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🦠 T18:Streptococcus e enterococcus Introdução O gênero Streptococcus é formado por um grupo diverso de cocos Gram- positivos tipicamente dispostos aos pares ou em cadeias .A maioria das espécies é anaeróbia facultativa, e algumas crescem somente em uma atmosfera enriquecida com dióxido de carbono (crescimento capnofílico). Apresentam exigências nutricionais complexas, necessitando do uso de meios enriquecidos com sangue ou soro para o isolamento. Fermentam os carboidratos, o que resulta na produção de ácido lático e, ao contrário das espécies de Staphylococcus, os estreptococos são catalase-negativos. Muitas espécies de estreptococos são reconhecidas como importantes patógenos humanos, sendo utilizados três diferentes esquemas que se complementam: 1 propriedades sorológicas: separação nos grupos de Lancefield (originalmente de A a W; 2 padrões hemolíticos: hemólise completa (beta [β]), hemólise incompleta (alfa [α]), e sem hemólise (gama [γ]); 3 propriedades bioquímicas (fisiológicas). T18Streptococcus e enterococcus 1 Apesar de representar uma simplificação excessiva, é prático dividir os estreptococos em dois grupos: os estreptococos β-hemolíticos, que são classificados nos grupos de Lancefield os estreptococos α-hemolíticos e γ-hemolíticos, que são classificados por testes bioquímicos. O segundo grupo é conhecido coletivamente como estreptococos viridans, um nome derivado de viridis (do latim para “verdeˮ), em referência à pigmentação verde formada pela hemólise parcial do ágar-sangue Rebecca Lancefield desenvolveu o esquema de classificação sorológica em 1933. As cepas β-hemolíticas possuem antígenos específicos na parede celular, que na maioria são carboidratos. Esses antígenos podem ser identificados prontamente por ensaios imunológicos e têm sido úteis para a identificação rápida de alguns importantes estreptococos patogênicos. Por exemplo, uma doença causada pelo Streptococcus pyogenes (classificado como Streptococcus do grupo A no esquema de tipagem de Lancefield) é a faringite estreptocócica. O antígeno de grupo para esse microrganismo pode ser detectado diretamente a partir de espécimes de orofaringe, coletados com swab, por uma variedade de imunoensaios comerciais rápidos, sendo um teste diagnóstico comumente utilizado nos laboratórios hospitalares e consultórios médicos. Atualmente, o esquema de tipagem de Lancefield é utilizado somente para umas poucas espécies de estreptococos. Os estreptococos viridans são subdivididos em cinco grupos clinicamente distintos. Algumas espécies de estreptococos viridans podem ser β-hemolíticas, assim como α-hemolíticas e não hemolíticas, o que, infelizmente, resultou na classificação desses microrganismos por ambos os esquemas, tanto pela grupagem de Lancefield, quanto como estreptococos viridans. Classificação: Crescimento em ágar-sangue O ágar sangue é um meio usado para cultivar bactérias e observar como elas interagem com os glóbulos vermelhos T18Streptococcus e enterococcus 2 Hemólise alfa: aparece um halo verde ao redor da colônia. Ocorre hemólise parcial onde a bactéria altera a hemoglobina dos glóbulos vermelhos transformando-a em um pigmento semelhante a biliverdina Hemólise beta: forma uma zona clara ao redor da colônia, onde há a destruição total dos glóbulos vermelhos Hemólise gama: não há alteração visível no ágar Grupos de Lancefield (classificação sorológica) Essa classificação foi criada por Rebecca Lancefield e é baseada em antígenos presentes na parede celular das bactérias (chamado de carboidrato C. Há 20 grupos identificados A até V. Grupos mais importantes para humanos: Grupo A S. pyogenes → o mais comum nas doenças humanas. Grupo B S. agalactiae (infecção neonatal). Grupos C, F, G menos comuns. Grupo D enterococos (ex: E. faecalis), antigamente estreptococos, hoje estão no gênero Enterococcus. Nem todos os estreptococos podem ser classificados por esse sistema, porque nem todos têm o antígeno carboidrato C. Exemplo: os estreptococos viridans (como S. sanguis, S. salivarius, S. mitis, S. mutans) não têm esse antígeno, então não entram na classificação de Lancefield. Estrutura antigênica dos estreptococos A parede celular dos estreptococos tem um esqueleto de peptidoglicano, como em outras bactérias Gram-positivas. Nela estão: a) Carboidrato C Determina o grupo de Lancefield (como A, B, D etc). É ligado covalentemente ao peptidoglicano. b) Proteínas de superfície importantes: T18Streptococcus e enterococcus 3 Proteína M Principal fator de virulência do grupo A S. pyogenes). Impede a fagocitose pelas células de defesa (neutrófilos/macrófagos), a menos que haja anticorpos específicos. Associada com doenças graves, como febre reumática e glomerulonefrite. Proteína T Não está ligada à virulência. Serve apenas para tipificação laboratorial. Anticorpos contra ela não protegem contra a infecção. Proteína R Também usada para tipificação, sem função conhecida na virulência. 