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Diagnóstico Cinético-Funcional e Imaginologia – Membros Superiores, Cabeça e Tronco Lao-Tsé Munhoz Windson © 2016 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente Acadêmico de Graduação e de Educação Básica Mário Ghio Júnior Conselho Acadêmico Alberto S. Santana Ana Lucia Jankovic Barduchi Camila Cardoso Rotella Cristiane Lisandra Danna Danielly Nunes Andrade Noé Emanuel Santana Grasiele Aparecida Lourenço Lidiane Cristina Vivaldini Olo Paulo Heraldo Costa do Valle Thatiane Cristina dos Santos de Carvalho Ribeiro Revisão Técnica Isabel Cristina Chagas Barbin Editorial Adilson Braga Fontes André Augusto de Andrade Ramos Cristiane Lisandra Danna Diogo Ribeiro Garcia Emanuel Santana Erick Silva Griep Lidiane Cristina Vivaldini Olo 2016 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Windson, Lao-Tsé Munhoz F475a Diagnóstico cinético-funcional e imaginologia - membros superiores, cabeça e tronco / Lao-Tsé Munhoz Windson. – Londrina : Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2016. 192 p. ISBN 978-85-8482-661-2 1. Fisioterapia. 2. Anatomia. 3. Diagnóstico por imagem. I. Título. CDD 617.5 Sumário Unidade 1 Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro ............7 Seção 1.1 Avaliação fisioterapêutica .............................................................9 Seção 1.2 Avaliação dos sinais vitais .......................................................... 17 Seção 1.3 Anatomia e cinesiologia do ombro ........................................... 28 Seção 1.4 Imaginologia do ombro .............................................................. 39 Unidade 2 Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem .................................................................................................... 51 Seção 2.1 Avaliação fisioterapêutica do ombro ......................................... 53 Seção 2.2 Testes especiais do ombro........................................................... 65 Seção 2.3 Anatomia, cinesiologia e imaginologia do cotovelo ................................................................................... 76 Seção 2.4 Avaliação fisioterapêutica do cotovelo ...................................... 87 Unidade 3 Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem ............................................................................................. 99 Seção 3.1 Anatomia, cinesiologia e imaginologia do punho ................101 Seção 3.2 Avaliação fisioterapêutica do punho .......................................113 Seção 3.3 Anatomia, cinesiologia e imaginologia da mão .....................124 Seção 3.4 Avaliação fisioterapêutica da mão ...........................................136 Unidade 4 Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem ...........................................................................................149 Seção 4.1 Anatomia, cinesiologia e imaginologia da cabeça .................151 Seção 4.2 Avaliação fisioterapêutica da cabeça .......................................160 Seção 4.3 Anatomia, cinesiologia e imaginologia do tórax ...................168 Seção 4.4 Avaliação fisioterapêutica do tórax .........................................177 Palavras do autor Bem-vindo, aluno de fisioterapia! Vamos ingressar no estudo sobre diagnóstico cinético-funcional e imaginologia dos membros superiores, cabeça e tronco. Aqui vamos mostrar quão importante para o paciente é a correta interpretação dos dados avaliados, para que assim, o profissional fisioterapeuta consiga elaborar o tratamento mais apropriado à queixa do paciente. Por meio de uma série de situações apresentadas ao longo do livro, será possível realizar uma avaliação diagnóstica baseada na correta interpre- tação dos dados coletados do paciente que serão revertidos num tratamento condizente. Na aprendizagem do diagnóstico cinético-funcional, abordaremos a coleta de informações e o estudo das estruturas anatômicas do corpo humano, em que estudaremos os movimentos articulares, os agentes desses movimentos, a força, o desenvolvimento e a velocidade com que os músculos os realizam. Ainda serão estudados os testes que incluem a capacidade de suprimento sanguíneo local e inervação e as técnicas dos exames manuais para a confirmação dos exames complementares de imagem. E por fim, você ainda estudará os testes especiais que são realizados com o objetivo de encon- trar os agentes causadores de limitações e doenças. A visão crítica e a minuciosa interpretação das informações coletadas do paciente na anamnese dos resultados dos exames de imagens e do resul- tado das avaliações podem incorrer em diferentes conclusões, cabe assim ao profissional fisioterapeuta saber filtrar e interpretar essas informações de forma prudente e correta, o que resultará na elaboração de um tratamento humanizado e personalizado de acordo com o problema daquele determi- nado paciente. Aqui, você receberá as ferramentas para se preparar e aprofundar nos temas propostos, a fim de se tornar um profissional de mais alto valor. Está pronto? Então, vamos começar nossa jornada! Unidade 1 Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Convite ao estudo Todo profissional da área de saúde, antes de iniciar um tratamento, precisa planejar e realizar uma série de procedimentos baseados nas condi- ções físicas, psicológicas e sociais de um paciente. Desta forma, começamos a enxergar o paciente, por meio da coleta de informações realizadas em uma anamnese, que constitui uma entrevista que nos dará informações pessoais e familiares do indivíduo, para assim compreendermos as condições, queixas, limitações e restrições que esse paciente apresenta no momento. Nesta unidade de ensino, você irá estudar e compreender os processos de anamnese, de avaliação dos sinais vitais e sobre a correta interpretação dos exames em imaginologia. Para isso, é necessário o perfeito conhecimento de anatomia e cinesiologia das estruturas anatômicas, sendo assim, ainda nesta unidade, você também revisará o estudo sobre a anatomia e cinesiologia do ombro, para que seja capaz de desenvolver uma avaliação fisioterapêutica adequada àquela determinada situação clínica. Competência geral: Conhecer os métodos de avaliação cinético-funcional e de diagnóstico por imagem de membros superiores, cabeça e tronco. Competência técnica: Conhecer e aplicar os métodos de avaliação do ombro. Objetivos: • Compreender e aprender a realizar uma anamnese. • Compreender e aprender a elaborar uma ficha de avaliação em fisioterapia. • Aprender a realizar uma inspeção física. • Aprender a verificar os sinais vitais. • Aprofundar o conhecimento da anatomia biomecânica e cinesiologia do ombro. • Compreender e aprender a interpretar resultados e diagnósticos de exames por imagem do ombro. • Aplicar o conhecimento adquirido no estudo em situações próximas da realidade profissional. Com a finalidade de ajudar a desenvolver as competências acima e atender aos objetivos específicos do tema abordado, vamos apresentar uma situação clínica real, que auxiliará no processoSeção 1.4 / Imaginologia do ombro - 43 Apesar da RNM ser um exame de alta definição e com ampla visão de estruturas anatômicas, o exame de ultrassonografia (USG) do ombro pode oferecer um diagnós- tico de lesão de tecidos moles com um custo bem menor e mais rápido. Esse exame é realizado para repro- duzir imagens dinâmicas em tempo real das estruturas do ombro. Se faz uso de um transdutor que desliza sobre a pele, auxiliado pelo contato de um gel de deslize, e assim capta imagens do ombro e transfere para um monitor, no qual o próprio examinador verifica e formula um diagnós- tico do que está observando. Figura 1.12 | RMN de ombro – cortes sagitais Fonte: iStock. Figura 1.13 | TC de ombro – cortes sagitais Fonte: iStock. 44 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Vocabulário Osteófitos: calcificações inflamatórias que se propagam de um osso para seu tendão ou ligamento. Radiopacos: imagens mais claras ou transparentes na película do filme de um RX ou TC. Reflita Apesar de o ombro ser envolvido por muitos músculos, a maior parte das lesões estão relacionadas aos músculos estabilizadores da bainha rotatória. Observe as lesões de trabalho e de prática esportiva. Exemplificando Um pintor de parede tende a ter dores ou lesões do ombro em razão da posição elevada dos membros, obrigando um esforço maior dos estabi- lizadores. Faça você mesmo Identifique nesta imagem as estruturas anatômicas do ombro. Figura 1.14 | RX Ombro AP Fonte: iStock. Seção 1.4 / Imaginologia do ombro - 45 Sem medo de errar Após o estudo desta seção, você pode relacionar as informações coletadas do paciente e correlacionar com o que pode ser observado nos exames de imagem e compreender o mecanismo que gerou a lesão e as limitações, e assim dar continuidade ao exame físico estudado na próxima seção. Relembrando nosso caso clínico sobre o paciente que jogava voleibol esporadicamente, porém, relatou sentir dor ao executar um movimento brusco de flexão com abdução de ombro para elevar o membro na intenção de executar uma extensão forçada (cortada do vôlei), o que pode ter gerado uma lesão de estabilizadores do ombro. “No hospital foi solicitado RX de ombro e de tórax e exames laboratoriais”. Mas o que foi visto nesses exames de RX? E quais são as técnicas para estudo anatômico que denunciam altera- ções na estrutura anatômica e que causam prejuízos funcionais no ombro? Atenção As imagens devem complementar o diagnóstico e trazer informações que não são possíveis de se obter no exame clínico, tais como extensão da lesão, fraturas, fraturas incompletas, grau da luxação, ou que indiquem que a doença já existia no momento da lesão, como no caso de calcifica- ções que denunciam lesões crônicas. Os exames de imagem são funda- mentais para auxiliar uma avaliação fisioterapêutica do ombro e precisar um possível diagnóstico de lesão. Foram vistas durante o exame no RX de ombro todas as estruturas anatô- micas, como os acidentes ósseos, e vista também a posição das articulações na imagem, em que não observaram luxações ou fraturas, justificando o fato de não ter sido imobilizado. As técnicas para estudo são de comparação da estrutura vista nos RX e a estrutura normal, e com auxílio de radiografias que testam movimentos em estresse como RX de ombro em rotação externa, e com abdução a 90 graus para se verificarem lesões da cápsula articular. Faça você mesmo Caro aluno, até esta etapa de seus estudos, você já obteve todo o conhe- cimento teórico e prático necessário para a realização de uma avaliação fisioterapêutica completa do ombro, dessa forma, convidamos você a elaborar uma ficha de avaliação fisioterapêutica para o ombro de uma pessoa de sua família ou um colega. Para isso é importante que você realize uma revisão das quatro seções da Unidade 1. Boa sorte! 46 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Avançando na prática Agora que você conhece as noções de imaginologia do ombro, já é possível interpretar e identificar as estruturas anatômicas e discutir possíveis movimentos e traumas que causam lesões no ombro. Observe a imagem a seguir e tente descobriu se existe alguma irregularidade anatômica. Queda de um ciclista Descrição da situação-problema Após uma queda, um ciclista sentiu muitas dores no ombro e não pôde movimentar o membro superior esquerdo (MSE). Ele foi ao serviço de pronto atendimento e realizou uma radiografia da região do ombro esquerdo. Observe a imagem a seguir da radiografia que foi realizada no PS; você pode identificar as possíveis alterações encontradas e correlacionar com as estru- turas anatômicas envolvidas nessa região? Figura 1.15 | Radiografia do ombro Fonte: iStock. Seção 1.4 / Imaginologia do ombro - 47 Lembre-se Siga o roteiro para visualizar uma imagem de radiografia ensinado neste livro didático e encontre as estruturas anatômicas, posicione no local correto e imagine as estruturas que não são vistas na imagem. Resolução da situação-problema A imagem exibe um RX na incidência em AP (anteroposterior) com uma luxação total da articulação glenoumeral com ruptura de ligamentos, cápsula articular e inflamação ou até possíveis lesões musculares. Faça você mesmo Compare as imagens de radiografia com as imagens de estruturas ósseas estudadas em anatomia e depois selecione uma imagem de ressonância nuclear magnética e compare com imagens de músculos e tendões que passam pelo ombro. Esse exercício irá ajudá-lo a fixar melhor as estru- turas encontradas no ombro. Faça valer a pena 1. Nos RX de ombro, incidência de AP verdadeiro, é possível observar as estruturas anatômicas, porém, algumas estruturas não são vistas na película dos RX e sim identifi- cadas por exclusão ou espaços que estas ocupam. Na imagem discutida no texto, as estruturas mais bem vistas na película, trata-se de: a) Cápsula e ligamentos articulares. b) Apenas os ossos e possíveis calcificações patológicas. c) Os músculos da bainha rotatória. d) Todas as estruturas anatômicas do ombro que incluem os ossos e tecidos moles. e) Todos os músculos superficiais e profundos. 2. Um jovem com lesão de ombro foi encaminhado para o pronto socorro e realizou um exame que não foi conclusivo, tendo que realizar outro exame que diagnosticou lesão de um terço do tendão do músculo supraespinhal com derrame articular. Dentre os exames de imagem, qual é o mais provável que indicou as características da lesão do jovem? a) Os RX simples em AP de ombro. b) A radiografia em estresse de ombro. c) A ressonância magnética para identificar a extensão e riscos da lesão. 48 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro d) Realizou apenas um exame clínico. e) Não é possível fazer esse tipo de diagnóstico. 3. O exame de imagem com melhores resoluções anatômicas e que tem maior precisão no exame de lesões do tendão do músculo supraespinhal é: a) A radiografia simples. b) A tomografia computadorizada. c) A ressonância nuclear magnética. d) A eletroneuromiografia. e) Nenhum dos exames anteriores tem capacidade de estudar a região do ombro. Referências BEHNKE, R. S. Anatomia do movimento. 3. ed. Porto Alegre: ArtMed, 2015. COFFITO. Formação acadêmica do fisioterapeuta. [s.d.]. Disponível em: http://coffito.gov. br/nsite/?s=fisioterapeuta+e+exames+complementares. Acesso em: 24 abr. 2019. CREFITO-3. Disponível em: http://www.crefito.com.br/repository/revistas/FisioEd2_2015.pdf. Diagnóstico complementar para fisioterapia resolutiva. Fisioterapia em revista, ano 3, edição 2, 2015. Acesso em: 22 fev. 2016. EVANS, N. Anatomia da musculação. São Paulo: Manole, 2007. FUNARI, M. B. G. Radiologia e diagnóstico por imagem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. JOÃO, S. M. A. Métodos de avaliação clínica em fisioterapia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. KÖPF-MAIER, P. Wolf-Heidegger –atlas de anatomia humana. 6. ed. Traduzido sob asuper- visão de Hélcio Werneck. Rio de Janeiro: GuanabaraKoogan, 2006. LIPPERT, L. S. Cinesiologia clínica e anatomia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. MARQUES, A. P. Manual de goniometria. 3. ed. São Paulo: Manole; Guanabara Koogan,2014. PALMER, M. L.; EPLER, M. E. Fundamentos das técnicas de avaliação musculoesquelética 2. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. RASCH, P. J. Cinesiologia e anatomia aplicada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,1991. REISER, M; BAUR-MELNYK, A; GLASER, C. Diagnóstico por imagem: musculoesquelético1. Porto Alegre: Artmed, 2009. SACCO, I. C. N.; TANAKA, C. Fisioterapia: teoria e prática clínica: cinesiologia e biomecânica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. TORRES, D. de M. Fisioterapia: guia prático para a clínica. Guanabara Koogan, 2006. Unidade 2 Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Convite ao estudo Em continuidade ao estudo do diagnóstico físico-funcional do membro superior, vimos que o ombro é formado por estruturas relacionadas aos movimentos do membro superior. Agora vamos estudar como vários movimentos que realizamos no dia a dia, no esporte e no trabalho podem sobrecarregar o ombro e, como consequência dessa sobrecarga, compro- meter e até lesionar as regiões do braço, cotovelo, antebraço, punho e mão, ou o inverso; estudar as lesões nessas regiões que resultam na sobrecarga do ombro. Também serão apresentadas as estruturas e as funções dos membros superiores. Você verá que testar as mobilidades desses membros é importante para se realizar um diagnóstico referente às limitações que cada patologia pode provocar. Competência geral: Conhecer os métodos de avaliação cinético-funcional e de diagnóstico por imagem de membros superiores, da cabeça e do tronco. Competência técnica: Conhecer e aplicar os métodos de avaliação do cotovelo. Objetivos: Promover o conhecimento das estruturas anatômicas e funcionais do membro superior. • Compreender os limites de mobilidades articulares. • Aplicar testes de avaliação do ombro. • Aprofundar o conhecimento sobre a anatomia biomecânica e a cinesiologia do cotovelo. • Desenvolver noções de exames por imagem do cotovelo. • Aplicar testes de avaliação do cotovelo. Para auxiliar no desenvolvimento das competências anteriores e atender aos objetivos específicos do tema abordado, vamos apresentar uma situação clínica real, que auxiliará no processo de aprendizagem teórico e prático. Vamos lá! Um jovem de 17 anos do sexo masculino, destro, chegou ao consultório médico relatando dores no ombro, na região superior e lateral do deltoide, e no braço, na região do epicôndilo lateral esquerdo, associado à sensação de formigamento. Ele declara ter ingerido analgésicos anti-inflamatórios não esteroidais sem orien- tação médica, mas estes medicamentos não surtiram efeito. Em decorrência do abuso medicamentoso, sofreu fortes dores abdominais na região epigástrica, levando-o a procurar um pronto atendimento. Em sua história clínica, relata estar em ano pré-vestibular para curso de engenharia e tem estudado no período da manhã. Além disso, faz cursinho preparatório à tarde e pratica judô no período da noite duas vezes na semana, com duas horas de treino. O paciente não se queixa de falta de sono à noite, mas se sente fisicamente cansado em alguns momentos do dia. Não se recorda de ter sofrido lesão ou trauma no treino ou fora dele não reportou doença familiar e nunca passou por problema de saúde semelhante a esses. O médico o orientou a procurar um gastroenterologista para avaliar possíveis dispepsias de origem medicamentosa e psicológica, justificada pelo consumo do medicamento e pelo período de pressão psicológica, fatos estes que podem manifestar estresse e quadros patológicos somáticos. O médico também solicitou exames de radiografias e uma eletroneuromiografia para avaliar a condição neuromuscular do membro. Encaminhou o paciente para fisioterapia com diagnóstico de epicondilite lateral esquerda. A avaliação fisioterapêutica identificou dores no ombro esquerdo durante a abdução, dor epicondilar lateral esquerda, tensão e fraqueza muscular no membro, dificuldades de extensão de dedos e punho e estresse. Mas quais são os pontos em que devemos fazer os testes e as palpações no ombro? Qual é a relação entre as lesões distais com as dores no ombro? Seção 2.1 / Avaliação fisioterapêutica do ombro - 19 Avaliação fisioterapêutica do ombro Diálogo aberto Bem-vindo à nova seção! Aqui trataremos inicialmente assuntos pertinentes à avaliação fisioterapêu- tica do ombro e do braço, abordando as técnicas que verificam a condição física dessas regiões. Esse estudo é realizado por meio da avaliação da anatomia de superfície, da palpação e da inspeção. Agora voltemos à situação hipotética apresentada no Convite ao estudo. O jovem de 17 anos que sofre de dores no ombro e no braço, mais especifi- camente na região do epicôndilo lateral esquerdo, foi diagnosticado com epicon- dilite lateral com comprometimento dos tendões e dos músculos extensores de dedos e punho, relacionado com o estresse pré-vestibular. Posteriormente, foi diagnosticado pelo fisioterapeuta dores, perdas funcionais da força e da amplitude de movimentos e estresse. Uma das queixas do paciente era a dor no ombro na região do deltoide, porém não foi incluso no diagnóstico como uma lesão. Refletindo sobre esse relato de caso clínico, quais foram os exames físicos de inspeção e palpação que foram utilizados para chegar a esse diagnós- tico fisioterapêutico? O que é necessário para responder a essa pergunta da situação-problema? Para responder às perguntas, é necessário conhecer as técnicas de inspeção e palpação descritas neste livro didático e aplicar a esse caso clínico. Seção 2.1 Não pode faltar 1. Exame de palpação Uma avaliação tem início com a ectoscopia, que é o exame geral que compara os dados e identifica possíveis alterações, incluindo todo o exame físico geral e sinais vitais estudados na unidade anterior. Por exemplo, a comparação entre as diferenças de volume, altura e tensões entre os ombros direito e esquerdo podem ser sinais ou sintomas que se relacionam à lesão estudada. Já a avaliação prática específica do ombro se inicia localizando os seguintes ossos: clavícula, escápula e epífise proximal do úmero. Para você realizar um exame de superfície e palpação, e ainda verificar alterações locais, tente realizar o exame prático em você mesmo e reproduzir posteriormente em um colega de sala, como forma de treinamento. 20 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Para melhor ser inspecionado e palpado, o paciente deve estar sentado com a coluna ereta. Inicie o exame procurando por alterações de cores, temperatura, volume, deformidades ou atrofias, ou ainda procure por alguma postura que denuncie desvios e/ou posições antálgicas. Atenção Os exames aqui descritos devem ser aplicados tanto no membro a ser tratado, quanto no membro saudável, pois este lhe dará um padrão de referência à normalidade para o indivíduo. O tônus, o volume e a força de cada indivíduo dependem de suas ativi- dades de vida diária (AVDs), da profissão, do esporte, da idade e da condição biológica. Na região do ombro, é possível palpar toda a superfície da clavícula na região superior do tronco, na divisão entre o pescoço e o tórax (Figura 2.1). A clavícula em pessoas magras pode formar, com sua borda superior, a popular “saboneteira anatômica”. Verifique se na palpação do corpo da clavícula existem dores ou edemas, pois nessa região estão as inserções dos músculos ester- nocleidomastoideo, músculo subclávio, músculo deltoide, fibras anteriores e fibras superiores do músculo peitoral maior. O esternocleidomastoideo deve ser palpado e acompanhado até o processo mastoideo na face posterior ao pavilhão auricular. As fibras anteriores do deltoide têm origem na borda anterolateral da clavícula e se inserem na tuberosidade deltoidea. As fibras médias desse músculo têm origemno acrômio e, por fim, as fibras posteriores têm origem na espinha da escápula. O peitoral nas fibras superiores deve ser palpado até o sulco bicipital. As outras fibras do peitoral seguem até o corpo do esterno descendo até a altura da 6ª ou 7ª cartilagem costal. Figura 2.1 | Identificação da clavícula Fonte: Junqueira (2008, p. 89). Seção 2.1 / Avaliação fisioterapêutica do ombro - 21 Exemplificando Como alguns músculos estão profundamente escondidos, é possível realizar palpação por projeção, como é o caso do músculo subclávio. Se você palpar a borda inferior da clavícula, estará pressionando tecidos moles que entrarão em contato com o músculo que adere este osso à primeira costela. Palpe agora o esterno na direção lateral e encontrará seu ponto de união com o acrômio, articulação acromioclavicular. Verifique a altura dessa saliência e compare com a do outro membro. O aumento do volume articular pode repre- sentar artroses ou luxações crônicas. Procure alterações de cor e edemas. Palpe agora a face lateral da articulação acromioclavicular e procure um espaço na face inferior que a separa da articulação glenoumeral, que se localiza logo abaixo. Nesse espaço, estão situadas as bursas sinoviais, onde ocorrem as bursites, que também dão a passagem dos tendões dos músculos da bainha rotatória, como a supraespinal, a infraespinal e o redondo menor. Figura 2.2 | Localização do acrômio (esq.); palpação da articulação acromioclavicular (dir.) Fonte: Junqueira (2008, p. 93-94). Reflita Quando estudamos a síndrome do impacto, na unidade anterior, vimos que a bainha rotatória e, principalmente, o tendão e o ventre do músculo supra- espinal podem inflamar. A região palpada aqui pode denunciar clinicamente um processo inflamatório da bainha se o paciente identificar nesse ponto a origem da dor. Também podemos encontrar nessa região lesões do próprio músculo ou tendão do supraespinal, como rupturas incompletas ou bursites. Agora realize passivamente os movimentos anatômicos do úmero com a escápula e com a clavícula, procurando por estalidos ou dores. Se não for referido dor, peça para o paciente realizar os movimentos ativos, mas com seu apoio. 22 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Exemplificando Em algumas lesões não é possível evidenciar sinais inflamatórios com a palpação ou mobilização passivamente. Elas são evidenciadas a partir de movimentos ativos, geralmente por estarem localizadas muito profunda- mente e protegidas por estruturas ósseas ou cartilagíneas. O prolongamento do acrômio na face posterior forma a espinha da escápula, facilmente palpável. Encontre-a e teste a inserção das fibras superiores do trapézio nessa região (também é possível localizar a espinha da escápula acompanhando as fibras superiores do trapézio até encontrar uma saliência), conforme indica a Figura 2.3, e, posteriormente, pressione a fossa superior da espinha, onde se origina o músculo supraespinal. Verifique tensões e dores nesse músculo e na região. O músculo supraespinal é respon- sável pelos movimentos de abdução do ombro e estabilidade articular. Indivíduos que realizam esses movimentos de maneira repetitiva podem apresentar esse músculo muito tenso. Repita a mesma inspeção na fossa inferior da espinha, onde está o músculo infraespinal. Ao final da espinha escapular com a borda medial da escápula está o “triângulo da espinha da escápula”, região onde se insere o músculo elevador da escápula, algumas fibras do romboide e fibras inferiores do trapézio. Essa região pode ser muito dolorosa e local de origem de cervico- braquialgias, dores dorsais e incômodos nos movimentos do membro superior, quando inflamada. Como estes dois músculos, supraes- pinal e infraespinal, se inserem no tubér- culo maior do úmero, palpe o percurso do músculo até suas inserções, para verificar se existe dor ou alterações anatômicas. A posição ideal do úmero neste momento é em posição anatômica ou em rotação externa (lateral), local em que o tubérculo menor estará medialmente ao maior (Figura 2.4). Entre esses tubérculos, a fossa intertubercular, ou bicipital, deve ser palpada e, assim, será possível verificar se existem dores no tendão da porção longa do bíceps braquial que passa por essa fossa (Figura 2.5). Na crista do Figura 2.3 | Espinha escapular (esq.); fossa supraespinal (dir.) Fonte: Junqueira (2008, p. 96 e 105). Seção 2.1 / Avaliação fisioterapêutica do ombro - 23 tubérculo maior também está a inserção do músculo peitoral maior. Acompanhe as fibras desse músculo, que têm origem no já mencionado corpo da clavícula, mas também nas cartilagens costoesternais da 1ª à 7ª costela, em direção ao tórax. Uma manobra que pode facilitar para não confundir o tubérculo menor com a cabeça do úmero é realizar no paciente, durante a palpação, leves rotações externas e internas de forma passiva. Assim, será possível sentir melhor a saliência do tubérculo menor. O sulco bicipital pode ser muito sensível em traumas e lesões como tendi- nites ou miosites do bíceps, mas deve-se ter cuidado para não confundir com dores de músculos que se inserem nos tubérculos maior e menor. A palpação no processo coracoide, local de inserções e origens, como do músculo peitoral menor, porção curta do bíceps braquial e o músculo coracobraquial, pode ser feita no terço lateral (distal) e inferior da claví- cula, mas os músculos do ombro devem estar bem relaxados. É uma área sensível. Compare com a palpação do tubérculo menor e note que a palpação do processo coracoide é mais superior, mas com movimentos realizados levemente, buscando uma saliência (Figura 2.5). Figura 2.4 | Tubérculo maior do úmero (esq.); tubérculo menor (dir.) Fonte: Junqueira (2008, p. 112-113). Figura 2.5 | Sulco bicipital (esq.); processo coracoide (dir.) Fonte: Junqueira (2008, p. 108 e 115). 24 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Assimile O músculo bíceps braquial tem duas origens e, portanto, duas cabeças e dois tendões. A porção longa passa pelo sulco bicipital, se inserindo no tubérculo supraglenoidal, e a porção curta passa medialmente à cabeça do úmero para se inserir no processo coracoide. A inserção desse músculo é na tuberosidade do rádio. Na palpação da cabeça do úmero e tubérculo infraglenoidal (Figura 2.6), o paciente deve estar em decúbito lateral, repousando sobre o lado contralateral que será examinado. Eleve o membro do paciente até que possa ser palpada a fossa axilar, procurando por alterações de volume e saliência, como em fraturas de lábio (labrum) glenoidal, e palpe também o tubérculo inflaglenoidal, onde se insere o tendão da cabeça curta do tríceps braquial. Figura 2.6 | Tubérculo infraglenoidal e cabeça do úmero Fonte: Junqueira (2008, p. 111). Assimile O músculo tríceps braquial tem três origens e, portanto, três cabeças e três tendões. A porção longa se origina na tuberosidade glenoumeral e na cápsula articular. As porções lateral e medial se originam na face posterior da diáfise umeral. A inserção é de um tendão formado por lâminas aponeu- róticas, aderindo-se à face posterior do olécrano. Pesquise mais Para saber mais sobre o exame de palpação do ombro e braço, leia o livro: JUNQUEIRA, L. Anatomia palpatória: tronco, pescoço, ombro e membros superiores. 2. ed. São Paulo: Guanabara Koogan, 2008. 2. Testes de força muscular e mobilidade articular O teste de força deve acompanhar a amplitude de movimento do ombro assintomático que serve de parâmetro normal para comparação. Nosso ombro permite os seguintes movimentos: flexão, extensão, abdução, adução, rotação medial, rotação lateral e a associação de todos estes, a circundução. Esses movimentos devem ser testados contra uma resistência manual oferecida pelo fisioterapeuta, com objetivo de graduar a força muscular nos níveis. Segundo Torres (2006), podemos classificar a força de acordo com a Tabela 2.1.Seção 2.1 / Avaliação fisioterapêutica do ombro - 25 Fonte: Torres (2006, p. 56). Tabela 2.1 | graduação do nível de força muscular Grau 5 Norma (100%) Amplitude de movimento completa contra a ação da gravi- dade e com resistência. Grau 4 Bom (75%) Amplitude de movimento completa contra a ação da gravi- dade e com resistência moderada. Grau 3 (+) Regular (50%) Amplitude de movimento completa contra a ação da gravi- dade e com resistência mínima. Grau 3 Amplitude de movimento completa contra a ação da gravidade. Grau 3 (-) Alguma amplitude de movimento incompleta contra a ação da gravidade. Grau 2 (+) Fraco (25%) Inicia o movimento contra a gravidade. Grau 2 Amplitude de movimento completa sem a gravidade. Grau 2 (-) Inicia movimento sem a gravidade. Grau 1 Traço ou esboço Evidência de contração muscular, sem movimento articu- lar. Grau 0 Zero Nenhuma evidência de contração muscular. Os testes de mobilidade articular são medidos a partir da angulação com um goniômetro, que realiza a amplitude de movimento do ombro. Veja os itens da Figura 2.7: • Item A: posicione o braço fixo do goniômetro na linha média axilar, apontando para o trocanter maior do fêmur (para baixo), e o braço móvel na lateral do braço e voltado para o epicôndilo lateral. Faça uma flexão, que deve atingir 180°. • Item B: mantenha o braço fixo e realize a hiperextensão, que deve atingir 45°. • Item C: com o braço fixo paralelo ao solo, solicite a rotação interna e posicione o braço móvel entre olécrano e antebraço. • Item D: inverta a posição do goniômetro, com o braço fixo paralelo ao solo, e solicite uma rotação externa. Posicione o braço móvel na face do antebraço. • Item E: com o braço fixo, a linha axilar posterior e o braço móvel na superfície posterior do braço, voltado para o dorso da mão, solicite uma abdução, que deve atingir 90°. 26 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Fonte: Marques (2014, p. 18-23). Figura 2.7 | Goniometria dos movimentos do ombro 3. Teste cutâneo de dermátomo São as divisões de regiões do corpo supridas por seguimentos nervosos somestésicos (sensitivos) cutâneos medulares, ou seja, é uma área suprida por um ramo de uma única raiz medular sensitiva (Figura 2.8). Os dermá- tomos relacionados ao membro superior são das raízes nervosas de C5 a T1 que se formam na coluna vertebral. Utilize o estesiômetro, um equipamento próprio para o teste de dermá- tomo. No estesiômetro, os filamentos coloridos têm espessura e rigidez diferentes para testes. Comece o teste com o mais leve, que é o verde, passando para o azul e assim sucessivamente (Figura 2.8). A avaliação dos dermátomos é importante para identificar e classificar se os problemas motores têm origem nervosa, como em casos de lesões ou infla- mações vertebrais. Pode-se comparar as alterações com exames de imagem como RX ou TC ou RNM da coluna na região de origem da raiz nervosa. Seção 2.1 / Avaliação fisioterapêutica do ombro - 27 Fonte: http://www.centermedical.com.br/estesiometro- kit-teste-de-monofilamentos/p. Acesso em: 2 jul. 2016. Figura 2.9 | Estesiômetros Fonte: Torres (2006, p. 42). Figura 2.8 | Dermátomos Vocabulário Redução incruenta: correções de luxações e fraturas sem cirurgia. Sem medo de errar Após o estudo sobre a avaliação do ombro, é possível responder à “situa- ção-problema” na qual o jovem relatou estar sob estresse e sobrecarre- gado de atividades. Ele vinha se queixando de dores no membro superior esquerdo, nas regiões do ombro e do cotovelo, no entanto, com diagnóstico de epicondilite lateral esquerda. Atenção A lesão do cotovelo, punho e mão sobrecarrega o ombro, podendo causar lesões ou sobrecargas. Se ainda não houver uma lesão, no entanto, presença de sinais de sobrecarga e o tratamento não for reali- zado, o ombro também estará comprometido. Refletindo sobre esse relato de caso clínico, em quais pontos devemos fazer os testes e palpações no ombro? Qual é a relação entre as lesões distais com as dores no ombro? Os exames físicos de inspeção e de palpação realizados para diagnosticar foram a palpação das principais regiões de inserções ósseas, como a articulação acromio- clavicular, procurando alterações articulares no espaço abaixo dessa articulação; o subacromial, para identificar lesões nos tendões da bainha rotatória; e a palpação na inserção do deltoide e superior, procurando bursites subdeltoidea e lesões no 28 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Avançando na prática Agora que você conhece os itens de uma avaliação fisioterapêutica do ombro, transfira o que aprendeu para novas situações encontradas no ambiente de trabalho do fisioterapeuta. Sobrecarga no ombro Descrição da situação-problema Um homem de 32 anos, servente de pedreiro, chegou ao pronto-so- corro com queixas de dores no membro superior esquerdo, principalmente no ombro, e com incapacidade de movimentar o membro. Ele relata que o ocorrido iniciou após elevar um carrinho de mão com grande volume de entulho de construção civil. O paciente passou por exame físico e a ectoscopia apresentou deformi- dade no ombro esquerdo e sinal de “dragona de soldado”, mas sem sinais de “tecla de piano”. Ele foi palpado e examinado na região que apresentou a deformidade. Além disso, foi questionado ao paciente sobre formiga- mentos no membro, com o intuito de identificar alguma alteração nervosa, e diagnosticada uma luxação devido ao deslocamento observado no encontro entre úmero e escápula, denominada “dragona de soldado”. sulco bicipital para verificar tendinites do tendão longo do músculo bíceps braquial. Para se identificar a origem do problema, foram realizados o teste de força dos músculos deltoide, músculos da bainha rotatória e dos músculos peitorais com o músculo grande dosal. Além disso, foi verificada se a angulação está normal utili- zando um goniômetro para medir os valores de flexo-extensão, abdução-adução e rotações internas e externas. Também foi feita a verificação de miótomos com o estesiômetro, procurando alterações de sensibilidade local. Os resultados negativos para lesões e positivos para estresse muscular demonstrarão dores relativas a movimentos antálgicos com o objetivo de substituir ou compensar a falta de movimentos do antebraço e mão. Como foi diagnosticada uma tendinite de extensores de punho e epicon- dilite lateral esquerda, os movimentos do ombro passaram a ser compen- satórios e de postura antálgica. O antebraço e a mão sobrecarregaram o ombro, também devido à condição de tensão e estresse do momento em que o paciente vivia, causando dores e dificuldades de movimento. Seção 2.1 / Avaliação fisioterapêutica do ombro - 29 O homem foi encaminhado ao RX para confirmação de hipótese diagnós- tica (HD) e, também, para analisar a extensão da lesão. Após a confirmação, ele foi levado para realizar redução incruenta e orientado a refazer a radio- grafia para controle. Como foi possível diagnosticar a luxação no exame físico local? Lembre-se O objetivo da avaliação física é procurar alterações nas estruturas, como deformidades e alterações de volume, cor e temperatura. É comum usar topônimos para indicar alterações comuns em algumas lesões ou doenças, por exemplo: o termo “dragona de soldado” representa a semelhança que a luxação acromioclavicular apresenta com as ombreiras metálicas usadas em trajes de gala de soldados, e o termo “tecla de piano” está relacionado à semelhança da saliência que se forma na luxação acromioclavicular, mas flexível como uma tecla de piano; esses são alguns exemplos de topônimos. Resolução da situação-problema No exame clínico, a ectoscopia observou uma alteração estrutural. Na palpação subacromial é possível sentir uma luxação, que deverá ser confir- mada depois no exame de imagem. Foram realizados pelo fisioterapeuta os seguintes exames físicos: • Inspeção geral (ectoscopia), que notou desvios no ombro e sinaisde afastamento do braço do ombro. • Palpação do acrômio com a clavícula, que indicou não haver luxação acromioclavicular – sem sinal de “tecla de piano”. • Palpação na face inferior do acrômio, no espaço subacromial. Como o sinal de “dragona de soldado” foi positivo, é possível dizer que o espaço subacromial estava muito acentuado. • Correlação entre a dor e a incapacidade de movimentos do membro. • Verificação das alterações neurológicas com testes de dermátomos, sem sinais de lesão nervosa. Faça você mesmo Conhecendo os métodos de inspeção e palpação do ombro e as estru- turas relacionadas, realize os exames avaliativos em seus colegas de grupo e treine para adquirir habilidades de avaliação. 