Prévia do material em texto
SOLUÇÃO DE CONFLITOS JURÍDICOS Eduardo Zaffari Habilidades de comunicação Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a importância da comunicação nos processos de negociação. Distinguir as habilidades técnicas de habilidades interpessoais no processo de comunicação. Analisar a necessidade ou não de formação específica na área da comunicação nos processos de negociação. Introdução A comunicação é fundamental para que o ser humano possa conviver em sociedade, seja para satisfazer as suas expectativas pessoais ou profissio- nais. Devido à sua importância, o estudo da comunicação é muito antigo e se aprofundou ao longo do tempo. A comunicação pode determinar o sucesso ou fracasso de um procedimento negocial, dependendo do modo como for empregada. Assim, é importante dominar a comunicação para proceder com a negociação. Aliar habilidades técnicas e interpessoais é fundamental para uma boa comunicação. Os ruídos de comunicação surgem constantemente e atrapalham a interação e os negócios. Um indivíduo qualificado para se comunicar corretamente, com capacidade emocional para lidar de forma intersubjetiva é fundamental nesses momentos. Os cursos de formação voltados à área de comunicação apresentam uma ampla gama de disciplinas de instrução na área de negociação, de forma específica. Os cursos específicos de negociação, por outro lado, pouco trabalham a comunicação como meio para a negociação. O ordenamento jurídico nacional reconheceu a importância da comunicação para a facilitação dos processos de negociação, mas, diante da diversidade de momentos em que a negociação está presente, considerou irrelevante a formação específica na área de comunicação para a participação nos processos de negociação. Neste capítulo, você vai reconhecer a importância da comunicação para os processos de negociação, distinguindo habilidades técnicas e interpessoais no processo comunicativo e analisando a necessidade de formação específica na área de comunicação para a atuação nos processos de negociação. Comunicação nos processos de negociação Desde a Antiguidade, a humanidade utiliza a comunicação como forma de promover a convivência, tornando possível habitar, comer e proteger-se cole- tivamente, relacionar-se com os demais, dentre tantas outras atividades que permitem a sobrevivência. A comunicação é de importância vital aos seres vivos, em especial aos humanos, que têm condutas distintas das indispensáveis à sobrevivência, que exigem a comunicação. Berlo (2003, p. 1) recorda que a comunicação se dá pela forma verbal, isto é, a linguagem, e pelas formas não verbais, como expressões faciais, movimentos de mãos, etc., que consistem nas diferentes maneiras como um indivíduo se comunica ao longo do dia, por meio da escrita, do desenho, da fala, da comunicação em grupo, do tato, da comunicação impressa, dos símbolos, da comunicação química e da comunicação por sons, por exemplo. A comunicação foi objeto forma de estudo pela primeira vez em Aristóte- les, na obra Retórica, escrita por volta do século IV a.C. Segundo o filósofo, a retórica (comunicação) tem por finalidade a “identificação dos meios de persuasão do ouvinte” (ARISTÓTELES, 2005, p. 1.355b), os quais deverão sempre ser justos, “[...] porque a verdade e a justiça são por natureza mais fortes que os seus contrários” (ARISTÓTELES, 2005, p. 1354a). Berlo (2003, p. 8) explica que, ao longo da história, o objetivo da comunicação variou: no século XVII, surgiu a Escola da Psicologia, que distinguiu alma e mente; invadindo a retórica, identificou três objetivos distintos para a comunicação — um informativo, um persuasivo e um terceiro, para o divertimento. No entanto, essa distinção entre informar, persuadir e divertir causou, ao longo do tempo, confusão ao se entender que o processo comunicativo con- sistiria em apenas um desses aspectos — apenas informar (educação), apenas persuadir (propaganda) ou apenas divertir (entretenimento). O processo comu- nicativo, em geral, abrange mais de um aspecto. Ademais, essa compreensão considera apenas a mensagem, ignorando o comportamento na formulação da comunicação. A comunicação envolve a linguagem (verbal ou não verbal) e o comportamento. Deve-se levar em conta quem está comunicando; por que Habilidades de comunicação2 se está comunicando; e com quem se está comunicando. Igualmente, deve-se observar os comportamentos da comunicação, como as mensagens produzidas e o que as pessoas querem comunicar. O modelo aristotélico de comunicação prescrito em Retórica aponta para