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ENDODONTIA PRÉ CLÍNICA
ANATOMIA DENTÁRIA - ASPECTOS GERAIS
Anatomia da cavidade pulpar
A cavidade pulpar é definida como o espaço situado na
porção central dos dentes que abriga a polpa dentária.
Didaticamente pode ser dividida em câmara pulpar e canal
radicular.
A câmara pulpar corresponde à porção mais coronária da
cavidade pulpar, enquanto os canais se localizam em sua
porção radicular.
A porção coronária da cavidade pulpar é facilmente
identificada nos dentes com duas ou mais raízes, mas, na
quase totalidade dos dentes uniradiculares, seu limite com
a porção radicular não é nítido, uma vez que há
continuidade natural entre eles.
CÂMARA PULPAR
A câmara pulpar é uma cavidade única, geralmente
volumosa, que aloja a polpa coronária e ocupa
internamente o centro da coroa, assemelhando-se, em
forma, à superfície externa do dente.
Nos dentes anteriores:
● A câmara pulpar é contígua ao canal radicular,
sendo delimitada pelas paredes vestibular, lingual,
mesial e distal, correspondentes às faces
coronárias do dente;
● O teto da câmara pulpar está localizado abaixo da
margem incisal e geralmente apresenta
reentrâncias que correspondem às saliências na
coroa, os chamados divertículos pulpares,
mamelões ou tubérculos;
● Nos incisivos, a câmara pulpar é triangular, estreita
no sentido vestibulolingual e ampla em sentido
mesiodistal, não apresentando divertículos
pulpares proeminentes, exceto nos dentes jovens;
● Nos caninos, a câmara apresenta seu maior
diâmetro no sentido vestibulolingual na altura da
região cervical, afilando-se em direção à ponta da
cúspide, onde apresenta um divertículo
pronunciado;
Nos dentes posteriores:
● A parede oclusal se relaciona com a face oclusal e
denomina-se teto da câmara, enquanto a face
cervical é o assoalho da câmara;
● A câmara geralmente é estreita no sentido
mesiodistal e ampla na direção vestibulolingual,
apresentando o formato de um prisma
quadrangular irregular com seis lados: o teto e o
assoalho bem nítidos, além de quatro paredes
axiais que recebem seus nomes de acordo com a
face do dente para a qual está voltada, sendo
identificadas como mesial, distal, vestibular e
lingual (ou palatina).
● O teto tem forma côncava e apresenta divertículos
pulpares — reentrâncias subjacentes às cúspides,
tubérculos e outras saliências da coroa —
ocupados pelos cornos pulpares, muito evidentes
principalmente em dentes jovens.
● O assoalho da câmara pulpar é a face oposta ao
teto da câmara e é onde estão localizadas as
entradas dos canais — os orifícios radiculares —,
aberturas que conectam a câmara pulpar ao SCR;
● É importante salientar que, em um mesmo grupo
dental, pode haver variações em forma, tamanho e
localização da câmara pulpar em função de
alterações morfológicas da coroa. Além disso, em
algumas anomalias anatômicas como no
taurodontismo, a câmara pulpar é mais avantajada
e seu assoalho está deslocado no sentido apical.53
Em dentes multirradiculares podem existir canais
acessórios no assoalho conectando a câmara pulpar ao
ligamento periodontal na região da furca, denominados
canais cavo inter-radiculares. Sua existência se manifesta
clinicamente como áreas de rarefação óssea envolvendo
estruturas periodontais na região de furca de dentes com
necrose pulpar
A câmara pulpar poderá, ainda, apresentar alterações
decorrentes de modificações fisiológicas relacionadas com
a deposição contínua de dentina secundária ou terciária
com a idade, bem como em virtude da resposta pulpar
diante de fatores irritantes, com a formação de nódulos
pulpares ou outros processos degenerativos, resultando
em redução progressiva do seu volume é possível bloqueio
dos orifícios de entrada dos canais radiculares.
CANAL RADICULAR
O sistema de canais radiculares (SCR) é a parte da cavidade
pulpar que se estende por toda a porção radicular dos
dentes, acompanhando sua forma externa.
● O canal principal geralmente tem a forma cônica e
se afunila a partir de sua abertura ou embocadura
(orifício de entrada) progressivamente em direção
ao forame apical (orifício de saída);
● Didaticamente, pode ser dividido em três porções
ou terços denominados cervical, médio e apical;
● Pode apresentar variações quanto ao número,
forma, direção e configuração. Raramente
apresenta seção arredondada, excetuando-se nas
proximidades do ápice radicular;
● Geralmente são achatados ou ovais no sentido
mesiodistal e vestibulolingual, acompanhando a
direção das raízes.
Na dentição humana, uma ampla gama de variações
anatômicas tem sido relatada em termos de número e
forma de raízes e canais radiculares. Ou seja, a variação é a
regra. Assim, diferentes propostas visando organizar as
distintas configurações do SCR foram sugeridas.
Essas classificações consideram o quantitativo de canais
radiculares existentes no assoalho da câmara pulpar de
cada raiz, seguido de divisões e ramificações que surgem ao
longo do seu curso até a região apical.
CONFIGURAÇÃO DOS SISTEMAS DE CANAIS RADICULARES
Com o diagnóstico e o plano de tratamento, o
conhecimento da morfologia do canal radicular e suas
variações mais frequentes é um requisito básico para o
sucesso endodôntico.
Dados das diferentes configurações anatômicas do SCR
acumulados desde a compilação dos estudos clássicos de
Hess e Zürcher exigiram o desenvolvimento de um sistema
de classificação próprio a fim de facilitar a comunicação
entre pesquisadores e clínicos.
Utilizando radiografia e porções radiculares seccionadas da
raiz mesiovestibular de molares superiores, Weine et al.
foram os primeiros a classificar diferentes configurações do
canal radicular dentro de uma única raiz em três tipos,
dependendo do padrão de divisão do canal radicular
principal ao longo de sua trajetória desde a câmara pulpar
até o ápice radicular. Posteriormente, um tipo adicional foi
acrescido ao sistema original:
● Tipo I: um canal se estende da câmara pulpar ao
ápice (configuração 1);
● Tipo II: dois canais distintos deixam a câmara
pulpar, mas convergem perto do ápice para formar
um canal radicular (configuração 2-1);
● Tipo III: um canal deixa a câmara pulpar e se
divide em dois no corpo da raiz; então, os dois se
fundem para formar um canal (configuração
1-2-1);
● Tipo IV: dois canais distintos se estendem da
câmara pulpar ao ápice (configuração 2)
● Tipo V: um canal deixa a câmara pulpar e se
divide, próximo ao ápice, em dois canais
distintos (configuração 1-2);
● Tipo VI: dois canais distintos deixam a câmara
pulpar, fundem-se no corpo da raiz e se dividem
novamente em dois canais próximo ao ápice
(configuração 2-1-2)
● Tipo VII: um canal deixa a câmara pulpar e se
divide em dois, que então se fundem, no corpo
da raiz, e se dividem novamente em dois canais
distintos próximo ao ápice (configuração 1-2-1-2);
● Tipo VIII: três canais distintos que se estendem da
câmara pulpar ao ápice (configuração 3).
Embora sistemas como o de tipos numerados com
algarismos romanos tenham sido amplamente usados, seu
alcance é limitado diante da crescente identificação de
variações anatômicas. Por isso, Versiani e Ordinola-Zapata
condensam 37 tipos de configurações em uma única raiz,
baseados na literatura e em seus estudos.
Em busca de maior abrangência, Ahmed et al. propuseram
um novo sistema de codificação que considera o número
do dente, o número de raízes e a configuração dos canais,
aplicável a todos os grupos dentários. Apesar de mais
completo, esse sistema ainda não contempla características
como curvaturas, fusões, bifurcações e canais acessórios.
Além disso, não inclui anomalias de desenvolvimento, como
dens invaginatus, canais em C, taurodontismo ou raízes
extras.
Conclui-se que, embora as novas classificações avancem
em relação às antigas, ainda enfrentam limitações diante da
grande variabilidade do SCR, e qualquer nova proposta
deve equilibrar precisão e simplicidade para sere lingual do
canino inferior;
C. Broca em posição perpendicular
ao longo eixo do dente no início da
abertura endodôntica;
D. Broca em posição paralela ao
longo eixo do dente para obter acesso direto ao canal
radicular;
E e F. Vistas lingual e oclusal do aspecto final da cavidade de
acesso (forma de conveniência).
PRÉ MOLARES INFERIORES
Área de eleição
● Área central da superfície oclusal junto à fossa
central, com discreta tendência para a mesial do
dente.
Direção de trepanação
● Direção vertical, paralela ao longo eixo do dente. A
penetração inicial se faz com a broca dirigida
paralelamente à linha do longo eixo do dente,
aprofundando-se alguns milímetros, em direção à
câmara pulpar, sem nela penetrar;
● Observar, durante a trepanação, que a coroa
desses dentes quase sempre apresenta uma
inclinação lingual bem acentuada em relação à
linha do longo eixo da raiz;
● Erros, neste momento, podem provocar acidentes
(degrau, desvios e perfurações).
Forma de contorno inicial
● Forma cônico-ovoide, que deve ser iniciada pelo
alargamento da área do ponto de eleição,
aprofundamento da broca em direção à câmara
pulpar, com maior dimensão no sentido
vestibulolingual, para favorecer a eliminação das
angulações do teto;
● Remove-se toda a dentina cariada restante, se
ainda existente, de acordo com as normas gerais
descritas;
● Logo a seguir, com a broca operando
paralelamente ao longo do eixo do dente,
realiza-se a trepanação do teto da câmara pulpar;
● No caso da presença de um único canal, a forma
de contorno poderá assumir um aspecto mais
circular;
● No entanto, diante das possíveis variações
anatômicas, podem existir dois ou três canais.
Nesses casos, a forma de contorno poderá se
apresentar ligeiramente achatada no sentido
mesiodistal ou mesmo no sentido vestibulolingual,
com um aspecto mais elíptico;
● Entretanto, essas mudanças estarão diretamente
relacionadas com a anatomia interna dos canais, a
localização e o número de raízes.
Preparo da câmara pulpar
● Realizam-se a remoção completa do teto e o
preparo das paredes laterais da câmara pulpar.
Configuração final da câmara pulpar (forma de
conveniência)
● Complementa-se, tanto quanto possível, a forma
cônica, elíptica e achatada no sentido mesiodistal
da cavidade pulpar;
● A presença de dois ou três canais radiculares
poderá exigir maior abertura da cavidade para
facilitar as manobras operatórias sobre eles.
Limpeza e antissepsia da cavidade
● De acordo com as normas gerais descritas.
A. Vista
lingual do canino
inferior
evidenciando
pequena
abertura sem a
extensão de conveniência adequada. Observar os
restos do teto da câmara pulpar (seta);
B. Radiografia mostrando instrumento endodôntico
encurvado porque ainda não se obteve acesso
direto ao canal radicular;
C. Vista lingual do aspecto final da cavidade (forma de
conveniência);
D. Radiografia após obtenção do acesso direto ao
canal radicular mostrando o instrumento
endodôntico acompanhando o trajeto do canal
com mais facilidade.
A. Vista
oclusal do
pré-molar inferior;
B. Broca
ligeiramente
descentralizada na
superfície oclusal, evidenciando o ponto de eleição
para o início do acesso coronário. Essa posição
ocorre porque as cúspides deste dente estão
assumindo uma posição levemente fora do centro
da coroa;
C. Vista oclusal do aspecto final da cavidade (forma
de conveniência). Observar o acesso direto e reto
ao canal radicular.
MOLARES INFERIORES
Área de eleição
● Área central da superfície oclusal junto à fossa
central.
Direção de trepanação
● Vertical, paralela à linha do longo eixo do dente.
Forma de contorno inicial
● Triangular, irregular ou trapezoidal, por causa da
presença de dois canais na raiz distal;
● Utiliza-se a broca operando paralelamente ao
longo eixo do dente para penetrar na câmara
pulpar
● Remove-se toda a dentina cariada restante, se
ainda existente;
● Em seguida, aprofunda-se a broca, sempre paralela
ao longo do eixo do dente, e caminha-se em
direção ao teto, para facilitar o seu rompimento;
● A penetração inicial deve ser dirigida
preferencialmente para o orifício de entrada do
canal ou canais distais.
Preparo da câmara pulpar
● Realizam-se a remoção completa do teto e o
preparo das paredes laterais da câmara pulpar.
Configuração final da câmara pulpar (forma de
conveniência)
● Tenta-se explorar a entrada dos canais radiculares
e realiza-se desgaste compensatório,
principalmente na parede mesial da câmara
pulpar, para facilitar a penetração nos orifícios de
entrada dos canais radiculares. Essa manobra visa
proporcionar acesso direto e reto aos canais
radiculares.
Limpeza e antissepsia da cavidade
● De acordo com as normas gerais descritas.
A. Vista
oclusal do molar
inferior
B. Forma
de contorno
inicial da
cavidade de
acesso;
C. Rompimento do teto da câmara pulpar que
normalmente se inicia pelo lado distal nos molares
inferiores;
D. Broca com ponta inativa para finalizar a remoção
do teto da câmara pulpar sem risco de lesar o seu
assoalho
E. Vista oclusal do aspecto final da cavidade (forma
de conveniência). Observar o acesso direto aos
canais da raiz mesial (MV e ML) e ao canal distal (D).
A. Radiografia
inicial mostrando a
relação entre a
lesão cariosa e a
câmara pulpar do
primeiro molar inferior esquerdo
B. Vista oclusal da extensa lesão cariosa e do
comprometimento da restauração dentária
remanescente;
C. Vista oclusal da forma de contorno do acesso
coronário, após remoção da lesão cariosa,
evidenciando o tecido pulpar;
D. Vista oclusal após reconstrução coronária com
resina composta;
E. Aspecto final da cavidade de acesso após a
reconstrução coronária;
F. Aspecto radiográfico final do tratamento
endodôntico.
A a K. Aspectos clínicos e radiográficos dos acessos
coronários de molares inferiores;
F e G.
Aspecto
radiográfico do tratamento endodôntico do segundo molar
inferior direito, evidenciando o pós-operatório imediato e o
controle de 6 anos, respectivamente;
J. Remoção da polpa do canal distal do primeiro molar
inferior direito durante a instrumentação.
A a D. Acesso
coronário do
primeiro molar
inferior direito;
B. Visão clínica
do nódulo
pulpar
presente na câmara pulpar da radiografia inicial em A;
D. Aspecto final do acesso coronário do primeiro molar
inferior direito
E a H. Acessos coronários de molares inferiores
evidenciando variações anatômicas.
A. Radiografia do
segundo molar inferior
direito. Observar que, nesse
caso, a configuração
anatômica das raízes do
segundo molar difere da
forma típica dos molares
inferiores;
B. Canal radicular em
forma de C (C-shaped), normalmente presente em
segundos molares inferiores;
C. Radiografia mostrando a configuração da cavidade
pulpar moldada pelo material obturador
endodôntico;
D. Controle radiográfico de 6 anos.
A e B. Aspectos clínico e
radiográfico do primeiro
molar inferior esquerdo
evidenciando a presença de
restauração provisória com
ionômero de vidro;
C. Acesso coronário confirmando a aplicação da lei de
proporcionalidade (simetria) observada na localização dos
orifícios de entrada dos canais radiculares. Após traçar uma
linha central imaginária ao longo do assoalho da câmara
pulpar, linhas perpendiculares à linha central são traçadas e
os orifícios de entrada dos canais radiculares encontram-se
em posições equidistantes em relação à linha central;
D. Radiografia do pós-operatório imediato.
LOCALIZAÇÃO E ENTRADA DOS CANAIS RADICULARES
É extremamente importante que o orifício de entrada de
todos os canais radiculares seja localizado. Uma radiografia
inicial de boa qualidade constitui um valioso elemento
auxiliar para esse procedimento.
Essa manobra é executada por meio de inspeção e da
exploração por sondagem. Para esse fim, um explorador
fino, resistente, rígido, pontiagudo e com as partes ativas
retas, comoa sonda endodôntica tipo Rhein ou similar,
pode ser empregado.
A exploração somente deverá ser iniciada após o preparo
da cavidade de acesso coronário. O explorador é levado,
deixando-o correr gentilmente no assoalho da câmara, até
onde se espera que esteja o orifício (ou orifícios) de entrada
dos canais radiculares.
No caso de dentes multirradiculares, a própria forma
convexa e a presença de linhas mais escuras no assoalho
(rostrum canali), que unem os canais entre si, podem servir
como guia de orientação na localização dos orifícios de
entrada. Além disso, essa exploração auxilia na verificação
da direção e da inclinação dos canais, permitindo que sejam
feitos refinamentos, se necessário, na forma de
conveniência do acesso.
Qualquer tipo de interferência, conforme mencionado
anteriormente, como a presença de calcificações ou
irregularidades nas paredes, deve ser removido sem
prejudicar a qualidade do acesso coronário.
Krasner e Rankow, com o objetivo de auxiliar e facilitar a
localização e o número dos orifícios de entrada dos canais
radiculares no assoalho da câmara pulpar dos dentes
posteriores, exceto dos molares superiores, propuseram a
lei da proporcionalidade (simetria).
ACESSO MINIMAMENTE INVASIVO
Critério Acesso
Tradicional
Acesso
Minimamente
Invasivo ("Ninja")
Objetivo Acesso amplo
para facilitar
limpeza,
modelagem e
obturação.
Preservar
estrutura
dentária ao
máximo.
Remoção de
estrutura
dentária
Maior remoção
da dentina e teto
da câmara
pulpar.
Preserva parte
do teto da
câmara e dentina
pericervical.
Visualização e
espaço
operatório
Ampla
visualização e
acesso facilitado
aos canais.
Campo visual
reduzido, acesso
restrito.
Risco de fratura Potencialmente
maior por
remoção de
estrutura
dentária.
Potencialmente
menor (mais
resistência à
fratura, segundo
alguns estudos).
Eficiência na
instrumentação
Facilitada pela
amplitude do
acesso.
Pode ser
prejudicada pela
limitação do
espaço.
Efetividade da
irrigação
Melhor
penetração do
irrigante,
especialmente
em preparos
amplos.
Pode ser
limitada, com
menor
efetividade na
zona apical.
Redução
bacteriana
Redução mais
efetiva com
preparos apicais
maiores.
Menor evidência
de redução
bacteriana eficaz.
Base científica Ampla, com
muitos estudos
clínicos e
laboratoriais.
Baseada
principalmente
em estudos ex
vivo; evidência
clínica ainda
limitada.
Indicação Situações onde o
acesso facilitado
é prioridade ou o
profissional é
menos
experiente.
Casos
selecionados,
com profissional
experiente e boa
tecnologia
disponível.
Tecnologia
necessária
Menos
dependente de
recursos
avançados.
Requer
microscopia
operatória e
tomografia de
feixe cônico.
A. Radiografia pré-clínica do segundo pré-molar superior
(vista proximal);
B e C. Imagens de microtomografia computadorizada com
vistas proximal e vestibular, respectivamente;
D. Vista da área de eleição para o início da abertura
coronária. E. Acesso coronário minimamente invasivo;
F. Aspecto
microtomográfico
do acesso
minimamente
invasivo visto pela
superfície oclusal.
Área em azul
representa o
acesso
minimamente
invasivo e a área
em verde representa a estrutura preservada da câmara
pulpar;
G. Preservação do teto da câmara pulpar após a realização
do acesso minimamente invasivo (setas amarelas);
H. Radiografia de odontometria. Setas em vermelho
indicam a preservação do teto da câmara pulpar;
I. Vista oclusal da instrumentação dos canais radiculares
através do acesso minimamente invasivo;
J a M. Imagens tridimensionais evidenciando as áreas
tocadas (em vermelho) e não tocadas (em verde) pelos
instrumentos endodônticos durante o preparo dos canais
radiculares.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na prática clínica, é comum que dentes que necessitam de
tratamento endodôntico estejam bastante comprometidos
por cárie ou possuam restaurações extensas.
Nessas situações, o formato e a abordagem do acesso
coronário devem ser adaptados conforme a quantidade de
estrutura dental sadia restante. Mesmo quando há grande
destruição coronária, os princípios básicos do acesso —
como o respeito à anatomia e a correta localização dos
canais radiculares — devem ser mantidos.
Um desses princípios é a obrigatoriedade de remoção
completa da dentina cariada, ainda que isso exija ampliar
significativamente o acesso.
A decisão de manter uma restauração existente no dente
pode ser tomada, desde que ela não atrapalhe os
procedimentos endodônticos.
Caso a presença da restauração, ou mesmo de uma coroa
protética, coloque em risco a integridade do dente ou a
assepsia do tratamento, ela deve ser retirada.
Quando é possível mantê-la, essa restauração precisa
atender a critérios mínimos, como:
● Permitir um acesso direto e reto aos canais
radiculares;
● Não dificultar a visualização da câmara pulpar ou
da entrada dos canais;
● Não apresentar risco de restos dos materiais
restauradores penetrarem no interior do canal
radicular e funcionarem como obstáculo às
manobras operatórias;
● Possuir margens bem adaptadas e sem infiltrações,
sem associação com cárie.
Crane e Levin ressaltam a importância de um acesso
adequado, mesmo que isso exija grande remoção de
estrutura dental, pois acessos mal feitos são causa comum
de falhas em tratamentos endodônticos. Em casos com
restaurações prévias, é necessário reavaliar o dente com
radiografia, remover possíveis cáries remanescentes e
ajustar o acesso para garantir um trajeto direto aos canais.
Tecnologias como o microscópio operatório, associado ao
ultrassom, permitem maior precisão, acesso mais
conservador e melhor visualização de estruturas difíceis,
como canais atrésicos ou extras. A tomografia de feixe
cônico também auxilia na identificação de canais ocultos e
anomalias.
Além disso, o acesso endodôntico guiado (EndoGuide), que
combina tomografia, escaneamento digital e impressão 3D,
permite tratar canais calcificados com segurança e precisão.
ANOTAÇÕES
Ponto de Eleição
Refere-se ao local específico onde se inicia a abertura
coronária. Esse ponto varia conforme o tipo de dente e sua
anatomia. Por exemplo, em incisivos superiores, o ponto de
eleição situa-se na região central da face palatina,
ligeiramente abaixo do cíngulo; já em molares superiores,
localiza-se na fossa central da superfície oclusal.
Direção de Trepanação
Diz respeito à inclinação e trajetória da broca durante a
penetração na estrutura dental para alcançar a câmara
pulpar. Nos dentes anteriores, a trepanação geralmente
inicia-se com a broca posicionada perpendicularmente à
face palatina ou lingual e, à medida que avança, ajusta-se
para ficar paralela ao longo eixo do dente. Essa abordagem
facilita o acesso direto aos canais radiculares.
Forma de Contorno
Trata-se do formato inicial da abertura realizada na coroa
do dente, que deve reproduzir, em menor escala, a
configuração da câmara pulpar subjacente. Essa forma é
determinada pela anatomia interna do dente e pelo
número de canais presentes. Por exemplo, em incisivos
superiores, a forma de contorno é triangular com a base
voltada para a incisal; em pré-molares, é elíptica no sentido
vestíbulo-palatino.
Forma de Conveniência
Refere-se aos ajustes adicionais feitos na abertura
coronária para facilitar a instrumentação, limpeza e
obturação dos canais radiculares. Esses ajustes podem
incluir a remoção de interferências de dentina ou esmalte
que dificultem o acesso direto e reto aos canais. A forma de
conveniência deve ser realizada com cautela para preservar
o máximo possível da estrutura dental saudável.
INSTRUMENTAIS ENDODÔNTICOS
Os instrumentos endodônticos são ferramentas metálicas
essenciais na instrumentação dos canais radiculares,
fabricadas em aço inoxidável ou níquel-titânio (NiTi). Para
um tratamento eficaz, é fundamental que o profissional
conheça suas característicasgeométricas e comportamento
mecânico, embora isso muitas vezes seja negligenciado.
Eles podem ser classificados segundo diferentes critérios:
quanto ao acionamento, em manuais ou mecanizados;
quanto ao desenho da parte ativa, em farpados, tipo K, tipo
Hedstrom e especiais; quanto ao movimento, em limas
(movimento de vai e vem) e alargadores (movimento
rotatório ou reciprocante); quanto à liga metálica, em aço
inoxidável ou NiTi; e quanto ao processo de fabricação, em
torcidos ou usinados.
Os instrumentos manuais possuem cabo para
empunhadura e são acionados pela mão do operador,
embora também possam ser usados em motores. Já os
instrumentos mecanizados têm haste para fixação e são
ativados por aparelhos.
A lima endodôntica é uma ferramenta multicortante usada
com movimento alternado para raspar a dentina do canal.
Já o alargador endodôntico tem haste de corte cônica e
atua com movimentos rotatórios (contínuos ou parciais)
para desbastar a dentina.
Quanto ao design, seguem normas como ISO 3630-1 e
ANSI/ADA, mas muitos fabricantes produzem instrumentos
especiais com variações na conicidade, comprimento da
parte ativa, formato da seção transversal, haste e ponta.
Para os instrumentos mecanizados, ainda não há
normatização específica, embora adotem padrões como o
diâmetro D0 da lima tipo K.
LIGAS METÁLICAS
São materiais formados pela fusão de dois ou mais metais
(ou metal + elemento não metálico), com propriedades
distintas das de seus constituintes isolados. Todos os
metais sólidos têm estrutura cristalina (com exceção dos
amorfos), composta por grãos e contornos de grão.
Imperfeições nessa estrutura influenciam nas propriedades
mecânicas, elétricas e químicas.
AÇO INOXIDÁVEL
● Composição: Liga de ferro com ≥12% de cromo,
que forma uma película de óxido protetora e
autorregenerativa
● Outros elementos: Níquel (aumenta resistência à
corrosão, calor e tenacidade) e molibdênio, entre
outros;
● Aplicação na Endodontia: Desde 1961, é usado na
fabricação de instrumentos manuais;
● Tipos usados: AISI 301, 302 e 303 (ligas austeníticas
conforme ANSI/ADA nº 29/1976);
● Vantagens: Boa resistência à fratura e corrosão,
grande tenacidade e dureza;
● Limitação: Alta rigidez, o que favorece o desvio
apical em canais curvos.
LIGA NÍQUEL-TITÂNIO (NiTi)
● Propriedades especiais:
○ Efeito memória de forma (EMF): Recupera
deformações com calor;
○ Superelasticidade (SE): Recupera a forma
apenas com retirada da força aplicada.
● Vantagens:
○ Alta flexibilidade e elasticidade;
○ Acompanha curvaturas do canal com
menor força sobre as paredes;
○ Reduz desvio apical e fratura.
● Composição: 50–56% de níquel
● Microdureza: Menor que o aço inoxidável (NiTi:
~345 HV / Aço inox: ~523 HV);
● Força para flexionar: Inferior ao aço – mais
maleável.
LIGAS NiTi MODIFICADAS
1. NiTi Fase R:
○ Tratamentos térmicos específicos →
estrutura romboédrica (fase R);
○ Maior flexibilidade, menor rigidez e maior
resistência à fratura por fadiga;
○ Ex: K3™XF.
2. NiTi M-Wire:
○ Tratamento termomecânico → presença
de martensita;
○ Melhora resistência à fratura por fadiga e
flexibilidade;
○ Ex: ProFile® Vortex.
3. NiTi com Memória Controlada:
○ Permite deformação visível durante o uso
e recuperação com calor (autoclave);
○ Evita fratura por torção e melhora
adaptação ao canal;
○ Quando há inversão das hélices, deve ser
descartado;
○ Ex: HyFlex CM;
○ Tratamentos térmicos "Gold" e "Blue"
melhoram ainda mais as propriedades
mecânicas, com coloração devido à
camada de óxido.
PROPRIEDADES MECÂNICAS DOS INSTRUMENTAIS
As propriedades mecânicas dos instrumentos endodônticos
dizem respeito ao comportamento desses materiais
quando submetidos a diferentes tipos de forças. Conhecer
essas propriedades é essencial para o uso seguro e
eficiente dos instrumentos durante o preparo do canal
radicular, evitando falhas como fraturas, deformações e
perda de eficiência de corte.
RESISTÊNCIA MECÂNICA
É a capacidade do material de resistir à fratura quando
submetido a forças externas, como torção, compressão e
tração. Essa resistência depende da estrutura atômica e do
tipo de liga metálica utilizada.
Instrumentos endodônticos, especialmente os de
níquel-titânio (NiTi), são projetados para suportar altos
níveis de resistência mecânica, o que os torna menos
propensos a fraturas quando bem utilizados.
FORÇA E TENSÃO
● Força: é qualquer agente capaz de alterar o estado
de repouso ou movimento do corpo;
● Tensão: é a força aplicada dividida pela área da
seção transversal do material (T = F/A). Pode ser:
○ Tensão normal: perpendicular à superfície
(compressiva ou trativa);
○ Tensão cisalhante: paralela à superfície
(torção ou corte).
Esses conceitos explicam o motivo pelo qual instrumentos
mais finos são mais suscetíveis à deformação ou fratura: a
área de secção é menor, e a tensão resultante é maior.
DEFORMAÇÃO
Quando o instrumento é submetido a uma força, ele sofre
deformação, que pode ser:
● Elástica: o material volta à sua forma original após
cessar a força;
● Plástica: o material sofre deformação permanente,
mesmo após a retirada da força.
A zona de transição entre essas duas fases é crítica: o uso
excessivo pode levar a deformações plásticas e,
eventualmente, à fratura do instrumento.
ELASTICIDADE
É a capacidade do material de se deformar sob tensão e
retornar à forma original quando a força é removida. A
elasticidade é quantificada pelo módulo de elasticidade:
● Quanto menor o módulo, maior a flexibilidade
(caso do NiTi);
● Quanto maior o módulo, mais rígido é o
instrumento (caso do aço inoxidável).
Tipos de elasticidade aplicados aos instrumentos:
● Elasticidade à torção: gira-se uma extremidade do
instrumento, mantendo a outra fixa;
● Elasticidade à flambagem: quando a força é
aplicada axialmente e o instrumento encurva;
● Elasticidade à flexão: força aplicada lateralmente
ao eixo do instrumento, comum em canais curvos.
EFEITO MOLA
É a capacidade do instrumento de aço inoxidável de se
deformar elasticamente em canais curvos e retornar à sua
forma original após a remoção da força.
Esse efeito é desejável, pois permite que o instrumento
acompanhe a anatomia do canal sem se fraturar. Quanto
menor o diâmetro e maior o comprimento do instrumento,
maior o efeito mola.
LIMITE ELÁSTICO
É a máxima tensão que o material pode suportar sem
sofrer deformação plástica. A partir deste ponto, a
deformação se torna permanente.
É um parâmetro crucial para definir até onde um
instrumento pode ser usado com segurança sem o risco de
se deformar de forma irreversível.
PLASTICIDADE
Capacidade do material de sofrer deformações
permanentes sem romper. É importante para saber até
onde o instrumento pode ser manipulado antes de ocorrer
falha.
Dois aspectos principais:
● Maleabilidade: capacidade de sofrer deformações
por compressão (ex: laminação);
● Ductilidade: capacidade de sofrer deformações por
tração (ex: estiramento, alongamento).
LIMITE DE ESCOAMENTO
É o valor da tensão a partir do qual o material entra na fase
plástica, ou seja, passa a se deformar de forma
permanente.
Na prática, é o ponto em que se deve interromper o uso do
instrumento para evitar fratura.
RIGIDEZ
É a resistência à deformação elástica. Instrumentos mais
rígidos não se adaptam bem a canais curvos e podem
causar problemas como transporte apical ou perfurações.
A rigidez depende do diâmetro, do comprimento e do
material do instrumento.
FRAGILIDADE
Materiais frágeis se rompem sem sofrer deformação
significativa. Um exemplo é o vidro.
Na endodontia, busca-se evitar instrumentos frágeis
demais, pois eles têm maior risco de fratura súbita.
TENACIDADE À FRATURA
É a capacidade do material de absorver energia até o ponto
de fratura.
Um material com alta tenacidade é menos propenso a
quebrar com trincas ou falhas internas.É especialmente
importante para instrumentos que enfrentam resistência
constante dentro do canal.
DUREZA
Refere-se à resistência do material à penetração, abrasão
ou desgaste superficial.
Instrumentos mais duros:
● São mais resistentes ao desgaste;
● Porém, tendem a ser mais frágeis (menos plásticos)
e podem fraturar com mais facilidade.
LIMITE DE RESISTÊNCIA
É a tensão máxima que o material suporta antes de
romper. É um ponto além do limite elástico e do
escoamento.
Esse valor é importante para entender até onde um
instrumento pode ser levado antes de ocorrer fratura
definitiva.
ENCRUAMENTO
É o endurecimento do material por deformações mecânicas
repetidas, como dobrar e desdobrar o instrumento diversas
vezes (deformações a frio).
Embora aumente a dureza, o encruamento diminui a
ductilidade e aumenta o risco de fratura.
Na prática clínica, o encruamento pode ocorrer com o uso
repetido de instrumentos, e por isso é indicado substituí-los
após determinado número de utilizações.
FABRICAÇÃO DOS INSTRUMENTOS ENDODÔNTICOS
Os instrumentos endodônticos são produzidos a partir de
fios metálicos cilíndricos, seguindo princípios semelhantes
aos usados na fabricação de alargadores. Seu objetivo é
permitir a ampliação, modelagem e limpeza dos canais
radiculares.
Existem dois principais métodos de fabricação: torção e
usinagem.
POR TORÇÃO
● O fio metálico (geralmente aço inox ou NiTi) é
inicialmente usinado para criar uma haste com
forma piramidal e seção transversal triangular ou
quadrangular;
● As arestas resultantes dessas formas são
responsáveis pela ação cortante;
● A haste é fixada em uma extremidade e torcida à
esquerda, formando uma estrutura helicoidal
(semelhante a uma rosca), com:
○ Arestas = hélices;
○ Paredes = canais helicoidais.
● A ponta do instrumento pode ser:
○ Facetada/piramidal (por aplainamento);
○ Cônica/circular (por torneamento cônico
externo).
POR USINAGEM
● A parte ativa (ponta e haste helicoidal cônica) é
obtida diretamente por usinagem — um processo
mecânico que molda o fio metálico através de
cortes precisos;
● O processo principal é o roscamento externo, que
cria os canais e as arestas helicoidais;
● A ponta cônica é feita por torneamento cônico
externo.
