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CAPÍTUL01
«•iSf ei§:1911 i ._..._ •1'
DE PERTENCIMENTO
Clare Gerada
Por favor, aceite minha renúncia. Não quero pertencer a nenhum clube que
me aceite como membro.
Groucho Marx
Tomar-se médico envolve mais do que apenas absorver o enorme volume de infor
mações necessárias para diagnosticar e tratar doenças. Os médicos têm que aprender
as regras, os costumes e as práticas da profissão, que evoluíram ao longo de milênios.
Desde o primeiro dia na faculdade de Medicina, os alunos têm que entender essas
regras e, ao fazê-lo, tomam-se parte de seu grupo ou tribo escolhida, a "medicina".
Esse aprendizado acontece não apenas nas palestras formais, rondas em enfermarias
ou tutoriais, mas como parte do currículo informal, oculto e não codificado que
acontece nos espaços intermediários. Os indivíduos são ensinados a se conformar às
maneiras de se comportar, falar e vestir; ainda mais importante, eles também apren
dem e adotam as regras do autossacrificio. Os indivíduos desconhecem esse processo
e a maneira como, durante ele, assumem a persona do "médico".
"O que você faz?" é uma pergunta que fazemos ao encontrarmos alguém pela
primeira vez. O que fazemos, significando a atividade que realizamos, é algo vital
para a nossa identidade. Para os médicos, a identidade médica é muito forte, tanto em
termos do indivíduo como clínico (médico) e como grupo (medicina). Combinadas,
elas criam o profissional completo - o médico. A pessoa e a profissão ficam tão
misturadas que muitos médicos, mesmo após se aposentar ou não conseguir mais tra
balhar, ainda usam o título de "Dr.". Como me disse um paciente certa vez: "médico
é algo que você é, e não algo que você faz". Embora essa identidade ajude a garantir
que os médicos realizem o trabalho esperado pelo público, ela também explica as
poderosas barreiras que dificultam que os médicos busquem e tenham acesso a ajuda
em caso de necessidade.
-
4 clare Gerada
N
'tulo é discutida a formação das identidades individual e COI •
este capt , , . ~ ,
éd
. Os capítulos posteriores vão abordar vanos aspectos desses con .
m 1cos. 'd d d 'd'
&-. 0 eles se relacionam à capac1 a e o me 1co para a realiza,.~ de
a 1orma com . . l'QO
b Ih tambe, m à sua vulnerabihdade a doenças mentais.
tra a o, mas
O SELF MÉDICO
A d·ci·na ainda é uma das profissões mais respeitadas e prestigiadas, corn 0 me 1 , .
1
a
elevado de curandeiro sendo um tema comum em vanas ~u turas ao longo do
Apesar das dificuldades atuais de se trabalhar como n_iédico, as vagas nas facuI
de medicina ainda são muito procura?~s, e os candidatos em potencial trabaJbatà
duro para mostrar que têm as cr~~enciats adequa?as_ para,~bter a e~tr!da. Antes de
conseguir uma vaga, os alunos Jª sabem o que sigmfica ser médico , e esse pro,.
cesso continua durante todo o treinamento. Durante esse período, os indivíduos se
transformam no produto final: o médico. A primeira transformação que ocorre se
relaciona ao self do indivíduo, sua identidade central. O "self médico" é um termo
que foi usado pela primeira vez pelo_ méd:co ~orte-americano_ Robert K.Iitzman, em.
seu livro When doctors become patzents, mais tarde expandido por Alex Wessely
em seu trabalho Why doctors make good addicts and bad pqtients.
2
Wessely descreve
a fusão dos aspectos profissionais e pessoais do indivíduo médico para formar um
único se/f médico. O self médico - na verdade, qualquer "self" - é c_omposto por
várias identidades que mudam dependendo da situação social, sendo determinado
pelo mundo onde vivemos e pelos grupos (família, trabalho e grupos culturais e
sociais mais amplos) dos quais fazemos parte.