três elementos de comunicação: 1. a pessoa que fala; 2. o discurso que é falado; 3. a pessoa que ouve. Todos os modelos desenvolvidos posteriormente apenas o tornaram mais complexo, usando sempre o modelo do filósofo como fundamento. Adotando-se os ingredientes comunicativos propostos por Berlo (2003, p. 32), pode-se dividir o processo de comunicação em: 1. fonte; 2. codificador; 3. mensagem; 4. canal; 5. decodificador; 6. receptor. Em uma conversa entre duas pessoas que negociam, a pessoa que emite uma mensagem (o falador) é a fonte da comunicação. O mecanismo vocal usado por quem fala é denominado codificador (o cérebro do falador ordena a verbalização da mensagem). As ondas sonoras que se propagam pelo espaço até o ouvinte são o canal de comunicação que transmitirá a mensagem. O mecanismo auditivo de quem recebe a mensagem é o decodificador da men- sagem. Quem recebe a mensagem decodificada é o receptor. A união desses elementos constitui o processo comunicativo. Para que a comunicação seja boa, ou seja, para que seja a mais fiel possível, isto é, uma comunicação sem ruídos, como afirma Berlo (2003), é necessário que estejam presentes os seguintes elementos, descritos por Neves (1998): simpli- cidade, clareza, brevidade, rapidez, timing adequado, objetividade, organização, motivação, impacto, originalidade, coerência, credibilidade e totalidade. 3Habilidades de comunicação A Escola de Harvard, reconhecida mundialmente como a desenvolvedora das mais modernas técnicas negociais atualmente utilizadas, preconiza sete elementos da negociação: 1. interesses; 2. opções; 3. alternativas; 4. legitimidade; 5. comunicação; 6. relacionamento; 7. compromisso. Desses elementos, destaca-se a comunicação como um dos principais, visto que mal-entendidos e falhas de comunicação são comuns entre pessoas que se conhecem, principalmente entre pessoas não habituadas entre si. Conforme Tapety (2017, p. 39): Segundo a Teoria de Harvard, antes de começarmos a negociação, recomenda- -se conversar sobre generalidades, sobre o tema de maneira ampla, problemas da cidade, etc. Esta conversa pode proporcionar um conhecimento sobre os valores do outro lado e seu modo de ser, além de serem identificados pontos ou experiências comuns que mais tarde podem servir como pontos de referência para ajudar na comunicação. Observe que a negociação tem cinco fases, conforme a Escola de Harvard preconiza: preparação, criação, negociação, fechamento e reconstrução. A comunicação está pre- sente em todas as fases do processo negocial, que se dá essencialmente na forma oral. Parte da comunicação que ocorre na negociação consiste em conversar exatamente sobre a negociação a que os negociadores se submeterão. Conver- sar logo no início do procedimento negocial sobre os métodos de negociação, as eventuais interrupções e a proibição de acusações e xingamentos possibilita que as partes mantenham o processo comunicativo de forma salutar, sem qualquer ruído comunicativo. Em um segundo momento, as partes podem criar alternativas e valores, desde que dispostas a expor seus interesses e Habilidades de comunicação4 sua visão sobre o problema, o que apenas será possível se a comunicação for estabelecida corretamente entre os negociadores. O processo negocial, entretanto, não é apenas escrito ou falado, pois os negociadoresse expressarão também por meio de ações, omissões, gestos, expressões faciais, emoções, silêncios, olhares, enfim, de diferentes formas, as quais comunicarão de forma não verbal ao outro negociante. Todas essas formas de expressão são fundamentais para o bom negociador para o sucesso da negociação. Tapety (2017, p. 39) traz as seguintes orientações para a comunicação não verbal em uma negociação, que servem como exemplo da importância da comunicação em suas diversas formas para a negociação: [...] Também nos comunicamos pela emoção, pelo tom da voz, pelos gestos, movimentos, pausas, pelo silêncio e pelo olhar, pelo franzimento da testa e até mesmo com o cruzamento dos braços. Veja que o corpo fala e que uma parte da mensagem pode ser transmitida por meio da forma, e não somente pelo conteúdo da mensagem. Além do mais, comunique-se usando a linguagem que o outro lado melhor entende. Se ele fala baixo e devagar, diminua seu ritmo e tente entrar em sin- tonia com a fala dele. Também se utilize das falas dele para elaborar as suas, não o imitando, mas mostrando-se atento ao que está sendo dito. É essencial a demonstração de interesse pelo que o outro fala, por suas ne- cessidades e expectativas em relação à