Embora a usinagem cause menos encruamento
(endurecimento do metal por deformação), os
instrumentos usinados apresentam mais defeitos
superficiais, que funcionam como pontos de concentração
de tensão — isso reduz sua resistência à fratura por torção,
mesmo teoricamente sendo mais resistentes.
CRISTALIZAÇÃO DO METAL
● Torção: mantém os cristais (fibras do metal)
intactos → maior resistência à torção;
● Usinagem: corta os cristais → reduz resistência à
fratura.
A trefilação, usada na preparação inicial dos fios metálicos,
é o processo de puxar o fio por um canal estreito para
reduzir sua espessura.
A. Fabricados por torção. Cristais não são cortados. B.
Fabricados por usinagem. Cristais cortados.
INSTRUMENTOS FARPADOS
● Produzidos com cortes em profundidades variáveis
na superfície do fio, formando farpas ao longo do
instrumento;
● Usados para remoção de tecidos, mas com uso
mais restrito.
NOMENCLATURA
Nomenclatura é o conjunto de termos peculiares de uma
ciência. Na Endodontia a nomenclatura é importante para
padronizar a terminologia empregada para os instrumentos
endodônticos. Ela oferece a cada um que escreve e fala
sobre instrumentos endodônticos a utilização de uma
mesma linguagem. A terminologia proposta para os
instrumentos endodônticos é uma adaptação das normas
da ABNT TB-111 e NB-205, citadas pelo Manual de Brocas e
Furações usadas na Engenharia.
Cabo: É a extremidade pela qual se empunha um
instrumento endodôntico.
Haste de acionamento: É a extremidade para fixação e
acionamento mecânico de um instrumento endodôntico.
Corpo: Parte de um instrumento que se estende desde o
cabo ou haste de acionamento até a extremidade da ponta.
Intermediário: Parte do corpo que se estende do cabo ou
haste de acionamento até a parte de trabalho.
Parte de trabalho: Parte do instrumento que se estende
desde a ponta até o término da haste de corte. Representa
a soma dos comprimentos da ponta e da haste de corte.
Ponta: É o extremo do instrumento com perfil cônico. Pode
apresentar seção reta transversal cilíndrica ou poligonal.
Base da ponta: É a região de passagem da ponta para a
haste de corte do instrumento. Essa passagem pode
ocorrer por meio de um ângulo de transição (ângulo
obtuso) ou de uma curva de transição (arco), para suavizar
a passagem.
Ângulo da ponta: Ângulo sólido formado pelo contorno da
ponta. O vértice do ângulo é sempre voltado para a ponta
do instrumento.
Haste de corte: Porção da parte de trabalho que se
estende da base da ponta até o intermediário. Geralmente,
a forma é cônica. Pode apresentar seção reta transversal
com diferentes formas. É constituída pelas arestas de corte
e pelos canais do instrumento.
Aresta ou fio de corte: É o gume da aresta de corte de
instrumentos cortantes.
Hélice: É a aresta ou fio lateral de corte disposta na forma
helicoidal (hélice) traçada em volta de um cone ou de um
cilindro.
Número de hélices: Número de filetes ou de guias radiais
presente na haste de corte helicoidal de um instrumento.
Canal: É um sulco presente entre as arestas de corte
contíguas na superfície externa da haste de corte de um
instrumento endodôntico. Pode estar disposto na haste de
corte na forma helicoidal ou paralela ao eixo do
instrumento.
Parede ou superfície do canal: É a parede da haste de
corte presente entre as arestas de corte contíguas.
Eixo do instrumento: Linha central na direção axial do
instrumento.
Ângulo agudo de inclinação da hélice: Ângulo agudo
formado pela hélice e o plano contendo o eixo do
instrumento.
Passo da hélice: Distância entre vértices ou cristas de uma
mesma aresta lateral de corte disposta na forma helicoidal
ao longo da direção axial do instrumento. Para
instrumentos com uma aresta ou fio lateral de corte, o
passo da hélice é a distância entre dois vértices ou cristas
consecutivas (exemplo: limas Hedstrom). Para instrumentos
com duas arestas laterais de corte, o passo envolve uma
crista (p. ex., instrumentos Mtwo® e Reciproc®), com três
arestas laterais de corte, envolve duas cristas consecutivas
(p. ex., RaCe®), e, com quatro arestas laterais de corte,
envolve três cristas consecutivas (p. ex., ScoutRaCe® e
ProTaper® Next). O comprimento do passo aumenta com a
diminuição do ângulo agudo de inclinação da hélice.
Guia radial: Superfície cônica em forma helicoidal ou
paralela em relação ao eixo do instrumento imediatamente
posterior à aresta ou ao fio de corte.
Largura da guia: Largura da guia radial medida
perpendicularmente ao ângulo da hélice ou ao eixo do
instrumento. A porção posterior da guia é rebaixada com a
finalidade de reduzir o atrito entre a periferia do
instrumento e a parede do canal radicular.
Núcleo: Parte central da haste de corte de um instrumento
compreendida entre o fundo do canal que se estende
desde a base da ponta até o fim da haste de corte. Pode ser
avaliado por meio da seção reta transversal ou longitudinal
da haste de corte de um instrumento (ferramenta).
PARTES DOS INSTRUMENTOS
Os instrumentos endodônticos são formados pelo cabo ou
haste de acionamento e pelo corpo metálico. O corpo de
um instrumento é formado pelo intermediário e pela parte
de trabalho, sendo esta formada pela ponta e pela haste de
corte.
CABO
Cabo é a parte de um instrumento ou ferramenta que se
empunha ou maneja. O cabo dos instrumentos
endodônticos é fabricado em plástico ou silicone colorido,
conforme a correlação com a numeração padronizada.
Apresenta geometria variável de acordo com o tipo de
instrumento e com o fabricante.
O cabo dos instrumentos endodônticos apresenta forma
bicôncava e deve ter de 10 a 12 mm de comprimento e
diâmetrode 3,0 mm na parte bicôncava e 4,0 mm nas
extremidades.
● O cabo dos instrumentos endodônticos pode
apresentar o topo plano ou arredondado e possuir,
nas paredes laterais, estrias paralelas ou
perpendiculares ao eixo para assegurar melhor
empunhadura do instrumento.
● Os instrumentos endodônticos portadores de cabo
podem ser acionados manualmente ou por
dispositivos mecânicos especiais.
● Para cabos com diâmetros maiores, a força
necessária para girar (movimento de rotação) o
instrumento endodôntico no interior de um canal
radicular é menor. Consequentemente, maiores
serão à percepção tátil e os cuidados do
profissional em relação à anatomia interna do
dente.
HASTE DE ACIONAMENTO
A haste de acionamento dos instrumentos endodônticos
mecanizados é a parte responsável por sua fixação no
contra-ângulo e pelo acionamento por motores elétricos ou
pneumáticos.
● Ela pode ser feita de latão ou liga de alumínio e, na
maioria dos casos, é unida ao corpo do
instrumento por engaste.
● Quando há engasgamento, existe a possibilidade
de a união se soltar durante o uso.
● A haste tem formato cilíndrico, comprimento entre
11 e 15 mm e diâmetro universal de 2,30 mm, o
que permite seu uso em contra-ângulos de
qualquer fabricante.
● Hastes mais curtas são vantajosas para dentes
posteriores em pacientes com abertura bucal
limitada. Nelas, também há anéis coloridos ou
ranhuras que indicam a conicidade da haste de
corte e o diâmetro na ponta (D0), conforme a
norma ISO 1797.
INTERMEDIÁRIO
O intermediário é a parte do corpo metálico do instrumento
endodôntico situado entre o cabo (ou a haste de
acionamento) e a parte de trabalho. Seu tamanho depende
do comprimento total do corpo e da porção ativa do
instrumento.
● Essa região pode conter marcas ou ranhuras que
indicam distâncias específicas a partir da ponta do
instrumento.
● Em instrumentos fabricados por usinagem, o
intermediário normalmente tem formato cilíndrico
contínuo.
● Já nos instrumentos torcidos, essa parte exibe
paredes planas, resultado do aplainamento da
haste metálica originalmente cilíndrica para formar
uma estrutura piramidal.
● Em alguns modelos, como os alargadores
Gates-Glidden e Largo, o intermediário apresenta a
forma de um cone sólido reverso, com o maior
diâmetro voltado para a parte de trabalho.
PARTE DE TRABALHO
Parte de trabalho é a porção do corpo metálico de um
instrumento endodôntico projetada para executar o corte
e/ou a raspagem das paredes dentinárias internas de um
canal radicular. É formada pela ponta e pela haste de corte.
PONTA
A ponta é a extremidade aguçada da parte ativa de um
instrumento endodôntico, também chamada de guia de
penetração. Sua função principal é permitir o avanço do
instrumento pelo canal radicular, influenciando
diretamente na capacidade de corte, direcionamento e
segurança durante a instrumentação. Sua geometria pode
variar significativamente entre os diferentes fabricantes e
até mesmo entre instrumentos de mesmo número e marca,
afetando o desempenho clínico.
Existem dois principais tipos de ponta quanto à forma:
● Ponta cônica piramidal (facetada): tem seção
transversal poligonal (triangular ou quadrangular)
e é produzida por aplainamento. Possui
capacidade de corte e maior penetração, mas
maior risco de desvios e perfurações,
especialmente em canais curvos ou estreitos.
● Ponta cônica circular: tem seção circular e é feita
por torneamento cônico. Não tem ação cortante,
avançando por compressão e esmagamento da
dentina, sendo mais segura para canais curvos.
O vértice da ponta pode ser:
● Pontiagudo: mais perfurante, aumenta o risco de
perfuração;
● Obtuso (arredondado): facilita o deslizamento,
reduz riscos de iatrogenias;
● Truncado: pode levar ao entupimento ou
extravasamento de resíduos em canais estreitos.
A transição entre a base da ponta e a haste de corte
pode ocorrer de duas formas:
● Ângulo de transição (135° a 150°): oferece mais
capacidade de corte, mas aumenta o risco de
fraturas e desvios em canais curvos;
● Curva de transição: permite rotação mais suave,
reduz carga apical e favorece a segurança do
instrumento, sendo preferida em movimentos
alternados ou contínuos.
O ângulo da ponta varia entre 60° e 90°, com a norma
permitindo 75° ± 15°. Quanto menor o ângulo, maior o
comprimento da ponta, o que pode comprometer a limpeza
do terço apical do canal.
O comprimento da ponta é a distância entre seu vértice e a
base, e sua variação afeta o desempenho clínico:
comprimentos maiores, com ângulos menores, penetram
mais facilmente, mas podem comprometer a limpeza. Por
isso, vértices são frequentemente arredondados ou
truncados para reduzir esse comprimento.
HASTE DE CORTE
A haste de corte é o segmento da parte de trabalho do
instrumento endodôntico que possui sulcos visíveis em sua
face externa e que se estende da base da ponta até a região
intermediária do instrumento. Trata-se da parte
responsável pela efetiva ação de corte ou raspagem
durante a instrumentação do canal radicular.
O perfil dessa haste varia de acordo com o tipo de
instrumento endodôntico utilizado. Na maioria das vezes,
apresenta um formato cônico, com o menor diâmetro
voltado para a base da ponta.
● A haste de corte pode ser fabricada por dois
métodos principais: torção ou usinagem de um fio
metálico.
● No primeiro caso, a fabricação se dá por
deformação plástica de uma haste metálica com
forma piramidal cônica e seção transversal
triangular ou quadrangular. Uma das extremidades
dessa haste é imobilizada, enquanto a outra é
submetida a um movimento de torção para a
esquerda. Esse processo gera um padrão helicoidal
característico na superfície do instrumento.
● Por outro lado, os instrumentos fabricados por
usinagem partem de um fio metálico cilíndrico e
utilizam um processo mecânico de roscamento
externo, o qual esculpe os sulcos e arestas
cortantes ao longo da haste. O resultado é uma
superfície sulcada composta pelas arestas ou fios
de corte e pelos canais helicoidais.
ARESTAS OU FIOS DE CORTE
As arestas de corte são estruturas fundamentais da haste
de corte, sendo responsáveis pela incisão e raspagem da
dentina durante o preparo do canal radicular. A principal
característica dessas arestas é o chamado ângulo interno
ou ângulo de cunha. Esse ângulo influencia diretamente a
eficiência e a durabilidade da ação cortante do instrumento.
Quando o ângulo da cunha é menor, isto é, mais agudo, a
penetração da aresta no material se torna mais eficiente,
produzindo cavacos pequenos, o que favorece um
acabamento mais fino na superfície dentinária. A forma
helicoidal é a mais comum, pois favorece o corte contínuo
ao longo do comprimento da haste.
O número de arestas presentes em um instrumento é
identificado por meio da análise da seção transversal da
haste de corte e pode variar de uma a cinco arestas.
SENTIDO DAS HÉLICES
As hélices das hastes de corte geralmente apresentam uma
orientação que vai da direita para a esquerda. Esse é o
sentido predominante na maioria dos instrumentos
endodônticos. Entretanto, há exceções. Instrumentos como
o compactador de guta-percha, a espiral Lentulo®, e os
sistemas mecanizados Reciproc® e WaveOne® apresentam
hélices com sentido inverso, isto é, da esquerda para a
direita.
ÂNGULO DA HÉLICE E PASSO
O ângulo da hélice é um parâmetro crítico que determina a
inclinação das arestas helicoidais em relação ao eixo do
instrumento. Esse ângulo é medido por meio de uma linha
tangente à hélice, formando um ângulo agudo com o plano
que contém o eixo do instrumento. Seu valor não é fixo e
pode variar de acordo com o tipo de instrumento (lima ou
alargador) e o material que será trabalhado. Ele pode ser
constante ao longo da haste de corte ou variar de uma
extremidade à outra.
Com base nesse ângulo, é possível definir três tipos de
passo:
● Passo normal, com ângulo de hélice de
aproximadamente28°;
● Passo longo, com ângulo de aproximadamente 5°;
● Passo curto, com ângulo de aproximadamente 40°.
O ângulo da hélice influencia a função do instrumento.
Quando o ângulo é menor, o instrumento realiza um
alargamento mais eficiente do canal radicular e possui um
passo mais longo. Já ângulos maiores aumentam a
eficiência da limagem ou raspagem, mas encurtam o passo
da hélice. O passo é a distância axial entre duas cristas
consecutivas da mesma hélice.
● Nos instrumentos do tipo K com diâmetros
menores, o ângulo da hélice é progressivamente
crescente da ponta para a base da haste, variando
entre 15° e 55°. Nos instrumentos de diâmetros
maiores, esse ângulo tende a ser constante, em
torno de 45°.
● As limas Hedstrom de números inferiores ao 40
possuem ângulo de hélice que varia entre 40° e
55°, enquanto nos instrumentos de maiores
diâmetros o ângulo médio é de 65°.
● Nos instrumentos mecanizados com rotação
contínua, geralmente empregados como
alargadores, o ângulo da hélice também aumenta
da ponta para a base, variando de 10° a 60°, o que
proporciona um passo variável e ajuda a minimizar
o efeito de roscamento durante a instrumentação.
NÚMERO DE HÉLICES
O número de hélices corresponde à quantidade de filetes
helicoidais presentes ao longo da superfície da haste de
corte. De forma geral, o número de hélices diminui com o
aumento do diâmetro e da conicidade da haste, bem como
com o aumento do passo da hélice. Em contrapartida, o
número de hélices tende a aumentar conforme cresce o
comprimento da haste ou o número de arestas de corte.
CANAL
O canal é o sulco helicoidal que se forma entre duas arestas
de corte contíguas na face externa da haste de corte. Sua
presença é fundamental, pois facilita o transporte de
resíduos (os cavacos dentinários resultantes do corte) em
direção à porção cervical do canal radicular, além de
permitir a penetração e circulação da solução irrigadora até
a região apical.
NÚCLEO
O núcleo é a parte central da haste de corte dos
instrumentos endodônticos, indo da base da ponta ativa
até o final da porção helicoidal. Ele representa a região
sólida ao redor da qual os canais helicoidais se organizam.
Sua forma pode ser:
● Cônica (estreita na ponta),
● Cônica reversa (larga na ponta),
● Cilíndrica (mesmo diâmetro ao longo da haste).
O formato influencia diretamente a flexibilidade do
instrumento: quanto mais espesso o núcleo, mais rígido ele
será. Instrumentos com maior conicidade e núcleo cônico
tendem a ser menos flexíveis, o que aumenta o risco de
desvios e fraturas. Por isso, passaram a ser desenvolvidos
com núcleos cilíndricos ou cônicos reversos, que preservam
a flexibilidade.
O núcleo também afeta a profundidade dos canais
helicoidais:
● Núcleo cônico → profundidade constante.
● Núcleo cilíndrico ou cônico reverso →
profundidade aumenta em direção à base.
Canais mais profundos melhoram a remoção de resíduos e
permitem maior fluxo de irrigante, potencializando sua
ação antimicrobiana.
PERFIL DA SECÇÃO RETA TRANSVERSAL
A seção transversal da haste de corte pode variar entre os
instrumentos e ao longo de um mesmo instrumento. Os
perfis das paredes dos canais helicoidais podem ser:
● Reta,
● Côncava,
● Convexa,
● Sinuosa (côncavo-convexa).
Perfis côncavos ou retos reduzem o diâmetro do núcleo e
aumentam a flexibilidade. Já os convexos e sinuosos
resultam em núcleos mais espessos e rígidos.
Durante o giro (normalmente à direita), cada canal
helicoidal possui duas faces:
● Parede de ataque ou de saída: realiza o corte,
● Parede de folga ou incidência: auxilia no
escoamento de resíduos.
ARESTA DE CORTE
A aresta de corte pode ter dois formatos principais:
● Filete: interseção direta das paredes dos canais.
● Guia radial: pequena estrutura saliente, como um
cone truncado.
A eficiência de corte depende do ângulo da aresta. Quanto
mais afiada (ângulo menor e gume mais fino), maior a
capacidade de corte e raspagem. Mas ângulos muito
agudos podem comprometer a resistência do instrumento.
Mesmo instrumentos com o mesmo diâmetro externo
podem ter núcleos e áreas seccionais diferentes, o que
influencia seu desempenho clínico.
DIMENSÕES DOS INSTRUMENTOS
COMPRIMENTO DOS INSTRUMENTOS
O comprimento útil é a soma da parte de trabalho (mínimo
de 16 mm) com o intermediário, desconsiderando o cabo.
Instrumentos padronizados (ISO 3630-1) têm 21, 25, 28 e
31 mm — os mais usados são os de 21 e 25 mm.
Instrumentos especiais podem ter medidas diferentes (ex:
18, 19, 23 e 27 mm), com variação em todas as partes.
Nos alargadores Gates-Glidden e Largo, o comprimento
total inclui também a haste de acionamento.
Quanto maior a parte de trabalho, maior a flexibilidade e
menor a resistência à flambagem, dificultando o avanço em
canais estreitos ou curvos.
DIÂMETRO EXTERNO
O diâmetro da ponta ativa é chamado D0 e representa o
início da conicidade do instrumento. Já D16 indica o
diâmetro 16 mm acima de D0.
Os instrumentos ISO têm numeração baseada em D0, que
varia entre 0,06 mm (nº 06) e 1,40 mm (nº 140), com
tolerâncias dimensionais de ±0,02 mm (até nº 60) e ±0,04
mm (acima disso). Estão organizados em 4 séries: especial
(06 a 10), primeira (15 a 40), segunda (45 a 80) e terceira (90
a 140).
A diferença percentual entre instrumentos consecutivos
pode dificultar a progressão, especialmente entre os de
menor calibre, exigindo mais força e podendo causar
deformações ou fraturas.
Instrumentos com maior diâmetro em D0 são mais rígidos e
resistentes à flambagem e torção. Já os mais delgados são
mais flexíveis, mas menos resistentes à fratura por
compressão.
CONICIDADE
Define o quanto o instrumento aumenta de diâmetro por
milímetro (mm/mm) da parte ativa.
A conicidade padrão é de 0,02 mm/mm, o que representa
um aumento de 0,32 mm da ponta (D0) até D16.
Instrumentos mecanizados de NiTi podem ter conicidades
maiores (0,04 a 0,12) ou até variáveis ao longo da haste
(crescentes ou decrescentes).
Maior conicidade → mais rigidez e resistência à torção.
Menor conicidade → mais flexibilidade e resistência à
fadiga por flexão.
EXTIRPA - POLPA
● Formato: Pequenas hastes metálicas, suavemente
cônicas, com farpas circulares levantadas da
própria haste;
● Cabo: Plástico ou metálico, colorido, com 10 mm
de comprimento e 3 mm de diâmetro.
Características Técnicas
● Farpas: Mínimo de 36, com tamanho equivalente à
metade do diâmetro da haste;
● Comprimento total: Mínimo de 20 mm;
● Parte ativa: 10,5 mm ± 1,5 mm;
● Conicidade: Variável de 0,007 a 0,010 mm/mm;
● Não seguem a padronização ISO dos demais
instrumentos.
Modo de Uso
● Manual, com três etapas:
1. Penetração até o terço apical;
2. Rotação (1 a 2 voltas, horário ou
anti-horário);
3. Tração em direção cervical.
Indicação Principal
● Remoção da polpa dentária hígida, especialmente
em cavidades amplas;
● Contraindicado em rizogênese incompleta (risco de
tracionar tecido perirradicular) e canais atresiados.
Precauções
● Explorar previamente o canal com instrumento
tipo K delgado;
● Nunca forçar o instrumento no canal — farpas
podem se prender, causando fratura do dente ou
do próprio extirpa-polpas.
Usos Adicionais
● Remoção de detritos soltos, bolinhas de algodão
ou cones de papel com medicação intracanal.
INSTRUMENTOS TIPO - K
São fabricados a partir de fios metálicos de aço inoxidável
ou de NiTi. A forma final dos instrumentos tipo K é obtida
empregando-se a torção ou a usinagem.
Objetivos: ampliação, modelagem e limpeza de um canal
radicular durante a instrumentação.
O cabo dos instrumentos tipo K é bicôncava e tem de 10 a
12 mm de comprimento e diâmetro de 3 mm na parte
bicôncava e 4 mm nas extremidades.
O intermediário dos instrumentos tipo K apresenta
tamanho variável em função do comprimento do corpo e
da parte de trabalho do instrumento endodôntico.
A ponta dos instrumentos tipo K se apresenta como afigura
geométrica de um cone. Pode ser classificada como cônica
circular ou piramidal (facetada). A extremidade da ponta
pode ser pontiaguda, obtusa (arredondada) ou truncada. O
ângulo da ponta é de 75 graus ± 15 graus. Quanto menor o
ângulo, maior o comprimento da ponta. A passagem da
base da ponta para a haste de corte helicoidal cônica pode
apresentar ângulo de transição ou curva de transição.
Instrumentos tipo K com pontas cônicas piramidais e
vértices pontiagudos não devem ser empregados em canais
radiculares curvos pelo fato de promoverem maior
incidência de desvios e perfurações radiculares. Pontas
cônicas circulares e vértices obtusos facilitam o
deslizamento do instrumento nas irregularidades das
paredes dos canais radiculares e reduzem o risco de
iatrogenias.
1. Ponta do Instrumento
● Forma ideal para esvaziamento: cônica circular,
vértice arredondado (obtuso).
● Vértice pontiagudo: maior capacidade perfurante.
● Vértice truncado: risco de entupimento e
extravasamento apical.
● Curva de transição (não ângulo): evita transporte
apical e fratura por torção.
2. Haste de Corte
● Formato: helicoidal cônica, com base voltada ao
intermediário.
● Disposição das hélices: oblíqua, da direita para a
esquerda.
● Ângulo das hélices: varia de 15º a 55º,
aumentando da ponta ao intermediário.
● Seção transversal: triangular (Flex) ou
quadrangular.
3. Características da Seção Transversal
● Triangular:
○ 3 arestas de corte (ângulo interno ≈ 60°).
○ Maior capacidade de corte e flexibilidade.
○ Maior área e volume de furo.
○ Suporta maior deformação plástica antes
da fratura.
● Quadrangular:
○ 4 arestas de corte (ângulo interno = 90°).
○ Maior resistência ao torque.
○ Menor flexibilidade, maior rigidez.
4. Movimentos Possíveis
● Limação manual.
● Alargamento parcial:
○ Alternado (reciprocante):
■ Triangular: 120° à direita.
■ Quadrangular: 90° à direita.
○ Unidirecional à direita.
5. Diâmetros e Comprimentos
● Conicidade: 0,02 mm/mm (padrão).
● Comprimentos úteis: 21, 25, 28, 31 mm (mais
comuns: 21 e 25 mm).
● Numeração: 06 a 140 (D0 em centésimos de mm).
○ Séries: especial (06–10), primeira (15–40),
segunda (45–80), terceira (90–140).
6. Fabricação
● Por torção: melhor integridade estrutural, menos
defeitos.
● Por usinagem: mais defeitos superficiais, menor
resistência à fratura.
7. Considerações Clínicas
● Flexibilidade: maior em instrumentos
triangulares, menor em quadrangulares.
● Inspeção constante: observar deformações
plásticas (alerta de fratura iminente).
● Instrumentos de NiTi: mais flexíveis que os de
aço inoxidável.
● Profundidade do canal helicoidal: maior nos
triangulares → melhor transporte de detritos e
irrigação.
LIMAS TIPO HEDSTRONE
1. Material e Fabricação
● Fabricadas por usinagem a partir de fio metálico
circular (aço inoxidável).
● Apresentam maior número de defeitos
superficiais comparadas às limas torcidas.
2. Dimensões
● Comprimentos úteis: 21, 25, 28 e 31 mm (mais
usadas: 21 e 25 mm).
● Números: 08 a 140.
● Parte ativa: mínimo de 16 mm, com conicidade
de 0,02 mm/mm.
3. Geometria de Corte
● Corte helicoidal com uma única aresta lateral
(em forma de vírgula).
● Hélices sobrepostas, com base voltada para o
cabo.
● Apresentam entre 18 a 22 hélices.
● Inclinação das hélices:
○ Diâmetros até nº 40: 40° a 55°.
○ Diâmetros maiores: média de 65°.
● Ângulo de corte da aresta helicoidal: ~42°.
4. Ponta
● Formato: cônica circular aguda.
● Ângulo da ponta: varia de 30° a 90°, dependendo
da marca.
5. Movimento e Aplicação Clínica
● Movimento indicado: limagem (exclusivamente).
● Alta capacidade de corte (efeito “lâmina de
raspagem”).
● Ideal para:
○ Segmentos achatados.
○ Desgaste anticurvatura.
● Maior rigidez = maior eficiência de raspagem.
FABRICANTE Maillefer, VDW, FKG
LIGA METÁLICA Aço inoxidável
FABRICAÇÃO Usinagem
PONTA Cônica circular
SECÇÃO RETA
TRANSVERSAL
Forma de gota ou vírgula
CONICIDADE Constante de 0,02 mm/mm
COMPRIMENTO 21 – 25 – 28 – 31 mm
NÚMEROS (DIÂMETROS) 08 a 140
PARTE DE TRABALHO 16 mm
MOVIMENTO Limagem
ACIONAMENTO Manual
INDICAÇÃO Instrumentação de
segmentos achatados de
canais radiculares
Desgaste anticurvatura
Consideração mecânica: Grande capacidade de limagem e
resistência a fratura por tração. Não devem ser acionadas
girando no interior de um canal radicular.
INSTRUMENTOS ENDODÔNTICOS ESPECIAIS DE NITI
MECANIZADOS PARA O RETRATAMENTO DE CANAIS
1. Finalidade
● Projetados exclusivamente para remoção de
material obturador.
● Não indicados para reinstrumentação de canais.
● Evitam contato direto com a dentina → diminuem
riscos de desvios e perfurações.
2. Seleção Adequada
● Deve-se usar instrumentos com diâmetro menor
que o do preparo original.
● Garante atuação apenas sobre o material
obturador, e não sobre as paredes do canal.
3. Riscos do Uso Incorreto
● Fratura por: Torção/ Fadiga cíclica.
● Possibilidade de: Perfurações/ Desvios do canal.
4. Técnica Recomendada (Somma et al.)
● Combinação mecânico + manual é mais eficaz:
1. Inicial: Instrumentos mecanizados →
retiram a maior parte.
2. Complementar: Instrumentos manuais
→ finalizam a limpeza.
5. Uso sem Solventes
● Atrito mecânico gera calor suficiente para
plastificar a guta-percha.
● Isso permite:
○ Avanço apical do instrumento.
○ Remoção do material obturador pela
espiral helicoidal do instrumento até a
câmara pulpar.
6. Eficiência de Limpeza
● Estudos mostram: sem diferenças significativas
entre uso manual e mecanizado quanto à limpeza
da dentina.
INSTRUMENTOS ENDODÔNTICOS ESPECIAIS DE NITI
MECANIZADOS
1. Conceito e Movimento
● São acionados por motores (elétricos ou
pneumáticos) em giro contínuo ou reciprocante;
● Realizam alargamento do canal e não limagem, por
isso não são considerados “limas”;
● Chamados de alargadores helicoidais cônicos.
2. Estrutura dos Instrumentos
● Haste de acionamento: metálica (liga de latão,
cobre e zinco), com comprimento de 15 mm (ou
menores para acesso facilitado). Diâmetro
universal: 2,30 mm;
● Intermediário: entre haste e parte ativa, com
ranhuras que indicam medidas;
● Ponta: cônica circular, com extremidade
arredondada ou truncada e curva de transição que
evita travamento e fraturas;
● Haste helicoidal de corte: cônica, com hélices
obtidas por usinagem ou torção;
● Direção das hélices: geralmente da direita para
esquerda.
3. Características Técnicas
● Arestas de corte: em forma de filete ou guia radial
(centraliza o instrumento e reduz atrito e calor);
● Ângulo das hélices: variável (15º a 35º).
● Núcleo:
○ Cônico, cônico invertido ou cilíndrico;
○ Influencia profundidade dos canais
helicoidais e flexibilidade.
● Seção transversal da haste de corte:
○ Pode ser constante ou variar ao longo do
comprimento;
○ Perfis: côncavo, convexo, sinuoso ou reto.
● Menor núcleo → mais flexibilidade e remoção de
detritos, porém menor resistência à torção.
4. Tamanhos e Conicidades
● Números: 15 a 60;
● Comprimentos: 18, 21, 25, 31 mm;
● Conicidades: 0,02 a 0,12 mm/mm;
● Menor número/conicidade → maior flexibilidade;
● Maior número/conicidade → maior rigidez
5. Cuidados no Uso
● Evitar uso de poucos instrumentos para todo o
preparo — deve-se adaptar a instrumentação à
anatomia do canal;
● Requerem tração curta para evitar empurrar
detritos para o ápice;
● Instrumento deve ser frequentemente limpo em
gaze umedecida.
Exemplo – Instrumento RaCe® (FKG Dentaire, Suíça)
● Liga: NiTi convencional;
● Fabricação: Usinagem + tratamento eletroquímico;
● Movimento: Giro contínuo;
● Ponta: Cônica circular com curva de transição;
● Seção transversal: Triangular ou quadrangular;
● Conicidades: 0,02 / 0,04 / 0,06 mm/mm
● Comprimentos: 21, 25, 31 mm;
● Parte ativa: 16 mm;
● Diferencial: Arestas alternadas
(longitudinal/oblíqua),reduzindo roscamento e
fratura;
● Acessório: Disco de silicone (SMD) para controle de
número de usos.
ALARGADORES GATTES GLIDDEN
1. Definição e Finalidade
● Instrumento alargador, não é considerado broca
(broca corta na ponta; alargador amplia um furo já
existente);
● Utilizado para alargamento do terço cervical dos
canais radiculares, promovendo melhor acesso,
retidão e limpeza;
● Acionado por motor (instrumento mecanizado).
2. Características Técnicas
● Numerado de 1 a 6:
○ Diâmetros nominais: 0,50 – 0,70 – 0,90 –
1,10 – 1,30 – 1,50 mm.
● Comprimentos disponíveis:
○ Corpo (parte ativa): 15 mm ou 19 mm;
○ Haste de acionamento: 13 mm;
○ Comprimentos totais: 28 mm ou 32 mm.
● Material: Aço inoxidável, obtido por usinagem.
3. Estrutura
● Composto por duas hastes de diâmetros
diferentes:
○ Haste de acionamento (maior diâmetro):
cilíndrica, conecta-se ao motor;
○ Haste ativa (menor diâmetro): corpo do
instrumento;
○ A transição entre elas é feita por um raio
de concordância (adoçamento), que evita
concentração de tensões e fraturas.
4. Ponta do Instrumento
● Cônica circular, não cortante, com vértice truncado;
● Apresenta:
○ Ângulo maior (bisel): ~60°;
○ Ângulo posterior: ~20°.
● Transição da ponta para a haste é feita
suavemente, evitando ângulos abruptos.
5. Parte de Trabalho (Haste de Corte)
● Curta, formato elíptico;
● Composta por:
○ Arestas de corte: 3, igualmente espaçadas
(120°), em forma de hélice anti-horária
com inclinação de ~10°;
○ Dispostas longitudinalmente a partir da
ponta e depois em oblíquo;
○ Evita efeito de roscamento.
● Canal helicoidal:
○ Curto, perfil côncavo, profundidade
acentuada;
○ Seção transversal: tríplice U, com três
canais e três arestas;
○ Guia radial rebaixada (superfície de folga):
reduz atrito, evita travamento e
superaquecimento;
○ Ângulo interno da aresta de corte: agudo,
da
instrumentação, à confecção de um canal de formato
cônico com o menor diâmetro apical e o maior em nível
coronário. Esse formato cônico obtido, também chamado
canal cirúrgico, deve, obrigatoriamente, conter em seu
interior o canal anatômico. Esse objetivo é, geralmente,
facilmente logrado em canais retos.
Em canais curvos, a ampliação do volume acompanhado do
desenvolvimento de um formato cônico e a permanência
da forma original do canal em sua posição original são
tarefas difíceis de serem alcançadas.
O resultado final da instrumentação de um canal curvo
pode ser influenciado por vários fatores, tais como:
● valor do raio de curvatura do canal;
● localização da curvatura;
● comprimento do arco;
● desenho da haste de corte;
● flexibilidade e diâmetro do instrumento
endodôntico;
● tipo do movimento empregado;
● técnica de instrumentação;
● localização da abertura foraminal, dureza da
dentina e da natureza da liga metálica dos
instrumentos endodônticos.
1. Acidentes Comuns em Canais Curvos: Degraus,
Perfurações, Deslocamentos apicais (internos ou externos).