Como exemplo, decidi tornar-me médica, em grande parte, por causa do meu
falecido pai, que era clínico geral (GP, do inglês general practitioner). Como mui
tos médicos na década de 1960, ele veio como imigrante para trabalhar no National
Health Service (NHS), que passava por dificuldades. Seu consultório era a nossa
casa; o que era a sala de estar à noite tornava-se a sala de espera dos pacientes durante
o dia; a sala de jantar tinha um duplo papel como sua sala de consultas. Aprendi a
subir as escadas na ponta dos pés e ainda tenho vívidas as memórias das conver
sas na varanda, observando as senhoras rechonchudas usando chapéus e segurando
bebês que choravam. Cada peça de nossa casa era cheia de coisas médicas: livros,
~evistas, equipamentos médicos, prontuários e até mesmo um esqueleto. As longas
Joma~~ ?e carro eram_amenizadas pelas histórias de meu pai sobre suas experiências
na Ntgena quando trabalhava como Medical Officer of Health durante seu longo
período.º? _Colonial Service. Mesmo eu sendo muito jovem, ele me levava nas visi
tas dom1c1hares, e, a partir de um ponto de vista privilegiado como filha do médico,
pude ~er a pobreza e os ~~ eitos da privação e da desigualdade social. Apesar de não
ter ~emamento em med1cma, transformei-me em um "projeto de médica", e meus
amigos me proc~avam para perguntar sobre seus problemas de saúde. Meu pai era
o GP local, um tipo de padre co 'd d " · · , nst eran o a reverencia com que os pacientes e a
D
Por trás do jaleco branco 5
comunidade local O tratav E b , . .
. t am. u tam em me senha importante. Quanto mais os
pac1en es penetravam em .
t.
. meu espaço pessoal, mais eu me diferenciava deles. Eu me
sen 1a e me tomava dife t 1 .
médico" M'nh . . ren e. nconsc1entemente, eu me definia como "a filha do
'd' · i ª identidade pessoal começou a incorporar a identidade de outros
me icos. Eu atendia O telefi .d
. one com auton ade, abandonando meu próprio nome
e, em ve~ di~s?, adotando o título de "filha do Dr. Gerada". Esse exemplo ilustra a
natureza ms1diosa da inte 1· ~ d . . .
ma 1zaçao e uma identidade e de determinados valores
como ser capaz de manter fid · ) 'd d . . '
" . a con I enc1a I a e e estar ciente de precisar se compor-
tar de manerra apropriada" filh d , . . .
. como a I a o medico. Por fim, e talvez amda mais
mteressante aprendi' a c.az 'fí · • ~ .
. , , . i; er sacn 1c1os, como abnr mao de meus espaços pessoais
em minha propna casa.
M~smo antes de entrar na faculdade, de maneira implícita ou explícita, eu me via
como diferente dos outros, e não estava sozinha nisso. A faculdade de medicina não
faz_nada para retirar do aluno essa "aura de especial". Devido ao nosso treinamento
mais lo~go, º?eroso e específico, nossa identidade é moldada por meio de normas
e narrativas aJustadas pelas relações com outros médicos e com os pacientes, até
chegarmos ao produto final: "o médico". Essa condição de ser especial é reforçada
durante o treinamento, quando os médicos aprendem uma nova linguagem, usam
roupas novas (para mim, era o avental branco curto como estudante que se transfor
mava em um avental branco longo após a formatura) e carregam um estetoscópio
(geralmente enrolado ao pescoço de maneira visível). Durante a faculdade, os estu
dantes aprendem a arte de compartimentar, sendo capazes de repartir cognitivamen
te diferentes aspectos de suas vidas. O longo treinamento e o vasto conhecimento
necessário para a assimilação levam a uma "cientificização" do self, criando uma
identidade cognitiva única e o produto finalizado ( o médico) como algué~ que in
corpora conhecimento, certeza e autoridade. Após a formatura, a transformação fica
completa quando os médicos adquirem seu novo nome: "Dr.". Todos esses símbolos
externos marcam o indivíduo como "médico", mas os sentimentos internos ocultos
(poder, autoridade e invencibilidade) são igualmente importantes na criação dessa
identidade. Nesse ponto, surge o self médico - "aquilo que sou".