negociação. É importante, inclusive, deixar que o outro desabafe, libere seus sentimentos e, enquanto isso, você deve optar por se controlar e manter a calma. Fica claro que, no processo comunicativo, em uma negociação, é essencial que se leve em consideração o que o outro quer dizer, as suas expectativas e os seus interesses. Valorizar os sentimentos do outro é fundamental para a negociação, desde que isso não retire o foco do objetivo da negociação. Deve-se recordar que as pessoas vêm carregadas de pré-julgamentos e impressões pré-existentes, o que deve ser compre- endido pelos negociadores para o sucesso da negociação. Para que a comunicação seja eficiente, é necessário que se fale e se ouça, certificando-se de que a mensagem foi bem compreendida por ambos. Também é importante que se fale sempre na primeira pessoa, evitando-se atribuir res- ponsabilidade ao outro, pois o questionamento sobre os sentimentos do outro sempre poderá ser contestado, enquanto quando se fala de si próprio é mais 5Habilidades de comunicação fácil ter a aceitação do outro negociador. Uma comunicação respeitosa e que considera como o outro pensa facilitará a pactuação entre as partes, mesmo nas negociações mais complexas. Ruídos na comunicação podem ser desastrosos para a negociação, razão pela qual você deve fazer perguntas sinceras sempre que não entender algo, assim como deverá responder tudo o que possa ser importante para a correta compreensão do que está sendo dito. Costumam ser comuns os seguintes erros no momento da comunicação: 1. omitir questões importantes na negociação; 2. não ouvir o outro; 3. focar apenas em si; 4. não prestar atenção ao outro (mesmo na linguagem não verbal); 5. não se fazer entender ou ser mal interpretado. Ser assertivo e empático permite que os negociadores sejam mais bem considerados pelo outro, desarmando qualquer ruído que possa surgir na comunicação. Fomentar sentimentos ruins faz com que as partes fiquem resistentes à construção de alternativas e à busca pela satisfação de ambos. Quando os negociadores desenvolvem a empatia, buscam criar valor para que ambos possam satisfazer seus interesses de alguma forma, garantindo melhor resultado à negociação. Habilidades técnicas e interpessoais no processo de comunicação Ao lecionar sobre comunicação, Torquato (2002, p. 219) afi rma que o processo comunicativo requer uma série de técnicas que podem ser desenvolvidas, as quais denomina conceitos-chave de comunicação. Essas habilidades são essenciais para o manuseio das ferramentas de comunicação existentes e a melhoria do seu desempenho. Torquato (2002, p. 11) afi rma que essas com- petências propiciarão ao negociador: [...] ascender ao patamar de estrategista, e, assim, exercer funções mais eleva- das, extrapolando a sua interferência no ambiente e na organização e tornando- -o um agente político na construção de uma sociedade mais consciente de seus direitos e deveres. Habilidades de comunicação6 Destacam-se algumas habilidades técnicas de comunicação essenciais, usualmente utilizadas para a resolução de conflitos, conforme salienta Spengler (2017): a arte de perguntar, na qual “[...] perguntas apropriadas apoiam e complementam o processo de escuta e reconhecimento. Perguntar esclarece, sem ofender” (SPENGLER, 2017, p. 51); a identificação de questões, interesses e sentimentos, quando as partes têm a chance de expor seus sentimentos, crenças e fazer perguntas; a validação de sentimentos, quando as partes deixam aflorar senti- mentos, que devem ser reconhecidos; e a escuta ativa, que consiste, conforme Spengler (2017, p. 61), na: [...] técnica por meio da qual o ouvinte busca compreender e se comunicar acerca do sentido e o motivo de mensagens verbais e não verbais (postura corporal), percebendo assim as informações ocultas contidas na comunicação. Consequentemente, é preciso “escutar” a comunicação não verbal, observar todos os seus movimentos corporais. Aquele mediador que não compreende um olhar não compreenderá uma longa explicação. Essas habilidades técnicas podem ser aprendidas e qualificam o comuni- cador, especialmente para a resolução de conflitos, e poderão ser aliadas às habilidades interpessoais. Nas palavras de Vergara (2011, p. 198), a inteligência interpessoal está relacionada à capacidade de se relacionar com outras pessoas, dizendo respeito ao autoconhecimento e aos aspectos internos e subjetivos de cada pessoa. Conforme Gardner, no livro Inteligências Múltiplas: a teoria na prática (GARDNER, 1995), a inteligência interpessoal está baseada na capacidade