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SILVIO JOSÉ LEMOS VASCONCELLOS
VIVIAN DE MEDEIROS LAGO
(organizadores)
A PSICOLOGIA JURÍDICA
E AS SUAS INTERFACES:
um panorama atual
Santa Maria, 2016
ORGANIZADORES
Silvio José Lemos Vasconcellos
Psicólogo (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), Mestre em
Ciências Criminais (PUC-RS) e Doutor em Psicologia (UFRGS). Professor
Adjunto III da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Professor do
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSM. Coordenador do
grupo de Pesquisa e Avaliação de Alterações da Cognição Social (PAACS)
vinculado à Universidade Federal de Santa Maria.
Vivian de Medeiros Lago
Psicóloga (UCPel) e Graduada em Direito (UFPel). Possui
especialização em Psicologia Jurídica (Ulbra) e é Mestra e Doutora em
Psicologia (UFRGS). Atualmente é Pós-doutoranda em Psicologia no
Grupo de Estudo, Aplicação e Pesquisa em Avaliação Psicológica
(GEAPAP - UFRGS). Professora dos cursos de Psicologia da Universidade
do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e das Faculdades Integradas de
Taquara (FACCAT).
SUMÁRIO
Organizadores
Apresentação
Sobre os autores
Capítulo 1
As práticas de atuação do psicólogo no contexto jurídico
Vivian de Medeiros Lago
Tauany Brizolla Flores do Nascimento
Capítulo 2
Elaboração de documentos psicológicos no contexto forense
Sonia Liane Reichert Rovinski
Capítulo 3
Perícia psicológica no direito do trabalho
Helena Diefenthaeler Christ
Capítulo 4
Relacionamento parental em situações de disputa de guarda: o
que avaliar?
Vivian de Medeiros Lago
Denise Ruschel Bandeira
Capítulo 5
Alienação parental: uma análise psicojurídica
Victoria Muccillo Baisch
Lilian Milnitsky Stein
Capítulo 6
Sete erros na avaliação de situações de abuso sexual contra
crianças e adolescentes
Cátula da Luz Pelisoli
Débora Dalbosco Dell’Aglio
Steve Herman
Capítulo 7
A Psicologia na socioeducação de adolescentes
Analice Brusius
Magale de Camargo Machado
Capítulo 8
Incompreensões sobre a mente criminosa e as suas implicações
éticas e jurídicas
Silvio José Lemos Vasconcellos
Roberta Salvador Silva
Thiago Ferreira Mucenecki
Jaíne Foletto Silveira
Capítulo 9
Psicopatia: um olhar sobre a população feminina e suas
implicações jurídicas
Fernanda de Vargas
Fernanda Xavier Ho�meister
Priscila Flores Prates
Silvio José Lemos Vasconcellos
Capítulo 10
Análise do comportamento comunicativo – ACC: investigando
pistas de dissimulação em depoimentos
Rui Mateus Joaquim
Mônica Azzariti
Créditos
SOBRE OS AUTORES
Analice Brusius
Psicóloga (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e Mestra em
Ciências Sociais (Universidade do Vale do Rio dos Sinos). Psicóloga da
Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul.
Atualmente é professora da Faculdade de Psicologia na Instituição
Evangélica de Novo Hamburgo. Também possui formação em Justiça
Restaurativa.
Cátula da Luz Pelisoli
Psicóloga (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), Especialista em
Psicoterapia Cognitivo-Comportamental pelo Instituto WP - Centro de
Psicoterapia Cognitivo-Comportamental, Mestra e Doutora em
Psicologia (UFRGS), com período de doutorado sanduíche na University
of Hawaii at Hilo. Atualmente é Psicóloga Judiciária do Tribunal de Justiça
do Estado do Rio Grande do Sul na Comarca de Passo Fundo, professora
da Faculdade João Paulo II e professora convidada do Instituto WP.
Débora Dalbosco Dell’Aglio
Psicóloga (PUC-RS), Mestra e Doutora em Psicologia do
Desenvolvimento (UFRGS). Atualmente é docente do Programa de Pós-
Graduação em Psicologia da UFRGS, orientadora de mestrado e
doutorado, Editora da Revista Psicologia Re�exão e Crítica/Psychology e
Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Adolescência
(NEPA/UFRGS).
Denise Ruschel Bandeira
Psicóloga (PUC-RS), Mestra e Doutora em Psicologia (UFRGS). É a
atual Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
UFRGS, orientadora de mestrado e doutorado e Coordenadora do Grupo
de Estudos, Aplicação e Pesquisa em Avaliação Psicológica.
Fernanda de Vargas
Psicóloga (Unifra), Especialista em Psicologia, ênfase em Saúde
Comunitária (UFRGS) e Mestra em Psicologia com ênfase em Saúde
(UFSM). Concluiu o Programa Especial de Graduação em Formação de
Professores para a Educação Pro�ssional (PEG) pela UFSM, sendo assim
Licenciada em Psicologia.
Fernanda Xavier Ho�meister
Psicóloga (Unifra), Pós-graduada em Avaliação Psicológica (UNISC) e
Mestranda em Psicologia com ênfase em Saúde (UFSM). Concluiu o
Programa Especial de Graduação em Formação de Professores para a
Educação Pro�ssional (PEG) pela UFSM, sendo assim Licenciada em
Psicologia.
Helena Diefenthaeler Christ
Psicóloga (PUC-RS) e Mestra em Psicologia Clínica (PUC-RS). Possui
especialização em Psicologia Jurídica (Ulbra) e Formação em
Psicoterapia de Técnicas Integradas (Instituto Fernando Pessoa).
Atualmente é professora titular de graduação e pós-graduação da
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI/FW)
e Diretora do Núcleo de Estudos e Atendimentos em Psicologia (Nexos).
Jaíne Foletto Silveira
Psicóloga (UFSM). Mestranda em Psicologia (UFSM).
Lilian Milnitsky Stein
Psicóloga (UFRGS), Especialista em Psicologia Escolar (PUC-RS).
Mestra em Applied Cognitive Science (Ontario Institute for Studies in
Education). Doutora em Cognitive Psychology (University of Arizona) e Pós-
doutora (Universidad de Barcelona). Atualmente é professora titular do
Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PUC-RS).
Magale de Camargo Machado
Psicóloga (Universidade Vale do Rio dos Sinos), integrante da equipe
no Centro de Atenção Psicossocial da Infância e Adolescência de Novo
Hamburgo (CAPSi/NH). Doutora em Educação (UFRGS). É professora da
Faculdade Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), no curso de
Psicologia. Pesquisadora em estágio pós-doutoral no exterior/Brasil-
Universidade Paris 8/França.
Mônica Azzariti
Fonoaudióloga. Pós-graduada em Linguística (UGF), Pós-graduada
em Segurança Pública (FIAVM). Especialista em voz (título concedido
pelo CFFa). Mestre em Linguística (UERJ), pesquisadora do FSI Brasil.
Professora do IPEBJ. Instrutora do curso de negociações com reféns do
BOPE/RJ e perita no TJRJ.
Priscila Flores Prates
Psicóloga (Unifra), Especialista em Terapia Cognitivo-
Comportamental (UFRGS) e Mestranda em Psicologia com ênfase em
Saúde (UFSM). Atualmente é bolsista FAPERGS.
Roberta Salvador Silva
Psicóloga (Faculdades Integradas de Taquara). Especialista em
Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (PUC-RS), Mestra e Doutoranda
em Psicologia também pela PUC-RS. Integra o Grupo de Pesquisa
Neurociência Afetiva e Transgeracionalidade (GNAT), coordenado pela
professora Adriane Arteche.
Rui Mateus Joaquim
Psicólogo. Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e
Aprendizagem pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de
Ciências (UNESP). Doutorando do Programa de Ciências da Reabilitação
do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP.
Sonia Liane Reichert Rovinski
Psicóloga (PUC-RS), Mestra em Psicologia Social e da Personalidade
pela mesma universidade e Doutora em Psicologia (Universidade de
Santiago de Compostela, ES). Atualmente, atua na área da Psicologia
Forense como perita e assistente técnica. Coordena o curso de
Especialização em Psicologia Jurídica da Projecto - Centro Cultural e de
Formação (RS) e o curso de Especialização em Psicologia Jurídica do
Instituto Sapiens (PR). Pós-doutoranda na área de avaliação psicológica
forense (GEAPAP-UFRGS).
Steve Herman
Bacharel em Filoso�a pelo Reed College (Portland, EUA) e Doutor em
Aconselhamento Psicológico pela Stanford University (Califórnia, EUA).
Atualmente é professor assistente no Departamento de Psicologia da
University of Hawaii at Hilo (EUA).
Tauany Brizolla Flores do Nascimento
Psicóloga (Faculdades Integradas de Taquara - FACCAT).
Thiago Ferreira Mucenecki
Psicólogo (Unifra), Especialista em Neuropsicologia pela Projecto -
Centro Cultural e de Formação e Mestre em Psicologia da Saúde (UFSM).
Atualmente é professor da Universidade RegionalIntegrada do Alto
Uruguai e das Missões (URI-Santiago).
Victoria Muccillo Baisch
Advogada especialista em Direito de Família Contemporâneo e
Mediação. Mestra em Psicologia pela Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (PUC-RS) na área de concentração Cognição Humana.
Advoga na área do Direito de Família e Sucessões e é professora
convidada da Pós-Graduação em Direito de Família Contemporâneo e
Mediação da FADERGS.
APRESENTAÇÃO
Conforme o dicionário Novo Aurélio, a palavra interface, em um dos
seus signi�cados recorrentes, descreve um conjunto de elementos
comuns entre duas ou mais áreas do conhecimento. Pode-se dizer,
nesses termos, que a Psicologia, ao aproximar-se das ciências jurídicas,
consolidou interlocuções e estabeleceu interfaces verdadeiramente
dinâmicas. A Psicologia Jurídica é, portanto, um campo caracterizado
por transformações que não cessam e diálogos que não se esgotam.
Retratar um panorama atual dessa complexa área do conhecimento
e seus desdobramentos no Brasil não é, por certo, uma tarefa simples ou
diante da qual seja possível prescindir de uma pluralidade de olhares.
Para tanto, torna-se necessário agregar perspectivas distintas e, ao
mesmo tempo, complementares. Mais do que reunir concepções, é
preciso, para esses �ns, produzir interlocuções.
Dessa forma, a obra A Psicologia Jurídica e as suas Interfaces: um
panorama atual objetiva não apenas retratar a realidade hodierna e
multifacetada dessa complexa área do conhecimento, mas também
explicitá-la a partir das suas interconexões e possibilidades epistêmicas.
Temas abrangentes, a exemplo da socioeducação de adolescentes em
con�ito com a lei; alienação parental e disputa de guarda; avaliação de
situações de abuso sexual; perícias e produção de documentos jurídicos;
bem como questões relacionadas à avaliação psicológica na esfera
criminal e outros temas perpassam os diferentes capítulos deste livro.
Se, por um lado, ao longo deste trabalho, algumas segmentações
tornam-se necessárias como forma de melhor organizá-lo, por outro, é
possível identi�car o caráter integrador que o perfaz. Uma integração
que, no que se refere à Psicologia Jurídica, permite fortalecer interfaces
historicamente consolidadas, bem como subsidiar, em termos teóricos,
práticas incipientes.
A partir dessa perspectiva, as autoras Vivian de Medeiros Lago e
Tauany Brizolla Flores do Nascimento discorrem, no primeiro capítulo
desta obra, sobre as práticas do psicólogo jurídico nos diferentes campos
de interface da Psicologia com o Direito. As atividades são descritas a
partir da divisão entre área Cível e área Penal, evidenciando trabalhos
mais consolidados, como perícias e acompanhamento psicológico, assim
como práticas mais recentes, como a mediação, o depoimento especial e
a justiça restaurativa.
No segundo capítulo, a autora Sonia Rovinski discorre sobre a
elaboração de documentos psicológicos forenses na área cível. Além dos
cuidados éticos necessários e das demandas da escrita técnico-cientí�ca,
também são discutidas as peculiaridades especí�cas da estrutura e
conteúdo do laudo pericial e do parecer crítico do assistente técnico.
O capítulo três, de autoria de Helena Diefenthaeler Christ, trata sobre
perícias psicológicas no âmbito do Direito do Trabalho. A autora destaca
a importância de avaliar a queixa apresentada, de considerar possíveis
simulações, de realizar diagnóstico e de estabelecer o nexo de
causalidade entre o dano e a ação praticada pelo empregador. Essas
perícias podem envolver depressão, transtorno de estresse pós-
traumático, estresse ocupacional, síndrome de burnout, além de
situações como assédio sexual e assédio moral.
No capítulo quatro, intitulado Relacionamento parental em situações
de disputa de guarda: o que avaliar?, as autoras Vivian de Medeiros Lago e
Denise Ruschel Bandeira assinalam os aspectos do relacionamento
parental que são relevantes para de�nir a guarda dos �lhos. Os estudos
teórico e empírico realizados oferecem diretrizes sobre o que deve ser
considerado no momento de fazer uma recomendação de quem deverá
�car com a guarda, ou o tipo de guarda e direito de convivência.
O quinto capítulo, de autoria de Victoria Muccillo Baisch e Lilian
Milnitsky Stein, analisa aspectos jurídicos e psicológicos da temática da
alienação parental. A sugestionabilidade infantil, com possibilidade de
formação de falsas memórias na criança vítima de alienação parental, e
suas implicações do fenômeno no âmbito jurídico também são
discutidas.
Cátula Pelisoli, Débora Dalbosco Dell’Aglio e Steve Herman
escreveram o sexto capítulo desta obra, que aponta e discute sete erros
frequentes na avaliação de situações de abuso sexual contra crianças e
adolescentes. Os equívocos abordados podem causar impactos
signi�cativos nas vidas das pessoas envolvidas e, por isso, é importante
buscar minimizar os riscos de erros nessas avaliações.
No sétimo capítulo da obra, as autoras Analice Brusius e Magale de
Camargo Machado exploram a temática da socioeducação de
adolescentes. Re�exões interessantes sobre o trabalho da Psicologia
com adolescentes autores de ato infracional que cumprem medidas
socioeducativas de internação são apresentadas. A articulação teórica
aliada à realidade de trabalho das autoras permite uma compreensão do
trabalho do psicólogo nessa seara.
No capítulo oito, os autores Silvio José Lemos Vasconcellos, Roberta
Salvador Silva, Thiago Ferreira Mucenecki e Jaíne Foletto Silveira
desenvolvem uma análise do estado atual de conhecimento sobre uma
das temáticas mais controversas da Criminologia. Mais do que explicar
como algumas pesquisas básicas são desenvolvidas nesse campo, o
trabalho visa tecer considerações sobre as implicações éticas desses
achados. Aborda, portanto, uma interface histórica e, ao mesmo tempo
atual, envolvendo o Direito Penal e as ciências da mente.
O nono capítulo, elaborado por Fernanda Xavier Ho�meister,
Fernanda de Vargas, Priscila Flores Prates e Silvio José Lemos
Vasconcellos, contempla a avaliação da psicopatia em mulheres e suas
implicações jurídicas. Explicitar os impasses que caracterizam essa
interface da Psicologia com o Direito é, portanto, o objetivo maior do
trabalho em questão. Para tanto, considerações sobre a sintomatologia
da psicopatia também integram a citada proposta.
No capítulo �nal desta obra, os autores Mônica Azzariti de Pinho
Barbosa e Rui Mateus Joaquim tecem considerações sobre um campo
recente de atuação dos psicólogos jurídicos e fonoaudiólogos forenses: a
análise do comportamento comunicativo. Explicitando essa recente
interface da Psicologia com o Direito Penal, o trabalho elucida os
pressupostos teóricos que fundamentam essa prática, bem como as
possibilidades relacionadas a esse campo especí�co de atuação
pro�ssional. Re�exões sobre a necessidade de fundamentar o trabalho
de forma ética e bem embasada também integram o capítulo que
encerra a obra.
De um modo geral, esta obra ilustra, tal como o subtítulo sugere, um
panorama atual da própria Psicologia Jurídica. Nesses termos, ao longo
de dez capítulos, os autores buscam caracterizar diferentes áreas
relacionadas à interface entre Direito, Psicologia e outras ciências a�ns,
apontando direções e indicando possibilidades de aperfeiçoamento no
que se refere a esse mesmo diálogo. O livro objetiva, portanto, não
apenas informar sobre determinadas práticas e seus respectivos aportes
teóricos, mas também contribuir para aprimorá-las dentro da ampla
realidade que perfaz a Psicologia Jurídica.
CAPÍTULO 1
AS PRÁTICAS DE ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NO
CONTEXTO JURÍDICO
Vivian de Medeiros Lago
Tauany Brizolla Flores do Nascimento
A Psicologia Jurídica é reconhecida como especialidade pelo
Conselho Federal de Psicologia há quatorze anos. Como tal, ainda é uma
das especialidades mais recentes no Brasil e, por isso, tem sido alvo de
inúmeras discussões acerca das múltiplas solicitações convergidas a
quem atua nesse campo interdisciplinar(BRITO, 2012). Embora tenha
havido uma ampliação do trabalho do psicólogo jurídico na última
década, a demanda ainda é muito associada ao exercício da avaliação
psicológica, em que o pro�ssional busca diagnosticar as condições
psicológicas dos sujeitos em con�ito com a lei. Assim, o psicólogo busca
desmisti�car esse rótulo adquirido ao longo da história, implementando
outras ações e práticas no contexto jurídico (AGUIAR, 2005).
Muitas pessoas têm uma ideia equivocada ou distorcida do que faz
um psicólogo jurídico. Isso se deve à grande in�uência da mídia que,
diversas vezes, relaciona o psicólogo jurídico à aplicação de uma
determinada lei e também a um desconhecimento por parte da
sociedade em geral (HUSS, 2011). Assim sendo, o presente capítulo tem
como objetivo apresentar as diferentes possibilidades de atuação do
psicólogo jurídico, enfocando as áreas Cível e Criminal. Os capítulos
seguintes da obra explorarão temas especí�cos dentro dessas atuações.
Psicologia Jurídica
A de�nição de Psicologia Jurídica ainda é debatida entre os
psicólogos atualmente (HUSS, 2011). Para o autor, a especialidade refere-
se, exclusivamente, à “aplicação da psicologia clínica ao Poder Judiciário”
(p. 23), com foco na avaliação e tratamento, enquanto que em um nível
mais abrangente a Psicologia Jurídica pode ser vista como a aplicação da
Psicologia, em geral, no auxílio do sistema legal.
Clemente (1998) e Muñoz Sabaté (1980) citados por Trindade (2004),
ao buscarem de�nir a Psicologia Jurídica, discutem alguns conceitos. O
primeiro a de�ne de maneira mais teórica, como sendo o estudo
comportamental de indivíduos que, por alguma razão, devem se
desenvolver em um contexto juridicamente controlado, além do estudo
da evolução das leis que orientam esses espaços. Já o segundo, ao falar
sobre a Psicologia para o Direito, a de�ne como uma ciência intimada a
prestar auxílio no exercício do Direito.
Altoé (2003, p. 118) de�ne o trabalho da Psicologia Jurídica como o de
“informar, apoiar, acompanhar e dar orientação pertinente a cada caso
atendido nos diversos âmbitos do Sistema Judiciário”, prestando auxílio
aos pro�ssionais do Direito. Brito (2005) disserta que, inicialmente, a
Psicologia Jurídica era solicitada basicamente, pelo Poder Judiciário,
para a realização de avaliações e exames. Já, atualmente, a autora
entende que a especialidade busca expor aos pro�ssionais do Direito
uma determinada situação sob outro olhar que não o do Direito, mas o
da Psicologia.
Para uma melhor compreensão da Psicologia Jurídica, é importante,
didaticamente, dividi-la em inserções no âmbito penal/criminal e no
âmbito cível (HUSS, 2011). Essa divisão advém de uma separação legal
entre o Direito Penal e Civil, cujos propósitos divergem e,
consequentemente, trazem diferenças ao papel do psicólogo que
desenvolve trabalhos voltados para um ou outro âmbito.
O Direito Civil diz respeito ao direito privado de cada cidadão, sendo
que ao ocorrer a violação desse direito, causando alguma injustiça e/ou
prejuízo, caberá à pessoa que sofreu a injustiça decidir tomar alguma
atitude legal ou não. A violação de determinados direitos civis pode
ocorrer intencionalmente ou por negligência, quando um indivíduo está
em um nível elevado de desatenção, por exemplo. Dentro da esfera do
Direito Civil, as principais atuações do psicólogo estão ligadas às áreas
de guarda dos �lhos, responsabilidade civil, danos pessoais e
indenização a trabalhadores (HUSS, 2011). Além das citadas
anteriormente, destacam-se como áreas de atuação no Direito Civil:
interdição judicial, destituição do poder familiar, adoção,
regulamentação de visitas em casos de divórcio dos pais e trabalho com
adolescentes autores de atos infracionais (LAGO et al., 2009).
Já o Direito Penal tem seu cerne nos atos cometidos contra a
sociedade em geral, cabendo ao Estado proibir determinados
comportamentos, de�nir o que será, ou não, considerado crime e julgar
quais condutas serão passíveis de punição. Assim, o objetivo principal do
Direito Penal é prevenir o cometimento de crimes bem como manter um
senso de justiça na sociedade. Dessa forma, as principais áreas de
atuação do psicólogo, nesse campo, estão ligadas à inimputabilidade e
responsabilidade criminal, tratamento de agressores sexuais e
capacidade para se submeter a julgamento (HUSS, 2011). Ainda incluem-
se nas demandas do psicólogo no Direito Penal as práticas em Institutos
Psiquiátricos Forenses e no Sistema Penitenciário (LAGO et al., 2009).
Principais campos de atuação e suas demandas
Os principais campos de atuação do psicólogo jurídico estão
relacionados ao Direito Civil e ao Direito Penal. Acerca do Direito Civil
sugere-se uma subdivisão em Direito de Família, Direito da Criança e do
Adolescente e Direito do Trabalho, justi�cando-a por ser didaticamente
adequado e por se tratar de varas diferentes nas execuções dos
processos (HUSS, 2011; LAGO et al., 2009).
Direito Civil
No Direito de Família observa-se a solicitação de um psicólogo
jurídico, principalmente, em casos de divórcio litigioso, disputa de
guarda e regulamentação do direito de convivência. Nessas situações, o
psicólogo contribui com os operadores do Direito fornecendo
informações sobre a dinâmica familiar dos envolvidos no con�ito,
auxiliando nas decisões judiciais (LAGO et al., 2009).
O divórcio pode ser entendido como a anulação de um casamento
perante a lei, consequência de uma ruptura conjugal anterior. Assim,
caso o juiz ou as partes julguem necessário, podem solicitar o trabalho
de um psicólogo para prestar auxílio durante o processo. A principal
demanda do psicólogo nesse contexto é apresentar, como perito
exterior ao tribunal, subsídios técnicos que possam auxiliar na resolução
do processo, trabalhando no sentido de minimizar as consequências
negativas que um divórcio possa vir a apresentar a todos os sujeitos
envolvidos (COSTA et al., 2009; ROSA et al., 2005). A atuação do psicólogo
também pode estar voltada à mediação quando existir a possibilidade
de acordo entre as partes e, também, como avaliador (perito) se assim
solicitado pelo juiz (LAGO et al., 2009). Com isso, as intervenções do
psicólogo devem auxiliar em obter uma maior clareza sobre a situação
psicológica do caso, procurando ser realizadas totalmente com base em
teoria cientí�ca visando o bem-estar de todos os envolvidos (TRINDADE,
2004).
A disputa de guarda é o con�ito familiar que mais demanda auxílio
da Psicologia ao Direito. Dessa maneira, o principal trabalho do
psicólogo é o de realizar perícia psicológica, ou seja, realizar uma
avaliação psicológica, solicitada pelo juiz, com o objetivo de oferecer
contribuições para sua tomada de decisão (MACIEL; CRUZ, 2009). Assim,
nota-se ser fundamental avaliar a qualidade do relacionamento da
criança com ambos os genitores e com outros responsáveis que tomam
conta dela por meio da competência parental, ou seja, avaliar o conjunto
de práticas que os pais e/ou responsáveis assumem ao cuidar e se
responsabilizar por seus �lhos (MACIEL; CRUZ, 2009). Vale destacar que é
papel do psicólogo, ao realizar uma perícia de disputa de guarda,
assegurar que sejam preservados sempre os interesses da criança
envolvida, e não somente os de um dos genitores (LAGO; BANDEIRA,
2008). Conforme o tipo de guarda determinado na decisão judicial,
podem ser de�nidos aspectos relacionados ao direito de
convivência/visitas. Após essa decisão, se ainda houver con�itos
relacionados a ela, o psicólogo pode ser chamado pelo juiz para, após
avaliar a dinâmica familiar, sugerir alguma intervenção para a resolução
desse con�ito (LAGO et al., 2009).
Outro papel que o psicólogo pode desempenhar na área de interface
com o Direito de Família é o de mediador. A mediação é uma prática
alternativa na resolução de con�itos, em que as partes possuem
autonomia para buscar acordos, contando para isso com a �gura do
mediador. No Brasil, tem se tornado cada vez mais frequente a utilização
da mediação no contexto familiar, para auxiliar ex-cônjuges no processo
de divórcio. Embora aindanão regulamentada em nosso país, essa
técnica tem sido utilizada por pro�ssionais de diferentes áreas, de forma
voluntária. Não é uma prática de uso exclusivo do psicólogo, podendo
ser utilizada por advogados, assistentes sociais, sociólogos, por exemplo.
Independentemente da área de formação do pro�ssional, é importante
que ele conheça não apenas sobre as leis que regulamentam o divórcio,
mas também sobre os processos psicológicos envolvidos. Como bem
apontam Chaves e Maciel (2005), o divórcio envolve muito estresse, pois
demanda um período de transição da família para se adaptar a uma
situação nova. Assim sendo, as autoras defendem o serviço de Mediação
nas Varas de Família como um meio de oferecer suporte a essas famílias,
orientando-as e esclarecendo-as quanto a esse evento, buscando um
trabalho de fortalecimento das relações parentais, a �m de que
perdurem após o término da relação conjugal.
O psicólogo que atuar como mediador familiar procurará, por meio
de encontros e entrevistas com os membros da família, facilitar a
comunicação entre eles, objetivando uma solução consensual, que
respeite os direitos das crianças e dos adolescentes. O psicólogo deverá
ser neutro na relação, não lhe cabendo opinar, sugerir, decidir ou impor
nada. Uma vez realizado o acordo entre as partes, esse passa a ser um
compromisso entre todos os envolvidos (SILVA, 2006). Por ter sido
elaborado pelas próprias partes, espera-se que o acordado seja
cumprido de forma mais efetiva do que se imposto judicialmente.
O psicólogo que desenvolve trabalhos na área do Direito de Família,
seja como perito (nomeado pelo juiz), assistente técnico (contratado
pelas partes para questionar tecnicamente as análises do perito) ou
mediador, deve buscar conhecimentos interdisciplinares, que envolvem,
muitas vezes, legislações. É importante buscar constante atualização,
dominando temas e leis que envolvem, por exemplo, os tipos de guarda
e a alienação parental. Esse último tema será abordado de forma mais
especí�ca no capítulo 5.
No Direito da Criança e do Adolescente nota-se a demanda de um
psicólogo nos casos de adoção e destituição do poder familiar. Percebe-
se também o trabalho de psicólogos com adolescentes autores de atos
infracionais (LAGO et al., 2009).
Nos casos de adoção, o principal trabalho do psicólogo, nos Juizados
da Infância e da Juventude, é o de participar da seleção da família que
pretende fazer a adoção e acompanhar todo o processo. Assim, nota-se a
utilidade de intervenções psicológicas no sentido de poder, com base no
conhecimento cientí�co sobre as relações humanas, predizer o sucesso
do processo, bem como precaver sobre possíveis problemas que possam
vir a ocorrer (WEBER, 2005). Dessa forma, o psicólogo irá intervir como
um facilitador na formação de vínculos, devendo ser capaz de amparar
emocionalmente e favorecer a habituação entre a criança e a nova
família (ALVARENGA; BITENCOURT, 2013).
Para que se viabilize o desenvolvimento sadio de uma criança, o mais
adequado é que ela esteja com sua família, quando esta exerce com
e�cácia os cuidados parentais. Porém, muitas famílias não obtêm
sucesso no desempenho desse cuidado, prejudicando o
desenvolvimento físico, psíquico e social da criança. Nos casos em que é
comprovada a exposição da criança a esses riscos, os pais poderão vir a
perder o direito do poder familiar sobre seus �lhos (ALBORNOZ, 2009).
Com isso, torna-se fundamental a intervenção de um psicólogo que,
inserido em equipe multipro�ssional, tem como trabalho a realização de
perícia psicológica, a �m de subsidiar a decisão do juiz por deferir, ou
não, a decisão de destituição do poder familiar (FANTE; CASSAB, 2007;
LAGO et al., 2009). Além de um acompanhamento psicológico, o
psicólogo deve agir de modo a assegurar os direitos fundamentais e
favorecer a promoção da saúde mental da criança e de sua família de
origem (CESCA, 2004).
Uma solicitação frequente aos psicólogos são as perícias envolvendo
suspeita de abuso sexual, as quais podem estar associadas a processos
de destituição do poder familiar. Tais avaliações são um desa�o aos
pro�ssionais da área da saúde mental, em virtude de alguns fatores,
como a idade da criança supostamente abusada, o que implica
limitações na comunicação verbal. Conforme apontam Schaefer,
Rossetto e Kristensen (2012), especialmente nas situações de abuso
intrafamiliar, a criança nem sempre consegue identi�car aquele ato
como abusivo, em virtude da relação estabelecida com seu cuidador,
quem deveria zelar por sua proteção.
As perícias judiciais de suspeita de abuso sexual, solicitadas por
autoridades jurídicas, buscam uma con�rmação, ou não, do fato. A
preocupação com as consequências advindas do abuso não se
caracteriza como tipicamente papel da Psicologia Jurídica, mas sim do
contexto clínico. Contudo, conforme destacam Gava, Pelisoli e Dell’Aglio
(2013), essa con�rmação da ocorrência do abuso deve respeitar os
limites das técnicas psicológicas, que deverão ser abrangentes e
compreensivas, integrando diferentes fontes de informação.
Pelisoli, Gava e Dell’Aglio (2011) discutem em seu artigo sobre a
tomada de decisão em situações de abuso sexual infantil. Destacam o
elevado índice de discordâncias evidenciado na literatura, o que leva a
crer que possam existir posicionamentos errôneos acerca da existência
do fato. Tais erros podem signi�car tanto falsos positivos (quando o
abuso de fato ocorreu) quanto falsos negativos (quando o fato ocorreu e
o pro�ssional, por meio de sua avaliação, entende que não).
Infelizmente, falsas acusações de abuso sexual têm se tornado
frequentes, manifestando-se como uma forma de alienação parental, ou
seja, uma forma de romper totalmente o vínculo entre a criança e o
genitor. É muito importante que o psicólogo esteja atento a essas
possibilidades ao conduzir seu trabalho, como forma de garantir a
qualidade de sua avaliação.
Além das questões relacionadas ao poder familiar, entre elas a
avaliação de suspeita de abuso sexual, existe o trabalho desenvolvido
com os adolescentes em con�ito com a lei, aos quais são aplicadas
medidas socioeducativas. Tais medidas objetivam incitar a presença do
adolescente infrator na sociedade de maneira positiva, bem como ajudá-
lo a dominar a situação de estar, temporariamente, afastado dela (LAGO
et al., 2009). Nesse sentido, o psicólogo deve desenvolver intervenções
que possam minimizar, a partir das redes externas de apoio do
adolescente, a ocorrência de atos infracionais quando este retornar à
sociedade. Zappe e Ramos (2010), ao estudarem o per�l de adolescentes
privados de liberdade em Santa Maria/RS, referem à necessidade da
criação de políticas sociais básicas que objetivem o desenvolvimento
saudável de crianças e adolescentes, bem como o desenvolvimento de
atividades em que os adolescentes possam se sentir incluídos e
reconhecidos, estimulando-os a optar por tais atividades ao
cometimento de atos infracionais.
O cumprimento das medidas socioeducativas, sentenciadas pelo juiz,
pode dar-se em meio aberto, como, por exemplo, em instituições de
semiliberdade e liberdade assistida ou em meio fechado, em unidades
de internação, podendo o psicólogo atuar nos dois espaços. Assim, cabe
ao psicólogo planejar as rotinas do dia a dia dos adolescentes, atentando
para o cumprimento das regras da instituição, bem como organizar
atividades que ocupem o tempo ocioso e desenvolver, em conjunto com
o adolescente, a construção do Plano Individual de Atendimento (PIA),
em que o psicólogo assume o papel de ouvinte e orientador do
adolescente, autor de seu próprio plano a partir de suas re�exões sobre o
que está vivenciando e o que fará no futuro. Ainda, é papel do psicólogo
vincular a unidade de internação a outros programas e serviços visando
ao atendimento das necessidades, atuais e futuras, do adolescente,
buscando facilitar o momento da saída da internação. O pro�ssional
deve também ser capaz de identi�car indícios de situações de violência
dentro da instituição, tomando as providências cabíveis, bem como de
identi�caradolescentes em grande sofrimento mental e realizar os
encaminhamentos pertinentes, documentando todo o trabalho
conduzido com o adolescente. Também, o pro�ssional participa do
relatório técnico elaborado por equipe interdisciplinar, encaminhado ao
judiciário, acerca da personalidade do adolescente infrator (CONSELHO
FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2010a).
Além do trabalho desenvolvido nas Varas de Família e de Infância e
Juventude, existe também o trabalho nas Varas de Direito Civil. Nesses
casos, o psicólogo, na maior parte das vezes, busca investigar a
ocorrência de danos psíquicos e avaliar possíveis casos de interdições
judiciais (LAGO et al., 2009). Para tais práticas de perícia psicológica
forense, o psicólogo lança mão de seu conhecimento teórico-técnico na
área da Psicologia, adaptando-o às normas legais, diferentemente de
uma avaliação clínica (ROVINSKI, 2000).
Dano psíquico pode ser de�nido como sendo algo impossível de ser
averiguado objetivamente, “devendo esta tarefa �car a cargo de um
perito com formação na área da saúde mental e experiência forense”
(SILVA JUNIOR, 2006). França (2004) classi�ca-o como uma deterioração
das funções psíquicas, em consequência de uma ação deliberada ou
culposa de alguém. Castex (1997), citado por Rovinski (2000, p. 195),
menciona os estudos em que aponta que visto sob o prisma da
psicologia forense:
[...] o dano (psíquico) supõe a existência de uma agressão produzida por um evento
sobre o psiquismo de uma pessoa, de forma a provocar uma perturbação, distúrbio,
disfunção, transtorno e/ou diminuição de uma dimensão vital, de modo a
caracterizar-se como dano não patrimonial.
O trabalho do psicólogo, nesse contexto, dá-se como avaliador em
busca de comprovar, ou não, o nexo de causalidade entre o dano
psíquico reclamado e o evento traumático desencadeador. É importante
que o psicólogo busque se empenhar, por meio da perícia psicológica,
em mensurar o nível de funcionamento psicológico do sujeito antes da
ocorrência do evento, para que haja uma comparação com o nível de
funcionamento atual, sendo possível detectar se houve prejuízo ou não
do psiquismo do sujeito (HUSS, 2011). Assim, ao realizar a perícia, e para
que se con�rme a existência de fato de um dano psicológico, o psicólogo
deve identi�car comprometimentos psicológicos que não existiam
anteriormente ao evento traumático desencadeador (MACIEL; CRUZ,
2009).
A interdição judicial ocorre quando o sujeito perde a capacidade de
gerenciar sua própria pessoa e seus bens (TEIXEIRA; RIGONATTI;
SERAFIM, 2003). Na maior parte das vezes, a interdição é deferida ao
sujeito quando ele não possui mais discernimento su�ciente para a
prática dos atos da vida civil, podendo ser consequência de uma
de�ciência mental ou enfermidade. Nesses casos, o papel do psicólogo é,
por meio de perícia psicológica, sugerir ao juiz se o sujeito apresenta ou
não algum aspecto que o impeça de gerir sua própria vida (LAGO et al.,
2009).
Ainda dentro da área do Direito Civil, é possível a atuação do
psicólogo nos contextos ligados ao Direito do Trabalho, em questões
relacionadas a acidentes de trabalho e requerimento de indenizações.
Dessa maneira, o psicólogo trabalha na realização de perícias com a
�nalidade de veri�car se existem danos psicológicos causados por
doenças ou acidentes relacionados ao trabalho (LAGO et al., 2009). Cabe
ao psicólogo observar a possibilidade de simulação e/ou exagero dos
sintomas por parte do trabalhador com a intenção de aumentar o valor
indenizatório (HUSS, 2011).
Cruz (2002) destaca a importância da perícia psicológica na área do
trabalho para o aprimoramento do diagnóstico dos efeitos do trabalho
sobre as condições de saúde do trabalhador. O aumento das doenças
musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho acarreta, normalmente,
sintomas como o estresse, a depressão e a ansiedade. Vale destacar que
o psicólogo perito deve não apenas identi�car tais sintomas, mas
também estabelecer o nexo de causalidade entre eles e o trabalho
desempenhado pelo indivíduo, a �m de caracterizar o sofrimento
psíquico.
Uma última observação em relação às perícias psicológicas na área
trabalhista diz respeito à demanda por avaliações envolvendo assédio
moral. Battistelli, Amazarray e Koller (2011) apontam que o fenômeno
não é uma situação nova nas relações laborais, embora nos últimos anos
tenha atingido diferentes contextos de trabalho e categorias
pro�ssionais. A prática envolve atos abusivos, que ocorrem de forma
sistemática e repetida, prejudicando a integridade física ou psíquica do
trabalhador. Nessas situações, cabe ao psicólogo avaliar não apenas o
indivíduo, mas também seu contexto de trabalho e as relações ali
estabelecidas.
Direito Penal
No que diz respeito ao Direito Penal, a atuação do psicólogo se dá,
principalmente, no Sistema Penitenciário e nos Institutos Psiquiátricos
Forenses. Nesse sentido, Arantes (2005) destaca que a atuação do
psicólogo, relacionada ao Direito Penal, é de predominância avaliativa
no auxílio ao Judiciário. Por outro lado, Vettorazzi e Brito (2005) apontam
que, contemporaneamente, o Direito Penal não atua com o objetivo de
punir, mas sim de prestar auxílio na readaptação social dos apenados.
A elaboração de laudos, pareceres e relatórios técnicos, em equipe
multidisciplinar, é a principal atividade do psicólogo no Sistema
Penitenciário. Porém, existem outras atividades desenvolvidas por
psicólogos nesse contexto, como: atenção psicológica individual e
grupal, atendimentos psicológicos emergenciais, encaminhamentos,
reuniões de equipe, atuação nas relações institucionais, atuação em
rede, promoção de eventos, recrutamento e seleção e elaboração de
projetos e pesquisas (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2009).
O psicólogo, ao restringir-se somente à elaboração de laudos e
pareceres no contexto penitenciário, pode gerar uma rotulação do
sujeito apenado. Assim, a intervenção do psicólogo deve ser no sentido
de promover a cidadania, buscando sempre a reintegração do apenado à
sociedade, de forma que esse sujeito possa optar por práticas não
criminalizadas (VETTORAZZI; BRITO, 2005). Kolker (2005), ao estudar o
sistema penitenciário brasileiro, a�rma que, por haver um
desconhecimento por parte do psicólogo sobre os reais problemas das
instituições prisionais e por, na maior parte das vezes, o trabalho do
psicólogo se reduzir a tarefas disciplinares e ‘julgamentos’ sobre os
presos, os pro�ssionais encontram muita di�culdade em realizar um
trabalho que possibilite um auxílio psicológico à população carcerária.
Aos sujeitos que violam a lei e apresentam algum transtorno mental
lhes é decretada, pelo juiz, uma medida de segurança e esses são
encaminhados aos Institutos Psiquiátricos Forenses (IPFs) (LAGO et al.,
2009). Esses sujeitos são considerados inimputáveis, que é quando o
indivíduo não possui um estado mental básico, exigido pela lei, não
podendo ser considerado culpado ao cometer um crime (HUSS, 2011).
Nesse sentido o trabalho do psicólogo no IPF é o de, em equipe
multidisciplinar, realizar perícia psicológica sobre os pacientes que são
encaminhados ao local por decisão judicial (LAGO et al., 2009).
Além das possibilidades de atuação do psicólogo jurídico descritas
acima, existem outros tipos de trabalho que não se enquadram
especi�camente como pertencentes ao Direito Civil ou Direito Penal,
mas que também podem ser considerados uma prática da Psicologia
Jurídica. Entre eles, serão comentados o Depoimento Especial e a Justiça
Restaurativa.
Depoimento Especial – inicialmente denominado ‘Depoimento sem
dano’, é um projeto que foi desenvolvimento pioneiramente no Rio
Grande do Sul a partir de 2003. A proposta consiste em retirar crianças e
adolescentes vítimas de abuso sexual da sala de audiência, conduzindo-
as a um ambiente mais acolhedor, para que sejam inquiridas por um
pro�ssional com maior conhecimento acerca da técnica de entrevista
(CEZAR, 2007). Psicólogos e assistentes sociais recebem treinamento
especí�co para que estejam habilitados a realizar esse tipo de trabalho.A
sala em que ocorre o depoimento possui equipamentos audiovisuais
que permitem a comunicação com a sala de audiência. A criança é
informada sobre esses procedimentos, estando ciente de que está sendo
�lmada e assistida.
Essa prática suscita opiniões divergentes entre os pro�ssionais, tanto
da área da Psicologia como do Serviço Social. Já houve tentativas por
parte tanto do Conselho Federal de Serviço Social (CFSS) quanto do
Conselho Federal de Psicologia (CFP) de impedir a oitiva de crianças por
meio do Depoimento Especial (Resolução 554/2009 do CFSS e Resolução
10/2010 do CFP). Entretanto, mandados de segurança foram impetrados
contra o CFSS e o CFP, garantindo que assistentes sociais e psicólogos
possam atuar no Depoimento Especial sem sofrer quaisquer
penalidades.
Pelisoli, Dobke e Dell’Aglio (2014) apresentam interessante discussão
sobre o tema, em que destacam a importância que deve ser dada às
crianças e aos adolescentes vítimas de abuso sexual, para além das
divergências sobre se o Depoimento Especial seria ou não tarefa do
psicólogo. As autoras apontam a necessidade dos pro�ssionais buscarem
quali�cação técnica, tecnológica e ética relacionada tanto à equipe
quanto à instituição judiciária. Sugerem, ainda, o desenvolvimento de
estudos empíricos com os pro�ssionais que já vêm utilizando-se dessa
metodologia, a �m de buscar um constante aprimoramento dessa
técnica.
