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SILVIO JOSÉ LEMOS VASCONCELLOS VIVIAN DE MEDEIROS LAGO (organizadores) A PSICOLOGIA JURÍDICA E AS SUAS INTERFACES: um panorama atual Santa Maria, 2016 ORGANIZADORES Silvio José Lemos Vasconcellos Psicólogo (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), Mestre em Ciências Criminais (PUC-RS) e Doutor em Psicologia (UFRGS). Professor Adjunto III da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSM. Coordenador do grupo de Pesquisa e Avaliação de Alterações da Cognição Social (PAACS) vinculado à Universidade Federal de Santa Maria. Vivian de Medeiros Lago Psicóloga (UCPel) e Graduada em Direito (UFPel). Possui especialização em Psicologia Jurídica (Ulbra) e é Mestra e Doutora em Psicologia (UFRGS). Atualmente é Pós-doutoranda em Psicologia no Grupo de Estudo, Aplicação e Pesquisa em Avaliação Psicológica (GEAPAP - UFRGS). Professora dos cursos de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e das Faculdades Integradas de Taquara (FACCAT). SUMÁRIO Organizadores Apresentação Sobre os autores Capítulo 1 As práticas de atuação do psicólogo no contexto jurídico Vivian de Medeiros Lago Tauany Brizolla Flores do Nascimento Capítulo 2 Elaboração de documentos psicológicos no contexto forense Sonia Liane Reichert Rovinski Capítulo 3 Perícia psicológica no direito do trabalho Helena Diefenthaeler Christ Capítulo 4 Relacionamento parental em situações de disputa de guarda: o que avaliar? Vivian de Medeiros Lago Denise Ruschel Bandeira Capítulo 5 Alienação parental: uma análise psicojurídica Victoria Muccillo Baisch Lilian Milnitsky Stein Capítulo 6 Sete erros na avaliação de situações de abuso sexual contra crianças e adolescentes Cátula da Luz Pelisoli Débora Dalbosco Dell’Aglio Steve Herman Capítulo 7 A Psicologia na socioeducação de adolescentes Analice Brusius Magale de Camargo Machado Capítulo 8 Incompreensões sobre a mente criminosa e as suas implicações éticas e jurídicas Silvio José Lemos Vasconcellos Roberta Salvador Silva Thiago Ferreira Mucenecki Jaíne Foletto Silveira Capítulo 9 Psicopatia: um olhar sobre a população feminina e suas implicações jurídicas Fernanda de Vargas Fernanda Xavier Ho�meister Priscila Flores Prates Silvio José Lemos Vasconcellos Capítulo 10 Análise do comportamento comunicativo – ACC: investigando pistas de dissimulação em depoimentos Rui Mateus Joaquim Mônica Azzariti Créditos SOBRE OS AUTORES Analice Brusius Psicóloga (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e Mestra em Ciências Sociais (Universidade do Vale do Rio dos Sinos). Psicóloga da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul. Atualmente é professora da Faculdade de Psicologia na Instituição Evangélica de Novo Hamburgo. Também possui formação em Justiça Restaurativa. Cátula da Luz Pelisoli Psicóloga (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), Especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental pelo Instituto WP - Centro de Psicoterapia Cognitivo-Comportamental, Mestra e Doutora em Psicologia (UFRGS), com período de doutorado sanduíche na University of Hawaii at Hilo. Atualmente é Psicóloga Judiciária do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul na Comarca de Passo Fundo, professora da Faculdade João Paulo II e professora convidada do Instituto WP. Débora Dalbosco Dell’Aglio Psicóloga (PUC-RS), Mestra e Doutora em Psicologia do Desenvolvimento (UFRGS). Atualmente é docente do Programa de Pós- Graduação em Psicologia da UFRGS, orientadora de mestrado e doutorado, Editora da Revista Psicologia Re�exão e Crítica/Psychology e Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Adolescência (NEPA/UFRGS). Denise Ruschel Bandeira Psicóloga (PUC-RS), Mestra e Doutora em Psicologia (UFRGS). É a atual Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS, orientadora de mestrado e doutorado e Coordenadora do Grupo de Estudos, Aplicação e Pesquisa em Avaliação Psicológica. Fernanda de Vargas Psicóloga (Unifra), Especialista em Psicologia, ênfase em Saúde Comunitária (UFRGS) e Mestra em Psicologia com ênfase em Saúde (UFSM). Concluiu o Programa Especial de Graduação em Formação de Professores para a Educação Pro�ssional (PEG) pela UFSM, sendo assim Licenciada em Psicologia. Fernanda Xavier Ho�meister Psicóloga (Unifra), Pós-graduada em Avaliação Psicológica (UNISC) e Mestranda em Psicologia com ênfase em Saúde (UFSM). Concluiu o Programa Especial de Graduação em Formação de Professores para a Educação Pro�ssional (PEG) pela UFSM, sendo assim Licenciada em Psicologia. Helena Diefenthaeler Christ Psicóloga (PUC-RS) e Mestra em Psicologia Clínica (PUC-RS). Possui especialização em Psicologia Jurídica (Ulbra) e Formação em Psicoterapia de Técnicas Integradas (Instituto Fernando Pessoa). Atualmente é professora titular de graduação e pós-graduação da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI/FW) e Diretora do Núcleo de Estudos e Atendimentos em Psicologia (Nexos). Jaíne Foletto Silveira Psicóloga (UFSM). Mestranda em Psicologia (UFSM). Lilian Milnitsky Stein Psicóloga (UFRGS), Especialista em Psicologia Escolar (PUC-RS). Mestra em Applied Cognitive Science (Ontario Institute for Studies in Education). Doutora em Cognitive Psychology (University of Arizona) e Pós- doutora (Universidad de Barcelona). Atualmente é professora titular do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PUC-RS). Magale de Camargo Machado Psicóloga (Universidade Vale do Rio dos Sinos), integrante da equipe no Centro de Atenção Psicossocial da Infância e Adolescência de Novo Hamburgo (CAPSi/NH). Doutora em Educação (UFRGS). É professora da Faculdade Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), no curso de Psicologia. Pesquisadora em estágio pós-doutoral no exterior/Brasil- Universidade Paris 8/França. Mônica Azzariti Fonoaudióloga. Pós-graduada em Linguística (UGF), Pós-graduada em Segurança Pública (FIAVM). Especialista em voz (título concedido pelo CFFa). Mestre em Linguística (UERJ), pesquisadora do FSI Brasil. Professora do IPEBJ. Instrutora do curso de negociações com reféns do BOPE/RJ e perita no TJRJ. Priscila Flores Prates Psicóloga (Unifra), Especialista em Terapia Cognitivo- Comportamental (UFRGS) e Mestranda em Psicologia com ênfase em Saúde (UFSM). Atualmente é bolsista FAPERGS. Roberta Salvador Silva Psicóloga (Faculdades Integradas de Taquara). Especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (PUC-RS), Mestra e Doutoranda em Psicologia também pela PUC-RS. Integra o Grupo de Pesquisa Neurociência Afetiva e Transgeracionalidade (GNAT), coordenado pela professora Adriane Arteche. Rui Mateus Joaquim Psicólogo. Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Ciências (UNESP). Doutorando do Programa de Ciências da Reabilitação do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP. Sonia Liane Reichert Rovinski Psicóloga (PUC-RS), Mestra em Psicologia Social e da Personalidade pela mesma universidade e Doutora em Psicologia (Universidade de Santiago de Compostela, ES). Atualmente, atua na área da Psicologia Forense como perita e assistente técnica. Coordena o curso de Especialização em Psicologia Jurídica da Projecto - Centro Cultural e de Formação (RS) e o curso de Especialização em Psicologia Jurídica do Instituto Sapiens (PR). Pós-doutoranda na área de avaliação psicológica forense (GEAPAP-UFRGS). Steve Herman Bacharel em Filoso�a pelo Reed College (Portland, EUA) e Doutor em Aconselhamento Psicológico pela Stanford University (Califórnia, EUA). Atualmente é professor assistente no Departamento de Psicologia da University of Hawaii at Hilo (EUA). Tauany Brizolla Flores do Nascimento Psicóloga (Faculdades Integradas de Taquara - FACCAT). Thiago Ferreira Mucenecki Psicólogo (Unifra), Especialista em Neuropsicologia pela Projecto - Centro Cultural e de Formação e Mestre em Psicologia da Saúde (UFSM). Atualmente é professor da Universidade RegionalIntegrada do Alto Uruguai e das Missões (URI-Santiago). Victoria Muccillo Baisch Advogada especialista em Direito de Família Contemporâneo e Mediação. Mestra em Psicologia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) na área de concentração Cognição Humana. Advoga na área do Direito de Família e Sucessões e é professora convidada da Pós-Graduação em Direito de Família Contemporâneo e Mediação da FADERGS. APRESENTAÇÃO Conforme o dicionário Novo Aurélio, a palavra interface, em um dos seus signi�cados recorrentes, descreve um conjunto de elementos comuns entre duas ou mais áreas do conhecimento. Pode-se dizer, nesses termos, que a Psicologia, ao aproximar-se das ciências jurídicas, consolidou interlocuções e estabeleceu interfaces verdadeiramente dinâmicas. A Psicologia Jurídica é, portanto, um campo caracterizado por transformações que não cessam e diálogos que não se esgotam. Retratar um panorama atual dessa complexa área do conhecimento e seus desdobramentos no Brasil não é, por certo, uma tarefa simples ou diante da qual seja possível prescindir de uma pluralidade de olhares. Para tanto, torna-se necessário agregar perspectivas distintas e, ao mesmo tempo, complementares. Mais do que reunir concepções, é preciso, para esses �ns, produzir interlocuções. Dessa forma, a obra A Psicologia Jurídica e as suas Interfaces: um panorama atual objetiva não apenas retratar a realidade hodierna e multifacetada dessa complexa área do conhecimento, mas também explicitá-la a partir das suas interconexões e possibilidades epistêmicas. Temas abrangentes, a exemplo da socioeducação de adolescentes em con�ito com a lei; alienação parental e disputa de guarda; avaliação de situações de abuso sexual; perícias e produção de documentos jurídicos; bem como questões relacionadas à avaliação psicológica na esfera criminal e outros temas perpassam os diferentes capítulos deste livro. Se, por um lado, ao longo deste trabalho, algumas segmentações tornam-se necessárias como forma de melhor organizá-lo, por outro, é possível identi�car o caráter integrador que o perfaz. Uma integração que, no que se refere à Psicologia Jurídica, permite fortalecer interfaces historicamente consolidadas, bem como subsidiar, em termos teóricos, práticas incipientes. A partir dessa perspectiva, as autoras Vivian de Medeiros Lago e Tauany Brizolla Flores do Nascimento discorrem, no primeiro capítulo desta obra, sobre as práticas do psicólogo jurídico nos diferentes campos de interface da Psicologia com o Direito. As atividades são descritas a partir da divisão entre área Cível e área Penal, evidenciando trabalhos mais consolidados, como perícias e acompanhamento psicológico, assim como práticas mais recentes, como a mediação, o depoimento especial e a justiça restaurativa. No segundo capítulo, a autora Sonia Rovinski discorre sobre a elaboração de documentos psicológicos forenses na área cível. Além dos cuidados éticos necessários e das demandas da escrita técnico-cientí�ca, também são discutidas as peculiaridades especí�cas da estrutura e conteúdo do laudo pericial e do parecer crítico do assistente técnico. O capítulo três, de autoria de Helena Diefenthaeler Christ, trata sobre perícias psicológicas no âmbito do Direito do Trabalho. A autora destaca a importância de avaliar a queixa apresentada, de considerar possíveis simulações, de realizar diagnóstico e de estabelecer o nexo de causalidade entre o dano e a ação praticada pelo empregador. Essas perícias podem envolver depressão, transtorno de estresse pós- traumático, estresse ocupacional, síndrome de burnout, além de situações como assédio sexual e assédio moral. No capítulo quatro, intitulado Relacionamento parental em situações de disputa de guarda: o que avaliar?, as autoras Vivian de Medeiros Lago e Denise Ruschel Bandeira assinalam os aspectos do relacionamento parental que são relevantes para de�nir a guarda dos �lhos. Os estudos teórico e empírico realizados oferecem diretrizes sobre o que deve ser considerado no momento de fazer uma recomendação de quem deverá �car com a guarda, ou o tipo de guarda e direito de convivência. O quinto capítulo, de autoria de Victoria Muccillo Baisch e Lilian Milnitsky Stein, analisa aspectos jurídicos e psicológicos da temática da alienação parental. A sugestionabilidade infantil, com possibilidade de formação de falsas memórias na criança vítima de alienação parental, e suas implicações do fenômeno no âmbito jurídico também são discutidas. Cátula Pelisoli, Débora Dalbosco Dell’Aglio e Steve Herman escreveram o sexto capítulo desta obra, que aponta e discute sete erros frequentes na avaliação de situações de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Os equívocos abordados podem causar impactos signi�cativos nas vidas das pessoas envolvidas e, por isso, é importante buscar minimizar os riscos de erros nessas avaliações. No sétimo capítulo da obra, as autoras Analice Brusius e Magale de Camargo Machado exploram a temática da socioeducação de adolescentes. Re�exões interessantes sobre o trabalho da Psicologia com adolescentes autores de ato infracional que cumprem medidas socioeducativas de internação são apresentadas. A articulação teórica aliada à realidade de trabalho das autoras permite uma compreensão do trabalho do psicólogo nessa seara. No capítulo oito, os autores Silvio José Lemos Vasconcellos, Roberta Salvador Silva, Thiago Ferreira Mucenecki e Jaíne Foletto Silveira desenvolvem uma análise do estado atual de conhecimento sobre uma das temáticas mais controversas da Criminologia. Mais do que explicar como algumas pesquisas básicas são desenvolvidas nesse campo, o trabalho visa tecer considerações sobre as implicações éticas desses achados. Aborda, portanto, uma interface histórica e, ao mesmo tempo atual, envolvendo o Direito Penal e as ciências da mente. O nono capítulo, elaborado por Fernanda Xavier Ho�meister, Fernanda de Vargas, Priscila Flores Prates e Silvio José Lemos Vasconcellos, contempla a avaliação da psicopatia em mulheres e suas implicações jurídicas. Explicitar os impasses que caracterizam essa interface da Psicologia com o Direito é, portanto, o objetivo maior do trabalho em questão. Para tanto, considerações sobre a sintomatologia da psicopatia também integram a citada proposta. No capítulo �nal desta obra, os autores Mônica Azzariti de Pinho Barbosa e Rui Mateus Joaquim tecem considerações sobre um campo recente de atuação dos psicólogos jurídicos e fonoaudiólogos forenses: a análise do comportamento comunicativo. Explicitando essa recente interface da Psicologia com o Direito Penal, o trabalho elucida os pressupostos teóricos que fundamentam essa prática, bem como as possibilidades relacionadas a esse campo especí�co de atuação pro�ssional. Re�exões sobre a necessidade de fundamentar o trabalho de forma ética e bem embasada também integram o capítulo que encerra a obra. De um modo geral, esta obra ilustra, tal como o subtítulo sugere, um panorama atual da própria Psicologia Jurídica. Nesses termos, ao longo de dez capítulos, os autores buscam caracterizar diferentes áreas relacionadas à interface entre Direito, Psicologia e outras ciências a�ns, apontando direções e indicando possibilidades de aperfeiçoamento no que se refere a esse mesmo diálogo. O livro objetiva, portanto, não apenas informar sobre determinadas práticas e seus respectivos aportes teóricos, mas também contribuir para aprimorá-las dentro da ampla realidade que perfaz a Psicologia Jurídica. CAPÍTULO 1 AS PRÁTICAS DE ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO NO CONTEXTO JURÍDICO Vivian de Medeiros Lago Tauany Brizolla Flores do Nascimento A Psicologia Jurídica é reconhecida como especialidade pelo Conselho Federal de Psicologia há quatorze anos. Como tal, ainda é uma das especialidades mais recentes no Brasil e, por isso, tem sido alvo de inúmeras discussões acerca das múltiplas solicitações convergidas a quem atua nesse campo interdisciplinar(BRITO, 2012). Embora tenha havido uma ampliação do trabalho do psicólogo jurídico na última década, a demanda ainda é muito associada ao exercício da avaliação psicológica, em que o pro�ssional busca diagnosticar as condições psicológicas dos sujeitos em con�ito com a lei. Assim, o psicólogo busca desmisti�car esse rótulo adquirido ao longo da história, implementando outras ações e práticas no contexto jurídico (AGUIAR, 2005). Muitas pessoas têm uma ideia equivocada ou distorcida do que faz um psicólogo jurídico. Isso se deve à grande in�uência da mídia que, diversas vezes, relaciona o psicólogo jurídico à aplicação de uma determinada lei e também a um desconhecimento por parte da sociedade em geral (HUSS, 2011). Assim sendo, o presente capítulo tem como objetivo apresentar as diferentes possibilidades de atuação do psicólogo jurídico, enfocando as áreas Cível e Criminal. Os capítulos seguintes da obra explorarão temas especí�cos dentro dessas atuações. Psicologia Jurídica A de�nição de Psicologia Jurídica ainda é debatida entre os psicólogos atualmente (HUSS, 2011). Para o autor, a especialidade refere- se, exclusivamente, à “aplicação da psicologia clínica ao Poder Judiciário” (p. 23), com foco na avaliação e tratamento, enquanto que em um nível mais abrangente a Psicologia Jurídica pode ser vista como a aplicação da Psicologia, em geral, no auxílio do sistema legal. Clemente (1998) e Muñoz Sabaté (1980) citados por Trindade (2004), ao buscarem de�nir a Psicologia Jurídica, discutem alguns conceitos. O primeiro a de�ne de maneira mais teórica, como sendo o estudo comportamental de indivíduos que, por alguma razão, devem se desenvolver em um contexto juridicamente controlado, além do estudo da evolução das leis que orientam esses espaços. Já o segundo, ao falar sobre a Psicologia para o Direito, a de�ne como uma ciência intimada a prestar auxílio no exercício do Direito. Altoé (2003, p. 118) de�ne o trabalho da Psicologia Jurídica como o de “informar, apoiar, acompanhar e dar orientação pertinente a cada caso atendido nos diversos âmbitos do Sistema Judiciário”, prestando auxílio aos pro�ssionais do Direito. Brito (2005) disserta que, inicialmente, a Psicologia Jurídica era solicitada basicamente, pelo Poder Judiciário, para a realização de avaliações e exames. Já, atualmente, a autora entende que a especialidade busca expor aos pro�ssionais do Direito uma determinada situação sob outro olhar que não o do Direito, mas o da Psicologia. Para uma melhor compreensão da Psicologia Jurídica, é importante, didaticamente, dividi-la em inserções no âmbito penal/criminal e no âmbito cível (HUSS, 2011). Essa divisão advém de uma separação legal entre o Direito Penal e Civil, cujos propósitos divergem e, consequentemente, trazem diferenças ao papel do psicólogo que desenvolve trabalhos voltados para um ou outro âmbito. O Direito Civil diz respeito ao direito privado de cada cidadão, sendo que ao ocorrer a violação desse direito, causando alguma injustiça e/ou prejuízo, caberá à pessoa que sofreu a injustiça decidir tomar alguma atitude legal ou não. A violação de determinados direitos civis pode ocorrer intencionalmente ou por negligência, quando um indivíduo está em um nível elevado de desatenção, por exemplo. Dentro da esfera do Direito Civil, as principais atuações do psicólogo estão ligadas às áreas de guarda dos �lhos, responsabilidade civil, danos pessoais e indenização a trabalhadores (HUSS, 2011). Além das citadas anteriormente, destacam-se como áreas de atuação no Direito Civil: interdição judicial, destituição do poder familiar, adoção, regulamentação de visitas em casos de divórcio dos pais e trabalho com adolescentes autores de atos infracionais (LAGO et al., 2009). Já o Direito Penal tem seu cerne nos atos cometidos contra a sociedade em geral, cabendo ao Estado proibir determinados comportamentos, de�nir o que será, ou não, considerado crime e julgar quais condutas serão passíveis de punição. Assim, o objetivo principal do Direito Penal é prevenir o cometimento de crimes bem como manter um senso de justiça na sociedade. Dessa forma, as principais áreas de atuação do psicólogo, nesse campo, estão ligadas à inimputabilidade e responsabilidade criminal, tratamento de agressores sexuais e capacidade para se submeter a julgamento (HUSS, 2011). Ainda incluem- se nas demandas do psicólogo no Direito Penal as práticas em Institutos Psiquiátricos Forenses e no Sistema Penitenciário (LAGO et al., 2009). Principais campos de atuação e suas demandas Os principais campos de atuação do psicólogo jurídico estão relacionados ao Direito Civil e ao Direito Penal. Acerca do Direito Civil sugere-se uma subdivisão em Direito de Família, Direito da Criança e do Adolescente e Direito do Trabalho, justi�cando-a por ser didaticamente adequado e por se tratar de varas diferentes nas execuções dos processos (HUSS, 2011; LAGO et al., 2009). Direito Civil No Direito de Família observa-se a solicitação de um psicólogo jurídico, principalmente, em casos de divórcio litigioso, disputa de guarda e regulamentação do direito de convivência. Nessas situações, o psicólogo contribui com os operadores do Direito fornecendo informações sobre a dinâmica familiar dos envolvidos no con�ito, auxiliando nas decisões judiciais (LAGO et al., 2009). O divórcio pode ser entendido como a anulação de um casamento perante a lei, consequência de uma ruptura conjugal anterior. Assim, caso o juiz ou as partes julguem necessário, podem solicitar o trabalho de um psicólogo para prestar auxílio durante o processo. A principal demanda do psicólogo nesse contexto é apresentar, como perito exterior ao tribunal, subsídios técnicos que possam auxiliar na resolução do processo, trabalhando no sentido de minimizar as consequências negativas que um divórcio possa vir a apresentar a todos os sujeitos envolvidos (COSTA et al., 2009; ROSA et al., 2005). A atuação do psicólogo também pode estar voltada à mediação quando existir a possibilidade de acordo entre as partes e, também, como avaliador (perito) se assim solicitado pelo juiz (LAGO et al., 2009). Com isso, as intervenções do psicólogo devem auxiliar em obter uma maior clareza sobre a situação psicológica do caso, procurando ser realizadas totalmente com base em teoria cientí�ca visando o bem-estar de todos os envolvidos (TRINDADE, 2004). A disputa de guarda é o con�ito familiar que mais demanda auxílio da Psicologia ao Direito. Dessa maneira, o principal trabalho do psicólogo é o de realizar perícia psicológica, ou seja, realizar uma avaliação psicológica, solicitada pelo juiz, com o objetivo de oferecer contribuições para sua tomada de decisão (MACIEL; CRUZ, 2009). Assim, nota-se ser fundamental avaliar a qualidade do relacionamento da criança com ambos os genitores e com outros responsáveis que tomam conta dela por meio da competência parental, ou seja, avaliar o conjunto de práticas que os pais e/ou responsáveis assumem ao cuidar e se responsabilizar por seus �lhos (MACIEL; CRUZ, 2009). Vale destacar que é papel do psicólogo, ao realizar uma perícia de disputa de guarda, assegurar que sejam preservados sempre os interesses da criança envolvida, e não somente os de um dos genitores (LAGO; BANDEIRA, 2008). Conforme o tipo de guarda determinado na decisão judicial, podem ser de�nidos aspectos relacionados ao direito de convivência/visitas. Após essa decisão, se ainda houver con�itos relacionados a ela, o psicólogo pode ser chamado pelo juiz para, após avaliar a dinâmica familiar, sugerir alguma intervenção para a resolução desse con�ito (LAGO et al., 2009). Outro papel que o psicólogo pode desempenhar na área de interface com o Direito de Família é o de mediador. A mediação é uma prática alternativa na resolução de con�itos, em que as partes possuem autonomia para buscar acordos, contando para isso com a �gura do mediador. No Brasil, tem se tornado cada vez mais frequente a utilização da mediação no contexto familiar, para auxiliar ex-cônjuges no processo de divórcio. Embora aindanão regulamentada em nosso país, essa técnica tem sido utilizada por pro�ssionais de diferentes áreas, de forma voluntária. Não é uma prática de uso exclusivo do psicólogo, podendo ser utilizada por advogados, assistentes sociais, sociólogos, por exemplo. Independentemente da área de formação do pro�ssional, é importante que ele conheça não apenas sobre as leis que regulamentam o divórcio, mas também sobre os processos psicológicos envolvidos. Como bem apontam Chaves e Maciel (2005), o divórcio envolve muito estresse, pois demanda um período de transição da família para se adaptar a uma situação nova. Assim sendo, as autoras defendem o serviço de Mediação nas Varas de Família como um meio de oferecer suporte a essas famílias, orientando-as e esclarecendo-as quanto a esse evento, buscando um trabalho de fortalecimento das relações parentais, a �m de que perdurem após o término da relação conjugal. O psicólogo que atuar como mediador familiar procurará, por meio de encontros e entrevistas com os membros da família, facilitar a comunicação entre eles, objetivando uma solução consensual, que respeite os direitos das crianças e dos adolescentes. O psicólogo deverá ser neutro na relação, não lhe cabendo opinar, sugerir, decidir ou impor nada. Uma vez realizado o acordo entre as partes, esse passa a ser um compromisso entre todos os envolvidos (SILVA, 2006). Por ter sido elaborado pelas próprias partes, espera-se que o acordado seja cumprido de forma mais efetiva do que se imposto judicialmente. O psicólogo que desenvolve trabalhos na área do Direito de Família, seja como perito (nomeado pelo juiz), assistente técnico (contratado pelas partes para questionar tecnicamente as análises do perito) ou mediador, deve buscar conhecimentos interdisciplinares, que envolvem, muitas vezes, legislações. É importante buscar constante atualização, dominando temas e leis que envolvem, por exemplo, os tipos de guarda e a alienação parental. Esse último tema será abordado de forma mais especí�ca no capítulo 5. No Direito da Criança e do Adolescente nota-se a demanda de um psicólogo nos casos de adoção e destituição do poder familiar. Percebe- se também o trabalho de psicólogos com adolescentes autores de atos infracionais (LAGO et al., 2009). Nos casos de adoção, o principal trabalho do psicólogo, nos Juizados da Infância e da Juventude, é o de participar da seleção da família que pretende fazer a adoção e acompanhar todo o processo. Assim, nota-se a utilidade de intervenções psicológicas no sentido de poder, com base no conhecimento cientí�co sobre as relações humanas, predizer o sucesso do processo, bem como precaver sobre possíveis problemas que possam vir a ocorrer (WEBER, 2005). Dessa forma, o psicólogo irá intervir como um facilitador na formação de vínculos, devendo ser capaz de amparar emocionalmente e favorecer a habituação entre a criança e a nova família (ALVARENGA; BITENCOURT, 2013). Para que se viabilize o desenvolvimento sadio de uma criança, o mais adequado é que ela esteja com sua família, quando esta exerce com e�cácia os cuidados parentais. Porém, muitas famílias não obtêm sucesso no desempenho desse cuidado, prejudicando o desenvolvimento físico, psíquico e social da criança. Nos casos em que é comprovada a exposição da criança a esses riscos, os pais poderão vir a perder o direito do poder familiar sobre seus �lhos (ALBORNOZ, 2009). Com isso, torna-se fundamental a intervenção de um psicólogo que, inserido em equipe multipro�ssional, tem como trabalho a realização de perícia psicológica, a �m de subsidiar a decisão do juiz por deferir, ou não, a decisão de destituição do poder familiar (FANTE; CASSAB, 2007; LAGO et al., 2009). Além de um acompanhamento psicológico, o psicólogo deve agir de modo a assegurar os direitos fundamentais e favorecer a promoção da saúde mental da criança e de sua família de origem (CESCA, 2004). Uma solicitação frequente aos psicólogos são as perícias envolvendo suspeita de abuso sexual, as quais podem estar associadas a processos de destituição do poder familiar. Tais avaliações são um desa�o aos pro�ssionais da área da saúde mental, em virtude de alguns fatores, como a idade da criança supostamente abusada, o que implica limitações na comunicação verbal. Conforme apontam Schaefer, Rossetto e Kristensen (2012), especialmente nas situações de abuso intrafamiliar, a criança nem sempre consegue identi�car aquele ato como abusivo, em virtude da relação estabelecida com seu cuidador, quem deveria zelar por sua proteção. As perícias judiciais de suspeita de abuso sexual, solicitadas por autoridades jurídicas, buscam uma con�rmação, ou não, do fato. A preocupação com as consequências advindas do abuso não se caracteriza como tipicamente papel da Psicologia Jurídica, mas sim do contexto clínico. Contudo, conforme destacam Gava, Pelisoli e Dell’Aglio (2013), essa con�rmação da ocorrência do abuso deve respeitar os limites das técnicas psicológicas, que deverão ser abrangentes e compreensivas, integrando diferentes fontes de informação. Pelisoli, Gava e Dell’Aglio (2011) discutem em seu artigo sobre a tomada de decisão em situações de abuso sexual infantil. Destacam o elevado índice de discordâncias evidenciado na literatura, o que leva a crer que possam existir posicionamentos errôneos acerca da existência do fato. Tais erros podem signi�car tanto falsos positivos (quando o abuso de fato ocorreu) quanto falsos negativos (quando o fato ocorreu e o pro�ssional, por meio de sua avaliação, entende que não). Infelizmente, falsas acusações de abuso sexual têm se tornado frequentes, manifestando-se como uma forma de alienação parental, ou seja, uma forma de romper totalmente o vínculo entre a criança e o genitor. É muito importante que o psicólogo esteja atento a essas possibilidades ao conduzir seu trabalho, como forma de garantir a qualidade de sua avaliação. Além das questões relacionadas ao poder familiar, entre elas a avaliação de suspeita de abuso sexual, existe o trabalho desenvolvido com os adolescentes em con�ito com a lei, aos quais são aplicadas medidas socioeducativas. Tais medidas objetivam incitar a presença do adolescente infrator na sociedade de maneira positiva, bem como ajudá- lo a dominar a situação de estar, temporariamente, afastado dela (LAGO et al., 2009). Nesse sentido, o psicólogo deve desenvolver intervenções que possam minimizar, a partir das redes externas de apoio do adolescente, a ocorrência de atos infracionais quando este retornar à sociedade. Zappe e Ramos (2010), ao estudarem o per�l de adolescentes privados de liberdade em Santa Maria/RS, referem à necessidade da criação de políticas sociais básicas que objetivem o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes, bem como o desenvolvimento de atividades em que os adolescentes possam se sentir incluídos e reconhecidos, estimulando-os a optar por tais atividades ao cometimento de atos infracionais. O cumprimento das medidas socioeducativas, sentenciadas pelo juiz, pode dar-se em meio aberto, como, por exemplo, em instituições de semiliberdade e liberdade assistida ou em meio fechado, em unidades de internação, podendo o psicólogo atuar nos dois espaços. Assim, cabe ao psicólogo planejar as rotinas do dia a dia dos adolescentes, atentando para o cumprimento das regras da instituição, bem como organizar atividades que ocupem o tempo ocioso e desenvolver, em conjunto com o adolescente, a construção do Plano Individual de Atendimento (PIA), em que o psicólogo assume o papel de ouvinte e orientador do adolescente, autor de seu próprio plano a partir de suas re�exões sobre o que está vivenciando e o que fará no futuro. Ainda, é papel do psicólogo vincular a unidade de internação a outros programas e serviços visando ao atendimento das necessidades, atuais e futuras, do adolescente, buscando facilitar o momento da saída da internação. O pro�ssional deve também ser capaz de identi�car indícios de situações de violência dentro da instituição, tomando as providências cabíveis, bem como de identi�caradolescentes em grande sofrimento mental e realizar os encaminhamentos pertinentes, documentando todo o trabalho conduzido com o adolescente. Também, o pro�ssional participa do relatório técnico elaborado por equipe interdisciplinar, encaminhado ao judiciário, acerca da personalidade do adolescente infrator (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2010a). Além do trabalho desenvolvido nas Varas de Família e de Infância e Juventude, existe também o trabalho nas Varas de Direito Civil. Nesses casos, o psicólogo, na maior parte das vezes, busca investigar a ocorrência de danos psíquicos e avaliar possíveis casos de interdições judiciais (LAGO et al., 2009). Para tais práticas de perícia psicológica forense, o psicólogo lança mão de seu conhecimento teórico-técnico na área da Psicologia, adaptando-o às normas legais, diferentemente de uma avaliação clínica (ROVINSKI, 2000). Dano psíquico pode ser de�nido como sendo algo impossível de ser averiguado objetivamente, “devendo esta tarefa �car a cargo de um perito com formação na área da saúde mental e experiência forense” (SILVA JUNIOR, 2006). França (2004) classi�ca-o como uma deterioração das funções psíquicas, em consequência de uma ação deliberada ou culposa de alguém. Castex (1997), citado por Rovinski (2000, p. 195), menciona os estudos em que aponta que visto sob o prisma da psicologia forense: [...] o dano (psíquico) supõe a existência de uma agressão produzida por um evento sobre o psiquismo de uma pessoa, de forma a provocar uma perturbação, distúrbio, disfunção, transtorno e/ou diminuição de uma dimensão vital, de modo a caracterizar-se como dano não patrimonial. O trabalho do psicólogo, nesse contexto, dá-se como avaliador em busca de comprovar, ou não, o nexo de causalidade entre o dano psíquico reclamado e o evento traumático desencadeador. É importante que o psicólogo busque se empenhar, por meio da perícia psicológica, em mensurar o nível de funcionamento psicológico do sujeito antes da ocorrência do evento, para que haja uma comparação com o nível de funcionamento atual, sendo possível detectar se houve prejuízo ou não do psiquismo do sujeito (HUSS, 2011). Assim, ao realizar a perícia, e para que se con�rme a existência de fato de um dano psicológico, o psicólogo deve identi�car comprometimentos psicológicos que não existiam anteriormente ao evento traumático desencadeador (MACIEL; CRUZ, 2009). A interdição judicial ocorre quando o sujeito perde a capacidade de gerenciar sua própria pessoa e seus bens (TEIXEIRA; RIGONATTI; SERAFIM, 2003). Na maior parte das vezes, a interdição é deferida ao sujeito quando ele não possui mais discernimento su�ciente para a prática dos atos da vida civil, podendo ser consequência de uma de�ciência mental ou enfermidade. Nesses casos, o papel do psicólogo é, por meio de perícia psicológica, sugerir ao juiz se o sujeito apresenta ou não algum aspecto que o impeça de gerir sua própria vida (LAGO et al., 2009). Ainda dentro da área do Direito Civil, é possível a atuação do psicólogo nos contextos ligados ao Direito do Trabalho, em questões relacionadas a acidentes de trabalho e requerimento de indenizações. Dessa maneira, o psicólogo trabalha na realização de perícias com a �nalidade de veri�car se existem danos psicológicos causados por doenças ou acidentes relacionados ao trabalho (LAGO et al., 2009). Cabe ao psicólogo observar a possibilidade de simulação