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2005 by Editora Atlas S.A. 1. ed. 2005; 2. ed. 2009 (3 impressões) Capa: Roberto de Castro Polisel Composição: Formato Serviços de Editoração Ltda. 3 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Michel. Maria Helena Metodologia e pesquisa em ciências sociais / Maria Helena Michel. 2. ed. São Paulo: 2009. Bibliografia. ISBN 978-85-224-5519-5 978-85-224-6611-5 1. Ciências sociais Metodologia 2. Ciências sociais Pesquisa Título. 05-1061 CDD-300-72 para catálogo sistemático: 1. Ciências : Mecodologia 300.72 2. Ciências sociais: Pesquisa 300.72 TODOS DIREITOS RESERVADOS - É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio. A violação dos direitos de autor (Lei 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. Depósito legal na Biblioteca Nacional conforme Lei 10.994, de 14 de dezembro de 2004. Impresso no Brasil/Printed in Brazil Editora Atlas S.A. Rua Conselheiro Nébias, 1384 (Campos Elísios) São Paulo (SP) Tel.: (011) 3357-9144 www.EditoraAtlas.com.br5 Métodos de Pesquisa Não se deve aceitar jamais como verdadeira alguma coisa de que não se conheça a evidência como tal, isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, incluindo apenas, nos juízos, aquilo que se mostrar de modo tão claro e distinto ao espírito que não subsista dúvida alguma. René Descartes, em Discurso sobre método 5.1 MÉTODO E A TÉCNICA Por método entende-se um procedimento, um dispositivo ordenado, um con- junto de procedimentos sistemáticos, utilizado para se obter um resultado deseja- do, por exemplo, uma observação, um dado, uma comparação, uma demonstração etc. Método é, portanto, plano geral, norteador do processo, o caminho, o modo escolhido para se chegar a uma resposta, a uma solução. A técnica é instrumento de aplicação do plano, passos a serem seguidos, a forma especial de aplicar método. As técnicas são ferramentas importantes no diagnóstico do problema, para detalhamento dos dados e informações a res- peito do objeto de interesse da pesquisa (órgão ou pessoa). Se bem elaboradas, exercem fundamental papel para a fidelidade, qualidade e completude do diag- nóstico situacional.Métodos de Pesquisa 51 Assim, conjunto de técnicas define método a ser usado numa pesquisa. A relação que pode ser estabelecida é que, enquanto método é a estratégia maior, a filosofia de ação, a técnica corresponde à tática, aos passos e instrumentos neces- sários para desenvolvimento do método, e, portanto, para sucesso da pesquisa. A observação, por exemplo, pode ser um método ou uma técnica. Se pro- pósito for verificar as modificações que determinada situação sofre a partir da influência de algumas variáveis, ela será método, a orientação da pesquisa. Por outro lado, a observação poderá ser uma técnica (método auxiliar) de coleta de dados se for utilizada como um instrumento de coletar dados num processo de comparação entre duas situações, ou de avaliação de uma situação ao longo do tempo. Enquanto técnica, seus resultados serão parciais e não determinantes. Se for método, irá ser a orientação, a condução, a atitude a ser seguida pelo pes- quisador. Importante entender que 0 método não é uma fórmula mágica que, se corre- tamente aplicada, garante resultados desejados. Ele é apenas um conjunto de procedimentos que direciona a investigação; portanto, uma ferramenta de trabalho, a soma da competência do usuário com a boa escolha e aplicação do método. Os métodos têm graus de variação de abrangência e importância para a pes- quisa. Dependendo da situação, podem ser tratados como técnicas de pesquisa ou métodos de menor grau. 5.2 MÉTODO CIENTÍFICO MÉTODO GERAL Excelência é uma habilidade conquistada através de treinamento e prática. Somos que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito. Aristóteles O método geral ou científico não é uma forma específica de tratar um proble- ma ou assunto; ao contrário, trata de maneira geral de proceder, válida e neces- sária a todas as formas de pesquisa. Ele pode ser assim entendido porque traduz uma postura objetiva e direcionada do pesquisador; está relacionado diretamente com princípios da ciência, ou seja, pressupõe que não haja verdades perenes; ao contrário, a dúvida deve ser constante, metódica, questionadora, com propósito de esclarecer, racional e logicamente, as questões envolvidas na investigação.52 Metodologia e Pesquisa Científica em Ciências Sociais Michel O método científico de fazer pesquisa procura descobrir a verdade dos fatos, que, uma vez descobertos, devem guiar uso do método. Isto quer dizer que ele não deve ser normativo, prescritivo, mas orientador. Em síntese, é postura, atitude de objetividade do pesquisador, visando obter maior racionalidade e coerência na obtenção dos seus objetivos. 