2. Soluções Tecnológicas
● Novas ligas de NiTi: M-Wire, Fase R, Memória
Controlada.
○ Maior elasticidade/ Menor risco de
fratura/ Maior resistência à
deformação.
● Geometria aprimorada:
○ Seções transversais modificadas/ Pontas
ativas reformuladas/ Variações no D0,
conicidade e comprimento de trabalho.
3. Técnicas de Alargamento
● Alargamento parcial à direita;
● Alargamento parcial alternado (reciprocante);
● Alargamento contínuo.
Reduzem significativamente o risco de acidentes.
4. Critérios clínicos (não confiáveis) para avaliar
preparo: Raspas dentinárias limpas/ Irrigação translúcida/
Paredes com tato liso e uniforme.
5. Quando considerar o preparo completo
● Planejamento executado corretamente, com:
○ Diâmetros e conicidades compatíveis com
a anatomia.
○ Substâncias químicas com ação solvente e
antimicrobiana.
○ Irrigação e aspiração eficazes.
○ Movimento apropriado do instrumento.
6. Limitações do preparo químico-mecânico
● Não alcança toda a anatomia do canal.
● Instrumentos atuam apenas no lúmen principal e
áreas adjacentes.
● Não alcançam: Istmos; Reentrâncias; Ramificações
apicais e laterais.
● Consequência: resíduos e bactérias podem
permanecer.
Desinfecção e limpeza
A desinfecção e limpeza do sistema de canais radiculares
visa à eliminação de irritantes como bactérias, seus
produtos e tecido pulpar vivo ou necrosado, criando um
ambiente propício para a reparação dos tecidos
perirradiculares.
O objetivo de desinfecção se aplica somente aos casos de
necrose e de retratamento, em que geralmente há infecção
do sistema de canais radiculares, uma vez que a lesão
perirradicular é causada e mantida por bactérias infectando
o sistema de canais radiculares. Consequentemente, a
prevenção (em biopulpectomia) e o controle da infecção (na
necropulpectomia) são cruciais para o sucesso do
tratamento.
Durante o preparo químico-mecânico, a limpeza é lograda
pela ação mecânica dos instrumentos endodônticos junto
às paredes do canal radicular principal e ao fluxo e refluxo
da solução irrigadora. Aliada a essa ação mecânica, uma
ação química de limpeza e desinfecção do sistema de
canais é obtida pelo emprego de soluções químicas
auxiliares de instrumentação.
Essas soluções devem idealmente ser dotadas de
propriedades solventes de matéria orgânica e de atividade
antimicrobiana. Também devem apresentar baixa tensão
superficial e baixa viscosidade (grande molhabilidade).
A limpeza é complementada pela remoção de detritos no
interior do canal radicular. Esta é feita pelo canal helicoidal
dos instrumentos endodônticos e pela irrigação-aspiração.
A ação antimicrobiana da solução química auxiliar é a
responsável pela desinfecção do sistema de canais
radiculares em casos de necrose e de retratamento,
enquanto em dentes com polpa viva ela pode ser
importante em prevenir a contaminação dos canais.
MOVIMENTO DOS INSTRUMENTOS ENDODÔNTICOS
Durante a instrumentação dos canais radiculares, os
instrumentos endodônticos podem promover:
● o desgaste da dentina (ampliação do canal
radicular) por meio dos movimentos de limagem,
● alargamento parcial à direita,
● alargamento contínuo,
● alargamento reciprocante ou alternado aplicados a
eles, obtidos manualmente ou por dispositivos
mecânicos.
O movimento de alargamento ou limagem está relacionado
com a geometria da parte de trabalho, a resistência
mecânica do instrumento e a anatomia dos segmentos de
canais radiculares.
É importante ressaltar que, durante a instrumentação de
um canal radicular, temos como objetivo a sua ampliação
(aumento de volume) e a sua modelagem, que podem ser
alcançadas por meio do movimento de alargamento ou de
limagem.
MOVIMENTO DE REMOÇÃO
É usado para tirar polpa
dentária, detritos, algodão ou
cones de papel. Consiste em
avançar o instrumento no canal, girar 1-2 voltas à direita e
puxar em direção à coroa. Não serve pra modelar, apenas
esvaziar parcialmente. Os instrumentos mais usados são
extirpa-polpas, limas tipo K e H, geralmente manuais.
MOVIMENTO DE EXPLORAÇÃO
Serve para conhecer a anatomia
interna do canal e determinar a
odontometria. Usa-se instrumentos
tipo K de aço inoxidável, com pequenos
avanços apicais e rotações leves
(direita/esquerda), sem necessidade de pré-curvamento.
Ideal para canais amplos e no início da instrumentação.
MOVIMENTO DE ALARGAMENTO
O movimento de alargamento tem como finalidade ampliar
o diâmetro interno do canal radicular. É executado com
alargadores manuais ou mecanizados, como limas tipo K
ou instrumentos rotatórios, que giram e avançam
simultaneamente, removendo dentina em forma de
cavacos, os quais devem ser eliminados por irrigação
eficiente e pelo transporte promovido pelo próprio
instrumento.
Fatores determinantes da eficiência do alargamento:
1. Ângulo de inclinação da hélice: Quanto menor,
maior a eficiência de corte.
2. Ângulo da cunha ou aresta lateral de corte:
Cunhas com ângulo interno menor e vértice mais
agudo promovem maior ação cortante.
3. Dureza relativa entre instrumento e dentina:
Instrumentos mais duros cortam com mais
facilidade.
4. Velocidade do movimento (avanço e rotação):
Velocidades mais altas reduzem o tempo de
trabalho, mas exigem controle rigoroso para
evitar acidentes.
Considerações clínicas:
● Em canais curvos, é essencial manter o
instrumento dentro do seu limite elástico para
evitar deformações plásticas ou fraturas.
● Para esses casos, recomendam-se: Instrumentos
triangulares de aço inoxidável nos calibres 15 a
25; Instrumentos de NiTi, devido à maior
flexibilidade, adaptando-se melhor à curvatura
dos canais sem deformação.
MOVIMENTOS DE ALARGAMENTO ENDODÔNTICO -
COMPARATIVO
Parcial (à direita)
● Descrição: Movimento
rotatório que avança
parcialmente no sentido
horário, seguido de recuo;
● Instrumentos Utilizados: Instrumentos manuais
(ex: limas tipo K ou Hedström);
● Ângulo de Rotação: Rotação parcial à direita
(horária) + retirada;
● Risco de fratura: Menor que rotação contínua, mas
pode ocorrer;
● Implicações clínicas: Requer tato apurado; útil para
controle em canais estreitos ou curvos.
Alternado (Reciprocante)
● Descrição: Movimento
oscilatório: gira em um sentido e
depois no outro;
● Instrumentos Utilizados: Limas
reciprocantes (ex: Reciproc,
WaveOne);
● Ângulo de Rotação: Maior ângulo antihorário (ex:
150°) e menor horário (ex: 30°);
● Risco de fratura: Baixo, menor fadiga cíclica
● Implicações clínicas: Boa segurança contra fratura;
preserva mais estrutura dentinária.
Contínuo
● Descrição: Movimento rotatório
constante no sentido horário;
● Instrumentos Utilizados: Limas
rotatórias contínuas (ex:
ProTaper, K3);
● Ângulo de Rotação: Rotação de 360° contínua,
geralmente em torno de 300 rpm;
● Risco de fratura: Maior fadigacíclica e risco de
fratura;
● Implicações clínicas: Rápido e eficiente; exige
irrigação rigorosa e atenção a curvaturas.
MOVIMENTO DE LIMAGEM (RASPAGEM)
O movimento de limagem, ou raspagem, é um dos
principais movimentos manuais empregados na
instrumentação endodôntica. Consiste em um movimento
mecânico alternado longitudinal, realizado com limas,
que promove a remoção seletiva de dentina das paredes
do canal radicular.
Características do movimento:
● Movimento alternado, curto e linear, com
amplitude de 1 a 5 mm.
● Frequência baixa: cerca de 1 a 2 ciclos por
segundo.
● A remoção de dentina ocorre na fase de tração,
e não no avanço.
● O instrumento deve ter diâmetro compatível com o
canal, mas sem se prender, permitindo liberdade
no avanço.
Tipos de limagem:
● Circundante: tração oblíqua aplicada de forma
uniforme ao redor do canal, evita sulcos e amplia o
contorno.
● Anticurvatura: desgaste seletivo na parede oposta
à curvatura do canal (zona de segurança), evita
perfurações cervicais.
Considerações clínicas:
● Atingindo um ponto de justeza, recomenda-se
reduzir o comprimento de trabalho em até 2
mm.
● Contraindicada no preparo apical, por dificultar
controle da força, frequência e amplitude,
podendo causar transporte apical e extrusão de
debris.
● A forma resultante tende a ser elipsoide e
irregular, o que pode dificultar a adaptação do
cone de guta-percha.
Fatores que influenciam a eficiência:
1. Ângulo de hélice: acima de 45°, favorece a ação de
limagem.
2. Gume de corte agudo: aumenta a eficiência, mas
reduz a durabilidade.
3. Dureza do material do instrumento: quanto
maior que a dentina, mais eficiente a raspagem.
4. Rigidez: aumenta a remoção dentinária; é maior
em instrumentos calibrosos.
Instrumentos recomendados:
● Limas tipo K e Hedstrom de aço inoxidável:
eficazes para limagem.
● Limas tipo K de NiTi calibres 08 a 25: muito
flexíveis, pouco efetivas nesse movimento.
● Tipo K de NiTi a partir do n° 30: maior rigidez,
podem ser usados.
● Hedstrom de NiTi: não recomendadas, devido à
superelasticidade que compromete a raspagem.
Segurança e riscos:
● Segura contra fratura por tração, quando bem
executada.
● Risco de fratura por torção caso o instrumento
gire inadvertidamente em um canal estreito e fique
preso.
CLASSIFICAÇÃO DOS CANAIS RADICULARES
1. Quanto à anatomia
Os canais radiculares podem variar em número, forma,
tamanho, e apresentar divisões e fusões. A cavidade pulpar
é um sistema complexo, que inclui canais principais,
acessórios, laterais, secundários e delta apical.
Na maioria dos casos, as lesões perirradiculares estão
associadas ao canal principal, pois os canais acessórios e
ramificações geralmente não possuem volume suficiente
para sustentar infecções significativas.
A forma da seção transversal do canal varia ao longo do seu
comprimento:
● Cervical: circular ou achatada (vestíbulo-lingual ≥ 2x
mésio-distal);
● Apical: circular ou levemente achatada.
A qualidade do preparo está diretamente relacionada à
geometria da seção transversal, devendo respeitar a
morfologia original do canal.
2. Quanto ao diâmetro
A classificação se baseia na compatibilidade com
instrumentos tipo K:
● Amplo: compatível com lima ≥ n.º 35;
● Mediano: entre as limas n.º 20 e 30;
● Atresiado (ou constrito): compatível com lima ≤ n.º
15.
3. Quanto à direção
● Retilíneo: canal em linha reta;
● Curvilíneo: canal com curva em parte ou em todo o
seu comprimento (mais comum no terço apical).
As curvaturas são, geralmente, mais acentuadas no sentido
mésio-distal e devem ser analisadas com base no:
● Raio de curvatura ®;
● Comprimento do arco;
● O ângulo isolado não é um parâmetro confiável,
pois diferentes raios podem gerar arcos distintos
com o mesmo ângulo;
● Maior raio → maior resistência à fadiga do
instrumento;
● Maior arco → menor resistência à fadiga
Assim, a curvatura deve ser quantificada pelo raio e
comprimento do arco, e não apenas pelo ângulo de
curvatura.
Classificação das Curvaturas
As curvaturas dos canais radiculares podem ser
classificadas de acordo com o valor do raio:
● Curvaturas suaves: quando o raio é igual ou maior
que 20 mm;
● Curvaturas moderadas: quando o raio é maior que
10 mm e menor que 20 mm;
● Curvaturas acentuadas: quando o raio é igual ou
menor que 10 mm.
Importância Clínica
A resistência à fratura por fadiga de um instrumento
endodôntico depende diretamente do raio da curvatura, do
comprimento do arco e da localização da curva no canal.
● Curvaturas com raio menor e arco mais longo
geram maior concentração de tensões, reduzindo a
vida útil do instrumento;
● Quando a curvatura está mais próxima do
segmento cervical, as tensões aplicadas ao
instrumento são ainda mais intensas;
● O número de ciclos até a fratura por fadiga diminui
conforme aumentam essas tensões.
Vale lembrar que essa análise é feita com base em imagens
radiográficas bidimensionais com instrumentos tipo K nº 10
inseridos nos canais. Por isso, os valores obtidos são
relativos, pois a curvatura verdadeira ocorre em três
dimensões. A projeção radiográfica pode não representar
fielmente a anatomia real do canal, e pequenas variações
na angulação do feixe de raios X alteram a imagem
observada.
Além disso, é importante considerar que alguns canais
apresentam curvaturas duplas. Nestes casos, o preparo
apical pode se desviar em diferentes direções, como para
distal, diferentemente dos canais com curvatura simples,
onde o desvio geralmente é para mesial.
Classificação dos Canais Radiculares para Fins Clínicos
Os canais radiculares, considerando seu diâmetro e
curvatura, podem ser classificados em quatro classes:
● Classe I: canais amplos ou medianos, retos ou com
curvatura suave (raio igual ou maior que 20 mm). A
exploração do canal até a abertura foraminal é
geralmente fácil;
● Classe II: canais atresiados com curvatura
moderada (raio entre 10 e 20 mm). Apesar do
calibre reduzido, o acesso até a abertura foraminal
ainda é possível;
● Classe III: canais atresiados com curvatura
acentuada (raio igual ou menor que 10 mm). O
acesso até a abertura foraminal é bastante difícil;
● Classe IV: canais com anatomias atípicas, como
casos de dupla curvatura ou dilaceração radicular.
Esses casos apresentam grande complexidade e
não se enquadram nas classes anteriores.
LIMITE APICAL DE INSTRUMENTAÇÃO
1. Importância e Controvérsia Clínica
O limite apical de instrumentação refere-se ao ponto mais
apical que os instrumentos devem alcançar durante o
preparo do canal radicular. Apesar de envolver diferenças
milimétricas, esse limite tem grande importância, pois
influencia diretamente o sucesso do tratamento
endodôntico no longo prazo.
● Dor pós-operatória não costuma ser afetada por
variações pequenas do limite apical, exceto nos
casos de sobreinstrumentação ou sobreobturação,
que podem causar maior incidência de sintomas.
2. Diferenças Entre Situações Clínicas
O limite apical deve considerar a presença ou não de
infecção, já que as estratégias de tratamento variam
conforme o caso:
● Polpas vitais: são livres de infecção mesmo quando
expostas. O tratamento visa remover o tecido
inflamado sem disseminar irritantes;
● Polpas necrosadas: apresentam infecção, mesmo
na ausência de lesão visível na radiografia. Devem
ser sempre tratadas como contaminadas;
● Retratamentos: geralmente associados a infecções
persistentes ou secundárias, com microrganismos
mais resistentes.
Essas diferenças determinam o número de sessões, a
intensidade da desinfecção e o limite ideal da
instrumentação.
3. Região Apical: Zona Crítica
A porção apical do canal radicular é a área de maior
importância para limpeza, desinfecção e selamento.
● Contém o canal principal apical, o forame apical e
várias ramificações;
● Essas estruturas colocam o sistema de canais em
íntimo contato com os tecidosamplamente adotada.
● ND: número do dente; R: raiz; O: orifício;
● C: canal;
● F: forame;
● Apenas 1 número é informado caso O=C=F; use a
barra ‘/’ para indicar raízes fusionadas.
TIPO DO DENTE CÓDIGO
Unirradicular 1NDO-C-F
Birradicular 2ND R1O-C-F R2O-C-F
Multirradicular nND R1O-C-F R2O-C-F
RnO-C-F
CANAIS ACESSÓRIOS
Os canais acessórios são pequenas ramificações que
conectam o canal principal do dente à superfície externa da
raiz, enquanto os canais laterais são um subtipo localizado
nos terços cervical ou médio da raiz, geralmente se
estendendo horizontalmente. Eles se formam durante o
desenvolvimento radicular, possivelmente em regiões onde
a bainha epitelial de Hertwig se rompe antes da
diferenciação dos odontoblastos, ou em locais com vasos
colaterais que impedem a mineralização.
Esses canais são clinicamente importantes porque
permitem a passagem de irritantes da polpa necrosada
para o periodonto, o que pode dificultar o sucesso do
tratamento endodôntico, já que são difíceis de acessar,
limpar e obturar. A prevalência e a localização desses canais
variam conforme o grupo dentário. A maioria dos canais
acessórios se encontra no terço apical da raiz, com
percentuais variando devido ao método de análise
utilizado, sendo os pré-molares e molares os dentes mais
frequentemente afetados.
Radiograficamente, os canais acessórios geralmente não
são visíveis, mas sua presença pode ser suspeitada em
casos de espessamento do ligamento periodontal ou lesões
laterais na raiz. Seu diâmetro costuma ser muito menor que
o do forame apical (de 10 a 200 µm), o que limita a difusão
de irritantes, exceto quando o canal acessório for de maior
calibre. Isso explica por que lesões laterais são menos
comuns que lesões periapicais.
Na prática clínica, a instrumentação direta desses canais é
praticamente impossível. A descontaminação depende da
irrigação com soluções antimicrobianas e dissolventes de
matéria orgânica, podendo ser complementada com
medicação intracanal. Ainda assim, evidências histológicas
mostram que restos de tecido pulpar ou microrganismos
podem persistir nessas áreas, o que reforça a importância
de técnicas eficazes de limpeza química durante o
tratamento endodôntico.
ISTMOS
Os istmos representam um desafio anatômico significativo
nos tratamentos endodônticos por serem faixas estreitas
de tecido que conectam dois ou mais canais radiculares,
especialmente comuns em dentes posteriores. Mesmo após
o preparo químico-mecânico, estudos mostram que essas
regiões frequentemente mantêm tecido necrosado e
biofilmes, evidenciando a limitação dos métodos
convencionais de desinfecção.
A morfologia e prevalência dos istmos variam conforme o
tipo de dente, o nível da raiz e a idade do paciente. Seu
conhecimento é fundamental tanto em procedimentos
endodônticos convencionais quanto cirúrgicos.
Hsu e Kim propuseram uma classificação com cinco tipos
de istmos:
● Tipo I: dois canais sem comunicação visível;
● Tipo II: conexão extremamente estreita entre dois
canais;
● Tipo III: semelhante ao tipo II, mas com três canais;
● Tipo IV: canais que se estendem para dentro da
área do istmo
● Tipo V: conexão larga entre dois canais principais.
Complementariamente, Fan et al., utilizando
microtomografía computarizada (micro-TC), identificaram
quatro configurações adicionais na raiz mesial de molares
inferiores:
● Tipo I (conexão em folha): conexão estreita e
completa entre os canais ao longo de toda a raiz,
com possíveis fusões de dentina;
● Tipo II (conexão dividida): conexão incompleta
entre os canais;
● Tipo III (conexão mista): combinação de istmos
completos e incompletos em diferentes níveis da
raiz;
● Tipo IV (conexão em cânula): comunicação estreita
semelhante a uma cânula.
Na prática clínica, os istmos dificultam a ação das soluções
irrigantes, pois detritos gerados durante o preparo tendem
a se acumular nessas áreas inacessíveis, comprometendo a
desinfecção e o sucesso do tratamento. No entanto, o uso
de recursos modernos, como sistemas de magnificação e
técnicas de irrigação ultrassônica, tem possibilitado uma
limpeza mais eficaz dos istmos, contribuindo para melhores
resultados clínicos.
CANAIS EM C
Os canais em forma de C constituem uma variação
anatômica caracterizada por seu formato semelhante à
letra “C” quando observados em cortes transversais da raiz.
Sua principal particularidade é a presença de um ou mais
istmos que conectam os canais individuais ao longo de toda
a raiz, o que torna a limpeza e a desinfecção especialmente
difíceis. Detritos e material orgânico podem permanecer
nesses espaços mesmo após o preparo químico-mecânico,
comprometendo o sucesso do tratamento endodôntico.
Essa configuração é mais comum em dentes com raízes
fusionadas, sendo observada principalmente nos segundos
molares inferiores e, em menor escala, nos primeiros
pré-molares. A prevalência varia conforme a população
estudada, sendo significativamente maior entre pacientes
asiáticos. Em molares superiores, a presença de canais em
C é considerada rara (menos de 1%), embora estudos com
microtomografia computadorizada (micro-TC) tenham
identificado essa morfologia em até 22% dos segundos
molares superiores com raízes fusionadas.
O diagnóstico pré-operatório dessa anatomia é desafiador,
especialmente quando baseado apenas em radiografias
convencionais, que frequentemente não revelam a
verdadeira complexidade do sistema de canais. Portanto,
exames mais avançados, como a tomografia
computadorizada de feixe cônico (TCFC), são
recomendados quando há suspeita dessa configuração,
possibilitando um planejamento mais eficaz do tratamento.
CANAL RADICULAR APICAL
A região apical do canal radicular é complexa e varia
amplamente entre os dentes, sendo composta pela porção
final do canal principal, pelo forame apical e suas
ramificações, além de canais acessórios. Essa área tem
grande importância clínica devido à sua variabilidade
anatômica, o que gera controvérsias sobre o limite ideal
para instrumentação e obturação, além de impactar
decisões como a realização de patência apical e ampliação
foraminal.
O ponto mais estreito do canal é conhecido como
constrição apical (ou forame menor), geralmente localizado
entre 0,5 e 1,5 mm do forame apical. A partir desse ponto, o
canal se alarga até atingir o forame apical (ou maior), que
comunica a polpa com os tecidos periapicais. O forame
geralmente é deslocado lateralmente ao ápice anatômico e
pode apresentar formato irregular, com diâmetro médio de
0,21 a 0,39 mm.
É comum encontrar múltiplas ramificações apicais, com até
16 foraminas em uma mesma raiz, sendo mais prevalentes
na raiz mesial de molares inferiores, pré-molares
superiores e raiz mesiovestibular de molares superiores.
Essa anatomia aumenta a dificuldade de limpeza da área e
a chance de permanência de biofilme e tecido necrosado,
comprometendo o sucesso do tratamento não cirúrgico.
Durante a cirurgia, istmos apicais podem ser expostos, o
que exige uso de magnificação e pontas ultrassônicas para
garantir selamento eficaz no retropreparo.
A curvatura apical dos canais também é um fator crítico.
Pode ocorrer em diferentes direções (vestibulolingual,
mesiodistal) e se manifesta como inclinação, curvatura ou
angulação. Métodos como o de Schneider (mensura o
ângulo da curvatura) e o de Pruett et al. (mede o raio da
curvatura) são usados para avaliar sua extensão.
Curvaturas mais abruptas têm menor raio e são mais
desafiadoras para instrumentação.
Estudos com tomografia de feixe cônico e métodos
computacionais, como o proposto por Estrela et al.,
permitem avaliação tridimensional da curvatura,
oferecendo maior precisão ao planejamento clínico.
Epidemiologicamente, curvaturas são comuns e variam
entre os dentes. Os canais mesiovestibulares de molares
superiores e os mesiais de molares inferiores são os mais
curvos.perirradiculares;
● Essa região é chamada de zona crítica apical, sendo
essencial à eliminação de irritantes e à prevenção
de reinfecção.
4. Estrutura Anatômica Apical
O canal radicular é dividido em duas porções:
● Canal dentinário: maior extensão, com conicidade
leve. Estende-se da câmara pulpar até a junção
cemento-dentinária (JCD). Apresenta baixa
densidade tubular nos últimos milímetros, o que
reduz sua permeabilidade;
● Canal cementário: mais curto e com conicidade
acentuada. Vai da JCD até o forame apical.
A JCD é o ponto de união entre os dois canais,
representando a transição entre a polpa e o periodonto. É
considerada, teoricamente, o local ideal para o término da
instrumentação, por ser o local de menor diâmetro do
canal. No entanto, devido à sua variabilidade anatômica e
dificuldade de localização clínica, a JCD é considerada um
ponto histológico de difícil aplicação prática.
5. Dimensões e Variações Anatômicas
● O canal cementário possui comprimento médio de
0,5 mm a 0,7 mm, dependendo da idade;
● O forame apical tende a aumentar de diâmetro
com o envelhecimento e nem sempre está no ápice
anatômico;
● O número de forames apicais pode variar bastante,
e eles podem estar situados até 3,8 mm distantes
do ápice.
Essas variações reforçam a importância de utilizar
localizadores apicais eletrônicos e radiografias periapicais
para estimar a posição ideal do batente apical.
6. Ponto Ideal de Instrumentação
Clinicamente, o batente apical é estabelecido entre 0,5 mm
e 1 mm aquém do forame apical, identificado
eletronicamente e confirmado radiograficamente. Essa
recomendação vale tanto para casos de polpa vital quanto
necrosada ou retratamento.
7. Canal Patente
Manter o canal cementário desobstruído até o forame
apical é indicado, desde que não haja reabsorção radicular
que impeça isso. A manutenção desse trajeto é conhecida
como comprimento patente (CP) e tem função biológica e
mecânica:
● Permite melhor ação da solução irrigadora;
● Evita retenção de tecido potencialmente necrótico;
● Reduz riscos de complicações como bloqueios ou
degraus durante o preparo.
TERMINOLOGIA: é o conjunto de termos peculiares de uma
ciência ou arte. A seguir, mencionaremos um conjunto de
termos peculiares ao preparo químico-mecânico dos canais
radiculares.
DIÂMETRO ANATÔMICO: Equivale ao diâmetro do canal
radicular anteriormente aos procedimentos de
instrumentação. Corresponde ao diâmetro do primeiro
instrumento endodôntico que se ajusta no interior de todo
o canal radicular.
DIÂMETRO CIRÚRGICO: Equivale ao diâmetro obtido após
a instrumentação do canal radicular. Corresponde ao
diâmetro do último instrumento endodôntico que foi
empregado no segmento apical do canal radicular. O
diâmetro anatômico não deve ultrapassar 1/3 do diâmetro
radicular.
PREPARO QUÍMICO MECÂNICO: É um procedimento
dinâmico que tem por objetivo promover a ampliação, a
modelagem, a limpeza e a desinfecção de um canal
radicular por meio de três eventos distintos:
instrumentação, emprego de substâncias químicas
auxiliares e irrigação-aspiração.
INSTRUMENTAÇÃO: É o principal evento do preparo
químico-mecânico do canal radicular. É realizado por meio
de ferramentas denominadas instrumentos endodônticos.
IRRIGAÇÃO - ASPIRAÇÃO: Representa uma corrente líquida
no interior da cavidade pulpar.
COMPRIMENTO DE TRABALHO: Como o forame apical se
encontra, em média, deslocado 0,5 mm aquém do ápice
radicular e o limite CDC (constrição apical) está localizado
entre 0,5 e 0,7 mm do forame, o comprimento de trabalho
pode ser obtido deduzindo-se 1 a 2 mm aquém do ápice
radiográfico do dente.
COMPRIMENTO DE PATÊNCIA DO CANAL: É a medida
obtida desde um ponto de referência coronário até a
abertura do forame apical na superfície externa radicular.
Tem como objetivo manter o canal cementário ou o
segmento mais apical do canal desobstruído.
INSTRUMENTO DE PATÊNCIA: Equivale ao último
instrumento utilizado em todo o comprimento do canal
radicular (comprimento de patência).
PATÊNCIA DO FORAME APICAL OU DO CANAL
CEMENTÁRIO: É a manutenção do canal cementário
principal patente (aberto, desobstruído) durante o preparo
de um canal radicular.
AMPLIAÇÃO DA CONSTRIÇÃO APICAL: É a ampliação e a
regularização da forma da constrição apical do canal
radicular. A forma da seção reta transversal deve ser
circular, tendo como objetivo a criação do batente apical.
SUBSTÂNCIA QUÍMICA AUXILIAR: São substâncias
químicas empregadas no interior do canal radicular com a
finalidade de promover a dissolução de tecidos orgânicos
vivos ou necrosados, a eliminação ou máxima redução
possível de bactérias, a lubrificação, a quelação de íons
cálcio e a suspensão de detritos oriundos da
instrumentação. São empregadas simultaneamente à
instrumentação dos canais radiculares ou após esta.
Geralmente, são utilizadas em forma de soluções líquidas.
SOLUÇÕES IRRIGANTES: São soluções químicas usadas na
irrigação-aspiração dos canais radiculares.
INSTRUMENTAÇÃO CONVENCIONAL OU NÃO
SEGMENTADA: Os instrumentos endodônticos são
utilizados durante o preparo químico-mecânico de um
canal radicular em ordem crescente de diâmetro nominal
(D0) em toda a extensão do comprimento de trabalho.
INSTRUMENTAÇÃO SEGMENTADA: Na instrumentação
segmentada, os instrumentos endodônticos são utilizados
em segmentos ao longo dos canais radiculares. A
instrumentação segmentada pode ser realizada no sentido
ápice-coroa (step-back) ou coroa-ápice (crown-down) do
canal radicular.
SEGMENTADA ÁPICE - COROA: Os instrumentos
endodônticos, em ordem crescente de diâmetro, são
empregados a distâncias menores que o comprimento de
trabalho do canal radicular. A instrumentação apical
antecede a instrumentação segmentada.
SEGMENTADA COROA - ÁPICE: Os instrumentos
endodônticos, em ordem decrescente de diâmetro, são
empregados a distâncias maiores para o interior do canal
radicular. A instrumentação segmentada coroa-ápice
antecede a instrumentação apical.
SEGMENTO APICAL DO CANAL: Corresponde a 1/3 do
comprimento de trabalho.
SEGMENTO CERVICAL OU CORONÁRIO: Corresponde a 2/3
do comprimento de trabalho.
DESGASTE ANTICURVATURA: É uma manobra realizada no
segmento cervical de um canal radicular e consiste no
desgaste direcionado às zonas volumosas da raiz, ou zona
de segurança, e distante das delgadas, ou zonas de risco,
onde pode ocorrer adelgaçamento na parede dentinária ou
perfurações radiculares laterais (rasgo). Para os segmentos
cervicais curvos, tem como objetivo favorecer o acesso ao
segmento apical curvo.
INSTRUMENTAÇÃO APICAL: É o alargamento (ampliação)
do segmento apical de um canal radicular.
BATENTE APICAL: Conhecido também como ombro apical,
parada apical de instrumentação ou degrau apical, é o
rebaixo onde o cone principal de obturação se encaixa. É o
ponto de parada da instrumentação, equivalente ao
comprimento de trabalho, determinado na odontometria.
INSTRUMENTAÇÃO CERVICAL: Consiste na instrumentação
do segmento cervical de um canal radicular.
LEITO DO CANAL: É a regularização inicial da superfície das
paredes dentinárias de um canal radicular até o CP.
Antecede a modelagem do canal, independentemente da
técnica de instrumentação empregada.
INSTRUMENTAÇÃO DOS CANAIS RADICULARES
Estudos mostram que nenhuma técnica de instrumentação
é capaz de limpar, desinfectar e modelar completamente os
canais radiculares. Mesmo assim, uma instrumentação
eficaz depende do conhecimento da anatomia interna do
canal (forma, curvaturas e dimensões), o que orienta a
escolha adequada dos instrumentos e dos movimentos
usados.
Erros na seleção dos instrumentos (forma e tamanho) ou
no tipo de movimento empregado podem deixar partes do
canal sem preparo, especialmente em reentrâncias e
recessos, onde tecidos necrosados e bactérias podem
permanecer. Isso impacta diretamente no sucesso da
terapia endodôntica, que também depende da irrigação,da
medicação intracanal e da qualidade da obturação final.
A instrumentação é um processo mecânico e dinâmico,
dividido em duas etapas: pré-instrumentação e
instrumentação propriamente dita.
PRÉ INSTRUMENTAÇÃO
É a fase inicial do preparo do canal. Em canais amplos,
muitas vezes se sobrepõe à instrumentação. Já em canais
atresiados, representa uma etapa independente e
essencial, pois sua qualidade determina a facilidade ou
dificuldade do preparo subsequente.
Seus objetivos principais são:
● Remover ou regularizar interferências anatômicas;
● Determinar o comprimento de trabalho (CT) e o
comprimento de patência (CP);
● Criar o leito inicial do canal (glide path).
A pré-instrumentação começa após:
● Radiografia diagnóstica;
● Acesso coronário;
● Isolamento absoluto do dente.
O exame radiográfico com diferentes angulações é
fundamental para entender a anatomia pulpar. Em dentes
cariados ou restaurados, o acesso deve ser feito com
cautela para evitar perfurações, sendo recomendável
localizar os canais antes de isolar o dente.
As etapas da pré-instrumentação incluem:
1. Localização dos canais;
2. Cateterismo (exploração inicial);
3. Ampliação cervical, se necessário;
4. Complementação do cateterismo;
5. Determinação do CT e do CP;
6. Criação do glide path.
LOCALIZAÇÃO DO CANAL RADICULAR
Após a remoção do teto da câmara pulpar, os orifícios dos
canais devem ser localizados com sondas clínicas finas e
retas. Boa iluminação e ampliação (ex. lupa ou microscópio)
são fundamentais.
● Canais unirradiculares: mais fáceis de localizar;
● Canais multirradiculares: mais complexos, ainda
mais em presença de restaurações, calcificações ou
dentina reacional.
Durante a exploração, é comum a sonda penetrar ou
deslocar calcificações que bloqueiam a entrada do canal.
Para auxiliar a localização:
● Utilizam-se pontas ultrassônicas especiais, mais
seguras que brocas;
● Corantes como azul de metileno ou iodo ajudam a
evidenciar o canal;
● Microscópio óptico ou outros recursos de
magnificação aumentam a precisão,
principalmente em canais atresiados.
CATETERISMO OU EXPLORAÇÃO INICIAL DO CANAL
RADICULAR
O cateterismo é o primeiro contato mecânico com a
anatomia interna do canal, permitindo avaliar:
● Número e direção dos canais;
● Diâmetro;
● Possibilidade de acesso ao ápice.
Com base em radiografias de qualidade, determina-se o
comprimento do dente na radiografia (CDR). Para canais
retos, subtrai-se 2 mm do CDR para definir o comprimento
de exploração inicial (CEI). Em canais curvos, o CEI
corresponde ao próprio CDR, pois o trajeto curvo é mais
longo que o linear.