Como todo mundo, os médicos têm identidades conflitantes em diferentes mo
mentos e contextos, em casa ou no trabalho, com a família ou com os pacientes, como
médicos ou como pacientes. Contudo, o núcleo do "self médico" é particularmente
forte e pervasivo. É este self que o médico apresentaao mundo exterior e que o
orienta durante a carreira. Sua onipresença significa que o equilíbrio entre trabalho
e vida de um médico está alterado: os médicos têm dificuldade de abandonar sua
identidade de trabalho na saída do hospital ou na porta do consultório e assumir outra
que não seja a do "médico". Isso costuma ficar evidente em eventos sociais, on~e_os
médicos tendem a ficar juntos, atraindo-se como se houvesse um radar na multJdao.
Pessoalmente vivo e trabalho na mesma região e raramente abandono o papel de
"GP local" m;smo em minha própria casa, pois muitos de meus amigos e dos amigos
de meus filhos são pacientes atuais ou antigos e procuram-me para algum
6 Clare Gerada
t E nbora meu contato próximo com pacientes possa ser .
aconselhamen o. 1 'd' - lllconlun.
, . expectativa de que os me 1cos estao sempre em seu pap 1 ~ e muito comum a . . c. .1. e dep
. . d ndo ser solicitados a a3udar amigos, 1am1 tares ou estranho A ro.
fiss10na1s, po e . ,, 1 • " s. ssi"'
'd. nca é um "não médico . Espera-se que e es seJam o bom sam!I..: ....,
0 me 1co nu 'd' . ....,fano"
Portanto, ao longo do tempo, o indi_vídu_o e o me 1co se tornam m?i~tinguíveis en •
s1. Nao posso abandonar o medico em . tre
Não posso abandonar o
médico em mim da mesma
forma como um artista não
consegue abandonar sua
criatividade.
. mun da
mesma forma como um artista não consegue ab
donar sua criatividade - os dois estão para sem an
tigados. É este self méd~co que tenta, durant~
trabalho, mascarar o sofnmento e proteger os lllé
dicos de sentimentos subjetivos de culpa, medo e
desesperança.
O "self médico" atua como um mecanism
, . d o
de defesa necessano e ma uro, permitindo que 08
médicos lidem com o contato próximo com a morte, com o desespero e com a in
capacidade. Porém, o "self médico" po~e - e muitas veze_s o faz - sair de controle,
especialmente quando não é contrabalançado por um ambiente de trabalho saudável
ou por um apoio pessoal. Ele pode inibir o desenvolvimento de empatia e limitar a
compaixão. Este livro está repleto de exemplos em que mépicos estão tão ligados ao
seu papel de cuidados que não conseguem realizar nenhuma outra atividade, o que
traz consequências negativas para sua saúde mental.
Um dos melhores exemplos dos aspectos positivos e negativos do self médico é
encontrado no livro Afortunate man: the story of a country doctor. Escrito em 1967,
o autor John Berger fornece um retrato de um GP, John Sassall. Sassall trabalhava
como médico rural na Forest of Dean, e Berger o acompanhou em suas visitas e no
consultório para conseguir produzir um relato de sua vida e trabalho realizado por um
observador discreto. No livro de Berger, Sassall surge como alguém que incorpora
o que há de melhor na profissão. Ele é descrito como uma pessoa puramente profis
sional, "que sabe tudo ... cansado ... e aceito pelos moradores do vilarejo e do campo
como um homem que, no sentido mais amplo do termo, vive com eles".3
Sassall, como muitos outros médicos, era definido pelo seu trabalho. Quando
seu parceiro de consultório de longa data morreu, em vez de conseguir outro, ele
optou por dividir a lista de pacientes e seguir o trabalho sozinho. O livro de Berger
descreve como Sassall desejava ser acordado à noite para chamadas de pacientes.
Em termos bem claros, Sassall era "louco pelo trabalho", incapaz de ter qualquer
outra identidade que não aquela de médico. Seus pacientes se beneficiavam com isso,
pois ele estava sempre presente e disponível para eles. Ele era o epítome daquilo
que mui~os _consideram como o médico de família perfeito, mas não sem as suas
conseque~cias. Sassall sofria de períodos regulares de depressão, os quais afetavam
sua capacidade de realizar seu trabalho adequadamente, não havendo evidências de
que te~~ buscado al~m tipo de ajuda profissional. Em vez disso, como escreve~
Berger, Sassall precisa trabalhar dessa maneira. Ele cura os outros para curar a si
D
Por trás do jaleco branco 7
mesmo_" (p. 79), tomando-se o clássico "curador ferido" que lida com suas feridas
po_r m71
~ de seu papel de cuidador em vez de abordar suas próprias necessidades
psicologicas. ~orno um "médico total", Sassall não podia proteger seus pacientes
contraª tarefa Im?ossível de curar o incurável, uma falha que sentiu de forma pessoal
e p~ofunda. !°felizmente, após a morte de sua esposa, as coisas ficaram dificeis de
mais, e ele tirou sua própria vida.
