de N. Kruchev, aquele audacioso dirigente que ousara derrubar do
pedestal o Maquinista da Locomotiva da História, J. Stalin. O movimento
comunista no mundo cambaleou, atordoado. Muitos simplesmente não
aguentaram o impacto daquelas revelações e abandonaram as fileiras.
Outros começaram a se perguntar aonde queria ir N. Kruchev. O fato é que
o monolito estremeceu, aparecendo as primeiras fissuras. Nunca mais ele
seria o mesmo.
Na União Soviética criou-se uma atmosfera ambígua: insegurança e dú-
vidas, ao lado de sentimentos de confiança e de euforia, inéditas desde os tem-
pos longínquos da revolução de 1917. Não apenas a vida corrente iria me-
lhorar (o socialismo com manteiga), mas também o sistema parecia mostrar
condições de se auto-reformar, com maiores margens de liberdade, de deba-
te e de crítica. Além disso, a URSS surpreendia e fascinava o mundo com seus
avanços tecnológicos, materializados no controle das mais modernas e des-
trutivas bombas (atómica e de hidrogénio), e, sobretudo, com a liderança
que tomava na corrida espacial, lançando o primeiro satélite de comunica-
22
O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
coes (o Sputnik), o primeiro homem ao espaço (Y. Gagarin), a primeira
sonda à Lua. No centro do palco, N. Kruchev, rompendo com o padrão tra-
dicional dos dirigentes soviéticos, sisudos e carrancudos, apresentava-se
como um bom velhinho, loquaz, amável, tomando banhos de povo, abrindo
expectativas e parecendo ter soluções para todos os problemas.
Entretanto, as promessas róseas desenhadas pelo novo líder não se con-
cretizavam, as cores começavam a desbotar, despertando contradições e in-
certezas.
A agricultura, apesar dos enormes investimentos, não reagia. As políticas
implementadas por N. Kruchev, como a do desbravamento de terras virgens,
que mobilizara colossais recursos económicos e humanos, davam resultados
mitigados, quando não geravam desperdícios. Em 1963, a URSS teve que im-
portar grandes quantidades de grãos dos países capitalistas para evitar a
fome. A superpotência conseguia enviar foguetes à Lua, mas não era capaz de
alimentar o próprio povo. Uma lástima. Em outros setores, embora tenham
sido registrados alguns avanços, como na construção civil, as promessas não
se concretizavam, ou os resultados não eram considerados satisfatórios.
Os responsáveis pelos setores tradicionalmente privilegiados pelos planos
quinquenais criticavam as novas orientações. No partido, apareceram resistên-
cias às propostas democratizardes, que previam o voto secreto para a escolha
dos dirigentes e limites para que pudessem ser reeleitos, e ao processo de des-
centralização, que previa a constituição de centros regionais de planejamento.
As contradições avolumavam-se. Apontava-se o fato de que N. Kruchev,
embora denunciando os males do culto à personalidade, estava retomando, a
seu modo, os padrões de direção política de um grande chefe. Medidas volun-
taristas, decisões sem consulta, reviravoltas, aquilo tudo começou a inquietar,
sobretudo, as elites dirigentes.
No plano internacional, os frutos obtidos não mereciam avaliações posi-
tivas unânimes. Ao contrário: suscitavam ásperas críticas. A política de dis-
tensão com os EUA não produzira resultados conclusivos. Em 1960, a confe-
rência de Paris, entre as grandes potências, fracassara. Um pouco mais tarde,
em 1962, a crise dos mísseis, em Cuba, quase levara o mundo à guerra atómi-
ca. A decisão de colocar os mísseis na Ilha revolucionária, atribuída a N.
Kruchev em pessoa, aprofundou seu desgaste, pois a retirada dos mesmos, im-
posta pelo bloqueio americano, foi ressentida como uma humilhação.
O mundo socialista deixara de ser um monolito e apresentava agora
enormes fissuras. Na Europa Ocidental, os comunistas italianos, sob a dire-
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O S É C U L O XX O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
cão de Palmiro Togliatti, passaram a defender um perfil e um rumo próprios
para o socialismo nos países capitalistas avançados: a evolução haveria de
ser gradual, pacífica e baseada nas instituições democráticas. Apoiando-se
no legado teórico de António Gramsci, defendiam uma alternativa própria
que, mais tarde, tomou o nome de eur o comunismo. Na Ásia, a China de
Mão Tsé-tung, desconfiada das decisões de seu poderoso vizinho, começou a
denunciar o revisionismo de N. Kruchev. As críticas, no início, eram de cará-
ter teórico, textos que só os iniciados conseguiam decifrar. Cedo, no entan-
to, as contradições radicalizaram-se, dando lugar a destemperos verbais, ex-
primindo antagonismos inconciliáveis. Esfumara-se a aliança granítica e boa
parte da responsabilidade do processo era imputada ao estilo de N. Kruchev,
sem o qual, argumentavam os adversários, as contradições poderiam ter sido
mais bem administradas.
Na Europa Central, aparentemente imobilizada e sob controle, houve
um surto de rebeldias. Ainda^em 1953, poucos meses depois da morte de J.
Stalin, um primeiro sinal: uma violenta insurreição popular na parte oriental
de Berlim, controlada pelos soviéticos, precisou ser esmagada de forma vio-
lenta. Anos mais tarde, a Albânia passou a acompanhar, às vezes a antecipar,
as críticas chinesas aos desvios soviéticos. Ao mesmo tempo, em 1956, mais
duas rebeliões. Na Polónia, foi possível controlá-la com concessões parciais,
combinadas com expurgos no partido e no Estado. Mas na Hungria, o des-
contentamento popular foi longe demais, mesmo para os novos padrões que
se desejava instaurar. Uma espécie de revolução popular tomou as ruas de
Budapeste com um programa extremamente subversivo: reivindicava a neu-
tralidade do país, a retirada das tropas soviéticas, a democratização real das
instituições. O movimento foi considerado anticomunista e anti-soviético —
uma senha para que os tanques interviessem, o que fizeram com a eficácia e
a brutalidade habituais. A revolução húngara foi sufocada em sangue e em
exílios — e deixou claros os limites do policentrismo socialista, pelo menos
na área da Europa Central.