5.3 MÉTODOS ESPECÍFICOS Cada área do conhecimento com suas peculiaridades e problemas específicos vai exigir métodos, caminhos específicos a serem seguidos. São adequações do método científico geral às várias faces e interesses da ciência, OS vários campos do conhecimento humano. A especificidade e a compiexidade de cada problema irão determinar método (ou métodos) ideal a ser utilizado, aquele que melhor atenda às exigências do objeto pesquisado, aos meios e processos necessários à pesquisa. Na metodologia científica, a síntese e a análise são indissociáveis: enquanto a análise determina que o problema seja desdobrado em partes (e cada parte ana- lisada separadamente, de forma a conhecer melhor o todo), a síntese sugere que as partes, separadas na análise, sejam reunidas e tratadas no conjunto, no todo. O uso adequado do método de pesquisa permitirá que análises e sínteses convirjam para OS resultados desejados. Os métodos específicos têm por objetivo proporcionar ao investigador meios técnicos para garantir a objetividade e a precisão no estudo dos fatos sociais. Eles fornecem a orientação necessária à realização da pesquisa social, sobretudo no que se refere à obtenção, processamento, análise e validade dos dados pertinentes à problemática que está sendo investigada. Podem ser identificados vários métodos específicos nas ciências sociais. Nem sempre um método é adotado rigorosa ou exclusivamente numa pesquisa. Em ge- ral, dois ou mais métodos são combinados. Isto porque métodos específicos de que dispõem as ciências sociais nem sempre são suficientes para orientar todos procedimentos a serem desenvolvidos ao longo da investigação. 5.3.1 método dialético A dialética é, por definição, a arte de discutir e, segundo a filosofia antiga, a argumentação dialogada. Pode-se melhor entendê-la como sendo um método vá- lido para todas as formas de investigação e áreas do conhecimento, na medida em que ele é, por definição, a arte da discussão. Na antiguidade clássica, a dialética socrática tinha como objetivo levar seu adversário a se contradizer, medianteMétodos de Pesquisa 53 perguntas. Com isso, Sócrates pretendia extrair a verdade, exigindo definições das palavras usadas pelos seus adversários. A dialética define-se como método de uso geral, na medida em que, sendo a verdade provisória e reformável, a investigação da verdade em qualquer ciência vai exigir do pesquisador um pensamento dialé- tico, pois o homem avança quando se esforça para superar a si próprio. A dialética, portanto, é a arte da discussão; método de perguntas e respostas; de argumentação, contra-argumentação, discussão, levantamento de contradi- ções. Segundo Hegel: "é a conciliação dos contrários nas coisas e no espírito". Tese + antítese = síntese. Esse método deve ser incentivado, entre outras situações, para o ambiente de sala de aula, no qual professor levará o aluno a encontrar suas próprias respostas, através do uso do raciocínio. 5.3.2 estudo de caso O uso do método do estudo de caso nas escolas de administração no Brasil é relativamente recente, embora não se tenha uma data específica do seu surgimen- to. A ideia básica do método nasceu em Universidade de Harvard, onde começou a ser usado nas faculdades de medicina e direito inicialmente, com objetivo de aproximar OS alunos da realidade prática destas áreas de estudo. Na faculdade de administração, entre 1909 e 1919, executivos passaram a ser convidados a pales- trar em aulas para apresentar questões vivenciadas na realidade empresarial, ensi- nando alunos a desenvolver análises, recomendações e soluções para problemas organizacionais, antes trabalhados de forma teórica, apenas. Essa experiência re- presentou início do desenvolvimento de estudos de casos nos Estados Unidos. O método do estudo de caso consiste na investigação de casos isolados ou de pequenos grupos, com propósito básico de entender