Justiça Restaurativa – com um aumento signi�cativo do número de
delitos cometidos no Brasil, fez-se necessário o uso de novas medidas
judiciais, mais adequadas e e�cientes a cada situação, sugerindo-se
assim a implementação da Justiça Restaurativa no país. Esse modelo de
justiça, opcional e de certa forma informal, pressupõe uma interação de
conversação entre as partes envolvidas em um con�ito (ofensor, vítima e
comunidade, se necessário), sob a orientação de um facilitador, com o
objetivo de solucionar esse con�ito, em comum acordo, reparando o
dano sofrido pela vítima e restaurando o vínculo entre as partes. Assim, a
Justiça Restaurativa leva em consideração, além da aplicação de uma
punição ao infrator, os aspectos emocionais e comunitários envolvidos
no con�ito (PINTO, 2005; PRUDENTE, 2008).
Como práticas restaurativas dentro dos programas de Justiça
Restaurativa existem três principais possibilidades, por meio das quais o
psicólogo poderá trabalhar na função de facilitador: mediação entre
vítima e ofensor, conferências de família e círculos restaurativos. Na
mediação entre vítima e ofensor, as partes encontram-se para, com o
auxílio de um facilitador capacitado a propiciar diálogo, conversar
acerca do con�ito ocorrido, de�nir responsabilidades sobre o fato e, de
alguma forma, reparar a vítima pelo dano sofrido. Em momento anterior
a essa etapa, é possível o encontro, em separado, da vítima e do ofensor
com o facilitador para que as partes sintam-se melhor preparadas para o
encontro restaurativo posterior (PALLAMOLLA, 2009).
Nas conferências de família, o processo é similar ao da mediação,
porém, ocorre geralmente quando o infrator prejudica mais pessoas
além de uma só vítima. Nesses casos, participam familiares, amigos e
comunidade das partes que auxiliam na elaboração do acordo de
reparação da(s) vítima(s). Utiliza-se com frequência essa prática nos
casos que envolvem adolescentes autores de atos infracionais
(PALLAMOLLA, 2009).
Os círculos restaurativos são utilizados pelo programa da Justiça
Restaurativa e em outros casos, como para resolução de um con�ito
escolar, por exemplo, sem o envolvimento do Poder Judiciário. Na
utilização pela Justiça Restaurativa, além da presença da(s) vítima(s) e
do(s) ofensor(es), para a discussão e reparação de um con�ito,
participam amigos, família, comunidade das partes além de qualquer
outro sujeito que queira se integrar ao círculo (PALLAMOLLA, 2009).
Com o objetivo de auxiliar no processo, o facilitador, presente em
todas as etapas das práticas restaurativas, tem como função incitar o
diálogo entre as partes, induzindo para que tomem as rédeas da
situação e apresentem papel ativo na resolução e reparação do con�ito.
Buscando afastar laços de hostilidade entre as partes, o facilitador deve
trabalhar no sentido de propiciar uma negociação direta entre os
envolvidos, coordenando o processo a �m de evitar possíveis excessos
(AZEVEDO, 2005; PINTO, 2005). Para essa tarefa, assim como na mediação,
podem ser recrutados psicólogos bem como pro�ssionais de outras
formações, como Serviço Social e Direito, por exemplo. Visto que a
formação do psicólogo é voltada ao entendimento dos processos
mentais, envolvendo a prática de técnicas que possibilitam adequado
manejo das relações humanas, torna-se de grande valia a participação
desse pro�ssional na atuação como facilitador, podendo contribuir mais
assertivamente na reparação do con�ito estabelecido.
Considerações �nais
Este capítulo teve como objetivo caracterizar brevemente as
principais formas de atuação do psicólogo jurídico. A maioria das
atividades citadas será melhor descrita e aprofundada nos capítulos
seguintes da obra. Importante salientar que as possibilidades de
trabalho não se esgotam nas aqui mencionadas, uma vez que a
Psicologia Jurídica é uma área ainda em desenvolvimento e, portanto,
novas demandas nessa interface com o Direito podem surgir.
Independentemente da prática que o psicólogo jurídico exerça, vale
ressaltar que deverá agir pautado em princípios éticos, respeitando os
limites da ciência psicológica. Algumas solicitações advindas dos
operadores do Direito podem exigir respostas categóricas que nem
sempre a Psicologia poderá fornecer. Importante estar ciente disso e
buscar fortalecer o papel do psicólogo jurídico, por meio de trabalhos de
qualidade, que, de fato, contribuam com o Direito, proporcionando,
assim, benefícios àqueles indivíduos envolvidos na demanda.
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CAPÍTULO 2
ELABORAÇÃO DE DOCUMENTOS PSICOLÓGICOS
NO CONTEXTO FORENSE
Sonia Liane Reichert Rovinski
A elaboração de documentos por parte dos psicólogos adquire
especial relevância quando sua atuação ocorre dentro do contexto
forense. Nesse contexto de trabalho, vale a premissa da ‘realidade dos
autos’, em que os fatos passam a existir a partir de sua inserção
documental no processo. Assim, o alcance das informações trazidas pelo
psicólogo estará diretamente relacionado à sua capacidade para a
escrita de tais documentos, em que cuidados éticos e metodológicos
serão essenciais para o exercício de uma boa prática pro�ssional.
No contexto forense, são dois os documentos de interesse técnico: o
laudo pericial e o parecer técnico. O uso de cada um deles estará
diretamente relacionado ao tipo de atividade desempenhada pelo
psicólogo na dinâmica do processo judicial. Conforme a atual legislação
(BRASIL, 2015), sempre que se �zer necessária a prova técnica �ca
previsto tanto o trabalho do perito o�cial quanto o do assistente técnico.
O psicólogo perito tem como função assessorar o juiz na matéria que lhe
compete, é pessoa de con�ança deste agente jurídico e apresenta seu
trabalho em um documento denominado laudo. Já o psicólogo
assistente técnico é pessoa de con�ança da parte litigante e tem como
função auxiliá-la naquilo que considerar correto, com o objetivo de
garantir os direitos de seu cliente nas questões que se relacionam à
prova técnica, tendo como principal atividade a realização de um
parecer crítico frente ao laudo do perito. Assim, os documentos
produzidos por esses pro�ssionais possuem �nalidades diferentes e
terão peculiaridades especí�cas quanto à estrutura e ao conteúdo.
Independente das diferenças que os referidos documentos possam
apresentar, tanto o laudo quanto o parecer crítico remetem-nos ao
campo comum da interdisciplina por serem solicitados por pro�ssionais
de uma área diferente da Psicologia, no caso, por pro�ssionais da área do
Direito (RAMIRES, 2006). Essa intersecção de áreas de conhecimento
distintas produz questões éticas complexas, na medida em que exige a
integração de visões epistemológicas diferenciadas, produzidas tanto
pelo mundo do dever ser do Direito quanto pelo mundo do ser da
Psicologia (ROVINSKI, 2013).
Discutir a produção dos diferentes tipos de documentos psicológicos
no contexto forense nos obriga, em primeiro lugar, a abordar questões
que são pertinentes atoda e qualquer escrita realizada nesse campo
interdisciplinar e, após, a buscar as especi�cidades relacionadas às
funções de cada um deles. Assim, se inicia este capítulo com a
apresentação das questões comuns referentes às contradições
decorrentes do campo interdisciplinar, dos cuidados éticos necessários e
das demandas da escrita técnico-cientí�ca, para depois especi�car as
diferenças de estrutura e conteúdo próprias a cada um dos documentos.
O campo da interdisciplinaridade
A literatura tem demonstrado que os autores tendem a compartilhar
a ideia de que Psicologia e Direito possuem um mesmo objeto de
intervenção quando buscam a compreensão e a predição da conduta
humana (URRA, 2002). No entanto, diferenças importantes seriam
observadas quanto aos valores, premissas básicas e métodos de
aproximação e compreensão dessas duas ciências. Conforme Melton et
al. (1997), diferenças epistemológicas e de concepção de mundo não
teriam como ser eliminadas e precisariam ser administradas por aqueles
técnicos que fossem atuar nesse contexto de trabalho. Para os autores,
os dois pontos de maior importância quanto a essas incompatibilidades
dizem respeito à concepção de homem e à natureza dos fatos
abordados.
Em relação à primeira questão-problema, temos a controvérsia do
livre arbítrio versus determinismo. Enquanto a Psicologia busca a
explicação ou previsão dos fatores que determinam a conduta, o Direito
precisa estabelecer responsabilidades individuais, por meio do
pressuposto de que o homem é livre por natureza. Para a Psicologia, que
busca em suas teorias a explicação ou justi�cativa da conduta, �ca difícil
justi�car a ideia de comportamentos ‘voluntários’, conceito essencial
para a aplicação da pena pelo agente jurídico. Assim, na escrita dos
documentos, muito cuidado deve ser tomado quando a demanda
jurídica exigir que se discuta sobre conceitos que envolvam a
compreensão de motivação, de liberdade ou autodeterminação. Para os
autores anteriormente mencionados, nesse campo interdisciplinar, a
melhor solução estaria no psicólogo evitar opiniões sobre a questão �nal
da matéria legal, sempre que esse posicionamento não �zesse sentido
para o paradigma da própria Psicologia, evitando-se que termos
psicológicos possam ser mal interpretados pelos agentes jurídicos. Em
outras palavras, os dados psicológicos que forem apresentados nos
documentos escritos devem ser fornecidos aos agentes jurídicos de
modo a que façam sentido para a demanda legal, mas sempre deixando
a esses últimos o julgamento moral.
A segunda questão diz respeito à natureza dos fatos. Na Psicologia,
a construção do referencial teórico ocorre por intermédio da
experimentação cientí�ca, na comparação de grupos e sujeitos,
chegando-se sempre a achados probabilísticos. Para o Direito, que
necessita aplicar a lei, por meio de decisões irrevogáveis, há a
necessidade de se trabalhar com ‘níveis de certeza’. Em função dessa
exigência, muitas vezes, na tentativa de ter seu informe aceito pelos
agentes jurídicos, o psicólogo sente-se pressionado a expressar seus
achados com níveis de certeza que não podem ser justi�cados pela
ciência. Para Melton et al. (1997), a ética obrigaria os pro�ssionais a
serem explícitos quanto aos níveis de certeza de seus dados, ainda que
com esse procedimento seus documentos pudessem perder força como
prova nos tribunais. A preocupação dos psicólogos deveria voltar-se
tanto para o aumento do grau de certeza de suas hipóteses, mediante o
incremento de pesquisas empíricas, quanto para a busca da
sensibilização dos agentes jurídicos em relação aos problemas básicos
de predição e �exibilidade que se constituem em limitações de seu
trabalho técnico (LÖSEL, 1992).
Para �nalizar, cabe salientar o risco que corre o psicólogo na escrita
de seus informes, nesse campo interdisciplinar, quanto à possível
contaminação com a lógica discursiva típica dos agentes jurídicos. Para
o Direito, o �m último de sua atuação será sempre a busca da ‘justiça’,
podendo-se, para tanto, utilizar a lógica da argumentação, com uma
apresentação dos fatos que leve ao convencimento ou à persuasão da
vontade daquele que tem o poder de tomada de decisão. A Psicologia,
de modo contrário, deve utilizar a lógica formal, mediante o uso de
métodos cientí�cos de pesquisa, para demonstrar seus achados
(ROVINSKI, 2013). A Psicologia também deve manter seu compromisso
com a justiça, mas sua prática é pautada pela imparcialidade e pelo
limite da ciência. Nessa prática interdisciplinar, é relativamente comum
encontrarem-se procedimentos dos agentes jurídicos no sentido de
distorcer ou desquali�car os achados descritos em informes
psicológicos, gerando relacionamentos tensos entre os pro�ssionais.
Cabe ao psicólogo forense compreender que tais procedimentos dizem
respeito ao enquadre de atuação daqueles pro�ssionais e que eles não
podem pontuar sua argumentação, sob o risco de desquali�car os
documentos produzidos.
O psicólogo forense deve manter-se sempre dentro do referencial
teórico e técnico da Psicologia, respeitando as limitações quanto ao tipo
de conhecimento que pode oferecer e ao alcance de seus dados. Ainda
que seus achados tendam a �car em níveis baixos de certeza em relação
ao que é esperado pelo judiciário, o corpo de conhecimento oferecido
trará sempre contribuições para a melhor compreensão do fato que está
sendo julgado. Deve-se lembrar de que qualquer tentativa de exagero
quanto aos achados ou à própria capacidade do pro�ssional será sempre
um desserviço ao Sistema de Justiça.
Princípios éticos na produção de documentos
As questões éticas relacionadas à produção de documentos forenses
iniciam-se muito antes da escrita desses documentos, envolvendo
cuidados quanto às relações estabelecidas com os diferentes atores e os
procedimentos de avaliação propriamente ditos. Conforme Bush,
Connell e Denney (2006), o contexto adversarial que caracteriza o
ambiente forense tende a criar relações de hostilidade entre os
diferentes pro�ssionais que ali atuam e, mesmo, entre os pro�ssionais
psicólogos que exercem os diferentes papéis na dinâmica processual
(perito x assistente técnico), gerando riscos à objetividade e à
�dedignidade dos dados colhidos para o processo de avaliação. Para os
autores, os princípios éticos baseados nos valores humanos de respeito à
autodeterminação e de garantias de não prejuízos à saúde deveriam
direcionar a atividade técnica, de modo a gerar documentos que
apresentassem um trabalho competente, baseado em informações e
procedimentos que pudessem fundamentar su�cientemente os achados
e os resultados apresentados.
O Conselho Federal de Psicologia, responsável pela regulamentação
da atividade dos psicólogos, já tem editado diversas resoluções
normativas que tratam da prática do psicólogo forense, com o objetivo
de garantir um trabalho mais ético. No entanto, é no Código de Ética
Pro�ssional do Psicólogo (CEPP) que vamos encontrar as diretrizes
básicas de nossa deontologia. O atual CEPP, editado em 2005 (CFP, 2005),
difere do anterior por não possuir nenhuma seção especí�ca que trate
das relações com a Justiça, obrigando o psicólogo, em sua prática
forense, a buscar as orientações necessárias nas determinações
genéricas do Código.
Shine (2009), em uma pesquisa com laudos das Varas de Famílias da
cidade de São Paulo, que foram denunciadas por má prática ao Conselho
Regional de Psicologia, identi�cou alguns artigos do CEPP como os mais
citados na fundamentação de tais denúncias. O primeiro deles trata
sobre os deveres fundamentais do psicólogo, de: “Prestar serviços
psicológicos em condições de trabalho e�cientes, de acordo com os
princípios e técnicas reconhecidos pela ciência, pela prática e pela ética
pro�ssional” (Art. 1º, alínea ’c’, CEPP); o segundo refere-se ao que é
vedado à pratica pro�ssional, de: “Estabelecer com a pessoa do atendido
relacionamento que possa interferir negativamente nos objetivos do
atendimento” (Art. 2º, alínea ‘m’, CEPP). Tais artigos, como se pode
observar, referem-se, respectivamente, a problemasno uso da técnica
pro�ssional (desde os procedimentos iniciais de avaliação pericial até a
escrita do documento) e no estabelecimento do tipo de relacionamento
com o sujeito atendido (geralmente quando o pro�ssional envolve-se na
defesa de interesses das partes litigantes), con�rmando que, muitas
vezes, problemas apontados em documentos forenses produzidos por
psicólogos não se referem à própria escrita ou à sua estrutura, mas a
procedimentos técnicos de avaliação e à postura pro�ssional anteriores
à confecção do documento. A discussão sobre tais problemas não se
encontra no escopo deste capítulo, mas deve estar presentes no
horizonte do pro�ssional que se pronti�car a atuar nessa área de
trabalho com competência e ética.
A Resolução 07/2003 (CFP, 2003), que trata do Manual de Elaboração
de Documentos Escritos produzidos pelo Psicólogo, descreve os
cuidados éticos a serem respeitados nesse tipo de produção em três
grandes áreas: das relações com a pessoa atendida, sigilo e alcance das
informações. Na área das relações com a pessoa atendida, o Código de
Ética Pro�ssional do Psicólogo (CFP, 2005) veda: “Ser perito, avaliador ou
parecerista em situações nas quais seus vínculos pessoais ou
pro�ssionais, atuais ou anteriores, possam afetar a qualidade do
trabalho a ser realizado ou a �delidade aos resultados da avaliação” (Art.
2º, alínea ‘k’, CEPP, 2005). Essa orientação busca impedir, principalmente,
que se confundam os vínculos terapêuticos com os de trabalho pericial.
Isso porque, no primeiro existe um contrato de sigilo que uma vez
estabelecido não poderá ser rompido por outro que não tenha essa
mesma abrangência. Assim, uma vez tendo estabelecido vínculo
terapêutico com a pessoa do atendido, independente do tempo que
possa ter transcorrido desse atendimento, o pro�ssional não poderá
mais exercer frente ao paciente o papel de perito ou parecerista.
Na área relacionada ao sigilo devem ser observados os seguintes
artigos do CEPP (CFP, 2005):
Art. 9º É dever do psicólogo respeitar o sigilo pro�ssional a �m de proteger, por
meio da con�dencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a que
tenha acesso no exercício pro�ssional.
Art. 10 Nas situações em que se con�gure con�ito entre as exigências decorrentes
do disposto no Art. 9º e as a�rmações dos princípios fundamentais deste Código,
excetuando-se os casos previstos em lei, o psicólogo poderá decidir pela quebra de
sigilo, baseando sua decisão na busca do menor prejuízo.
Parágrafo único – Em caso de quebra de sigilo previsto no caput deste artigo, o
psicólogo deverá restringir-se a prestar as informações estritamente necessárias.
Art. 11 Quando requisitado a depor em juízo, o psicólogo poderá prestar
informações, considerando o previsto neste código.
As questões de quebra de sigilo no CEPP dizem respeito mais aos
pro�ssionais da área da saúde, que, eventualmente, são chamados para
depor em juízo sobre pacientes que estão aos seus cuidados. Esses casos
devem ser analisados com cuidado, pois o pro�ssional não tem a
obrigação de romper com o contrato de sigilo prévio estabelecido
apenas porque foi chamado pelo juiz. A quebra de sigilo necessita de
argumentos fortes, que possam ser justi�cados por meio dos princípios
fundamentais do Código de Ética e, geralmente, se relacionam à
segurança (física ou psíquica) de seu paciente ou pessoas próximas a ele.
Por outro lado, deve-se lembrar de que o paciente tem o direito de
solicitar do psicólogo terapeuta informações de seu prontuário, desde
que expresse e assine sua autorização. Essa prática é respaldada pelo Art.
10 da Resolução 08/2010 (CFP, 2010), no qual �ca vedado ao psicólogo:
Produzir documentos advindos do processo psicoterápico com a �nalidade de
fornecer informações à instância judicial acerca das pessoas atendidas, sem o
consentimento formal destas últimas [...]. (grifo da autora do capítulo).
Na realização de laudos periciais, o pro�ssional perito está
compromissado em informar ao juiz os dados psicológicos pesquisados
que são pertinentes à questão legal, não possuindo com seu cliente o
mesmo contrato de sigilo que se tem no contexto clínico. Mesmo assim,
a comunicação deve respeitar normas éticas, de modo a preservar
dentro do possível o sigilo das informações. Em função de os
documentos forenses transitarem em um contexto interdisciplinar, a
decisão quanto ao que deve ser informado aos agentes jurídicos segue
as orientações do Código de Ética quanto à comunicação com
pro�ssionais não psicólogos, conforme é especi�cado no Art. 6º, alínea
‘b’: “Compartilhará somente informações relevantes para quali�car o
serviço prestado, resguardando o caráter con�dencial das
comunicações, assinalando a responsabilidade, de quem as receber, de
preservar o sigilo” (CFP, 2005). Aqui, o sentido de ‘informações
relevantes’ relaciona-se ao princípio da pertinência, em que apenas os
dados relevantes para a matéria legal e/ou aqueles que justi�cam as
conclusões do perito devem ser comunicados.
Outro artigo que deve ser trazido à discussão é aquele que se refere
ao relacionamento com os meios de comunicação. É relativamente
comum que situações que envolvam violência tenham repercussão na
mídia, colocando os peritos forenses em evidência quando se buscam
respostas a esses problemas. Diz o Código: “Art. 2º – Ao psicólogo é
vedado: q) Realizar diagnósticos, divulgar procedimentos ou apresentar
resultados de serviços psicológicos em meios de comunicação, de modo
a expor pessoas, grupos ou organizações” (CFP, 2005). Portanto, não cabe
ao psicólogo comentar com a mídia casos de repercussão nos quais
possa ter atuado, e não poderá emitir opiniões técnicas sobre pessoas
que não conheceu e que não estiveram sob sua avaliação.
Quanto à devolução dos resultados da avaliação devem ser
consideradas as seguintes alíneas do Artigo 1º que trata das
responsabilidades do psicólogo:
f ) Fornecer, a quem de direito, na prestação de serviços psicológicos, informações
concernentes ao trabalho a ser realizado e ao seu objetivo pro�ssional;
g) Informar, a quem de direito, os resultados decorrentes da prestação de serviços
psicológicos, transmitindo somente o que for necessário para a tomada de decisões
que afetem o usuário ou bene�ciário;
h) Orientar, a quem de direito, sobre os encaminhamentos apropriados, a partir da
prestação de serviços psicológicos, e fornecer, sempre que solicitado, os
documentos pertinentes ao bom termo do trabalho. (CFP, 2005).
As alíneas que tratam desse assunto referem-se sempre à devolução
para aquele que ‘de direito’ deve receber as informações. Cunha (1993)
entende, de maneira geral, que a devolução é de responsabilidade de
quem encaminhou o processo, isto é, se o pedido de uma avaliação for
feito pelo médico ou juiz, é a eles que os resultados devem ser
remetidos, cabendo-lhes a comunicação aos avaliados. Nesse caso, não
estaria o psicólogo se abstendo da devolução, mas apenas
encaminhando-a a quem seria o receptor do processo.
Outro aspecto a ser considerado é a dinâmica processual. É temerário
o psicólogo oferecer ao sujeito uma devolução antes de encaminhar ao
juiz os resultados levantados, considerando-se que esse fato poderia
interferir nos prazos processuais de defesa, que passam a contar a partir
da ciência das partes do documento emitido pelo perito (BRASIL, 2015).
Nada impede que o psicólogo forense coloque-se à disposição do
periciado para o esclarecimento de dúvidas em relação ao laudo, mas
apenas após o documento tornar-se público em audiência com o juiz ou
através de publicação o�cial. Conforme Rovinski (2013), deve-se tomar
cuidado para não criar uma via de comunicação independente ao
processo judicial, quando o psicólogo deixaria seu papel de assessor dos
agentes jurídicos para assumir a coordenação do próprio processo. Esse
tipo de atitude extrapolaria a função da perícia e colocaria o pro�ssional
frente a situações que não poderia manejar.
Concluindo, pode-se a�rmar que discutir ética na escrita de
documentos pressupõe revisar procedimentos técnicos quantoà prática
pro�ssional, quando, independente do contexto de trabalho e do nível
de con�dencialidade, cuidados deverão ser tomados em relação ao que
será escrito e da forma como será escrito, evitando-se uma prática
iatrogênica. O Código de Ética Pro�ssional do Psicólogo é a principal
referência e deve orientar os psicólogos desde as primeiras etapas do
trabalho de avaliação até a escrita do relatório. Nesse sentido, os autores
Melton et al. (1997) e Heilbrun (2001) sugerem a revisão dos
procedimentos técnicos em três grandes momentos: pré, durante e pós-
avaliação. Os cuidados com a construção dos documentos forenses se
encontram inseridos nessa última etapa, quando se deveriam: respeitar
a relevância dos dados para a questão jurídica (evitar detalhes que
possam embaraçar o periciado ou pôr em risco seus direitos, evitar
conclusões valorativas que são pertinentes aos agentes jurídicos);
fundamentar suas conclusões nos achados que foram descritos; referir as
fontes de suas informações e evitar linguagem excessivamente técnica.
Princípios técnicos da linguagem escrita
Os documentos forenses escritos por psicólogos devem seguir a
redação o�cial utilizada para as diferentes esferas do poder público. Essa
redação se caracteriza por uma comunicação técnico-cientí�ca de
natureza o�cial, que tem como destinatário o juízo que determinou a
perícia. Para Lichtenberger et al. (2004), a importância da qualidade do
texto apresentado no relatório diz respeito não somente à capacidade
de escrita do psicólogo, mas também se re�ete na credibilidade do leitor
quanto à capacidade técnica daquele para a atividade de avaliação
psicológica.
Segundo Brandimiller (1996), a redação o�cial que caracteriza o
laudo e o parecer crítico deve pautar-se pelo padrão culto de linguagem
(denotativo), pela impessoalidade e pela formalidade e padronização.
Explica o autor que esse estilo de linguagem implica não somente na
correção gramatical, mas no uso de vocabulário universal, em que se
evita o uso de gírias e termos regionais. O padrão culto de linguagem
exige o empenho na busca de palavras certas para o que se quer
expressar e construções sintáticas adequadas para assegurar a fácil
compreensão do texto e sua precisão. A linguagem denotativa signi�ca o
uso das palavras e expressões no sentido próprio e literal, sem o uso de
sentido �gurado ou metafórico. A impessoalidade signi�ca que o sentido
dado à matéria é impessoal, ainda que tenha uma exclusiva autoria. A
comunicação é feita entre sujeitos que naquele momento estão
investidos em determinada função. Assim, o autor do documento deve
utilizar a terceira pessoa do singular para referir-se a si mesmo e dar
preferência ao uso dos termos como autor e réu (ou requerente e
requerido), após identi�car os sujeitos da ação. Por �m, a padronização
diz respeito às características relativas à forma e à estrutura dos
documentos, como será visto mais adiante.
A Resolução 07/2003 (CFP, 2003), que trata do Manual de Elaboração
de Documentos Escritos produzidos pelo Psicólogo, apesar de não
especi�car os documentos da área forense, descreve princípios técnicos
semelhantes da linguagem escrita, sempre com a preocupação de
favorecer a e�cácia da comunicação. Conforme especi�cado nessa
Resolução, os documentos devem apresentar uma redação bem
estruturada e de�nida para expressar o que se quer comunicar, além de
ter uma ordenação que possibilite a compreensão por quem os lê,
fornecida pela estrutura, composição de parágrafos ou frases e correção
gramatical. O emprego de frases e termos deve ser compatível com as
expressões próprias da linguagem pro�ssional, evitando a diversidade
de signi�cações da linguagem popular, considerando a quem o
documento será destinado. A comunicação deve ter clareza, concisão e
harmonia. A clareza se traduz pela estrutura frasal, sequência ou
ordenamento adequado dos conteúdos, explicitação da natureza e
função de cada parte na construção do todo. A concisão se veri�ca no
emprego da linguagem adequada, da palavra exata e necessária,
buscando o equilíbrio entre uma redação lacônica ou o exagero de uma
redação prolixa. Por �m, a harmonia se traduz na correlação adequada
das frases, no aspecto sonoro e na ausência de cacofonias.
As peculiaridades relacionadas ao propósito dos documentos escritos
no contexto forense também resultarão em diferenças quanto à escrita.
A primeira diferença é que esse tipo de relatório não será dirigido a
outros pro�ssionais da área da Psicologia, mas a pro�ssionais da área do
Direito, que não estão acostumados à área de conhecimento. Assim, é
fundamental que se evitem jargões técnicos, ou, se for estritamente
necessário, que sejam explicados para o público leigo (MELTON et al.,
1997). O uso excessivo de termos técnicos pode ser considerado
‘exibicionismo’ por parte do relator, que além de di�cultar a
compreensão do problema poderá gerar constrangimento no
esclarecimento dos fatos. O mesmo cuidado deve ser dado quanto ao
uso de acrônimos ou de abreviaturas, que podem não ser do
conhecimento dos agentes jurídicos (por exemplo, usar TDAH para
Transtorno do Dé�cit de Atenção com Hiperatividade) (HUSS, 2011;
LICHTENBERGER et al., 2004). Outro aspecto a ser considerado diz
respeito ao processo judicial propriamente dito, isto é, à dinâmica
adversarial, quando o relatório é escrutinado por aquele que não tiver
interesse em seus resultados, com o objetivo de desquali�cá-lo. Nesse
momento, a presença de baixa qualidade de escrita será motivo para
desquali�car ou mesmo embaraçar seu relator (MELTON et al., 1997).
Por �m, chamamos a atenção, ainda, quanto aos riscos na forma de o
perito apresentar seus argumentos. Segundo Cruz (2005, p. 275), quatro
problemas deveriam ser evitados nessa questão. Primeiro, o psicólogo
não pode emitir juízo de valor, usando expressões do tipo
“personalidade fraca” ou “bom temperamento”. Segundo, deve evitar a
expressão de “dogmas”, como “apesar de instável, acreditamos em seu
pleno restabelecimento”. Terceiro, deve cuidar com incorreções teóricas
e técnicas, como o uso de expressões do tipo: “falta maturidade” ou “não
dispõe de recursos intelectuais”. Por �m, deve evitar impropriedade na
escrita e no uso de termos, como a expressão “seu desempenho na
avaliação foi muito razoável”.
Princípios técnicos de estruturação dos documentos
Os principais documentos técnicos utilizados no contexto forense,
seja na área cível ou na criminal, são o laudo por parte do perito e o
parecer crítico por parte do assistente técnico. Em função de esses
documentos apresentarem �nalidades diferenciadas, apresentarão
estrutura própria compatível com sua especi�cidade técnica. Ambos os
documentos estão previstos na Resolução 07/2003 (CFP, 2003), que trata
do Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo
Psicólogo, ainda que ali não sejam abordados quanto ao seu uso no
contexto forense. Assim, nesta seção discorre-se sobre as orientações
gerais do Conselho Federal de Psicologia quanto à estrutura desses
documentos, relacionando-as com o campo atual do conhecimento
cientí�co e buscando complementá-las com outras informações
necessárias para sua adaptação ao contexto legal. Os documentos laudo
e parecer serão discutidos separadamente.
1. Laudo Psicológico
A literatura que aborda propostas sobre a estrutura do Laudo
Psicológico forense tem enfatizado a importância de se evitar a busca de
uma estrutura única e in�exível de laudo, que teria apenas a função de
reforçar uma postura dogmática e mecanicista de seu relator (BIRCZ-
MINIAN, 2001). O mais importante seria compreender a �nalidade e os
limites éticos do documento proposto para, então, de�nir os conteúdos
mínimos que deveriam estar presentes, de modo a garantir a qualidade
técnica. De maneira geral, o laudo deveria ser compreensível para uma
audiência leiga, incluindo os dados mais relevantes para a questão legal,
com suas respectivas fontes de informação (PACKER; GRISSO, 2011).
Para Karson e Nadkarni (2013), o laudo forense é um documento de
comunicação sobrecomportamentos de pessoas especí�cas para um
tipo especí�co de audiência. Em outras palavras, o laudo deve ser
entendido como um estudo de caso, em que se conta ‘uma história’ de
um sujeito, fundamentada em fatos e com a proposta de responder a
uma questão referencial (demanda legal). O relator deve incluir em seu
relatório apenas dados convincentes e que possuam con�abilidade,
sobre os quais construirá sua análise e fundamentará suas opiniões.
Cuidados devem ser tomados tanto frente a possíveis vieses de
interpretação do relator quanto do leitor do documento. Para aquele
que escreve o laudo é fundamental considerar todas as interpretações
possíveis dos dados levantados, e também as limitações surgidas pela
falta de outros que não se conseguiu obter, seja porque não faziam parte
do escopo da avaliação ou porque não estavam disponíveis ao perito.
Para o leitor, é fundamental que a escrita do laudo seja feita de tal forma
concisa, objetiva e fundamentada que não permita a ele a liberdade de
escolha frente aos dados apresentados, de modo a fazer sua própria
interpretação. É necessário que o relator seja preciso em suas
informações, expondo suas ideias sem deixar dúvidas ou margens para
interpretação.
Na de�nição dos dados que devem compor o documento, Packer e
Grisso (2011) concordam com a maioria dos autores de que o psicólogo
forense não pode informar mais do que é necessário para responder à
questão legal que lhe é formulada, mas também não pode informar
menos do que o necessário, de modo a deixar suas conclusões sem
justi�cativas. Assim, a boa prática exige que o relatório �nal inicie com
uma apresentação dos dados colhidos (aqui denominados dados
brutos), para, a seguir, acrescentar-se a seção das inferências teóricas e
das interpretações do examinador – quando não poderiam ser
discutidos dados que não constassem da apresentação inicial.
Quanto ao volume de dados que devem compor o relatório, o
posicionamento dos autores nem sempre é consensual. Para Melton et
al. (1997), existem diversas escolas de pensamento sobre a extensão de
um relatório forense. De um lado, estariam aqueles que propõem a
realização de relatórios muito curtos, com o objetivo de evitar o
fornecimento de informações que pudessem ser manipuladas pelos
advogados. O problema, nesses casos, é que esse tipo de documento não
atenderia às exigências mínimas de um relatório que se propõe a ser
uma prova técnica, no qual as conclusões devem ser devidamente
fundamentadas. De outro lado, teríamos aqueles estudiosos que
advogam a realização de documentos extensos, em que todos os dados
obtidos deveriam ser relatados. O resultado, em tais casos, é de se
incluírem informações não relevantes, redundantes ou até equivocadas,
prejudicando a compreensão do leitor.
A regra para de�nir qual dado deve integrar o relatório está baseada
no conceito de pertinência. Decidir sobre o que é importante para a
questão legal que deu origem ao relatório é uma das habilidades
fundamentais que distingue o trabalho do psicólogo forense dos demais
técnicos que possam vir a prestar depoimentos. Cabe ao perito
psicólogo ter a competência necessária para traduzir as demandas
jurídicas em teorias, construtos e comportamentos possíveis de serem
observados e que possuam relevância para a melhor compreensão da
questão legal (PACKER; GRISSO, 2011). Os dados que fundamentarão as
conclusões do relatório devem estar presentes no documento, de modo
a justi�car o posicionamento técnico, sempre com a identi�cação de sua
fonte de origem, possibilitando ao leitor o conhecimento de onde foram
obtidos.
A tomada de decisão sobre o que deve ser relatado no laudo também
envolve alguns questionamentos éticos. Ainda que o trabalho pericial
não pressuponha a garantia do sigilo às informações obtidas, cabe ao
perito psicólogo questionar-se se as informações que serão prestadas
são realmente necessárias. Nesse sentido, Karson e Nadkarni (2013)
estabeleceram algumas perguntas que o pro�ssional deveria fazer a si
mesmo para ajudar nessa tomada de decisão. São elas: a) há razões para
acreditar que tal informação pode embaraçar o periciado ou causar
algum viés interpretativo por parte do leitor? b) esta informação é
pertinente aos argumentos psicológicos que sustentarão as conclusões?
c) os argumentos psicológicos podem ser estabelecidos sem este dado
de informação? d) o efeito prejudicial pode ser reduzido ou eliminado se
forem esclarecidas as razões de se relatar tal fato, ou os cuidados que o
leitor deve ter em sua interpretação? Por �m, ao se decidir pela
necessidade da escrita dos dados no laudo, �ca a orientação proposta
por Silva (2013) sobre o cuidado ético de se salientar que os resultados
descritos são relativos àquele momento do periciado, não podendo ser
considerados permanentes ou imutáveis.
Na discussão sobre a qualidade dos laudos psicológicos forenses,
outra questão importante levantada pela maioria dos autores é o
estabelecimento de uma distinção clara no relatório da apresentação
dos dados brutos em relação à apresentação das inferências, devendo
cada um deles ser tratado preferencialmente em seções diferenciadas.
Dados brutos são considerados, aqui, como todo o material clínico de
observação direta do sujeito, informações de história e resultados de
testagem, enquanto que as inferências são resultados dos construtos
teóricos inferidos a partir desses dados e que, posteriormente,
justi�carão o posicionamento do técnico frente à questão legal
(KARSON; NADKARNI, 2013; MELTON et al., 1997; PACKER; GRISSO, 2011).
Para Groth-Marnat (2003), a maioria das críticas aos laudos
psicológicos não é direcionada aos dados brutos que os psicólogos
levantam em suas avaliações, mas às inferências e generalizações que
realizam sobre esses dados. Assim, os técnicos precisam estar
preparados para fornecer o nível de segurança de suas informações
através dos fundamentos do método cientí�co para pessoas que não
têm essa abordagem em seu enfoque de trabalho. Para Karson e
Nadkarni (2013), o nível de certeza pode ser comunicado por intermédio
de um índice numérico, se ele estiver disponível, ou através de assertivas
verbais quando aquele não existir. Essas assertivas devem expressar o
grau de coerência e o quanto de sentido que as explicações teóricas
possuem para o problema em questão. O psicólogo não deve esquecer
que as situações-problema que lhe são trazidas para investigação são,
em sua maioria, extremamente complexas, envolvendo a relação de
inúmeras variáveis, e o grau de coerência de suas teorias explicativas
pode ser acentuado pela limitação dos dados acessados que, se
estivessem presentes, poderiam gerar novas dúvidas e inconsistências.
Para os autores, expressões do tipo convincente, su�ciente,
preponderante, poderia ser ou não há dados su�cientes para
corroborar comunicam níveis diferentes de certeza por parte do
avaliador.
No Brasil, o Manual de Elaboração de Documentos Escritos
produzidos pelo Psicólogo (CFP, 2003) regulamenta o uso do Laudo
Psicológico entre esses pro�ssionais. É importante salientar que essa
Resolução proposta pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) é
genérica, direcionada a todas as áreas de atuação, exigindo adaptação
para atender às exigências especí�cas de cada contexto em que for
aplicada.
Na Resolução mencionada, o Relatório/Laudo Psicológico é
considerado “uma apresentação descritiva acerca de situações e/ou
condições psicológicas e suas determinações históricas, sociais, políticas
e culturais, pesquisadas no processo de avaliação psicológica”, cujos
resultados devem se apresentados à luz de um instrumental técnico,
consubstanciado em referencial técnico-�losó�co e cientí�co adotado
pelo psicólogo. A sua �nalidade será de “apresentar os procedimentos e
conclusões gerados pelo processo de avaliação psicológica”,
considerando-se o cuidado na limitação de “fornecer somente as
informações necessárias relacionadas à demanda, solicitação ou
petição” (CFP, 2003).
A estrutura básica proposta para o Relatório/Laudo compõe-se de
cinco elementos:1) Identi�cação; 2) Descrição da Demanda; 3)
Procedimento; 4) Análise; 5) Conclusão. Exatamente pela falta de
especi�cidade da resolução ao contexto forense, a estrutura proposta
para o documento exarado pelo perito não dá conta das exigências
mínimas já discutidas anteriormente pela literatura sobre o tema,
trazendo prejuízos à qualidade do documento que a esta se restringir.
Assim, discute-se, a seguir, cada uma das seções propostas para a
estrutura de Laudo pelo CFP, com o acréscimo de uma discussão crítica,
pertinente e fundamentada para sua adaptação ao contexto legal.
Conforme a Resolução 07/2003, CFP, a primeira parte do
Relatório/Laudo se constitui na seção Identi�cação e tem como
�nalidade a informação de três tópicos:
O autor/relator (quem elabora): aqui deverá(ão) ser colocado(s) o(s) nome(s) do(s)
psicólogo(s) que realizará(ão) a avaliação, com a(s) respectiva(s) inscrição(ões) no
Conselho Regional;
O interessado (quem solicita): o psicólogo indicará o nome do autor do pedido (se a
solicitação foi da Justiça, se foi de empresas, entidades ou do cliente);
O assunto/�nalidade (qual a razão/�nalidade): o psicólogo indicará a razão, o motivo
do pedido (se para acompanhamento psicológico, prorrogação de prazo para
acompanhamento ou outras razões pertinentes a uma avaliação psicológica). (CFP,
2003).
No contexto forense, é de fundamental importância que se incluam,
nessa seção, as informações pertinentes ao processo judicial em
questão. Assim, devem ser incluídos dados sobre o número do processo,
a vara judicial onde ele tramita e o juiz que deferiu a perícia. Também
devem ser identi�cados os sujeitos que são parte no processo e foco da
avaliação psicológica (autor e réu ou requerente e requerido),
geralmente com a presença de um registro de uma carteira de
identi�cação com foto. Nessa parte do documento, é usual que o perito
se quali�que, indicando, de modo sucinto, seus principais títulos e
funções, sem cair em um histórico funcional. No subitem
“assunto/�nalidade”, sugere-se colocar o tipo de ação proposta, por
exemplo, ‘ação de guarda’, ‘ação de curatela’ etc. (BRANDIMILLER, 1996;
SKAF, 1997).
A seção seguinte da estrutura proposta pelo CFP é a Descrição da
Demanda:
Esta parte é destinada à narração das informações referentes à problemática
apresentada e dos motivos, razões e expectativas que produziram o pedido do
documento. Nesta parte, deve-se apresentar a análise que se faz da demanda de
forma a justi�car o procedimento adotado. (CFP, 2003).
A adaptação dessa seção ao contexto forense propõe que aqui sejam
relatados, de modo resumido, os principais fatos alegados na inicial do
processo (BRANDIMILLER, 1996), além de se acrescentar dados novos do
andamento processual que são importantes para a de�nição do foco da
avaliação (ROVINSKI, 2013). Por exemplo, enquanto o assunto/�nalidade
pode ser identi�cado com a expressão ‘Solicitação de guarda e
regulamentação de visita’, aqui devem ser descritos os principais fatos
que geraram o pedido da perícia no processo, por exemplo: ‘O pai pede a
guarda de sua �lha justi�cando atos de negligência e maus tratos por
parte da mãe e de seu atual companheiro. Já foi realizado laudo social
pelo judiciário, que não encontrou tais evidências, levantando a
possibilidade de um processo de alienação parental. Foi solicitada a
avaliação psicológica em todos os sujeitos envolvidos’. Como se pode
observar, trata-se de uma descrição breve, mas que descreve, em rápido
histórico, a dinâmica processual e o foco da perícia. Esse histórico, ainda
que baseado nos dados processuais, terá sua síntese feita pelo psicólogo
responsável pela avaliação pericial.
Grisso (2010), em um trabalho de avaliação da qualidade de laudos
psicológicos forenses, encontrou em mais da metade deles problemas
na apresentação da solicitação forense, com descrições inapropriadas ou
pouco claras quanto ao objetivo. Para o autor, esse tipo de erro pode
estar relacionado às di�culdades do psicólogo em assumir seu papel na
área forense, com consequentes repercussões éticas para o documento.
Conforme Bush, Connell e Denney (2006), a de�nição clara das demandas
da solicitação judicial será determinante para de�nir a atividade do
psicólogo no processo de avaliação, estabelecendo a natureza das
informações que serão coletadas e a extensão dessa coleta quanto ao
que deve ser mantido con�dencial ou não. São limitações que devem ser
esclarecidas com o sujeito da avaliação antes de se iniciar o processo.