O GRUPO DE PERTENCIMENTO (O SELF COLETIVO)
Tomar-se médico envolve uma rede de relações cada vez mais estreita com o siste
ma ~édico e dentro dele. Assim, não é surpreendente que a segunda transformação
ocomda durante o treinamento seja a da identidade coletiva dos médicos.
Nina chegou bem na hora para a aula. A sala estava cheia. Quase ninguém
ali era médico, e eles aguardavam pelo início de uma palestra importante de
um professor emérito que tinha ganhado um prêmio de prestígio; essa era sua
aula de despedida. Pouco qntes de começar a palestra, ele ficou sabendo que,
entre as cerca de 500 pessoas da audiência, estava Nina, a qual recém tinha se
formado como médica. Embora este fosse o dia dele, a sua glória, ele a dividiu
com a moça, anunciando a todos o seu feito. Toda a audiência ficou de pé,
sorrindo e batendo palmas. Ela tinha entrado para o grupo.
Na vinheta, Nina passou pelo rito de passagem exigido ao formar-se, entrando para
a "tribo" da medicina. 4 Esses rituais se conectam com as mudanças no ciclo vital do
indivíduo em relação à hierarquia social, unindo, assim, os aspectos fisicos e sociais
de sua biografia. Os ritos de passagem têm três estágios: rituais de separação entre
estudantes de medicina e de outras áreas não médicas, rituais de transição para a ab
sorção do conhecimento biomédico e as habilidades, atividades, valores e assim por
diante e um ritual de incorporação por meio do juramento de Hipócrates, do rótulo
de "Dr." e do uniforme distintivo.
Como no caso do "self médico", esse processo acontece de maneira gradual,
sendo reforçado quando estudantes de medicina - e, mais tarde, médicos - passam
muitas horas no espaço limitado de sua "instituição total", onde moram, trabalham,
sofrem, brincam, aprendem e, até mesmo, amam juntos (pois muitos formam par
cerias duradouras com outros médicos). As instituições totais, conforme a definição
do sociólogo canadense Erving Goffinan, são lugares onde as pessoas trabalham e
moram, apartadas da comunidade por períodos consideráveis, levando uma vida
limitada. 5 Os exemplos típicos são as antigas instituições de saúde mental, as prisões
e as escolas em regime de internato. Os espaços fisicamente limitados dessas insti
tuições levam a divisões entre "eles" e "nós" ( enfermeiros e pacientes, prisioneiros
e funcionários da prisão, professores e alunos), com outras características que re
forçam diferenças como rituais de admissão, roupas, linguagem e assim por diante.
As faculdades de medicina são menos fisicamente confinadas em termos do espaço
8 Clare Gerada
.. assa mas são ainda mais limitadas, como diz 0
• d ttJolos e argam , an~
ena os por .
1
. termos do tempo gasto dentro da organização co . _Opô.
1 Simon Smc a1r, em N 6 A . I . gnittva
ogo 1. 'tada da própria profissao. ss1m, e as compartilham rn . e
·tualmente 1m1 . fli U1tas ,1A_
conce1 . tr . das instituições totais de Go man: o estudante é visto "48
cterísncas cen ais , apen ...
cara . " ltidão', e O treinamento das pessoas e conduzido na p . •London (UCL) (ond
recem 1.orm u k' J . . • e
estudei), escrevendo seus achados em lVla mg uoctors: an mstztut10na/ apprenfi-
ceship. Para Sinclair,
incessante necessidade de que os estudantes de medicina trabalhem em exames
~ finitos acaba resultando em sua filiação cognitiva profissional à instituição da
:Uai eles são um interno (i.e., a profissão da medicina), uma passagem e ;ma
filiação que podem excluir o mundo leigo da mesma forma como os manicômios
o fazem.