Mas nem tudo eram contradições, havia também circunstâncias favorá-
veis, e o socialismo soviético delas extraía forças e alento. Entre os países do
chamado Terceiro Mundo, a URSS apresentava-se como, e era de fato, a
grande retaguarda dos interesses dos povos oprimidos em luta pela liberta-
ção nacional. Votava sempre em favor de suas causas nas instâncias interna-
cionais, oferecendo contrapeso às potências capitalistas, capitaneadas pelos
EUA. Ajudava em armas e assessoria muitas lutas em curso. Criara até uma
universidade em Moscou especialmente voltada para estudantes do Terceiro
Mundo — a Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba. Em
muitos momentos críticos, a intervenção soviética fora decisiva para inverter
situações, como, por exemplo, em 1956, quando apoiara G. A. Nasser, líder
nacionalista árabe, na crise desencadeada com a intervenção anglo-francesapingavam devagar. A ida de Gorbachev à reunião do Grupo
dos 7, reunindo os principais capitalistas do mundo, em julho, foi patética.
Inquirido por G. Bush, presidente dos Estados Unidos, como um mau aluno
por um severo mestre-escola, não teve forças para se impor. Como se os paí-
ses mais ricos do planeja já estivessem desconfiando de seu poder real, apos-
tando numa outra alternativa (B. Yeltsin).
Foi então que sobreveio o golpe restaurador.
Aproveitando-se da ausência de M. Gorbachev, em férias no Mar Negro,
os golpistas o prenderam em sua casa de veraneio, anunciaram que estava
enfermo e desferiram o movimento de sua deposição. Em suas declarações,
não falavam em nome do socialismo, nem do comunismo, mas na necessida-
de de salvar a União.
Faltou-lhes, contudo, força para alcançar seus objetivos. A cadeia de co-
mando simplesmente não funcionou. As ordens, recebidas, não eram cum-
pridas. B. Yeltsin tomou o comando da oposição, mas nem foi necessário
lutar porque o golpe desagregou-se por si mesmo, sem alento, sem organiza-
ção e sem consistência. Um fiasco.
M. Gorbachev, liberado, ainda tentou se equilibrar, mas era terrível seu
desgaste, inclusive porque todos os golpistas eram seus homens de confian-
ça, ocupando altas posições de mando, nomeados por ele.
Acelerou-se o desmoronamento.
Às duas repúblicas, que já haviam proclamado a independência (Li-
tuânia e Geórgia), se seguiram as demais: Estónia (20 de agosto), Letónia (21
de agosto), Ucrânia (24 de agosto), Bielo-Rússia (25 de agosto), Moldávia
(27 de agosto), Casaquistão e Quirguistão (28 de agosto), Azerbaijão (30 de
agosto), Usbequistão (31 de agosto), Tadjiquistão (9 de setembro), Arménia
(21 de setembro) e Turcomenistão (26 de outubro).
Em rápidos movimentos, B. Yeltsin dissolveu o Partido Comunista e o
KGB, recebendo do Parlamento russo plenos poderes para implementar as
decantadas reformas.
No começo de dezembro, os dirigentes das três repúblicas eslavas, reuni-
dos em Minsk, capital da Bielo-Rússia, anunciaram a fundação de uma
Comunidade de Estados Independentes, aberta às repúblicas que formavam
176 177
O S É C U L O XX
a URSS, sem sequer consultar M. Gorbachev. Em 21 de dezembro de 1991,
em Alma-Ata, capital do Casaquistão, formou-se a Comunidade com 11 ex-
repúblicas soviéticas. Um comunicado reiterou que a União Soviética deixa-
ra de existir. Foram ainda necessários quatro dias para Gorbachev assumir a
nova realidade e assinar sua renúncia.
O verdadeiramente inacreditável acontecera: a União Soviética deixara
de existir.
A CRISE DO SOCIALISMO CONTEMPORÂNEO
A desintegração da União Soviética, que acompanhou a do socialismo na
Europa Central, pôs em evidência uma crise maior: a do socialismo contem-
porâneo.
Ela teria outras incidências, afetando as principais propostas e experiên-
cias revolucionárias que surgiram no século XX.
Na China, desde os anos 70, e sobretudo após a morte de Mão Tsé-tung,
em 1976, a preocupação e os debates a respeito do socialismo tenderam a
dar lugar à preocupação e aos debates a respeito da modernização e do enri-
quecimento do país.
A política dita das Quatro Modernizações (da indústria, da agricultura,
da ciência e da tecnologia e das forças armadas), sob a direção de Deng Xiao
Ping, embora mantendo uma retórica de adesão ao socialismo, e mesmo ao
comunismo, e apesar de reverenciar a pessoa do próprio Mão, na prática, eli-
minou gradual e firmemente todo o legado do maoísmo, enquanto estratégia
de luta revolucionária pela tomada do poder político e enquanto tentativa de
construção de um padrão próprio de socialismo.
O fracasso do Grande Salto para a Frente (1958-1959) — na verdade,
um salto para trás — e as enormes frustrações associadas à Grande Revo-
lução Cultural Proletária (1965-1969) prepararam um terreno fértil para a
descrença nas utopias socialistas e, no mesmo movimento, para o investi-
mento em métodos e processos unicamente voltados para o desenvolvimen-
to económico e para o reforço do Estado nacional.
Assim, desde 1979, liquidaram-se as comunas populares, restabelecen-
do-se a família nuclear como unidade de produção básica, com a qual são as-
sinados contratos de responsabilidade de arrendamento e gestão de peque-
C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O D O S O C I A L I S M O
nos lotes, válidos por quinze anos, prorrogáveis (segundo dados oficiais, 220
milhões de contratos, num universo de 900 milhões de pessoas). Um novo
processo de reforma agrária descoletivizou o campo chinês, apostando na
ambição de lucro e de realização pessoal e familiar dos pequenos campone-
ses, ainda viva, apesar, ou por causa, dos experimentos (na maior parte, de-
sastrados) de coletivização empreendidos (Pomar, 1987).
