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O psicólogo no contexto jurídico Interseção entre Psicologia e Direito e os desafios, bem como as principais áreas de atuação do psicólogo no contexto jurídico. Prof.º José Augusto Rento Cardoso Itens iniciais Propósito O aprendizado e o conhecimento da Psicologia no contexto jurídico, apresentando as principais áreas de atuação, permitem que os futuros profissionais consigam lidar com expectativas e desafios no cuidado de casos específicos na prática profissional. Objetivos Reconhecer as diferentes definições relativas à psicologia jurídica, bem como as principais áreas de atuação do psicólogo no contexto jurídico. Identificar os desafios da interseção entre Psicologia e Direito. Introdução Pode ser que você já tenha assistido a séries ou filmes em que um personagem busca conhecer a mente e o comportamento de um assassino, tentando descobrir quais serão seus próximos passos. Se você é fã do gênero, deve ter uma lista enorme passando pela sua cabeça. Essa pode ser uma representação que muitos, inicialmente, tenham de como atua um psicólogo no campo jurídico, ou seja, um especialista em caçar criminosos ou assassinos em série. No entanto, ainda que a criação de perfis de criminosos possa ser um trabalho a que um psicólogo se dedique (mesmo que seja uma prática polêmica e pouco RccZwczcczz1wzzwzccz1wzcCWczwzcwzczzzwcwzcczxczcwwwwwwwzzxwczzcx wCwwwzczw2zzwc1zzczcwcczwwcczccwwz1czwzzwzcczCczccCzwzcc2wzwzx2 wzccczwwxwwcwzcxwcxwzczcwCCzcczcz1xzzczz2wcZzwcdSzzCw1w2cCwzzz1z 1ezz22cccwcCzwc2WccczcczwczccCzccwCczCcCwczczzccwzczzczzzwcczzwczz cccxcz12zzzccCw2z11cccczzCcccd2zcw22cczcwdxzdw2zzczcczz2c2cxwzzzzcwz wczwzcz2zczczc2zx1zw2c2w2Ccwzx2zzwzcw1wczzcw2czcxd2xwzcc2dcczccWzz wczw12czczzwc2cwzzxwwzz1wzwcc2cwzc2cczd2ccwzcw222zczwcczzcwwwz1C z2czzccz2zzczz2czweczczz2wcc2wcc1ccw2wzcccw2zwcwxxWccccz21czcczwcz2 cw2cc2zczwcwz2ezc2z2zd2cezcczwdCzweczwccczcwzzxcZczxWxcwwzzcccdww zc2zwwcczccCzwc2zcczzwcccczz2ccwz2czczzczcdx2wc1wzcd2wcc2cw2zzezz2z cz2ccxcczczz2zzzcwz2cwwdzczzwczz2z22zccczcczzcz2czcczz2c2de2zz2cz2c1xz wcwzczcz2zzwcxczczwdC2cWczzczcwczc2cCc2cczccxczzczwwcccczc2zceczwz2 czcccczzzxc11wzzccwwcwzccwwxczzczCzczzc1wzzcw1zzczczxwzc1czzd21xwccz z2wzccwxecCxzzccccCcecczcezwcczzcCwzcczc2zczzccd2zc2c22c2czwwzdczcz czczzzczxwzzcczzcc2xczcc2c2zzczzcCzwzccc1zwzccccCcwcxczdczcwc2zwccwz c2ccw2Wzcz2zczz2zczcw2c1zWc2czcx32wc2zcczzcccCwzcccxwc2cz2czccczccz ccwzczzc2ccczc2c2cCzzwc2czcwczczzwc2cczweczWczwcczc2cwcczzzcccCzzc wzccczc2z1wcecz2zzccc22zdczc2wccczzzwzxzzwcCzzzzz2zzcc2cczccwzc2cxzz2 czcwz2zzz2cczwzczcczcczzcc2cxzzcwzc2zczwzzcczcccccczc2cccczz2cc2vzczccz czcZzxcCcczc2czzcwcczzzczzCwcw2zc2zzczcwcczc1wcCzczczc2czzczcczczc2cz czz2c22zcczczc2cccwzcwc2czz2ccczwWzzc1eccczwcczzzcc2zcxwxcwzccczczw wwc2ccwccWcc22zwczccwxc2czccz1zwwcczczczczczccCcwzzczewczwcCZW2C ZWwx2cxzcwzc2ezccezwc2zcxzc22ccwzx2czccccczcwczZzzeccc2ccw1w2cczczc zccxzzcwc2ccczz2czCczCzzW2zzxccZczcczcccC2czcccxzccz2ccec2zcwzcczzccz zczwccz2czzzzzzwwcccczccz2czcczwwczccZZcczzczczxzzwzcezwwccCczwczcCc wz1czcwcz2cz1zczwzzzzcezcCzccczczzzzcwczzczccxczczczz2czcczzexx1zcZcccz ccccccwzccd2zzCcczccczzzcccz1ecczczccczzczzzdzz2xd2ccCCwcccc21zzczcc2 1Cxwwcdc2zcz2zcccZwzzcczcwz1wc2cCczCzcz2c2ccwzz2zcccxczcWzzzz2cc2cc czzd2xczczcccWczzczzc2xczzcscwczwxww2zwczzwwwcz1z2žzwŵwwd2zwwz2wx wczwźwzc2žžžžžžžzxžccz1zwczcwzzwwžžźcwzcžžžzczwczcWZžžcwccźžzwcžŵz2w cwcžxžxz2cwccžcžcwczcccccwz2žžcwzccżcccźcžžczcžžz2wzzzwwcz1z2žwc2zwd wžŵwcŵw22zzzzwcžczcwzcžcwwźźzwzWwwwzzcwwzwźwzźwwwwwzzwczzzzwZz wwwwzzzwzzzzz2zzz2zwzww2w22z2ŵdwźwz2zww12zxz2zw2zwźzzw2wzz2z2z1w 1zw2zwzzwzzzwwxcz xx xz cz. Wz× ×-wzwcws w ww x wezwcxxeexdsddcddsr gt⁶é ⁴Tmum que essa área da Psicologia seja apresentada como psicologia forense, psicologia judiciária, psicologia na prática jurídica e, algumas vezes, definida por apenas um dos campos de atuação no contexto da interseção entre Psicologia e Direito, como psicologia criminal. Essas diferentes definições parecem delimitar um mesmo campo de atuação, sendo certo que, de alguma maneira, podemos até considerá-las como sinônimos. No entanto, é importante que você possa compreender o motivo da escolha de psicologia jurídica como melhor forma de definir a atuação do psicólogo no campo de interseção entre Direito e Psicologia. Conforme Jorge Trindade (2012) destaca, a psicologia jurídica é um campo em construção. Devemos observar que a Psicologia, entendida como ciência moderna, tem pouco mais de cem anos, sendo uma área em pleno desenvolvimento, com a psicologia jurídica integrando uma subárea dentro desse campo maior que é a Psicologia. Antigo Fórum romano, em Roma, Itália Trindade (2012) traz uma importante contribuição que pode nos ajudar a melhor compreender esse campo, esclarecendo um pouco as distinções entre psicologia jurídica e forense. O autor pontua que a palavra forense provém do latim forensis que aponta para um espaço físico, o Fórum, onde a assembleia romana se reunia para tratar de assuntos importantes. Nesse sentido, ao utilizar o termo psicologia forense, podemos nos encaminhar para pensar que esse campo se limita a somente aquilo que ocorre nos Tribunais, caindo em uma pequena limitação do que seja todo o âmbito da Psicologia em sua relação com o Direito. No entanto, em língua inglesa, geralmente vamos encontrar o termo Forensic Psychology, que abarca muitas das atividades e atuações que se enquadram no nosso entendimento do que seja psicologia jurídica. Além disso, aqui deve-se considerar as diferenças entre as legislações dos diversos países, sendo que se a psicologia jurídica está em íntima relação com o Direito, mudanças nas leis implicam mudanças em algumas das atividades desse profissional. Outra aproximação com a qual podemos ter algum cuidado é a de Huss (2011, p. 23) que entende a psicologia jurídica como: “a aplicação da psicologia clínica ao Poder Judiciário”. Aqui podemos cair em outro reducionismo. De certa forma, alguns aspectos da psicologia clínica podem contribuir para a atuação do psicólogo jurídico, mas existe uma gama muito maior de diferenças que, em síntese, delimitam esse campo como uma especialidade diversa da psicologia clínica. Na prática cotidiana, percebe-se que existem aspectos bem diferentes na atuação clínica e jurídica, vejamos a seguir algumas destas diferenças: Campo clínico Neste campo, a pessoa, a quem chamamos de paciente, busca o atendimento, na maior parte das vezes, espontaneamente, motivados por solucionar dificuldades emocionais e comportamentais. Campo jurídico Neste campo, a pessoa, a quem chamamos de usuário, é levada ao psicólogo por problemas relacionados com a Justiça: por exemplo, quando o indivíduo move um processo requerendo a guarda de seu filho, o juiz, chamado de operador do direito, demanda uma avaliação ou um estudo psicológico, não sendo um encaminhamento voluntário. Assim, vale ressaltar que o Conselho Federal de Psicologia, em sua resolução CFP 014/2000, estabelece a psicologia jurídica como um dos títulos de especialista, passível de ser obtido por um psicólogo, diferenciando-o do título de psicólogo clínico. Saiba Mais Você verá o termo operadores de Direito em vários momentos do texto. Eles representam aqueles atores do campo do Direito como juízes, promotores, defensores, advogados, ou seja, todos que, de alguma forma, contribuem para o processo legal tramitar, tendo conhecimento específico das leis necessárias ao cumprimento do Direito. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 1. Psicologia jurídica e campos de atuação Campos na psicologia jurídica Diversidade de campos na psicologia jurídica Gomide (2016, p. 16), entendendo que psicologia jurídica e forense são sinônimos, define a psicologia jurídica como sendo “o estudo da integração da Psicologia com o Direito”, completandoAdvogado, 2012. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançarque, enquanto a Psicologia se debruça sobre o comportamento humano, o Direito se volta para o estudo de como as pessoas estabelecem regras “que regem seu comportamento em sociedade” (GOMIDE, 2016, p. 16). Acreditamos que estamos nos aproximando um pouco mais do que seja a psicologia jurídica e, nesse sentido, concordamos com o que Trindade (2012) afirma: a psicologia jurídica abarca não somente aquilo que ocorre dentro dos fóruns, mas também a própria lei. Atenção A psicologia jurídica, como veremos adiante, de fato, envolve uma diversificada gama de atuações que, muitas vezes, estão relacionadas a processos legais no âmbito dos tribunais. No entanto, acreditamos que a psicologia jurídica não deve ficar restrita a esse campo, mas atuar também, por exemplo, no auxílio à construção de leis que levem em conta o apoio ao sadio desenvolvimento emocional e à promoção do bem-estar da pessoa, o que Bicalho (2016) chamará de psicologia legislativa, mas que, conforme Trindade (2012), já faz parte da psicologia jurídica. Nesse sentido, a psicologia jurídica pode ser compreendida como a Psicologia aplicada ao melhor exercício do Direito, ou seja, o psicólogo jurídico, com seu conhecimento e sua prática, atua no âmbito Judiciário com o intuito de contribuir para que a meta do Direito – a Justiça – possa ser efetivamente alcançada. É interessante perceber que, nesse sentido, a Psicologia não é vista como uma subdisciplina, mas como uma grande auxiliar, que entra o campo do Direito com o intuito de fazê-lo mais efetivo, proporcionando conhecimentos acerca do fenômeno humano que ele, mesmo com seus milênios de existência, não compreendeu plenamente. Dito isso, percebe-se que a psicologia jurídica, como área da Psicologia em interseção com o Direito, desdobra-se em uma ampla quantidade de subáreas como, por exemplo: psicologia penitenciária, psicologia criminal, psicologia civil geral e de família, psicologia do testemunho, psicologia policial, psicologia da vítima ou psicologia vitimológica, entre outras. Visando abordar esse auxílio da Psicologia levando em consideração os diversos níveis do sistema de Justiça de nosso país, abordamos de forma didática a psicologia jurídica e suas contribuições, respeitando a separação legal entre direito civil e direito penal (ou direito criminal). Vamos agora apresentar algumas das atuações do psicólogo jurídico levando em consideração essas duas amplas áreas do Direito. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 1. Psicologia jurídica e campos de atuação Atuação no direito da criança e adolescente Todos nós, cidadãos, temos uma série de direitos e deveres, muitos dos quais são consagrados por nossa Constituição, notadamente em seu artigo 5º, no qual nossos diversos direitos estão expostos. O direito civil é o campo do Direito que se preocupa com os direitos privados de cada indivíduo, com o direito do cidadão, legislando sobre as injustiças que podem ocorrer nesse âmbito de relação entre pessoas físicas ou jurídicas. O Código de Processo Civil (CPC) define as regras de como o processo legal ocorre no âmbito civil e, também, como cada parte ou personagem deve atuar nesse processo. No caso dos psicólogos, eles se apresentam ao processo como peritos que são entendidos no CPC como auxiliares da Justiça. Assim, o perito auxilia o juiz quando a prova necessária para melhor condução do processo depende de conhecimento técnico ou científico específico, o que está redigido no art. 156 do CPC. Vamos a um exemplo do cotidiano da prática do psicólogo jurídico! Exemplo Imagine que um casal com dois filhos decide se separar e, diante de uma situação emocionalmente estressora e difícil, que é a separação, cada um busca seu advogado para mover uma ação de guarda compartilhada dos filhos. Nesse contexto, o juiz, ao longo do processo, pode avaliar que seria necessária a atuação de um psicólogo realizando um estudo ou avaliação psicológica para melhor compreender a história dessa família, sua dinâmica e como cada um dos pais exerceu os cuidados dos filhos ao longo de seu desenvolvimento, visando adotar uma decisão que respeite o melhor interesse da criança, um importante princípio quando se fala de crianças e adolescentes no contexto da Justiça. Compreender os aspectos emocionais, comportamentais e psicológicos de todos os integrantes do sistema familiar é algo passível de ser realizado por um psicólogo que, portanto, é chamado como perito para apresentar suas contribuições, por meio de um laudo, apontando os aspectos importantes no presente caso. Com esse conhecimento, o juiz é munido de mais ferramentas para exercer um julgamento mais adequado à realidade daquela família e, portanto, com a possibilidade de ser mais justo. Em termos de legislação, o Brasil possui um grande avanço na proteção de crianças e adolescentes com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei 8.069/1990), sendo que a Psicologia é demandada a contribuir com seus conhecimentos em diversos níveis relacionados à proteção dos direitos de crianças e adolescentes. Nesse sentido, as demandas para a atuação do psicólogo versam sobre alguns assuntos, como: A destituição do poder familiar O psicólogo também atua nos processos, versando sobre a destituição do poder familiar, ou seja, situações em que os pais ou responsáveis legais por aquela criança ou adolescente não conseguem cumprir com seus deveres básicos e garantir a esses menores a possibilidade de sadio desenvolvimento psicológico, físico, moral etc. Nesses casos, a importante a atuação do psicólogo em equipe multidisciplinar, geralmente acrescida de um assistente social, é enorme, já que sua atuação auxilia o juiz na decisão de retirar ou manter o poder familiar de pais ou responsáveis legais sobre uma criança ou adolescente. Os adolescentes autores de atos infracionais O psicólogo também atua em uma outro grande campo os das medidas socioeducativas, ou seja, a atuação com adolescentes em conflito com a lei. Os profissionais psicólogos que atuam nessa demanda devem “desenvolver intervenções que possam minimizar, a partir das redes externas de apoio do adolescente, a ocorrência de atos infracionais quando este retornar à sociedade.” (LAGO; NASCIMENTO, 2016). Já no que diz respeito aos processos de adoção, o psicólogo é chamado a atuar em três aspectos: 1. Preparação, avaliação e habilitação de candidatos à adoção: realizando tanto a avaliação destes, bem como promovendo os chamados grupos de apoio a adoção, nos quais, por meio de dinâmicas e práticas psicoeducativas, busca-se contribuir para que os candidatos à adoção possam refletir sobre crenças e fantasias ligadas ao processo de adoção. 2. Junto às crianças e aos adolescentes que se encontram nas instituições de acolhimento aguardando serem adotadas: o trabalho ocorre em conjunto com profissionais da instituição e do Judiciário para ajudar a criança no processo de reintegração familiar ou afastamento familiar e inserção na família adotiva. Toda criança ou adolescente que estiver inserida em programa de acolhimento familiar ou institucional terá sua situação reavaliada, no máximo, a cada 3 (três) meses, devendo a autoridade judiciária competente, com base em relatório elaborado por equipe interprofissional ou multidisciplinar, decidir de forma fundamentada pela possibilidade de reintegração familiar ou pela colocação em família substituta, em quaisquer das modalidades previstas no art. 28 desta Lei. (ECA, 1990) Um importante aspecto destacado é que o trabalho do psicólogo jurídico, muitas vezes, acontece em uma equipe multidisciplinar, sendo que a presença de assistentes sociais é frequente em quase todos os âmbitos de atuação do psicólogo jurídico,mas este também pode ter trabalhos conjunto com educadores, médicos etc. 3. Acompanhamento da família habilitada para adoção e a criança por ela adotada: sendo que o processo de vinculação entre os adotantes e a criança deve ser acompanhado por profissional da Psicologia que possui conhecimento e instrumental para contribuir na solidificação desses vínculos e no manejo de eventuais situações conflitivas. Saiba Mais Os psicólogos que atuam nesse âmbito do Direito da Criança e Adolescente não são somente aqueles que estão dentro dos tribunais de justiça, mas toda a rede de proteção, como conselhos tutelares e centros de referência especializado em assistência social (CREAS), que atuam auxiliando que o Direito alcance sua meta final: a Justiça. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 1. Psicologia jurídica e campos de atuação Atuação no direito de família Como em nosso exemplo anterior, do casal que move um processo ação de guarda compartilhada, a atuação do psicólogo no âmbito do direito de família é imprescindível. Nesse complexo mundo das relações afetivas, o conhecimento proporcionado pela Psicologia pode contribuir para que os operadores do Direito, como juízes, promotores e advogados, possam deixar a letra fria da lei e entrar na calorosa dinâmica dos sentimentos e vínculos familiares. No direito de família, a Psicologia é convocada nos processos de guarda e, com o advento da Lei 13.058/2014, no auxílio ao que diz respeito à chamada guarda compartilhada. Essa modalidade de guarda, que visa à atuação conjunta dos pais nas decisões e principalmente, no acompanhamento da vida dos filhos, tem em lei prevista a atuação de equipe interdisciplinar, que auxiliará o juízo por meio de conhecimento técnico-científico (art. 1.584, § 3º). Embora a lei especifique que deve haver uma distribuição equilibrada de tempo da criança ou adolescente com o pai e com a mãe, a experiência e pesquisa sobre a guarda compartilhada vem apontando a necessidade de observar diferentes aspectos como a idade da criança (fase do desenvolvimento), a relação com cada um dos pais (antes da separação e após a separação), a rede de suporte familiar, a proximidade entre as residências, bem como questões psicológicas da criança ou adolescente (presença de algum transtorno). Na prática, percebemos que muitos pais e responsáveis acreditam que o compartilhamento da guarda significa que a criança ficará residindo 15 dias ou uma semana com cada um dos pais, alternando esse tempo de convivência entre uma e outra residência, o que não necessariamente atenderá ao melhor interesse da criança. O compartilhamento está, antes de tudo, situado na subjetividade que se expressa no estabelecimento de valores comuns; na tomada de decisões que, no fim, sejam uniformes; na coparticipação nos cuidados cotidianos dos filhos, sempre permeados por afeto e proximidade com eles, e por diálogo, no mínimo civilizado, polido e sensato, entre os pais, o que só é conseguido com o afrouxamento dos laços conjugais, visando ao desatamento deles, e o estreitamento dos laços parentais. (CEZAR-FERREIRA; MACEDO, 2016, p. 108) Nota-se que a guarda compartilhada, para além de uma modalidade recomendada por lei, deve ser um exercício implementado pelos pais, que necessita de esforço de ambas as partes. Na prática cotidiana, vê-se o desafio de conseguir que os pais compreendam a importância de um trabalho conjunto em prol dos cuidados dos filhos, em meio a uma turbulenta quantidade de sentimentos e experiências negativas provenientes da conjugalidade fracassada. Além dos processos versando sobre a guarda de crianças e adolescentes, a Psicologia também é chamada a participar e contribuir nos processos versando sobre a regulamentação de convivência entre pais e filhos após a separação conjugal, reconhecimento de paternidade socioafetiva, quando o pai que criou vínculos com a criança é diferente do pai biológico e, cada dia mais, nos casos de alienação parental, que veremos a seguir mais detalhes sobre o assunto. A alienação parental tem sido um tema polêmico e proporcionador de discussões, acaloradas, com defensores e detratores desse conceito e da realidade. O conceito de alienação parental foi desenvolvido pelo psiquiatra americano Richard Gardner (2002) para explicar o fenômeno de crianças que resistiam à convivência ou ao contato com um dos pais (geralmente o pai), após a separação. Gardner (2002) cunhou, em conjunto, o termo Síndrome de Alienação Parental (SAP), que se caracterizava por uma programação da criança, realizada por um dos pais (alienador), para rejeitar e contribuir em uma campanha voltada para denegrir o outro pai (alienado). Diante do impacto da teoria desenvolvida por Gardner (2002), vários países criaram legislações específicas para tratar o assunto, inclusive o Brasil, que possui uma lei específica, que define a alienação parental como: Art. 2º - a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. (LEI 12.318/2010) Nessa mesma lei, em seu artigo 5º, fica definido que o juiz poderá pedir uma perícia psicológica ou biopsicossocial, bem como descritos aspectos a serem observados (parágrafos 1, 2 e 3). Entretanto, como dito anteriormente, a síndrome de alienação parental e mesmo a concepção de alienação parental vem sofrendo críticas e ponderações ao longo dos anos, tanto no Brasil (DE SOUZA, 2014), como fora dele (SOTTOMAYOR, 2011; KELLY; JOHNSTON, 2002), exigindo uma reflexão crítica de todos aqueles que atuam nesse campo e, mesmo, para além dele, como na psicologia clínica. Atenção Em apertada síntese (para usar um termo muito presente em processos judiciais), as críticas à alienação parental versam tanto da teoria de Gardner, que não abarcaria a complexidade do fenômeno, como o movimento de problematização da judicialização das relações familiares. Aqui, prudência! Compreender o fenômeno da alienação é necessário, reconhecendo que ainda deve-se buscar efetivar mais estudos na área para melhor definição do que seja a alienação e meios para sua adequada identificação. Junto à temática da alienação parental, surge a questão das falsas denúncias de abuso sexual, que muitas vezes permeiam as situações em que existem acusações de alienação. Nesse momento, vemos uma interseção do direito civil e criminal, bem como de diferentes perspectivas da psicologia jurídica, como a psicologia do testemunho. Síndrome de Alienação Parental Neste vídeo, o especialista reflete sobre o movimento de problematização da judicialização das relações familiares e a Síndrome de Alienação Parental. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 1. Psicologia jurídica e campos de atuação Atuação no direito de família Como em nosso exemplo anterior, do casal que move um processo ação de guarda compartilhada, a atuação do psicólogo no âmbito do direito de família é imprescindível. Nesse complexo mundo das relações afetivas, o conhecimento proporcionado pela Psicologia pode contribuir para que os operadores do Direito, como juízes, promotores e advogados, possam deixar a letra fria da lei e entrar na calorosa dinâmica dos sentimentos e vínculos familiares. No direito de família, a Psicologia é convocada nos processos de guarda e, com o advento da Lei 13.058/2014, no auxílio ao que diz respeito à chamada guarda compartilhada. Essa modalidade de guarda, que visa à atuação conjunta dos pais nas decisões e principalmente, no acompanhamento da vida dos filhos,tem em lei prevista a atuação de equipe interdisciplinar, que auxiliará o juízo por meio de conhecimento técnico-científico (art. 1.584, § 3º). Embora a lei especifique que deve haver uma distribuição equilibrada de tempo da criança ou adolescente com o pai e com a mãe, a experiência e pesquisa sobre a guarda compartilhada vem apontando a necessidade de observar diferentes aspectos como a idade da criança (fase do desenvolvimento), a relação com cada um dos pais (antes da separação e após a separação), a rede de suporte familiar, a proximidade entre as residências, bem como questões psicológicas da criança ou adolescente (presença de algum transtorno). Na prática, percebemos que muitos pais e responsáveis acreditam que o compartilhamento da guarda significa que a criança ficará residindo 15 dias ou uma semana com cada um dos pais, alternando esse tempo de convivência entre uma e outra residência, o que não necessariamente atenderá ao melhor interesse da criança. O compartilhamento está, antes de tudo, situado na subjetividade que se expressa no estabelecimento de valores comuns; na tomada de decisões que, no fim, sejam uniformes; na coparticipação nos cuidados cotidianos dos filhos, sempre permeados por afeto e proximidade com eles, e por diálogo, no mínimo civilizado, polido e sensato, entre os pais, o que só é conseguido com o afrouxamento dos laços conjugais, visando ao desatamento deles, e o estreitamento dos laços parentais. (CEZAR-FERREIRA; MACEDO, 2016, p. 108) Nota-se que a guarda