Instrumentação inicial:
● Canais amplos: usar instrumentos tipo K, de aço
inoxidável, manuais e com diâmetro inferior ao do
canal. Não precisam ser pré-curvados;
● Biopulpectomias: cateterismo vem antes da
remoção da polpa;
● Necropulpectomias: cateterismo e esvaziamento
acontecem juntos, com movimentos curtos e
alternados (vai-e-volta + leves rotações) que
favorecem a penetração do hipoclorito de sódio no
ápice.
Canais atresiados:
● Usam-se instrumentos tipo K ou especiais como
C+File® e C Pilot® (nº 08, 10 ou 15), geralmente
mais espessos que o canal;
● Esses instrumentos não devem ser dobrados
(pré-curvados), pois o desdobramento em
segmentos retos seguido de rotação pode causar
degraus, perfurações ou fraturas;
● Devem ser flexíveis e usados com movimento de
alargamento parcial à direita, respeitando o regime
elástico.
O cateterismo de canais atresiados é feito por segmentos,
com solução irrigadora no canal, alternando instrumentos
curtos e longos conforme o avanço. O instrumento deve ser
limpo frequentemente e examinado para identificar
deformações, que indicam a necessidade de descarte.
Se o instrumento não alcançar o CEI, é necessário fazer a
ampliação cervical.
AMPLIAÇÃO CERVICAL
Tem como objetivo:
● Remover interferências do segmento cervical do
canal;
● Facilitar o avanço apical dos instrumentos;
● Evitar compactação de resíduos para o ápice e
extrusão perirradicular.
Segundo Leeb, o segmento cervical apresenta maior
constrição, sendo o ponto mais crítico à passagem do
instrumento.
Procedimento:
● Usa-se instrumento tipo K, números 25 ou 30, de
21 mm, em aço inoxidável;
● Movimentos manuais: alargamento parcial à direita
ou reciprocante;
● O avanço deve respeitar o limite: 3 a 5 mm abaixo
da embocadura, sem ultrapassar o ponto atingido
no cateterismo inicial;
● Se ultrapassar esse limite, há risco de perder a
trajetória original do canal.
COMPLEMENTAÇÃO DO CATETERISMO
Após a ampliação cervical, instrumentos tipo K ou especiais
(C+File®, C Pilot®) geralmente alcançam facilmente o
comprimento previamente estabelecido.
Odontometria: Define-se o comprimento de trabalho (CT),
cuja ponta do instrumento deve estar de 1 a 2 mm aquém
do vértice radiográfico, e o comprimento de patência (CP),
com a ponta do instrumento posicionada na abertura do
forame ou ligeiramente além.
Métodos de determinação: O CT e o CP podem ser
determinados por radiografias e/ou localizadores
eletrônicos. No entanto, o ideal é a combinação de ambos,
pois o método eletrônico, apesar de eficiente, não permite
visualizar a trajetória do instrumento no interior do canal.
Instrumentos mecanizados de NiTi: Instrumentos como
PathFile®, Scout Race®, Race ISO10, G1, G2 e ProGlider®
são citados na literatura para cateterismo de canais
atresiados, mas apresentam baixa resistência à flambagem
e fratura por torção, sendo mecanicamente inadequados
para essa finalidade.
INSTRUMENTAÇÃO INICIAL OU LEITO DO CANAL
Com base no CP, o canal é instrumentado com
instrumentos tipo K ou especiais (nº 10 ou 15),
manualmente, com movimentos de alargamento parcial à
direita ou reciprocantes.
Objetivo: Criar o glide path, eliminando ou regularizando
interferências anatômicas. Isso facilita a progressão dos
instrumentos nas etapas seguintes. Se iniciar com
instrumento nº 08, deve-se repetir o procedimento com os
números 10 e 15.
Manutenção da patência: A patência do canal cementário
deve ser mantida durante toda a instrumentação. Caso não
seja possível, o comprimento de trabalho deve ser o mais
próximo possível do ápice radicular.
Irrigação: Em cada etapa da pré-instrumentação, realiza-se
irrigação e aspiração, seguida de inundação da cavidade
pulpar com hipoclorito de sódio a 2,5%, para remoção de
detritos e renovação da substância química auxiliar.
Segunda etapa | instrumentação
A instrumentação de um canal radicular deve ser feita após
a criação do leito do canal, considerando o diâmetro e o
movimento dos instrumentos conforme a anatomia
radicular. Pode ser feita de forma segmentada (por partes)
ou não segmentada (todo o comprimento de trabalho – CT).
Na instrumentação segmentada, o canal é dividido em dois
segmentos:
● Segmento cervical: corresponde aos 2/3 coronais;
● Segmento apical: corresponde ao 1/3 final do CT.
Segmento Cervical
A instrumentação do segmento cervical depende da relação
entre o diâmetro do canal e o da raiz.
● Quando o diâmetro da raiz permite uso de
instrumentos maiores, utiliza-se movimentos de
alargamento reciprocante ou contínuo.
● Geralmente, um único avanço e retrocesso do
instrumento já promove um preparo cônico e
circular.
● Quando o canal é achatado e a raiz não permite
uso de instrumentos maiores, adota-se a técnica
de alargamento em paliçada. Essa técnica consiste
em simular múltiplos canais circulares lado a lado,
movimentando o instrumento horizontalmente
para abranger todo o contorno do canal achatado
— como nos anéis olímpicos.
Esse preparo pode deixar a parede irregular, exigindo o uso
de:
● Alargadores Largo ou;
● Pontas ultrassônicas, para aplainamento.
Alguns profissionais indicam o uso de manobra de
pincelamento (escovagem) com instrumentos NiTi
mecanizados. No entanto, sua efetividade é limitada devido
à superelasticidadedo NiTi e ao pequeno ângulo de suas
hélices, podendo inclusive comprometer a vida útil do
instrumento e causar fadiga.
Alternativas eficazes incluem instrumentos manuais de aço
inoxidável tipo K ou H (acima do número 30), utilizando
limagem circunferencial.
Vantagens da instrumentação cervical antes do segmento
apical:
● Remove conteúdo do canal, evitando compactação
ou extrusão;
● Facilita a progressão de instrumentos menores;
● Reduz esforço e risco de fratura dos instrumentos
no ápice;
● Melhora irrigação, limpeza e obturação;
● Reduz dor pós-operatória.
Desvantagem: desgaste excessivo pode causar perfurações
ou fraturas radiculares.
Segmento Apical
A instrumentação apical deve ser feita com movimentos de
alargamento alternado (reciprocante) ou contínuo, nunca
com limagem, pois essa perde controle sobre o desgaste
lateral, podendo causar transporte apical (zip), dificultando
a obturação.
Objetivos da instrumentação apical:
● Regularizar a constrição apical e criar um batente
apical circular;
● Facilitar o encaixe do cone principal e o selamento
adequado.
A anatomia da constrição apical é geralmente ovóide ou
irregular, com diâmetro médio de 0,21 mm, e deve ser
transformada em formato cônico e seção transversal
circular.
Instrumentos utilizados:
● Manuais tipo K ou Hedstrom de aço inoxidável
(para canais retos ou levemente curvos);
● Instrumentos NiTi mecanizados (para canais curvos
ou estreitos), com números maiores (35, 40, 45),
por conta da superelasticidade;
● Alargadores especiais como:
○ Contínuos: ProTaper®, Mtwo®, Race®;
○ Reciprocantes: Reciproc®, WaveOne®.
Técnica complementar para canais achatados: após o
preparo apical, realiza-se um refinamento de 2 a 3 mm
antes do CT, com instrumentos manuais (tipo K ou
Hedstrom) e movimento de limagem lateral contra as
paredes vestibular e lingual.
Irrigação e patência: Em todas as etapas, deve-se irrigar e
aspirar, mantendo a patência do canal cementário sempre
que possível.
Nos casos de necrose pulpar, são recomendadas:
● Maior irrigação;
● Agulha o mais próxima possível do CT;
● Remoção de smear layer;
● Medicação intracanal, se indicado.
INSTRUMENTAÇÃO NÃO SEGMENTADA
A instrumentação não segmentada é feita ao longo de todo
o comprimento de trabalho (CT) do canal, após a criação do
leito. É indicada quando o canal tem formato circular em
todos os níveis (cervical e apical).
Técnica e Instrumentos Utilizados
● Realizada com movimentos de alargamento
reciprocante ou contínuo, com instrumentos
manuais ou mecanizados, especialmente de NiTi;
● Pode-se usar um único instrumento (ex.:
Reciproc®, WaveOne®, OneShape®) ou vários
instrumentos (ex.: ProTaper®, RaCe®, Mtwo®)
● Esses instrumentos possuem conicidade constante
ou variável (crescente ou decrescente),
promovendo escalonamento automático do
preparo.
AMPLIAÇÃO DO DIÂMETRO APICAL
● O diâmetro final do preparo apical é o diâmetro D0
do último instrumento que alcançou o CT;
● A forma final da seção apical deve ser circular, o
que melhora a limpeza, irrigação, seleção do cone
de guta-percha e obturação;
● Quanto maior o diâmetro, mais parede é tocada, e
menor a carga bacteriana residual.
Limitações e Riscos
● Em canais com curvaturas e estreitamentos,
deve-se ter cautela na ampliação para evitar
acidentes como zip, degraus ou perfurações;
● Em instrumentos de aço inoxidável, diâmetros
maiores reduzem a flexibilidade, aumentando o
risco de deslocamento apical.
○ Ex.: Um instrumento FlexoFile® nº 30
exige mais força para flexionar que um de
NiTi nº 30.
● Por isso, a instrumentação apical limitava-se a até
nº 25.
Importância Clínica do Diâmetro Apical Adequado
Embora muitos autores defendam preparos com diâmetros
menores (nº 20–25), isso é baseado em opinião clínica. A
ampliação ideal depende de:
● Anatomia do canal;
● Geometria da raiz;
● Tipo de liga metálica do instrumento
Deve-se equilibrar o diâmetro do instrumento com o da
raiz, para evitar:
● Fragilização dentinária;
● Perfurações;
● Fraturas radiculares
Benefícios da Ampliação Apical com Maior Diâmetro
● Mais volume de solução irrigadora e medicação
intracanal;
● Melhor irrigação e aspiração;
● Maior limpeza e redução bacteriana;
● Mais fácil seleção do cone de guta-percha;
● Melhor selamento apical
Recomendações Finais
● Para canais retos: usar conicidades maiores (0,06 a
0,08 mm/mm);
● Para canais com curvatura moderada: conicidade
0,04 mm/mm;
● Para canais muito curvos: 0,02 mm/mm;
● A escolha do instrumento deve considerar:
○ Forma e dimensão da raiz;
○ Condição pulpar;
○ Curvatura do canal;
○ Tipo de instrumento (NiTi ou aço
inoxidável).
MANOBRAS ENDODÔNTICOS: São ações ou movimentos
aplicados durante as etapas de instrumentação do canal
radicular para atingir objetivos específicos.
PATÊNCIA DO CANAL CEMENTÁRIO:
Objetivo: Manter o canal cementário desobstruído durante
a instrumentação, prevenindo compactação de detritos
apicais.
Técnica: Uso de instrumento fino que ultrapassa 1 mm
além do forame apical.
Justificativa: A ponta do instrumento é cônica e não limpa
adequadamente, então deve ultrapassar o forame.
Benefícios:
● Em dentes necrosados: Reduz microrganismos na
zona crítica apical;
● Em dentes vitais: Evita acúmulo de tecido pulpar
inviável, favorecendo reparação pelo ligamento
periodontal.
Instrumentos utilizados: Geralmente limas de aço
inoxidável de pequeno calibre.
DESGASTE ANTI CURVATURA
Objetivo: Prevenir perfurações laterais em raízes curvas e
permitir avanço de instrumentos apicalmente.
Técnica: Remoção direcionada de dentina na zona de
segurança (áreas mais espessas), evitando a zona de risco
(áreas finas da raiz).
Exemplo clínico:
● Raiz mesial de molares inferiores: desgaste na
parede mesial (fugindo da furca);
● Raiz distal: desgaste na parede distal.
Instrumentos utilizados:
● Manuais: Limas tipo K ou H;
● Rotatórios: Alargadores Largo e La Axxess™ (mais
indicados que Gates-Glidden para essa manobra).
Observações:
● Gates-Glidden são úteis no preparo cervical, mas
não devem ser usados com pressão lateral para
desgaste seletivo devido ao risco de fratura por
fadiga;
● NiTi não é indicado para desgaste anticurvatura
por sua superelasticidade e menor rigidez.
Estudo (Lim e Stock, 1987):
● Zona de risco: espessura média de 1,05 mm;
● Zona de segurança: espessura média de 1,36 mm.
TÉCNICA DE INSTRUMENTAÇÃO (MODELAGEM) MANUAIS
A instrumentação manual (preparo ou modelagem) dos
canais radiculares, pode ser realizada quer atraves das
técnicas clássicas ou convencionais. Ou através de técnicas
que empregam o principio coroa-ápice ou ápice-coroa.
Segundo Soares e Goldberg, 2001, podemos citar:
● Técnica tradicional ou clássica;
● Técnica escalonada ( Step-Back);
● Técnica coroa-ápice sem pressão;
● Técnica mista.
A escolha entre uma ou outra é um critério pessoal, que
surge a partir do domínio da técnica.
Podemos ainda utilizar as técnicas de acordo com as
condições da polpas
● Sopulpectomta (Polpa Viva)
● Necrose pulpar ( Polpa Morta)
1. TÉCNICA TRADICIONAL OU CLÁSSICA (APICE-COROA /
SERIADA)
Objetivo: Preparar o canal com progressão de limas em
ordem crescente, do ápice para a coroa, respeitando a
anatomia interna.
Características Principais:
● Inicia no ápice do canal e progride em direção à
coroa;
● Usa-se uma sequência seriada de limas manuais
tipo K, com movimento de vaivém curto;
● Cada lima tem maior diâmetro e é inserida 1 mm
aquém do comprimento de trabalho da anterior;
● Após cada instrumento, deve-se realizar irrigação,
aspiração e recapitulação com a lima de memória
(última usada no CT).
Etapas:
1. Determinação do CRT (comprimento real de
trabalho) com lima #10 ou #15.
2. Ampliação do terço apical até atingir o diâmetro
adequado (ex: #30 ou #35).
3. Recuo progressivo com limas subsequentes:
4. Ex: Se o batenteé feito com lima #30 no CRT,
utiliza-se #35 a 1 mm a menos, #40 a 2 mm, #45 a
3 mm… até obter conicidade.
Indicações:
● Canais reto ou com leve curvatura.
● Canais largos, com fácil acesso.
Vantagens:
● Técnica simples, com lógica progressiva.
● Ideal para quem está em fase inicial de
aprendizado clínico.
Desvantagens:
● Risco de transporte apical, zipping e extrusão de
debris.
● Pode desconfigurar canais curvos ou atrésicos.
● Irrigação apical limitada no início.
2. TÉCNICA MISTA
Conceito:
● Integra as características da técnica Coroa-Ápice
com a técnica Escalonada.
● Personalizável conforme a anatomia do canal e o
diagnóstico pulpar.
Aplicações:
● Canais com complexidade anatômica.
● Pacientes que exigem menor tempo clínico.
● Casos com início cervical amplo e ápice atrésico.
3. TÉCNICA COROA-ÁPICE (CROWN-DOWN SEM PRESSÃO)
Conceito Geral:
A Técnica Coroa-Ápice, também chamada de Crown-Down
Sem Pressão, propõe a instrumentação iniciada no terço
cervical do canal, progredindo sequencialmente até o ápice.
Foi difundida principalmente após 1980, por Goerig et al.
(1982), visando otimizar a limpeza de canais contaminados.
Indicação:
● Necropulpectomia (polpa morta)
● Canais com contaminação séptica intensa
● Situações onde se deseja evitar extrusão de
resíduos apicalmente
● Casos com diâmetro cervical amplo
● Canais com grande quantidade de detritos ou
exsudato
Objetivos:
● Esvaziar os terços cervical e médio antes do
preparo apical
● Favorecer a ação química dos irrigantes
● Evitar extrusão de resíduos contaminados
● Facilitar a obtenção de conicidade adequada
● Preservar a forma original do forame apical
Fases da Técnica:
1. Preparo do Terço Cervical:
● Utilizam-se limas de maior diâmetro (ex: #60, #55,
#50).
● Movimento giratório alternado (sentido
horário/anti-horário) com tração lateral.
● Pode-se utilizar brocas Gates-Glidden (#1, #2, #3)
para facilitar o acesso.
2. Preparo do Terço Médio:
● Limas intermediárias (ex: #45, #40, #35).
● Progressão suave até que se obtenha resistência
dentinária e espaço suficiente.
3. Preparo do Terço Apical:
● Determinação do Comprimento Real de Trabalho
(CRT) com lima #10 ou #15.
● Instrumentação com limas de menor diâmetro
(#30, #25, #20), até a formação do batente apical.
● O instrumento de memória (última lima no CRT) é
usado nas recapitulações.
REGIÃO LIMAS
UTILIZADAS
OBS
Cervical
#60 → #55 →
#50
Sem atingir o
CRT
Médio
#45 → #40 →
#35
Progressiva,
sentido
coronário
Apical
#30 → #25 →
#20
Até o CRT
Após cada lima, irrigação com NaOCl e aspiração devem ser
feitas.
Finaliza-se com EDTA 17% por 1 minuto.
Cinemática:
● Movimento de vaivém curto ou rotatório alternado;
● Sem exercer pressão apical;
● Tração contra as paredes laterais.
Vantagens (Mario Leonardo, 2005):
● Limpeza mais eficiente, principalmente dos terços
cervical e médio;
● Maior penetração da solução irrigadora;
● Reduz a extrusão apical de resíduos;
● Preserva a anatomia do canal;
● Facilita a compactação do material obturador;
● Mantém o CRT estável durante o preparo.
Desvantagens:
● Em canais curvos ou atrésicos, pode dificultar a
progressão apical.
● Risco de desvio do trajeto do canal se não for feita
com controle.
● Necessita experiência clínica e controle de força
aplicada.
Complementos Clínicos:
● A neutralização do conteúdo séptico é
fundamental.
● Ideal usar lima de patência #10 ou #15 até o ápice
ou 0,5 mm além, com cuidado para não alargar o
forame.
● Em canais curvos, recomenda-se pré-curvatura das
limas.
4.TÉCNICA ESCALONADA COM RECUO PROGRAMADO
PROGRESSIVO (STEP-BACK)
Conceito Geral:
Técnica de preparo progressivo do canal iniciando-se no
ápice (após o CRT) e recuando-se em direção à coroa com
instrumentos de diâmetro crescente e comprimento
decrescente.
É a evolução da técnica escalonada clássica, com ajustes
que favorecem maior controle da instrumentação.
Indicação:
● Biopulpectomia (polpa viva)
● Canais com necessidade de preservação do forame
apical
● Quando se deseja conformação cônica bem
definida e controle do CRT
● Canais com anatomia menos complexa (retos ou
levemente curvos)
Objetivos:
● Preservar a forma e posição do forame apical
● Criar um batente apical adequado
● Garantir segurança à obturação
● Conformar o canal com conicidade ideal
● Evitar alteração do trajeto original
Fases da Técnica (Mario Leonardo, 2005):
1. Determinação do CRT:
● Usar lima #10 ou #15.
● Avaliação eletrônica + controle radiográfico.
2. Preparo Apical Inicial:
● Uso de limas do tipo K (#15 → #20 → #25).
● Vaivém curto até resistência das paredes.
● A última lima usada no CRT será o Instrumento de
Memória.
Exemplo: Se #25 foi a última a atingir o CRT com segurança,
ela será o instrumento de memória.
3. Formação do Batente Apical:
● Realiza-se ampliação do CRT até formar uma
barreira apical que sustente a obturação.
● Pode ser feito até lima #30 ou #35, dependendo do
canal.
4. Recuo Programado Progressivo: Após o batente,
selecionam-se instrumentos com diâmetros maiores, com
inserção 1 mm a menos que o CRT.
● Ex: #30 a 1 mm do CRT, #35 a 2 mm, #40 a 3 mm…
● Em cada troca de instrumento, realiza-se
recapitulação com a lima de memória no CRT.
Cinemática:
● Movimentos de vaivém curtos.
● Rotação leve contra as paredes.
● Sempre irrigar e aspirar entre cada lima.
● Usar EDTA no final do preparo.
Vantagens (Mario Leonardo, 2005):
● Preserva a anatomia apical.
● Cria um batente eficaz.
● Reduz risco de extrusão de material.
● Mantém controle apical durante obturação.
● Boa conicidade final.
Desvantagens:
● Técnica mais demorada.
● Exige controle preciso de profundidade e
recapitulação.
● Risco de bloqueio se não houver irrigação
abundante.
Complementos Clínicos:
● O canal deve estar constantemente inundado com
solução irrigadora (NaOCl).
● A cada 2 ou 3 limas, recomenda-se aspiração +
recapitulação + irrigação.
● Pode-se utilizar brocas Gates-Glidden para o
preparo cervical em canais curvos.
QUADRO COMPARATIVO FINAL
Característica Técnica
Coroa-Ápice
(Crown-Down)
Técnica
Escalonada
(Step-Back)
Sentido de
preparo
Coroa → Ápice Ápice → Coroa
Indicação
principal
Polpa necrosada
(necropulpectom
ia)
Polpa viva
(biopulpectomia)
Preservação do
forame apical
Sim Sim
Ação química
(irrigantes)
Mais favorecida Menos intensa
inicialmente
Instrumento de
memória
Lima final no CRT Lima final no CRT
Conicidade Excelente Excelente
Risco de
extrusão de
resíduos
Baixo Moderado
Dificuldade
técnica
Moderada/Alta Moderada
Recapitulação
com lima de
memória
Sim Essencial
Irrigação: Aspectos Físicos:
Durante o preparo químico-mecânico dos canais
radiculares, a irrigação desempenha papel essencial na
limpeza e desinfecção do sistema de canais. A eficácia do
procedimento depende tanto da ação química do irrigante
quanto da ação física da irrigação e da agitação. Esses
fatores são fundamentais para remover tecidos, smear
layer, detritos e fragmentos dentinários gerados pela
instrumentação.
Para que o irrigante atue de forma eficiente, é necessário
que ele atinja a porção apical do canal e áreas inacessíveis à
ação mecânica. Isso exige um fluxo adequado e uma
corrente eficaz capaz de deslocar os detritos em direção
coronária.
O canal radicular é um ambiente anatomicamente fechado,
cercado por osso e ligamento periodontal, com a presença
de tecidos vivos ou necrosados. Isso favorece a formação
de bolhas de gás na região apical, criando o fenômeno
chamado “vapor lock”, que limita a penetração do irrigante
nas ramificações apicais.
Dois fatores clínicos contribuem significativamente para
melhorar a eficácia da irrigação apical:
1. Ampliação apical adequada: é necessário preparar
o canal até, no mínimo, um instrumento de calibre
35 para permitir melhor penetraçãoda solução
irrigadora no terço apical. Ampliações menores,
como a até calibre 25, podem ser insuficientes,
como demonstrado em estudos com
microtomografia.
2. Realização da patência apical: o uso de uma lima
tipo K #10 até o forame ou 1 mm além, garante a
manutenção da via de irrigação até o ápice,
promovendo o fluxo contínuo do irrigante e
impedindo a compactação de detritos.
Durante a instrumentação, a irrigação atua na lubrificação
dos instrumentos, evita a compactação apical de detritos e
contribui para a remoção dos mesmos. Após a
instrumentação, sua função é mobilizar os resíduos para a
porção coronária, facilitando sua remoção ou aspiração.
Dinâmica dos fluidos:
A eficácia da irrigação no interior dos canais radiculares
está diretamente relacionada a uma série de fatores físicos,
como:
● Anatomia e diâmetro do canal,
● Volume e pressão da solução,
● Tipo, tamanho e profundidade de inserção da
agulha,
● E a forma de introdução do irrigante.
Esses elementos influenciam diretamente a dinâmica da
irrigação, ou seja, a capacidade da solução irrigadora de
alcançar e interagir com os microrganismos, detritos
orgânicos e restos de dentina presentes no sistema de
canais.
A penetração do irrigante depende de propriedades como:
● Tensão superficial,
● Forças capilares,
● Viscosidade,
● Ângulo de contato,
● E se a cavidade é aberta ou fechada.
Durante o ato de irrigar com seringa e cânula, há a
formação de turbilhão (vórtices de fluido), que ajudam a
mobilizar os detritos, principalmente se houver pressão
adequada e irrigação ativa.
A agitação da solução também é crucial. Ela pode gerar
cavitação, com a formação de bolhas que, ao se romperem
(cavitação transitória), liberam ondas de choque que
contribuem significativamente para a limpeza das paredes
do canal. Essa energia liberada é capaz de romper biofilmes
e remover debris aderidos.
Por fim, o sucesso da irrigação na porção apical depende da
combinação de diversos fatores: técnica do operador,
ampliação apical, manutenção da patência, tipo e posição
da agulha, além da forma de inserção da solução.
Irrigação simples:
A irrigação simples é o método tradicional de introdução de
soluções irrigadoras no canal radicular, realizada com
seringas e cânulas irrigadoras. O objetivo é movimentar o
líquido irrigante para remover detritos e microrganismos,
aproveitando a energia do jato para gerar turbilhão,
impacto e pressão hidrodinâmica.
1. Seringas
● Podem ser de vidro (ex.: tipo Luer Lock) ou plástico.
As de plástico são preferidas por melhor adaptação
às cânulas.
● Volume ideal: 5 mL, pois permite melhor controle
da pressão aplicada.
2. Cânulas irrigadoras
● Metálicas ou com rosqueador plástico.
● A marcação (ex.: 30-6) indica:
○ 30 mm de comprimento;
○ 0,6 mm (diâmetro externo).
Seleção por diâmetro (anatomia):
● 0,3 mm: canais estreitos (ex.: mesiais de molares
inferiores);
● 0,4 mm: canais intermediários (ex.: pré-molares);
● 0,5–0,6 mm: canais amplos (ex.: caninos e incisivos
superiores).
O bisel da cânula metálica deve ser removido para evitar
perfurações e entupimentos.
Modelos comerciais:
● NaviTip® (Ultradent): extremidade arredondada,
flexível, diâmetros de 0,25 e 0,28 mm, boa para
curvaturas.
● Endo-Eze™: com ranhura lateral e abertura frontal.
● Max-I-Probe®, MK Life, Kerr Hawe™: extremidade
fechada com saída lateral.
● EndoVac™: microcânula com múltiplas aberturas,
usada com aspiração apical.
3. Hidrodinâmica do irrigante
● O jato pressurizado forma turbulência e favorece o
refluxo, ajudando na mobilização dos detritos.
● Em canais estreitos ou curvos, esse refluxo é
limitado, dificultando a penetração apical.
● O impacto do jato e a obstrução do forame geram
pressão hidrodinâmica que se dissipa contra as
paredes do canal.
● Em presença de bolhas ou curvaturas, o irrigante
pode não atingir a porção apical adequadamente.
Abertura da cânula influência:
● Frontal aberta: maior penetração apical (até 3 mm
além da ponta), mas pouca ação lateral.
● Lateral fechada: ação mais eficaz em paredes e
istmos, mas menor penetração apical.
4. Fatores que afetam a eficácia:
● Profundidade de inserção;
● Diâmetro da cânula;
● Força sobre o êmbolo;
● Grau de ampliação apical e patência foraminal;
● Posicionamento da cânula (ideal: 1 mm antes do
comprimento de trabalho, sem travamento);
● Movimentos de vaivém facilitam o refluxo e evitam
extravasamento.
5. Limitações da irrigação simples
● Boa para canais simples e retos;
● Ineficiente na limpeza de canais com
achatamentos, istmos e anatomia complexa, onde
tende a haver acúmulo de detritos.
Conclusão : A irrigação simples é eficaz em canais pouco
complexos, mas limitada em regiões apicais e áreas com
anatomia irregular.
Irrigação/Aspiração Simultânea
● Utiliza cânulas de irrigação e aspiração dentro do
canal ao mesmo tempo.
● Pode ser pressão positiva (cânula de irrigação mais
apical) ou pressão negativa (cânula de aspiração
mais apical).
● Necessita de seringa, cânulas e um sistema que
conecte a cânula aspiradora ao sugador.
Pressão Positiva
● A cânula de irrigação é colocada mais apical que a
de aspiração.
● É a técnica convencional, mas tem limitações na
limpeza de canais com anatomia complexa.
Pressão Negativa
● A cânula de aspiração vai mais fundo que a de
irrigação.
● Exemplo: sistema EndoVac™.
Sistema EndoVac™ (SybronEndo)
● Baseado em pressão negativa.
● Componentes: ponta principal
(irrigação/aspiração), macrocânula e microcânula
(descartáveis), mangueira, peças de mão.
● Macrocânula: plástica, usada no terço médio.
● Microcânula: metálica, usada no terço apical,
possui 12 orifícios nos 0,7 mm finais.
● Requer preparo apical até pelo menos diâmetro 35
(ideal: 40/.04).
Passos operatórios:
1. Irrigar/aspirar a câmara com a ponta principal.
2. Macroirrigação no terço médio com NaOCl (30 s).
3. Microirrigação no comprimento de trabalho com
EDTA 17% (30 s).
4. Microirrigação final com NaOCl (30 s).
Vantagens:
● Excelente irrigação apical.
● Melhor remoção de detritos e istmos que a
irrigação convencional.
● Baixo risco de extrusão de irrigante.
● Boa ação antibacteriana em canais infectados.
Sistema RinsEndo® (Dürr Dental)
● Sistema hidrodinâmico por pressão e sucção
simultânea.
● Vem com peça de mão, cânulas, seringa e
acessórios.
● A seringa encaixa na parte superior; a parte
inferior conecta à baixa rotação.
● A cânula fica apenas na entrada do canal, e a
pressão leva a solução até o ápice.
● Injeta cerca de 1 mL a cada 7 s; a aspiração ocorre
ao mesmo tempo.
Desempenho segundo estudos:
● Penetração da solução melhor que métodos
manuais.
● Remoção de debris: melhor que seringa, mas
inferior à irrigação ultrassônica (PUI).
● Smear layer: melhor que sem ativação, mas pior
que ultrassom e EndoActivator®.
● Ação antibacteriana: com NaOCl e clorexidina,
pode superar a PUI.
● Remoção de hidróxido de cálcio ou cimento
obturador: não remove totalmente do terço apical;
desempenho melhor que o convencional, mas pior
que ativação sônica/ultrassônica.
Métodos Mecânicos de Agitação
XP-Endo® Finisher
● Fabricante: FKG Dentaire (Suíça)
● Material: Níquel-Titânio com tratamento térmico
MaxWire®
● Dimensões: Diâmetro 25 / Conicidade 0,00
● Cinemática: Rotatória (800 rpm)
● Mecanismo: Reto em temperatura ambiente (fase
martensítica)
● Assume forma de colher em temperatura corporal
(fase austenítica)
Indicações:
● Complementação da irrigação após preparo ≥ 25
● Remoção de biofilme, hidróxido de cálcio, pastas
antibióticas e restos de material obturador
Evidências:
● Resultados superiores à irrigação convencional em
biofilmes (Bao et al.)
● Resultados variáveis na remoção de obturação
● Efetivo em simulações de reabsorção interna,
independentemente da solução (Ulosoy et al.)
XP Clean
Fabricante: MKLife (Brasil)Material: Aço inoxidável
Dimensões: Diâmetro 25 / Conicidade 0,02
Cinemática: Rotatória
Formato: Ponta em forma de colher
Indicações:
● Acesso a áreas não tocadas durante o preparo
● Agitação de irrigantes, ruptura de biofilme,
remoção de detritos
Evidência: Pesquisas em andamento; ainda carece de dados
clínicos conclusivos
Easy Clean
Fabricante: Easy Equipamentos Odontológicos (Brasil)
Material: Plástico
Dimensões: Diâmetro 25 / Conicidade 0,04
Cinemática: Rotatória assimétrica ou baixa rotação
Uso: Dispositivo descartável, pré-esterilizado por óxido de
etileno
Indicações: Agitação de irrigantes para remoção de detritos
e biofilme
Evidências:
● Efetivo em rotação e reciprocância (estudos 66-68)
● Mais eficaz com ampliação até diâmetro 40
(Marques et al.)
● Supera o uso exclusivo de EDTA no terço apical
● Resultados comparáveis à PUI na remoção da
smear layer
Métodos Sônicos de Agitação
EndoActivator®
Fabricante: Dentsply Sirona (EUA)
Material: Instrumentos plásticos
Tamanhos:
● Small (amarelo): 0,20 / 0,02
● Medium (vermelho): 0,25 / 0,04
● Large (azul): 0,35 / 0,04
Frequência: 190 Hz
Indicações:
● Agitação sônica de irrigantes (EDTA, NaOCl)
● Remoção de smear layer e hidróxido de cálcio
Evidências:
● Superior à irrigação convencional
● Inferior ao EndoVac™
● Similar à irrigação convencional na remoção de
biofilme
● Menor extrusão apical de irrigante
Vibringe®
Fabricante: Cavex Holland BV (Holanda)
Sistema: Êmbolo vibratório acoplado à seringa
Frequência: ~Vibração gerada durante irrigação
Indicações:
● Agitação sônica durante irrigação convencional
● Recomendado uso por 30 segundos com agulha a
2 mm do comprimento de trabalho
Evidências:
● Resultados semelhantes à irrigação convencional
em istmos
● Pior que PUI em remoção de detritos
● Sem diferença estatística na extrusão apical em
comparação com PUI, EndoVac e irrigação
convencional
EDDY
Fabricante: VDW (Alemanha)
Material: Poliamida flexível
Dimensões: Diâmetro 25 / Conicidade 0,04
Frequência: 5.000–6.000 Hz
Cinemática: Movimento tridimensional sônico
Indicações:
● Agitação final de irrigantes
● Remoção de detritos e smear layer
Evidências:
● Eficácia comparável à PUI (Urban et al.)
● Superior à irrigação convencional
● Reduz carga bacteriana intracanal (Zeng et al.), mas
não elimina bactérias nos túbulos
Sistema Multissônico Avançado
GentleWave
Fabricante: Sonendo Inc. (EUA)
Tecnologia: Cavitação hidrodinâmica multissônica
Sistema: Console + peça de mão
Irrigação sem pressão apical
Indicações:
● Irrigação profunda com mínima instrumentação
(diâmetro 20)
● Tratamento de molares com anatomia complexa
Protocolo recomendado: NaOCl por 5 min → Água por 30 s
→ EDTA por 2 min → Água por 15 s
Evidências:
● Melhor limpeza dos canais em comparação com
irrigação convencional (Molina et al.)