30 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Faça valer a pena 1. Um indivíduo de 52 anos, eletricista de casas domésticas, com queixa de perda de mobilidade e dores na região dos ombros, diabetes mellitus tipo 2 já há 5 anos, e com histórico familiar de pais diabéticos, foi diagnosticado pelo médico com condro- calcinose diabética. Como a região dessa doença atingiu toda a superfície da articulação glenoumeral, qual movimento pode ser perdido ou limitado para o paciente? a) As rotações laterais com elevação da escápula. b) As rotações mediais com depressão da escápula. c) A elevação e depressão da escápula. d) A depressão da escápula e extensão do ombro. e) Flexão, extensão, abdução, adução e rotações do ombro. 2. No exame de palpação do sulco intertubercular, dentre os grupos de tecidos avaliados, temos como objetivo palpar a: a) Inserção do músculo deltoide. b) Origem do músculo redondo menor. c) Passagem do tendão da cabeça longa do bíceps braquial. d) Passagem da fáscia aponeurótica do tríceps braquial. e) Inserção do peitoral menor. 3. Os músculos supraespinal, infraespinal e redondo menor se inserem no mesmo acidente ósseo. Para ser palpada sua inserção, o fisioterapeuta deve: a) Palpar o tubérculo infraglenoidal na fossa axilar. b) Palpar a borda lateral e medial do acrômio. c) Palpar a face inferior lateral da clavícula, no processo coracoide. d) Palpar o tubérculo maior do úmero. e) Palpar o corpo da clavícula. Seção 2.2 / Testes especiais do ombro - 31 Testes especiais do ombro Diálogo aberto Bem-vindo à seção que encerra a avaliação do ombro. Vamos conhecer os testes que devem ser feitos pelo fisioterapeuta durante a avaliação do ombro do paciente. Esses testes são chamados de especiais, pois servem para identi- ficar lesões frequentes nas estruturas tendinosas, musculares, articulares e ósseas que formam o ombro, com a finalidade de identificar lesões específicas e, por isso, cada estrutura anatômica deve ser colocada à prova para cada função muscular, tendínea, articular ou de estabilidade. Agora voltemos à “situação-problema” apresentada no Convite ao estudo. O jovem de 17 anos que sofre de dores no ombro e no braço na região do epicôndilo lateral esquerdo foi diagnosticado com epicondilite lateral esquerda decorrente de estresse pré-vestibular com comprometimento dos tendões dos músculos extensores de dedos, punho e mão. Posteriormente, o fisioterapeuta diagnosticou dores, perdas funcionais de força e amplitude de movimentos e, também, estresse. Uma das queixas do paciente era a dor no ombro na região do músculo deltoide, no entanto, não foi incluso no diagnóstico como uma lesão, apenas como queixa de dor. Refletindo e analisando essa situação, quais foram os testes que puderam confirmar a exclusão de uma lesão de ombro, confirmando apenas sobre- carga decorrente da lesão do cotovelo, punho e mão, sendo a causa das dores? Para que você consiga responder a esses e outros questionamentos sobre os testes clínicos fisioterapêuticos, serão apresentados de forma contextualizada na seção Não pode faltar os conteúdos necessários para a sua compreensão. Vamos lá, bons estudos! Seção 2.2 Não pode faltar 1. Testes especiais Aqui estudaremos os métodos de diagnóstico de uma lesão de ombro por meio de exame clínico especial, que trata de testes consagrados que identificam deficiência ou perdas de movimentos, alterações ou perdas de estabilidades ou que denunciam lesões e inflamações no local. Os principais testes que utilizaremos para resolver a nossa situação-pro- blema são: 32 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem 1. Nas inflamações dos tendões do bíceps, tendinite e tenossinovite da cabeça longa do músculo bíceps braquial, utilizamos o teste de Yergason, no qual o examinador oferece uma resistência ao paciente, enquanto este, com cotovelos flexionados a 90° e pronação, realiza um movimento ativo de supinação. A percepção de dor pelo paciente no sulco intertu- bercular (bicipital) do úmero oferece resultado positivo (Figura 2.10a). 2. Também para tendinite da porção longa do bíceps, podemos realizar outro teste de confirmação, o teste de Speed, no qual o paciente realizará a elevação de braço em supinação, com o examinador oferecendo resis- tência leve e palpação do sulco bicipital. Quando há presença de dor o resultado é positivo (Figura 2.10b). Se durante a palpação do sulco bicipital nos testes de Yergason, você sentir o tendão saltar, poderá ser por dois tipos de lesões: • Lesão do ligamento transverso do úmero, numa condição chamada Síndrome de De Quervain. Neste caso, será necessário um exame de ultrassonografia para verificar tecidos moles ou uma ressonância nuclear magnética. • Rarefação óssea na região dos tubérculos maior e menor, tornando a fossa do sulco muito rasa. Processos inflamatórios crônicos e/ou degenerativos podem causar essa perda óssea, que pode ser vista em uma radiografia de incidência tangencial do sulco intertubercular do ombro (de túnel do ombro). Os testes que avaliam lesões específicas devem ser feitos acompanhados com a queixa do paciente, mas também com os exames complementares de imagem. Figura 2.10 | a. Teste de Yergason (esq.); b. teste de Speed (dir.) Fonte: a. Hebert et al. (2011, p. 173); b. Cook e Hegedus (2015, p. 540). Também é possível realizar outros testes que auxiliarão a identificar a lesão. Utilize os outros testes e compare com os exames de imagem, somados à queixa do paciente. Seção 2.2 / Testes especiais do ombro - 33 Atenção Realize os testes com cuidado, pois eles são feitos tendo como resultado positivo a dor, que pode ser intensa em alguns pacientes. 3. Em tendinites do músculo supraespinal, uma das formas de avaliar é utilizar o teste de Jobe, no qual o paciente em posição ortostática, ou sentada com coluna ereta e sem apoio dorsal, realiza flexão iniciando em 75 graus e repete o teste em abdução, iniciando a 40 graus. O examinador oferece leve resistência para baixo e o paciente ativamente para cima. Para ser positivo, a força será menor em um dos membros ou reportará dor na inserção do supraespinal (Figura 2.11a). 4. Também é possível avaliar o infraespinal com o teste com o próprio nome. O paciente deve manter os braços unidos ao tronco e o cotovelo a 90 graus. O fisioterapeuta pede para que realize rotação externa e ele resiste ao movimento. As dores no ombro indicam lesão do infraespinal (Figura 2.11b). Figura 2.11 | a. Teste de Jobe; b. Teste de infraespinal Fonte: Hebert et al. (2011, p. 171). 1. Outra forma de avaliar tendinites do supraespinal, e confirmar possí- veis dúvidas, é usar o teste Hawkins/Kennedy, no qual o paciente realiza uma flexão de cotovelo a 90 graus e, em seguida, o processo é dividido em duas etapas: • O paciente realiza flexão do ombro e o fisioterapeuta faz uma rotação interna, solicitando resistência do paciente. A dor confirma a tendinite. • O paciente realiza uma abdução com rotação externa e o fisiote- rapeuta promove uma rotação interna, solicitando resistência do paciente. A dor indica compressão das estruturas subacromiais, que são dores comuns na síndrome do impacto (Figura 2.12). 34 - U2 / Ombro e cotovelo:avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Fonte: Hebert et al. (2011, p. 170). Figura 2.12 | Teste Hawkins/Kennedy 2. A fim de avaliarmos a tendidite do manguito rotador, adotamos também o teste de Apley, no qual se pede ao paciente para efetuar com o membro examinado a flexão de cotovelo, rotação externa e abdução do ombro e, com a mão espalmada, pede-se para o paciente alcançar, por trás da cabeça, o ângulo médio superior da escápula contralateral na altura do C5 e o outro membro, com rotação interna, abdução e flexão de cotovelo, com o dorso da mão na região torácica posterior. Quando houver presença de dor ou o paciente não conse- guir realizar o teste, o resultado é positivo. Esse teste promove o estiramento dos tendões que passam sobre a bursa subacromial. 3. Uma forma de confirmar a síndrome de impacto está em outro teste, o de Neer, pois ele determina compressões subacromiais. O exami- nador estabiliza a escápula com uma das mãos, ao mesmo tempo em que a rotação interna eleva rapidamente o membro. Na presença de dor, o teste é positivo (Figura 2.13a). 4. Em caso de ruptura do manguito rotador, o teste de queda de braço dará positivo quando o examinador posicionar o ombro do paciente abduzido em 90° e estendido e o paciente não conseguir mantê-lo sozinho (Figura 2.13b). Seção 2.2 / Testes especiais do ombro - 35 Fonte: a. Hebert et al. (2011, p 170.); b. Cook e Hegedus (2015, p. 170). Figura 2.13 | a. Teste de Neer; b. Teste de queda de braço 5. Na instabilidade da cápsula anterior, o sinal de apreensão anterior dará positivo quando o paciente sentir dor. Em posição ortostática, o examinador realiza posteriormente no paciente uma rotação externa com abdução e cotovelo fletido a 90°. Reflita Muitas vezes o teste eleito para verificar uma possível lesão, e sugerido após a anamnese, não é conclusivo, deixando o profissional em dúvida sobre a origem da queixa e o resultado do teste especial. O que se pode fazer neste caso? Existem vários outros testes especiais que devem ser usados. A seguir temos outro exemplo de teste para instabilidade articular. 1. Também para testar a estabilidade de cápsula articular, realizamos os testes de gaveta posterior e anterior. Nesse tipo de teste, o exami- nador estabiliza a articulação posterior do ombro com uma das mãos e, com a outra, desloca anterior e posteriormente a cabeça do úmero. Se houver deslocamento, o teste é positivo (Figura 2.14a). Quando o teste for positivo para a mobilidade que acusa uma lesão de cápsula, mas não refere dor no local testado, deve-se considerar um exame de frouxidão ligamentar, devido à hiperelasticidade da cápsula. 36 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem 2. Nas bursites podemos usar o teste de Yocun. Peça para o paciente que coloque a mão sobre o ombro contrário ao inspecionado. Apoie o cotovelo para cima e verifique se a região da fossa bicipital promove estalidos ou os tendões que passam pela região se deslocam de sua posição, provocando dor e inflamação da bursa subdeltoidea (Figura 2.14b). Fonte: a. Hebert et al. (2011, p 170.); b. Cook e Hegedus (2015, p. 170). Figura 2.14 | a. Teste de gaveta anterior e posterior; b. Teste de Yokun Alguns estalidos podem ser audíveis ao estetoscópio. Faça o teste com o estetoscópio no local de passagem do tendão. 3. Quando avaliamos as disfunções e os encurtamentos do subescapular, usamos o teste de Gerber, no qual o paciente em rotação interna de ombro com adução tenta colocar o dorso da mão ao nível de L5. Se o paciente não consegue realizar, o resultado é positivo (Figura 2.15). O encurtamento desse músculo compromete os movimentos do ombro e favorece lesões secundárias. Fonte: Hebert et al. (2011, p. 1.078). Figura 2.15 | Teste de Gerber Seção 2.2 / Testes especiais do ombro - 37 Assimile Os testes especiais de ombro têm como finalidade identificar uma grande variedade de lesões para cada teste – aqui estamos exemplificando apenas as principais lesões testadas. Mas muitas vezes as lesões surgem em conjunto, por exemplo, a tendinite supraespinal, a compressão subacromial e a bursites subacromial. 2. Testes de sensibilidade específica É possível avaliar lesões ou compressões nervosas realizando testes de sensibilidade por regiões dos miótomos (Figura 2.16): a) C3-C4: afeta a face superior do ombro. b) C5-C6: face lateral superior do braço. c) C5-C6: face lateral inferior e posterior do braço. d) T2: face medial do braço. e) T1-T2: face medial anterior do braço. Havendo uma compressão local ou relato de alterações pelo paciente, estes podem ser referências das perdas somatossensoriais de músculos, por regiões referentes a raízes dorsais da coluna dorsal da medula espinal. Também é possível verificar as funções musculares, que serão abordadas no final desta unidade, quando você já tiver conhecido toda a avaliação do membro superior. Figura 2.16 | Miótomos Fonte: Moore (2001, [s.p.]). Pesquise mais Uma série de testes ortopédicos usados na fisioterapia pode ser vista no livro a seguir: COOK, C. E.; HEGEDUS, E. J. Testes Ortopédicos em Fisioterapia. 2. ed. Barueri: Manole, 2015. p. 155-221. Este é um livro referência em testes especiais. Vocabulário Rarefação óssea: perda da massa óssea, devido a descalcificações. Tendinite: inflamação do tendão. 38 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Tenossinovite: inflamação do tendão e da bainha que o envolve. Miótomo: grupo muscular inervado por um mesmo par de raízes nervosas motoras. Sem medo de errar Após o estudo sobre a avaliação do ombro, é possível responder a nossa situação-problema, que relata as queixas do paciente sobre a dor no ombro esquerdo na região do deltoide, porém sem diagnóstico de lesão do ombro. O jovem foi diagnosticado com epicondilite lateral esquerda e tendinite dos extensores de dedos, punho e mão do mesmo lado. Refletindo e analisando essa situação, quais foram os testes que puderam confirmar a exclusão de uma lesão de ombro, confirmando apenas sobre- carga decorrente da lesão do cotovelo, punho e mão, sendo a causa das dores? Atenção O que é necessário para resolver essa situação-problema? Você deve conhecer os testes especiais que são aplicados no ombro para identificar lesões nessa região e que possam ser aplicados nesse caso clínico. Os testes especiais estudados aqui servem para identificar: lesões profundas, como tendinites de músculos, como o supraespinal, infraespinal, bíceps braquial; lesões de bursa deltoidea, subacromial; e, também, estabili- dade articular glenoumeral e acromioclavicular. Dentre os testes, estão: • Yergason e Speed para inflamação do tendão do bíceps braquial. • Jobe, Apley e Hawkins/Kennedy nas tendinites de supraespinal. • Neer para compressão subacromial. • Yocun para bursites. • Supraespinhoso para lesão do próprio. • Gerber para encurtamento do subescapular. • Teste de gaveta para luxações. • Testes de miótomos para lesões ou compressões nervosas. No caso do nosso paciente, o diagnóstico foi de lesão de cotovelo e punhos e, com isso, os testes especiais não foram positivos. As dores referidas no ombro se deram por efeito compensatório do esforço realizado devido a pouca mobilidade de cotovelo e punho e, portanto, são dores superficiais de posições antálgicas. Seção 2.2 / Testes especiais do ombro - 39 Avançando na prática Agora que você conhece os principais testes de avaliação de lesões no ombro, identifique quais testes podem ser úteis em outras realidades de queixas de lesões no ombro. Bursite Descrição da situação-problema Um jovem de 24 anos, funcionário de uma empresa de correios, relata fortes dores no ombro direito e, atualmente, não consegue elevar o membro acima de 90 graus. Também relata sentir pioras da dor no período noturno. O paciente descreve que em seu ambiente de trabalho desloca continu- amente pacotes e caixas de volumes e pesosvariados e, no deslocamento, frequentemente eleva esses pacotes acima da altura da cabeça. Ele já se queixava de dores no ombro há algum tempo, mas só procurou atendimento quando não suportou mais. Passou em consulta com médico ortopedista, que solicitou uma radio- grafia do ombro. Em seguida, foi medicado, tendo seu ombro imobilizado por sete dias. O paciente encontra-se em tratamento medicamentoso com anti-inflamatórios e afastado do trabalho para tratamento. Foi encaminhado para a fisioterapia para tratamento de bursite no ombro direito. Qual foi o possível teste de avaliação de ombro que confirmou a bursite, e qual bursa foi afetada? Lembre-se Os testes especiais completam o exame de palpação e mobilidade e fecham o diagnóstico com os exames complementares. É possível utilizar mais de um teste para identificar uma lesão de ombro, mesmo que se obtenha um resultado positivo no primeiro teste. Os testes devem ser feitos com cuidado, pois o paciente pode sentir fortes dores. Resolução da situação-problema A queixa principal de dores e dificuldades motoras associadas à rotina profissional nos leva a prováveis diagnósticos relativos a movimentos de execução de forma viciosa e com carga excessiva. Elevar pesos acima da própria altura sobrecarrega os estabilizadores do ombro, que são os músculos 40 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem da bainha rotatória. Um exame especial detecta bursites, mas, em alguns casos, a bursite subacromial pode vir acompanhada de outras complicações e, assim, é ideal que se teste, também, os tendões dos músculos da bainha rotatória. Os testes que identificam a bursite subacromial da situação-problema apresentada são: o Yacun e os testes de Apley para o espaço subacromial. No entanto, é recomendado que os testes para tendinite do supraespinal também sejam realizados assim que o quadro de bursite melhore, pois o paciente pode confundir a dor aguda da bursite com uma tendinite. Faça você mesmo Como esta seção abordou uma série de testes especiais para ombro, você, aluno, deve praticá-los com seus colegas e consultar os que já tiveram algum problema físico de ombro, identificando se ainda existe algum sinal de alteração. Faça valer a pena 1. Na avaliação funcional e na detecção de lesão de ombro, a função do teste de Neer é importante para: a) Avaliar a estabilidade da escápula. b) Identificar possíveis luxações acromioclaviculares. c) Identificar possíveis luxações glenoumerais. d) Avaliar a depressão da escápula em relação à clavícula. e) Identificar compressões de estruturas subacromiais, como tendões dos músculos da bainha rotatória. 2. O teste que verifica alterações do ombro e tem nome de Yergason é utilizado para identificar e testar: a) Bursite na inserção do músculo deltoide. b) Possíveis luxações glenoumerais. c) Passagem do tendão da cabeça longa do bíceps braquial. d) Lesão da fáscia aponeurótica do tríceps braquial. e) Possíveis luxações acromioclaviculares. 3. A avaliação funcional do ombro requer testes que identifiquem possíveis lesões ou alterações de força e resistência. O teste de Speed para ombro é utilizado para: Seção 2.2 / Testes especiais do ombro - 41 a) Testar a passagem do tendão da cabeça curta do tríceps braquial. b) Identificar lesão da fáscia aponeurótica do tríceps braquial. c) Identificar possíveis luxações acromioclaviculares. d) Identificar tendinite da porção longa do bíceps. e) Verificar compressões de estruturas subacromiais, como tendões dos músculos da bainha rotatória. 42 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Anatomia, cinesiologia e imaginologia do cotovelo Descrição da situação-problema Bem-vindo à seção de estudo que inicia a avaliação do cotovelo e antebraço. Vamos conhecer a anatomia do cotovelo e seus movimentos, a capacidade de força e a amplitude dos movimentos dessa região, além de aprender a identificar as estruturas anatômicas por meio dos exames de imagens diagnósticas. O fisioterapeuta, para avaliar o cotovelo e o antebraço do paciente, precisa conhecer sua anatomia, ou seja, os ossos com seus acidentes, os ligamentos e as articulações, os músculos e os tendões. Também é preciso ter o conhecimento dos movimentos executados por esses músculos, da amplitude e da força que cada segmento pode realizar. Após conhecer as estruturas, ele deve transferir os conhecimentos anatômicos para as imagens estudadas nos raios x, tomogra- fias e ressonância nuclear magnética para a confirmação diagnóstica. Agora voltemos à “situação-problema” apresentada no Convite ao estudo. O jovem de 17 anos, que pratica judô e passa por um momento de estresse pré-vestibular, tem queixas de dores no ombro e na região do epicôndilo lateral esquerdo, e foi diagnosticado como epicondilite lateral. Ele relacionou as dores ao esforço do esporte e ao estresse pré-vestibular. Posteriormente, o fisioterapeuta diagnosticou dores, perdas funcionais de força e amplitude de movimentos e, também, estresse. Analisando essa situação, quais estruturas foram estudadas pelo fisioterapeuta para que ele conseguisse identificar essas perdas funcionais de amplitude de movimento e força muscular? Não pode faltar 1. Anatomia do cotovelo Na região do cotovelo se encontram articulações sinoviais, ligamentos e grupos musculares que estudaremos nesta seção. Os ossos que compõem o cotovelo são: o terço distal do úmero, osso longo do braço; o terço proximal da ulna, osso longo do antebraço que se situa na face medial do antebraço; e o terço proximal de rádio, também osso longo do antebraço que se situa na posição lateral do antebraço e paralelo à ulna. Veja as tabelas a seguir das estruturas anatômicas da região do cotovelo: Seção 2.3 Seção 2.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do cotovelo - 43 Tabela 2.2 | Ossos e articulações da região do cotovelo Articulação (Juntura) Função Umeroulnar ou úmero- -ulnar Monoaxial: em gínglimo, principal articulação dos movimen- tos de flexão e extensão de cotovelo e de estabilidade durante esses movimentos. Úmero-radial ou radiou- meral Esferoide limitada, importante nos movimentos de pronação e supinação e auxiliar na flexão e extensão. Radioulnar proximal Pivô ou trocoide: realiza o movimento de prono-supinação. Radioulnar distal Pivô ou trocoide: realiza o movimento de prono-supinação. Fonte: elaborada pelo autor. Tabela 2.3 | Ligamentos do cotovelo Fonte: elaborada pelo autor. Colateral ulnar Feixe espesso que une o úmero à ulna. Dividido em anterior e posterior. Colateral radial Feixe que une o úmero ao rádio e dá continuidade ao ligamento anular. Anular Feixe em laço que mantém a cabeça radial encaixada na incisura radial da ulna. Nome do músculo Principal ação Nervo (inervação) m. bíceps braquial Flexor de cotovelo Músculo cutâneo C5 – C6 m. braquial Flexor de cotovelo Músculo cutâneo e radial C5 –C6 m. braquiorradial Flexor de cotovelo Radial C5 – C6 m. tríceps braquial Extensor de cotovelo Radial C6 – C8 m. ancôneo Extensor de cotovelo Radial C5 – C6 m. supinador Supinador de antebraço Radial C5 – C6 m. pronador redondo Pronador de antebraço Mediano C6 – C7 m. pronador quadrado Pronador de antebraço Interósseo e Mediano C6 – T1 Tabela 2.4 | Músculos da região do cotovelo Fonte: elaborada pelo autor. 2. Ossos, articulações e ligamentos A região do cotovelo é formada pelas articulações úmero-ulnar, úmero-radial (radioumeral) e a articulação radioulnar proximal, sendo que esta última, somada à radioulnar distal envolta pela membrana interóssea, formam a articulação do antebraço. Os movimentos promovidos pela articulação úmero-ulnar são de flexão do ponto de 0 grau a partir da posição anatômica, até 145o, e o retorno da flexão é chamado de extensão, que, quando ultrapassa a linha média e provoca a hiperex- tensão, atingindo no homem até 5o e nas mulheres até 15o. 44 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcionale diagnóstico por imagem Na região do antebraço ocorre o movimento de supinação, que é a posição comum do antebraço na posição anatômica. Da linha média ao fim da supinação é possível atingir os 90o e o movimento inverso, que é a pronação, atinge da linha média até o fim da pronação, completando 90o. Figura 2.17 | Movimentos do cotovelo Fonte: Lippert (2013, p. 130). a) Flexão: 0 a 145 graus. b) Extensão: retorno da flexão – 145 a 0 graus. c) Pronação: semelhante à rotação externa, porém no antebraço – 0 a 90 graus. d) Supinação: semelhante à rotação externa, porém no antebraço – 90 a 0 graus. Pesquise mais Para conhecer melhor a angulação dos movimentos articulares e como é feita a medida de amplitude de cada movimento, leia o livro a seguir: MARQUES, A. P. Manual de Goniometria. 3. ed. Barueri: Manole, 2014. p. 24. A articulação úmero-ulnar é a principal articulação da flexão e extensão, pois, além do movimento, oferece estabilidade devido ao seu encaixe do tipo gínglimo ou dobradiça. No alinhamento lateral entre braço e antebraço ocorre um desvio observado na posição anatômica, que, nos homens, atinge um ângulo de até 5o e, nas mulheres, de até 15o lateralmente. Em ângulos superiores a esses, o cotovelo é chamado de cotovelo em valgo. O cotovelo não realiza movimentos laterais, apenas anteroposteriores. Os ossos dessas articulações são mantidos por uma espessa camada de tecido fibroso, a cápsula articular e os ligamentos, que são o colateral radial, o colateral ulnar e um terceiro na cabeça do rádio com a ulna, o ligamento anular (Figura 2.18). Seção 2.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do cotovelo - 45 Figura 2.18 | Ossos e ligamentos da região do cotovelo Fonte: Moore e Dalley (2013). 3. Músculos e ação do movimento Os principais músculos da flexão são: o bíceps braquial, o braquial e o braquiorradial, auxiliados pelos músculos do antebraço. O músculo bíceps braquial se insere na tuberosidade radial, que fica abaixo da cabeça do rádio, e favorece a pronação durante a flexão do cotovelo. Já o braquial tem origem no corpo do úmero e se insere no processo coronoide. O braquiorradial tem origem na linha epicondilar lateral da ulna e se insere no processo estiloide do rádio (Figura 2.19). Figura 2.19 | Músculos flexores do cotovelo: bíceps braquial à esquerda, braquial ao centro e braquiorradial à direita Fonte: Lippert (2013, p. 134-135). Os músculos extensores do cotovelo são: o tríceps braquial com inserção no olécrano (ou processo olecraniano), com movimento auxiliado pelo músculo ancôneo, que se insere na borda lateral do olécrano e tem origem no epicôndilo lateral (Figura 2.20). 46 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Os músculos extensores do cotovelo são: o tríceps braquial com inserção no olécrano (ou processo olecraniano), com movimento auxiliado pelo músculo ancôneo, que se insere na borda lateral do olécrano e tem origem no epicôndilo lateral (Figura 2.20). Os movimentos do antebraço são de pronação e supinação. Na posição anatômica, o antebraço está em posição supinado e, portanto, com os ossos rádio e ulna em paralelos e a face palmar da mão voltada para frente. A pronação ocorre quando giramos o rádio sobre a ulnar, colocando as palmas da mão voltadas para trás, provocando um cruzamento entre o osso do rádio sobre a ulna (Figura 2.21). Os movimentos de supinação e pronação são mais bem observados com o cotovelo em flexão. Se o cotovelo estiver em extensão, poderá ocorrer confusão com o movimento de rotação do ombro. Os movimentos de prono-su- pinação estão entre os mais impor- tantes movimentos funcionais, tais como se alimentar e se higienizar. 4. Dinâmica dos movimentos do cotovelo e antebraço A flexoextensão ocorre entre a incisura troclear da ulnar, com a epífise distal do úmero chamada de tróclea. Na flexão máxima, o processo coronoide, localizado na porção anterior da face troclear, se encaixa na fossa coronoide do úmero e a hiperextensão é limitada quando o olécrano da ulnar se encaixa na fossa olecraniana do úmero. Durante esses movimentos, a face superior da cabeça do rádio, que é achatada, acompanha apoiando sobre o capítulo da ulna. O osso rádio também realiza um movimento de pivô sobre o capítulo do úmero, durante a pronação e a supinação. A face lateral da cabeça do rádio Figura 2.20 | Músculos extensores do cotovelo: tríceps braquial à esquerda e ancôneo à direita Fonte: Lippert (2013, p. 136-137). Figura 2.21 | Músculos pronadores à esquer- da e supinador à direita Fonte: Lippert (2013, p. 136-137). Seção 2.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do cotovelo - 47 desliza sobre uma fenda da ulna chamada de incisura radial da ulna. Esta é uma articulação trocoide que, concomitantemente à porção distal do rádio e da ulna, também desliza, pois, a cabeça da ulna desliza sobre a incisura ulnar presente no rádio. Os ossos rádio e ulna estão unidos por uma membrana que evita que estes se afastem um do outro, tanto estaticamente quanto durante os movimentos, e os músculos responsáveis pela supinação são os supinadores, que são auxiliados pelo músculo bíceps braquial. O movimento de pronação é realizado pelos músculos pronador redondo, associado ao músculo pronador quadrado. No olécrano encontramos uma bolsa sinovial que amortece essa saliência óssea, denominada “bursa olecraniana”. Nos epicôndilos do úmero encontramos inserções dos músculos flexores e extensores de punho e dedos. A porção lateral é sede de origem dos exten- sores de punho e dedos da mão, além dos músculos braquiorradial e ancôneo. Na porção medial está a origem dos músculos flexores de punho e dedos da mão, além do músculo pronador redondo. Muitas lesões que ocorrem nessa região estão associadas a movimentos de punho e dedos. Reflita O músculo braquiorradial, que promove flexão de cotovelo, se insere no epicôndilo lateral, junto à origem dos grupos musculares extensores de punho e dedos da mão, tendo, então, local comum de fixação óssea. Pela face anterior da tróclea passa o nervo mediano, que acompanha a artéria braquial e, lateralmente, o nervo radial, que passa na face anterior da cabeça radial. O nervo ulnar passa pela incisura do nervo ulnar na face medial, entre o epicôndilo medial e o olécrano, que é bem observado em traumas na região que provocam “choque” e sensação de formigamento na face medial do antebraço e mão. Pesquise mais Reveja a anatomia funcional do ombro lendo o livro a seguir: BEHNKE, R. S. Anatomia do movimento. 3. ed. São Paulo: Artmed, 2015. p. 67-79. 5. Noções de imaginologia do cotovelo: raios x; ressonância magné- tica, tomografia computadorizada e ultrassonografia As principais imagens de investigação radiológica do cotovelo são nas incidências de AP (anteroposterior) e perfil. Nessas imagens devem ser 48 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem observados a densidade óssea e os espaços articulares. Procure no contorno dos ossos superfícies irregulares que indiquem degeneração, calcificações e descalcificações. Observe se existem perdas de continuidade articular ou óssea que denunciem luxações ou fraturas. Na imagem de RX AP de cotovelo, os acidentes ósseos, como epicôndilos lateral e medial, estão bem visíveis e devem ser observados na procura de calci- ficações inflamatórias ou rarefações. Neles encontramos fixações de músculos flexores e extensores de punho e dedos. Observe os espaços articulares para verificar se há sinais de degeneração ou de artrose, que provocam a diminuição deste espaço e, em quadros mais evoluídos, encontrará áreas de calcificações. É importante verificar o alinhamento, se existe sugestão de luxações ou deformidades antigas, como em casos de fraturas com calo ósseo instalado. No colo do rádio podem ocorrer fraturas, portanto, verifique. Agora observe o RX de perfil de cotovelo. Acompanhe o olécrano e observe se existeaumento de volume, também relacionado a fraturas ou traumas. Na face anterior da face troclear, verifique o processo coronoide, que é o ponto de inserção do músculo braquial. No rádio, além de acompanhar o contorno de sua cabeça na procura de defor- midades causadas por degenera- ções e artroses, observe também a tuberosidade do rádio e veja se existe alguma alteração (Figura 2.22). Figura 2.22 | RX cotovelo incidência AP à es- querda e perfil à direita Fonte: iStock. Pesquise mais Para conhecer mais sobre imagem em radiologia, consulte nas páginas de 99 a 175 do livro a seguir: GREENSPAN, A. Radiologia ortopédica: uma abordagem prática. 5. ed. São Paulo: Guanabara Koogan, 2012. Os exames de imagem por tomografia não têm sido muito utilizados no cotovelo, pois não apresentam imagens com boa resolução. Geralmente, os tecidos moles têm sido estudados na ultrassonografia, com demonstração de epicondilite lateral, e na ressonância nuclear magnética, inclusive em fraturas ocultas ou pequenas, como ocorreu no processo coronoide na Figura 2.23, Seção 2.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do cotovelo - 49 que representa uma imagem de corte coronal do cotovelo, mostrando os espaços articulares entre ulna e tróclea e entre o rádio e o capítulo. Figura 2.23 | RNM de cotovelo em corte coronal Fonte: iStock. Sem medo de errar Após o estudo sobre as estruturas anatômicas e funcionais do cotovelo e antebraço, é possível responder a nossa situação-problema, na qual o jovem que praticava judô e estava sob estresse pré-vestibular foi diagnosticado com epicondilite lateral esquerda e o fisioterapeuta diagnosticou, além de dores, perdas funcionais de força e amplitude de movimentos associados ao estresse. Quais estruturas foram estudadas pelo fisioterapeuta para identificar perdas funcionais, amplitude de movimento e força? Os músculos extensores de punho e mão têm origem no mesmo local que a inserção do músculo braquiorradial, podendo dar a falsa impressão que dores na altura do cotovelo tenham origem nos músculos flexores de cotovelo. O estresse, os movimentos repetitivos, as cargas excessivas de trabalho e estudo, o sono interrompido, os distúrbios alimentares e muitas outras causas prejudicam o desempenho físico, tornando o corpo mais propenso a lesões. No nosso caso hipotético, o jovem estava sob estresse pré-vestibular, algo que provoca um desgaste muito grande nos jovens vestibulandos. Com a sobrecarga de estudo e esporte, o aparelho locomotor ficou mais exposto a lesões, como foi o caso da epicondilite lateral. Esforços constantes de flexão e extensão de cotovelo no judô sobrecar- regaram alguns músculos. É possível aqui notar que a origem da lesão está principalmente no punho e mão, já que a origem dos músculos está nos epicôndilos na região do cotovelo, mas com algum comprometimento dos 50 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem músculos braquiorradial, pronador redondo e o ancôneo, que também tem fixação nessa região óssea. O músculo braquiorradial tem ação de flexão de cotovelo, o pronador redondo na pronação do antebraço e o ancôneo é auxiliar na extensão de cotovelo. Juntos, esses músculos auxiliam na fixação do membro durante o movimento na natação. Geralmente as imagens radiográficas só demonstram condições de calci- ficações inflamatórias ou rarefações ósseas em doenças crônicas com quadros muito evoluídos. É possível identificar inflamações crônicas nas RNM quando se tornam crônicas ou em fase aguda com aumento de volume inflamatório. Avançando na prática Agora que você conhece as estruturas anatômicas do cotovelo e antebraço, já estudou os movimentos realizados e identificou as estruturas nos exames de imagem, é possível responder a uma situação-problema que envolve esses conhecimentos. Doença ocupacional – tendinite Descrição da situação-problema Uma jovem de 18 anos iniciou seu primeiro emprego em uma grande empresa de telemarketing, local em que passava grande parte de sua carga horária de trabalho na posição sentada, registrando no computador as infor- mações colhidas no telefone, enquanto falava com clientes. Após dois anos de trabalho, começou a se queixar de dores próximas ao cotovelo e punho. Em consulta com o médico do trabalho, foi diagnosticada com epicondilite lateral bilateral. A paciente descreve que, em seu ambiente de trabalho, digitava conti- nuamente sem que o punho tivesse um apoio para evitar sobrecargas, e que recentemente trocou de mesa de trabalho para uma mais baixa que a anterior. Com esta posição, seu membro não tinha nenhum apoio e ficava em posição de extensão de cotovelo acima de 90°. Apesar das dores ficarem cada vez mais intensas com o tempo e o trabalho demasiado refletindo no cotovelo, seu diagnóstico apresentava uma inflamação relacionada ao punho. Por que as doenças de origem biomecânicas do punho podem refletir na região do cotovelo? Seção 2.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do cotovelo - 51 Lembre-se Tendinites são inflamações dos tendões ou aponeuroses que se fixam nos ossos, e todos os músculos esqueléticos têm uma origem tendinosa e uma inserção tendinosa que pode sofrer inflamações quando exposta repetidamente a estresse de tensão ou movimentos. Lembre-se Os movimentos de punho e de dedos são realizados por tendões que têm o ventre muscular no braço e no antebraço. Também encontramos nos mesmos locais de origem desses músculos outros músculos do braço e do antebraço, que se relacionam com outros movimentos, como a flexão e a extensão. Um exemplo é o músculo braquiorradial, que tem origem no epicôndilo lateral e se trata de um flexor de cotovelo. Resolução da situação-problema As inserções de grande parte dos músculos que movimentam o punho têm origem nos epicôndilos lateral e medial do úmero. Quando um indivíduo realiza movimentos de digitação com o cotovelo em posições menores de 90° de flexão, como digitar com os cotovelos estendidos, realizando movimentos repetitivos dos músculos extensores de punho e dedos, do braquiorradial e do pronador redondo, ele causa uma tensão, podendo provocar inflamações na origem desses músculos no epicôndilo. A jovem da situação-problema mantém esses músculos em constante esforço e, após a alteração de seu ambiente de trabalho com a altura da mesa, e com a falta de apoio para o punho, houve um aumento maior ainda de tensão desses músculos e de seus tendões. Como os tendões têm origem no epicôndilo, que fica na região do cotovelo, a sobrecarga do punho também comprometeu essa região, provocando as dores relatadas pela jovem. Faça você mesmo A palpação da região do cotovelo e antebraço pode ser facilmente reali- zada. Faça você mesmo com seus colegas de sala e, para ter um melhor aproveitamento, solicite ao colega que está recebendo a avaliação palpatória para realizar pequenos movimentos com os dedos e punho enquanto você identifica o percurso desses músculos e tendões que estão em movimento. 52 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Faça valer a pena 1. Complete a frase e assinale a alternativa correta: A principal articulação da região do cotovelo, que tem como função promover a flexo- extensão e estabilidade desses movimentos, é denominada _________________. a) Articulação úmero-radial. b) Articulação radioulnar distal. c) Articulação radioulnar proximal. d) Articulação umeroulnar. e) Articulação glenoumeral. 2. Na avaliação do cotovelo de um jovem, ao verificar a amplitude passiva do movimento de flexão, notou-se que ela atingiu os 145°, mas no retorno não conse- guiu chegar à extensão de 0°. O paciente não se queixou de dor, mas referiu que sofreu há dois anos uma fratura do olécrano, que resultou na dificuldade do movimento de extensão do cotovelo. O que pode ter ocorrido na região do cotovelo para o indivíduo não executar a extensão completa? a) Perda da força dos músculos extensores de cotovelo.b) Encurtamento do tríceps braquial. c) Calcificações do olécrano, que provocam aumento de seu volume. d) Lesão da fáscia aponeurótica do tríceps braquial. e) A fratura ainda não está consolidada. 