compartilhada, para além de uma modalidade recomendada por lei, deve ser um exercício implementado pelos pais, que necessita de esforço de ambas as partes. Na prática cotidiana, vê-se o desafio de conseguir que os pais compreendam a importância de um trabalho conjunto em prol dos cuidados dos filhos, em meio a uma turbulenta quantidade de sentimentos e experiências negativas provenientes da conjugalidade fracassada. Além dos processos versando sobre a guarda de crianças e adolescentes, a Psicologia também é chamada a participar e contribuir nos processos versando sobre a regulamentação de convivência entre pais e filhos após a separação conjugal, reconhecimento de paternidade socioafetiva, quando o pai que criou vínculos com a criança é diferente do pai biológico e, cada dia mais, nos casos de alienação parental, que veremos a seguir mais detalhes sobre o assunto. A alienação parental tem sido um tema polêmico e proporcionador de discussões, acaloradas, com defensores e detratores desse conceito e da realidade. O conceito de alienação parental foi desenvolvido pelo psiquiatra americano Richard Gardner (2002) para explicar o fenômeno de crianças que resistiam à convivência ou ao contato com um dos pais (geralmente o pai), após a separação. Gardner (2002) cunhou, em conjunto, o termo Síndrome de Alienação Parental (SAP), que se caracterizava por uma programação da criança, realizada por um dos pais (alienador), para rejeitar e contribuir em uma campanha voltada para denegrir o outro pai (alienado). Diante do impacto da teoria desenvolvida por Gardner (2002), vários países criaram legislações específicas para tratar o assunto, inclusive o Brasil, que possui uma lei específica, que define a alienação parental como: Art. 2º - a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. (LEI 12.318/2010) Nessa mesma lei, em seu artigo 5º, fica definido que o juiz poderá pedir uma perícia psicológica ou biopsicossocial, bem como descritos aspectos a serem observados (parágrafos 1, 2 e 3). Entretanto, como dito anteriormente, a síndrome de alienação parental e mesmo a concepção de alienação parental vem sofrendo críticas e ponderações ao longo dos anos, tanto no Brasil (DE SOUZA, 2014), como fora dele (SOTTOMAYOR, 2011; KELLY; JOHNSTON, 2002), exigindo uma reflexão crítica de todos aqueles que atuam nesse campo e, mesmo, para além dele, como na psicologia clínica. Atenção Em apertada síntese (para usar um termo muito presente em processos judiciais), as críticas à alienação parental versam tanto da teoria de Gardner, que não abarcaria a complexidade do fenômeno, como o movimento de problematização da judicialização das relações familiares. Aqui, prudência! Compreender o fenômeno da alienação é necessário, reconhecendo que ainda deve-se buscar efetivar mais estudos na área para melhor definição do que seja a alienação e meios para sua adequada identificação. Junto à temática da alienação parental, surge a questão das falsas denúncias de abuso sexual, que muitas vezes permeiam as situações em que existem acusações de alienação. Nesse momento, vemos uma interseção do direito civil e criminal, bem como de diferentes perspectivas da psicologia jurídica, como a psicologia do testemunho. Síndrome de Alienação Parental Neste vídeo, o especialista reflete sobre o movimento de problematização da judicialização das relações familiares e a Síndrome de Alienação Parental. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 1. Psicologia jurídica e campos de atuação Atuação no direito do trabalho e nas varas cíveis Ainda no âmbito do direito civil, dois outros campos se apresentam para o psicólogo jurídico: o direito do trabalho e as diversas temáticas das varas cíveis. No que diz respeito ao direito do trabalho, a atuação acontece em processos versando sobre danos psicológicos, que tenham como possíveis causas doenças ou acidentes no âmbito do trabalho. A seguir, veremos com mais detalhes dois principais problemas que acontecem neste meio: Síndrome de Burnout A partir de 2022, esta síndrome é reconhecida pelo CID-11 como uma doença ocupacional. As empresas começam a ter mais responsabilidades sobre a saúde mental de seus profissionais colaboradores, podendo sofrer sanções judiciais, caso haja o reconhecimento de que essas empresas contribuíram para o estado de esgotamento físico e mental característico desse quadro. Assédio moral O mundo do trabalho também vem sendo assolado por estes problemas, sendo outro campo em que o psicólogo pode vir a ser chamado para uma avaliação quanto aos danos sofridos por determinado colaborador e profissional de uma empresa. Já no âmbito das varas cíveis, o psicólogo é chamado naqueles processos envolvendo interdição judicial, bem como naqueles versando sobre eventual dano psíquico que uma pessoa pode ter sofrido em uma relação com outra pessoa física ou jurídica. No primeiro caso, a Psicologia se apresenta com seus conhecimentos, visando avaliar o quanto uma pessoa é capaz de gerenciar sua vida e seus bens, sendo certo que, nesse contexto, o psicólogo atuará de forma interdisciplinar com o psiquiatra. A avaliação psicológica, no entanto, para além da pessoa, deve envolver a família e os demais atores que têm contato com o sujeito interditando, ou seja, do qual se pede a interdição. Nesse contexto, é importante considerar o Código Civil Brasileiro (Lei 10.406/2002) que, em seu artigo 3º, define quem são as pessoas absolutamente incapazes, ou seja, aquelas pessoas que não podem exercer atos da vida civil, como casamento, assinar contratos, abrir contas etc. Já a partir de 2015 teremos outro avanço na nossa legislação: a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), que inclui a categoria de pessoas relativamente incapazes a certos atos ou à maneira de os exercer, gerando maior desafio para os psicólogos na avaliação, mas proporcionando um reconhecimento e mesmo auxílio para quealgumas pessoas possam, em algum nível, exercer com ajuda de um terceiro, decisões sobre sua vida, principalmente com o dispositivo da Tomada de Decisão Apoiada. No que diz respeito à atuação nas varas cíveis, a Psicologia também é chamada a contribuir com a avaliação de possíveis danos psíquicos sofridos por uma pessoa, em uma relação com outra pessoa física ou jurídica. Exemplo Imagine que você comprou uma passagem de avião para o casamento de seu filho e, devido a problemas da empresa aérea, você não conseguiu embarcar e chegar a tempo para esse evento marcante da vida de sua família. Em um eventual processo judicial junto a uma vara cível você poderia alegar que a situação acarretou um sério estresse e contribuiu para o desenvolvimento de um quadro depressivo moderado. O juiz, diante dessa afirmação, pode requerer uma avaliação psicológica para ter maior convencimento quanto à relação do dano causado pela empresa aérea e o transtorno mental. Sob esse aspecto, os autores Lago e Puthin (2020, p. 35), dizem o seguinte: Ações de dano psicológico na esfera cível, demandam um agente causador do dano, um sujeito que sofreu o dano, um nexo causal entre ambos e um pedido de indenização pelo dano sofrido (LAGO; PUTHIN, 2020) Nesse sentido, o desafio na avaliação psicológica ocorre pelo questionamento: É possível estabelecer uma relação causal entre o trauma e os danos apresentados? No nosso caso: é possível dizer que o atraso na viagem e consequente falta ao casamento do filho foi fator causal significante na depressão da mãe? Fica a provocação para você! O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 1. Psicologia jurídica e campos de atuação Atuação no direito penal O direito penal ou criminal é aquele que se debruça sobre os delitos, sendo caracterizado: Pelo conjunto de normas que tanto preveem os atos considerados criminosos como as sanções para aqueles que cometem tais atos. No direito penal, a preocupação não é somente na relação entre as pessoas, mas delas com o Estado, visto que quem comete um crime pode ser uma ameaça para toda a sociedade. Lago e Nascimento (2016) apontam que no âmbito do direito penal, o psicólogo atua tanto no sistema penitenciário, institutos psiquiátricos forenses. O artigo 149 do Código