Prefiro considerar uma descrição mais benevolente, mas não menos total, da insti-
tuição total da medicina como o "grupo de pertencimentd,. . .
Durante a faculdade de med1cma, e mais tar
Durante a faculdade
de medicina, e mais
tarde no trabalho, fiquei
inconscientemente
presa em meu grupo de
pertencimento, o qual me
continha desde sempre.
de no trabalho, fiquei inconscientemente presa em
meu grupo de pertencimento, o qual me continha
desde sempre. Aprendi sobre as regras de meu gru
po, mesmo enquanto era apenas uma adolescente
ajudando meu pai; por exemplo, como nunca: di
zer o que via ou ouvia; como me comportar em
público; e como parecer confiante. Eu mantinha
segredos sobre os outros, inclusive sobre amigos
próximos e seus familiares. Esse grupo me liga
va ao passado, ao presente e, até mesmo, à futura
comunidade de médicos, dando-me a noção pre
estabelecida do que significava ser um médico. Assim, a faculdade de medicina
cria um produto finalizado que é uma pessoa que incorpora o tremendo poder que a
educação médica traz, que se manifesta na forma como o médico fala, age, escreve e
interage. Isso tem conotações positivas, permitindo que os médicos façam o trabalho
que as pessoas demandam deles, mas também estabelece pressões extremas sobre o
médico e seus familiares. Para muitos médicos, o trabalho substitui suas famílias de
maneira literal e metafórica. O produto final "médico" está imerso em seu "grupo de
pe~enci~ento" (medicina), um grupo reforçado por uma profissão que tem hierar
qmas estntas, comportamentos ( dentro e fora do trabalho), solidariedade profissional,
culturas, normas e valores construídos ao longo do tempo. É claro que o "grupo,,
Por trás do Jaleco branco 9
não é uma entidade única m • d d'
, as uma matriz e 1ferentes grupos interconectados que
mudam com o tempo incl · d , • .
. . . , um o o meu propno: meu grupo de d1ssecção meus hos-
p1ta1s mmhas · · '
. • e~mpes n~s enfermarias dos hospitais, meu sindicato médico, minha
~ntldad: ~rofissional, mmha parceria como GP e assim por diante. Porém há uma
linha medica comum que r t d . '
1ga o os os grupos, reforçada por comemorativos como as
regra~ de gru~o, as roupas (vestimentas cirúrgicas, aventais e insígnias) e os rituais,
tudo isso servmdo para reforçar a coesão do grupo.
MÉDICOS E TRABALHO
Considerando as transformações que ocorrem durante o treinamento de um médico
não surpreende que o trabalho se tome algo central em sua identidade. '
Richard era cirurgião consultor sênior de um grande hospital-escola. O hospital
passava por medidas especiais para tentar alcançar os objetivos da lista de
espera e atravessava uma crise financeira séria. O hospital era dirigido qua
se exclusivamente por substitutos. Richard, como chefe de seu departamento,
sentia-se culpado por não suprir as necessidades de seus pacientes. Ele abordou
o problema assumindo a carga de trabalho de colegas ausentes, dando aos pa
cientes acesso direto a ele por meio de seu telefone celular privado e chegando
mais cedo (6 da manhã) e ficando até mais tarde (10 da noite) no departamento.
As horas de trabalho eram acrescidas da hora que levava para ir e vir até o
trabalho todos os dias. Ele ficou irritado, ansioso e passou a beber para ajudar
a dormir. À medida que a carga de trabalho aumentava, seu humor piorava.
A consulta de Richard em meu serviço foi precipitada por uma tentativa de suicídio
planejada para parecer um acidente. Ele jogou seu carro contra o canteiro central
da estrada que levava até o hospital. Felizmente, o airbag salvou sua vida, e ele
sofreu apenas alguns cortes e hematomas. Ele admitiu à sua companheira que tinha
planejado tudo isso e, então, fez contato com meu serviço. Como no caso de John
Sassall, o protagonista de Afortunate man, Richard sentia (e agia) como se tivesse
o dever de sanar sozinho as falhas de seu hospital e lidar pessoalmente com esses
problemas. Na primeira consulta, Richard disse: "Quanto mais eu trabalho, mais me
iludo de que está tudo bem".