A terceira seção da estrutura proposta denomina-se Procedimento e
se constitui nos seguintes elementos:
A descrição do procedimento apresentará os recursos e instrumentos técnicos
utilizados para coletar as informações (número de encontros, pessoas ouvidas etc.) à
luz do referencial teórico-�losó�co que os embasa. O procedimento adotado deve
ser pertinente para avaliar a complexidade do que está sendo demandado. (CFP,
2003).
Mais do que em qualquer outra área pro�ssional, a descrição
detalhada dos procedimentos utilizados na avaliação adquire
fundamental importância para a quali�cação do laudo. Todas as técnicas
e métodos utilizados devem ser especi�cados e as entrevistas
identi�cadas com suas respectivas datas de realização. Para Packer e
Grisso (2011), esse item corresponde à identi�cação das fontes de
informação. E nesse sentido todas as fontes devem ser identi�cadas,
mesmo quando se referirem a terceiros, como contatos com escola,
clínicas de saúde etc. Os autores também salientam a importância de
referir as fontes que não foram obtidas quando se buscou entrevistar um
sujeito e esse se negou a comparecer ou estava impossibilitado por força
maior. Por exemplo, nos casos em que se investigam situações de abuso
intrafamiliar é de fundamental importância distinguir quando o perito
não buscou o contato com o suposto abusador (que seria uma má
prática de perícia) ou quando o abusador negou-se a comparecer ao
chamado. Para os autores, a informação do não comparecimento
demonstraria que o perito não negligenciou essa informação.
Em relação à expressão ‘à luz do referencial teórico-�losó�co que os
embasa’, deve-se acrescentar, nessa seção, os aspectos referenciais que
nortearam a prática ética e metodológica da perícia. A apresentação não
deve ser extensa demais, de modo a perder-se o objeto de estudo, com
valorização excessiva das questões teóricas em detrimento do sujeito
que está sendo investigado. A seguir, um exemplo de como apresentar o
referencial ético e metodológico, considerando tratar-se de um caso em
que o foco da perícia dizia respeito à investigação de possível ocorrência
de abuso sexual contra criança, em situação de litígio familiar:
Procedimentos éticos e referencial teórico:
Os procedimentos éticos utilizados para a presente avaliação seguiram a normativa
do Conselho Federal de Psicologia (CFP), mais especi�camente a Resolução
08/2010, que estabelece os procedimentos técnicos e éticos do perito em
processos judiciais. Seguindo as orientações, os periciados foram informados do
objetivo da perícia e dos procedimentos que seriam utilizados durante o processo
de avaliação, incluindo o nível de sigilo dos dados colhidos.
O referencial teórico diz respeito a duas áreas de conhecimento. Primeiro, foram
considerados os procedimentos técnicos preconizados pelo Conselho Federal de
Psicologia para avaliações de guarda (Referências técnicas para atuação do
Psicólogo em Varas de Família, 2010)¹, em que todos envolvidos na denúncia de
violação de direitos da criança devem ser ouvidos; segundo, foi considerada a
literatura sobre avaliação forense em suspeita de abuso sexual, considerando a
atual metodologia de investigação quando tal denúncia ocorrer em meio a litígio
conjugal².
Nota de rodapé:
¹CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação do
psicólogo em Varas de Família. Brasília: CFP, 2010.
²KUEHNLE, K.; CONNELL, M. The evaluation of child sexual abuse allegations. New
Jersey: Wiley and Sons, 2009.
A seção seguinte proposta pelo CFP é a Análise, assimdescrita na
Resolução:
É a parte do documento na qual o psicólogo faz uma exposição descritiva de forma
metódica, objetiva e �el dos dados colhidos e das situações vividas relacionados à
demanda em sua complexidade. Como apresentado nos princípios técnicos, ‘o
processo de avaliação psicológica deve considerar que os objetos deste
procedimento (as questões de ordem psicológica) têm determinações históricas,
sociais, econômicas e políticas, sendo as mesmas elementos constitutivos no
processo de subjetivação. O DOCUMENTO, portanto, deve considerar a natureza
dinâmica, não de�nitiva e não cristalizada do seu objeto de estudo’. (CFP, 2003).
Essa é a parte mais importante, básica e essencial do laudo, é aquela
que tem como função reproduzir �el, metódica e objetivamente tudo o
que for observado pelo perito, mediante exposição minuciosa dos
exames e técnicas empregados. Deve-se considerar que se trata de um
exame realizado em um corte no tempo, cuja descrição constitui-se
matéria de fato, resultando do que pode ser efetivamente observado. A
descrição deve ser completa, minuciosa, metódica e objetiva,
descartando o terreno das hipóteses, servindo de base para todas as
conclusões que virão a ser apresentadas no laudo (SKAF, 1997).
A proposta do CFP nessa seção, no entanto, deixa de contemplar uma
das exigências mais importantes para a quali�cação dos laudos no
contexto forense: a discriminação entre os dados brutos e as inferências
sobre esses dados. Conforme já foi salientado neste capítulo, é
fundamental que os dados colhidos nas diferentes fontes de informação
sejam apresentados em seção diferenciada daquela que vai tratar sobre
a compreensão teórica que os integre (KARSON; NADKARNI, 2013;
MELTON et al., 1997; PACKER; GRISSO, 2011). Assim, procurando manter a
estrutura básica orientada pelo CFP, propõe-se que a seção Análise seja
subdividida em duas grandes áreas de apresentação: 1) Apresentação
dos dados colhidos e 2) Discussão dos dados apresentados (ROVINSKI,
2013).
A apresentação dos dados colhidos diz respeito a tudo o que foi
levantado nas diversas fontes de informação e que terá relevância para a
questão legal. Devem ser todos e apenas aqueles dados que virão a
subsidiar as premissas psicológicas (construtos teóricos), que, por sua
vez, fundamentarão as conclusões técnicas do perito.
Considerando-se a multiplicidade de fontes de informação
necessárias à boa qualidade da perícia, e a consequente quantidade de
dados a serem relatados no laudo forense, propõe-se a organizar
‘Apresentação dos dados colhidos’ em subseções que contemplem: a)
dados de história (ou anamnese), b) descrição de conduta durante o
processo de avaliação, c) análise de funções psíquicas e/ou
sintomatologia clínica (opcional conforme o caso em questão) e d)
apresentação dos resultados de testagem, restringindo-se esses últimos
a uma apresentação dos achados, deixando para a subseção seguinte a
discussão das hipóteses que deles são geradas (ROVINSKI, 2013).
Em relação à coleta de dados de história, essa corresponde à
denominada anamnese da entrevista clínica e refere-se a dados
anteriores aos motivos imediatos da ação proposta. Essa parte das
informações deve ser creditada ao periciado, não se devendo imputar ao
perito nenhuma responsabilidade sobre seu conteúdo. Apesar da
possibilidade de inverdades nesse relato, ao periciado cabe o direito de
relatar sua versão dos fatos. No histórico, o perito deve realizar a
descrição dos fatos de modo mais simples e objetivo possível, sem a
preocupação de comprometer-se com a sua veracidade, ou de agradar
ou desagradar a quem quer que seja (SKAF, 1997). No caso de perícias
que envolvam mais de um periciado, por exemplo, nas dinâmicas
familiares, os dados de história devem ser apresentados imputando a
cada um as informações obtidas. O mesmo deve ser respeitado quanto à
apresentação de dados colhidos com terceiros (parentes ou não)
(ROVINSKI, 2013).
Na segunda parte da área de apresentação dos dados colhidos,
voltada para o que foi observado pelo perito, sugere-se iniciar com uma
descrição da conduta do periciado, sendo imprescindível comentar
sobre seu nível de cooperação – pois, se for negativo, pode vir a
comprometer todos os dados que vierem a ser descritos. Deve-se,
também, apreciar a aparência física e o tipo de vinculação ao
entrevistador. Essa observação inicial pode evoluir para uma
apresentação mais sistemática quanto a um exame do estado mental,
em que, de maneira sucinta, o perito descreve os principais achados
relacionados a cada uma das funções psíquicas. Por �m, deve apresentar
os resultados da testagem aplicada, os quais devem privilegiar a
apresentação dos indicadores de cada um dos testes separadamente. Se
esses testes apresentarem resultados normativos padronizados, por
exemplo, em termos de percentis, estes devem ser associados aos
resultados brutos e à classi�cação �nal. É importante que seja explicitada
a tabela que foi utilizada, com o tipo de grupo que serviu para
normatizá-la. No caso de instrumentos projetivos, deve-se ter o cuidado
de não expor o teste demasiadamente quanto à forma como os
indicadores foram levantados, mas deve-se procurar apresentá-los da
maneira mais descritiva possível. Salienta-se o cuidado em não torná-los
simples cópia de características descritas no manual. Deve haver uma
integração lógica que permita compreender os achados como
representativos de um sujeito. Mesmo os achados que possam
aparentemente se apresentar contraditórios, conforme explicitado por
Ackerman (1999), devem ser referidos, sob pena de o psicólogo incorrer
em conduta antiética na criação de um viés interpretativo (ROVINSKI,
2013).
A segunda parte da seção análise compreenderá a ‘Discussão dos
dados apresentados’. Aqui, o objetivo será discutir as várias hipóteses
que poderão surgir a partir das informações levantadas previamente.
Conforme Skaf (1997), nessa fase serão abordadas as hipóteses
existentes, afastando-se, ao máximo, as conjecturas pessoais, podendo-
se citar autoridades recomendadas sobre o assunto. É o momento de
realizar um diagnóstico lógico sobre a situação-problema a partir de
justi�cativas racionais. É a discussão que, mediante sua lógica e clareza,
pode assegurar a correta dedução das conclusões. Essa parte do laudo
pode conter citações e transcrições, e serve para avaliar o nível cultural e
cientí�co do relator. Para Packer e Grisso (2011), aqui se apresenta o
maior desa�o ao trabalho técnico pericial, quando devem ser
construídas as implicações para a matéria legal. A apresentação dessas
inferências deve estar baseada claramente na fonte de dados,
especialmente quando se encontram dados con�itivos ou
contraditórios, justi�cando explicações alternativas ou diferentes
valorizações das fontes de informação.
Retornando à estrutura de laudo proposta pelo CFP, segue-se para a
última seção — a Conclusão do documento:
Na Conclusão o psicólogo vai expor o resultado e/ou considerações a respeito de
sua investigação a partir das referências que subsidiaram o trabalho. As
considerações geradas pelo processo de avaliação psicológica devem transmitir ao
solicitante a análise da demanda em sua complexidade e do processo de avaliação
psicológica como um todo. Vale ressaltar a importância de sugestões e projetos de
trabalho que contemplem a complexidade das variáveis envolvidas durante o
processo. (CFP, 2003).
Cabe lembrar que, no contexto forense, a conclusão precisa estar
relacionada à demanda judicial que originou o pedido da perícia. Ao
psicólogo cabe desenvolver a destreza de, sem adentrar no julgamento
que cabe ao agente jurídico, ser capaz de posicionar-se em relação aos
próprios achados psicológicos que possuem relevância à questão legal.
Para Karson e Nadkarni (2013), a questão legal encontra-se fora das
questões técnicas sobre as quais o psicólogo pode se posicionar, pois se
trata de política social, e não de ciência. É importante distinguir entre a
última questão legal da penúltima questão, que seria o posicionamento
técnico do perito. Ao psicólogocaberia, no máximo, explicar os
comportamentos e as implicações legais dessa explicação.
O último aspecto a ser revisto quanto à estrutura de Laudo proposta
pelo CFP é que a resposta de quesitos faz parte desse documento, e não
como proposto ao Parecer Psicológico. Na área forense, quando houver
quesitos formulados pela parte ou pelo próprio juízo, o psicólogo perito
deve respondê-los, após sua conclusão, de modo sintético e
convincente, a�rmando ou negando, não deixando nenhum sem
resposta. Se não houver dados para a resposta dos quesitos, ou quando o
especialista não puder ser categórico, deve utilizar a expressão: ‘sem
elementos de convicção’. Quando houver quesitos mal formulados, esses
também devem ser respondidos, utilizando-se expressões do tipo
‘prejudicado’, ‘sem elementos’ ou ‘aguarda evolução’ (ROVINSKI, 2013).
Para facilitar a compreensão das mudanças que se está propondo
para a estrutura de Laudo Psicológico Forense, partindo-se da proposta
do CFP, apresenta-se, a seguir, um quadro resumido com as duas
estruturas: a original do CFP e aquela que se desenvolveu a partir de
uma fundamentação teórico-crítica:
Modelo proposto pelo CFP Modelo adaptado do CFP
Identi�cação
Descrição da Demanda
Procedimento
Análise
Conclusão
Identi�cação
Descrição da Demanda
Procedimento
Análise
1. Apresentação dos dados
2. Discussão dos dados apresentados
Conclusão
Resposta aos quesitos
Ao término, o relatório deve ser datado e assinado pelo perito, de
preferência rubricando as páginas anteriores. Deverá ser entregue em
duas vias ao cartório, que devolverá uma delas com a data do
recebimento. No momento da entrega do laudo sugere-se que seja
anexado, de modo simultâneo, o ofício informando o término do
processo e solicitação de liberação dos honorários, se esses foram
depositados em juízo (ROVINSKI, 2013).
2. Parecer Psicológico
As orientações técnicas e éticas para a realização do laudo devem ser
também mantidas para o relatório do assistente técnico (SILVA, 2013).
Como já foi dito anteriormente, o relatório do assistente técnico é
denominado Parecer Técnico e tem por �nalidade fazer um comentário
crítico ao laudo do perito o�cial. Brandimiller (1996) diz que o Parecer
Técnico é um trabalho feito a posteriori ao laudo, concordando ou
divergindo das conclusões nele contidas, sempre com seu
posicionamento fundamentado. A estrutura desse parecer seria menos
rígida à proposta ao laudo do perito e se constituiria basicamente de três
elementos: Introdução, Crítica ao Laudo e Conclusão.
Na estrutura proposta pelo CFP (2003), o Parecer Psicológico
apresenta-se constituído por quatro seções: 1) Identi�cação; 2) Exposição
de Motivos; 3) Análise e 4) Conclusão. Da mesma forma, como foi
discutido em relação ao Laudo do perito, a estrutura proposta para o
documento Parecer Psicológico será apresentada neste capítulo de
modo crítico, a �m de contemplar as exigências do contexto forense.
Na primeira seção, intitulada Identi�cação, a Resolução 07/2003
propõe que seja informado o “nome do parecerista e sua titulação, o
nome do autor da solicitação e sua titulação”. Quando esse parecer é
realizado como crítica a um laudo forense, devem ser acrescentados os
dados do processo em questão: número, vara de origem, tipo de
demanda e partes envolvidas.
Na segunda seção, que trata da Exposição dos Motivos, há a
seguinte orientação:
Destina-se à transcrição do objetivo da consulta e dos quesitos ou à apresentação
das dúvidas levantadas pelo solicitante. Deve-se apresentar a questão em tese, não
sendo necessária, portanto, a descrição detalhada dos procedimentos, como os
dados colhidos ou o nome dos envolvidos. (CFP, 2003).
No contexto forense, cabe acrescentar, nessa seção, uma síntese do
laudo pericial que será objeto de estudo, iniciando com o resumo dos
principais procedimentos periciais adotados, os resultados e o
entendimento que o perito teve deles para a questão legal. Essa
apresentação deve ser resumida, referindo-se apenas ao essencial, de
modo a contextualizar o trabalho de crítica do assistente técnico
(BRANDIMILLER, 1996).
Na seção seguinte, a Análise é apresentada na resolução da seguinte
forma:
A discussão do parecer psicológico se constitui na análise minuciosa da questão
explanada e argumentada com base nos fundamentos necessários existentes, seja
na ética, na técnica ou no corpo conceitual da ciência psicológica. Nesta parte, deve
respeitar as normas de referências de trabalhos cientí�cos para suas citações e
informações. (CFP, 2003).
A proposta do Manual é que o Parecer Psicológico seja focado nos
aspectos técnicos da questão psicológica. Esse tipo de documento se
mostra totalmente compatível com o objetivo do trabalho do assistente
técnico, como aquele pro�ssional capacitado para questionar
tecnicamente os achados e as conclusões descritas no laudo do perito
(Art. 8º, Resolução 08/2010, CFP). Conforme sugestão de Brandimiller
(1996), a apresentação das divergências e sua discussão deveriam ser
apresentadas em tópicos, preferencialmente com subtítulos, para
facilitar a compreensão das críticas feitas.
Ao �nalizar a apresentação detalhada da análise crítica do
documento, o assistente técnico deve encerrá-la com uma Conclusão,
da mesma forma como é orientado pela Resolução do CFP, quando diz
que “o psicólogo apresentará seu posicionamento, respondendo à
questão levantada”. No contexto forense, esse posicionamento será
decorrente das críticas ao laudo, quando se poderá sugerir, se for o caso,
a anulação do laudo ou questionar aspectos particulares com
formulação de “quesitos complementares”. Em seguida, deve informar o
local e data em que foi elaborado o parecer e assinar o documento. O
parecer do assistente técnico é entregue à parte contratante ou ao
advogado da parte, que terá a liberdade de anexá-lo ou não ao processo
judicial em questão (SILVA, 2013).
Por �m, deve-se fazer uma reti�cação importante quanto às seções
que compõem a estrutura do Parecer Psicológico, conforme proposto
pelo Conselho Federal de Psicologia. A Resolução 07/2003 prevê nesse
documento uma última seção intitulada Resposta aos Quesitos. No
contexto forense, essa seção não possui sentido, pois, na dinâmica
processual judicial é o assistente técnico quem formula os quesitos ao
perito, cabendo ao último respondê-los, consequentemente, fazendo
parte do documento Laudo. Assim, a estrutura do parecer no contexto
forense não inclui resposta a quesitos.
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CAPÍTULO 3
PERÍCIA PSICOLÓGICA NO DIREITO DO TRABALHO
Helena Diefenthaeler Christ
A importância do trabalho na identidade do indivíduo se dá na medida em que é,
através do trabalho, que o homem realiza uma obra em que expressa a sua
individualidade, que dá reconhecimento social e permanece além da vida.
ALBORNOZ, 2000
Em um grande número de processos judiciais das varas e tribunais do
trabalho, tem sido solicitada a atuação do perito psicólogo. Geralmente,
nos casos em que há possibilidade de danos morais e/ou psicológicos, a
avaliação psicológica é um meio de averiguação que traz elementos
muito importantes para o entendimento dos casos, como veracidade,
nexo de causalidade, intensidade e extensão do dano. No entanto, essas
avaliações não são fáceis de serem realizadas pela natureza litigiosa e
pelos ganhos secundários que se têm com o processo.
Alguns dos motivos de processos oriundos do âmbito trabalhista são:
dano moral ou psicológico decorrente de acidente de trabalho e outros
transtornos mentais e comportamentais (TMC) relacionados ao
trabalho, como depressão, transtorno de estresse pós-traumático,
estresse ocupacional, Síndrome de Burnout, além de situações como
assédio sexual e assédio moral. Dessa forma, o psicólogo, que pode atuar
tanto como perito o�cial, nomeado pelo juiz, como assistente técnico de
uma das partes (conforme Resolução 08/2010 do Conselho Federal de
Psicologia (CFP, 2010), que diferencia as duas atuações), deve ter
conhecimento aprofundado sobre psicopatologia, psicologia clínica,
psicologia do trabalho e utilizar técnicas de entrevista e de diagnóstico
adequadas. Assim, o trabalho pericial envolve, principalmente, veri�car
se o motivo da queixa procede ou não; avaliar se há situação de
simulação; diferenciar queixas reais de características de personalidade;
fazer diagnóstico e diagnóstico diferencial (se possível) e estabelecer a
ligação entre o dano causado e a ação praticada pelo empregador.
Nos processos advindos das varas e tribunais do trabalho, sempre
estarão implicadas relações de trabalho entre o empregado e o
empregador. O Direito do Trabalho surge, então, para regulamentar a
autonomia dos contratantes, estabelecendo limites, parâmetros e regras
para seu exercício (MALLET, 2003). Assim, o Direito do Trabalho funciona
como um instrumento doutrinário humanista, na medida em que frisa
por uma qualidade mínima de vida humana, capaz de contribuir para a
melhoria da convivência entre as pessoas (ALVARENGA, 2005).
A Justiça do Trabalho no Brasil é constituída por três órgãos: Varas do
Trabalho, Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e Tribunal Superior do
Trabalho (TST). As Varas do Trabalho são os órgãos de base da Justiça do
Trabalho, compostas por juízes singulares. Em linhas gerais, as Varas do
Trabalho julgam apenas dissídios individuais. Sua jurisdição é local,
abrangendo um ou alguns municípios. Os TRTs, em regra, julgam
recursos ordinários de decisões de Varas do Trabalho e ações ordinárias
(dissídios coletivos cuja extensão da lide não ultrapasse sua esfera de
jurisdição, mandados de segurança, ações rescisórias de decisões suas
ou das Varas do Trabalho etc.). O TST é órgão de jurisdição nacional, sua
principal função é uniformizar a jurisprudência trabalhista. É um tribunal
que julga recursos vindos dos TRTs (SOUSA; CARNEIRO, 2010).
A principal norma legislativa brasileira referente ao Direito do
Trabalho e ao Direito Processual do Trabalho é a Consolidação das Leis
do Trabalho (CLT ). “Esta Consolidação estatui as normas que regulam as
relações individuais e coletivas de trabalho, nela previstas” (BRASIL,
1943). Contudo, não é necessário que a norma pertença ao campo do
Direito do Trabalho para ser aplicada na Justiça do Trabalho. A
indenização por dano moral, por exemplo, que é uma ação tipicamente
civil, se decorre da relação de emprego, há de ser julgada pela Justiça do
Trabalho (SOUSA; CARNEIRO, 2010).
No Código Civil Brasileiro, con�gura-se o capítulo ‘Dos Direitos da
Personalidade’. Personalidade são os direitos reconhecidos à pessoa
humana tomada em si mesma e em suas projeções na sociedade,
previstos no ordenamento jurídico exatamente para a defesa de valores
inatos no homem, como a vida, a higidez física, a intimidade, a honra, a
intelectualidade e outros tantos. Esses direitos são classi�cados como:
Físicos: a vida, a integridade física, o corpo e as partes do corpo, a
imagem e a voz; Psíquicos: liberdade, integridade psíquica, a intimidade
e o segredo; Morais: a identidade, a honra e suas criações intelectuais
(BITTAR, 1999). Assim, nas perícias, estaremos lidando basicamente com
os direitos psíquicos.
Quando ocorre a subtração ou diminuição de um desses bens
jurídicos protegidos, qualquer que seja sua natureza, quer se trate de um
bem patrimonial, quer se trate de um bem integrante da própria
personalidade da vítima, caracteriza-se o dano. O dano moral ou
psíquico só pode ser reputado caso a dor, o vexame, o sofrimento e a
humilhação, fugindo à normalidade, inter�ram intensamente no
comportamento psicológico do indivíduo, causando-lhe a�ição, angústia
e desequilíbrio em seu bem-estar. Mero aborrecimento, mágoa, irritação
ou sensibilidade exacerbada estão fora dessa órbita (SEVERO, 1996).
A insatisfação no trabalho produz um sofrimento cujo ponto de
impacto é, antes de tudo, mental e pode levar a uma doença somática
(DEJOURS, 1988). Somatização é a manifestação de um conjunto de
alterações físico-químicas, desencadeadas pelo cérebro. Caso a situação
enfrentada mobilize uma alteração de intensidade muito forte ou se sua
frequência for muito alta, o sistema imunológico é enfraquecido.
Alterações do humor, apetite e libido também são causadas por essas
mudanças hormonais (TUNES; BECCARI, 1993).
Os fatores que contribuem para o per�l de adoecimento dos
trabalhadores, conforme Mendes e Dias (apud JACQUES, 2007), são:
doenças comuns sem qualquer relação com o trabalho, doenças comuns
modi�cadas no aumento da frequência ou na precocidade de
manifestação em decorrênciado trabalho, doenças comuns nas quais se
somam ou se multiplicam condições provocadoras ou desencadeadoras
em decorrência do trabalho e os agravos especí�cos tipi�cados pelos
acidentes de trabalho e doenças pro�ssionais. Dessa maneira, o dano
psicológico pode ser identi�cado pela presença de alterações: do
comportamento (sono, alimentação, concentração, irritação); das
competências cognitivas ou relacionais; do grau de autonomia do
sujeito; na diminuição da autoestima, no grau de insegurança e
motivação com a presença de estresse prolongado; na qualidade de vida
e na reatividade �siológica. Portanto, é necessário demonstrar
incapacidade ou prejuízo no desempenho da pessoa, que não havia
antes (CRUZ; MACIEL, 2005). Ou seja, o dano existe quando o evento
desencadeante gerou efeitos traumatizantes na organização psíquica ou
no repertório de comportamentos da vítima, trazendo alterações tais
que modi�quem sua vida de relação nos aspectos familiar, social,
interpessoal e/ou laboral (EVANGELISTA; MENEZES, 2000).
Quando comprovado o dano, o mesmo é indenizável, mas, para
tanto, é imprescindível a ocorrência de diminuição ou destruição de um
bem jurídico, patrimonial ou moral, pertencente a uma pessoa, pois a
lesão de dano pressupõe o lesado. Esse requer legitimidade, ou seja, a
reparação só pode ser pleiteada pelo titular do direito atingido. Também
é necessária a efetividade ou certeza do dano, pois a lesão não poderá
ser hipotética ou conjectural e deve con�gurar a subsistência do dano no
momento da reclamação do lesado. Requer, ainda, a relação entre a falta
e o prejuízo causado e ausência de causas excludentes de
responsabilidade (DINIZ, 1997).
Embora a indenização não reponha a perda ou desfaça o sofrimento
suscitado no trabalho, ela objetiva restabelecer o equilíbrio jurídico
violado, tentando conduzir a pessoa lesada a uma situação mais próxima
possível à anterior do fato gerador da queixa. Em alguns casos, quando
demonstrada a relevância, o juiz pode autorizar a tutela antecipada. É
concedido ao lesado um provimento imediato para que ele possa
�nanciar tratamentos necessários para a redução de seus sintomas e
sofrimento, ainda durante o andamento do processo, que será pago pelo
empregador. Dessa forma, essa pode ser uma sugestão ou solicitação do
psicólogo após a avaliação do periciado, mostrando a necessidade
premente de tratamento.
Como o psicólogo contribui nos processos trabalhistas?
O perito psicólogo sempre irá atuar numa situação de litígio e,
portanto, deve também estar atento aos interesses secundários
envolvidos no processo. Dessa forma e, principalmente, se a atuação se
dá na �gura de assistente técnico, ou seja, se o psicólogo é contratado
por uma das partes, deve �car claro ao contratante e ao representante
legal dele (advogado) que o trabalho irá respeitar a ética pro�ssional.
Utilizando os instrumentos e técnicas da Psicologia, o assistente técnico
irá realizar seu trabalho pautado no Código de Ética da Psicologia, não
tendo o compromisso de concordar com a posição do contratante, mas
sim com o convencimento sustentado pelo seu trabalho. Quem deve
defender o contratante é seu advogado, e não o psicólogo.
Ao psicólogo cabe auxiliar a parte no processo a partir de seu
conhecimento técnico e dentro de seus limites pro�ssionais e éticos. O
assistente técnico pode ajudar com conhecimentos teóricos sobre o
tema a ser julgado para embasar a inicial do processo, avaliar o
reclamante (quando assistente dessa parte) e produzir um parecer
técnico para ser anexado ao processo, elaborar rol de quesitos e quesitos
complementares.
O psicólogo pode atuar como perito o�cial, nomeado pelo juiz, e,
dessa forma, apresentar, por intermédio de laudo, um entendimento da
situação no que diz respeito às questões psicológicas destacadas no
processo em questão. Geralmente, os objetivos dizem respeito a: avaliar
se há ou não dano; oferecer ao juiz elementos que o ajudem a con�rmar
ou refutar os motivos da queixa; auxiliar na averiguação do nexo causal
entre o fato ocorrido e a queixa do reclamante e avaliar a extensão do
dano causado. Essas questões podem estar explícitas por meio de um rol
de quesitos – perguntas objetivas que podem ser produzidas pelas
partes ou pelo próprio juiz e que devem, obrigatoriamente, ser
respondidas pelo perito. Caso não haja esse rol, as questões referentes à
avaliação precisam ser deduzidas na leitura dos autos. Os documentos
produzidos tanto pelo psicólogo assistente técnico como pelo psicólogo
perito o�cial devem seguir as orientações da Resolução 07/2003 do
Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2003), que institui o Manual de
Elaboração de Documentos Escritos decorrentes da Avaliação
Psicológica.
A perícia, segundo Cruz e Maciel (2005), é um meio de demonstrar
evidências de danos relacionados às condições de trabalho, dado que a
perícia é uma prova técnica legal e moralmente produzida. Assim,
oferece aos juristas inúmeras oportunidades de se amparar nos
conhecimentos da Psicologia, munindo-os de subsídios nas decisões e
resoluções das medidas legais, dado o valor do laudo ou parecer para
matérias do campo do comportamento humano (EVANGELISTA, 2000).
No entanto, quem determina as provas a serem produzidas é o juiz,
considerado o ônus probatório de cada litigante, podendo limitar ou
excluir as que considerar excessivas ou impertinentes, bem como
apreciá-las e dar especial valor, conforme Art. 852-D disposto na CLT
(BRASIL, 2000). Assim, quando a prova do fato o exigir, ou for legalmente
imposta, será deferida prova técnica, incumbindo ao juiz �xar o prazo, o
objeto da perícia e nomear o perito. Em geral, o prazo �xado pelo juiz
varia em torno de 20 a 30 dias, devendo o perito cumpri-lo a contar da
data da primeira entrevista com o periciado. Quando o tempo é
insu�ciente para �nalizar o laudo, o perito deve fazer uma petição
solicitando a ampliação do prazo, justi�cando o pedido. A petição pode
ser deferida ou não pelo juiz.
Outra situação que pode ocorrer é que a prova pericial judicial não
seja necessária caso as partes, na inicial ou na defesa, apresentem
parecer técnico sobre a matéria, considerado su�ciente pelo juiz (SOUSA;
CARNEIRO, 2010). A responsabilidade pelo pagamento dos honorários
periciais é da parte sucumbente, salvo se bene�ciária da Justiça Gratuita,
tendo, nesse caso, o perito direito ao ressarcimento pela União pelos
gastos eventualmente efetuados. Já o assistente técnico é remunerado
pela parte contratante.
O que avaliar?
Diferentemente de outros tipos de avaliações que se centram quase
que exclusivamente na pessoa a ser avaliada, a perícia na área do
trabalho deve considerar também o contexto pro�ssional. Aspectos
como ambiente laboral, modos reguladores, clima organizacional,
relacionamento de colegas nas diferentes hierarquias, exposição a riscos,
entre outros que evidenciem qualquer ligação com o fato analisado, são
indispensáveis para a compreensão do caso. Assim, é possível veri�car se
existe ligação entre o dano e a ação praticada pelo empregador.
Dessa forma, também é essencial a avaliação do requerente, pois o
dano deve estar presente no momento da perícia. Constatar se o
periciado apresenta os sintomas reclamados, diferenciar queixas reais de
características de personalidade, fazer diagnóstico e diagnóstico
diferencial (se possível), identi�car mudanças ocorridas após o episódio
descrito como gerador do dano auxiliam a examinar se o motivo da
queixa procede ou não.
Portanto, a avaliação preconiza o nexo de causalidade entre as
condições de trabalho (exigências, cargas, riscos) e o comprometimento
nos processos psicológicos (alterações perceptivas, cognitivas e afetivas)
(CRUZ; MACIEL, 2005). Ou seja, necessariamente deve haver relação
causal entre as duas instâncias.
Na avaliação do nexo causal, é necessário conduzir uma anamnese
ocupacional a �m de veri�car o papel do trabalho como fator
determinante do adoecimento mental ou fator desencadeante a partir
de uma estrutura pré-existente (JACQUES, 2007). Como os transtornosmentais têm uma etiologia multicausal, é importante entender como os
fatores relacionados ao trabalho e à história de vida do periciado
interagem e contribuem para o adoecimento, seja no desencadeamento
da psicopatologia ou no seu agravamento. Em alguns casos, pode haver
situações concorrentes para o desenvolvimento da doença, como, por
exemplo: na época em que o periciado começou a apresentar os
sintomas/queixas, foi precedido de um evento traumático no trabalho –
assalto à mão armada na loja em que labuta e um evento pessoal
traumático (doença cardíaca da �lha que foi hospitalizada). Ambas as
experiências podem, concomitantemente, ter contribuído para o quadro
patológico desencadeado.
Também pode haver doenças pré-existentes que precisam ser
consideradas, pois podem justi�car as queixas do autor do processo,
sem, no entanto, estarem relacionadas ao trabalho. Como, por exemplo,
uma pessoa com personalidade paranoide que se percebe vítima de
perseguição no trabalho, mas realisticamente essa relação persecutória
não ocorre. Essa avaliação pode ser realizada por meio da história
pregressa e familiar do periciado e análise e observação do local de
trabalho. Muitas vezes, essa diferenciação é complexa e difícil de ser
efetuada, pois mesmo que a pessoa tenha uma psicopatologia pré-
existente, isso não invalida o fato dela também poder ter passado por
eventos estressantes no trabalho.
Portanto, não existe uma relação linear entre o evento e a patologia,
mas uma probabilidade de ocorrência (MULLER; CRUZ, 2014).
Determinadas doenças mentais tornam a pessoa mais vulnerável a
situações estressantes no trabalho, bem como algumas atividades
laborais são mais propensas a ensejar distúrbios psicológicos.
Além das causas, a dimensão do prejuízo psicológico também é
variável. Pode ser graduada como leve, que implica alterações reativas
na dinâmica de personalidade ou na vida social, sexual, afetivo-
emocional e pro�ssional, requerendo tratamento breve e focal. A grave,
que corresponde ao aparecimento, em alguns casos, de episódio
depressivo grave com sintomas psicóticos (alucinações, ideias
delirantes, lentidão psicomotora) e pode evoluir para estupor. O
comprometimento pode ser tão sério que todas as atividades sociais
normais se tornam inoperantes, podendo existir risco de suicídio
(EVANGELISTA; MENEZES, 2000).
A extensão do dano também deve ser atestada, segundo Cruz e
Maciel (2005), quanto à transitoriedade ou à permanência dos
transtornos mentais diagnosticados, referindo as possibilidades desses
transtornos passarem a ser crônicos ou permanentes. Conforme Barros e
Teixeira (2015), a incapacidade não decorre da mera presença de um
transtorno mental, assim sua determinação tem de levar em conta,
sobretudo, a tarefa desempenhada e os impactos da doença sobre ela.
Dessa forma, cabe ao perito determinar o grau, a duração e a
abrangência de tal impossibilidade.
Alguns motivos de processos vindos do âmbito trabalhista para
Perícia Psicológica
Existem alguns motivos mais comuns pelos quais os empregados
entram com processos judiciais contra seus empregadores. Segundo
Vieira (2009, p. 160), “o trabalho não é apenas um ‘contexto’ da atividade
ou ‘trabalho psíquico’, ele convoca a totalidade do indivíduo e implica
relações efetivas capazes de afetar sensivelmente a saúde física e
mental”.
Dano Moral ou Psicológico decorrente de acidente de trabalho
Acidente é conceituado como o acontecimento que determina,
fortuitamente, dano que poderá ser à coisa, material, ou à pessoa
(AFFONSO, 2000). Acidente do trabalho, descrito na Lei 8.213/91, Art. 19
(BRASIL, 1991):
[...] é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício
do trabalho dos segurados, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que
cause a morte ou a perda ou a redução, permanente ou temporária, da capacidade
para o trabalho.
O Art. 20 da mesma Lei equipara doenças pro�ssionais e do trabalho
ao acidente do trabalho.
A�onso (2000) refere, ainda, que as moléstias geradas pelo trabalho
são divididas em dois grupos: doenças pro�ssionais típicas ou
tecnopatias, que são consequência natural de certas pro�ssões
desenvolvidas em condições insalubres e que, normalmente, são
relacionadas pelo próprio legislador. Existem ainda as doenças
pro�ssionais atípicas, ditas mesopatias, que não são peculiares a
determinados tipos de trabalho, mas que o operário vem a contrair por
fato eventualmente ocorrido no desempenho da atividade laboral. Nas
doenças atípicas, inexiste qualquer presunção, cabendo, por isso, à
vítima, o ônus de provar que a enfermidade teve causa em evento
provocado pelo desempenho do contrato de trabalho.
Nesse sentido, a perícia judicial contribuirá como um meio de prova
para o deslinde do caso. Geralmente quando a pessoa chega para a
avaliação psicológica alegando vitimização laboral com consequente
lesão física/orgânica já existe uma avaliação médica prévia (realizada
por perito médico especialista na área da lesão apresentada pelo
periciado) e compete ao perito psicólogo avaliar a relação entre as
consequências do acidente e a existência de sofrimento emocional.
Mesmo que a doença apresentada pelo periciado seja típica, como as
Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares
Relacionados ao Trabalho (LER/DORT), a avaliação psicológica fornecerá
dados sobre as consequências da doença na vida emocional, relacional,
comportamental e laboral da pessoa, veri�cando se acarretou o
desenvolvimento de algum transtorno mental e comportamental (TMC).
LER/DORT compõem um grupo de entidades nosológicas relacionadas à
sobrecarga funcional do sistema músculo-ligamentar, principalmente
dos membros superiores com intenso sofrimento psíquico (LIMA; LIMA;
SILVA, 2013) e correspondem de 80 a 90% dos casos de doenças
pro�ssionais registrados na Previdência Social (ECHEVERRIA; PEREIRA,
2007).
Além da doença pro�ssional ocasionada pelo tipo de atividade
laboral desenvolvida, como LER/DORT, existem outras maneiras do
acidente de trabalho ocorrer, como: quando o colaborador estiver
prestando serviço para a empresa dentro ou fora do estabelecimento do
trabalho; viajando a serviço pela empresa; no trajeto entre a empresa e a
residência do colaborador e vice-versa; e doença ocasionada pela
condição do trabalho (LASMAR; MEJIA, 2012). Portanto, questões
objetivas de como ocorreu o acidente, conduta do empregador, emissão
ou não do Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT) à Previdência
Social, condições de trabalho, disponibilização de equipamentos de
proteção individual (EPI) por parte da empresa, e uso por parte do
empregado, rotina das atividades trabalhistas, alterações na rotina,
assim como questões subjetivas, como sintomas físicos e emocionais,
situação emocional e comportamental antes e depois do acidente,
devem fazer parte do rol a ser avaliado pelo psicólogo.
Quando o desfecho do acidente de trabalho resulta na morte do
trabalhador, está disposto no Art. 12 que trata dos direitos da
personalidade no Código Civil Brasileiro, em seu Parágrafo único, que
terá legitimação para requerer a medida o cônjuge sobrevivente ou
qualquer parente em linha reta ou colateral até o quarto grau (MALLET,
2003). Nesses casos, o trabalho do psicólogo também pode ser
diligenciado para avaliar os danos psicológicos gerados nos familiares
da vítima de acidente de trabalho em razão da morte deste.
Estresse Ocupacional, Transtorno de Estresse Pós-Traumático e
Síndrome de Burnout
Algumas doenças como o Estresse Ocupacional e a Síndrome de
Burnout são diretamente ligadas ao labor, ou seja, o nexo causal é
evidente. No entanto, na investigação, sempre será importante
considerar outros aspectos da vida do sujeito além do ambiente de
trabalho.
O Estresse Ocupacional provém de um desequilíbrio entre o trabalho
e o trabalhador. Condições insalubres de trabalho, carga excessiva,
exigências acentuadas, acabam por ensejar sofrimento emocional.
Como consequência, há o desencadeamento de reações �siológicas,
comportamentais e psicológicas,tais como: cefaleias, insônia,
di�culdade de concentração, irritabilidade, redução na produtividade,
desordens emocionais, desregulações hormonais, gastrite, entre outros
sintomas.
Quando o Estresse Ocupacional não é tratado, pode evoluir para a
Síndrome de Burnout, que se caracteriza pelo esgotamento físico e
mental. É um processo complexo com múltiplas causas, entre elas:
aborrecimento e estresse, crise no desenvolvimento da carreira
pro�ssional e poucas condições econômicas, sobrecarga de trabalho e
falta de estímulo, pouca orientação pro�ssional e isolamento (THOMAÉ
et al., 2006). Portanto, os agentes estressores são elementos que
interferem no equilíbrio homeostático do organismo com as demandas
que ele sofre. Assim, o Burnout é uma resposta do organismo a esse
estresse crônico e tem sempre um caráter negativo – distresse, também
conhecido como Síndrome do Esgotamento Pro�ssional (CAMARGO,
2007).
A Síndrome de Burnout é considerada uma doença ocupacional que
está prevista no Decreto 3.048/1999 (BRASIL, 1999), em seu inciso XII, o
qual cuida e regulamenta a Previdência Social. Em relação ao
diagnóstico, é classi�cada como problema que leva ao contato com
serviços de saúde (CID-10 Z73.0).
Essa Síndrome é um processo em que a exaustão emocional é a
dimensão precursora da síndrome, sendo seguida por despersonalização
e, por �m, pelo sentimento de diminuição da realização pessoal no
trabalho, segundo o modelo teórico desenvolvido por
Maslach  (CARLOTTO; PALAZZO, 2006). A exaustão emocional é
caracterizada por um sentimento de tensão emocional que produz uma
sensação de esgotamento, de falta de energia e de recursos emocionais
para lidar com as rotinas da prática pro�ssional. A despersonalização é o
resultado do desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas, por
vezes a pessoa afetada pode assumir uma postura indiferente e cínica
em relação a outras pessoas, principalmente no contato pro�ssional. A
falta de realização pessoal no trabalho caracteriza-se como uma
tendência que afeta as habilidades interpessoais relacionadas com a
prática pro�ssional, interferindo diretamente na forma de atendimento
e contato com as pessoas usuárias do trabalho e com a organização
(MASLACH, 1998).
Já o Estresse Pós-Traumático se caracteriza por alguma situação
ocorrida no trabalho que tenha desencadeado tal transtorno. Os
sintomas são os descritos nos manuais DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC
ASSOCIATION, 2014) e CID-10 (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 1993)
e decorrentes de eventos altamente mobilizadores ao empregado que
aconteceram durante sua jornada de trabalho. Algumas circunstâncias
podem circundar acidentes que tenham colocado a pessoa em situação
de risco de vida ou lesão grave ou, ainda, ter presenciado algum colega
nessa posição. Assalto à mão armada, acidente automobilístico grave,
perda de membros em máquinas, podem ser alguns exemplos.