de Processo Penal (Decreto-Lei 3.689/1941) dispõe sobre a atuação do perito no âmbito criminal, sendo que o título da seção é da insanidade mental do acusado. Nos casos em que a pessoa que cometeu o crime apresenta algum quadro psicopatológico (por exemplo, algum transtorno mental), após a avaliação, esses indivíduos são encaminhados para os chamados institutos psiquiátricos forenses. Assim, Segundo Huss (2011), essas pessoas são consideradas inimputáveis, ou seja: [...] não possui um estado mental básico, exigido pela lei, não podendo ser considerado culpado ao cometer o crime. (HUSS, 2011) Entretanto, também a atuação do psicólogo acontece no âmbito do processo penal, nos tribunais, notadamente quanto aos impactos psicológicos sofridos pela vítima de determinada violência. Nesse sentido, cresceu ao longo dos anos no Brasil a atuação do psicólogo no âmbito das vítimas de violência sexual, notadamente crianças e adolescentes, principalmente naqueles casos em que vestígios físicos da violência não são detectáveis. Saiba Mais Muitas situações envolvendo violência sexual (abuso sexual) contra crianças e adolescentes não deixam marcas físicas, ocorrendo de forma sutil, engendrando a criança em um processo denominado grooming e levando-a a ter dificuldades para revelar o acontecimento. É relevante considerar também que a maior parte dos abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes são cometidos por familiares ou pessoas muito próximas da família, caracterizando um tipo de abuso chamado intrafamiliar. Esse fato dificulta a revelação por parte da criança e contribui também para anos de silêncio, que tendem a agravar as consequências psicológicas da violência. Reflexão Esses casos se constituem como um grande desafio para o psicólogo, do qual é esperado constatar a veracidade de uma acusação de abuso sexual, ou seja, os operadores de Direito, ao longo do tempo, acreditaram que o papel do psicólogo era dizer se ocorreu ou não o abuso sexual. Você acha que seria possível isso? No contexto da atuação em casos de violência sexual, a fala das partes é, muitas vezes, a única informação que está presente, sendo que o trabalho do psicólogo envolve três pontos: Análise do relato dos envolvidos Em especial da vítima. Sintomatologia presente Ainda que não exista uma sintomatologia exclusiva de situações de abuso sexual Contexto Em que ocorreu a suposta violência. Contribuições da Psicologia para melhores práticas Ao longo dos anos, diante do desafio nessa área de interseção entre Psicologia e Direito, o conhecimento da ciência psicológica tem contribuído para melhores práticas na área. Aqui citamos algumas: Lei da Escuta Especializada É a contribuição da Psicologia para o estabelecimento da Lei 13.431/2017 também chamada Lei da Escuta Especializada, que se insere no contexto do sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência. Essa lei contribui para criação de fluxos específicos de atendimento de crianças e adolescentes supostamente vítimas de abuso sexual, evitando o acontecimento recorrente de revitimizações. Tais revitimizações ocorriam porque, anteriormente, a criança ou adolescente supostamente vítima de uma violência sexual era escutada reiteradas vezes, por diferentes profissionais, em diferentes órgãos, por vários anos, causando tanto um contínuo sofrimento da suposta vítima quanto uma progressiva contaminação dos dados (relatos) da situação. A Lei 13.431/2017 demarcou duas intervenções importantes: a escuta especializada e o depoimento especial, sendo que este último ainda não é unanimidade entre os psicólogos havendo, por exemplo, questionamentos se é uma prática obrigatória dos profissionais psicólogos lotados em tribunais de justiça. De acordo com o artigo 7º da Lei 13.431/2017 a escuta especializada é definida como: ”O procedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade.” O objetivo dessa intervenção é que a criança possa ser escutada adequadamente, com técnicas que contribuam para melhor aquisição das informações necessárias para a continuidade de medidas protetivas para a criança ou adolescente e instauração de um processo. Depoimento especial É a contribuição da Psicologia para o estabelecimento da Lei 13.431/2017, em que espera-se que a criança possa ser entrevistada de forma adequada, por exemplo, em um momento do processo criminal, sendo acolhida em espaço reservado, sem a presença do suposto abusador e de outras pessoas e tendo um profissional capacitado (psicólogo ou assistente social) que conduzirá os procedimentos, em busca a esclarecer a suposta situação abusiva. De acordo com o artigo 8º da Lei 13.431/2017: “O procedimento de oitiva de criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária.” Atualmente, no Brasil, foi desenvolvido o protocolo brasileiro de entrevista forense com crianças e adolescentes vítimas ou testemunha de violência, que se apresenta como um modelo de entrevista flexível, semiestruturado e passível de adaptação ao desenvolvimento das crianças e adolescentes. Nesse sentido, o protocolo brasileiro de entrevista forense vem sendo, sobretudo, usado no depoimentoespecial, garantindo melhor aquisição das informações necessárias para a investigação da suposta situação abusiva. Psicologia do Testemunho É uma segunda grande contribuição da Psicologia nessa área do direito penal, que busca compreender e explicar os processos implicados no fenômeno do testemunho. Segundo a psicologia do testemunho, o processo de relatar um acontecimento passado envolve diversos processos mentais como: percepção do evento, armazenamento da informação, recuperação da memória, capacidade para expressar e motivações para relatar (STEIN; PERGHER; FEIX, 2009). É importante, portanto, compreender os processos acima para desenvolver estratégias de entrevista, que contribuam para melhor aquisição dos dados de memória, evitando tanto sugestionar uma suposta vítima quanto adquirir dados falsos, levando, por exemplo, uma pessoa inocente à culpabilização. Estratégias de entrevistas vem sendo desenvolvidas ao longo dos últimos anos, bem como recomendações de procedimentos nesses casos. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 1. Psicologia jurídica e campos de atuação Verificando o aprendizado Questão 1 No que diz respeito à psicologia jurídica, quais das questões a seguir apresentam assertivas corretas? I – A psicologia jurídica é um campo plenamente desenvolvido e estabelecido, tanto na Psicologia quanto no Direito. II – A psicologia jurídica se refere apenas às práticas dentro dos tribunais. III – A psicologia forense, embora algumas vezes tratada como sinônimo de psicologia jurídica, acaba se referindo a apenas as atuações restritas aos fóruns, ou de forma mais ampla, tribunais de justiça, não englobando toda a gama de possibilidade de atuação do psicólogo jurídico. A Apenas a questão I. B Apenas a questão II. C As questões I e III. D Apenas a questão III. E As questões I e II. Responder Questão 2 No que diz respeito à relação entre Psicologia e Direito, é correto afirmar que: A A Psicologia e o Direito são disciplinas inconciliáveis, não havendo possibilidade de atuarem de forma conjunta no estudo do comportamento humano. B A Psicologia é uma ciência bem estabelecida, com milênios de desenvolvimento, já o Direito enfrenta as dificuldades com contínuas mudanças legislativas e culturais. C A Psicologia jurídica pode ser compreendida como auxiliar para o melhor exercício do Direito. D O Direito necessita da Psicologia somente em casos graves, em que haja alta periculosidade de um criminoso. E A Psicologia e o Direito se debruçam sobre o estudo da mente humana, sendo esse o ponto em comum de ambos. Responder O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 2. Psicologia e Direito Psicologia e Direito: origens da parceria Psicologia e Direito certamente possuem aspectos em comum, mas também aspectos divergentes, sendo que ao mesmo tempo que podem caminhar de forma a contribuírem para o desenvolvimento comum, também podem causar retrocessos e dificuldades na consecução de seus objetivos. Um dos primeiros pontos importantes nesse encontro são os históricos diferentes