e/ou exagero dos sintomas por parte do trabalhador com a intenção de aumentar o valor indenizatório (HUSS, 2011). Cruz (2002) destaca a importância da perícia psicológica na área do trabalho para o aprimoramento do diagnóstico dos efeitos do trabalho sobre as condições de saúde do trabalhador. O aumento das doenças musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho acarreta, normalmente, sintomas como o estresse, a depressão e a ansiedade. Vale destacar que o psicólogo perito deve não apenas identi�car tais sintomas, mas também estabelecer o nexo de causalidade entre eles e o trabalho desempenhado pelo indivíduo, a �m de caracterizar o sofrimento psíquico. Uma última observação em relação às perícias psicológicas na área trabalhista diz respeito à demanda por avaliações envolvendo assédio moral. Battistelli, Amazarray e Koller (2011) apontam que o fenômeno não é uma situação nova nas relações laborais, embora nos últimos anos tenha atingido diferentes contextos de trabalho e categorias pro�ssionais. A prática envolve atos abusivos, que ocorrem de forma sistemática e repetida, prejudicando a integridade física ou psíquica do trabalhador. Nessas situações, cabe ao psicólogo avaliar não apenas o indivíduo, mas também seu contexto de trabalho e as relações ali estabelecidas. Direito Penal No que diz respeito ao Direito Penal, a atuação do psicólogo se dá, principalmente, no Sistema Penitenciário e nos Institutos Psiquiátricos Forenses. Nesse sentido, Arantes (2005) destaca que a atuação do psicólogo, relacionada ao Direito Penal, é de predominância avaliativa no auxílio ao Judiciário. Por outro lado, Vettorazzi e Brito (2005) apontam que, contemporaneamente, o Direito Penal não atua com o objetivo de punir, mas sim de prestar auxílio na readaptação social dos apenados. A elaboração de laudos, pareceres e relatórios técnicos, em equipe multidisciplinar, é a principal atividade do psicólogo no Sistema Penitenciário. Porém, existem outras atividades desenvolvidas por psicólogos nesse contexto, como: atenção psicológica individual e grupal, atendimentos psicológicos emergenciais, encaminhamentos, reuniões de equipe, atuação nas relações institucionais, atuação em rede, promoção de eventos, recrutamento e seleção e elaboração de projetos e pesquisas (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2009). O psicólogo, ao restringir-se somente à elaboração de laudos e pareceres no contexto penitenciário, pode gerar uma rotulação do sujeito apenado. Assim, a intervenção do psicólogo deve ser no sentido de promover a cidadania, buscando sempre a reintegração do apenado à sociedade, de forma que esse sujeito possa optar por práticas não criminalizadas (VETTORAZZI; BRITO, 2005). Kolker (2005), ao estudar o sistema penitenciário brasileiro, a�rma que, por haver um desconhecimento por parte do psicólogo sobre os reais problemas das instituições prisionais e por, na maior parte das vezes, o trabalho do psicólogo se reduzir a tarefas disciplinares e ‘julgamentos’ sobre os presos, os pro�ssionais encontram muita di�culdade em realizar um trabalho que possibilite um auxílio psicológico à população carcerária. Aos sujeitos que violam a lei e apresentam algum transtorno mental lhes é decretada, pelo juiz, uma medida de segurança e esses são encaminhados aos Institutos Psiquiátricos Forenses (IPFs) (LAGO et al., 2009). Esses sujeitos são considerados inimputáveis, que é quando o indivíduo não possui um estado mental básico, exigido pela lei, não podendo ser considerado culpado ao cometer um crime (HUSS, 2011). Nesse sentido o trabalho do psicólogo no IPF é o de, em equipe multidisciplinar, realizar perícia psicológica sobre os pacientes que são encaminhados ao local por decisão judicial (LAGO et al., 2009). Além das possibilidades de atuação do psicólogo jurídico descritas acima, existem outros tipos de trabalho que não se enquadram especi�camente como pertencentes ao Direito Civil ou Direito Penal, mas que também podem ser considerados uma prática da Psicologia Jurídica. Entre eles, serão comentados o Depoimento Especial e a Justiça Restaurativa. Depoimento Especial – inicialmente denominado ‘Depoimento sem dano’, é um projeto que foi desenvolvimento pioneiramente no Rio Grande do Sul a partir de 2003. A proposta consiste em retirar crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual da sala de audiência, conduzindo- as a um ambiente mais acolhedor, para que sejam inquiridas por um pro�ssional com maior conhecimento acerca da técnica de entrevista (CEZAR, 2007). Psicólogos e assistentes sociais recebem treinamento especí�co para que estejam habilitados a realizar esse tipo de trabalho.A sala em que ocorre o depoimento possui equipamentos audiovisuais que permitem a comunicação com a sala de audiência. A criança é informada sobre esses procedimentos, estando ciente de que está sendo �lmada e assistida. Essa prática suscita opiniões divergentes entre os pro�ssionais, tanto da área da Psicologia como do Serviço Social. Já houve tentativas por parte tanto do Conselho Federal de Serviço Social (CFSS) quanto do Conselho Federal de Psicologia (CFP) de impedir a oitiva de crianças por meio do Depoimento Especial (Resolução 554/2009 do CFSS e Resolução 10/2010 do CFP). Entretanto, mandados de segurança foram impetrados contra o CFSS e o CFP, garantindo que assistentes sociais e psicólogos possam atuar no Depoimento Especial sem sofrer quaisquer penalidades. Pelisoli, Dobke e Dell’Aglio (2014) apresentam interessante discussão sobre o tema, em que destacam a importância que deve ser dada às crianças e aos adolescentes vítimas de abuso sexual, para além das divergências sobre se o Depoimento Especial seria ou não tarefa do psicólogo. As autoras apontam a necessidade dos pro�ssionais buscarem quali�cação técnica, tecnológica e ética relacionada tanto à equipe quanto à instituição judiciária. Sugerem, ainda, o desenvolvimento de estudos empíricos com os pro�ssionais que já vêm utilizando-se dessa metodologia, a �m de buscar um constante aprimoramento dessa técnica. Justiça Restaurativa – com um aumento signi�cativo do número de delitos cometidos no Brasil, fez-se necessário o uso de novas medidas judiciais, mais adequadas e e�cientes a cada situação, sugerindo-se assim a implementação da Justiça Restaurativa no país. Esse modelo de justiça, opcional e de certa forma informal, pressupõe uma interação de conversação entre as partes envolvidas em um con�ito (ofensor, vítima e comunidade, se necessário), sob a orientação de um facilitador, com o objetivo de solucionar esse con�ito, em comum acordo, reparando o dano sofrido pela vítima e restaurando o vínculo entre as partes. Assim, a Justiça Restaurativa leva em consideração, além da aplicação de uma punição ao infrator, os aspectos emocionais e comunitários envolvidos no con�ito (PINTO, 2005; PRUDENTE, 2008). Como práticas restaurativas dentro dos programas de Justiça Restaurativa existem três principais possibilidades, por meio das quais o psicólogo poderá trabalhar na função de facilitador: mediação entre vítima e ofensor, conferências de família e círculos restaurativos. Na mediação entre vítima e ofensor, as partes encontram-se para, com o auxílio de um facilitador capacitado a propiciar diálogo, conversar acerca do con�ito ocorrido, de�nir responsabilidades sobre o fato e, de alguma forma, reparar a vítima pelo dano sofrido. Em momento anterior a essa etapa, é possível o encontro, em separado, da vítima e do ofensor com o facilitador para que as partes sintam-se melhor preparadas para o encontro restaurativo posterior (PALLAMOLLA, 2009). Nas conferências de família, o processo é similar ao da mediação, porém, ocorre geralmente quando o infrator prejudica mais pessoas além de uma só vítima. Nesses casos, participam familiares, amigos e comunidade das partes que auxiliam na elaboração do acordo de reparação da(s) vítima(s). Utiliza-se com frequência essa prática nos casos que envolvem adolescentes autores de atos infracionais (PALLAMOLLA, 2009). Os círculos restaurativos são utilizados pelo programa da Justiça Restaurativa e em outros casos, como para resolução de um con�ito escolar, por exemplo, sem o envolvimento do Poder Judiciário. Na utilização pela Justiça Restaurativa, além da presença da(s) vítima(s) e do(s) ofensor(es), para a discussão e reparação de um con�ito, participam amigos, família, comunidade das partes além de qualquer outro sujeito que queira se integrar ao círculo (PALLAMOLLA, 2009). Com o objetivo de auxiliar no processo, o facilitador, presente em todas as etapas das práticas restaurativas, tem como função incitar o diálogo entre as partes, induzindo para que tomem as rédeas da situação e apresentem papel ativo na resolução e reparação do con�ito. Buscando afastar laços de hostilidade entre as partes, o facilitador deve trabalhar no sentido de propiciar uma negociação direta entre os envolvidos, coordenando o processo a �m de evitar possíveis excessos (AZEVEDO, 2005; PINTO, 2005). Para essa tarefa, assim como na mediação, podem ser recrutados psicólogos bem como pro�ssionais de outras formações, como Serviço Social e Direito, por exemplo. Visto que a formação do psicólogo é voltada ao entendimento dos processos mentais, envolvendo a prática de técnicas que possibilitam adequado manejo das relações humanas, torna-se de grande valia a participação desse pro�ssional na atuação como facilitador, podendo contribuir mais assertivamente na reparação do con�ito estabelecido. Considerações �nais Este capítulo teve como objetivo caracterizar brevemente as principais formas de atuação do psicólogo jurídico. A maioria das atividades citadas será melhor descrita e aprofundada nos capítulos seguintes da obra. Importante salientar que as possibilidades de trabalho não se esgotam nas aqui mencionadas, uma vez que a Psicologia Jurídica é uma área ainda em desenvolvimento e, portanto, novas demandas nessa interface com o Direito podem surgir. Independentemente da prática que o psicólogo jurídico exerça, vale ressaltar que deverá agir pautado em princípios éticos, respeitando os limites da ciência psicológica. Algumas solicitações advindas dos operadores do Direito podem exigir respostas categóricas que nem sempre a Psicologia poderá fornecer. Importante estar ciente disso e buscar fortalecer o papel do psicólogo jurídico, por meio de trabalhos de qualidade, que, de fato, contribuam com o Direito, proporcionando, assim, benefícios àqueles indivíduos envolvidos na demanda. Referências AGUIAR, A. Psicologia jurídica e políticas públicas no campo da reinserção social de reclusos. In: CRUZ, R. et al. (Org.). O trabalho do psicólogo no campo jurídico. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005. p. 259-271. ALBORNOZ, A. Perspectivas no abrigamento de crianças e adolescentes vitimizados. In: ROVINSKI, S.; CRUZ, R. (Orgs.). Psicologia jurídica: perspectivas teóricas e processos de intervenção. São Paulo: Vetor, 2009. p. 181-194. ALTOÉ, S. 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Assim, o alcance das informações trazidas pelo psicólogo estará diretamente relacionado à sua capacidade para a escrita de tais documentos, em que cuidados éticos e metodológicos serão essenciais para o exercício de uma boa prática pro�ssional. No contexto forense, são dois os documentos de interesse técnico: o laudo pericial e o parecer técnico. O uso de cada um deles estará diretamente relacionado ao tipo de atividade desempenhada pelo psicólogo na dinâmica do processo judicial. Conforme a atual legislação (BRASIL, 2015), sempre que se �zer necessária a prova técnica �ca previsto tanto o trabalho do perito o�cial quanto o do assistente técnico. O psicólogo perito tem como função assessorar o juiz na matéria que lhe compete, é pessoa de con�ança deste agente jurídico e apresenta seu trabalho em um documento denominado laudo. Já o psicólogo assistente técnico é pessoa de con�ança da parte litigante e tem como função auxiliá-la naquilo que considerar correto, com o objetivo de garantir os direitos de seu cliente nas questões que se relacionam à prova técnica, tendo como principal atividade a realização de um parecer crítico frente ao laudo do perito. Assim, os documentos produzidos por esses pro�ssionais possuem �nalidades diferentes e terão peculiaridades especí�cas quanto à estrutura e ao conteúdo. Independente das diferenças que os referidos documentos possam apresentar, tanto o laudo quanto o parecer crítico remetem-nos ao campo comum da interdisciplina por serem solicitados por pro�ssionais de uma área diferente da Psicologia, no caso, por pro�ssionais da área do Direito (RAMIRES, 2006). Essa intersecção de áreas de conhecimento distintas produz questões éticas complexas, na medida em que exige a integração de visões epistemológicas diferenciadas, produzidas tanto pelo mundo do dever ser do Direito quanto pelo mundo do ser da Psicologia (ROVINSKI, 2013). Discutir a produção dos diferentes tipos de documentos psicológicos no contexto forense nos obriga, em primeiro lugar, a abordar questões que são pertinentes atoda e qualquer escrita realizada nesse campo interdisciplinar e, após, a buscar as especi�cidades relacionadas às funções de cada um deles. Assim, se inicia este capítulo com a apresentação das questões comuns referentes às contradições decorrentes do campo interdisciplinar, dos cuidados éticos necessários e das demandas da escrita técnico-cientí�ca, para depois especi�car as diferenças de estrutura e conteúdo próprias a cada um dos documentos. O campo da interdisciplinaridade A literatura tem demonstrado que os autores tendem a compartilhar a ideia de que Psicologia e Direito possuem um mesmo objeto de intervenção quando buscam a compreensão e a predição da conduta humana (URRA, 2002). No entanto, diferenças importantes seriam observadas quanto aos valores, premissas básicas e métodos de aproximação e compreensão dessas duas ciências. Conforme Melton et al. (1997), diferenças epistemológicas e de concepção de mundo não teriam como ser eliminadas e precisariam ser administradas por aqueles técnicos que fossem atuar nesse contexto de trabalho. Para os autores, os dois pontos de maior importância quanto a essas incompatibilidades dizem respeito à concepção de homem e à natureza dos fatos abordados. Em relação à primeira questão-problema, temos a controvérsia do livre arbítrio versus determinismo. Enquanto a Psicologia busca a explicação ou previsão dos fatores que determinam a conduta, o Direito precisa estabelecer responsabilidades individuais, por meio do pressuposto de que o homem é livre por natureza. Para a Psicologia, que busca em suas teorias a explicação ou justi�cativa da conduta, �ca difícil justi�car a ideia de comportamentos ‘voluntários’, conceito essencial para a aplicação da pena pelo agente jurídico. Assim, na escrita dos documentos, muito cuidado deve ser tomado quando a demanda jurídica exigir que se discuta sobre conceitos que envolvam a compreensão de motivação, de liberdade ou autodeterminação. Para os autores anteriormente mencionados, nesse campo interdisciplinar, a melhor solução estaria no psicólogo evitar opiniões sobre a questão �nal da matéria legal, sempre que esse posicionamento não �zesse sentido para o paradigma da própria Psicologia, evitando-se que termos psicológicos possam ser mal interpretados pelos agentes jurídicos. Em outras palavras, os dados psicológicos que forem apresentados nos documentos escritos devem ser fornecidos aos agentes jurídicos de modo a que façam sentido para a demanda legal, mas sempre deixando a esses últimos o julgamento moral. A segunda questão diz respeito à natureza dos fatos. Na Psicologia, a construção do referencial teórico ocorre por intermédio da experimentação cientí�ca, na comparação de grupos e sujeitos, chegando-se sempre a achados probabilísticos. Para o Direito, que necessita aplicar a lei, por meio de decisões irrevogáveis, há a necessidade de se trabalhar com ‘níveis de certeza’. Em função dessa exigência, muitas vezes, na tentativa de ter seu informe aceito pelos agentes jurídicos, o psicólogo sente-se pressionado a expressar seus achados com níveis de certeza que não podem ser justi�cados pela ciência. Para Melton et al. (1997), a ética obrigaria os pro�ssionais a serem explícitos quanto aos níveis de certeza de seus dados, ainda que com esse procedimento seus documentos pudessem perder força como prova nos tribunais. A preocupação dos psicólogos deveria voltar-se tanto para o aumento do grau de certeza de suas hipóteses, mediante o incremento de pesquisas empíricas, quanto para a busca da sensibilização dos agentes jurídicos em relação aos problemas básicos de predição e �exibilidade que se constituem em limitações de seu trabalho técnico (LÖSEL, 1992). Para �nalizar, cabe salientar o risco que corre o psicólogo na escrita de seus informes, nesse campo interdisciplinar, quanto à possível contaminação com a lógica discursiva típica dos agentes jurídicos. Para o Direito, o �m último de sua atuação será sempre a busca da ‘justiça’, podendo-se, para tanto, utilizar a lógica da argumentação, com uma apresentação dos fatos que leve ao convencimento ou à persuasão da vontade daquele que tem o poder de tomada de decisão. A Psicologia, de modo contrário, deve utilizar a lógica formal, mediante o uso de métodos cientí�cos de pesquisa, para demonstrar seus achados (ROVINSKI, 2013). A Psicologia também deve manter seu compromisso com a justiça, mas sua prática é pautada pela imparcialidade e pelo limite da ciência. Nessa prática interdisciplinar, é relativamente comum encontrarem-se procedimentos dos agentes jurídicos no sentido de distorcer ou desquali�car os achados descritos em informes psicológicos, gerando relacionamentos tensos entre os pro�ssionais. Cabe ao psicólogo forense compreender que tais procedimentos dizem respeito ao enquadre de atuação daqueles pro�ssionais e que eles não podem pontuar sua argumentação, sob o risco de desquali�car os documentos produzidos. O psicólogo forense deve manter-se sempre dentro do referencial teórico e técnico da Psicologia, respeitando as limitações quanto ao tipo de conhecimento que pode oferecer e ao alcance de seus dados. Ainda que seus achados tendam a �car em níveis baixos de certeza em relação ao que é esperado pelo judiciário, o corpo de conhecimento oferecido trará sempre contribuições para a melhor compreensão do fato que está sendo julgado. Deve-se lembrar de que qualquer tentativa de exagero quanto aos achados ou à própria capacidade do pro�ssional será sempre um desserviço ao Sistema de Justiça. Princípios éticos na produção de documentos As questões éticas relacionadas à produção de documentos forenses iniciam-se muito antes da escrita desses documentos, envolvendo cuidados quanto às relações estabelecidas com os diferentes atores e os procedimentos de avaliação propriamente ditos. Conforme Bush, Connell e Denney (2006), o contexto adversarial que caracteriza o ambiente forense tende a criar relações de hostilidade entre os diferentes pro�ssionais que ali atuam e, mesmo, entre os pro�ssionais psicólogos que exercem os diferentes papéis na dinâmica processual (perito x assistente técnico), gerando riscos à objetividade e à �dedignidade dos dados colhidos para o processo de avaliação. Para os autores, os princípios éticos baseados nos valores humanos de respeito à autodeterminação e de garantias de não prejuízos à saúde deveriam direcionar a atividade técnica, de modo a gerar documentos que apresentassem um trabalho competente, baseado em informações e procedimentos que pudessem fundamentar su�cientemente os achados e os resultados apresentados. O Conselho Federal de Psicologia, responsável pela regulamentação da atividade dos psicólogos, já tem editado diversas resoluções normativas que tratam da prática do psicólogo forense, com o objetivo de garantir um trabalho mais ético. No entanto, é no Código de Ética Pro�ssional do Psicólogo (CEPP) que vamos encontrar as diretrizes básicas de nossa deontologia. O atual CEPP, editado em 2005 (CFP, 2005), difere do anterior por não possuir nenhuma seção especí�ca que trate das relações com a Justiça, obrigando o psicólogo, em sua prática forense, a buscar as orientações necessárias nas determinações genéricas do Código. Shine (2009), em uma pesquisa com laudos das Varas de Famílias da cidade de São Paulo, que foram denunciadas por má prática ao Conselho Regional de Psicologia, identi�cou alguns artigos do CEPP como os mais citados na fundamentação de tais denúncias. O primeiro deles trata sobre os deveres fundamentais do psicólogo, de: “Prestar serviços psicológicos em condições de trabalho e�cientes, de acordo com os princípios e técnicas reconhecidos pela ciência, pela prática e pela ética pro�ssional” (Art. 1º, alínea ’c’, CEPP); o segundo refere-se ao que é vedado à pratica pro�ssional, de: “Estabelecer com a pessoa do atendido relacionamento que possa interferir negativamente nos objetivos do atendimento” (Art. 2º, alínea ‘m’, CEPP). Tais artigos, como se pode observar, referem-se, respectivamente, a problemasno uso da técnica pro�ssional (desde os procedimentos iniciais de avaliação pericial até a escrita do documento) e no estabelecimento do tipo de relacionamento com o sujeito atendido (geralmente quando o pro�ssional envolve-se na defesa de interesses das partes litigantes), con�rmando que, muitas vezes, problemas apontados em documentos forenses produzidos por psicólogos não se referem à própria escrita ou à sua estrutura, mas a procedimentos técnicos de avaliação e à postura pro�ssional anteriores à confecção do documento. A discussão sobre tais problemas não se encontra no escopo deste capítulo, mas deve estar presentes no horizonte do pro�ssional que se pronti�car a atuar nessa área de trabalho com competência e ética. A Resolução 07/2003 (CFP, 2003), que trata do Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo Psicólogo, descreve os cuidados éticos a serem respeitados nesse tipo de produção em três grandes áreas: das relações com a pessoa atendida, sigilo e alcance das informações. Na área das relações com a pessoa atendida, o Código de Ética Pro�ssional do Psicólogo (CFP, 2005) veda: “Ser perito, avaliador ou parecerista em situações nas quais seus vínculos pessoais ou pro�ssionais, atuais ou anteriores, possam afetar a qualidade do trabalho a ser realizado ou a �delidade aos resultados da avaliação” (Art. 2º, alínea ‘k’, CEPP, 2005). Essa orientação busca impedir, principalmente, que se confundam os vínculos terapêuticos com os de trabalho pericial. Isso porque, no primeiro existe um contrato de sigilo que uma vez estabelecido não poderá ser rompido por outro que não tenha essa mesma abrangência. Assim, uma vez tendo estabelecido vínculo terapêutico com a pessoa do atendido, independente do tempo que possa ter transcorrido desse atendimento, o pro�ssional não poderá mais exercer frente ao paciente o papel de perito ou parecerista. Na área relacionada ao sigilo devem ser observados os seguintes artigos do CEPP (CFP, 2005): Art. 9º É dever do psicólogo respeitar o sigilo pro�ssional a �m de proteger, por meio da con�dencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a que tenha acesso no exercício pro�ssional. Art. 10 Nas situações em que se con�gure con�ito entre as exigências decorrentes do disposto no Art. 9º e as a�rmações dos princípios fundamentais deste Código, excetuando-se os casos previstos em lei, o psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando sua decisão na busca do menor prejuízo. Parágrafo único – Em caso de quebra de sigilo previsto no caput deste artigo, o psicólogo deverá restringir-se a prestar as informações estritamente necessárias. Art. 11 Quando requisitado a depor em juízo, o psicólogo poderá prestar informações, considerando o previsto neste código. As questões de quebra de sigilo no CEPP dizem respeito mais aos pro�ssionais da área da saúde, que, eventualmente, são chamados para depor em juízo sobre pacientes que estão aos seus cuidados. Esses casos devem ser analisados com cuidado, pois o pro�ssional não tem a obrigação de romper com o contrato de sigilo prévio estabelecido apenas porque foi chamado pelo juiz. A quebra de sigilo necessita de argumentos fortes, que possam ser justi�cados por meio dos princípios fundamentais do Código de Ética e, geralmente, se relacionam à segurança (física ou psíquica) de seu paciente ou pessoas próximas a ele. Por outro lado, deve-se lembrar de que o paciente tem o direito de solicitar do psicólogo terapeuta informações de seu prontuário, desde que expresse e assine sua autorização. Essa prática é respaldada pelo Art. 10 da Resolução 08/2010 (CFP, 2010), no qual �ca vedado ao psicólogo: Produzir documentos advindos do processo psicoterápico com a �nalidade de fornecer informações à instância judicial acerca das pessoas atendidas, sem o consentimento formal destas últimas [...]. (grifo da autora do capítulo). Na realização de laudos periciais, o pro�ssional perito está compromissado em informar ao juiz os dados psicológicos pesquisados que são pertinentes à questão legal, não possuindo com seu cliente o mesmo contrato de sigilo que se tem no contexto clínico. Mesmo assim, a comunicação deve respeitar normas éticas, de modo a preservar dentro do possível o sigilo das informações. Em função de os documentos forenses transitarem em um contexto interdisciplinar, a decisão quanto ao que deve ser informado aos agentes jurídicos segue as orientações do Código de Ética quanto à comunicação com pro�ssionais não psicólogos, conforme é especi�cado no Art. 6º, alínea ‘b’: “Compartilhará somente informações relevantes para quali�car o serviço prestado, resguardando o caráter con�dencial das comunicações, assinalando a responsabilidade, de quem as receber, de preservar o sigilo” (CFP, 2005). Aqui, o sentido de ‘informações relevantes’ relaciona-se ao princípio da pertinência, em que apenas os dados relevantes para a matéria legal e/ou aqueles que justi�cam as conclusões do perito devem ser comunicados. Outro artigo que deve ser trazido à discussão é aquele que se refere ao relacionamento com os meios de comunicação. É relativamente comum que situações que envolvam violência tenham repercussão na mídia, colocando os peritos forenses em evidência quando se buscam respostas a esses problemas. Diz o Código: “Art. 2º – Ao psicólogo é vedado: q) Realizar diagnósticos, divulgar procedimentos ou apresentar resultados de serviços psicológicos em meios de comunicação, de modo a expor pessoas, grupos ou organizações” (CFP, 2005). Portanto, não cabe ao psicólogo comentar com a mídia casos de repercussão nos quais possa ter atuado, e não poderá emitir opiniões técnicas sobre pessoas que não conheceu e que não estiveram sob sua avaliação. Quanto à devolução dos resultados da avaliação devem ser consideradas as seguintes alíneas do Artigo 1º que trata das responsabilidades do psicólogo: f ) Fornecer, a quem de direito, na prestação de serviços psicológicos, informações concernentes ao trabalho a ser realizado e ao seu objetivo pro�ssional; g) Informar, a quem de direito, os resultados decorrentes da prestação de serviços psicológicos, transmitindo somente o que for necessário para a tomada de decisões que afetem o usuário ou bene�ciário; h) Orientar, a quem de direito, sobre os encaminhamentos apropriados, a partir da prestação de serviços psicológicos, e fornecer, sempre que solicitado, os documentos pertinentes ao bom termo do trabalho. (CFP, 2005). As alíneas que tratam desse assunto referem-se sempre à devolução para aquele que ‘de direito’ deve receber as informações. Cunha (1993) entende, de maneira geral, que a devolução é de responsabilidade de quem encaminhou o processo, isto é, se o pedido de uma avaliação for feito pelo médico ou juiz, é a eles que os resultados devem ser remetidos, cabendo-lhes a comunicação aos avaliados. Nesse caso, não estaria o psicólogo se abstendo da devolução, mas apenas encaminhando-a a quem seria o receptor do processo. Outro aspecto a ser considerado é a dinâmica processual. É temerário o psicólogo oferecer ao sujeito uma devolução antes de encaminhar ao juiz os resultados levantados, considerando-se que esse fato poderia interferir nos prazos processuais de defesa, que passam a contar a partir da ciência das partes do documento emitido pelo perito (BRASIL, 2015). Nada impede que o psicólogo forense coloque-se à disposição do periciado para o esclarecimento de dúvidas em relação ao laudo, mas apenas após o documento tornar-se público em audiência com o juiz ou através de publicação o�cial. Conforme Rovinski (2013), deve-se tomar cuidado para não criar uma via de comunicação independente ao processo judicial, quando o psicólogo deixaria seu papel de assessor dos agentes jurídicos para assumir a coordenação do próprio processo. Esse tipo de atitude extrapolaria a função da perícia e colocaria o pro�ssional frente a situações que não poderia manejar. Concluindo, pode-se a�rmar que discutir ética na escrita de documentos pressupõe revisar procedimentos técnicos quantoà prática pro�ssional, quando, independente do contexto de trabalho e do nível de con�dencialidade, cuidados deverão ser tomados em relação ao que será escrito e da forma como será escrito, evitando-se uma prática iatrogênica. O Código de Ética Pro�ssional do Psicólogo é a principal referência e deve orientar os psicólogos desde as primeiras etapas do trabalho de avaliação até a escrita do relatório. Nesse sentido, os autores Melton et al. (1997) e Heilbrun (2001) sugerem a revisão dos procedimentos técnicos em três grandes momentos: pré, durante e pós- avaliação. Os cuidados com a construção dos documentos forenses se encontram inseridos nessa última etapa, quando se deveriam: respeitar a relevância dos dados para a questão jurídica (evitar detalhes que possam embaraçar o periciado ou pôr em risco seus direitos, evitar conclusões valorativas que são pertinentes aos agentes jurídicos); fundamentar suas conclusões nos achados que foram descritos; referir as fontes de suas informações e evitar linguagem excessivamente técnica. Princípios técnicos da linguagem escrita Os documentos forenses escritos por psicólogos devem seguir a redação o�cial utilizada para as diferentes esferas do poder público. Essa redação se caracteriza por uma comunicação técnico-cientí�ca de natureza o�cial, que tem como destinatário o juízo que determinou a perícia. Para Lichtenberger et al. (2004), a importância da qualidade do texto apresentado no relatório diz respeito não somente à capacidade de escrita do psicólogo, mas também se re�ete na credibilidade do leitor quanto à capacidade técnica daquele para a atividade de avaliação psicológica. Segundo Brandimiller (1996), a redação o�cial que caracteriza o laudo e o parecer crítico deve pautar-se pelo padrão culto de linguagem (denotativo), pela impessoalidade e pela formalidade e padronização. Explica o autor que esse estilo de linguagem implica não somente na correção gramatical, mas no uso de vocabulário universal, em que se evita o uso de gírias e termos regionais. O padrão culto de linguagem exige o empenho na busca de palavras certas para o que se quer expressar e construções sintáticas adequadas para assegurar a fácil compreensão do texto e sua precisão. A linguagem denotativa signi�ca o uso das palavras e expressões no sentido próprio e literal, sem o uso de sentido �gurado ou metafórico. A impessoalidade signi�ca que o sentido dado à matéria é impessoal, ainda que tenha uma exclusiva autoria. A comunicação é feita entre sujeitos que naquele momento estão investidos em determinada função. Assim, o autor do documento deve utilizar a terceira pessoa do singular para referir-se a si mesmo e dar preferência ao uso dos termos como autor e réu (ou requerente e requerido), após identi�car os sujeitos da ação. Por �m, a padronização diz respeito às características relativas à forma e à estrutura dos documentos, como será visto mais adiante. A Resolução 07/2003 (CFP, 2003), que trata do Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo Psicólogo, apesar de não especi�car os documentos da área forense, descreve princípios técnicos semelhantes da linguagem escrita, sempre com a preocupação de favorecer a e�cácia da comunicação. Conforme especi�cado nessa Resolução, os documentos devem apresentar uma redação bem estruturada e de�nida para expressar o que se quer comunicar, além de ter uma ordenação que possibilite a compreensão por quem os lê, fornecida pela estrutura, composição de parágrafos ou frases e correção gramatical. O emprego de frases e termos deve ser compatível com as expressões próprias da linguagem pro�ssional, evitando a diversidade de signi�cações da linguagem popular, considerando a quem o documento será destinado. A comunicação deve ter clareza, concisão e harmonia. A clareza se traduz pela estrutura frasal, sequência ou ordenamento adequado dos conteúdos, explicitação da natureza e função de cada parte na construção do todo. A concisão se veri�ca no emprego da linguagem adequada, da palavra exata e necessária, buscando o equilíbrio entre uma redação lacônica ou o exagero de uma redação prolixa. Por �m, a harmonia se traduz na correlação adequada das frases, no aspecto sonoro e na ausência de cacofonias. As peculiaridades relacionadas ao propósito dos documentos escritos no contexto forense também resultarão em diferenças quanto à escrita. A primeira diferença é que esse tipo de relatório não será dirigido a outros pro�ssionais da área da Psicologia, mas a pro�ssionais da área do Direito, que não estão acostumados à área de conhecimento. Assim, é fundamental que se evitem jargões técnicos, ou, se for estritamente necessário, que sejam explicados para o público leigo (MELTON et al., 1997). O uso excessivo de termos técnicos pode ser considerado ‘exibicionismo’ por parte do relator, que além de di�cultar a compreensão do problema poderá gerar constrangimento no esclarecimento dos fatos. O mesmo cuidado deve ser dado quanto ao uso de acrônimos ou de abreviaturas, que podem não ser do conhecimento dos agentes jurídicos (por exemplo, usar TDAH para Transtorno do Dé�cit de Atenção com Hiperatividade) (HUSS, 2011; LICHTENBERGER et al., 2004). Outro aspecto a ser considerado diz respeito ao processo judicial propriamente dito, isto é, à dinâmica adversarial, quando o relatório é escrutinado por aquele que não tiver interesse em seus resultados, com o objetivo de desquali�cá-lo. Nesse momento, a presença de baixa qualidade de escrita será motivo para desquali�car ou mesmo embaraçar seu relator (MELTON et al., 1997). Por �m, chamamos a atenção, ainda, quanto aos riscos na forma de o perito apresentar seus argumentos. Segundo Cruz (2005, p. 275), quatro problemas deveriam ser evitados nessa questão. Primeiro, o psicólogo não pode emitir juízo de valor, usando expressões do tipo “personalidade fraca” ou “bom temperamento”. Segundo, deve evitar a expressão de “dogmas”, como “apesar de instável, acreditamos em seu pleno restabelecimento”. Terceiro, deve cuidar com incorreções teóricas e técnicas, como o uso de expressões do tipo: “falta maturidade” ou “não dispõe de recursos intelectuais”. Por �m, deve evitar impropriedade na escrita e no uso de termos, como a expressão “seu desempenho na avaliação foi muito razoável”. Princípios técnicos de estruturação dos documentos Os principais documentos técnicos utilizados no contexto forense, seja na área cível ou na criminal, são o laudo por parte do perito e o parecer crítico por parte do assistente técnico. Em função de esses documentos apresentarem �nalidades diferenciadas, apresentarão estrutura própria compatível com sua especi�cidade técnica. Ambos os documentos estão previstos na Resolução 07/2003 (CFP, 2003), que trata do Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo Psicólogo, ainda que ali não sejam abordados quanto ao seu uso no contexto forense. Assim, nesta seção discorre-se sobre as orientações gerais do Conselho Federal de Psicologia quanto à estrutura desses documentos, relacionando-as com o campo atual do conhecimento cientí�co e buscando complementá-las com outras informações necessárias para sua adaptação ao contexto legal. Os documentos laudo e parecer serão discutidos separadamente. 