3. Um mecânico se queixa de dores e fraqueza no antebraço direito durante o movimento de apertar um parafuso no sentido horário. Nesse caso descrito, esse mecânico está com prováveis problemas de tendinite no(s): a) Músculos tríceps braquial e ancôneo. b) Músculos bíceps braquial e braquial. c) Músculos pronadores redondo e quadrado. d) Músculo supinador do antebraço. e) Músculos do manguito rotador. Seção 2.4 / Avaliação fisioterapêutica do cotovelo - 53 Avaliação fisioterapêutica do cotovelo Descrição da situação-problema Seja bem-vindo à seção que estuda a parte prática do diagnóstico cinético- -funcional do cotovelo e antebraço. Estudaremos o exame de palpação e testes especiais, além de realizarmos as medidas goniométricas dos movimentos de flexão e extensão do cotovelo e de pronação e supinação do antebraço. O objetivo da palpação é estudar a anatomia superficial e identificar altera- ções anatômicas ou processos inflamatórios que reflitam em dores ou dificul- dades no movimento. Com os testes especiais, colocamos em estresse as estru- turas musculares, tendinosas, ligamentares e capsulares, que estão fixadas em acidentes ósseos, sendo possível, assim, identificar lesões dessas estruturas. Na goniometria será verificado se a angulação dos movimentos articulares está alterada ou diminuída, justificando uma possível lesão da região. Agora voltemos à “situação-problema” apresentada no Convite ao estudo. O jovem de 17 anos que sofre de dores na região do epicôndilo lateral esquerdo foi diagnosticado com epicondilite lateral esquerda com comprometimento dos tendões dos músculos extensores de dedos e punho, relacionado com o seu estresse pré-vestibular. Posteriormente, foi diagnosticado pelo fisioterapeuta com perdas funcionais de força muscular e diminuição da amplitude de movimentos, ambas relacionadas ao estresse pré-vestibular. Refletindo e analisando essa situação, quais foram os testes especiais realizados pelo fisioterapeuta que confirmaram a epicondilite lateral, as dores e as perdas de movimentos articulares na região do cotovelo e antebraço do seu paciente? Para que você consiga responder a esses e outros questionamentos sobre a anatomia palpatória, os testes clínicos e a goniometria realizada na fisiote- rapia, serão apresentados de forma contextualizada na seção Não pode faltar os conteúdos necessários para a sua compreensão. Vamos lá, bons estudos! Seção 2.4 54 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Não pode faltar 1. Exame palpatório Estudaremos primeiramente o exame de palpação que visa identificar as estruturas anatômicas por métodos manuais de palpação em pontos estraté- gicos do cotovelo e do antebraço. Iniciaremos da porção distal do braço, até a distal do antebraço. Identifique no braço a parte distal do osso úmero e palpe nas porções lateral e medial os epicôndilos. Veja a diferença entre os dois epicôndilos: • No epicôndilo medial estão as origens dos músculos flexor ulnar do carpo, palmar longo, parte do flexor ulnar do carpo, flexor superfi- cial dos dedos, além do pronador redondo. Nesta região é comum se instalar uma forma de alteração denominada “epicondilite lateral”, também conhecida como “cotovelo de golfista”. Essa alteração pode estar associada à Síndrome do Nervo Ulnar. Identifique na face inferior o sulco do nervo ulnar (Figura 2.24). • No epicôndilo lateral estão as origens dos músculos extensores radiais, extensor longo e o curto do carpo, parte do extensor ulnar do carpo, extensores dos dedos, extensor do V dedo e o supinador. Nesta região é comum se instalar a epicondilite lateral, ou “cotovelo de tenista”, e, também, tendinites do supinador (Figura 2.24). Figura 2.24 | Epicôndilo medial (esq.); epicôndilo lateral (dir.) Fonte: Junqueira (2012, p. 144-145). Palpe na face posterior uma saliência chamada olecrano, onde está inserido o músculo tríceps braquial, principal músculo da extensão do cotovelo. É possível preguear com os dedos e notar que o tecido parece solto, devido à bursa olecra- niana, sede de inflamações por traumas ou atritos. Na face medial do olecrano, Seção 2.4 / Avaliação fisioterapêutica do cotovelo - 55 palpe novamente a depressão óssea onde se encontra o nervo ulnar, que é protegido pela fossa do nervo ulnar do epicôndilo medial, e, em seguida, passe pelos ventres musculares dos flexores de punho e dedos (Figura 2.25). Agora coloque o cotovelo a 20o de flexão e palpe as faces anterior e posterior da porção proximal e lateral do antebraço. Na face anterior, pressione o seu polegar no membro relaxado profundamente e, onde estão os ventres musculares dos extensores de punho e dedos, encontrará a cabeça do rádio. Nessa mesma altura, pressione com os outros dedos de sua mão a cabeça do rádio e, acima dela (mais próximo ao olecrano), encontrará o capítulo do úmero. Ele será melhor palpado se movimentar o cotovelo em flexão e extensão, buscando o capítulo. Algumas lesões promovem crepitações na cabeça do rádio ou no capítulo do úmero (Figura 2.26). Na face anterior está o músculo pronador redondo. Peça para que o paciente realize pronações e supinações no momento da palpação, pois isso favorece a sua identificação. Na síndrome do pronador redondo, o músculo fica sensível ao toque e volumoso devido ao edema (Figura 2.26). Figura 2.25 | Olecrano Fonte: Junqueira (2012, p. 146). Figura 2.26 | Cabeça do rádio (esq.); pronador redondo (dir.) Fonte: Junqueira (2012, p. 147 e 150). Na linha média da face anterior do cotovelo, você encontrará o tendão do bíceps braquial, principal músculo da flexão do cotovelo. Ele se insere na tuberosidade e tubérculo radial (também chamada de “tuberosidade bicipital”). Posteriormente, o olecrano é local da inserção da fáscia aponeu- rótica do tríceps braquial (Figura 2.27). 56 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Figura 2.27 | Tendão de inserção do bíceps braquial (esq.) e de inserção do tríceps braquial (dir.) Fonte: Junqueira (2012, p. 136 e 141). Na face anterior do antebraço, peça para que o paciente junte o primeiro com o quinto dedo da mão para que se observe o músculo palmar longo; lateralmente está o músculo flexor ulnar do carpo. Na face proximal do antebraço, ainda na face anterior, está o ventre do músculo supinador (Figura. 2.28). Figura 2.28 | Tendões dos músculos: palmar longo (esq.), do flexor ulnar do carpo (centro) e do supinador (dir.) Fonte: Junqueira (2012, p. 152, 153 e 157). Pesquise mais Para saber mais sobre o exame de palpação do ombro e braço, pesquise no livro a seguir: JUNQUEIRA, L. Anatomia palpatória: tronco, pescoço, ombro e membros superiores. 2. ed. São Paulo: Guanabara Koogan, 2008. 2. Testes especiais de avaliação do cotovelo e antebraço São testes consagrados que identificam deficiência ou perdas de movimentos, alterações ou perdas de estabilidades ou que denunciam lesões e inflamações no local. Os testes que avaliam lesões específicas devem ser feitos acompanhados com a queixa do paciente, mas, também com os exames complementares de imagem. Seção 2.4 / Avaliação fisioterapêutica do cotovelo - 57 Os principais testes que utilizaremos para resolver a nossa situação- -problema são: 1. Em suspeitas de subluxações do cotovelo, quando os ligamentos colaterais podem ter sidos lesados, é possível fazer um teste de estresse que demonstre se houve laceração de algum ligamento. O teste para o ligamento colateral radial é chamado de teste varo do cotovelo, no qual o fisioterapeuta pede para que o paciente faça uma flexão do cotovelo a 20°, com o objetivo de retirar o olecrano da fossa olecraniana e deixar os ossos livres do encaixe, e, com o ombro em rotação interna, realiza-se um estressede estudo e na prática. Vamos lá! Um indivíduo de 50 anos, contador, canhoto e fumante há 35 anos, queixava-se de dor no ombro esquerdo que se propagava para a região anterior e posterior do tórax. Ele relatou que começou a sentir dores ao jogar voleibol, mas que o esporte era esporádico, apenas realizado em alguns sábados e, ao término da partida, saiu para beber cerveja com os amigos. Passou por uma consulta com um ortopedista, pois acreditava tratar-se de dor causada por alguma tensão muscular do esporte, haja vista que nas últimas semanas também se sentia muito tenso e cansado. Após a avaliação, o ortopedista recomendou que passasse por atendimento com um clínico de urgência, devido a uma irregularidade no batimento cardíaco (arritmia) e na pressão arterial (PA) de 140 X 100 mmHg. No hospital, foi solicitado eletro- cardiograma (ECG) raios X (RX) de ombro e de tórax e exames laboratoriais. Após os resultados, o paciente foi encaminhado para o cardiologista e poste- riormente para a fisioterapia. No primeiro momento, o quadro clínico indicava um risco de infarto lento, comum às características apresentadas pelo paciente, mas após o clínico geral avaliar os exames realizados, foi descartada essa hipótese diagnóstica, e as alterações cardíacas foram relacionadas com o consumo excessivo de café, somados ao tabagismo de vinte cigarros por dia. Ainda assim, seu estilo de vida, como o próprio tabagismo, sedentarismo e a idade, indicavam uma necessidade de passar pelo cardiologista, mesmo porque, o ECG apresentou arritmia cardíaca. Já a indicação de fisioterapia se deu pela diferença encon- trada de massa muscular do ombro esquerdo em relação ao ombro direito, com sinais de inflamação, e perda de movimento acompanhado de dores. Na fisioterapia foi observado um desvio na coluna cérvico-torácica e sinais de processo inflamatório agudo no ombro esquerdo, causados pela presença de atrito articular e pela perda de capacidade respiratória devido ao longo tempo de tabagismo. O paciente relatou sentir cansaço físico em pequenas atividades. Ele realizou o teste ergométrico, e foi sugerida uma rotina de atividade física supervisionada. O objetivo fisioterapêutico foi de analgesia, ganho de amplitude de movimento e ganho de massa e força muscular para o ombro acometido, aumento da capacidade cardiorres- piratória e pulmonar e reabilitação postural. Seção 1.1 / Avaliação fisioterapêutica - 9 Avaliação fisioterapêutica Diálogo aberto Olá, aluno! Seja bem-vindo à primeira seção de estudos deste livro didático! Iniciaremos agora o estudo da Semiologia, que é a ciência de examinar e identificar as patologias que acometem o indivíduo, englobando o estudo de diversas técnicas de avaliação que contribuem para o diagnóstico preciso das patologias. Assim, você aprenderá sobre o processo de anamnese, que se trata de uma entrevista com o paciente, na qual se realiza a coleta de dados importantes sobre o seu histórico clínico. Agora vamos relembrar a situação clínica real apresentada no Convite ao estudo que visa aproximar os conteúdos teóricos com a prática profissional. Um indivíduo de 50 anos de idade, sedentário e fumante de 20 cigarros por dia, realiza uma consulta médica com um ortopedista e relata sentir cansaço em pequenos esforços e dor no ombro esquerdo. Analisando esse quadro clínico, qual é a importância de se coletar os dados relatados pelo paciente durante o procedimento de anamnese realizado pelo fisioterapeuta na avaliação clínica? Ao longo desta seção apresentaremos os elementos necessários à resolução dessa situação-problema. Pronto para começar? Então vamos lá! Seção 1.1 Não pode faltar Avaliação fisioterapêutica Toda vez que vamos a uma consulta com um profissional da saúde, passamos pela anamnese. Você também já passou por isso. Sabe aquela hora no consultório quando fazem várias perguntas pessoais e sobre sua queixa principal e as doenças da sua família? Então, essa entrevista chama-se anamnese. Com base no questionário da anamnese, realizamos uma avaliação geral e exame físico do paciente para uma investigação de um diagnóstico cinético-fun- cional. A maior parte dos diagnósticos se dá exclusivamente pela anamnese, e com base nela traçaremos objetivos e métodos da terapia, de forma a se adequar e respeitar as necessidades e interesses do paciente. 10 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Assimile Em uma avaliação, deve-se considerar as doenças próprias da idade, sexo e etnias, com relação à naturalidade e à hereditariedade também, pois podem ajudar a identificar doenças de zonas endêmicas, profissão, riscos ocupacionais, acidentes de trabalho, estresse, religião, atividades físicas ou sedentarismo, uso de medicamentos sob orientação médica ou não, entre outros. Exemplificando Jogadores de tênis e açougueiros, por exemplo, têm em sua profissão maior risco de bursite no ombro, enquanto mulheres de etnia ariana, aos 60 anos têm maior propensão à osteoporose. Já pessoas com diabetes apresentam uma maior tendência às queixas de dores articulares. Você deve entender que a elaboração dessa anamnese tem como objetivo direcionar a prescrição do tratamento e também servir como um registro para futuras estatísticas, ou ainda, para um levantamento evolutivo da doença ou trata- mento. Segue na Tabela 1.1 um exemplo da primeira parte da ficha de avaliação. Tabela 1.1 | Ficha de avaliação Fonte: elaborada pelo autor. Você pode produzir uma anamnese aberta, em que os dados são regis- trados em texto, ou fechada, quando os itens já estão prontos e você deve apenas assinalar as lacunas. Após a coleta de dados inicial, na segunda parte da ficha, o fisioterapeuta deve buscar informações sobre a história clínica, do paciente e da doença que o levou até a consulta. Os registros devem ser feitos de acordo com a narração do paciente, e podem ser livres ou dirigidos. A história clínica contém as seguintes informações: • Queixa principal: registrar os sintomas e sinais de acordo com a narração e vocabulário do paciente. O profissional deve investigar entre Seção 1.1 / Avaliação fisioterapêutica - 11 as queixas, aquelas que o ajudarão a elaborar o tratamento, conhecendo assim, as restrições de recursos fisioterapêuticos. • História da doença atual – HDA: trata-se de uma descrição dos aconte- cimentos recentes relacionados com a queixa principal. É importante que tenha: início e provável data em que percebeu; como evoluiu e como tratou; pesquisar sintomas que o paciente possa não ter notado relacio- nados com o problema; e atuais queixas, como, frequência, duração, circunstâncias e intensidades. Sempre verifique se a história tem início, meio e fim racionais. Faça a anamnese sem pressa e com o máximo de foco no paciente. Não esqueça que os registros devem utilizar terminologia técnica! Reflita O paciente é capaz de distinguir um exame apressado e superficial daquele interessado e cuidadoso? Claro! Se o paciente sente que foi bem atendido e o profissional foi atencioso, ele cria vínculo emocional e se torna mais colaborativo ao tratamento. - História patológica pregressa: informações sobre doenças preexistentes e limitações já instaladas, pois podem se relacionar com o atual quadro ou mesmo influenciar no planejamento do tratamento e reabilitação. Também são chamadas de antecedentes pessoais fisiológicos. Devem ser incluídas as cirurgias, tratamentos e seus sucessos. - História familiar: levantar as morbidades comuns na família do paciente, buscando relevância com condições hereditárias, congênitas e genéticas. Incluem aqui o desenvolvimento físico e psíquico do paciente. - Atividades de vida diária – AVD: como é o dia a dia do paciente, suas dificuldades, estresse, alimentação e diversão. Qualquer informação que ajude explicar a doença e que ajude a traçar objetivos da terapia e reabilitação. Exame físico ou inspeção física geral Use a seguinte sequência: inspeção, palpação,físico de varo, empurrando para baixo a região do cotovelo (Figura 2.29). No caso de suspeita de lesão do ligamento colateral ulnar, usa-se a mesma posição em 20° de flexão de cotovelo e realiza um teste valgo do cotovelo (estresse em valgo) para forçar o afastamento da ulna com o úmero. Se isso ocorre, então é positivo para a subluxação (Figura 2.29). Figura 2.29 | Teste de estresse em varo (a e b); Teste de estresse em valgo (c e d) Fonte: Cook e Hegedus (2015, p. 229-230). 2. Para testar epicondilite no cotovelo, podemos realizar testes como o Cozen, no qual o fisioterapeuta solicita ao paciente que fique de punho cerrado e com cotovelo a 90° e antebraço pronado. O fisio- terapeuta segura o punho e pede para que o paciente realize uma extensão de cotovelo enquanto ele impõe uma resistência. O teste é positivo se o paciente referir dor no epicôndilo lateral. A esta lesão se dá o nome de “cotovelo de tenista” (Figura 2.30). 58 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Pode-se confirmar a epicondilite lateral com o teste de Mill, ou teste passivo de cotovelo de tenista, no qual o fisioterapeuta coloca o punho e dedos em total flexão, segura-os e solicita ao paciente que realize uma extensão de punho e dedos contra a sua resistência. O teste é positivo se o paciente referir dor epicondilar lateral (Figura 2.30). Já o teste de Maudsley consiste em colocar a mão do paciente aberta e solicitar que faça uma hiperextensão do terceiro dedo da mão, enquanto o fisioterapeuta resiste ao movimento. Também será positivo se houver dores no epicôndilo lateral (Figura 2.30). Figura 2.30 | Teste de Cozen (a e b); teste cotovelo de tenista (c); teste de Maudsley (d) Fonte: Cook e Hegedus (2015, p. 233-234). 1. Para testar tendinites ou perdas funcionais dos movimentos de prono-supinação e seus músculos responsáveis pelo movimento, o teste leva o nome do movimento. O teste de pronação e supinação é realizado com o paciente em decúbito dorsal, com cotovelos entre 20 a 40 graus, e pede-se para que realize a supinação e, em seguida, a pronação (Figura 2.31). O teste pode referir dor ao movimento ou comparar a força resistida com o membro contralateral. Figura 2.31 | Teste de supinação (esq.); teste de pronação (dir.) Fonte: Cook e Hegedus (2015, p. 227). Seção 2.4 / Avaliação fisioterapêutica do cotovelo - 59 3. Goniometria do cotovelo e antebraço Para medir os ângulos de movimento do cotovelo, colocamos o braço fixo do goniômetro na lateral do braço sobre o úmero em direção ao acrômio e o braço móvel sobre a superfície radial, em direção ao processo estiloide. Os valores esperados é que saia do 0 graus e alcance 145o de flexão (Figura 2.32). Nas medidas da prono-supinação, o indivíduo deve estar sentado com os cotovelos a 90° e paralelos ao tronco e ao antebraço em posição neutra. Na pronação do antebraço, o braço fixo do goniômetro é colocado na face dorsal dos metacarpos, em posição paralela ao úmero, como mostra a Figura 2.32, e o braço móvel fica alinhado ao polegar, acompanhando a pronação. As medidas esperadas são de 0 a 90 graus. Já na supinação o movimento reali- zado é inverso à pronação, com angulação semelhante, de 0 a 90 graus, mas com o giro inverso da supinação (Figura 2.32). Figura 2.32 | Goniometria do cotovelo (a), flexão (b) e pronação e supinação (c) Fonte: Marques (2014, p. 24-26). 4. Teste de força O exame de força nos movimentos do cotovelo deve ser realizado com resistência manual de um fisioterapeuta, com o objetivo de graduar a força nos níveis, segundo Torres (2006, ilustrado na Tabela 2.1). São verificadas a flexão, a extensão de cotovelo e a pronação e supinação do antebraço. Reflita Como são realizados os testes de força muscular? Os testes de força muscular devem acompanhar os movimentos reali- zados na goniometria, com a mesma angulação, porém com resistência manual oferecida pelo fisioterapeuta. 5. Testes de sensibilidade superficial e profunda da região do cotovelo Os testes de sensibilidade seguem o padrão descrito nos dermátomos e miótomos. São realizados com o estesiômetro e os resultados são relacionados 60 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem com os resultados do mapa de distribuição de inervação da região da origem da raiz nervosa dorsal, assim como foram realizados os testes no ombro na Seção 2.3 (Figura 2.33). Figura 2.33 | Dermátomos da região do membro superior Fonte: Torres (2006, p. 80). Sem medo de errar Após o estudo sobre a palpação, testes especiais e goniometria do cotovelo e antebraço, é possível responder a nossa situação-problema sobre quais foram os testes que puderam confirmar que o indivíduo apresentava na epicondilite lateral as dores e perdas de movimentos articulares na região de cotovelo e antebraço. Atenção Realize os testes especiais com atenção para não confundir uma dor epicondilar de origem extensora de punho com a de origem na supina- dora, pois o epicôndilo lateral é local de origem desses músculos que têm funções diferentes. Realize os testes para os dois movimentos. A investigação realizada reúne os exames de palpação dos epicôn- dilos. Quando inspecionamos a inserção dos músculos flexores do punho e dedos e do pronador redondo, palpamos a face medial desse epicôndilo, e quando inspecionamos a face lateral, palpamos os extensores de punho e dedos, supinador e o ancôneo. Também foi palpada a inserção do bíceps braquial na tuberosidade bicipital e do tríceps braquial junto ao olecrano Seção 2.4 / Avaliação fisioterapêutica do cotovelo - 61 e à bursa olecraniana. Ao final da palpação foi identificado o percurso dos músculos flexores e extensores dos dedos e punho. Ainda na investigação foram realizados os testes de instabilidade articular com teste de varo e valgo para cotovelo e testes específicos para cotovelo de tenista, como o Cozen, Mill e Maudsley. Ao final, foi realizado o teste de pronação e supinação do antebraço. Com um goniômetro, foi verificada a amplitude de flexão e extensão de cotovelo e a pronação e supinação do antebraço. Como no nosso caso clínico o paciente queixava-se de dor e verificou-se perdas de movimentos, a palpação do epicôndilo lateral foi dolorosa e os testes de Cozen, Mill e Maudsley foram positivos, pois referem perdas de força associando a dor ao movimento. A goniometria indicou que o processo inflamatório reduziu os movimentos de extensão de punho e supinação no membro esquerdo. Faça você mesmo Caro aluno, até esta etapa de seus estudos, você já obteve todo o conhe- cimento teórico e prático necessário para a realização de uma avaliação fisioterapêutica completa do cotovelo e antebraço. Portanto, realize testes específicos de ação muscular, função articular, integridade tendínea e ligamentar. Feito isso, elabore uma avaliação fisioterapêutica para o cotovelo e antebraço em uma pessoa de sua família ou um colega. Para isso, é importante que você realize uma revisão das quatro seções da Unidade 2. Avançando na prática Agora que conhece os principais locais de palpação de cotovelo e antebraço e realizou os testes especiais de cotovelo para medir a angulação articular com goniômetro, identifique como esses testes podem ser úteis em outras realidades de queixas de lesões no cotovelo e antebraço. Instabilidade no cotovelo Descrição da situação-problema Um jovem procurou um atendimento ortopédico, pois se queixava de instabilidades no cotovelo direito há mais de um mês. Descreveu que todas as vezes que necessitava elevar um peso, como uma bolsa ou sacola do chão, sentia dificuldades e que não tinha “firmeza” quando necessitava apoiar com o membro no “guidão da bicicleta”. O paciente também disse que 62 - U2 / Ombro e cotovelo: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem as dificuldades se iniciaram quando sofreu uma queda de bicicleta, que o deixou imobilizado por uma semana, mas que, como não sofreu fraturasno local, não realizou fisioterapia após retirada da imobilização. Durante o exame clínico, os movimentos passivos relataram dores leves e perdas de amplitude de movimento, mas não apresentaram crepitações na articulação durante o movimento ativo. O membro não apresentava edema ou áreas de inflamações agudas. Após a realização da palpação no local e dos testes especiais para o cotovelo, foi diagnosticada subluxação crônica de cotovelo na região lateral (articulação úmero-radial). Quais foram os exames clínicos que foram usados para chegar a esse diagnóstico? Lembre-se Áreas inflamatórias crônicas podem não apresentar sinais de dores. A palpação pode auxiliar a encontrar o ponto doloroso antes de aplicar testes especiais neste local. Lembre-se de que os ligamentos colaterais do cotovelo podem se romper quando em queda com cotovelo esten- dido e em supinação. Resolução da situação-problema Durante a palpação das estruturas, a região do ligamento colateral radial apresentou dores que em movimentos passivos podem não aparecer, pois se trata de uma lesão antiga e crônica. Nesta região, deve-se realizar o teste especial de cotovelo em varo, para verificar se esse ligamento e a cápsula estão rompidos. A instabilidade ocorre por lesões de cápsula e do ligamento. Faça você mesmo Como se trata de uma série de locais de palpação e de testes especiais para cotovelo e punho, você, aluno, deve praticá-los com seus colegas e consultar aqueles que já tiveram algum problema físico de cotovelo, identificando se ainda existe algum sinal de alteração. Faça valer a pena 1. Um paciente se queixa de dores na região do epicôndilo medial do úmero. Realizou palpação e testes que reproduziram sinais inflamatórios locais. A palpação da região afetada refere-se à fixação de ________________. a) Músculos e tendões dos extensores dos dedos e do supinador. b) Músculos e tendões dos flexores dos dedos e do supinador. Seção 2.4 / Avaliação fisioterapêutica do cotovelo - 63 c) Músculos e tendões dos flexores do punho e pronador. d) Músculos e tendões dos flexores do punho e extensores dos dedos. e) Músculos e tendões dos flexores dos dedos e supinador. 2. Qual é o objetivo dos testes de Cozen, Mill e Maudsley? a) Testar a instabilidade do cotovelo. b) Testar a força de ação dos músculos pronadores do antebraço. c) Testar a amplitude da supinação do antebraço. d) Testar origens inflamatórias no epicôndilo medial do úmero. e) Testar origens inflamatórias no epicôndilo lateral do úmero. 3. Na palpação da face anterior da linha média do cotovelo é possível identificar um tendão quando o cotovelo se posiciona a 90°. Trata-se do bíceps braquial. O tendão referido se insere no(a)_______________________________. a) Processo coronoide da ulna. b) Processo olecraniano da ulna. c) Tuberosidade radial. d) Dossa radial. e) Tróclea do úmero. Referências BEHNKE, R. S. Anatomia do movimento. 3. ed. Porto Alegre: ArtMed, 2015. COOK, C. E., HEGEDUS, E. J. Testes ortopédicos em fisioterapia. 2. ed. Barueri: Manole, 2015. DUTTON, M. Fisioterapia ortopédica. 2. ed. São Paulo: Artmed, 2010. EVANS, N. Anatomia da musculação. São Paulo: Manole, 2007. FUNARI, M. B. G. Radiologia e diagnóstico por imagem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. JOÃO, S. M. A. Métodos de avaliação clínica em fisioterapia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. JUNQUEIRA, L. Anatomia palpatória: tronco, pescoço, ombro e membros superiores. 2. ed. São Paulo: Guanabara Koogan, 2008. JUNQUEIRA, L. Anatomia palpatória e seus aspectos clínicos. São Paulo: Guanabara Koogan, 2010. KÖPF-MAIER, P. Wolf-Heidegger – atlas de anatomia humana. 6. ed. Traduzido sob a super- visão de Hélcio Werneck. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. LIPPERT, L. S. Cinesiologia clínica e anatomia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. MARQUES, A. P. Manual de goniometria. 3.ed. São Paulo: Manole; Guanabara Koogan, 2014. PALMER, M. L.; EPLER, M. E. Fundamentos das técnicas de avaliação musculoesquelética 2. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. RASCH, P. J. Cinesiologia e anatomia aplicada. São Paulo: Guanabara Koogan, 1991. REISER, M.; BAUR-MELNYK, A.; GLASER, C. Diagnóstico por imagem – musculoesquelético 1. São Paulo: Artmed, 2009. SACCO, I. C. N.; TANAKA, C. Fisioterapia: teoria e pratica clínica – cinesiologia e biomecâ- nica. São Paulo: Guanabara Koogan, 2008. TORRES, D. de M. Fisioterapia – guia prático para a clínica. São Paulo: Guanabara Koogan, 2006. VALERIUS, K.-P. et al. O livro dos músculos: anatomia, testes, movimentos. São Paulo: Santos, 2013. Unidade 3 Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Convite ao estudo Em continuidade ao estudo do diagnóstico cinético-funcional do membro superior, estudaremos nesta unidade o punho e a mão, que serão abordados mediante casos clínicos que facilitarão o processo de aprendi- zagem. Dessa forma, você vai conhecer as estruturas e as funções desses segmentos do membro superior e aprenderá a executar testes de mobilidade e função, sendo estes importantes para se realizar um diagnóstico referente às limitações que cada patologia pode provocar. Competência geral: Conhecer os métodos de avaliação cinético-funcional e de diagnóstico por imagem de membros superiores, cabeça e tronco. Competência técnica: Conhecer e aplicar os métodos de avaliação de punho e mão. Objetivos: • Aprofundar o conhecimento das estruturas anatômicas, da biomecâ- nica e da cinesiologia do punho e da mão. • Compreender os limites de mobilidade articular do punho e da mão. • Desenvolver noções básicas de exames por imagem do punho e da mão. • Aprender a aplicar testes de avaliação de mobilidade e força do punho e da mão. • Aprender a aplicar testes de sensibilidade da região do punho e da mão. • Aprender a realizar mensurações de angulação de movimento articular do punho e da mão. • Aprender a aplicar os testes especiais de avaliação do punho e da mão. Com a finalidade de conduzir você, aluno(a), a desenvolver as competências anteriormente mencionadas e atender aos objetivos específicos do tema abordado, vamos apresentar uma situação clínica real que o auxiliará no processo de estudo e prática. Vamos lá! Um rapaz de 26 anos, que é músico, guitarrista profissional de uma banda de formaturas que realiza apresentações noturnas, destro, e que consome socialmente bebidas alcoólicas durante os eventos em que trabalha, queixou-se de dores no punho direito e alterações de sensibilidade, como sensações de mão fria e “formigamentos”. Ele descreveu que vem perdendo gradativamente a força de pinça e sustentação de objetos, que utiliza quando tenta segurar um copo, um garfo ou tenta escrever e digitar, além de dificul- dades de flexão do punho e dedos. Ele ainda relatou que, há várias semanas, esses sinais e sintomas começaram a surgir quando estava dormindo durante o dia, uma vez que trabalha à noite em razão de sua profissão. Ele, portanto, passou pelo médico ortopedista, que o imobilizou e o medicou; as dores e as sensações de formigamento, no entanto, voltaram e passaram a se manifestar a qualquer hora do dia. O rapaz, então, relatou que, no momento, perdeu parcialmente o tato do polegar, do segundo e do terceiro dedo e que não consegue mais realizar movimentos de pinça em virtude da insegurança que tem de perder as forças e soltar os objetos que esteja segurando. O músico, em razão disso, passou por ortopedista, foi novamente imobilizado por sete dias e medicado, tendo realizado exames laboratoriais sanguíneos para detectar possível artrite reumatoide e exames de imagem como o de raios X, a ultrassonografia de punho e a eletroneuromiografia. Diagnosticou-se síndrome do túnel do carpo, razão pela qual ele foi encami- nhado à fisioterapia. Na fisioterapia, foi questionado sobre a função renal, procurando justificativa para o edema nos membros, mas foram constatados apenas o processo inflamatório do punho e uma perda de função sensorial e motora. Foi, então,realizada uma avaliação cinética-funcional que inclui palpação, testes especiais, análise dos dados da anamnese; e ainda se analisaram radio- grafias e outros exames que confirmaram a síndrome do carpo, com perdas motoras, funcionais e mobilidade dolorosa relacionada à sua profissão, que exigia esforços repetitivos. Observando esse histórico, é possível resolver os seguintes questionamentos: • Quais foram as estruturas estudadas para identificar as limitações causadas pela doença e o que foi observado nessa avaliação? • Quais foram os testes realizados no diagnóstico fisioterapêutico? • Qual é a relação deles com a atividade de guitarrista do rapaz? 28 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Anatomia, cinesiologia e imaginologia do punho Diálogo aberto Olá, aluno! Bem-vindo à seção de estudo que inicia a avaliação do punho. Nesta seção, vamos conhecer a anatomia do punho e seus movimentos, a capaci- dade de força e a amplitude dos movimentos, além de conhecer e aprender a identificar as estruturas anatômicas por meio dos exames de imagens diagnós- ticas. Para uma avaliação fisioterapêutica do punho do paciente, é necessário que o profissional conheça a anatomia das estruturas anatômicas associada a suas funções. Além dessas estruturas, ele deve transferir os conhecimentos anatô- micos para as imagens estudadas nos raios X, nas tomografias e na ressonância nuclear magnética para a confirmação diagnóstica. Na situação hipotética apresentada anteriormente no item Convite ao estudo, um jovem músico de 26 anos, que toca guitarra à noite em uma banda profis- sional, queixou-se de dores no punho direito, formigamentos e perda de força e movimento entre o punho e a mão – principalmente nos movimentos de pinça – tendo sido diagnosticado com síndrome do túnel do carpo. Posteriormente, seu fisioterapeuta diagnosticou, além de dores, perdas funcionais como diminuição da força e da amplitude de movimentos. Analisando essa situação, é preciso responder: Quais estruturas foram estudadas pelo fisioterapeuta para que ele conseguisse justificar essas perdas funcionais de amplitude de movimento e força muscular seguidas de dor? Seção 3.1 Não pode faltar Anatomia do punho O punho é a região distal do antebraço – também chamada de região cárpica – que se articula com a mão. Ele é formado pelas partes distais da ulna, pelo rádio e pelos ossos do carpo. Pela região de transição entre o rádio e os carpos, passa um grande grupo de tendões de músculos que movimentam o próprio punho e também os dedos. Na face anterior, passam os tendões dos músculos flexores e, na face posterior, passam os tendões dos músculos extensores. O punho, portanto, tem uma relação íntima com os músculos que têm origem no cotovelo, na região dos epicôndilos no braço, no corpo do rádio e na ulna, que lançam seus tendões para movimentar o próprio punho e também para movimentar os dedos. Seção 3.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do punho - 29 Quadro 3.1 | Articulações da região do punho – classificação e função Articulação (juntura) Função Radioulnar distal Pivô, movimentos de pronação e supinação. Radiocárpica Elipsoide, movimentos de flexão, extensão, inclinações ou desvio radial e ulnar. Intercárpica Plana, promove a acomodação por deslizamento. Carpometacarpiana Plana, promove a acomodação por deslizamento. Fonte: elaborado pelo autor. Fonte: elaborado pelo autor. Quadro 3.2 | Tabela de ligamentos do punho Retináculo dos tendões extensores e ligamento radiocarpal dorsal Estabiliza e fixa os tendões extensores dos dedos e do punho e limita a flexão. Ligamento radiocarpal e ulnocarpal palmar Fecha anteriormente o túnel do carpo. É o espessamento da fáscia do antebraço e limita a hiperextensão. Piso-hamato Forma o túnel de Guyon, que protege o ramo palmar do nervo ulnar. Pisometacarpal Também protege o ramo palmar do nervo ulnar. Colateral radial do carpo Limita a inclinação ou desvio ulnar (adução da mão). Colateral ulnar do carpo Limita a inclinação ou desvio radial (abdução da mão). Quadro 3.3 | Tabela de músculos da região do punho Nome do músculo Principal ação Nervo (inervação) Porção radial do músculo flexor superficial dos dedos Flexor das II, III, IV e V articulações interfalangia- nas proximais Mediano C8 – T1 Músculo flexor longo do polegar Flexor da articulação inter- falangiana do polegar Prolongamento do nervo mediano C8 – T1 Músculo flexor profundo dos dedos Flexor das II, III, IV e V articulações interfalangia- nas distais Ulnar C8 – T1 na região medial (III e IV dedos) e prolonga- mento do nervo mediano C8 – T1 na lateral (I e II dedos) Músculo extensor curto do polegar Extensor na articulação carpometacárpica (tra- pézio-I metacarpo) Prolongamento do Radial C7 – C8 Músculo extensor longo do polegar Extensor da articulação interfalangiana do polegar Prolongamento do Radial C7 – C8 Músculo extensor do II dedo Extensor do dedo indicador Prolongamento do Radial C7 – C8 30 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Fonte: elaborado pelo autor. Músculo abdutor longo do polegar Abduzir o polegar Prolongamento do Radial C7 – C8 Músculo pronador qua- drado Pronação Prolongamento do nervo mediano C8 – T1 Assimile Três nervos importantes inervam os membros superiores. No antebraço e punho, o nervo mediano é responsável pela inervação dos músculos flexores de dedos e punho e dos pronadores, ao passo que os nervos ulnar e radial são responsáveis nessa região pelos músculos extensores. Quando estudamos o epicôndilo medial, encontramos as origens dos músculos flexor radial do carpo, palmar longo, flexor ulnar do carpo, que têm como funções as mobilidades do punho, mas também encontramos o flexor superficial dos dedos. No epicôndilo lateral, encontramos as origens dos músculos extensor radial longo e curto do carpo, parte do extensor ulnar do carpo, para mobili- dade do punho, e também dos extensores dos dedos, extensor do V dedo. Uma parte do músculo flexor superficial dos dedos tem origem no terço proximal do rádio junto com os músculos flexor longo do polegar e extensor curto do polegar (Figura 3.1). No corpo da ulna encontramos as origens dos músculos flexor profundo dos dedos, extensor do II dedo e do extensor longo do polegar (Figura 3.2). Todos os músculos dessa longa lista se inserem no punho ou por ele passam. Fonte: Valerius et al. (2013, p. 76). Figura 3.1 | Músculo flexor profundo dos dedos (à esquerda); músculo flexor longo do polegar (ao centro) e extensor curto do polegar (à direita) Seção 3.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do punho - 31 Fonte: Valerius et al. (2013, p. 130). Figura 3.2 | Músculos extensor do II dedo (à esquerda); extensor longo do polegar (ao centro) e abdutor longo do polegar (à direita) Na face posterior do punho, encontramos o retináculo dos tendões dos extensores que se unem com a fáscia aponeurótica de alguns tendões e com o ligamento radiocarpal dorsal para estabilizar a passagem dos tendões e também para limitar a flexão. Por isso, os movimentos dos músculos extensores de dedos, quando realizados em flexão de punho, sobrecarregam esses tendões e as bainhas tendíneas, que é um tecido que separa o tendão do retináculo para que este possa deslizar livremente no movimento (Figuras 3.3 e 3.4). Na face anterior, os ossos do carpo fazem uma ponte para passagem dos tendões dos músculos flexores, e, nesse canal, passam também artérias, veias e nervos, em especial o nervo mediano, que passa bem ao centro. Qualquer aumento de volume nessa região, como inflamações por atritos ou doenças reumáticas, retenções líquidas, tumores, calos ósseos por fraturas ou tecidos cicatriciais, podem obstruir o canal e comprimir o nervo mediano. 