Assédio Sexual no trabalho
O Assédio Sexual se caracteriza por constranger alguém com o
intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual no trabalho,
utilizando-se do privilégio hierárquico. Existem dois tipos, sendo o
primeiro por chantagem: sob ameaça de perda de benefício ou ganho de
benefício; e o segundo por intimação: intuito de prejudicar a atuação ou
de criar situação hostil de intimidação (MELO, 2007). O Assédio Sexual
por Chantagem, que se constitui por abuso de autoridade, é a forma
tratada pelo direito nos tribunais. Já o Assédio Sexual por Intimidação
ocorre mais comumente entre colegas de nível hierárquico semelhante.
Desde maio de 2001, a legislação passou a tratar o assédio sexual
como crime, sob a Lei 10.224/2001, Art. 216-A do Código Penal (BRASIL,
2001), que tipi�ca: “Constranger alguém com o intuito de obter
vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua
condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício
de emprego, cargo ou função. Pena – detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos.”
Portanto, pode haver a responsabilização tanto civil quanto criminal.
De acordo com Girão (2004), os agressores estão presentes em todas
as esferas sociais, são majoritariamente do sexo masculino e têm uma
posição mais machista. Frequentemente responsabilizam a vítima pela
agressão praticada por eles e pensam que as mulheres gostam desse
tipo de abordagem ou violação. Para a vítima, como consequência,
denota-se a raiva, o desgosto, o constrangimento, o nervosismo, a
humilhação e a vergonha (LIBBUS; BOWMAN, 1994) e podem resultar,
ainda, em sequelas psicológicas, como tristeza, baixa autoestima,
desmotivação e insegurança.
Nos casos de assédio sexual, cabe ao querelante o ônus da prova da
ocorrência do fato. Como a existência de provas físicas das situações
ocorridas é muito difícil, geralmente nos tribunais, leva-se bastante em
consideração o depoimento dos envolvidos. Dessa maneira, a avaliação
psicológica, tanto da vítima como do agressor podem constituir uma
fonte profícua de informações.
Assédio Moral
O estudioso sueco Leymann (1996, p. 165) introduziu o termo
mobbing na década de 80 no contexto ocupacional como uma forma de
violência psicológica e o descreveu como:
[...] o fenômeno em que uma pessoa ou grupo de pessoas exerce violência
psicológica extrema, de forma sistemática e recorrente, ao menos uma vez por
semana, e durante no mínimo seis meses, sobre outra pessoa ou grupo de pessoas
no local de trabalho, com o objetivo de destruir sua rede de comunicações, sua
reputação, seu exercício pro�ssional e conseguir que �nalmente essa(s) pessoa(s)
acabe(m) se demitindo.
Outros autores são menos categóricos em relação ao tempo ou
periodicidade da conduta abusiva. Além de mobbing, essas condutas
também receberam outras nomenclaturas, tais como: Assédio Moral,
Bullying no trabalho, psicoterror e terror pro�ssional, que são usados
como sinônimos.
As ações mais incisivas do agressor incluem recusa da comunicação
direta, omitindo informações ou negando esclarecimentos,
desquali�cação de atitudes ou serviços, descrédito em opiniões ou
escolhas, isolamento, indução ao erro e, até mesmo, o assédio sexual
(PIÑUEL; ZABALA, 2003). Para que a conduta degradante e humilhante se
caracterize como Assédio Moral, não pode se apresentar como fato
isolado. O comportamento abusivo direcionado contra o assediado - e
que visa desestabilizá-lo - deve ser praticado de forma reiterada,
sistemática e com certa frequência (ALKIMIN, 2005). Humilhações
eventuais seguidas de desculpas não caracterizam o fenômeno, mas sim
a sequência acumulativa e repetida de forma isolada é que constitui
Assédio Moral (TROMBETA; ZANELLI, 2010).
A relação de desigualdade de poder é uma das características do
Assédio Moral. Supervisores descritos como tendo altos níveis de
neuroticismo e de exposição ao estresse, bem como baixa afabilidade e
alta introversão, são mais referidos pelos subordinados expostos ao
bullying no trabalho (MATTHIESEN; EINARSEN; MYKLETUN, 2011). No
entanto, apesar das relações hierárquicas verticais descendentes serem
mais comuns para a ocorrência de mobbing (HIRIGOYEN, 2001; PEDRO et
al., 2007), a exposição também pode estar presente nas relações
hierárquicas horizontais e verticais ascendentes. Isso decorre do con�ito
de papéis e da ambiguidade de papéis como antecedentes mais
signi�cativamente relacionados com Assédio Moral (NOTELAERS; DE
WITTE; EINARSEN, 2010).
Tipos e traços de personalidade também podem interferir nas
respostas de assédio. (JIMÉNEZ et al., 2007; MIKKELSEN; EINARSEN, 2001).
Faz-se necessário considerar ainda o motivo da avaliação. Além das
características subjetivas intervenientes, podem estar presentes
aspectos conscientes, como intencionalidade e simulação. Segundo
Rovinski e Stein (2009), a simulação ou dissimulação não se referem à
possibilidade de resistência no relato das informações por con�itos
inconscientes, mas a atuações premeditadas de distorção e omissão. Isso
ocorre quando a pessoa avaliada visa um benefício ou ganho
secundário. Por vezes, o empregado representa judicialmente contra a
empresa após a demissão,como maneira de vingar-se e diminuir
sentimentos negativos provenientes da própria demissão considerada
injusta ou de mágoas angariadas nos últimos tempos de trabalho.
Portanto, torna-se apropriado, para uma boa avaliação, que os dados
sejam triangulados com outras fontes de informação (GIL-MONTE;
CARRETERO; LUCIANO, 2006; MIKKELSEN; EINARSEN, 2001; MUÑOZ et al.,
2006; PEDRO et al., 2007; PEDRO et al., 2008; TOPA; MORIANO; MORALES,
2009). Os dados podem ser obtidos por meio da opinião de colegas de
trabalho, supervisores e das pessoas que são apontadas como
assediadoras (PEDRO et al., 2007). Dessa forma, se constituiria uma base
de informação mais con�ável.
O Assédio Moral se con�gura como um problema prevalente no
mundo do trabalho tendo consequências devastadoras para as vítimas e
organizações (CHRIST, 2011). Produz uma deterioração na saúde que
pode levar ao adoecimento, à incapacidade da vítima e ao fracasso de
seu enfrentamento, levando a um transtorno próprio do estresse
(IZQUIERDO et al., 2006).
Existem algumas medidas utilizadas pelos agressores além da
ameaça do desemprego, descritas por Freitas (2001). A primeira delas
seria a de recusar a comunicação direta, isto é, o agressor evita o con�ito
aberto e restringe as agressões, ainda que diárias, a atitudes e a
momentos de desmerecimentos.
Uma segunda estratégia utilizada seria a de desquali�car a vítima.
Essa estratégia, assim como a primeira, não é uma agressão aberta que
permite a réplica ou o revide, ela é praticada de maneira subjacente, sutil
e não verbal. Muitas vezes, a desquali�cação surge na forma de olhar o
outro, não cumprimentá-lo, falar da pessoa como se referisse a um
objeto, trocar o nome e falar mal para uma terceira pessoa na frente da
vítima.
A terceira estratégia envolve desacreditar o agredido, existindo um
esforço para ridicularizar o outro, humilhá-lo e cobri-lo de sarcasmo até
fazê-lo perder a con�ança em si. Outra estratégia comumente utilizada,
e sendo a quarta delas na referida enumeração, é de isolar a vítima,
quebrar todas as alianças possíveis. Isso desestabiliza a vítima.
Uma quinta ação seria a de vexar ou constranger a vítima. Podemos
identi�car essa ação quando são dadas tarefas inúteis e degradantes a
um funcionário. Muitas vezes são �xados objetivos inatingíveis, ou são
solicitados trabalhos extras ou noturnos sem o devido reconhecimento.
A sexta estratégia seria a de criar situações para o outro cometer uma
falha. Dessa forma, poder desquali�car a vítima para em seguida criticá-
la e justi�car seu rebaixamento. Por último, envolve o assédio sexual,
que, de acordo com a tipologia de Freitas (2001), pode ser considerado
como uma forma de assédio moral.
Considerações �nais
A perícia psicológica no âmbito do trabalho tem sido cada vez mais
solicitada em processos dessa área, portanto é um campo de atuação em
expansão. O psicólogo deve ter conhecimento aprofundado sobre os
temas tratados nesse cenário e técnicas adequadas para a realização
ética de sua atividade.
As causas trabalhistas requerem do perito, em termos gerais,
averiguar a existência ou não de doença, determinar qual é a doença,
estabelecer nexo de causalidade com o trabalho e avaliar se há dano e
sua extensão. O psicólogo pode atuar como assistente técnico assim
como perito o�cial. Resumidamente, ele fará uma avalição pessoal do
periciado considerando os aspectos relativos ao trabalho e à relação
entre ambos. Visitas ao local de trabalho podem ser realizadas, mas não
há obrigatoriedade. Dessa avaliação resultará o informe escrito em
formato de laudo ou parecer que deve retratar a compreensão do caso,
respondendo aos quesitos estabelecidos.
O objetivo �nal, mais do que atestar se há doença e qual, é esclarecer
quais as consequências do quadro especí�co no contexto próprio
daquela pessoa (BARROS; TEIXEIRA, 2015). Assim, os dados devem �car
claros no informe escrito, tendo o cuidado de utilizar termos que sejam
compreensíveis aos pro�ssionais que não sejam técnicos da área da
psicologia ou psiquiatria que terão acesso ao laudo ou parecer.
Considera-se o fator emocional como sendo subjetivo, di�cilmente mensurável e
desprovido de importância. Portanto, legitimar os aspectos psicológicos, além dos
danos físicos do acidentado nas perícias judiciais, é no mínimo comprometer-se
com o respeito, a proteção e a promoção dos direitos humanos, consolidando em
parte a justiça social, sem a qual a dignidade da pessoa não se realiza por completo.
(EVANGELISTA; MENEZES, 2000, p. 45).
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CAPÍTULO 4
RELACIONAMENTO PARENTAL EM SITUAÇÕES DE
DISPUTA DE GUARDA: O QUE AVALIAR?
Vivian de Medeiros Lago
Denise Ruschel Bandeira
Introdução
Em situações de divórcio tem se revelado frequente a solicitação de
avaliações a pro�ssionais da área da saúde mental, com a �nalidade de
fazer recomendações sobre a guarda dos �lhos. Nesses casos, psicólogos,
assistentes sociais e psiquiatras contribuem com seu conhecimento na
avaliação do nível de con�ito parental, das relações pais-�lhos, do
funcionamento parental e das necessidades desenvolvimentais, sociais,
emocionais e educacionais dos �lhos (SAINI, 2008).
Estudos apontam que os juízes seguem as recomendações dos
pro�ssionais de saúde mental em mais de 90% dos casos (ASH; GUYER,
1986; BAERGER et al., 2002; CAPLAN; WILSON, 1990; JOHNSTON, 1994). Tal
fato reforça a importância do papel do avaliador e de suas consequentes
recomendações. O processo de avaliação em situação de disputa de
guarda é bastante desa�ador, pois pode envolver alegações de abuso
físico, sexual e emocional, violência doméstica, abuso de substâncias,
doenças mentais e situações de alienação parental (MASON; QUIRK,
1997). Além de um conhecimento acerca desses temas, é importante que
o pro�ssional que realiza avaliações para a área forense possa estar
preparado para ter sua credibilidade contestada pelas partes no
processo e pelos operadores do Direito. Portanto, sempre que possível, é
importante apresentar fundamentações teóricas e empíricas em seus
documentos (BOW; QUINNELL, 2001).
O padrão legal dominante atualmente para a determinação da
guarda de �lhos é o do melhor interesse da criança. Contudo, não existe
uma de�nição precisa do que vem a ser esse melhor interesse. Hall,
Pulver e Cooley (1996) analisaram diferentes estatutos americanos
relacionados à concessão da guarda e observaram que os critérios mais
comumente utilizados incluem o desejo da criança, a interação
observada, o relacionamento da criança com pais e outras partes e a
história de abuso infantil. A Associação Americana de Psicologia
estabeleceu diretrizes para as avaliações de guarda dos �lhos,entre as
quais estão capacidade de paternagem, necessidades psicológicas e
desenvolvimentais da criança e a adequação entre essas necessidades
dos �lhos e as capacidades dos genitores (AMERICAN PSYCHOLOGICAL
ASSOCIATION, 1994). A legislação brasileira, em seu Art. 1.583 do Código
Civil, faz referência à necessidade do genitor guardião estar apto a
propiciar aos �lhos afeto, saúde, segurança e educação (BRASIL, 2002).
O tema da guarda dos �lhos é complexo e provavelmente uma das
avaliações forenses mais difíceis de serem realizadas devido ao
conhecimento exigido, pois o avaliador deve ser especialista em saúde
mental adulta, psicopatologia da infância, desenvolvimento infantil e
práticas de paternagem (HUSS, 2011). Os dados da pesquisa realizada no
Brasil por Lago e Bandeira (2008) apontaram como questão norteadora
para uma recomendação de guarda o relacionamento parental,
construto que abarca as áreas mencionadas por Huss (2011). Assim
sendo, o presente capítulo justi�ca-se pela necessidade de buscar
diretrizes para de�nir o relacionamento pais-�lhos. Seu objetivo é,
portanto, levantar as dimensões do relacionamento parental avaliadas
em situações de determinação de guarda a partir de uma integração dos
resultados de um estudo teórico e um estudo empírico sobre o tema.
Estudo Teórico
Foi realizada uma revisão de literatura acerca dos temas divόrcio,
guarda dos �lhos e relação pais-�lhos. Por meio da análise de artigos
cientí�cos atuais e relacionados a esses temas, buscou-se identi�car os
aspectos do relacionamento parental que teóricos e pesquisadores
consideram relevantes no processo de determinação de guarda de uma
criança ou adolescente.
Um dos primeiros aspectos que devem ser investigados é o histórico
familiar pré-separação, conforme apontado por Whiteside e Becker
(2000), que destacam também a avaliação do nível de envolvimento do
genitor com a criança. Os autores esclarecem ainda que envolvimento se
refere aos tipos e às quantidades de atividades que o genitor
desenvolvia com seu �lho. Essa busca de informações por atividades das
quais os genitores participavam no período anterior à separação
permite evidenciar e comparar o grau de envolvimento na relação
parental antes e após a separação conjugal.
Há casos em que os pais passam a envolver-se efetivamente na vida
dos �lhos somente após o divórcio, ao passo que enquanto residiam
juntos sua participação era reduzida. O estudo de Grzybowski e Wagner
(2010) revela que as avaliações de pais e mães sobre o exercício da
parentalidade pós-divórcio apresentam uma mescla de aspectos
positivos e negativos. Entre os pontos positivos, os genitores destacam
melhoras no papel parental, uma vez que tentam aproveitar ao máximo
o tempo que dispõem para o �lho, esforçando-se para serem melhores
pais e mães. Em situações de disputa de guarda, é importante avaliar o
engajamento de cada genitor na vida do �lho no período anterior à
separação, buscando entender as reais motivações para �car com a
guarda. É pouco comum que genitores que, enquanto casados,
envolviam-se pouco nas atividades diárias dos �lhos, queiram, após a
separação, ter para si a guarda deles.
Considerando ainda a importância de analisar o histórico familiar
pré-separação, vários estudos discutem a in�uência do con�ito
interparental na adaptação dos �lhos no período pós-divórcio
(KUSHNER, 2009; LANSFORD, 2009; PRUETT; EBLING; INSABELLA, 2004;
SANDLER et al., 2008). Altos níveis de con�ito interparental in�uenciam
de forma contínua o ajuste de crianças e adolescentes (DAVIES;
CUMMINGS, 1994; GRYCH; FINCHAM, 1990). No estudo de Pruett, Ebling e
Insabella (2004), problemas somáticos e relacionados ao sono, assim
como problemas de comportamento nos �lhos apresentaram-se
correlacionados a um maior nível de con�ito interparental. É esperado
que o nível de con�ito entre os ex-cônjuges seja reduzido após o
divórcio, proporcionando bem-estar a todos os membros da família.
Entretanto, em muitos casos, o con�ito interparental persiste ou até
mesmo se agrava com a separação conjugal, o que traz implicações para
os �lhos, que permanecem vivenciando a situação con�itiva.
Outro aspecto importante de ser avaliado no relacionamento
parental é o estado emocional dos genitores (KUSHNER, 2009;
LANSFORD, 2009; TRINDER; KELLET; SWIFT, 2008; WHITESIDE; BECKER,
2000). O con�ito conjugal e o processo de divórcio aumentam a
depressão, a ansiedade e o estresse dos genitores, o que prejudica suas
habilidades de maternagem/paternagem, afetando diretamente a
adaptação dos �lhos (LANSFORD, 2009; WHITESIDE; BECKER, 2000).
Estudos apontam que conviver com genitores psicologicamente
saudáveis é um fator de proteção para os �lhos de pais divorciados
(EMERY et al., 1999; HETHERINGTON, 1999).
A parentalidade inclui práticas parentais (WHITESIDE; BECKER, 2000),
orientação (BAILEY, 2003; SCHWARTZ; FINLEY, 2009; TRINDER; KELLET;
SWIFT, 2008; WHITESIDE; BECKER, 2000), disciplina (BAILEY, 2003;
LANSFORD, 2009; SANDLER et al., 2008; SCHWARTZ; FINLEY, 2009;
TRINDER; KELLET; SWIFT, 2008; WHITESIDE; BECKER, 2000) e tomada de
decisão conjunta em relação à vida dos �lhos (TRINDER; KELLET; SWIFT,
2008; WHITESIDE; BECKER, 2000). A ruptura das práticas parentais pode
ocorrer após o divórcio, trazendo di�culdades de monitoramento e
supervisão efetivos dos pais em relação aos �lhos. Oferecer uma
disciplina consistente, em conjunto com afeto, é um desa�o para os pais
recém-separados (LANSFORD, 2009).
O estudo de Schwartz e Finley (2005) aponta que as funções de
disciplina, proteção e monitoramento das tarefas escolares são mais
afetadas pelo divórcio do que as funções facilitadoras do
desenvolvimento emocional, como o companheirismo e o compartilhar
atividades. Isso porque as primeiras são atividades que não podem ser
desempenhadas ‘de fora de casa’, isto é, pelo genitor não residente.
A tomada de decisão conjunta sobre a vida dos �lhos é uma tarefa
que exige �exibilidade e cooperação dos genitores. É importante que
pro�ssionais possam auxiliar as famílias, de forma que os pais
mantenham o foco nas necessidades de seus �lhos, fortalecendo assim
sua capacidade parental. Os sentimentos e as di�culdades que os �lhos
estejam sentindo devem ser discutidos pelos pais, a �m de que possam
em conjunto buscar maneiras de amenizar esse sofrimento (TRINDER;
KELLET; SWIFT, 2008).
É preciso, ainda, considerar as necessidades de desenvolvimento dos
�lhos. Nesse sentido, é importante avaliar a participação em atividades
diárias, envolvimento em atividades escolares, desenvolvimento da
autonomia, consistência parental, suporte �nanceiro e lazer.
A participação dos genitores no dia a dia dos �lhos é essencial para o
desenvolvimento de habilidades adaptativas ao mundo externo
(PRUETT; EBLING; INSABELLA, 2004). Essa participação é especialmente
afetada para os genitores não residentes, que têm sua relação com o
�lho continuamente interrompida, já que as visitas não costumam
ocorrer diariamente. Isso faz com que a relação pais-�lhos necessite ser
reestabelecida a cada novo contato, o que pode prejudicar o
estabelecimento da consistência parental (BAILEY, 2003).
Schwartz e Finley (2009) apontam a função parental de lazer como
uma das áreas em que os participantes (estudantes universitários)
gostariam que seus pais tivessem tido maior envolvimento. Os autores
associam esse desejo ao excesso de tempo que os pais passam no
trabalho, considerando a realidade do estudo norte-americano. O
mesmo estudo revelou ainda que o sustento �nanceiro é associado mais
à função paterna nos primeiros anos do divórcio. Por outro lado, à
medida que os anos passam, é esperado que as mães apresentem uma
contribuição �nanceira maior. Essa maior contribuição pode ocorrer pelo
fato de que, à medida que os �lhos crescem, as mães ingressam ou
retornam ao mercado de trabalho.
Uma síntese dos resultados obtidos por meio da revisão de literatura
permite identi�car a importância de avaliar o histórico pré-separação,
investigando questões da relação conjugal e do envolvimentoparental
no período anterior ao divórcio, de forma a examinar como o genitor se
relacionava com o �lho quando ainda casado, e as in�uências de
con�itos maritais nessa relação. Responsabilidades e/ou características
especí�cas dos genitores, como o estado emocional, são outro aspecto
importante a ser considerado no construto relacionamento pais-�lhos.
Afeto, cuidados básicos, orientação, disciplina e coparentalidade são
atributos que os genitores devem possuir e/ou oferecer a seus �lhos.
Questões importantes do desenvolvimento cognitivo, emocional e
social dos �lhos, que devem ser atendidas pelos genitores, integram
igualmente essa avaliação.
Estudo Empírico
Uma vez tecidas considerações sobre o que a teoria apresenta sobre
o tema relacionamento parental, é importante confrontar teoria e
prática, isto é, procurar conhecer o que as pessoas diretamente
envolvidas com essa temática pensam sobre o assunto. É necessário
investigar a opinião dos próprios pais e �lhos, buscando em seus relatos
e experiências pessoais características que corroborem e/ou
acrescentem os pressupostos abordados pela teoria. Da mesma forma,
justi�ca-se a importância de levantar opiniões pro�ssionais sobre o
assunto, considerando-se o contexto de disputa de guarda. Por isso,
destacam-se aqui os psicólogos e os operadores do Direito que atuam na
área da família, pois trabalham diretamente nesse contexto. Assim
sendo, apresentaremos, a partir de agora, os resultados de estudo
empírico realizado com genitores, crianças, psicólogos e operadores do
Direito.
Dentre os genitores (G) entrevistados, cinco mães e cinco pais, quatro
eram separados e os demais casados. Os participantes crianças (C) foram
três meninos e três meninas, com idades entre 7 e 12 anos, sendo três
�lhas de pais separados, duas que foram criadas pelo padrasto e não
conhecem o pai biológico e uma �lha de pais casados. Foram
entrevistados, ainda, seis psicólogos (P) terapeutas de família e um juiz
de Direito, uma promotora de justiça e uma advogada de família –
operadores do Direito (OD).
Os participantes responderam a entrevistas semiestruturadas, com
perguntas diferenciadas conforme a categoria de respondentes, todas
contendo em média dez questões. As entrevistas aplicadas aos
psicólogos englobavam questões referentes à de�nição de
relacionamento pais-�lhos e à forma de avaliá-lo. Para genitores e
crianças, foram feitas questões referentes às atividades que realizam
juntos, aspectos positivos e aspectos negativos do relacionamento pais-
�lhos. Para os operadores do Direito, as questões buscaram de�nir
aspectos relevantes que devem constar em laudos de avaliações
psicológicas que os auxiliem a de�nir quem �cará com a guarda dos
�lhos.
Do total de 25 participantes do estudo, sete preferiram responder às
questões por escrito e enviá-las por e-mail. Os demais foram
entrevistados pessoalmente. As entrevistas foram gravadas em áudio e
transcritas posteriormente. Foram realizadas análises de conteúdo
(BARDIN, 1979) das respostas de todas as categorias de participantes.
Inicialmente, as respostas de cada conjunto de respondentes foram
agrupadas. A partir de cada agrupamento, emergiram os aspectos mais
importantes que constituem o relacionamento parental, os quais deram
origem às categorias que serão descritas abaixo.
A análise de conteúdo das respostas dos genitores permitiu
identi�car seis principais aspectos do relacionamento parental. As
categorias emergidas a partir da análise são descritas a seguir e
exempli�cadas por algumas respostas dos participantes.
1. Rotina. Descrita pelos participantes como convivência familiar,
abrangendo a participação em atividades diárias como rotina escolar,
refeições e cuidados de higiene. As atividades de lazer e a energia
dispensada para acompanhar as atividades dos �lhos também foram
incluídas.
Procuro conviver com a minha �lha, conversamos diariamente, escutamos músicas
juntas, levo e busco na escola, fazemos refeições juntas, participo das atividades
que a escola convida os pais, viajamos juntas. (G1).
2. Comunicação. Todos os participantes citaram a importância do
diálogo entre pais e �lhos, juntamente com o respeito e a con�ança. O
brincar foi interpretado como uma forma de comunicação,
considerando-se especialmente aqueles que têm �lhos menores. A
comunicação entre os genitores, estando eles casados ou separados,
também foi mencionada pelos participantes como in�uência direta no
relacionamento pais-�lhos.
Pais que se relacionam bem, ou não discordam em relação à educação dos �lhos,
proporcionam segurança às crianças. Embora eu e o pai da minha �lha não
estejamos mais juntos, procuramos sempre nos unir em relação à educação dela.
(G2).
3. Necessidades básicas. Optou-se por englobar nessa categoria
necessidades de ordem emocional, assim como de ordem social. Os
participantes enfatizaram em diferentes respostas a importância da
presença de amor, carinho, atenção, segurança, con�ança, sinceridade,
amizade e transparência. Um ambiente harmonioso e bem estruturado
também foi mencionado como uma necessidade fundamental para um
desenvolvimento saudável emocional da criança.
Acredito que o fundamental é nunca esquecer de deixar claro para seu �lho todos os
dias o quanto ele é importante e o quanto você o ama. Saber ouvir os �lhos,
responder suas dúvidas com prontidão e sinceridade os aproximam de você. (G5).
No que diz respeito às necessidades sociais, foram citadas as
condições mínimas de moradia e lazer, para garantir um bom
desenvolvimento dos �lhos.
As necessidades mais importantes para o desenvolvimento saudável dos �lhos são
amor, segurança, educação de boa qualidade, um conforto básico de infraestrutura
de moradia e lazer (G1).
4. Educação. Essa categoria abrange tanto os aspectos formais da
escolarização quanto os aspectos informais. Os participantes referiram a
participação em atividades escolares, como auxílio e/ou veri�cação das
tarefas escolares e provas, participação em reuniões e eventos
oferecidos pela escola. No que diz respeito à educação informal, foi
citada a preocupação em transmitir valores que formarão a
personalidade dos �lhos.
O bem mais precioso que um pai pode transmitir a um �lho é sem dúvida a
educação no seu conceito mais abrangente. Não penso somente na educação em
sua concepção escolar, mas sim no principal dever dos pais que consiste em
repassar aos �lhos os valores que vão nortear a formação do seu caráter. Para tanto é
necessário estar presente, dar a devida atenção e participar ao máximo da vida dos
�lhos. (G5).
5. Cuidados. Nesse item foram englobados os cuidados com saúde,
alimentação, higiene, sono. Alguns pais também citaram a importância
de respeitar a autonomia dos �lhos.
Eu acho que tem que cuidar higiene, higiene bucal, tomar banho, se organizar... elas
são muito bagunceiras, então eu tô sempre em cima delas, cobrando muito delas...
sofro muito com isso, mas elas respeitam muito. (G8).
As atividades da vida da minha �lha de que eu menos participo são a execução de
suas atividades escolares, seus hábitos de higiene e sono, seus gostos na escolha de
roupas e acessórios, suas conversas com as amigas. Porque são ações que ensinei
desde muito pequena que ela �zesse. Hoje percebo que ela tem autonomia e
disciplina para fazer sem a minha participação. (G1).
6. Disciplina. Essa categoria abrange o estabelecimento de limites,
estipulação de castigos, controle do uso do computador, cobrança em
relação aos deveres escolares, organização do quarto. Também foi citada
a questão da hierarquia, apontando a importância dos pais como
educadores e modelo para os �lhos.
Não abro mão da velha hierarquia familiar onde os pais são a referência da casa. Pais
são pais, amigos são amigos e quem educa os �lhos são os pais. (G5).
As análises de conteúdo das respostas das crianças permitiram
evidenciar quatro categorias do relacionamento parental. São elas:
atividades de lazer, cuidados, disciplina e segurança emocional.
1. Atividades de lazer. Atividades como brincar, praticar esportes,
assistirtelevisão, jogar videogame e passear no shopping foram descritas
como as que as crianças mais gostam de fazer com seus pais. Atividades
que envolvem alimentação, como “ir na pizzaria”, “ela me compra pastel”,
“fazer comida com ele”, “quando a gente come juntas” também foram
referidas como de maior preferência das crianças.
2. Cuidados. As respostas mais frequentes das crianças, quando
questionadas sobre o que mais gostam na mãe e no pai, referiram-se à
questão dos cuidados, os quais foram entendidos como preocupações
em relação à higiene, à alimentação, ao vestuário, à atenção, ao carinho,
ao companheirismo, ao auxílio nas atividades da escola. O suporte
�nanceiro também foi mencionado por alguns participantes.
É preciso tratar com carinho. Quando a gente é pequena, dar banho nos �lhos... não
bater nos �lhos quando não é necessário... dar comida pros �lhos e fazer bem pros
�lhos. Porque quando vai pra escola, com a roupa toda rasgada, toda suja, tem que
ver se a roupa tá rasgada e se a roupa tá limpa... é o que a minha mãe não faz... agora
eu tô morando com a minha avó e ela faz isso. (C1).
Me dou bem com meu pai porque ele me leva pra passear, porque ele �ca comigo,
ele brinca comigo, ele se preocupa comigo, porque ele é legal. (C3).
Um bom pai ou uma boa mãe tem que �car em casa. E também trabalhar, pra
ganhar dinheiro e comprar coisa pra mim. (C4).
3. Disciplina. Às crianças foi questionado sobre atividades e
características nos pais de que elas menos gostavam. A maioria das
respostas envolveu questões de disciplina, como organização do quarto
e estabelecimento de castigos.
Quando o nosso quarto tá bagunçado, ele manda a gente arrumar tudo. Ele pega
todas as roupas, bota em cima da cama e faz a gente arrumar tudo. (C1).
Às vezes eu �co de castigo porque tiro nota baixa. (C2).
4. Segurança emocional. Outro aspecto relatado pelas crianças como
uma queixa em relação aos pais foi a falta de atenção, de diálogo e de
paciência. Um participante ressaltou que o que menos gosta na mãe é
“quando ela não cumpre o que prometeu”.
Minha mãe só �ca deitada mexendo no computador. (C2).
Eu me dou mais ou menos com minha mãe, porque eu não converso muito com ela.
(C2).
O que não é legal no meu pai é que ele grita demais e fala demais da minha mãe.
(C3).
Para ser um bom pai ou uma boa mãe é preciso que sejam pessoas que cumpram
as coisas. Que quando os pais são separados, o pai pague a pensão, que a mãe cuide
dos �lhos, que não deixe na casa dos outros, só. (C3).
A partir da análise de conteúdo das respostas dos operadores do
Direito, foram identi�cados quatro aspectos relevantes do
relacionamento parental, considerando-se as situações de disputa de
guarda. As respostas dos participantes basearam-se nas informações
contidas nos laudos psicológicos que mais contribuem para a tomada de
decisão judicial.
1. Histórico do casal. Uma das participantes ressaltou a relevância de
investigar a vida conjugal do casal, desde o início do relacionamento,
buscando uma compreensão do momento e dos motivos que levaram à
ruptura e ao consequente gerenciamento da situação de separação
conjugal. Esses dados contribuem para o entendimento da situação
con�itiva de disputa vivenciada por meio do processo judicial.
Eu acho que é importante que conste: a vida conjugal do casal, anterior à ruptura do
relacionamento, o momento da ruptura do relacionamento, como foi, por que foi,
quais as causas... (OD1).
2. Rotina. Foi destacada a importância de fornecer dados sobre a
rotina dos pais e dos �lhos, antes e após a separação. O objetivo é
identi�car a participação e a disponibilidade dos pais para com os
cuidados aos �lhos.
É importante saber como era o relacionamento com o �lho antes da separação,
como era a atenção, o quanto �cava perto, o quanto brincava, conferia os temas de
casa, e agora como ele vê o �lho, o quanto e o que ele sente falta, o que ele gostaria
de estar fazendo, quais são os medos que ele tem não estando o �lho com ele (com
a guarda do �lho). Eu acho que tem que ter a avaliação anterior e a avaliação do
momento... com quem a criança era acostumada a conviver antes da separação,
com quem ele cresceu/conviveu, de quem ele tem de referência... (OD1).
3. Estado emocional dos genitores. Os participantes referiram que
uma das mais importantes contribuições dos laudos psicológicos diz
respeito às informações sobre a estrutura emocional dos genitores e sua
compatibilidade com o exercício da guarda. São relevantes as
informações acerca do vínculo afetivo entre pais e �lhos, o
comprometimento e as preocupações daqueles em relação à vida
destes, e sua �exibilidade em relação ao outro genitor.
O carro chefe das avaliações psicológicas é o vínculo afetivo, é o afeto, esse é o que
prepondera... sempre se busca um elo afetivo, se existe, e esse assim também tem
o condão de puxar todos os pontos positivos saudáveis, do ponto de vista do
interesse da criança. (OD2).
Um aspecto relevante para auxiliar o juízo seria: ‘qual dos pais estaria em condições
de assegurar à criança o direito de um vínculo regular e saudável com o outro,
incentivando a relação parental com o outro?’. (OD3).
4. Motivação para a guarda. Os participantes ressaltaram ainda a
motivação que cada um dos genitores e/ou responsáveis apresenta para
�car com a guarda da criança. Informações acerca dos motivos e da
dinâmica envolvidos no desejo da guarda do �lho.
Eu acho que o mais importante é o motivo, por que ele quer a guarda. Aquela
grande questão que o pai muitas vezes pede a guarda do �lho porque quer ferir a
mãe. Porque normalmente o que é mais importante pra mãe: os �lhos; o que é mais
importante pro homem: o patrimônio. Então, ele pede a guarda dos �lhos ‘porque é
assim que eu vou me vingar dela’. E, ao contrário, a mesma coisa, ela pede uma
pensão elevadíssima, ou ela quer �car com determinado bem que ela sabe que é
muito importante pra ele, porque ela quer de alguma forma incomodar. Então, qual
é o motivo real pelo qual tu quer a guarda? Qual é tua intenção? O que tu quer dar
pro teu �lho que tu quer �car com a guarda? Eu acho que isso é o fundamental.
(OD1).
A análise das respostas dos psicólogos participantes da pesquisa
permitiu identi�car cinco categorias relativas ao relacionamento entre
pais e �lhos. Citam-se: estado emocional dos genitores, cuidados,
disciplina, comunicação e histórico do casal.
1. Estado emocional dos genitores. Foi destacada a relevância de
investigar aspectos emocionais de cada um dos genitores, seu nível de
maturidade e de �exibilidade em relação ao ex-parceiro. Essa categoria
abrange ainda a qualidade do afeto entre pais e �lhos, a proximidade
entre eles e a constância oferecida por cada um dos genitores. Foram
destacadas também as necessidades emocionais, como amor, afeto,
carinho, cuidado, con�ança e parceria.
A capacidade de um pai de manter um relacionamento, um vínculo muito rotineiro,
de dar constância, de dar segurança àquela criança. (P5).
2. Cuidados. Os participantes citaram a importância de avaliar a
disponibilidade dos pais para com os �lhos. A energia, o tempo e a
atenção que colocam à disposição para exercer suas funções parentais.
Um participante destacou a importância de avaliar situações de risco
(físico, sexual e/ou emocional) em que a criança possa estar envolvida.
Essa categoria abrange ainda a rede de apoio com que os pais podem
contar para os cuidados do �lho.
É uma construção diária que a cada etapa evolutiva vai demandar um tipo de
energia tanto dos pais quanto dos �lhos. (P1).
3. Disciplina. Nessa categoria englobam-se o estabelecimento de
limites, com ressalva para a de�nição de papéis e consequente
hierarquia familiar. Alguns participantes destacaram evidenciar em sua
prática clínica a di�culdade de muitos genitores em impor limites e lidar
com a questão da autoridade em suas famílias. As práticas educativas
foram outro aspecto mencionado pelos psicólogos, considerando
relevante investigar, principalmente, as práticas punitivas.
Um relacionamento onde existe uma hierarquia,onde os pais devem ter um poder
maior que o dos �lhos. E que possa haver um diálogo, respeito das diferenças, uma
aceitação entre a individualidade de cada um, podendo ter limites. (P4).
4. Comunicação. Os respondentes apontaram a importância do
diálogo e do respeito das diferenças para um desenvolvimento saudável
dos �lhos.
A relação de apoio, de afeto, de amor, de parceria e de con�ança... E nas outras fases
eu acho que está mais presente a parceria, o diálogo, apesar de ter os confrontos.
(P2).
5. Histórico do casal. Um dos participantes destacou a importância de
investigar o histórico do casal, buscando informações sobre o
planejamento e o contexto do nascimento dos �lhos. Da mesma forma,
foi apontada a importância de questionar os aspectos transgeracionais
da família do pai e da mãe, de forma a entender o papel que esse
relacionamento com seus genitores representa na criação de seus �lhos.
Acho que é importante ver também aspectos transgeracionais da família do pai e
da mãe pra investigar como eles foram criados e, a partir disso, como constroem o
modelo pra cuidar da criança. (P6).
Uma análise a partir da integração dos dados obtidos por meio das
diferentes categorias de participantes permite identi�car que o grupo de
participantes dos operadores do Direito apresentou algumas
peculiaridades em relação aos demais grupos. Uma categoria que
emergiu apenas nesse grupo foi ‘motivação para �car com a guarda’. Os
demais participantes não citaram esse aspecto, provavelmente porque
as questões de seus instrumentos não enfocaram situações de perícia e
disputa de guarda. Da mesma forma, a revisão de literatura buscada não
abordou a questão da motivação para a guarda, por se tratar de algo
muito especí�co do contexto de disputa de guarda.
Ainda em relação aos resultados dos operadores do Direito, chama a
atenção que as categorias emergidas enfocam as condições dos
genitores, não sendo citada diretamente a criança. Foram destacados o
histórico do casal, o envolvimento dos genitores na rotina do �lho, as
condições emocionais dos genitores e a motivação para a guarda. Todos
são aspectos relevantes, porém observou-se que a opinião e/ou as
preferências da criança não foram mencionadas. Considerando-se que a
maioria dos �lhos cujos pais disputam sua guarda é de tenra idade, é
possível que para os juristas participantes desse estudo o foco da
avaliação não deva ser a criança, e sim os genitores. Não é possível
generalizar os resultados, mas é curioso observar que ao citarem o que é
importante que conste em laudos psicológicos esses pro�ssionais
dirigiram suas respostas às características do pai e da mãe, não incluindo
necessariamente a criança. Vale apontar que, em termos jurídicos,
crianças e adolescentes com idade inferior a 18 anos são considerados
incapazes para a vida civil, o que possivelmente explica essa
peculiaridade das respostas dos operadores do Direito.
Outros resultados permitem evidenciar diferenças entre aspectos de
cunho mais pessoal em contrapartida a outros de cunho pro�ssional. As
categorias dos genitores e dos �lhos destacaram aspectos como
cuidados, disciplina e segurança emocional, fatores presentes e
constantes no dia a dia da relação pais-�lhos. Por outro lado, o histórico
do casal e as condições psicológicas dos genitores foram fatores que os
operadores do Direito e psicólogos destacaram como importantes de
serem avaliados no relacionamento parental. A competência parental, o
estado emocional adequado, a �exibilidade em relação ao ex-cônjuge e
o vínculo afetivo com o �lho são os aspectos mais importantes de serem
avaliados em situações de disputa de guarda, de acordo com estudos
internacionais e nacionais na área (ACKERMAN; ACKERMAN, 1997; KEILIN;
BLOOM, 1986; LAGO; BANDEIRA, 2008).
O conceito de spillover (EREL; BURMAN, 1995) abordado na literatura
também foi trazido pelos genitores participantes do estudo. Através de
expressões como ‘ambiente harmonioso’ ou ‘ambiente saudável’, os pais
referiram a importância de um relacionamento conjugal tranquilo para
o desenvolvimento saudável dos �lhos. Genitores que estão separados
também �zeram tal a�rmação, relatando a necessidade de coesão em
relação às decisões da vida do �lho.
De forma geral, várias categorias do relacionamento parental
trazidas pelos participantes corroboram os dados da literatura. Entre
elas, destacam-se: comunicação (BOHANEK et al., 2006; SILVA, 2000),
cuidados (MACIEL; CRUZ, 2009; RIVERA et al., 2002), disciplina (EREL;
BURMAN, 1995; RIVERA et al., 2002; SILVA, 2000), rotina (MOREIRA;
BIASOLI-ALVES, 2008) e necessidades básicas (RIVERA et al., 2002). Essas
categorias são comumente referidas na literatura e também foram as
mais comuns entre os grupos de participantes, o que leva a concluir que
são aspectos fundamentais do relacionamento parental.
Em relação à categoria ‘Cuidados’, é válido destacar a questão da
autonomia e da independência dos �lhos. Os cuidados dos genitores
com os �lhos devem implicar também o atendimento às necessidades
de forma adequada à idade destes, respeitando e incentivando sua
autonomia. Assim, o pro�ssional ao apreciar a dimensão ‘Cuidados’ deve
considerar quais os cuidados tomados, e se esses estão apropriados à
etapa de desenvolvimento dos �lhos.
Outro aspecto englobado ainda na categoria ‘Cuidados’ foi o controle
do uso do computador, citado como uma preocupação dos genitores.
Trata-se de questão bastante atual, considerando-se a grande exposição
dos �lhos aos avanços tecnológicos, que nem sempre são bené�cos, e
que exige atenção à proteção dos �lhos a situações de risco.
O suporte �nanceiro, item trazido pelas crianças respondentes, foi
incluído também na categoria ‘Cuidados’. Os participantes
reconheceram a importância dos genitores trabalharem para poder
oferecer-lhes melhores condições de vida, seja em termos de moradia,
lazer ou estudo. Esse item também foi abordado pelos genitores, que
responderam ser importante oferecer condições básicas de
infraestrutura de moradia e lazer para um bom desenvolvimento dos
�lhos. Contudo, o suporte �nanceiro não foi destacado a partir das
análises das respostas dos psicólogos e operadores do Direito.
O brincar foi citado pelos genitores e também pelos �lhos. Para os
genitores, o brincar e a diversão foram abordados como uma forma de
comunicação, de aproximação com os �lhos, de participação ativa em
suas vidas. Vários pais lamentaram a falta de tempo e energia para
atividades de lazer com seus �lhos. Por outro lado, as respostas das
crianças em relação ao brincar, estar junto, transmitiram uma ideia de
‘cuidado’, ou seja, as crianças revelaram sentirem-se cuidadas e
protegidas quando os pais brincam com elas, levam a parques e
restaurantes. Da mesma forma que os pais lamentaram a falta de tempo
e energia, algumas crianças também lamentaram a falta de tempo e
atenção dos pais, questões referidas na literatura (BLACK; DUBOWITZ;
STARR, 1999; BRANDTH; KVANDE, 2002; WARREN; JOHNSON, 1995).