fatos, fenômenos sociais. Trata-se de uma técnica utilizada em pesquisas de campo que se caracteriza por ser estudo de uma unidade, ou seja, de um grupo social, uma família, uma ins- tituição, uma situação específica, uma empresa, um programa, um processo, uma situação de crise, entre outros, com objetivo de compreendê-los em seus próprios termos, ou seja, no seu próprio contexto. Caracteriza-se por exigir estudo aprofundado, qualitativo e/ou quantitativo, no qual se procura reunir maior número de informações sobre objeto de inte- resse, utilizando-se variadas técnicas de coletas de dados, para apreender todas as variáveis da unidade analisada e concluir, indutivamente, sobre as questões propostas. Tais preocupações são necessárias, pois, ao contrário das ciências naturais, os fenômenos nas ciências sociais não estão dissociados do seu contexto. Esta preo- cupação com a amplitude de instrumento para coleta de dados é que diferencia estudo de caso de outras técnicas de pesquisa de campo qualitativa, como relatos54 Metodologia e Pesquisa Científica em Ciências Michel de experiências vividas, descrição histórica de eventos, fatos, situações, levanta- mentos de informação etc. A vantagem do estudo de caso reside na possibilidade de penetração na reali- dade social, o que não é conseguido no estudo puramente quantitativo. Sua limi- tação está no fato de que conclusões dele extraídas não podem ser generalizadas, na medida em que estudo de caso trata resultados contextuais, contingenciais, específicos de uma unidade, um momento histórico, um fato. Sua importância, entretanto, principalmente nas ciências sociais, reside no fato de que o seu estu- do não apenas gera uma competência teórica para análise crítica e qualitativa de uma situação, como também cria uma referência de atuação, um modelo a ser seguido em situações futuras, nas quais mesmos elementos de análise se fize- rem presentes. Como uma estratégia de pesquisa, estudo de caso é usado em muitos cam- pos, como: ciência política, administração, psicologia, sociologia; organizações, pesquisa de planejamento regional, como estudos de planos, bairros, ou agências públicas. Em geral, estudos de casos se constituem na estratégia preferida quando como e/ou por que são as perguntas centrais. Nesses casos, investigador terá certo controle sobre eventos, e quando enfoque está em um fenômeno con- temporâneo dentro de algum contexto de vida real. Assim, estudo de caso permi- te uma investigação das características significantes de eventos vivenciados, tais como: processos organizacionais e administrativos, mudança em geral. Com base no método socrático de discussão e argumentação, estudo de caso trabalha com princípio da participação do aluno, envolvendo-o na discussão e na solução do caso. Este é apresentado contendo situações em que empresas e pessoas reais precisam explicar situações e tomar decisões sobre determinado pro- blema. Após detalhada coleta de dados, ampla discussão e análise crítica, aluno é levado a explicar a situação e propor um curso de ação. A prática do estudo de caso é particularmente importante na administração, uma vez que a teoria, por si só, não consegue capacitar, habilitar o administrador para exercício da sua profissão. Gerenciar requer conhecimento teórico, e tam- bém um tipo de competência, de "saber", que envolve análise crítica, contingen- cial, julgamento, e decisão específica para cada caso, cada situação. Fachin (2006), reunindo definições de vários autores, apresenta algumas ca- racterísticas do método: meio adequado de organizar dados sociais preservando o caráter unitá- rio do objeto social estudado; uso aconselhado se propósito da pesquisa for aprofundar na com- preensão de determinada situação, fato, dando-lhes significado para os envolvidos;Métodos de Pesquisa 55 trata fenômenos que só têm sentido, significado dentro do contexto onde estão inseridos; ou seja, seus resultados não podem ser generalizados; importante ferramenta para discutir e analisar processos organizacionais que envolvam inovação, mudanças, a partir da complexidade de forças existentes nesse ambiente, internas ou externas. Na visão da autora, assim se resumem as principais características do estudo de caso: deve estar centrado em uma situação ou evento particular cuja importância vem do que ele revela