Como resultado, houve um gigantesco crescimento da produção agríco-
la, de 240 milhões de toneladas de cereais, em 1979, para quase 500 milhões
de toneladas (dados de 1997), dinamizando o conjunto da economia. Por
outro lado, e de forma controlada pelo Estado, abriram-se zonas económicas
especiais para o ingresso seletivo de capitais internacionais, promovendo-se
o crescimento industrial e as exportações, além de importação de tecnologia.
Um ritmo febril de negócios tomou conta do país, acentuado recente-
mente pela incorporação de Hong Kong, onde se mantiveram intactas as
bases do desenvolvimento económico anterior, do qual, aliás, já fazia parte,
em larga medida, o Estado chinês.
No plano político, o Partido Comunista manteve firme o comando do
Estado e da sociedade. Os sucessivos movimentos que pretenderam questio-
nar esta Ordem foram reprimidos com violência, notadamente o processo
que levou, em 1989, ao massacre da Praça da Paz Celestial, quando, em
nome do socialismo, mais uma vez, lutas pela liberdade e pela democracia
foram silenciadas com tiros e tanques (Andrade e Favre, 1989).
A repressão, passado um momento de constrangimento, quando se fize-
ram ouvir os protestos de praxe, não inibiu os negócios; ao contrário, eles
tenderam a crescer e seguem em ritmo ascendente, constituindo a China uma
fronteira económica e geográfica crucial para a atual prosperidade do capi-
talismo internacional.
O interessante é que o marxismo e o socialismo continuam sendo ritual-
mente invocados por um partido comunista que, na prática, rege o mais fre-
nético desenvolvimento capitalista. A isto as autoridades chamam o socialis-
mo com características chinesas.
As duas outras experiências socialistas da Ásia Oriental — a Coreia e o
Vietnã — também não conseguiram afirmar-se como focos de irradiação de
propostas inovadoras. Na Coreia, a longa ditadura pessoal de Kim Il-Sung,
transmitida a seu filho, apresenta como saldo um país faminto e com reduzi-
díssima capacidade de sedução política. Já o Vietnã, que galvanizou imensas
esperanças, mobilizando em seu favor a opinião pública internacional duran-
178 179
O S É C U L O XX
te mais de uma década, até a vitória da guerra de libertação nacional, em
1975, não soube, ou não pôde, manter o mesmo nível de solidariedade. Ao
contrário, nas guerras travadas contra os vizinhos próximos (China e
Camboja), ou na manutenção de um regime alérgico à democracia, perdeu
progressivamente a capacidade de entusiasmar, que era sua marca registrada
enquanto viveu o grande líder revolucionário nacional Ho Chi Minh.
No outro extremo do mundo, a revolução cubana, depois de incendiar as
imaginações, e de ter se convertido num território onde disputavam-se a ou-
sadia e a originalilidade, sobretudo ao longo dos anos 60, tendeu a perder au-
tonomia no quadro de uma aliança cada vez mais dependente com a URSS.
Nos anos da perestroika, percebendo a hipótese da falência que se avizi-
nhava, o socialismo cubano recobrou uma certa vitalidade, enfatizando as
tradições e as características nacionais (Bandeira, 1998). Entretanto, num
quadro de circunstâncias extremamente desfavoráveis, o país teve que se
abrir para o capital internacional, para o turismo e para o dólar, e para as
práticas e os valores associados — o câmbio paralelo, a prostituição, o arri-em reação à nacionalização do canal de Suez. Ou quando, nos inícios da re-
volução cubana, entre 1959 e 1962, sustentara Fidel Castro e seus liderados
com seu poderio político, material e logístico.
A verdade, no entanto, é que estes aspectos positivos, e outros, não
foram considerados determinantes pelos adversários de N. Kruchev, que o
derrubaram em 1964. Nas acusações que então lhe desferiram, estava sobre-
tudo a de que concentrara demasiados poderes, subestimando o primado da
direção coletiva, incorrendo nos mesmos erros de voluntarismo e de falta de
respeito pela vontade do partido, além de se deixar embalar pelos vícios do
culto à personalidade, por ele mesmo tão violentamente criticados em 1956.
Não é muito fácil formular um balanço preciso do período em que N.
Kruchev governou a URSS. Alguns sustentam que ali se perdeu uma oportu-
nidade histórica de reformar o socialismo, que conservava na sociedade um
prestígio real. Como pontos positivos, inegáveis, o afrouxamento dos con-
troles repressivos,' a desmitificação de J. Stalin, o fim do Terror, as anistias,
as tentativas de institucionalizar e democratizar a revolução, uma preocupa-
ção maior quanto às demandas da sociedade. No plano internacional, a
abertura, em tese, a um certo policentrismo no mundo socialista, uma real
contribuição à construção de uma atmosfera menos acirrada e belicosa. Por
outro lado, a dificuldade em assumir com toda a consequência estas próprias
orientações, as constantes recaídas em tradições criticadas (a questão do~
culto à personalidade), os ziguezagues frequentes (o esmagamento pela força
da revolução húngara), o voluntarismo tipicamente stalinista (o desbrava-
mento das terras virgens), os anúncios apocalípticos de vitórias não-conclu-
sivas, o autoritarismo sempre presente...
N. Kruchev tinha as limitações próprias de um homem politicamente
formado nos anos 30 dentro da corrente dirigida por J. Stalin, o que se evi-
dencia muito bem nas incongruências e na superficialidade com que foi criti-
cada no informe dito secreto a trajetória do guia genial. No fim, suas inúme-
ras iniciativas pareciam ter cansado as diversas correntes da sociedade. Sua
queda foi, assim, observada com indiferença. Restou-lhe uma aposentadoria
vigiada — sinal dos novos tempos, que ele próprio, mais do que ninguém,
ajudara a criar.