de cada uma dessas disciplinas. De acordo com Trindade (2012): De fato, se o direito radica historicamente em Roma e se consubstancia no Corpus Juris Civilis, a Psicologia, como ciência, é filha do século XX, embora seja possível desfraldar conteúdos psicológicos em Aristóteles e mesmo nos pré- socráticos, como nos fragmentos de Heráclito, podendo-se citar a própria Bíblia como sua fonte primeira. (TRINDADE, 2012, p. 29) Nota-se que o Direito tem uma história praticamente milenar, passando por um contínuo aprimoramento alcançando, por exemplo, o ápice dos direitos humanos com a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, em que todas as pessoas, independentemente de nacionalidade, sexo, gênero, raça ou religião são colocados sob o mesmo nível de igualdade e dignidade. A Psicologia, por outro lado, embora tenha suas raízes na Filosofia, como ciência moderna, possui um pouco mais de um século, sendo que sua relação com o Direito é ainda mais recente. Gomide (2016) afirma que a psicologia jurídica vai surgir do campo da psiquiatria forense, em que a realização de perícias, a fim de responder a questões sobre a sanidade mental de uma pessoa, especificamente sobre aqueles que cometiam crimes, abriu as portas para a entrada dos psicólogos. A autora pontua que no fim do século XIX, James Cattell realizou experimentos, a fim de verificar a acuracidade de testemunhas, lançando as raízes de uma psicologia do testemunho. Ainda que a psicologia jurídica tenha começado sua história no fim do século XIX, seu pleno desenvolvimento, ao menos fora do Brasil, começou por volta de 1940, quando os psicólogos começaram a ser chamados como testemunha em tribunais cíveis e criminais, notadamente na França e nos Estados Unidos. A seguir, veremos alguns marcos do desenvolvimento da psicologia jurídica no Brasil: Reconhecimento da profissão de psicólogo em 1962 A psicologia jurídica teve seu tímido desenvolvimento a partir da Lei 4.119/1962, em que a profissão passou a ser reconhecida (LAGO et al., 2009). Reconhecida e legitimada como auxiliar em outras ciências No §2º do artigo 13 da referida podemos ler que: “é da competência do psicólogo a colaboração em assuntos psicológicos ligados a outras ciências”, assim, a psicologia passou a ser legitimada, e, o Direito, foi uma das primeiras áreas em que esse diálogo aconteceu. Desenvolvimento com as atuações no campo criminal A psicologia jurídica, inicialmente, ainda que de modo informal, tinha influência histórica da relação da Psicologia com o Direito em outros países, bem como a psiquiatria forense, a atuação dos psicólogos ocorria no âmbito das avaliações de criminosos adultos e adolescentes infratores. Concurso para profissionais psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo em 1985 Foi um marco na psicologia jurídica do Brasil, pois, nesse momento, houve a entrada oficial dos profissionais da Psicologia no âmbito do Direito em um grande tribunal do país. Com o passar dos anos, essa relação entre Psicologia e Direito vem se tornando ainda mais estreita, podendo-se perceber, segundo Bicalho, que esta relação somente se amplia. Da “psicologia do testemunho” surgida no final do século XIX às formulações de depoimentos “especiais ou sem dano” do século XXI. Dos pareceres técnicos intitulados exames criminológicos às práticas de individualização da pena nos ambientes prisionais. Do Manual de Psicologia Jurídica, escrito por Mira y Lopez em 1945, à atuação do psicólogo no Judiciário, seja nas varas de família, de execução penal, da infância, juventude e do idoso. Do psicólogo na construção do “perfil psicológico do terrorista brasileiro” à atuação com direitos humanos nas instituições policiais e nas defensorias públicas. Das práticas com os “menores” do Código de 1927 à socioeducação com os adolescentes em conflito com a Lei do Estatuto de 1990. (BICALHO, 2016, p. 17) O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 2. Psicologia e Direito Psicologia e Direito: encontros e desencontros Mas o que têm em comum essas disciplinas com idades tão diferentes? Conforme afirma Trindade (2012), a Psicologia e o Direito se preocupam com o comportamento humano e, nesse aspecto, possuem um ponto de encontro, a seguir veremos mais esta relação. Psicologia Há certo consenso de que o estudo do comportamento humano é um dos principais objetos da ciência, ainda que a discussão sobre o objeto da Psicologia sejacomplexa. Direito Há um consenso de que o estudo também se debruça sobre o comportamento humano, mesmo que seja na busca por definir como ele deve se estabelecer para o bem comum da sociedade. Temos, portanto, o ponto em comum dessas duas disciplinas, o comportamento do homem. Entretanto, podemos dar mais um passo e afirmar que, para alcançar o seu fim, o Direito necessita da Psicologia, ou seja, a Psicologia contribui para o ideal de construção de uma sociedade justa, conforme já visto. Hoje em dia, mais do que anteriormente, a Psicologia vem contribuindo com essa tarefa de ajudar uma sociedade a efetivamente ser justa, seja por meio da atuação nos diversos âmbitos já relacionados ao longo deste nosso caminho, seja por meio, por exemplo, do estudo da tomada de decisões por parte de operadores do Direito, compreendendo os processos mentais que fazem parte desse complexo e importante ato jurídico. Nesse sentido, são interessantes as contribuições de Kahneman, Sibony e Sunstein (2021), em seus estudos sobre o julgamento humano e quais são os fatores que interferem no mesmo. Temos, portanto, os pontos de interdependência entre Psicologia e Direito e demarcamos como a Psicologia pode contribuir para o Direito. Entretanto, há de se afirmar também que existem pontos de independência que devem ser respeitados, sobretudo para que cada uma dessas disciplinas não seja defraudada pela outra. Assim, Trindade (2012) demarca bem estes pontos de independência, conforme veremos agora: Psicologia Busca ser empirista corroborando suas hipóteses por meio da testagem. É compreensiva (busca compreender os comportamentos e não os julgar). Atua por meio da entrevista e da testagem. Direito É racionalista buscando alcançar um raciocínio verdadeiro por meio de análises lógicas. É axiológico e valorativo (realiza julgamentos). Atua por meio do interrogatório e do depoimento. Percebe-se, portanto, os encontros e desencontros entre essas duas áreas, que geram desafios na prática cotidiana do psicólogo jurídico. Por exemplo, quando os operadores do Direito têm a expectativa de que o psicólogo vá conseguir predizer um comportamento futuro, ou quando acreditam que o psicólogo é capaz de detectar se uma pessoa está ou não mentindo. Interrelações entre Psicologia e Direito Ainda que existam aspectos que contribuam para uma melhor detecção quanto à emissão de fatos verdadeiros ou não por uma pessoa, as técnicas psicológicas estão distantes de se efetivarem como um polígrafo. Atenção Diante desse contexto, é importante que o psicólogo que atua no âmbito jurídico constantemente faça uma análise crítica de sua práxis, compreendendo os limites dela. O psicólogo só pode aceitar atuar de acordo com os princípios fundamentais da ética profissional. Ou seja, o psicólogo deve considerar as relações de poder nos ambientes profissionais, posicionando-se de forma crítica em consonância com o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Permitir que o Direito dite como a Psicologia deve agir pode gerar caminhos errados, que não concretizarão o ideal de Justiça, ao contrário, poderão pervertê- la. Além do conhecimento do Código de Ética Profissional do Psicólogo, outros conhecimentos são de especial relevância para o psicólogo que atua no campo jurídico. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 2. Psicologia e Direito O psicólogo jurídico: alguns desafios O simples fato de a psicologia jurídica ser um campo de interseção entre duas disciplinas, já exige um vasto conhecimento que englobe não somente aqueles da Psicologia, mas também aqueles vinculados ao campo do Direito, como legislações específicas, por exemplo. No dia a dia da práxis do psicólogo jurídico é necessário o conhecimento de diferentes áreas da Psicologia, como as que são específicas da linha escolhida pelo profissional, e também das seguintes áreas: Avaliação psicológica Psicologia do desenvolvimento Psicopatologia Psicologia da família Além disso, resoluções do Conselho Federal de Psicologia, bem como as referências técnicas desse órgão sempre contribuem para uma prática baseada na reflexão e no discernimento dos melhores caminhos a se tomar. Provavelmente, um dos aspectos mais importantes é que o psicólogo que atua no contexto jurídico deve diferenciar a sua prática daquela desenvolvida no contexto clínico. A seguir, vamos apresentar alguns pontos de diferenciação entre essas duas áreas da Psicologia que nos parece importante. Perspectiva do cliente, voluntariedade e autonomia O primeiro deles, em que já tocamos anteriormente, diz respeito à perspectiva do cliente e voluntariedade e autonomia, como pontuam Lago e Puthim (2020). No âmbito clínico, o cliente ou paciente busca o atendimento (é voluntário), havendo uma possibilidade maior de colaboração (autonomia). No campo jurídico, as intervenções acontecem por uma determinação judicial, ou por encaminhamento de algum órgão de proteção, sendo que, muitas vezes, a pessoa não deseja tal intervenção (involuntário) ou a vê como uma ameaça. É comum que em avaliações, por exemplo, nas varas de famílias, as partes acreditem que o objetivo da intervenção é verificar se elas possuem algum distúrbio, havendo maior possibilidade de manipulação das informações. Ao mesmo tempo, surge o desafio de engajar aqueles que passam por uma avaliação psicológica no âmbito jurídico a serem protagonistas de sua vida, atuando não como sujeitos passivos, mas como construtores das decisões que serão, posteriormente, legitimadas por algum operador do direito. Validade das informações Um segundo ponto é a validade de informações ou dados colhidos. No contexto jurídico, é comum que as partes busquem simular, mentir ou mesmo apresentar informações parciais, sendo que seu interesse na causa pode gerar maior ou menor falsificação das informações. Por exemplo, em uma avaliação quanto a uma situação de maus-tratos de uma criança, pode ser que os pais busquem minimizar práticas educativas baseadas na punição física, afirmando que elas ocorrem esporadicamente, mas sendo na realidade um ponto comum no dia a dia da família. Por isso mesmo, as avaliações no contexto jurídico pedem que múltiplas fontes sejam consultadas, desde os dados presentes nos processos, por exemplo, como outras pessoas do núcleo familiar, escolas, órgãos de proteção etc. Tempo para avaliações Um terceiro ponto desafiador é o tempo para a efetivação das avaliações. No contexto clínico, há tanto a possibilidade de um tempo maior para avaliação quanto para reavaliações. Mesmo nas terapias breves, o tempo de duração é de meses, enquanto no campo jurídico as avaliações devem ser feitas em um curto tempo, com prazos, às vezes, de 10 ou 15 dias. Certamente é um grande desafio da interseção entre Direito e Psicologia, sendo que, enquanto o Direito trabalha em uma perspectiva quantitativa, por exemplo, querendo o maior número possível de processos julgados em um curto espaço de tempo, a Psicologia engloba uma realidade em que a questão qualitativa não deve ser desconsiderada, bem como a necessidade de necessitar de mais tempo para proporcionar uma reflexão e maior autonomia das partes. Diagnósticos Um quarto ponto diz respeito à busca por diagnósticos, sendo que na psicologia jurídica não será o aspecto principal a ser observado. Como dissemos, as questões de tempo de intervenção, a involuntariedade da intervenção e mesmo o contexto em que ocorrem os procedimentos podem ocasionar distorções que prejudiquem um melhor diagnóstico. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 2. Psicologia e DireitoA necessidade de conhecimentos específicos O psicólogo jurídico também deve estar atento para a questão da testagem psicológica, não somente observando os testes validados, mas aqueles que apresentam pesquisas com a população que utiliza os serviços nos quais os psicólogos jurídicos atuam. Ao mesmo tempo, é necessário desconstruir para o público leigo, inclusive os operadores de direito, a crença de que uma avaliação psicológica somente é robusta se for acompanhada de testagem psicológica. Por fim, precisamos considerar a necessidade de formação contínua do profissional, tendo conhecimento das diversas legislações no âmbito do Direito e também da Psicologia. Nesse sentido, dois aspectos merecem destaque. O primeiro deles diz respeito aos documentos a serem emitidos pelo psicólogo que realiza uma avaliação ou intervenção no contexto jurídico. A resolução CFP 06/2019 apresenta orientações a serem seguidas pelos psicólogos quanto à elaboração de documentos psicológicos, destacando os pontos que devem ser obedecidos e a estrutura dos documentos. É importante o respeito a tal resolução para que se evite a confecção de documentos inadequados, o que pode incorrer em falta ética. Outro ponto importante é a função do psicólogo como perito e assistente técnico. A figura do assistente técnico é prevista em lei no Código de Processo Civil e pode ser sinteticamente descrita como o perito da parte. Vamos a um exemplo para ficar mais claro! Exemplo Lembra-se do caso do casal que move um processo para discutir a guarda compartilhada dos filhos? Imagine que o juiz determina a realização de um estudo ou uma avaliação psicológica pela equipe do Juízo. Essa equipe é constituída por profissional psicólogo que, sendo um profissional do Juízo, é considerado imparcial. No entanto, é facultado às partes apresentarem um assistente técnico, ou seja, um profissional contratado pela parte para acompanhar ou se manifestar sobre a avaliação feita pelo perito (psicólogo) do Juízo. A resolução CFP 08/2010 dispõe sobre a atuação do psicólogo como perito e assistente técnico no âmbito do Poder Judiciário. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 2. Psicologia e Direito Psicologia jurídica: desafios e possibilidades Você já percebeu que o campo da psicologia jurídica está ainda em desenvolvimento e que a relação com o Direito possui alguns desentendimentos. Entretanto, há um contínuo esforço por novas formas de intervenção para que a Psicologia, de fato, ajude na concretização do ideal de Justiça almejado pelo Direito. Nesse sentido, o histórico da psicologia jurídica e sua relação com os operadores do Direito, muitas vezes resultou na práxis do psicólogo jurídico relegada à avaliação e emissão de documentos psicológicos. Entre esses documentos, encontramos o laudo psicológico que é, desde o campo do Direito, o documento oriundo do trabalho do perito. Esse reducionismo da atuação do psicólogo no campo jurídico vem sendo questionado. A práxis reduzida à perícia não atende a muitas demandas dos usuários nos diversos âmbitos do sistema de Justiça. No cotidiano, o psicólogo jurídico, frequentemente se depara com a tensão da exigência ou a expectativa dos operadores de Direito quanto a um documento que permita basear uma decisão e a necessidade de uma intervenção reflexiva, e promova nos usuários do serviço uma revisão de seus comportamentos e dinâmicas, levando-os a não depender de uma sentença ou norma para reger suas vidas. Ao mesmo tempo em que se multiplicam, de forma dispersa, os dispositivos de atuação chamados alternativos (por exemplo: mediação, justiça restaurativa, escola de pais, entre outros), são iniciativas ainda pouco valorizadas frente a exigência de realização de perícia, cujo instrumento exerce um poder de sedução para os operadores de Direito tal qual fosse o canto de uma sereia. (BRANDÃO, 2016, p. 36) Sendo assim, a psicologia jurídica ainda se digladia com o Direito na tentativa de demarcar campos de atuação em que haja a promoção do desenvolvimento das pessoas, levando-as a serem ativas na solução de seus conflitos. Saiba Mais Entre as práticas elencadas, como uma forma diversa da tradicional de autocomposição, temos a justiça restaurativa, em que as partes de um conflito (ofensor, vítima, comunidade) são convidadas a solucioná-lo por meio da atuação de um facilitador (que pode