de perceber distinções entre os outros. Em formas mais avançadas, esta inte- ligência permite que um adulto experimente e perceba as intenções e desejos de outras pessoas, mesmo que elas os escondam. No processo relacional, as pessoas interagem por olhares, sorrisos, pos- tura corporal, gestos espontâneos ou intencionais que comunicam, causando reações naqueles que se relacionam. Os contatos entre os indivíduos estão condicionados por experiências anteriores, fatores psicológicos e preconceitos internalizados, os quais poderão criar nas pessoas comportamentos de aceitação ou de afastamento. Segundo Knapik (2012, p. 74): Quantas vezes uma pessoa pode ser vítima de impressões equivocadas ou, então, ter ela mesma uma imagem irreal de outras? É frequente que a impressão 7Habilidades de comunicação a respeito do outro mude quando passamos a conhecê-lo um pouco mais. Porém, para isso, é necessário dar uma chance para que esse conhecimento aconteça antes de rotulá-lo ou diagnosticá-lo, colocando um ponto final na percepção, sem oportunidade para confirmar ou modificar a primeira impressão. A qualidade das relações interpessoais atua definitivamente no processo de comunicação, possibilitando uma correta percepção do outro e emissão e compreensão das mensagens verbais e não verbais trocadas entre os partici- pantes. Os indivíduos carregam para os relacionamentos suas características pessoais que interferem no processo de percepção de si, do outro e do ambiente em que estão inseridas. Essas percepções são pessoais, únicas e subjetivas, constituindo-se como fruto das experiências vivenciadas e codificadas. Knapik (2012, p. 76) recorda que “[...] as relações interpessoais sofrem interferências das nossas percepções, mas um processo de autoconhecimento ajuda a lidar com as nossas emoções e limitações, e a aceitar e a conviver com as emoções e as limitações dos outros”. Castor Bartolomé Ruiz explora, em As encruzilhadas do humanismo: a subjetividade e a alteridade ante os dilemas do poder ético, a complexidade humana e os desafios da alteridade. Saiba mais sobre os elementos que formam a individualidade e como épossível criar para si uma dimensão ética de convivência consultando essa obra. Em um grupamento, frequentemente se identificam diferentes fases de- correntes do processo comunicativo. Em um primeiro momento, há uma fase de iniciação, em que a insegurança e as incertezas caracterizam as trocas; a conversa sobre assuntos neutros e objetivos comuns pode levar à superação dessa fase. Em um segundo momento, há a fase da diferenciação, em que a identificação de diferenças quanto aos objetivos pode levar ao conflito. Na etapa seguinte à diferenciação, os indivíduos estabelecem os propósitos comuns e metas, definindo um caminho para a solução de eventuais controvérsias. Na terapia derradeira, de maturidade, os indivíduos desempenham diferentes papéis para a convergência de interesses e o reestabelecimento da comunicação, possibilitando a integração e a obtenção dos objetivos comuns. Habilidades de comunicação8 Formação específica na área da comunicação nos processos de negociação Os currículos dos cursos ligados à área de comunicação, como nos cursos de bacharelado de Relações Públicas ou Jornalismo, costumam incluir dis- ciplinas como História da Comunicação, Comunicação Comunitária, Comu- nicação Digital nas Organizações, Teorias da Comunicação, Comunicação e Cultura no Brasil, Planejamento Estratégico na Comunicação, Sociologia da Comunicação, Comunicação Interpessoal, Comunicação Organizacional, dentre diversas outras disciplinas voltadas à área da comunicação. As disci- plinas fornecem a possibilidade de uma sólida formação na área, permitindo a atuação na formação e compreensão de mensagens em qualquer de suas formas. Por outro lado, cursos de bacharelado de Administração de Empresas, Ciências Econômicas e Direito costumam ter poucas disciplinas voltadas à área da comunicação, como Comunicação e Persuasão e Administração da Informação. Embora voltadas ao processo negocial, esses cursos costumam dar pouca atenção às técnicas negociais e ao processo comunicativo. Bacellar (2017, p. 168) define que: [...] negociação é um processo e uma técnica destinada a resolver diretamente divergências de interesses e percepções que tem por objetivo criar, manter ou evoluir um relacionamento baseado na confiança, gerando ou renovando compromissos múltiplos e facilitando a formulação de opções e proposições para um acordo ou de novos acordos. Sendo uma comunicação bidirecional concebida para chegar a um acordo, quando existentes interesses opostos, para que se obtenham benefícios mú- tuos, é natural que diariamente surjam conflitos que precisem ser resolvidos. Trata-se de uma técnica em que se buscam convergir interesses para que ambos os negociadores obtenham o que lhes interessa. Nesse sentido, a negociação está presente nas relações pessoais e profissio- nais e, em um mundo cada vez mais interligado, a habilidade de saber resolver conflitos se tornou uma necessidade para todos que pretendem se destacar profissionalmente ou em suas relações privadas. Não há quem não esteja, o tempo todo, negociando. 