Isso não chega a surpreender, pois a identidade do médico está tão ligada ao seu
trabalho que o seu presenteísmo - isto é, ir trabalhar mesmo quando não está bem - é
um problema mais importante entre os médicos que o absenteísmo. O presenteís
mo pode ser visto como a manifestação visível do quão central é o trabalho para a
identidade do médico. Os médicos, da mesma maneira que Richard, trabalharão
mesmo sem ter condições para isso, tentando cumprir com suas responsabilidades,
em parte pela vergonha associada ao fato de não trabalharem tão be~ q~anto de
sejam e de desapontarem seus colegas se faltarem ao trabalho. Isso s1gmfica que
médicos doentes que trabalham mais ficam ainda mais ligados ao seu grupo e ao "self
1 O Clare Gerada
. h extra e atendem mais pacientes. Essa reação é
'd' " pois fazem ora , par,,.,.,
me 1co , , •co ou uma defesa mamaca, como explica un-. "'-Ida
ensamento magi • - • •u Pacj
com um P . . ue se trabalhasse mais, nao ficana doente de e. ente,.
, d'co· "Eu 1magmava q , . d , 1onna
-me i . ·s cedo ao trabalho e atendia ca a vez mais pacientes \.r qne
hegava cada vez ma1 . h . i,o t-;.,_,
c . tud ruiu quando bati o carro no camm . o para o trabalho'' \.rã ·~
das contas, isso o d d • · i, o o~.
'd' que trabalham mesmo estan o oentes: Isso também a "IIO
apenas os me icos 'Ih . Confece
e. e policiais e essas profissões comparti am mmtas das caract-r_
com pro1essores , ,
-""iis.
ticas discutidas neste capitulo. . , .
A ausência do trabalho, especialmente dura?te penodos pr?longados, produz lllll
efeito negativo sobre a saúde física e mental, ale~ de repercutrr na estabilidade pro,.
fi • 1 e financeira Ficar sem trabalhar, especialmente se for forçado a isso nn,1
ss10na · . , _ , . , . , yvue
levar à desmoralização substancial, a depressao e ate mes~~ ao smcidio. Médicos
desempregados e suspensos estão entre os membros mais Isolados da profissã
com risco aumentado de desenvolver graves problemas de saúde mental. A auto,
b' ' 0-
estigmatização em médicos que não trabalham tam em e comum, com os médieos
se descrevendo como fracassados e intemalizando as visões negativas dos outros.
Sentimentos de alienação em relação à sua "instituição total" sem dúvida ocorrem,
criando uma perda de identidade e questionando seu senso de self e valor. Há um
paradoxo aqui. O modelo de Goffinan sugere que o fato de estar na instituição total
e os processos de institucionalização acabam promovendo a perda da individuali
dade, a alienação, a falta de orientação para o futuro e uma desesperança aprendida,
Porém, para os médicos, é a exclusão da "instituição da medicina" que produz essas
experiências pessoais, e isso fala muito sobre a profundidade da intemalização da
identidade de ser um médico.
Uma médica, Belinda Brewer, ao escrever sobre sua própria doença depressiva,
diz que,
Ser médico e não poder trabalhar nos rouba mais do que apenas a saúde. Não se
trata apenas de um trabalho. O "ser médico" está fundamentalmente integrado
a tudo que somos. 7
Para os médicos, trabalhar
mais duro significa que eles
podem se esconder por trás
da máscara de legitimidade
que o self médico oferece.
Para os médicos, trabalhar mais duro significa
que eles podem se esconder por trás da máscara
de legitimidade que o self médico oferece. A per
cepção de sua própria condição de saúde é ocul
tada poressa máscara, a qual os protege de toda a
pressão que tomou conta de sua vida. Como disse
um paciente,
Eu me segurava desesperadam t .
ses, eu só era feliz en en e ª isso [ ser médico]. Durante cerca de 3 me-
mais tarde Sentia co quan~o trabalhava. Fazia plantões adicionais, ficava até
. · mo se tivesse um p , · . .
mmha muleta. Eu pensa . "D roposit? e um s1gmficado. O trabalho era
va. evo estar bem, Já que sigo trabalhando".