32 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Fonte: Lippert (2013). Figura 3.3 | Retináculo extensor do punho Fonte:Hansen (2003). Figura 3.4 | Retináculo flexor do túnel do carpo (à esquerda) e vista superior do túnel do carpo e túneis extensores (à direita) Seção 3.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do punho - 33 Assimile O nervo mediano inerva os músculos: flexor superficial dos dedos, porção lateral do músculo flexor profundo dos dedos, além do pronador quadrado, e, no epicôndilo medial, inerva o pronador redondo, o flexor radial do carpo e o palmar longo. Ossos, articulações e ligamentos A região do punho é formada pela articulação radioulnar distal, que se relaciona com o movimento de pronação e supinação do antebraço, mas também pela articulação radiocárpica, uma articulação do tipo sinovial elipsoide que confere um movimento de flexão de punho a 90 graus, que é limitado anatomicamente pelo retináculo e ligamento radiocarpal dorsal. Após o retorno do movimento da flexão, realizamos a extensão. O punho pode realizar também hiperextensão de 70 graus até o limite do ligamento radiocarpal palmar. O limite de inclinação radial é de 25 graus, delimitado pelo ligamento colateral ulnar; e o valor de inclinação ou desvio ulnar é de 35 graus, delimitado pelo ligamento colateral radial (Figura 3.5). Os ligamentos do punho têm baixo fluxo sanguíneo e, sobre eles, encon- tram-se tecidos muito densos. Quando os lesionamos realizando movimentos repetitivos ou com carga, ou mesmo se os traumatizamos, a recuperação e a cicatrização deles são bem lentas. Em quedas com punho em hiperex- tensão ou em esportes como o judô, quando se lesiona um desses ligamentos, o tempo de recuperação é longo e os indivíduos que lesionaram o punho voltam às atividades mesmo não estando totalmente recuperados. Figura 3.5 | Tabela de movimentos do punho Fonte: Lippert (2013, p. 130). 34 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Músculos e ação do movimento Os movimentos básicos de flexão e extensão do punho podem ser estudados facilmente se lembrarmos que eles estão associados aos epicôn- dilos do úmero. Veja: • Os músculos flexores do punho são: o flexor ulnar do carpo, o palmar longo, o flexor radial do carpo, que têm origem no epicôndilo medial. • Os músculos extensores de punho são: os músculos extensores radiais do carpo, o extensor longo e o curto do carpo e a parte do extensor ulnar do carpo. Os movimentos de inclinação radial (lateral) são executados por ação em conjunto dos músculos flexores e extensores radiais do carpo; e os de incli- nação ulnar (medial), pelos extensores lunares do carpo. Os músculos que têm origem no corpo do rádio e da ulna são próprios para movimentos dos dedos, tendo funções acessórias nos movimentos do punho. Na passagem dos músculos flexores pelo punho, uma bainha tendínea se estrutura passando por uma curva que se forma pelos ossos do carpo, sendo coberta, na face anterior, por um retináculo (Figura 3.4). Os tendões dos músculos que passam no túnel do carpo são os quatro tendões do flexor longo dos dedos, quatro tendões do flexor curto dos dedos, o flexor longo do polegar e uma inserção do flexor radial do carpo, além de artérias, veias e também o nervo mediano (setas da Figura 3.4). Na face posterior, há 12 Reflita A passagem dos tendões flexores de dedos e punho permanece junto com a passagem de vasos sanguíneos e nervos da mão. Pesquise mais Reveja a anatomia funcional do punho lendo o seguinte livro: VALERIUS, Klaus-Peter et al. O livro dos músculos: anatomia, testes, movimentos. São Paulo: Santos, 2013. Noções de imaginologia do punho: raios X; ressonância magnética, tomografia computadorizada e ultrassonografia As principais imagens de investigação radiológica do punho são AP de punho e perfil. Na PA (Figura 3.6), observe os ossos do carpo em duas fileiras na imagem. A fileira distal (inferior na imagem) é formada, da esquerda para Seção 3.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do punho - 35 Exemplificando Em uma radiografia não é possível observar os ligamentos. Se existir alguma suspeita de lesão ligamentar, a radiografia com abdução ou adução máxima do punho pode ser usada para auxiliar no diagnóstico, já que provocará um espaço maior entre os espaços articulares. a direita, pelos ossos trapézio, trapezoide, capitado e hamato, seguidos da fileira proximal (superior na imagem), pelos ossos escafoide, semilunar e a piramidal e pisiforme, que estão sobrepostos na imagem do RX. É impor- tante para se observar todas as articulações intercárpicas, carpometacárpicas e radiocárpica. Em especial a articulação do trapézio com o I metacarpo que forma uma articulação selar, que promove os movimentos de flexão, extensão, abdução e adução do polegar ou I dedo. É comum nessa região encontramos algumas artroses, como a rizartrose do polegar. Observe se os espaços estão aumentados em alguma articulação do carpo, representando alguma lesão ligamentar. Em geral, a mais estudada é a escafossemilunar, graças à importância e à prevalência de lesões. Mas, se o espaço tiver estreitamentos nos espaços articulares, representam coalizão carpal, frequentemente encontrada em anciloses ou na artrite reumatoide. Na região dos carpos é possível visualizar três arcos chamados de arcos de Gilula, que devem estar paralelos (Figura 3.7). A instabilidade carpal altera os arcos de Gilula. Observe também alterações na ulna, como uma ulna mais curta (ulna minus) ou mais longa que o normal (ulna plus), uma vez que essas alterações podem favorecer o surgimento de lesões e instabilidades. Na imagem de perfil é possível identificar também um eixo entre as articulações dos seguintes ossos: rádio (R), escafoide (L), semilunar (L) e capitato (C) (Figura 3.7). Essas imagens favorecem bastante o estudo de instabilidades estáticas, mas, se houver necessidade de estudar uma instabili- dade dinâmica, são melhores as imagens de RX em PA com inclinação radial ou a inclinação ulnar. Nos RX de perfil, o estudo de instabilidades dinâmicas pode ser feito com uma flexão ou hiperextensão. 36 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Fonte: iStock. Figura 3.6 | RX de punho em PA Fonte: Chen, Pope e Ott (2012, p. 198). Figura 3.7 | RX PA de punho (esquerda) e perfil de pu- nho (direita) Pesquise mais Para conhecer mais sobre imagem em radiologia, consulte o seguinte livro: GREENSPAN, Adam. Radiologia ortopédica: uma abordagem prática. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. Os exames de imagem por tomografia, ressonância e ultrassonografia têm melhor definição para tecidos moles, como tendões e ligamentos, sendo também usados para fraturas ocultas. Na ressonância magnética, as imagens de tecidos moles têm coloração escura. Veja a Figura 3.8. Fonte: iStock. Figura 3.8 | RNM de punho – corte coronal Seção 3.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do punho - 37 Sem medo de errar Após o estudo sobre as estruturas anatômicas e funcionais do punho, é possível responder ao questionamento de nossa situação-problema, em que um jovem músico que tocava guitarra e trabalhava à noite, foi diagnosticado primei- ramente com síndrome do túnel do carpo. Posteriormente, um fisioterapeuta diagnosticou que o rapaz, além de dores, tinha perdas funcionais, como força e amplitude de movimentos, e sentia alterações de sensibilidade e formigamentos na mão. Quais estruturas foram estudadas pelo fisioterapeuta para identificar perdas funcionais como amplitude de movimentos e força? Atenção O estudo dos músculos, tendões e ligamentos do punho se relaciona com o das artérias, das veias e dos nervos que passam pelo mesmo canal, que é o túnel do carpo, ou canais adjacentes a ele. Foram estudados os músculos que passam pelo punho ou nele se inserem e foram identificados aqueles que passam pela região do túnel do carpo, que, sob esforços repetitivos, provocaram atritos e processos inflamatórios, além de edemas que comprimiram o nervo mediano. No túnel do carpo passamos quatro tendões dos músculos flexores super- ficiais e os quatro tendões do músculo flexor profundos dos dedos, além do tendão do músculo flexor longo do polegar, onde há fixação do flexor radial do carpo, todos que circundam o nervo mediano e são envoltos em sua face anterior pelo retináculo flexor do punho. A atividade repetitiva do guitarrista, portanto, provocou atritos no punho, onde passam os tendões que movimentam os dedos, e gerou um processo inflamatório que comprimiu o nervo mediano, responsável pelos movimentos e pela sensibilidade dos músculos flexores da região. Os músculos da flexão dos dedos e (flexores curto e longo dos dedos) e do polegar (flexor longo do polegar) foram afetados e impediram a realização do movimento de pinça; além disso, a região é local de fixação do flexor radial do carpo, e no retiná- culo anterior é fixado o palmar longo. Avançando na prática Agora que você conhece as estruturas anatômicas do punho, já estudou os movimentos realizados e identificou as estruturas nos exames de imagem, é possível responder uma situação-problema que envolve esses conhecimentos. 38 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Doença degenerativa – rizartrose Descrição da situação-problema Uma senhora de 60 anos, do lar, destra, que tem hábitos de costura doméstica como tricô e crochê, se queixa de dores e estalidos com trava- mento articular durante o movimento de pinça com a flexão do polegar direito. Ela não tem história clínica de traumas nem diagnóstico de artrite reumatoide ou outras doenças articulares. Foi imobilizada por sete dias e fez uso de anti-inflamatório não esteroidal, tendo sido em seguida encaminhada à fisioterapia com diagnóstico de rizartrose na mão direita. Quais as estru- turas que estão envolvidas na região de queixa dessa senhora? Lembre-se Os movimentos repetitivos podem gerar lesões em tendões, mas também em ligamentos, músculos e articulações. Resolução da situação-problema A articulação estudada é a trapézio – I metacarpo, e os músculos responsáveis pelos movimentos são os flexores longo e curto do polegar, o abdutor longo do polegar. Movimentos repetitivos criam instabilidades e desgaste articular quando existem alterações entre forças musculares e a posição do polegar durante as atividades repetitivas. A rizartrose é uma degeneração da base do polegar, mas causa dores na região do punho. Faça você mesmo Faça uma pequena tabela com os músculos do antebraço, com origem e inserção. Separe as origens por epicôndilo medial, epicôndilo lateral, corpo do rádio e corpo da ulna e observe a sincronia que têm com os movimentos do punho e dos dedos. Faça valer a pena 1. Complete a lacuna da seguinte frase: “Os movimentos normais de inclinação radial, também chamado de abdução do punho, são limitados anatomicamente por estruturas como o ____________”. a) Ligamento carpometacarpiano. b) Ligamento radioulnar distal. c) Ligamento ulnocarpal. Seção 3.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do punho - 39 d) Ligamento radiocarpal. e) Ligamento intercárpico. 2. O estudo dos três arcos de Gilula na radiologia do punho é importante para que se identifiquem alterações como: a) Rizartrose. b) Síndrome do túnel do carpo. c) Luxações ou fraturas no carpo. d) Tendinite. e) Epicondilite. 3. Alterações de estruturas que denunciam a síndrome do túnel do carpo são: a) Estreitamentos do canal de passagem tendínea na região anterior do punho. b) Afastamentos do túnel do carpo. c) Espaços intercárpicos aumentados. d) Espaços intercárpicos diminuídos. e) Desgastes da articulação trapézio-metacarpo. 40 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Avaliação fisioterapêutica do punho Diálogo aberto Seja bem-vindo à seção que estuda a parte prática do diagnóstico cinéti- co-funcional do punho. Nela, estudaremos o exame de palpação e testes especiais, além de realizar as medidas goniométricas dos movimentos do punho. O objetivo da palpação é estudar a anatomia superficial e identi- ficar alterações anatômicas ou processos inflamatórios que reflitam dores ou dificuldades no movimento. Com os testes especiais, colocamos em estresse as estruturas musculares, tendinosas, ligamentares, capsulares e passagens de estruturas vasculares e nervosas no punho. Na goniometria verificam-se a angulação dos movimentos articulares e o teste de força muscular para sua graduação. Agora voltemos à situação hipotética apresentada no item "Convite ao estudo" sobre o jovem de 26 anos, que é músico. Ele, que toca guitarra em uma banda profissional, queixou-se de dores no punho direito, formiga- mentos e perda de força e movimento entre o punho e a mão, principal- mente nos movimentos de pinça, tendo sido diagnosticado com síndrome do túnel do carpo. Posteriormente, um fisioterapeuta diagnosticou que, além de dores, o rapaz também apresentava perdas funcionais, como diminuição da força e da amplitude de movimentos. Refletindo sobre essa situação e anali- sando-a, e agora também conhecendo melhor as estruturas que se situam na região do punho, quais foram os exames físicos e testes especiais que puderam confirmar uma lesão das estruturas anatômicas e funcionais do punho do paciente? Para que você consiga responder a esses e outros questionamentos sobre os testes clínicos fisioterapêuticos, serão apresentados de forma contex- tualizada no item "Não pode faltar" os conteúdos necessários para a sua compreensão. Bons estudos! Seção 3.2 Seção 3.2 / Avaliação fisioterapêutica do punho - 41 Não pode faltar Exame palpatório A região do punho contém um volume grande de estruturas pequenas a serem palpadas e testadas, razão pela qual deve ser estudada em compartimentos separados. Palpe primeiro a face posterior, logo depois, a face lateral e, em seguida, a medial, terminando a palpação na face anterior. Inicie a palpação do paciente com o membro relaxado e posicionado com o cotovelo fletido a 90 graus, com o antebraço na posição neutra (entre pronação e supinação), pois, dessa forma, os tecidos moles estarão relaxados. Palpe a superfície dorsal do rádio para observar uma saliência aguda próxima à lateral do punho; trata-se do tubérculo de Lister, que é uma saliência que serve de polia para o tendão do músculo extensor longo do polegar no terceiro túnel do retináculo posterior. Se continuar a palpação até a face lateral do punho, uma saliência aguda do rádio forma o processo estiloide. Nessa região está o ligamento colateral radial, que pode ser palpado se o terapeuta realizar passivamente uma incli- nação ou desvio ulnar ao máximo. Solicite ao paciente que realize a inclinação ulnar ativamente a fim de que seja possível palpar os tendões que passam no primeiro túnel, que são dos músculos abdutor longo do polegar e extensor curto do polegar (Figura 3.9). Na posição inversa, portanto, na face medial do punho, está o processo estiloide da ulna. Mantenha o punho na posição neutra, uma vez que, se ele estiver em pronação, só será possível palpar a cabeça da ulna (Figura 3.9). Experimente mudar a posição em pronação do antebraço para notar que o processo estiloide está saliente somente na posição neutra. Se o terapeuta realizar passivamente uma inclinação radial, será possível palpar o ligamento colateral radial (rádio-carpo), e, se ele pedir ao paciente para realizá-la ativamente, somada a uma extensão de punho, é possível palpar o tendão do músculo extensor ulnar do carpo no sexto túnel do retináculo posterior. Recomece a palpação pressionando na face posterior o centro do punho para que uma fossa surja, sendo possível palpar a face superior do osso capitato. Mantenha o dedo na fossa e, pressionando-a, realize uma flexão passiva máxima do punho. O osso que será palpado agora será o semilunar, que é difícil de ser encontrado em posição neutra (Figura 3.11). Se o indivíduo realizar uma extensão ativa do punho e dos dedos, nessa região ficarão salienteos tendões do túnel de número quatro do retináculo posterior. São tendões dos extensores dos dedos e extensor do segundo dedo. Experimente pedir ao paciente que execute ativamente movimentos com os dedos e observe os tendões em ação nessa região. Na face medial anterior do punho, abaixo da ulna, são palpáveis os ossos piramidal e pisiforme, que formam uma saliência (Figura 3.11). Palpe agora a face lateral do punho solicitando que o paciente execute uma extensão e abdução do polegar (I dedo). Uma fossa que se forma na lateral é a tabaqueira anatômica, 42 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem local que deve ser pressionado para identificar o trapézio, osso que sustenta o I metacarpo e, portanto, importante no movimento do polegar (Figura 3.10). Exemplificando A chamada tabaqueira anatômica é delimitada pelos tendões que passam pelos túneis do retináculo posterior de número um e três. Envolvem tendões do polegar e ossos como trapézio e escafoide. Se o paciente tiver histórico de artrose do tipo rizartrose ou tenossinovite De Quervain, o local será doloroso. Na mesma posição, execute uma incli- nação ulnar para que o osso escafoide surja e possa facilmente ser palpado. A fratura do escafoide é sentida na palpação, sendo difícil de ser identificada na radiografia em razão de uma baixa calcificação e vascularização da região do centro do osso. Nessas condições, chamamos de fratura oculta ao RX. O escafoide também pode ser palpado em forma de pinça com seus dedos (Figura 3.10). Apoie seu indicador sobre o escafoide e seu polegar na face anterior e estará segurando o escafoide. Sobre a face dorsal do carpo, em que passam os tendões pelos túneis do retiná- culo, podem ser mais bem compreendidos se observar o Quadro 3.4 a seguir: Quadro 3.4 | Ação dos músculos extensores que passam no punho 1 Com relação ao polegar Músculo abdutor longo do polegar Músculo extensor curto do polegar 2 Com relação à extensão do punho Músculo extensor radial longo do carpo Músculo extensor radial curto do carpo 3 Com relação ao polegar Músculo extensor longo do polegar 4 Com relação à extensão dos dedos Músculo extensor dos dedos Músculo extensor do indicador (II dedo) 5 Com relação ao mínimo (V dedo) Músculo extensor do V dedo 6 Com relação à extensão do punho Músculo extensor ulnar do carpo Fonte: elaborado pelo autor. Fonte: Junqueira (2010, p. 174-184). Figura 3.9 | Palpação da cabeça da ulna, do processo estiloide radial e processo estiloide ulnar Seção 3.2 / Avaliação fisioterapêutica do punho - 43 Passemos para a face anterior do punho. O retináculo anterior do punho deve ser palpado nas suas inserções, representadas pelo trapézio e pelo escafoide, na face lateral, e pelo pisiforme e pelo hamato, na altura do hâmulo, na face medial (Figura 3.10). O trapézio deve ser localizado primeiro, como foi explicado, na face posterior, e depois deve ser identificada uma saliência na face anterior; a saliência mais distal é o tubérculo do trapézio para inserção do retináculo, e a mais proximal é o tubérculo do escafoide, também para inserção do retináculo. Na mesma linha, na face medial, a saliência menor distal, protegida por músculos, é o hâmulo do hamato, e a maior, que é proximal, é o osso pisiforme que está situado sobre o osso piramidal. Na linha média do punho, o retináculo faz uma tenda que forma o túnel do carpo. Peça ao paciente que faça a união das extremidades digitais do primeiro com o último dedo e, em seguida, realize uma flexão de punho. Um tendão vai saltar. É o tendão do músculo palmar longo. Fonte: Junqueira (2010, p. 174-184). Figura 3.10 | Palpação da tabaqueira anatômica, pinçamento do escafoide e dos tendões que entram no túnel do carpo Teste a circulação sanguínea da mão, que recebe vasos arteriais pelo punho. Acima do tubérculo do escafoide, sinta a pulsação da artéria radial e, em seguida, sinta acima do osso pisiforme o pulso da artéria ulnar. A artéria ulnar não é tão fácil de perceber quanto a radial. Peça ao paciente que cerre firmemente o punho enquanto você obstrui as artérias com seus dedos. Mantenha-as obstruídas com seus dedos e solicite ao paciente que relaxe e abra a mão. Uma coloração pálida da mão se forma. Desobstrua uma das artérias e observe a coloração avermelhada surgindo junto a uma sensação de calor na mão do paciente. Repita o procedimento com a outra artéria para observar se existe comprometimento circulatório na mão. A má circulação de um dos vasos causará uma palidez mais persistente na mão. 44 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Fonte: Junqueira (2010, p. 174-184). Figura 3.11 | Palpação dos ossos piramidal e pisiforme e da fossa do semilunar Pesquise mais Para saber mais sobre o exame de palpação de ombro, braço e punho, faça uma pesquisa sobre o assunto no seguinte livro: JUNQUEIRA, Lília. Anatomia palpatória: tronco, pescoço, ombro e membros superiores. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. Testes especiais de avaliação do punho São testes consagrados que podem não só identificar deficiência ou perdas de movimentos, alterações ou perdas de estabilidade, mas também denunciar lesões e inflamações no local. Reflita Os testes que avaliam lesões específicas devem ser feitos acompanhados da queixa do paciente, mas também dos exames complementares de imagem. A instabilidade do punho decorrente de luxações ou lesões do ligamento colateral radial pode ser testada com o teste do polegar do esquiador, que corresponde à realização de um estresse em extensão e abdução do polegar, com apoio do I metacarpo e pressão sobre a lateral da articulação. O objetivo é verificar se o ligamento colateral ulnar do polegar está lesionado. Se formar um ângulo acima de 30 graus, indica lesão (Figura 3.12). Atenção É muito comum confundir o ligamento colateral ulnar do punho com o ligamento colateral ulnar do polegar. Os nomes são semelhantes, mas a localização é inversa no punho. A rizartrose e as tendinites crônicas dessa região facilitam o surgimento de luxação ou instabilidade. Verifique se não existe a doença De Quervain, uma tenossinovite no primeiro túnel com o tendão dos músculos extensor curto do Seção 3.2 / Avaliação fisioterapêutica do punho - 45 polegar e abdutor longo do polegar. Para verificar, faça o teste de Finkelstein, pedindo ao paciente para fechar o punho, como o faz um pugilista, segurando o polegar, enquanto o terapeuta executa uma inclinação ulnar. A dor denuncia a tendinite (Figura 3.12). Figura 3.12 | Teste do polegar do esquiador ou do guarda-caça e teste de Finkelstein Fonte: Cook e Hegedus (2015, p. 238-239). Nos riscos de fratura ou luxações do escafoide, o teste de compressão pode ser realizado da seguinte forma: segure, com uma das mãos, a mão do paciente e, com a outra, o polegar dele, realizando uma pressão contra os ossos do carpo. Esse teste também pode ser assim realizado: segure o polegar do paciente enquanto o pressiona contra o carpo e comprima a tabaqueira anatômica. A dor indica a lesão (Figura 3.13). Fonte: Cook e Hegedus (2015, p. 241). Figura 3.13 | Teste para lesão do escafoide por compressão óssea e por compressão da tabaqueira Os testes que verificam a compressão do nervo mediano no túnel do carpo é o teste de Phalen, que consiste em realizar a flexão máxima do punho. A presença de alterações de sensibilidade na zona inervada pelo nervo mediano é indicativo de resultado positivo. Nesse teste, o terapeuta pode auxiliar na flexão 46 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem de forma manual quando a lesão por compressão estiver no início (Figura 3.14). Para auxiliar no diagnóstico, pode-se realizar o teste de pinça, pressio- nando com força, na posição de pinça, o polegar ao indicador (Figura 3.14). Outro teste que auxilia no diagnóstico de síndrome do túnel do carpo é o ato de sacudir as mãos e verificar se nelas ocorreu parestesiasdecorrentes da compressão do nervo mediano (Figura 3.14). Assimile A compressão do nervo mediano na passagem do túnel do carpo é chamada de síndrome do túnel do carpo, que promove, além de perdas motoras, alterações de sensibilidade e edemas na mão. Fonte: Cook e Hegedus (2015. p. 260, 247 e 262). Figura 3.14 | Da esquerda para a direita: testes de Phalen, de pinça, de sacudidura Pesquise mais Uma série de testes ortopédicos usados na fisioterapia pode ser vista no seguinte livro, referência em testes especiais: COOK, Chad E.; HEGEDUS, Eric J. Testes ortopédicos em fisioterapia. 2. ed. Barueri: Manole, 2015. Goniometria do punho As medidas de movimentos do punho são facilmente realizadas da seguinte forma: coloque o braço fixo do goniômetro na face medial da ulna, como na Figura 3.15, e o braço móvel sobre a superfície medial do V metacarpo e solicite ao paciente que realize uma flexão; esperam-se 90 graus, e na hiperextensão são esperados 70 graus. Na medida das inclinações ou desvios, o braço fixo do goniômetro fica posterior ao antebraço, apontando para o epicôndilo lateral, e o braço móvel se mantém sobre a superfície dorsal do terceiro metacarpo. A inclinação ulnar deve alcançar 45 graus, ao passo que a inclinação radial deve alcançar 20 graus (Figura 3.15). Seção 3.2 / Avaliação fisioterapêutica do punho - 47 Figura 3.15 | Goniometria do punho – da esquerda para a direita: flexão, extensão/hiperexten- são, inclinação radial, inclinação ulnar Fonte: Marques (2014, p. 27-30). Testes de força do punho O exame de força nos movimentos do punho deve ser realizado com referência à mobilidade identificada na goniometria e deve ser feito com resis- tência manual de um fisioterapeuta com o objetivo de graduar a força nos níveis, segundo o autor Torres (2006) (ilustrado na Figura 2.7, tabela de nível de força, na Seção 2.1 da Unidade 2). Verificam-se flexão, extensão, inclinação radial e inclinação ulnar. Os testes de sensibilidade da região do punho serão mais bem estudados com os da mão nas próximas seções. Reflita Como são realizados os testes de força muscular? Os testes de força muscular devem acompanhar os movimentos reali- zados na goniometria, com a mesma angulação, porém com resistência manual oferecida pelo fisioterapeuta. Sem medo de errar Após o estudo sobre a avaliação do punho, é possível responder P à situa- ção-problema que descreve as queixas do paciente de 26 anos, músico que toca guitarra em uma banda profissional. Ele relata dor no punho direito associada à sensação de formigamentos, de perda de força e movimento entre o punho e a mão, principalmente nos movimentos de pinça. Foi diagnos- ticado com síndrome do túnel do carpo e, na avaliação fisioterapêutica, apresentou perdas funcionais como diminuição da força e da amplitude de movimentos. Refletindo sobre essa situação e analisando-a, quais foram os testes que puderam identificar as perdas motoras do paciente? 48 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Atenção O que é necessário para resolver essa situação-problema? Você deve conhecer o exame de palpação e os testes especiais de força e sensibili- dade que são aplicados no punho para identificar lesões dessa região e que, portanto, podem ser aplicados nesse caso clínico. Foram realizadas palpações em todas as zonas de passagem de tendões, ligamentos, saliências ósseas e espaços articulares do punho, tendo como resul- tado alterações durante a palpação da face anterior, onde se localizam o túnel do carpo e o retináculo que o protege. Houve resultados positivos para o teste de Phalen, o de pinça do polegar com indicador e o de sacudidura do punho, que são especiais para identificar a síndrome do túnel do carpo. O teste de força tem resultado reduzido na flexão do punho, em razão da condição antálgica e da perda de força em virtude do processo inflamatório e do baixo estímulo nervoso, assim como da redução de ângulo goniométrico durante a mensuração na flexão. As inclinações podem apresentar movimentos normais, porém doloridos. Avançando na prática Agora que você conhece os exames de palpação, os testes especiais e os testes de força muscular da região do punho, identifique quais procedimentos e testes podem ser úteis em outras realidades de queixas de lesões no punho. Doença De Quervain Descrição da situação-problema Uma costureira de 50 anos, que faz crochê e tricô nas horas de folga, queixa- va-se de fortes dores e perdas motoras e sensitivas. Depois de ter sido diagnosticada com síndrome do túnel do carpo, tratada cirurgicamente e medicada, retornou ao trabalho e, após 6 meses, queixou-se de dores no polegar e na face lateral do punho enquanto trabalhava, com alterações de sensibilidade e força motora do polegar. Quais estruturas estão envolvidas na região de queixa dessa senhora? Lembre-se A palpação dos locais dolorosos e dos músculos, tendões e ligamentos relacionados com a perda de movimento e força auxilia a procurar os testes especiais que completam o exame de palpação e mobilidade e fecham o diagnóstico com os exames complementares. Seção 3.2 / Avaliação fisioterapêutica do punho - 49 Resolução da situação-problema A queixa principal de dores e dificuldades motoras, associadas à rotina profissional, nos leva a prováveis diagnósticos relativos a movimentos de execução de forma viciosa e repetitiva. Como já havia um histórico de doença ocupacional relativa ao trabalho, a possibilidade de, após a cirurgia, a paciente continuar a realizar movimentos compensatórios ou antálgicos propicia o surgimento de uma nova lesão por esforços repetitivos. Na face medial do punho está o ligamento colateral radial, junto ao túnel 1 do retináculo (extensor) posterior, por onde passam os tendões dos músculos abdutor longo do polegar e extensor curto do polegar. A palpação denuncia o processo infla- matório. Dos testes especiais nessa região, faz-se o de Finkelstein, próprio para esse quadro clínico. A força motora no punho pode não alterar, mas se tornar dolorosa, pois os músculos do polegar são auxiliares na inclinação radial. Faça você mesmo Como se trata de uma série de locais de palpação para os testes especiais do cotovelo e do punho, você deve praticá-los entre seus colegas de sala, consultando aqueles que já tiveram algum problema físico de cotovelo, e identificar se ainda existe algum sinal de alteração. Faça valer a pena 1. Um jovem sofreu um trauma na face posterior do punho, lesionando o tubérculo de Lister, que gerou um edema e inflamações do canal de passagem de tendões do punho relativo a essa região, o que o impossibilitou de realizar alguns movimentos dos dedos. Com relação ao local lesionado, identifique a seguir a alternativa que indica o tendão (ou os tendões) do(s) músculo(s) afetado(s)? a) Extensores dos dedos e do V dedo. b) Extensor ulnar do carpo. c) Extensores radiais longo e curto do carpo. d) Abdutor longo do polegar e extensor curto do polegar. e) Extensor longo do polegar. 2. Em um teste de força muscular dos músculos extensores de punho, um paciente conseguiu apenas esboçar tônus muscular, não realizou nenhum movimento articular e também não conseguiu esboçar força contra a gravidade. 50 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Nessa situação, classificamos a força do músculo testado, segundo a tabela de Torres (2006), como: a) Normal, grau 5. b) Bom, grau 4. c) Regular, grau 3. d) Fraco, grau 2. e) Traço, grau 1. 3. Quando o punho se encontra em posição neutra (entre pronação e supinação), é possível palpar a cabeça da ulna e seu processo estiloide. Na face dorsal dessa região, forma-se o túnel de número seis do retináculo posterior, que dá passagem a um tendão de um músculo que tem origem no epicôndilo lateral. Assinale a alternativa que descreve o músculo a que se refere o texto acima: a) Músculo abdutor longo do polegar. b) Músculo extensor longo do polegar. c) Músculo extensorradial longo do carpo. d) Músculo extensor ulnar do carpo. e) Músculo extensor radial curto do carpo. Seção 3.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da mão - 51 Anatomia, cinesiologia e imaginologia da mão Diálogo aberto Olá, aluno! Bem-vindo à seção de estudo que inicia a avaliação da mão, na qual vamos conhecer a anatomia da mão e seus movimentos, a capacidade de força e a amplitude dos movimentos, além de conhecer e aprender a identificar as estruturas anatômicas por meio dos exames de imagens diagnósticas. Na avaliação fisioterapêutica da mão, é necessário conhecer sua anatomia e seus movimentos, além de transferir os conhecimentos anatômicos para os exames de diagnóstico de imagem. Agora voltemos à situação hipotética apresentada no item Convite ao estudo sobre o jovem de 26 anos, que é músico. Ele, que toca guitarra em uma banda profissional, queixou-se de dores no punho direito, formigamentos e perda de força e movimento entre o punho e a mão, principalmente nos movimentos de pinça, tendo sido diagnosticado com síndrome do túnel do carpo. Posteriormente, um fisioterapeuta diagnosticou que, além de dores, o rapaz também apresentava perdas funcionais como diminuição da força e da amplitude de movimentos. Analisando essa situação, quais estruturas foram estudadas pelo fisiotera- peuta para que ele conseguisse justificar essas perdas funcionais de amplitude de movimento e de força muscular? Seção 3.3 Não pode faltar Anatomia da mão A mão é a extremidade distal do membro superior em que encontramos os principais movimentos funcionais. É formada pelos ossos do metacarpo e pelas falanges, por um conjunto de tendões de músculos que têm origem nos epicôndilos umeral, nos ossos do antebraço, nos ossos do punho e na própria mão, e por articulações. Quadro 3.5 | Articulações da região da mão – classificação e função Articulação (Juntura) Função Intermetacarpianas Articulações entre os ossos metacarpos. São estabilizadoras e têm pouco movimento e são do tipo sinovial plana (irregulares) e não axiais. Carpometacarpiana Articulação entre o carpo e os II e V metacarpos; são planas e estabilizadoras. A articulação entre o carpo e I metacarpo é selar e promove os movimentos de flexão, extensão, abdução, adução e circundação. 52 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Metacarpofalangeanas Articulações entre os metacarpos e as falanges proximais; são do tipo sinovial, elipsoide, e biaxiais. Promovem os movimentos de flexão-extensão e abdução-adução. Interfalangeanas Articulações entre as falanges proximais e médias, e entre as mé- dias e distais (com exceção do I dedo, que só possui a proximal); são do tipo sinovial gínglimo, uniaxiais. Promovem apenas os movimentos de flexão e extensão. Fonte: elaborado pelo autor. Fonte: elaborado pelo autor. Fonte: elaborado pelo autor. Quadro 3.6 | Ligamentos da mão Metacarpal transverso profundo Fixa os metacarpos (do II ao V) na epífise distal. Colateral Fixado entre ossos do metacarpo com as falanges e entre as falanges. Palmar Continuação dos ligamentos colaterais. Ocupa a face ventral da articulação. Quadro 3.7 | Músculos da região da mão Nome do músculo Principal ação Nervo (inervação) Oponente do polegar Movimento de pinça. Associação dos movi- mentos de flexão, abdução e rotação. Auxilia na adução carpometacarpal (trapézio-I metacarpo). Mediano, C7-T1 Flexor curto do polegar Flexão carpometacarpal. Auxilia na oposição do polegar. Mediano, C8-T1 e Ulnar, C8-T1 Abdutor curto do polegar Abdução do I metacarpo. Auxilia na extensão metacarpofalangeana do polegar. Mediano, C7-T1 Oponente do V dedo Cruza o V metacarpo em direção ao polegar (não promove uma verdadeira oposição). Ulnar, C8-T1 Flexor curto do V dedo Flexão metacarpofalangeana. Ulnar, C8-T1 Abdutor do V dedo Abdução carpometacarpiana. Auxilia na flexão metacarpofalangeana. Ulnar, C8-T1 Palmar curto Protege o nervo ulnar. Ulnar, C7-T1 Adutor do polegar Adução do I metacarpo. Auxilia na oposição do polegar. Ulnar, C8 -T1 Lumbricais Flexão na articulação metacarpofalangeana e extensão interfalangeana do II ao V dedo. Mediano, C8 -T1 e Ulnar, C7-T1 Interósseos dorsais Abduz os dedos. Ulnar, C8-T1 Interósseos pal- mares Aduz os dedos (em direção ao dedo médio) e auxilia na extensão interfalangeana proximal. Ulnar, C8-T1 Seção 3.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da mão - 53 Assimile Os movimentos dos dedos estão associados a ação de músculos que têm ventres localizados no antebraço e na mão. Os que estão localizados na mão são chamados de músculos próprios da mão. Apesar do grande número de músculos que passam pela mão, é possível simplificar o estudo se os dividirmos em três tipos: I) músculos que têm origem nos epicôndilos do úmero; II) músculos que têm origem entre o rádio e a ulna; e III) músculos que têm origem entre punho e mão. Como as regiões do braço e antebraço já foram estudadas em outras seções deste livro didático, vamos fazer apenas um resumo desses músculos que têm inserção na mão. I – Epicôndilos umerais: quando estudamos o epicôndilo medial, encon- tramos as origens de músculos como o flexor superficial dos dedos, com inserção nos corpos das falanges médias do II ao V dedo, tendo função de flexão da articulação interfalangeana proximal. No epicôndilo lateral encontramos as origens dos músculos extensores dos dedos, extensor do V dedo, todos com inserção na expansão extensora, que é um tecido semelhante aos ligamentos e que unem as falanges proximal, média e distal presentes nos II ao V dedos, onde se inserem todos os músculos extensores de dedos (com exceção do I dedo – polegar). II – Ossos do antebraço: uma parte do músculo flexor superficial dos dedos tem origem no terço proximal do rádio junto com o músculo flexor longo do polegar. O flexor longo do polegar se insere na base da falange distal. O extensor curto do polegar se insere na base da falange proximal. No corpo da ulna encontramos as origens dos músculos flexor profundo dos dedos, com inserção na base da falange distal do II ao V dedo. No corpo da ulna também estão o músculo extensor do II dedo e o extensor longo do polegar. Já os músculos próprios da mão, oponente do polegar, flexor curto do polegar e abdutor curto do polegar, formam a região tênar. Os músculos oponente do V dedo, flexor do V dedo e abdutor do V dedo formam a região hipotênar, e os músculos adutor do polegar, palmar curto, lumbricais e interósseos dorsais e palmares completam os músculos na parte central da mão. Ossos, articulações e ligamentos Fazem parte da mão os cinco ossos do metacarpo e as quatorze falanges que formam a parte óssea dos dedos. Entre os ossos da mão encontramos os ligamentos metacarpais transversos profundos, que mantêm as extremidades distais dos metacarpos do II ao V unidas, e os carpometacarpais, que podem 54 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem ser indicados conforme cada osso do carpo, por exemplo: trapézio-I metacarpo, trapezoide-II metacarpo, capitato-III metacarpo, hamato-IV metacarpo e hamato-V metacarpo. Entre os metacarpos e as falanges proximais, dois feixes de ligamentos mantêm esses ossos durante o movimento flexão-extensão, são eles: os ligamentos colaterais com porção funicular (entre ossos) e flabeliforme (osso e lâmina ligamentar) e uma lâmina ligamentar chamada também de ligamento palmar dos colaterais. Tanto os ligamentos colaterais quanto a lâmina palmar são encontrados nas articulações interfalangianas proximal e distal (ver Figura 3.16). Fonte: Moore, Agur e Dalley (2013). Figura 3.16 | Ossos, articulações e ligamentos da mão e dedos Músculos e ação do movimento Os músculos próprios da mão são aqueles que têm origem entre punho e mão, no ventre muscular presente na região. Sua inserção promove ações diretas à mão. Revise os músculos do antebraço com origem no úmero, na ulna e no rádioe a inserção na mão antes de estudar a ação dos músculos da região, pois todos eles se relacionam entre si. Isso o ajudará no momento de selecionar os testes de diagnóstico fisioterapêutico. Os movimentos encontrados na mão são de flexão e extensão entre as articulações interfalangeanas, e flexão, extensão, abdução e adução, entre as articulações metacarpofalangianas. As articulações carpometacar- piana do II ao V metacarpo são de estabilidade, mas o polegar promove vários movimentos como: flexão, extensão, abdução, adução, oposição e reposição (ver Figura 3.17). Seção 3.