9Habilidades de comunicação O ordenamento jurídico brasileiro tem, na Resolução nº. 125, de 29 de novembro de 2010 do Conselho Nacional de Justiça e na Lei de Mediação, Lei nº. 13.140, de 26 de junho de 2015, os estímulos para a resolução dos conflitos judiciais e extrajudiciais na forma negociada. Recentemente, o Poder Judiciário reconheceu a sua incapacidade para resolver conflitos no tempo adequado. O CNJ tem divulgado anualmente relatórios de metas e resultados, Justiça em Números e Metas do Judiciário, que demonstram a demanda reprimida e não atendida, bem como divulgam os planos de resolver parte dos conflitos na forma negociada, tanto os processos judiciais já em andamento quanto aqueles que serão ajuizados. O primeiro passo nesse sentido se deu por meio da Resolução nº. 125/2010 do CNJ, que introduziu no País uma política nacional de resolução de conflitos pela forma autocompositiva, por meio dos procedimentos de mediação e conciliação. Busca-se, a partir da Resolução de 2010, um novo paradigma para resolver os conflitos judiciais pela negociação. A Resolução nº. 125/2010 e a Lei de Mediação recomendam que os mediadores judiciais tenham obtido capacitação em escola ou instituição de formação de mediadores, reconhecida pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (ENFAM) ou pelos tribunais. No conteúdo programático, há formação específica em Teoria da Comunicação, com Axiomas da Comunicação, Comunicação Verbal e não verbal, Escuta Ativa, Comunicação nas Pautas de Interação, dentre outras disciplinas relativas à comunicação. Por outro lado, o legislador reconhece o negociador como sem formação específica, estabelecendo apenas que o chamado mediador extrajudicial seja pessoa capaz, que tenha a confiança das partes e seja capacitada para fazer mediação, independentemente de integrar qualquer tipo de conselho, entidade de classe ou associação, ou nele inscrever-se. Não há, para o mediador extrajudicial ou conciliador extrajudicial, a necessidade de qualquer espécie de formação específica. Isso se justifica porque basta que a pessoa goze da confiança dos mediandos e que possa servir de elo entre os litigantes. O legislador teve a sen- sibilidade de compreender que alguém de confiança, mesmo sem a qualificação do mediador judicial, é muito mais eficaz para a aproximação das partes por ser de confiança destas, conforme afirma Didier Jr. (2015, p. 276): Habilidades de comunicação10 O mediador exerce um papel um tanto diverso. Cabe a ele servir como veículo de comunicação entre os interessados, um facilitador do diálogo entre eles, auxiliando-os a compreender as questões e interesses em conflito, de modo que eles possam identificar, por si mesmos, soluções consensuais que gerem benefícios mútuos. Segundo Spengler (2017, p. 31), os auxiliares para a resolução de conflitos judiciais deverão, para facilitar o processo de comunicação: 1. ajudar as partes conflitantes a identificar e a confrontar as questões do conflito; 2. ajudar a remover os bloqueios e as distorções no processo comunicativo, para que possa se desenvolver uma comunicação mútua; 3. ajudar a estabelecer normas para a interação racional, como o respeito mútuo, a comunicação aberta, o uso de persuasão em vez de coerção e o desejo de atingir um acordo mutuamente satisfatório. A principal distinção entre mediação e conciliação é que, na primeira, o facilitador usa métodos negociais para que os conflitantes construam por si a solução mais adequada ao seu conflito, enquanto, na segunda, o conciliador poderá sugerir uma alternativa de solução quando do surgimento de um impasse. O conhecimento de técnicas negociais e do processo de comunicação se mostra salutar e profícuo para que o processo negocial seja bem-sucedido e que os conflitantes consigam atingir um acordo que satisfaça os interesses dos envolvidos. Por essa razão, o ordenamento jurídico reconhece a necessidade de formação específica para aqueles que atuam como negociadores e facilitadores em seus quadros de pessoal. Entretanto, a legislação igualmente reconhece que o negociador extrajudicial, seja mediador ou conciliador, não necessita formação na área de comunicação, pois considera o processo comunicativo essencial para a negociação, mas que poderá não depender de formação es- pecífica na área de comunicação. 