24 25
O S É C U L O XX
3. O SOCIALISMO DESENVOLVIDO — FORÇA E FRAQUEZAS DE
UM SISTEMA
A fase que se abriu então, até o início da perestroika, em 1985, mais de vinte
anos, foi, em sua época, considerada a de expansão máxima do socialismo —
o tempo do socialismo desenvolvido. Uma nova Constituição, aprovada em
1977, exaltava os avanços obtidos, consagrando juridicamente a URSS como
potência socialista. De um outro ângulo, crítico, apareceu uma outra formula-
ção: o socialismo realmente existente. Aquelas sociedades, sobretudo a soviéti-
ca, não tinham sido idealizadas nem previstas, mas existiam na realidade.
Contra a teimosia dos fatos, alegavam os partidários da expressão, não havia
argumentos.
Apesar dos problemas e das contradições, a URSS e o socialismo pare-
ciam imbatíveis, dotados de uma dinâmica invencível. Os dirigentes soviéti-
cos, agrupados em torno da figura de um novo secretário-geral, L. Brejnev, as-
sumiam o discurso da estabilidade e da eficácia.
Em prol da estabilidade, esvaziaram ou simplesmente revogaram as po-
líticas reformistas democratizantes e descentralizantes propugnadas por N.
Kruchev. O Partido Comunista, na nova Constituição, foi solenemente rea-
firmado como vanguarda da sociedade e do regime. Do ponto de vista da
economia, houve todo um esforço para definir políticas no sentido de supe-
rar os problemas diagnosticados desde os anos 50: deslanchar a agricultura,
abastecer melhor as cidades, estimular os avanços qualitativos, introduzir
novos métodos de gestão e de organização do trabalho. Assim, o programa
de reformar o socialismo, enunciado por N. Kruchev, permanecia de pé.
Na esfera das relações internacionais a URSS consolidava-se como su-
perpotência. E o socialismo registrava êxitos espetaculares, históricos.
No Sudeste Asiático, a Guerra do Vietnã, mais uma, agora contra os
EUA, encerrara-se, em 1975, com uma completa vitória dos nacionalistas,
hegemonizados pelos comunistas, apoiados pela URSS. Logo em seguida,
cairiam também o Laos e o Camboja. Os americanos, embora tendo deixa-
do a região arrasada, foram obrigados a contabilizar uma derrota humilhan-
te. Parecia realizar-se a metáfora da queda dos dominós, formulada desde
1946, segundo a qual era preciso deter, a qualquer custo, eventuais vitórias
dos comunistas, pois elas tenderiam a se encadear de forma incontornável.
No mundo árabe e muçulmano, houve ziguezagues (recuo da URSS no
Egito) e algumas derrotas históricas (queda de A. Sukarno na Indonésia),
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O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
mas na luta contra o Estado de Israel, que polarizava amplamente as forças
políticas identificadas com o Islã, a URSS aparecia como aliada contra os
EUA e os Estados europeus. \a África, ao sul do Saara, a desagregação do velho Império Português,
acelerada com a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1974, estava levan-
do ao poder nas duas principais colónias, Angola e Moçambique, movimen-
tos de libertação nacional (Frelimo e MPLA) aliados da URSS. Os principais
dirigentes identificavam-se com o marxismo-leninismo e se propunham a as-
sociar explicitamente seus projetos políticos ao socialismo internacional.
Além disso, em vários outros Estados, constituíam-se elites políticas, às vezes
através de golpes militares, que procuravam aliança e apoio (armas e asses-
soramento) em troca de concessões estratégicas. Um caso que se tornou em-
blemático, entre outros, foi o da Etiópia, onde estiveram, inclusive, tropas
cubanas, apoiando militares nacionalistas que se diziam socialistas, ou alia-
dos do socialismo. Sem contar a existência de outros experimentos, funda-
mentalmente nacionalistas, que nada tinham a ver com o marxismo-leninis-
mo, mas que se inspiravam nos modelos soviéticos de organização política e
económica (partido único, plano centralizado, estatização de setores econó-
micos estratégicos etc.) e/ou que se aproximavam em busca de apoio.
Na América Latina, a revolução cubana — vitoriosa com um programa
nacionalista e democrático — transformara-se em revolução socialista, em
larga medida, em virtude das pressões americanas. Ali também os soviéticos
só colheram os frutos amadurecidos, pois estiveram praticamente ausentes
da luta revolucionária contra o regime de Batista — derrubado em janeiro de
1959 — e dos momentos imediatamente subsequentes, quando a revolução
radicalizou-se numa espiral de ações e de reações onde a intransigência do
Estado americano fez lembrar as atitudes tomadas na Ásia Oriental em fins
dos anos 40, com os mesmos efeitos.
A revolução cubana afirmara sua autonomia ao longo dos anos 60,
quando sua extensão para a América Latina foi considerada uma hipótese
possível (Fernandes, 1979). Contudo, após a morte do Che Guevara, em ou-
tubro de 1967, e do fracasso do projeto da grande zafra, em 1970, quando
se pretendeu, em vão, colher o recorde histórico de 10 milhões de toneladas
de açúcar, o alinhamento político e diplomático com a URSS tendeu a se es-
tabilizar, com a prevalência de aspectos centrais do modelo soviético (parti-
do único, plano centralizado, estatização geral da economia, forças armadas
profissionais calcadas no modelo soviético etc.). Cuba revolucionária, embo-
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O S É C U L O XX
rã mantendo margens de autonomia, alinhava-se, afinal, na órbita soviética
e em suas organizações políticas e militares (Comecon, Pacto de Varsóvia
etc.). No restante da América Latina, a derrota da experiência da Unidade
Popular, chefiada por Salvador Allende, em 1973, fora um retrocesso, assim
como uma constelação de ditaduras militares no subcontinente latino-ameri-
cano (Argentina e Brasil, entre outras). Contudo, ainda ao longo dos anos
70, a URSS tentaria,às vezes com êxito, estabelecer relações com regimes mi-
litares nacional-estatistas que ressurgiram na região — no Panamá, na
Bolívia e no Peru. No fim da década, em 1979, o triunfo dos sandinistas na
Nicarágua e o fortalecimento de um movimento nacionalista radical em El
Salvador, além de outras evoluções na área, prenunciavam um novo surto de
vitórias de movimentos guerrilheiros — uma nova queda de dominós?