1. Laudo Psicológico A literatura que aborda propostas sobre a estrutura do Laudo Psicológico forense tem enfatizado a importância de se evitar a busca de uma estrutura única e in�exível de laudo, que teria apenas a função de reforçar uma postura dogmática e mecanicista de seu relator (BIRCZ- MINIAN, 2001). O mais importante seria compreender a �nalidade e os limites éticos do documento proposto para, então, de�nir os conteúdos mínimos que deveriam estar presentes, de modo a garantir a qualidade técnica. De maneira geral, o laudo deveria ser compreensível para uma audiência leiga, incluindo os dados mais relevantes para a questão legal, com suas respectivas fontes de informação (PACKER; GRISSO, 2011). Para Karson e Nadkarni (2013), o laudo forense é um documento de comunicação sobrecomportamentos de pessoas especí�cas para um tipo especí�co de audiência. Em outras palavras, o laudo deve ser entendido como um estudo de caso, em que se conta ‘uma história’ de um sujeito, fundamentada em fatos e com a proposta de responder a uma questão referencial (demanda legal). O relator deve incluir em seu relatório apenas dados convincentes e que possuam con�abilidade, sobre os quais construirá sua análise e fundamentará suas opiniões. Cuidados devem ser tomados tanto frente a possíveis vieses de interpretação do relator quanto do leitor do documento. Para aquele que escreve o laudo é fundamental considerar todas as interpretações possíveis dos dados levantados, e também as limitações surgidas pela falta de outros que não se conseguiu obter, seja porque não faziam parte do escopo da avaliação ou porque não estavam disponíveis ao perito. Para o leitor, é fundamental que a escrita do laudo seja feita de tal forma concisa, objetiva e fundamentada que não permita a ele a liberdade de escolha frente aos dados apresentados, de modo a fazer sua própria interpretação. É necessário que o relator seja preciso em suas informações, expondo suas ideias sem deixar dúvidas ou margens para interpretação. Na de�nição dos dados que devem compor o documento, Packer e Grisso (2011) concordam com a maioria dos autores de que o psicólogo forense não pode informar mais do que é necessário para responder à questão legal que lhe é formulada, mas também não pode informar menos do que o necessário, de modo a deixar suas conclusões sem justi�cativas. Assim, a boa prática exige que o relatório �nal inicie com uma apresentação dos dados colhidos (aqui denominados dados brutos), para, a seguir, acrescentar-se a seção das inferências teóricas e das interpretações do examinador – quando não poderiam ser discutidos dados que não constassem da apresentação inicial. Quanto ao volume de dados que devem compor o relatório, o posicionamento dos autores nem sempre é consensual. Para Melton et al. (1997), existem diversas escolas de pensamento sobre a extensão de um relatório forense. De um lado, estariam aqueles que propõem a realização de relatórios muito curtos, com o objetivo de evitar o fornecimento de informações que pudessem ser manipuladas pelos advogados. O problema, nesses casos, é que esse tipo de documento não atenderia às exigências mínimas de um relatório que se propõe a ser uma prova técnica, no qual as conclusões devem ser devidamente fundamentadas. De outro lado, teríamos aqueles estudiosos que advogam a realização de documentos extensos, em que todos os dados obtidos deveriam ser relatados. O resultado, em tais casos, é de se incluírem informações não relevantes, redundantes ou até equivocadas, prejudicando a compreensão do leitor. A regra para de�nir qual dado deve integrar o relatório está baseada no conceito de pertinência. Decidir sobre o que é importante para a questão legal que deu origem ao relatório é uma das habilidades fundamentais que distingue o trabalho do psicólogo forense dos demais técnicos que possam vir a prestar depoimentos. Cabe ao perito psicólogo ter a competência necessária para traduzir as demandas jurídicas em teorias, construtos e comportamentos possíveis de serem observados e que possuam relevância para a melhor compreensão da questão legal (PACKER; GRISSO, 2011). Os dados que fundamentarão as conclusões do relatório devem estar presentes no documento, de modo a justi�car o posicionamento técnico, sempre com a identi�cação de sua fonte de origem, possibilitando ao leitor o conhecimento de onde foram obtidos. A tomada de decisão sobre o que deve ser relatado no laudo também envolve alguns questionamentos éticos. Ainda que o trabalho pericial não pressuponha a garantia do sigilo às informações obtidas, cabe ao perito psicólogo questionar-se se as informações que serão prestadas são realmente necessárias. Nesse sentido, Karson e Nadkarni (2013) estabeleceram algumas perguntas que o pro�ssional deveria fazer a si mesmo para ajudar nessa tomada de decisão. São elas: a) há razões para acreditar que tal informação pode embaraçar o periciado ou causar algum viés interpretativo por parte do leitor? b) esta informação é pertinente aos argumentos psicológicos que sustentarão as conclusões? c) os argumentos psicológicos podem ser estabelecidos sem este dado de informação? d) o efeito prejudicial pode ser reduzido ou eliminado se forem esclarecidas as razões de se relatar tal fato, ou os cuidados que o leitor deve ter em sua interpretação? Por �m, ao se decidir pela necessidade da escrita dos dados no laudo, �ca a orientação proposta por Silva (2013) sobre o cuidado ético de se salientar que os resultados descritos são relativos àquele momento do periciado, não podendo ser considerados permanentes ou imutáveis. Na discussão sobre a qualidade dos laudos psicológicos forenses, outra questão importante levantada pela maioria dos autores é o estabelecimento de uma distinção clara no relatório da apresentação dos dados brutos em relação à apresentação das inferências, devendo cada um deles ser tratado preferencialmente em seções diferenciadas. Dados brutos são considerados, aqui, como todo o material clínico de observação direta do sujeito, informações de história e resultados de testagem, enquanto que as inferências são resultados dos construtos teóricos inferidos a partir desses dados e que, posteriormente, justi�carão o posicionamento do técnico frente à questão legal (KARSON; NADKARNI, 2013; MELTON et al., 1997; PACKER; GRISSO, 2011). Para Groth-Marnat (2003), a maioria das críticas aos laudos psicológicos não é direcionada aos dados brutos que os psicólogos levantam em suas avaliações, mas às inferências e generalizações que realizam sobre esses dados. Assim, os técnicos precisam estar preparados para fornecer o nível de segurança de suas informações através dos fundamentos do método cientí�co para pessoas que não têm essa abordagem em seu enfoque de trabalho. Para Karson e Nadkarni (2013), o nível de certeza pode ser comunicado por intermédio de um índice numérico, se ele estiver disponível, ou através de assertivas verbais quando aquele não existir. Essas assertivas devem expressar o grau de coerência e o quanto de sentido que as explicações teóricas possuem para o problema em questão. O psicólogo não deve esquecer que as situações-problema que lhe são trazidas para investigação são, em sua maioria, extremamente complexas, envolvendo a relação de inúmeras variáveis, e o grau de coerência de suas teorias explicativas pode ser acentuado pela limitação dos dados acessados que, se estivessem presentes, poderiam gerar novas dúvidas e inconsistências. Para os autores, expressões do tipo convincente, su�ciente, preponderante, poderia ser ou não há dados su�cientes para corroborar comunicam níveis diferentes de certeza por parte do avaliador. No Brasil, o Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo Psicólogo (CFP, 2003) regulamenta o uso do Laudo Psicológico entre esses pro�ssionais. É importante salientar que essa Resolução proposta pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) é genérica, direcionada a todas as áreas de atuação, exigindo adaptação para atender às exigências especí�cas de cada contexto em que for aplicada. Na Resolução mencionada, o Relatório/Laudo Psicológico é considerado “uma apresentação descritiva acerca de situações e/ou condições psicológicas e suas determinações históricas, sociais, políticas e culturais, pesquisadas no processo de avaliação psicológica”, cujos resultados devem se apresentados à luz de um instrumental técnico, consubstanciado em referencial técnico-�losó�co e cientí�co adotado pelo psicólogo. A sua �nalidade será de “apresentar os procedimentos e conclusões gerados pelo processo de avaliação psicológica”, considerando-se o cuidado na limitação de “fornecer somente as informações necessárias relacionadas à demanda, solicitação ou petição” (CFP, 2003). A estrutura básica proposta para o Relatório/Laudo compõe-se de cinco elementos:1) Identi�cação; 2) Descrição da Demanda; 3) Procedimento; 4) Análise; 5) Conclusão. Exatamente pela falta de especi�cidade da resolução ao contexto forense, a estrutura proposta para o documento exarado pelo perito não dá conta das exigências mínimas já discutidas anteriormente pela literatura sobre o tema, trazendo prejuízos à qualidade do documento que a esta se restringir. Assim, discute-se, a seguir, cada uma das seções propostas para a estrutura de Laudo pelo CFP, com o acréscimo de uma discussão crítica, pertinente e fundamentada para sua adaptação ao contexto legal. Conforme a Resolução 07/2003, CFP, a primeira parte do Relatório/Laudo se constitui na seção Identi�cação e tem como �nalidade a informação de três tópicos: O autor/relator (quem elabora): aqui deverá(ão) ser colocado(s) o(s) nome(s) do(s) psicólogo(s) que realizará(ão) a avaliação, com a(s) respectiva(s) inscrição(ões) no Conselho Regional; O interessado (quem solicita): o psicólogo indicará o nome do autor do pedido (se a solicitação foi da Justiça, se foi de empresas, entidades ou do cliente); O assunto/�nalidade (qual a razão/�nalidade): o psicólogo indicará a razão, o motivo do pedido (se para acompanhamento psicológico, prorrogação de prazo para acompanhamento ou outras razões pertinentes a uma avaliação psicológica). (CFP, 2003). No contexto forense, é de fundamental importância que se incluam, nessa seção, as informações pertinentes ao processo judicial em questão. Assim, devem ser incluídos dados sobre o número do processo, a vara judicial onde ele tramita e o juiz que deferiu a perícia. Também devem ser identi�cados os sujeitos que são parte no processo e foco da avaliação psicológica (autor e réu ou requerente e requerido), geralmente com a presença de um registro de uma carteira de identi�cação com foto. Nessa parte do documento, é usual que o perito se quali�que, indicando, de modo sucinto, seus principais títulos e funções, sem cair em um histórico funcional. No subitem “assunto/�nalidade”, sugere-se colocar o tipo de ação proposta, por exemplo, ‘ação de guarda’, ‘ação de curatela’ etc. (BRANDIMILLER, 1996; SKAF, 1997). A seção seguinte da estrutura proposta pelo CFP é a Descrição da Demanda: Esta parte é destinada à narração das informações referentes à problemática apresentada e dos motivos, razões e expectativas que produziram o pedido do documento. Nesta parte, deve-se apresentar a análise que se faz da demanda de forma a justi�car o procedimento adotado. (CFP, 2003). A adaptação dessa seção ao contexto forense propõe que aqui sejam relatados, de modo resumido, os principais fatos alegados na inicial do processo (BRANDIMILLER, 1996), além de se acrescentar dados novos do andamento processual que são importantes para a de�nição do foco da avaliação (ROVINSKI, 2013). Por exemplo, enquanto o assunto/�nalidade pode ser identi�cado com a expressão ‘Solicitação de guarda e regulamentação de visita’, aqui devem ser descritos os principais fatos que geraram o pedido da perícia no processo, por exemplo: ‘O pai pede a guarda de sua �lha justi�cando atos de negligência e maus tratos por parte da mãe e de seu atual companheiro. Já foi realizado laudo social pelo judiciário, que não encontrou tais evidências, levantando a possibilidade de um processo de alienação parental. Foi solicitada a avaliação psicológica em todos os sujeitos envolvidos’. Como se pode observar, trata-se de uma descrição breve, mas que descreve, em rápido histórico, a dinâmica processual e o foco da perícia. Esse histórico, ainda que baseado nos dados processuais, terá sua síntese feita pelo psicólogo responsável pela avaliação pericial. Grisso (2010), em um trabalho de avaliação da qualidade de laudos psicológicos forenses, encontrou em mais da metade deles problemas na apresentação da solicitação forense, com descrições inapropriadas ou pouco claras quanto ao objetivo. Para o autor, esse tipo de erro pode estar relacionado às di�culdades do psicólogo em assumir seu papel na área forense, com consequentes repercussões éticas para o documento. Conforme Bush, Connell e Denney (2006), a de�nição clara das demandas da solicitação judicial será determinante para de�nir a atividade do psicólogo no processo de avaliação, estabelecendo a natureza das informações que serão coletadas e a extensão dessa coleta quanto ao que deve ser mantido con�dencial ou não. São limitações que devem ser esclarecidas com o sujeito da avaliação antes de se iniciar o processo. A terceira seção da estrutura proposta denomina-se Procedimento e se constitui nos seguintes elementos: A descrição do procedimento apresentará os recursos e instrumentos técnicos utilizados para coletar as informações (número de encontros, pessoas ouvidas etc.) à luz do referencial teórico-�losó�co que os embasa. O procedimento adotado deve ser pertinente para avaliar a complexidade do que está sendo demandado. (CFP, 2003). Mais do que em qualquer outra área pro�ssional, a descrição detalhada dos procedimentos utilizados na avaliação adquire fundamental importância para a quali�cação do laudo. Todas as técnicas e métodos utilizados devem ser especi�cados e as entrevistas identi�cadas com suas respectivas datas de realização. Para Packer e Grisso (2011), esse item corresponde à identi�cação das fontes de informação. E nesse sentido todas as fontes devem ser identi�cadas, mesmo quando se referirem a terceiros, como contatos com escola, clínicas de saúde etc. Os autores também salientam a importância de referir as fontes que não foram obtidas quando se buscou entrevistar um sujeito e esse se negou a comparecer ou estava impossibilitado por força maior. Por exemplo, nos casos em que se investigam situações de abuso intrafamiliar é de fundamental importância distinguir quando o perito não buscou o contato com o suposto abusador (que seria uma má prática de perícia) ou quando o abusador negou-se a comparecer ao chamado. Para os autores, a informação do não comparecimento demonstraria que o perito não negligenciou essa informação. Em relação à expressão ‘à luz do referencial teórico-�losó�co que os embasa’, deve-se acrescentar, nessa seção, os aspectos referenciais que nortearam a prática ética e metodológica da perícia. A apresentação não deve ser extensa demais, de modo a perder-se o objeto de estudo, com valorização excessiva das questões teóricas em detrimento do sujeito que está sendo investigado. A seguir, um exemplo de como apresentar o referencial ético e metodológico, considerando tratar-se de um caso em que o foco da perícia dizia respeito à investigação de possível ocorrência de abuso sexual contra criança, em situação de litígio familiar: Procedimentos éticos e referencial teórico: Os procedimentos éticos utilizados para a presente avaliação seguiram a normativa do Conselho Federal de Psicologia (CFP), mais especi�camente a Resolução 08/2010, que estabelece os procedimentos técnicos e éticos do perito em processos judiciais. Seguindo as orientações, os periciados foram informados do objetivo da perícia e dos procedimentos que seriam utilizados durante o processo de avaliação, incluindo o nível de sigilo dos dados colhidos. O referencial teórico diz respeito a duas áreas de conhecimento. Primeiro, foram considerados os procedimentos técnicos preconizados pelo Conselho Federal de Psicologia para avaliações de guarda (Referências técnicas para atuação do Psicólogo em Varas de Família, 2010)¹, em que todos envolvidos na denúncia de violação de direitos da criança devem ser ouvidos; segundo, foi considerada a literatura sobre avaliação forense em suspeita de abuso sexual, considerando a atual metodologia de investigação quando tal denúncia ocorrer em meio a litígio conjugal². Nota de rodapé: ¹CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação do psicólogo em Varas de Família. Brasília: CFP, 2010. ²KUEHNLE, K.; CONNELL, M. The evaluation of child sexual abuse allegations. New Jersey: Wiley and Sons, 2009. A seção seguinte proposta pelo CFP é a Análise, assimdescrita na Resolução: É a parte do documento na qual o psicólogo faz uma exposição descritiva de forma metódica, objetiva e �el dos dados colhidos e das situações vividas relacionados à demanda em sua complexidade. Como apresentado nos princípios técnicos, ‘o processo de avaliação psicológica deve considerar que os objetos deste procedimento (as questões de ordem psicológica) têm determinações históricas, sociais, econômicas e políticas, sendo as mesmas elementos constitutivos no processo de subjetivação. O DOCUMENTO, portanto, deve considerar a natureza dinâmica, não de�nitiva e não cristalizada do seu objeto de estudo’. (CFP, 2003). Essa é a parte mais importante, básica e essencial do laudo, é aquela que tem como função reproduzir �el, metódica e objetivamente tudo o que for observado pelo perito, mediante exposição minuciosa dos exames e técnicas empregados. Deve-se considerar que se trata de um exame realizado em um corte no tempo, cuja descrição constitui-se matéria de fato, resultando do que pode ser efetivamente observado. A descrição deve ser completa, minuciosa, metódica e objetiva, descartando o terreno das hipóteses, servindo de base para todas as conclusões que virão a ser apresentadas no laudo (SKAF, 1997). A proposta do CFP nessa seção, no entanto, deixa de contemplar uma das exigências mais importantes para a quali�cação dos laudos no contexto forense: a discriminação entre os dados brutos e as inferências sobre esses dados. Conforme já foi salientado neste capítulo, é fundamental que os dados colhidos nas diferentes fontes de informação sejam apresentados em seção diferenciada daquela que vai tratar sobre a compreensão teórica que os integre (KARSON; NADKARNI, 2013; MELTON et al., 1997; PACKER; GRISSO, 2011). Assim, procurando manter a estrutura básica orientada pelo CFP, propõe-se que a seção Análise seja subdividida em duas grandes áreas de apresentação: 1) Apresentação dos dados colhidos e 2) Discussão dos dados apresentados (ROVINSKI, 2013). A apresentação dos dados colhidos diz respeito a tudo o que foi levantado nas diversas fontes de informação e que terá relevância para a questão legal. Devem ser todos e apenas aqueles dados que virão a subsidiar as premissas psicológicas (construtos teóricos), que, por sua vez, fundamentarão as conclusões técnicas do perito. Considerando-se a multiplicidade de fontes de informação necessárias à boa qualidade da perícia, e a consequente quantidade de dados a serem relatados no laudo forense, propõe-se a organizar ‘Apresentação dos dados colhidos’ em subseções que contemplem: a) dados de história (ou anamnese), b) descrição de conduta durante o processo de avaliação, c) análise de funções psíquicas e/ou sintomatologia clínica (opcional conforme o caso em questão) e d) apresentação dos resultados de testagem, restringindo-se esses últimos a uma apresentação dos achados, deixando para a subseção seguinte a discussão das hipóteses que deles são geradas (ROVINSKI, 2013). Em relação à coleta de dados de história, essa corresponde à denominada anamnese da entrevista clínica e refere-se a dados anteriores aos motivos imediatos da ação proposta. Essa parte das informações deve ser creditada ao periciado, não se devendo imputar ao perito nenhuma responsabilidade sobre seu conteúdo. Apesar da possibilidade de inverdades nesse relato, ao periciado cabe o direito de relatar sua versão dos fatos. No histórico, o perito deve realizar a descrição dos fatos de modo mais simples e objetivo possível, sem a preocupação de comprometer-se com a sua veracidade, ou de agradar ou desagradar a quem quer que seja (SKAF, 1997). No caso de perícias que envolvam mais de um periciado, por exemplo, nas dinâmicas familiares, os dados de história devem ser apresentados imputando a cada um as informações obtidas. O mesmo deve ser respeitado quanto à apresentação de dados colhidos com terceiros (parentes ou não) (ROVINSKI, 2013). Na segunda parte da área de apresentação dos dados colhidos, voltada para o que foi observado pelo perito, sugere-se iniciar com uma descrição da conduta do periciado, sendo imprescindível comentar sobre seu nível de cooperação – pois, se for negativo, pode vir a comprometer todos os dados que vierem a ser descritos. Deve-se, também, apreciar a aparência física e o tipo de vinculação ao entrevistador. Essa observação inicial pode evoluir para uma apresentação mais sistemática quanto a um exame do estado mental, em que, de maneira sucinta, o perito descreve os principais achados relacionados a cada uma das funções psíquicas. Por �m, deve apresentar os resultados da testagem aplicada, os quais devem privilegiar a apresentação dos indicadores de cada um dos testes separadamente. Se esses testes apresentarem resultados normativos padronizados, por exemplo, em termos de percentis, estes devem ser associados aos resultados brutos e à classi�cação �nal. É importante que seja explicitada a tabela que foi utilizada, com o tipo de grupo que serviu para normatizá-la. No caso de instrumentos projetivos, deve-se ter o cuidado de não expor o teste demasiadamente quanto à forma como os indicadores foram levantados, mas deve-se procurar apresentá-los da maneira mais descritiva possível. Salienta-se o cuidado em não torná-los simples cópia de características descritas no manual. Deve haver uma integração lógica que permita compreender os achados como representativos de um sujeito. Mesmo os achados que possam aparentemente se apresentar contraditórios, conforme explicitado por Ackerman (1999), devem ser referidos, sob pena de o psicólogo incorrer em conduta antiética na criação de um viés interpretativo (ROVINSKI, 2013). A segunda parte da seção análise compreenderá a ‘Discussão dos dados apresentados’. Aqui, o objetivo será discutir as várias hipóteses que poderão surgir a partir das informações levantadas previamente. Conforme Skaf (1997), nessa fase serão abordadas as hipóteses existentes, afastando-se, ao máximo, as conjecturas pessoais, podendo- se citar autoridades recomendadas sobre o assunto. É o momento de realizar um diagnóstico lógico sobre a situação-problema a partir de justi�cativas racionais. É a discussão que, mediante sua lógica e clareza, pode assegurar a correta dedução das conclusões. Essa parte do laudo pode conter citações e transcrições, e serve para avaliar o nível cultural e cientí�co do relator. Para Packer e Grisso (2011), aqui se apresenta o maior desa�o ao trabalho técnico pericial, quando devem ser construídas as implicações para a matéria legal. A apresentação dessas inferências deve estar baseada claramente na fonte de dados, especialmente quando se encontram dados con�itivos ou contraditórios, justi�cando explicações alternativas ou diferentes valorizações das fontes de informação. Retornando à estrutura de laudo proposta pelo CFP, segue-se para a última seção — a Conclusão do documento: Na Conclusão o psicólogo vai expor o resultado e/ou considerações a respeito de sua investigação a partir das referências que subsidiaram o trabalho. As considerações geradas pelo processo de avaliação psicológica devem transmitir ao solicitante a análise da demanda em sua complexidade e do processo de avaliação psicológica como um todo. Vale ressaltar a importância de sugestões e projetos de trabalho que contemplem a complexidade das variáveis envolvidas durante o processo. (CFP, 2003). Cabe lembrar que, no contexto forense, a conclusão precisa estar relacionada à demanda judicial que originou o pedido da perícia. Ao psicólogo cabe desenvolver a destreza de, sem adentrar no julgamento que cabe ao agente jurídico, ser capaz de posicionar-se em relação aos próprios achados psicológicos que possuem relevância à questão legal. Para Karson e Nadkarni (2013), a questão legal encontra-se fora das questões técnicas sobre as quais o psicólogo pode se posicionar, pois se trata de política social, e não de ciência. É importante distinguir entre a última questão legal da penúltima questão, que seria o posicionamento técnico do perito. Ao psicólogocaberia, no máximo, explicar os comportamentos e as implicações legais dessa explicação. O último aspecto a ser revisto quanto à estrutura de Laudo proposta pelo CFP é que a resposta de quesitos faz parte desse documento, e não como proposto ao Parecer Psicológico. Na área forense, quando houver quesitos formulados pela parte ou pelo próprio juízo, o psicólogo perito deve respondê-los, após sua conclusão, de modo sintético e convincente, a�rmando ou negando, não deixando nenhum sem resposta. Se não houver dados para a resposta dos quesitos, ou quando o especialista não puder ser categórico, deve utilizar a expressão: ‘sem elementos de convicção’. Quando houver quesitos mal formulados, esses também devem ser respondidos, utilizando-se expressões do tipo ‘prejudicado’, ‘sem elementos’ ou ‘aguarda evolução’ (ROVINSKI, 2013). Para facilitar a compreensão das mudanças que se está propondo para a estrutura de Laudo Psicológico Forense, partindo-se da proposta do CFP, apresenta-se, a seguir, um quadro resumido com as duas estruturas: a original do CFP e aquela que se desenvolveu a partir de uma fundamentação teórico-crítica: Modelo proposto pelo CFP Modelo adaptado do CFP Identi�cação Descrição da Demanda Procedimento Análise Conclusão Identi�cação Descrição da Demanda Procedimento Análise 1. Apresentação dos dados 2. Discussão dos dados apresentados Conclusão Resposta aos quesitos Ao término, o relatório deve ser datado e assinado pelo perito, de preferência rubricando as páginas anteriores. Deverá ser entregue em duas vias ao cartório, que devolverá uma delas com a data do recebimento. No momento da entrega do laudo sugere-se que seja anexado, de modo simultâneo, o ofício informando o término do processo e solicitação de liberação dos honorários, se esses foram depositados em juízo (ROVINSKI, 2013). 2. Parecer Psicológico As orientações técnicas e éticas para a realização do laudo devem ser também mantidas para o relatório do assistente técnico (SILVA, 2013). Como já foi dito anteriormente, o relatório do assistente técnico é denominado Parecer Técnico e tem por �nalidade fazer um comentário crítico ao laudo do perito o�cial. Brandimiller (1996) diz que o Parecer Técnico é um trabalho feito a posteriori ao laudo, concordando ou divergindo das conclusões nele contidas, sempre com seu posicionamento fundamentado. A estrutura desse parecer seria menos rígida à proposta ao laudo do perito e se constituiria basicamente de três elementos: Introdução, Crítica ao Laudo e Conclusão. Na estrutura proposta pelo CFP (2003), o Parecer Psicológico apresenta-se constituído por quatro seções: 1) Identi�cação; 2) Exposição de Motivos; 3) Análise e 4) Conclusão. Da mesma forma, como foi discutido em relação ao Laudo do perito, a estrutura proposta para o documento Parecer Psicológico será apresentada neste capítulo de modo crítico, a �m de contemplar as exigências do contexto forense. Na primeira seção, intitulada Identi�cação, a Resolução 07/2003 propõe que seja informado o “nome do parecerista e sua titulação, o nome do autor da solicitação e sua titulação”. Quando esse parecer é realizado como crítica a um laudo forense, devem ser acrescentados os dados do processo em questão: número, vara de origem, tipo de demanda e partes envolvidas. Na segunda seção, que trata da Exposição dos Motivos, há a seguinte orientação: Destina-se à transcrição do objetivo da consulta e dos quesitos ou à apresentação das dúvidas levantadas pelo solicitante. Deve-se apresentar a questão em tese, não sendo necessária, portanto, a descrição detalhada dos procedimentos, como os dados colhidos ou o nome dos envolvidos. (CFP, 2003). No contexto forense, cabe acrescentar, nessa seção, uma síntese do laudo pericial que será objeto de estudo, iniciando com o resumo dos principais procedimentos periciais adotados, os resultados e o entendimento que o perito teve deles para a questão legal. Essa apresentação deve ser resumida, referindo-se apenas ao essencial, de modo a contextualizar o trabalho de crítica do assistente técnico (BRANDIMILLER, 1996). Na seção seguinte, a Análise é apresentada na resolução da seguinte forma: A discussão do parecer psicológico se constitui na análise minuciosa da questão explanada e argumentada com base nos fundamentos necessários existentes, seja na ética, na técnica ou no corpo conceitual da ciência psicológica. Nesta parte, deve respeitar as normas de referências de trabalhos cientí�cos para suas citações e informações. (CFP, 2003). A proposta do Manual é que o Parecer Psicológico seja focado nos aspectos técnicos da questão psicológica. Esse tipo de documento se mostra totalmente compatível com o objetivo do trabalho do assistente técnico, como aquele pro�ssional capacitado para questionar tecnicamente os achados e as conclusões descritas no laudo do perito (Art. 8º, Resolução 08/2010, CFP). Conforme sugestão de Brandimiller (1996), a apresentação das divergências e sua discussão deveriam ser apresentadas em tópicos, preferencialmente com subtítulos, para facilitar a compreensão das críticas feitas. Ao �nalizar a apresentação detalhada da análise crítica do documento, o assistente técnico deve encerrá-la com uma Conclusão, da mesma forma como é orientado pela Resolução do CFP, quando diz que “o psicólogo apresentará seu posicionamento, respondendo à questão levantada”. No contexto forense, esse posicionamento será decorrente das críticas ao laudo, quando se poderá sugerir, se for o caso, a anulação do laudo ou questionar aspectos particulares com formulação de “quesitos complementares”. Em seguida, deve informar o local e data em que foi elaborado o parecer e assinar o documento. O parecer do assistente técnico é entregue à parte contratante ou ao advogado da parte, que terá a liberdade de anexá-lo ou não ao processo judicial em questão (SILVA, 2013). Por �m, deve-se fazer uma reti�cação importante quanto às seções que compõem a estrutura do Parecer Psicológico, conforme proposto pelo Conselho Federal de Psicologia. A Resolução 07/2003 prevê nesse documento uma última seção intitulada Resposta aos Quesitos. No contexto forense, essa seção não possui sentido, pois, na dinâmica processual judicial é o assistente técnico quem formula os quesitos ao perito, cabendo ao último respondê-los, consequentemente, fazendo parte do documento Laudo. Assim, a estrutura do parecer no contexto forense não inclui resposta a quesitos. Referências ACKERMAN, M. J. Essentials of forensic psychological assessment. Toronto: Wiley & Sons, 1999. BIRCZ-MINIAN, L. N. 