sobre fenômeno objeto da investigação ...; é tam- bém característica do estudo de caso a heurística, auxiliando pesquisador na compreensão e descoberta de novos significados para aquilo que está sen- do estudado ...); procedimentos descritivos estão presentes tanto na forma de obtenção dos dados quanto no relatório de disseminação dos resultados. (pág. 121) 5.3.3 História de vida e História oral História de vida e História oral são métodos que utilizam como fontes de in- formação pessoas, em relatos escritos ou falados, cuja experiência de vida esteja diretamente relacionada com objeto de estudo. Na História de vida, são analisa- das reações espontâneas, experiências particulares, visões pessoais que traduzam valores, padrões culturais, exemplos de épocas e auxiliem na análise do objeto de interesse. Na História oral, procura-se obter impressões, depoimentos orais de pessoas que testemunharam acontecimentos importantes para a compreensão de fatos sociais e determinantes para a análise do tema em estudo. 5.3.4 Funcional Este método guarda forte relação com a Teoria de Sistemas, na medida em que estuda e procura entender OS fenômenos sociais, através do estudo das partes in- tegrantes do todo, sistema que envolve problema. Parte-se do princípio de que todo problema pode ser dividido em partes interdependentes e inter-relacionadas, que se estudadas separadamente, vão permitir entender processo global. 5.3.5 Matemático Como a Matemática tem como objeto estudo das noções ideais, ou seja, as noções que não têm existência real, a razão, a abstração deverão criá-las, defini-56 Metodologia e Pesquisa Científica em Ciências Sociais Michel las. O método matemático parte de princípios ideais, abstração e criação de mo- delos; limita-se a noções simples e precisas para chegar a conclusões rigorosas por processo dedutivo; resultados exatos, indiscutíveis; daí a denominação de ciência exata. Busca a precisão, a medida exata. Trabalha com abstrações e teorização do mundo. Utilizado para pesquisas cujo objetivo é comprovar a verdade de forma inquestionável, exata, absoluta (ex.: cálculo do valor da mensalidade escolar). 5.3.6 Estatístico Consiste da aplicação da teoria estatística da probabilidade. Assim, deve-se ter claro que seus resultados indicam probabilidades, não certezas. Para tanto, devem ser adotados rigorosos critérios de seleção de amostras para verificação, de forma a obter um grau razoável de precisão. Nele, a verdade será comprovada através do número de vezes em que fenômeno aparece e instrumentos esco- lhidos para a busca criam parâmetros e amostras para análise. Não é uma simples coleção de dados, mas uma matemática aplicada à análise dos dados numéricos de observação, a partir de amostragens, generalizações, probabilidades (ex.: pes- quisa de opinião pública). 5.3.7 Histórico-evolutivo Os fenômenos econômicos contemporâneos podem ser analisados e entendi- dos a partir de uma perspectiva histórica. E, a partir da análise, evolução e com- paração histórica das atividades e instituições econômicas, pode-se traçar uma perspectiva, principalmente no que diz respeito ao comportamento dos agentes do processo. resultado de muitas diretrizes econômicas voltadas para áreas es- pecíficas, como investimentos, balanços, variação patrimonial, só podem ter a sua avaliação num prazo mais longo. Através dessa análise e comparações ao longo do tempo, pode-se concluir a importância dessas diretrizes e, em função disso, estabelecer novas políticas a serem adotadas. Nesse método, a verdade será com- provada através da análise global da variação do objeto da investigação ao longo do tempo (ex.: pesquisa realizada para verificar, testar efetividade, lucro, receita, despesa, de medidas organizacionais implantadas). 