4. Fator de opacidade OF Outro antígeno de superfície, associado à proteína M. É uma alfa-lipoproteinase, ou seja, uma enzima que atua sobre gorduras. Age tornando opacos os meios de cultura com soro. Pode ter papel como fator de virulência, embora não seja tão estudado quanto a proteína M. Fatores de virulência Fímbria: composta pela proteína M e por ácido lipoteicoico. Participa na fixação da bactéria à mucosa devido a interações entre as moléculas do ácido lipoteico e de uma proteína semelhante a albumina Capsula: algumas cepas de Streptococcus pyogenes (grupo A possuem uma cápsula feita de ácido hialurônico. Esse ácido é igual ao encontrado no nosso próprio tecido conjuntivo, então: O sistema imune tem dificuldade em reconhecê-lo como estranho. T18Streptococcus e enterococcus 4 Isso ajuda a bactéria a escapar da defesa do corpo. Confere resistência à fagocitose, ou seja, impede que as células de defesa (como os macrófagos e neutrófilos) “comamˮ a bactéria. Ajuda a bactéria a se prender nas células epiteliais (as que revestem garganta, pele, etc.) → isso favorece a adesão e início da infecção. Proteina M É uma proteína longa e em forma de fio (fibrilar), que: Está presa à membrana da bactéria. Atravessa a parede celular de peptidoglicano. Se projeta para fora da célula, ficando exposta na superfície da bactéria. Impede a fagocitose (como a cápsula), principalmente bloqueando a ação dos neutrófilos (um tipo de glóbulo branco que combate infecções). A bactéria só se torna vulnerável à fagocitose quando há anticorpos específicos contra a proteína M no organismo. Peptioglicano é a estrutura principal da parede celular das bacterias gram positivas. Alem de dar resistemcia e forma, ele pode ser toxico para celulas humanas contribuindo para a inflamação Enzimas extraelulares Estreptoquinase: enzima ativadora do plasminogênio, geradora de plasmina, capaz de dissolver a fibrina humana Desoxirribonuclease: capaz de despolarizar DNA, porém como não penetram em celulas vivas, não são citotóxixas. Hialuronidase: despolariza ácido hialuronico, responsavel pelo fator de difusão dos estreptococos proteínases: ação sõbre proteinas Exotoxinas pirogenicas são toxinas liberadas por algumas cepas de S. pyogenes. T18Streptococcus e enterococcus 5 Causam febre e estão ligadas a doenças graves como a escarlatina e a síndrome do choque tóxico. Detalhes: SPEA e SPEC Codificadas por genes trazidos por bacteriófagos lisogênicos (vírus que infectam bactérias). SPEB Codificada diretamente pelo cromossomo bacteriano (está em todas as cepas do grupo A. Atuam como superantígenos: ativam exageradamente as células T liberam muitas citocinas → geram inflamação sistêmica grave. Também inibem a defesa imune ao destruir C5a, um sinal que atrai glóbulos brancos para o local da infecção. Hemolisinas Estreptolisona O é sensivel ao oxigenio, imunogenica, toxica para celulas EstreptolisinaS estavel ao oxigenio, não imunogenica, causa o halo de hemolse em ágar sangue Patogenicidade As infecções primárias se localizam mais frequentemente na faringe, amígdalas e pele. Disseminando-se desses focos primários, a bactéria pode determinar bacteriemia e infectar diferentes órgãos e tecidos do organismo. S. pyogenes é responsável por mais de 90% das faringites bacterianas. Estreptococos beta hemoliticos do grupo A Escarlatina A escarlatina é uma infecção aguda que ocorre preferencialmente em crianças. É caracterizada por febre alta, dor de garganta intensa e um exantema típico — uma vermelhidão generalizada na pele (rusch), que evolui para descamação nos dias seguintes. A doença é causada por cepas de S. pyogenes que produzem a toxina eritrogênica, uma substância liberada apenas quando a bactéria está infectada por um fago lisogênico específico (um vírus que se integra ao DNA bacteriano, permitindo a produção da toxina). Erisipela T18Streptococcus e enterococcus 6 A erisipela é uma infecção aguda da pele que costuma começar de forma súbita, com febre alta e calafrios. Em seguida, surge uma área de vermelhidão intensa (eritema) na pele, que se alastra progressivamente. Essa inflamação é visível, dolorosa e delimitada, afetando principalmente as pernas e o rosto. Síndrome do Choque Tóxico Estreptocócico STSS Essa é uma complicação rara, mas muito grave. Ela se caracteriza por um quadro de choque, febre alta, presença de bactérias no sangue (bacteriemia), insuficiência respiratória e falência de múltiplos órgãos. A taxa de mortalidade chega a cerca de 30%. A pele pode apresentar eritema seguido de descamação. Essa síndrome está associada à produção de exotoxinas pirogênicas (como SPE A e SPEC, que funcionam como superantígenos, desencadeando uma resposta inflamatória intensa e descontrolada. Além disso, a infecção pode se espalhar pelos tecidos profundos, levando à destruição da fáscia, gordura subcutânea e músculos (miosite), caracterizando uma infecção grave dos tecidos moles. Doenças Pós-Estreptocócicas Algumas complicações não ocorrem durante a infecção ativa, mas 2 a 3 semanas depois, geralmente após uma faringite estreptocócica, mesmo que essa tenha sido leve ou assintomática. Febre Reumática É uma doença inflamatória autoimune, em que os anticorpos produzidos contra o estreptococo reagem por engano com tecidos do corpo, especialmente o coração e as articulações. Isso acontece devido à reação cruzada entre antígenos da bactéria e proteínas humanas. Os principais sinais são poliartrite migratória (dor que muda de articulação), inflamação do miocárdio (onde se formam os chamados nódulos de Aschoff) e lesões nas válvulas cardíacas, que podem gerar sequelas permanentes. Glomerulonefrite Também de causa imunológica, essa complicação afeta os rins, onde ocorrem depósitos de complexos imunes (anticorpos, antígenos e proteínas do complemento, como a C3 nos glomérulos renais. Isso gera inflamação e prejuízo da função renal, manifestando-se por sangue na urina (hematúria), presença de proteínas na urina (proteinúria), inchaço (edema) e pressão alta (hipertensão arterial). T18Streptococcus e enterococcus 7 Estreptococos beta-hemoliticos go grupo B Infecção Puerperal Febre Puerperal) A febre puerperal é uma infecção que ocorre após o parto, sendo muito comum no passado, quando as condições de higiene e assepsia eram precárias. A infecção normalmente começa com uma endometrite (infecção do revestimento do útero), podendo evoluir para peritonite (infecção da membrana abdominal) e até septicemia (infecção generalizada no sangue). A bactéria causadora mais comum é o Streptococcus agalactiae, também conhecido como estreptococo do grupo B. Ele faz parte da microbiota normal da vagina e do trato gastrointestinal de muitas mulheres. A infecção pode ser causada por: A própria paciente (autoinfecção a partir da nasofaringe em cerca de 40% dos casos). Pessoas que entram em contato com a paciente durante o parto (como profissionais da saúde ou acompanhantes). Prevenção Uso rigoroso de técnicas de assepsia durante o parto e no período pós-parto. Administração de antibióticos adequados em casos de risco conhecido ou infecção ativa. Estreptococos Viridantes Grupo Viridans) Esses estreptococos têm baixa virulência e fazem parte da flora normal da boca, trato gastrointestinal e vias respiratórias. Apesar disso, podem causar doenças importantes quando alcançam locais internos do corpo por meio da corrente sanguínea. Endocardite Bacteriana Subaguda Também chamada de endocardite lenta, é uma infecção que se instala devagar nas válvulas do coração, especialmente se essas válvulas já estiverem danificadas previamente (por febre reumática, próteses, etc.). T18Streptococcus e enterococcus 8 A bactéria chega ao coração por bacteriemia, ou seja, uma entrada transitória na corrente sanguínea (por exemplo, após procedimentos dentários). As espécies do grupo viridans mais associadas à endocardite são: Streptococcus mitis S. sanguis S. oralis S. gordonii S. mutans S. salivarius S. vestibularis Cárie Dentária Os estreptococos do grupo mutans, principalmente S. mutans e S. sobrinus, estão diretamente relacionados com o desenvolvimento de cáries dentárias. Eles colonizam os dentes e fermentam os açúcares dos alimentos, produzindo ácido lático, que desmineraliza o esmalte dental. Esse processo leva à formação de placa bacteriana e, com o tempo, à cárie. Streptococcus pneumoniae (pneumococo) Características gerais Streptococcus pneumoniae é um importante agente causador de diversas doenças em humanos, como pneumonia, meningite, otite média e sinusite. Apesar de patogênico, ele também faz parte da microbiota normal do trato respiratório superior, estando presente em cerca de 4 a 10% da população saudável — podendo atingir até 60% em ambientes fechados, como creches e abrigos. A transmissão ocorre principalmente por meio de gotículas respiratórias eliminadas pela tosse, espirros ou fala de pessoas colonizadas. Fatores de virulência A virulência de S. pneumoniae está fortemente relacionada com sua capacidade de escapar da resposta imune do hospedeiro, especialmente da