A categoria ‘Educação’ também foi abordada de forma diferenciada
entre pais e �lhos. Os pais trouxeram questões relacionadas à
preocupação com a garantia de uma educação formal juntamente com a
educação informal, dos bons modos e transmissão de valores. Por outro
lado, os �lhos abordaram a questão da escola por meio da participação e
auxílio nas tarefas e estudos para provas. Dados da literatura (AMATO;
GILBRETH, 1999; BACETE; BETORET, 2000; COLEY, 1998; FLOURI;
BUCHANAN, 2003; HILL; TAYLOR, 2004; PELEGRINA; GARCÍA-LINARES;
CASANOVA, 2003; VIZZOTTO, 1988) revelam que a participação dos pais
nas atividades escolares propicia melhor desempenho acadêmico aos
�lhos.
Por �m, o item ‘Cumprimento de promessas’, englobado na categoria
‘Segurança emocional’, foi destacado exclusivamente nas análises das
respostas das crianças. Esse aspecto foi mencionado por Silva (2000),
como sendo uma habilidade social fundamental para o bom
desenvolvimento das crianças. Especialmente nas respostas das crianças
�lhas de pais separados foi possível observar essa queixaem relação aos
genitores, por não cumprirem o estipulado.
É possível identi�car que alguns aspectos elucidados pela teoria
foram reforçados por meio do estudo empírico, permitindo fornecer
diretrizes acerca do que deve ser investigado em avaliações que
envolvam o relacionamento parental em disputa de guarda. A Tabela a
seguir resume os principais achados de ambos os estudos:
Tabela 1 - Aspectos do Relacionamento Parental a serem avaliados
Aspectos do
Relacionamento
Parental
O que avaliar?
Histórico do casal Como era o relacionamento do casal; existência de con�itos pré-
separação; por que houve a ruptura
Rotina O envolvimento do genitor nas atividades diárias do �lho
Cuidados básicos Cuidados relativos à higiene, à alimentação e à saúde
Disciplina Estabelecimento e monitoramento de limites
Coparentalidade Exercício da parentalidade (direitos e deveres sobre o �lho)
conjunto, mesmo após o divórcio
Educação Acompanhamento das atividades escolares e desempenho
acadêmico do �lho
Sustento �nanceiro Oferecimento de condições básicas de moradia, alimentação e
vestuário ao �lho
Lazer Envolvimento do genitor em atividades de lazer para o �lho
Comunicação Capacidade de conversar com o �lho de maneira e�caz
Afeto Demonstração de relação afetuosa do genitor para com o �lho
Motivação para �car com a
guarda
Justi�cativas apresentadas pelo genitor para �car com a guarda do
�lho
As orientações descritas na Tabela acima indicam diretrizes
importantes a serem avaliadas em uma disputa de guarda. Foi possível
evidenciar que alguns aspectos apareceram tanto na revisão de
literatura quanto na análise das entrevistas com os participantes do
estudo empírico. Outros aspectos, contudo, apareceram em apenas um
dos estudos, como, por exemplo, a motivação para �car com a guarda
(resultado do estudo empírico) e a coparentalidade (resultado do estudo
teórico). Importante apontar que os aspectos a serem investigados em
um relacionamento parental não se esgotam nos resultados apontados
neste capítulo, visto que particularidades de cada família são
frequentemente alvos de avaliações psicológicas, seja no âmbito forense
ou da clínica.
As diretrizes aqui fornecidas enfocam o ‘o quê’ avaliar, �cando livre a
escolha do pro�ssional das técnicas por meio das quais investigará esses
aspectos. O psicólogo poderá utilizar-se de entrevistas, observações,
dinâmicas e testes psicológicos, de acordo com sua familiaridade e
domínio dentre as diferentes possibilidades de técnicas reconhecidas
cienti�camente. Cabe, entretanto, apontar a sugestão de material
publicado pelas autoras recentemente, que abrange os aspectos aqui
apontados, de forma sistemática: o Sistema de Avaliação do
Relacionamento Parental (SARP) (LAGO; BANDEIRA, 2013). O SARP não é
um teste psicológico, mas sim um método de avaliação, composto por
três técnicas: Entrevista SARP (aplicada individualmente aos
responsáveis pela criança), Meu Amigo de Papel (protocolo aplicado a
crianças de 5 a 12 anos) e Escala SARP (pontuada pelo próprio
examinador, a partir do cruzamento das informações obtidas por pais e
�lhos). Os resultados da Escala SARP são apresentados por dimensões do
Relacionamento Parental, permitindo identi�car áreas que estão ou não
bem atendidas e, dessa forma, oferecer subsídios mais consistentes para
que o avaliador possa embasar seu laudo.
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CAPÍTULO 5
ALIENAÇÃO PARENTAL: UMA ANÁLISE
PSICOJURÍDICA
Victoria Muccillo Baisch
Lilian Milnitsky Stein
Introdução
A intervenção da Psicologia em áreas típicas do Direito tem sido
fundamental para aprofundar relevantes debates e, por consequência,
promover o desenvolvimento social. Discussões juridicamente
pertinentes – adoção de crianças, redesignação sexual, redução da
maioridade penal, penas alternativas, dentre tantas outras – tiveram e
têm o privilégio de contar com a valiosa contribuição de conhecimentos
consolidados dos mais diversos ramos da Psicologia.
A alienação parental é, sem dúvida, um dos temas que muito têm se
privilegiado da interface entre Direito e Psicologia. As primeiras
observações e conclusões relacionadas ao tema deram espaço a
investigações com rigores cientí�cos mais apurados. Mesmo assim, a
temática da alienação parental ainda é composta de muitas
especulações teóricas e poucas certezas decorrentes de estudos
empíricos. Ainda são necessárias mais investigações que permitam o
desenvolvimento do conhecimento cientí�co acerca do tema, o que
seria de grande valia para todos os pro�ssionais que atuam nessas áreas.
A alienação parental
Pouco conhecido até a primeira década dos anos 2000, foi com o
surgimento da Lei 12.318/2010 que o fenômeno da alienação parental
passou a ter maior visibilidade no cenário jurídico brasileiro. Segundo o
Art. 2º da Lei (2010), a alienação parental consiste na interferência de um
adulto sobre uma criança (geralmente um dos pais, avós, ou outro
adulto que mantenha relação de proximidade com a criança), com o
intuito de afastá-la de um de seus genitores, ou prejudicar o seu vínculo
afetivo com esse.1
A alienação parental costuma ser identi�cada em casais separados,
mormente quando o rompimento do vínculo se deu de modo muito
con�ituoso. Por isso, acredita-se que o estopim dos atos alienadores
esteja relacionado às di�culdades de assimilar o término da relação,
principalmente quando essa não ocorreu de maneira tranquila e
consensual, com brigas, agressões, traições etc. (FONSECA, 2006). O
alienador percebe no �lho a possibilidade de ‘vingar-se’, in�igindo dor e
sofrimento ao ex-parceiro, e começa a agir nesse sentido.
A superveniência cada vez maior de alegações de alienação parental
é atribuída à releitura dos papéis familiares oportunizada a partir da
promulgação da Constituição Federal de 1988. A tradicional família
patriarcal foi superada pela igualdade entre homem e mulher no
casamento, o que incentivou cada vez mais a participação dos homens
na criação e no envolvimento afetivo com seus �lhos (BUOSI, 2012). Um
resultado concreto dessa mudança cultural é o advento da Lei
13.058/2015, que alterou diversos artigos do Código Civil brasileiro,
impondo a aplicação da guarda compartilhada sempre que ambos os
pais detiverem condições de exercer o encargo.
Há, certamente, a crença de que as mães são as responsáveis pela
maioria dos atos alienadores, isto é, aqueles destinados a provocar o
afastamento entre pai e �lho. No entanto, até hoje não se logrou
comprovar uma predisposição feminina no cometimento de tais
condutas. Como, por uma tradição cultural e histórica, são as mulheres
que normalmente exercem a guarda dos �lhos no término do
casamento, são elas que têm maiores chances de praticar condutas de
alienação parental.2 O raciocínio é de que, quanto maior a proximidade
com a criança, maior a chance de ingressar com a campanha alienadora.
Aparentemente, o exercício da guarda não encoraja ou motiva a
alienação, apenas a facilita.
Um levantamento de processos judiciais canadenses realizado no
ano de 2010 (BALA; HUNT; MCCARTNEY, 2010), sustenta a hipótese de que
o genitor guardião tem maiores chances de praticar a alienação
parental. Em 84% dos casos analisados, o alienador era aquele que
exercia a guarda da criança. Baker e Darnall (2006) também não
encontraram diferenças relativas ao gênero no que tange à prática de
alienação parental, tampouco quanto ao gênero da criança vítima. Ou
seja, há evidências de que homens e mulheres têm a mesma tendência
de alienar seus �lhos e de que meninos e meninas possuem as mesmas
chances de serem alienados por seus pais. Ademais, a pesquisa de Baker
e Darnall evidenciou que genitores com a guarda praticam
signi�cativamente mais estratégias alienadoras em comparação àqueles
que não detêm a guarda da criança.
Alienação parental ou Síndrome de Alienação Parental?
Atribui-se ao psiquiatra norte-americano Richard Gardner a criação e
popularização da expressão ‘Síndrome de Alienação Parental’ – ou
simplesmente SAP (GARDNER, 1985). Para o autor, a alienação parental
consiste em um distúrbio da infância surgido em decorrência da atuação
do genitor alienador, havendo a manifestação desse quadro na criança
por meio de um conjunto de oito sintomas: 1) realização de uma
campanha de difamaçãoe descrédito do genitor, externada verbalmente
e nas atitudes da criança; 2) justi�cativas frívolas acerca do motivo da
rejeição do genitor; 3) ausência de ambivalência afetiva: o sentimento
para com o genitor alienador é de amor e para com o outro é de ódio; 4)
fenômeno do ‘pensador independente’, isto é, a criança a�rma que a
rejeição é decorrente de sua própria decisão, sem in�uências externas; 5)
apoio incondicional à �gura parental amada; 6) ausência de culpa pela
rejeição ao genitor; 7) aparição no relato de situações que não
ocorreram, ou das quais a criança não poderia se recordar; e 8) extensão
da animosidade aos demais membros da família extensiva do genitor
rechaçado.
Segundo a teoria de Gardner (2004), a quantidade de sintomas
externados revelaria o grau de alienação da criança, que pode ser leve,
moderado ou grave. No tipo leve, a criança ainda coopera com as
visitações, não obstante já apresente postura crítica e descontente com
o genitor visitante. No mais severo patamar, o alto grau de rejeição ao
pai por parte da criança torna a visitação inviável. Com o passar do
tempo, o vínculo afetivo entre ambos acaba destruído.
No entanto, são extensas as críticas a Gardner e à sua descrição de
uma síndrome alienadora (e.g. KELLY; JOHNSTON, 2001). Um dos
principais argumentos daqueles que compreendem ser descabido um
diagnóstico mental para a alienação parental é o de que inexistem
evidências empíricas da existência dessa síndrome, até mesmo porque
muitas das teorias de Gardner foram publicadas pela editora fundada
pelo próprio autor, em artigos que não passaram pelo procedimento de
revisão por pares (KELLY; JOHNSTON, 2001). Houchin et al. (2012), por
exemplo, consideram a inserção da alienação parental nos manuais
médicos um grande erro, alegando que o fenômeno não possui suporte
empírico, tampouco relevância clínica. Além das críticas já mencionadas,
tais autores referem haver um provável interesse econômico daqueles
que defendem a ‘síndrome’, pois sua inclusão no Manual Diagnóstico e
Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) signi�caria retorno �nanceiro
aos pro�ssionais atuantes nos casos de alienação parental.
Apesar das críticas às ideias de Gardner, um signi�cativo grupo de
autores compreende a alienação parental como uma doença mental,
uma vez que os sintomas externados pela criança são decorrentes da
ação do alienador, tido como o agente etiológico desencadeador da
síndrome (e.g. BENSUSSAN, 2009; BERNET, 2008). A inclusão do
diagnóstico nos manuais médicos de classi�cação de doenças mentais
estaria, por esse motivo, plenamente justi�cada.
Há, ainda, aqueles que consideram a alienação parental o estágio
anterior à instauração da síndrome (e.g. DELAGE, 2010). Segundo essa
linha de raciocínio, a alienação parental consiste em um estágio inicial,
quando a criança ainda não aderiu ao comportamento do genitor
engajado nos atos alienadores. Em outras palavras, a alienação parental
se consubstancia nos atos e condutas do sujeito alienador, com a
�nalidade de afastar o outro genitor do �lho, ao passo que a síndrome se
caracteriza a partir do momento em que a criança passa a manifestar
rejeição e ódio ao genitor antes amado. É essa a visão de Darnall (2011),
que sustenta que a alienação parental se refere aos comportamentos do
alienador, ao passo que a síndrome de alienação parental diz respeito
aos sintomas externados pela criança.
O legislador, ao editar a Lei 12.318/2010, parece ter adotado essa
última visão do fenômeno, prevendo sanções com o intuito de coibir os
atos alienadores e, assim, evitar que a ‘síndrome’ venha a se instalar. As
medidas previstas em lei têm uma essência predominantemente
preventiva, pois ao sancionar o responsável pelas condutas nocivas ao
�lho, constrange-o a cessar seu comportamento e evitar que o
fenômeno se propague. O espírito legislativo é evitar a consolidação da
situação, possibilitando a identi�cação e interrupção, de plano, dos
comportamentos potencialmente danosos à criança ou ao adolescente.
Tratando-se ou não de uma síndrome, é certo que a alienação
parental existe como fenômeno. Mesmo em quantidade ainda reduzida,
existem pesquisas con�áveis no sentido de demonstrar a incidência da
alienação parental nos tribunais. Por exemplo, a análise de 57 protocolos
de avaliações psicológicas extraídas de processos do Juizado de Astúrias,
na Espanha, identi�cou em cerca de 70% deles a presença de
características tidas como ‘típicas’ da Síndrome de Alienação Parental
(SUÁREZ, 2011). Uma simples pesquisa de jurisprudências nos sites dos
Tribunais de Justiça dos Estados brasileiros é su�ciente para constatar a
dimensão e abrangência desse problema, que se apresenta diariamente
nos escritórios de advocacias e consultórios psicológicos.
Justamente por isso é imprescindível que os pro�ssionais que atuam
em processos dessa natureza – principalmente os da área da Psicologia –
detenham conhecimento aprofundado sobre o fenômeno da alienação
parental e dediquem-se, cada vez mais, em aprimorar técnicas voltadas
a identi�cá-lo.
Os atos de alienação parental
De um modo geral, os atos de alienação parental giram em torno da
obstrução ao direito de convivência familiar entre a criança e o genitor
não guardião. As possibilidades são irrestritas, e a Lei 12.318/10 elenca
alguns desses comportamentos em seu Art. 2º, Parágrafo único.3 Como
se trata de um rol meramente exempli�cativo, o magistrado não se
encontra adstrito a ele, podendo declarar outras condutas como
alienadoras, dependendo de cada caso em análise.
Um dos atos alienadores que se veri�ca com maior frequência é o
descumprimento dos horários de visitas, mesmo quando �xados
judicialmente. Muitas vezes, o alienador justi�ca a ausência da criança
com argumentos como de que ela está doente, já tinha outros
compromissos, não quer ver o outro pai etc. O propósito do alienador é
excluir o não guardião da vida do �lho. Para tanto, não compartilha
informações relevantes sobre a criança com o outro genitor, como
compromissos escolares, competições esportivas, tratamentos médicos
realizados etc. Mudanças abruptas de cidade, alegações de maus-tratos
e abuso sexual também se fazem presentes nesse tipo de processo (DIAS,
2013).
Em paralelo, é comum que o alienador desencadeie uma campanha
de desprestígio do outro pai diretamente à criança, atribuindo a ele
adjetivos desabonadores e ofensivos. Um estudo realizado com adultos,
que se identi�caram como vítimas de alienação parental na infância,
demonstrou que esses cresceram ouvindo o genitor alienador atribuir
características depreciativas e pejorativas, constantemente, ao outro
(BAKER, 2006). Em muitos casos, o �lho cresceu ouvindo comentários
ofensivos acerca do genitor alienado, por exemplo, de que era
alcoólatra, violento, que havia abandonado a família, dentre outros. Tal
característica da alienação parental também resta evidenciada no
documentário A Morte Inventada, do cineasta brasileiro Allan Minas
(2009). Pelo prisma da Psicologia Cognitiva, pode-se dizer que os atos de
alienação parental comumente englobam a construção de um
estereótipo negativo a respeito do genitor alienado (BAISCH; BUOSI;
STEIN, no prelo).
Baker e Darnall (2006) conduziram uma pesquisa on-line, com 96 pais
e mães que se autoidenti�caram como pais alienados do convívio com
seus �lhos. Os participantes identi�caram que a principal estratégia de
alienação utilizada pelo outro genitor era falar mal e criar a impressão,
frente à criança, de que o genitor alienado era perigoso. Outras
estratégias também foram identi�cadas com grande frequência, como
repassar à criança questões discutidas no processo judicial em curso e
dizer-lhe que o outro genitor não a ama mais.
Na pesquisa conduzida por López, Iglesias e García (2014), foram
avaliados 72 casais em processo de separação ou divórcio, nos quais ao
menos um dos �lhos passava por alienação parental. Foi examinada a
incidência de 27 estratégias tipicamente alienadoras, restando concluído
que, em 90% das vezes, cinco estratégias principaiseram utilizadas: não
passar informações sobre a criança ao genitor alienado, recompensar
comportamentos desrespeitosos da criança para com o genitor
rejeitado, insultar ou diminuir o alienado em frente à criança, tomar
decisões sem consultar o genitor alienado e impedir visitas.
Outras seis condutas foram observadas em 80% a 90% dos
alienadores. São elas: interrogar a criança após a visita ao genitor
alienado, compartilhar informações pessoais ou judiciais com a criança,
interferir no contato simbólico da criança com o genitor alienado,
di�cultar o contato telefônico entre ambos, procurar cuidadores para a
criança, que não o pai, buscar o apoio de outras pessoas nos atos
alienadores (como a família extensa, ou um novo companheiro).
A pesquisa de López, Iglesias e García (2014) também revelou que as
mulheres – no exercício ou não da guarda de seus �lhos – têm maior
tendência a usar as seguintes práticas de alienação parental: telefonar
para a criança durante o período em que se encontra com o outro pai,
buscar o apoio de outras pessoas nos atos alienadores (como a família
extensa, ou um novo companheiro), assustar a criança dizendo que o
outro genitor irá provocar algum tipo de mal a ela e buscar relatórios
médicos e psicológicos para servirem de provas. Os homens, a seu turno,
tiveram como maior expressão alienadora o encorajamento da criança a
desa�ar as regras e a autoridade do outro genitor. O fato de ter ou não a
guarda exerceu in�uência no tipo de condutas alienadoras, ou seja, o
alienador não guardião preferiu desa�ar o outro e o alienador que possui
a guarda buscou distanciar a criança do genitor rejeitado e de sua
família extensa.
Medidas coercitivas
Justamente por se tratar de uma grave afronta aos mais basilares
direitos da criança e do adolescente, dentre os quais estão englobados a
dignidade humana, convivência familiar e melhor interesse, a alienação
parental é considerada uma forma de abuso moral, sendo de absoluto
interesse social a sua repressão. Nesse sentido, a Lei 12.318/10 traz
valiosa contribuição ao possibilitar ao magistrado a aplicação de
medidas4 que têm o propósito de coibir e constranger os atos
alienadores. Com o passar do tempo, a criança que passa por uma
situação de alienação parental pode desenvolver uma série de
expressões sintomáticas, como depressão, falta de con�ança nas outras
pessoas, baixa autoestima, abuso de álcool e de drogas (BAKER, 2005).
Ben-Ami e Baker (2012) também apontam para manifestações de
insegurança e para a ocorrência de doenças psicossomáticas. Ao crescer
e perceber que foi envolvido em uma grande manipulação, é comum
que o �lho desenvolva o sentimento de culpa, justamente por ter sido
“cúmplice de uma grande injustiça contra o genitor alienado” (FONSECA,
2010, p. 274).
Caracterizado algum ato típico de alienação parental, ou qualquer
conduta que di�culte a convivência da criança ou adolescente com seu
genitor, poderá o juiz aplicar, desde uma simples advertência ao
alienador – de forma escrita ou verbal, até a efetiva inversão da guarda e
até mesmo a suspensão do poder familiar do alienador. Tratam-se, essas
últimas, das medidas mais severas previstas pela legislação. As medidas
de ampliação do regime de convivência do genitor alienado e o
estabelecimento do regime de guarda compartilhada entre os ex-
cônjuges visam propiciar o estreitamento do convívio entre genitor
alienado e criança, de modo a fortalecer o vínculo entre ambos e mitigar
os efeitos da alienação. Da mesma forma, a aplicação de multa ao
alienador é geralmente e�caz para constranger o alienador a cessar seu
comportamento. Também é facultado ao juiz determinar o
acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial da criança e dos
genitores, o que pode se mostrar e�caz para atenuar, não apenas as
práticas alienadoras, como também as consequências psíquicas na
criança e no genitor alienado.
Identi�cação e tratamento da alienação parental
A Lei 12.318/10 faculta a realização de perícia psicológica ou
biopsicossocial, a �m de fornecer mais subsídios ao julgador na
identi�cação dos casos de alienação parental. Trata-se de uma
ferramenta extremamente útil e muito utilizada, visto que o magistrado
não detém o conhecimento técnico especí�co para identi�car tais
condutas.
Por exigência da Lei 12.318/2010, o pro�ssional encarregado da
avaliação (o perito) deverá demonstrar sua aptidão em diagnosticar atos
de alienação parental, o que poderá se dar por meio da apresentação de
seu currículo ou histórico acadêmico. Tal exigência visa assegurar que as
perícias envolvendo suspeitas de alienação parental sejam conduzidas
por pro�ssionais que detenham total conhecimento cientí�co e prático
acerca do tema (ARAÚJO, 2014).
Isso porque a identi�cação de quadros alienadores consiste em tarefa
bastante complexa, sendo necessária a avaliação da dinâmica familiar
como um todo, e de cada indivíduo em particular. A própria lei da
alienação parental refere que o laudo de perícia será embasado em uma
completa avaliação psicológica e biopsicossocial das partes. Para tanto,
deverá englobar a análise ampla do histórico do casal e da separação,
como todos os pormenores psicologicamente relevantes, bem como a
avaliação dos envolvidos e da criança.5
A atuação do psicólogo envolve, principalmente, a realização de
entrevistas individuais e conjuntas e, se necessário, a aplicação de testes,
para con�rmar ou descartar a existência do problema, e mensurar a sua
extensão (TEIXEIRA; BENTZEEN, 2005). Buosi (2012) atenta ao fato de que
o alienador tenta muitas vezes manipular o avaliador, buscando com
que o pro�ssional se alie à tese por ele sustentada.
Uma averiguação criteriosa e com base em procedimentos cientí�cos
é fundamental, mormente porque a rejeição a um dos pais pode estar
sendo motivada por outras razões, inclusive por abuso ou maus-tratos
reais. O pro�ssional precisa estar ciente de todas essas possibilidades, de
modo a não identi�car, precipitadamente e de modo equivocado, uma
situação real de violência como de alienação parental, deixando a
criança exposta ao risco que a ameaça.
Nesse sentido, Kelly e Johnston (2001) sugerem que as relações entre
pais e �lhos, após o divórcio, variam de acordo com uma escala. No
extremo dela, a criança tem um relacionamento positivo com ambos os
pais, e deseja passar tempo com os dois. No extremo oposto, situa-se a
alienação patológica da criança, denominada pelas autoras de alienação
infantil (child alienation). Os pontos intermediários da escala permitem
entrever situações em que a rejeição a um dos pais ocorre por diversos
outros motivos, como uma aliança temporária e reversível (alignment)
ou até mesmo em decorrência de um abuso ou violência real (realistic
estrangment). Havendo uma razão concreta que motiva a rejeição ao
genitor, não há elementos para se falar em alienação parental.
Também é importante que novas formas de intervenção e
tratamentos aptas a mitigar os efeitos da alienação parental sejam
desenvolvidas, sempre em vista a privilegiar a reconstrução do vínculo
entre pai e �lho (DARNALL, 2011; LAGO; BANDEIRA, 2009). Nesse sentido,
já se veri�cou que a terapia em grupo pode ser uma boa ferramenta para
tratar crianças vítimas de alienação parental e seus pais alienadores e
alienados (TOREN et al., 2013). Após quatro meses de intervenção, nos
quais 22 crianças vítimas de alienação parental e seus pais realizaram
sessões de terapia em grupo, veri�cou-se a signi�cativa diminuição dos
níveis de estresse e depressão dos �lhos. Ademais, houve uma melhora
estatisticamente signi�cativa na cooperação entre os pais que passaram
pela intervenção, em comparação com aquelas famílias que não se
submeteram ao tratamento.
Falsas denúncias e falsas memórias
Um aspecto peculiar da alienação parental vem despertando a
curiosidade dos pro�ssionais que atuam nesta esfera. Trata-se da sua
relação com o fenômeno das falsas memórias. A potencial contaminação
da memória da criança vítima de alienação parental deve ser
considerada, especialmente nas hipótesesem que se fazem presentes
acusações de abuso físico ou sexual. Em tais casos, havendo a in�uência
de falsas memórias, é possível que o �lho relate ou con�rme um episódio
que jamais vivenciou.
Não é novidade para os pro�ssionais que atuam na área do Direito de
Família (advogados, promotores, magistrados, psicólogos e assistentes
sociais) que falsas denúncias de abuso físico e sexual costumam se fazer
presentes nos casos de alienação parental. Trata-se de um meio
extremamente e�caz de promover o rápido afastamento entre pai e
�lho, pois, diante de uma denúncia dessa natureza, é natural que o juiz
determine a interrupção do convívio entre ambos. De tão reiterado o
uso dessa artimanha, a jurisprudência vem se mostrando cautelosa ao
determinar a cessação de visitas, preferindo muitas vezes manter o
convívio supervisionado entre a criança e o suposto agressor.
Em casos de suspeita de abuso sexual – havendo ou não alegações de
alienação parental – ocorrerá a abertura de inquérito policial e, havendo
indícios su�cientes da prática do ato, será instaurado o respectivo
processo-crime. Em tal hipótese, a criança prestará o seu testemunho
acerca dos atos que supostamente lhe ocorreram. Ouvir a versão da
criança é indispensável, até mesmo porque vestígios materiais da
violência costumam ser inexistentes na quase totalidade dos casos de
suspeita de abuso sexual (HEGER et al., 2002). Ademais, os chamados
‘sintomas típicos de abuso sexual’ (como mudanças nos hábitos
alimentares, comportamentos sexualizados, medos, di�culdades para
dormir, dentre outros) têm sido cada vez mais questionados (POOLE;
WOLFE, 2009), pois podem advir de inúmeros outros fatores, como o
estresse gerado pelo divórcio dos pais ou pelo processo de alienação
parental. Tais manifestações sintomáticas, por si só, não são su�cientes
para comprovar ou descartar a existência da violência.
Infelizmente, muitos pro�ssionais que atuam na inquirição de
crianças (tanto na fase policial quanto judiciária) ainda carregam
consigo a errônea ideia de que o relato da criança sempre corresponde à
verdade. Trata-se de uma equivocada premissa, pois a memória da
criança está suscetível à in�uência de inúmeros fatores que podem
comprometer a sua memória (falsas memórias) e, consequentemente, a
qualidade daquilo que relatar.
A sugestionabilidade infantil, isto é, a tendência de modi�cação da
memória da criança em decorrência da incorporação de informações
falsas é fenômeno corroborado por uma extensa lista de experimentos
cientí�cos (CECI; ROSS; TOGLIA, 1987). Como consequência, falsas
memórias podem aparecer em suas verbalizações, ou seja, abusos e
agressões que jamais ocorreram podem surgir em seus relatos.
As falsas memórias não são mentiras, e sim lembranças de
informações ou eventos que jamais existiram ou ocorreram (WELTER;
FEIX, 2010). Quando decorrem da distorção natural da memória, são
denominadas de ‘espontâneas’; se resultam da interferência de uma
fonte externa na memória do indivíduo, recebem o nome de ‘sugeridas’
(NEUFELD; BRUST; STEIN, 2010). Por exemplo, se uma criança, após
machucar-se no parquinho, sem nenhuma in�uência de terceiros,
recordar-se que o machucado em sua perna adveio de uma agressão de
seu pai, estará tendo uma falsa memória espontânea. Por outro lado, se
essa mesma criança passar a se lembrar que o machucado foi fruto de
uma agressão do pai após a interferência de outra pessoa (por exemplo,
após a mãe lhe perguntar, apontando para o machucado, “doeu muito
quando o papai machucou você na perna?”), sua falsa memória será
sugerida.
As crianças, por serem altamente sugestionáveis, incorporam
informações falsas à memória com maior facilidade em comparação aos
adultos. Essa característica é ainda mais aguçada em pré-escolares, isto
é, crianças com até cinco anos de idade (CECI; ROSS; TOGLIA, 1987). De
modo consciente ou não, a sugestionabilidade infantil pode ser utilizada
pelo alienador com o propósito de acusar o outro genitor de atos
cometidos contra o �lho. Assim, não é à toa que Gardner aponta, como
um dos sintomas de alienação parental, a verbalização de situações que
jamais ocorrem, ou das quais a criança não poderia ter conhecimento.
No mesmo sentido, juristas e pro�ssionais do Direito de Família
também utilizam, comumente, a expressão ‘implantação de falsas
memórias’ como um sinônimo de alienação parental (DIAS, 2010;
PEREIRA, 2011). Então resta responder à pergunta: qual a relação da
alienação parental com o surgimento de falsas memórias na criança
vítima?
O estudo teórico de Baisch, Buosi e Stein (no prelo), tentou encontrar
respostas a essa indagação por meio da revisão da literatura cientí�ca
sobre a memória e a sugestionabilidade infantil. As autoras identi�caram
os principais fatores potencialmente causadores de falsas memórias na
criança que passa por uma situação de alienação parental, os quais
serão, a seguir, sucintamente expostos.
1 Indução de Estereótipo
A alienação parental envolve condutas voltadas a provocar o
afastamento entre pai e �lho, que são geralmente acompanhadas de
uma forte campanha denegritória acerca do alienado. O �lho escuta,
reiteradas vezes, informações desquali�cadoras e pejorativas a respeito
do outro pai, o que ocasiona a construção de um estereótipo negativo a
seu respeito. Esse é um poderoso fator no sentido de provocar o
aparecimento de falsas memórias, o que é con�rmado por uma vasta
gama de pesquisas cientí�cas (CECI; BRUCK, 1995; LEICHTMAN; CECI,
1995).
Um recente experimento testou esse fator (BAISCH et al., no prelo).
Na pesquisa, 64 crianças receberam a visita do cientista Samuel em suas
salas de aula, o qual realizou uma breve demonstração de ciências com
elas. Após a visita, uma parte dos alunos recebeu informações, por meio
de sua professora, de que o cientista era uma pessoa muito desastrada e
atrapalhada (estereótipo negativo). O restante das crianças não recebeu
informação alguma sobre a personalidade do cientista. Após a etapa de
indução de estereótipo, todas as crianças foram entrevistadas, a �m de
se averiguar o que lembravam da visita do cientista. As crianças que
receberam a in�uência da indução de estereótipo relataram um maior
número de informações não acuradas, porém congruentes com o
estereótipo (informaram que o cientista havia quebrado os materiais,
por exemplo), em comparação com o grupo controle.
Se uma criança escutar sistematicamente que seu genitor é uma
pessoa ruim, violenta, que abandonou a família e que não ama mais o
�lho, poderá incorporar essas informações em sua memória, utilizando-
as para completar lacunas em suas recordações (SCHECHORY,
NACHSON; GLICKSOHN, 2010). Produzem-se, assim, falsas memórias.
2 Exposição a Sugestões
Sugerir a uma criança que algo ocorreu com ela, sem que o fato
tenha acontecido, é outro meio extremamente e�caz de contaminação
da memória e do consequente aparecimento de falsas memórias (CECI;
BRUCK, 1995). Otgaar et al. (2009) comprovaram que até mesmo uma
memória extremamente improvável – uma abdução – pode ser
incorporada com facilidade à memória infantil. Os autores informaram
aos participantes de 7 a 8 anos e de 11 a 12 anos, por meio de técnicas
sugestivas, que eles haviam sido abduzidos por um óvni quando
contavam quatro anos de idade. As crianças desenvolveram falsas
memórias sobre a abdução e chegaram a fornecer detalhes sobre o
evento. Diversos participantes continuaram defendendo que se
recordavam da abdução mesmo após terem sido informados que tudo
não passava de um evento forjado.
A sugestão de informações falsas ocorre frequentemente durante o
processo de alienação parental – embora nem sempre de modo
consciente –, pois o alienador busca convencer a criança de que o outro
genitor realmente lhe provocou um mal. Mônica Guazzelli (2010, p. 44-
45) retrata bem essa possibilidade:
A cena se passa quando a mãe está dando banho na �lha e conversa: ‘Minha �lhinha,
o papai te dá banho e também lava bem tua pererequinha que nem a mamãe?’
‘Não lembro’, pode responder a �lha; contudo, a mãe ‘convencea �lha do que e de
como o papai faz’, e a criança acaba, até porque é sugestionável, concordando.
Aproveitando-se da sujeição da criança, a descrição realizada pela mãe vai �cando
cada vez mais detalhada, sem, é claro, que a criança se aperceba da gravidade
daquilo. ‘Mas então’ – diz a mãe – ‘o papai põe a mão em você e �ca esfregando para
limpar bem?’ E a criança acabará respondendo: ‘Sim’. Depois, de tanto a mãe repetir
essa história, a narrativa acabará se transformando numa realidade para a criança,
pois de fato o pai, quando exerce a visitação, costuma auxiliar a �lha na rotina do
banho.
Quanto maior a intensidade e a frequência da sugestão, maior a
chance de que seja incorporada pela criança e posteriormente recordada
como real.
3 Figura de Autoridade
Os estereótipos e sugestões transmitidos pelo alienador têm maiores
chances de serem considerados verdadeiros pela criança, pois lhe são
repassados por um adulto em quem nutre extrema con�ança, como seus
pais ou avós. Diversos são os achados cientí�cos que demonstram que a
opinião do adulto, mesmo quando manifestamente errônea, tende a
prevalecer sobre o que foi diretamente vivenciado pela própria criança
(POOLE; LINDSAY, 2001; MA; GANEA, 2010).
O experimento de Ma e Ganea (2010) exempli�ca bem essa hipótese.
Crianças de três a cinco anos observaram um adulto colocar um
brinquedo em uma dentre três caixas de cores diferentes. Em um
primeiro momento, as crianças souberam identi�car sem erros qual das
caixas continha o brinquedo. Logo após, a criança era informada, de
modo equivocado, que o brinquedo havia sido colocado em uma caixa
diferente daquela em que realmente estava (de outra cor). Apesar de
terem visualizado toda a ação do adulto e apontado a caixa correta em
um primeiro momento, 65% das crianças menores (três anos), ao irem
buscar o brinquedo, procuravam-no primeiro na caixa erroneamente
mencionada pelo adulto. Os participantes de quatro e cinco anos
dirigiram-se à caixa errada em 25% e 20% das vezes, respectivamente,
mesmo contrariando o que haviam diretamente observado apenas
alguns minutos antes.
Quanto maior for a credibilidade do adulto, maiores as chances de
que a falsa informação seja efetivamente incorporada à memória da
criança. No estudo realizado por Lampinen e Smith (1995), por exemplo,
adultos tidos como ‘desacreditados’ não provocaram o mesmo nível de
interferência na memória das crianças do que aqueles adultos
considerados fontes con�áveis, como pais e professores. Assim sendo,
crianças pequenas são capazes de prestar informações que contradizem
suas próprias experiências, quando in�uenciadas por um adulto de
con�ança.
4 Ausência de Contraexemplo
O último fator da alienação parental relacionado à consolidação das
falsas memórias foi denominado de ausência de contraexemplo e diz
respeito à tendência de as informações falsas serem mais facilmente
aceitas pela criança quando o contato com o alienado for escasso ou
inexistente. Isso porque uma informação falsa tende a restar
impregnada à memória e ser recuperada como verdadeira, inclusive
após um explícito aviso de que era errônea. Trata-se do ‘efeito da
in�uência continuada’, ou continuous in�uence e�ect (JOHNSON; SEIFERT,
1994). Esse fenômeno é atenuado quando a informação correta é
apresentada ao indivíduo de forma repetida.
Assim, eventual falsa memória decorrente dos estereótipos ou
sugestões pode não ser ‘esquecida’ com facilidade, mesmo quando
houver uma explícita menção de que o fato erroneamente recordado
(um abuso sexual, por exemplo) jamais ocorreu. Se a criança e o genitor
alienado não tiverem uma forma de convívio frequente (pela rejeição da
criança, pelos impedimentos provocados pelo alienador ou pela
determinação judicial de suspensão das visitas), a incorporação das
falsas informações será favorecida, pois o �lho não terá a chance de
contrapô-las com suas próprias vivências e experiências. Portanto, é
adequado que medidas que proporcionem a aproximação da criança e
do genitor alienado sejam tomadas, como a extensão do regime de
visitas ou a �xação da guarda compartilhada, na esteira do que prega a
Lei 12.318/10.
É dever dos pro�ssionais que atuam em casos em que há alegações
de alienação parental e de possíveis abusos físico e sexual, tais como
psicólogos, assistentes sociais e operadores do Direito, que tenham em
mente que tais fatores podem acarretar distorções na memória da
criança e, consequentemente, distorções em seu relato. A identi�cação
da ocorrência e intensidade de cada um deles pode consistir em um
meio de predizer o quão con�ável se apresenta o que é dito pela criança.
A avaliação psicológica da criança, por si só, não é capaz de detectar as
falsas memórias do relato infantil. Aliás, com o propósito de preservar ao
máximo a acurácia das informações prestadas pela criança, protocolos
de entrevistas investigativas foram criados e, com o auxílio dos estudos
cientí�cos, são constantemente revisados (para uma revisão sobre os
protocolos de entrevista, vide POOLE; LAMB, 1998). Tais protocolos são
elaborados com atenção aos princípios que permeiam o funcionamento
da memória, privilegiando a utilização de técnicas que favorecem a
coleta de um número maior e mais preciso de informações. Alguns
elementos são comuns a todos os protocolos de entrevistas com
crianças e têm o propósito de fornecer à criança o controle da entrevista,
incentivando ao máximo a sua narrativa livre (WILSON; POWELL, 2001).
No entanto, um alerta é essencial: o simples fato de estar
caracterizada uma situação de alienação parental não pode servir de
pretexto para desacreditar o que é verbalizado pela criança. Nem todas
as condutas alienadoras in�uenciarão as recordações do �lho, visto que
existem diferenças individuais quanto ao nível de sugestionabilidade,
fazendo com que algumas crianças sejam muito mais in�uenciáveis do
que outras (BRUCK; MELNYK, 2004).
Não se deve jamais cair na equivocada premissa de que o relato da
criança não é con�ável unicamente porque ela é vítima de alienação
parental. Pressupor que eventual denúncia (de abuso ou maus-tratos)
não é verdadeira, pois inserida em um contexto de alienação, também
pode colocar em risco a integridade da criança, deixando-a à mercê de
um possível mal. Essa é, justamente, uma forte crítica de grupos que
entendem a alienação parental como um meio de possibilitar que pais
abusadores permaneçam em contado com seus �lhos (RAND, 2010).
Considerações �nais
Mesmo padecendo de averiguações empíricas mais aprofundadas, o
fenômeno da alienação parental bate diariamente às portas dos
escritórios de advocacia e do Poder Judiciário. Uma breve pesquisa
jurisprudencial nos sites dos Tribunais de Justiça dos Estados brasileiros é
su�ciente para se perceber a extensão do fenômeno.
Foi por intermédio da Lei 12.318/2010 que esse velho problema
passou a ter existência jurídica no Brasil. A legislação tratou de
exempli�car condutas alienadoras, facilitando sua identi�cação, e
colocou à disposição do magistrado medidas para coibir, ou ao menos
minimizar, as práticas alienadoras.
A atuação interdisciplinar de diversos pro�ssionais no sentido de
identi�car com a maior presteza possível os comportamentos
alienadores e, rapidamente, cessar ou mitigar as consequências
negativas para os indivíduos envolvidos é de extrema importância. A
psicoterapia pode ser um caminho essencial para tanto.
É também fundamental que faculdades e cursos de extensão e pós-
graduação das áreas da Psicologia, da Psiquiatria e da Assistência Social
insiram o tema em sua grade disciplinar, possibilitando a expansão do
conhecimento teórico e técnico acerca do tema. Somente assim haverá
pro�ssionais cada vez mais preparados para atuar nessas demandas.
Também é possível perceber o crescente interesse dos operadores do
Direito em compreender a relação da alienação parental com o
fenômeno das falsas memórias. Nesse passo, os conhecimentos
consolidados na área da Psicologia Jurídica e da Psicologia do
Testemunho podem auxiliar a compreender a razão da criançavítima de
alienação parental muitas vezes relatar situações que jamais ocorreram,
podendo chegar ao ponto de con�rmar um abuso ou agressão que não
são reais.
Mesmo sendo claro que o processo alienador, de modo proposital ou
casual, é capaz de interferir nas recordações em razão da in�uência dos
estereótipos e sugestões, uma verdadeira violência não pode ser
descartada e merece uma investigação aprofundada. A identi�cação dos
fatores preditores de falsas memórias na criança vítima de alienação
parental (estereótipos, sugestões, �gura de autoridade e ausência de
contraexemplo) pode, em conjunto com o restante do contexto
probatório, auxiliar os pro�ssionais que atuam nesses casos a identi�car
a chance de certas verbalizações corresponderem mais, ou menos, à
verdade dos fatos.
Ainda assim, é fundamental que o relato da criança não chegue ao
ponto de ser desacreditado unicamente por estar inserida em um
contexto alienador. Aliás, Zirogiannis (2001) defende que o conceito de
alienação parental deve ser visto com muito ceticismo, de modo que as
cortes não passem a desacreditar imediatamente nas alegações de
abuso sexual, unicamente porque surgidas em um contexto propício de
suposta alienação. Eventual suspeita de violência de qualquer tipo deve
ser investigada a fundo, sempre com vistas a preservar a integridade da
criança.
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1 Lei 12.318/2010. Art. 2º Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação
psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos
avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância
para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de
vínculos com este.