5.3.8 Experimental Consiste em submeter objeto de estudo à influência de certas variáveis, em condições controladas e conhecidas, para observar OS resultados que a variável produz no objeto. Ou seja, cria-se uma situação laboratorial para testar o objeto e comprovar sua validade (ex.: física, química, biologia etc.).Métodos de Pesquisa 57 5.3.9 Observacional Este método, embora considerado 0 mais primitivo, impreciso, ele é um dos mais utilizados nas ciências sociais, e pode ser visto, também, como o mais mo- derno, pois possibilita mais elevado grau de precisão na captação dos dados. Consiste na observação, no uso dos sentidos para captar dados da realidade que se quer investigar. Por ser confundido com a técnica da observação, método obser- vacional consiste na opção do caminho a se seguir numa investigação, enquanto a técnica da observação é uma forma de obtenção de dados, que pode ser, e é em geral, associada a quaisquer métodos de pesquisa. Este método é muito eficaz para se acompanhar processos comportamentais, clima organizacional etc. 5.3.10 Comparativo Este método procede pela investigação de indivíduos, classes, fenômenos ou fatos, com vistas a ressaltar as diferenças e similaridades entre eles. Sua ampla utilização nas ciências sociais se deve ao fato de possibilitar o estudo comparati- de grandes grupamentos sociais, separados pelo espaço e pelo tempo. Assim, podem ser feitos estudos comparando diferentes culturas ou sistemas políticos, padrões de comportamentos familiares, variáveis organizacionais, fatos contábeis, comportamentos religiosos de épocas diferentes. Este método é eficaz para tratar problemas que envolvam escolha e opção entre medidas, estratégias, táticas or- ganizacionais, vendas, custos e outros. 5.3.11 Econométrico Tem como objetivo estudo do aspecto quantitativo das relações entre os fe- nômenos econômicos, e que afetam as situações patrimoniais, financeiras e con- tábeis de qualquer ente (pessoa física, entidade não lucrativa, empresa ou pessoa de direito público, como 0 Estado, a União, município, autarquias, entre outros). Este método está calcado em três campos do conhecimento: a teoria econômica ou contábil, fornecendo princípios e leis; a matemática, fornecendo a lingua- gem ideal ou a forma de expressão simbólica para esses campos do conhecimento; e a estatística, que trabalha com dados numéricos da observação, permitindo estabelecer uma relação entre a realidade observada e a teoria existente. Método eficiente para análises de balanço, variáveis de orçamento, demonstrações con- tábeis etc.58 Metodologia e Pesquisa Científica em Ciências Sociais Michel 5.3.12 Survey para medir opinião e atitudes O survey é método que utiliza escalas de medidas, muito usado na pesquisa qualiquanti, cujo propósito é medir e quantificar opiniões e atitudes. Semelhante ao processo utilizado em censos, survey contempla, porém, apenas uma amos- tra da população, enquanto censo geralmente implica uma enumeração da po- pulação toda. significado da palavra survey nos remete às noções de levantamento, sonda- gem, varredura; por isso, sua importância e adequação principalmente para medir atitudes, motivos, opiniões de um grupo de pessoas definido por amostra. Estas características fazem do survey o instrumento adequado para uso em pesquisas de mercado (market research), pesquisas de opinião pública, pesquisas políticas (intenção de voto), na qual se pretende medir, através de uma amostra menor definida, a opinião de uma população também definida de pessoas. survey re- parte-se entre a descrição e a explicação. Os analistas do survey medem variáveis e depois as associações entre elas. Suas principais características: seus itens de averiguação são colocados na forma de proposição e não de perguntas, que facilita a aplicação cuidadosa do pensamento lógico; trata-se de pesquisa cujo propósito é entender a população maior da qual a amostra foi inicialmente selecionada, através de proposições gerais so- bre comportamento humano; processo, que visa replicar um achado entre subgrupos diferentes (por sexo, por idade etc.), fortalece a certeza de que ele representa um fenô- meno geral na sociedade; com a pesquisa, busca-se o máximo de compreensão com um número limitado de variáveis; conceituar e medir variáveis são características da prática científica. Va- riáveis não adequadamente conceituadas e medidas impedem que as correlações façam sentido. Assim, observadores independentes, discor- dando sobre como variáveis podem discordar da conclusão geral; sendo o ato de medir um dos problemas da pesquisa em survey, a própria presença de pesquisadores pode afetar OS entrevistados. Pedir uma opi- nião, por exemplo, pode servir para cristalizar uma opinião já existente. Ou pode ocorrer de o respondente formar opinião na hora da pesquisa. Por isso, a importância de cientista social ter uma compreensão mais sofisticada