Todo este avanço, paradoxalmente, não unificara o mundo socialista,
cujas divisões acentuavam-se. Na Europa Central, permanecia uma situação
instável — crises sucessivas na Polónia, movimentos diversos —, porém
tendo um denominador comum — a luta por autonomia na Albânia, na
Hungria e na Roménia, somando-se à já histórica dissidência da Jugoslávia,
e, finalmente, a Primavera de Praga, em 1968, quando se tornou necessário
fazer intervir mais uma vez os tanques para esmagar uma tentativa de cons-
truir um socialismo democrático, plural (Broué, 1979). Na Europa Oci-
dental, multiplicavam-se os adeptos do eurocomunismo, principalmente na
Itália, dificultando o exercício da liderança de Moscou no quadro do que res-
tava do movimento comunista internacional.
Na China, apareceu uma ameaça maior. Chefiados por Mão Tsé-tung, os
comunistas chineses trataram, várias vezes, ao longo dos anos 50 e 60, de
construir alternativas aos soviéticos. As políticas das Cem Flores (1956), do
Grande Salto para a Frente (1958) e da Grande Revolução Cultural Pro-
letária (1965-1969) constituíram, associadas a uma agressiva política exter-
na de apoio aos movimentos de libertação nacional em toda a parte, o cerne
do maoísmo, já não apenas um modelo de guerra camponesa de libertação
nacional, mas uma tentativa de surgir como um novo farol para a revolução
mundial. A proposta de cercar as cidades pelos campos assumia agora um al-
cance maior: o de cercar as cidades do planeta (o mundo rico) pelos campos
— os países pobres e oprimidos. O problema é que os chineses colocavam a
URSS no contexto do mundo rico. E mais: situavam-na como mais perigosa
ainda do que os EUA, pois, enquanto estes últimos estavam em decadência,
aquela encontrava-se numa trajetória ascendente. Os choques armados fron-
O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
teiriços entre a URSS e a China (1969), o questionamento explícito que esta
última começou a fazer do traçado das fronteiras entre os dois países, chega-
ram a alimentar a hipótese de uma guerra de grandes proporções entre os
dois ex-aliados.
Entretanto, a alternativa maoísta, embora tenha seduzido durante um
certo tempo muitas correntes radicais em todo o mundo, tendeu a declinar
em virtude do fracasso de suas principais propostas. As Cem Flores, que vi-
savam promover um amplo debate na sociedade sobre o socialismo, não flo-
riram como se esperava, e feneceram muito rapidamente, podadas pelo apa-
relho repressivo. O Grande Salto para a Frente foi um grande salto para trás,
gerando fome e desespero, o que foi assumido pelo próprio Mão autocritica-
mente. Finalmente, a Grande Revolução Cultural Proletária, apesar de, ini-
cialmente, ter registrado certos avanços no sentido da democratização do
poder e do aparelho educacional, cedo teve sua dinâmica limitada a lutas in-
conciliáveis entre correntes partidárias pelas instâncias centrais do Estado.
Em vez de grande revolução, passou a ser uma pequena luta política (no sen-
tido histórico) pela afirmação do próprio Mão Tsé-tung na liderança do par-
tido e do Estado chineses.
No início dos anos 70, a aproximação entre os EUA e a China foi a evi-
dência mais segura da seriedade com que se cogitava da ameaça soviética. Ao
mesmo tempo, porém, integrando os chineses nas instituições internacionais
(ingresso na ONU), contribuiu para atenuar o radicalismo que se tornara
marca registrada do maoísmo. Quando Mão desapareceu, em 1976, a China
já se encontrava envolvida no processo das Quatro Modernizações (da in-
dústria, da agricultura, da ciência e das forças armadas) — que a levaria
longe no caminho da prosperidade e da aliança com os capitais internacio-
nais (V. Pomar, 1987).
De sorte que, apesar das contradições no próprio campo socialista, a
URSS não deixava de aparecer como superpotência e de ser respeitada como
tal. Os encontros regulares dos presidentes americanos com o sempiterno se-
cretário geral soviético — L. Brejnev —, que permanecia firme no cargo, au-
torizavam a hipótese da formação de uma espécie de condomínio mundial —
o mundo regido pelos interesses dos EUA e da URSS.
Acordos comerciais interligavam com cada vez maior força ambos os
lados. Nos anos 70, o comércio entre americanos e soviéticos multiplicou-se
por oito, as importações soviéticas de cereais atingindo a média anual de 40
milhões de toneladas no início dos anos 80 (Nove, 1990). Em contrapartida,
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O S É C U L O X X
a URSS aparecia como grande fornecedora de petróleo para a Europa
Ocidental, iniciando-se a construção de um gasoduto ligando esta região à
Sibéria. Com a França e a República Federal Alemã (RFA), principalmente,
a URSS tecia acordos políticos e económicos de grande alcance. A Ostpolitik
(abertura para o Leste), encabeçada pelo social-democrata Willy Brandi,
desde 1969, contribuíra para diminuir notavelmente as tensões na área, le-
vando, inclusive, ao reconhecimento das fronteiras e da personalidade diplo-
mática da República Democrática Alemã (RDA), sem que tivesse sido neces-
sário tirar uma pedra do Muro de Berlim, erguido desde 1961.
Em 1975, o acordo final da Conferência sobre a Segurança e a Coope-
ração na Europa (CSCE), assinado em Helsinque, consagrou as fronteiras
negociadas em Yalta, um antigo programa da diplomacia soviética (Mai-
danik, 1998).