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ALBORNOZ, 2000 Em um grande número de processos judiciais das varas e tribunais do trabalho, tem sido solicitada a atuação do perito psicólogo. Geralmente, nos casos em que há possibilidade de danos morais e/ou psicológicos, a avaliação psicológica é um meio de averiguação que traz elementos muito importantes para o entendimento dos casos, como veracidade, nexo de causalidade, intensidade e extensão do dano. No entanto, essas avaliações não são fáceis de serem realizadas pela natureza litigiosa e pelos ganhos secundários que se têm com o processo. Alguns dos motivos de processos oriundos do âmbito trabalhista são: dano moral ou psicológico decorrente de acidente de trabalho e outros transtornos mentais e comportamentais (TMC) relacionados ao trabalho, como depressão, transtorno de estresse pós-traumático, estresse ocupacional, Síndrome de Burnout, além de situações como assédio sexual e assédio moral. Dessa forma, o psicólogo, que pode atuar tanto como perito o�cial, nomeado pelo juiz, como assistente técnico de uma das partes (conforme Resolução 08/2010 do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2010), que diferencia as duas atuações), deve ter conhecimento aprofundado sobre psicopatologia, psicologia clínica, psicologia do trabalho e utilizar técnicas de entrevista e de diagnóstico adequadas. Assim, o trabalho pericial envolve, principalmente, veri�car se o motivo da queixa procede ou não; avaliar se há situação de simulação; diferenciar queixas reais de características de personalidade; fazer diagnóstico e diagnóstico diferencial (se possível) e estabelecer a ligação entre o dano causado e a ação praticada pelo empregador. Nos processos advindos das varas e tribunais do trabalho, sempre estarão implicadas relações de trabalho entre o empregado e o empregador. O Direito do Trabalho surge, então, para regulamentar a autonomia dos contratantes, estabelecendo limites, parâmetros e regras para seu exercício (MALLET, 2003). Assim, o Direito do Trabalho funciona como um instrumento doutrinário humanista, na medida em que frisa por uma qualidade mínima de vida humana, capaz de contribuir para a melhoria da convivência entre as pessoas (ALVARENGA, 2005). A Justiça do Trabalho no Brasil é constituída por três órgãos: Varas do Trabalho, Tribunal Regional do Trabalho (TRT) e Tribunal Superior do Trabalho (TST). As Varas do Trabalho são os órgãos de base da Justiça do Trabalho, compostas por juízes singulares. Em linhas gerais, as Varas do Trabalho julgam apenas dissídios individuais. Sua jurisdição é local, abrangendo um ou alguns municípios. Os TRTs, em regra, julgam recursos ordinários de decisões de Varas do Trabalho e ações ordinárias (dissídios coletivos cuja extensão da lide não ultrapasse sua esfera de jurisdição, mandados de segurança, ações rescisórias de decisões suas ou das Varas do Trabalho etc.). O TST é órgão de jurisdição nacional, sua principal função é uniformizar a jurisprudência trabalhista. É um tribunal que julga recursos vindos dos TRTs (SOUSA; CARNEIRO, 2010). A principal norma legislativa brasileira referente ao Direito do Trabalho e ao Direito Processual do Trabalho é a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT ). “Esta Consolidação estatui as normas que regulam as relações individuais e coletivas de trabalho, nela previstas” (BRASIL, 1943). Contudo, não é necessário que a norma pertença ao campo do Direito do Trabalho para ser aplicada na Justiça do Trabalho. A indenização por dano moral, por exemplo, que é uma ação tipicamente civil, se decorre da relação de emprego, há de ser julgada pela Justiça do Trabalho (SOUSA; CARNEIRO, 2010). No Código Civil Brasileiro, con�gura-se o capítulo ‘Dos Direitos da Personalidade’. Personalidade são os direitos reconhecidos à pessoa humana tomada em si mesma e em suas projeções na sociedade, previstos no ordenamento jurídico exatamente para a defesa de valores inatos no homem, como a vida, a higidez física, a intimidade, a honra, a intelectualidade e outros tantos. Esses direitos são classi�cados como: Físicos: a vida, a integridade física, o corpo e as partes do corpo, a imagem e a voz; Psíquicos: liberdade, integridade psíquica, a intimidade e o segredo; Morais: a identidade, a honra e suas criações intelectuais (BITTAR, 1999). Assim, nas perícias, estaremos lidando basicamente com os direitos psíquicos. Quando ocorre a subtração ou diminuição de um desses bens jurídicos protegidos, qualquer que seja sua natureza, quer se trate de um bem patrimonial, quer se trate de um bem integrante da própria personalidade da vítima, caracteriza-se o dano. O dano moral ou psíquico só pode ser reputado caso a dor, o vexame, o sofrimento e a humilhação, fugindo à normalidade, inter�ram intensamente no comportamento psicológico do indivíduo, causando-lhe a�ição, angústia e desequilíbrio em seu bem-estar. Mero aborrecimento, mágoa, irritação ou sensibilidade exacerbada estão fora dessa órbita (SEVERO, 1996). A insatisfação no trabalho produz um sofrimento cujo ponto de impacto é, antes de tudo, mental e pode levar a uma doença somática (DEJOURS, 1988). Somatização é a manifestação de um conjunto de alterações físico-químicas, desencadeadas pelo cérebro. Caso a situação enfrentada mobilize uma alteração de intensidade muito forte ou se sua frequência for muito alta, o sistema imunológico é enfraquecido. Alterações do humor, apetite e libido também são causadas por essas mudanças hormonais (TUNES; BECCARI, 1993). Os fatores que contribuem para o per�l de adoecimento dos trabalhadores, conforme Mendes e Dias (apud JACQUES, 2007), são: doenças comuns sem qualquer relação com o trabalho, doenças comuns modi�cadas no aumento da frequência ou na precocidade de manifestação em decorrênciado trabalho, doenças comuns nas quais se somam ou se multiplicam condições provocadoras ou desencadeadoras em decorrência do trabalho e os agravos especí�cos tipi�cados pelos acidentes de trabalho e doenças pro�ssionais. Dessa maneira, o dano psicológico pode ser identi�cado pela presença de alterações: do comportamento (sono, alimentação, concentração, irritação); das competências cognitivas ou relacionais; do grau de autonomia do sujeito; na diminuição da autoestima, no grau de insegurança e motivação com a presença de estresse prolongado; na qualidade de vida e na reatividade �siológica. Portanto, é necessário demonstrar incapacidade ou prejuízo no desempenho da pessoa, que não havia antes (CRUZ; MACIEL, 2005). Ou seja, o dano existe quando o evento desencadeante gerou efeitos traumatizantes na organização psíquica ou no repertório de comportamentos da vítima, trazendo alterações tais que modi�quem sua vida de relação nos aspectos familiar, social, interpessoal e/ou laboral (EVANGELISTA; MENEZES, 2000). Quando comprovado o dano, o mesmo é indenizável, mas, para tanto, é imprescindível a ocorrência de diminuição ou destruição de um bem jurídico, patrimonial ou moral, pertencente a uma pessoa, pois a lesão de dano pressupõe o lesado. Esse requer legitimidade, ou seja, a reparação só pode ser pleiteada pelo titular do direito atingido. Também é necessária a efetividade ou certeza do dano, pois a lesão não poderá ser hipotética ou conjectural e deve con�gurar a subsistência do dano no momento da reclamação do lesado. Requer, ainda, a relação entre a falta e o prejuízo causado e ausência de causas excludentes de responsabilidade (DINIZ, 1997). Embora a indenização não reponha a perda ou desfaça o sofrimento suscitado no trabalho, ela objetiva restabelecer o equilíbrio jurídico violado, tentando conduzir a pessoa lesada a uma situação mais próxima possível à anterior do fato gerador da queixa. Em alguns casos, quando demonstrada a relevância, o juiz pode autorizar a tutela antecipada. É concedido ao lesado um provimento imediato para que ele possa �nanciar tratamentos necessários para a redução de seus sintomas e sofrimento, ainda durante o andamento do processo, que será pago pelo empregador. Dessa forma, essa pode ser uma sugestão ou solicitação do psicólogo após a avaliação do periciado, mostrando a necessidade premente de tratamento. Como o psicólogo contribui nos processos trabalhistas? O perito psicólogo sempre irá atuar numa situação de litígio e, portanto, deve também estar atento aos interesses secundários envolvidos no processo. Dessa forma e, principalmente, se a atuação se dá na �gura de assistente técnico, ou seja, se o psicólogo é contratado por uma das partes, deve �car claro ao contratante e ao representante legal dele (advogado) que o trabalho irá respeitar a ética pro�ssional. Utilizando os instrumentos e técnicas da Psicologia, o assistente técnico irá realizar seu trabalho pautado no Código de Ética da Psicologia, não tendo o compromisso de concordar com a posição do contratante, mas sim com o convencimento sustentado pelo seu trabalho. Quem deve defender o contratante é seu advogado, e não o psicólogo. Ao psicólogo cabe auxiliar a parte no processo a partir de seu conhecimento técnico e dentro de seus limites pro�ssionais e éticos. O assistente técnico pode ajudar com conhecimentos teóricos sobre o tema a ser julgado para embasar a inicial do processo, avaliar o reclamante (quando assistente dessa parte) e produzir um parecer técnico para ser anexado ao processo, elaborar rol de quesitos e quesitos complementares. O psicólogo pode atuar como perito o�cial, nomeado pelo juiz, e, dessa forma, apresentar, por intermédio de laudo, um entendimento da situação no que diz respeito às questões psicológicas destacadas no processo em questão. Geralmente, os objetivos dizem respeito a: avaliar se há ou não dano; oferecer ao juiz elementos que o ajudem a con�rmar ou refutar os motivos da queixa; auxiliar na averiguação do nexo causal entre o fato ocorrido e a queixa do reclamante e avaliar a extensão do dano causado. Essas questões podem estar explícitas por meio de um rol de quesitos – perguntas objetivas que podem ser produzidas pelas partes ou pelo próprio juiz e que devem, obrigatoriamente, ser respondidas pelo perito. Caso não haja esse rol, as questões referentes à avaliação precisam ser deduzidas na leitura dos autos. Os documentos produzidos tanto pelo psicólogo assistente técnico como pelo psicólogo perito o�cial devem seguir as orientações da Resolução 07/2003 do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2003), que institui o Manual de Elaboração de Documentos Escritos decorrentes da Avaliação Psicológica. A perícia, segundo Cruz e Maciel (2005), é um meio de demonstrar evidências de danos relacionados às condições de trabalho, dado que a perícia é uma prova técnica legal e moralmente produzida. Assim, oferece aos juristas inúmeras oportunidades de se amparar nos conhecimentos da Psicologia, munindo-os de subsídios nas decisões e resoluções das medidas legais, dado o valor do laudo ou parecer para matérias do campo do comportamento humano (EVANGELISTA, 2000). No entanto, quem determina as provas a serem produzidas é o juiz, considerado o ônus probatório de cada litigante, podendo limitar ou excluir as que considerar excessivas ou impertinentes, bem como apreciá-las e dar especial valor, conforme Art. 852-D disposto na CLT (BRASIL, 2000). Assim, quando a prova do fato o exigir, ou for legalmente imposta, será deferida prova técnica, incumbindo ao juiz �xar o prazo, o objeto da perícia e nomear o perito. Em geral, o prazo �xado pelo juiz varia em torno de 20 a 30 dias, devendo o perito cumpri-lo a contar da data da primeira entrevista com o periciado. Quando o tempo é insu�ciente para �nalizar o laudo, o perito deve fazer uma petição solicitando a ampliação do prazo, justi�cando o pedido. A petição pode ser deferida ou não pelo juiz. Outra situação que pode ocorrer é que a prova pericial judicial não seja necessária caso as partes, na inicial ou na defesa, apresentem parecer técnico sobre a matéria, considerado su�ciente pelo juiz (SOUSA; CARNEIRO, 2010). A responsabilidade pelo pagamento dos honorários periciais é da parte sucumbente, salvo se bene�ciária da Justiça Gratuita, tendo, nesse caso, o perito direito ao ressarcimento pela União pelos gastos eventualmente efetuados. Já o assistente técnico é remunerado pela parte contratante. O que avaliar? Diferentemente de outros tipos de avaliações que se centram quase que exclusivamente na pessoa a ser avaliada, a perícia na área do trabalho deve considerar também o contexto pro�ssional. Aspectos como ambiente laboral, modos reguladores, clima organizacional, relacionamento de colegas nas diferentes hierarquias, exposição a riscos, entre outros que evidenciem qualquer ligação com o fato analisado, são indispensáveis para a compreensão do caso. Assim, é possível veri�car se existe ligação entre o dano e a ação praticada pelo empregador. Dessa forma, também é essencial a avaliação do requerente, pois o dano deve estar presente no momento da perícia. Constatar se o periciado apresenta os sintomas reclamados, diferenciar queixas reais de características de personalidade, fazer diagnóstico e diagnóstico diferencial (se possível), identi�car mudanças ocorridas após o episódio descrito como gerador do dano auxiliam a examinar se o motivo da queixa procede ou não. Portanto, a avaliação preconiza o nexo de causalidade entre as condições de trabalho (exigências, cargas, riscos) e o comprometimento nos processos psicológicos (alterações perceptivas, cognitivas e afetivas) (CRUZ; MACIEL, 2005). Ou seja, necessariamente deve haver relação causal entre as duas instâncias. Na avaliação do nexo causal, é necessário conduzir uma anamnese ocupacional a �m de veri�car o papel do trabalho como fator determinante do adoecimento mental ou fator desencadeante a partir de uma estrutura pré-existente (JACQUES, 2007). Como os transtornosmentais têm uma etiologia multicausal, é importante entender como os fatores relacionados ao trabalho e à história de vida do periciado interagem e contribuem para o adoecimento, seja no desencadeamento da psicopatologia ou no seu agravamento. Em alguns casos, pode haver situações concorrentes para o desenvolvimento da doença, como, por exemplo: na época em que o periciado começou a apresentar os sintomas/queixas, foi precedido de um evento traumático no trabalho – assalto à mão armada na loja em que labuta e um evento pessoal traumático (doença cardíaca da �lha que foi hospitalizada). Ambas as experiências podem, concomitantemente, ter contribuído para o quadro patológico desencadeado. Também pode haver doenças pré-existentes que precisam ser consideradas, pois podem justi�car as queixas do autor do processo, sem, no entanto, estarem relacionadas ao trabalho. Como, por exemplo, uma pessoa com personalidade paranoide que se percebe vítima de perseguição no trabalho, mas realisticamente essa relação persecutória não ocorre. Essa avaliação pode ser realizada por meio da história pregressa e familiar do periciado e análise e observação do local de trabalho. Muitas vezes, essa diferenciação é complexa e difícil de ser efetuada, pois mesmo que a pessoa tenha uma psicopatologia pré- existente, isso não invalida o fato dela também poder ter passado por eventos estressantes no trabalho. Portanto, não existe uma relação linear entre o evento e a patologia, mas uma probabilidade de ocorrência (MULLER; CRUZ, 2014). Determinadas doenças mentais tornam a pessoa mais vulnerável a situações estressantes no trabalho, bem como algumas atividades laborais são mais propensas a ensejar distúrbios psicológicos. Além das causas, a dimensão do prejuízo psicológico também é variável. Pode ser graduada como leve, que implica alterações reativas na dinâmica de personalidade ou na vida social, sexual, afetivo- emocional e pro�ssional, requerendo tratamento breve e focal. A grave, que corresponde ao aparecimento, em alguns casos, de episódio depressivo grave com sintomas psicóticos (alucinações, ideias delirantes, lentidão psicomotora) e pode evoluir para estupor. O comprometimento pode ser tão sério que todas as atividades sociais normais se tornam inoperantes, podendo existir risco de suicídio (EVANGELISTA; MENEZES, 2000). A extensão do dano também deve ser atestada, segundo Cruz e Maciel (2005), quanto à transitoriedade ou à permanência dos transtornos mentais diagnosticados, referindo as possibilidades desses transtornos passarem a ser crônicos ou permanentes. Conforme Barros e Teixeira (2015), a incapacidade não decorre da mera presença de um transtorno mental, assim sua determinação tem de levar em conta, sobretudo, a tarefa desempenhada e os impactos da doença sobre ela. Dessa forma, cabe ao perito determinar o grau, a duração e a abrangência de tal impossibilidade. Alguns motivos de processos vindos do âmbito trabalhista para Perícia Psicológica Existem alguns motivos mais comuns pelos quais os empregados entram com processos judiciais contra seus empregadores. Segundo Vieira (2009, p. 160), “o trabalho não é apenas um ‘contexto’ da atividade ou ‘trabalho psíquico’, ele convoca a totalidade do indivíduo e implica relações efetivas capazes de afetar sensivelmente a saúde física e mental”. Dano Moral ou Psicológico decorrente de acidente de trabalho Acidente é conceituado como o acontecimento que determina, fortuitamente, dano que poderá ser à coisa, material, ou à pessoa (AFFONSO, 2000). Acidente do trabalho, descrito na Lei 8.213/91, Art. 19 (BRASIL, 1991): [...] é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa ou pelo exercício do trabalho dos segurados, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou a redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. O Art. 20 da mesma Lei equipara doenças pro�ssionais e do trabalho ao acidente do trabalho. A�onso (2000) refere, ainda, que as moléstias geradas pelo trabalho são divididas em dois grupos: doenças pro�ssionais típicas ou tecnopatias, que são consequência natural de certas pro�ssões desenvolvidas em condições insalubres e que, normalmente, são relacionadas pelo próprio legislador. Existem ainda as doenças pro�ssionais atípicas, ditas mesopatias, que não são peculiares a determinados tipos de trabalho, mas que o operário vem a contrair por fato eventualmente ocorrido no desempenho da atividade laboral. Nas doenças atípicas, inexiste qualquer presunção, cabendo, por isso, à vítima, o ônus de provar que a enfermidade teve causa em evento provocado pelo desempenho do contrato de trabalho. Nesse sentido, a perícia judicial contribuirá como um meio de prova para o deslinde do caso. Geralmente quando a pessoa chega para a avaliação psicológica alegando vitimização laboral com consequente lesão física/orgânica já existe uma avaliação médica prévia (realizada por perito médico especialista na área da lesão apresentada pelo periciado) e compete ao perito psicólogo avaliar a relação entre as consequências do acidente e a existência de sofrimento emocional. Mesmo que a doença apresentada pelo periciado seja típica, como as Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (LER/DORT), a avaliação psicológica fornecerá dados sobre as consequências da doença na vida emocional, relacional, comportamental e laboral da pessoa, veri�cando se acarretou o desenvolvimento de algum transtorno mental e comportamental (TMC). LER/DORT compõem um grupo de entidades nosológicas relacionadas à sobrecarga funcional do sistema músculo-ligamentar, principalmente dos membros superiores com intenso sofrimento psíquico (LIMA; LIMA; SILVA, 2013) e correspondem de 80 a 90% dos casos de doenças pro�ssionais registrados na Previdência Social (ECHEVERRIA; PEREIRA, 2007). Além da doença pro�ssional ocasionada pelo tipo de atividade laboral desenvolvida, como LER/DORT, existem outras maneiras do acidente de trabalho ocorrer, como: quando o colaborador estiver prestando serviço para a empresa dentro ou fora do estabelecimento do trabalho; viajando a serviço pela empresa; no trajeto entre a empresa e a residência do colaborador e vice-versa; e doença ocasionada pela condição do trabalho (LASMAR; MEJIA, 2012). Portanto, questões objetivas de como ocorreu o acidente, conduta do empregador, emissão ou não do Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT) à Previdência Social, condições de trabalho, disponibilização de equipamentos de proteção individual (EPI) por parte da empresa, e uso por parte do empregado, rotina das atividades trabalhistas, alterações na rotina, assim como questões subjetivas, como sintomas físicos e emocionais, situação emocional e comportamental antes e depois do acidente, devem fazer parte do rol a ser avaliado pelo psicólogo. Quando o desfecho do acidente de trabalho resulta na morte do trabalhador, está disposto no Art. 12 que trata dos direitos da personalidade no Código Civil Brasileiro, em seu Parágrafo único, que terá legitimação para requerer a medida o cônjuge sobrevivente ou qualquer parente em linha reta ou colateral até o quarto grau (MALLET, 2003). Nesses casos, o trabalho do psicólogo também pode ser diligenciado para avaliar os danos psicológicos gerados nos familiares da vítima de acidente de trabalho em razão da morte deste. Estresse Ocupacional, Transtorno de Estresse Pós-Traumático e Síndrome de Burnout Algumas doenças como o Estresse Ocupacional e a Síndrome de Burnout são diretamente ligadas ao labor, ou seja, o nexo causal é evidente. No entanto, na investigação, sempre será importante considerar outros aspectos da vida do sujeito além do ambiente de trabalho. O Estresse Ocupacional provém de um desequilíbrio entre o trabalho e o trabalhador. Condições insalubres de trabalho, carga excessiva, exigências acentuadas, acabam por ensejar sofrimento emocional. Como consequência, há o desencadeamento de reações �siológicas, comportamentais e psicológicas,tais como: cefaleias, insônia, di�culdade de concentração, irritabilidade, redução na produtividade, desordens emocionais, desregulações hormonais, gastrite, entre outros sintomas. Quando o Estresse Ocupacional não é tratado, pode evoluir para a Síndrome de Burnout, que se caracteriza pelo esgotamento físico e mental. É um processo complexo com múltiplas causas, entre elas: aborrecimento e estresse, crise no desenvolvimento da carreira pro�ssional e poucas condições econômicas, sobrecarga de trabalho e falta de estímulo, pouca orientação pro�ssional e isolamento (THOMAÉ et al., 2006). Portanto, os agentes estressores são elementos que interferem no equilíbrio homeostático do organismo com as demandas que ele sofre. Assim, o Burnout é uma resposta do organismo a esse estresse crônico e tem sempre um caráter negativo – distresse, também conhecido como Síndrome do Esgotamento Pro�ssional (CAMARGO, 2007). A Síndrome de Burnout é considerada uma doença ocupacional que está prevista no Decreto 3.048/1999 (BRASIL, 1999), em seu inciso XII, o qual cuida e regulamenta a Previdência Social. Em relação ao diagnóstico, é classi�cada como problema que leva ao contato com serviços de saúde (CID-10 Z73.0). Essa Síndrome é um processo em que a exaustão emocional é a dimensão precursora da síndrome, sendo seguida por despersonalização e, por �m, pelo sentimento de diminuição da realização pessoal no trabalho, segundo o modelo teórico desenvolvido por Maslach (CARLOTTO; PALAZZO, 2006). A exaustão emocional é caracterizada por um sentimento de tensão emocional que produz uma sensação de esgotamento, de falta de energia e de recursos emocionais para lidar com as rotinas da prática pro�ssional. A despersonalização é o resultado do desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas, por vezes a pessoa afetada pode assumir uma postura indiferente e cínica em relação a outras pessoas, principalmente no contato pro�ssional. A falta de realização pessoal no trabalho caracteriza-se como uma tendência que afeta as habilidades interpessoais relacionadas com a prática pro�ssional, interferindo diretamente na forma de atendimento e contato com as pessoas usuárias do trabalho e com a organização (MASLACH, 1998). Já o Estresse Pós-Traumático se caracteriza por alguma situação ocorrida no trabalho que tenha desencadeado tal transtorno. Os sintomas são os descritos nos manuais DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014) e CID-10 (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 1993) e decorrentes de eventos altamente mobilizadores ao empregado que aconteceram durante sua jornada de trabalho. Algumas circunstâncias podem circundar acidentes que tenham colocado a pessoa em situação de risco de vida ou lesão grave ou, ainda, ter presenciado algum colega nessa posição. Assalto à mão armada, acidente automobilístico grave, perda de membros em máquinas, podem ser alguns exemplos. Assédio Sexual no trabalho O Assédio Sexual se caracteriza por constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual no trabalho, utilizando-se do privilégio hierárquico. Existem dois tipos, sendo o primeiro por chantagem: sob ameaça de perda de benefício ou ganho de benefício; e o segundo por intimação: intuito de prejudicar a atuação ou de criar situação hostil de intimidação (MELO, 2007). O Assédio Sexual por Chantagem, que se constitui por abuso de autoridade, é a forma tratada pelo direito nos tribunais. Já o Assédio Sexual por Intimidação ocorre mais comumente entre colegas de nível hierárquico semelhante. Desde maio de 2001, a legislação passou a tratar o assédio sexual como crime, sob a Lei 10.224/2001, Art. 216-A do Código Penal (BRASIL, 2001), que tipi�ca: “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função. Pena – detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos.” Portanto, pode haver a responsabilização tanto civil quanto criminal. De acordo com Girão (2004), os agressores estão presentes em todas as esferas sociais, são majoritariamente do sexo masculino e têm uma posição mais machista. Frequentemente responsabilizam a vítima pela agressão praticada por eles e pensam que as mulheres gostam desse tipo de abordagem ou violação. Para a vítima, como consequência, denota-se a raiva, o desgosto, o constrangimento, o nervosismo, a humilhação e a vergonha (LIBBUS; BOWMAN, 1994) e podem resultar, ainda, em sequelas psicológicas, como tristeza, baixa autoestima, desmotivação e insegurança. Nos casos de assédio sexual, cabe ao querelante o ônus da prova da ocorrência do fato. Como a existência de provas físicas das situações ocorridas é muito difícil, geralmente nos tribunais, leva-se bastante em consideração o depoimento dos envolvidos. Dessa maneira, a avaliação psicológica, tanto da vítima como do agressor podem constituir uma fonte profícua de informações. Assédio Moral O estudioso sueco Leymann (1996, p. 165) introduziu o termo mobbing na década de 80 no contexto ocupacional como uma forma de violência psicológica e o descreveu como: [...] o fenômeno em que uma pessoa ou grupo de pessoas exerce violência psicológica extrema, de forma sistemática e recorrente, ao menos uma vez por semana, e durante no mínimo seis meses, sobre outra pessoa ou grupo de pessoas no local de trabalho, com o objetivo de destruir sua rede de comunicações, sua reputação, seu exercício pro�ssional e conseguir que �nalmente essa(s) pessoa(s) acabe(m) se demitindo. Outros autores são menos categóricos em relação ao tempo ou periodicidade da conduta abusiva. Além de mobbing, essas condutas também receberam outras nomenclaturas, tais como: Assédio Moral, Bullying no trabalho, psicoterror e terror pro�ssional, que são usados como sinônimos. As ações mais incisivas do agressor incluem recusa da comunicação direta, omitindo informações ou negando esclarecimentos, desquali�cação de atitudes ou serviços, descrédito em opiniões ou escolhas, isolamento, indução ao erro e, até mesmo, o assédio sexual (PIÑUEL; ZABALA, 2003). Para que a conduta degradante e humilhante se caracterize como Assédio Moral, não pode se apresentar como fato isolado. O comportamento abusivo direcionado contra o assediado - e que visa desestabilizá-lo - deve ser praticado de forma reiterada, sistemática e com certa frequência (ALKIMIN, 2005). Humilhações eventuais seguidas de desculpas não caracterizam o fenômeno, mas sim a sequência acumulativa e repetida de forma isolada é que constitui Assédio Moral (TROMBETA; ZANELLI, 2010). A relação de desigualdade de poder é uma das características do Assédio Moral. Supervisores descritos como tendo altos níveis de neuroticismo e de exposição ao estresse, bem como baixa afabilidade e alta introversão, são mais referidos pelos subordinados expostos ao bullying no trabalho (MATTHIESEN; EINARSEN; MYKLETUN, 2011). No entanto, apesar das relações hierárquicas verticais descendentes serem mais comuns para a ocorrência de mobbing (HIRIGOYEN, 2001; PEDRO et al., 2007), a exposição também pode estar presente nas relações hierárquicas horizontais e verticais ascendentes. Isso decorre do con�ito de papéis e da ambiguidade de papéis como antecedentes mais signi�cativamente relacionados com Assédio Moral (NOTELAERS; DE WITTE; EINARSEN, 2010). Tipos e traços de personalidade também podem interferir nas respostas de assédio. (JIMÉNEZ et al., 2007; MIKKELSEN; EINARSEN, 2001). Faz-se necessário considerar ainda o motivo da avaliação. Além das características subjetivas intervenientes, podem estar presentes aspectos conscientes, como intencionalidade e simulação. Segundo Rovinski e Stein (2009), a simulação ou dissimulação não se referem à possibilidade de resistência no relato das informações por con�itos inconscientes, mas a atuações premeditadas de distorção e omissão. Isso ocorre quando a pessoa avaliada visa um benefício ou ganho secundário. Por vezes, o empregado representa judicialmente contra a empresa após a demissão,como maneira de vingar-se e diminuir sentimentos negativos provenientes da própria demissão considerada injusta ou de mágoas angariadas nos últimos tempos de trabalho. Portanto, torna-se apropriado, para uma boa avaliação, que os dados sejam triangulados com outras fontes de informação (GIL-MONTE; CARRETERO; LUCIANO, 2006; MIKKELSEN; EINARSEN, 2001; MUÑOZ et al., 2006; PEDRO et al., 2007; PEDRO et al., 2008; TOPA; MORIANO; MORALES, 2009). Os dados podem ser obtidos por meio da opinião de colegas de trabalho, supervisores e das pessoas que são apontadas como assediadoras (PEDRO et al., 2007). Dessa forma, se constituiria uma base de informação mais con�ável. O Assédio Moral se con�gura como um problema prevalente no mundo do trabalho tendo consequências devastadoras para as vítimas e organizações (CHRIST, 2011). Produz uma deterioração na saúde que pode levar ao adoecimento, à incapacidade da vítima e ao fracasso de seu enfrentamento, levando a um transtorno próprio do estresse (IZQUIERDO et al., 2006). Existem algumas medidas utilizadas pelos agressores além da ameaça do desemprego, descritas por Freitas (2001). A primeira delas seria a de recusar a comunicação direta, isto é, o agressor evita o con�ito aberto e restringe as agressões, ainda que diárias, a atitudes e a momentos de desmerecimentos. Uma segunda estratégia utilizada seria a de desquali�car a vítima. Essa estratégia, assim como a primeira, não é uma agressão aberta que permite a réplica ou o revide, ela é praticada de maneira subjacente, sutil e não verbal. Muitas vezes, a desquali�cação surge na forma de olhar o outro, não cumprimentá-lo, falar da pessoa como se referisse a um objeto, trocar o nome e falar mal para uma terceira pessoa na frente da vítima. A terceira estratégia envolve desacreditar o agredido, existindo um esforço para ridicularizar o outro, humilhá-lo e cobri-lo de sarcasmo até fazê-lo perder a con�ança em si. Outra estratégia comumente utilizada, e sendo a quarta delas na referida enumeração, é de isolar a vítima, quebrar todas as alianças possíveis. Isso desestabiliza a vítima. Uma quinta ação seria a de vexar ou constranger a vítima. Podemos identi�car essa ação quando são dadas tarefas inúteis e degradantes a um funcionário. Muitas vezes são �xados objetivos inatingíveis, ou são solicitados trabalhos extras ou noturnos sem o devido reconhecimento. A sexta estratégia seria a de criar situações para o outro cometer uma falha. Dessa forma, poder desquali�car a vítima para em seguida criticá- la e justi�car seu rebaixamento. Por último, envolve o assédio sexual, que, de acordo com a tipologia de Freitas (2001), pode ser considerado como uma forma de assédio moral. Considerações �nais A perícia psicológica no âmbito do trabalho tem sido cada vez mais solicitada em processos dessa área, portanto é um campo de atuação em expansão. O psicólogo deve ter conhecimento aprofundado sobre os temas tratados nesse cenário e técnicas adequadas para a realização ética de sua atividade. As causas trabalhistas requerem do perito, em termos gerais, averiguar a existência ou não de doença, determinar qual é a doença, estabelecer nexo de causalidade com o trabalho e avaliar se há dano e sua extensão. O psicólogo pode atuar como assistente técnico assim como perito o�cial. Resumidamente, ele fará uma avalição pessoal do periciado considerando os aspectos relativos ao trabalho e à relação entre ambos. Visitas ao local de trabalho podem ser realizadas, mas não há obrigatoriedade. Dessa avaliação resultará o informe escrito em formato de laudo ou parecer que deve retratar a compreensão do caso, respondendo aos quesitos estabelecidos. O objetivo �nal, mais do que atestar se há doença e qual, é esclarecer quais as consequências do quadro especí�co no contexto próprio daquela pessoa (BARROS; TEIXEIRA, 2015). Assim, os dados devem �car claros no informe escrito, tendo o cuidado de utilizar termos que sejam compreensíveis aos pro�ssionais que não sejam técnicos da área da psicologia ou psiquiatria que terão acesso ao laudo ou parecer. Considera-se o fator emocional como sendo subjetivo, di�cilmente mensurável e desprovido de importância. Portanto, legitimar os aspectos psicológicos, além dos danos físicos do acidentado nas perícias judiciais, é no mínimo comprometer-se com o respeito, a proteção e a promoção dos direitos humanos, consolidando em parte a justiça social, sem a qual a dignidade da pessoa não se realiza por completo. (EVANGELISTA; MENEZES, 2000, p. 45). Referências AFFONSO, C. M. J. Acidentes de trabalho. Jus Navigandi, Teresina, v. 5, n. 45. 2000. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/1211>. Acesso em: 08 nov. 2014. ALBORNOZ, S. O que é trabalho. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 2000. ALKIMIN, M. A. Assédio moral na relação de emprego. Curitiba: Juruá, 2005. ALVARENGA, R. Z. O princípio jurídico constitucional fundamental da dignidade humana no direito do trabalho. Consultoria Trabalhista, n. 33, p. 302-307. 2005. AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. BARROS, D. M.; TEIXEIRA, E. H. 