● Sem extrusão apical (Charara et al.)
● Necessidade de mais estudos clínicos
randomizados.
MÉTODOS ULTRASSÔNICOS DE AGITAÇÃO NA IRRIGAÇÃO
ENDODÔNTICA
1. FINALIDADE DA AGITAÇÃO ULTRASSÔNICA
● Potencializar o efeito das soluções irrigantes;
● Aumentar o alcance da irrigação em áreas não
acessadas por instrumentos;
● Promover remoção de detritos, smear layer e
biofilme bacteriano.
2. PRINCÍPIO FÍSICO DOS SISTEMAS ULTRASSÔNICOS
● Frequência: >20.000 Hz (imperceptível ao ouvido
humano);
● Mecanismos:
○ Magnetoestritivo: 20.000–25.000 Hz,
movimento elíptico do inserto;
○ Piezoelétrico: >28.000 Hz, vibração
ultralinear — mais usado em Endodontia.
3. EFEITOS GERADOS
● Cavitação transitória: formação e ruptura de
bolhas → ondas de choque (shock waves);
● Microvaporização acústica e aquecimento do
irrigante → melhora da penetração e ação química;
● Ação física que complementa a limpeza química e
mecânica.
4. REGIÕES DE DIFICULDADE DE LIMPEZA
● Istmos presentes em ~87% dos molares inferiores;
● Especialmente localizados nos 3–5 mm apicais;
● Impactação de detritos e barreiras físicas ao
irrigante.
AGITAÇÃO ULTRASSÔNICA PASSIVA (PUI)
DEFINIÇÃO
● Agitação do irrigante sem ação cortante;
● Realizada com o canal previamente preparado e
preenchido por irrigante.
PROTOCOLO CLÍNICO
● Inserto fino e liso (ex: E1-Irrisonic – 20/.01; Irrisafe –
20/.02 ou 25/.02);
● Potência: 10%;
● Tempo: 20 s por ciclo;
● Posição: 1–2 mm do comprimento de trabalho;
● Deve-se manter o inserto centralizado, sem
contato com as paredes.
EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS
● Maior remoção de smear layer, detritos e biofilme
do que irrigação convencional e agitação sônica;
● Melhor penetração de NaOCl em túbulos
dentinários;
● Favorece a remoção de medicação intracanal
(hidróxido de cálcio e TAP);
● Melhora a qualidade da obturação.
LIMITAÇÕES
● Termo “passiva” é inadequado (não é totalmente
passiva);
● Eficácia depende da conicidade e amplitude do
preparo;
● Pode não reduzir endotoxinas mesmo com
redução bacteriana.
APLICAÇÕES ESPECÍFICAS
● Canais curvos;
● Retratamentos endodônticos (remoção de material
obturador);
● Auxílio na limpeza de istmos e áreas achatadas.
NOVOS INSERTOS NACIONAIS
● ClearSonic (R1) e FlatSonic (R2) – Helse Dental
Technology;
● Comprovada eficácia na remoção de materiais
obturadores em canais achatados.
AGITAÇÃO ULTRASSÔNICA CONTÍNUA (CUI)
DEFINIÇÃO
● Agitação ultrassônica simultânea à liberação
contínua de solução irrigadora.
EQUIPAMENTOS
● Necessário ultrassom com sistema de irrigação
acoplado;
● Ex: ProUltra® (Dentsply), sistema da Vista Dental.
PROTOCOLO CLÍNICO
● Realizar a cada troca de instrumento;
● Inserto a 2 mm do CT (recuar se houver
travamento);
● Tempo: 20 s por irrigação.
VANTAGENS
● Maior penetração de irrigante em canais laterais e
região apical;
● Melhor limpeza de istmos;
● Supera PUI e irrigação convencional em
determinadas situações.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
● Nenhum sistema de instrumentação consegue
limpar completamente o canal radicular;
● A combinação de ação mecânica, química e física
(PUI/CUI) é essencial;
● A escolha entre PUI e CUI depende da anatomia,
equipamento disponível e objetivo clínico.
IRRIGAÇÃO: SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS EMPREGADAS NO
PREPARO DE CANAIS RADICULARES
PREPARO QUÍMICO MECÂNICO:
O preparo químico-mecânico tem como finalidade limpar e
modelar o sistema de canais radiculares. A modelagem é
obtida por meio da ação mecânica dos instrumentos, que
desgastam seletivamente as paredes dentinárias,
conferindo ao canal uma forma cônica, com o maior
diâmetro na região cervical e o menor no ápice.
A limpeza, por sua vez, resulta da interação de três fatores
principais:
1. Ação mecânica dos instrumentos nas paredes do
canal;
2. Ação química das substâncias auxiliares sobre
restos orgânicos, inorgânicos e microrganismos;
3. Eficácia da irrigação e aspiração, que favorecem a
remoção de resíduos através do fluxo e refluxo da
solução irrigadora, turbulência e energia cinética
do jato.
As substâncias químicas têm papel fundamental e podem
ser utilizadas tanto como auxiliares da instrumentação
quanto como soluções irrigadoras. A escolha adequada
depende de suas propriedades físico-químicas, como pH,
tensão superficial, capacidade de dissolução tecidual, ação
antimicrobiana e biocompatibilidade.
SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS AUXILIARES NA
INSTRUMENTAÇÃO ENDODÔNTICA:
Durante o preparo químico-mecânico, substâncias químicas
auxiliares são empregadas no interior do canal radicular
para potencializar os efeitos da instrumentação mecânica,
especialmente em áreas de anatomia complexa,
inacessíveis aos instrumentos.
Principais objetivos dessas substâncias:
● Reduzir ou eliminar microrganismos patogênicos;
● Dissolver tecidos orgânicos, vivos ou necrosados;
● Lubrificar os canais, facilitando o deslizamento dos
instrumentos e reduzindo o risco de fratura;
● Remover a smear layer, que pode interferir na
desinfecção e na obturação.
Essassubstâncias atuam em sinergia com os instrumentos,
com efeitos físicos e químicos, e podem ser utilizadas:
● Durante a instrumentação, promovendo limpeza e
lubrificação;
● Após a instrumentação, para reforçar a
desinfecção e remover resíduos aderidos às
paredes do canal.
Formas de apresentação:
● Soluções líquidas (mais utilizadas);
● Géis;
● Cremes.
Conceito químico – Solução:
● Uma solução é a mistura homogênea de soluto
(substância dispersa) e solvente (substância
dispersante);
● Em Endodontia, o solvente é sempre líquido (água
ou outro veículo aquoso), e o soluto pode ser
sólido, líquido ou gasoso.
Observação clínica:
Devido à complexidade anatômica dos canais (como
mostrado em imagens de microtomografia ou cortes
longitudinais), a ação química dessas substâncias é
essencial para alcançar regiões que os instrumentos não
tocam diretamente, como istmos, canais acessórios e
ramificações apicais.
REQUISITOS DAS SOLUÇÕES IRRIGADORAS:
1. Baixa Tensão Superficial
● Permite maior umectação das paredes dentinárias
e melhor penetração nas anfractuosidades e
irregularidades do sistema de canais radiculares.
● Favorece a capilaridade, principalmente em canais
ramificados, reentrâncias e deltas apicais.
● Exemplo: Hipoclorito de sódio tem baixa tensão
superficial, ainda mais na presença de tensoativos.
2. Baixa Viscosidade
● Facilita o escoamento por cânulas finas e longas.
● Permite melhor distribuição e renovação da
solução no interior do canal.
● Menor viscosidade = maior fluidez = melhor
alcance e ação da substância.
● A viscosidade diminui com o aumento da
temperatura.
3. Alta Atividade de Solvente de Tecido
● Capacidade de dissolver matéria orgânica, como
tecido pulpar necrótico ou vivo.
● Fundamental devido à complexidade anatômica
dos canais (ex: canais acessórios e istmos).
● Fatores que aumentam a efetividade:
○ Maior volume de solução em relação ao
tecido.
○ Maior área de contato.
○ Maior temperatura.
○ Agitação mecânica.
○ Alta concentração.
○ Frequente renovação da solução.
4. Atividade Antimicrobiana
● Essencial para eliminar biofilmes bacterianos e
microrganismos resistentes ao preparo mecânico.
● Atua além do efeito mecânico (remoção de
detritos).
● Substâncias como o NaOCl (hipoclorito de sódio)
são exemplos eficazes.
5. Atividade Quelante
● Remove íons cálcio da dentina por quelação,
favorecendo a remoção da smear layer (lama
dentinária).
● Facilita o alargamento de canais estreitos
(principalmente em forma líquida).
● Agentes quelantes comuns: EDTA e ácido cítrico.
● Sua ação na remoção de obstruções durante a
instrumentação de canais atresiados é limitada;
atua mais como lubrificante.
6. Atividade Lubrificante
● Reduz o atrito entre instrumento e dentina,
diminuindo o desgaste e preservando a capacidade
de corte.
● Favorece a progressão dos instrumentos em canais
curvos ou estreitos.
● Importante para evitar fraturas instrumentais e
preservar a anatomia do canal.
7. Capacidade de Suspensão de Detritos
● Mantém os detritos (orgânicos e inorgânicos) em
suspensão, evitando sedimentação no ápice e
obstruções.
● Previne extrusões apicais e complicações como
perfurações ou desvios.
● A substância deve ser renovada frequentemente
durante a instrumentação para manter sua fluidez
e efetividade.
● A cavidade de acesso deve funcionar como um
reservatório irrigante.
Considerações Importantes
● O volume médio que os canais radiculares
comportam é pequeno (ex: 10,3 mm³ nos
superiores e 11,1 mm³ nos inferiores).
● A renovação frequente da solução irrigante é
fundamental.
● Substâncias como o hipoclorito de sódio perdem
sua atividade na presença de matéria orgânica,
exigindo constante troca.
SOLUÇÕES IRRIGANTES
São soluções químicas usadas na irrigação-aspiração dos
canais radiculares. Sendo a irrigação-aspiração um
procedimento de curta duração, é de se esperar que sua
eficiência dependa mais das propriedades físicas do que
das propriedades químicas das soluções empregadas.
As soluções irrigadoras devem possuir:
● Pequeno coeficiente de viscosidade;
● Baixa tensão superficial.
Esses requisitos favorecem:
● Aumento do alcance do jato;
● Formação da turbulência;
● Refluxo do líquido em direção coronária.
Com isso, há maior efetividade na limpeza do canal
radicular.
BIOCOMPATIBILIDADE
Toda substância desinfetante apresenta toxicidade para as
células vivas. Isso ocorre porque essas substâncias, ao
contrário dos antibióticos, não têm seletividade para
microrganismos. Portanto, é utópico querer conciliar forte
ação antimicrobiana ou solvente de tecido com
compatibilidade biológica. O modo clínico de uso afeta
diretamente o potencial de toxicidade da substância.
Os efeitos lesivos de uma substância desinfetante sobre os
tecidos dependem de:
● Sua toxicidade intrínseca;
● Sua concentração;
● Tempo de contato;
● Área de contato com os tecidos.
Exemplo: Hipoclorito de Sódio a 5,25%
● In vitro: apresenta alta citotoxicidade;
● In vivo: esse efeito não é observado, desde que não
haja extravasamento pelo forame apical;
● O extravasamento aumenta a área de contato,
podendo causar efeitos indesejáveis e graves
Além disso, quando a infecção endodôntica é controlada
por um preparo químico-mecânico adequado e por uma
medicação intracanal, o efeito irritante transitório da
substância química torna-se irrelevante, não interferindo no
reparo dos tecidos perirradiculares.
Conclusão: Sem infecção e sem agressão química
persistente, o reparo tecidual ocorre naturalmente.
IMPORTÂNCIA DA AÇÃO QUÍMICA DURANTE O PREPARO
Dado que a busca por um preparo ideal — em termos de
forma e limpeza — encontra obstáculos (como a
complexidade anatômica dos canais radiculares e as
propriedades das ligas metálicas dos instrumentos), é
fundamental que a substância química:
● Tenha atividade solvente sobre tecido vivo ou
necrosado;
● Tenha atividade antimicrobiana.
Risco da Omissão: A postura de não empregar substâncias
químicas ativas durante o preparo pode, a longo prazo,
levar ao fracasso do tratamento endodôntico. É essencial
respeitar os tecidos perirradiculares, mas os resultados de
testes laboratoriais de toxicidade não podem ser
extrapolados diretamente para a clínica.
HIPOCLORITO DE SÓDIO (NaOCl) – ORIGEM,
COMPOSIÇÃO E IMPORTÂNCIA EM ENDODONTIA
1. Origem Industrial e Processos de Obtenção
O hipoclorito de sódio (NaOCl) é um produto da indústria
eletroquímica do cloro, resultante da eletrólise do cloreto
de sódio (NaCl). Os produtos finais da eletrólise dependem
das condições operacionais, podendo gerar:
● Hidróxido de sódio (NaOH);
● Cloro (Cl₂);
● Hipoclorito de sódio (NaOCl);
● Ácido clorídrico (HCl)
As soluções eletrolíticas resultantes podem atingir
concentrações de NaOCl entre 10% e 17%, sendo
posteriormente diluídas para usos doméstico, hospitalar e
odontológico.
2. CLORO ATIVO E GRAU CLOROMÉTRICO
O poder oxidante do NaOCl é diretamente proporcional à
quantidade de cloro ativo liberado. Este é o parâmetro de
maior relevância analítica na avaliação da eficácia do
hipoclorito.
● Cloro ativo: quantidade de cloro disponível para
reações químicas oxidativas;
● Grau clorométrico (inglês): representa o peso de
cloro ativo por 100 mL de solução.
O método padrão para determinar esse grau é a
titulometria iodométrica, que permite aferir com precisão o
teor de cloro ativo.
Cálculo do Teor de NaOCl: A fórmula de conversão
se baseia na relação entre os pesos moleculares:
● NaOCl = 23 (Na) + 16 (O) + 35,5 (Cl) = 74,5;
● Cl₂ = 35,5 × 2 = 71;
● Fator de conversão = 74,5 / 71 = 1,0493
Fórmula prática: % NaOCl = % Cloro Ativo × 1,0493
Exemplo aplicado:
● Cloro ativo: 2,309%;
● Teor de NaOCl: 2,309 × 1,0493 = 2,423%
PROPRIEDADES DO NaOCl DE INTERESSE CLÍNICO
O hipoclorito de sódio é multifuncional. Suas propriedades
o tornam a solução irrigadora padrão-ouro naEndodontia
moderna:
● Atividade antimicrobiana de amplo espectro
(inclusive contra Enterococcus faecalis);
● Solubilidade de matéria orgânica (ação proteolítica
sobre tecido necrótico e restos pulpares);
● Detergente (por promover saponificação de
lipídios);
● Desodorizante e clareador;
● Lubrificante (facilita deslizamento dos
instrumentos);
● Baixa tensão superficial (aumenta penetração nos
túbulos dentinários).
COMPORTAMENTO QUÍMICO EM SOLUÇÃO
AQUOSA
O NaOCl só existe em solução aquosa. Ao ser dissolvido,
sofre hidrólise originando:
● Hidróxido de sódio (NaOH) – Base forte, totalmente
dissociada;
● Ácido hipocloroso (HOCl) – Ácido fraco,
parcialmente dissociado.
Reação de equilíbrio: NaOCl + H₂O ⇌ Na⁺ + OH⁻ +
HOCl
A forma de HOCl presente na solução depende do pH:
● pH ≤ 5,5 → HOCl não ionizado: máxima atividade
antimicrobiana;
● pH > 9 → HOCl ionizado (como OCl⁻): redução da
eficácia bactericida.
A forma não ionizada do HOCl é mais lipossolúvel e
penetra melhor na parede bacteriana, tornando-a
mais eficaz. O efeito de dissolução tecidual ocorre
por ação combinada de NaOH e HOCl sobre
diferentes substratos orgânicos.
ESTABILIDADE E TIPOS DE ALCALINIDADE
A solução de hipoclorito é instável, pois é oxidante. Sua
estabilidade é protegida por dois tipos de alcalinidade:
1. Alcalinidade cáustica (protetora)
● Representa a quantidade de NaOH;
● Eleva o pH até ~13,5;
● Neutraliza o ácido carbônico (H₂CO₃) formado pela
absorção de CO₂ atmosférico;
● Retardar reações de autorredox do hipoclorito,
como: 3ClO⁻ → 2Cl⁻ + ClO₃⁻ (clorato)
TOXICIDADE E USO CLÍNICO
A toxicidade do NaOCl está relacionada principalmente ao
teor de NaOH:
● Concentrações elevadas de NaOH podem causar
necrose tissular, irritação periapical, acidente de
extravasamento, entre outros.
● Para uso seguro em Endodontia, recomenda-se
que a concentração de NaOH não ultrapasse 0,4%.
CONSIDERAÇÕES FINAIS PARA A PRÁTICA
ENDODÔNTICA
● O NaOCl continua sendo insubstituível na prática
clínica atual pela sua ação tripla: antimicrobiana,
solvente e detergente.
● Deve-se estar atento à concentração e ao prazo de
validade da solução, pois sua instabilidade química
compromete a eficácia.
● A diluição correta e o uso controlado em sistemas
de irrigação, associado a técnicas como PUI
(Passive Ultrasonic Irrigation), aumentam sua
eficácia e segurança.
ATIVIDADE SOLVENTE E ANTIMICROBIANA
ATIVIDADE SOLVENTE DO HIPOCLORITO DE SÓDIO
A capacidade solvente do NaOCl está relacionada a diversos
fatores, como:
● Volume da solução em relação ao volume de
tecido;
● Superfície de contato da solução com o tecido;
● Tempo de ação;
● Temperatura da solução;
● Agitação da solução;
● Concentração da solução;
● Renovação da solução.
O somatório desses fatores é o que irá definir o grau de
atividade solvente do NaOCl. No atendimento clínico, o
ideal seria que o profissional conseguisse manter todos
esses fatores sempre em níveis altos para alcançar o
máximo de eficiência da solução na dissolução dos tecidos.
Quimicamente, a ação solvente do NaOCl ocorre por ação
do hidróxido de sódio (NaOH) e do ácido hipocloroso
(HOCl), conforme as seguintes reações:
● Reação de saponificação: Ácido graxo + NaOH →
Sabão + Glicerol (Equação I);
● Reação de neutralização: Aminoácido + NaOH →
Sal + Água (Equação II);
● Reação de cloraminação: Proteína (grupo NH2) +
HOCl → Cloraminas + Água (Equação III).
Essas reações químicas promovem a degradação das
estruturas moleculares da matéria orgânica e promovem
sua dissolução.
ATIVIDADE ANTIMICROBIANA DO HIPOCLORITO DE
SÓDIO
O NaOCl apresenta ação antimicrobiana contra diversos
microrganismos, sejam formas vegetativas ou esporuladas.
Se utilizado na concentração adequada, pode eliminar
esporos bacterianos em apenas 1 minuto. Além disso, o
NaOCl também é eficaz contra microrganismos organizados
em biofilmes. Nesses casos, sua ação não se limita à
destruição celular, pois o NaOCl também é capaz de
destruir a matriz extracelular polissacarídica do biofilme.
Quimicamente, o efeito antimicrobiano do NaOCl ocorre
por ação do cloro ativo, que está presente na forma de
ácido hipocloroso (HOCl) e hipoclorito (OCl–). Esses dois
compostos promovem a oxidação dos grupos sulfidrila
(–SH) das enzimas bacterianas, levando à inativação
enzimática. Além disso, promovem a formação de
cloraminas pela reação com os grupos amina (–NH2) das
proteínas, levando à desnaturação proteica e destruição de
estruturas bacterianas.
FATORES QUE INTERFEREM NAS ATIVIDADES SOLVENTE E
ANTIMICROBIANA
1. pH: A ação antimicrobiana do NaOCl é maior em pH
ácido, pois nesse pH há maior predominância do ácido
hipocloroso (HOCl), que é mais ativo que o ânion hipoclorito
(OCl–). Por outro lado, a solução de NaOCl é instável em pH
ácido, sendo, portanto, armazenada e utilizada em pH
alcalino (acima de 10).
Durante o contato com a matéria orgânica, o pH da solução
tende a cair, fazendo com que haja aumento da proporção
de HOCl e, consequentemente, aumento da ação
antimicrobiana in situ.
2. Temperatura: O aumento da temperatura da solução
aumenta tanto sua atividade solvente quanto sua atividade
antimicrobiana. O aquecimento mais eficaz ocorre dentro
do canal radicular, em associação com a agitação
ultrassônica. Essa forma de aquecimento é mais vantajosa
do que apenas aquecer a seringa ou a solução.
3. Presença de matéria orgânica: Em casos de presença
de grande quantidade de matéria orgânica (tecido
necrótico, biofilme denso), há consumo dos compostos
ativos da solução, em especial do cloro livre. Isso reduz sua
efetividade ao longo do tempo e torna necessário realizar
renovação frequente da solução durante o tratamento.
Em casos de infecção necrótica, pode-se utilizar água
sanitária (que também contém hipoclorito, porém de forma
mais estável), como forma de potencializar a atividade da
solução.
4. Concentração da solução: Quanto maior a
concentração da solução de NaOCl, maior sua capacidade
solvente e maior sua atividade antimicrobiana. A atividade
solvente é mais afetada pela diluição do que a atividade
antimicrobiana.
CLOREXIDINA
1. Estrutura e forma de uso:
● A clorexidina é uma bisbiguanida catiônica com
dois anéis clorofenólicos e um núcleo de
biguanida, conectados por uma cadeia de
hexametileno.
● É pouco solúvel em água, por isso é usada na
forma de sal digluconato de clorexidina, o qual é
solúvel e estável entre pH 5 e 8.
2. Atividade antimicrobiana:
● Atua em amplo espectro, contra bactérias
gram-positivas e gram-negativas.
● É bacteriostática em baixas concentrações e
bactericida em concentrações mais altas.
● Sua ação ocorre pela adsorção à membrana
bacteriana (negativamente carregada), levando à
perda de integridade de membrana,
extravasamento de íons e, em concentrações
maiores, de ácidos nucleicos.
● Atua também inibindo enzimas como a ATPase.
3. Substantividade:
● Apresenta capacidade de se ligar à hidroxiapatita e
glicoproteínas, sendo liberada lentamente — o que
garante ação prolongada por até 4 meses.
4. Comparação com o hipoclorito de sódio (NaOCl):
● Apesar de menos tóxica e irritante que o NaOCl,
não tem ação solvente de tecido orgânico, nem
clareadora.
● Estudos mostram que, in vitro, a clorexidina é
menos eficaz que o NaOCl 4%, mas in vivo, os
efeitos antimicrobianos podem ser semelhantes.
● Pode ser utilizada como irrigante final, após
lavagem com solução neutra (como soro ou água),
pois não deve ser combinada diretamente com
NaOCl, sob risco de formação de paracloroanilina
(precipitado escuro, tóxico e que pigmenta
dentina).
5. Indicações clínicas especiais:
● Substituto do NaOCl em pacientes com alergia.
● Útil em casos com risco de extravasamento apical
(como rizogênese incompleta), por sua baixa
toxicidade.
6. Uso associado ao hidróxido de cálcio:
● Pode ser associada ao hidróxido de cálcio como
medicaçãointracanal, com bons resultados
antimicrobianos.
ÁCIDO CÍTRICO:
1. Estrutura e ação:
● Ácido orgânico (ácido
2-hidroxi-1,2,3-propanotricarboxílico), sólido,
cristalino e muito solúvel em água.
● Atua promovendo a desmineralização de tecidos
duros do dente.
2. Concentração e efeito:
● Não há consenso; estudos indicam uso entre 1% e
50%.
● A 50% tem efeito antibacteriano contra E. faecalis,
devido ao pH muito baixo (1,45–1,5).
● O pH ácido pode causar citotoxicidade aos tecidos
perirradiculares.
3. Aplicação clínica:
● Utilizado para remoção da smear layer
(componente mineralizado).
● Preferência por menores concentrações devido à
menor agressividade.
MTAD
1. Composição:
● Mistura de doxiciclina (tetraciclina), ácido cítrico e
detergente (Tween® 80).
2. Mecanismo e indicação:
● Quelante e antimicrobiano, remove smear layer e
combate bactérias endodônticas.
● Indicado como irrigação final, após NaOCl 1,3%;
deve permanecer no canal por 5 minutos.
3. Vantagens e limitações:
● Menos agressivo à dentina que EDTA.
● Baixa eficácia contra biofilmes de E. faecalis.
● Estudos clínicos não demonstram superioridade
antibacteriana.
4. Alternativa:
● Tetraclean™: Semelhante ao MTAD™, com menos
doxiciclina, mostrou-se mais eficaz contra biofilmes
in vitro, porém sem evidência clínica disponível.
ÁGUA DE CAL:
1. Composição: Solução saturada de hidróxido de cálcio em
água destilada (pH ≈ 11).
2. Propriedades:
● Alta tensão superficial, baixa atividade
antibacteriana, não solvente de tecido pulpar.
● Não recomendada como irrigante auxiliar da
instrumentação.
3. Indicações específicas:
● Canais com vitalidade pulpar, rizogênese
incompleta, ou em tratamento conservador pulpar.
● Atua como hemostático em hemorragias pulpares
(via desnaturação proteica).
ÁGUA OXIGENADA
1. Propriedades:
● Líquido instável, pH ≈ 3,5.
● Libera oxigênio nascente sob calor, luz ou contato
com sangue, provocando efervescência.
2. Uso histórico:
● Associado ao NaOCl no método de Grossman
(S.O.S.), promovendo efervescência para remoção
mecânica de detritos.
3. Limitações:
● Atividade antibacteriana limitada, não solvente de
tecido, e ineficaz como irrigante principal.
● Reage com NaOCl, neutralizando o cloro ativo e
reduzindo o efeito antimicrobiano.
GLICERINA:
1. Características: Líquido viscoso, incolor, miscível em
água, sem atividade solvente ou antimicrobiana.
2. Aplicação:
● Usada como lubrificante em canais atresiados,
facilitando a inserção inicial de instrumentos.
● Deve ser removida com irrigação aquosa após sua
função.
Outras Soluções (Água destilada, anestésicos, soro
fisiológico)
- Não possuem propriedades antimicrobianas, solventes ou
quelantes.
- Não são indicadas como soluções químicas auxiliares da
instrumentação.
- Podem ser utilizadas como soluções de enxágue
intermediárias ou para neutralizar interações químicas.
Smear Layer (Lama dentinária)
Definição e Características
A smear layer é uma camada delgada, amorfa, de aspecto
irregular e granular, composta por restos dentinários,
tecido pulpar, bactérias e seus produtos, que se deposita
nas paredes dos canais radiculares após o preparo
químico-mecânico. Observável somente por microscopia
eletrônica de varredura (MEV), essa camada não é visível
por microscopia óptica por ser solúvel em ácido e removida
durante o processamento histológico.
Origem e Composição
Resulta da ação de corte dos instrumentos sobre a dentina,
esmalte ou cemento. Possui:
● Componentes inorgânicos: partículas de dentina e
outros resíduos minerais;
● Componentes orgânicos: tecido pulpar vivo ou
necrótico, processos odontoblásticos, proteínas,
células, saliva e bactérias.
Morfologia
● Smear layer (plano frontal): fina, pouco aderida, de
1 a 5 μm, separada da dentina subjacente.
● Smear plug (plano lateral): material compactado
nos túbulos dentinários, penetrando até 40 μm,
dificultando a permeabilidade dentinária.
Remoção ou Não da Smear Layer
Argumentos Contra a Remoção
● Em casos assépticos, sua presença pode atuar
como barreira à penetração bacteriana nos
túbulos.
● Pode proteger contra infiltração em casos de falha
do selamento coronário.
● Contudo, pode ser contaminada e servir de abrigo
para microrganismos.
Argumentos a Favor da Remoção
● Em dentes infectados, impede ação completa dos
medicamentos intracanais.
● Reduz a permeabilidade da dentina radicular
(25–49%).
● Dificulta o selamento apical adequado.
● Pode impedir a difusão de agentes
antimicrobianos.
Relação com Selamento e Microinfiltração
● A remoção da smear layer facilita a penetração de
cimentos obturadores nos túbulos dentinários.
● A maior falha de selamento ocorre na interface
cimento/parede dentinária.
● A sua remoção promove melhor imbricação
mecânica e vedamento apical, reduzindo risco de
microinfiltração
Métodos de Remoção
Irrigação química alternada
● EDTA 17%: remove componente inorgânico
(quelante).
● NaOCl 2,5% a 5,25%: remove componente
orgânico, inclusive colágeno.
● Melhor protocolo: 10 mL de EDTA a 17% (pH 7,7) +
10 mL de NaOCl a 5,25% (Yamada et al.).
Agitação da solução
● Solução estática: menos eficaz.
● Agitação com espiral de Lentulo® (giro à direita por
2 minutos): maior remoção, inclusive de bolhas
(vapor lock), por ação mecânica e cisalhamento.
● Tempo ideal de EDTA no canal: 5 minutos.
Ultrassom
● Promove circulação contínua da solução irrigadora.
● Mais eficaz que irrigação manual.
● Microcorrentes acústicas facilitam a limpeza.
Laser (Er:YAG)
● Remove smear layer por ablação, expondo túbulos
dentinários sem danos térmicos.
● Resultados promissores, mas não superiores ao
protocolo com EDTA + NaOCl.
● Atua vaporizando a camada residual e
promovendo limpeza completa da parede do canal.
OBTURAÇÃO DO SISTEMA DE CANAIS RADICULARES:
1. Introdução
A obturação do sistema de canais radiculares é uma etapa
essencial do tratamento endodôntico, realizada após a
limpeza, modelagem e desinfecção do canal. Seu principal
objetivo é vedar hermeticamente o canal radicular e seus
canais acessórios, promovendo a prevenção da
recontaminação por fluídos orais e/ou periapicais e
favorecendo o processo de reparo dos tecidos periapicais.
O sucesso do tratamento endodôntico depende
diretamente da qualidade da obturação. Uma obturação
inadequada pode permitir a permanência ou penetração de
micro-organismos no interior do canal, levando a
insucessos clínicos como dor persistente, fístulas,
abscessos e reabsorções.
2. Finalidades da Obturação
● Selamento hermético do sistema de canais
radiculares (SCR): Impede a comunicação com o
meio bucal e tecidos periapicais.
● Prevenção da recontaminação: Evita a entrada de
micro-organismos por via coronal ou apical.
● Destruição de micro-organismos residuais:
Associada ao uso de cimentos obturadores com
propriedades antimicrobianas.
● Impedimento de infiltração de fluidos e moléculas:
Garante estabilidade biológica e previne recidivas
da patologia endodôntica.
3. Considerações Anatômicas Importantes
● Curvatura radicular: Deve ser respeitada na
escolha de instrumentos e técnicas de obturação.
● Plexo pulpar: Estrutura anatômica que precisa ser
removida durante a instrumentação.
● Delta apical: Região complexa que exige cuidado
para obter um selamento efetivo.
● Forma da câmara pulpar: Importante na abertura
coronária e acesso ao canal.
4. Considerações Biológicas
● Relação com os tecidos periapicais: Obturação
adequada contribui para a reparação e cicatrização
desses tecidos.
● Micro-organismos: Devem ser eliminados ou
controlados com irrigação e medicação intracanal.
● Patologias pulpares e periapicais: Guiam o plano
de tratamento e o momento ideal da obturação.
5. Condições Necessárias para Realizar a Obturação
Antes da obturação, o canal deve estar clinicamente e
biologicamente estável.São critérios fundamentais:
● Ausência de dor espontânea ou provocada;
● Ausência de edema/tumefação ou fístula;
● Ausência de exsudato persistente;
● Canal completamente seco e sem odor fétido;
● Ausência de sensibilidade à percussão e palpação.
6. Propriedades Ideais dos Materiais Obturadores
O material obturador ideal deve apresentar as seguintes
características:
● Atividade antimicrobiana;
● Biocompatibilidade, sem causar toxicidade ou
mutagenicidade;
● Estimular a reparação dos tecidos periapicais;
● Ter aderência e adaptação à dentina;
● Apresentar boa fluidez e escoamento;
● Estabilidade dimensional (não deve expandir ou
retrair);
● Ser radiopaco;
● Não manchar a dentina nem ser solubilizado pelos
fluidos teciduais;
● Ser econômico, fácil de manipular, inserir e
remover.
7. Materiais Utilizados na Obturação
Guta-percha
● Material padrão ouro para obturação radicular.
● Biocompatível, flexível, radiopaco e
termoplastificável.
● Deve ser usada em conjunto com cimentos
obturadores.
Cimentos Obturadores Endodônticos
● À base de resina epóxi: AH Plus (excelente
vedamento, longa durabilidade);
● À base de MTA: MTA Fillapex (bioatividade, reparo
periapical);
● À base de hidróxido de cálcio: Sealapex
(biocompatível, liberação de cálcio);
● À base de óxido de zinco e eugenol: Endo Fill, Fill
Canal;
● Sealer 26: à base de resina + hidróxido de cálcio.
8. Técnicas de Obturação
Classificação Geral
1. Condensação lateral e vertical da guta-perch;
2. Termoplastificação mecânica (ex: Técnica de
Tagger);
3. Injeção de guta-percha termoplastificada.
9. Técnica de Tagger (Condensação Termomecânica)
Instrumento Utilizado: Condensador de McSpadden
● Fabricado em aço inox com desenho similar à lima
Hedström, porém com rosca invertida;
● Gera calor por fricção para plastificar a
guta-percha;
● Usado em motor de baixa rotação (mínimo 8000
rpm) com torque elevado;
● Deve girar no sentido horário para evitar extrusão
apical da guta.
Numeração dos Condensadores McSpadden (Dentsply):
● Amarelo – 20/50;
● Vermelho – 25/55;
● Azul – 30/60;
● Verde – 35/70;
● Preto – 40/80
10. Passo a Passo da Técnica de Obturação
1. Seleção do cone principal de guta-percha (de
acordo com o preparo final do canal).
2. Calibração do cone para ajustar ao diâmetro apical.
3. Higienização do cone com álcool 70% ou
hipoclorito de sódio.
4. Prova do cone no comprimento de trabalho
(C.R.T.): travar 1 mm aquém do forame apical.