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da mão - 55 Fonte: Moore, Agur e Dalley (2013). Figura 3.17 | Movimentos do polegar Dentre os músculos próprios da mão, há os três tênares formados pelo músculo oponente do polegar, o qual, além de realizar a oposição, auxilia na adução na articulação carpo-I metacarpo (trapézio-I metacarpo). Eles têm origem entre o trapézio e o retináculo flexor e inserção na diáfise do I metacarpo (Figura 3.18). A oposição é um movimento que associa flexão, abdução e rotação articular. Eles promovem no polegar, o encontro deste com o II ao V dedo, como pinça (Figura 3.18). O músculo flexor curto do polegar flexiona a articulação carpo-I metacarpo. Ele tem origem entre os ossos capitato, trapezoide e trapézio, se insere na base da falange proximal do polegar e no sesamoide (Figura 3.18) e auxilia na oposição do polegar. O músculo abdutor curto do polegar promove a abdução na articulação carpo-I metacarpo, auxilia na extensão metacarpofalangiana do polegar, tendo origem no tubérculo do escafoide e retináculo flexor, e se insere na base da falange proximal do polegar, junto ao sesamoide (Figura 3.18). Fonte: Valerius et al. (2013, p. 108-114-124). Figura 3.18 | Músculos tenares: flexor curto do polegar (esquerda); abdutor curto do polegar (centro); oponente do polegar (direita) 56 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Os três músculos hipotênares são o oponente do V dedo – que corres- ponde a um pseudo-oponente, uma vez que ele não movimenta o dedo, e sim o quinto metacarpo, em razão de sua origem ser no hâmulo do hamato e sua inserção na epífise do V metacarpo (Figura 3.19) –; o músculo flexor curto do V dedo – que tem origem no hamato e se insere na base da falange proximal do V dedo (Figura 3.19) –; e o músculo abdutor do V dedo – que abduz na articu- lação carpo-metacarpo (hamato-V metacarpo) e auxilia na flexão metacarpo- falangiana do V dedo, pois tem origem no pisiforme e retináculo flexor e se insere na base da falange proximal do V dedo (Figura 3.19). Fonte: Valerius et al. (2013, p. 106-116-126). Figura 3.19 | Músculos hipotênares: flexor curto do V dedo (esquerda); abdutor do V dedo (centro); oponente do V dedo (direita) O músculo adutor do polegar tem função de adução com auxílio na oposição do polegar, graças à sua disposição com origem no capitato e todo o III metacarpo, e se insere na base da falange proximal do polegar pelo sesamoide medial (Figura 3.20). O músculo palmar curto é um músculo de proteção da passagem do nervo ulnar na face medial do punho, no canal de Guyon, que é o espaço entre o hâmulo do hamato e o pisiforme (Figura 3.20). Os músculos lumbricais têm sua origem nos tendões dos músculos flexores profundos dos dedos e sua inserção na expansão extensora dos dedos. Com sua origem, promove a flexão na articu- laçao metacarpofalangiana do II ao V dedo e extensão das interfalangianas proximais. Como a origem é no tendão dos músculos que promovem a flexão da articulação interfalangiana distal, esses músculos favorecem a empunhadura de objetos como um lápis na hora em que estamos escrevendo (Figura 3.21). Os músculos interósseos dorsais têm função de abduzir os dedos, tendo origem nas faces contíguas dos metacarpos, e se inserem nas faces medial e lateral da base das falanges proximais (Figura 3.21); e os interósseos palmares são adutores em Seção 3.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da mão - 57 direção ao dedo médio, por terem origem no lado ulnar do II metacarpo, IV metacarpo e do V metacarpo (Figura 3.21). Fonte: Valerius et al. (2013, p. 100-118-120-122-128). Figura 3.20 | Músculo adutor do polegar (esquerda) e palmar curto (direita) Fonte: Valerius et al. (2013, p. 100-118-120-122-128). Figura 3.21 | Músculos lumbricais (esquerda), interósseos dorsais (centro) e interósseos pal- mares (direita) Reflita Figura 3.22 | Falange e tendões Fonte: Lippert (2013, p. 156). 58 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Observe na Figura 3.22 que os tendões dos músculos flexores super- ficiais dos dedos formam um laço para a passagem dos tendões dos músculos flexores profundos dos dedos e que as expansões dos exten- sores formam um prolongamento até a falange distal. Pesquise mais Os principais músculos e suas características podem ser vistos no seguinte livro: LIPPERT, Lynn S. Cinesiologia clínica e anatomia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. Noções de imaginologia da mão: raios X, ressonância magnética, tomografia computadorizada e ultrassonografia As imagens de estudo da mão são de preferência as radiografias nas incidências em AP ou PA e a dos dedos e mão, em oblíqua. Também é possível estudar os dedos individualizados em PA (Figura 3.23), lateral e oblíqua. O objetivo principal é investigar possíveis fraturas, calcificações e descalcifica- ções nos ossos ou luxações das articulações, mas também é possível inves- tigar alterações degenerativas. Entre as articulações metacarpofalangianas do I e II dedos, podemos encontrar ossos sesamoides, mas em variações anatômicas podem estar ausentes por agenesia. A mão fornece informações sobre a idade óssea na fase de crescimento, pois os ossos possuem centros de ossificação em regiões epifisárias, e também sobre os pequenos ossos que se formam de acordo com a idade. As imagens de extremidades, como as da mão, contêm ossos longos com essas regiões de crescimento (epífise de crescimento) e também esses pequenos ossos (carpo) se formando durante o crescimento. Sendo assim, os RX de idade óssea pode confirmar se o cresci- mento somático está ocorrendo de acordo com o cronológico. Os exames de tomografia, ressonância e ultrassonografia são usados principalmente em doenças degenerativas, com os quais se pode identificar melhor as lesões e alterações de tecidos moles. Exemplificando Se uma criança de 6 anos realizar uma radiografia de idade óssea, como uma das características aparecerão apenas 5 ossos carpais (punho) formados e outros centros de ossificações; separação na metáfise de crescimento e outras alterações são observadas de acordo com a idade do indivíduo. Seção 3.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da mão - 59 Fonte: iStock. Figura 3.23 | RX da mão Sem medo de errar Após o estudo sobre as estruturas anatômicas e funcionais da mão, é possível responder à situação-problema proposta, na qual um jovem músico foi diagnosticado com síndrome do túnel do carpo e, posteriormente, seu fisioterapeuta o diagnosticou também com perdas funcionais como de força e amplitude de movimentos e alterações de sensibilidade e sensação de formigamentos na mão, principalmente nos três primeiros dedos. Quais estruturas foram estudadas pelo fisioterapeuta para identificar perdas funcio- nais, de amplitude de movimento e de força? Atenção A compressão provocada no túnel do carpo prejudica a inervação a partir do punho, causando alterações na inervação da mão, e provoca também prejuízos motores na passagem dos tendões dos músculos flexores dos dedos que têm origem no antebraço. Foram estudados os músculos relacionados com o movimento dos três primeiros dedos e, em seguida, a área central da mão e dos últimos dedos. Os músculos foram os tênares: oponente do polegar, flexor curto do polegar e abdutor curto do polegar. Os hipotênares foram: oponente do V dedo,flexor do V dedo e abdutor do V dedo, além dos músculos adutor do polegar, palmar curto, lumbricais e interósseos dorsais e palmares. Em seguida, os músculos foram relacionados aos movimentos de cada dedo. Identificaram-se as queixas do indivíduo de perda de força e sensibilidade dos três primeiros dedos, o que foi relacionado com movimentos promovidos 60 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem pelos músculos tênares, lumbricais dos dedos I, II e III, pois estes músculos recebem inervação do nervo mediano, o qual, quando comprimido, diminui os estímulos para esses músculos, justificando os sintomas e sinais descritos na síndrome do túnel do carpo. Provavelmente a atividade repetitiva do guitarrista provocou atritos no punho, onde passam os tendões que movimentam os dedos, e gerou a síndrome do túnel do carpo, que comprimiu o nervo mediano, responsável pela inervação de grupo dos músculos da mão. Avançando na prática Agora que você conhece as estruturas anatômicas da mão, já estudou os movimentos realizados e identificou as estruturas nos exames de imagem, é possível responder a uma nova situação-problema que envolve esses conhecimentos. Síndrome de Guyon Descrição da situação-problema Uma senhora se queixa de dores, perdas sensoriais, dormência e sensação de formigamentos na face medial da mão, além de perdas de movimento e de força, tendo grande dificuldade de fechar o punho ou segurar objetos pesados. Ela descreve que sofreu queda da própria altura, contra a qual usou a mão como apoio para evitar impactos. Sentiu, então, fortes dores no ombro, passou por um pronto-socorro, foi medicada com anti-inflamatório não esteroidal e foi imobilizada na região do ombro por sete dias. Tendo passado as dores no ombro, a mão não apresentou melhora. Retornou, portanto, ao médico e realizou radiografias da mão, que identificaram um estreitamento no canal de Guyon em razão de luxação do osso pisiforme. Quais estruturas foram lesadas para que essa senhora tenha apresentado queixas nessa região? Lembre-se Os músculos da mão recebem estímulos de dois nervos: o mediano e o ulnar. “O nervo radial não inerva os pequenos músculos da mão, porém inerva músculos do antebraço que movimentam a mão”. Lesões no percurso desse nervo provocam perdas motoras e sensoriais dos músculos inervados por ele. Seção 3.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da mão - 61 Resolução da situação-problema A região medial da mão é inervada pelo nervo ulnar, que passa pelo canal de Guyon, localizado entre o pisiforme e o hâmulo do hamato, e é prote- gido pelo músculo palmar curto. Esse nervo inerva os músculos hipotênares, interósseos ou lumbricais que movimentam o IV e V dedos, além do adutor do polegar. A compressão do canal de Guyon provoca perdas motoras desses músculos e alterações de sensibilidade local. Os hipotênares são responsáveis pelo movimento do V dedo, os interósseos por adução e abdução dos dedos, os lumbricais realizam a flexão metacarpofalangiana dos IV e V dedos, e o adutor do polegar é responsável pela adução do I dedo. Esses movimentos serão perdidos enquanto o nervo passa pela região medial da mão, oferecendo a parte sensorial em seu percurso. Faça você mesmo Faça um resumo com os nomes dos músculos da mão, separados em tênares, hipotênares e outros. Identifique sua inervação mediana ou ulnar. Faça valer a pena 1. Dentre as articulações seguintes, qual promove maior mobilidade articular? a) Metacarpofalangianas do I ao V dedo. b) Interfalangianas proximais do II ao V dedo. c) Interfalangianas distais do II ao V dedo. d) Carpometacarpiana no II até o V metacarpo. e) Carpometacarpiana no I metacarpo. 2. Observe os músculos seguintes: I. Oponente do polegar. II. Flexor curto do polegar. III. Adutor do polegar. IV. Abdutor curto do polegar. Quais dos músculos anteriores estão relacionados com a região tênar? a) Apenas I e II. b) Apenas II e III. c) Apenas I e III. 62 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem d) Apenas II e IV. e) Apenas I, II e IV. 3. Complete a seguinte frase: “O movimento de pinça é um dos mais importantes movimentos executados pela mão humana. Para realizá-lo, a mão necessita de uma série de movimentos do polegar, que incluem músculos como o(s) ______________”. Assinale a alternativa com o termo que preenche corretamente a lacuna da sentença anterior: a) Palmar curto. b) Lumbricais. c) Interósseos dorsais. d) Interósseos palmares. e) Oponente do polegar. Seção 3.4 / Avaliação fisioterapêutica da mão - 63 Avaliação fisioterapêutica da mão Diálogo aberto Seja bem-vindo à seção que estuda a parte prática do diagnóstico cinéti- co-funcional da mão. Nela, estudaremos exame de palpação e testes especiais, bem como medidas goniométricas dos movimentos das articulações metacarpofalangianas e dos movimentos especiais executados pelo polegar. Agora voltemos à situação hipotética apresentada no item "Convite ao estudo", segundo a qual um rapaz músico, guitarrista profissional, queixou-se de dores no punho direito e alterações de sensibilidade na mão, tais como “formigamentos” e mão fria. Ele relatou que estava perdendo gradativamente a força de pinça da mão e de sustentação de objetos, apresentando dificuldades de realizar movimentos de flexão do punho e dedos. Primeiramente, na consulta médica, foi imobili- zado e medicado, porém as dores e as sensações de formigamento voltaram com ainda mais intensidade. Em razão disso, voltou ao médico e relatou que, naquele momento, havia perdido parcialmente o tato do polegar, do II e do III dedo e que não conseguia mais realizar movimentos de pinça em razão da insegurança de perder a força e soltar o objeto que estivesse segurando. Foi, então, novamente imobilizado por sete dias, medicado e, nos exames, recebeu o diagnóstico de síndrome do túnel do carpo, tendo sido posteriormente encaminhado à fisiote- rapia. Na avaliação cinético-funcional, observou-se que a síndrome do túnel do carpo promovia perdas nos movimentos e na força de pinça, com alterações de sensibilidade nos dedos. Refletindo sobre essa situação e analisando-a, quais foram os testes especiais realizados pelo fisioterapeuta que identificaram a origem das perdas motoras e sensitivas dos dedos e mão? E por que essas perdas e sensações estão relacionadas com a síndrome do túnel do carpo? Para que você consiga responder a esses e outros questionamentos sobre o tema da seção, serão apresentados, de forma contextualizada no item seguinte, os conteúdos necessários para a sua compreensão. Seção 3.4 Não pode faltar Exame palpatório e teste de força muscular Estudaremos o exame de palpação associado ao teste de força muscular, que visa identificar as estruturas anatômicas e verificar se suas funções estão normais. Trata-se de métodos manuais de palpação associados a movimentos dos dedos em pontos estratégicos da mão. 64 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Exemplificando Na palpação da mão, o teste de força acompanha as regiões estudadas. A palpação aqui deve ser feita com músculos relaxados e depois em contração ativa resistida de acordo com os movimentos realizados no goniômetro, com objetivo de individualizar cada ventre muscular a ser testado. Iniciaremos com o exame da superfície e o relacionaremos com as funções musculares. Para tornar mais fácil o estudo da mão, a dividiremos em três partes: 1. Região tênar – nesta região estão localizados os ventres musculares dos músculos flexor curto do polegar, abdutor curto do polegar e opositor do polegar, que formam um volume na face lateral anterior da mão, onde se verifica o tônus muscular. Faça a palpação dos músculos relaxados e, em seguida, repita o procedimento, com contração ativa e resistida, em cada músculo, pois a flacidez pode indicar inatividade por período longo de até duas semanas. Na face anterior e superior da região tênar, estápercussão e ausculta. Durante o estudo deste livro didático serão estudadas as regiões específicas de algumas partes do corpo humano. Você aprenderá gradativamente no semestre como realizar essa sequência. Nessa etapa, você deve compreender como identificar o local exato da queixa e fazer uma investigação que incluem conhecimentos anatômicos, cinéticos e biomecânicos, bem como uma avaliação que abrange a análise da vascularização daquela determinada região e dos sentidos e percepção neurológicas. 12 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Exames complementares Os exames complementares são constituídos principalmente por: exames de imagem, como radiografias, tomografias, ressonâncias e ultrassonografia, que demostram as causas das limitações de mobilidade do paciente e exames labora- toriais, hemodinâmicos, físicos e bioquímicos, dentre outros, que demonstram possíveis alterações celulares e metabólicas. Faça você mesmo Propomos que você realize um exame físico geral num paciente desde a entrada no consultório, observando se existe claudicação, posição antálgica, dificuldades de mobilidade, órteses, falta de vigor ao falar e sensação de cansaço, pois essas informações vão ajudar na hora de coletar os dados para a elaboração da ficha de avaliação. Diagnóstico cinético-funcional A conclusão das limitações e condições apresentadas durante o diagnóstico investigativo é denominada “Diagnóstico Cinético-Funcional”. A partir dessa conclusão, é possível traçar um plano de tratamento e reabilitação baseado nas dificuldades, limitações e desejos do paciente. Esse diagnóstico fornece uma realidade provável do alcance da reabilitação durante a terapia. Exemplificando Observe o exemplo de história clínica abaixo: JMG, 30 anos, assistente administrativa. QP: relata dor e formigamento no ombro, cotovelo e punho. Sensação de dormência e inchaço da mão, principalmente pela manhã. Falta de força para segurar objetos, como copos e escovas de cabelo. • Registre com a narrativa do paciente. HDA: é destra. Há um ano trata de bursite no ombro, epicondilite de cotovelo e tenossinovite no punho, associado à síndrome do túnel do carpo, com vários períodos de gessamento que contribuíram para o agravamento da bursite e perda de massa muscular. Tomou diversos anti-inflamatórios não esteroidais. Tem redução de amplitude articular do ombro. • Neste momento, você deve registrar com termos técnicos. HPP: nunca sofreu fraturas, luxações ou cirurgias no membro superior direito, ficou com gesso por 5 períodos de 7 a 10 dias num intervalo de Seção 1.1 / Avaliação fisioterapêutica - 13 um ano. No momento não está tomando nenhuma medicação, nem outro tratamento e desconhece sofrer de outras patologias. • A história deve ter um início, meio e fim. HF: não tem histórico familiar e afirma não ter deformidades conhecidas. • Procure dados que poderão se relacionar com a doença do paciente. AVD: não pratica esporte, tem 2 filhos pequenos de 5 e 2 anos que ainda ficam bastante tempo no colo, trabalha 8 horas por dia, estando a maior parte do tempo sentada e digitando no computador; relata usar trans- porte público (45min em ônibus lotado) diariamente para ir trabalhar, em geral em pé se segurando pelo braço. • Questione seu dia a dia para saber o que está sendo limitado pela doença, e assim planejar um tratamento que o recupere ou reabilite. Exame físico: dor, leve escoliose em “C” à direita na região torácica, perda da sensibilidade, mas com coloração normal dos tecidos. Exames apontam perda de força, mobilidade e não relata deformidades. • Nas próximas seções, trabalharemos com detalhes este item. Exames complementares: RX: maior espaçamento na articulação do ombro direito e discreto afinamento de tendões no braço. A ultrassono- grafia aponta bursite no ombro com presença de calcificações no tendão, epicondilite no cotovelo, tenossinovite medial anterior de antebraço e discreto espessamento da bainha do punho. • Procure alterações morfológicas condizente com a anatomia normal do indivíduo e sua idade, e relacione as perdas com as alterações patológicas. Diagnóstico cinético-funcional: membro superior direito com perda de mobilidade e força, mas sem alterações de estrutura óssea. Processo inflamatório crônico no ombro e agudo no cotovelo e punho, com perda parcial de sensibilidade da mão. • O diagnóstico é baseado nas perdas de movimento e funções da região. Reflita Quando o fisioterapeuta na AVD transcreveu que a paciente tinha 2 filhos pequenos de 2 e 5 anos, isso poderia influenciar na piora do quadro clínico? Assimile Sempre que falamos sobre membros superiores (MMSS), é importante sabermos se o paciente é destro ou canhoto, pois sua queixa pode ou não estar associada à sua condição. 14 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Faça você mesmo Baseado nas informações da anamnese acima proposta, desenvolva uma ficha de anamnese e discuta com seus colegas de sala os objetivos de cada item. Sem medo de errar Após o estudo sobre a avaliação do paciente, é possível compreender como os dados colhidos podem levar cada profissional a um determinado procedimento. Relembrando a situação clínica real do paciente do Convite ao estudo, qual a importância de se coletar os dados relatados por ele durante o proce- dimento de anamnese realizado pelo fisioterapeuta na avaliação clínica? O paciente tinha mais de 45 anos, havia realizado esforço físico e relatava dores no ombro. Nessa idade iniciam-se as preocupações cardíacas em seden- tários e pessoas com sobrepeso ou obesos (IMC – índice de massa corporal - acima de 25). Quando relatou dores no ombro esquerdo, condição comum em alguns infartos lentos, levantou-se a hipótese do infarto. No exame ECG verificou-se a arritmia, e assim houve o encaminhamento ao cardiologista. Os exames realizados pelo cardiologista chegaram à conclusão de arritmia por tabagismo e sedentarismo, mas não infarto, portanto, o ombro não estava dolorido em decorrência de problemas cardíacos, e sim por problemas ortopé- dicos. Por isso, foi encaminhado para tratamento fisioterapêutico para reabi- litação do ombro, além de acompanhamento com atividade física preventiva. Assim, ficou muito claro no estudo desta seção que, os dados coletados na anamnese durante a avaliação fisioterapêutica são de extrema importância para a elaboração da prescrição do tratamento fisioterapêutico para aquela patologia específica, e isso resultará numa reabilitação de excelência. Atenção A avaliação do fisioterapeuta tem como finalidade identificar disfunções na mobilidade, e não deve ser confundida com a avaliação médica do socor- rista ou do cardiologista. O diagnóstico médico deve somar informações para o tratamento fisioterapêutico. Avançando na prática Agora que você conhece os itens de uma avaliação fisioterapêutica, trans- fira o que aprendeu para novas situações no ambiente de trabalho. Após realizar as atividades a seguir, compare com as de seus colegas. Seção 1.1 / Avaliação fisioterapêutica - 15 Lembre-se O objetivo da avaliação fisioterapêutica é de relacionar informações. A anamnese é investigativa. Resolução da situação-problema A compreensão da origem do problema associa o item QP com as informa- ções da HPP somadas com a atual AVD. Para entender melhor, leia na seção Não pode faltar e observe a importância desses itens. Dores lombares por posição antálgica Descrição da situação-problema Jovem, de 25 anos, sexo masculino, relata dor em região dorsal e lombar. Pratica musculação de 1 a 2 horas por dia, e relata ter sofrido fratura de olecrano (ulna, região do cotovelo) direito, e sem outros sinais de morbidades. Após avaliação fisioterapêutica, foi diagnosticado com restrição de extensão de 15 graus, apenas no cotovelo, além das dores referidas devido a um histórico de fratura. Questionado sobre a musculação, o paciente afirmava não ter mudado nenhum exercício propostoo ventre do abdutor curto do polegar; na palpação desse músculo em atividade, peça ao paciente que realize a abdução enquanto você resiste ao movimento (Figura 3.24). Na face central da região tênar está o ventre do flexor curto do polegar; após palpá-lo passivamente, também realize a palpação com flexão ativa enquanto você resiste ao movimento (Figura 3.24). Na face inferior da região tênar está o ventre do opositor do polegar; repita a palpação passiva e depois o faça de forma ativa resistida (Figura 3.24). E, por fim, na face posterior da região tênar estão os tendões do músculo extensor longo do polegar e lateral- mente está o tendão do abdutor longo do polegar. O dorso da mão é formado por vários tendões extensores, como dos extensores dos dedos, do V dedo e do indicador, como mostra na Figura 3.25. Na palpação da face medial da articulação entre o trapézio e o primeiro metacarpo, pode se sentir os ossos sesamoides. Peça ao paciente que realize flexão nessa articulação para facilitar a palpação desses ossos, uma vez que eles são inserções dos músculos abdutor curto do polegar e flexor curto do polegar. O sesamoide também é inserção do tendão do músculo do adutor do polegar, que não é um músculo tênar. Assimile A região tênar é inervada pelo nervo mediano, mas o músculo flexor curto do polegar é inervado também pelo nervo ulnar. Se ocorrer lesões no nervo mediano, as ações dos músculos são perdidas, mas o músculo flexor curto do polegar ainda terá um pouco de funcionalidade graças à sua inervação dupla. Seção 3.4 / Avaliação fisioterapêutica da mão - 65 Fonte: Junqueira (2010, p. 184-186). Figura 3.24 | Abdutor curto do polegar (direita); flexor curto do polegar (centro); opositor do polegar (esquerda) 2. Região hipotênar – é formada pelos ventres dos músculos oponente do V dedo, flexor curto do V dedo e abdutor do V dedo. O método de palpação deve ser mantido, isto é, palpa-se o músculo relaxado e, em seguida, o faz em contração ativa resistida. O ventre do flexor curto do V dedo pode ser palpado em contração ativa resistida na face anterior da região hipotênar, com as articulações interfalangianas em extensão (Figura 3.25). O ventre do músculo abdutor do V dedo pode ser palpado logo na face medial anterior da mão, e também deve-se realizar a palpação em contração ativa resistida (Figura 3.25). O músculo opositor do V dedo não é um opositor verdadeiro, pois só pode movimentar o V metacarpo. Sua palpação ativa pode ser reali- zada pedindo ao paciente que realize o movimento de concha com a mão e também lhe pedindo para realizar uma pinça do V dedo com o polegar. Assimile A região hipotênar é inervada pelo nervo ulnar, juntamente com os músculos interósseos palmares e dorsais. As lesões desse nervo impedem a ação daqueles músculos e enfraquece o músculo flexor curto do polegar. Fonte: Junqueira (2010, p. 172-188-187). Figura 3.25 | Extensor do indicador (direita); flexor curto do V dedo (centro); opositor do V dedo (esquerda) 66 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem 3. Região central da mão – palpe os espaços entre os metacarpos. Entre o primeiro e o segundo metacarpos está o músculo adutor do polegar. Nos demais espaços entre os metacarpos estão os ventres dos músculos primeiro, segundo, terceiro e quarto lumbricais, interósseos dorsais e interósseos palmares. Os lumbricais podem ser palpados e testados ativamente pedindo a flexão metacarpofalangiana dos II ao V dedos, enquanto se palpa profun- damente na face palmar da mão. Esses são músculos pequenos e difíceis de serem sentidos na palpação. Testes especiais de avaliação da mão São testes consagrados que identificam deficiência ou perdas de movimentos, alterações ou perdas de estabilidades ou que denunciam lesões e inflamações no local. Na situação-problema proposta podemos utilizar alguns testes. Veja: 1. Os músculos extensor curto e longo do polegar são inervados pelo nervo radial; os outros músculos do polegar e parte do extensor curto do polegar, pelo nervo mediano, que pode ser verificado com o teste de abdução do polegar (Figura 3.26a), que consiste em pedir para que o paciente realize a abdução máxima do polegar. Se o paciente relatar dor, é possível que esteja relacionada com a tendinite de De Quervain (tendinite do extensor curto do polegar associado ao abdutor longo do polegar); no entanto, se ele não conseguir reali- zá-la, pode ser lesão do nervo mediano. 2. A fraqueza ou a impossibilidade de realizar o movimento de pinça por um minuto relacionam-se com compressões do nervo mediano, comuns na síndrome do túnel do carpo. Após o teste, o paciente pode referir dor ou formigamentos no local (Figura 3.26b). 3. O teste de tônus da musculatura tênar serve para identificar lesões do nervo mediano já instaladas há mais de duas semanas; caso ele estiver hipotrófico, o resultado é positivo (Figura 3.26c). Também se pode realizá-lo na região hipotênar, que se relaciona com o nervo ulnar. Reflita Músculo como o flexor curto do polegar, que tem inervação dupla (nervo mediano e nervo ulnar), não perde totalmente a capacidade de contração se apenas um desses nervos for lesado, mas diminui a sua capacidade de força e, por consequência, de seu tônus muscular. Seção 3.4 / Avaliação fisioterapêutica da mão - 67 4. Para testar a capacidade de contração dos músculos lumbricais, realiza-se o teste provocativo com o punho fechado rigorosamente. Como os lumbricais I e II são inervados pelo n. mediano e os lumbri- cais III e IV pelo n. ulnar, verifica-se quais músculos perderam as ações. Os lumbricais realizam a flexão metacarpofalangeana do II ao V dedo e extensão das interfalangeanas distais (Figura 3.26d). Fonte: Cook e Hegedus (2015, p. 243-247-259-271). Figura 3.26 | (a) Abdução do polegar, (b) pinça, (c) atrofia tenar e (d) provocativos lumbricais Pesquise mais A avaliação e os testes ortopédicos usados na fisioterapia podem ser vistos nos seguintes livros: COOK, Chad E.; HEGEDUS, Eric J. Testes ortopédicos em fisioterapia. 2. ed. Barueri: Manole, 2015. JUNQUEIRA, Lília. Anatomia palpatória: tronco, pescoço, ombro e membros superiores. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. Goniometria da mão e dedos Para medir os ângulos de movimento de flexão do polegar, colocamos o braço fixo do goniômetro na superfície lateral do II metacarpo; e o braço móvel, na lateral da articulação carpometacarpal acompanhando o polegar. Veja os valores esperados: sair do 0° e alcançar 15° de flexão. Na hiperextensão, o braço fixo fica 68 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem sobre a face lateral do rádio; e o braço móvel na superfície lateral do I metacarpo; 70° é o valor esperado. Na abdução, o braço fixo é alinhado paralelamente ao II metacarpo; e o braço móvel, na superfície dorsal do primeiro metacarpo; o valor esperado é de 70° (Figura 3.27). Figura 3.27 | Flexão 15°, extensão e abdução 70° Fonte: Marques (2014, p. 31-31). Na goniometria da articulação metacarpofalangiana, o braço fixo fica na lateral do II metacarpo quando for verificar os II e III dedos e na face medial do V metacarpo quando da verificação dos IV e V dedos. O braço móvel acompanha a falange durante o movimento, espera-se 90° de flexão. Na hiperextensão pode se manter o goniômetro e, após o retorno da flexão, alcançar 30° negativos do movimento. Na goniometria da abdução dessas articulações, o braço fixo fica na superfície dorsal do metacarpo referido ao dedo que será mensurado; por exemplo: para medir a abdução na metacar- pofalangiana do III dedo, utilize o III metacarpo. O braço móvel acompanha o dedo cuja goniometria será verificada. Espera-se 20° de abdução e o mesmo valor na adução (Figura 3.28). Fonte: Marques (2014, p. 33-35). Figura 3.28 | Flexão 90°, hiperextensão 30° e abdução 20° Na goniometria das articulações interfalangianas, colocam-se o goniô- metro na lateral ou medial da falangemais proximal e o braço móvel na falange mais distal: a flexão esperada é de 110° nas proximais e 90° nas distais e do polegar. Com o movimento de hiperextensão que pode ocorrer, é possível alcançar até 10°. Seção 3.4 / Avaliação fisioterapêutica da mão - 69 Testes de sensibilidade superficial e profunda da região do punho e mão Os testes de sensibilidade são realizados com o estesiômetro para os dermátomos e miótomos, sendo os seus resultados relacionados com os resultados do mapa de distribuição de inervação da região da origem da raiz nervosa dorsal (ver Seção 2.3, Figura 2.7). Porém, a sensibilidade pode ser avaliada também pela inervação dos nervos mediano, ulnar e radial (Figura 3.29). A lesão completa do nervo mediano na altura do punho altera, além da sensibilidade demonstrada na Figura 3.29, também a (in)capacidade de fletir corretamente os três primeiros dedos (mão de ginecologista). Se a lesão for antes do punho, o antebraço fica em supinação. Na lesão completa do nervo ulnar, na altura do punho, a mão e o punho alteram a sensibili- dade demostrada na Figura 3.29 e se posicionam em extensão metacarpo- falangiana e flexão interfalangiana (mão em garra). No entanto, se a lesão nervosa for no antebraço, apenas a flexão do II e do IV dedo fica prejudicada, graças à inervação do músculo flexor longo dos dedos. Na lesão do nervo radial, apenas a sensibilidade é alterada, sem comprometimento de ações de músculos próprios da mão, embora haja acometimento do movimento do punho. Quando a lesão nervosa ocorrer no antebraço ou braço, provoca-se um padrão de flexão de punho com pronação de antebraço. Fonte: Moore, Agur e Dalley (2013, figura 6.49). Figura 3.29 | Inervação somatossensorial da mão Sem medo de errar Após o estudo sobre palpação, testes especiais e goniometria da mão e dedos, é possível responder à situação-problema sobre quais foram os testes que foram realizados pelo fisioterapeuta que identificaram a origem das perdas motoras e sensitivas dos dedos e mão, que confirmaram a síndrome do túnel do carpo no paciente. 70 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Reflita A mão possui seus músculos próprios, mas seus movimentos sofrem ação também de músculos com origem e ventre no antebraço. Por isso, a palpação da mão deve ser realizada com auxílio de movimentos ativos resistidos do paciente, com objetivo de identificar os ventres dos músculos próprios durante a ação de contração. A investigação realizada no paciente da situação-problema reúne os exames de palpação dos volumes tênares e hipotênares e dos espaços entre os metacarpos. Os músculos tênares são o oponente do polegar, flexor curto do polegar e abdutor curto do polegar, que são inervados pelo nervo mediano. Os músculos hipotênares são o oponente do V dedo, flexor curto do V dedo e abdutor do V dedo, que são inervados pelo nervo radial. Na face central da mão estão os músculos interósseos palmares e dorsais, além do adutor do polegar, que são inervados pelo nervo ulnar, e os músculos lumbricais, que dividem a inervação entre nervo mediano para os lumbricais 1 e 2 e o nervo ulnar para os lumbricais 3 e 4. Foram realizados testes de abdução do polegar, que geram dor na síndrome do carpo ou lesão ulnar, pinça, com perdas de força na compressão do nervo mediano, compressão tênar, que pode identi- ficar atrofia no caso de a lesão do nervo mediano ter ocorrido há mais de duas semanas e provocação dos lumbricais, em que se verifica se ocorre dor e perdas motoras na porção inervada pelo mediano ou pela porção inervada pelo nervo ulnar. Como o paciente queixava-se de dor, e tendo sido verifi- cadas perdas de movimentos, é possível identificar que a síndrome do túnel do carpo também prejudica a função de músculos próprios da mão e altera- ções sensoriais das regiões inervadas pelo nervo mediano, razão pela qual também se deve investigar a sensibilidade da região. Faça você mesmo Caro aluno, até esta etapa de seus estudos, você já obteve todo o conhecimento teórico e prático necessário para realizar uma avaliação fisioterapêutica completa do punho e mão e testes específicos de ação muscular, função articular, integridade tendínea e ligamentar. Nesse contexto, elabore uma avaliação fisioterapêutica para punho e mão em uma pessoa de sua família ou colega. Para isso, é importante que você realize a revisão das quatro seções da Unidade 3. Boa sorte! Seção 3.4 / Avaliação fisioterapêutica da mão - 71 Avançando na prática Agora que você já conhece os principais locais de palpação da mão, a maneira como realizar os testes especiais de suas ações e o modo como medir a angulação articular com goniômetro, identifique como isso pode ser útil em outras realidades de queixas de lesões de mão. Mão caída Descrição da situação-problema Um jovem procurou atendimento médico com queixa de incapacidade para realizar o movimento de extensão de punho e mão, associada à postura de “mão caída”. Ele relata que ficou assim depois de retirar o gesso que tinha sido colocado em seu braço em razão de uma fratura de corpo do úmero. Durante o exame clínico, não se observou movimentos de extensão de punho e dedos, uma vez que os testes apontaram perda de sensibilidade das faces dorsal e lateral da mão. O jovem foi diagnosticado com perdas funcionais e sensoriais por lesão do nervo radial. Analisando esse quadro, quais estruturas foram testadas e palpadas para identificar a causa dessas alterações funcionais do paciente? Lembre-se A inervação da mão é realizada pelos nervos mediano, ulnar e radial. No entanto, o nervo radial tem inervação não nos músculos próprios da mão, mas nos do antebraço, que têm ação de extensão do punho e dedos da mão. Resolução da situação-problema Durante a palpação das estruturas musculares próprias da mão, como a tênar e hipotênar, e ainda os lumbricais, o extensor curto do polegar e o extensor do V dedo, a região da mão demonstra não ter perdido o tônus. Além disso, todos os músculos próprios da mão exibem movimento e força contra resistência, demonstrando uma provável incapacidade de contração de músculos locali- zados no antebraço. Testes especiais, como a pinça, provocação lumbricais e abdução de polegar, não refletem positivo e denunciam uma lesão que não afetou os nervos mediano e ulnar. O nervo radial é importante para músculos que promovem extensão de punho e extensores de dedos, mas esses músculos não inervam nenhum músculo próprio da mão. As perdas motoras não se referem a alterações de ação de músculos próprios da mão. Apesar de os sinais da lesão se refletirem na mão, as estruturas testadas são os músculos extensores radiais curto e longo do carpo e o músculo supinador, que estão no antebraço. 