Como se não bastasse, a URSS começou a surgir como potência naval
mundial. Seus navios de guerra e submarinos atómicos apareciam em águas
e portos do Sudeste Asiático (Vietnã), do Índico, do Mar Vermelho (lêmen
do Sul), do Atlântico (Angola), do Caribe e até mesmo do Mediterrâneo
Oriental. Sucediam-se advertências sombrias e apocalípticas: aonde iria
parar o expansionismo soviético?
A URSS passara por profundas transformações, verdadeiras mutações
sociais, percebidas, entre outros, por M. Lewin (1988). Em meio século, o
processo de urbanização registrará um impressionante crescimento: de 59
milhões para 180 milhões de pessoas. No início dos anos 80, cerca de 66%
da população viviam em cidades, mais 17 pontos percentuais em vinte anos.
No mesmo período, os centros urbanos de mais de l milhão de habitantes
saltaram de 3 para 23, concentrando mais de 25% da população total, ab-
sorvendo um afluxo de 35 milhões de migrantes.
Outra mudança qualitativa — a qualificação da mão-de-obra. Nos anos
80, 40% da população urbana economicamente ativa eram formados por di-
plomados em segundo grau (cerca de 18 milhões) ou universitários (13,5 mi-
lhões). Estava em curso uma progressiva sofisticação da força de trabalho.
Cada vez menos trabalhadores manuais, cada vez mais qualificação. Desde
meados dos anos 70, um outro índice económico revelador: uma leve supre-
macia do setor de serviços em relação ao setor industrial.
Nesta sociedade crescentemente urbanizada e instruída, extraordinaria-
mente complexa, tornava-se cada mais difícil — e mesmo inviável — manter
os padrões centralistas dos anos 30 (Werth, 1992). No próprio coração do
O M U N D O S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
Estado, constituíam-se grupos com dinâmica própria, indevidamente chama-
dos de feudos (Hough, 1969), sem falar nas máfias, das quais se ouviram as
primeiras denúncias em meados dos anos 70.
Autonomias desafiando a ambição do poder central de tudo controlar,
escorrendo por entre as malhas de um Estado cuja onipotência só existia nas
teorias do totalitarismo, redefinindo, reajustando e até invertendo as orien-
tações provenientes das instâncias centrais.
As frequentes campanhas em prol da disciplina e contra o desperdício no
trabalho, contra o alcoolismo e o absenteísmo, evidenciavam as dificuldadesem controlar e mobilizar uma sociedade que parecia apática e desinteressada
(eles fingem que nos pagam, nós fingimos que trabalhamos).
A sociedade emitia outros sinais inquietantes.
As resistências nacionais, recusando-se a se deixar moldar nos parâme-
tros do homo sovieticus. O processo de integração dos povos soviéticos, can-
tado em prosa e verso, parecia não estar funcionando na prática. Desde os
anos 70, denunciava-se a existência de importantes tensões (D'Encausse,
1978). E o que fazer com uma juventude que não se reconhecia mais nos
mitos e nos líderes fundadores da revolução, parecendo seduzida por pa-
drões dos países capitalistas? Os próprios trabalhadores exprimiam descon-
tentamento, registrando-se greves e tentativas de formação de sindicatos li-
vres (Werth, 1992). Sem falar no fenómeno da chamada dissidência, desgas-
tando com suas denúncias e seus escândalos uma ordem que se queria perfei-
ta (Soljenitsin, 1975).
Sintomas, dificuldades, lados ocultados por uma propaganda maciça, de
grande potência, mas nem por isso menos reais.
Já não se falava mais, como nos tempos de N. Kruchev, em alcançar,
muito menos superar, os EUA. Os indicadores económicos despencavam.
Entre 1965 e 1970, ainda fora possível registrar excelentes médias anuais de
crescimento industrial: em torno de 8,5%. Contudo, entre 1981 e 1985, es-
tas mesmas médias caíram para 3,5%. A comparação dos planos quinque-
nais aplicados nos anos 60 e 80 mostra defasagens em até 10 pontos entre
metas definidas e resultados de fato alcançados. No X Plano, entre 1981 e
1985, somente a produção de gás conseguiu superar as previsões (Nove,
1990). Na agricultura, a média anual nos anos 80 decrescera, apesar dos ma-
ciços investimentos, para 1,4%, abaixo do crescimento demográfico, sobre-
tudo das nações não-russas.
Em vinte anos a produtividade declinara de 6,3% para menos de 3% e
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O S É C U L O XX
os investimentos, de 7,8% para 1,8% (Werth, 1992). De um lado, aumenta-
vam os estoques de artigos invendáveis. De outro, demandas insatisfeitas.
Definitivamente, o pais não estava conseguindo alcançar os ritmos que ti-
nham feito a glória dos planos nos anos 30.
Onde estaria o nó básico? Na agricultura, que, desde os anos 50, recebia
recursos extraordinários, aparentemente a fundo perdido? Na mão-de-obra,
com sua inapetência para o trabalho, e sua insubmissão diante das ordens e
prescrições? Nos critérios dos planos, enfatizando sempre os aspectos quan-
titativos e descurando os qualitativos? Na corrupção, que se alastrava ern
todos os níveis? No abismo colossal verificado entre o discurso oficial e a
prática das elites?
No início dos anos 80, o quadro das relações internacionais já não pare-
cia tão promissor. Uma onda neoliberal agressiva, anti-soviética, começava a
varrer o mundo capitalista, anunciando novas concepções de Estado e de so-
ciedade e uma nova espiraLna corrida armamentista.
A decisão de invadir o Afeganistão, em 1979, não estava dando os resul-
tados positivos esperados. Houvera ali um erro de cálculo. Os soviéticos
imaginavam estar participando de uma operação de polícia internacional,
nos moldes da que haviam protagonizado na Tchecoslováquia em 1968, mas
tinham mergulhado numa guerra de guerrilhas longa e desgastante. Muitos
já falavam do Afeganistão como o Vietnã soviético...
