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Aula 8: Miíases (Marcelo Labruna) – 15/09/2015 → Infestação de vertebrados vivos por larvas de dípteros que, pelo menos, em parte de seu ciclo, se alimentam de tecidos vivos (miíase biontófaga) ou mortos (miíase necrobiontófaga) de animais. O animal deve estar vivo, embora o tecido pelo qual o animal se alimenta esteja morto. Miíases biontófagas obrigatórias (a mosca completa seu ciclo de vida apenas quando a larva se alimenta de tecido vivo no hospedeiro vertebrado): Dermatobia hominis (berne, miíase nodular), Cochliomyia hominivorax (bicheira), Gasterophilus spp. (miíase cavitária de equinos – lesões no estômago de cavalos) e Oestrus ovis. · Dermatobia hominis → Provoca a miíase nodular ou berne. Acomete qualquer mamífero, inclusive mamíferos silvestres, mas o hospedeiro principal é o bovino (cães e humanos são hospedeiros secundários) – atualmente, é um dos principais ectoparasitas de bovinos. O único país da América Latina sem berne é o Chile. O bovino contribui para a reprodução da mosca e disponibilidade no ambiente – infestação em cães, humanos e outros animais. No caso dos bovinos, o parasita apresenta grande importância veterinária, por ser o parasita mais patogênico para os bovinos no Brasil – redução de 10 a 20% no peso do animal e redução de 15% na produção de leite ou redução no ganho de peso (o animal para de comer, em função das dores). De todos os parasitas, seu ciclo é o mais curioso e interessante. Ciclo biológico: o bovino com verme, uma vez iniciado o parasitismo por uma larva, permanece por 40 dias no animal – o período parasitário é longo. Então, o berne cai ao solo (normalmente de madrugada, por conta da temperatura fresca e terra úmida) e se enterra rapidamente (imediatamente à queda, ele se enterra), para a entrada no estágio de pupa. A pupa é simplesmente a fase onde ocorre a metamorfose completa de qualquer inseto (transformação da fase de larva para a fase de mosca adulta) – nesta fase, o berne não se alimenta; no verão, dura cerca de 30 dias e, no inverno, dura cerca de 60-90 dias – por ser uma fase que ocorre no ambiente, é dependente das temperaturas e das chuvas (em regiões sem umidade ou com terra compactada, a larva não consegue penetrar o solo e acaba morrendo). A mosca adulta emerge e apresenta sobrevida de 3 a 5 dias; o aparelho bucal das moscas é altamente atrofiado, apresentando apenas a energia da reserva hídrica e energia proveniente da alimentação da larva. Por este motivo, o período de sobrevida é dedicado à procriação. Como garantir a procriação em tão curto período de tempo? As moscas deslocam-se para locais sombreados e de temperatura mais amena – áreas de mata ou floresta, para evitar desidratação e morte precoce (o raciocínio é que só existe berne em áreas de mata). A fêmea fértil, por sua vez, deve depositar seus ovos: a mosca deposita seus ovos no abdômen de outras moscas domésticas, capazes de pousarem sobre os bovinos em regiões quentes e sem sombreamento (a mosca do berne normalmente é bem maior que a mosca doméstica e apresenta abdômen azulado). A mosca do berne captura as moscas no ar e deposita seus ovos – cerca de 40 a 80 ovos por mosca (varia de acordo com o tamanho da mosca doméstica). A larva demora cerca de 3 a 5 dias para eclodir. Na mosca doméstica, quando pousa na pele do animal, o calor da temperatura da pele do animal doméstico é um estímulo imediato para a liberação das larvas e perfuração da pele do bovino. Assim, quais as condições básicas para a presença de berne? Mata próxima às pastagens. Em São Paulo por exemplo, o berne é mais comum nas regiões serranas. Em relação à mosca doméstica, alguns autores a consideram como forético (desempenha papel de carreadora dos ovos), embora o termo mais aceito, atualmente, é que a mosca doméstica seja o vetor biológico para a transmissão da doença, pois não há desenvolvimento do agente neste vetor. → Como é a dinâmica da infestação por berne? Em modos gerais, existem duas estações por ano – primavera e verão quentes e chuvosos e inverno e outono frios e secos. No outono e inverno (período seco), ocorre maior mortalidade de larvas no solo, pois o solo está seco; menor atividade da mosca D. hominis; menor população de vetores (foréticos) e período pupal mais longo (50 a 90 dias). Na primavera e verão (chuvas), a larva apresenta maior sobrevivência no solo, pois consegue penetrar no mesmo; maior atividade da mosca D. hominis; maior população de vetores (foréticos) e período pupal mais curto (35 dias). Assim, nesta época, existem muito mais moscas e outros insetos. Os bernes apresentam aumento a partir da primavera e com crescimento no verão, diminuindo no meio do ano. Não se deve permitir a procriação dos bernes, sendo que a melhor estratégia é priorizar a prevenção. O tratamento deve ser realizado na época correta, ou seja, antes do crescimento do berne, antes que a época das chuvas se instale (logo, a partir de outubro). Produtos bernicidas disponíveis Período residual (dias) Fosforados 1-2 Lactonas macrocíclicas (exceto Cydectin®) 30 Ivermectinaa própria larva secreta quantidades riquíssimas de antibióticos, continuamente, que impedem o aparecimento de infecções secundárias. Por que a bicheira