2 A Lei 13.058, de 22 de dezembro de 2014, alterou a redação de importantes dispositivos do
Código Civil brasileiro referentes à guarda, privilegiando a aplicação da guarda compartilhada
mesmo em casos em que inexiste consenso entre os pais a esse respeito. A nova redação, por
certo, auxiliará a modi�car a tradição histórica da guarda materna e poderá – espera-se –
reduzir as alegações de alienação parental.
3 Lei 12.318/2010. Art. 2º Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação
psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos
avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância
para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de
vínculos com este. Parágrafo único. São formas exempli�cativas de alienação parental, além
dos atos assim declarados pelo juiz ou constatados por perícia, praticados diretamente ou com
auxílio de terceiros:  
II - di�cultar o exercício da autoridade parental;
III - di�cultar contato de criança ou adolescente com genitor;
IV - di�cultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar;
V - omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a criança ou
adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço;
VI - apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar
ou di�cultar a convivência deles com a criança ou adolescente;
VII - mudar o domicílio para local distante, sem justi�cativa, visando a di�cultar a convivência da
criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós.
4 Lei 12.318/2010. Art. 6º Caracterizados atos típicos de alienação parental ou qualquer conduta
que di�culte a convivência de criança ou adolescente com genitor, em ação autônoma ou
incidental, o juiz poderá, cumulativamente ou não, sem prejuízo da decorrente
responsabilidade civil ou criminal e da ampla utilização de instrumentos processuais aptos a
inibir ou atenuar seus efeitos, segundo a gravidade do caso:
I - declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador;
II - ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado;
III - estipular multa ao alienador;
IV - determinar acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial;
V - determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou sua inversão;
VI - determinar a �xação cautelar do domicílio da criança ou adolescente;
VII - declarar a suspensão da autoridade parental.
Parágrafo único. Caracterizada mudança abusiva de endereço, inviabilização ou obstrução à
convivência familiar, o juiz também poderá inverter a obrigação de levar para ou retirar a
criança ou adolescente da residência do genitor, por ocasião das alternâncias dos períodos de
convivência familiar.
5 Lei 12.318/2010. Art. 5º  Havendo indício da prática de ato de alienação parental, em ação
autônoma ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia psicológica ou
biopsicossocial. 
§1º O laudo pericial terá base em ampla avaliação psicológica ou biopsicossocial, conforme o
caso, compreendendo, inclusive, entrevista pessoal com as partes, exame de documentos dos
autos, histórico do relacionamento do casal e da separação, cronologia de incidentes, avaliação
da personalidade dos envolvidos e exame da forma como a criança ou adolescente se
manifesta acerca de eventual acusação contra genitor. 
§2º A perícia será realizada por pro�ssional ou equipe multidisciplinar habilitados, exigido, em
qualquer caso, aptidão comprovada por histórico pro�ssional ou acadêmico para diagnosticar
atos de alienação parental.  
§3º  O perito ou equipe multidisciplinar designada para veri�car a ocorrência de alienação
parental terá prazo de 90 (noventa) dias para apresentação do laudo, prorrogável
exclusivamente por autorização judicial baseada em justi�cativa circunstanciada.
CAPÍTULO 6
SETE ERROS NA AVALIAÇÃO DE SITUAÇÕES DE
ABUSO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E
ADOLESCENTES
Cátula da Luz Pelisoli
Débora Dalbosco Dell’Aglio
Steve Herman
Situações envolvendo denúncias de abuso sexual são comumente
encaminhadas para avaliação psicológica no contexto judiciário
(DAMMEYER, 1998; FINNILÄ-TUOHIMAA et al., 2005; HERMAN, 2010;
STEIN; PERGHER; FEIX, 2009). É bastante compreensível tal demanda
tendo em vista a complexidade dos casos e a ausência ou escassez de
evidências fortes que comprovem o fato e a autoria desse crime
(ECHEBURÚA; SUBIJANA, 2008). O abuso sexual é de�nido pela World
Health Organization (WHO) como comportamento de um perpetrador,
homem ou mulher, que submeta a criança ou adolescente à atividade de
cunho sexual para a qual a vítima não pode consentir (WHO, 2006). A
criança ou adolescente vítima não compreende as ações às quais está
sendo submetida e não está preparada nem em termos de seu
desenvolvimento físico tampouco em termos de seu desenvolvimento
psicológico. O abuso sexual é de�nido a partir de um espectro ampliado
de comportamentos que podem ou não envolver contato físico entre
agressor e vítima. Práticas voyeuristas e exibicionistas, sejam ao vivo ou
on-line, por exemplo, não envolvem contato físico, mas são claramente
práticas inadequadas para crianças e adolescentes, com prejuízos
potenciais para tais vítimas. Comportamentos que envolvem contato
físico também podem ser abusivos, como toques e carícias no corpo com
intenção sexual, além de intercurso sexual de qualquer natureza.
No Brasil, a Lei 12.015, de 07 de agosto de 2009, alterou o Código
Penal de 1940, atualizando as classi�cações para os crimes contra a
liberdade sexual (BRASIL, 2009). Atualmente, portanto, é considerado
“estupro”: a) Art. 213: “constranger alguém, mediante violência ou grave
ameaça, a ter conjunção carnal ou praticar ou permitir que com ele se
pratique ato libidinoso”; b) Art. 215: “ter conjunção carnal ou praticar
outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que
impeça ou di�culte a livre manifestação de vontade da vítima”. Outro
crime contra a liberdade sexual é de�nido como “crime sexual contra
vulnerável” e inclui: a) Art. 218: “induzir alguém menor de 14 anos a
satisfazer a lascívia de outrem”. Por sua vez, o “estupro de vulnerável”
inclui: a) Art. 217: “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso
com menor de 14 anos”; b) Art. 218A:“praticar, na presença de alguém
menor de 14 (catorze) anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal
ou outro ato libidinoso, a �m de satisfazer lascívia própria ou de outrem”;
c) Art. 218B: “submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de
exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por
enfermidade ou de�ciência mental, não tem o necessário discernimento
para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou di�cultar que a abandone”
(BRASIL, 2009).
Percebe-se, portanto, que a legislação nacional trata do tema
de�nindo o que é tecnicamente chamado ‘abuso sexual’ como ‘ato
libidinoso’ ou ‘conjunção carnal’. Tais expressões merecem
esclarecimentos. Ato libidinoso é diverso de afetividade. Diz respeito à
saciação da luxúria e da lascívia humanas, essas compreendidas como o
apego a prazeres carnais, sexualidade e condutas que se distanciam da
moralidade. Como é possível depreender, cabem certas críticas a essa
formulação penal brasileira, tendo em vista que não de�ne claramente
os fatos que podem ser enquadrados nessa tipi�cação. Além disso,
entende-se que um Estado que se julga laico não deveria ter em sua
legislação conceitos que estão mais ligados a uma ordem religiosa do
que a um estatuto cientí�co. Greuel e Carls (2010) tecem críticas ao
conceito de ato libidinoso quando a�rmam que tal conceito não
apresenta abrangência determinada na lei.
A ressalva teórica sobre tais de�nições se faz necessária uma vez que
o trabalho do psicólogo no contexto judiciário se dá exatamente na
interface entre duas pro�ssões que têm dialogado de maneira
insu�ciente (COSTA; LEGNANI; ZUIM, 2009; PELISOLI; DELL’AGLIO, 2014). O
uso de diferentes conceitos é aquilo que este capítulo apresenta como o
primeiro erro nas avaliações envolvendo situações de abuso
sexual. Considera-se aqui que o erro, portanto, já começa na própria
legislação brasileira, quando falha em de�nir com clareza quais os
comportamentos considerados sexualmente abusivos. Entretanto, além
da falha legislativa, na pesquisa acadêmica também há divergências
quanto aos conceitos utilizados para de�nir abuso sexual.
O estudo de Polanczyk et al. (2003, p. 10) investigou a prevalência de
violência sexual contra adolescentes em Porto Alegre e, para isso,
utilizou três questões, a saber: “Você foi sexualmente atacado,
molestado ou estuprado?” “Você viu alguém ser sexualmente atacado,
molestado ou estuprado?” “Você conhece alguém que foi sexualmente
atacado, molestado ou estuprado?”. Os resultados do estudo indicaram
que 2,3% responderam a�rmativamente à primeira pergunta, 4,5% à
segunda pergunta e 27,9% à última pergunta. Dessa forma, considera-se
uma prevalência de vitimização de violência sexual de 2,3% num total de
1.193 adolescentes de escolas estaduais de Porto Alegre. Entretanto,
ressalta-se que o conceito utilizado no estudo era de ‘ataque sexual’,
‘moléstia’ ou ‘estupro’. Trata-se de um conceito restrito de abuso sexual,
incluindo poucos comportamentos do perpetrador em direção à vítima,
sendo esses comportamentos mais agressivos e invasivos.
Barros, Williams e Brino (2008), por sua vez, utilizam a de�nição do
Ministério da Saúde, que entende o abuso sexual como abuso de poder,
em que a(o) criança/adolescente é utilizada(o) para grati�cação do outro
através da indução de práticas sexuais com ou sem violência física. De
forma semelhante, tais ‘práticas sexuais’ não são claramente de�nidas,
di�cultando assim o entendimento de quais comportamentos seriam
abusivos de fato. Ainda assim, esse conceito é intermediário, na medida
em que amplia em relação ao anterior, mas não é tão abrangente quanto
o apresentado pela WHO. Por outro lado, alguns outros estudos indicam
um conceito mais semelhante àquele proposto pela WHO (HABIGZANG;
RAMOS; KOLLER, 2011; SCHAEFER; ROSSETTO; KRISTENSEN, 2012).
Além da falta de clareza na de�nição de comportamentos envolvidos
no abuso sexual, a de�nição da faixa etária considerada vítima também
não está clara para o esclarecimento desse que é um crime importante e
prevalente no país e em vários outros lugares do mundo. No Canadá,
crianças menores do que 12 anos de idade são automaticamente
consideradas incapazes de consentir atividades sexuais, sendo
considerado abuso toda e qualquer prática envolvendo esses sujeitos.
Entre doze e catorze anos, se a ‘relação’ tiver ocorrido com um par, ou
seja, alguém até três anos mais velho, pode ser considerada de outra
maneira. Já no Brasil, menores de 14 anos são considerados incapazes de
consentir, assim como uma pessoa portadora de de�ciência mental ou
que, por algum motivo, não possa oferecer resistência (BARROS;
WILLIAMS; BRINO, 2008). Dessa forma, existe uma lacuna na legislação a
respeito de adolescentes com mais de 14 anos, bem como a respeito de
uma possível diferença de idade entre vítima e perpetrador. Tais lacunas,
muitas vezes, fazem com que os pro�ssionais e até mesmo a sociedade
entendam que existe um consentimento prévio dado apenas pelo fato
de ser adolescente, o que é uma inverdade. O fato de ter mais idade, ou
mais conhecimento e capacidade de compreensão, não garantem a não
vitimização, especialmente quando se refere a crianças e adolescentes.
Adolescentes e mulheres adultas costumam sofrer um julgamento social
quando sofrem violência sexual pelo simples fato de ou já terem noções
sobre sexo ou já terem, em seu passado, relacionamentos sexuais. Ora, o
fato de ter tido relações sexuais por vontade própria não signi�ca que há
consentimento naquela relação especi�camente, ou que há consciência
quanto às repercussões de tal ato.
Considerando que o psicólogo judiciário deve tanto compreender as
leis quanto conhecer as pesquisas a respeito dos temas com que
trabalha, identi�cam-se contrariedades tanto em uma área (legislação)
quanto em outra (pesquisa). Na legislação, os principais problemas são,
portanto: a) não apresentar especi�cidade em relação aos
comportamentos considerados abusivos; b) apresentar uma lacuna na
de�nição da faixa etária considerada vítima, esclarecendo a questão do
consentimento em maiores de 14 anos. Na pesquisa, ressalta-se que
diferentes estudos utilizam conceitos de violência sexual menos ou mais
ampliados e abrangentes, implicando em resultados possivelmente
diversos. Nesses casos, sugere-se que, ao realizar um estudo, sempre se
deixe claro que conceituação de abuso sexual é utilizada pelos autores.
Outro problema comum encontrado na prática das avaliações
forenses de abuso sexual é a equação simples, porém errônea, que
associa a experiência de abuso sexual à manifestação de sintomas de
diferentes ordens: é o segundo erro, frequentemente cometido por
psicólogos e outros pro�ssionais que avaliam tais situações. A princípio,
cabe ressaltar que abuso sexual é um evento de vida, e não um
diagnóstico (KUEHNLE, 1998). Isso signi�ca que pode ou não ocorrer no
curso de vida de uma pessoa e que não apresenta um conjunto de sinais
e sintomas que pertencem única e exclusivamente a esse evento.
Segundo Everson e Sandoval (2011), não há uma síndrome especí�ca do
abuso sexual e, portanto, as mesmas evidências podem gerar diferentes
conclusões. A complexidade é tal que há a possibilidade de que vítimas
não apresentem nenhum sintoma, enquanto que, por outro lado, podem
ser observados sintomas e quadros psicopatológicos em não vítimas
(GAVA, 2012).
Os diagnósticos de transtornos relacionados a traumas e a
estressores, dos quais fazem parte o Transtorno de Estresse Agudo (TEA)
e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), são possibilidades
para vítimas de abuso sexual assim como são para outras vítimas de
eventos traumáticos. Tais diagnósticos consideram necessária a
exposição a um evento, em primeiro lugar, e o sofrimento psicológico
subsequente, que pode ser bem variável (AMERICAN PSYCHIATRIC
ASSOCIATION, 2014). O TEA e o TEPT incluem sintomas de revivência,
comportamentos de evitação, alterações de humor, sintomas de
excitação e dissociativos. Entretanto, não serão todas as vítimas de
abuso sexual que apresentarão taissintomas. Dessa forma, deve-se ter
claro que os transtornos relacionados a traumas e a estressores são de
fato diagnósticos, porém, abuso sexual é um evento que pode ou não
desencadear tais quadros (entre outros possíveis).
A associação sintoma-evento (FINNILÄ-TUOHIMAA et al., 2005) é uma
armadilha em que caem muitos pro�ssionais. A literatura apresenta um
conjunto abrangente de sintomas que podem ser associados à
vitimização por abuso sexual. Consequências de diferentes ordens
(cognitiva, afetiva, física, comportamental...) podem de fato surgir após o
evento traumático (MYERS, 2006; PAOLUCCI; GENIUS; VIOLATO, 2001;
PÉREZ-FUENTES et al., 2013; SERAFIM et al., 2011; WONDIE et al., 2011).
Isso signi�ca que quando são identi�cados sintomas, eles podem ser
decorrentes da suposta violência sexual, podem ser decorrentes de
alienação parental ou ainda de outro evento, violento ou não, como um
luto, por exemplo. Quando não há sintomas, por outro lado, não signi�ca
que não ocorreu abuso. Da mesma forma, como não há equação linear
evento-sintoma, não se pode concluir que não havendo sintoma não há
evento. É possível que a pessoa vitimizada apresente recursos pessoais
e�cientes, como estratégias de coping adaptativas e processos de
resiliência, assim como fatores protetivos, tais como a rede de apoio, que
possam contribuir para um enfrentamento positivo (SILVA; GAVA;
DELL’AGLIO, 2013). Portanto, não há um quadro especí�co de sintomas
que permita a identi�cação da ocorrência de abuso sexual, tendo em
vista que os sintomas podem ter tido outras possibilidades
desencadeante(s). A manifestação de consequências negativas para a
vítima depende de fatores, como características individuais da vítima,
características do abuso e da rede externa de apoio (BORGES; ZINGLER,
2013; COHEN; MANNARINO, 2000; SANTOS; DELL’AGLIO, 2009).
Identi�car sinais e sintomas é uma habilidade essencial tanto para o
psicólogo clínico quanto para o psicólogo judiciário. Entretanto, é
também essencial compreender que existem duas lógicas diferentes e
que o funcionamento do Poder Judiciário é diferente dos fundamentos
da clínica psicológica. A confusão entre papéis e lugares do
psicólogo de�ne o terceiro erro nas avaliações. No senso comum ou
para a população geral, a �gura do psicólogo é representada de uma
maneira limitada, geralmente restrita a um consultório, em seu papel
estritamente clínico. A clínica foi e continua sendo, de fato, uma das
principais áreas da Psicologia (BASTOS; GOMIDE, 1989; BASTOS; GONDIM;
BORGES-ANDRADE, 2010). Entretanto, a Psicologia Forense ou Jurídica
tem crescido de uma maneira signi�cativa, bem como outras áreas da
Psicologia. Dessa forma, o papel do psicólogo já não é mais um só e não
é possível, diante desse crescimento, pensar que existe apenas um ‘per�l’
de pro�ssional dessa área.
Além das representações sociais comuns à população geral,
pro�ssionais que atuam em interface com a Psicologia também
costumam cometer erros por não saber exatamente as habilitações, as
potencialidades e os limites dessa área. Muitas vezes, costumam ter a
ideia de que a formação generalista dos cursos de graduação possibilita
a atuação em qualquer área, o que é uma inverdade, especialmente
nesse contexto contemporâneo de crescimento e ampliação do mercado
de trabalho e das demandas à Psicologia. Especi�camente no contexto
forense, a confusão entre esses papéis não ocorre somente com os
operadores do Direito, que, por serem de outra área, poderiam não
compreender o papel do psicólogo nesse lugar, mas também ocorre com
estudantes e pro�ssionais de Psicologia. Dessa forma, parece necessário
um maior conhecimento por parte dos psicólogos quanto ao seu papel
na Psicologia Forense ou Judiciária.
O papel do psicólogo forense é auxiliar o sistema legal. A Psicologia é
um instrumental para o qual o sistema legal recorre para chegar a
resultados mais justos (HUSS, 2011). Segundo Mira y Lopez (2000), a
Psicologia Jurídica é a Psicologia aplicada ao melhor exercício do Direito.
Os juízes, �guras de autoridade e responsáveis por tomar decisões que
não se limitam ao contexto do Fórum, mas que abrangem a vida das
pessoas envolvidas em uma ação judicial, precisam de ajuda para
realizar essa complexa tarefa (PELISOLI; DELL’AGLIO, 2014). Em muitas
circunstâncias, informações de ordem psicológica fazem diferença na
tomada de decisão de juízes e, portanto, das pessoas (ou partes). Para
obter essas informações, os operadores do Direito têm demandado à
Psicologia a remessa de documentos, principalmente, mas também o
testemunho em audiências. Entretanto, em muitos casos, quando não há
um psicólogo ocupando um cargo dentro do Poder Judiciário ou que
tenha sido nomeado para realizar uma perícia psicológica, pro�ssionais
que atuam em outros contextos, como o da saúde, o da educação, entre
outros, são também chamados para compartilharem informações que se
façam relevantes ao caso. Nas avaliações periciais, a objetividade do
pro�ssional deverá ser uma característica que lhe ajude a fornecer
informações fundamentadas, uma vez que a exigência é de um padrão
elevado de precisão e relevância dos dados coletados (HEILBRUN et al.,
2003). Deve haver clareza, entretanto, sobre o papel de um documento
elaborado por um perito, seja nomeado ou o�cial, e por outro psicólogo,
que atue no contexto clínico, por exemplo. O primeiro tem valor pericial,
contando como prova pericial. O segundo apresenta um valor
documental e não requer imparcialidade, uma vez que o pro�ssional
pode ser um terapeuta com vínculo com uma das partes, por exemplo.
A avaliação psicológica clínica busca coletar dados para a
compreensão do funcionamento psicológico de um examinando (HUSS,
2011). Geralmente, nesse contexto, o avaliando tem o interesse de estar
ali - buscou por sua própria vontade na maioria dos casos - e percebe
necessidade de mudança. Ele e/ou sua família estão cientes de um
problema que pode ser mais especí�co do indivíduo ou da família. Estão,
portanto, com maior probabilidade de compartilhar informações
verdadeiras, uma vez que seu interesse é a melhora de uma situação
con�ituosa/crítica/difícil ou traço de personalidade que tem lhe trazido
prejuízos. Por sua vez, no contexto judiciário, podem existir interesses
que levem o examinando e/ou sua família a omitir informações, negar,
mentir. A atenção a fenômenos como simulação e dissimulação é
incentivada por autores da área, uma vez que eles são mais
provavelmente frequentes em avaliações forenses do que clínicas
(LAGO; BANDEIRA, 2009). A simulação ocorre quando o sujeito produz ou
exagera sintomas, enquanto a dissimulação ocorre quando o sujeito
busca esconder uma patologia ou problema, tendo em vista seus �ns
particulares. Ocorre que os sujeitos avaliados por um pro�ssional perito,
de con�ança do juiz, compreendem que os resultados de uma perícia
podem ou não servir aos seus próprios interesses, ou seja, os interesses
do periciado (HEILBRUN et al., 2003). Podem estar presentes in�uências
sociais que levam a vieses nas respostas apresentadas, com a presença
de informações numa direção favorável ao examinando, que se
caracterizam como respostas socialmente aceitáveis (GOUVEIA et al.,
2009). Dessa forma, as implicações da avaliação psicológica no contexto
judiciário, como se pode depreender, são outras: enquanto no contexto
clínico há implicações restritas ao indivíduo, sua família e seu entorno,
no contexto judiciário, pode haver implicações sobre a sociedade (HUSS,
2011).
Segundo Huss (2011), as avaliações terapêuticas e forenses
distinguem-se em diferentes aspectos. Um desses aspectos é o objetivo
de tais avaliações: enquanto as clínicas buscam reunir informações para
reduzir o sofrimento psicológico, as forenses buscam resolver uma
questão legal. Outro aspecto fundamental diz respeito à relação entre o
pro�ssional e o avaliando: na avaliação clínica, o cuidado e o apoio são
esperados pelo avaliando em sua relação com o psicólogo; por sua vez, o
psicólogo no contexto forense possui um foco na investigação a partirde informações objetivas. O ‘cliente’ na clínica é um, enquanto na
avaliação forense é o Poder Judiciário (HUSS, 2011) ou a própria
sociedade (ECHEBURÚA; SUBIJANA, 2008; ROVINSKI, 2007). Na avaliação
clínica, a perspectiva do examinando é a principal, ou seja, é a sua
‘verdade’ que importa. Na avaliação forense, é necessário um exame
mais minucioso e a verdade objetiva ganha mais valor. Nesse sentido, a
precisão das informações acaba sendo uma exigência bem maior no
contexto forense, quando comparado ao contexto clínico (HUSS, 2011).
Pro�ssionais que possuem experiência em um determinado tipo de
caso, muitas vezes, tornam-se reconhecidos por serem ‘especialistas’. Isso
ocorre tanto no contexto clínico quanto no judiciário. Os psicólogos, por
trabalharem e/ou publicarem sobre determinado tema passam a ser
considerados experts. No caso do trabalho com abuso sexual, isso não é
diferente e muitos pro�ssionais brasileiros se tornam conhecidos nesse
contexto. Porém, o fato de trabalhar e estudar garante que o julgamento
desse expert esteja sempre correto? O fato de o expert dar certeza de que
o fato ocorreu signi�ca que de fato ocorreu? Essa é uma seara
complicada, porém, é importante considerar que alguns pro�ssionais
sentem-se muito capazes de ‘detectar’ casos difíceis, incluindo os de
abuso sexual, e a supercon�ança é o quarto erro cometido por
psicólogos avaliando essas situações (POOLE; LAMB, 2009).
Trabalhar com tais casos, estudá-los e publicar sobre o tema é
altamente desejável. A quali�cação dos pro�ssionais passa por essas
tarefas e habilidades, e é muito do que a área precisa para que ocorra o
aperfeiçoamento necessário. Um exemplo simples, porém com impacto
relevante, é explicitado na narrativa que segue: certa vez, em um serviço
de saúde, uma psicóloga recebeu uma ligação de uma escola. Era uma
professora que fazia um curso de violência e estava preocupada com
uma aluna. A menina já havia sido vítima de abuso sexual, e a professora
estava certa de que ela continuava sendo vítima, uma vez que a menina
vinha muito maquiada para a sala de aula. Para essa professora, a super
maquiagem da aluna de seis anos era um comportamento
hipersexualizado que, conforme fora por ela aprendido, era típico de
abuso sexual. De posse de tal conhecimento, a professora se mostrava
certa de que o evento continuava a ocorrer. Ela desconsiderou,
entretanto, aspectos típicos do desenvolvimento infantil feminino, uma
vez que as meninas costumam exagerar nas maquiagens após
ganharem novos estojos. Casos como esse demonstram que a
autocon�ança pode ser positiva na vida pessoal e no trabalho, mas que é
preciso observar aquilo que os autores têm chamado de supercon�ança:
entendida como uma habilidade superior de detecção de situações
complexas em função de sua experiência e/ou conhecimento. A pesquisa
aponta que se sentir mais con�ante em sua habilidade, ter mais
experiência com determinados casos não impacta de forma signi�cativa
a acurácia da avaliação, ou seja, não faz com que o pro�ssional tenha
mais e�ciência na avaliação de seus casos (POOLE; LAMB, 2009).
O quinto erro na avaliação de situações de abuso sexual envolve
não identi�car possíveis crenças e vieses cognitivos do próprio avaliador,
que são capazes de in�uenciar sua conduta. Everson e Sandoval (2011)
investigaram como as crenças de pro�ssionais poderiam in�uenciar as
avaliações sobre situações de abuso sexual realizadas por eles.
Participaram desse estudo 1.106 pro�ssionais da área de maus-tratos,
que demonstraram apresentar as seguintes crenças: “se a vítima reluta
em revelar, tem mais chance de não ter sofrido abuso”; “se eu for
cometer um erro, é melhor cometer um erro em favor da vítima”; “tendo
dúvidas, melhor absolver o réu” (EVERSON; SANDOVAL, 2011, p. 289-290).
Essas frases traduzem crenças que vão in�uenciar em tomadas de
decisões clínicas de pro�ssionais avaliadores.
Além de crenças como essas, vieses cognitivos como atalhos mentais
também exercem in�uência. Isso signi�ca que a forma como
processamos a informação em nosso cérebro vai fazer com que
compreendamos a situação de uma ou outra maneira. As heurísticas da
representatividade e da disponibilidade são atalhos mentais que usam
algum nível de informação para tomar decisões, mas não englobam
toda a informação possível disponível para executar tal tarefa. Assim,
tomamos decisões considerando alguns dados, mas não todos os
possíveis, o que certamente aumenta a chance de erro (STERNBERG,
2001). Quando usamos o atalho da representatividade, podemos utilizar
a informação mencionada no segundo erro para decidir sobre o evento
do abuso sexual. Por exemplo, um ‘atalho’ simples seria compreender
que, se alguns sintomas e dinâmicas são muito representativos de abuso
sexual, portanto, o evento realmente ocorreu. O risco é considerarmos
padrões representativos como apresentando mais chance de ter de fato
ocorrido e deixarmos de lado situações pouco representativas,
desacreditando em sua veracidade (FINNILÄ-TUOHIMAA et al., 2005).
Por sua vez, quando usamos o ‘atalho’ da disponibilidade, utilizamos
informações que estão disponíveis na nossa memória para decidirmos
sobre o evento que se apresenta no momento presente: ou seja, nos
utilizamos do passado para responder sobre o presente. As informações
passadas que utilizamos incluem fenômenos que são salientes à
memória e que estão facilmente disponíveis, ou seja, de que lembramos
facilmente. Um pro�ssional que atendeu inúmeros casos de abuso ou
que atendeu alguns casos que realmente lhe sensibilizaram, por
exemplo, lança mão dessas experiências que vão ser recuperadas na
memória e entende o novo caso, comparando-os a esses antigos.
Segundo Poole e Lamb (2009), isso explica porque pessoas com muita
experiência em um determinado problema acabam diagnosticando esse
mesmo problema mais do que o esperado.
O sexto erro de pro�ssionais que avaliam situações de abuso
sexual envolve não considerar outras in�uências, como sexo, idade e
pro�ssão, que podem implicar uma tendência a conduzir e a perceber a
situação diferentemente. Mulheres, pessoas mais jovens e assistentes
sociais, apresentam maiores chances de acreditarem que um caso de
abuso realmente aconteceu. O comportamento tipicamente feminino
nesses casos é colocar-se no lugar da criança, defendendo-a, numa
atitude com uma tendência pró-criança. Esse tipo de comportamento foi
percebido em estudos de júris simulados e também em audiências reais.
Dessa forma, mulheres nos lugares de pro�ssionais que avaliam ou de
operadores do Direito apresentam uma chance maior de considerarem o
réu realmente culpado (FINNILÄ-TUOHIMAA et al., 2005; POZZULO et al.,
2010). O sexo também in�uencia a maneira de conduzir a entrevista.
Lamb e Garretson (2003) conduziram um estudo analisando as
investigações de abuso sexual e a possível interferência do sexo do
entrevistador e do entrevistado. Os resultados indicaram que as
mulheres que entrevistam fazem uma quantidade maior de perguntas
abertas e sugestivas para os meninos do que quando entrevistam
meninas. Por sua vez, os entrevistadores homens conduzem as
entrevistas de uma forma mais homogênea, sem sofrer in�uência pelo
sexo do entrevistado.
Uma tendência pró-criança também ocorre com assistentes sociais,
quando comparados a psicólogos e psiquiatras, e com pessoas mais
jovens quando comparadas a outros grupos etários. Esses resultados
indicam que, diante de um caso, assistentes sociais e pessoas mais
jovens tendem a considerar mais o réu de fato culpado. Além do sexo do
pro�ssional, o sexo do perpetrador também tem in�uenciado as decisões
sobre situações de abuso sexual. Os homens são os principais
perpetradores desse crime e abusadoras mulheres são raras. Entretanto,
quando um caso de abuso sexual infantil (ASI) é apresentado
envolvendo uma perpetradora mulher, ele é considerado menos grave
ou, até mesmo, é motivo de piada entre os adultos (GOLDING et al., 2003;
PETERS, 2001).
Por último, o sétimo erro diz respeito a aspectos técnicos da
avaliação e envolve limitara avaliação a apenas uma fonte de
informações sobre o caso, bem como utilizar instrumentos inadequados
e entrevistas sugestivas. Os estudos têm demonstrado que nas
avaliações de abuso sexual os pro�ssionais limitam suas entrevistas às
�guras da mãe e da criança/adolescente vítima, deixando de incluir
outras pessoas. Informações relevantes sobre o caso podem ser trazidas
por outros familiares, professores, babás e outros pro�ssionais que, por
ventura, atendam a família, e por isso devem ser incluídos no processo.
Além disso, o réu ou suposto abusador é entrevistado em pouco mais da
metade dos casos, reforçando o que a literatura já apresenta a respeito
de uma negligência em relação a essas pessoas (DELL’AGLIO; MOURA;
SANTOS, 2011; MOURA; KOLLER, 2008).
Estudo recente indicou que psicólogos brasileiros realizam
avaliações com um uso restrito de instrumentos (PELISOLI, 2013). Os
pro�ssionais indicaram permanecer utilizando muito mais técnicas
tradicionais do que novas ferramentas, como, por exemplo, utilizam
muito mais entrevista lúdica/hora do jogo do que entrevista cognitiva,
ainda que esta tenha maior sustentação empírica (FISHER; GEISELMAN,
2010; KÖHNKEN et al., 1999; MEMON et al., 2010; OLAFSON, 2007;
PERGHER; STEIN, 2005).
A entrevista é o principal instrumento utilizado por psicólogos. A
maior parte dos avaliadores entrevistam a criança/adolescente vítima e
um cuidador não abusivo, porém fazem um menor uso de outros
recursos, como instrumentos psicométricos (12,7%) e projetivos (51,6%)
(PELISOLI, 2013). Ainda que seja o método mais antigo e individualizado
utilizado por psicólogos na avaliação psicológica (CUNHA, 2002) e
apresente referências na literatura brasileira guiando sua utilização
nessa população (HABIGZANG et al., 2008), é questionável quando a
entrevista é utilizada de uma forma não estruturada. A tendência é que
uma entrevista não estruturada seja pouco �dedigna (CUNHA, 2002). Por
tal motivo, entrevistas estruturadas têm ganhado espaço na
investigação de suspeita de abuso sexual, obtendo sustentação empírica
em diferentes países, como pode ser observado na revisão realizada por
Williams et al. (2014). No estudo de Pelisoli (2013), a entrevista cognitiva
é utilizada sempre, em todos os casos, por 17,9% dos psicólogos; muitas
vezes, em diversos casos, por 12,1% dos psicólogos e, às vezes, em
alguns casos, por 11,6% dos psicólogos.
O Protocolo NICHD é um protocolo estruturado de entrevista
investigativa desenvolvido pelo National Institute of Child Health and
Human Development (LAMB et al., 2008; LAMB et al., 2007). A entrevista
consiste em uma fase introdutória de apresentação do entrevistador e
esclarecimento sobre mentira e verdade, sobre a descrição detalhada
dos eventos e sobre a possibilidade de dizer ‘não sei’ como resposta a
questionamentos do entrevistador. O estabelecimento de um vínculo
entre o entrevistador e a criança é o objetivo seguinte, abordando temas
neutros. Esse relato serve como um ‘treino’ em relação à quantidade e à
qualidade das informações propiciadas pela criança. Quando a
entrevista entra em sua etapa de coleta da informação sobre o evento
que é seu foco, as perguntas são não sugestivas e abertas, buscando a
recuperação livre da memória da criança. Ao �nal da entrevista, deve-se
retomar os temas neutros, agradecer a criança e perguntar se ela tem
algo mais a dizer, respondendo a qualquer pergunta que surgir.
O Protocolo NICHD tem obtido sustentação empírica em diversos
países, como pode ser visto na recente revisão de Williams et al. (2014). A
aplicação desse instrumento em casos de suspeita de abuso sexual tem
propiciado respostas mais extensas e detalhadas, propiciando respostas
de qualidade superior, independente da idade. As crianças mais velhas
revelam mais o abuso sexual e fornecem mais detalhes do que as mais
novas. Além disso, o protocolo estruturado minimiza a in�uência de
variáveis como o sexo do entrevistador e o sexo do entrevistado, uma
vez que propõe os questionamentos de maneira ordenada e
previamente estabelecida (WILLIAMS et al., 2014). Instrumentos com
base empírica estabelecida, como o NICHD, devem ter cada vez mais
espaço nas entrevistas envolvendo situações de abuso sexual, tendo em
vista a maior quantidade e qualidade de informação, bem como a
�dedignidade do protocolo.
Considerações �nais
Este capítulo abordou sete erros comuns realizados por pro�ssionais
que conduzem a avaliação de casos de abuso sexual contra crianças e
adolescentes. Considerando que tais avaliações são cada vez mais
demandadas pelo Poder Judiciário, seja na fase pré-processual ou
processual, se torna essencial a capacitação e quali�cação de diferentes
pro�ssionais do setor técnico, como assistentes sociais e psicólogos, e
também de operadores do Direito, no sentido de compreenderem os
papéis, os limites e as possibilidades da atuação e das avaliações desses
casos.
As diferentes conceituações presentes na literatura, sobre a de�nição
de abuso sexual e da faixa etária da vítima, podem implicar confusões
quando da avaliação de uma suposta violência. A ausência de mais
esclarecimentos na legislação brasileira também contribui para que
constantes comentários como ‘só passou a mão’ ou ‘tentou abusar’
(quando não houve intercurso completo) continuem a ocorrer no
cotidiano de serviços da Saúde, da Educação, da Justiça, entre outros. O
avanço legislativo recente certamente não foi capaz de explorar todas as
possibilidades de comportamentos abusivos, deixando brechas que
podem manter impunes agressores sexuais e desprotegidos crianças e
adolescentes vítimas. Dessa forma, é importante que ao produzir um
documento técnico, artigo ou em diálogo com colegas e com a
população, sempre �que claro a) o conceito que fundamenta nosso
entendimento sobre o caso e b) que comportamentos especí�cos
apresentados con�guram o abuso sexual ocorrido.
Além de tornar claras as de�nições em que se baseiam nosso
trabalho, é necessário deixar evidente em nossa avaliação os possíveis
prejuízos que a vítima esteja sofrendo, sejam cognitivos/acadêmicos,
afetivos, sociais, físicos etc. A informação sobre o dano é relevante em
todos os contextos, tanto para justi�car encaminhamentos e uma
intervenção psicossocial, quanto para justi�car medidas de proteção à
vítima e à família e responsabilização do réu. Entretanto, deve-se ter
cuidado ao observar outros possíveis desencadeadores de tais prejuízos,
que podem advir de outros eventos negativos, como alienação parental,
luto, formas de violência diversas do abuso sexual, entre outros. A
associação direta entre sintomas e abuso sexual não é �dedigna o
su�ciente, ainda mais se o pro�ssional desconsiderar os fatores de
proteção que acabam atuando como mediadores dessas consequências,
como aspectos individuais, do abuso e da rede de apoio.
Abordou-se, neste capítulo, a diferença entre o papel clínico e o papel
forense, compreendendo esse último como imparcial e de auxílio ao
sistema legal. Ao atuar como psicólogo jurídico e ter como cliente o
Poder Judiciário e a sociedade, isso não signi�ca não colocar a
criança/adolescente em primeiro lugar ou não ‘cuidar’. Ocorre que se
trata de outra forma de cuidado, uma vez que a inserção de pro�ssionais
como o psicólogo e o assistente social contribui para a humanização dos
procedimentos do Poder Judiciário, dando outra forma de entendimento
aos operadores do Direito e também fazendo um acolhimento
diferenciado para seus usuários. Humanizar a Justiça não signi�ca dar
certeza sobre a ocorrência dos eventos, mas acolher as pessoas e, ao
mesmo tempo, ajudar a Justiça, em seu sentido mais amplo. Para isso, é
necessário ter uma postura acolhedora que não combina com a
supercon�ança descrita neste trabalho.
Além de compreender as diferenças entre esses papéis, cabe aos
pro�ssionais que avaliam tais situações considerarem possíveis
in�uências que podem sofrer, como aquelas relativas a sua própria
pro�ssão, sexo e idade e também aquelas relativas ao seu
processamento cognitivo. Crenças comumente in�uenciamas decisões
sobre as situações de abuso sexual, como observado neste trabalho,
além do próprio funcionamento cognitivo humano, que é limitado, e
que pode apresentar di�culdade para lidar com uma grande quantidade
de informação. Dessa forma, é importante que o pro�ssional saiba a)
dissociar suas características das características e da dinâmica do caso e
b) buscar e organizar a informação de maneira a maximizar seu
potencial decisório.
A busca de informação é muito potencializada pelo uso mais farto de
recursos e instrumentos da Psicologia e também pelo envolvimento de
mais pessoas no processo de coleta de dados. Limitar a avaliação a uma
ou duas pessoas e a um instrumento, como a entrevista não estruturada,
reduz a �dedignidade dos documentos produzidos e, por consequência,
não contribui da maneira como poderia para as decisões realizadas no
âmbito judicial. Portanto, a qualidade das avaliações realizadas nessa
área se torna fundamental. Se nosso papel é exatamente auxiliar o
sistema legal, as demandas dessa área são crescentes e o papel dos
pro�ssionais técnicos pode contribuir para embasar decisões mais justas
sobre a vida das pessoas, sendo necessários investimentos na
quali�cação da atuação tanto no nível individual quanto institucional.
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CAPÍTULO 7
A PSICOLOGIA NA SOCIOEDUCAÇÃO DE
ADOLESCENTES
Analice Brusius
Magale de Camargo Machado
Ora (dirás) ouvir adolescentes! Certo
Perdeste o senso! E eu te direi no entanto,
Que para ouvi-los há que chegar bem perto
E nunca assumir aquele ar de espanto...
Luiz Carlos Osório1
A proposta deste capítulo é trazer re�exões sobre o trabalho da
Psicologia com os adolescentes que cumprem medidas socioeducativas
de internação, por terem cometido ato infracional. Procurou-se
contextualizar este trabalho de acordo com as novas diretrizes das
políticas públicas. Essas direções vêm sendo decorrentes e, ao mesmo
tempo, produtoras de mudanças que giram em torno da avaliação dos
efeitos dessas medidas para a vida dos adolescentes e para a sociedade
atual. Coloca-se no horizonte um olhar para os adolescentes que
cumprem medidas socioeducativas na posição de cidadãos de deveres e
de responsabilidade pelos seus atos, mas também de atenção aos
direitos humanos, à educação, à saúde, ao lazer e à cultura.
Nesse contexto, o pro�ssional da Psicologia está diretamente
envolvido com as incursões institucionais e manifestações dos
adolescentes que passam a integrar o sistema. Isso implica que as ações
da Psicologia precisam ser pensadas e compreendidas, juntamente às
construções de novas formas de produzir encontros com esses
adolescentes. Busca-se, ainda, uma lógica de abertura institucional, indo
ao encontro das políticas de atenção aos adolescentes; da consideração
da singularidade e de um fazer da Psicologia que não se restrinja a ações
realizadas dentro da unidade de internação. É presente a necessidade de
re�etir com a rede de atenção ao adolescente interna e externa às
instituições. A socioeducação acontece no momento em que o
adolescente se depara com o mundo social e com sua multiplicidade das
relações sociais. A Psicologia pode contribuir abrindo espaços para que a
palavra desse adolescente possa ser escutada em diferentes contextos,
despertando nele o desejo de ir além do cenário de violência que o
trouxe para a instituição.
Cabe mencionar que esse texto foi escrito por autoras que, além da
docência, atuam com adolescentes em medidas socioeducativas dentro
de uma unidade de internação e em um Centro de Atenção Psicossocial
da Infância e Adolescência (CAPSia). A partir disso, tem-se a intenção de
apresentar uma articulação teórica que pode auxiliar na sustentação de
uma prática orientada por uma visão do adolescente como sujeito. A
violência é vista como fazendo parte de um processo psíquico e social. O
sujeito será tratado na sua complexidade numa relação extensiva entre a
singularidade e o social. O aspecto institucional será apresentado como
fazendo parte da rede de atenção aos adolescentes, com a perspectiva
da interdisciplinaridade e intersetorialidade, ligadas ao social e às
políticas públicas. Pretende-se, assim, contribuir com a compreensão do
trabalho da Psicologia nesse contexto.
Uma breve contextualização
A atuação do psicólogo com adolescentes que cumprem medida
socioeducativa de internação encontra seu fulcro não somente no
Código de Ética da pro�ssão e em seu referencial teórico e
metodológico, mas também no marco legal, que surgiu a partir da
Constituição Federal (BRASIL, 1988) e do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) (1990). Vislumbra-se um horizonte de democracia
política no qual as crianças e adolescentes passam a ser concebidos
como ‘sujeitos de direitos’ que devem ser tratados com prioridade
absoluta (BRASIL, 1990). Para que a “Doutrina da Proteção Integral” (Ibid)
possa ser colocada em prática são necessárias mudanças nas formas de
perceber, compreender e agir dentro e fora das instituições,
considerando também a opinião pública. Leva-se em conta a
responsabilidade dos diferentes atores envolvidos, como os
adolescentes, os familiares, os pro�ssionais, a sociedade civil. Implica
transformar visões sustentadas por muito tempo por paradigmas
repressores e assistencialistas que eram difundidos na “Doutrina da
Situação Irregular” (BRASIL, 1979).