da medição e da conceituação, e formular de forma isenta e consciente as questões a serem medidas.Métodos de Pesquisa 59 Quadro 5.1 Métodos de pesquisa. Método Característica Dialético Usa a discussão e argumentação dialogada, a provocação. Estudo de caso Investiga casos isolados, grupos, pessoas, para entendê-los nos seus próprios termos, sua cultura, contexto. História de vida e Analisam fenômenos, situações a partir de depoimentos falados e História oral escritos de pessoas cujo testemunho pessoal auxilia compreensão do tema em estudo. Funcional Procura entender os fenômenos sociais através da análise isolada e integrada das partes que o compõem. Matemático Através de operações matemáticas e estatísticas, busca soluções exatas. Estatístico Através de técnicas estatísticas e matemáticas, busca soluções por mostragem. Histórico-evolutivo Analisa e compara situações e sua evolução ao longo do tempo. Experimental Submete objeto de estudo à influência de variáveis. Observacional Usa os sentidos, a observação para captação da realidade. Comparativo Usa a comparação como medida de observação entre grupos, políti- cas, fatos, variáveis, comportamentos, processos, táticas, vendas etc. Econométrico Analisa qualitativa e quantitativamente variáveis econômicas. Survey Quantifica opinião, atitudes, motivos, através de amostragem. 5.4 INDUÇÃO X DEDUÇÃO Inicialmente, é importante esclarecer que ambas as formas de condução do raciocínio, a indução e a dedução, são operações mentais, formas de raciocínio, conclusões baseadas na reflexão e não, apenas, no livre curso do pensamento. O pensamento alimenta-se da realidade externa e é produto direto da experiência; é natural, dispersivo, espontâneo, tem compromisso com o sentimento, com a opinião. A reflexão requer um esforço de concentração; é dirigida e planificada. Na reflexão, a conclusão do raciocínio é último elo da cadeia lógica de ideias; raciocínio é ordenado, coerente, lógico. Silogismo: uma forma de raciocinar, de se chegar a uma conclusão, formada por três proposições: (1) premissa maior; (2) premissa menor; (3) conclusão, que vão sendo comparadas duas a duas. Admitidas como verdadeiras as premissas, a conclusão será inferida da premissa maior, por intermédio da premissa menor. Ou seja, a premissa maior deve contar a verdade no seu limite máximo de abrangência,60 Metodologia e Pesquisa Científica em Ciências Sociais Michel ser "universal" dentro do propósito estabelecido. A premissa menor deve estar relacionada com a verdade da premissa maior, podendo ou não ser comprovada integralmente por ela. 5.4.1 Indução É um tipo de raciocínio que caminha do registro de fatos particulares para chegar à conclusão ampliada que estabelece uma proposição geral. Partindo de dados particulares (fatos, experiências, enunciados empíricos) e, por meio de uma sequência de operações cognitivas, chega a leis ou conceitos mais gerais, indo dos efeitos à causa, das consequências ao princípio, da experiência à teoria. Nesta forma de condução do raciocínio, a premissa maior não é uma verdade absoluta, ou seja, não contempla toda a verdade da premissa menor. Ela é váli- da apenas para um número restrito de casos. Então, a premissa menor não está completamente inserida, contemplada na maior. E, assim, a conclusão não pode generalizar para todos casos. Ela é uma proposta de verdade; uma verdade que foi comprovada para uma situação específica e poderá ser ampliada para outras situações, desde que sejam repetidos mesmos elementos verificados na premis- sa maior. Portanto, a conclusão é uma generalização. Exemplos: cobre conduz energia (premissa); ouro conduz energia (premissa); ; ferro conduz energia (premissa); todo metal conduz energia (conclusão); curso de Ciências Contábeis da faculdade X é bem conceituado e de boa qualidade; a faculdade X possui, também, cursos de Administração e Economia; logo, cursos de Administração e Economia são de boa qualidade. Vê-se que a premissa maior não é uma verdade que contempla e abrange a premissa menor; logo, trata-se de uma hipótese, uma proposta de verdade, que carece de ser. No raciocínio indutivo, se as premissas são verdadeiras, a conclusão provavelmente será verdadeira, mas não necessariamente verdadeira. A conclusão encerra informação que não constava das premissas. 