No mundo socialista o dinamismo vinha apenas da China, mas ele não
reforçava a URSS, pois, além das reservas que os chineses cultivavam em re-
lação aos soviéticos, eles pareciam optar, justamente, por uma política de
descoletivização do campo, que nada tinha a ver com o modelo apresentado
por Moscou. Nos demais países socialistas reinava uma atmosfera morosa,
apenas interrompida pelos protestos e pelo inconformismo na área da
Europa Central, na Polónia em particular, com os movimentos sociais de
sempre, que agora desembocavam, porém, num fenómeno estranho e inédi-
to: a formação de um sindicato autónomo em relação aos comunistas — o
Solidariedade.
A URSS parecia necessitar de reformas. Não era um gigante imóvel, nem
estagnado. Internamente, evidenciava um grande dinamismo social e um
certo desenvolvimento económico, embora declinante. Externamente, ainda
provocava respeito e medo.
Mas seria necessário eleger prioridades, fazer opções. Ora, na primeira
metade dos anos 80, a longa agonia de L. Brejnev e os curtos mandatos dos
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O MUNDO S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E A P O G E U
vetustos senhores que o sucederam, I. Andropov e K. Tchernenko, ambos
cedo ceifados pela morte, pareceram uma perda de tempo. De certo modo,
era sintomático que as elites reagissem assim às urgências dos desafios: per-
diam tempo quando não estavam em condições de esperar.
Mas quem poderia prever a iminência de um colapso histórico?
BIBLIOGRAFIA
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Werth, N. 1992. L'Histoire de 1'Union Soviétique. Paris, PUF.
33
Descolonização e lutas de
libertação nacional
Maria Yedda Leite Linhares
Professora titular de História Moderna e Contemporânea
e professora emérita da Universidade Federal do
Rio de Janeiro
INTRODUÇÃO
Em 1961, ainda durante a guerra de libertação da Argélia, escrevia Jean-Paul
Sartre o memorável prefácio ao livro de um intelectual negro, da Martinica,
argelino de coração, Frantz Fanon, que se tornaria o manifesto-denúncia do
colonialismo e o grito de revolta contra a dominação imperialista da Europa
(Fanon, 1961).
"Não faz muito tempo, a terra contava com 2 bilhões de habitantes, ou seja,
500 milhões de homens e 1,5 bilhão de indígenas. Os primeiros dispunham do
Verbo, os outros o pediam emprestado. Entre uns e outros, reis de fancaria,
feudais, uma burguesia inteiramente falsa, serviam de intermediários. Perante
as colónias, a verdade se mostrava nua: as 'metrópoles' queriam que ela se
apresentasse vestida; era preciso que o indígena as amasse. Como se, de algum
modo, fossem mães. A elite europeia procurou fabricar um indigenato de elite;
selecionavam-se adolescentes que tinham sobre a testa, marcados a ferro, os
princípios da cultura ocidental e a boca recheada de mordaças sonoras, belas
palavras pastosas que se colavam aos dentes; após uma breve estada na metró-
pole, eram enviados de volta, truncados. Mentiras ambulantes, nada mais ti-
nham a dizer a seus irmãos; estes faziam eco; de Paris, de Londres, de Amsterdã,
lançávamos as palavras 'Partenon! Fraternidade!' e, em alguma parte da África,
da Ásia, lábios se entreabriam: '...tenon! ...nidade!'. Era a idade de ouro."
Sartre foi a grande voz da consciência europeia anticolonialista. Filósofo,
escritor, romancista, jornalista, panfletista, das ruas e das praças públicas de
Paris desafiou a sociedade conservadora e retrógrada, as "forças da ordem",
os poderes constituídos da República, colocando-se sempre em defesa dos
oprimidos, da liberdade de expressão e das manifestações de solidariedade
aos que se opunham à opressão, à hipocrisia, ao medo e ao oportunismo.
Representou a grande força moral da inteligência livre e independente.i
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O S É C U L O XX
Naquele momento, estava no auge o confronto entre dominadores e do-
minados, ou seja, entre colónias e metrópoles. Povos e regiões da Terra que
tinham sofrido, no passado, a ocupação direta por países estrangeiros, come-
çavam a manifestar, por meios diversos, a sua insatisfação. A Ásia, por exem-
plo, fora berço de civilizações magníficas que marcaram conquistas funda-
mentais da Humanidade, no tocante ao domínio sobre a natureza e o avan-
ço técnico, tais como a domesticação de animais, a agricultura para a obten-
ção de alimentos, a cerâmica para a fabricação de utensílios, a metalurgia, o
papel, a pólvora, bem como instituições que tornaram possível a vida social
(cidades, organizações políticas que levaram à constituição de Estados, a
moeda, a escrita). A Ásia ostentava, de fato, uma vivência histórica de 5 mil
anos. No entanto, a partir do século XVI, com as primeiras navegações eu-
ropeias que atingiram o Índico e o oceano Pacífico, o isolamento dessas ve-
lhas civilizações começava a ser interrompido.
Foi, porém, a partir do século XVIII e, sobretudo, com a superioridade
técnica ostentada pelos paíséída revolução industrial e capitalista (principal-
mente a Inglaterra e a França, logo seguidas pela Holanda) que os povos al-
tamente civilizados da Ásia, dotados de padrões éticos bem diversos dos va-
lores fundados na preeminência dos bens materiais, valores esses que se in-
troduziam incorporados à ocupação ocidental, viram-se ameaçados pela
perda de sua identidade cultural. Tratava-se de mais ainda, ou seja, a perda
de riquezas, de autonomia, como uma tentativa de ser-lhes arrancado o pas-
sado pelas raízes.
Quanto à África, a espoliação de que foi vítima tivera início no século
XVI com os desembarques no litoral ocidental atlântico, inicialmente em
busca de ouro e, logo a seguir, como fonte supridora de escravos negros, o
inusitado trabalhador, transformado em mercadoria altamente lucrativa, que
iria enriquecer os comerciantes e ser a mão-de-obra das novas colónias da
América. Os invasores mudaram os velhos e sólidos padrões das sociedades
tribais, impondo o racismo e outras formas de corrupção em decorrência do
tráfico de homens, mulheres e jovens mal saídos da infância.