72 - U3 / Punho e mão: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Faça você mesmo Realize em seus colegas os testes especiais e a palpação dessas regiões estudadas e verifique se algum deles já teve algum problema físico na mão, investigando se ainda existe algum sinal de alteração. Faça valer a pena 1. Considere uma pessoa com lesão completa do nervo mediano na altura do punho. Ao solicitar-lhe que realize a flexão dos dedos da mão, posicionando-a fechada, apenas um músculo próprio da mão da listagem de alternativas seguinte estará em atividade, sendo os outros incapazes de realizar contração. A qual dos músculos seguintes estamos nos referindo? a) Primeiro lumbrical. b) Flexor curto do polegar. c) Segundo lumbrical. d) Oponente do polegar. e) Abdutor curto do polegar. 2. A lesão completa do nervo mediano na região do punho impede que alguns músculos próprios da mão realizem seu movimento, porém algumas partes da mão também são inervadas pelo nervo ulnar. Qual músculo a seguir realizará contração contra resistência durante um teste muscular em uma pessoa com lesão completa do nervo mediano? a) Abdutor curto do polegar. b) Opositor do polegar. c) Primeiro lumbrical. d) Segundo lumbrical.e) Flexor curto do polegar. 3. Os músculos lumbricais são formados por quatro ventres e numerados de 1 a 4 de lateral para medial, estando relacionados com os movimentos do II ao V dedo. Numa lesão completa de nervo ulnar, que inerva parte desses músculos, quais movimentos serão perdidos? Seção 3.4 / Avaliação fisioterapêutica da mão - 73 a) Flexão das articulações carpometacarpianas no IV e V dedo e flexão interfalangiana proximal das articulações dos mesmos dedos. b) Extensão nas articulações carpometacarpianas no IV e V dedo e extensão interfalan- giana proximal das articulações dos mesmos dedos. c) Extensão nas articulações carpometacarpianas no IV e V dedo e flexão interfalan- giana proximal das articulações dos mesmos dedos. d) Flexão nas articulações carpometacarpianas no IV e V dedo e extensão interfalan- giana proximal das articulações dos mesmos dedos. e) Abdução nas articulações carpometacarpianas no IV e V dedo e flexão interfalan- giana proximal das articulações dos mesmos dedos. Referências BEHNKE, R. S. Anatomia do movimento. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. CHEN, M. M.; POPE, T. L.; OTT, D. J. Radiologia básica. 2. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012. COOK, C. E.; HEGEDUS, E. J. Testes ortopédicos em fisioterapia. 2. ed. Barueri: Manole, 2015. DUTTON, M. Fisioterapia ortopédica. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. FUNARI, M. B. G. Radiologia e diagnóstico por imagem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. GREENSPAN, A. Radiologia ortopédica: uma abordagem prática. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. HANSEN, J. T. The netter presenter: human anatomy collection: version 2.0. 3. ed. New Yorl: Icon Learning Systems, 2003. JUNQUEIRA, L. Anatomia palpatória: tronco, pescoço, ombro e membros superiores. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. JUNQUEIRA, L. Anatomia palpatória e seus aspectos clínicos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. KÖPF-MAIER, P. Wolf-Heidegger – atlas de anatomia humana. 6. ed. Traduzido sob a supervisão de Hélcio Werneck. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. LIPPERT, L. S. Cinesiologia clínica e anatomia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 2013. MARQUES, A. P. Manual de goniometria. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. MOORE, K. L.; AGUR, A. R.; DALLEY, A. F. Fundamentos de anatomia clínica. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. PALMER, M. L.; EPLER, M. E. Fundamentos das técnicas de avaliação musculoesquelética 2. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. RASCH, P.J. Cinesiologia e anatomia aplicada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991. REISER, M.; BAUR-MELNYK, A.; GLASER, C. Diagnóstico por imagem: musculoesquelético 1. Artmed. 2009. TORRES, D. de M. Fisioterapia: guia prático para a clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. VALERIUS, K.-P. et al. O livro dos músculos: anatomia, testes, movimentos. São Paulo: Santos, 2013. Unidade 4 Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Convite ao estudo Iniciaremos, nesta unidade, o estudo das regiões da cabeça e do tronco, que por meio de soluções de casos clínicos, facilitarão o processo de apren- dizagem. Dessa forma, você conhecerá as estruturas e as funções desses segmentos e aprender a testar sua mobilidade e funções, habilidades impor- tantes para se realizar um diagnóstico referente às limitações que cada patologia pode provocar. Competência geral: Conhecer os métodos de avaliação cinético-funcional e de diagnóstico por imagem de membros superiores, cabeça e tronco. Competência técnica: Conhecer e aplicar os métodos de avaliação da cabeça e do tronco. Objetivos: • Aprofundar o conhecimento sobre as estruturas anatômicas, a biomecânica e a cinesiologia da cabeça e do tronco. • Compreender os limites de mobilidades articulares da cabeça e do tronco. • Desenvolver noções básicas de exames por imagem da cabeça e do tronco. • Aprender a aplicar testes de avaliação da mobilidade e força da cabeça e do tronco. • Aprender a aplicar testes de sensibilidade da região da cabeça e do tronco. • Aprender a realizar mensurações de angulação de movimento articular da cabeça e do tronco. • Aprender a aplicar os testes especiais de avaliação da cabeça e do tronco. Com a finalidade de conduzir você, ao desenvolvimento das compe- tências mencionadas e atender aos objetivos específicos do tema abordado, vamos apresentar uma situação clínica real, que o auxiliará no processo de estudo e prática. Vamos lá! Um advogado de 50 anos se queixa de dores na região da articulação temporomandibular (ATM), zumbidos no ouvido e estalidos durante a masti- gação. Na anamnese se queixou também de dores na cabeça, nos ombros, além de referir muito cansaço. Passou por consulta médica e foi diagnos- ticado com disfunção da ATM e foi encaminhado para tratamento fisiote- rapêutico. Na avaliação fisioterapêutica foi diagnosticado com limitação na abertura da boca e alterações da simetria entre os lados direito e esquerdo da face na altura da mandíbula. Observando esse histórico, você consegue imaginar quais estruturas estão envolvidas na alteração da ATM e como o fisioterapeuta consegue fechar um diagnóstico preciso? Seção 4.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da cabeça - 39 Anatomia, cinesiologia e imaginologia da cabeça Diálogo aberto Olá, aluno! Bem-vindo à seção de estudo que tem início com a avaliação da cabeça, da articulação temporomandibular (ATM) e dos músculos da face. Nesta seção, vamos conhecer a anatomia das estruturas articulares e musculares da cabeça e seus movimentos, a capacidade de força e a ampli- tude dos movimentos, e ainda conhecer e aprender a identificar as estruturas anatômicas por meio dos exames de imagens diagnósticas. Na avaliação fisioterapêutica da cabeça, é importante conhecer os músculos da mímica facial e da mastigação, as inervações que estimulam a ação muscular da língua e a sensibilidade facial. Após conhecer essas estru- turas, iremos transferir esses conhecimentos anatômicos para os exames de imagens, como raios X, tomografia computadorizada, ressonância magnética nuclear e ultrassonografia, para a confirmação diagnóstica. Agora vamos voltar à situação clínica apresentada no Convite ao estudo, sobre o advogado diagnosticado com disfunção da ATM, que se queixava de dores na cabeça que se irradiavam para o ombro. Seu médico o encaminhou para avaliação e tratamento fisioterapêutico, e na avaliação o fisioterapeuta observou que havia perdas de mobilidade na ATM e alteração biomecânica da mastigação. Analisando essa situação, responda quais estruturas foram estudadas pelo fisio- terapeuta para que ele conseguisse justificar essas perdas funcionais de amplitude de movimento e de força muscular acompanhadas de dor. Seção 4.1 Não pode faltar Anatomia da cabeça As estruturas anatômicas estudadas, localizadas na região da cabeça, são: ATM, importante para a mastigação e fala; músculos faciais, impor- tantes para a expressão da mímica facial; e, por fim, a língua, importante na alimentação e na articulação das palavras (fala). Ao estudarmos a inervação da cabeça, você notará que o nervo craniano trigêmeo (NC V) é respon- sável pelo movimento da ATM, o nervo facial (NC VII) é responsável pelos músculos que promovem a mímica facial e o nervo hipoglosso (NC XII) pela movimentação da língua. 40 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Na movimentação da ATM, no fechamento da boca deve ocorrer a oclusão completa (encaixe dentário), que se prejudicado por irregulari- dades anatômicas, como perdas de dentes, lesões articulares ou movimentos viciosos, provocam alteração da biomecânica normal da ATM. Ossos, articulações e ligamentos A ATM é a única articulação móvel da cabeça e trata-se do encontro do côndilo da mandíbula com a fossa condilar do osso temporal, entre eles existe um disco fibrocartilaginoso oval que amortece o impacto do encontro entre esses ossos. Esse disco acompanha o côndilo durantea abertura da boca e no afastamento do côndilo de sua fossa. Se o disco não acompanhar o côndilo, poderá prejudicar no fechamento da boca e causar microlesões que levam, com o tempo, a alterações estruturais e inflamações, como as artrites. A articulação ATM é do tipo sinovial e apresenta a combinação da morfologia articular do tipo gínglimo (MANGANELLO; SILVEIRA; SILVA, 2014) como plana (NETTER et al., 2000) e, ainda segundo Dangelo e Fattine (2006), é classificada como condilar. Assim, você pode observar que não existe uma classificação única para o movimento, apenas sugestões, não havendo uma classificação oficial. Durante o movimento da mandíbula, o encaixe condilar promove uma flutuação na fossa condilar do osso temporal. Os ligamentos que sustentam e fortalecem a cápsula são os temporomandibular, esfeno- mandibular e estilomandibular. Veja no Quadro 4.1. Ligamento Função Temporomandibular Limita o movimento posterior do disco articular e do côndilo Esfenomandibular Mantém a tensão constante na abertura e fechamento da boca Estilomandibular Limita a protrusão anterior à mandíbula Quadro 4.1 | Ligamentos da ATM e funções Fonte: elaborado pelo autor. Músculos e ação do movimento Os movimentos faciais são promovidos por músculos que têm origem em estruturas ósseas do crânio e inserções na pele (com exceção dos orbiculares, que têm origem e inserção na pele). Esses músculos estão no Quadro 4.2 e podem ser comparados com as Figuras 4.1 e 4.2, que demostram suas ações. Todos os movimentos da face, executados pelos músculos faciais, recebem estímulos do nervo facial que é o VII par de nervo craniano. Quando alguma doença afeta esse nervo, os músculos inervados por ele perdem seu movimento, a exemplo da paralisia de Bell, que paralisa um lado da face com todos os músculos inervados pelo nervo facial. Seção 4.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da cabeça - 41 Fonte: elaborado pelo autor. Nome do músculo Principal ação (vide Figura 4.1 e 4.2) Occipital Frontal Foto – 1 (região da testa) Corrugador do supercílio Foto – 2 (região da testa) Orbicular do olho Foto – 4 (em volto ao olho) Prócero Foto – 3 (aproxima nariz da testa) Nasais e asa nasal Foto – 3 e 5 Zigomático maior e menor Foto – 7 (do sorriso) Risórios Foto – 8 (do sorriso) Levantador do lábio superior Foto – 5, 10 e 11 Abaixador do lábio inferior Foto – 9 e 10 Abaixador do ângulo da boca Foto - 13 Orbicular da boca Foto – 6 e 12 (em volto ao olho) Mentual Foto – 14 (queixo) Bucinador Foto – 6 (bochecha) Platisma Foto – 15 (do queixo para o pescoço) Quadro 4.2 | Músculos inervados pelo nervo facial e que realizam mímica facial Figura 4.1 | Mímica facial Fonte: Moore; Dalley e Agur (2014, [s.p.]). 42 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Figura 4.2 | Músculos faciais Fonte: Marieb e Hoehn (2009, [s.p]). Assimile Os músculos faciais são classificados como esqueléticos, mas não possuem inserções em ossos e sim na pele da face, por isso, realizam os movimentos de expressões faciais, de comunicação e humor. O movimento de mastigação é a associação de vários movimentos da mandí- bula, como elevação, depressão, protrusão, retrusão e movimentos laterais. Os músculos da mastigação têm origem e inserção óssea e possuem sua inervação no nervo trigêmeo, que é o V par de nervo craniano. Veja no Quadro 4.3 e Figura 4.3. Quadro 4.3 | Músculos da ATM Músculo Ação Inervação Masseter Mastigação fechamento da mandí- bula (oclusão completa) Ramo mandibular n. trigêmeo que forma o n. massetérico Temporal Mastigação fechamento da mandíbula e auxílio na retração mandibular Ramo mandibular do n. trigêmeo que forma o n. temporal Pterigoide medial Mastigação com protração da mandíbula Ramo mandibular do n. trigêmeo que forma o n. pterigóideo Pterigoide lateral Mastigação com elevação da man- díbula, abertura da ATM e desvios laterais Ramo mandibular do n. trigêmeo que forma o n. pterigóideo Fonte: elaborado pelo autor. Seção 4.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da cabeça - 43 Fonte: elaborado pelo autor. Figura 4.3 | Músculos da mastigação Fonte: Marieb e Hoehn (2009, [s.p]). Os movimentos da língua são realizados por músculos que têm origem na própria língua, mas sua inserção é realizada em ossos. Observe a Figura 4.4, note que esses músculos são importantes na alimentação e na fala. A paralisia de algum músculo da língua pode prejudicar a alimentação, a fala e também a respiração, como ocorre com os músculos hioglosso e estiloglosso na anestesia geral, quando o relaxamento muscular promove a posteriori- zação da língua e obstrução da faringe. A intubação de pacientes sob efeito de anestesia geral ocorre devido a esse mecanismo de relaxamento. Os músculos da língua são inervados pelo nervo hipoglosso. Quadro 4.4 | Músculos da língua Músculo Ação Inervação Genioglosso Movimentação da língua - protração n. hipoglosso Hioglosso Movimentação da língua – abaixa as laterais da língua n. hipoglosso Estiloglosso Movimentação da língua - retrai e eleva a língua n. hipoglosso Figura 4.4 | Músculos da língua Fonte: Marieb e Hoehn (2009, [s.p]). 44 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Assimile Associe as tabelas com os nomes de músculos, funções e inervações com as figuras e ações dos músculos. Conhecer a ação dos músculos da cabeça é um processo visual. Exercite a partir das tabelas e figuras. Reflita Os ramos nervosos cranianos são em pares, as doenças ou lesões que os acometem podem ocorrer apenas em um dos lados, comprometendo apenas as estruturas anatômicas daquele lado da cabeça e, consequente- mente, prejudicando a função de forma unilateral. Pesquise mais Leia o livro que demonstra todos os músculos aqui estudados e de forma individualizada: VALERIUS, Klaus-Peter et al. O livro dos músculos: anatomia, testes, movimentos. São Paulo: Santos, 2013. Cap. 6, p. 335-400. Noções de imaginologia da cabeça: raios X; ressonância magnética; tomografia computadorizada e ultrassonografia A imagem radiográfica da ATM é importante para identificar alterações estruturais da superfície articular e também do encaixe articular, tanto com a boca fechada como em sua abertura. A TC oferece mais informações (Figura 4.5 M = fossa condilar e H = côndilo), mas a RNM é a que identifica a integri- dade do disco e sua posição no encaixe da ATM. Exemplificando Nos RX de ATM é possível realizar várias aquisições de imagens em sequência, com a boca fechada, semiaberta e aberta, além de estudar possíveis luxações durante sua abertura. Figura 4.5 | TC de ATM Fonte: Moore; Dalley e Agur (2014, [s.p.]). Seção 4.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da cabeça - 45 Pesquise mais Diferenças de estudos de imagem podem ser identificadas no capítulo 7 – Cabeça, do livro: MOORE, K. L.; DALLEY, A. F.; AGUR, A. M. R. Anatomia orientada para a clínica, 7. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2014. Sem medo de errar Após o estudo sobre as estruturas anatômicas e funcionais da cabeça, é possível responder à situação-problema proposta sobre o paciente diagnosti- cado com disfunção da ATM, que apresenta perdas de mobilidade e alteração biomecânica da mastigação. Responda: quais estruturas foram estudadas pelo fisioterapeuta para que ele conseguisse justificar essas alterações? Atenção A ATM é movimentada por ações dos músculos masseter, temporal, pteri- goideo lateral e medial, que são inervados pelo nervo trigêmeo, e em seus movimentos necessita de oclusão (encaixe dental) correta para que o côndilo se encaixe na fossa condilana e o disco articular esteja no local. Na avaliação fisioterapêutica do paciente da situação-problema foram analisados os músculos inervados pelo nervo trigêmeo, que promovem a mastigação e movimentação da mandíbula, como o m. masseter, o m. temporal e o m. pterigoide lateral e medial. A ATM apresenta em sua estrutura articular a fossa condilar, estrutura deencaixe para o côndilo, e ainda existe a presença de um disco articular, que auxilia no encaixe evitando atritos ósseos da articu- lação nos movimentos de mastigação em que ocorre a oclusão. Portanto, essa complexidade estrutural da ATM deve ser observada detalhadamente na avaliação fisioterapêutica, permitindo a localização e a causa das lesões. Avançando na prática Agora que você conhece as estruturas anatômicas e a biomecânica da ATM, é possível responder a situação-problema que envolve esses conhecimentos. 46 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Paralisia de Bell Descrição da situação-problema Uma senhora deu entrada no atendimento de urgência com queixas de imobilidade do lado direito da face, perda da sensibilidade da parte interna da boca e lacrimação constante do olho direito; após avaliação clínica médica ela foi diagnosticada com paralisia facial. Foi medicada com anti-inflama- tório e orientada a passar por uma avaliação e tratamento fisioterapêutico e retornar à consulta após dez dias de sessão de fisioterapia, para reavaliar se o tratamento e estímulo precoce poderiam evitar futuros problemas, como a imobilidade permanente dos músculos da face. Analisando esse quadro, quais os músculos que estão envolvidos na região de queixa dessa senhora? Lembre-se A paralisia facial está relacionada com o nervo facial que inerva todos os músculos da mímica. O diagnóstico dos músculos mais afetados da face é importante para iniciar um estímulo precoce da fisioterapia, visando evitar que se instale deformidades faciais. Resolução da situação-problema Nas lesões do nervo facial, todos os músculos inervados por ele têm suas ações prejudicadas. Alguns músculos podem estar mais prejudicados que outros, são eles os músculos da mímica: occipitofrontal, corrugador do supercílio, orbicular do olho, prócero, zigomático, risório, elevador do lábio e do ângulo da boca, abaixador do lábio e do ângulo da boca, orbicular da boca, mentual, platisma e bucinador. Faça você mesmo Realizar expressões faciais de mímica entre duplas de pessoas favorece a identificação e a compreensão dos músculos faciais e suas ações. Realize esse exercício com seus amigos ou na frente de um espelho, acompa- nhando a Figura 4.1. Faça valer a pena 1. Dentre os músculos esqueléticos da face que possuem origem em ossos, mas inserções em tecidos moles como a pele, estão os músculos: Seção 4.1 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia da cabeça - 47 I. Risório. II. Zigomático. III. Mentual. IV. Bucinador. Estão corretos apenas os itens: a) I, II, III e IV. b) I, II, e III. c) I, III e IV. d) II, III e IV. e) I, II, e IV. 2. Dentre as estruturas musculares afetadas numa paralisia facial devido a uma lesão do nervo facial, os músculos da região da cabeça que têm prejuízos funcionais são os: I. Músculo bucinador. II. Músculo frontal. III. Músculo temporal. IV. Músculo pterigoide lateral. Estão corretos os itens: a) I, II e III. b) I, III e IV. c) I, II. d) II, III e IV. e) III e IV. 3. Durante a abertura da boca, a articulação temporomandibular promove movimentos que, se não acontecerem de maneira sincronizada e alinhada, geram riscos de lesão e impossibilidade de oclusão. Dentre esses movimentos estão: a) O movimento do músculo masseter que impede a oclusão completa. b) O movimento do músculo temporal que promove a abertura da ATM. c) O movimento do músculo bucinador que eleva a mandíbula. d) O movimento do músculo pterigoide lateral que promove o fechamento da boca. e) O movimento do músculo masseter que promove o fechamento da boca enquanto o disco articular acompanha o côndilo mandibular. 48 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Avaliação fisioterapêutica da cabeça Diálogo aberto Seja bem-vindo à seção que estuda a parte prática do diagnóstico cinéti- co-funcional da cabeça. Nesta seção, estudaremos o exame de palpação e testes especiais, e realizaremos as medidas goniométricas dos movimentos de elevação, depressão, protrusão, retrusão e movimentos laterais da Articulação Temporomandibular (ATM). O objetivo da palpação é conhecer a anatomia superficial e identificar alterações anatômicas ou processos inflamatórios que reflitam dores ou dificuldades no movimento. Com os testes especiais, colocamos em estresse as estruturas musculares, tendinosas, ligamentares, capsulares e passagens de estruturas vasculares e nervosas da ATM. Na goniometria é verificada se a angulação dos movimentos articulares está alterada ou diminuída, justificando uma possível lesão da região, podendo ainda realizar teste de força muscular junto ao exame goniométrico. Agora, voltemos à situação clínica apresentada no Convite ao estudo sobre o advogado de 50 anos que foi diagnosticado com disfunção da ATM, além de dor que irradiava para a cabeça e ombro; ele se queixava também de sensa- ções de estalidos e zumbidos no ouvido acompanhados de cansaço durante a mastigação. Na avaliação fisioterapêutica foram identificadas perdas de mobilidade na ATM e alteração biomecânica na mastigação. Analisando e refletindo sobre essa situação, quais foram os testes especiais que o fisiotera- peuta realizou para confirmar essas alterações? Para que você consiga responder a esses e a outros questionamentos sobre os testes clínicos fisioterapêuticos, serão apresentados de forma contextualizada no item Não pode faltar os conteúdos necessários para a sua compreensão. Vamos lá, bons estudos! Seção 4.2 Não pode faltar Exame palpatório e funcional da ATM A região da ATM é constituída por um grupo de músculos com caracterís- ticas próprias. A ATM é a única articulação que ao realizar a completa oclusão da boca, se torna totalmente fixa, devido ao encontro dos dentes da arcada superior com os da inferior. Ao realizar o exame de palpação dos músculos da ATM e exame funcional, faça um teste gradual da força de abertura e oclusão Seção 4.2 / Avaliação fisioterapêutica da cabeça - 49 durante os movimentos resistidos. É possível realizar o teste de força de forma bilateral e unilateral, testando assim cada lado da ATM. Inicie a palpação nos músculos da ATM com a boca fechada e relaxada. Palpe o ângulo da mandíbula até a face anterior do lóbulo auricular, onde se inserem os músculos temporais e masseter, procure por regiões que apresentam dores, observe se há diferença de tônus entre os dois lados e se há presença de volume que denuncie edemas. Verifique se existe hipertrofia muscular em apenas um dos lados, o que denuncia disfunções musculares. Palpe a origem do músculo temporal na superfície do osso temporal, locali- zado acima do pavilhão auricular, na sua porção anterior. Repita a palpação com contração muscular em oclusão mandibular e depois simulando uma mastigação. O músculo masseter tem origem na margem inferior do arco zigomático. Palpe essa região relaxada e em contração muscular com oclusão dental. Algumas disfunções só são observadas em movimento ou em força muscular. Veja a Figura 4.6. Reflita Ao solicitar a abertura da boca ao paciente, tenha em mente que algumas oclusões não podem ser realizadas por completo por alguns deles e se a abertura for forçada, poderão ocorrer luxações. Tenha cuidado nesse momento. Figura 4.6 | Palpação do m. temporal (direito) e m. masseter (esquerdo) Fonte: Valerius et al. (2013, p. 372-378). Pesquise mais Para saber mais sobre as ações dos músculos da face, mastigação e língua, consulte o capítulo 6, páginas 335 a 400 do livro: VALERIUS, Klaus- -Peter et al. O livro dos músculos: anatomia, testes, movimentos. São Paulo: Santos, 2013. 50 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Testes especiais de avaliação da ATM e movimentos da língua São testes consagrados que identificam deficiência ou perdas de movimentos, alterações ou perdas de estabilidades ou que denunciam lesões e inflamações no local. Solicite a abertura passivada boca e depois repita a abertura de forma assistida procurando por movimentos de desvios laterais ou crepitações e rangidos. É possível identificar presença de dor e da ação muscular que pode não estar totalmente presente durante a abertura passiva. Agora solicite a abertura e o fisioterapeuta deve provocar uma resistência à abertura para testar o músculo pterigoide lateral e o músculo acessório chamado digástrico. Solicite também que o paciente realize a protração e em seguida a retração da mandíbula, testando respectivamente os músculos pterigoide medial e o músculo temporal. Para testar os movimentos de desvios laterais da mandíbula, peça que o paciente desvie o queixo para um dos lados. O músculo pterigoide lateral junto ao pterigoide medial são os principais responsáveis pelos movimentos de desvios laterais da mandíbula Veja a Figura 4.7. Reflita Os testes que avaliam lesões específicas devem ser feitos acompanhados com a queixa do paciente, mas também com os exames complementares de imagem. Figura 4.7 | Teste para ação dos músculos pterigoide medial (fileira direita) e músculo pterigoide lateral (fileira esquerda) Fonte: Valerius et al. (2013, p. 372-378). Para testar a mobilidade da língua, deve-se observar se existe ação unila- teral de algum movimento. Solicite a abertura da boca ao paciente e para que ele, com a língua, aponte para o lábio superior em “posição de ponta”, seguido de “língua em lâmina”, apontada para o lábio inferior em direção ao queixo, e, depois, em “lâmina”, alargue a língua para os ângulos dos lábios (Figura 4.8). Se houver paralisias de origem nervosa e unilateral, esses movimentos se tornam assimétricos. Seção 4.2 / Avaliação fisioterapêutica da cabeça - 51 Figura 4.8 | Língua em ponta (esquerda); em lâmina para baixo (centro) e alargada (direita) Fonte: Valerius et al. (2013, p. 372-378). Assimile Se os movimentos da língua estiverem em assimetria, continue o exame solicitando outros movimentos unilaterais, como empurrar a bochecha com a língua. Testes especiais e de sensibilidade facial Os movimentos faciais podem ser testados tendo como base a Figura 4.1 da Seção 4.1, que demonstra as “caretas” ou “mímicas” que auxiliam a identificar possíveis paralisias faciais. Siga o mapa solicitando ao paciente que realize os movimentos. Os testes de sensibilidade podem ser realizados com o estesiômetro, utilizando o mapa de dermátomos da cabeça, como o da Figura 4.9. Observe que o nervo trigêmeo se ramifica em porção oftál- mico, porção maxilar e porção mandibular. O dorso da língua e o palato duro também são inervados pelo nervo trigêmeo, mas o paladar é formado pelo NC IX - glossofaríngeo. Já na face posterior da cabeça, o plexo cervical forma ramos sensoriais para os nervos occipitais e nervos auriculares. Reflita Devido ao nervo glossofaríngeo e o nervo vago serem sobrepostos, altera- ções no nervo vago podem alterar a sensibilidade do nervo glossofaríngeo, Reflita Os movimentos da língua podem ocorrer com desvios laterais devido a lesões unilaterais do nervo hipoglosso. Nessa situação, apenas um lado do músculo irá contrair-se. 52 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem porém, neste caso, surgem também alterações comuns nas estruturas inervadas pelo nervo vago, como sinais de alterações nos sistemas cardíaco, respiratório e gastrointestinal. Figura 4.9 | Ramos sensitivos no NCV – trigêmeo e das raízes de C1 a C4 do plexo cervical Fonte: Moore; Dalley; Agur (2014, [s.p.]). Pesquise mais Os movimentos de mímica facial estão bem descritos no capítulo sobre face e couro cabeludo no livro: MOORE, K. L., DALLEY, A. F., AGUR, A. M. R. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. Nesta edição, na Figura 7.17, estão em detalhes os movimentos estudados neste livro didático. Testes gerais Outros músculos da cabeça que podem ser testados são os da mobilidade dos olhos, que são inervados pelos nervos oculomotor, troclear e abducente (III, IV, VI). Para isso, basta pedir para que o paciente fique com a cabeça fixa e com os olhos seguindo a mão do fisioterapeuta. A seguir, os testes que podem ser feitos em cada olho, individualmente, e com os dois, juntamente: • Testando o n. oculomotor (músculos: oblíquo inferior, reto superior, reto inferior e reto medial e levantador da pálpebra) = force o olho a seguir para medial e superior. • Testando o n. troclear (músculo oblíquo superior) = force o olho para a lateral e inferior. • Testando o n. abducente (músculo reto lateral) = force o olho para a lateral. Seção 4.2 / Avaliação fisioterapêutica da cabeça - 53 Goniometria da ATM As medidas de abertura da ATM podem ser realizadas com régua simples, medindo a distância entre a arcada dentária superior e a inferior. Em um adulto, a distância está acima de 40mm, mas existem variações desse valor dependendo de idade, sexo e flexibilidade individual. Reflita A presença de aparelhos ortodônticos interfere na mobilidade da ATM e esse fato deve ser considerado no momento da goniometria. Sem medo de errar Após o estudo sobre a avaliação fisioterapêutica da cabeça, com ênfase na ATM, face e movimentos da língua, é possível saber quais foram os exames realizados para identificar as limitações de movimento da ATM do paciente da situação-problema. Analisando e refletindo sobre a situação, quais foram os testes que puderam identificar as alterações funcionais do paciente? Atenção A avaliação da ATM deve ser seguida de avaliação da língua e mímica facial, pois em alguns casos, lesões nessas regiões acompanham a disfunção da ATM. Na avaliação fisioterapêutica, os músculos temporal e masseter foram palpados na procura por alterações de tônus, sensibilidade ou dor. Foi testada a amplitude de movimento de abertura da boca, realizado pelo músculo pterigoide lateral e auxiliado pelo músculo digástrico, foi testado também o fechamento da boca, realizado pelos músculos masseter e temporal, que deve ser feito de forma passiva, seguido de assistida. Em seguida, o teste de forma resistida para detectar a força de oclusão, crepitações no movimento e presença de dor durante o esforço. Por fim, executou-se os testes de movimento da língua e da mímica facial. Avançando na prática Agora que você conhece os exames de palpação, os testes especiais, os testes de força muscular da região da ATM, face e língua, identifique quais procedimentos e testes podem ser úteis em outras realidades de queixas de lesões na região da ATM ou face. 54 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Paralisia transitória unilateral da língua Descrição da situação-problema Um jovem de 22 anos realizou uma cirurgia de septorrinoplastia para a correção do desvio de septo que lhe causava desconforto respiratório. Após a retirada da intubação endotraqueal, o jovem se queixa de dificuldade de fala e deglutição. A avaliação funcional do fisioterapeuta indicou disfunção do movimento da língua para o lado direito, compatível com lesão unilateral do nervo hipoglosso direito. Quais testes foram utilizados para identificar a relação entre a dificuldade de fala e deglutição e a lesão do nervo hipoglosso? Lembre-se O nervo hipoglosso está relacionado com a inervação bilateral dos músculos genioglosso, hioglosso e estiloglosso, que movimentam a língua, principal órgão da deglutição e importante na articulação de palavras. Resolução da situação-problema A queixa principal de dificuldades motoras da língua para alimentação e comunicação verbal podem ser testadas com os movimentos de protração lingual (m. genioglosso), abaixar as laterais da língua (m. hioglosso) e retrair e elevar a língua (m. estiloglosso), usando as movimentações de ponta de língua, abaixamento até o queixo e alargamento para as laterais da boca. Faça você mesmo Realize o exercício de mímica facial em duplas de alunos, essa atividade irá auxiliá-lo nafixação dos nomes dos músculos faciais e suas ações, bem como no reconhecimento das variações de amplitude de movimento em cada indivíduo. Faça valer a pena 1. Complete a frase: A articulação temporomandibular é considerada a única articulação do corpo com movimento terminal fixo. Esta afirmação está correta devido ________________. a) Aos músculos terem origem nas vísceras com inserção óssea. b) Ao fato de que o final do movimento de oclusão ocorre com o encontro dos dentes superiores e inferiores. Seção 4.2 / Avaliação fisioterapêutica da cabeça - 55 c) Aos músculos serem de origem óssea, mas de inserções na pele. d) Ao fato de que ao abrir totalmente a boca, a ATM se torna fixa no osso temporal. e) Ao fato de que a oclusão se tornar afastada da fossa condilar do osso temporal pela falta de ligamentos. 2. Complete a frase: Durante a avaliação da articulação temporomandibular, é solicitado ao paciente que realize movimentos com a boca. No fechamento da boca, é possível identificar a disfunção da ATM quando___________________. a) Os dentes superiores se fixam completamente nos dentes inferiores. b) O côndilo mandibular se encaixa na fossa temporal. c) Os músculos bucinador e orbicular da boca promovem desvio labial. d) Ocorre má oclusão entre mandíbula e maxila e os dentes não conseguem entrar completamente em contato. e) O processo coronoide mandibular se encaixa na fossa condilar temporal. 3. Complete a frase: Dentre as causas comuns das disfunções da ATM no indivíduo jovem, que se queixa de dores e crepitações durante a mastigação, pode-se destacar _____________________. a) A paralisia de Bell que afeta o nervo facial. b) A falta de movimento dos músculos orbicular da boca e bucinador. c) O desvio do côndilo mandibular durante a oclusão. d) Disfunções ou lesões do nervo hipoglosso, que causa uma paralisia na movimen- tação da ATM. e) O encaixe dental e encaixe do côndilo mandibular na fossa condilar temporal. 56 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Anatomia, cinesiologia e imaginologia do tórax Diálogo aberto Olá, aluno! Bem-vindo à seção de estudo na qual daremos início à avaliação do tórax. Conhecer as estruturas anatômicas e funções do tórax são importantes para determinar alterações causadas por problemas respirató- rios ou musculoesqueléticos que acometem essa região. Assim, nesta seção, você conhecerá a anatomia dos ossos, músculos e articulações do tórax, além do músculo respiratório. Também aprenderá a identificar as estruturas anatômicas por meio dos exames de imagens diagnósticas. Agora, vamos analisar uma nova situação em que o advogado de 50 anos, diagnosticado anteriormente com disfunção de ATM, também se queixava de cansaço e, após iniciar tratamento da ATM, passou por uma crise de tosse que piorava durante a noite, com dores na região dorsal direita. Passou pelo médico e recebeu o diagnóstico de pneumotórax. Foi encaminhado ao fisio- terapeuta. Na avaliação fisioterapêutica, além do diagnóstico de pneumo- tórax, também foram observadas dificuldades respiratórias com ênfase na inspiração forçada, alteração de expansividade costal do lado direito e vibração vocal diminuída, associadas à queixa de dores dorsais. Analisando e refletindo sobre essa situação, quais foram as estruturas estudadas pelo fisio- terapeuta que permitiram que ele identificasse que o pneumotórax alterou a expansividade apenas em um lado do tórax e que causou dificuldades respi- ratórias com dores durante a inspiração? Seção 4.3 Não pode faltar Anatomia do tórax O tórax tem sua estrutura óssea formada pelos 12 pares de arcos costais lateralmente, pelo osso esterno anteriormente e pelas 12 vértebras torácicas posteriormente. Os arcos costais se articulam com o esterno por meio das cartilagens costais e entre cada costela estão situados os músculos intercos- tais, que se fixam nas próprias costelas. Abaixo das costelas, separando inter- namente o tórax do abdome, encontra-se o músculo diafragma. Observe o Quadro 4.5 e note que o primeiro arco costal tem mobilidade apenas na porção dorsal, pois sua fixação na parte anterior é feita pela articu- lação do tipo sindesmose, o que torna essa parte fixa, limitando o movimento. Já do II ao X arco costal, a mobilidade é maior e devido às suas articulações Seção 4.