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CAPÍTULO 4 RELACIONAMENTO PARENTAL EM SITUAÇÕES DE DISPUTA DE GUARDA: O QUE AVALIAR? Vivian de Medeiros Lago Denise Ruschel Bandeira Introdução Em situações de divórcio tem se revelado frequente a solicitação de avaliações a pro�ssionais da área da saúde mental, com a �nalidade de fazer recomendações sobre a guarda dos �lhos. Nesses casos, psicólogos, assistentes sociais e psiquiatras contribuem com seu conhecimento na avaliação do nível de con�ito parental, das relações pais-�lhos, do funcionamento parental e das necessidades desenvolvimentais, sociais, emocionais e educacionais dos �lhos (SAINI, 2008). Estudos apontam que os juízes seguem as recomendações dos pro�ssionais de saúde mental em mais de 90% dos casos (ASH; GUYER, 1986; BAERGER et al., 2002; CAPLAN; WILSON, 1990; JOHNSTON, 1994). Tal fato reforça a importância do papel do avaliador e de suas consequentes recomendações. O processo de avaliação em situação de disputa de guarda é bastante desa�ador, pois pode envolver alegações de abuso físico, sexual e emocional, violência doméstica, abuso de substâncias, doenças mentais e situações de alienação parental (MASON; QUIRK, 1997). Além de um conhecimento acerca desses temas, é importante que o pro�ssional que realiza avaliações para a área forense possa estar preparado para ter sua credibilidade contestada pelas partes no processo e pelos operadores do Direito. Portanto, sempre que possível, é importante apresentar fundamentações teóricas e empíricas em seus documentos (BOW; QUINNELL, 2001). O padrão legal dominante atualmente para a determinação da guarda de �lhos é o do melhor interesse da criança. Contudo, não existe uma de�nição precisa do que vem a ser esse melhor interesse. Hall, Pulver e Cooley (1996) analisaram diferentes estatutos americanos relacionados à concessão da guarda e observaram que os critérios mais comumente utilizados incluem o desejo da criança, a interação observada, o relacionamento da criança com pais e outras partes e a história de abuso infantil. A Associação Americana de Psicologia estabeleceu diretrizes para as avaliações de guarda dos �lhos,entre as quais estão capacidade de paternagem, necessidades psicológicas e desenvolvimentais da criança e a adequação entre essas necessidades dos �lhos e as capacidades dos genitores (AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION, 1994). A legislação brasileira, em seu Art. 1.583 do Código Civil, faz referência à necessidade do genitor guardião estar apto a propiciar aos �lhos afeto, saúde, segurança e educação (BRASIL, 2002). O tema da guarda dos �lhos é complexo e provavelmente uma das avaliações forenses mais difíceis de serem realizadas devido ao conhecimento exigido, pois o avaliador deve ser especialista em saúde mental adulta, psicopatologia da infância, desenvolvimento infantil e práticas de paternagem (HUSS, 2011). Os dados da pesquisa realizada no Brasil por Lago e Bandeira (2008) apontaram como questão norteadora para uma recomendação de guarda o relacionamento parental, construto que abarca as áreas mencionadas por Huss (2011). Assim sendo, o presente capítulo justi�ca-se pela necessidade de buscar diretrizes para de�nir o relacionamento pais-�lhos. Seu objetivo é, portanto, levantar as dimensões do relacionamento parental avaliadas em situações de determinação de guarda a partir de uma integração dos resultados de um estudo teórico e um estudo empírico sobre o tema. Estudo Teórico Foi realizada uma revisão de literatura acerca dos temas divόrcio, guarda dos �lhos e relação pais-�lhos. Por meio da análise de artigos cientí�cos atuais e relacionados a esses temas, buscou-se identi�car os aspectos do relacionamento parental que teóricos e pesquisadores consideram relevantes no processo de determinação de guarda de uma criança ou adolescente. Um dos primeiros aspectos que devem ser investigados é o histórico familiar pré-separação, conforme apontado por Whiteside e Becker (2000), que destacam também a avaliação do nível de envolvimento do genitor com a criança. Os autores esclarecem ainda que envolvimento se refere aos tipos e às quantidades de atividades que o genitor desenvolvia com seu �lho. Essa busca de informações por atividades das quais os genitores participavam no período anterior à separação permite evidenciar e comparar o grau de envolvimento na relação parental antes e após a separação conjugal. Há casos em que os pais passam a envolver-se efetivamente na vida dos �lhos somente após o divórcio, ao passo que enquanto residiam juntos sua participação era reduzida. O estudo de Grzybowski e Wagner (2010) revela que as avaliações de pais e mães sobre o exercício da parentalidade pós-divórcio apresentam uma mescla de aspectos positivos e negativos. Entre os pontos positivos, os genitores destacam melhoras no papel parental, uma vez que tentam aproveitar ao máximo o tempo que dispõem para o �lho, esforçando-se para serem melhores pais e mães. Em situações de disputa de guarda, é importante avaliar o engajamento de cada genitor na vida do �lho no período anterior à separação, buscando entender as reais motivações para �car com a guarda. É pouco comum que genitores que, enquanto casados, envolviam-se pouco nas atividades diárias dos �lhos, queiram, após a separação, ter para si a guarda deles. Considerando ainda a importância de analisar o histórico familiar pré-separação, vários estudos discutem a in�uência do con�ito interparental na adaptação dos �lhos no período pós-divórcio (KUSHNER, 2009; LANSFORD, 2009; PRUETT; EBLING; INSABELLA, 2004; SANDLER et al., 2008). Altos níveis de con�ito interparental in�uenciam de forma contínua o ajuste de crianças e adolescentes (DAVIES; CUMMINGS, 1994; GRYCH; FINCHAM, 1990). No estudo de Pruett, Ebling e Insabella (2004), problemas somáticos e relacionados ao sono, assim como problemas de comportamento nos �lhos apresentaram-se correlacionados a um maior nível de con�ito interparental. É esperado que o nível de con�ito entre os ex-cônjuges seja reduzido após o divórcio, proporcionando bem-estar a todos os membros da família. Entretanto, em muitos casos, o con�ito interparental persiste ou até mesmo se agrava com a separação conjugal, o que traz implicações para os �lhos, que permanecem vivenciando a situação con�itiva. Outro aspecto importante de ser avaliado no relacionamento parental é o estado emocional dos genitores (KUSHNER, 2009; LANSFORD, 2009; TRINDER; KELLET; SWIFT, 2008; WHITESIDE; BECKER, 2000). O con�ito conjugal e o processo de divórcio aumentam a depressão, a ansiedade e o estresse dos genitores, o que prejudica suas habilidades de maternagem/paternagem, afetando diretamente a adaptação dos �lhos (LANSFORD, 2009; WHITESIDE; BECKER, 2000). Estudos apontam que conviver com genitores psicologicamente saudáveis é um fator de proteção para os �lhos de pais divorciados (EMERY et al., 1999; HETHERINGTON, 1999). A parentalidade inclui práticas parentais (WHITESIDE; BECKER, 2000), orientação (BAILEY, 2003; SCHWARTZ; FINLEY, 2009; TRINDER; KELLET; SWIFT, 2008; WHITESIDE; BECKER, 2000), disciplina (BAILEY, 2003; LANSFORD, 2009; SANDLER et al., 2008; SCHWARTZ; FINLEY, 2009; TRINDER; KELLET; SWIFT, 2008; WHITESIDE; BECKER, 2000) e tomada de decisão conjunta em relação à vida dos �lhos (TRINDER; KELLET; SWIFT, 2008; WHITESIDE; BECKER, 2000). A ruptura das práticas parentais pode ocorrer após o divórcio, trazendo di�culdades de monitoramento e supervisão efetivos dos pais em relação aos �lhos. Oferecer uma disciplina consistente, em conjunto com afeto, é um desa�o para os pais recém-separados (LANSFORD, 2009). O estudo de Schwartz e Finley (2005) aponta que as funções de disciplina, proteção e monitoramento das tarefas escolares são mais afetadas pelo divórcio do que as funções facilitadoras do desenvolvimento emocional, como o companheirismo e o compartilhar atividades. Isso porque as primeiras são atividades que não podem ser desempenhadas ‘de fora de casa’, isto é, pelo genitor não residente. A tomada de decisão conjunta sobre a vida dos �lhos é uma tarefa que exige �exibilidade e cooperação dos genitores. É importante que pro�ssionais possam auxiliar as famílias, de forma que os pais mantenham o foco nas necessidades de seus �lhos, fortalecendo assim sua capacidade parental. Os sentimentos e as di�culdades que os �lhos estejam sentindo devem ser discutidos pelos pais, a �m de que possam em conjunto buscar maneiras de amenizar esse sofrimento (TRINDER; KELLET; SWIFT, 2008). É preciso, ainda, considerar as necessidades de desenvolvimento dos �lhos. Nesse sentido, é importante avaliar a participação em atividades diárias, envolvimento em atividades escolares, desenvolvimento da autonomia, consistência parental, suporte �nanceiro e lazer. A participação dos genitores no dia a dia dos �lhos é essencial para o desenvolvimento de habilidades adaptativas ao mundo externo (PRUETT; EBLING; INSABELLA, 2004). Essa participação é especialmente afetada para os genitores não residentes, que têm sua relação com o �lho continuamente interrompida, já que as visitas não costumam ocorrer diariamente. Isso faz com que a relação pais-�lhos necessite ser reestabelecida a cada novo contato, o que pode prejudicar o estabelecimento da consistência parental (BAILEY, 2003). Schwartz e Finley (2009) apontam a função parental de lazer como uma das áreas em que os participantes (estudantes universitários) gostariam que seus pais tivessem tido maior envolvimento. Os autores associam esse desejo ao excesso de tempo que os pais passam no trabalho, considerando a realidade do estudo norte-americano. O mesmo estudo revelou ainda que o sustento �nanceiro é associado mais à função paterna nos primeiros anos do divórcio. Por outro lado, à medida que os anos passam, é esperado que as mães apresentem uma contribuição �nanceira maior. Essa maior contribuição pode ocorrer pelo fato de que, à medida que os �lhos crescem, as mães ingressam ou retornam ao mercado de trabalho. Uma síntese dos resultados obtidos por meio da revisão de literatura permite identi�car a importância de avaliar o histórico pré-separação, investigando questões da relação conjugal e do envolvimentoparental no período anterior ao divórcio, de forma a examinar como o genitor se relacionava com o �lho quando ainda casado, e as in�uências de con�itos maritais nessa relação. Responsabilidades e/ou características especí�cas dos genitores, como o estado emocional, são outro aspecto importante a ser considerado no construto relacionamento pais-�lhos. Afeto, cuidados básicos, orientação, disciplina e coparentalidade são atributos que os genitores devem possuir e/ou oferecer a seus �lhos. Questões importantes do desenvolvimento cognitivo, emocional e social dos �lhos, que devem ser atendidas pelos genitores, integram igualmente essa avaliação. Estudo Empírico Uma vez tecidas considerações sobre o que a teoria apresenta sobre o tema relacionamento parental, é importante confrontar teoria e prática, isto é, procurar conhecer o que as pessoas diretamente envolvidas com essa temática pensam sobre o assunto. É necessário investigar a opinião dos próprios pais e �lhos, buscando em seus relatos e experiências pessoais características que corroborem e/ou acrescentem os pressupostos abordados pela teoria. Da mesma forma, justi�ca-se a importância de levantar opiniões pro�ssionais sobre o assunto, considerando-se o contexto de disputa de guarda. Por isso, destacam-se aqui os psicólogos e os operadores do Direito que atuam na área da família, pois trabalham diretamente nesse contexto. Assim sendo, apresentaremos, a partir de agora, os resultados de estudo empírico realizado com genitores, crianças, psicólogos e operadores do Direito. Dentre os genitores (G) entrevistados, cinco mães e cinco pais, quatro eram separados e os demais casados. Os participantes crianças (C) foram três meninos e três meninas, com idades entre 7 e 12 anos, sendo três �lhas de pais separados, duas que foram criadas pelo padrasto e não conhecem o pai biológico e uma �lha de pais casados. Foram entrevistados, ainda, seis psicólogos (P) terapeutas de família e um juiz de Direito, uma promotora de justiça e uma advogada de família – operadores do Direito (OD). Os participantes responderam a entrevistas semiestruturadas, com perguntas diferenciadas conforme a categoria de respondentes, todas contendo em média dez questões. As entrevistas aplicadas aos psicólogos englobavam questões referentes à de�nição de relacionamento pais-�lhos e à forma de avaliá-lo. Para genitores e crianças, foram feitas questões referentes às atividades que realizam juntos, aspectos positivos e aspectos negativos do relacionamento pais- �lhos. Para os operadores do Direito, as questões buscaram de�nir aspectos relevantes que devem constar em laudos de avaliações psicológicas que os auxiliem a de�nir quem �cará com a guarda dos �lhos. Do total de 25 participantes do estudo, sete preferiram responder às questões por escrito e enviá-las por e-mail. Os demais foram entrevistados pessoalmente. As entrevistas foram gravadas em áudio e transcritas posteriormente. Foram realizadas análises de conteúdo (BARDIN, 1979) das respostas de todas as categorias de participantes. Inicialmente, as respostas de cada conjunto de respondentes foram agrupadas. A partir de cada agrupamento, emergiram os aspectos mais importantes que constituem o relacionamento parental, os quais deram origem às categorias que serão descritas abaixo. A análise de conteúdo das respostas dos genitores permitiu identi�car seis principais aspectos do relacionamento parental. As categorias emergidas a partir da análise são descritas a seguir e exempli�cadas por algumas respostas dos participantes. 1. Rotina. Descrita pelos participantes como convivência familiar, abrangendo a participação em atividades diárias como rotina escolar, refeições e cuidados de higiene. As atividades de lazer e a energia dispensada para acompanhar as atividades dos �lhos também foram incluídas. Procuro conviver com a minha �lha, conversamos diariamente, escutamos músicas juntas, levo e busco na escola, fazemos refeições juntas, participo das atividades que a escola convida os pais, viajamos juntas. (G1). 2. Comunicação. Todos os participantes citaram a importância do diálogo entre pais e �lhos, juntamente com o respeito e a con�ança. O brincar foi interpretado como uma forma de comunicação, considerando-se especialmente aqueles que têm �lhos menores. A comunicação entre os genitores, estando eles casados ou separados, também foi mencionada pelos participantes como in�uência direta no relacionamento pais-�lhos. Pais que se relacionam bem, ou não discordam em relação à educação dos �lhos, proporcionam segurança às crianças. Embora eu e o pai da minha �lha não estejamos mais juntos, procuramos sempre nos unir em relação à educação dela. (G2). 3. Necessidades básicas. Optou-se por englobar nessa categoria necessidades de ordem emocional, assim como de ordem social. Os participantes enfatizaram em diferentes respostas a importância da presença de amor, carinho, atenção, segurança, con�ança, sinceridade, amizade e transparência. Um ambiente harmonioso e bem estruturado também foi mencionado como uma necessidade fundamental para um desenvolvimento saudável emocional da criança. Acredito que o fundamental é nunca esquecer de deixar claro para seu �lho todos os dias o quanto ele é importante e o quanto você o ama. Saber ouvir os �lhos, responder suas dúvidas com prontidão e sinceridade os aproximam de você. (G5). No que diz respeito às necessidades sociais, foram citadas as condições mínimas de moradia e lazer, para garantir um bom desenvolvimento dos �lhos. As necessidades mais importantes para o desenvolvimento saudável dos �lhos são amor, segurança, educação de boa qualidade, um conforto básico de infraestrutura de moradia e lazer (G1). 4. Educação. Essa categoria abrange tanto os aspectos formais da escolarização quanto os aspectos informais. Os participantes referiram a participação em atividades escolares, como auxílio e/ou veri�cação das tarefas escolares e provas, participação em reuniões e eventos oferecidos pela escola. No que diz respeito à educação informal, foi citada a preocupação em transmitir valores que formarão a personalidade dos �lhos. O bem mais precioso que um pai pode transmitir a um �lho é sem dúvida a educação no seu conceito mais abrangente. Não penso somente na educação em sua concepção escolar, mas sim no principal dever dos pais que consiste em repassar aos �lhos os valores que vão nortear a formação do seu caráter. Para tanto é necessário estar presente, dar a devida atenção e participar ao máximo da vida dos �lhos. (G5). 5. Cuidados. Nesse item foram englobados os cuidados com saúde, alimentação, higiene, sono. Alguns pais também citaram a importância de respeitar a autonomia dos �lhos. Eu acho que tem que cuidar higiene, higiene bucal, tomar banho, se organizar... elas são muito bagunceiras, então eu tô sempre em cima delas, cobrando muito delas... sofro muito com isso, mas elas respeitam muito. (G8). As atividades da vida da minha �lha de que eu menos participo são a execução de suas atividades escolares, seus hábitos de higiene e sono, seus gostos na escolha de roupas e acessórios, suas conversas com as amigas. Porque são ações que ensinei desde muito pequena que ela �zesse. Hoje percebo que ela tem autonomia e disciplina para fazer sem a minha participação. (G1). 6. Disciplina. Essa categoria abrange o estabelecimento de limites, estipulação de castigos, controle do uso do computador, cobrança em relação aos deveres escolares, organização do quarto. Também foi citada a questão da hierarquia, apontando a importância dos pais como educadores e modelo para os �lhos. Não abro mão da velha hierarquia familiar onde os pais são a referência da casa. Pais são pais, amigos são amigos e quem educa os �lhos são os pais. (G5). As análises de conteúdo das respostas das crianças permitiram evidenciar quatro categorias do relacionamento parental. São elas: atividades de lazer, cuidados, disciplina e segurança emocional. 1. Atividades de lazer. Atividades como brincar, praticar esportes, assistirtelevisão, jogar videogame e passear no shopping foram descritas como as que as crianças mais gostam de fazer com seus pais. Atividades que envolvem alimentação, como “ir na pizzaria”, “ela me compra pastel”, “fazer comida com ele”, “quando a gente come juntas” também foram referidas como de maior preferência das crianças. 2. Cuidados. As respostas mais frequentes das crianças, quando questionadas sobre o que mais gostam na mãe e no pai, referiram-se à questão dos cuidados, os quais foram entendidos como preocupações em relação à higiene, à alimentação, ao vestuário, à atenção, ao carinho, ao companheirismo, ao auxílio nas atividades da escola. O suporte �nanceiro também foi mencionado por alguns participantes. É preciso tratar com carinho. Quando a gente é pequena, dar banho nos �lhos... não bater nos �lhos quando não é necessário... dar comida pros �lhos e fazer bem pros �lhos. Porque quando vai pra escola, com a roupa toda rasgada, toda suja, tem que ver se a roupa tá rasgada e se a roupa tá limpa... é o que a minha mãe não faz... agora eu tô morando com a minha avó e ela faz isso. (C1). Me dou bem com meu pai porque ele me leva pra passear, porque ele �ca comigo, ele brinca comigo, ele se preocupa comigo, porque ele é legal. (C3). Um bom pai ou uma boa mãe tem que �car em casa. E também trabalhar, pra ganhar dinheiro e comprar coisa pra mim. (C4). 3. Disciplina. Às crianças foi questionado sobre atividades e características nos pais de que elas menos gostavam. A maioria das respostas envolveu questões de disciplina, como organização do quarto e estabelecimento de castigos. Quando o nosso quarto tá bagunçado, ele manda a gente arrumar tudo. Ele pega todas as roupas, bota em cima da cama e faz a gente arrumar tudo. (C1). Às vezes eu �co de castigo porque tiro nota baixa. (C2). 4. Segurança emocional. Outro aspecto relatado pelas crianças como uma queixa em relação aos pais foi a falta de atenção, de diálogo e de paciência. Um participante ressaltou que o que menos gosta na mãe é “quando ela não cumpre o que prometeu”. Minha mãe só �ca deitada mexendo no computador. (C2). Eu me dou mais ou menos com minha mãe, porque eu não converso muito com ela. (C2). O que não é legal no meu pai é que ele grita demais e fala demais da minha mãe. (C3). Para ser um bom pai ou uma boa mãe é preciso que sejam pessoas que cumpram as coisas. Que quando os pais são separados, o pai pague a pensão, que a mãe cuide dos �lhos, que não deixe na casa dos outros, só. (C3). A partir da análise de conteúdo das respostas dos operadores do Direito, foram identi�cados quatro aspectos relevantes do relacionamento parental, considerando-se as situações de disputa de guarda. As respostas dos participantes basearam-se nas informações contidas nos laudos psicológicos que mais contribuem para a tomada de decisão judicial. 1. Histórico do casal. Uma das participantes ressaltou a relevância de investigar a vida conjugal do casal, desde o início do relacionamento, buscando uma compreensão do momento e dos motivos que levaram à ruptura e ao consequente gerenciamento da situação de separação conjugal. Esses dados contribuem para o entendimento da situação con�itiva de disputa vivenciada por meio do processo judicial. Eu acho que é importante que conste: a vida conjugal do casal, anterior à ruptura do relacionamento, o momento da ruptura do relacionamento, como foi, por que foi, quais as causas... (OD1). 2. Rotina. Foi destacada a importância de fornecer dados sobre a rotina dos pais e dos �lhos, antes e após a separação. O objetivo é identi�car a participação e a disponibilidade dos pais para com os cuidados aos �lhos. É importante saber como era o relacionamento com o �lho antes da separação, como era a atenção, o quanto �cava perto, o quanto brincava, conferia os temas de casa, e agora como ele vê o �lho, o quanto e o que ele sente falta, o que ele gostaria de estar fazendo, quais são os medos que ele tem não estando o �lho com ele (com a guarda do �lho). Eu acho que tem que ter a avaliação anterior e a avaliação do momento... com quem a criança era acostumada a conviver antes da separação, com quem ele cresceu/conviveu, de quem ele tem de referência... (OD1). 3. Estado emocional dos genitores. Os participantes referiram que uma das mais importantes contribuições dos laudos psicológicos diz respeito às informações sobre a estrutura emocional dos genitores e sua compatibilidade com o exercício da guarda. São relevantes as informações acerca do vínculo afetivo entre pais e �lhos, o comprometimento e as preocupações daqueles em relação à vida destes, e sua �exibilidade em relação ao outro genitor. O carro chefe das avaliações psicológicas é o vínculo afetivo, é o afeto, esse é o que prepondera... sempre se busca um elo afetivo, se existe, e esse assim também tem o condão de puxar todos os pontos positivos saudáveis, do ponto de vista do interesse da criança. (OD2). Um aspecto relevante para auxiliar o juízo seria: ‘qual dos pais estaria em condições de assegurar à criança o direito de um vínculo regular e saudável com o outro, incentivando a relação parental com o outro?’. (OD3). 4. Motivação para a guarda. Os participantes ressaltaram ainda a motivação que cada um dos genitores e/ou responsáveis apresenta para �car com a guarda da criança. Informações acerca dos motivos e da dinâmica envolvidos no desejo da guarda do �lho. Eu acho que o mais importante é o motivo, por que ele quer a guarda. Aquela grande questão que o pai muitas vezes pede a guarda do �lho porque quer ferir a mãe. Porque normalmente o que é mais importante pra mãe: os �lhos; o que é mais importante pro homem: o patrimônio. Então, ele pede a guarda dos �lhos ‘porque é assim que eu vou me vingar dela’. E, ao contrário, a mesma coisa, ela pede uma pensão elevadíssima, ou ela quer �car com determinado bem que ela sabe que é muito importante pra ele, porque ela quer de alguma forma incomodar. Então, qual é o motivo real pelo qual tu quer a guarda? Qual é tua intenção? O que tu quer dar pro teu �lho que tu quer �car com a guarda? Eu acho que isso é o fundamental. (OD1). A análise das respostas dos psicólogos participantes da pesquisa permitiu identi�car cinco categorias relativas ao relacionamento entre pais e �lhos. Citam-se: estado emocional dos genitores, cuidados, disciplina, comunicação e histórico do casal. 1. Estado emocional dos genitores. Foi destacada a relevância de investigar aspectos emocionais de cada um dos genitores, seu nível de maturidade e de �exibilidade em relação ao ex-parceiro. Essa categoria abrange ainda a qualidade do afeto entre pais e �lhos, a proximidade entre eles e a constância oferecida por cada um dos genitores. Foram destacadas também as necessidades emocionais, como amor, afeto, carinho, cuidado, con�ança e parceria. A capacidade de um pai de manter um relacionamento, um vínculo muito rotineiro, de dar constância, de dar segurança àquela criança. (P5). 2. Cuidados. Os participantes citaram a importância de avaliar a disponibilidade dos pais para com os �lhos. A energia, o tempo e a atenção que colocam à disposição para exercer suas funções parentais. Um participante destacou a importância de avaliar situações de risco (físico, sexual e/ou emocional) em que a criança possa estar envolvida. Essa categoria abrange ainda a rede de apoio com que os pais podem contar para os cuidados do �lho. É uma construção diária que a cada etapa evolutiva vai demandar um tipo de energia tanto dos pais quanto dos �lhos. (P1). 3. Disciplina. Nessa categoria englobam-se o estabelecimento de limites, com ressalva para a de�nição de papéis e consequente hierarquia familiar. Alguns participantes destacaram evidenciar em sua prática clínica a di�culdade de muitos genitores em impor limites e lidar com a questão da autoridade em suas famílias. As práticas educativas foram outro aspecto mencionado pelos psicólogos, considerando relevante investigar, principalmente, as práticas punitivas. Um relacionamento onde existe uma hierarquia,onde os pais devem ter um poder maior que o dos �lhos. E que possa haver um diálogo, respeito das diferenças, uma aceitação entre a individualidade de cada um, podendo ter limites. (P4). 4. Comunicação. Os respondentes apontaram a importância do diálogo e do respeito das diferenças para um desenvolvimento saudável dos �lhos. A relação de apoio, de afeto, de amor, de parceria e de con�ança... E nas outras fases eu acho que está mais presente a parceria, o diálogo, apesar de ter os confrontos. (P2). 5. Histórico do casal. Um dos participantes destacou a importância de investigar o histórico do casal, buscando informações sobre o planejamento e o contexto do nascimento dos �lhos. Da mesma forma, foi apontada a importância de questionar os aspectos transgeracionais da família do pai e da mãe, de forma a entender o papel que esse relacionamento com seus genitores representa na criação de seus �lhos. Acho que é importante ver também aspectos transgeracionais da família do pai e da mãe pra investigar como eles foram criados e, a partir disso, como constroem o modelo pra cuidar da criança. (P6). Uma análise a partir da integração dos dados obtidos por meio das diferentes categorias de participantes permite identi�car que o grupo de participantes dos operadores do Direito apresentou algumas peculiaridades em relação aos demais grupos. Uma categoria que emergiu apenas nesse grupo foi ‘motivação para �car com a guarda’. Os demais participantes não citaram esse aspecto, provavelmente porque as questões de seus instrumentos não enfocaram situações de perícia e disputa de guarda. Da mesma forma, a revisão de literatura buscada não abordou a questão da motivação para a guarda, por se tratar de algo muito especí�co do contexto de disputa de guarda. Ainda em relação aos resultados dos operadores do Direito, chama a atenção que as categorias emergidas enfocam as condições dos genitores, não sendo citada diretamente a criança. Foram destacados o histórico do casal, o envolvimento dos genitores na rotina do �lho, as condições emocionais dos genitores e a motivação para a guarda. Todos são aspectos relevantes, porém observou-se que a opinião e/ou as preferências da criança não foram mencionadas. Considerando-se que a maioria dos �lhos cujos pais disputam sua guarda é de tenra idade, é possível que para os juristas participantes desse estudo o foco da avaliação não deva ser a criança, e sim os genitores. Não é possível generalizar os resultados, mas é curioso observar que ao citarem o que é importante que conste em laudos psicológicos esses pro�ssionais dirigiram suas respostas às características do pai e da mãe, não incluindo necessariamente a criança. Vale apontar que, em termos jurídicos, crianças e adolescentes com idade inferior a 18 anos são considerados incapazes para a vida civil, o que possivelmente explica essa peculiaridade das respostas dos operadores do Direito. Outros resultados permitem evidenciar diferenças entre aspectos de cunho mais pessoal em contrapartida a outros de cunho pro�ssional. As categorias dos genitores e dos �lhos destacaram aspectos como cuidados, disciplina e segurança emocional, fatores presentes e constantes no dia a dia da relação pais-�lhos. Por outro lado, o histórico do casal e as condições psicológicas dos genitores foram fatores que os operadores do Direito e psicólogos destacaram como importantes de serem avaliados no relacionamento parental. A competência parental, o estado emocional adequado, a �exibilidade em relação ao ex-cônjuge e o vínculo afetivo com o �lho são os aspectos mais importantes de serem avaliados em situações de disputa de guarda, de acordo com estudos internacionais e nacionais na área (ACKERMAN; ACKERMAN, 1997; KEILIN; BLOOM, 1986; LAGO; BANDEIRA, 2008). O conceito de spillover (EREL; BURMAN, 1995) abordado na literatura também foi trazido pelos genitores participantes do estudo. Através de expressões como ‘ambiente harmonioso’ ou ‘ambiente saudável’, os pais referiram a importância de um relacionamento conjugal tranquilo para o desenvolvimento saudável dos �lhos. Genitores que estão separados também �zeram tal a�rmação, relatando a necessidade de coesão em relação às decisões da vida do �lho. De forma geral, várias categorias do relacionamento parental trazidas pelos participantes corroboram os dados da literatura. Entre elas, destacam-se: comunicação (BOHANEK et al., 2006; SILVA, 2000), cuidados (MACIEL; CRUZ, 2009; RIVERA et al., 2002), disciplina (EREL; BURMAN, 1995; RIVERA et al., 2002; SILVA, 2000), rotina (MOREIRA; BIASOLI-ALVES, 2008) e necessidades básicas (RIVERA et al., 2002). Essas categorias são comumente referidas na literatura e também foram as mais comuns entre os grupos de participantes, o que leva a concluir que são aspectos fundamentais do relacionamento parental. Em relação à categoria ‘Cuidados’, é válido destacar a questão da autonomia e da independência dos �lhos. Os cuidados dos genitores com os �lhos devem implicar também o atendimento às necessidades de forma adequada à idade destes, respeitando e incentivando sua autonomia. Assim, o pro�ssional ao apreciar a dimensão ‘Cuidados’ deve considerar quais os cuidados tomados, e se esses estão apropriados à etapa de desenvolvimento dos �lhos. Outro aspecto englobado ainda na categoria ‘Cuidados’ foi o controle do uso do computador, citado como uma preocupação dos genitores. Trata-se de questão bastante atual, considerando-se a grande exposição dos �lhos aos avanços tecnológicos, que nem sempre são bené�cos, e que exige atenção à proteção dos �lhos a situações de risco. O suporte �nanceiro, item trazido pelas crianças respondentes, foi incluído também na categoria ‘Cuidados’. Os participantes reconheceram a importância dos genitores trabalharem para poder oferecer-lhes melhores condições de vida, seja em termos de moradia, lazer ou estudo. Esse item também foi abordado pelos genitores, que responderam ser importante oferecer condições básicas de infraestrutura de moradia e lazer para um bom desenvolvimento dos �lhos. Contudo, o suporte �nanceiro não foi destacado a partir das análises das respostas dos psicólogos e operadores do Direito. O brincar foi citado pelos genitores e também pelos �lhos. Para os genitores, o brincar e a diversão foram abordados como uma forma de comunicação, de aproximação com os �lhos, de participação ativa em suas vidas. Vários pais lamentaram a falta de tempo e energia para atividades de lazer com seus �lhos. Por outro lado, as respostas das crianças em relação ao brincar, estar junto, transmitiram uma ideia de ‘cuidado’, ou seja, as crianças revelaram sentirem-se cuidadas e protegidas quando os pais brincam com elas, levam a parques e restaurantes. Da mesma forma que os pais lamentaram a falta de tempo e energia, algumas crianças também lamentaram a falta de tempo e atenção dos pais, questões referidas na literatura (BLACK; DUBOWITZ; STARR, 1999; BRANDTH; KVANDE, 2002; WARREN; JOHNSON, 1995). A categoria ‘Educação’ também foi abordada de forma diferenciada entre pais e �lhos. Os pais trouxeram questões relacionadas à preocupação com a garantia de uma educação formal juntamente com a educação informal, dos bons modos e transmissão de valores. Por outro lado, os �lhos abordaram a questão da escola por meio da participação e auxílio nas tarefas e estudos para provas. Dados da literatura (AMATO; GILBRETH, 1999; BACETE; BETORET, 2000; COLEY, 1998; FLOURI; BUCHANAN, 2003; HILL; TAYLOR, 2004; PELEGRINA; GARCÍA-LINARES; CASANOVA, 2003; VIZZOTTO, 1988) revelam que a participação dos pais nas atividades escolares propicia melhor desempenho acadêmico aos �lhos. Por �m, o item ‘Cumprimento de promessas’, englobado na categoria ‘Segurança emocional’, foi destacado exclusivamente nas análises das respostas das crianças. Esse aspecto foi mencionado por Silva (2000), como sendo uma habilidade social fundamental para o bom desenvolvimento das crianças. Especialmente nas respostas das crianças �lhas de pais separados foi possível observar essa queixaem relação aos genitores, por não cumprirem o estipulado. É possível identi�car que alguns aspectos elucidados pela teoria foram reforçados por meio do estudo empírico, permitindo fornecer diretrizes acerca do que deve ser investigado em avaliações que envolvam o relacionamento parental em disputa de guarda. A Tabela a seguir resume os principais achados de ambos os estudos: Tabela 1 - Aspectos do Relacionamento Parental a serem avaliados Aspectos do Relacionamento Parental O que avaliar? Histórico do casal Como era o relacionamento do casal; existência de con�itos pré- separação; por que houve a ruptura Rotina O envolvimento do genitor nas atividades diárias do �lho Cuidados básicos Cuidados relativos à higiene, à alimentação e à saúde Disciplina Estabelecimento e monitoramento de limites Coparentalidade Exercício da parentalidade (direitos e deveres sobre o �lho) conjunto, mesmo após o divórcio Educação Acompanhamento das atividades escolares e desempenho acadêmico do �lho Sustento �nanceiro Oferecimento de condições básicas de moradia, alimentação e vestuário ao �lho Lazer Envolvimento do genitor em atividades de lazer para o �lho Comunicação Capacidade de conversar com o �lho de maneira e�caz Afeto Demonstração de relação afetuosa do genitor para com o �lho Motivação para �car com a guarda Justi�cativas apresentadas pelo genitor para �car com a guarda do �lho As orientações descritas na Tabela acima indicam diretrizes importantes a serem avaliadas em uma disputa de guarda. Foi possível evidenciar que alguns aspectos apareceram tanto na revisão de literatura quanto na análise das entrevistas com os participantes do estudo empírico. Outros aspectos, contudo, apareceram em apenas um dos estudos, como, por exemplo, a motivação para �car com a guarda (resultado do estudo empírico) e a coparentalidade (resultado do estudo teórico). Importante apontar que os aspectos a serem investigados em um relacionamento parental não se esgotam nos resultados apontados neste capítulo, visto que particularidades de cada família são frequentemente alvos de avaliações psicológicas, seja no âmbito forense ou da clínica. As diretrizes aqui fornecidas enfocam o ‘o quê’ avaliar, �cando livre a escolha do pro�ssional das técnicas por meio das quais investigará esses aspectos. O psicólogo poderá utilizar-se de entrevistas, observações, dinâmicas e testes psicológicos, de acordo com sua familiaridade e domínio dentre as diferentes possibilidades de técnicas reconhecidas cienti�camente. Cabe, entretanto, apontar a sugestão de material publicado pelas autoras recentemente, que abrange os aspectos aqui apontados, de forma sistemática: o Sistema de Avaliação do Relacionamento Parental (SARP) (LAGO; BANDEIRA, 2013). O SARP não é um teste psicológico, mas sim um método de avaliação, composto por três técnicas: Entrevista SARP (aplicada individualmente aos responsáveis pela criança), Meu Amigo de Papel (protocolo aplicado a crianças de 5 a 12 anos) e Escala SARP (pontuada pelo próprio examinador, a partir do cruzamento das informações obtidas por pais e �lhos). Os resultados da Escala SARP são apresentados por dimensões do Relacionamento Parental, permitindo identi�car áreas que estão ou não bem atendidas e, dessa forma, oferecer subsídios mais consistentes para que o avaliador possa embasar seu laudo. Referências ACKERMAN, M. J.; ACKERMAN, M. C. Custody evaluation practices: a survey of experienced professional (revisited). Professional Psychology: Research and Practice, v. 28, n. 2, p.137-145. 1997. AMATO, P. R.; GILBRETH, J. G. Nonresident fathers and children’s well- being: a meta-analysis. Journal of Marriage and the Family, v. 63, n. 3, p. 557-573. 1999. AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Guidelines for child custody evaluations in divorce proceedings. American Psychologist, v. 49, p. 677-680. 1994. ASH, P.; GUYER, M. J. The function of psychiatric evaluations in contested child custody and visitations. Journal of the American Academy of Child Psychiatry, v. 25, n. 4, p. 554–561. 1986. BACETE, F. J. G.; BETORET, F. D. 