ser um psicólogo), visando à reparação do dano sofrido pela vítima e à restauração dos vínculos entre as partes. A justiça restaurativa também proporciona a possibilidade de reflexão quanto a uma mudança no paradigma adversarial que, de certa forma, impregna muitas áreas do Direito, sendo contraproducente, como nos casos envolvendo questões familiares: guarda e regulamentação de convivência de crianças e adolescentes. No âmbito da justiça restaurativa, os aspectos emocionais e comunitários são levados em consideração, não se limitando apenas à aplicação da sanção ou punição daquele que cometeu um delito. Agora veremos duas práticas restaurativas que vêm sendo amplamente desenvolvidas no país: Mediação É um método autocompositivo para resolução de conflitos, conforme pontua David (2019, p. 103) busca ser um “método pacífico e informal de resolução de conflitos, regido por princípios éticos próprios como a imparcialidade, a confidencialidade e a autonomia da vontade”. Embora não seja atribuição específica do psicólogo a realização de mediação, ela vem se apresentando como uma alternativa ao modelo pericial, sendo um espaço no qual o conhecimento de teorias psicológicas pode contribuir para um melhor manejo e participação no processo de mediação. Oficinas de parentalidade É uma iniciativa difundida em diversos tribunais do país, nas quais, pais, que movem processos de guarda ou regulamentação de convivência dos filhos, são convidados a participar de um grupo reflexivo sobre as práticas parentais e cuidados importantes nesse momento de sofrimento de todo o sistema familiar. As oficinas de parentalidade se apresentam como uma alternativa interessante a uma abordagem adversarial, tantas vezes impregnada nos processos judiciais nas varas de família que, infelizmente, somente contribuem para a solidificação de mágoas e disfuncionalidades no sistema familiar. O modelo pericial versus práticas não reducionistas do psicólogo jurídico Neste vídeo, o especialista reflete sobre o reducionismo do modelo pericial sobre a psicologia jurídica e a existência de outras práticas mais integrativas. O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 2. Psicologia e Direito Verificando o aprendizado Questão 1 Psicologia jurídica teve início no campo da psiquiatria forense, a partir da realização de perícias e diagnósticos de sanidade mental em situações criminais, que introduziram os psicólogos nessa especialidade. Entretanto, existem dados e fatos históricos que contribuíram para o surgimento da psicologia jurídica. Sobre isso, é correto afirmar que: A O Brasil foi pioneiro no desenvolvimento da psicologia jurídica, sendo um dos primeiros países a adotar a Psicologia no auxílio da tomada de decisão no campo Jurídico. B Os estudos de Cattell, no fim do século XIX, constituem os primórdios da chamada psicologia do testemunho. C A psicologia jurídica teve seu desenvolvimento primeiramente relacionado às demandas do direito civil, como disputa de guarda e adoção. D A psicologia jurídica buscou se afastar da chamada psiquiatria forense, não querendo receber da mesma a influência quanto ao trabalho especificamente pericial. E A psicologia jurídica no Brasil teve seu início com o primeiro concursodo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em 1985. Responder Questão 2 Em função das informações estudas sobre psicologia jurídica, avalie as afirmativas a seguir: I – A práxis da psicologia jurídica envolve o conhecimento de diferentes áreas da Psicologia, como psicopatologia, avaliação psicológica e psicologia do desenvolvimento. II – A psicologia jurídica pode ser compreendida como apenas a aplicação da psicologia clínica ao campo Jurídico. III – Na avaliação psicológica no contexto Jurídico deve-se ter significativo cuidado com a validade dos dados colhidos, visto a possibilidade de a pessoa que participa do processo de avaliação mentir, omitir ou distorcer fatos. Estão corretas as afirmativas: A Apenas a afirmativa I. B Apenas a afirmativa II. C Apenas a afirmativa III. D As afirmativas I e III. E As afirmativas I e II. Responder O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 2. Psicologia e Direito Verificando o aprendizado Questão 1 Psicologia jurídica teve início no campo da psiquiatria forense, a partir da realização de perícias e diagnósticos de sanidade mental em situações criminais, que introduziram os psicólogos nessa especialidade. Entretanto, existem dados e fatos históricos que contribuíram para o surgimento da psicologia jurídica. Sobre isso, é correto afirmar que: A o Brasil foi pioneiro no desenvolvimento da psicologia jurídica, sendo um dos primeiros países a adotar a Psicologia no auxílio da tomada de decisão no campo Jurídico. B os estudos de Cattell, no fim do século XIX, constituem os primórdios da chamada psicologia do testemunho. C a psicologia jurídica teve seu desenvolvimento primeiramente relacionado às demandas do direito civil, como disputa de guarda e adoção. D a psicologia jurídica buscou se afastar da chamada psiquiatria forense, não querendo receber da mesma a influência quanto ao trabalho especificamente pericial. E a psicologia jurídica no Brasil teve seu início com o primeiro concurso do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em 1985. Responder Questão 2 Em função das informações estudas sobre psicologia jurídica, avalie as afirmativas a seguir: I – A práxis da psicologia jurídica envolve o conhecimento de diferentes áreas da Psicologia, como psicopatologia, avaliação psicológica e psicologia do desenvolvimento. II – A psicologia jurídica pode ser compreendida como apenas a aplicação da psicologia clínica ao campo Jurídico. III – Na avaliação psicológica no contexto Jurídico deve-se ter significativo cuidado com a validade dos dados colhidos, visto a possibilidade de a pessoa que participa do processo de avaliação mentir, omitir ou distorcer fatos. Estão corretas as afirmativas: A apenas a afirmativa I. B apenas a afirmativa II. C apenas a afirmativa III. D as afirmativas I e III. E as afirmativas I e II. Responder O que você achou do conteúdo? Relatar problema Voltar Avançar 3. Conclusão Considerações finais Neste conteúdo, você foi apresentado ao campo de atuação do psicólogo no contexto jurídico que aqui definimos como psicologia jurídica, tendo contato com a definição desse campo, seu histórico e algumas das áreas de atuação. Também buscamos refletir sobre os desafios que surgem da interseção entre Direito e Psicologia, destacando a importância de adotar uma atitude crítica e reflexiva quanto a práxis do psicólogo jurídico. Esperamos que você tenha se interessado por esse campo da Psicologia em pleno desenvolvimento e que venha a contribuir futuramente para uma ampliação e melhoramento dessa área. Podcast Para encerrar, ouça um resumo do conteúdo estudado, em que o especialista irá discorrer sobre os conceitos básicos, os encontros, desencontros, particularidades, práticas e desafios da psicologia jurídica. 00:00 00:00 Explore + Assista ao documentário A Morte Inventada, de Alan Minas (2009), para saber mais sobre alienação parental. Para compreender melhor a importância de conhecer as formas de abordar uma criança ou adolescente vítima de abuso, assista ao filme A Caça, de Thomas Vinterberg (2013). Conheça o Protocolo Brasileiro de Entrevista Forense com Crianças e Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência, publicado por Childhood Brasil, Conselho Nacional de Justiça, Fundo das Nações Unidas para Infância (UNICEF) e National Children’s Advocacy Center, em 2020. Referências BICALHO, Pedro Paulo Gastalho et al. Da execução à construção das leis: A psicologia jurídica no legislativo brasileiro. In: BRANDÃO, Eduardo Ponte (org.). Atualidades em Psicologia Jurídica. Rio de Janeiro: Nau, 2016, p.1-15. BRANDÃO, Eduardo Ponte. Uma leitura da genealogia dos poderes sobre a perícia psicológica e a crise atual na psicologia jurídica. Atualidades em Psicologia Jurídica. Rio de Janeiro: Nau, 2016, n. p. CEZAR-FERREIRA, Verônica A.; DE MACEDO, Rosa Maria Stefanini. Guarda Compartilhada: Uma Visão Psicojurídica. 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