A partir do ECA, quando um adolescente, de 12 a 18 anos, se envolve
em um delito, esse passa a ser considerado um ato infracional. O ECA
também prevê que possa ser aplicada uma medida socioeducativa para
o adolescente, que poderá ser cumprida até os 21 anos de idade, quando
será automaticamente extinta.
Diferencia-se a forma de responsabilização dos adolescentes da
proposta aos adultos, por considerar-se que estão em condição peculiar
de desenvolvimento e que essa condição deve ser respeitada (BRASIL,
1990). O adolescente é uma pessoa que vive um momento de transição
entre a infância e a fase adulta, que está buscando construir um novo
lugar para si na sociedade, implicando assim a construção de
perspectivas de vida. A medida socioeducativa de internação vem a ser
uma medida extrema a ser tomada,visto que ela pressupõe a privação
de liberdade e a limitação do direito de ir e vir. Essa medida poderá ser
aplicada, somente, quando veri�cada a prática de ato infracional diante
da autoridade competente, segundo o Art. 122 do ECA. É enfatizado que
para ser aplicada a medida socioeducativa de internação, o ato
infracional praticado pelo adolescente deve ser submetido ao devido
processo legal e deve ser cometido mediante grave ameaça ou violência
à pessoa. No processo, também é levada em conta a reiteração no
cometimento de outras infrações graves, ou quando o adolescente
descumprir reiterada e injusti�cavelmente outra medida socioeducativa
mais branda anteriormente imposta.
Quando a situação veri�cada não se adequar a nenhuma dessas
hipóteses, deverão ser a ele aplicadas medidas socioeducativas mais
brandas que não a privação da liberdade. Dessa forma, a proposta é que
o direito à liberdade seja retirado somente em casos em que se justi�que
essa medida extrema. Esse seria o princípio da excepcionalidade da
medida socioeducativa, e, além dele, existe o da brevidade que enfatiza
que a internação deve ser breve; não pode ser prolongada, e o trabalho
socioeducativo deve ser realizado intensamente na instituição para que
o tempo de internação possa ser abreviado.
Outro aspecto importante, na aplicação da medida socioeducativa de
internação, é a garantia de todos os outros direitos dos adolescentes,
preconizados pelo ECA (BRASIL, 1990), como o direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao lazer, à pro�ssionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária. Compreende-se que a proposta da política de atendimento
expressa nessa Lei é a de que a privação de liberdade seja utilizada como
um recurso somente em casos em que for comprovada a sua
necessidade. Tem-se como foco que a situação de cada adolescente seja
devidamente examinada, de forma a impedir a aplicação da internação
em situações que poderiam ser solucionadas sem restringir totalmente a
convivência social do adolescente.
Na medida de internação, objetiva-se desenvolver a socioeducação
responsabilizando o adolescente pelos seus atos. No mesmo sentido,
busca-se “preparar os jovens para o convívio social sem quebrar as
regras de convivência consideradas como crime ou contravenção no
Código Penal de Adultos” (COSTA, 2006, p. 57). A medida socioeducativa
não é meramente sancionatória. Ela delineia uma série de práticas que
buscam causar transformações no adolescente que se envolve com a
violência. O ato infracional do adolescente passa a ser tomado como
fazendo parte de uma vida, na sua singularidade associado a uma
condição social. As práticas desenvolvidas na medida socioeducativa
podem contribuir para a construção das políticas de atenção aos
adolescentes, até mesmo para além desse sistema.
Após um longo período de ausência de normativas com relação ao
funcionamento da medida socioeducativa de internação, vive-se,
atualmente, um período fértil no que tange o estabelecimento de
programas e planos de trabalho que objetivam tornar realidade o que se
encontra no texto da lei. Vem-se trabalhando em direção à construção
de diretrizes condizentes com o marco legal em vigor.
As diretrizes da política de atendimento, através do Sistema Nacional
Socioeducativo (BRASIL, 2012), preveem a articulação dos distintos
níveis de governo e da corresponsabilidade da família, da sociedade e do
Estado demandando a construção de um amplo pacto social em torno
do Sistema Socioeducativo. Pauta-se pela orientação de que nas
medidas socioeducativas deva prevalecer um caráter sancionatório e
educacional e de que todos os que trabalham em uma Unidade de
Internação têm a função socioeducativa como inerente ao seu trabalho
(COSTA, 2006). O SINASE também tem um importante papel em
expressar e destacar, claramente, os objetivos da medida socioeducativa.
1. a responsabilização do adolescente quanto às consequências lesivas do ato
infracional, sempre que possível incentivando a sua reparação;
2. a integração social do adolescente e a garantia de seus direitos individuais e
sociais, por meio do cumprimento de seu Plano Individual de Atendimento (PIA);
3. a desaprovação da conduta infracional, efetivando as disposições da sentença
como parâmetro máximo de privação de liberdade ou restrição de direitos,
observados os limites previstos em lei. (BRASIL, 2012).
Em 2013, foi formulado o primeiro Plano Nacional de Atendimento
Socioeducativo, que era previsto pelo SINASE. A sua elaboração teve
como base a realização de um diagnóstico da realidade do atendimento
socioeducativo no país. Veri�cou-se, nesses últimos anos, em estudos e
análises de práticas desenvolvidas, “o quanto o sistema socioeducativo
ainda não incorporou nem universalizou em sua prática todos os
avanços consolidados na legislação” (BRASIL, 2013). Buscando reverter
esse quadro, estabeleceram-se no Plano Nacional de Atendimento
Socioeducativo, diretrizes e eixos operativos para o SINASE que serão
válidos nos próximos dez anos.
Convém destacar que o Plano Nacional de Atendimento
Socioeducativo apontou como sendo um dos seus principais objetivos
articular e estabelecer com as demais políticas setoriais planos de ação
para a socioeducação, assim como a elaboração de protocolos e �uxos
de atendimento de forma intersetorial (BRASIL, 2013).
A partir do Plano Nacional de Atendimento Socioeducativo deverão
ser elaborados os Planos Estaduais e Municipais. Esses devem prever,
obrigatoriamente, “ações articuladas nas áreas de educação, saúde,
assistência social, cultura, capacitação para o trabalho e esporte, para os
adolescentes atendidos” (BRASIL, 2012). A tarefa da socioeducação deve
ser integrada com todas as políticas públicas, e não realizada somente
pela instituição que executa as medidas socioeducativa, que, nesse caso,
seria uma unidade de internação.
A partir dessas normativas, a atenção à saúde do adolescente passa a
ser consolidada, cada vez mais, com a ampliação do trabalho
socioeducativo, que será realizado de forma intersetorial. A lei prevê
ações que estão diretamente relacionadas à prática do psicólogo nos
Centros de Atendimentos Socioeducativos. Trata-se de intervenções que
podem ser realizadas por um pro�ssional que faz parte da instituição e
também por um pro�ssional de um serviço pertencente à comunidade,
da qual o adolescente é originário. Caracterizam-se, assim,
possibilidades para a constituição de parcerias de trabalho para
promover ações com os adolescentes da unidade de internação, que
contemplem:
[...] a implantação de ações de promoção da saúde, integrando as ações
socioeducativas, estimulando a autonomia, a melhoria das relações interpessoais e
o fortalecimento de redes de apoio aos adolescentes e suas famílias, assim como a
proposta de inclusão de ações e serviços para a promoção, proteção, prevenção de
agravos e doenças e recuperação da saúde. (BRASIL, 2012).
Os cuidados especiais em saúde mental, incluindo situações de uso
de álcool e outras substâncias psicoativas, e a atenção aos adolescentes
com de�ciências, ocupam em lugar de destaque na legislação: “o
adolescente em cumprimento de medida socioeducativa que apresente
indícios de transtorno mental, de de�ciência mental, ou associadas,
deverá ser avaliado por equipe técnica multidisciplinar e multissetorial”
(Ibid.). A avaliação “subsidiará a elaboração e execução da terapêutica a
ser adotada, a qual será incluída no PIA do adolescente, prevendo, se
necessário, ações voltadas para a família” (Ibid.).
A privação da liberdade, por si só, é geradora de sofrimento psíquico.
É importante que os pro�ssionais possam considerar e reconhecer esse
sofrimento nos processos de acompanhamento de saúde mental.
Também deve ser levado em conta que os adolescentes que se
envolvem com a violência apresentam necessidades especí�cas que
estão relacionadas com a sua história de vida e o seu contextosocial.
O PIA, na forma estabelecida pelo SINASE, é utilizado para: “previsão,
registro e gestão de atividades a serem desenvolvidas com o
adolescente” (BRASIL, 2012). O PIA é elaborado pela equipe técnica do
programa de atendimento associado à realidade e às demandas de cada
jovem. Além disso, ele propõe que sejam de�nidos objetivos e formas de
responsabilização do adolescente e de sua família com relação ao
cumprimento da medida socioeducativa. No caso dos adolescentes em
privação de liberdade, é previsto o estabelecimento de metas para o
adolescente obter uma progressão de medida socioeducativa. Propostas
especí�cas de atenção à saúde, integração e capacitação pro�ssional
também deverão ser explicitadas no PIA.
Como o PIA é sempre apresentado obrigatoriamente ao Juizado da
Infância e Juventude, ele é uma forma concreta de comunicação do
Programa de Atendimento Socioeducativo com o Poder Judiciário, o que
traz contornos e delimitações especí�cas em sua proposta. O Plano
Individual de Atendimento poderá garantir uma série de direitos aos
adolescentes e seus familiares, pois estará sendo �scalizado por uma
autoridade. Além disso, o PIA convoca formas de responsabilização
peculiares, pois tratam-se de compromissos assumidos pelo adolescente
frente ao Poder Judiciário. Existe também a imposição de cumprimento
do Plano como condição para uma autorização ao retorno ao convívio
social.
A tarefa dos pro�ssionais que atuam interdisciplinarmente e
intersetorialmente nesse contexto é fazer com que o PIA, que foi
homologado judicialmente, produza sentido para a vida do adolescente
e que possa signi�car para ele uma possibilidade de futuro afastado dos
atos de violência que o trouxeram para a instituição. Constitui-se um
desa�o para os pro�ssionais que atuam com a medida socioeducativa de
internação fazer com que o PIA proposto pelo adolescente, família e
equipe, interdisciplinar e intersetorial, possa, de alguma forma,
continuar produzindo sentido para a vida do adolescente. Ele será e�caz
quando o adolescente perceber que as propostas apresentadas foram
elaboradas a partir de uma perspectiva de um cuidado com ele. E que,
além disso, possam potencializar a sua vida; criar oportunidades efetivas
de reinserção social. Esse plano pode ter um lugar de destaque no que se
refere à consideração da individuação e singularidade na construção do
trabalho de socioeducação, bem como para a produção de sentidos da
medida socioeducativa como validação de uma lei que exige, mas que
também oferece o cuidado e valorização da vida.
Psicologia e Medida Socioeducativa de Internação
O psicólogo que venha a participar no contexto de trabalho da
medida socioeducativa de internação precisa conhecer o cenário
histórico e legal que orienta as políticas públicas que envolvem a
atenção ao adolescente. Considera-se esse conhecimento um dos
pontos de partida para que o pro�ssional da Psicologia possa situar-se
frente às especi�cidades desse campo de intervenção.
O papel do psicólogo merece ser retomado, nesse cenário, com uma
breve contextualização histórica e algumas de�nições já estabelecidas.
As ações da Psicologia, nesse campo, surgiram sem orientações
especí�cas sobre o papel do psicólogo dentro de uma unidade de
internação. O Programa de Execução de Medidas Socioeducativas e
Internação e Semiliberdade do Rio Grande do Sul (GOV-RS, 2002) refere à
ação do pro�ssional de Psicologia para a realização de avaliação que
pudesse subsidiar a elaboração do Plano Individual de Atendimento
(PIA), “�cando a seu critério a utilização de testes para auxiliar na
compreensão da personalidade do adolescente” (GOV-RS, 2002). O
PEMSEIS ainda refere que a principal forma de intervenção seria coletiva
através de grupos terapêuticos e também traz a possibilidade de
intervenção do pro�ssional na família do adolescente para compreensão
da dinâmica familiar.
Essas de�nições se deram num momento em que a inserção do
psicólogo nas instituições de privação de liberdade era recente e ainda
incipiente para adentrar na complexidade dada num Programa
Socioeducativo. Essas práticas estavam focadas em uma lógica da
Psicologia Clínica; elas seguiam o modelo que era fornecido aos
psicólogos durante a sua formação, naquele período. Constituía-se um
cenário de modelo técnico que também era demandado pelas equipes
de trabalho e por diferentes instituições que mantinham relação com o
sistema socioeducativo.
Ao longo do tempo, novas perspectivas foram surgindo frente às
novas concepções, orientadas pelas políticas públicas, e frente às
demandas apresentadas pelos jovens e pela sociedade. Essas
circunstâncias convocam inúmeras interrogações sobre as
possibilidades de e�cácia do sistema socioeducativo; sobre a sua
validade ou não para a vida dos adolescentes que passam a integrar o
sistema durante meses ou até três anos; questiona-se até que ponto é
possível a reabilitação e reinserção social do adolescente que passa a
cumprir uma medida socioeducativa de internação.
No Seminário Nacional: A Atuação dos Psicólogos junto aos
Adolescentes Privados de Liberdade, promovido pelo Conselho Federal de
Psicologia (CFP, 2009), foram apresentados, discutidos e transformados
em um relatório, novos pressupostos e diretrizes do atendimento do
psicólogo. Encontra-se também “Referências técnicas para atuação de
psicólogos no âmbito das medidas socioeducativas de internação” (CFP,
2010), deixando documentando e dando visibilidade ao que se espera do
pro�ssional que atua em uma unidade de privação de liberdade de
adolescentes. A dimensão ético-política do trabalho do pro�ssional na
instituição é explicitada.
Nesse contexto é importante a re�exão por parte dos psicólogos que trabalham em
unidades de privação de liberdade sobre seu papel nesse sistema. O compromisso
ético-político do pro�ssional psicólogo, cada vez mais implicado com as temáticas
sociais, em especial com as medidas socioeducativas, supõe visão ampliada de sua
função e atuação. Isso implica analisar o contexto social, a demanda por sua
presença e a contribuição na política de atendimento ao adolescente autor de ato
infracional que está em privação de liberdade. (CFP, 2010, p. 20).
As interrogações que assim se colocam convocam, cada vez mais, um
pro�ssional da Psicologia que participe da construção de um trabalho
em equipe interdisciplinar como via de acessar a complexidade de um
sistema socioeducativo de internação. A interdisciplinaridade é vista
como forma de avançar no trabalho numa articulação entre os
diferentes olhares e as diferentes possibilidades de intervenção no
campo que cada área preconiza na sua especi�cidade. Entende-se que é
na fronteira entre as áreas do conhecimento e a intervenção que
avançamos no tratamento de questões humanas e sociais, e nesse caso
na socioeducação.
Considera-se um avanço o fato do pro�ssional se propor à construção
de um trabalho em equipe interdisciplinar dentro da instituição,
contando também com diálogo e articulações com diferentes setores da
sociedade fora da instituição.
Os diferentes setores visados para essa conjectura são aqueles que
podem vir a contribuir para um olhar e possíveis intervenções para com
os adolescentes no que antecede ou sucede ao sistema de
socioeducação de internação. Destaca-se o trabalho de articulação com
a rede interna e externa às unidades de atendimento socioeducativo,
permeando a interdisciplinaridade e a intersetorialidade, como meio de
auxiliar na construção da garantia dos direitos humanos do adolescente
que se encontra privado de liberdade.
As ações do pro�ssional, segundo as Referências Técnicas para
Atuação de Psicólogos no Âmbito das Medidas Socioeducativas,
apontam para o trabalho institucional sendo seu papel “contribuir para
planejar, organizar, implementar, avaliar o cotidiano institucional que
propicie experiências educacionais e terapêuticas signi�cativas para os
adolescentes internados” (CFP, 2010). Essas ações devemser construídas
juntamente com os demais membros da equipe interdisciplinar. Nesse
processo, faz parte da prática do psicólogo auxiliar a promover uma
abertura para o mundo extramuros “em dois sentidos, estabelecendo
estratégias de movimento de fora para dentro e de dentro para fora”
(CFP, 2010). Com relação às ações com os adolescentes e seus familiares
é explicitada a importância da construção do PIA, levando em conta a
história de vida e a situação atual do adolescente e de seu núcleo
familiar.
[...] o auxílio ofertado ao grupo de pertencimento do adolescente na construção de
uma rede de apoio a ele é fundamental na construção e viabilidade do PIA. O bom
Plano Individual de Atendimento se inscreve no presente (o que o adolescente fará
ao longo do período de internação), mas não perde de vista o futuro do adolescente
– o término do cumprimento da medida de privação de liberdade e o retorno
produtivo à convivência coletiva –, �nalidade última do programa de execução da
medida socioeducativa. (CFP, 2010).
São inerentes também ao trabalho da Psicologia no âmbito
institucional: o acolhimento e a escuta do adolescente sobre os seus
con�itos e as di�culdades enfrentadas no cotidiano institucional. Da
mesma forma, o apoio em seu processo de responsabilização e re�exão
sobre as mudanças necessárias em sua vida para construir um projeto de
vida afastado da violência e das práticas que o trouxeram para a
instituição.
No entanto, o tratamento em saúde mental, podendo contemplar a
escuta individual ou em grupo no campo da Psicologia, ou se
estendendo a outras áreas, quando recomendado e imprescindível
àqueles adolescentes com sofrimento psíquico intenso, deverá ser
realizado numa parceria entre o serviço de saúde mental da unidade
socioeducativa com serviços especializados fora do espaço institucional.
Compreendem-se assim as parcerias com os Centros de Atenção
Psicossocial da Infância e Adolescência e/ou de Adultos (CAPS II, IA),
dependendo da faixa etária e da posição subjetiva do adolescente; nesse
sentido, compreendem-se também ambulatórios de saúde mental, entre
outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A atuação do
psicólogo apresentada no PEMSEIS (BRASIL, 2014) revisa a proposta
apresentada em 2002 sendo elaborada em consonância com todas as
novas normativas destacadas e deixa explícito que:
[...] a realização do tratamento psicoterápico propriamente dito, mediante avaliação
de critérios para encaminhamento, como todos os demais tratamentos, deverá ser
providenciada na rede de atendimento externa, onde receberá o tratamento
conforme o diagnóstico, cabendo aos pro�ssionais da área que integram a equipe
técnica realizar o acompanhamento socioeducativo sistemático, reforçando os
benefícios do tratamento psicoterápico. (BRASIL, 2014).
Essas referências técnicas apontam tanto para o importante papel do
pro�ssional nas unidades de internação, como também mostram os
limites reais e necessários para as suas práticas. Propor ações de
promoção em saúde mental em rede pode gerar uma potencialização do
trabalho socioeducativo, realizado no âmbito institucional,
oportunizando com que o adolescente possa também se perceber sendo
acolhido e cuidado dentro e fora do espaço institucional. Dessa forma,
trabalha-se com o vínculo antecipado de adolescentes a outros serviços
que são importantes para o compartilhamento do cuidado
socioeducativo e terapêutico. Preconiza-se a inserção do adolescente
numa rede que está para além do sistema socioeducativo de internação,
principalmente em casos de jovens que estão �nalizando o
cumprimento da medida socioeducativa e necessitam da continuidade
da atenção em saúde mental.
Dentro disso, vale retomar a prerrogativa do PIA, que vem a ser um
eixo que estrutura uma lógica de atenção e cuidado à individualidade do
adolescente no sistema socioeducativo de internação. A individualidade
aqui está associada à integralidade, princípio da saúde coletiva, bem
como à consideração do adolescente com a sua singularidade, como
sujeito e cidadão fazendo parte da sociedade contemporânea. Isso
convoca mais uma vez o pro�ssional da Psicologia a uma posição de
abertura para outros olhares em torno da individualidade do
adolescente. A Psicologia é confrontada com os limites e as fronteiras
das áreas da Enfermagem, da Assistência Social, do Direito, entre outras,
que estarão voltadas a desenvolver o PIA. Nesse sentido, o pro�ssional
da Psicologia vem a compor um coletivo entre pro�ssionais de cada
Unidade de Internação, assim como com serviços da rede externa à
Unidade. Trata-se de uma postura e prática pro�ssional que não retira a
especi�cidade que concerne ao pro�ssional da Psicologia no que se
refere à criação e sustentação de um espaço para a singularidade do
adolescente em prol da promoção da vida. O trabalho do psicólogo é
construído num coletivo, em equipe interdisciplinar e intersetorial,
como já foi mencionado anteriormente. Considera-se que isso vem a
fortalecer o lugar da Psicologia na sustentação de programas de
socioeducação de internação.
O adolescente e seus atos: ações de cuidado dentro e fora do
espaço institucional
O adolescente que chega a uma unidade de internação traz consigo
uma história de vida marcada por sucessivas violências sofridas e
atuadas. As violências sofridas traduzem-se em violações de seus
direitos nas mais diversas ordens. As violências atuadas parecem ser
uma das formas de comunicação do adolescente com o social. A re�exão
sobre o momento de vida pelo qual o adolescente passa, que se dá em
um tempo entre a infância e a fase adulta, pode auxiliar no
entendimento de seu envolvimento com a violência em nossa
sociedade.
O ser humano, desde o seu nascimento, constitui sua subjetividade
estabelecendo relações sociais essenciais para o seu desenvolvimento,
sendo que, nos primeiros anos, se dá a constituição do sujeito em sua
passagem pela infância. O infante, por volta de 12 anos, sendo que essa
idade pode variar dependendo das suas vivências, começa a passar por
momentos de perda do lugar de criança, dando sinais da adolescência.
Costuma-se dizer que o adolescente passa por um luto pelo corpo
infantil, que mobiliza a busca de uma nova posição referenciada ao
adulto e ao desejo de ser adulto.
Calligaris (2000), a partir de um olhar psicanalítico, explica que não
existe um tempo de�nido para a adolescência e tampouco uma única
forma de compreendê-la. Contudo, a adolescência é um momento em
que o sujeito busca o reconhecimento de sua maturidade e a permissão
de entrada no mundo dos adultos. “A adolescência é uma interpretação
de sonhos dos adultos, produzida por uma moratória que força o
adolescente a tentar descobrir o que os adultos querem dele”
(CALLIGARIS, 2000, p. 33). Nesse sentido, a adolescência também é tempo
de crise e de construção que inscreve o sujeito na temporalidade (há um
antes e um depois) e coloca em prova a sua relação com Outro2.
Do Outro sexo, mas também ao Outro da diferença social, da diferença de raça, da
diferença da língua, da diferença de cultura. O corpo mesmo advém outro e o
adolescente terá que subjetivar sua posição sexuada de homem ou de mulher.
(LERUDE, 2007, p. 80, tradução nossa).
Em meio a isso, são frequentes as crises, os con�itos, a instabilidade, o
esvaziamento e o se colocar em risco. Os adolescentes colocam em
prova a sua própria morte e vida para, a partir daí, encontrar/construir
uma resposta particular frente à cultura. Isso implica um tempo de
turbulência. Os atos transgressivos, frequentemente, são presentes na
vida do adolescente, fazendo parte do movimento de colocar em prova
a vida e a morte, diante do vazio que vive ao não poder ser mais criança
e precisar redimensionar sua posição frente ao Outro. Esse movimento é
intenso e contribui para a constituição da ideia do adolescente como
sendo ameaçador da ordem estabelecida no social.
Em se tratando dos adolescentes que cumprem medidas
socioeducativasde internação, salienta-se a relação da adolescência
com a transgressão. Coloca-se assim uma complexidade para se pensar
nesse adolescente. Ele convoca alguém que o auxilie no reconhecimento
de um lugar para si e não o encontra. Na medida em que ele repete esse
movimento de busca e não encontra o reconhecimento, seus atos vão se
agravando, se tornando ameaçadores para sociedade. Winnicott (1999),
em seus estudos sobre a relação entre a privação e a delinquência em
adolescentes, refere que é importante também o reconhecimento do
inconsciente no envolvimento dos adolescentes com os atos
infracionais. O autor explica que “os ladrões estão inconscientemente
procurando algo mais importante do que bicicletas e canetas-tinteiro”
(WINNICOTT, 1999, p. 128). Os ladrões estão procurando algo além do
objeto que foi roubado. O adolescente estaria em busca de referências
que não teve durante a infância.
O autor refere que na infância são experimentados todos os
comportamentos que, futuramente, quando a criança se tornar adulta
poderiam signi�car atos de violência. A criança que tem a con�ança nas
referências familiares tenta se impor perante elas, “(...) põe à prova seu
poder de desintegrar, destruir, assustar, cansar, manobrar, consumir e
apropriar-se” (WINNICOTT, 1999, p. 129). A criança busca estabelecer os
limites para o seu comportamento por intermédio daquilo que ela
percebe como um retorno dos adultos através das palavras, dos olhares,
das entoações e dos gestos. Dá-se a relação entre a criança e o adulto
produzindo sentidos e contornos para o que a criança faz.
Na infância, a criança constrói experiências, encontra e constitui
formas de se colocar frente ao Outro. Ela faz isso colocando em questão
as pessoas que a referenciam e organizam um contexto de continência
para sua vida. Diante disso, a criança também pode apresentar atos
transgressivos, como no caso dos adolescentes. Dependendo das vias
pelas quais esses atos vão se dando e se inscrevendo na vida da criança
podem vir a se desdobrar novos atos de transgressão e/ou de violência
quando a criança se tornar adolescente e/ou adulta.
[...] se o lar consegue suportar tudo o que a criança consegue fazer para desorganizá-
lo, ela sossega e vai brincar; mas primeiro os negócios, os testes têm que ser feitos
e, especialmente se a criança tiver alguma dúvida quanto à estabilidade da
instituição parental e do lar [...] (WINNICOTT, 1999, p. 129).
Os cuidadores possuem um papel fundamental na vida da criança. Se
eles conseguem suportar e acolher a criança nos momentos
conturbados da infância, em que a criança demonstra atitudes
agressivas e impulsivas, ela terá mais chances de estabelecer uma
relação de con�ança e o sentimento de segurança. A criança, ao
perceber que as referências estão presentes, pode seguir o seu
desenvolvimento afetivo, cognitivo e social. Quando essas referências
não se constituem na vida da criança, su�cientemente, ela não desiste de
buscá-las, direcionando-se para outros lugares, aos quais ela acredita
que poderá encontrar.
A criança cujo lar não lhe ofereceu um sentimento de segurança busca fora de casa
as quatro paredes; ainda tem esperança e recorre aos avós, tios e tias, amigos da
família, escola. Procura uma estabilidade externa sem a qual poderá enlouquecer.
Fornecida em tempo oportuno, essa estabilidade poderá ter crescido na criança
como os ossos em seu corpo, de modo que, gradualmente no decorrer dos
primeiros meses e anos de vida, terá avançado, da dependência e da necessidade
de ser cuidada, para a independência. É frequente a criança obter em suas relações
e na escola o que lhe faltou no próprio lar. (WINNICOTT, 1999, p. 130).
Assim, percebe-se que a função de diversas pessoas adultas próximas
à criança é importante para a construção de referências, que também
proporcionam a ela o reconhecimento das leis. Essas leis permitirão que
a criança e, no futuro, o adolescente integrem à realidade e à cultura. Na
adolescência, os comportamentos transgressores indicam uma
colocação à prova da lei, ou ainda que esta não está su�cientemente
inscrita, ou seja, simbolizada. Ao mesmo tempo, esses atos expressam
que alguma esperança ainda existe em conseguir a referência. Com os
atos de violência, o adolescente convoca os adultos que habitam seu
entorno para agir com força sobre ele, proporcionando uma relação de
implicação, responsabilidade e de con�ança.
Os adolescentes que se envolvem com atos infracionais e que são
convocados pelo Poder Judiciário a cumprir uma medida socioeducativa
de internação passam a ser submetidos a um enquadramento forte e
intenso que visa à manutenção de uma lei que fracassou em suas vidas.
Isso �ca visível quando presenciamos no sistema socioeducativo
adolescentes que como da noite para o dia passam a valorizar
oportunidades de convivência e aprendizagens que até então não
faziam parte de suas vidas.
Frequentemente, se encontram concepções que levam a crer que tais
adolescentes já têm o destino de delinquência traçado em suas vidas,
nas opiniões de representantes de diversos segmentos sociais. Ao
contrário disso, propõe-se abrir a possibilidade de novas perspectivas de
promoção de vida, desenvolvendo a compreensão de que esses
adolescentes, com seus atos, também podem estar nos dizendo que têm
esperança de alcançar uma referência e, assim, mudar e ressigni�car seu
lugar no mundo dos adultos.
A fragilidade da lei toma maior visibilidade para os casos de
adolescentes ditos delinquentes. Contudo, vale retomar a lei, num lugar
estruturante para os adolescentes em geral assim como para os adultos.
A lei implica premissas para todos que fazem parte da sociedade. Nesse
ponto, ela coloca uma interdição, marca uma assimetria, um limite para
a realização dos desejos daqueles que fazem parte do sistema social. E
isso não está fora da condição do homem diante das impossibilidades
inerentes à vida, principalmente no que refere a manter uma vida em
conjunto com o outro.
A lei vem a ser uma maneira para o homem organizar a si e a
sociedade frente a essas impossibilidades. A lei marca um limite para o
possível, dizendo que existe o impossível para determinados tempos e
espaços. Para isso, se dão marcações, nomeações e possibilidades de
simbolização frente aos limites da vida. Podemos nos perguntar: O que
acontece quando não há a marcação da lei e suas nomeações como
fronteira para o impossível? Como �cam os limites inerentes à vida sem
essas nomeações? Um limite mestre para a existência humana é a morte.
Como �caria o homem sem as possibilidades de nomeações da morte?
Essas nomeações dizem da morte, mas também apresentam
delimitações e possibilidades de vida. Dentro disso, já nos encontramos
diante de uma das complexidades quando nos referimos à lei, num
sentido simbólico.
Refere-se, assim, à lei como sendo simbólica, diferente de uma
burocratização, ou da de�nição de códigos que organizam um sistema,
ou, ainda, o uso exagerado da lei, que decorreria no autoritarismo.
Stiegler (2008) aponta para uma grande importância da lei simbólica na
relação entre os adultos e os adolescentes. O autor defende a ideia que o
respeito pela lei não é garantido pelo aparelho repressor que a
acompanha. O que vai assegurar o respeito à lei é o sentimento de que
vai valer, se ela for interiorizada, e para isso ela precisa tomar um sentido
de cuidado e de proteção, que faz com que a lei esteja associada ao
sentido de �liação.
E o cuidado, somente ele é que pode engendrar este sentimento íntimo, e a
familiaridade que se forma (como philia), é isso que é fundado sobre uma
responsabilidade que é partilhada – ao menos numa sociedade de direito.
(STIEGLER, 2008, p. 14, tradução nossa).
O cuidado sob o prisma de uma familiaridade com a lei, com as suas
nomeações, interdições e proteções da vida é que vem a permitir a sua
interiorização. Essa dimensão de cuidado vem a implicar a posição do
adulto no que pode ser oferecido e transmitido aosadolescentes.
Stiegler (2008, p. 14, tradução nossa) a�rma uma questão importante
dentro dessa discussão: “a verdadeira questão é de saber o que merecem
os menores, isto é, as crianças e os adolescentes”.
A partir da internação do adolescente, demarca-se uma lei externa ao
sujeito dado que a internalização dessa lei está com problemas. Ou,
ainda, pode-se dizer que a lei não está inscrita para esse sujeito, numa
dimensão de interdição e de mediação na relação com o Outro. A
internalização da lei coloca questões a serem pensadas como fazendo
parte de um processo psíquico complexo. A interrogação sobre como
lidar com essa implicação passa a ser uma questão em que o psicólogo
pode auxiliar na re�exão e na intervenção.
Pode-se perceber que a circulação da palavra é, sem dúvida, um
elemento que faz parte desse processo e no qual o psicólogo poderá
auxiliar. Considera-se a palavra uma materialidade e o próprio
fundamento da vida interior. É através da palavra que se integra a
vivência interior na objetividade da vivência exterior. As palavras
deslizam na relação com o Outro fazendo parte da dinâmica da
constituição do tecido social. Considera-se a palavra ligada às estruturas
sociais, uma vez que está relacionada às condições de comunicação.
Entre os adolescentes que cumprem medida socioeducativa se
evidenciam, com frequência, di�culdades de comunicação e de
interação social. Essa situação é manifestada de diversas formas, como,
por exemplo, na falta de comunicação entre os pais, os �lhos e outros
familiares.
A interação social também se coloca com problemas uma vez que
são precárias as oportunidades de circulação e de participação em
espaços de promoção de vida, educação, saúde, cultura e lazer. A
passagem ao ato e à violência acabam sendo formas encontradas de
estabelecer relação com o Outro. Veri�ca-se que pessoas da comunidade
manifestam o reconhecimento desses adolescentes pelos seus atos
transgressores, gerando um lugar de�nido num determinado contexto.
Isso faz com que o adolescente responda a esse lugar que lhe é dado.
Contudo, os atos de violência manifestam con�ito, uma tentativa de
signi�car uma experiência, problematizando a abertura para sua
condição como sujeito com outras possibilidades para estabelecer o laço
social.
Colocar a palavra no lugar dos atos de violência e/ou transformá-los
em palavras faz com que se deem rumos para um processo de
simbolização e vem a ser uma direção de trabalho para o psicólogo. Uma
tarefa delicada, devido à história de rupturas e fragilidades das relações
sociais e de referência à lei, que o adolescente, em medida
socioeducativa de internação, apresenta. O adolescente somente
conseguirá engajar-se num processo de simbolização se for auxiliado
por adultos que desenvolvem práticas de cuidado. Incluem-se aí a
abertura de espaço para a produção e circulação da fala, primando pela
escuta e possibilidades para a emergência de con�itos, de diferenças, de
discordâncias, de afeto, de dúvidas e de inseguranças. Falar sobre si e de
vivências de antes, durante e outras, que são imaginadas fora do espaço
institucional, é uma das formas de ressigni�car a relação com a medida
socioeducativa e, consequentemente, com a lei.
O valor da palavra será mais potencializado quando transpuser os
muros da instituição. Dito de outra forma, ampliam-se as possibilidades
de produção de sentidos e de reconhecimento para a palavra do
adolescente quando ele percebe que a sua palavra terá validade em
outros espaços que não somente na instituição, num sistema de
privação de liberdade.
O adolescente deve iniciar um processo de fala e de escuta na
instituição que deverá ser transposto para fora dela e alcançar o espaço
público e a cidade. Ter novas vivências, em diferentes tempos e espaços,
pode contribuir para a construção de referências e simbolização das leis.
O adolescente, ao se deparar novamente com a ausência de palavras e
com os vazios inerentes aos con�itos, pode encontrar, com novos laços
sociais constituídos, novas possibilidades de ser e estar no mundo. Cabe
ao psicólogo auxiliar, juntamente com a equipe interdisciplinar, na
construção de articulação com a rede de atenção entre outros espaços
sociais que possam propiciar o diálogo, a interação e o reconhecimento
do adolescente como sujeito e cidadão.
O psicólogo que integra o sistema socioeducativo de internação se
lança para uma visão interdisciplinar e intersetorial que vai implicar
também no encontro com outros pro�ssionais no campo externo ao
sistema. Entre esses pro�ssionais, encontram-se também psicólogos que
poderão auxiliar, compartilhar e contribuir para a construção de uma
direção de trabalho que se propõe a intervir com adolescentes na
condição de sujeitos e cidadãos.
A implicação de outros serviços e pro�ssionais, como das áreas da
saúde, da educação, da assistência social, da cultura, do esporte, é
fundamental para ampliação da rede de atenção. Acredita-se que a
criação de uma rede viva e forte pode auxiliar a apresentar a dimensão
de uma exterioridade para adolescentes, contribuindo para a produção
da sua diferença. Entende-se que assim aumentam as possibilidades de
validação do sistema socioeducativo para a vida dos adolescentes.
Os impasses vivenciados por quem passa por uma medida
socioeducativa de internação não se encerram ao sair da instituição.
Uma vez que isso acontece, é de suma importância que esse adolescente
possa encontrar outros espaços para ser acolhido e considerado na sua
singularidade. Conforme já mencionado, as ações, como criação de
vínculo antecipado em outros serviços de atenção para o adolescente,
podem proporcionar outras perspectivas de cuidado e de construção de
relação de con�ança. Além disso, busca-se a construção de outros
espaços e vivências que ultrapassem as formas tradicionais das técnicas
da Psicologia, como entrevista individual, atendimento em grupo,
sessão de psicodiagnóstico, entre outros. As propostas de intervenção
precisam tomar novas formas, no sentido de se entrelaçarem às marcas
que permitam o adolescente se identi�car, manifestar o seu interesse e o
seu desejo. A exemplo disso se percebe a riqueza de vivências
relacionadas à participação em o�cinas de música, de crochê, de escrita,
de esportes. Incluem-se as ações de gra�tagem, de ida ao teatro, de
realização de apresentações artísticas, de ida a parques, a sorveterias e
também de visitas às famílias. Dentre as ações aqui mencionadas
encontram-se possibilidades para o pro�ssional da Psicologia ser um dos
protagonistas, guiando-se pela promoção de vida. Ainda, consideram-se
essas práticas como oportunidades para experimentações dos
adolescentes, de articulação entre as suas vivências internas e externas
constituindo, assim, o que foi chamado por Winnicott (1975) de espaço
potencial. Chega-se ao conceito de interiorização, que, em nosso caso,
interessa pensar as possibilidades de simbolização da lei. A
interiorização vem consolidar o cuidado, “quer dizer, uma aprendizagem
pela qual se desenvolve uma arte de interiorização – uma arte de viver –
a qual Winnicott chama de criatividade” (STIEGLER, 2010, p. 42). O
psicólogo precisa encontrar formas criativas de articular a complexidade
entre a sustentação da singularidade, que dá condições do sujeito ser
tomado como sendo único, e o trabalho pela inserção social, para que o
sujeito possa fazer parte de uma rede de atenção, de uma cidade e de
um coletivo.
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______. Privação e delinquência. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
1 Inspirado no poema Ouvir Estrelas, de Olavo Bilac. Disponível no blog: <http://ler-
umaviagemquesofazbem.blogspot.com.br/2011/06/parnasianismo.html>. Acesso em: 29 dez.
2014
2 Trata-se do Outro, com letra maiúscula, da maneira como é o nomeado na psicanálise Lacaniana,
que implica na dimensão de abertura do que se tem como coletivo, cultura e linguagem
constituintes do sujeito. “Este ‘espaço de abertura’ apresenta grande importância para o
singular, pois diz de uma instância terceira, que podemos entender como faltante e que
permite a inserção do sujeito a partir de um processo de permanente constituição/criação no
mundo” (MACHADO, 2012, p. 51). “Essa noção de ‘grande Outro’ é concebida como um espaço
aberto (...) que o sujeito encontra desde o seu ingresso no mundo; trata-se de uma realidade
discursiva (...); o conjunto dos termos que constitui esse espaço remete sempre a outros e eles
participam da dimensão simbólica margeada pela do imaginário (...)” (KAUFMANN, 1996, p.
385).
CAPÍTULO 8
INCOMPREENSÕES SOBRE A MENTE CRIMINOSA E
AS SUAS IMPLICAÇÕES ÉTICAS E JURÍDICAS
Silvio José Lemos Vasconcellos
Roberta Salvador Silva
Thiago Ferreira Mucenecki
Jaíne Foletto Silveira
Em décadas recentes, principalmente após o advento da ressonância
magnética funcional, uma quantidade signi�cativa de pesquisas
passaram a explorar, de forma mais direta, a relação cérebro e crime
(ROBINSON; SPROOTEN; LAWRIE, 2011). Uma relação que se mostra tão
complexa quanto pouco compreendida por parte daqueles que
advogam o uso incondicional dos recursos de neuroimagem para
explicar o comportamento criminoso, bem como por parte dos seus
críticos mais ferrenhos. Faz-se necessário pensar as possibilidades e os
limites desses recursos no que se refere a uma explicação neurobiológica
para as tendências antissociais humanas ou mesmo para alguns
transtornos mentais mais especí�cos que apresentam relação, direta ou
indireta, com tais tendências.
O presente capítulo vale-se de uma revisão bibliográ�ca capaz de
fundamentar a discussão teórica proposta sobre esse mesmo tema.
Entende-se que as considerações propostas ao longo deste trabalho
permitem apresentar um breve panorama sobre o estado atual de
conhecimento sobre o assunto, permitindo, sobretudo, que os achados
nesse campo possam ser analisados à luz de outras áreas do
conhecimento. Analisar alguns resultados de pesquisas recentes
envolvendo o cérebro de criminosos psicopatas ou não psicopatas é,
portanto, compatível com o trabalho teórico proposto que, por sua vez,
visa considerá-los com base em pressupostos atuais da Filoso�a da
Mente. Uma área do conhecimento que, conforme Churchland (2004),
ocupa-se principalmente de um debate cientí�co-�losó�co diante do
qual soluções de�nitivas e teoricamente satisfatórias ainda não foram
alcançadas.
Em termos gerais, este trabalho poderá gerar avanços no debate
relacionado à validade de pesquisas que se apoiam na Neurociência
Cognitiva e estão voltadas para a compreensão de aspectos cerebrais
relativos ao comportamento antissocial. Torna-se ainda importante
problematizar a implicação ética desses mesmos trabalhos, apontando
direções e destacando preceitos fundamentais para novas pesquisas
sobre o tema. Considerações desse tipo também integram a presente
proposta, conforme será evidenciado na parte �nal do capítulo.
Imagens sugestivas, porém não conclusivas
Na atualidade, quatro técnicas de imagem e/ou rastreamento
funcional fundamentadas na avaliação de parâmetros �siológicos
permitem a localização de áreas cerebrais especí�cas relacionadas com
populações neuronais ativas (MARCUCCI; FILHO, 2006). A ressonância
magnética funcional (RMf ) é uma das técnicas de imagem por
ressonância magnética (IRM). De um modo geral, a IRM é o resultado da
interação do campo magnético produzido a partir de um dispositivo
com os prótons de hidrogênio do tecido cerebral, viabilizando o envio de
um pulso de radiofrequência e uma identi�cação posterior da frequência
alterada, a partir da sensibilidade de uma bobina ou antena receptora
(MAZZOLA, 2009). A RMf decorre de avanços na IRM ocorridos na década
de noventa e apoia-se na possibilidade de captar o campo magnético
gerado a partir de um estado de maior oxigenação do �uxo sanguíneo
arterial que, por sua vez, varia conforme as atividades cerebrais
executadas (MAZZOLA, 2009).