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A alienação parental é, sem dúvida, um dos temas que muito têm se privilegiado da interface entre Direito e Psicologia. As primeiras observações e conclusões relacionadas ao tema deram espaço a investigações com rigores cientí�cos mais apurados. Mesmo assim, a temática da alienação parental ainda é composta de muitas especulações teóricas e poucas certezas decorrentes de estudos empíricos. Ainda são necessárias mais investigações que permitam o desenvolvimento do conhecimento cientí�co acerca do tema, o que seria de grande valia para todos os pro�ssionais que atuam nessas áreas. A alienação parental Pouco conhecido até a primeira década dos anos 2000, foi com o surgimento da Lei 12.318/2010 que o fenômeno da alienação parental passou a ter maior visibilidade no cenário jurídico brasileiro. Segundo o Art. 2º da Lei (2010), a alienação parental consiste na interferência de um adulto sobre uma criança (geralmente um dos pais, avós, ou outro adulto que mantenha relação de proximidade com a criança), com o intuito de afastá-la de um de seus genitores, ou prejudicar o seu vínculo afetivo com esse.1 A alienação parental costuma ser identi�cada em casais separados, mormente quando o rompimento do vínculo se deu de modo muito con�ituoso. Por isso, acredita-se que o estopim dos atos alienadores esteja relacionado às di�culdades de assimilar o término da relação, principalmente quando essa não ocorreu de maneira tranquila e consensual, com brigas, agressões, traições etc. (FONSECA, 2006). O alienador percebe no �lho a possibilidade de ‘vingar-se’, in�igindo dor e sofrimento ao ex-parceiro, e começa a agir nesse sentido. A superveniência cada vez maior de alegações de alienação parental é atribuída à releitura dos papéis familiares oportunizada a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988. A tradicional família patriarcal foi superada pela igualdade entre homem e mulher no casamento, o que incentivou cada vez mais a participação dos homens na criação e no envolvimento afetivo com seus �lhos (BUOSI, 2012). Um resultado concreto dessa mudança cultural é o advento da Lei 13.058/2015, que alterou diversos artigos do Código Civil brasileiro, impondo a aplicação da guarda compartilhada sempre que ambos os pais detiverem condições de exercer o encargo. Há, certamente, a crença de que as mães são as responsáveis pela maioria dos atos alienadores, isto é, aqueles destinados a provocar o afastamento entre pai e �lho. No entanto, até hoje não se logrou comprovar uma predisposição feminina no cometimento de tais condutas. Como, por uma tradição cultural e histórica, são as mulheres que normalmente exercem a guarda dos �lhos no término do casamento, são elas que têm maiores chances de praticar condutas de alienação parental.2 O raciocínio é de que, quanto maior a proximidade com a criança, maior a chance de ingressar com a campanha alienadora. Aparentemente, o exercício da guarda não encoraja ou motiva a alienação, apenas a facilita. Um levantamento de processos judiciais canadenses realizado no ano de 2010 (BALA; HUNT; MCCARTNEY, 2010), sustenta a hipótese de que o genitor guardião tem maiores chances de praticar a alienação parental. Em 84% dos casos analisados, o alienador era aquele que exercia a guarda da criança. Baker e Darnall (2006) também não encontraram diferenças relativas ao gênero no que tange à prática de alienação parental, tampouco quanto ao gênero da criança vítima. Ou seja, há evidências de que homens e mulheres têm a mesma tendência de alienar seus �lhos e de que meninos e meninas possuem as mesmas chances de serem alienados por seus pais. Ademais, a pesquisa de Baker e Darnall evidenciou que genitores com a guarda praticam signi�cativamente mais estratégias alienadoras em comparação àqueles que não detêm a guarda da criança. Alienação parental ou Síndrome de Alienação Parental? Atribui-se ao psiquiatra norte-americano Richard Gardner a criação e popularização da expressão ‘Síndrome de Alienação Parental’ – ou simplesmente SAP (GARDNER, 1985). Para o autor, a alienação parental consiste em um distúrbio da infância surgido em decorrência da atuação do genitor alienador, havendo a manifestação desse quadro na criança por meio de um conjunto de oito sintomas: 1) realização de uma campanha de difamaçãoe descrédito do genitor, externada verbalmente e nas atitudes da criança; 2) justi�cativas frívolas acerca do motivo da rejeição do genitor; 3) ausência de ambivalência afetiva: o sentimento para com o genitor alienador é de amor e para com o outro é de ódio; 4) fenômeno do ‘pensador independente’, isto é, a criança a�rma que a rejeição é decorrente de sua própria decisão, sem in�uências externas; 5) apoio incondicional à �gura parental amada; 6) ausência de culpa pela rejeição ao genitor; 7) aparição no relato de situações que não ocorreram, ou das quais a criança não poderia se recordar; e 8) extensão da animosidade aos demais membros da família extensiva do genitor rechaçado. Segundo a teoria de Gardner (2004), a quantidade de sintomas externados revelaria o grau de alienação da criança, que pode ser leve, moderado ou grave. No tipo leve, a criança ainda coopera com as visitações, não obstante já apresente postura crítica e descontente com o genitor visitante. No mais severo patamar, o alto grau de rejeição ao pai por parte da criança torna a visitação inviável. Com o passar do tempo, o vínculo afetivo entre ambos acaba destruído. No entanto, são extensas as críticas a Gardner e à sua descrição de uma síndrome alienadora (e.g. KELLY; JOHNSTON, 2001). Um dos principais argumentos daqueles que compreendem ser descabido um diagnóstico mental para a alienação parental é o de que inexistem evidências empíricas da existência dessa síndrome, até mesmo porque muitas das teorias de Gardner foram publicadas pela editora fundada pelo próprio autor, em artigos que não passaram pelo procedimento de revisão por pares (KELLY; JOHNSTON, 2001). Houchin et al. (2012), por exemplo, consideram a inserção da alienação parental nos manuais médicos um grande erro, alegando que o fenômeno não possui suporte empírico, tampouco relevância clínica. Além das críticas já mencionadas, tais autores referem haver um provável interesse econômico daqueles que defendem a ‘síndrome’, pois sua inclusão no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) signi�caria retorno �nanceiro aos pro�ssionais atuantes nos casos de alienação parental. Apesar das críticas às ideias de Gardner, um signi�cativo grupo de autores compreende a alienação parental como uma doença mental, uma vez que os sintomas externados pela criança são decorrentes da ação do alienador, tido como o agente etiológico desencadeador da síndrome (e.g. BENSUSSAN, 2009; BERNET, 2008). A inclusão do diagnóstico nos manuais médicos de classi�cação de doenças mentais estaria, por esse motivo, plenamente justi�cada. Há, ainda, aqueles que consideram a alienação parental o estágio anterior à instauração da síndrome (e.g. DELAGE, 2010). Segundo essa linha de raciocínio, a alienação parental consiste em um estágio inicial, quando a criança ainda não aderiu ao comportamento do genitor engajado nos atos alienadores. Em outras palavras, a alienação parental se consubstancia nos atos e condutas do sujeito alienador, com a �nalidade de afastar o outro genitor do �lho, ao passo que a síndrome se caracteriza a partir do momento em que a criança passa a manifestar rejeição e ódio ao genitor antes amado. É essa a visão de Darnall (2011), que sustenta que a alienação parental se refere aos comportamentos do alienador, ao passo que a síndrome de alienação parental diz respeito aos sintomas externados pela criança. O legislador, ao editar a Lei 12.318/2010, parece ter adotado essa última visão do fenômeno, prevendo sanções com o intuito de coibir os atos alienadores e, assim, evitar que a ‘síndrome’ venha a se instalar. As medidas previstas em lei têm uma essência predominantemente preventiva, pois ao sancionar o responsável pelas condutas nocivas ao �lho, constrange-o a cessar seu comportamento e evitar que o fenômeno se propague. O espírito legislativo é evitar a consolidação da situação, possibilitando a identi�cação e interrupção, de plano, dos comportamentos potencialmente danosos à criança ou ao adolescente. Tratando-se ou não de uma síndrome, é certo que a alienação parental existe como fenômeno. Mesmo em quantidade ainda reduzida, existem pesquisas con�áveis no sentido de demonstrar a incidência da alienação parental nos tribunais. Por exemplo, a análise de 57 protocolos de avaliações psicológicas extraídas de processos do Juizado de Astúrias, na Espanha, identi�cou em cerca de 70% deles a presença de características tidas como ‘típicas’ da Síndrome de Alienação Parental (SUÁREZ, 2011). Uma simples pesquisa de jurisprudências nos sites dos Tribunais de Justiça dos Estados brasileiros é su�ciente para constatar a dimensão e abrangência desse problema, que se apresenta diariamente nos escritórios de advocacias e consultórios psicológicos. Justamente por isso é imprescindível que os pro�ssionais que atuam em processos dessa natureza – principalmente os da área da Psicologia – detenham conhecimento aprofundado sobre o fenômeno da alienação parental e dediquem-se, cada vez mais, em aprimorar técnicas voltadas a identi�cá-lo. Os atos de alienação parental De um modo geral, os atos de alienação parental giram em torno da obstrução ao direito de convivência familiar entre a criança e o genitor não guardião. As possibilidades são irrestritas, e a Lei 12.318/10 elenca alguns desses comportamentos em seu Art. 2º, Parágrafo único.3 Como se trata de um rol meramente exempli�cativo, o magistrado não se encontra adstrito a ele, podendo declarar outras condutas como alienadoras, dependendo de cada caso em análise. Um dos atos alienadores que se veri�ca com maior frequência é o descumprimento dos horários de visitas, mesmo quando �xados judicialmente. Muitas vezes, o alienador justi�ca a ausência da criança com argumentos como de que ela está doente, já tinha outros compromissos, não quer ver o outro pai etc. O propósito do alienador é excluir o não guardião da vida do �lho. Para tanto, não compartilha informações relevantes sobre a criança com o outro genitor, como compromissos escolares, competições esportivas, tratamentos médicos realizados etc. Mudanças abruptas de cidade, alegações de maus-tratos e abuso sexual também se fazem presentes nesse tipo de processo (DIAS, 2013). Em paralelo, é comum que o alienador desencadeie uma campanha de desprestígio do outro pai diretamente à criança, atribuindo a ele adjetivos desabonadores e ofensivos. Um estudo realizado com adultos, que se identi�caram como vítimas de alienação parental na infância, demonstrou que esses cresceram ouvindo o genitor alienador atribuir características depreciativas e pejorativas, constantemente, ao outro (BAKER, 2006). Em muitos casos, o �lho cresceu ouvindo comentários ofensivos acerca do genitor alienado, por exemplo, de que era alcoólatra, violento, que havia abandonado a família, dentre outros. Tal característica da alienação parental também resta evidenciada no documentário A Morte Inventada, do cineasta brasileiro Allan Minas (2009). Pelo prisma da Psicologia Cognitiva, pode-se dizer que os atos de alienação parental comumente englobam a construção de um estereótipo negativo a respeito do genitor alienado (BAISCH; BUOSI; STEIN, no prelo). Baker e Darnall (2006) conduziram uma pesquisa on-line, com 96 pais e mães que se autoidenti�caram como pais alienados do convívio com seus �lhos. Os participantes identi�caram que a principal estratégia de alienação utilizada pelo outro genitor era falar mal e criar a impressão, frente à criança, de que o genitor alienado era perigoso. Outras estratégias também foram identi�cadas com grande frequência, como repassar à criança questões discutidas no processo judicial em curso e dizer-lhe que o outro genitor não a ama mais. Na pesquisa conduzida por López, Iglesias e García (2014), foram avaliados 72 casais em processo de separação ou divórcio, nos quais ao menos um dos �lhos passava por alienação parental. Foi examinada a incidência de 27 estratégias tipicamente alienadoras, restando concluído que, em 90% das vezes, cinco estratégias principaiseram utilizadas: não passar informações sobre a criança ao genitor alienado, recompensar comportamentos desrespeitosos da criança para com o genitor rejeitado, insultar ou diminuir o alienado em frente à criança, tomar decisões sem consultar o genitor alienado e impedir visitas. Outras seis condutas foram observadas em 80% a 90% dos alienadores. São elas: interrogar a criança após a visita ao genitor alienado, compartilhar informações pessoais ou judiciais com a criança, interferir no contato simbólico da criança com o genitor alienado, di�cultar o contato telefônico entre ambos, procurar cuidadores para a criança, que não o pai, buscar o apoio de outras pessoas nos atos alienadores (como a família extensa, ou um novo companheiro). A pesquisa de López, Iglesias e García (2014) também revelou que as mulheres – no exercício ou não da guarda de seus �lhos – têm maior tendência a usar as seguintes práticas de alienação parental: telefonar para a criança durante o período em que se encontra com o outro pai, buscar o apoio de outras pessoas nos atos alienadores (como a família extensa, ou um novo companheiro), assustar a criança dizendo que o outro genitor irá provocar algum tipo de mal a ela e buscar relatórios médicos e psicológicos para servirem de provas. Os homens, a seu turno, tiveram como maior expressão alienadora o encorajamento da criança a desa�ar as regras e a autoridade do outro genitor. O fato de ter ou não a guarda exerceu in�uência no tipo de condutas alienadoras, ou seja, o alienador não guardião preferiu desa�ar o outro e o alienador que possui a guarda buscou distanciar a criança do genitor rejeitado e de sua família extensa. Medidas coercitivas Justamente por se tratar de uma grave afronta aos mais basilares direitos da criança e do adolescente, dentre os quais estão englobados a dignidade humana, convivência familiar e melhor interesse, a alienação parental é considerada uma forma de abuso moral, sendo de absoluto interesse social a sua repressão. Nesse sentido, a Lei 12.318/10 traz valiosa contribuição ao possibilitar ao magistrado a aplicação de medidas4 que têm o propósito de coibir e constranger os atos alienadores. Com o passar do tempo, a criança que passa por uma situação de alienação parental pode desenvolver uma série de expressões sintomáticas, como depressão, falta de con�ança nas outras pessoas, baixa autoestima, abuso de álcool e de drogas (BAKER, 2005). Ben-Ami e Baker (2012) também apontam para manifestações de insegurança e para a ocorrência de doenças psicossomáticas. Ao crescer e perceber que foi envolvido em uma grande manipulação, é comum que o �lho desenvolva o sentimento de culpa, justamente por ter sido “cúmplice de uma grande injustiça contra o genitor alienado” (FONSECA, 2010, p. 274). Caracterizado algum ato típico de alienação parental, ou qualquer conduta que di�culte a convivência da criança ou adolescente com seu genitor, poderá o juiz aplicar, desde uma simples advertência ao alienador – de forma escrita ou verbal, até a efetiva inversão da guarda e até mesmo a suspensão do poder familiar do alienador. Tratam-se, essas últimas, das medidas mais severas previstas pela legislação. As medidas de ampliação do regime de convivência do genitor alienado e o estabelecimento do regime de guarda compartilhada entre os ex- cônjuges visam propiciar o estreitamento do convívio entre genitor alienado e criança, de modo a fortalecer o vínculo entre ambos e mitigar os efeitos da alienação. Da mesma forma, a aplicação de multa ao alienador é geralmente e�caz para constranger o alienador a cessar seu comportamento. Também é facultado ao juiz determinar o acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial da criança e dos genitores, o que pode se mostrar e�caz para atenuar, não apenas as práticas alienadoras, como também as consequências psíquicas na criança e no genitor alienado. Identi�cação e tratamento da alienação parental A Lei 12.318/10 faculta a realização de perícia psicológica ou biopsicossocial, a �m de fornecer mais subsídios ao julgador na identi�cação dos casos de alienação parental. Trata-se de uma ferramenta extremamente útil e muito utilizada, visto que o magistrado não detém o conhecimento técnico especí�co para identi�car tais condutas. Por exigência da Lei 12.318/2010, o pro�ssional encarregado da avaliação (o perito) deverá demonstrar sua aptidão em diagnosticar atos de alienação parental, o que poderá se dar por meio da apresentação de seu currículo ou histórico acadêmico. Tal exigência visa assegurar que as perícias envolvendo suspeitas de alienação parental sejam conduzidas por pro�ssionais que detenham total conhecimento cientí�co e prático acerca do tema (ARAÚJO, 2014). Isso porque a identi�cação de quadros alienadores consiste em tarefa bastante complexa, sendo necessária a avaliação da dinâmica familiar como um todo, e de cada indivíduo em particular. A própria lei da alienação parental refere que o laudo de perícia será embasado em uma completa avaliação psicológica e biopsicossocial das partes. Para tanto, deverá englobar a análise ampla do histórico do casal e da separação, como todos os pormenores psicologicamente relevantes, bem como a avaliação dos envolvidos e da criança.5 A atuação do psicólogo envolve, principalmente, a realização de entrevistas individuais e conjuntas e, se necessário, a aplicação de testes, para con�rmar ou descartar a existência do problema, e mensurar a sua extensão (TEIXEIRA; BENTZEEN, 2005). Buosi (2012) atenta ao fato de que o alienador tenta muitas vezes manipular o avaliador, buscando com que o pro�ssional se alie à tese por ele sustentada. Uma averiguação criteriosa e com base em procedimentos cientí�cos é fundamental, mormente porque a rejeição a um dos pais pode estar sendo motivada por outras razões, inclusive por abuso ou maus-tratos reais. O pro�ssional precisa estar ciente de todas essas possibilidades, de modo a não identi�car, precipitadamente e de modo equivocado, uma situação real de violência como de alienação parental, deixando a criança exposta ao risco que a ameaça. Nesse sentido, Kelly e Johnston (2001) sugerem que as relações entre pais e �lhos, após o divórcio, variam de acordo com uma escala. No extremo dela, a criança tem um relacionamento positivo com ambos os pais, e deseja passar tempo com os dois. No extremo oposto, situa-se a alienação patológica da criança, denominada pelas autoras de alienação infantil (child alienation). Os pontos intermediários da escala permitem entrever situações em que a rejeição a um dos pais ocorre por diversos outros motivos, como uma aliança temporária e reversível (alignment) ou até mesmo em decorrência de um abuso ou violência real (realistic estrangment). Havendo uma razão concreta que motiva a rejeição ao genitor, não há elementos para se falar em alienação parental. Também é importante que novas formas de intervenção e tratamentos aptas a mitigar os efeitos da alienação parental sejam desenvolvidas, sempre em vista a privilegiar a reconstrução do vínculo entre pai e �lho (DARNALL, 2011; LAGO; BANDEIRA, 2009). Nesse sentido, já se veri�cou que a terapia em grupo pode ser uma boa ferramenta para tratar crianças vítimas de alienação parental e seus pais alienadores e alienados (TOREN et al., 2013). Após quatro meses de intervenção, nos quais 22 crianças vítimas de alienação parental e seus pais realizaram sessões de terapia em grupo, veri�cou-se a signi�cativa diminuição dos níveis de estresse e depressão dos �lhos. Ademais, houve uma melhora estatisticamente signi�cativa na cooperação entre os pais que passaram pela intervenção, em comparação com aquelas famílias que não se submeteram ao tratamento. Falsas denúncias e falsas memórias Um aspecto peculiar da alienação parental vem despertando a curiosidade dos pro�ssionais que atuam nesta esfera. Trata-se da sua relação com o fenômeno das falsas memórias. A potencial contaminação da memória da criança vítima de alienação parental deve ser considerada, especialmente nas hipótesesem que se fazem presentes acusações de abuso físico ou sexual. Em tais casos, havendo a in�uência de falsas memórias, é possível que o �lho relate ou con�rme um episódio que jamais vivenciou. Não é novidade para os pro�ssionais que atuam na área do Direito de Família (advogados, promotores, magistrados, psicólogos e assistentes sociais) que falsas denúncias de abuso físico e sexual costumam se fazer presentes nos casos de alienação parental. Trata-se de um meio extremamente e�caz de promover o rápido afastamento entre pai e �lho, pois, diante de uma denúncia dessa natureza, é natural que o juiz determine a interrupção do convívio entre ambos. De tão reiterado o uso dessa artimanha, a jurisprudência vem se mostrando cautelosa ao determinar a cessação de visitas, preferindo muitas vezes manter o convívio supervisionado entre a criança e o suposto agressor. Em casos de suspeita de abuso sexual – havendo ou não alegações de alienação parental – ocorrerá a abertura de inquérito policial e, havendo indícios su�cientes da prática do ato, será instaurado o respectivo processo-crime. Em tal hipótese, a criança prestará o seu testemunho acerca dos atos que supostamente lhe ocorreram. Ouvir a versão da criança é indispensável, até mesmo porque vestígios materiais da violência costumam ser inexistentes na quase totalidade dos casos de suspeita de abuso sexual (HEGER et al., 2002). Ademais, os chamados ‘sintomas típicos de abuso sexual’ (como mudanças nos hábitos alimentares, comportamentos sexualizados, medos, di�culdades para dormir, dentre outros) têm sido cada vez mais questionados (POOLE; WOLFE, 2009), pois podem advir de inúmeros outros fatores, como o estresse gerado pelo divórcio dos pais ou pelo processo de alienação parental. Tais manifestações sintomáticas, por si só, não são su�cientes para comprovar ou descartar a existência da violência. Infelizmente, muitos pro�ssionais que atuam na inquirição de crianças (tanto na fase policial quanto judiciária) ainda carregam consigo a errônea ideia de que o relato da criança sempre corresponde à verdade. Trata-se de uma equivocada premissa, pois a memória da criança está suscetível à in�uência de inúmeros fatores que podem comprometer a sua memória (falsas memórias) e, consequentemente, a qualidade daquilo que relatar. A sugestionabilidade infantil, isto é, a tendência de modi�cação da memória da criança em decorrência da incorporação de informações falsas é fenômeno corroborado por uma extensa lista de experimentos cientí�cos (CECI; ROSS; TOGLIA, 1987). Como consequência, falsas memórias podem aparecer em suas verbalizações, ou seja, abusos e agressões que jamais ocorreram podem surgir em seus relatos. As falsas memórias não são mentiras, e sim lembranças de informações ou eventos que jamais existiram ou ocorreram (WELTER; FEIX, 2010). Quando decorrem da distorção natural da memória, são denominadas de ‘espontâneas’; se resultam da interferência de uma fonte externa na memória do indivíduo, recebem o nome de ‘sugeridas’ (NEUFELD; BRUST; STEIN, 2010). Por exemplo, se uma criança, após machucar-se no parquinho, sem nenhuma in�uência de terceiros, recordar-se que o machucado em sua perna adveio de uma agressão de seu pai, estará tendo uma falsa memória espontânea. Por outro lado, se essa mesma criança passar a se lembrar que o machucado foi fruto de uma agressão do pai após a interferência de outra pessoa (por exemplo, após a mãe lhe perguntar, apontando para o machucado, “doeu muito quando o papai machucou você na perna?”), sua falsa memória será sugerida. As crianças, por serem altamente sugestionáveis, incorporam informações falsas à memória com maior facilidade em comparação aos adultos. Essa característica é ainda mais aguçada em pré-escolares, isto é, crianças com até cinco anos de idade (CECI; ROSS; TOGLIA, 1987). De modo consciente ou não, a sugestionabilidade infantil pode ser utilizada pelo alienador com o propósito de acusar o outro genitor de atos cometidos contra o �lho. Assim, não é à toa que Gardner aponta, como um dos sintomas de alienação parental, a verbalização de situações que jamais ocorrem, ou das quais a criança não poderia ter conhecimento. No mesmo sentido, juristas e pro�ssionais do Direito de Família também utilizam, comumente, a expressão ‘implantação de falsas memórias’ como um sinônimo de alienação parental (DIAS, 2010; PEREIRA, 2011). Então resta responder à pergunta: qual a relação da alienação parental com o surgimento de falsas memórias na criança vítima? O estudo teórico de Baisch, Buosi e Stein (no prelo), tentou encontrar respostas a essa indagação por meio da revisão da literatura cientí�ca sobre a memória e a sugestionabilidade infantil. As autoras identi�caram os principais fatores potencialmente causadores de falsas memórias na criança que passa por uma situação de alienação parental, os quais serão, a seguir, sucintamente expostos. 1 Indução de Estereótipo A alienação parental envolve condutas voltadas a provocar o afastamento entre pai e �lho, que são geralmente acompanhadas de uma forte campanha denegritória acerca do alienado. O �lho escuta, reiteradas vezes, informações desquali�cadoras e pejorativas a respeito do outro pai, o que ocasiona a construção de um estereótipo negativo a seu respeito. Esse é um poderoso fator no sentido de provocar o aparecimento de falsas memórias, o que é con�rmado por uma vasta gama de pesquisas cientí�cas (CECI; BRUCK, 1995; LEICHTMAN; CECI, 1995). Um recente experimento testou esse fator (BAISCH et al., no prelo). Na pesquisa, 64 crianças receberam a visita do cientista Samuel em suas salas de aula, o qual realizou uma breve demonstração de ciências com elas. Após a visita, uma parte dos alunos recebeu informações, por meio de sua professora, de que o cientista era uma pessoa muito desastrada e atrapalhada (estereótipo negativo). O restante das crianças não recebeu informação alguma sobre a personalidade do cientista. Após a etapa de indução de estereótipo, todas as crianças foram entrevistadas, a �m de se averiguar o que lembravam da visita do cientista. As crianças que receberam a in�uência da indução de estereótipo relataram um maior número de informações não acuradas, porém congruentes com o estereótipo (informaram que o cientista havia quebrado os materiais, por exemplo), em comparação com o grupo controle. Se uma criança escutar sistematicamente que seu genitor é uma pessoa ruim, violenta, que abandonou a família e que não ama mais o �lho, poderá incorporar essas informações em sua memória, utilizando- as para completar lacunas em suas recordações (SCHECHORY, NACHSON; GLICKSOHN, 2010). Produzem-se, assim, falsas memórias. 2 Exposição a Sugestões Sugerir a uma criança que algo ocorreu com ela, sem que o fato tenha acontecido, é outro meio extremamente e�caz de contaminação da memória e do consequente aparecimento de falsas memórias (CECI; BRUCK, 1995). Otgaar et al. (2009) comprovaram que até mesmo uma memória extremamente improvável – uma abdução – pode ser incorporada com facilidade à memória infantil. Os autores informaram aos participantes de 7 a 8 anos e de 11 a 12 anos, por meio de técnicas sugestivas, que eles haviam sido abduzidos por um óvni quando contavam quatro anos de idade. As crianças desenvolveram falsas memórias sobre a abdução e chegaram a fornecer detalhes sobre o evento. Diversos participantes continuaram defendendo que se recordavam da abdução mesmo após terem sido informados que tudo não passava de um evento forjado. A sugestão de informações falsas ocorre frequentemente durante o processo de alienação parental – embora nem sempre de modo consciente –, pois o alienador busca convencer a criança de que o outro genitor realmente lhe provocou um mal. Mônica Guazzelli (2010, p. 44- 45) retrata bem essa possibilidade: A cena se passa quando a mãe está dando banho na �lha e conversa: ‘Minha �lhinha, o papai te dá banho e também lava bem tua pererequinha que nem a mamãe?’ ‘Não lembro’, pode responder a �lha; contudo, a mãe ‘convencea �lha do que e de como o papai faz’, e a criança acaba, até porque é sugestionável, concordando. Aproveitando-se da sujeição da criança, a descrição realizada pela mãe vai �cando cada vez mais detalhada, sem, é claro, que a criança se aperceba da gravidade daquilo. ‘Mas então’ – diz a mãe – ‘o papai põe a mão em você e �ca esfregando para limpar bem?’ E a criança acabará respondendo: ‘Sim’. Depois, de tanto a mãe repetir essa história, a narrativa acabará se transformando numa realidade para a criança, pois de fato o pai, quando exerce a visitação, costuma auxiliar a �lha na rotina do banho. Quanto maior a intensidade e a frequência da sugestão, maior a chance de que seja incorporada pela criança e posteriormente recordada como real. 3 Figura de Autoridade Os estereótipos e sugestões transmitidos pelo alienador têm maiores chances de serem considerados verdadeiros pela criança, pois lhe são repassados por um adulto em quem nutre extrema con�ança, como seus pais ou avós. Diversos são os achados cientí�cos que demonstram que a opinião do adulto, mesmo quando manifestamente errônea, tende a prevalecer sobre o que foi diretamente vivenciado pela própria criança (POOLE; LINDSAY, 2001; MA; GANEA, 2010). O experimento de Ma e Ganea (2010) exempli�ca bem essa hipótese. Crianças de três a cinco anos observaram um adulto colocar um brinquedo em uma dentre três caixas de cores diferentes. Em um primeiro momento, as crianças souberam identi�car sem erros qual das caixas continha o brinquedo. Logo após, a criança era informada, de modo equivocado, que o brinquedo havia sido colocado em uma caixa diferente daquela em que realmente estava (de outra cor). Apesar de terem visualizado toda a ação do adulto e apontado a caixa correta em um primeiro momento, 65% das crianças menores (três anos), ao irem buscar o brinquedo, procuravam-no primeiro na caixa erroneamente mencionada pelo adulto. Os participantes de quatro e cinco anos dirigiram-se à caixa errada em 25% e 20% das vezes, respectivamente, mesmo contrariando o que haviam diretamente observado apenas alguns minutos antes. Quanto maior for a credibilidade do adulto, maiores as chances de que a falsa informação seja efetivamente incorporada à memória da criança. No estudo realizado por Lampinen e Smith (1995), por exemplo, adultos tidos como ‘desacreditados’ não provocaram o mesmo nível de interferência na memória das crianças do que aqueles adultos considerados fontes con�áveis, como pais e professores. Assim sendo, crianças pequenas são capazes de prestar informações que contradizem suas próprias experiências, quando in�uenciadas por um adulto de con�ança. 4 Ausência de Contraexemplo O último fator da alienação parental relacionado à consolidação das falsas memórias foi denominado de ausência de contraexemplo e diz respeito à tendência de as informações falsas serem mais facilmente aceitas pela criança quando o contato com o alienado for escasso ou inexistente. Isso porque uma informação falsa tende a restar impregnada à memória e ser recuperada como verdadeira, inclusive após um explícito aviso de que era errônea. Trata-se do ‘efeito da in�uência continuada’, ou continuous in�uence e�ect (JOHNSON; SEIFERT, 1994). Esse fenômeno é atenuado quando a informação correta é apresentada ao indivíduo de forma repetida. Assim, eventual falsa memória decorrente dos estereótipos ou sugestões pode não ser ‘esquecida’ com facilidade, mesmo quando houver uma explícita menção de que o fato erroneamente recordado (um abuso sexual, por exemplo) jamais ocorreu. Se a criança e o genitor alienado não tiverem uma forma de convívio frequente (pela rejeição da criança, pelos impedimentos provocados pelo alienador ou pela determinação judicial de suspensão das visitas), a incorporação das falsas informações será favorecida, pois o �lho não terá a chance de contrapô-las com suas próprias vivências e experiências. Portanto, é adequado que medidas que proporcionem a aproximação da criança e do genitor alienado sejam tomadas, como a extensão do regime de visitas ou a �xação da guarda compartilhada, na esteira do que prega a Lei 12.318/10. É dever dos pro�ssionais que atuam em casos em que há alegações de alienação parental e de possíveis abusos físico e sexual, tais como psicólogos, assistentes sociais e operadores do Direito, que tenham em mente que tais fatores podem acarretar distorções na memória da criança e, consequentemente, distorções em seu relato. A identi�cação da ocorrência e intensidade de cada um deles pode consistir em um meio de predizer o quão con�ável se apresenta o que é dito pela criança. A avaliação psicológica da criança, por si só, não é capaz de detectar as falsas memórias do relato infantil. Aliás, com o propósito de preservar ao máximo a acurácia das informações prestadas pela criança, protocolos de entrevistas investigativas foram criados e, com o auxílio dos estudos cientí�cos, são constantemente revisados (para uma revisão sobre os protocolos de entrevista, vide POOLE; LAMB, 1998). Tais protocolos são elaborados com atenção aos princípios que permeiam o funcionamento da memória, privilegiando a utilização de técnicas que favorecem a coleta de um número maior e mais preciso de informações. Alguns elementos são comuns a todos os protocolos de entrevistas com crianças e têm o propósito de fornecer à criança o controle da entrevista, incentivando ao máximo a sua narrativa livre (WILSON; POWELL, 2001). No entanto, um alerta é essencial: o simples fato de estar caracterizada uma situação de alienação parental não pode servir de pretexto para desacreditar o que é verbalizado pela criança. Nem todas as condutas alienadoras in�uenciarão as recordações do �lho, visto que existem diferenças individuais quanto ao nível de sugestionabilidade, fazendo com que algumas crianças sejam muito mais in�uenciáveis do que outras (BRUCK; MELNYK, 2004). Não se deve jamais cair na equivocada premissa de que o relato da criança não é con�ável unicamente porque ela é vítima de alienação parental. Pressupor que eventual denúncia (de abuso ou maus-tratos) não é verdadeira, pois inserida em um contexto de alienação, também pode colocar em risco a integridade da criança, deixando-a à mercê de um possível mal. Essa é, justamente, uma forte crítica de grupos que entendem a alienação parental como um meio de possibilitar que pais abusadores permaneçam em contado com seus �lhos (RAND, 2010). Considerações �nais Mesmo padecendo de averiguações empíricas mais aprofundadas, o fenômeno da alienação parental bate diariamente às portas dos escritórios de advocacia e do Poder Judiciário. Uma breve pesquisa jurisprudencial nos sites dos Tribunais de Justiça dos Estados brasileiros é su�ciente para se perceber a extensão do fenômeno. Foi por intermédio da Lei 12.318/2010 que esse velho problema passou a ter existência jurídica no Brasil. A legislação tratou de exempli�car condutas alienadoras, facilitando sua identi�cação, e colocou à disposição do magistrado medidas para coibir, ou ao menos minimizar, as práticas alienadoras. A atuação interdisciplinar de diversos pro�ssionais no sentido de identi�car com a maior presteza possível os comportamentos alienadores e, rapidamente, cessar ou mitigar as consequências negativas para os indivíduos envolvidos é de extrema importância. A psicoterapia pode ser um caminho essencial para tanto. É também fundamental que faculdades e cursos de extensão e pós- graduação das áreas da Psicologia, da Psiquiatria e da Assistência Social insiram o tema em sua grade disciplinar, possibilitando a expansão do conhecimento teórico e técnico acerca do tema. Somente assim haverá pro�ssionais cada vez mais preparados para atuar nessas demandas. Também é possível perceber o crescente interesse dos operadores do Direito em compreender a relação da alienação parental com o fenômeno das falsas memórias. Nesse passo, os conhecimentos consolidados na área da Psicologia Jurídica e da Psicologia do Testemunho podem auxiliar a compreender a razão da criançavítima de alienação parental muitas vezes relatar situações que jamais ocorreram, podendo chegar ao ponto de con�rmar um abuso ou agressão que não são reais. Mesmo sendo claro que o processo alienador, de modo proposital ou casual, é capaz de interferir nas recordações em razão da in�uência dos estereótipos e sugestões, uma verdadeira violência não pode ser descartada e merece uma investigação aprofundada. A identi�cação dos fatores preditores de falsas memórias na criança vítima de alienação parental (estereótipos, sugestões, �gura de autoridade e ausência de contraexemplo) pode, em conjunto com o restante do contexto probatório, auxiliar os pro�ssionais que atuam nesses casos a identi�car a chance de certas verbalizações corresponderem mais, ou menos, à verdade dos fatos. Ainda assim, é fundamental que o relato da criança não chegue ao ponto de ser desacreditado unicamente por estar inserida em um contexto alienador. Aliás, Zirogiannis (2001) defende que o conceito de alienação parental deve ser visto com muito ceticismo, de modo que as cortes não passem a desacreditar imediatamente nas alegações de abuso sexual, unicamente porque surgidas em um contexto propício de suposta alienação. Eventual suspeita de violência de qualquer tipo deve ser investigada a fundo, sempre com vistas a preservar a integridade da criança. Referências A MORTE INVENTADA. Allan Minas (Diretor). 