5.4.2 Dedução É um tipo de raciocínio que ocorre de modo contrário ao anterior. Parte-se de uma verdade estabelecida (geral) para provar a validade de um fato particular.Métodos de Pesquisa 61 Caminha-se da causa para efeito. Neste tipo de raciocínio, a premissa maior é uma verdade absoluta, comprovada e que toda a proposição contida na premissa menor. Assim, a conclusão deverá ser necessariamente verdadeira. Parte-se de uma verdade universal, para se confirmar um elemento que faz parte desse conjunto maior. Portanto, a dedução é uma particularização. Exemplos: todo homem é inteligente (premissa maior); fulano é homem (premissa menor); fulano é inteligente (conclusão); governo baixou lei que isenta as pessoas maiores de 60 anos de pagar passagem de ônibus; minha avó irá completar 60 anos no próximo mês; logo, ela não precisará mais gastar dinheiro com passagem de ônibus. A premissa maior contempla, integralmente, a verdade contida na premissa menor. Logo, a conclusão será verdadeira. Pode-se generalizar a verdade. Na de- dução, se as premissas são verdadeiras, a conclusão só pode ser verdadeira. As in- formações contidas na conclusão já estavam implícitas nas premissas. Na indução, há uma tentativa de generalizar uma relação de casualidade entre dois fenômenos, ainda que tenha sido verificado apenas para um número restrito de vezes, e con- cluir, da relação causal, a lei. É empírico, experimental e hipotético. A dedução vai se encarregar de provar se essa lei é verdadeira para todos os casos; vai comprovar sua veracidade. A indução possibilita a extensão do conhecimento, é imaginosa, criativa. A dedução é lógica, segura e tem a comprovação dos fatos. A busca da verdade pode ser feita tanto pela indução, como pela dedução. Na última, há uma verdade incontestável; no primeiro, probabilidades. Se homem só trabalhar com raciocínios dedutivos, a ciência não progredirá, apenas se con- firmará. Através de induções, proposições de verdades, serão descobertos novos caminhos, novas leis, novos princípios úteis ao bem-estar da humanidade. Quadro 5.2 Indução X dedução. Indução Dedução Generaliza uma conclusão obtida a partir de Particulariza a conclusão a partir da confir- um número restrito de casos. mação geral de todos casos. Premissa maior não é verdade para todos os Premissa maior é a verdade para todos os casos. casos e contém a premissa menor. Empírica, experimental, hipotética. Lógica, segura, comprovada. Imaginativa, criativa, indica probabilidade. Verdade incontestável. Propõe verdades para serem deduzidas. Comprova verdades induzidas.62 Metodologia e Pesquisa Científica em Ciências Sociais Michel RESUMO DO CAPÍTULO O que caracteriza uma pesquisa como científica, confere-lhe confiabilidade, racionalidade, segurança, é a escolha adequada do método a ser utilizado. Trata-se do conjunto de procedimentos, ferramentas, que direciona a investigação; modo escolhido para se chegar à resposta, à solução. Portanto, sucesso do método depende da ação do investigador, da sua competência na escolha em termos de adequação e no tratamento do método escolhido. Neste capítulo, foram discutidos método científico, assim como alguns métodos de pesquisa mais utilizados nas áreas humanas e sociais, em termos de conceitos e utilização. ATIVIDADES DIDÁTICAS Questões para reflexão e estudos dirigidos 1. Método e técnica são instrumentos de pesquisa: em que diferem? Em que se assemelham? 2. Critique a frase: é caminho, a forma como pesquisador vai tratar OS dados que obtiver na pesquisa". 3. Critique a afirmação: método científico, também conhecido como método geral ou racional, é uma forma de proceder na pesquisa". 4. O método científico por si só garante sucesso da pesquisa? 5. Fale sobre método da dialética, informando a que tipos de problemas e/ou situações ele se aplica. 6. Em que consiste método do estudo de caso? Fale sobre suas vantagens e limitações. 7. Critique a importância do estudo de caso para a pesquisa em ciências so- ciais. 8. Por que estudo de caso é um dos métodos mais utilizados como instrumen- tos de pesquisa qualitativa? 9. Resuma as características principais, segundo Fachin, do estudo de caso. 10. Se estudo de caso não permite fazer generalizações das suas conclusões, qual a sua importância como método de pesquisa? 11. História oral e história de vida são a mesma coisa? Explique.