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do tórax - 57 com o esterno na face anterior serem do tipo sinovial. Os últimos arcos costais não influenciam muito na mobilidade torácica por serem curtos e, por isso, são também chamados de costelas flutuantes, porque não alcançam o esterno. Quadro 4.5 | Articulações da região do tórax, sua classificação e função I arco costal Possui epífise proximal na primeira vértebra torácica, com articulação sinovial e epífise distal em articulação sindesmose no manúbrio do esterno. II ao VII arco costal Possui epífise proximal da segunda à sétima vértebra torácica, com articulação sinovial e na epífise distal em cartilagem com articulação sinovial no corpo do esterno. VIII ao X arco costal Possui epífise proximal da oitava à décima vértebra torácica, com articulação sinovial e na epífise distal, fixa-se na cartilagem do sétimo arco costal, unindo-se em articulação sinovial no esterno. XI ao XII arco costal Possui origem na segunda à sétima vértebra torácica, com arti- culação sinovial e término livre, sem articulação. Fonte: elaborado pelo autor. As posições do encontro das costelas sofrem variações de acordo com o biótipo físico de cada indivíduo. Essas variações são vistas no ângulo de Charpy, formado pelo cruzamento das últimas costelas e cartilagens costais, tendo como vértice o processo xifoide do osso esterno. Esse encontro forma um ângulo que determina o biótipo do indivíduo. Se o encontro gerar um ângulo de 90 graus, esse indivíduo tem composição corporal de normo- líneo (ou mediolíneo). Se o ângulo for menor que 90 graus, o indivíduo tem composição corporal longilíneo. Mas se o ângulo for maior que 90 graus, então a composição é de brevilíneo. Em indivíduos normolíneos, o diâmetro horizontal dos pulmões é o dobro do diâmetro anteroposterior. Esses valores são importantes, pois doenças congênitas do tórax ou crônicas pulmonares podem deformar o tórax e alterar essas medidas. Músculos e ação do movimento O principal músculo dos movimentos respiratórios é o diafragma, que tem sua inserção no processo xifoide do osso esterno, das cartilagens costais do VI ao X arco costal e das duas últimas costelas (XI e XII), nas vértebras lombares superiores posteriormente, e origem na parte central, chamada de centro tendíneo. Este possui três aberturas, o forame da veia cava, que fornece a passagem da veia cava, o hiato aórtico, que fornece passagem para a artéria aorta e o hiato esofágico, que fornece passagem para o esôfago, sendo este último importante na avaliação, pois alterações e encurtamentos do diafragma por desvios posturais ou patologias pulmonares provocam tração 58 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem do órgão, que tem seu término na válvula cárdia do estômago, podendo causar refluxos gastresofágicos. O músculo diafragma é inervado pelo par de nervos frênicos (raízes C2 a C4), que emergem da medula espinhal. O controle respiratório ocorre nos centros respiratórios do bulbo encefálico. Os músculos acessórios da respiração são voluntários. Dentre eles estão os músculos intercostais internos e externos que se situam entre os arcos costais, responsáveis pela elevação e abaixamento do tórax durante a respi- ração. O músculo intercostal externo tem fibras em posição oblíqua no sentido inferomedial e auxilia nos movimentos inspiratórios, enquanto o músculo intercostal interno tem posição vertical e auxilia na expiração forçada. Além desses músculos, o tórax tem um conjunto acessório respiratório, como o músculo esternocleidomastoideo com origem no processo mastoide do osso temporal(posterior à orelha) e inserção no manúbrio do esterno, que pode auxiliar na elevação da caixa torácica na face anterior durante a inspiração forçada. O músculo escaleno, que eleva a clavícula e a caixa torácica, também anterior, o músculo peitoral maior, que tem origem na lateral do corpo do esterno e também eleva o tórax, e o músculo levantador da costela, que tem origem nos processos transversos e inserção na tuberosidade da costela, e também auxilia na inspiração. Outros músculos que participam da respi- ração, mas com ação menor, são os romboides, o peitoral menor e o trapézio. Assimile O processo de inspiração é ativo, pois recruta músculos respiratórios para sua ação, mas o processo de expiração normal é passivo, relaxando os músculos inspiratórios. Os músculos expiratórios são usados nos momentos em que o indivíduo está “soprando”, não sendo esta ação comum na respiração normal. Na inspiração, todas as costelas do tórax se movem no sentido superior, lateral e anterior, aumentando os diâmetros horizontal e anteroposterior do tórax. No diâmetro horizontal o músculo intercostal externo associado ao músculo elevador da costela são recrutados e, para o aumento anteroposte- rior, são os músculos esternocleidomastoideo, escaleno e peitoral maior. A expiração provoca o movimento inverso, e as costelas voltam passivamente à posição inicial. Se o indivíduo realizar a expiração forçada, os músculos abdominais com os intercostais internos entram em ação. Na clínica fisioterapêutica, este movimento lateral é chamado de “alça de balde”. Mas assim como o diâmetro horizontal aumenta, o diâmetro anteroposterior também, e chamamos este de “braço de bomba”, em alusão ao braço de bomba de poço artesiano. O processo expiratório só depende de Seção 4.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do tórax - 59 ação muscular quando for forçada, como na ação de “assoprar”, em que se recruta os músculos abdominais e os intercostais internos. Frêmito toracovocal Para avaliar a funcionalidade do tórax, peça ao paciente que realize uma inspiração forçada, avalie se os dois hemitórax são simétricos. Agora teste o frêmito toracovocal colocando a mão sobre o tórax na região pulmonar a ser avaliada, observe a vibração do pulmão durante o curso respiratório. Uma maneira de facilitar a vibração é solicitar que o paciente diga “trinta e três” durante o teste. Diferenças de vibração unilateral ou frêmito baixo podem indicar problemas respiratórios ou das estruturas que auxiliam a respiração. Cuidado para não confundir alterações de frêmito unilaterais com o fato do pulmão direito ter um frêmito um pouco mais vibrante que o esquerdo. Essa condição está relacionada com o fato de o brônquio pulmonar direito ser mais calibroso que o esquerdo. O som do frêmito é mais intenso nas bases dos indiví- duos que tem voz com tons graves e mais baixo quando a voz é mais aguda. Reflita Uma fratura ou lesão contusa de um processo espinhoso de vértebra torácica podem ser confundidos com dores no peito, com impres- sões de problemas respiratórios, pois durante a inspiração forçada o músculo levantador da costela traciona esses processos, causam dores e dificultam a inspiração. Noções de imaginologia do tórax: raios X; ressonância magnética, tomografia computadorizada e ultrassonografia Frequentemente os RX de tórax PA (anteroposterior) e perfil são utili- zados no ambulatório para complementar o diagnóstico de alterações de caixa torácica e de problemas respiratórios. Os RX do tórax na incidência em PA se diferencia do AP, este último é realizado comumente em pacientes acamados. Na incidência AP as imagens internas não são precisas e, por isso, são utilizadas para monitorar a condição pulmonar em pacientes acamados no hospital. Já incidências em PA são realizadas em ortostase, inspiração máxima com posicionamento que retira as escápulas da frente dos pulmões, facilitando a visualização da imagem completa do pulmão e de toda a sua rede vascular e brônquica que forma uma trama broncovascular. A incidência em perfil serve para identificar a profundidade das lesões e a profundidade das estruturas do mediastino. 60 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Assimile Mediastino é o espaço entre os pulmões, desde a face superior na região da base cervical até a parte interior no diafragma. Ele se divide em superior, onde encontramos o esôfago e a traqueia, e inferior, separado em três partes. A anterior é a face esternal, a média é onde encontramos o coração e seu revestimento pericárdico e na posterior estão a aorta e o final do esôfago torácico, no momento em que essas estruturas atravessam o diafragma posteriormente. Procure verificar se há alguma estrutura anatômica fora de seu local original. Conheça um pouco das estruturas encontradas na Figura 4.10. Observe no centro o mediastino médio, no qual se encontra o coração, depois observe o mediastino superior, que se dirige ao pescoço. É possível identificar a traqueia, veja nas bases dos pulmões, em que o diafragma limita o tórax, e observe as “pontas” que se formam nas laterais. Nessa região aguda, chamada de ângulo costofrênico, é onde se acumulam líquidos pericárdicos, e em derrames pleurais esses ângulos desaparecem nos RX. Ângulos menores são formados na porção medial, são eles os ângulos cardiofrênicos. Em derrames pleurais muito extensos, esses ângulos também desaparecem, ou em derrames pericárdicos e pericardites no ângulo cardiofrênico da esquerda. Observe que a base do diafragma da esquerda é levemente mais baixa que o da direita. Se isso não ocorrer, é provável que alguma patologia esteja encolhendo o pulmão esquerdo. O pneumotórax, que é a presença de ar de forma anormal entre as pleuras pulmonares, causando compressão na região pulmonar em que se forma, dificulta a expansão do local onde a “bolha” de ar está instalada e a inspiração. Como o ar tem baixa densi- dade, a imagem da “bolha” se torna radiopaca no pulmão, tornando a área estudada mais escura e sem presença de imagens sugestivas de passagem de artérias, veias e brônquios/bronquíolos (trama broncovascular). Figura 4.10 | Imagem de RX de tórax PA Fonte: iStock. Exemplificando Uma radiografia de tórax PA de uma pessoa com tumor maligno, provoca mancha clara no local de lesão do pulmão. Os RX de tórax em perfil, indicam a profundidade desse tumor. Observe a Figura 4.11 que ilustra um tumor na Seção 4.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do tórax - 61 base do pulmão esquerdo, e a Figura 4.12 que ilustra uma mancha tumoral que pode estar localizada na porção anterior da base pulmonar. Figura 4.11 | Tumor na base do pulmão esquerdo Fonte: iStock. Fonte: iStock. Figura 4.12 | Tumor na região anterior do pulmão Sem medo de errar Após o estudo sobre as estruturas anatômicas e funcionais do tórax, é possível responder a nossa situação-problema que descreve o estado de um advogado com crises de tosse e dores dorsais associada ao pneumotórax. Foi realizada a avaliação fisioterapêutica e diagnosticada dificuldades respirató- rias com ênfase na inspiração forçada, alteração de expansividade costal do lado direito e vibração vocal diminuída. Responda: quais foram as estruturas estudadas pelo fisioterapeuta que permitiram identificar que o pneumotórax alterou a expansividade apenas em um lado do tórax e que causou dificul- dades respiratórias com dores durante a inspiração? Atenção A inspiração forçada recruta músculos acessórios que têm origem ou inserção no gradeado costal. Quando esses músculos são acionados, o gradeado costal é mobilizado. 62 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Foram estudados os músculos relacionados com a respiração, mais preci- samente com a inspiração, que são o diafragmático e os intercostais externos, auxiliados pelos músculos esternocleidomastoideo, peitoral maior e levan- tador da costela. Também foram observadasas costelas e sua posição padrão (normolíneo, brevilíneo, longilíneo), os movimentos respiratórios bilaterais e o frêmito vocal que estão diminuídos na face posterior dorsal do paciente, devido à condição antálgica provocada pelo pneumotórax, que causava dores durante a inspiração. A identificação da falta de expansividade torácica à direita foi vista com a inspiração forçada, na qual o pneumotórax não deixou que o incurso se estendesse até o final inspiratório do lado direito. O frêmito vocal foi identificado colocando a palma da mão do fisioterapeuta sobre as costelas na porção dorsal direita e solicitado que o paciente repetisse a frase “trinta e três”, notando-se pouca vibração nessa região devido à presença do pneumotórax. Foi observado nos RX de tórax a imagem radiopaca na face intrapleural, sugestiva de pneumotórax. Provavelmente, a tosse contínua provocou uma pressão negativa entre o pulmão e as costelas, formando no tecido entre eles (pleuras) uma bolha de ar (pneumotórax). Avançando na prática Agora que você conhece as estruturas anatômicas do tórax, já estudou os movimentos realizados na respiração, seus músculos e identificou suas estruturas, o ângulo de Charpy e o frêmito toracovocal, vamos a uma nova situação-problema que envolve esses conhecimentos. Derrame pleural Descrição da situação-problema Uma senhora acamada por sete dias em razão de uma intervenção cirúr- gica recente, com colocação de prótese total de quadril, queixa-se de falta de ar e dores dorsais. Em consulta com o médico, recebeu o diagnóstico de derrame pleural e foi encaminhada para atendimento fisioterapêutico. Em avaliação fisioterapêutica, foi verificada a pouca expansibilidade torácica do pulmão direito. Quais estruturas foram estudadas pelo fisioterapeuta para identificar a limitação de expansibilidade de caixa torácica da paciente? Lembre-se Estruturas que formam volumes nas pleuras podem impedir a expansivi- dade da caixa torácica, provocando desconforto respiratório. Seção 4.3 / Anatomia, cinesiologia e imaginologia do tórax - 63 Resolução da situação-problema A capacidade de expansão da caixa torácica está relacionada com a elasticidade e expansibilidade do pulmão, pois os músculos respiratórios promovem a inspiração aumentando os diâmetros anteriores e laterais do tórax. As estruturas estudadas foram os músculos respiratórios, ossos e articulações costais, o movimento da caixa torácica e os diâmetros laterais e anteroposterior do pulmão. Faça você mesmo Experimente o teste do frêmito vocal em colegas de sala e verifique a vibração normal quando se pronuncia o número “trinta e três” durante a avaliação. O frêmito se torna uma referência para avaliar alterações na caixa torácica e identificar doenças respiratórias. Faça valer a pena 1. Complete a frase: O processo de respirar ocorre em duas fases: a inspiração, na qual o objetivo é trazer o ar do meio externo para os pulmões, e a expiração, na qual o ar é expelido dos pulmões para o meio externo. A inspiração forçada tem como característica __________________. a) Ser estimulada pelos músculos abdominais. b) Ação dos intercostais internos. c) Elevação das cúpulas diafragmáticas. d) Buscar a redução do volume pulmonar. e) Promover o aumento dos diâmetros horizontais e anteroposterior do tórax. 2. Complete a frase: A mobilidade da caixa torácica é influenciada pela ação de músculos acessórios do processo respiratório, na qual temos como importante(s) músculo(s) que atua(m) na expiração forçada é(são) os ___________________. a) Músculo diafragma. b) Músculo escaleno. c) Músculos intercostais internos. d) Músculo esternocleidomastoideo. e) Músculos intercostais externo. 64 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem 3. Complete a frase: No conjunto de ossos do tórax, encontramos as costelas formando uma articulação com o corpo vertebral da coluna torácica e com o osso esterno na face anterior, com exceções feitas nas _________________. a) Três primeiras costelas. b) Duas últimas costelas. c) Duas primeiras costelas. d) Sétimas costelas iniciais. e) Sete últimas costelas. Seção 4.4 / Avaliação fisioterapêutica do tórax - 65 Avaliação fisioterapêutica do tórax Diálogo aberto Seja bem-vindo à seção que estuda a parte prática do diagnóstico cinético- -funcional do tórax. Nesta seção, estudaremos o exame de inspeção e palpação torácica, percussão e ausculta, além de exames de mobilidade torácica. Agora, voltemos à situação hipotética apresentada no Convite ao estudo, em que um advogado de 50 anos, com crise de tosse e dores na região dorsal direita, foi diagnosticado com pneumotórax. O paciente foi encaminhado ao fisiotera- peuta que avaliou e observou que, além do pneumotórax, havia também dificul- dades respiratórias com ênfase na inspiração forçada, alteração de expansividade costal do lado direito e vibração vocal diminuída. Analisando e refletindo sobre essa situação, quais foram os exames e os testes especiais realizados pelo fisio- terapeuta que identificaram a origem das dificuldades respiratórias e perdas de expansividade torácica do lado direito? Para que você consiga responder a esse e a outros questionamentos sobre o tema da seção, serão apresentados de forma contextualizada na seção Não pode faltar os conteúdos necessários para a sua compreensão. Então, seguiremos com os estudos, vamos lá! Seção 4.4 Não pode faltar Exame de superfície e palpatória do tórax Na prática do exame físico palpatório, você deve iniciar a palpação pela face anterior do tórax, no osso esterno, desde o manúbrio até o processo xifoide e toda a borda de articulação com as costelas. Procure por saliên- cias que indiquem luxações ou áreas dolorosas que indiquem subluxações ou contusões, comuns de traumas diretos no esterno ou traumas indiretos no ombro com transmissão de impacto para as costelas. Exemplificando Em quedas com traumas no ombro, em esportes como o judô, podem ocorrer absorção do impacto pelas costelas nas articulações costocon- dral ou esternocondral, provocando contusões ou luxações. 66 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Palpe as costelas na fixação com o esterno pelas articulações esternocon- dral e costocondral. A região poderá estar dolorida devido a costocondrites decorrentes de crises de tosse ou vômito. Continue a palpação da costela e dos espaços entre elas, onde se abrigam músculos intercostais internos e externos, nervos e vasos sanguíneos. Dores nos espaços intercostais podem refletir neurites por neuropraxia traumáticas ou alterações de sensibilidade relativa a herpes-zóster, que acompanha a presença de vesículas no percurso do espaço intercostal. Na face posterior do tórax, na altura de T2 a T7, estão as escápulas. A palpação pode ser iniciada pela borda medial da escápula. Como a articu- lação com as costelas se trata de pseudoarticulação, não havendo cápsula articular e nem estruturas sinoviais, ela fica livre e fácil de ser mobilizada. Procure manter o paciente relaxado, de preferência em decúbito dorsal, pois dessa maneira seus dedos podem percorrer profundamente a borda, onde há inserção de músculos, como os romboides, e na face superior da borda o elevador da escápula, que pode estar sob tensão e promover dores e espes- samento de tecido na inserção. Na borda superior, é possível palpar as fibras superiores do músculo trapézio na espinha escapular e o ventre do músculo supraespinhal. Abaixo da espinha escapular está o músculo deltoide e, profundamente, o músculo infraespinhal. Na borda lateral da escápula estão as inserções dos redondos menor e maior. Percussão do tórax e ausculta pulmonar A percussão é realiza por meio de vibrações manuais geradas por leves “tapas” sobre as costas da mão que se repousa sobre as áreas do tórax, como retorno teremos sons vibratórios peculiares àquela região, por exemplo, os sons maciços indicam a falta de ar no local, típico de derramepleural, infiltradas secreções e massas tumorais. Sons timpânicos são observados somente na face central superior do tórax, onde se localizam a traqueia e os brônquios pulmonares. Em outros locais, os sons timpânicos são caracterís- ticos de bronquite crônica ou enfisema pulmonar, mas principalmente do pneumotórax. A ausculta dos sons normais e adventícios do pulmão sobre a superfície do tórax deve ser realizada com estetoscópio, tendo como ausculta normal um murmúrio da passagem do som pela árvore broncovesicular. Entre os sons adventícios temos: Secos: estridor, roncos (secreção), sibilos (murmúrios). Úmidos: estertores crepitantes (parecença de líquido em vias aéreas de pequeno calibre), estertores subcrepitantes (em vias de médio calibre). Seção 4.4 / Avaliação fisioterapêutica do tórax - 67 Faça você mesmo A ausculta pulmonar e a percussão do tórax são exames que exigem bastante treino para que sejam identificadas alterações pulmonares. Segue a sugestão de exercitar esses procedimentos em vários colegas de sala em vários dias alternados, para que possa promover uma capacidade auditiva e perceptiva de sons normais e adventícios. Reflita Um indivíduo com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) tem como característica o pulmão “insuflado”, tendo assim uma inspiração curta, o que reflete uma incursão respiratória menor que o normal, dificultando a ausculta e a identificação de sons maciços. Provas e função dos músculos do tórax A seguir, provas que podemos utilizar para identificar a origem das queixas de dores, falta de mobilidade no tórax e falta de ar devido a doenças ou traumas. Na nossa situação-problema, podemos utilizar: - Teste de expansão torácica – passe uma fita métrica circulando o tórax do paciente na altura do mamilo (aproximadamente T7) e peça para que ele realize uma expiração. Tome nota e peça para que realize uma inspiração forçada, tome nota. Em um homem adulto, a diferença encontrada entre os valores de expiração e de inspiração estão próximos de 5 cm e de mulheres 2,5 cm. Veja a Figura 4.13. Assimile A inspiração forçada consegue atingir sua máxima expansividade a partir da segunda tentativa de inspiração, pois os tecidos elásticos que formam o parênquima pulmonar se estendem e se acomodam após o primeiro esforço. - Teste de Schepelmann – peça para o paciente ficar sentado e solicite que realize inclinações laterais. Se ocorrer dores do lado que está inclinando é sinal de neurites, geralmente compressivas, mas se ocorrer dores do lado oposto da inclinação, então se trata de pleurites. - Teste de aproximação passiva escapular – com o paciente sentado, use as suas mãos para aproximar as escápulas dele à linha medial, unindo as bordas mediais das escápulas. Se o paciente relatar dores ou sensações de “formigamento”, então trata-se de compressão ou irritação nas raízes nervosas de T1 e/ou T2 da medula. 68 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Figura 4.13 | À esquerda, mensuração torácica; ao centro, teste de Schepelmann e à direita, teste de aproximação escapular Fonte: Cipriano (2015, p. 290, 289 e 287). - Teste de hiperabdução – é utilizado para identificar a síndrome do desfiladeiro torácico. Peça para o paciente sentar-se, verifique o pulso radial dele e em seguida solicite a ele que coloque os ombros em abdução de 90 graus e com flexão de cotovelo a 90 graus, com as mãos para cima por um minuto. Teste novamente o pulso radial. Se o pulso estiver fraco ou o paciente relatar formigamentos dos membros, então se trata de síndrome do desfila- deiro torácico. Veja na Figura 4.14. Pesquise mais Entenda mais sobre a síndrome do desfiladeiro torácico em: LIMA, F. F. et al. Atualidade em síndrome do desfiladeiro torácico e intervenção fisioterapêutica. XII Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e VIII Encontro Latino Americano de Pós-Graduação. Universidade do Vale do Paraíba, out. 2013 - Teste de Ross – útil também para o teste da síndrome do desfiladeiro torácico. Na mesma posição do teste de hiperabdução, peça ao paciente que abra e feche mão por um minuto. Avaliar as mesmas sensações do teste anterior. Figura 4.14 | Teste de hiperabdução à esquerda e teste de Ross à direita Fonte: Cook e Hegedus (2015, p. 283 e 285). Seção 4.4 / Avaliação fisioterapêutica do tórax - 69 - Teste de Adson – outro teste que pode ser aplicado para síndrome do desfiladeiro torácico. Verifique o pulso radial e depois coloque os membros superiores a 15 graus de abdução e uma hiperextensão cervical. Solicite uma rotação cervical para o lado testado. Teste o pulso radial novamente. Se o pulso estiver fraco ou o paciente relatar formigamentos dos membros, então se trata de síndrome do desfiladeiro torácico. Sem medo de errar Após o estudo sobre palpação, função muscular, percussão do tórax e ausculta pulmonar, é possível refletir, analisar e identificar quais foram os locais examinados e quais foram os testes especiais realizados pelo fisiotera- peuta que identificaram a origem das dificuldades respiratórias e perdas de expansividade torácica do lado direito do paciente? Atenção Dores na parede torácica podem ter origem nas estruturas osteomioarti- culares ou na face interna, como as pleuras e pulmões. Foram inspecionados e palpados na caixa torácica o osso esterno e suas articulações com a clavícula e as costelas. Palpou a escápula e os músculos a sua volta, como os músculos romboides, trapézio, elevador da escápula, supraespinhal, infraespinhal e deltoide. Também foi palpado os espaços intercostais onde estão os músculos intercostais internos e externos, nervos e vasos sanguíneos, os quais aparentemente, não haviam alterações morfoló- gicas e queixas de dor à palpação. Foi realizada a percussão com alteração de vibração do lado direito e ausculta pulmonar com murmúrio vesicular diminuído no local da dor, refle- tindo um problema respiratório associado a pulmão e pleuras. Realizou-se testes de expansão torácica com volume reduzido na inspi- ração e desvio para a direita, devido ao pulmão não poder realizar inspi- ração total. O teste de Schepelmann sinalizou como positivo apenas para o lado contralateral, indicando alteração em regiões da pleura, como mostra a definição do teste. Portanto, a crise de tosse não causou uma condrite nas costelas com o osso esterno, mas provocou um pneumotórax. 70 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem Avançando na prática Agora que conhece os exames de inspeção e palpação do tórax, percussão e ausculta, e sabe como testar os músculos e os movimentos do tórax, identifique como esse conhecimento pode ser útil em outras realidades de queixas de lesões. Dor torácica pós-trauma Descrição da situação-problema Um jovem procurou atendimento médico com queixa de dor torácica à direita, durante a inspiração. Relata que a dor iniciou após queda de moto, quando lesionou o ombro. Em atendimento, chegou a imobilizar o ombro, mas não tinha queixas de dores torácicas. O jovem foi diagnosticado, poste- riormente, com costocondrite dos segundo e terceiro arcos costais e sublu- xação esternoclavicular. Analisando esse quadro, quais estruturas foram testadas e palpadas para identificar a causa das queixas do paciente? Lembre-se A avaliação da caixa torácica inclui a avaliação pulmonar, pois dores nessa região podem ter origem na face externa, entre ossos, músculos e articulações, ou interna, como nos pulmões ou pleuras, ou mesmo as duas condições. Resolução da situação-problema A queda do jovem, com impactos no ombro, promove transmissão do trauma para as costelas e para o esterno, sobrecarregando as articulações entre esses ossos, que são as cartilagens costais. Também sobrecarrega a articulação da clavícula com o esterno, no centro do tórax. A palpação da região das costelas e espaços intercostais e articulações costocondral e ester- nocondral denuncia a lesão, enquanto a auscultae que os realizava como todos os outros alunos da academia. A falta de informações colhidas pelo fisioterapeuta na situação acima, pode ter prejudicado na avaliação e no tratamento? Faça você mesmo Agora que você já é capaz de assimilar como é importante a coleta de dados, tente recordar de situações em que uma condição física levou a uma queixa, como lesões no joelho e dores lombares, postura curva e dores dorsais. Faça valer a pena 1. Um indivíduo de 52 anos, mecânico de automóveis, com queixa de perda de mobili- dade e dores na região dos punhos, diabético tipo 2 há 9 anos e com mãe também diabética, foi diagnosticado pelo médico com condrocalcinose diabética. Nesse histó- rico, como foram registrados os dados durante a avaliação fisioterapêutica? A diabetes mellitus do paciente foi registrada na ficha do fisioterapeuta como: 16 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro a) QP. b) AVD. c) HF. d) Exame físico. e) HPP. 2. Um jovem de 22 anos, estudante, com queixa de perda de mobilidade e dores na região dos dedos, praticante de escalada, foi diagnosticado pelo médico com tendinite dos flexores dos dedos e punho. O que motivou a procura pelo tratamento fisioterapêutico foi a queixa principal, que é: a) Estabelecer uma rotina no esporte. b) Desejo de saber o motivo de suas dores. c) Promover analgesia local e se possível recuperar os movimentos dos dedos. d) Auxiliar no diagnóstico médico. e) Saber se terá problemas futuros, como perdas de movimentos das mãos. 3. Uma senhora de 72 anos, aposentada como professora infantil, com queixa de dores na região dos cotovelos, é diabética do tipo 2 há 24 anos e não apresenta histó- rico familiar da doença. Ela foi diagnosticada pelo médico como bursite olecraniana. Durante a anamnese do fisioterapeuta, a informação de sua idade serviu para: a) A realização do diagnóstico médico. b) Correlacionar o surgimento da doença hereditária (DM II) e estabelecer um tratamento compatível. c) Apenas para estatística, sem fins diagnóstico. d) Pesquisar possíveis doenças senis e planejar um tratamento condizente com suas capacidades. e) Incluir nos dados pessoais do paciente, mas sem necessidade de investigação diagnóstica. Seção 1.2 / Avaliação dos sinais vitais - 17 Avaliação dos sinais vitais Diálogo aberto Olá, aluno, estamos na segunda seção deste livro didático! Iniciaremos agora o estudo dos sinais vitais, em que serão abordados os principais sinais e métodos de verificação de sinais de vida necessários para qualificar a condição física e de saúde de um indivíduo, sendo fundamental para estabelecer um programa fisioterapêutico adequado, pois as condições indivi- duais influenciam no planejamento da conduta a ser realizada no paciente. Você se recorda da situação-problema que foi apresentada no Convite ao estudo no início desta unidade? A situação era de um paciente do sexo mascu- lino de 50 anos que se queixava de dor no ombro esquerdo, a qual se propagava para a região anterior e posterior do tórax. Dessa situação foram investigados alguns sinais clínicos que despertaram preocupação entre os profissionais da saúde que acompanharam o paciente. No trecho descrito: “...após a avaliação, o ortopedista recomendou que passasse por atendimento com um clínico de urgência, devido a uma irregularidade no batimento cardíaco (arritmia) e pressão arterial (PA) de 140 X 100 mmHg...”. E....”no primeiro momento, o quadro clínico indicava um risco de infarto lento, comuns às características apresentadas pelo paciente...”. E ainda, “...perda de capacidade respiratória...”. Todos os profissionais fizeram um prévio exame da condição momen- tânea. Cada um avaliou a condição do paciente, e de acordo com os resul- tados obtidos e confirmados com outros exames, puderam analisar se a situação era de risco à vida. Esses procedimentos são de grande importância para iniciar qualquer tratamento e são realizados por todos os profissionais da saúde. Mas como são feitos esses exames clínicos? Quais são os parâme- tros usados para estabelecer um risco ou incapacidade física? Ao longo desta seção apresentaremos os elementos necessários à resolução dessa situação-problema. Pronto para começar? Então vamos lá! Seção 1.2 Não pode faltar Vamos conhecer os principais sinais vitais utilizados para estabelecer um risco ou uma incapacidade num indivíduo. 18 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Figura 1.1 | Sinais vitais Fonte: iStock. Sinais vitais Na verificação de sinais vitais, utilizamos os principais equipamentos que são: esfignomanômetro - um aparelho para aferir a pressão arterial; estetos- cópio - aparelho para ausculta na aferição da PA, da pressão cardíaca e dos sons pulmonares; termômetro - para a verificação da temperatura, e por fim, o relógio: utilizado para determinar as frequências de tempo. Pressão arterial (PA) A pressão ou tensão arterial (PA) é a tensão que o sangue exerce sobre a parede das artérias durante o bombeamento do coração. Alguns fatores A avaliação dos sinais vitais Nesta etapa estudaremos os sinais vitais, que são os sinais que indicam a existência de vida; por meio deles evidenciamos o funcionamento e as alterações da função sistêmica corporal. Para isso, usamos a inspeção (olhar), a palpação (tocar), a percussão (ressoar) e a ausculta (ouvir). Existem diversos sinais vitais, dentre eles, os mais importantes e os que serão tratados nesta seção são: pressão arterial (PA), frequência cardíaca, (FC), frequ- ência respiratória (FR) e temperatura corporal. Seção 1.2 / Avaliação dos sinais vitais - 19 podem levar a alterações fisiológicas de PA, como: • Sexo: em geral, em adultos, a pressão dos homens é levemente mais elevada que a das mulheres, entretanto, adotamos os mesmos valores de parâmetros. • Idade: crianças tem a PA mais baixa que a dos adultos. • Sono: há uma redução de 10% na PA durante o sono. • Alimentação: após as refeições ocorre um leve aumento na PA. • Estado emocional, estresse: pode ocorrer elevação na PA, principal- mente na sistólica. • Raça ou etnia: algumas etnias têm diferenças de PA. • Atividade física: durante a prática de exercícios existe aumento na PA devido ao aumento do débito cardíaco. • Mudança de posição: pode ocorrer hipotensão postural (ortostática) quando nos levantamos rapidamente, e a pressão também pode ser reduzida quando passamos para decúbito. Reflita Muitos pacientes ficam nervosos em consultórios de saúde, por isso a PA pode ficar alterada por causa de suas emoções. A PA normal em um adulto é de ótima em 120x80 mmHg (milímetros de Mercúrio) e normal até 130x85 mmHg, quando em repouso. Pressões superiores a esta são de risco e denominadas hipertensão (“Pressão alta”), entretanto, vários fatores contribuem para um diagnóstico de hipertensão. Frequência cardíaca (FC) Também chamada de pulso cardíaco, refere-se à quantidade de batimentos cardíacos por minuto (bpm), que podemos sentir na palpação das diversas artérias do corpo por meio das contrações das paredes das artérias. Muitos fatores podem alterar a frequência cardíaca, como idade, sedentarismo, exercício físico, alimentação, emoções, medicação etc. A frequência normal de um indivíduo adulto considerado saudável em repouso é de 60 a 80 bpm. 20 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Fonte: http://www.fisioterapiaparatodos.com/p/coracao/batimento-cardiaco-normal/. Acesso em: 6 mar. 2016. Tabela 1.2 | Tabela de frequência cardíaca normal, de acordo com a idade: Idade Frequência cardíaca média (bpm) Recém-nascido 120-160 Até 1 ano 80-140 Dos 1 a 2 anos 80-130 2 – 6 Anos 75-120 7 – 12 Anos 75-110 13 – 18 Anos 70-110 Acima de 18 anos 60–110 Esportivos 40–60 Os principais pontos de palpação de artérias são em regiões em que elas se encontram mais superficiais, sendo assim, são as artérias: temporal, carotídea, femoral, poplítea, facial, braquial, ulnar, radial,e a percussão revelam um pulmão saudável. Os testes de Schepelmann podem denunciar lesões entre costelas, devido a luxações ou contusões. Faça você mesmo Caro aluno, até esta etapa de seus estudos, você obteve todo o conhe- cimento teórico e prático necessário para a realização de uma avaliação fisioterapêutica completa da cabeça e do tórax, e para testes específicos de ação muscular, função articular, integridade tendínea e ligamentar. Seção 4.4 / Avaliação fisioterapêutica do tórax - 71 Dessa forma, convido você a executar uma simulação de atendimento a pacientes com morbidades nessas regiões, para que treine os conhe- cimentos aqui desenvolvidos. Para isso, é importante que você realize a revisão das quatro seções da Unidade 4. Boa sorte! Faça valer a pena 1. Qual(is) do(s) exame(s) realizado(s) na fisioterapia, que corresponde à investi- gação diagnóstica, pode(m) apresentar resultado positivo para pleurite? I. Teste de Schepelmann. II. Teste de aproximação escapular. III. Cirtometria torácica. a) Apenas o item I está correto. b) Apenas o item II está correto. c) Apenas o item III está correto. d) Estão corretos os itens I e II. e) Estão corretos os itens I, II e III. 2. Quais dos exames abaixo terão resultado positivo para um indivíduo com pinça- mento intercostal após trauma torácico? I. Teste de Schepelmann. II. Cirtometria torácica. III. Teste de aproximação escapular. a) Apenas o item I está correto. b) Apenas o item II está correto. c) Apenas o item III está correto. d) Estão corretos os itens I e II. e) Estão corretos os itens I, II e III. 3. Para o diagnóstico de síndrome do desfiladeiro torácico, os testes clínicos usados na fisioterapia são: I. Teste de Ross. II. Teste de Adson. III. Teste de Hiperabdução. 72 - U4 / Cabeça e tronco: avaliação físico-funcional e diagnóstico por imagem a) Apenas o item I está correto. b) Apenas o item II está correto. c) Apenas o item III está correto. d) Estão corretos os itens I e II. e) Estão corretos os itens I, II e III. Referências BEHNKE, R. S. Anatomia do movimento. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. CARVALHO, V.; Souza, G. O estetoscópio e os sons pulmonares: uma revisão da literatura. Rev. Med., São Paulo, 86(4), p. 224-231, out./dez. 2007. Disponível em: . Acesso em: 4 set. 2016. CIPRIANO, J. J. Manual fotográfico de testes ortopédicos e neurológicos. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. COOK, C. E.; HEGEDUS, E. J. Testes ortopédicos em fisioterapia. 2. ed. Manole, 2015. DÂNGELO, J; FATTINI, C. A. Anatomia humana sistêmica e segmentar. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2001. DUTTON, M. Fisioterapia ortopédica. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. FUNARI, M. B. G. Radiologia e diagnóstico por imagem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. HIATT, J. L.; GARTNER, L. P. Anatomia cabeça e pescoço. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. JUNQUEIRA, L. Anatomia palpatória e seus aspectos clínicos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010. LIPPERT, L. S. Cinesiologia clínica e anatomia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. 3M. Tutorial básico dos sons pulmonares. Disponível em: . Acesso em: 4 set. 2016. KÖPF-MAIER, P. Wolf-Heidegger – atlas de anatomia humana. 6. ed. Traduzido sob a super- visão de Hélcio Werneck. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. LIMA, F. F. de. et al. Atualidade em síndrome do desfiladeiro torácico e intervenção fisiote- rapêutica. Disponível em: . Acesso em: 4 set. 2016. MANGANELLO, L. C. S.; SILVEIRA, M. E. da; SILVA, A. A. F. da. Cirurgia da articulação temporomandibular.São Paulo: Santos, 2014. MARIEB, E. N.; HOEHN, K. Anatomia e fisiologia. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. MOORE, K. L.; DALLEY, A. F.; AGUR, A. M. R. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. NETTER, F. H. Atlas de anatomia humana. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000. PALMER, M. L.; EPLER, M. E. Fundamentos das técnicas de avaliação musculoesquelética. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. v. 2. RASCH, P. J. Cinesiologia e anatomia aplicada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991. REISER, M.; BAUR-MELNYK, A.;; GLASER, C. Musculoesquelético: direto ao ponto. Porto Alegre: Artmed, 2009. SOUZA JUNIOR, A. S. de. Curso de diagnóstico por imagem do tórax. Capítulo II – imagenologia da pleura. Jornal de Pneumologia, São Paulo, v. 25, n. 2, apr. 1999. Disponível em: . Acesso em 24 ago. 2016. SOUZA JUNIOR, A. S. de. Curso de diagnóstico por imagem do tórax. Capítulo V – imagem da embolia pulmonar. Jornal de Pneumologia, São Paulo, v. 25, n. 5, set./oct. 1999. Disponível em: . Acesso em: 4 out. 2016. TORRES, D. M. Fisioterapia: guia prático para a clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. VALERIUS, K.