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Family Court Review, v. 39, n. 3, p. 334-343. 2001. 1 Lei 12.318/2010. Art. 2º Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. 2 A Lei 13.058, de 22 de dezembro de 2014, alterou a redação de importantes dispositivos do Código Civil brasileiro referentes à guarda, privilegiando a aplicação da guarda compartilhada mesmo em casos em que inexiste consenso entre os pais a esse respeito. A nova redação, por certo, auxiliará a modi�car a tradição histórica da guarda materna e poderá – espera-se – reduzir as alegações de alienação parental. 3 Lei 12.318/2010. Art. 2º Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este. Parágrafo único. São formas exempli�cativas de alienação parental, além dos atos assim declarados pelo juiz ou constatados por perícia, praticados diretamente ou com auxílio de terceiros: II - di�cultar o exercício da autoridade parental; III - di�cultar contato de criança ou adolescente com genitor; IV - di�cultar o exercício do direito regulamentado de convivência familiar; V - omitir deliberadamente a genitor informações pessoais relevantes sobre a criança ou adolescente, inclusive escolares, médicas e alterações de endereço; VI - apresentar falsa denúncia contra genitor, contra familiares deste ou contra avós, para obstar ou di�cultar a convivência deles com a criança ou adolescente; VII - mudar o domicílio para local distante, sem justi�cativa, visando a di�cultar a convivência da criança ou adolescente com o outro genitor, com familiares deste ou com avós. 4 Lei 12.318/2010. Art. 6º Caracterizados atos típicos de alienação parental ou qualquer conduta que di�culte a convivência de criança ou adolescente com genitor, em ação autônoma ou incidental, o juiz poderá, cumulativamente ou não, sem prejuízo da decorrente responsabilidade civil ou criminal e da ampla utilização de instrumentos processuais aptos a inibir ou atenuar seus efeitos, segundo a gravidade do caso: I - declarar a ocorrência de alienação parental e advertir o alienador; II - ampliar o regime de convivência familiar em favor do genitor alienado; III - estipular multa ao alienador; IV - determinar acompanhamento psicológico e/ou biopsicossocial; V - determinar a alteração da guarda para guarda compartilhada ou sua inversão; VI - determinar a �xação cautelar do domicílio da criança ou adolescente; VII - declarar a suspensão da autoridade parental. Parágrafo único. Caracterizada mudança abusiva de endereço, inviabilização ou obstrução à convivência familiar, o juiz também poderá inverter a obrigação de levar para ou retirar a criança ou adolescente da residência do genitor, por ocasião das alternâncias dos períodos de convivência familiar. 5 Lei 12.318/2010. Art. 5º Havendo indício da prática de ato de alienação parental, em ação autônoma ou incidental, o juiz, se necessário, determinará perícia psicológica ou biopsicossocial. §1º O laudo pericial terá base em ampla avaliação psicológica ou biopsicossocial, conforme o caso, compreendendo, inclusive, entrevista pessoal com as partes, exame de documentos dos autos, histórico do relacionamento do casal e da separação, cronologia de incidentes, avaliação da personalidade dos envolvidos e exame da forma como a criança ou adolescente se manifesta acerca de eventual acusação contra genitor. §2º A perícia será realizada por pro�ssional ou equipe multidisciplinar habilitados, exigido, em qualquer caso, aptidão comprovada por histórico pro�ssional ou acadêmico para diagnosticar atos de alienação parental. §3º O perito ou equipe multidisciplinar designada para veri�car a ocorrência de alienação parental terá prazo de 90 (noventa) dias para apresentação do laudo, prorrogável exclusivamente por autorização judicial baseada em justi�cativa circunstanciada. CAPÍTULO 6 SETE ERROS NA AVALIAÇÃO DE SITUAÇÕES DE ABUSO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES Cátula da Luz Pelisoli Débora Dalbosco Dell’Aglio Steve Herman Situações envolvendo denúncias de abuso sexual são comumente encaminhadas para avaliação psicológica no contexto judiciário (DAMMEYER, 1998; FINNILÄ-TUOHIMAA et al., 2005; HERMAN, 2010; STEIN; PERGHER; FEIX, 2009). É bastante compreensível tal demanda tendo em vista a complexidade dos casos e a ausência ou escassez de evidências fortes que comprovem o fato e a autoria desse crime (ECHEBURÚA; SUBIJANA, 2008). O abuso sexual é de�nido pela World Health Organization (WHO) como comportamento de um perpetrador, homem ou mulher, que submeta a criança ou adolescente à atividade de cunho sexual para a qual a vítima não pode consentir (WHO, 2006). A criança ou adolescente vítima não compreende as ações às quais está sendo submetida e não está preparada nem em termos de seu desenvolvimento físico tampouco em termos de seu desenvolvimento psicológico. O abuso sexual é de�nido a partir de um espectro ampliado de comportamentos que podem ou não envolver contato físico entre agressor e vítima. Práticas voyeuristas e exibicionistas, sejam ao vivo ou on-line, por exemplo, não envolvem contato físico, mas são claramente práticas inadequadas para crianças e adolescentes, com prejuízos potenciais para tais vítimas. Comportamentos que envolvem contato físico também podem ser abusivos, como toques e carícias no corpo com intenção sexual, além de intercurso sexual de qualquer natureza. No Brasil, a Lei 12.015, de 07 de agosto de 2009, alterou o Código Penal de 1940, atualizando as classi�cações para os crimes contra a liberdade sexual (BRASIL, 2009). Atualmente, portanto, é considerado “estupro”: a) Art. 213: “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso”; b) Art. 215: “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou di�culte a livre manifestação de vontade da vítima”. Outro crime contra a liberdade sexual é de�nido como “crime sexual contra vulnerável” e inclui: a) Art. 218: “induzir alguém menor de 14 anos a satisfazer a lascívia de outrem”. Por sua vez, o “estupro de vulnerável” inclui: a) Art. 217: “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos”; b) Art. 218A:“praticar, na presença de alguém menor de 14 (catorze) anos, ou induzi-lo a presenciar, conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a �m de satisfazer lascívia própria ou de outrem”; c) Art. 218B: “submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou de�ciência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou di�cultar que a abandone” (BRASIL, 2009). Percebe-se, portanto, que a legislação nacional trata do tema de�nindo o que é tecnicamente chamado ‘abuso sexual’ como ‘ato libidinoso’ ou ‘conjunção carnal’. Tais expressões merecem esclarecimentos. Ato libidinoso é diverso de afetividade. Diz respeito à saciação da luxúria e da lascívia humanas, essas compreendidas como o apego a prazeres carnais, sexualidade e condutas que se distanciam da moralidade. Como é possível depreender, cabem certas críticas a essa formulação penal brasileira, tendo em vista que não de�ne claramente os fatos que podem ser enquadrados nessa tipi�cação. Além disso, entende-se que um Estado que se julga laico não deveria ter em sua legislação conceitos que estão mais ligados a uma ordem religiosa do que a um estatuto cientí�co. Greuel e Carls (2010) tecem críticas ao conceito de ato libidinoso quando a�rmam que tal conceito não apresenta abrangência determinada na lei. A ressalva teórica sobre tais de�nições se faz necessária uma vez que o trabalho do psicólogo no contexto judiciário se dá exatamente na interface entre duas pro�ssões que têm dialogado de maneira insu�ciente (COSTA; LEGNANI; ZUIM, 2009; PELISOLI; DELL’AGLIO, 2014). O uso de diferentes conceitos é aquilo que este capítulo apresenta como o primeiro erro nas avaliações envolvendo situações de abuso sexual. Considera-se aqui que o erro, portanto, já começa na própria legislação brasileira, quando falha em de�nir com clareza quais os comportamentos considerados sexualmente abusivos. Entretanto, além da falha legislativa, na pesquisa acadêmica também há divergências quanto aos conceitos utilizados para de�nir abuso sexual. O estudo de Polanczyk et al. (2003, p. 10) investigou a prevalência de violência sexual contra adolescentes em Porto Alegre e, para isso, utilizou três questões, a saber: “Você foi sexualmente atacado, molestado ou estuprado?” “Você viu alguém ser sexualmente atacado, molestado ou estuprado?” “Você conhece alguém que foi sexualmente atacado, molestado ou estuprado?”. Os resultados do estudo indicaram que 2,3% responderam a�rmativamente à primeira pergunta, 4,5% à segunda pergunta e 27,9% à última pergunta. Dessa forma, considera-se uma prevalência de vitimização de violência sexual de 2,3% num total de 1.193 adolescentes de escolas estaduais de Porto Alegre. Entretanto, ressalta-se que o conceito utilizado no estudo era de ‘ataque sexual’, ‘moléstia’ ou ‘estupro’. Trata-se de um conceito restrito de abuso sexual, incluindo poucos comportamentos do perpetrador em direção à vítima, sendo esses comportamentos mais agressivos e invasivos. Barros, Williams e Brino (2008), por sua vez, utilizam a de�nição do Ministério da Saúde, que entende o abuso sexual como abuso de poder, em que a(o) criança/adolescente é utilizada(o) para grati�cação do outro através da indução de práticas sexuais com ou sem violência física. De forma semelhante, tais ‘práticas sexuais’ não são claramente de�nidas, di�cultando assim o entendimento de quais comportamentos seriam abusivos de fato. Ainda assim, esse conceito é intermediário, na medida em que amplia em relação ao anterior, mas não é tão abrangente quanto o apresentado pela WHO. Por outro lado, alguns outros estudos indicam um conceito mais semelhante àquele proposto pela WHO (HABIGZANG; RAMOS; KOLLER, 2011; SCHAEFER; ROSSETTO; KRISTENSEN, 2012). Além da falta de clareza na de�nição de comportamentos envolvidos no abuso sexual, a de�nição da faixa etária considerada vítima também não está clara para o esclarecimento desse que é um crime importante e prevalente no país e em vários outros lugares do mundo. No Canadá, crianças menores do que 12 anos de idade são automaticamente consideradas incapazes de consentir atividades sexuais, sendo considerado abuso toda e qualquer prática envolvendo esses sujeitos. Entre doze e catorze anos, se a ‘relação’ tiver ocorrido com um par, ou seja, alguém até três anos mais velho, pode ser considerada de outra maneira. Já no Brasil, menores de 14 anos são considerados incapazes de consentir, assim como uma pessoa portadora de de�ciência mental ou que, por algum motivo, não possa oferecer resistência (BARROS; WILLIAMS; BRINO, 2008). Dessa forma, existe uma lacuna na legislação a respeito de adolescentes com mais de 14 anos, bem como a respeito de uma possível diferença de idade entre vítima e perpetrador. Tais lacunas, muitas vezes, fazem com que os pro�ssionais e até mesmo a sociedade entendam que existe um consentimento prévio dado apenas pelo fato de ser adolescente, o que é uma inverdade. O fato de ter mais idade, ou mais conhecimento e capacidade de compreensão, não garantem a não vitimização, especialmente quando se refere a crianças e adolescentes. Adolescentes e mulheres adultas costumam sofrer um julgamento social quando sofrem violência sexual pelo simples fato de ou já terem noções sobre sexo ou já terem, em seu passado, relacionamentos sexuais. Ora, o fato de ter tido relações sexuais por vontade própria não signi�ca que há consentimento naquela relação especi�camente, ou que há consciência quanto às repercussões de tal ato. Considerando que o psicólogo judiciário deve tanto compreender as leis quanto conhecer as pesquisas a respeito dos temas com que trabalha, identi�cam-se contrariedades tanto em uma área (legislação) quanto em outra (pesquisa). Na legislação, os principais problemas são, portanto: a) não apresentar especi�cidade em relação aos comportamentos considerados abusivos; b) apresentar uma lacuna na de�nição da faixa etária considerada vítima, esclarecendo a questão do consentimento em maiores de 14 anos. Na pesquisa, ressalta-se que diferentes estudos utilizam conceitos de violência sexual menos ou mais ampliados e abrangentes, implicando em resultados possivelmente diversos. Nesses casos, sugere-se que, ao realizar um estudo, sempre se deixe claro que conceituação de abuso sexual é utilizada pelos autores. Outro problema comum encontrado na prática das avaliações forenses de abuso sexual é a equação simples, porém errônea, que associa a experiência de abuso sexual à manifestação de sintomas de diferentes ordens: é o segundo erro, frequentemente cometido por psicólogos e outros pro�ssionais que avaliam tais situações. A princípio, cabe ressaltar que abuso sexual é um evento de vida, e não um diagnóstico (KUEHNLE, 1998). Isso signi�ca que pode ou não ocorrer no curso de vida de uma pessoa e que não apresenta um conjunto de sinais e sintomas que pertencem única e exclusivamente a esse evento. Segundo Everson e Sandoval (2011), não há uma síndrome especí�ca do abuso sexual e, portanto, as mesmas evidências podem gerar diferentes conclusões. A complexidade é tal que há a possibilidade de que vítimas não apresentem nenhum sintoma, enquanto que, por outro lado, podem ser observados sintomas e quadros psicopatológicos em não vítimas (GAVA, 2012). Os diagnósticos de transtornos relacionados a traumas e a estressores, dos quais fazem parte o Transtorno de Estresse Agudo (TEA) e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), são possibilidades para vítimas de abuso sexual assim como são para outras vítimas de eventos traumáticos. Tais diagnósticos consideram necessária a exposição a um evento, em primeiro lugar, e o sofrimento psicológico subsequente, que pode ser bem variável (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014). O TEA e o TEPT incluem sintomas de revivência, comportamentos de evitação, alterações de humor, sintomas de excitação e dissociativos. Entretanto, não serão todas as vítimas de abuso sexual que apresentarão taissintomas. Dessa forma, deve-se ter claro que os transtornos relacionados a traumas e a estressores são de fato diagnósticos, porém, abuso sexual é um evento que pode ou não desencadear tais quadros (entre outros possíveis). A associação sintoma-evento (FINNILÄ-TUOHIMAA et al., 2005) é uma armadilha em que caem muitos pro�ssionais. A literatura apresenta um conjunto abrangente de sintomas que podem ser associados à vitimização por abuso sexual. Consequências de diferentes ordens (cognitiva, afetiva, física, comportamental...) podem de fato surgir após o evento traumático (MYERS, 2006; PAOLUCCI; GENIUS; VIOLATO, 2001; PÉREZ-FUENTES et al., 2013; SERAFIM et al., 2011; WONDIE et al., 2011). Isso signi�ca que quando são identi�cados sintomas, eles podem ser decorrentes da suposta violência sexual, podem ser decorrentes de alienação parental ou ainda de outro evento, violento ou não, como um luto, por exemplo. Quando não há sintomas, por outro lado, não signi�ca que não ocorreu abuso. Da mesma forma, como não há equação linear evento-sintoma, não se pode concluir que não havendo sintoma não há evento. É possível que a pessoa vitimizada apresente recursos pessoais e�cientes, como estratégias de coping adaptativas e processos de resiliência, assim como fatores protetivos, tais como a rede de apoio, que possam contribuir para um enfrentamento positivo (SILVA; GAVA; DELL’AGLIO, 2013). Portanto, não há um quadro especí�co de sintomas que permita a identi�cação da ocorrência de abuso sexual, tendo em vista que os sintomas podem ter tido outras possibilidades desencadeante(s). A manifestação de consequências negativas para a vítima depende de fatores, como características individuais da vítima, características do abuso e da rede externa de apoio (BORGES; ZINGLER, 2013; COHEN; MANNARINO, 2000; SANTOS; DELL’AGLIO, 2009). Identi�car sinais e sintomas é uma habilidade essencial tanto para o psicólogo clínico quanto para o psicólogo judiciário. Entretanto, é também essencial compreender que existem duas lógicas diferentes e que o funcionamento do Poder Judiciário é diferente dos fundamentos da clínica psicológica. A confusão entre papéis e lugares do psicólogo de�ne o terceiro erro nas avaliações. No senso comum ou para a população geral, a �gura do psicólogo é representada de uma maneira limitada, geralmente restrita a um consultório, em seu papel estritamente clínico. A clínica foi e continua sendo, de fato, uma das principais áreas da Psicologia (BASTOS; GOMIDE, 1989; BASTOS; GONDIM; BORGES-ANDRADE, 2010). Entretanto, a Psicologia Forense ou Jurídica tem crescido de uma maneira signi�cativa, bem como outras áreas da Psicologia. Dessa forma, o papel do psicólogo já não é mais um só e não é possível, diante desse crescimento, pensar que existe apenas um ‘per�l’ de pro�ssional dessa área. Além das representações sociais comuns à população geral, pro�ssionais que atuam em interface com a Psicologia também costumam cometer erros por não saber exatamente as habilitações, as potencialidades e os limites dessa área. Muitas vezes, costumam ter a ideia de que a formação generalista dos cursos de graduação possibilita a atuação em qualquer área, o que é uma inverdade, especialmente nesse contexto contemporâneo de crescimento e ampliação do mercado de trabalho e das demandas à Psicologia. Especi�camente no contexto forense, a confusão entre esses papéis não ocorre somente com os operadores do Direito, que, por serem de outra área, poderiam não compreender o papel do psicólogo nesse lugar, mas também ocorre com estudantes e pro�ssionais de Psicologia. Dessa forma, parece necessário um maior conhecimento por parte dos psicólogos quanto ao seu papel na Psicologia Forense ou Judiciária. O papel do psicólogo forense é auxiliar o sistema legal. A Psicologia é um instrumental para o qual o sistema legal recorre para chegar a resultados mais justos (HUSS, 2011). Segundo Mira y Lopez (2000), a Psicologia Jurídica é a Psicologia aplicada ao melhor exercício do Direito. Os juízes, �guras de autoridade e responsáveis por tomar decisões que não se limitam ao contexto do Fórum, mas que abrangem a vida das pessoas envolvidas em uma ação judicial, precisam de ajuda para realizar essa complexa tarefa (PELISOLI; DELL’AGLIO, 2014). Em muitas circunstâncias, informações de ordem psicológica fazem diferença na tomada de decisão de juízes e, portanto, das pessoas (ou partes). Para obter essas informações, os operadores do Direito têm demandado à Psicologia a remessa de documentos, principalmente, mas também o testemunho em audiências. Entretanto, em muitos casos, quando não há um psicólogo ocupando um cargo dentro do Poder Judiciário ou que tenha sido nomeado para realizar uma perícia psicológica, pro�ssionais que atuam em outros contextos, como o da saúde, o da educação, entre outros, são também chamados para compartilharem informações que se façam relevantes ao caso. Nas avaliações periciais, a objetividade do pro�ssional deverá ser uma característica que lhe ajude a fornecer informações fundamentadas, uma vez que a exigência é de um padrão elevado de precisão e relevância dos dados coletados (HEILBRUN et al., 2003). Deve haver clareza, entretanto, sobre o papel de um documento elaborado por um perito, seja nomeado ou o�cial, e por outro psicólogo, que atue no contexto clínico, por exemplo. O primeiro tem valor pericial, contando como prova pericial. O segundo apresenta um valor documental e não requer imparcialidade, uma vez que o pro�ssional pode ser um terapeuta com vínculo com uma das partes, por exemplo. A avaliação psicológica clínica busca coletar dados para a compreensão do funcionamento psicológico de um examinando (HUSS, 2011). Geralmente, nesse contexto, o avaliando tem o interesse de estar ali - buscou por sua própria vontade na maioria dos casos - e percebe necessidade de mudança. Ele e/ou sua família estão cientes de um problema que pode ser mais especí�co do indivíduo ou da família. Estão, portanto, com maior probabilidade de compartilhar informações verdadeiras, uma vez que seu interesse é a melhora de uma situação con�ituosa/crítica/difícil ou traço de personalidade que tem lhe trazido prejuízos. Por sua vez, no contexto judiciário, podem existir interesses que levem o examinando e/ou sua família a omitir informações, negar, mentir. A atenção a fenômenos como simulação e dissimulação é incentivada por autores da área, uma vez que eles são mais provavelmente frequentes em avaliações forenses do que clínicas (LAGO; BANDEIRA, 2009). A simulação ocorre quando o sujeito produz ou exagera sintomas, enquanto a dissimulação ocorre quando o sujeito busca esconder uma patologia ou problema, tendo em vista seus �ns particulares. Ocorre que os sujeitos avaliados por um pro�ssional perito, de con�ança do juiz, compreendem que os resultados de uma perícia podem ou não servir aos seus próprios interesses, ou seja, os interesses do periciado (HEILBRUN et al., 2003). Podem estar presentes in�uências sociais que levam a vieses nas respostas apresentadas, com a presença de informações numa direção favorável ao examinando, que se caracterizam como respostas socialmente aceitáveis (GOUVEIA et al., 2009). Dessa forma, as implicações da avaliação psicológica no contexto judiciário, como se pode depreender, são outras: enquanto no contexto clínico há implicações restritas ao indivíduo, sua família e seu entorno, no contexto judiciário, pode haver implicações sobre a sociedade (HUSS, 2011). Segundo Huss (2011), as avaliações terapêuticas e forenses distinguem-se em diferentes aspectos. Um desses aspectos é o objetivo de tais avaliações: enquanto as clínicas buscam reunir informações para reduzir o sofrimento psicológico, as forenses buscam resolver uma questão legal. Outro aspecto fundamental diz respeito à relação entre o pro�ssional e o avaliando: na avaliação clínica, o cuidado e o apoio são esperados pelo avaliando em sua relação com o psicólogo; por sua vez, o psicólogo no contexto forense possui um foco na investigação a partirde informações objetivas. O ‘cliente’ na clínica é um, enquanto na avaliação forense é o Poder Judiciário (HUSS, 2011) ou a própria sociedade (ECHEBURÚA; SUBIJANA, 2008; ROVINSKI, 2007). Na avaliação clínica, a perspectiva do examinando é a principal, ou seja, é a sua ‘verdade’ que importa. Na avaliação forense, é necessário um exame mais minucioso e a verdade objetiva ganha mais valor. Nesse sentido, a precisão das informações acaba sendo uma exigência bem maior no contexto forense, quando comparado ao contexto clínico (HUSS, 2011). Pro�ssionais que possuem experiência em um determinado tipo de caso, muitas vezes, tornam-se reconhecidos por serem ‘especialistas’. Isso ocorre tanto no contexto clínico quanto no judiciário. Os psicólogos, por trabalharem e/ou publicarem sobre determinado tema passam a ser considerados experts. No caso do trabalho com abuso sexual, isso não é diferente e muitos pro�ssionais brasileiros se tornam conhecidos nesse contexto. Porém, o fato de trabalhar e estudar garante que o julgamento desse expert esteja sempre correto? O fato de o expert dar certeza de que o fato ocorreu signi�ca que de fato ocorreu? Essa é uma seara complicada, porém, é importante considerar que alguns pro�ssionais sentem-se muito capazes de ‘detectar’ casos difíceis, incluindo os de abuso sexual, e a supercon�ança é o quarto erro cometido por psicólogos avaliando essas situações (POOLE; LAMB, 2009). Trabalhar com tais casos, estudá-los e publicar sobre o tema é altamente desejável. A quali�cação dos pro�ssionais passa por essas tarefas e habilidades, e é muito do que a área precisa para que ocorra o aperfeiçoamento necessário. Um exemplo simples, porém com impacto relevante, é explicitado na narrativa que segue: certa vez, em um serviço de saúde, uma psicóloga recebeu uma ligação de uma escola. Era uma professora que fazia um curso de violência e estava preocupada com uma aluna. A menina já havia sido vítima de abuso sexual, e a professora estava certa de que ela continuava sendo vítima, uma vez que a menina vinha muito maquiada para a sala de aula. Para essa professora, a super maquiagem da aluna de seis anos era um comportamento hipersexualizado que, conforme fora por ela aprendido, era típico de abuso sexual. De posse de tal conhecimento, a professora se mostrava certa de que o evento continuava a ocorrer. Ela desconsiderou, entretanto, aspectos típicos do desenvolvimento infantil feminino, uma vez que as meninas costumam exagerar nas maquiagens após ganharem novos estojos. Casos como esse demonstram que a autocon�ança pode ser positiva na vida pessoal e no trabalho, mas que é preciso observar aquilo que os autores têm chamado de supercon�ança: entendida como uma habilidade superior de detecção de situações complexas em função de sua experiência e/ou conhecimento. A pesquisa aponta que se sentir mais con�ante em sua habilidade, ter mais experiência com determinados casos não impacta de forma signi�cativa a acurácia da avaliação, ou seja, não faz com que o pro�ssional tenha mais e�ciência na avaliação de seus casos (POOLE; LAMB, 2009). O quinto erro na avaliação de situações de abuso sexual envolve não identi�car possíveis crenças e vieses cognitivos do próprio avaliador, que são capazes de in�uenciar sua conduta. Everson e Sandoval (2011) investigaram como as crenças de pro�ssionais poderiam in�uenciar as avaliações sobre situações de abuso sexual realizadas por eles. Participaram desse estudo 1.106 pro�ssionais da área de maus-tratos, que demonstraram apresentar as seguintes crenças: “se a vítima reluta em revelar, tem mais chance de não ter sofrido abuso”; “se eu for cometer um erro, é melhor cometer um erro em favor da vítima”; “tendo dúvidas, melhor absolver o réu” (EVERSON; SANDOVAL, 2011, p. 289-290). Essas frases traduzem crenças que vão in�uenciar em tomadas de decisões clínicas de pro�ssionais avaliadores. Além de crenças como essas, vieses cognitivos como atalhos mentais também exercem in�uência. Isso signi�ca que a forma como processamos a informação em nosso cérebro vai fazer com que compreendamos a situação de uma ou outra maneira. As heurísticas da representatividade e da disponibilidade são atalhos mentais que usam algum nível de informação para tomar decisões, mas não englobam toda a informação possível disponível para executar tal tarefa. Assim, tomamos decisões considerando alguns dados, mas não todos os possíveis, o que certamente aumenta a chance de erro (STERNBERG, 2001). Quando usamos o atalho da representatividade, podemos utilizar a informação mencionada no segundo erro para decidir sobre o evento do abuso sexual. Por exemplo, um ‘atalho’ simples seria compreender que, se alguns sintomas e dinâmicas são muito representativos de abuso sexual, portanto, o evento realmente ocorreu. O risco é considerarmos padrões representativos como apresentando mais chance de ter de fato ocorrido e deixarmos de lado situações pouco representativas, desacreditando em sua veracidade (FINNILÄ-TUOHIMAA et al., 2005). Por sua vez, quando usamos o ‘atalho’ da disponibilidade, utilizamos informações que estão disponíveis na nossa memória para decidirmos sobre o evento que se apresenta no momento presente: ou seja, nos utilizamos do passado para responder sobre o presente. As informações passadas que utilizamos incluem fenômenos que são salientes à memória e que estão facilmente disponíveis, ou seja, de que lembramos facilmente. Um pro�ssional que atendeu inúmeros casos de abuso ou que atendeu alguns casos que realmente lhe sensibilizaram, por exemplo, lança mão dessas experiências que vão ser recuperadas na memória e entende o novo caso, comparando-os a esses antigos. Segundo Poole e Lamb (2009), isso explica porque pessoas com muita experiência em um determinado problema acabam diagnosticando esse mesmo problema mais do que o esperado. O sexto erro de pro�ssionais que avaliam situações de abuso sexual envolve não considerar outras in�uências, como sexo, idade e pro�ssão, que podem implicar uma tendência a conduzir e a perceber a situação diferentemente. Mulheres, pessoas mais jovens e assistentes sociais, apresentam maiores chances de acreditarem que um caso de abuso realmente aconteceu. O comportamento tipicamente feminino nesses casos é colocar-se no lugar da criança, defendendo-a, numa atitude com uma tendência pró-criança. Esse tipo de comportamento foi percebido em estudos de júris simulados e também em audiências reais. Dessa forma, mulheres nos lugares de pro�ssionais que avaliam ou de operadores do Direito apresentam uma chance maior de considerarem o réu realmente culpado (FINNILÄ-TUOHIMAA et al., 2005; POZZULO et al., 2010). O sexo também in�uencia a maneira de conduzir a entrevista. Lamb e Garretson (2003) conduziram um estudo analisando as investigações de abuso sexual e a possível interferência do sexo do entrevistador e do entrevistado. Os resultados indicaram que as mulheres que entrevistam fazem uma quantidade maior de perguntas abertas e sugestivas para os meninos do que quando entrevistam meninas. Por sua vez, os entrevistadores homens conduzem as entrevistas de uma forma mais homogênea, sem sofrer in�uência pelo sexo do entrevistado. Uma tendência pró-criança também ocorre com assistentes sociais, quando comparados a psicólogos e psiquiatras, e com pessoas mais jovens quando comparadas a outros grupos etários. Esses resultados indicam que, diante de um caso, assistentes sociais e pessoas mais jovens tendem a considerar mais o réu de fato culpado. Além do sexo do pro�ssional, o sexo do perpetrador também tem in�uenciado as decisões sobre situações de abuso sexual. Os homens são os principais perpetradores desse crime e abusadoras mulheres são raras. Entretanto, quando um caso de abuso sexual infantil (ASI) é apresentado envolvendo uma perpetradora mulher, ele é considerado menos grave ou, até mesmo, é motivo de piada entre os adultos (GOLDING et al., 2003; PETERS, 2001). Por último, o sétimo erro diz respeito a aspectos técnicos da avaliação e envolve limitara avaliação a apenas uma fonte de informações sobre o caso, bem como utilizar instrumentos inadequados e entrevistas sugestivas. Os estudos têm demonstrado que nas avaliações de abuso sexual os pro�ssionais limitam suas entrevistas às �guras da mãe e da criança/adolescente vítima, deixando de incluir outras pessoas. Informações relevantes sobre o caso podem ser trazidas por outros familiares, professores, babás e outros pro�ssionais que, por ventura, atendam a família, e por isso devem ser incluídos no processo. Além disso, o réu ou suposto abusador é entrevistado em pouco mais da metade dos casos, reforçando o que a literatura já apresenta a respeito de uma negligência em relação a essas pessoas (DELL’AGLIO; MOURA; SANTOS, 2011; MOURA; KOLLER, 2008). Estudo recente indicou que psicólogos brasileiros realizam avaliações com um uso restrito de instrumentos (PELISOLI, 2013). Os pro�ssionais indicaram permanecer utilizando muito mais técnicas tradicionais do que novas ferramentas, como, por exemplo, utilizam muito mais entrevista lúdica/hora do jogo do que entrevista cognitiva, ainda que esta tenha maior sustentação empírica (FISHER; GEISELMAN, 2010; KÖHNKEN et al., 1999; MEMON et al., 2010; OLAFSON, 2007; PERGHER; STEIN, 2005). A entrevista é o principal instrumento utilizado por psicólogos. A maior parte dos avaliadores entrevistam a criança/adolescente vítima e um cuidador não abusivo, porém fazem um menor uso de outros recursos, como instrumentos psicométricos (12,7%) e projetivos (51,6%) (PELISOLI, 2013). Ainda que seja o método mais antigo e individualizado utilizado por psicólogos na avaliação psicológica (CUNHA, 2002) e apresente referências na literatura brasileira guiando sua utilização nessa população (HABIGZANG et al., 2008), é questionável quando a entrevista é utilizada de uma forma não estruturada. A tendência é que uma entrevista não estruturada seja pouco �dedigna (CUNHA, 2002). Por tal motivo, entrevistas estruturadas têm ganhado espaço na investigação de suspeita de abuso sexual, obtendo sustentação empírica em diferentes países, como pode ser observado na revisão realizada por Williams et al. (2014). No estudo de Pelisoli (2013), a entrevista cognitiva é utilizada sempre, em todos os casos, por 17,9% dos psicólogos; muitas vezes, em diversos casos, por 12,1% dos psicólogos e, às vezes, em alguns casos, por 11,6% dos psicólogos. O Protocolo NICHD é um protocolo estruturado de entrevista investigativa desenvolvido pelo National Institute of Child Health and Human Development (LAMB et al., 2008; LAMB et al., 2007). A entrevista consiste em uma fase introdutória de apresentação do entrevistador e esclarecimento sobre mentira e verdade, sobre a descrição detalhada dos eventos e sobre a possibilidade de dizer ‘não sei’ como resposta a questionamentos do entrevistador. O estabelecimento de um vínculo entre o entrevistador e a criança é o objetivo seguinte, abordando temas neutros. Esse relato serve como um ‘treino’ em relação à quantidade e à qualidade das informações propiciadas pela criança. Quando a entrevista entra em sua etapa de coleta da informação sobre o evento que é seu foco, as perguntas são não sugestivas e abertas, buscando a recuperação livre da memória da criança. Ao �nal da entrevista, deve-se retomar os temas neutros, agradecer