------------- -
Por trás do jaleco branco 11
Amy Wilson, quando ainda era estudante de medicina examinou narrativas de mé
di:o~ que foram escritas quando eles não se sentiam 'bem. 8 Em algumas delas, os
~ed1~os falam ~o~re a batalha para encontrar um equilíbrio entre ter conhecimento
cientifico espec1ahzado e o súbito influxo de emoções e adversidades que chega com
uma doença pessoal. Em outras palavras, eles têm dificuldade de se tomar pacien
tes. Os temas recorrentes são negação, autoestigrnatização, vergonha e preocupação
com sua reputação e competência profissionais. Esses temas são comuns e serão
abordados mai~ ª,d!ante neste livro e no Capítulo 2, Doença mental em médicos:
Um contexto histonco. A pesquisa de Amy Wilson e aquela da literatura acadêmica
nos mostra que há um contrato informal que leva os médicos a trabalharem mesmo
doentes, ignorando os sintomas de sofrimento e esperando que os colegas façam o
mesmo, resumido da seguinte forma por um GP: "A menos que não consiga sair da
cama, você se arrasta e trabalha".
Essa falta de aceitação da doença pessoal resulta em negação continuada da
vulnerabilidade, dificuldade de buscar ajuda em caso de problemas de saúde, ocul
tação de doenças e tentativa de gerar a ilusão externa de ser uma pessoa altamente
funcionante. Médicos costumam "seguir em frente" no trabalho, mesmo após seus
casamentos acabarem, os amigos desaparecerem e seu interesse definhar. Eles se
agarram ao papel profissional, vendo-o como o único domínio de suas vidas em que
podem exercer o máximo de influência e controle, além de receber a validação que
não obtêm em outras áreas. Contudo, esses médicos encontram dificuldades quando
a única fonte de validação como médicos ( e, em seu ponto de vista, como seres
humanos) é ameaçada.
O psiquiatra Max Henderson e seus colegas entrevistaram médicos que estavam
sob licença de saúde prolongada devido a problemas fisicos e mentais. 9 Os principais
temas que surgiram dessas entrevistas foram a importância de sua identidade de tra
balho e os sentimentos de vazio quando não estão trabalhando. Ficar afastado estava
associado a uma alteração fundamental nessa identidade, do tipo que era percebida
como "humilhante, vergonhosa e isoladora". Quando estão doentes e não podem
trabalhar, os médicos tendem a se culpar. Isso pode piorar ainda mais a autoestima
e criar um círculo vicioso em que o médico precisa trabalhar para melhorar sua au
toestima, mas não consegue trabalhar. Enxergar-se como um fracassado se toma sua
nova identidade, exacerbada pela percepção das impressões negativas dos colegas.
Quando adoecem, os médicos se sentem excluídos de seu grupo de pertencimento
(medicina). Autoestigrna descreve o fenômeno em que as pessoas adotam e intema
lizam estigmas sociais externos, experimentando perda de autoestima e autoeficá
cia.1º·12 Em geral, o sentimento de fracasso se toma urna autopercepção generalizada
em vez de ser específica para a perda do papel profissional, e a experiência de ser
um médico longe do trabalho culmina em um senso de self intemalizado e alterado.
É claro que nem todos os médicos se comportam dessa maneira. Alguns aceitam
o papel de doentes quando isso é necessário, buscam e aderem aos conselhos dos
outros e são modelos de pacientes. Infelizmente, contudo, em minha experiência de
12 Clare Gerada
t Supervisionado O cuidado de mais de 1 O mil médicos doentes a rn . .
er . N
• , atona t
culdade para aceitar que estão doentes e espera entrar em cnse para procUrarern_difi.
a.JUda,
CONCLUSÃO
Espero que este capítulo de abertura comece a explicar o porquê de os é .
. I d d rn dtco
rem tanta dificuldade para acertar o pape e oentes e que o problerna Vai s te..
aspectos práticos de simplesmente marcar uma consulta, chegando ao ce além das
' · fu d 1 · N d 'd· ' 'd · rne do qu
significa ser medico. A pro n a rgaçao o me rco a sua I entidade profi . e
. ,, , " d. . ,, . d d d rss1ona1
às regras de "pertencrmento a me rema o rmpe e e emonstrar vulnerab T e
Abordarei muitos desses temas ao longo do livro.
1 1dade.
REFERÊNCIAS
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