5. Radiografia periapical de prova para confirmar a
adaptação.
6. Manipulação do cimento endodôntico (em placa de
vidro com espátula estéril).
7. Aplicação do cimento no canal com cone ou
lentulo.
8. Inserção do cone principal com cimento, travando
na região apical.
9. Inserção de 1 a 2 cones acessórios com
espaçadores digitais, se necessário.
10. Condensação termomecânica com McSpadden,
sem movimentos de bombeamento, por alguns
segundos.
11. Condensação apical adicional com condensadores
de Schilder (aproveitando a termoplastificação).
12. Corte do excesso de guta-percha na câmara
coronária com instrumento aquecido.
13. Limpeza da cavidade com bolinha de algodão
embebida em álcool.
14. Vedamento coronário provisório com cimento
provisório (Coltosol, CIV, etc.) – Blindagem
Endodôntica.
11. Blindagem Endodôntica
● Serve para proteger a obturação até que o dente
receba a restauração definitiva.
● Deve impedir a microinfiltração coronal.
● Materiais como CIV ou Ionômero Resinado são
recomendados.
12. Critérios de Sucesso Pós-Obturação (Preservação da
Terapia Endodôntica)
● Ausência de dor e sensibilidade;
● Mobilidade dentária dentro da normalidade;
● Ausência de fístula ou edema;
● Função mastigatória normal;
● Regeneração dos tecidos periapicais na imagem
radiográfica;
● Normalidade do espaço do ligamento periodontal;
● Ausência de reabsorções radiculares.
13. Falhas na Obturação Endodôntica
● Sobreobturação com ponta não plastificada: pode
provocar reação tecidual.
● Subobturação (obturação aquém do C.R.T.):
permite espaço para proliferação microbiana.
● Falhas de compactação: formação de bolhas e
espaços vazios.
● Obstrução parcial de canais acessórios: reduz
eficácia da selagem tridimensional.
● Uso inadequado do condensador de McSpadden:
pode levar à extrusão de material ou fratura do
instrumento.
14. Considerações Finais
A obturação é a etapa final da terapia endodôntica, mas sua
execução correta é indispensável para o sucesso do
tratamento. A técnica de Tagger, com uso da guta-percha
termomecanicamente plastificada, é amplamente utilizada
por permitir preenchimento tridimensional, inclusive em
canais acessórios, desde que executada com domínio
técnico e conhecimento dos instrumentos.
ISOLAMENTO ABSOLUTO:
O isolamento absoluto do campo operatório é um
procedimento essencial na prática endodôntica, sendo
realizado antes da abertura coronária. Garante segurança
ao paciente, controle de infecção cruzada e proteção dos
tecidos moles e melhora da eficácia clínica. Este relatório
integra conteúdo técnico e clínico detalhado para
proporcionar uma compreensão completa sobre o tema.
2. Definição e Objetivos
O isolamento absoluto consiste na vedação do dente a ser
tratado com um lençol de borracha fixado por grampo e
arco de isolamento. Os principais objetivos incluem:
● Manter campo operatório seco e limpo, livre de
saliva, sangue e fluidos tissulares;
● Evitar contaminação bacteriana do sistema de
canais radiculares;
● Proteger o paciente contra deglutição ou aspiração
de instrumentos (ex: limas, brocas, cones de
guta-percha);
● Melhorar a visibilidade e o acesso ao campo
operatório;
● Reduzir o risco de infecção cruzada;
● Aumentar a eficiência e reduzir o tempo clínico;
● Evitar contato de substâncias irritantes com
mucosa oral (ex: hipoclorito de sódio, EDTA, etc.).
3. Implicações Clínicas da Ausência de Isolamento
A não realização do isolamento absoluto pode causar:
● Contaminação do canal radicular, comprometendo
o sucesso do tratamento;
● Deglutição ou aspiração de instrumentos
endodônticos (18% dos casos relatados segundo
literatura);
● Contato de substâncias químicas com mucosa,
podendo causar lesões graves;
● Risco legal e ético para o profissional em casos de
acidentes;
● Dificuldade de visão e controle de fluidos, afetando
a qualidade técnica do procedimento.
4. Etapas Prévias ao Isolamento
Antes da colocação do isolamento absoluto, devem ser
realizados:
1. Assepsia e antissepsia do campo operatório;
2. Profilaxia com pasta profilática e escovação da
região;
3. Remoção de cálculos supragengivais;
4. Remoção de tecidos cariados e restaurações
defeituosas;
5. Verificação e regularização de áreas de contato
proximal;
6. Reconstrução coronária provisória, caso haja
grande destruição dental (resina composta,
ionômero de vidro ou bandas ortodônticas);
7. Remoção de tecido gengival excedente, se
necessário;
8. Proteção dos tecidos moles com gel de barreira
gengival ou Omcilon A Orabase.
5. Momento Correto para o Isolamento
O isolamento deve ser realizado antes da abertura
coronária, mesmo em casos de necrose ou exposição
pulpar, sempre que possível. Isso previne contaminação do
sistema de canais e mantém o ambiente controlado.
Exceções ocorrem quando há necessidade de acesso inicial
para posterior reconstrução da coroa.
6. Seleção e Posição dos Grampos
6.1 Classificação e Indicação de Grampos
Os grampos são selecionados com base no tipo e posição
do dente, além da anatomia cervical.
Classificam-se em:
● Anteriores: 210, 212, 9, W9 (ex: incisivos e caninos);
● Pré-molares: 2, 2A, W2, W2A;
● Molares: 14, 14A, W14, 8A, W8A, 3, 7, W7, W8, W56;
● Grampos sem asa (wingless – W): usados em áreas
de difícil acesso ou maior destruição dentária.
6.2 Critérios de Seleção
● Grampos com asa facilitam a técnica do conjunto.
●Curvaturas em “S” foram observadas em 12 a 23%
dos casos.
Em resumo, a anatomia apical representa uma área crítica e
desafiadora da Endodontia. O conhecimento aprofundado
dessa região e o uso de tecnologia avançada e
instrumentos flexíveis são fundamentais para minimizar
erros como transporte, perfuração e fratura de
instrumentos, aumentando o sucesso clínico do
tratamento.
CANAL DENTINÁRIO
O canal
dentinário
é a porção
mais
extensa do
canal
radicular,
com
formato
cônico e
conicidade
pouco
acentuada, apresentando o menor diâmetro voltado para o
ápice radicular.
É formado pelas paredes dentárias e se estende desde a
embocadura até a junção cemento-dentinária (JCD). A
densidade de túbulos dentinários varia ao longo do canal,
sendo menor na região apical (aproximadamente 14.400
túbulos por mm² nos 2 a 3 mm finais) e maior na região
cervical (cerca de 40.000 túbulos por mm²).
Essa diferença influencia diretamente a permeabilidade
dentinária, tornando a região apical menos permeável.
Do ponto de vista clínico, essa característica é relevante
para compreender a variação na colonização microbiana
nas diferentes regiões do canal, bem como a penetração de
soluções irrigadoras e medicamentos intracanais. Assim, a
região apical do canal dentinário é a de menor
permeabilidade, o que afeta diretamente a eficácia do
preparo químico-mecânico e da desinfecção endodôntica.
JUNÇÃO DENTINO CEMENTÁRIA (JDC)
A junção cemento-dentinária, também chamada de limite
cemento-dentinário ou canal dentino-cementário, é a
região de transição entre os canais dentinário e cementário.
Teoricamente, representa o ponto de maior constrição do
canal radicular, onde a polpa termina e o período começa.
Esse estreitamento é atribuído à deposição de cemento.
Apesar disso, a constrição apical raramente coincide
exatamente com a JCD, embora esteja localizada nas suas
proximidades.
A forma da constrição apical costuma ser oval ou irregular,
e não circular. O diâmetro da constrição apical varia
conforme a literatura, com valores médios de 0,22 mm em
pacientes jovens e 0,21 mm em adultos (segundo Kuttler),
0,19 mm (segundo Stein e Corcoran) e entre 0,2 mm e 0,5
mm (segundo Wu et al.).
Clinicamente, apesar da JCD ser o local ideal para
estabelecer o limite apical da instrumentação, sua
identificação é extremamente difícil. Trata-se de uma
estrutura histológica, e sua localização precisa é muitas
vezes impossível de determinar durante o tratamento,
motivo pelo qual muitos a consideram um conceito teórico
ou até mesmo um "mito".
Em razão dessa imprecisão, recomenda-se que o batente
apical — o ponto final da instrumentação — seja
estabelecido entre 0,5 e 1 mm antes do forame apical, com
base em localizadores eletrônicos e confirmação
radiográfica.
CANAL CEMENTÁRIO
O canal cementário é a porção final e mais curta do canal
radicular, estendendo-se da JCD até o forame apical. Possui
conicidade muito acentuada e, do ponto de vista clínico,
corresponde à distância entre a constrição apical e o
forame apical.
Seu comprimento médio é de 0,5 mm em pacientes jovens
e 0,7 mm em adultos. O forame apical, localizado na
superfície externa da raiz, geralmente tem forma circular e
diâmetro de cerca de 0,5 mm em jovens e 0,7 mm em
adultos, refletindo um aumento com a idade.
Em 68% dos dentes jovens e 80% dos dentes adultos, o
canal cementário não segue o mesmo trajeto do canal
dentinário e não termina no ápice anatômico, estando, em
média, a 0,5 mm de distância do ápice, podendo, em alguns
casos, alcançar até 3 mm. O diâmetro médio do forame
apical é de 0,25 mm, com contorno predominantemente
circular.
O número de foraminas por dente pode variar entre 1 e 16,
e sua distância em relação ao ápice varia de 0,2 mm a 3,8
mm. A manutenção da desobstrução do canal cementário
durante o preparo químico-mecânico é essencial tanto em
dentes com polpa viva quanto em dentes necrosados, pois
permite a remoção de tecido residual ou material
infeccioso. Essa desobstrução possibilita a penetração da
solução irrigadora até o término do canal, aumentando a
eficácia da limpeza.
O comprimento percorrido por um instrumento desde a
referência coronária até o forame apical é denominado
comprimento patente do canal (CP).
A preservação da patência apical contribui para a segurança
do preparo e para a prevenção de acidentes operatórios,
além de potencializar os efeitos biológicos e
antimicrobianos do tratamento endodôntico.
FORAME APICAL
O forame apical é a principal abertura do canal radicular na
região apical, permitindo a comunicação entre a polpa
dentária e os tecidos perirradiculares. Localiza-se na
superfície externa da raiz e, frequentemente, não coincide
com o ápice anatômico, estando deslocado lateralmente
em uma distância que pode variar de 0,2 a 3,8 mm.
O diâmetro médio do forame apical varia entre 0,21 e 0,39
mm, podendo aumentar com a idade devido à deposição
de cemento. Além disso, a forma do forame não é
uniformemente circular, apresentando-se, na maioria dos
casos, oval ou irregular.
Essa variabilidade anatômica ressalta a importância de um
diagnóstico preciso e de técnicas adequadas durante o
tratamento endodôntico para assegurar a limpeza e o
selamento eficazes dessa região complexa.
Ele tem as seguintes funções:
● Via de entrada e saída de vasos e nervos: o forame
apical permite a passagem de vasos sanguíneos e
nervos que mantêm a vitalidade da polpa dentária;
● Ponto de comunicação com o meio externo: ele
representa o limite entre o sistema de canais
radiculares e os tecidos perirradiculares, sendo um
local crítico durante o tratamento endodôntico;
● Zona de transição biológica: é por onde os
produtos inflamatórios da polpa (em caso de
necrose ou infecção) podem alcançar os tecidos
periapicais, provocando reações inflamatórias
como abscessos ou lesões periapicais;
● Referência clínica para a obturação: no tratamento
de canal, o forame apical é o ponto de referência
anatômico para a determinação do limite apical,
embora, clinicamente, recomenda-se terminar a
instrumentação e a obturação de 0,5 a 1 mm
aquém do forame, respeitando a chamada
constrição apical.
SISTEMA DE CANAIS RADICULARES
O canal principal
O canal principal é a estrutura central do sistema de canais
radiculares. Tem formato geralmente cônico, afunilando da
embocadura (câmara pulpar) até o forame apical. Divide-se
didaticamente em três partes: terço cervical, médio e apical.
A seção transversal do canal raramente é circular; costuma
ser oval ou achatada, seguindo a anatomia da raiz —
especialmente nos incisivos inferiores, pré-molares e canais
mesiais de molares inferiores.
Função: Abrigar a polpa dentária (nervos e vasos), permitir
a nutrição e defesa do dente e servir como via para
instrumentação, irrigação e obturação na endodontia.
Variações: Pode ter um ou mais canais por raiz, apresentar
curvaturas, fusões, ramificações e istmos e sua anatomia
muda com a idade e com estímulos (ex: calcificações).
Importância Clínica: Uma boa compreensão da anatomia do
canal principal é essencial para remover tecido pulpar,
desinfetar corretamente e obturar com sucesso.
Negligenciar essas variações pode levar a falhas no
tratamento, como dor persistente, infecção ou reabsorções.
Intercorrências: Fratura de instrumentos (em canais
curvos), Degraus e perfurações (em canais estreitos ou
calcificados), Obturação incompleta (em canais achatados
ou com ramificações não acessadas).
O canal lateral:
Definição: É um canal que emerge do canal principal e
segue em direção à superfície externa da raiz, geralmente
localizado na região mediana ou cervical da raiz. Surge a
partir de ramificações dos vasos e nervos da polpa para o
ligamento periodontal.
Função: Facilita a comunicação entre a polpa e o periodonto
lateralmente. Pode funcionar como via de escape de
exsudato inflamatório e também de nutrientesGrampos sem asa proporcionam melhor
adaptação e menor risco de traumatismo gengival.
● O grampo deve se adaptar firmemente à região
cervical, sem machucar gengiva nem ficar frouxo.
● Testar fora da boca e, se necessário, ajustar com
alicate para adaptar melhor.
6.3 Posição e Fixação
● O grampo deve ser colocado na região cervical do
dente, abaixo da linha do equador, para
estabilidade.
● Verificar encaixe vestibular e lingual com leve
pressão alternada.
● O lençol é adaptado ao redor do grampo e fixado
com fio dental na cervical para vedação.
7. Técnicas de Colocação do Isolamento
7.1 Técnica 1 – Conjunto (Grampo + Lençol + Arco)
● Indicado para rapidez;
● O lençol é perfurado, fixado ao arco, e o grampo é
inserido com pinça já montado no conjunto.
7.2 Técnica 2 – Em Dois Tempos (Grampo, Lençol, Arco
Separados)
● O grampo é colocado primeiro, depois o lençol
com arco;
● Permite melhor controle da adaptação;
● Ideal para casos complexos, como coroas
destrutivas, dentes parcialmente erupcionados,
apinhamentos.
7.3 Variações
● Grampo → Lençol → Arco;
● Lençol → Grampo → Arco;
● Arco montado após fixação do lençol.
8. Dificuldades no Isolamento Absoluto
Algumas situações clínicas exigem adaptações específicas:
8.1 Pacientes com Restrições
● Alergia ao látex → usar lençol latex-free;
● Respiradores bucais → usar abridores de boca ou
alternar técnica;
● Rejeição psicológica → explicar o procedimento
previamente e usar técnicas de relaxamento.
8.2 Situações Dentárias Específicas
● Dentes totalmente destruídos → requerem
reconstrução provisória prévia;
● Dentes com coroas protéticas ou retentores
metálicos → usar grampos modificados ou
amarrados;
● Dentes parcialmente erupcionados ou inclusos →
usar grampos especiais como 14A, W14A ou 8A;
● Dentes apinhados → exigir perfurações
personalizadas no lençol e lubrificação intensa;
● Tratamento ortodôntico fixo → exige adaptação
com elásticos ortodônticos, bandagens e cuidado
redobrado com a colocação.
9. Selamento Marginal e Finalização
● Após posicionamento do lençol, usar fio dental
para selar as bordas cervicais;
● Aplicar barreiras gengivais ou cunhas para
melhorar a vedação;
● Verificar vedação hermética e ausência de espaços
por onde fluido possa infiltrar.
10. Conclusão
Dominar o isolamento absoluto é essencial para qualquer
profissional que busca excelência em Endodontia. Ele vai
além de técnica: envolve biossegurança, conforto do
paciente e previsibilidade do tratamento. Cada paciente e
dente exigem um planejamento individualizado do
isolamento, e cabe ao cirurgião-dentista ter habilidade para
adaptar a técnica conforme o caso. Excelente observação!
Vamos completar o relatório com uma seção detalhada e
organizada dos materiais utilizados no isolamento absoluto
em Endodontia, baseada nos PDFs e nos protocolos clínicos
atualizados.
11. Materiais Utilizados no Isolamento Absoluto em
Endodontia
O sucesso do isolamento absoluto depende da seleção
adequada dos materiais e instrumentos. Abaixo, os
principais itens, separados por categorias:
11.1. Materiais Principais
Material Função
Lençol de borracha Cria a barreira física entre
o campo operatório e a
cavidade bucal.
Arco de isolamento Estica e mantém o lençol
de borracha fixo fora da
boca.
Grampo de
isolamento
Prende o lençol de
borracha ao dente,
garantindo fixação e
vedação.
Pinça porta-grampos Posiciona o grampo com
segurança no dente.
Alicate perfurador Perfura o lençol nos
pontos exatos para
passagem dos dentes.
11.2. Acessórios Auxiliares
Material Função
Fio dental Adapta o lençol na cervical
e sela o campo operatório.
Lubrificante hidrossolúvel
(ex: KY)
Facilita a inserção do lençol
entre os dentes e protege a
mucosa.
Marcador de perfuração Indica os pontos de
perfuração no lençol.
Barreiras gengivais Protegem os tecidos moles
e evitam infiltrações (ex:
Omcilon A Orabase).
Cordões em látex (wedjets) Ajudam a fixar o lençol em
regiões sem retenção.
Borrachas para grampos Melhoram a adaptação em
dentes irregulares ou
destrutivos.
Espátula de inserção Auxilia na adaptação do
lençol ao redor do dente e
grampo.
Tiras de lixa Podem ser usadas para
ajustar contatos proximais
antes da inserção.
Sugadores e pontas de
aspiração
Mantêm o campo seco
durante a colocação do
isolamento.
11.3. Tipos de Arco:
● Arco de Young (metálico): Tradicional, firme,
reutilizável e autoclavável.
● Arco de Ostby (plástico): Flexível, indicado para
exames radiográficos sem interferência metálica.
● Arco dobrável: Mais ergonômico, facilita inserção
em bocas pequenas.
MEDICAÇÃO INTRACANAL:
A medicação intracanal constitui uma etapa auxiliar, porém
fundamental, do tratamento endodôntico, especialmente
em casos com infecção persistente ou condições clínicas
específicas que impedem a finalização do tratamento em
sessão única. Seu uso visa promover ou potencializar o
efeito antimicrobiano, controlar a inflamação e estimular os
processos de reparação periapical.
Ainda que não substitua nenhuma das etapas
fundamentais do preparo químico-mecânico ou da
obturação do sistema de canais radiculares, sua aplicação
estratégica, baseada em evidências científicas, pode
influenciar diretamente o sucesso do tratamento. Este
relatório técnico-científico tem por objetivo apresentar os
principais fundamentos, indicações clínicas, ações
terapêuticas e propriedades desejáveis da medicação
intracanal, conforme descrito na literatura endodôntica
clássica.
2. Objetivos da Medicação Intracanal
Os medicamentos intracanais são indicados por diversas
razões clínicas, dentre as quais se destacam:
● Otimizar a desinfecção endodôntica, eliminando
microrganismos remanescentes.
● Prevenir a reinfecção do sistema de canais entre as
sessões.
● Reduzir a inflamação perirradicular e a
sintomatologia dolorosa.
● Controlar a exsudação persistente.
● Auxiliar na solubilização da matéria orgânica
residual.
● Neutralizar produtos microbianos tóxicos como
LPS e LTA.
● Prevenir e auxiliar no controle da reabsorção
dentária inflamatória externa.
● Estimular a reparação por tecido mineralizado.
3. Discussão dos Efeitos e Aplicações Clínicas
3.1 Otimização da Desinfecção Endodôntica: Mesmo
após cuidadoso preparo químico-mecânico, diversos
estudos demonstram a permanência de microrganismos
intratubulares e em regiões anatômicas complexas como
istmos, deltas apicais e ramificações laterais. A medicação
intracanal, por permanecer por tempo prolongado no
canal, oferece ação antimicrobiana mais sustentada e
alcança locais inacessíveis ao NaOCl e aos instrumentos.
3.2 Barreira Físico-Química Contra Reinfecção: Durante o
intervalo entre sessões, há risco de
contaminação/recontaminação do canal por falhas no
selamento provisório. A aplicação de substâncias como o
hidróxido de cálcio atua simultaneamente como:
● Barreira química: devido à sua atividade
antimicrobiana.
● Barreira física: por preencher tridimensionalmente
o espaço do canal.
3.3 Redução da Inflamação e Sintomatologia: Em casos
de lesões perirradiculares sintomáticas ou abscessos
agudos, a medicação pode ter papel anti-inflamatório direto
ou indireto. Corticosteroides são eficazes no controle da
inflamação, mas em casos infecciosos, é preferível o uso de
substâncias com ação antimicrobiana, como o hidróxido de
cálcio, que atua indiretamente ao remover o agente
etiológico (bactérias).
3.4 Controle da Exsudação Persistente: A presença
contínua de exsudato indica inflamação ativa e falha na
eliminação de microrganismos. A aplicação de uma
medicação antimicrobiana em toda a extensão do canal
pode cessar a exsudação, viabilizando a obturação e
promovendo a reparação dos tecidos periapicais.
3.5 Solubilização da Matéria Orgânica: Embora
questionável quanto à sua eficácia isolada, alguns
medicamentos podem colaborar na dissolução de tecidoresidual em áreas inacessíveis. Regiões como canais laterais
e istmos frequentemente abrigam remanescentes que não
são tocados por instrumentos, sendo a medicação
intracanal um potencial adjuvante na limpeza.
3.6 Inativação de Produtos Microbianos: Produtos
bacterianos como LPS (gram-negativos) e LTA
(gram-positivos) têm potencial citotóxico mesmo na
ausência de células bacterianas viáveis. O hidróxido de
cálcio é capaz de neutralizar essas toxinas, favorecendo a
resolução da inflamação e a reparação tecidual.
3.7 Controle da Reabsorção Inflamatória Externa: Em
situações como traumatismos dentários e lesões
periapicais, a reabsorção radicular é sustentada pela
infecção intratubular. A medicação antimicrobiana atua
diretamente na eliminação dos patógenos e contribui para
o controle do processo reabsortivo. Ainda não está
claramente estabelecido se há efeito direto sobre
osteoclastos, mas a ação sobre a microbiota é
determinante.
3.8 Estímulo à Reparação por Tecido Mineralizado: Nos
casos de perfurações, rizogênese incompleta e
reabsorções, o uso de medicamentos como hidróxido de
cálcio tem sido associado à indução de tecido mineralizado,
promovendo o selamento biológico e a continuidade do
desenvolvimento radicular.
Classificação Química dos Medicamentos Intracanais
Derivados Fenólicos
Características Químicas: São compostos que apresentam
grupamentos hidroxila (–OH) ligados diretamente ao anel
benzênico (C6H6). Destacam-se o eugenol,
paramonoclorofenol (PMC), PMCC, cresatina, cresol,
creosoto e timol.
Propriedades Clínicas: Atuam como potentes agentes
antimicrobianos, tanto por contato direto quanto por
liberação de vapores. O PMCC, ainda utilizado, apresenta
ação contra microrganismos anaeróbios estritos, embora
isoladamente não seja mais recomendado, devido à sua
elevada toxicidade.
Aldeídos
Compostos Representativos: Formaldeído e glutaraldeído.
Mecanismo de Ação: Fixadores teciduais e potentes
antimicrobianos, exercem sua ação por contato direto e
vapores. O formocresol foi amplamente utilizado, mas seu
uso caiu em desuso por conta de sua citotoxicidade e
potencial carcinogênico.
Halógenos
Substâncias Utilizadas: Clorados: Hipoclorito de sódio
(NaOCl) / Iodados: Iodofórmio (CHI3) e iodeto de potássio
iodetado a 2%.
Aplicações Clínicas: O iodofórmio, devido à sua boa
radiopacidade e liberação de iodo nascente, é utilizado em
pastas resorbíveis ou como veículo. O iodeto de potássio,
com ação antimicrobiana satisfatória, é uma opção como
veículo ativo.
Bases ou Hidróxidos
Composto Principal: Hidróxido de cálcio – Ca(OH)2
Histórico e Propriedades: Introduzido por Hermann em
1920 na forma de Calxyl®, o Ca(OH)2 se tornou o padrão
ouro como curativo de demora. Apresenta pH elevado
(12,8), ação antimicrobiana e potencial indutor de barreira
mineralizada. Dissocia-se em íons cálcio e hidroxila,
responsáveis por sua ação terapêutica.
Limitações: Sua solubilidade é limitada, e sua eficácia
depende do veículo empregado. A transformação em
carbonato de cálcio na presença de CO2 pode reduzir sua
atividade biológica.
Corticosteróides
Compostos Utilizados: Hidrocortisona, prednisolona,
dexametasona.
Indicações: Indicados para controle de inflamação,
especialmente em casos de periodontite apical aguda de
origem química ou traumática. São aplicados topicamente
em biopulpectomias e pulpotomias.
Antibióticos
Utilização Limitada: Seu uso intracanal é restrito devido ao
risco de reações alérgicas e desenvolvimento de resistência
bacteriana. A combinação de ciprofloxacino, metronidazol e
minociclina (triple antibiotic paste) tem sido usada com
sucesso em revascularização de dentes imaturos com
necrose pulpar.
Hidróxido de Cálcio – Aspectos Químicos e Biológicos
Reações Químicas Importantes
● CaCO3 → CaO + CO2 (Calcinação)
● CaO + H2O → Ca(OH)2 (Hidratação)
● Ca(OH)2 + CO2 → CaCO3 + H2O (Reversão)
Veículos para o Hidróxido de Cálcio
Importância: O veículo determina a liberação dos íons
ativos. Pode modificar propriedades físico-químicas,
antimicrobianas e biológicas da pasta.
Classificação:
Tipo Subtipos Exemplos Observaçõ
es
Inertes Aquosos Água
destilada,
soro
fisiológico
Alta
dissociação
iônica,
porém
rápida
diluição
Viscosos Glicerina,
PEG 400,
propilenogli
col
Dissociação
lenta, boa
estabilidade
Ativos Biologicame
nte
ativos
PMCC,
clorexidina,
iodeto de
potássio
iodetado
Potencializa
m efeitos
antimicrobi
anos
Veículos Específicos
Glicerina (Propanotriol)
● Peso molecular: 92,09
● Solúvel em água e álcool
● Viscosa, higroscópica, incolor
Polietilenoglicol 400 (PEG 400)
● Polímero de etilenoglicol
● Solúvel em água e álcool
● Alta viscosidade
Propilenoglicol (Propanodiol 1,2)
● Peso molecular: 76,09
● Higroscópico, miscível com água
● Sabor ligeiramente picante
Veículos Oleosos
● Baixa solubilidade e difusão
● Exemplos: Ácido oleico, óleo de oliva, lipiodol,
PMCC
● Proporcionam liberação lenta dos íons
Paramonoclorofenol Canforado (PMCC)
Composição: Mistura de PMC e cânfora na proporção
3,5:6,5
Propriedades:
● Alta atividade antibacteriana
● Mecanismo de ação: destruição de membrana
celular, inativação enzimática e liberação de cloro
Indicação: Veículo para hidróxido de cálcio. Não é
recomendado seu uso isolado como medicamento
intracanal devido à toxicidade.
Clorexidina
Características: Bisbiguanida catiônica, ativa contra
bactérias e fungos. Apresenta substantividade, baixo
potencial citotóxico e efeito residual prolongado.
Uso em Endodontia:
● Irrigante alternativo ao NaOCl
● Utilizada isoladamente ou combinada ao Ca(OH)2
como medicação intracanal
7. Substâncias Adicionais para Radiopacidade
Para melhorar a visualização radiográfica da pasta
intracanal, são adicionadas substâncias como:
● Carbonato de bismuto
● Sulfato de bário
● Iodofórmio
● Óxido de zinco
Avaliação da Ação Biológica e Antimicrobiana do
Hidróxido de Cálcio
Atividades Biológicas
Suposta ação anti-inflamatória
Historicamente, atribuiu-se ao hidróxido de cálcio a
capacidade de controlar a inflamação por três mecanismos
propostos:
● ação higroscópica,
● formação de pontes de proteinato de cálcio,
● inibição da fosfolipase.
Contudo, nenhuma dessas hipóteses foi cientificamente
comprovada. Ao contrário, quando aplicado sobre tecidos
com resposta inflamatória aguda, o hidróxido de cálcio
pode exacerbar o processo inflamatório. Isso demonstra
que sua ação anti-inflamatória direta é, no mínimo,
discutível. O que se observa clinicamente é uma redução da
inflamação associada à diminuição da infecção, o que se
deve aos seus efeitos antimicrobianos, e não a uma ação
anti-inflamatória primária.
Ação Antimicrobiana
Influência do pH
O hidróxido de cálcio possui pH 12,8. A maioria das
bactérias não sobrevive em valores tão alcalinos. Contudo,
espécies como Enterococcus faecalis, Candida albicans e
Actinomyces radicidentis são exceções, podendo resistir até
mesmo a pH elevados, como 11,5.
Mecanismos de ação
A atividade antimicrobiana do hidróxido de cálcio baseia-se
na liberação de íons hidroxila, que atuam da seguinte
forma:
a) Destruição da membrana citoplasmática: A peroxidação
lipídica leva à destruição dos fosfolipídios da membrana
bacteriana. Isso causa extravasamento do conteúdo
citoplasmático e morte celular.
b) Inativação enzimática: O pH elevado desnatura enzimas
essenciais, alterando sua estrutura terciária. Sem atividade
enzimática, o metabolismo bacteriano entra em colapso.
c) Dano ao DNA: Os íons hidroxila podem causar quebras
nas fitas de DNA, mutações e inibição da replicação.
Limitações da Ação Antimicrobiana
Apesar de sua eficácia em contato direto, o hidróxido de
cálcio apresenta limitações significativas dentro do sistema
de canais radiculares.
Difusão limitada
Em veículos inertes (água destilada, glicerina), o hidróxido
de cálcio tem difusãorestrita devido à sua baixa
solubilidade. Estudos demonstraram que:
● Halos de difusão se formam, mas colônias
bacterianas continuam a crescer nesses halos.
● A presença de tamponantes no meio de cultura
limita a elevação do pH.
Inativação por estruturas dentinárias
A dentina, hidroxiapatita e proteínas como a albumina têm
efeito tampão sobre o pH alcalino. Isso reduz a eficácia
antimicrobiana da substância, especialmente contra
microrganismos como E. faecalis e C. albicans, presentes
em túbulos dentinários.
Resistência microbiana
Alguns microrganismos desenvolveram adaptações:
● E. faecalis possui bombas de prótons para regular
o pH intracelular.
● C. albicans demonstra resistência similar ou
superior ao E. faecalis.
Essas espécies são frequentemente associadas a casos de
insucesso do tratamento endodôntico.
Influência da técnica de aplicação
● Aplicação com Lentulo® demonstrou maior
eficácia na elevação do pH.
● Aplicação com pontas de papel é menos eficaz.
Efeito do Veículo
Veículos podem ser:
● Inertes: não contribuem para a atividade
antimicrobiana (ex.: água, glicerina).
● Biologicamente ativos: agregam efeito
antimicrobiano adicional (ex.: clorexidina, PMCC).
A escolha do veículo influencia diretamente:
● a liberação de íons hidroxila,
● o tempo de permanência,
● a difusão na dentina.
Avaliação da Pasta HPG (Hidróxido de Cálcio +
PMCC/glicerina)
Justificativa do Uso do PMCC como Veículo Ativo
A utilização do PMCC como veículo para o hidróxido de
cálcio foi primeiramente sugerida por Frank (1966) no
contexto da apicificação. No entanto, críticas surgiram
devido à sua potente ação citotóxica, e pelo fato de ser uma
substância antimicrobiana por si só. Nos anos 1990, essa
associação foi retomada com justificativa científica
renovada, dada a sua eficácia frente a patógenos
persistentes, especialmente o E. faecalis. Diversos estudos
demonstram que a pasta HPG oferece atividade
antimicrobiana superior às pastas com veículos inertes,
além de uma difusibilidade ampliada no sistema de canais
radiculares.
Eficácia Antimicrobiana e Mecanismos de Ação
Atividade em Ágar e Túbulos Dentinários
Testes de difusão em ágar (Siqueira et al., 1996, 2001)
revelaram que o PMCC promove um halo de inibição maior
que o do HC isolado, demonstrando maior capacidade de
difusão. A associação HPG demonstrou efeitos
antibacterianos e antifúngicos superiores aos de veículos
inertes. Além disso, estudos em túbulos dentinários
confirmam sua capacidade de penetrar profundamente e
descontaminar dentina infectada com culturas mistas de
bactérias anaeróbias estritas. Após 5 a 7 dias de contato
com a pasta HPG, a viabilidade bacteriana foi praticamente
nula, inclusive frente ao E. faecalis, altamente resistente a
terapias convencionais.
Efeito Antimicrobiano Profundo
Ao contrário do que se supunha, os dados sugerem que o
PMCC é o principal responsável pela ação antimicrobiana,
sendo o HC, na verdade, um veículo modulador da
liberação controlada do PMCC no meio. Isso confere ação
sustentada e menos citotóxica, uma vez que a liberação é
lenta e a dose do PMCC, reduzida.
Biocompatibilidade e Segurança
Apesar da reconhecida toxicidade do PMCC isolado, a pasta
HPG tem demonstrado biocompatibilidade satisfatória:
● Baixa liberação de PMCC pela formação do
paramonoclorofenolato de cálcio, de baixa
solubilidade;
● Desnaturação proteica superficial causada pelo pH
alcalino, formando uma barreira à penetração
tecidual;
● Irritação leve e transitória, que cessa após remoção
da medicação e eliminação microbiana.
Avaliações Clínicas
Dor Pós-operatória
Siqueira et al. (2002) relataram baixa incidência de dor
pós-operatória (15% dos casos), com apenas 2% de
episódios intensos (flare-ups), mesmo em tratamentos
realizados por estudantes iniciantes, comprovando a
eficácia clínica e segurança do protocolo.