fagocitose. T18Streptococcus e enterococcus 9 O principal fator é a cápsula polissacarídica, que: Inibe a opsonização (marcação para destruição), Dificulta a fagocitose pelos glóbulos brancos, Torna o micro-organismo muito mais agressivo. Existem pelo menos 90 tipos diferentes de cápsula, mas 23 sorotipos são responsáveis por cerca de 90% dos casos graves (como meningite e septicemia). Outros fatores que aumentam a virulência incluem: Pneumolisina: toxina que danifica células do hospedeiro. Autolisina: enzima que rompe a própria célula, liberando toxinas e aumentando a inflamação. Neuraminidases NanA e NanB facilitam a adesão da bactéria às células humanas. Hialuronidase: degrada a matriz do tecido, ajudando na disseminação. IgA protease: quebra anticorpos do tipo IgA, que são importantes na defesa das mucosas. Morfologia e cultivo São diplococos (dois cocos juntos), com forma característica de lanceolada (ponta de lança). Alfa-hemolíticos: causam hemólise parcial, com halo esverdeado no ágar- sangue. Capsulados, catalase-negativos, anaeróbios facultativos, não móveis e sem esporos. O meio ideal para cultivo é o ágar-sangue, com incubação em atmosfera rica em CO₂ 510%. Diferencia-se de outros estreptococos alfa-hemolíticos pela sensibilidade à optoquina (antibiótico usado em laboratório como teste diagnóstico). Patogenicidade e doenças T18Streptococcus e enterococcus 10 S. pneumoniae é a principal causa de pneumonia bacteriana no mundo, especialmente em: Lactentes menores de 3 anos Idosos com mais de 65 anos Pessoas com imunidade comprometida As infecções comuns incluem: Pneumonia lobar Otite média Sinusite Conjuntivite Meningite bacteriana Septicemia, especialmente em pacientes debilitadosA infecção gera forte resposta inflamatória devido à multiplicação bacteriana nos tecidos e à liberação de toxinas. Tratamento e resistência Os antibióticos mais usados são penicilina e eritromicina. Contudo, tem aumentado o número de cepas resistentes à penicilina, o que é um problema crescente na prática clínica. Por isso, muitas vezes são utilizados antibióticos alternativos ou tratamentos baseados em testes de sensibilidade bacteriana. Enterococcus O gênero Enterococcus inclui bactérias anteriormente classificadas como estreptococos do grupo D de Lancefield. As espécies mais importantes são Enterococcus faecalis (responsável por 8590% das infecções enterocócicas) e Enterococcus faecium 510%. São micro-organismos Gram-positivos, que geralmente aparecem aos pares ou em curtas cadeias, não formam esporos e são anaeróbios facultativos, ou seja, crescem tanto na presença quanto na ausência de oxigênio. T18Streptococcus e enterococcus 11 Normalmente, fazem parte da microbiota residente do trato gastrointestinal e biliar, além de estarem presentes em menor quantidade na vagina e uretra masculina. Embora geralmente sejam imóveis, algumas cepas possuem flagelos, e nenhuma apresenta cápsula. São catalase negativos (diferente dos estafilococos, que são catalase positivos), o que ajuda na sua identificação em laboratório. Características fisiológicas e laboratoriais Os enterococos conseguem crescer em temperaturas de 10 a 45 °C, toleram ambientes com 6,5% de NaCl e pH alcalino (pH 9,6). Hidrolisam esculina na presença de 40% de bile e são positivos para a enzima pirrolidonil arilamidase PYR — testes laboratoriais usados para sua identificação. Resistência a antibióticos Um aspecto preocupante desses micro-organismos é a sua alta resistência a antibióticos. Muitas cepas produzem beta-lactamase (enzima que destrói penicilinas) e exibem resistência à vancomicina, cefalosporinas e outros fármacos, o que complica seu tratamento, especialmente em ambientes hospitalares. Importância clínica Os enterococos são importantes agentes de infecção hospitalar, ocupando posição de destaque entre os patógenos mais frequentes: 2ª causa mais comum de infecção urinária hospitalar e infecções de feridas. 3ª causa mais comum de bacteremia hospitalar. Além disso, podem causar meningite e bacteriemia em recém-nascidos, e endocardite em adultos. A principal forma de transmissão é através do contato — mãos contaminadas de profissionais de saúde ou instrumentos médicos. Importância na odontologia Na prática odontológica, o Enterococcus faecalis tem grande relevância clínica, sendo frequentemente associado a infecções periapicais persistentes, especialmente em dentes que já passaram por tratamento endodôntico (canal). Isso ocorre porque ele é altamente resistente aos procedimentos de limpeza T18Streptococcus e enterococcus 12 químico-mecânica, podendo sobreviver em ambientes desfavoráveis dentro dos canais radiculares. T18Streptococcus e enterococcus 13