A Tomogra�a por Emissão de Pósitrons (PET) utiliza
radionucleotídeos que emitem pósitrons no momento da sua
desintegração. Para tanto, a glicose é ligada a umcomposto radioativo
que é injetado no examinando, tornando-se, assim, possível identi�car,
por intermédio desse mesmo marcador, as regiões que estão
metabolizando a glicose de forma mais proeminente. A
Magnetoencefalogra�a (MEG) identi�ca atividades magnéticas e
elétricas oriundas das diferentes ocorrências neuronais. Já a Estimulação
Magnética Transcraniana (EMT) vale-se da estimulação cerebral por
intermédio de uma bobina posicionada próxima ao crânio, gerando um
estímulo focal sobre o escalpo (MARCUCCI; FILHO, 2006).
Dentre as técnicas citadas, a ressonância magnética funcional é
aquela que tem sido amplamente utilizada para investigar o cérebro de
indivíduos classi�cados como criminosos, em condições de
processamento de estímulos emocionais ou neutros, além de avaliar o
desempenho em tarefas de tomada de decisão, memória episódica, ou
mesmo a partir de outras situações de processamento. O estudo das
diferentes funções cognitivas e de seus correlatos, identi�cados a partir
da neuroimagem, estiveram no cerne de uma nova abordagem
denominada Neurociência Cognitiva (NEVES, 2006). Essa mesma
abordagem tem fundamentado uma série de trabalhos que buscam
elucidar como funciona a mente criminosa e, de um modo mais
especí�co, como funciona a mente de indivíduos que podem ser
diagnosticados como psicopatas. Nesse último caso, objetiva-se
investigar especi�cidades cerebrais que possam apresentar relação com
um transtorno de personalidade caracterizado por problemas na esfera
afetiva e uma maior propensão para o cometimento de atos antissociais
(GAUER, 2001; MOSQUERA et al., 2004; VALENCIA, 2007).
Observa-se, de outro modo, que uma das técnicas que mais oferece
respaldo para a Neurociência Cognitiva apresenta limitações quanto ao
seu poder explanatório, conforme problematizaram estudos recentes.
Apesar da Ressonância Magnética Funcional (RMf ) apresentar resolução
temporal superior a outras técnicas (ROCHA et al., 2001), é na
interpretação dos seus resultados que podem surgir dados
inconsistentes. Em uma revisão de cinquenta e quatro trabalhos feitos
com base na RMf. Vul et al. (2009) destacaram, por exemplo, o fato de
existirem dados in�acionados em uma parte signi�cativa desses
trabalhos. Para os autores, o problema estaria nos voxels selecionados
para �ns estatísticos. Um voxel refere-se à menor unidade de análise da
imagem usada a partir desse método. Os problemas apontados dizem
respeito a uma seleção enviesada de voxels nos quais é possível
vislumbrar uma maior ativação durante a tarefa executada pelo cérebro.
Daí decorrem correlações muito altas, próximas a 0.8, 0.9, mas, ao menos
em alguns trabalhos analisados, espúrias (VUL et al., 2009).
Ressalta-se, no entanto, que o trabalho desses autores não objetivou
refutar a validade de técnicas de neuroimagem, mas tão somente
destacar a necessidade de que estudos nesse campo possam aprimorar
as próprias análises estatísticas realizadas. Nessa mesma direção,
apontou o trabalho de Bennett et al. (2012), sinalizando algum nível de
negligência metodológica quanto à aplicação dos recursos estatísticos
de correção relacionados a falsos positivos. No ano de 2008, por
exemplo, destaca-se o fato de que 61,8% dos trabalhos publicados com
base na utilização de pacotes estatísticos aplicáveis ao uso da RMf
publicados no Journal of Cognitive Neuroscience não se valeram desse
recurso corretivo (FRAZZETTO, 2014).
Crime, psicopatia e cérebro
Devido ao alto impacto social da criminalidade, pesquisas têm sido
fomentadas com o intuito de investigar a etiologia do comportamento
antissocial. Apesar de a psicopatia não ser um transtorno que apresenta
como critério diagnóstico essencial a manifestação de comportamentos
criminais (SKEEM; COOKE, 2010), as características nucleares do
transtorno, como insensibilidade emocional, dé�cits de empatia e
ausência de remorso, favorecem o engajamento em atividades
antissociais, muitas vezes com caráter criminal (PATRICK; FOWLES;
KRUEGER, 2009).
A psicopatia é compreendida como um transtorno de origem
multifatorial, sendo desencadeada pela interação entre fatores
biológicos, sociais e neuropsicológicos, contudo, as pesquisas de base
neurobiológica têm recebido especial destaque a partir da última
década. Alguns estudos experimentais veri�caram alterações funcionais
no córtex pré-frontal (BLAIR, 2007) e um menor nível de ativação da
amígdala de psicopatas quando comparados a grupo controle em
tarefas de exposição de imagens de impacto emocional envolvendo a
violação de normas morais (HARENSKI, 2010), em experimentos de
processamento de emoções negativas (DOLLAN; FULLAM, 2009), durante
processo de condicionamento aversivo (BIRBAUMER et al., 2005; RILLING,
2007) e em tarefas de reconhecimento de medo em crianças com
tendência à psicopatia (JONES et al., 2009; MARSH et al., 2008).
Alguns estudos também identi�caram alterações amigdalares em
nivel anatômico, como menor volume e anormalidades estruturais em
comparação aos controles (ANDERSON; KIEHL, 2012; WEBER et al., 2008;
YANG et al., 2009). Um estudo mais recente também identi�cou
alterações morfológicas distintas em diferentes núcleos da amígdala de
psicopatas, como os núcleos basolaterais que exercem um importante
papel na memória emocional e uma função reforçadora basilar para a
introjeção de valores sociais que se apresentam diminuídos; já os
núcleos centrais e laterais, envolvidos no circuito de detecção de
ameaças, mostraram-se aumentados (BOCCARDI et al., 2012). Essas
pesquisas não mencionam tais achados como sendo fatores etiológicos
únicos para o desenvolvimento da psicopatia, e sim como alguns dos
fatores que podem exercer mais predisposição para a manifestação do
transtorno na idade adulta, quando os citados fatores interagem com os
desencadeantes ambientais.
O que a neuroimagem pode revelar
A discussão sugerida no título anterior remete a temas atuais, ainda
que inconclusivos no campo da Filoso�a da Mente. Problematizá-los
permitirá, de outro modo, que o presente trabalho ofereça re�exões
oportunas sobre a necessidade de mais estudos envolvendo a relação
entre o cérebro e comportamento antissocial.
Em termos gerais, os trabalhos anteriormente destacados
evidenciam disfunções ou mesmo alterações anatômicas relacionadas
ao cérebro de indivíduos que apresentam uma maior propensão para a
manifestação de comportamentos antissociais. Destaca-se, inicialmente,
o fato de que os autores optam, neste trabalho, por usar a expressão
‘comportamentos antissociais’, sem equipará-la à categoria de
comportamentos criminosos, tal como sugere o título deste capítulo.
Essa última denominação remete a uma tipi�cação jurídica que diz
respeito a questões de época e lugar. Já a expressão ‘antissocial’ revela-
se mais abrangente, considerando o próprio fato de que pode ser
pensada a partir de outros parâmetros, incluindo um entendimento
evolucionista sobre as suas origens. Em outras palavras, contempla
formas de agir e interagir que podem ter sido recorrentes em outras
espécies do gênero Homo e, dessa forma, preexistem a qualquer
nomenclatura jurídica que sobre elas possa, na atualidade, sobrepor-se.
Considera-se, portanto, etimologicamente equivocado o uso da
expressão ‘cérebro criminoso’ em trabalhos que objetivam investigar a
etiologia das tendências antissociais. Desse modo, em um estudo que
objetiva analisar as compreensões e as incompreensões vigentes nesse
mesmo campo, tal explicação faz-se necessária.
Em contrapartida, a imprecisão semântica destacada pode ser
também sinônimo de incompreensão ontológica sobre esse objeto de
estudo. Incompreensão essa que parece caracterizar tanto o trabalho de
autores que elevam os estudos de neuroimagem à categoria de
evidência su�ciente para pensar o comportamento antissocial a partir de
uma perspectiva exclusivamente neurobiológica, como também dos
seus críticos. Dito de outro modo, observa-se, de um lado, uma redução
causal pouco explicativa e, de outro, uma confusão ontológica pouco
argumentativa nesse debate.
Para explicar o primeirocaso, recorre-se aos preceitos
epistemológicos defendidos pelo neurocientista cognitivo William
Calvin, para o qual as ciências da mente trabalham, sobretudo, com
níveis distintos, porém compatíveis de explicação (CALVIN, 2004). Para
ilustrar esses mesmos níveis, o problema da violência e suas implicações
sociais revela-se bastante elucidativo, uma vez que sugere um processo
de retroalimentação em diferentes esferas.
A violência é, sobretudo, um problema social que pode ser explicado
a partir dos fatos sociais. Fatos sociais, porém, incidem, como não
poderia deixar de ser, sobre eventos cerebrais, reforçando tendências
preexistentes ou moldando novas tendências em cérebros que se
caracterizam tanto pela plasticidade, como também a partir de
regularidades funcionais oriundas de eventos genéticos e epigenéticos.
Aceitando-se essas considerações, infere-se daí que qualquer imagem
cerebral envolve uma descrição �sicalista sobre as regularidades de um
sistema, leia-se, nesse caso, sistema cerebral. Nada revelam, no entanto,
sobre a causação dessas mesmas regularidades.
Em termos metafóricos, pode-se dizer, portanto, que os estudos de
neuroimagem propiciam uma foto ilustrativa de uma realidade orgânica
circunscrita, e não uma narrativa cinematográ�ca sobre a vida mental
do organismo. Não refutam, por certo, uma compreensão
biopsicossocial sobre o problema da violência. A�nal, as in�uências que
um organismo processador de informações sociais é capaz de
protagonizar não são, em todas as suas instâncias, substancializadas,
exceto quando incidem sobre a realidade cerebral desse mesmo
organismo. Sendo assim, é a partir da neuroimagem que essas mesmas
in�uências podem ser estudadas a partir das suas propriedades físicas.
Isso signi�ca dizer que a descrição neurobiológica remete a um dos
níveis de explicação válidos para o comportamento violento, porém
incapaz de exaurir o problema da sua causação.
Os autores do presente trabalho entendem que essa incompreensão
está traduzida em alguns equívocos de divulgação cientí�ca que acabam
por difundir uma errônea ideia de causação su�ciente em termos
neurobiológicos da conduta criminosa. Quando uma escritora como Ana
Beatriz Barbosa da Silva encarrega-se de intitular um capítulo de sua
obra a partir da expressão: ‘De onde vem isso tudo?’ (SILVA, 2008),
explicando, nesse mesmo capítulo, as origens cerebrais da psicopatia, há,
nesse entendimento, um sugestivo reducionismo causal. A psicopatia
não advém exclusivamente do cérebro, assim como um vento quente
não advém exclusivamente da condição cinética das partículas que
entram em contato com a pele humana. Já os sintomas que constituem
esse transtorno manifestam-se por intermédio do funcionamento dessa
estrutura orgânica. Não há, e nem pode haver, condição única e
necessária que seja, ao mesmo tempo, su�ciente para a ocorrência de
fenômenos complexos. A autora parece ter confundido a expressão ‘De
onde vem isso tudo?’ com uma possível e mais realista pergunta: ‘Onde,
em termos orgânicos, manifesta-se isso tudo?’. Mas, recorrendo
novamente a William Calvin, a ciência e, nesses termos, a própria
Neurociência Cognitiva, trabalha com níveis de explicação. Os
comportamentos são gerados por intermédio do sistema cerebral, mas
esse não é, por certo, um sistema isolado.
Além disso, o necessário dualismo, ou mesmo pluralismo conceitual,
remete, nesse caso, à complexidade do fenômeno estudado e à própria
necessidade de um olhar interdisciplinar sobre essa realidade. Em
termos mais simples, e na linguagem da moderna Filoso�a da Mente,
pode-se então a�rmar que uma visão funcionalista relativa ao binômio
mente e cérebro, que não incorre em nenhum dualismo de substâncias
ou mesmo no Materialismo Eliminativo, suporta e, quiçá, fundamenta a
necessária interdisciplinaridade para o problema da violência. Ressalta-
se, a partir dessas considerações, que é válida, ainda que
inevitavelmente insu�ciente em termos etiológicos, a proposta de
pensar a neurobiologia da violência. Já o caráter mais ou menos
promissor dessa mesma proposta parece depender de um urgente
re�namento dos seus métodos, conforme demonstrou o trabalho de Vul
et al. (2009).
Confusões lombrosianas
Algumas recentes lucubrações críticas sobre o empreendimento da
Neurociência Cognitiva e de seus métodos passaram a ser feitas em
decorrência do número crescente de novos estudos nessa área. No
presente capítulo, os autores tecem considerações sobre a pertinência
de algumas críticas levantadas nesses trabalhos, tal como será explicado
na parte �nal, mas refutam outros pontos considerados pouco
conspícuos no que se refere à ontologia dos fenômenos aludidos.
Alguns dos trabalhos que visam obliterar os estudos de
neuroimagem voltados para uma compreensão neurobiológica das
tendências antissociais humanas apoiam-se no pressuposto de que, de
algum modo, tais estudos reiteram a compreensão errônea de Lombroso
sobre a etiologia da criminalidade. Cesare Lombroso (1835-1909) foi um
criminologista italiano que postulou a ideia de um criminoso nato.
Veras (2005) diz que, embora os trabalhos em questão não sejam uma
repetição sistematizada dos estudos de Lombroso, utilizam-se da
possibilidade de identi�cação visual tal qual Lombroso em seus
posicionamentos. Zanoni e Neto (2013) trazem em sua pesquisa
questões atuais, como reportagens e palestras de pesquisadores, da
visão do modelo de Lombroso que o comportamento violento se dá por
meio biológico. Gomes (2013) enfatiza que essa concepção de que os
comportamentos são manifestados somente por questões cerebrais põe
em cheque a questão do livre arbítrio do indivíduo, como se lhe fosse
negado o poder de decisão a respeito da manifestação do próprio
comportamento, criando, com isso, questões referentes à ética humana.
Os autores ainda comentam que a Neurociência tem evoluído e vai
evoluir ainda mais, porém, alguns estudos ainda se apoiam nas
percepções ‘lombrosianas’ do comportamento.
Ao escrever sua mais importante obra, intitulada o Homem
Delinquente, esse pensador difunde ideias de que o caráter inato do
comportamento criminoso poderia ser identi�cado a partir de um
fenótipo especí�co e passível de mensuração. Na referida obra, é
possível encontrar a�rmações como: “A �sionomia dos famosos
delinquentes reproduziria quase todos os caracteres do homem
criminoso: mandíbulas, assimetria facial, orelhas desiguais, falta de
barba nos homens, �sionomia viril nas mulheres, ângulo facial baixo”
(LOMBROSO, 2007, p. 197). No mesmo trabalho, o autor complementa:
“Os dementes morais são infelizes, com a demência no sangue,
contraída no ato da concepção, nutrida no seio materno. Faltam-lhe o
sentimento afetivo e senso moral, nasceram para cultivar o mal e
cometê-lo.” (LOMBROSO, 2007, p. 201).
Esses esparsos trechos da obra do criminologista italiano mostram-se
su�cientes para evidenciar que os modernos estudos de neuroimagem
envolvendo os correlatos neurais do comportamento antissocial não
são, por certo, uma retomada das ideias lombrosianas. Se é verdade que
há menção a estruturas orgânicas supostamente associadas a esse tipo
de comportamento nos dois casos, também é verdade que tais
estruturas são ontologicamente incomparáveis e, nesse sentido, seguem
percursos ontogenéticos distintos.
De acordo com a moderna perspectiva funcionalista, cérebros geram
comportamentos a partir das suas regularidades funcionais. A�rmar que
a amígdala de um psicopata é, por exemplo, disfuncional no que se
refere a processar as emoções alheias é a�rmar que existem ocorrências
neuroquímicas geradoras de um padrão hiporresponsivo capaz de ser
veri�cado em um exame de neuroimagem. Padrão esse que tende a
gerar comportamentos antissociais condizentes com esse mesmo nível
de hiporresponsividade. Observa-se, porém, que não há nada, nas
a�rmações anteriores, que ateste que esse padrão decorre tão somente
de in�uências genéticas. Na verdade, estudos mais recentes indicam que
esses padrões não decorrem tão somente dessas in�uências (FALLON,
2006). O ambiente no qualo indivíduo desenvolve-se é, portanto,
verdadeiramente capaz de reforçar ou reorganizar essas mesmas
in�uências (FALLON, 2006).
Em segundo lugar, os correlatos orgânicos buscados por Cesare
Lombroso só podem ser pensados a partir de uma compreensão
ontológica não dinâmica. Se descrevermos a constituição de crânio
adulto hoje ele poderá ser descrito em iguais condições dez ou vinte
anos depois, salvo qualquer situação de injúria. Já o binômio
cérebro/mente não pode ser pensado a partir de condições estanques.
Descrever, em termos dimensionais, essa realidade é, nesse sentido,
pouquíssimo explicativo, considerando o estado atual de conhecimento
sobre o assunto. Ou seja, os estudos de neuroimagem não geram, ipso
facto, explicações calcadas em qualquer determinismo genético para o
comportamento. Geram, de outro modo, apenas informações
aproximativas sobre padrões dinâmicos de um órgão cujas
regularidades podem ou não ser pensadas a partir de uma perspectiva
determinista. Tal perspectiva irá depender, no entanto, da interpretação
que se faça.
Da mesma forma que as fotos oriundas de satélite são capazes de
retratar a devastação de uma área qualquer da Floresta Amazônica sem,
entretanto, explicitar as causas desse evento, a neuroimagem não
evidencia, por si só, as condições geradoras dos padrões vislumbrados.
Não há uma redução causal nesse caso. Há tão somente a descrição
fenomenológica a partir das associações presumidas entre estados
orgânicos e a conduta antissocial ou mesmo outros aspectos da
conduta. Não se pode esperar de um exame funcional dessa natureza
mais do que ele tem a oferecer. Por outro lado, não se pode imputar a
qualquer recurso capaz de retratar uma dada disposição orgânica a
meta de evidenciar todas as suas condições antecedentes.
Neuroética como uma possibilidade de interlocução
Em termos gerais, este trabalho procura evidenciar que não existe a
necessidade de defender uma causa producente a partir dos argumentos
errôneos. Em outras palavras, rotular os estudos de neuroimagem
voltados para o comportamento antissocial como representativos de
uma retomada das ideias de Lombroso parece ser uma equiparação, no
mínimo, equivocada. Também foi possível destacar, a partir das
considerações anteriores, a própria incompletude ou, em muitos casos,
imprecisão que perfaz alguns desses estudos.
Alguns trabalhos anteriores encarregaram-se de sinalizar as
implicações relacionadas ao mau uso da Neurociência no que se refere à
Psicologia Jurídica e à Psiquiatria Forense. Fernandez e Fernandez (2010)
alertam, por exemplo, para as limitações da neurociência,
principalmente em procedimentos atuais de neuroimagem, a partir dos
quais se torna possível gerar conclusões precipitadas. Os autores do
presente trabalho consideram pertinente esse olhar crítico sobre o
empreendimento de investigar a conduta antissocial a partir de seus
correlatos neurocognitivos, mas enfatizam a necessidade do devido
embasamento sobre as reais possibilidades e os limites dessa mesma
proposta. Diante do exposto, a construção teórica proposta objetiva
gerar avanços na área e aprimorar o diálogo entre os diferentes campos
de conhecimento voltados para a questão cérebro e crime, conforme a
expressão recorrente em alguns trabalhos.
Os pressupostos éticos que devem nortear todo e qualquer trabalho
nesse campo podem ser, portanto, um elemento comum a ser
considerado por pesquisadores que produzem achados experimentais
sobre o tema, bem como por diferentes pensadores do Direito, da
Sociologia e da Psicologia. Dito de outro modo, considerando o quão
incipiente ainda é a investigação da relação entre cérebro e tendências
antissociais, novas pesquisas tornam-se necessárias. Pesquisas essas que
devem ser conduzidas a partir de preceitos éticos fundamentais
(ROBINSON; SPROOTEN; LAWRIE, 2011).
Deve-se levar em consideração que, embora diversos trabalhos
dentro do campo de abrangência da Neurociência apontem evidências
do envolvimento cerebral nas atitudes de transgressão e na
criminalidade (ADOLPHS; TRANEL; DAMASIO, 1995; BARRASH et al., 2011;
BLAIR, 2001; BROWER; PRICE, 2001), tais achados, sem a devida
contextualização e relativização, podem afetar as representações
construídas pela sociedade em relação ao comportamento antissocial.
Os desa�os e os problemas éticos surgidos com a ampliação da
capacidade de intervir sobre o cérebro não podem ser ignorados. Será
que as pesquisas também estão preparadas para responder às questões
éticas emergentes que relacionam especi�cidades neurobiológicas às
condutas relacionadas ao crime? Como evitar a possível exclusão social
de um ‘criminoso em potencial’ a partir dos achados mencionados? Até
que ponto o avanço das pesquisas mencionadas anteriormente traria
benefícios coletivos, sem o risco de fomentar práticas de dominação e
exclusão?
O progressivo avanço das pesquisas em Neurociência acaba
produzindo dilemas éticos, uma vez que os resultados decorrentes das
investigações podem ser usados para diversas �nalidades. Desse modo,
torna-se necessário de�nir critérios e parâmetros claros ao considerar o
uso de tecnologias para investigação das relações existentes entre
cérebro e tendências antissociais. Um debate multidisciplinar
envolvendo as diferentes áreas de abrangência interessadas nas
re�exões propostas no presente trabalho poderia resultar na
continuidade do avanço cientí�co, sem desconsiderar os riscos e
benefícios desse avanço para a sociedade.
Conforme destaca Toninato (2007), um dos aspectos centrais a ser
pensado pela Neuroética deve ser, portanto, o impacto social dos
achados decorrentes da Neurociência. Essa nova abordagem pode ser,
conforme Kipper (2011), de�nida como uma disciplina em construção.
Seu caráter interdisciplinar envolve aspectos �losó�cos, sociológicos,
bem como as diferentes áreas jurídicas e da esfera da saúde. Cita-se
como uma questão fundamental para a Neuroética a necessidade de que
os achados decorrentes da Neurociência não sejam usados para
subsidiar mecanismos de controle comportamental ou exclusão social,
capazes de atender apelos mais pueris.
Um caso emblemático ocorrido na década de setenta, conhecido
como ‘Caso Detroit’, é ilustrativo para as questões destacadas, tendo em
vista que foi o primeiro caso a ser julgado pela Corte dos Estados Unidos
envolvendo uma tentativa de cirurgia cerebral para �ns reguladores do
comportamento (VARGA, 2005). Lou Smith, um agressor sexual, seria
submetido a dois métodos experimentais, um envolvendo o uso de
drogas e outro a cirurgia cerebral, como forma de conter seus impulsos
agressivos. Após a ação de um advogado que atuou no caso, a cirurgia
foi suspensa. Porém, quando Smith foi liberado, relatou não ter assinado
qualquer autorização voluntária para a referida cirurgia que, conforme
as informações fornecidas pela clínica de Detroit, já havia sido
autorizada tanto pelo paciente como por seus pais (VARGA, 2005).
Constata-se, a partir do relato anterior, que a voracidade de alguns
segmentos sociais no que se refere ao uso precipitado e eticamente
condenável de intervenções corretivas voltadas para o binômio mente e
cérebro gera a necessidade de profundas re�exões. O papel da ciência
não é punir transgressores, e os achados que ela já foi capaz de produzir
são verdadeiramente insu�cientes para que se possa pensar que
propostas invasivas e corretivas dessa natureza obteriam êxito
verdadeiro. Se é verdade que o cérebro humano é o substrato para o
qual convergem as in�uências genéticas e ambientais relacionadas ao
comportamento, é também verdade que objetivar a sua recon�guração
com base em achados da Neurociência é um problema ético. Problema
esse que deve ser pensado em todas as suas dimensões sem que isso
represente uma refutação da validade da Neurociência, mas sim o seu
próprio aperfeiçoamento.
Considerações �nais
O presente capítulo compilou pesquisas em diferentes áreas do
conhecimento. O caráter multidisciplinar dessa proposta condiz com a
própria ênfase dos autores quanto à necessidade de um entendimentointerdisciplinar sobre o tema abordado no âmbito da Psicologia Jurídica.
Buscou-se destacar, ao longo deste capítulo, a necessidade de um olhar
crítico sobre as possibilidades e os limites da Neurociência, mas,
sobretudo, buscou-se fomentar um debate mais atualizado e ponderado
sobre esse tema.
As implicações relacionadas ao mau uso de achados relativos ao
funcionamento cerebral de um indivíduo classi�cado como psicopata ou
como criminoso podem ser socialmente nefastas. A Neuroética, por seu
turno, pode apresentar-se como um caminho promissor para pensar
essas mesmas questões buscando a convergência de áreas de
conhecimento que, a partir de discussões interdisciplinares, busquem
reconhecer e re�etir sobre os dilemas éticos relacionados ao campo
crescente e mutável da Neurociência.
Sendo assim, mais do que apontar incongruências teóricas nesse
debate, este capítulo objetivou sinalizar as alternativas para que os
pesquisadores e a sociedade como um todo possam superá-las. Daí pode
decorrer o avanço sobre um tema cujas implicações não são apenas
jurídicas, mas sociais no sentido mais abrangente do termo.
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CAPÍTULO 9
PSICOPATIA: UM OLHAR SOBRE A POPULAÇÃO
FEMININA E SUAS IMPLICAÇÕES JURÍDICAS
Fernanda Xavier Ho�meister
Fernanda de Vargas
Priscila Flores Prates
Silvio José Lemos Vasconcellos
A psicopatia é de�nida por meio de traços de personalidade e
comportamentos sociais desviantes. Como características da
personalidade psicopática pode-se nomear a ausência de culpa e
remorso, a incapacidade de sentir empatia e a super�cialidade
emocional (HARE, 2013; PATRICK, 2010), delineando a psicopatia como
um conjunto de características afetivas e relacionais, conjuntamente
com a violação de regras e normas sociais (VITACCO; KOSSON, 2010).
Além disso, a psicopatia também é um tema que, frequentemente,se
torna presente na mídia, sendo alvo das mais variadas interpretações
nos diferentes meios de comunicação. Com isso, muitas informações
sobre esse transtorno acabam sendo veiculadas, porém, algumas sem
caráter cientí�co e associadas a conceitos utilizados de forma errônea.
Sabe-se que qualquer alteração comportamental se torna alvo de
diferentes olhares da população em geral, em especial quando tais
alterações estão associadas a formas de violência extrema e demais
comportamentos não aceitos socialmente. É nesse contexto que, muitas
vezes, a psicopatia é associada a generalizações. Apesar de, muitas
vezes, indivíduos com o diagnóstico de psicopatia serem interpretados
como incapazes de possuir pleno entendimento sobre seus atos, o
psicopata pode ser considerado completamente consciente sobre suas
atitudes e plenamente capaz de responder pelas suas ações (HARE,
2013). Estudos também evidenciam que a psicopatia está relacionada
com maiores níveis de agressão proativa, salientando a capacidade do
indivíduo psicopata em premeditar suas ações (BEZDJIAN et al., 2011;
BLAIR, 2001).
Apesar do número crescente de publicações sobre psicopatia, os
estudos sobre o tema e com populações antissociais de modo geral são
realizados prioritariamente com indivíduos do sexo masculino (e.g.
DOLAN; VÖLLM, 2009; EISENBARTH et al., 2008). Mesmo que muitos
estudos estejam sendo produzidos sobre psicopatia, ainda não se tem
dados consolidados sobre a etiologia do transtorno e o papel da
genética na sua de�nição. Além disso, os dados mais consolidados que se
têm a respeito de correlatos neurocognitivos e comportamentais da
psicopatia se baseiam, predominantemente, em amostras masculinas
(BLAIR, 2001; 2013; FRICK et al., 2014).
De�nindo a psicopatia e sua avaliação
A psicopatia é um construto que vem sendo estudado com
populações de crianças e jovens, visto que pesquisas apontam que
sintomas de psicopatia em adultos apresentam manifestação ainda na
infância (LOEBER; STOUTHAMER-LOEBER, 2008; MARSH, 2013; WANG et
al., 2012). Adultos psicopatas, em sua maioria, apresentaram diagnóstico
de transtorno de conduta quando jovens, porém, o inverso não é
completamente verdadeiro, indicando que apenas uma baixa parcela
dos jovens com esse transtorno são diagnosticados como psicopatas
quando adultos (HARE, 2013).
Sobre as de�nições de psicopatia, o Manual Diagnóstico e Estatístico
de Transtornos Mentais (DSM-5; AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION,
2014) não reserva espaço especí�co para esse transtorno, sendo que
algumas características sobrepostas à psicopatia são descritas na
categoria destinada ao Transtorno de Personalidade Antissocial. Já no
manual Classi�cação Estatística Internacional de Doenças e Problemas
Relacionados à Saúde (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2008), os
critérios para psicopatia são descritos no Transtorno de Personalidade
Antissocial.
Porém, antes mesmo da psicopatia ser de�nida nos manuais, o
conceito já vinha delineando-se, até chegar aos achados que possuímos
atualmente. Pinel (2007) foi o primeiro a detectar que alguns indivíduos
que cometiam ações violentas tinham completa noção de suas atitudes,
descartando, assim, a ocorrência de alguma doença mental que pudesse
prejudicar o sujeito a respeito da sua tomada de consciência.
Tendo isso de�nido, Cleckley (1976) contribuiu a respeito da
abordagem clínica da psicopatia, ou seja, elaborou critérios básicos para
que o transtorno pudesse ser identi�cado. Cabe ressaltar que, com base
nos achados de Cleckley, a psicopatia assume sua ocorrência baseada
também em critérios relacionados ao comportamento afetivo e
interpessoal, ou seja, nesse momento a psicopatia começa a elucidar-se
não somente com amostras de comportamentos criminosos, mas
principalmente com base no componente afetivo de�citário, como a
frieza emocional, ausência de empatia e culpa.
Posteriormente, Hare (2003) propõe um instrumento com o intuito
de mensurar o nível de psicopatia em amostras forenses. Se,
anteriormente, Cleckley contribuiu com abordagem clínica da
psicopatia, nesse momento, Hare conduz seus achados para uma
abordagem psicométrica, que é de�nida como uma técnica que visa
medir os processos mentais de forma mais precisa (PASQUALI, 2009). A
Psychopathy Checklist Revised (PCL-R; HARE, 2003) é uma escala pontuada
a partir de uma entrevista semiestruturada conduzida por pro�ssionais
com treinamento e composta originalmente por dois fatores centrais: o
fator 1 é composto por itens referentes aos aspectos afetivos e
interpessoais da psicopatia e o fator 2 diz respeito aos comportamentos
antissociais do indivíduo psicopata. O modelo fatorial mais atual da
escala se baseia em quatro facetas, de�nidas como: interpessoal, afetiva,
estilo de vida e antissocial (HARE; NEUMANN, 2006).
Apesar da Psicopatia e do Transtorno de Personalidade Antissocial
(TPA), por vezes, serem tratados como equivalentes, a psicopatia
apresenta como fator nuclear os dé�cits afetivos que não são critérios
diagnósticos para o TPA. Nesse sentido, os dois transtornos costumam
apresentar um padrão de comportamento antissocial grave, porém,
características como ausência de culpa e remorso, falta de empatia e
insensibilidade emocional se constituem como pontos centrais de
indivíduos psicopatas, e não de indivíduos com TPA não psicopatas.
Corroborando essa categorização, pesquisas têm indicado padrões
neuropsicológicos distintos entre os dois transtornos (KOSSON; LORENZ;
NEWMAN, 2006; PATRICK, 2010; RISER; KOSSON, 2013).
A psicopatia também é comumente associada a comportamentos
criminosos graves e à reincidência criminal, sendo que as pesquisas
desenvolvidas nessa área são mais comuns no ambiente carcerário e/ou
de privação de liberdade, tanto no contexto internacional quanto
nacional, devido à maior facilidade de acesso a essa população para
realização de pesquisas (e.g. SALVADOR-SILVA et al., 2012; SCHMITT et al.,
2006; SERAFIM et al., 2009). Contudo, além da visão com implicação
categórica no que se refere à compreensão estritamente da psicopatia,
existe também uma visão dimensional do construto, ou seja, as
características diagnósticas do transtorno podem ser encontradas em
maior ou menor grau na população em geral, e não especi�camente nos
indivíduos que cometeram algum tipo de crime ou presidiários. Essa
concepção dimensional fornece uma nova visão sobre esse transtorno,
sem associá-lo, necessariamente, a comportamentos criminosos e
antissociais, dando ênfase também a questões ligadas ao
relacionamento interpessoal (HAUCK FILHO; TEIXEIRA; DIAS, 2012).
Psicopatia em mulheres
O diagnóstico de psicopatia é mais frequentemente identi�cado em
homens, porém, esse achado pode estar relacionado ao fato de que os
instrumentos que fornecem o diagnóstico foram desenvolvidos e,
primariamente, aplicados na população masculina, ou já, com critérios
originalmente desenvolvidos para a identi�cação do transtorno em
homens (GOMES; ALMEIDA, 2010; NORRIS, 2011; WYNM; HOISETH;
PETTERSEN, 2012). De modo geral, os estudos realizados tanto com
população antissocial, quanto com amostra de psicopatas,
especi�camente, costumam utilizar participantes do sexo masculino, por
haver uma prevalência maior de homens com comportamento
antissocial explícito, o que facilita o acesso para as pesquisas.
Fatores como diferenças biológicas básicas entre os sexos e
estereótipos de papéis de gênero podem contribuir para uma frequência
mais elevada de psicopatia em homens. De acordo com a perspectiva de
estereótipos, entende-se que a sociedade, de modo geral, encoraja os
homens, desde a infância, a serem mais agressivos e audaciosos do que
as mulheres; de uma perspectiva evolutiva da espécie, essas
características, historicamente, foram mais exigidas dos homens para
�ns de preservação (PATRICK, 2010; VERONA; VITALE, 2006). Porém,
acredita-se que a atribuição do diagnóstico pode ser in�uenciada pelo
viés do avaliador ao inferir que características psicopáticas e antissociais,
de modo geral, são menos frequentes em mulheres (DOLAN; VÖLLM,
2009;LEHMANN; ITTEL, 2012), ocasionando, até mesmo, um
subdiagnóstico.
Os achados recentes apontam para diferenças quanto à
manifestação da psicopatia em homens e mulheres, principalmente no
que diz respeito às características comportamentais. Homens psicopatas
demonstram comportamentos mais violentos para atingir seu objetivo,
além de maior pontuação no PCL-R, enquanto mulheres psicopatas
tendem a manipular outros indivíduos através de comportamentos
promíscuos e sexualizados (HICKS; VAIDYANATHAN; PATRICK, 2010;
KENNEALY; HICKS; PATRICK, 2007; NORRIS, 2011; PATRICK, 2010).
Considerando que homens têm maior probabilidade de apresentar
comportamentos antissociais, a genética e o ambiente podem ser
variáveis que atuam de forma explicativa sobre essa diferença entre os
sexos. Dados sugerem que homens e mulheres podem compartilhar dos
mesmos fatores de risco para apresentar comportamento antissocial,
porém, por alguma razão, os homens são mais vulneráveis a esses
fatores, resultando assim em uma maior prevalência desses
comportamentos no sexo masculino (MEIER et al., 2011). Ainda, mulheres
podem exigir uma maior carga de fatores de risco para manifestar
comportamentos antissociais (HICKS et al., 2012).
Uma pesquisa, baseada em uma revisão sistemática sobre
comportamento antissocial em meninas adolescentes e mulheres
adultas, indica que mulheres adultas com registro de comportamento
criminal tiveram histórico de comportamento antissocial na
adolescência, porém, a pesquisa ainda salienta os aspectos de gênero
como importantes variáveis a serem consideradas (PAJER, 1998). Apesar
de tais achados, a pesquisadora citada a�rma que, em nossa cultura, é
comum pensarmos que mulheres não são violentas e, nem mesmo,
cometem crimes.
Sobre o uso da violência, dados coletados a partir de pesquisa feita
com mulheres privadas de liberdade na Costa Rica sugerem que a
ocorrência de psicopatia não estava diretamente associada ao
cometimento de crimes violentos, ou seja, mulheres que cometeram
crimes não violentos também apresentaram escores de pontuação para
o transtorno (VALVERDE; RAMÍREZ, 2006). Corroborando essa
informação, dados indicam que mulheres psicopatas apresentam maior
probabilidade de cometer crimes violentos e não violentos (VITALE et al,
2002).
Em estudo realizado sobre Transtorno de Personalidade Antissocial,
com homens e mulheres, os dados apontam que mulheres apresentaram
menor índice de comportamentos violentos se comparados aos homens.
Mesmo que o estudo não tenha sido realizado com indivíduos com
diagnóstico de psicopatia, �ca evidente a diferença entre os
comportamentos manifestados entre homens e mulheres. Além disso, os
mesmos autores ainda salientam a importância de avaliar a
fenomenologia das diferenças comportamentais entre os sexos, como
forma de identi�car o TPA ou, até mesmo, a psicopatia, e ainda para
avaliar possíveis estratégias para tratamento desses transtornos
(ALEGRIA et al., 2013).
Ainda sobre a manifestação dos comportamentos, homens, em uma
perspectiva evolucionista, tornaram-se mais adaptados à manifestação
de comportamentos antissociais, ligados, anteriormente, à prática da
caça. Por outro lado, as mulheres manifestaram comportamentos mais
sociais e empáticos, ligados aos cuidados maternos e à convivência em
grupos. Percebe-se, portanto, que in�uências sociais, além de genéticas,
desempenham papel fundamental na regulação dos comportamentos
humanos, até mesmo comportamentos antissociais, que podem estar
presentes na psicopatia. Além disso, o desenvolvimento cerebral
acompanha o processo de socialização, que, de acordo com a cultura,
pode ser diferenciado entre homens e mulheres (SALVADOR-SILVA et al.,
2014).
Dessa forma, além da diferenciação entre os sexos, a psicopatia
também deve ser interpretada de acordo com as manifestações de
gênero. Sobre isso, além das características biológicas, o papel social
desempenhado por homens e mulheres também é importante no
momento da avaliação do transtorno (KENNEALY; HICKS; PATRICK, 2007).
Portanto, apesar de pesquisas apontarem a in�uência biológica e
genética para a ocorrência da psicopatia, torna-se, atualmente,
impossível negar a importância do ambiente na manifestação do
transtorno. Essa premissa torna-se ainda mais válida quando estudamos
o transtorno nos diferentes sexos, tornando possível vislumbrar que o
papel social que a mulher e o homem desempenham na sociedade, bem
como as relações que ambos estabelecem, estão diretamente
relacionados com o desenvolvimento de sua personalidade.
Implicações jurídicas do diagnóstico de psicopatia
Ainda que, conforme algumas observações anteriormente
explicitadas, as manifestações do Transtorno de Psicopatia possam
diferir entre homens e mulheres, quando se trata das implicações
jurídicas relacionadas a esse diagnóstico não há diferenças. Nesse
sentido, pode-se observar na Constituição Federal, Art. 5º, inciso I, a
determinação que homens e mulheres são iguais em direitos e
obrigações (BRASIL, 1988).
O Código Penal determina que o sujeito (agente) que comete um
crime somente poderá ser responsabilizado penalmente se for
considerado imputável ou semi-imputável. No primeiro caso, o sujeito
é considerado consciente do seu ato e das implicações desse ato,
compreendendo o que é ilícito em sua sociedade. Já o sujeito
considerado semi-imputável, embora aparentemente são, não tem
plena capacidade de entender o caráter ilícito do seu ato ou determinar-
se conforme essa mesma compreensão, sendo que a pena privativa de
liberdade poderá ser substituída pela internação, ou tratamento
ambulatorial. Oposto a esse termo, o mesmo Código (Art. 26) prevê a
hipótese de inimputabilidade, descrevendo indivíduos que apresentam
doença mental, ou ainda desenvolvimento mental incompleto ou
retardado, entendendo assim que, no momento do ato, esses sujeitos
eram incapazes de compreender o ato como ilícito ou de determinar-se
de acordo com esse entendimento. Nesses casos, é determinada medida
de segurança (tratamento ambulatorial ou internação em casas de
custódia para tratamento) (DELMANTO et al., 2010).
Porém, é a partir da semi-imputabilidade que as principais discussões
acerca da psicopatia estão posicionadas. Como os psicopatas têm
completa noção sobre os seus atos (CLECKLEY, 1976; HARE, 2013), não
podem ser considerados inimputáveis. Por outro lado, embora os
psicopatas ajam de forma intencional e saibam a diferença entre certo e
errado, apresentam um dé�cit emocional, percebendo as emoções de
forma diferenciada (HARE, 2013). Em decorrência dessas asserções, o
transtorno pode se encaixar na semi-imputabilidade, sendo que,
inúmeras vezes, a decisão irá depender do juiz que avalia o caso.
Diante do exposto, é possível eleger diversos pontos a serem
debatidos. O primeiro refere-se à escassez de discussões sobre o tema no
Brasil, por diversos fatores. No âmbito do Direito, essa escassez é
de�nida pela ausência de uma previsão normativa para veri�cação do
transtorno, tendo em vista que em outros países, como os Estados
Unidos, a psicopatia é mencionada em diversas leis, inclusive prevendo o
tratamento para o transtorno. No âmbito da Psicologia, destaca-se a
presença de uma corrente contrária a diagnósticos dessa natureza,
principalmente nesses casos. Para que se pense em novas alternativas,
tanto no âmbito do tratamento da psicopatia, como na esfera jurídica, é
necessário reconhecer a psicopatia como um transtorno que, de fato,
existe, facilitando assim a busca por estratégias de intervenção (KIEHL;
HOFFMAN, 2011).
Apesar de achados recentes acerca da etiologia do transtorno
demonstrarem a presença de fatores biológicos, compreende-se e
salienta-se a importância do ambiente como fator de profunda
in�uência no desenvolvimento dos indivíduos, atuando como
componente da formação da personalidade. No entanto, existe uma
demanda de diálogo entre a Psicologia e o Direito que não está sendo
suprida, embora seja de extrema importância promovê-la, tornando-a
ainda capaz de abarcar discussões sobre a semi-imputabilidade.

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