Eliminação Bacteriana In Vivo
Estudos bacteriológicos mostraram que a pasta HPG, após
7 dias de medicação intracanal, reduziu a positividade
bacteriana de 54,5% para 9%, com eliminação quase total
das bactérias cultiváveis. A persistência do
Propionibacterium acnes foi a única exceção isolada.
Sucesso Clínico no Longo Prazo
Em acompanhamento de até 4 anos, Siqueira et al. (2004)
observaram sucesso clínico em 95% dos casos. A maioria
dos dentes demonstrou reparo completo das lesões
perirradiculares, consolidando a efetividade do protocolo
em duas sessões com uso da pasta HPG.
Comparação com Pasta de Hidróxido de Cálcio +
Clorexidina (HCX)
Apesar dos efeitos variáveis da HCX devido à instabilidade
da clorexidina em pH elevado, estudos demonstram que,
clinicamente, a pasta HCX ainda promove redução
microbiana significativa e pode representar uma alternativa
válida à pasta HPG, principalmente em casos de
retratamento ou quando o PMCC está contraindicado.
Inativação de Fatores de Virulência Bacteriana
O hidróxido de cálcio demonstrou capacidade de inativar
LPS e LTA, componentes das membranas de bactérias
gram-negativas e gram-positivas, respectivamente. Estudos
sugerem que esse efeito pode ocorrer in vivo, embora
ainda seja debatido se essa inativação tem impacto clínico
significativo na ausência de bactérias viáveis.
Indução de Reparo por Tecido Mineralizado
O hidróxido de cálcio é amplamente reconhecido por
induzir formação de tecido mineralizado, seja dentina ou
cemento, dependendo do tecido em contato. Esse processo
é favorecido pela necrose de coagulação superficial
causada pelo pH alcalino, que, na ausência de infecção,
estimula a diferenciação celular e reparo.
PROPRIEDADES DO HIDRÓXIDO DE CÁLCIO
Solvente de Matéria Orgânica
Devido ao seu pH elevado (~12,5), o hidróxido de cálcio tem
a capacidade de desnaturar proteínas, quebrando ligações
iônicas que sustentam a estrutura terciária proteica,
tornando-as mais suscetíveis à ação solvente do hipoclorito
de sódio (NaOCl). Contudo, a eficácia clínica desse efeito é
limitada, dado o reduzido contato direto da pasta com
tecidos orgânicos residuais em áreas anatômicas
complexas como istmos e ramificações do sistema de
canais radiculares.
Apesar de estudos experimentais demonstrarem um efeito
solvente significativo em condições laboratoriais ideais,
Siqueira et al. mostraram que, histologicamente, a limpeza
adicional promovida pela pasta de hidróxido de cálcio foi
ligeiramente superior ao grupo controle, porém sem
significância estatística.
Inibição da Reabsorção Radicular Externa
A reabsorção inflamatória externa tem etiologia infecciosa,
sendo desencadeada por mediadores inflamatórios como
IL-1, TNF e IL-6, estimulados por componentes bacterianos
intracanal. O pH ácido da lacuna de reabsorção (~4,5)
favorece a atividade de enzimas clásticas como catepsinas.
O hidróxido de cálcio, sendo uma base forte, pode
neutralizar esse ambiente ácido, inibindo a atividade
enzimática e, potencialmente, promovendo a morte de
células clásticas. No entanto, essa ação ainda é controversa
e carece de comprovação científica robusta. Importa
ressaltar que seu real efeito na reabsorção inflamatória
depende da eliminação da infecção intracanal – objetivo
atingido após sucessivas trocas do curativo para exceder a
capacidade tampão da dentina e garantir um pH
suficientemente alcalino nos túbulos dentinários.
Pelo mesmo motivo, o hidróxido de cálcio é ineficaz contra
reabsorções por substituição, em que os mecanismos de
reabsorção são semelhantes, mas a etiologia é traumática
ou idiopática.
FUNÇÃO BARREIRA FÍSICO-QUÍMICA
As pastas de hidróxido de cálcio formam uma barreira física
e química no canal radicular, protegendo contra
contaminação entre sessões, especialmente em casos de
necropulpectomia. Essa barreira impede a percolação de
fluido tecidual apical, dificultando o fornecimento de
substrato para microrganismos residuais e limitando sua
proliferação. Mesmo pastas com veículos biologicamenteativos como HPG não demonstraram superioridade
significativa em proteção contra recontaminação salivar,
conforme Siqueira et al., provavelmente pela neutralização
do PMCC pela saliva.
EXTRAVASAMENTO PARA TECIDOS PERIRRADICULARES
O extravasamento acidental de pequenas quantidades de
pasta de hidróxido de cálcio não costuma gerar efeitos
adversos. Porém, grandes volumes são indesejáveis, pois
não há toxicidade seletiva da substância e sua diluição
rápida pela microcirculação perirradicular neutraliza o
efeito desejado, podendo ainda causar flare-up e necrose
tecidual. Portanto, o ideal é manter o preenchimento até o
forame apical, sem extravasamento, assegurado por
controle radiográfico.
TÉCNICAS DE INSERÇÃO NO CANAL
Instrumentos Manuais
Uma lima tipo K, de diâmetro imediatamente inferior ao da
última lima apical, é carregada com a pasta e inserida até o
comprimento de trabalho, girando-se no sentido
anti-horário. Esse processo é repetido 2 a 4 vezes para
assegurar a distribuição homogênea da pasta.
Espiral de Lentulo
É a técnica mais eficaz para inserção da pasta,
proporcionando maior preenchimento e compactação,
como demonstrado por Sigurdsson et al. Deve ser acionada
em motor com rotação constante à direita, inserida até 2-3
mm aquém do comprimento de trabalho. A remoção da
espiral deve ser feita ainda em rotação para evitar
deslocamento da pasta.
INDICAÇÕES CLÍNICAS
Biopulpectomia
Na presença de polpa vital, recomenda-se obturação
imediata. Caso isso não seja possível, a medicação
intracanal tem como objetivo impedir a contaminação.
Nestes casos, emprega-se:
● Solução corticosteroide/antibiótico (Otosporin®,
Decadron® colírio), principalmente para controle
de inflamação residual ou sobreinstrumentação.
● Pasta de hidróxido de cálcio em glicerina (HG),
como obturação provisória.
Necropulpectomia e Retratamento
Em canais infectados, o objetivo é eliminar microrganismos
intratubulares. Para isso:
● Após remoção da smear layer com EDTA/NaOCl,
recomenda-se a pasta HPG (PMCC, glicerina,
hidróxido de cálcio e iodofórmio) ou pasta HCX
(hidróxido de cálcio com clorexidina 0,2 a 2%).
● Aplicação preferencial por espiral de Lentulo®.
Em canais não totalmente instrumentados, emprega-se
uma mecha de algodão embebida em NaOCl a 2,5% na
câmara pulpar.
SELAMENTO CORONÁRIO
Entre sessões, o selamento temporário é essencial para
impedir infiltração salivar. Deve-se garantir:
● Paredes cavitárias paralelas ou ligeiramente
expulsivas.
● Profundidade de selamento mínima de 3–5 mm.
Materiais indicados:
● CavitTM, Coltosol®, Cimpat® para acesso simples.
● IRM® ou cimentos de ionômero de vidro em casos
de intervalos prolongados ou cavidades complexas.
SLIDES MEDICAÇÃO
Quando a infecção não consegue ser combatida, isto é,
quando a virulência bacteriana é alta ou a capacidade de
defesa imunológica do hospedeiro está debilitada, ela se
mantém provocando alterações na região óssea apical.
Uma infecção endodôntica irá depender:
● Número de células bacterianas:
● Duração da agressão:
● Resistência local e geral do hospedeiro:
● Virulência bacteriana.
Preparo químico-mecânico: "O melhor método para
descontaminar o canal radicular é a criteriosa limpeza do
conteúdo séptico-necrótico."
Limpeza mecânica: Alargamento, modelagem e ação
antimicrobiana.
Movimento de Limagem: Movimento de fricção da ponta
ativa das limas endodônticas contra as paredes internas
dos canais radiculares.
Ampliação e Modelagem: A instrumentação endodôntica
visa a ampliação dos condutos, dando ao mesmo uma
conformação de um cone onde a porção apical terá menor
diâmetro e a porção cervical terá maior diâmetro.
Fatores que dificultam a limpeza
A limpeza do sistema de canais é dificultada pela
características anatômicas dos condutos, delta apical e
canais acessórios.
● Complexidade anatômica
● Eliminação de irritantes
Limpeza química: Para completar a limpeza mecânica é
necessário o uso de uma solução química que terá função
antimicrobiana e de limpeza das raspas de dentina
produzidas durante o processo de limagem. Finalidade:
● Dissolução de tecido orgânico
● Ação Antimicrobiana - eliminação de
microrganismos
● Lubrificação
● Quelação de íons cálcio
● Suspensão de detritos
Obturação
Infecção endodôntica: A sobrevivência dos
microrganismos se dá pela incapacidade do preparo
químico-mecânico em removê-los e da obturação em vedar
o sistema de canais radiculares.
Medicação intracanal: Em alguns casos será necessário a
utilização de substâncias farmacológicas no interior dos
canais, previamente a obturação.
"É emprego de medicamentos no interior do canal
radicular, onde deverão permanecer ativos durante todo o
período entre as sessões necessária à conclusão do
tratamento endodôntico."
"A medicação intracanal auxilia na desinfecção das áreas do
canal que não sofreram ação mecânica dos instrumentos,
favorecendo ao prognóstico do tratamento endodôntico."
Quando medicar?
Condição clínica
● Polpas vitais: Obturação imediata sempre que
possível
● Necrose pulpar: Medicação intracanal
Características de Uma Droga Ideal
● Ser bactericida
● Ter efeito duradouro
● Penetrar nos túbulos dentinário
● Penetrar nos sistemas de canais
● Ser radiopaco
● Não ser afetado por material organico
● Ter propriedades anódinas
● Induzir mineralização
● Ser facilmente colocado e removido
● Não escurecer o dente
Tipos de medicamento
Otosporia
● Preserva a integridade do coto periodontal e
tecidos perirradiculares
● Permite a neoformação do coto periodontal
(sobreinstrumentação
● Grande poder de penetração
● Hidrossolúvel
● Fácil aplicação e remoção do interior do canal
(forma líquida)
● Associação corticoide antibiótica
● Indicações: Polpa vital / Trauma físico
● Efeitos colaterais: Retardo na reparação tecidual /
Permanência por períodos curtos (menor que 7
dias)
ParamonoCorobenol Canforado: Necrose pulpar, canais
muito finos ou não instrumentados (até v dias).
Treinesol Formalina
● Formalina é altamente irritante aos tecidos vivos
● Tricresol: baixa ação irritante
● Age por contato ou à distância
● Tríplice ação:
● Antibacteriana
● Neutralizadora
● Fixação celular
Desvantagens
● Altamente irritante para os tecidos
● Citotóxico,mutagênico e carcinogênico
Vantagens:
● Bactericida potente
● Neutralizaçao de toxinas
● Cinco vezes mais potente que o fenol
● Fixa os tecidos
● Neutraliza conteúdo tóxico do canal
Quando usar?
Biopulpectomia
● Otosporin
● Hidróxido de cálcio
Necropulpectomia
● Paramonoclorofenol cânforado
● Tricresol formalina
● Hidróxido de cálcio
Características anatômicas: Descrito frequentemente na classificação de Vertucci como Tipo II (1-2-1). A fusão pode ocorrer em qualquer ponto ao longo do terço apical, o uso da TCFC é altamente recomendado.
Funções: Assim como o canal bifurcado, não possui uma função fisiológica ativa, mas atua como via anatômica de drenagem ou fluxo inflamatório em casos patológicos.
Intercorrências clínicas:
Definição:
Características anatômicas:
Intercorrências clínicas:
Nódulos Pulpares (ou Dentes Pulp Stones)
Canal dentinário
Canal cementário
Considerações Clínicas sobre as Variações Anatômicas dos Canais Radiculares
Incisivo Central Superior
Incisivo Lateral Superior
Incisivos Inferiores
Canino Superior
Canino Inferior
1o Pré-Molar Superior
1º Pré-Molar Inferior
2º Pré-Molar Inferior
1o Molar Superior
2o Molar Superior
1o Molar Inferior
2o Molar Inferior
LIGAS METÁLICAS
AÇO INOXIDÁVEL
LIGA NÍQUEL-TITÂNIO (NiTi)
LIGAS NiTi MODIFICADAS
Tipos de elasticidade aplicados aos instrumentos:
Características Técnicas
Modo de Uso
Indicação Principal
Precauções
Usos Adicionais
1. Ponta do Instrumento
2. Haste de Corte
3. Características da Seção Transversal
4. Movimentos Possíveis5. Diâmetros e Comprimentos
6. Fabricação
7. Considerações Clínicas
1. Material e Fabricação
2. Dimensões
3. Geometria de Corte
4. Ponta
5. Movimento e Aplicação Clínica
1. Finalidade
2. Seleção Adequada
3. Riscos do Uso Incorreto
4. Técnica Recomendada (Somma et al.)
5. Uso sem Solventes
6. Eficiência de Limpeza
1. Conceito e Movimento
2. Estrutura dos Instrumentos
3. Características Técnicas
4. Tamanhos e Conicidades
5. Cuidados no Uso
Exemplo – Instrumento RaCe® (FKG Dentaire, Suíça)
1. Definição e Finalidade
2. Características Técnicas
3. Estrutura
4. Ponta do Instrumento
5. Parte de Trabalho (Haste de Corte)
6. Intermediário
7. Modo de Uso
Partes do instrumento
Aquecimento
TIP (ou diâmetro da ponta)
TAPER (ou conicidade)
Como Saber o Tip e o Taper?
Em instrumentos manuais:
Importância Clínica
Exemplo 2: Lima 30 com Taper 0,06 (rotatória)
1. Acidentes Comuns em Canais Curvos: Degraus, Perfurações, Deslocamentos apicais (internos ou externos).
2. Soluções Tecnológicas
3. Técnicas de Alargamento
4. Critérios clínicos (não confiáveis) para avaliar preparo: Raspas dentinárias limpas/ Irrigação translúcida/ Paredes com tato liso e uniforme.
5. Quando considerar o preparo completo
6. Limitações do preparo químico-mecânico
Fatores determinantes da eficiência do alargamento:
Considerações clínicas:
Características do movimento:
Tipos de limagem:
Considerações clínicas:
Fatores que influenciam a eficiência:
Segurança e riscos:
1. Quanto à anatomia
2. Quanto ao diâmetro
A classificação se baseia na compatibilidade com instrumentos tipo K:
3. Quanto à direção
Classificação das Curvaturas
Classificação dos Canais Radiculares para Fins Clínicos
1. Importância e Controvérsia Clínica
2. Diferenças Entre Situações Clínicas
3. Região Apical: Zona Crítica
4. Estrutura Anatômica Apical
5. Dimensões e Variações Anatômicas
6. Ponto Ideal de Instrumentação
7. Canal Patente
PRÉ INSTRUMENTAÇÃO
Instrumentação inicial:
Canais atresiados:
Procedimento:
Segmento Cervical
Segmento Apical
Técnica e Instrumentos Utilizados
Limitações e Riscos
Importância Clínica do Diâmetro Apical Adequado
Benefícios da Ampliação Apical com Maior Diâmetro
Recomendações Finais
1. Seringas
2. Cânulas irrigadoras
Seleção por diâmetro (anatomia):
Modelos comerciais:
3. Hidrodinâmica do irrigante
Abertura da cânula influência:
4. Fatores que afetam a eficácia:
5. Limitações da irrigação simples
Conclusão : A irrigação simples é eficaz em canais pouco complexos, mas limitada em regiões apicais e áreas com anatomia irregular.
Irrigação/Aspiração Simultânea
Pressão Positiva
Pressão Negativa
Sistema EndoVac™ (SybronEndo)
Passos operatórios:
Vantagens:
Sistema RinsEndo® (Dürr Dental)
Desempenho segundo estudos:
Métodos Mecânicos de Agitação
XP-Endo® Finisher
XP Clean
Easy Clean
Métodos Sônicos de Agitação
EndoActivator®
Vibringe®
EDDY
Sistema Multissônico Avançado
GentleWave
MÉTODOS ULTRASSÔNICOS DE AGITAÇÃO NA IRRIGAÇÃO ENDODÔNTICA
1. FINALIDADE DA AGITAÇÃO ULTRASSÔNICA
2. PRINCÍPIO FÍSICO DOS SISTEMAS ULTRASSÔNICOS
3. EFEITOS GERADOS
4. REGIÕES DE DIFICULDADE DE LIMPEZA
AGITAÇÃO ULTRASSÔNICA PASSIVA (PUI)
DEFINIÇÃO
PROTOCOLO CLÍNICO
EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS
LIMITAÇÕES
APLICAÇÕES ESPECÍFICAS
NOVOS INSERTOS NACIONAIS
AGITAÇÃO ULTRASSÔNICA CONTÍNUA (CUI)
DEFINIÇÃO
EQUIPAMENTOS
PROTOCOLO CLÍNICO
VANTAGENS
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Principais objetivos dessas substâncias:
Formas de apresentação:
Conceito químico – Solução:
Observação clínica:
1. Baixa Tensão Superficial
2. Baixa Viscosidade
3. Alta Atividade de Solvente de Tecido
●Capacidade de dissolver matéria orgânica, como tecido pulpar necrótico ou vivo.
4. Atividade Antimicrobiana
5. Atividade Quelante
6. Atividade Lubrificante
7. Capacidade de Suspensão de Detritos
SOLUÇÕES IRRIGANTES
BIOCOMPATIBILIDADE
Exemplo: Hipoclorito de Sódio a 5,25%
IMPORTÂNCIA DA AÇÃO QUÍMICA DURANTE O PREPARO
Risco da Omissão: A postura de não empregar substâncias químicas ativas durante o preparo pode, a longo prazo, levar ao fracasso do tratamento endodôntico. É essencial respeitar os tecidos perirradiculares, mas os resultados de testes laboratoriais de toxicidade não podem ser extrapolados diretamente para a clínica.
HIPOCLORITO DE SÓDIO (NaOCl) – ORIGEM, COMPOSIÇÃO E IMPORTÂNCIA EM ENDODONTIA
1. Origem Industrial e Processos de Obtenção
2. CLORO ATIVO E GRAU CLOROMÉTRICO
Cálculo do Teor de NaOCl: A fórmula de conversão se baseia na relação entre os pesos moleculares:
PROPRIEDADES DO NaOCl DE INTERESSE CLÍNICO
COMPORTAMENTO QUÍMICO EM SOLUÇÃO AQUOSA
Reação de equilíbrio: NaOCl + H₂O ⇌ Na⁺ + OH⁻ + HOCl
ESTABILIDADE E TIPOS DE ALCALINIDADE
1. Alcalinidade cáustica (protetora)
CONSIDERAÇÕES FINAIS PARA A PRÁTICA ENDODÔNTICA
ATIVIDADE SOLVENTE DO HIPOCLORITO DE SÓDIO
ATIVIDADE ANTIMICROBIANA DO HIPOCLORITO DE SÓDIO
FATORES QUE INTERFEREM NAS ATIVIDADES SOLVENTE E ANTIMICROBIANA
1. pH: A ação antimicrobiana do NaOCl é maior em pH ácido, pois nesse pH há maior predominância do ácido hipocloroso (HOCl), que é mais ativo que o ânion hipoclorito (OCl–). Por outro lado, a solução de NaOCl é instável em pH ácido, sendo, portanto, armazenada e utilizada em pH alcalino (acima de 10).
2. Temperatura: O aumento da temperatura da solução aumenta tanto sua atividade solvente quanto sua atividade antimicrobiana. O aquecimento mais eficaz ocorre dentro do canal radicular, em associação com a agitação ultrassônica. Essa forma de aquecimento é mais vantajosa do que apenas aquecer a seringa ou a solução.
3. Presença de matéria orgânica: Em casos de presença de grande quantidade de matéria orgânica (tecido necrótico, biofilme denso), há consumo dos compostos ativos da solução, em especial do cloro livre. Isso reduz sua efetividade ao longo do tempo e torna necessário realizar renovação frequente da solução durante o tratamento.
4. Concentração da solução: Quanto maior a concentração da solução de NaOCl, maior sua capacidade solvente e maior sua atividade antimicrobiana. A atividade solvente é mais afetada pela diluição do que a atividade antimicrobiana.
Outras Soluções (Água destilada, anestésicos, soro fisiológico)
Smear Layer (Lama dentinária)
Definição e Características
Origem e Composição
Morfologia
Remoção ou Não da Smear Layer
Argumentos Contra a Remoção
Argumentos a Favor da Remoção
Relação com Selamento e Microinfiltração
Métodos de Remoção
Irrigação química alternada
Agitação da solução
Ultrassom
●Promove circulação contínua da solução irrigadora.
Laser (Er:YAG)durante a
vitalidade pulpar.
Importância clínica: Quando contaminado por necrose
pulpar ou infecção, pode causar periodontite lateral,
abscessos e falhas endodônticas se não for
adequadamente desinfetado. Pode também ser
responsável por dor pós-operatória.
Intercorrências: Dificuldade na desinfecção e obturação
completa. A sua presença pode justificar sintomatologia
mesmo após tratamento endodôntico aparentemente
bem-sucedido.
CANAL SECUNDÁRIO
Definição: Canal que se origina do canal principal na porção
apical e termina no forame apical ou em forames
acessórios. É uma subdivisão do canal principal na porção
final da raiz.
Função: Serve como ramificação para a vascularização e
inervação do terço apical. Durante a necrose, pode facilitar
a disseminação da infecção ao periodonto apical.
Importância clínica: Contribui para a complexidade da
anatomia apical. Deve ser levado em consideração no
preparo e obturação apical, principalmente em casos de
delta apical.
Intercorrências: Desafios na completa limpeza e
vedamento, o que pode resultar em falha do tratamento se
houver persistência de biofilme ou necrose nesses ramos.
CANAL ACESSÓRIO
Definição: É um termo genérico que engloba todos os
canais que saem do canal principal em qualquer ponto e se
comunicam com a superfície externa da raiz, incluindo os
canais laterais, secundários e colaterais.
Função: Permite comunicação entre o interior do canal
radicular e os tecidos periapicais e periodontais. Em dentes
com polpa vital, participa da troca de fluídos e elementos
imunológicos.
Importância clínica: Em dentes necrosados, esses canais
podem abrigar micro-organismos, sendo uma fonte de
inflamação crônica. A sua desinfecção adequada é um
desafio importante.
Intercorrências: Dificuldade em serem visualizados ou
preparados. Pode haver extravasamento de material
durante a obturação, causando inflamação periapical.
CANAL COLATERAL
Definição: Canal que se origina do canal principal e percorre
paralelamente a ele, mas não se comunica com a superfície
radicular. Pode se reunir novamente ao canal principal ou
terminar como uma derivação interna.
Função: Atua como via alternativa de circulação pulpar. Em
situações de necrose parcial, pode continuar viável,
mantendo a vitalidade de parte da polpa.
Importância clínica: Pode dificultar a desinfecção se não for
adequadamente irrigado e instrumentado, pois pode reter
restos pulpares ou microrganismos.
Intercorrências: Dificuldades no preparo químico-mecânico
e possibilidade de falha na obturação completa.
INTERCONDUTO
Definição: Canal que conecta dois canais principais no
mesmo dente (ex.: raízes com dois canais que se interligam
em determinado ponto). Frequentemente encontrado em
raízes mesiais de molares inferiores.
Função: Permite o intercâmbio de conteúdo entre canais
vizinhos, contribuindo para a uniformidade da circulação
pulpar.
Importância clínica: Se não for instrumentado e irrigado
adequadamente, pode manter tecidos necrosados ou
contaminados, levando à falha do tratamento.
Intercorrências: Dificuldade de identificação em exames
radiográficos. Podem ser detectados por CBCT ou durante o
uso de lupa/microscópio operatório.
CANAL RETICULAR
Definição: Variação mais complexa de canais acessórios,
formando uma rede (ou "rede reticular") de pequenos
canais que se comunicam entre si, semelhante a uma teia.
Função: Facilita a circulação pulpar e pode servir de via de
escape para secreções inflamatórias.
Importância clínica: A presença dessa rede anatômica pode
explicar casos de insucesso endodôntico mesmo quando a
obturação do canal principal está aparentemente
adequada.
Intercorrências: Extremamente difícil de instrumentar e
irrigar. Exige técnicas avançadas, como irrigação
ultrassônica ativada e uso de soluções irrigadoras com alta
penetração.
CANAL INTERCORRENTE
Definição: Canal que conecta um canal radicular principal a
outro de uma raiz diferente. Frequentemente confundido
com intercôndilo, mas ocorre entre raízes diferentes, não
no interior da mesma raiz.
Função: Comunicação pulpar inter-radicular. Pode facilitar a
extensão da infecção entre raízes em dentes
multirradiculares.
Importância clínica: A sua presença pode justificar falhas
em uma raiz mesmo quando a outra está corretamente
tratada.
Intercorrências: Baixa detecção clínica. Pode necessitar de
imagens por tomografia e de tratamento especial em
retratamentos.
CANAL INTER - RADICULAR
Definição: Canal localizado entre raízes diferentes,
geralmente se abrindo na região do assoalho pulpar. É mais
comum em dentes multirradiculares.
Função: Atua como via de comunicação entre a câmara
pulpar e o periodonto inter-radicular.
Importância clínica: Pode ser causa de lesões periodontais
persistentes. Sua desinfecção requer atenção especial na
limpeza do assoalho pulpar.
Intercorrências: Pode passar despercebido em acessos
coronários mal planejados. Risco aumentado de
contaminação cruzada entre raízes.
DELTA APICAL
Definição: Estrutura que se assemelha a uma ramificação
do canal principal na forma
de leque, com várias
derivações nos últimos
milímetros da raiz,
semelhante a um delta de rio.
Função: Permite a passagem
de vasos e nervos para o
interior da polpa na região
apical.
Importância clínica: É uma das
regiões mais difíceis de
desinfetar e obturar
completamente. Pode
ser responsável por
falhas em tratamentos
aparentemente
corretos.
Intercorrências: Necessidade de preparo apical cuidadoso e
técnicas de obturação como termoplastificação. Em
cirurgias apicais, pode ser necessário retratamento
retrógrado e selamento com MTA ou biocerâmicos.
VARIAÇÕES
Canal Bifurcado Fusionado (ou Canal Reunido):
É uma variação em que o canal principal bifurca-se e depois
se funde novamente antes de alcançar o forame apical,
criando um formato de “loop” ou "gota", ou até uma
morfologia semelhante à letra “U”.
Características anatômicas: Descrito frequentemente na
classificação de Vertucci como Tipo II (1-2-1). A fusão pode
ocorrer em qualquer ponto ao longo do terço apical, o uso
da TCFC é altamente recomendado.
Funções: Assim como o canal bifurcado, não possui uma
função fisiológica ativa, mas atua como via anatômica de
drenagem ou fluxo inflamatório em casos patológicos.
Intercorrências clínicas:
● Risco aumentado de instrumentação incompleta
em um dos ramos (geralmente o mais fino);
● Dificuldade de irrigação efetiva — a solução
irrigadora pode não alcançar ambas as
ramificações se não houver agitação adequada;
● O selamento apical pode ficar comprometido se
não for possível adaptar cones ou cimentos a toda
a extensão do canal;
● Também pode ser confundido com canais
acessórios ou canais intercorrentes se o exame
clínico e radiográfico não for minucioso.
Canal Bifurcado:
Definição:
O canal bifurcado ocorre quando o canal radicular principal
se divide em dois ramos, geralmente no terço médio ou
apical da raiz, formando uma espécie de "Y". Essas duas
ramificações podem manter-se separadas até o final ou
reconvergirem posteriormente (o que leva ao tipo seguinte:
bifurcado fusionado).
Características anatômicas:
● Pode ocorrer em qualquer dente, mas é mais
comum em pré-molares superiores e inferiores e
em raízes mesiais de molares inferiores;
● A bifurcação pode ser simétrica ou assimétrica;
● As ramificações geralmente se separam a partir do
canal principal num ângulo agudo;
● Muitas vezes não são visíveis em radiografias
bidimensionais, sendo detectadas com maior
precisão por meio da tomografia computadorizada
de feixe cônico (TCFC).
Funções:
● Não há uma “função fisiológica” clara no adulto,
pois são reminiscências do desenvolvimento
embriológico do órgão dental. Podem funcionar
como vias acessórias de drenagem e comunicação
com o periodonto, principalmente em dentes com
necrose pulpar.
Intercorrências clínicas:
● Representamum grande desafio para a limpeza e
desinfecção durante o preparo químico-mecânico;
● Podem abrigar biofilme bacteriano resistente,
dificultando a eliminação completa da infecção
● A obturação pode ser falha se a bifurcação não for
reconhecida, o que compromete o selamento
apical;
● Em casos cirúrgicos, a cirurgia paraendodôntica
pode ser necessária quando a ramificação se
comunica com o periodonto.
FATORES QUE ALTERAM A CAVIDADE PULPAR
Nódulos Pulpares (ou Dentes Pulp Stones)
● Definição: Estruturas calcificadas localizadas na
cavidade pulpar (câmara ou canais radiculares);
● Formação: Surgem por degeneração celular,
inflamação, trauma ou com o envelhecimento;
● Tipos:
○ Livres: soltos dentro da polpa;
○ Adesos: aderidos à dentina;
○ Inclusos: completamente incorporados à
dentina.
● Composição: Matriz calcificada, por vezes com
células aprisionadas;
● Aspecto clínico: Podem dificultar o acesso e a
instrumentação durante o tratamento
endodôntico;
● Importância clínica: Geralmente assintomáticos,
mas importantes durante o acesso endodôntico e
em pacientes idosos.
Agulhas Cálcicas (ou Calcificações Lineares)
● Definição: Depósitos finos e alongados de sais de
cálcio, que seguem o trajeto dos vasos sanguíneos
no interior da polpa;
● Formação: Relacionada ao envelhecimento, trauma
ou irritação crônica;
● Localização: Principalmente nos canais radiculares,
acompanhando estruturas vasculares e nervosas;
● Aspecto histológico: Estruturas lineares finas,
semelhantes a agulhas, de natureza calcificada;
● Importância clínica: Podem estreitar o canal
radicular, dificultando a localização e
instrumentação.
Calcificação Distrófica
● Definição: Tipo de calcificação que ocorre em
tecidos necrosados ou danificados,
independentemente do metabolismo normal do
cálcio;
● Causa: Lesão tecidual, trauma, necrose pulpar,
inflamações crônicas;
● Localização: Pode ocorrer em qualquer parte da
polpa onde há degeneração, necrose ou
inflamação crônica;
● Mecanismo: Precipitação de sais de cálcio em áreas
de necrose, sem necessidade de alteração na
concentração sérica de cálcio;
● Importância clínica: Pode contribuir para a
obliteração do canal ou formação de nódulos
calcificados difíceis de remover.
Reabsorção Dentária Interna
● Definição: Processo patológico onde há perda
progressiva da estrutura dentinária a partir da
parede interna do canal radicular ou da câmara
pulpar;
● Causa: Traumática, inflamatória ou idiopática (sem
causa aparente); geralmente está associada a
polpas inflamadas ainda vitais;
● Mecanismo: Ativação de clastos (odontoclastos)
dentro do canal que reabsorvem a dentina;
● Aspecto radiográfico: Área arredondada e
uniforme de rarefação localizada dentro do canal,
com contornos definidos
● Sintomatologia: Pode ser assintomática ou causar
dor leve; ocasionalmente detectada em exames de
rotina;
● Tratamento: Endodontia imediata para
interromper o processo e preservar o dente;
● Importância clínica: Se não tratada, pode levar à
perfuração da raiz e perda do dente.
ÁPICE RADICULAR
O ápice radicular é a extremidade terminal da raiz dentária.
Sua anatomia é extremamente variável e tem importância
crítica no sucesso do tratamento endodôntico. Ele abriga:
● Forame apical principal;
● Ramificações apicais (canais acessórios, colaterais,
laterais, etc.);
● Junção cemento-dentina;
● Canal cementário (quando presente)
O ápice anatômico raramente coincide com o ápice
radiográfico, e o forame apical frequentemente se localiza
ligeiramente desviado do ápice anatômico, o que deve ser
considerado durante a determinação do comprimento de
trabalho.
FORAME APICAL
É a principal abertura na extremidade do canal radicular,
por onde passam vasos sanguíneos, linfáticos e nervos. Ele
representa o limite natural entre o espaço endodôntico e o
tecido periapical.
Importância clínica: A obturação deve terminar o mais
próximo possível da junção cemento-dentina (JCD), que se
localiza cerca de 0,5 a 1 mm antes do forame apical, pois
além dali há maior risco de extrusão de materiais e irritação
tecidual.
JUNÇÃO CEMENTO DENTINA (JCD)
A JCD é a região de transição entre a dentina do canal e o
cemento radicular. É o ponto onde geralmente termina o
tecido pulpar e começa o tecido periodontal.
Desafios clínicos:
● É impossível de visualizar clinicamente ou
radiograficamente, por isso, o término do preparo
e da obturação é estimado a 1 mm do ápice
radiográfico;
● Representa o ponto ideal para o limite apical da
instrumentação e obturação.
RAMIFICAÇÕES APICAIS
Incluem os canais acessórios, colaterais, inter-radiculares,
reticulares, delta apical, entre outros. Essas estruturas
formam uma rede complexa e variável de canais
secundários.
Estudos morfológicos (Vertucci, 1984; De Deus, 1975)
mostram que:
● Ramificações apicais estão presentes em mais de
30-40% dos dentes;
● O delta apical é uma ramificação em forma de
rede, com múltiplas aberturas apicais.
Implicações clínicas:
● Dificuldade na instrumentação e desinfecção
completa;
● Podem abrigar biofilmes bacterianos resistentes à
irrigação
● Explicam a ocorrência de dor ou falha
pós-tratamento, mesmo com boa obturação do
canal principal.
CANAL DENTINÁRIO E CANAL CEMENTÁRIO
Canal dentinário
É o canal principal que percorre a dentina da raiz. Sua
parede é formada por dentina e pode apresentar
comunicação com canais acessórios.
Canal cementário
Termo usado para descrever prolongamentos do canal
principal no interior do cemento radicular. É mais comum
em dentes com formação radicular incompleta ou com
anatomias atípicas. Ainda é uma área controversa e pouco
documentada histologicamente.