11Habilidades de comunicação 1. A comunicação deve ser clara, permitindo que a mensagem chegue ao receptor da melhor forma possível. Assim, é considerado um erro comum em comunicação: a) interessar-se pelo outro, quando o importante seria ouvir apenas a si próprio. b) fazer perguntas ao outro, pois demonstra curiosidade. c) focar-se apenas em si. d) considerar a linguagem não verbal. e) dar importância ao outro integrante da conversa. 2. A comunicação importa em linguagem verbal e não verbal. São consideradas linguagens não verbais: a) perguntasfeitas pelo interlocutor ao outro. b) tentativas de persuasão discursiva pelos negociadores. c) comunicações verbais com pouco conteúdo. d) movimentos corporais por parte de qualquer interlocutor. e) propostas escritas. 3. A importância e o estudo da comunicação são antigos. Os primeiros elementos da comunicação foram estudados: a) por Aristóteles, quatro séculos antes de Cristo. b) por Albert Einstein, no século passado, ao desenvolver a Teoria da Relatividade. c) na Teoria da Comunicação, após o advento das primeiras faculdades de comunicação na Europa. d) na época do Iluminismo, quando se estabeleceu a liberdade do conhecimento. e) por Platão, na obra Fédon. 4. A comunicação na negociação é fundamental, auxiliando os negociadores a identificar os interesses em questão. Dessa forma, é correto afirmar que a comunicação: a) sempre terá apenas uma finalidade. b) jamais se destina a divertir. c) servirá para informar ou para divertir. d) servirá para informar ou para persuadir. e) poderá ter mais de uma finalidade. 5. Há a necessidade de formação específica na área de comunicação para um bom processo de negociação? Por quê? a) Não, pois até mesmo pessoas de distintas formações poderão desenvolver a habilidade de comunicação para a atividade negocial. b) Sim, pois os graduados na área de Comunicação são os melhores habilitados para negociar. c) Sim, pois apenas quem tem formação específica na área de Comunicação pode negociar. d) Não, pois a formação na área de Comunicação apenas atrapalha. e) Não, pois na área de Comunicação não se aprendem técnicas que permitem uma boa comunicação no momento da negociação. Habilidades de comunicação12 ARISTÓTELES. Retórica. Lisboa: Impressão Nacional Casa da Moeda, 2005. BACELLAR, R. P. Mediação e arbitragem: atualizado com o novo CPC, Lei nº. 13.105/2015 e a Lei de Mediação n. 13.140/2015. São Paulo: Saraiva, 2017. BERLO, D. K. O processo da comunicação: introdução à teoria e prática. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BRASIL. Lei nº. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 17 mar. 2015. Disponível em: . Acesso em: 18 jul. 2018. BRASIL. Lei nº. 13.140, de 26 de junho de 2015. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 29 jun. 2015. Disponível em: . Acesso em: 18 jul. 2018. BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução CNJ nº. 125, de 29 de novembro de 2010. Disponível em: . Acesso em: 18 jul. 2018. DIDIER JR., F. Curso de Direito Processual Civil: introdução ao Direito Processual Civil, parte geral e processo de conhecimento. 17. ed. Salvador: Juspodivm, 2015. v. 1. GARDNER, H. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Artmed, 1995. KNAPIK, J. Gestão de pessoas e talentos. Curitiba: InterSaberes, 2012. NEVES, R. C. Imagem empresarial. Rio de Janeiro: Mauad, 1998. RUIZ, C. M. M. B. As encruzilhadas do humanismo: a subjetividade e a alteridade ante os dilemas do poder ético. Petrópolis: Vozes, 2006. SPENGLER, F. M. Mediação de conflitos: da teoria à prática. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2017. TAPETY, H. L. C. Elementos da negociação: critérios subjetivos. In: MARASCHIN, M. U. (Coord.). Manual de negociação baseado na teoria de Harvard. Brasília: EAGU, 2017. p. 38-55. TORQUATO, G. Tratado de comunicação organizacional e política. São Paulo: Cengage, 2002. VERGARA, S. C. Gestão de pessoas. São Paulo: Atlas, 2011. 13Habilidades de comunicação http://planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm http://www.planalto.gov.br/cci- http://www.cnj.jus.br/busca-atos-adm?documento=2579 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.