Ao longo do século XIX, aprofundou-se a ocupação do continente afri-
cano; seus povos e seus territórios foram partilhados entre as potências da
Europa, já então monopolizadoras do novo saber científico e tecnológico da
Revolução Industrial e das técnicas da organização económica do capitalis-
mo. A Europa entrava, a partir dos anos 70 do século XIX, numa nova era
de expansão e conquista do mundo. A essa era os próprios contemporâneos
denominaram de imperialismo.
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l
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Como justificar essa investida europeia sobre o mundo? Recentemente,
um historiador árabe, nascido na Palestina, mas de longa e profunda vivência
na Europa (Inglaterra) e nos Estados Unidos, Edward W. Said, num livro com-
plexo e erudito, analisou esse problema — o das relações entre, de um lado, o
imperialismo, ou seja, a extensão do domínio e da soberania sobre diferentes
populações e territórios, com o objetivo de aumentar força e poder, e, de
outro, a cultura. Trata-se, fundamentalmente, em saber — e explicar — como
intelectuais ilustres (as visões e perspectivas de Joseph Conrad, Jane Austen, a
ópera Aída, de Verdi) vêem e justificam a atuação do homem branco civiliza-
dor em outras regiões e junto a outros povos. Trata-se, evidentemente, de po-
líticas que serviram a interesses concretos de industriais, comerciantes e ban-
queiros, em busca de lucros e novas áreas de investimentos, escudados, para
tanto, na Igreja, em busca da propagação da Fé, nos exércitos e nas marinhas,
que mantinham poderosas indústrias, no Estado de caráter burguês, garanti-
dor da grandeza de seus cidadãos, e nos intelectuais, em busca de temas, lei-
tores e poder. A experiência imperialista era parte do cotidiano.
Bernard Shaw (1856-1950), escritor britânico e com sólidas origens ir-
landesas, encarava de outra forma os fins do imperialismo. Escrevia ele em
O homem do destino:
"O inglês nasce com certo poder milagroso que o torna senhor do mundo.
Quando deseja uma coisa ele nunca diz a si mesmo que a deseja. Espera pa-
cientemente até que lhe venha à cabeça, ninguém sabe como, a insopitável con-
vicção de que é seu dever moral e religioso conquistar aqueles que têm a coisa
que ele deseja possuir. Torna-se, então, irresistível [...] Como grande campeão
da liberdade e da independência, conquista a metade do mundo e chama a isso
de colonização. Quando deseja um novo mercado para seus produtos adultera-
dos de Manchester, envia um missionário para ensinar aos nativos o evangelho
da paz. Os nativos matam o missionário; ele recorre às armas em defesa da
cristandade; luta por ela, conquista por ela; e toma o mercado como uma re-
compensa do céu [...]"
Bernard Shaw representava, em plena era do imperialismo, a consciência
crítica da Inglaterra aliada ao espírito irredento do irlandês dublinense, con-
testador por princípio. Mas a sorte dos impérios coloniais não seria longa. A
crise do capitalismo, a partir de 1929, a ascensão fulgurante do nazi-fascis-
mo aliada à emergência do Japão, no Extremo Oriente, como se estivesse a
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O S É C U L O XX
confirmar os temores do Império Alemão do Kaiser Guilherme n quanto ao
perigo amarelo, o desencadeamento da guerra em 1939 e sua expansão mun-
dial até 1945, todos esses são os fatores que irão desencadear a desagregação
dos impérios, nos anos que sucederam o fim do conflito mundial.
Restará sempre uma pergunta: o imperialismo como sistema jurídico-po-
lítico-militar chegará ao seu fim na década de 1980, no entanto, que novas
formas de dominação irão favorecer e consolidar a divisão do mundo entre
ricos e pobres e com que novas ou velhas justificativas? Tentaremos respon-
der a esta questão ao longo do presente texto.
1. A DESCOLONIZAÇÃO NO PÓS-GUERRA
A guerra ainda não terminara de todo na Europa e no Extremo Oriente,
quando se reuniu, em abril-junho de 1945, a Conferência de São Francisco,
Estados Unidos, com o objetivo de discutir, entre os aliados militares vitorio-
sos sobre o nazi-fascismo, a feitura de uma Carta ou de uma Constituição in-
ternacional capaz de assegurar a paz entre os povos. Daí resultou a Carta da
Organização das Nações Unidas (ONU), que recebeu a assinatura de cerca
de 50 Estados fundadores. Decorrido um quarto de século, esse número che-
gou a 120, o que serve como indicador da rapidez com que se deu o proces-
so de constituição dos novos Estados afro-asiáticos.
Neste fim de século, o número de países membros da ONU já é superior
a 190. Novos países emergiram das lutas contra o colonialismo, acrescentan-
do-se, ainda, nos anos mais recentes, aqueles que resultaram do desmorona-
mento dos Estados socialistas na Europa, bem como de desmembramentos
na Ásia, no subcontinente indiano, no Oriente Médio e na própria África, re-
sultantes de velhas heranças tribais e reivindicações internas, reivindicações
essas, em parte, alimentadas pelos interesses externos, quer da antiga metró-
pole quer das rivalidades internacionais então em jogo.
Tratava-se de um processo de mudança que teve início logo após o tér-
mino da guerra na Europa, e se intensificou na década de 1950. Nas colónias
africanas, o movimento de participação no conflito mundial foi acentuado,
desde o primeiro chamado da metrópole à solidariedade de súditos e colo-
nos, com consequência positiva no pós-guerra, no tocante ao movimento de
independência.
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Na Ásia, a insatisfação era grande nas classes dirigentes locais, sobretu-
do no mandarinato, os letrados privilegiados que monopolizavam saber e
prestígio. Maior insatisfação, no entanto, residia entre camponeses que re-
presentavam o grosso da população colonizada e que, cada vez mais, se jun-
tavam aos movimentos