sangra o tempo todo? Porque as larvas secretam saliva anticoagulante, para ingerirem maior quantidade de sangue. Período pupal no solo: de 21 a 50 dias, dependendo da temperatura e umidade do solo (maior probabilidade de infestação nos animais em épocas mais quentes do ano). Duração do ciclo: de 30 a 60 dias – o ciclo mais rápido ocorre nas épocas de verão e primavera. Regra básica da bicheira: se não curar a bicheira, o animal morre – o tratamento é contínuo até a cicatrização da ferida. As varejeiras estão presentes em todos os ambientes, já que apresentam aparelho bucal desenvolvimento e são capazes de se alimentar, a partir da lambedura. → No caso dos equinos, quando o carrapato Dermacentor nitens infesta a orelha dos animais, a bicheira é capaz de se desenvolver (miíase auricular por C. hominivorax, secundária à infestação por D. nitens). A orelha do animal nunca mais volta ao normal, permanecendo baixa (acometimento de cartilagem). → Formas de prevenção da bicheira: minimizar as atividades que causem feridas nos animais (ferrão, chicote) – o ideal é realizar em períodos mais frios e secos. Em gado de corte, atualmente, a maior preocupação de bicheira é quando o animal nasce, no umbigo dos animais. Em ruminantes não domesticados, a mãe sempre lambe o umbigo dos animais, o que previne a ocorrência de bicheira. Atualmente, a doramectina é a única droga no mercado com indicação para bicheira (alguns trabalhos mostram 100% de eficácia); as outras drogas, na bula, indicam apenas no auxílio do tratamento da bicheira, mas sua eficácia é menor que 95% (conforme esclarecido pela legislação). A doramectina apresenta duração de 15 dias, quando da injeção subcutânea. Outra medida preventiva é o controle de carrapatos; tratamento de feridas dos animais o mais rápido possível (principalmente nas épocas mais quentes do ano). → Tratamento da bicheira em bovinos. Uso tópico: fosforados e carbamatos. As vantagens incluem os custos e efeito imediato, associado a produtos cicatrizantes e antimicrobianos, facilitando uma rápida cicatrização da ferida. Em feridas profundas subcutâneas, utilizar uma gota de creolina para que as larvas migrem para as bordas da ferida – neste momento, aplicar o spray (mata-bicheira). Os sprays são bons no início da bicheira e durante o decorrer do tratamento – tomar cuidado em bicheiras avançadas, onde as larvas encontram-se no fundo da ferida, onde o spray não alcança. Uso sistêmico: doramectina – a vantagem é a praticidade; produto recomendado para bovinos e suínos. → Tratamento da bicheira em cães e gatos: limpeza da ferida; retirada das larvas. Uso tópico: fosforados e carbamatos – vantagens como custo e efeito imediato, associado a produtos cicatrizantes e antimicrobianos, facilitando uma rápida cicatrização da ferida. Uso sistêmico: doramectina e nitempiram (Capstar®) – a vantagem é a praticidade. Considerar tratamento suporte e antibioticoterapia. → A fêmea só copula uma vez, mas é capaz de realizar cerca de 10 posturas. Assim, a erradicação da bicheira pode ser obtida com a introdução de machos estéreis, como ocorreu nas Américas do Norte e Central. · Gasterophilus spp. → Habitat das larvas: estômago de equinos. O cavalo vive bem com as larvas, sendo normalmente encontradas durante a necropsia (achados de necropsia). É um parasita natural de cavalos e não é um parasita causador de cólicas, ao contrário de alguns helmintos, por exemplo. A fase parasitária da larva é de 10 a 11 meses no estômago. Assim, no haras, o parasita está erradicado, pois nestes locais os animais recebem ivermectina a cada 2 meses, normalmente. As larvas são encontradas mais em animais de criação não tecnificada. Após 10-11 meses, a larva se desprende da mucosa gástrica, é eliminada via fezes e também se enterra no solo para a fase pulpar. O aparelho bucal da mosca também é atrofiado; sobrevida de 7 dias. Deposição dos ovos na pele do animal; seu abdômen é adaptado para contorcer, com movimentos rápidos que permitem o desprendimento dos ovos. A presença dos ovos promove prurido na pele do animal, ocasionando a lambedura do animal. A lambedura não é suficiente para remover os ovos da pele, mas promove umidade suficiente para a eclosão dos ovos. É um parasita cada vez mais raro. · Oestrus ovis → Habitat das larvas: seios nasais e paranasais de ovinos (principalmente) e caprinos. É uma mosca vivípara, ou seja, no nariz dos animais deposita diretamente a larva. Também apresenta aparelho bucal atrofiado. A larva migra pela mucosa nasal e alcança os seios nasais e paranasais – a fase parasitária dura cerca de 2 a 3 meses. O animal, incomodado com a presença das larvas, espirra; após o espirro, a larva penetra na terra e pode permanecer latente até a ocorrência da primavera, até o desenvolvimento da mosca adulta. Os ovinos apresentam determinado comportamento: os ovinos lanados aproximam suas narinas na lã de outro animal – estudos sugerem que este seja um comportamento adaptado ao controle da ocorrência da doença. Atualmente, por conta da resistência ao Haemonchus (parasita gastrintestinal), os proprietários estão utilizando menos ivermectina, o que tem aumentado a incidência de O. ovis – relacionada ao desuso crescente de ivermectina em criações de ovinos.