-P. et al. O livro dos músculos: anatomia, testes, movimentos. São Paulo: Santos, 2013.tibial anterior, posterior e dorsal do pé. Palpe uma dessas artérias com a polpa digital do segundo e terceiro dedo de sua mão e conte durante 30 segundos a quanti- dade de batimentos sentidos, multiplique por 2 para saber o ritmo de seu coração. Frequência respiratória (FR) Para verificar a frequência respiratória (FR), devemos contar quantas vezes houve uma elevação da caixa respiratória no período de 1 minuto, incursões por minuto (IPM). Em geral, conta-se as respirações durante 15 segundos e multiplicamos por 4. - Frequência respiratória considerada normal, pela idade: • Recém-nascidos: 44 IPM. • Bebês: 20 a 40 IPM. • Crianças até 7 anos: 20 a 30 IPM. • Crianças e adolescentes: 16 a 25 IPM. • Adultos: 14 a 18 IPM. • Idosos: 19 a 26 IPM. Seção 1.2 / Avaliação dos sinais vitais - 21 Tabela 1.2 | Tabela de frequência cardíaca normal, de acordo com a idade: A frequência respiratória pode ser alterada por atividade física, estado emocional, medicamentos, estados metabólicos, gravidez, entre outros. - Alteração de Respiração: • Apneia: parada respiratória. • Dispneia: é a respiração difícil, ou curta, comum em doenças pulmo- nares e cardíacas. • Ortopneia: a respiração só consegue ser realizada com facilidade na posição ortostática. • Bradipneia: respiração muito lenta. • Taquipneia: respiração muito rápida em geral curta. Temperatura corporal Temperatura corporal é a quantidade de calor que está em distribuição pelo corpo, é regulada pelo hipotálamo; quando ela é considerada normal, chamamos de normotermia ou eutermia. Em geral, a temperatura corporal costuma ser mais baixa pela manhã, e ter leve elevação depois das 18:00h. É aceito como temperatura normal de 37°C na medição retal e de 36,8°C na boca ou axila. A termorregulação (autorregulação da temperatura corporal) serve para manter estável as reações químicas corporais. A temperatura pode variar de acordo a idade, atividade física, após a alimentação, ciclo menstrual, estado emocional, infecções, entre outros. Assimile Por causa da alteração de temperatura causada pelo ciclo hormonal feminino, pode-se usar este parâmetro para definir quando a mulher está ovulando. Figura 1.2 | Temperatura corporal Fonte: iStock. A temperatura pode ser aferida no ânus, ouvido, boca, axila e para mulheres na vagina. As alterações de temperatura são classificadas como: • Hipotermia: considera-se hipotermia a redução da temperatura sanguínea central abaixo de 36°C. É geralmente causada por exposição a baixas 22 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro temperaturas ou choque hipovolêmico (perda de sangue). • Hipertermia ou febre: é quando a temperatura sistêmica está acima de 37,5°C. Na maior parte dos casos a febre é causada por infecção. Além de sinais vitais, é importante que você também se atente na verifi- cação da cor e aparência física, auscultas e percussões cardiorrespiratórias. Análise de cor e aparência física A pigmentação normal da pele varia de pessoa para pessoa, e de região corporal, precisamos discernir sobre a diferença da coloração normal em relação a alterações na coloração da pele que podem indicar alguma patologia: • Cianose: é a coloração azulada de pele e mucosas, e pode indicar deficiência circulatória; apresenta-se perifericamente nas mãos e pés, ou centralizadas na boca. • Hiperemia: aparência avermelhada causada pela vasodilatação dos capilares, pode ser causada por excesso de calor, alterações metabó- licas ou inflamação (podendo ou não ser acompanhada por edema). • Ictérica: quando a pele tem uma aparência amarelada, em geral causada por icterícia, devido a patologias que acometem o fígado e ocorre o excesso de bilirrubina na circulação do sistema sanguíneo. São decorrentes por exemplo: icterícia neonatal, malária, hepatite, cirrose, anemia falciforme, leptospirose, entre outros. • Palidez: quando há uma queda brusca da PA ou uma desidratação por exemplo; ficamos com uma coloração pálida que indica fraqueza. • Presença de manchas, mácula, hematomas e cicatrizes e outros sinais cutâneos que sejam evidentes à visualização. • Presença de ressecamentos, úlceras, pruridos ou sangramentos. Auscultas e percussões Quando “ouvimos” os sons de determinada parte do organismo, estamos auscultando, para isso, em geral usamos um estetoscópio. De acordo com a parte a ser auscultada podemos perceber alterações que podem ser perti- nentes à queixa do indivíduo. Seção 1.2 / Avaliação dos sinais vitais - 23 Exemplificando Por exemplo, na ausculta pulmonar, temos o murmúrio vesicular (sons normais) e os ruídos adventícios (sons anormais), dentre eles podemos citar: • Secos: estridor, roncos (secreção), sibilos (murmúrios). • Úmidos: estertores crepitantes (presença de líquido em vias aéreas de pequeno calibre), estertores subcrepitantes (em vias de médio calibre). O princípio da percussão é realizar vibrações em uma determinada estru- tura, e receber como retorno um som vibratório peculiar àquela região; temos como exemplo sons maciços, submaciços, claro-pulmonar e timpânico. Palpações e testes propedêuticos A palpação é um exame físico que consiste na técnica de com as mãos pressionar e tocar as regiões do corpo a serem estudadas, procurando altera- ções de temperatura, de consistência de tônus, possível edema e presença de dor. Deve percorrer acidentes ósseos, tecidos musculares e ligamentares, assim como locais de passagens de nervos e vasos sanguíneos. Os testes propedêuticos são fundamentais, principalmente na ortopedia e neurologia, visam estabelecer a resposta normal ou verificar a presença de lesão. Para cada área do corpo existem testes específicos que serão explicados junta- mente com a área estudada. Pesquise mais Para saber mais sobre testes propedêuticos utilizados na clínica fisiote- rapêutica leia o livro: TORRES, Diego de Magalhães. Fisioterapia: guia prático para a clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006. Vital- Source Bookshelf Online. Sem medo de errar Após o estudo desta seção sobre técnicas de avaliação e principalmente sobre os sinais vitais, você terá condições de resolver a situação-problema que foi descrita no Diálogo aberto no início desta seção. Atenção O que motivou os profissionais da saúde a pesquisar sobre um possível infarto foram os dados clínicos somados aos resultados dos sinais vitais. 24 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Relembrando do paciente da situação-problema apresentada no Convite ao estudo que foi avaliado por vários profissionais da saúde, você já sabe quais foram os sinais vitais aferidos nessa avaliação? Quais são os parâmetros usados para estabelecer se há um risco ou incapacidade física? Já pode dizer como foram aferidos esses sinais vitais? E por fim, você já é capaz de descrever como são feitos os exames clínicos que auxiliam na avaliação fisioterapêutica? Após o estudo do “Não pode faltar” você chegará à seguinte conclusão: o paciente durante a consulta passou por uma avaliação clínica e nela foi reali- zada a verificação dos sinais vitais, PA, FC, FR e temperatura. Os parâmetros de pressão do paciente estavam acima da média (a média é de 120/80 mmHg e ele chegou com 140/100 mmHg) e uma arritmia cardíaca somados com perdas respiratórias e que indicavam um possível infarto do miocárdio, já que as dores cardíacas podem irradiar para o ombro, pescoço ou mandíbula esquerda. Esses foram aferidos da seguinte forma: usou-se o esfigmomanô- metro com o estetoscópio para aferir a pressão arterial e um relógio no qual se verificou as alterações no ritmo cardíaco. Não foi indicado infarto, mas o paciente tinha hipertensão e arritmias devido ao tabagismo. Além dos sinais vitais, também foram realizadas algumas técnicas de avaliação para comple- mentar e auxiliar no diagnóstico final, como a ausculta cardíaca e respiratória por meio de escutas com o estetoscópio, seguido de exame superficial do corpo, como core alterações na pele para verificar possíveis áreas edema- ciadas por inflamação ou cianóticas ou pálidas por isquemias. Observe a importância desses dados, pois não foram indicadores de infarto, mas se pôde constatar a condição física do paciente naquele momento, auxiliando na conduta do fisioterapeuta na elaboração do programa de reabilitação. Avançando na prática Agora que você conhece os itens e objetivos da verificação de sinais vitais e aferência cardíaca e respiratória, utilize seus estudos para entender esta nova situação. Mal-estar durante uma seção de fisioterapia Descrição da situação-problema Um jovem estudante e esportista que sofreu lesão no joelho direito em um jogo de futebol, iniciou um programa de fisioterapia para reabilitação pós-cirúrgico de reconstrução de ligamento cruzado anterior e lesão em Seção 1.2 / Avaliação dos sinais vitais - 25 corno meniscal do joelho direito. Durante a permanência no hospital, sofreu infecção hospitalar e retornou ao tratamento médico, e somente após 55 dias sem atividades físicas iniciou a fisioterapia. Os objetivos traçados incluíam analgesia, eliminação de aderências cicatriciais, ganho de amplitude de movimento (ADM), ganho de força e resistência muscular localizada (RML) com equilíbrio proprioceptivo. Após algumas sessões de fisioterapia, foi indicado o uso de bicicleta estacio- nária (ergométrica), em que foi submetido a exercício aeróbio. Durante o exercício o jovem apresentou tonturas e mal-estar, queixando-se de sensação de desmaio iminente.Socorrido pelo fisioterapeuta que avaliou sua condição física no momento, foi observada uma frequência cardíaca e respiratória muito acima do normal, mas com pressão alta típica de atividade física. O que poderia ter acontecido para gerar esse mal-estar, se no início da sessão o paciente se sentia bem? Ele estava alimentado e bem hidratado, sem alteração de tempera- tura, referia ter dormido bem e com poucas queixas de dor no joelho. Lembre-se Neste momento, os sinais vitais respondem a alguma desordem como foi estudado nesta seção. A origem da desordem está nos resultados dos sinais vitais e a avaliação. Resolução da situação-problema O aumento da FC e FR está relacionado com a atividade física. Quando um exercício está acima da condição física do indivíduo, os sinais cardíacos, que representam a circulação sanguínea e respiratória que se relacionam com o fornecimento de oxigênio ao corpo, geram sinais de estafa. O mal-estar deve estar relacionado à falta de condição física devido ao período de recuperação sem atividade no pós-operatório, somada à fraqueza advinda da infecção. Faça você mesmo Você já presenciou uma situação semelhante a esta? A recordação de situações corriqueiras de mal-estar pode agora ser esclarecida chegando a conclusões dos motivos dessas situações. Você se recorda de alguém que se queixou de passar mal e foi socorrido? Reflita sobre a situação e descreva como você procederia e quais os sinais vitais seriam impor- tantes de se verificar? 26 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Faça valer a pena 1. Um jovem de 20 anos sofreu um acidente automobilístico e sofreu politrauma- tismo. Devido às várias fraturas e imobilização, perdeu muita massa muscular, força e movimento de várias articulações. Após a retirada do gesso de imobilização foi encaminhado à fisioterapia para reabilitação. Fez uma avaliação com o fisioterapeuta e na verificação dos sinais vitais, a sua pressão arterial estava em 135 por 85 mmHg e a frequência cardíaca em 90bpm. Durante um esforço físico para ganho de força, sentiu-se mal. O profissional verificou a PA e frequência cardíaca com resultados de 200 por 100 mmHg e 135bpm. Nos sinais vitais, a pressão arterial desse jovem está indicando que: a) Está adaptada à atividade física, sendo compensada com a diastólica baixa. b) Está sofrendo de hipertensão arterial sistêmica. c) Mantém a pressão normal de repouso, sem nenhuma alteração. d) Está com pressão não compensada, pois a sistólica e diastólica estão altas e a frequência cardíaca alta acompanhando a pressão. e) A pressão está normal, porém, com frequência cardíaca alta. 2. Um fisioterapeuta sugeriu que uma jovem de 15 anos não realizasse a sessão de fisioterapia naquele dia porque apresentava frequência cardíaca de 100bpm e tempe- ratura de 39°C. Qual pode ter sido a justificativa para essa conduta do fisioterapeuta? a) Sinais de possível infecção, mas não precisava interromper a fisioterapia. b) Febre e frequência cardíaca alta indicam possível infecção, impossibilitando atividades físicas. c) Valores normais e com procedimento fisioterapêutico normal. d) A frequência está compensando a temperatura podendo dar sequência a fisioterapia. e) A temperatura e frequência alta auxiliam na fisioterapia. 3. JB, de 30 anos, masculino, está com PA 140/105 mmHg. Tem agendado para hoje fortalecimento de MMII na clínica de fisioterapia. No caso acima, qual a possível conduta do fisioterapeuta referente à PA? a) Manter os exercícios, pois não está com PA tão alta. b) Solicitar o encaminhamento imediato ao cardiologista no PS. Seção 1.2 / Avaliação dos sinais vitais - 27 c) Não realizar a conduta, pois a PA tende a aumentar no exercício. d) Dar água para o paciente e aguardar a PA baixar. e) Mudar a conduta para alongamentos. 28 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Anatomia e cinesiologia do ombro Diálogo aberto Olá, aluno, Nesta seção vamos estudar a região do ombro, na qual conheceremos suas estruturas anatômicas, tais como ossos, músculos e articulações. Também serão abordados a biomecânica e a cinesiologia do ombro. Lembro a você que é imprescindível o conhecimento dessas estruturas para que se realize testes diagnósticos fisioterapêuticos. Relembrando nosso caso clínico apresentado no Convite ao estudo, nesta unidade, algumas informações do paciente, como: ”... queixava-se de dor no ombro esquerdo que se propagava para a região anterior e posterior do tórax. Relatou que começou a sentir as dores ao jogar voleibol, mas que o esporte era esporádico, apenas realizado em alguns sábados...”, podemos constatar pelas seções anteriores que não se tratava de um problema cardíaco, como se suspeitava, e sim uma lesão estrutural do ombro desse indivíduo, que não estava treinado e condicionado para a prática do esporte. Dessa forma, ficou claro que a queixa de dor do paciente e a incapacidade de realizar alguns movimentos estavam relacionadas a lesões nas estruturas do ombro, porém, é necessário saber quais foram essas estruturas lesionadas. Quais funções podem ter sido perdidas devido à lesão? E qual o porquê da dor? Convido você a conhecer essas estruturas e suas funções para que seja capaz de responder esses questionamentos. Vamos lá! Seção 1.3 Não pode faltar Na região do ombro encontra-se a articulação de maior mobilidade do corpo humano, a articulação do ombro ou glenoumeral, nesta região consta o envolvi- mento de 8 músculos, três ossos, três articulações verdadeiras e duas articulações funcionais. Nesta seção conheceremos as articulações e os principais músculos com suas ações sobre os ossos e articulações, assim como seus movimentos. Pesquise mais Reveja a anatomia funcional do ombro lendo o livro BEHNKE, R. S. Anatomia do movimento. 3. ed. Porto Alegre: ArtMed, 2015. p. 67-79. Seção 1.3 / Anatomia e cinesiologia do ombro - 29 Os ossos que compõem o ombro são o úmero (um osso longo do braço), a escápula (um osso laminar e triangular localizado na face posterior das primeiras costelas) e a clavícula (osso longo e em posição horizontal, articu- lando a escápula pelo acrômio até o osso esterno). Tabela 1.3 | Ossos e articulações Articulação (Juntura) Função Glenoumeral triaxial (realiza movimentos nos três eixos) Esternoclavicular estabilizadora e facilitador na mobilidade escapular Acromioclavicular estabilizadora da escápula EscapulotorácicaFuncional – liberdade escapular Subacromial Funcional – passagem de tendões e ligamentos Fonte: elaborada pelo autor. Fonte: elaborada pelo autor. Fonte: elaborada pelo autor. Tabela 1.4 | Ligamentos Glenoumerais Conjunto de ligamentos que reforçam a cápsula articular Acromioclaviculares Fixação entre escápula e clavícula na porção superior Coracoclaviculares Fixação entre escápula e clavícula na porção inferior Coracoumerais Fixação da escápula ao úmero sobre a cápsula articular Tabela 1.5 | Músculos Nome do músculo Principal ação Nervo (inervação) m. supraespinhal Estabilização e abdução Supraescapular m. infraespinhal Estabilização e extensão Supraescapular m. subescapular Rotação interna Subescapular m. redondo menor Rotação externa Axilar m. deltoide Flexão, abdução, extensão Axilar m. peitoral maior Adução horizontal Peitoral m. redondo maior Rotação externa Subescapular m. grande dorsal Adução e extensão Toracodorsal 30 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Figura 1.3 | Ossos, ligamentos e articulações do ombro Fonte: http://2.bp.blogspot.com/-WyD0HHV2QYc/UWNvPyIX_VI/AAAAAAAAARc/nqvztSLnIPc/s640/ombro. jpg. Acesso em: 26 abr. 2019. Observe a Figura 1.4 que ilustra os movimentos executados pelo ombro. Para que os movimentos atinjam os ângulos demonstrados na figura, os músculos são acionados em ação primária, secundária e até terciária ao movimento. Figura 1.4 | Movimentos do ombro Fonte: Lippert (2013, p. 116). A - Flexão – 0 a 180 graus. B - Extensão – retorno da flexão – 180 a 0 graus. C - Hiperextensão (extensão além da posição anatômica) - 0 a 45 graus (60 graus em outras literaturas). D - Abdução 0 a 180 graus. E - Adução – retorno da abdução – 180 a 0 graus. F - Circundução (combinação de movimentos). Seção 1.3 / Anatomia e cinesiologia do ombro - 31 G - Rotação lateral ou externa 0 a 60 graus (90 graus para outras literaturas). H - Rotação medial ou interna 0 a 80 graus (retorno da RE e ultrapas- sando a linha de início da RE). I - Abdução horizontal (abdução associado à flexão) 0 a 90 graus. J - Adução horizontal (adução associado à extensão) 0 a 130 graus (40 graus em direção medial, além da linha na figura). K - Scaption - movimento de “bater asas” com rápidas oscilações entre adução. Pesquise mais Para conhecer melhor a angulação dos movimentos articulares e como é feita a medida de amplitude de cada movimento, leia o livro MARQUES, A. P. Manual de goniometria. 3. ed. Barueri: Manole, 2014. p. 116. Entre os ossos da articulação se encontram os ligamentos que garantem a aderência articular e a sua estabilização. Entre a cabeça do úmero e a rasa cavidade glenoide, está a estrutura que é considerada o “amortecedor de impacto” e também ajustador de encaixe da articulação, o lábio glenoidal. Dentre os músculos que movem a articulação glenoumeral e secundaria- mente as outras articulações do ombro, está a bainha rotatória ou manguito rotador. O manguito rotador é formado por quatro músculos profundos e com importância significante na estabilidade da articulação, pois mantêm princi- palmente a articulação glenoumeral encaixada, e ainda promovem o início de alguns movimentos articulares. São eles: - Músculo supraespinhal – é inervado pelo nervo supraescapular (C5 e C6) e tem origem na fossa supraespinhal, passa pela face inferior do acrômio, passando sobre a bolsa subacromial e tem inserção no tubérculo maior. Ele pressiona a cabeça do úmero na cavidade glenoidal estabilizando essa fossa rasa da articulação e promove o início da abdução e auxilia na flexão do ombro. A estabilidade é fortalecida pelo ligamento glenoumeral. - Músculo infraespinhal – é inervado pelo nervo supraescapular (C5 e C6) e tem origem na fossa infraespinhal e inserção também no tubérculo maior. É um estabilizador e rotador externo que tem uma função secundária na extensão do ombro. A estabilidade é fortalecida aqui pela porção capsular do ligamento glenoumeral. 32 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro - Músculo subescapular – é inervado pelo nervo subescapular (C5 e C6) e tem origem na fossa escapular e se insere no tubérculo menor, tendo uma função importante na rotação interna e auxílio na adução do ombro. - Músculo redondo menor – é inervado pelo nervo axilar (C5) e tem origem na borda medial da escápula e se insere na face lateral superior do úmero. Promove a rotação externa (lateral) sendo limitado pelo ligamento coracoumeral. Figura 1.5 | Músculos da bainha rotatória Fonte: Evans (2007, p. 3). Exemplificando Todos os movimentos que usamos para higiene pessoal, atividade profis- sional, lazer e esportiva com os MMSS, usam o manguito rotador para estabilizar a articulação do ombro e promover a rotação interna e a externa. Lesões nessa região prejudicam a função e a estabilidade, e por isso, devemos testar os movimentos desses músculos e a estabilidade de cada ligamento. Os músculos superficiais do ombro são mais volumosos e têm trabalho mais vigoroso e de grande amplitude de movimento. São eles: - Músculo deltoide – inervado pelo nervo axilar (C5 e C6), dividido em três porções, anterior, média e posterior, todas com inserção na tuberosidade deltoidea do úmero. As fibras da porção anterior têm origem no terço distal da clavícula, e têm ação na flexão auxilia na abdução e rotação interna. As fibras da porção média têm origem no acrômio e têm função de abdução, e as fibras da porção posterior têm origem na porção lateral da espinha da escápula e têm função de extensão e auxilia na rotação externa e adução horizontal do ombro. Seção 1.3 / Anatomia e cinesiologia do ombro - 33 Figura 1.6 | Ação dos músculos superficiais do ombro Levantamento frontal com cabo Crucifixo inclinado com halteres fixos Puxada na barra com pegada aberta Fonte: Evans (2007, p. 12, 44 e 76). - Músculo redondo maior – inervado pelo subescapular (C5 e C6) com origem e inserção semelhante ao redondo menor, porém com posição mais anterior. Sua função é de extensão, adução e rotação interna (medial) do ombro. - Músculo peitoral maior – inervado pelo nervo peitoral (C5 a T1) e dividido em parte clavicular e parte esternal e tem inserção no tubérculo maior na face do sulco bicipital. A porção clavicular tem origem no terço médio da clavícula, e tem função de adução horizontal, no qual o movimento se inicia a partir de 90 graus de abdução do ombro e auxiliar da flexão de ombro nos primeiros 60 graus. A porção esternal tem origem no manúbrio e percorre todo o corpo de osso esterno. Tem função de adução horizontal, no qual o movimento se inicia a partir de 90 graus de abdução do ombro e auxiliar da extensão de ombro nos primeiros 60 graus. - Músculo grande dorsal ou latíssimo do dorso – inervado pelo toraco- dorsal (C6 a C8) tem origens entre os processos espinhosos da coluna verte- bral de T7 a L5 e inserção no sulco bicipital. Sua ação é de extensão, adução e rotação medial do ombro. Mas como ocorrem os movimentos? Durante a flexão de ombro, o músculo deltoide por meio de suas fibras anteriores, a parte clavicular do peitoral nos primeiros 60 graus e o músculo supraespinhal, entram em ação. Após os 120 graus, inicia o auxílio do músculo peitoral menor. Nesse movimento existem músculos auxiliares como as fibras superiores do músculo trapézio e serrátil anterior, que auxilia na rotação da escápula a partir de 30 graus de flexão e também estabilizam o final do movimento. Nessa condição, a bainha rotatória estabiliza para evitar escorregamento anterior da cabeça do úmero. 34 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Na extensão do ombro de retorno da flexão, o músculo latíssimo do dorso ou grande dorsal realiza o movimento auxiliado pela cabeça longa do tríceps braquial e parte esternal do peitoral maior, este tem ação quando parte de 90 graus de flexão e traz a posição correspondendo a 0 grau. Já na hiperex- tensãoo início do movimento é realizado com as fibras inferiores do trapézio e auxiliado pelos músculos redondos menor e maior. Se na hiperextensão o membro superior deslizar para a face posterior do corpo, seguindo a linha mediana do tronco, como na abdução do ombro, os músculos acionados serão o trapézio e romboides na escápula. Na abdução do ombro o músculo supraespinhal é o principal atuante até o movimento atingir a amplitude de 90 graus, e em seguida é gradativamente auxiliado pelas fibras médias do deltoide, até que este se torne o principal agonista até alcançar os 180 graus. A partir de 120 graus a escápula também é acionada, como ocorre na flexão. Na adução de retorno da abdução, o músculo peitoral maior, redondo maior e grande dorsal são agonistas. Em situações que se realiza uma rotação externa do ombro, o infraes- pinhal e o redondo menor são os principais atuantes, auxiliados pelas fibras posteriores do deltoide, atingindo 45 graus. A rotação interna do ombro é feita por ação dos músculos subescapular, peitoral maior, fibras anteriores do deltoide, auxiliados pelo grande dorsal (latíssimo do dorso) e redondo maior, alcançando 45 graus de amplitude. A adução horizontal do ombro é realizada principalmente pelo peitoral maior, auxiliado pelo tríceps braquial e pelo deltoide anterior, atingido 120 graus de amplitude e a abdução horizontal é realizada principalmente pelas fibras posteriores do deltoide, com auxílio do infraespinhal e redondo menor; já na abdução horizontal as fibras posteriores do músculo deltoide mais os infraespinhal e redondo menor realizam o retorno do movimento. Assimile Os movimentos funcionais do ombro sempre utilizam a bainha rotatória (manguito rotador), tanto de forma dinâmica como estática. A articulação do ombro é auxiliada em seus movimentos pela mobilidade do cíngulo dos membros superiores e pela articulação escapulotorácica/escapulo- costal, em que a escápula desliza sobre as costelas para ampliar os movimentos do ombro. Observe os movimentos na figura abaixo. Seção 1.3 / Anatomia e cinesiologia do ombro - 35 Figura 1.7 | Mobilidade da escápula Ao lado podemos observar os movimentos escapulares (do cingulo) que auxiliam no movimento do ombro: A. elevação - movimento de elevação vertical da escápula. Abaixamento - movimento de descida vertical da escápula. B. protrusão - movimento de afastamento horizontal das escápulas. Retração- movimento de aproximação vertical das escápulas. C. Rotação superior- movimento de giro do ângulo inferior da escapular para lateral. Rotação inferior- movimento de giro do ângulo inferior da escapular para medial. D. inclinação escapular- movimento de giro horário ou anti-horário das escápulas. Fonte:Lippert (2013, p. 105). Pesquise mais Estude mais cinesiologia e biomecânica lendo o livro: LIPPERT, Lynn S. Cinesiologia clínica e anatomia. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013, p. 115-128. Sem medo de errar Com as informações desta seção, agora você já é capaz de responder quais são as estruturas anatômicas e funcionais que estão envolvidas nos movimento, ativos, sinérgicos e passivos do ombro e também como ocorrem esses movimentos, reconhecendo as estruturas estabilizadoras articulares e cinéticas durante a ação. Recordando nossa situação-problema do caso clínico do início da unidade, em que foi questionado sobre as estruturas e as limitações do movimento, pergun- tamos, “Quais foram as estruturas lesionadas? Quais funções podem ter sido perdidas devido a lesão? E o porquê da dor?” Atenção É importante que você lembre que a parte muscular do ombro apresenta uma camada profunda estabilizadora chamada de manguito rotador e uma camada superficial de músculos mais vigorosos. As faltas de compensação entre forças desses grupos sobrecarregam a camada interna e geram lesões. 36 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Um indivíduo com 50 anos cuja profissão não exige esforços físicos e ainda é sedentário, tem sua estrutura osteomioarticular fragilizada, e quando colocado em situações de esforço extremo, como um jogo de vôlei, que exige força muscular e estabilidade do ombro, corre riscos de lesões. Os movimentos de elevação do membro e força explosiva nos saques e cortadas põem o ombro em posições acima de 120 graus, condição em que a bainha rotatória perde gradativamente a capacidade de estabilidade, com riscos de lesões principalmente no músculo supraespinhal, responsável pela abdução e estabilidade durante a flexão e o subescapular, responsável pela rotação interna e limitador da rotação externa, que pode evitar a luxação anterior. Ainda sobrecarrega a articulação glenoumeral, que é susceptível a luxações devido a sua cavidade glenoidal ser rasa, necessitando ser protegida pela estabilidade do manguito rotador, que se encontra incapacitado por falta de treino ou exercícios. A lesão do contador de meia idade é provável nessas estruturas: músculo supraespinhal e/ou subescapular e articulação e/ou ligamentos glenoumerais. A dor reflete nas estruturas internas do ombro. Avançando na prática Agora que conhece a anatomia do ombro, seus movimentos e suas funções, use o que aprendeu nesta seção para resolver uma nova situação- -problema relacionada a essa mesma região anatômica do corpo, envolvendo ações dos ombros. Lesão após a síndrome do impacto do ombro Descrição da situação-problema Um indivíduo de 50 anos com o diagnóstico médico de tendinite e síndrome do impacto, se queixa de dor e dificuldades em realizar os movimentos de flexão e abdução do ombro. Na inspeção o fisioterapeuta observou o distan- ciamento da cabeça do úmero e acrômio, e nos RX se observou também um desvio inferior da cabeça do úmero com a da fossa glenoidal. Testando o movimento de rotação interna e externa, notou frouxidão articular e o paciente relatou sentir muita dor. Quais músculos devem ser trabalhados numa sessão de fisioterapia para reestabelecer a força, a estabilidade e a amplitude completa de movimento da articulação do ombro? Seção 1.3 / Anatomia e cinesiologia do ombro - 37 Lembre-se A fragilidade da articulação do ombro é contida e mantida por grupos musculares estabilizadores do ombro que também realizam o início de alguns movimentos. Resolução da situação-problema Os músculos envolvidos nos movimentos de flexão e abdução do ombro e que ainda estabilizam essa articulação são o supraespinhal e infraespinhal, além dos rotadores subescapular e redondo menor. Após a idade de 50 anos existe uma tendência entre os homens de adotar uma postura em que deixa os membros superiores caídos paralelamente ao corpo durante a deambu- lação, o que provoca a desestabilização do ombro seguido de síndrome do impacto e tendinite. Portanto, os músculos a serem trabalhados são os que compõem o manguito rotador para recuperar a estabilidade e assim recuperar os movimentos. Faça valer a pena 1. Durante um jogo de voleibol, um jogador executa várias vezes o movimento de “cortada”, em que o membro superior é totalmente elevado e lançado para frente em direção à bola. Assinale a alternativa que define qual é o movimento descrito durante essa técnica da volta do movimento de cortada. a) Flexão. b) Extensão. c) Rotação. d) Abdução. e) Adução. 2. “Drive” é o nome de uma tacada de longo alcance do golfe, geralmente a inicial ou primeira tacada. O jogador executa uma vez o movimento de “drive”, quando o membro superior é totalmente elevado e lançado em circundução para frente em direção à bola. A garantia desse movimento é proporcionada pelos músculos estabilizadores do ombro, dessa forma, quais são os principais músculos que estabilizam o ombro? a) O músculo peitoral maior e o peitoral menor. 38 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro b) O músculo redondo maior e o redondo menor. c) O músculo trapézio e o deltoide. d) O músculo deltoide e os peitorais. e) Os músculos do manguito rotador. 3.No voleibol, o “bloqueio” é um movimento de defesa que ocorre após a elevação em flexão máxima do braço, e em seguida, em contração isométrica, impedindo a passagem da bola. A isometria muscular no movimento de bloqueio é dada pelos músculos: a) Deltoide fibras posteriores e grande dorsal. b) Deltoide fibras posteriores e peitoral maior. c) Deltoide fibras anteriores e peitoral maior. d) Deltoide fibras anteriores e grande dorsal. e) Manguito rotador. Seção 1.4 / Imaginologia do ombro - 39 Imaginologia do ombro Diálogo aberto Olá, aluno, vamos estudar, nesta seção, noções de imaginologia do ombro. Atualmente existem diversos tipos de exames de imagens que facilitam a investigação diagnóstica de patologias e também auxiliam o estudo da anatomia, da cinesiologia e da biomecânica do ombro. Eles proporcionam a identificação das estruturas anatômicas, assim como o estudo dos processos patológicos que envolvem a morfologia local. Esse estudo da imaginologia envolve o conhecimento anatômico por meio de exames radiográficos, tomográficos, ressonâncias magnéticas e ultrassonografias, que servirão de complemento no diagnóstico cinético funcional do ombro. Relembrando nosso caso clínico que foi descrito no Convite ao estudo, no início desta unidade, sobre o indivíduo de 50 anos, que se queixava de dor no ombro, no momento em que foi referido: “No hospital foi solicitado RX de ombro e de tórax e exames laboratoriais” e “na fisioterapia foi observado um desvio na coluna cérvico-torácica e sinais de processo inflamatório agudo no ombro esquerdo, causados pela presença de atrito articular...” Já é possível observar a importância dos exames no auxílio de uma avaliação fisioterapêu- tica do ombro e de um diagnóstico. Mas o que foi visto nesses exames de RX? E quais são as técnicas para estudo anatômico que denunciam alterações na estrutura anatômica e que causam prejuízos funcionais no ombro? Seção 1.4 Não pode faltar No estudo da anatomia das estruturas que estão envolvidas no movimento do ombro, a imaginologia é uma ferramenta importante que auxilia na obser- vação dessas estruturas, além de permitir também a identificação dos espaça- mentos articulares e do posicionamento dos ossos nos movimentos articulares. A imagem adquirida pela técnica dos RX é indicada e mais bem obser- vada nas condições em que: • O tecido tenha uma densidade mais alta que outras: por exemplo, os ossos têm maior densidade que o músculo, portanto, os ossos são mais radiopacos (translúcidos) na película de RX. O músculo tem maior densidade que o tecido gorduroso. • O tecido tenha maior quantidade de elementos atômicos, e por isso, são mais radiopacos que os tecidos que possuem menor quantidade 40 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro de elementos atômicos: por exemplo, o bário tem número atômico alto e por isso é muito usado em imagens de contrastes. Radiografias de trânsito intestinal são feitas com ingestão de bário para facilitar a visualização de imagens abdominais. • O tecido tenha maior espessura: por exemplo, um volume tumoral em um órgão é mais radiopaco no local do tumor do que no tecido sem o tumor. O exame de radiografia do ombro possibilita identificar a articulação em vários ângulos diferentes que exploram a estabilidade do manguito rotador e visualiza possíveis desgastes ou fraturas nos acidentes ósseos. Nas imagens de um RX nas incidências em AP e AP corrigido (Figura 1.8a – em posição de rotação neutra do ombro e, b – rotação externa ou corrigido do ombro) é possível identificar o úmero, a escápula e a clavícula. Para estudar uma imagem de RX de ombro, idêntico à Figura 1.9, você deve seguir este roteiro: observe o contorno de todos os ossos; como não aparenta descontinuidade em toda a silhueta deles é possível afirmar que não apresenta fratura visível; na articulação glenoumeral não existem desalinha- mentos laterais, superiores ou inferiores, que possam indicar instabilidade ou luxações, também se nota que, nas articulações glenoumeral e acromio- clavicular, os espaços reservados para as cartilagens e para os “amortece- dores” como os discos e lábios articulares, estão preservados, não indicando desgastes que evidenciem processos de artroses; a articulação subacromial não está distante da glenoumeral, indicando estabilidade e sem sinal de síndrome do impacto; a articulação acromioclavicular também mantém conservado o espaço articular, sem presença de osteófitos e não apresenta volumes ósseos exagerados que indique artrose ou inflamação crônica. Essa radiografia avaliada não demonstra posições de estresse, como a rotação interna, rotação externa, abdução ou adução forçadas, para que possamos afirmar que se trata realmente de um ombro saudável. Outras imagens radiográficas que expõem os movimentos ao máximo ou exploram outras angulações, ajudarão a confirmar a condição saudável do ombro. Observe as estruturas na imagem: o tubérculo maior está lateralizado e o menor está no centro do úmero, com a borda do sulco bicipital visível. Não existem presenças de calcificações que indiquem bursite crônica calcificada. Também não se verifica a existência de erosão óssea no tubérculo maior, sugerindo inflamações crônicas como bursite subacromial. Seção 1.4 / Imaginologia do ombro - 41 Figura 1.8 a. b. | RX AP e AP corrigido em rotação neutra de ombro a b Fonte: iStock. Assimile Todos os músculos da bainha rotatória e suas funções de movimentos, em condições antagônicas como estabilizadores, devem ser lembrados em todas as avaliações do ombro. Já na radiografia axilar (Figura 1.9) o ombro é colocado em abdução de 90 graus, forçando a estabilidade da bainha, podendo se ver a superfície articular e constatar se está lisa e volumosa o suficiente para os deslizes durante os movimentos do ombro para absorver e amortecer impactos. Figura 1.9 | RX axilar ombro em abdução Figura 1.10 | RX em “Y” Fonte: iStock. 42 - U1 / Avaliação fisioterapêutica: anatomia e cinesiologia do ombro Uma imagem em “Y” (Figura 1.10) auxilia na identificação das fossas em que estão localizados os músculos da bainha rotatória (supraespinhal na parte superior, infraespinhal na parte inferior direita da imagem e subescapular, a esquerda entre as costelas), podendo verificar a possibilidade de síndrome de impacto ou também de um processo de artrose da cabeça do úmero. Na síndrome do impacto, o tipo de acrômio pode favorecer o surgimento das lesões, e necessita ser verificado nos RX. É possível serem realizadas radiografias de ombro com imagens de rotação interna ou externa e estarem associadas ou não a abdução e adução, e ainda imagens de RX em abdução ou rotação. No exame também é possível angular os RX para favorecer a visualização de uma imagem que se esteja pesquisando. Os exames de tomografia computadorizada (TC) (Figura 1.11), são exames que usam os raios x que captam as imagens tridimen- sionais do ombro em alta definição, e armazenam em um banco de dados de um computador. Essas imagens são reconstruídas por um software que forma imagens com possibilidades de realizar cortes transversais para estudos minuciosos de estruturas que não são possíveis de se observar no RX convencional. Infelizmente, para o ombro sua importância é mais direcionada para as fraturas e calcificações, nos demais casos o exame mais eficiente indicado é a ressonância nuclear magnética ou imagem de ressonância nuclear (RNM ou RNI). Nestas imagens de cortes semelhantes a tomografia (Figura 1.12), mas com capacidade de exibir melhor os tecidos moles, podemos estudar melhor os lábios (labro) da glena, ligamentos, tendões e músculos profundos. A imagem a seguir demonstra uma RNM com pequenas calcificações entre o tubérculo maior e a cabeça do úmero (acima do colo anatômico). É uma imagem que inicia com cortes do tipo sagital e com sentido lateral para medial. Figura 1.11 | TC de ombro – corte transversal Fonte: iStock.