O cemento pode apresentar canais acessórios verdadeiros
ou fendas que conectam o canal principal ao ligamento
periodontal, dificultando o selamento apical.
CEMENTO
Tecido mineralizado que recobre a superfície externa da
raiz dentária. Existem dois tipos principais:
1. Cemento acelular (mais cervical);
2. Cemento celular (mais apical).
Funções:
● Fixação das fibras periodontais;
● Proteção da dentina radicular;
● Participação em reparos apicais.
DENTINA
A dentina radicular constitui o corpo da
raiz e forma a maior parte da estrutura
dentária. É permeada por túbulos
dentinários que podem servir como
rota de invasão bacteriana caso
expostos.
Os túbulos dentinários se tornam
relevantes em casos de infiltração ou
contaminação crônica, funcionando
como reservatórios microbianos.
ANATOMIA INTERNA DOS DENTES
Considerações Clínicas sobre as Variações Anatômicas dos
Canais Radiculares
Incisivo Central Superior
● Normalmente apresenta raiz única com canal reto
e amplo. Canais múltiplos são raros, mas há relatos
de incisivos com dois, três ou quatro canais;
● O tratamento endodôntico geralmente é simples,
exceto em casos de rizogênese incompleta,
calcificação ou traumatismo;
● A câmara pulpar é estreita no sentido
vestibulopalatino, com risco de perfuração na face
vestibular durante o acesso coronário;
● O forame apical normalmente se localiza entre 0,5
a 1 mm do ápice anatômico
● Canais acessórios são comuns, principalmente no
terço apical, mas frequentemente têm diâmetro
menor que 0,1 mm;
● O ombro palatino deve ser removido para um
acesso direto ao canal radicular;
● O ápice radicular pode ter curvatura abrupta para
vestibular, não identificável radiograficamente;
● Os eixos da coroa e da raiz não coincidem,
exigindo cuidado para evitar perfuração durante o
acesso coronário.
Incisivo Lateral Superior
● Menor que o incisivo central, apresenta raiz única e
um canal amplo. Canais múltiplos são raros;
● Pode apresentar anomalias anatômicas como
fusão, geminação, sulcos radiculares, dens
invaginatus e canais em C ou S;
● A raiz é ligeiramente cônica, com curvatura apical
em direção disto palatina, podendo causar
degraus, transporte ou perfuraçãodurante o
preparo;
● Seção transversal do canal varia de ovalada na
porção cervical a arredondada no terço apical;
● O ombro palatino deve ser removido para melhor
acesso ao canal radicular;
● O ápice radicular pode estar próximo à cavidade
nasal, exigindo cuidado durante procedimentos
cirúrgicos.
Incisivos Inferiores
● São os menores dentes permanentes e
normalmente têm raiz única;
● Podem apresentar um ou dois canais (vestibular e
lingual), sendo a presença de dois canais mais
comum no incisivo lateral;
● A maior prevalência de curvatura apical ocorre no
sentido distolingual;
● Seção transversal oval ou achatada, com maior
diâmetro vestibulolingual;
● Se houver dois canais, é necessária a remoção do
ombro lingual para acesso adequado;
● O ápice radicular está próximo da tábua óssea
lingual, dificultando procedimentos cirúrgicos.
Canino Superior
● Maior dente permanente, com raiz única e um
canal;
● Canal radicular reto e longo, exigindo instrumentos
acima de 25 mm;
● Seção transversal oval em toda a extensão do
canal;
● Ápice radicular cônico e fino, podendo se curvar
abruptamente;
● Morfologia raramente varia, e a presença de canais
acessórios é menos frequente que nos incisivos
superiores;
● O ombro palatino deve ser removido para um
acesso direto ao canal;
● O ápice está próximo à cavidade nasal, exigindo
cuidado em procedimentos cirúrgicos.
Canino Inferior
● Normalmente apresenta raiz única e um canal,
mas pode ter duas raízes e dois canais;
● Menor que o canino superior em todas as
dimensões;
● Raiz alongada no sentido vestibulolingual,
frequentemente com curvatura apical;
● Canal radicular oval ou achatado
mesiodistalmente;
● O ombro lingual deve ser removido para acesso
adequado.
1o Pré-Molar Superior
● Geralmente tem duas raízes e dois canais,
podendo ter três raízes em 6% dos casos;
● Orifícios dos canais vestibulares podem ser
pequenos e exigir maior ampliação do acesso;
● Concavidade radicular na porção mesial aumenta o
risco de perfuração lateral;
● A porção apical pode ser fina e curva, aumentando
o risco de perfuração;
● Próximo ao seio maxilar, necessitando precauções
cirúrgicas.
2o Pré-Molar Superior
● Semelhante ao primeiro pré-molar, normalmente
com raiz única e canal único;
● Pode ter dois ou três canais separados ou
conectados por istmos;
● Curvatura apical comum, e canais acessórios são
menos prevalentes que nos incisivos.
1º Pré-Molar Inferior
● Normalmente possui uma raiz única e um canal
principal de seção ovalada no sentido
vestibulolingual;
● Em cerca de 30% dos casos, pode apresentar dois
canais, e ocasionalmente três canais (dois
vestibulares e um lingual), o que pode dificultar sua
localização e preparo;
● O segundo canal, quando presente, tende a
divergir do principal em um ângulo agudo, exigindo
adequação na forma de acesso coronário;
● Canais em forma de C podem ser encontrados em
aproximadamente 14% dos casos, com duas saídas
foraminais;
● Há risco de perfuração devido à concavidade
radicular na região mesial, principalmente em
preparos excessivos;
● O forame mentual pode estar localizado próximo
ao ápice do primeiro pré-molar inferior, o que
exige cautela em cirurgias parendodônticas.
2º Pré-Molar Inferior
● Geralmente apresenta uma raiz única e um canal
central, sendo morfologicamente mais previsível
do que o primeiro pré-molar inferior;
● A seção transversal do canal é oval no terço
cervical e médio, tornando-se mais arredondada
na porção apical;
● A presença de dois canais é rara, mas pode
ocorrer. Quando presente, o canal lingual
frequentemente diverge do canal principal em
ângulo agudo;
● A curvatura apical é comum e pode dificultar o
preparo do canal radicular;
● Na sua porção apical, pode haver deposição
secundária de cemento, o que pode influenciar no
tratamento endodôntico
1o Molar Superior
● Geralmente tem três raízes e três ou quatro canais;
● Raiz palatina volumosa, frequentemente com
curvatura vestibular;
● Raiz mesiovestibular pode ter dois canais
conectados por istmo;
● Concavidade distal da raiz mesiovestibular pode
aumentar o risco de perfuração;
● Próximo ao seio maxilar, podendo causar infecção
sinusal.
2o Molar Superior
● Semelhante ao primeiro molar, mas com raízes
mais curtas e mais tendência à fusão radicular;
● Pode ter três ou quatro canais, com orifícios
frequentemente alinhados em linha reta.
1o Molar Inferior
● Normalmente tem duas raízes e três ou quatro
canais;
● Raiz mesial frequentemente tem dois canais que
podem se unir apicalmente;
● Mais de 25% das raízes distais têm dois canais;
● Pode apresentar radix entomolaris (terceira raiz
distolingual);
● Múltiplas foraminas podem existir na região de
furca.
2o Molar Inferior
● Similar ao primeiro molar, mas com raízes mais
curtas e tendência à fusão;
● Pode apresentar canal em forma de C;
● Ápice próximo ao canal mandibular, exigindo
atenção para evitar trauma mecânico ou químico
nos tecidos perirradiculares.
ACESSO CORONÁRIO
O tratamento endodôntico é composto por três etapas
básicas: acesso coronário, preparo químico-mecânico e
obturação dos canais radiculares. O acesso coronário é a
fase inicial e essencial, pois sua correta execução influencia
diretamente o sucesso das etapas seguintes.
O acesso coronário consiste na preparação de uma
cavidade na coroa do dente para expor a câmara pulpar e
permitir o tratamento dos canais radiculares. Essa etapa
inclui a remoção do teto da câmara pulpar, limpeza,
antissepsia e identificação dos orifícios dos canais. Erros
nessa fase podem dificultar o tratamento, tornando os
canais inoperáveis e favorecendo infecções secundárias.
A anatomia da cavidade pulpar deve ser bem
compreendida para evitar falhas, como permanência de
restos pulpares que podem levar ao escurecimento
dentário ou dificultar a localização dos canais. O
treinamento pré-clínico em dentes extraídos é
recomendado para aprimorar a técnica, sempre
observando os princípios de biossegurança.
PRINCÍPIOS BÁSICOS GERAIS
Antes de iniciar as manobras operatórias do acesso
coronário, é fundamental observar alguns princípios
básicos. Juntamente ao exame clínico, tomadas
radiográficas periapicais, realizadas pela técnica do
paralelismo, preferencialmente em dois ângulos, podem ser
uma ferramenta auxiliar importante para o planejamento
da realização do acesso. Tal procedimento poderá fornecer
informações preciosas, como a inclinação do dente, a
presença e a extensão de cáries, a localização dos cornos
pulpares, a presença de calcificações, a relação do teto com
a câmara pulpar, a localização da entrada dos canais, o
número de canais, curvaturas, lesões perirradiculares e
outras estruturas anatômicas.
Além disso, o exame radiográfico poderá, ainda, contribuir
na análise da espessura da estrutura dentária (esmalte e
dentina) a ser desgastada para se atingir a câmara pulpar e,
assim, visualizar a presença de perfurações e danos ao
assoalho que, porventura, tenham sido provocados
previamente.
Algumas medidas preliminares básicas devem ser tomadas
antes de iniciar o acesso propriamente dito:
A. Verificar a inclinação do dente e das raízes no arco
dentário;
B. Remoção de toda dentina cariada e das
restaurações que impeçam o adequado acesso aos
canais radiculares;
C. Alisar as superfícies pontiagudas dos dentes, que
possam interferir na colocação do lençol de
borracha e facilitar a realização do isolamento
absoluto;
D. Remover todos os planos inclinados da coroa, que
possam interferir no estabelecimento correto de
referências externas, para a futura instrumentação
e obturação dos canais radiculares;
E. Estabelecer a área de eleição adequada de acordo
com as características anatômicas do elemento
dentário.
ETAPAS OPERATÓRIAS
Acesso à câmara pulpar:
Esta etapa se inicia com o estabelecimento de uma área de
eleição,confecção de uma forma de contorno inicial e
direção de trepanação.
A área de eleição é o ponto escolhido para ser iniciado o
desgaste do dente. Nos incisivos e caninos superiores, fica
na face palatina, 1 a 2 mm abaixo do cíngulo; nos inferiores,
na face lingual, 1 a 2 mm acima do cíngulo; nos pré-molares
e molares, na face oclusal, junto à fossa central em ambos
os arcos.
A forma de contorno inicial é a obtida partindo do ponto de
eleição, normalmente utilizando brocas 1557 ou similares,
operando em motor de alta rotação, sob refrigeração
adequada, com uma velocidade lenta, dando uma
conformação apropriada à cavidade e procurando respeitar
a anatomia interna do dente. O uso de velocidade lenta
permite melhor controle operatório e evita a realização do
desgaste excessivo da estrutura dental sadia. Esse cuidado
objetiva evitar o enfraquecimento desnecessário da
estrutura do dente e o comprometimento da sua futura
restauração e resistência à fratura.
O operador deve tomar cuidado para realizar o corte em
área e direção corretas, apical e lateralmente, sem forçar a
broca, com toques leves e suaves.
Essa penetração inicial deve ser estendida para o interior
do dente, em direção à câmara pulpar, reduzindo a
espessura da dentina, contudo, sem atingir a remoção do
seu teto, respeitando a forma de contorno padrão de cada
grupo dental.
Uma medida preventiva importante é que durante essa
manobra, antes de se remover o teto da câmara pulpar,
toda dentina cariada seja removida, mesmo que isso
envolva outras faces do dente.
Após a penetração e o desenho da forma de contorno
inicial, com a broca 1557 ou, de preferência, com uma
broca esférica diamantada de tamanho compatível com a
cavidade (1011, 1012, 1013 e 1014), deve-se, agora, atingir o
teto e penetrar no interior da câmara pulpar.
Essa manobra, conhecida como trepanação da câmara
pulpar, deve, em condições normais, obedecer à inclinação
e à direção de acordo com cada grupo dental.
Inicialmente, nos incisivos e caninos, superiores e
inferiores, a broca é posicionada perpendicularmente ao
longo eixo do dente. Após a penetração, e quando a
configuração inicial estiver delimitada, a posição da broca
deve ser alterada para o sentido paralelo ao longo eixo do
dente, até atingir o interior da câmara pulpar, realizando a
trepanação.
Nos pré-molares e molares, a broca é posicionada, desde o
estabelecimento do ponto de eleição, paralelamente ao
longo eixo do dente e em direção ao canal mais volumoso
(p. ex., distal dos molares inferiores, palatino dos molares
superiores), para realizar a trepanação. Nos casos em que a
polpa é mais volumosa, durante a penetração na câmara
pulpar, o operador pode ter a sensação de “cair no vazio”.
No entanto, nos casos em que a câmara está bem
calcificada, essa sensação tátil poderá diminuir ou não ser
percebida. Uma radiografia interproximal poderá fornecer
detalhes sobre a profundidade procurada para penetrar no
interior da câmara pulpar.
Tecnicamente, esse procedimento poderá sofrer
modificações em função da presença de cárie, calcificações,
deposição de dentina secundária ou terciária, fraturas
coronárias e variações morfológicas e de posição do dente
no arco dentário.
A e B: Brocas que podem
ser utilizadas para
abertura e refinamento do
acesso coronário;
C: Detalhe em maior
aumento das brocas Endo
Z e 4083 evidenciando a ponta inativa dos instrumentos
para a proteção do assoalho da câmara pulpar durante a
fase de refinamento do acesso coronário.
Nos casos em que há dificuldade de planejar a
profundidade de câmaras pulpares atrésicas e/ou
calcificadas, recomenda-se verificar a profundidade por
meio de uma radiografia interproximal (bite-wing) e
transportar a medida para a broca, com o uso de um cursor
de borracha.
A: Radiografia inicial. Seta
mostrando área radiolúcida
correspondente ao
desgaste excessivo na
direção vestibular da coroa
do incisivo superior
esquerdo;
B e C: Setas evidenciando a
remoção excessiva do
suporte dentinário da câmara
pulpar causada pelo desvio
durante a manobra da abertura coronária, vistas vestibular
e palatina, respectivamente;
D: Aberturas coronárias corretas seguindo o longo eixo dos
dentes incisivos central e lateral superiores esquerdos.
PREPARO DA CÂMARA PULPAR
Após a colocação do isolamento absoluto e antissepsia do
campo operatório, inicia-se a preparação da câmara pulpar.
Essa etapa consiste na remoção de todo restante da parede
do teto e no preparo das paredes laterais da câmara
pulpar. Para essa manobra, podem ser utilizadas brocas
esféricas e troncas cônicas diamantadas de pontas inativas
(Endo Z, 3081, 3082, 3083, ou 4081, 4083).
Ao se utilizarem as brocas esféricas, elas devem ser
trabalhadas no sentido de dentro para fora, sem tocar no
assoalho da câmara. As brocas de corte ativo não devem
tocar o assoalho, pois, além do risco de causar alterações
na morfologia, podem obliterar as entradas dos canais
radiculares, dificultando sua futura localização e
penetração.
Preferencialmente, devemos utilizar as brocas sem corte na
ponta, que podem ser apoiadas no assoalho da câmara,
sem o risco de causar danos. Permitem realizar um
desgaste lateral da cavidade pulpar, percorrendo todos os
seus ângulos, produzindo uma ligeira expulsividade nas
suas paredes.
Caso haja a necessidade de trabalhar o assoalho, quando
ele apresentar calcificações, nódulos ou for atingido por
processos de cárie muito avançados, deve-se antes explorar
e tentar localizar as entradas dos canais radiculares. O uso
de brocas esféricas de baixa rotação, broca tipo LN e de
insertos ultrassônicos especiais de diferentes formas e
tamanhos poderão ser extremamente úteis para romper
calcificações e auxiliar a localizar o orifício de entrada do
canal.
Broca LN esférica que poderá ser utilizada, em baixa
rotação, com os mesmos
objetivos descritos acima
para os insertos
ultrassônicos.
A a C: Sequência de fotos
mostrando a utilização de
inserto ultrassônico (seta)
para auxiliar na localização
do canal palatino
calcificado do pré-molar
superior.
D: Instrumento
endodôntico tipo K no 10 inserido no canal palatino após a
remoção do tecido calcificado pela ponta ultrassônica.
A. Radiografia inicial evidenciando a presença de
nódulo pulpar no interior da câmara pulpar do
segundo molar superior;
B. Vista oclusal da restauração metálica;
C. Aspecto da estrutura dentária após remoção
completa da restauração metálica;
D. Vista oclusal da forma de contorno do acesso
coronário com a presença do nódulo pulpar;
E. Aspecto do nódulo pulpar após o seu
deslocamento da cavidade pulpar;
F. Forma de contorno do acesso coronário após
remoção do nódulo pulpar;
G. Instrumento endodôntico localizando a entrada do
segundo canal da raiz mesiovestibular (MV2);
H. Aspecto final da cavidade (forma de conveniência).
Observar o acesso direto aos canais da raiz
mesiovestibular (MV1 e MV2), canal distovestibular
(DV) e canal palatino (P).
Uma sonda endodôntica tipo Rhein, ou mesmo um
instrumento endodôntico de pequeno calibre, pode ser
utilizado para auxiliar e manter os orifícios de entrada dos
canais sempre visíveis. Lavagens intermitentes, durante o
preparo, com uso de solução irrigadora, são altamente
recomendáveis, porque auxiliam a manter o campo limpo.
Cuidados devem ser tomados para evitar forçar o conteúdo
da câmara pulpar para o interior do canal radicular. As
projeções e os restos do teto da câmara, além de poderem
dificultar o posterior acesso ao canal radicular, podem
abrigar dentina cariada, detritos, biofilme bacteriano,
sangue e outros elementos capazes de ocasionar a
contaminação do canal, além do risco de alterar a cor da
coroa dentária.
Sonda endodôntica tipo Rhein utilizada para auxiliar na
localização da entrada dos canais.
FORMA DE CONVENIÊNCIA
Essa etapa operatória é realizada com a intenção de dar
uma conformidadeà cavidade pulpar e facilitar outros
procedimentos operatórios. Poderão ser utilizadas brocas
diamantadas em forma de chama de vela, tipo 1111, brocas
tronco-cônicas de ponta inativa (Endo Z, 3081, 3083, 4083)
ou insertos ultrassônicos de diversos formatos, com ou sem
diamantes.
A forma de conveniência visa:
● Facilitar o franco acesso dos instrumentos
endodônticos ao canal radicular;
● Possibilitar a visualização e dar linhas diretas às
paredes da cavidade pulpar em direção às
entradas dos canais (acesso direto e reto aos
canais);
● Permitir que a cavidade adquira paredes lisas e
planas, para favorecer a visualização adequada dos
orifícios de entrada dos canais radiculares;
● Simplificar todas as manobras operatórias de
instrumentação e de obturação dos canais
radiculares.
LIMPEZA E ANTISSEPSIA DO CAMPO OPERATÓRIO
Esta etapa é essencial para que se inicie o tratamento dos
canais radiculares. Todo tecido cariado, placa bacteriana,
cálculo, gengiva hiperplásica, restaurações imperfeitas ou
qualquer outra condição que impeça a manutenção da
cadeia asséptica devem ser rigorosamente removidos.
Esse cuidado deve ser realizado antes de se iniciarem os
procedimentos de acesso coronário.
Logo após a realização da trepanação, o dente receberá o
isolamento absoluto. Em seguida, com o auxílio de uma
gaze estéril, embebida em solução de hipoclorito de sódio
em uma concentração entre 2,5 e 5,25% (ou clorexidina a
2% ou álcool iodado), realiza-se a descontaminação do
campo operatório, incluindo lençol de borracha, grampo e
dente.
Após a antissepsia do campo operatório, lavagens
frequentes da câmara pulpar com solução irrigadora
antimicrobiana devem ser realizadas durante todas as
etapas do acesso e localização da entrada dos canais
radiculares. Essas medidas são fundamentais para garantir
a limpeza e a desinfecção da cavidade pulpar, evitar
alteração cromática da coroa e prevenir que fragmentos de
esmalte, dentina, amálgama, metais restauradores,
cimentos e outros materiais sejam inadvertidamente
introduzidos no interior do canal radicular.
A quebra da cadeia asséptica, durante toda ou qualquer
fase operatória, poderá comprometer gravemente os
resultados do tratamento,
favorecendo uma infecção
secundária e contribuir
substancialmente para o
fracasso do tratamento endodôntico.
O acesso coronário poderá sofrer alterações futuras na sua
forma de contorno e/ou configuração final à medida que o
procedimento de instrumentação seja iniciado. Essas
retificações visam melhorar e aprimorar a qualidade do
acesso para facilitar tanto a instrumentação quanto os
futuros procedimentos de obturação.
Além disso, poderá auxiliar na melhora da qualidade do
fluxo e refluxo da solução irrigadora e aumentar a
segurança do uso de instrumentos endodônticos durante a
modelagem dos canais radiculares.
ACESSO CORONÁRIO DOS GRUPOS DENTÁRIOS
INCISIVOS E CANINOS SUPERIORES
Área de eleição
● Área mais central da superfície palatina, próxima
do cíngulo.
Direção de trepanação
● A penetração inicial é realizada com a broca
operada perpendicularmente à linha do longo eixo
do dente. Penetra-se, em profundidade, em toda a
espessura do esmalte. Posteriormente, modifica-se
a direção de sua inclinação, de modo que ela fique
paralela ao longo do eixo do dente, aprofundando
alguns milímetros, diminuindo a espessura da
dentina em direção à câmara sem, contudo, nela
penetrar.
Forma de contorno inicial
● Triangular regular, com a base voltada para incisal
e o vértice voltado para o cíngulo. A forma de
contorno inicial estende-se 2 a 3 mm da borda
incisal e aproximadamente 2 mm em direção ao
cíngulo. Nos caninos superiores, particularmente,
pode ser necessária maior extensão no sentido
cervicoincisal, por causa da presença do divertículo
central, o qual é voltado em direção à cúspide. Essa
característica anatômica pode conferir aos caninos
superiores uma forma lanceolada ou de chama de
vela. Em seguida, com a broca posicionada e
mantida paralela ao longo do dente, realiza-se a
trepanação.
Preparo da câmara pulpar
● Remoção completa do teto e preparo das paredes
vestibular e palatina da câmara pulpar,
trabalhando com a broca de dentro para fora.
Remove-se os divertículos pulpares e
complementa-se, tanto quanto possível, a forma
de contorno inicial.
Configuração final da câmara pulpar (forma de
conveniência)
● Remoção das anfractuosidades, regularização e
alisamento dos ângulos mesial e distal do vértice
da câmara pulpar, remoção da projeção dentinária
na região do cíngulo, proporcionando, ao final do
preparo, um acesso direto e amplo ao canal.
Limpeza e antissepsia da cavidade
● Seguir de acordo com as normas gerais descritas
A e B: Vistas
vestibular e palatina
do incisivo central
superior;
C e D: Fotografia e
radiografia com a
broca em posição perpendicular ao longo eixo do dente no
início do procedimento da abertura endodôntica;
E e F: Fotografia e radiografia com a broca em posição
paralela ao longo eixo do dente para se obter acesso direto
ao canal radicular;
G e H: Vistas palatina e oclusal do aspecto final da cavidade
(forma de conveniência).
A: Broca
carbide 1557
posicionada no
ponto de
eleição da face
palatina do incisivo central superior durante a fase inicial do
acesso coronário;
B e C: Vistas oclusais do aspecto final do acesso coronário
do incisivo superior.
PRÉ MOLARES SUPERIORES
Área de eleição
● Área central da superfície oclusal, junto à fossa
central.
Direção de trepanação
● Vertical, paralela ao longo eixo do dente.
Forma de contorno inicial
● Forma cônico-ovoide, achatada no sentido
mesiodistal, com extensões maiores de preparo no
sentido vestibulopalatino. Remove-se toda a
dentina cariada restante, se ainda existente, de
acordo com as normas gerais descritas. Logo a
seguir, com a broca operando paralelamente ao
longo eixo do dente, realiza-se a trepanação do
teto da câmara pulpar, no sentido do canal
palatino. No caso da presença de um único canal, o
local será central, ligeiramente inclinado em
direção ao corno pulpar palatino.
Preparo da câmara pulpar
● Realizam-se a remoção completa do teto e o
preparo das paredes laterais da câmara pulpar.
Complementa-se, tanto quanto possível, a forma
cônica elíptica achatada no sentido mesiodistal da
cavidade pulpar.
Configuração final da câmara pulpar (forma de
conveniência)
● Com o auxílio de uma sonda endodôntica tipo
Rhein ou de um instrumento endodôntico tipo K de
diâmetro compatível com o do orifício de entrada
do canal (6, 8, 10 ou 15), observam-se a direção e a
inclinação com a sua exploração inicial. A seguir,
verifica-se a necessidade de realização de
desgastes compensatórios, a fim de permitir um
acesso reto e direto ao canal ou canais radiculares.
Limpeza e antissepsia da cavidade
● De acordo com as normas gerais descritas
A. Vista oclusal
do pré-molar
superior;
B. Broca no
centro da superfície
oclusal evidenciando
o ponto de eleição para o início do acesso
coronário;
C. Rompimento do teto da câmara pulpar que
normalmente se inicia pelo lado palatino nos
pré-molares superiores;
D. Vista oclusal do aspecto final da cavidade (forma
de conveniência). Observar as entradas dos canais
vestibular e palatino.
A. Corte
longitudinal do
pré-molar superior.
Observar câmara
pulpar com os seus
divertículos
vestibular (1) e palatino (2), onde se alojam os
cornos pulpares vestibular e palatino,
respectivamente;
B. Broca esférica em posição para a remoção do teto
da câmara pulpar;
C. Aspecto final da cavidade (forma de conveniência)
evidenciando a remoção do teto da câmara para se
obter o acesso direto aos canais radiculares.
A. Vista oclusal dos pré-molares superiores
apresentando lesões cariosas;
B. Radiografia bite-wing mostrando que as lesões
cariosas são maiores do que aparentavam no
exame clínico;
C. Aspecto das cavidadesde acesso que tiveram as
suas formas de contorno alteradas por causa da
extensão das lesões cariosas;
D. Radiografias evidenciando a obturação dos canais
radiculares.
A. Radiografia inicial evidenciando a dificuldade do
acesso à câmara pulpar e aos canais radiculares do
segundo pré-molar superior esquerdo;
B. Vista oclusal do segundo pré-molar superior
esquerdo;
C. Aspecto inicial do acesso coronário;
D. Aspecto inicial da forma de contorno do acesso
coronário;
E. Radiografia de odontometria;
F. Aspecto final do acesso coronário;
G. Radiografia final evidenciando detalhes da
obturação dos canais radiculares;
H. Controle radiográfico de 14 meses após a
conclusão do tratamento endodôntico.
MOLARES SUPERIORES
Área de eleição
● Na superfície oclusal, no centro da fossa mesial.
Direção de trepanação
● Vertical, paralela ao longo eixo do dente.
Forma de contorno inicial
● Triangular, com a base voltada para vestibular e o
vértice voltado para a palatina;.
● A forma de contorno inicia-se no centro da fossa
mesial, próximo à cúspide mesiovestibular;
● Desse ponto, segue em direção distal, até
ultrapassar o sulco oclusovestibular;
● Posteriormente, continua em direção palatina,
atravessa a fossa central, para se unir novamente
ao ponto inicial junto à cúspide mesiovestibular;
● Assim, obtém-se uma forma triangular irregular
ampla;
● A seguir, aprofunda-se a penetração da broca,
operada paralelamente ao longo eixo do dente;
● No momento da trepanação, a broca deverá
mudar um pouco sua posição e ser colocada com
ligeira inclinação na direção do canal palatino.
Preparo da câmara pulpar
● Remoção completa do teto e preparo das paredes
laterais da câmara pulpar.
Configuração final da câmara pulpar (forma de
conveniência)
● Observando os critérios anatômicos de
normalidade, deve-se reproduzir a anatomia da
câmara pulpar e o número de canais dos molares
superiores;
● O primeiro molar é o mais volumoso e possui,
quase sempre, quatro canais, sendo dois
localizados na raiz mesiovestibular;
● O canal localizado mais próximo da cúspide
mesiovestibular recebe o mesmo nome da cúspide,
também sendo chamado MV1;
● O canal situado mais para a palatina é denominado
mesiopalatino ou MV2;
● As raízes distovestibular e palatina apresentam,
normalmente, cada uma, um único canal: o
distovestibular e o palatino, respectivamente. Em
função das variações anatômicas, o primeiro molar
superior poderá apresentar, com menor
frequência, três ou, muito raramente, até cinco
canais;
● Estudos recentes com tomografia
computadorizada têm revelado uma grande
variação no número de canais dos molares
superiores.
Limpeza e antissepsia
da cavidade
● De acordo com
as normas
gerais
descritas.
A. Vista oclusal do
primeiro molar
superior;
B. Broca na fossa mesial da superfície oclusal
evidenciando o ponto de eleição para o início do
acesso coronário;
C. Forma de contorno da cavidade de acesso;
D. Rompimento do teto da câmara pulpar que
normalmente se inicia pelo lado palatino nos
molares superiores;
E. Vista oclusal do aspecto final da cavidade (forma
de conveniência). Observar o acesso direto aos
canais da raiz mesiovestibular (MV1 e MV2), canal
distovestibular (DV) e canal palatino (P).
A. Vista oclusal de um terceiro molar superior;
B. Broca na fossa mesial da superfície oclusal
evidenciando o ponto de eleição para o início do
acesso coronário;
C. Rompimento do teto da câmara pulpar que
normalmente se inicia pelo lado palatino nos
molares superiores;
D. Broca com ponta inativa para finalizar a remoção
do teto da câmara pulpar sem risco de lesar o seu
assoalho;
E. Sonda endodôntica tipo Rhein localizando a
entrada do canal distovestibular;
F. Instrumento endodôntico localizando a entrada do
segundo canal da raiz mesiovestibular (MV2);
G. Vista oclusal do aspecto final da cavidade (forma
de conveniência). Observar o acesso direto aos
canais da raiz mesiovestibular (MV1 e MV2), canal
distovestibular (DV) e canal palatino (P).
A. Primeiro molar superior com cinco canais;
B. Radiografia da obturação dos canais radiculares
evidenciando dois
canais na raiz mesial,
dois na raiz palatina e
um canal na raiz distal.
Observar formas de
contorno e
conveniência
assumidas pela remoção
da restauração anterior e
posição dos canais
radiculares.
Acessos coronários de molares superiores.
A. Radiografia do primeiro molar superior direito
mostrando extensa lesão cariosa;
B. Acesso coronário com a forma de contorno
alterada em função da remoção total do tecido
cariado;
C. Pós-operatório imediato;
D. Proservação com 3 anos.
A. Radiografia inicial do segundo molar superior;
B. Vista oclusal evidenciando a estrutura coronária
remanescente coberta por restauração temporária;
C. Aspecto inicial da forma de contorno do acesso
coronário;
D. Inserto ultrassônico auxiliando na forma de
contorno e conveniência do acesso coronário para
facilitar os procedimentos operatórios do
tratamento endodôntico;
E. Aspecto final do acesso coronário;
F. Aspecto radiográfico final do tratamento
endodôntico.
INCISIVOS E CANINOS INFERIORES
Área de eleição
● Área mais central da superfície lingual, próxima do
cíngulo.
Direção de trepanação
● É realizada em duas manobras:
● Primeiramente a penetração inicial é operada com
a broca de forma perpendicular à linha do longo
eixo do dente. Penetra-se em profundidade em
toda a espessura do esmalte;
● Posteriormente, modifica-se a direção da broca,
situada ainda no mesmo ponto central inicial,
operando agora na direção paralela ao longo eixo
do dente, aprofundando alguns milímetros em
direção à câmara pulpar, sem nela penetrar.
Forma de contorno inicial
● Triangular, com a base voltada para incisal e o
vértice voltado para o cíngulo;
● Estende-se até aproximadamente 2 mm da borda
incisal e 1 a 2 mm acima do cíngulo;
● Como podemos observar, a forma de abertura é
muito semelhante à dos incisivos e caninos
superiores, mas, comparativamente, mais
estendida nos sentidos incisal e lingual;
● Esse fato deve-se à característica anatômica desses
dentes, que têm uma forma achatada no sentido
mesiodistal e, algumas vezes, apresentam
bifurcação em função da presença de dois canais;
● Nos caninos inferiores, particularmente, pode ser
necessária maior extensão no sentido
cervicoincisal, por causa da presença do divertículo
incisal mediano;
● Assim, o canino poderá apresentar uma
conformação mais ovalada em relação aos incisivos
inferiores.
Preparo da câmara pulpar
● Remoção completa do teto e preparo das paredes
laterais da câmara pulpar, sobretudo das paredes
vestibular e lingual.
Configuração final da câmara pulpar (forma de
conveniência)
● Remoção das anfractuosidades, regularização e
alisamento dos ângulos mesial e distal do vértice
da câmara pulpar, remoção da projeção dentinária
na região do cíngulo para remoção do ombro
lingual, proporcionando, ao final do preparo, um
acesso direto e amplo ao canal.
Limpeza e antissepsia da cavidade
● De acordo com as normas gerais descritas
A. Vista vestibular
do incisivo central
inferior;
B. Fotografia e
radiografia com a broca
em posição
perpendicular ao longo
eixo do dente no início
do procedimento da
abertura endodôntica;
C. “”
D. Fotografia e radiografia com a broca em posição
paralela ao longo eixo do dente para obter acesso
direto ao canal radicular;
E. “”
F. Vistas lingual e oclusal do aspecto final da cavidade
de acesso (forma de conveniência)
G. “”
A e B. Radiografia e
fotografia do incisivo
lateral inferior
esquerdo mostrando
extensa lesão cariosa;
C. Acesso coronário
com a forma de contorno alterada em função da remoção
total do tecido cariado; observar a presença dos canais
vestibular e lingual;
D. Proservação de 3 meses mostrando redução da lesão
perirradicular vista em A.
A e B. Vistas vestibular