a criança e perguntar se ela tem algo mais a dizer, respondendo a qualquer pergunta que surgir. O Protocolo NICHD tem obtido sustentação empírica em diversos países, como pode ser visto na recente revisão de Williams et al. (2014). A aplicação desse instrumento em casos de suspeita de abuso sexual tem propiciado respostas mais extensas e detalhadas, propiciando respostas de qualidade superior, independente da idade. As crianças mais velhas revelam mais o abuso sexual e fornecem mais detalhes do que as mais novas. Além disso, o protocolo estruturado minimiza a in�uência de variáveis como o sexo do entrevistador e o sexo do entrevistado, uma vez que propõe os questionamentos de maneira ordenada e previamente estabelecida (WILLIAMS et al., 2014). Instrumentos com base empírica estabelecida, como o NICHD, devem ter cada vez mais espaço nas entrevistas envolvendo situações de abuso sexual, tendo em vista a maior quantidade e qualidade de informação, bem como a �dedignidade do protocolo. Considerações �nais Este capítulo abordou sete erros comuns realizados por pro�ssionais que conduzem a avaliação de casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Considerando que tais avaliações são cada vez mais demandadas pelo Poder Judiciário, seja na fase pré-processual ou processual, se torna essencial a capacitação e quali�cação de diferentes pro�ssionais do setor técnico, como assistentes sociais e psicólogos, e também de operadores do Direito, no sentido de compreenderem os papéis, os limites e as possibilidades da atuação e das avaliações desses casos. As diferentes conceituações presentes na literatura, sobre a de�nição de abuso sexual e da faixa etária da vítima, podem implicar confusões quando da avaliação de uma suposta violência. A ausência de mais esclarecimentos na legislação brasileira também contribui para que constantes comentários como ‘só passou a mão’ ou ‘tentou abusar’ (quando não houve intercurso completo) continuem a ocorrer no cotidiano de serviços da Saúde, da Educação, da Justiça, entre outros. O avanço legislativo recente certamente não foi capaz de explorar todas as possibilidades de comportamentos abusivos, deixando brechas que podem manter impunes agressores sexuais e desprotegidos crianças e adolescentes vítimas. Dessa forma, é importante que ao produzir um documento técnico, artigo ou em diálogo com colegas e com a população, sempre �que claro a) o conceito que fundamenta nosso entendimento sobre o caso e b) que comportamentos especí�cos apresentados con�guram o abuso sexual ocorrido. Além de tornar claras as de�nições em que se baseiam nosso trabalho, é necessário deixar evidente em nossa avaliação os possíveis prejuízos que a vítima esteja sofrendo, sejam cognitivos/acadêmicos, afetivos, sociais, físicos etc. A informação sobre o dano é relevante em todos os contextos, tanto para justi�car encaminhamentos e uma intervenção psicossocial, quanto para justi�car medidas de proteção à vítima e à família e responsabilização do réu. Entretanto, deve-se ter cuidado ao observar outros possíveis desencadeadores de tais prejuízos, que podem advir de outros eventos negativos, como alienação parental, luto, formas de violência diversas do abuso sexual, entre outros. A associação direta entre sintomas e abuso sexual não é �dedigna o su�ciente, ainda mais se o pro�ssional desconsiderar os fatores de proteção que acabam atuando como mediadores dessas consequências, como aspectos individuais, do abuso e da rede de apoio. Abordou-se, neste capítulo, a diferença entre o papel clínico e o papel forense, compreendendo esse último como imparcial e de auxílio ao sistema legal. Ao atuar como psicólogo jurídico e ter como cliente o Poder Judiciário e a sociedade, isso não signi�ca não colocar a criança/adolescente em primeiro lugar ou não ‘cuidar’. Ocorre que se trata de outra forma de cuidado, uma vez que a inserção de pro�ssionais como o psicólogo e o assistente social contribui para a humanização dos procedimentos do Poder Judiciário, dando outra forma de entendimento aos operadores do Direito e também fazendo um acolhimento diferenciado para seus usuários. Humanizar a Justiça não signi�ca dar certeza sobre a ocorrência dos eventos, mas acolher as pessoas e, ao mesmo tempo, ajudar a Justiça, em seu sentido mais amplo. Para isso, é necessário ter uma postura acolhedora que não combina com a supercon�ança descrita neste trabalho. Além de compreender as diferenças entre esses papéis, cabe aos pro�ssionais que avaliam tais situações considerarem possíveis in�uências que podem sofrer, como aquelas relativas a sua própria pro�ssão, sexo e idade e também aquelas relativas ao seu processamento cognitivo. Crenças comumente in�uenciamas decisões sobre as situações de abuso sexual, como observado neste trabalho, além do próprio funcionamento cognitivo humano, que é limitado, e que pode apresentar di�culdade para lidar com uma grande quantidade de informação. Dessa forma, é importante que o pro�ssional saiba a) dissociar suas características das características e da dinâmica do caso e b) buscar e organizar a informação de maneira a maximizar seu potencial decisório. A busca de informação é muito potencializada pelo uso mais farto de recursos e instrumentos da Psicologia e também pelo envolvimento de mais pessoas no processo de coleta de dados. Limitar a avaliação a uma ou duas pessoas e a um instrumento, como a entrevista não estruturada, reduz a �dedignidade dos documentos produzidos e, por consequência, não contribui da maneira como poderia para as decisões realizadas no âmbito judicial. Portanto, a qualidade das avaliações realizadas nessa área se torna fundamental. Se nosso papel é exatamente auxiliar o sistema legal, as demandas dessa área são crescentes e o papel dos pro�ssionais técnicos pode contribuir para embasar decisões mais justas sobre a vida das pessoas, sendo necessários investimentos na quali�cação da atuação tanto no nível individual quanto institucional. Referências AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION – APA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais e de comportamento. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. BARROS, R. D.; WILLIAMS, L. C. A.; BRINO, R. F. Habilidades de autoproteção acerca do abuso sexual em mulheres com de�ciência mental. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 14, n. 1, p. 93-110. 2008. BASTOS, A. V. B.; GONDIM, S. M. G.; BORGES-ANDRADE, J. E. O psicólogo brasileiro: sua formação e atuação pro�ssional. In: YAMAMOTO, O. H.; COSTA, A. L. F. (Orgs.). Escritos sobre a pro�ssão de psicólogo no Brasil. Natal: EduUFRN, 2010. p. 227-254. BASTOS, A. V. B.; GOMIDE, P. I. C. 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Luiz Carlos Osório1 A proposta deste capítulo é trazer re�exões sobre o trabalho da Psicologia com os adolescentes que cumprem medidas socioeducativas de internação, por terem cometido ato infracional. Procurou-se contextualizar este trabalho de acordo com as novas diretrizes das políticas públicas. Essas direções vêm sendo decorrentes e, ao mesmo tempo, produtoras de mudanças que giram em torno da avaliação dos efeitos dessas medidas para a vida dos adolescentes e para a sociedade atual. Coloca-se no horizonte um olhar para os adolescentes que cumprem medidas socioeducativas na posição de cidadãos de deveres e de responsabilidade pelos seus atos, mas também de atenção aos direitos humanos, à educação, à saúde, ao lazer e à cultura. Nesse contexto, o pro�ssional da Psicologia está diretamente envolvido com as incursões institucionais e manifestações dos adolescentes que passam a integrar o sistema. Isso implica que as ações da Psicologia precisam ser pensadas e compreendidas, juntamente às construções de novas formas de produzir encontros com esses adolescentes. Busca-se, ainda, uma lógica de abertura institucional, indo ao encontro das políticas de atenção aos adolescentes; da consideração da singularidade e de um fazer da Psicologia que não se restrinja a ações realizadas dentro da unidade de internação. É presente a necessidade de re�etir com a rede de atenção ao adolescente interna e externa às instituições. A socioeducação acontece no momento em que o adolescente se depara com o mundo social e com sua multiplicidade das relações sociais. A Psicologia pode contribuir abrindo espaços para que a palavra desse adolescente possa ser escutada em diferentes contextos, despertando nele o desejo de ir além do cenário de violência que o trouxe para a instituição. Cabe mencionar que esse texto foi escrito por autoras que, além da docência, atuam com adolescentes em medidas socioeducativas dentro de uma unidade de internação e em um Centro de Atenção Psicossocial da Infância e Adolescência (CAPSia). A partir disso, tem-se a intenção de apresentar uma articulação teórica que pode auxiliar na sustentação de uma prática orientada por uma visão do adolescente como sujeito. A violência é vista como fazendo parte de um processo psíquico e social. O sujeito será tratado na sua complexidade numa relação extensiva entre a singularidade e o social. O aspecto institucional será apresentado como fazendo parte da rede de atenção aos adolescentes, com a perspectiva da interdisciplinaridade e intersetorialidade, ligadas ao social e às políticas públicas. Pretende-se, assim, contribuir com a compreensão do trabalho da Psicologia nesse contexto. Uma breve contextualização A atuação do psicólogo com adolescentes que cumprem medida socioeducativa de internação encontra seu fulcro não somente no Código de Ética da pro�ssão e em seu referencial teórico e metodológico, mas também no marco legal, que surgiu a partir da Constituição Federal (BRASIL, 1988) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) (1990). Vislumbra-se um horizonte de democracia política no qual as crianças e adolescentes passam a ser concebidos como ‘sujeitos de direitos’ que devem ser tratados com prioridade absoluta (BRASIL, 1990). Para que a “Doutrina da Proteção Integral” (Ibid) possa ser colocada em prática são necessárias mudanças nas formas de perceber, compreender e agir dentro e fora das instituições, considerando também a opinião pública. Leva-se em conta a responsabilidade dos diferentes atores envolvidos, como os adolescentes, os familiares, os pro�ssionais, a sociedade civil. Implica transformar visões sustentadas por muito tempo por paradigmas repressores e assistencialistas que eram difundidos na “Doutrina da Situação Irregular” (BRASIL, 1979). A partir do ECA, quando um adolescente, de 12 a 18 anos, se envolve em um delito, esse passa a ser considerado um ato infracional. O ECA também prevê que possa ser aplicada uma medida socioeducativa para o adolescente, que poderá ser cumprida até os 21 anos de idade, quando será automaticamente extinta. Diferencia-se a forma de responsabilização dos adolescentes da proposta aos adultos, por considerar-se que estão em condição peculiar de desenvolvimento e que essa condição deve ser respeitada (BRASIL, 1990). O adolescente é uma pessoa que vive um momento de transição entre a infância e a fase adulta, que está buscando construir um novo lugar para si na sociedade, implicando assim a construção de perspectivas de vida. A medida socioeducativa de internação vem a ser uma medida extrema a ser tomada,visto que ela pressupõe a privação de liberdade e a limitação do direito de ir e vir. Essa medida poderá ser aplicada, somente, quando veri�cada a prática de ato infracional diante da autoridade competente, segundo o Art. 122 do ECA. É enfatizado que para ser aplicada a medida socioeducativa de internação, o ato infracional praticado pelo adolescente deve ser submetido ao devido processo legal e deve ser cometido mediante grave ameaça ou violência à pessoa. No processo, também é levada em conta a reiteração no cometimento de outras infrações graves, ou quando o adolescente descumprir reiterada e injusti�cavelmente outra medida socioeducativa mais branda anteriormente imposta. Quando a situação veri�cada não se adequar a nenhuma dessas hipóteses, deverão ser a ele aplicadas medidas socioeducativas mais brandas que não a privação da liberdade. Dessa forma, a proposta é que o direito à liberdade seja retirado somente em casos em que se justi�que essa medida extrema. Esse seria o princípio da excepcionalidade da medida socioeducativa, e, além dele, existe o da brevidade que enfatiza que a internação deve ser breve; não pode ser prolongada, e o trabalho socioeducativo deve ser realizado intensamente na instituição para que o tempo de internação possa ser abreviado. Outro aspecto importante, na aplicação da medida socioeducativa de internação, é a garantia de todos os outros direitos dos adolescentes, preconizados pelo ECA (BRASIL, 1990), como o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à pro�ssionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Compreende-se que a proposta da política de atendimento expressa nessa Lei é a de que a privação de liberdade seja utilizada como um recurso somente em casos em que for comprovada a sua necessidade. Tem-se como foco que a situação de cada adolescente seja devidamente examinada, de forma a impedir a aplicação da internação em situações que poderiam ser solucionadas sem restringir totalmente a convivência social do adolescente. Na medida de internação, objetiva-se desenvolver a socioeducação responsabilizando o adolescente pelos seus atos. No mesmo sentido, busca-se “preparar os jovens para o convívio social sem quebrar as regras de convivência consideradas como crime ou contravenção no Código Penal de Adultos” (COSTA, 2006, p. 57). A medida socioeducativa não é meramente sancionatória. Ela delineia uma série de práticas que buscam causar transformações no adolescente que se envolve com a violência. O ato infracional do adolescente passa a ser tomado como fazendo parte de uma vida, na sua singularidade associado a uma condição social. As práticas desenvolvidas na medida socioeducativa podem contribuir para a construção das políticas de atenção aos adolescentes, até mesmo para além desse sistema. Após um longo período de ausência de normativas com relação ao funcionamento da medida socioeducativa de internação, vive-se, atualmente, um período fértil no que tange o estabelecimento de programas e planos de trabalho que objetivam tornar realidade o que se encontra no texto da lei. Vem-se trabalhando em direção à construção de diretrizes condizentes com o marco legal em vigor. As diretrizes da política de atendimento, através do Sistema Nacional Socioeducativo (BRASIL, 2012), preveem a articulação dos distintos níveis de governo e da corresponsabilidade da família, da sociedade e do Estado demandando a construção de um amplo pacto social em torno do Sistema Socioeducativo. Pauta-se pela orientação de que nas medidas socioeducativas deva prevalecer um caráter sancionatório e educacional e de que todos os que trabalham em uma Unidade de Internação têm a função socioeducativa como inerente ao seu trabalho (COSTA, 2006). O SINASE também tem um importante papel em expressar e destacar, claramente, os objetivos da medida socioeducativa. 1. a responsabilização do adolescente quanto às consequências lesivas do ato infracional, sempre que possível incentivando a sua reparação; 2. a integração social do adolescente e a garantia de seus direitos individuais e sociais, por meio do cumprimento de seu Plano Individual de Atendimento (PIA); 3. a desaprovação da conduta infracional, efetivando as disposições da sentença como parâmetro máximo de privação de liberdade ou restrição de direitos, observados os limites previstos em lei. (BRASIL, 2012). Em 2013, foi formulado o primeiro Plano Nacional de Atendimento Socioeducativo, que era previsto pelo SINASE. A sua elaboração teve como base a realização de um diagnóstico da realidade do atendimento socioeducativo no país. Veri�cou-se, nesses últimos anos, em estudos e análises de práticas desenvolvidas, “o quanto o sistema socioeducativo ainda não incorporou nem universalizou em sua prática todos os avanços consolidados na legislação” (BRASIL, 2013). Buscando reverter esse quadro, estabeleceram-se no Plano Nacional de Atendimento Socioeducativo, diretrizes e eixos operativos para o SINASE que serão válidos nos próximos dez anos. Convém destacar que o Plano Nacional de Atendimento Socioeducativo apontou como sendo um dos seus principais objetivos articular e estabelecer com as demais políticas setoriais planos de ação para a socioeducação, assim como a elaboração de protocolos e �uxos de atendimento de forma intersetorial (BRASIL, 2013). A partir do Plano Nacional de Atendimento Socioeducativo deverão ser elaborados os Planos Estaduais e Municipais. Esses devem prever, obrigatoriamente, “ações articuladas nas áreas de educação, saúde, assistência social, cultura, capacitação para o trabalho e esporte, para os adolescentes atendidos” (BRASIL, 2012). A tarefa da socioeducação deve ser integrada com todas as políticas públicas, e não realizada somente pela instituição que executa as medidas socioeducativa, que, nesse caso, seria uma unidade de internação. A partir dessas normativas, a atenção à saúde do adolescente passa a ser consolidada, cada vez mais, com a ampliação do trabalho socioeducativo, que será realizado de forma intersetorial. A lei prevê ações que estão diretamente relacionadas à prática do psicólogo nos Centros de Atendimentos Socioeducativos. Trata-se de intervenções que podem ser realizadas por um pro�ssional que faz parte da instituição e também por um pro�ssional de um serviço pertencente à comunidade, da qual o adolescente é originário. Caracterizam-se, assim, possibilidades para a constituição de parcerias de trabalho para promover ações com os adolescentes da unidade de internação, que contemplem: [...] a implantação de ações de promoção da saúde, integrando as ações socioeducativas, estimulando a autonomia, a melhoria das relações interpessoais e o fortalecimento de redes de apoio aos adolescentes e suas famílias, assim como a proposta de inclusão de ações e serviços para a promoção, proteção, prevenção de agravos e doenças e recuperação da saúde. (BRASIL, 2012). Os cuidados especiais em saúde mental, incluindo situações de uso de álcool e outras substâncias psicoativas, e a atenção aos adolescentes com de�ciências, ocupam em lugar de destaque na legislação: “o adolescente em cumprimento de medida socioeducativa que apresente indícios de transtorno mental, de de�ciência mental, ou associadas, deverá ser avaliado por equipe técnica multidisciplinar e multissetorial” (Ibid.). A avaliação “subsidiará a elaboração e execução da terapêutica a ser adotada, a qual será incluída no PIA do adolescente, prevendo, se necessário, ações voltadas para a família” (Ibid.). A privação da liberdade, por si só, é geradora de sofrimento psíquico. É importante que os pro�ssionais possam considerar e reconhecer esse sofrimento nos processos de acompanhamento de saúde mental. Também deve ser levado em conta que os adolescentes que se envolvem com a violência apresentam necessidades especí�cas que estão relacionadas com a sua história de vida e o seu contextosocial. O PIA, na forma estabelecida pelo SINASE, é utilizado para: “previsão, registro e gestão de atividades a serem desenvolvidas com o adolescente” (BRASIL, 2012). O PIA é elaborado pela equipe técnica do programa de atendimento associado à realidade e às demandas de cada jovem. Além disso, ele propõe que sejam de�nidos objetivos e formas de responsabilização do adolescente e de sua família com relação ao cumprimento da medida socioeducativa. No caso dos adolescentes em privação de liberdade, é previsto o estabelecimento de metas para o adolescente obter uma progressão de medida socioeducativa. Propostas especí�cas de atenção à saúde, integração e capacitação pro�ssional também deverão ser explicitadas no PIA. Como o PIA é sempre apresentado obrigatoriamente ao Juizado da Infância e Juventude, ele é uma forma concreta de comunicação do Programa de Atendimento Socioeducativo com o Poder Judiciário, o que traz contornos e delimitações especí�cas em sua proposta. O Plano Individual de Atendimento poderá garantir uma série de direitos aos adolescentes e seus familiares, pois estará sendo �scalizado por uma autoridade. Além disso, o PIA convoca formas de responsabilização peculiares, pois tratam-se de compromissos assumidos pelo adolescente frente ao Poder Judiciário. Existe também a imposição de cumprimento do Plano como condição para uma autorização ao retorno ao convívio social. A tarefa dos pro�ssionais que atuam interdisciplinarmente e intersetorialmente nesse contexto é fazer com que o PIA, que foi homologado judicialmente, produza sentido para a vida do adolescente e que possa signi�car para ele uma possibilidade de futuro afastado dos atos de violência que o trouxeram para a instituição. Constitui-se um desa�o para os pro�ssionais que atuam com a medida socioeducativa de internação fazer com que o PIA proposto pelo adolescente, família e equipe, interdisciplinar e intersetorial, possa, de alguma forma, continuar produzindo sentido para a vida do adolescente. Ele será e�caz quando o adolescente perceber que as propostas apresentadas foram elaboradas a partir de uma perspectiva de um cuidado com ele. E que, além disso, possam potencializar a sua vida; criar oportunidades efetivas de reinserção social. Esse plano pode ter um lugar de destaque no que se refere à consideração da individuação e singularidade na construção do trabalho de socioeducação, bem como para a produção de sentidos da medida socioeducativa como validação de uma lei que exige, mas que também oferece o cuidado e valorização da vida. Psicologia e Medida Socioeducativa de Internação O psicólogo que venha a participar no contexto de trabalho da medida socioeducativa de internação precisa conhecer o cenário histórico e legal que orienta as políticas públicas que envolvem a atenção ao adolescente. Considera-se esse conhecimento um dos pontos de partida para que o pro�ssional da Psicologia possa situar-se frente às especi�cidades desse campo de intervenção. O papel do psicólogo merece ser retomado, nesse cenário, com uma breve contextualização histórica e algumas de�nições já estabelecidas. As ações da Psicologia, nesse campo, surgiram sem orientações especí�cas sobre o papel do psicólogo dentro de uma unidade de internação. O Programa de Execução de Medidas Socioeducativas e Internação e Semiliberdade do Rio Grande do Sul (GOV-RS, 2002) refere à ação do pro�ssional de Psicologia para a realização de avaliação que pudesse subsidiar a elaboração do Plano Individual de Atendimento (PIA), “�cando a seu critério a utilização de testes para auxiliar na compreensão da personalidade do adolescente” (GOV-RS, 2002). O PEMSEIS ainda refere que a principal forma de intervenção seria coletiva através de grupos terapêuticos e também traz a possibilidade de intervenção do pro�ssional na família do adolescente para compreensão da dinâmica familiar. Essas de�nições se deram num momento em que a inserção do psicólogo nas instituições de privação de liberdade era recente e ainda incipiente para adentrar na complexidade dada num Programa Socioeducativo. Essas práticas estavam focadas em uma lógica da Psicologia Clínica; elas seguiam o modelo que era fornecido aos psicólogos durante a sua formação, naquele período. Constituía-se um cenário de modelo técnico que também era demandado pelas equipes de trabalho e por diferentes instituições que mantinham relação com o sistema socioeducativo. Ao longo do tempo, novas perspectivas foram surgindo frente às novas concepções, orientadas pelas políticas públicas, e frente às demandas apresentadas pelos jovens e pela sociedade. Essas circunstâncias convocam inúmeras interrogações sobre as possibilidades de e�cácia do sistema socioeducativo; sobre a sua validade ou não para a vida dos adolescentes que passam a integrar o sistema durante meses ou até três anos; questiona-se até que ponto é possível a reabilitação e reinserção social do adolescente que passa a cumprir uma medida socioeducativa de internação. No Seminário Nacional: A Atuação dos Psicólogos junto aos Adolescentes Privados de Liberdade, promovido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2009), foram apresentados, discutidos e transformados em um relatório, novos pressupostos e diretrizes do atendimento do psicólogo. Encontra-se também “Referências técnicas para atuação de psicólogos no âmbito das medidas socioeducativas de internação” (CFP, 2010), deixando documentando e dando visibilidade ao que se espera do pro�ssional que atua em uma unidade de privação de liberdade de adolescentes. A dimensão ético-política do trabalho do pro�ssional na instituição é explicitada. Nesse contexto é importante a re�exão por parte dos psicólogos que trabalham em unidades de privação de liberdade sobre seu papel nesse sistema. O compromisso ético-político do pro�ssional psicólogo, cada vez mais implicado com as temáticas sociais, em especial com as medidas socioeducativas, supõe visão ampliada de sua função e atuação. Isso implica analisar o contexto social, a demanda por sua presença e a contribuição na política de atendimento ao adolescente autor de ato infracional que está em privação de liberdade. (CFP, 2010, p. 20). As interrogações que assim se colocam convocam, cada vez mais, um pro�ssional da Psicologia que participe da construção de um trabalho em equipe interdisciplinar como via de acessar a complexidade de um sistema socioeducativo de internação. A interdisciplinaridade é vista como forma de avançar no trabalho numa articulação entre os diferentes olhares e as diferentes possibilidades de intervenção no campo que cada área preconiza na sua especi�cidade. Entende-se que é na fronteira entre as áreas do conhecimento e a intervenção que avançamos no tratamento de questões humanas e sociais, e nesse caso na socioeducação. Considera-se um avanço o fato do pro�ssional se propor à construção de um trabalho em equipe interdisciplinar dentro da instituição, contando também com diálogo e articulações com diferentes setores da sociedade fora da instituição. Os diferentes setores visados para essa conjectura são aqueles que podem vir a contribuir para um olhar e possíveis intervenções para com os adolescentes no que antecede ou sucede ao sistema de socioeducação de internação. Destaca-se o trabalho de articulação com a rede interna e externa às unidades de atendimento socioeducativo, permeando a interdisciplinaridade e a intersetorialidade, como meio de auxiliar na construção da garantia dos direitos humanos do adolescente que se encontra privado de liberdade. As ações do pro�ssional, segundo as Referências Técnicas para Atuação de Psicólogos no Âmbito das Medidas Socioeducativas, apontam para o trabalho institucional sendo seu papel “contribuir para planejar, organizar, implementar, avaliar o cotidiano institucional que propicie experiências educacionais e terapêuticas signi�cativas para os adolescentes internados” (CFP, 2010). Essas ações devemser construídas juntamente com os demais membros da equipe interdisciplinar. Nesse processo, faz parte da prática do psicólogo auxiliar a promover uma abertura para o mundo extramuros “em dois sentidos, estabelecendo estratégias de movimento de fora para dentro e de dentro para fora” (CFP, 2010). Com relação às ações com os adolescentes e seus familiares é explicitada a importância da construção do PIA, levando em conta a história de vida e a situação atual do adolescente e de seu núcleo familiar. [...] o auxílio ofertado ao grupo de pertencimento do adolescente na construção de uma rede de apoio a ele é fundamental na construção e viabilidade do PIA. O bom Plano Individual de Atendimento se inscreve no presente (o que o adolescente fará ao longo do período de internação), mas não perde de vista o futuro do adolescente – o término do cumprimento da medida de privação de liberdade e o retorno produtivo à convivência coletiva –, �nalidade última do programa de execução da medida socioeducativa. (CFP, 2010). São inerentes também ao trabalho da Psicologia no âmbito institucional: o acolhimento e a escuta do adolescente sobre os seus con�itos e as di�culdades enfrentadas no cotidiano institucional. Da mesma forma, o apoio em seu processo de responsabilização e re�exão sobre as mudanças necessárias em sua vida para construir um projeto de vida afastado da violência e das práticas que o trouxeram para a instituição. No entanto, o tratamento em saúde mental, podendo contemplar a escuta individual ou em grupo no campo da Psicologia, ou se estendendo a outras áreas, quando recomendado e imprescindível àqueles adolescentes com sofrimento psíquico intenso, deverá ser realizado numa parceria entre o serviço de saúde mental da unidade socioeducativa com serviços especializados fora do espaço institucional. Compreendem-se assim as parcerias com os Centros de Atenção Psicossocial da Infância e Adolescência e/ou de Adultos (CAPS II, IA), dependendo da faixa etária e da posição subjetiva do adolescente; nesse sentido, compreendem-se também ambulatórios de saúde mental, entre outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A atuação do psicólogo apresentada no PEMSEIS (BRASIL, 2014) revisa a proposta apresentada em 2002 sendo elaborada em consonância com todas as novas normativas destacadas e deixa explícito que: [...] a realização do tratamento psicoterápico propriamente dito, mediante avaliação de critérios para encaminhamento, como todos os demais tratamentos, deverá ser providenciada na rede de atendimento externa, onde receberá o tratamento conforme o diagnóstico, cabendo aos pro�ssionais da área que integram a equipe técnica realizar o acompanhamento socioeducativo sistemático, reforçando os benefícios do tratamento psicoterápico. (BRASIL, 2014). Essas referências técnicas apontam tanto para o importante papel do pro�ssional nas unidades de internação, como também mostram os limites reais e necessários para as suas práticas. Propor ações de promoção em saúde mental em rede pode gerar uma potencialização do trabalho socioeducativo, realizado no âmbito institucional, oportunizando com que o adolescente possa também se perceber sendo acolhido e cuidado dentro e fora do espaço institucional. Dessa forma, trabalha-se com o vínculo antecipado de adolescentes a outros serviços que são importantes para o compartilhamento do cuidado socioeducativo e terapêutico. Preconiza-se a inserção do adolescente numa rede que está para além do sistema socioeducativo de internação, principalmente em casos de jovens que estão �nalizando o cumprimento da medida socioeducativa e necessitam da continuidade da atenção em saúde mental. Dentro disso, vale retomar a prerrogativa do PIA, que vem a ser um eixo que estrutura uma lógica de atenção e cuidado à individualidade do adolescente no sistema socioeducativo de internação. A individualidade aqui está associada à integralidade, princípio da saúde coletiva, bem como à consideração do adolescente com a sua singularidade, como sujeito e cidadão fazendo parte da sociedade contemporânea. Isso convoca mais uma vez o pro�ssional da Psicologia a uma posição de abertura para outros olhares em torno da individualidade do adolescente. A Psicologia é confrontada com os limites e as fronteiras das áreas da Enfermagem, da Assistência Social, do Direito, entre outras, que estarão voltadas a desenvolver o PIA. Nesse sentido, o pro�ssional da Psicologia vem a compor um coletivo entre pro�ssionais de cada Unidade de Internação, assim como com serviços da rede externa à Unidade. Trata-se de uma postura e prática pro�ssional que não retira a especi�cidade que concerne ao pro�ssional da Psicologia no que se refere à criação e sustentação de um espaço para a singularidade do adolescente em prol da promoção da vida. O trabalho do psicólogo é construído num coletivo, em equipe interdisciplinar e intersetorial, como já foi mencionado anteriormente. Considera-se que isso vem a fortalecer o lugar da Psicologia na sustentação de programas de socioeducação de internação. O adolescente e seus atos: ações de cuidado dentro e fora do espaço institucional O adolescente que chega a uma unidade de internação traz consigo uma história de vida marcada por sucessivas violências sofridas e atuadas. As violências sofridas traduzem-se em violações de seus direitos nas mais diversas ordens. As violências atuadas parecem ser uma das formas de comunicação do adolescente com o social. A re�exão sobre o momento de vida pelo qual o adolescente passa, que se dá em um tempo entre a infância e a fase adulta, pode auxiliar no entendimento de seu envolvimento com a violência em nossa sociedade. O ser humano, desde o seu nascimento, constitui sua subjetividade estabelecendo relações sociais essenciais para o seu desenvolvimento, sendo que, nos primeiros anos, se dá a constituição do sujeito em sua passagem pela infância. O infante, por volta de 12 anos, sendo que essa idade pode variar dependendo das suas vivências, começa a passar por momentos de perda do lugar de criança, dando sinais da adolescência. Costuma-se dizer que o adolescente passa por um luto pelo corpo infantil, que mobiliza a busca de uma nova posição referenciada ao adulto e ao desejo de ser adulto. Calligaris (2000), a partir de um olhar psicanalítico, explica que não existe um tempo de�nido para a adolescência e tampouco uma única forma de compreendê-la. Contudo, a adolescência é um momento em que o sujeito busca o reconhecimento de sua maturidade e a permissão de entrada no mundo dos adultos. “A adolescência é uma interpretação de sonhos dos adultos, produzida por uma moratória que força o adolescente a tentar descobrir o que os adultos querem dele” (CALLIGARIS, 2000, p. 33). Nesse sentido, a adolescência também é tempo de crise e de construção que inscreve o sujeito na temporalidade (há um antes e um depois) e coloca em prova a sua relação com Outro2. Do Outro sexo, mas também ao Outro da diferença social, da diferença de raça, da diferença da língua, da diferença de cultura. O corpo mesmo advém outro e o adolescente terá que subjetivar sua posição sexuada de homem ou de mulher. (LERUDE, 2007, p. 80, tradução nossa). Em meio a isso, são frequentes as crises, os con�itos, a instabilidade, o esvaziamento e o se colocar em risco. Os adolescentes colocam em prova a sua própria morte e vida para, a partir daí, encontrar/construir uma resposta particular frente à cultura. Isso implica um tempo de turbulência. Os atos transgressivos, frequentemente, são presentes na vida do adolescente, fazendo parte do movimento de colocar em prova a vida e a morte, diante do vazio que vive ao não poder ser mais criança e precisar redimensionar sua posição frente ao Outro. Esse movimento é intenso e contribui para a constituição da ideia do adolescente como sendo ameaçador da ordem estabelecida no social. Em se tratando dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativasde internação, salienta-se a relação da adolescência com a transgressão. Coloca-se assim uma complexidade para se pensar nesse adolescente. Ele convoca alguém que o auxilie no reconhecimento de um lugar para si e não o encontra. Na medida em que ele repete esse movimento de busca e não encontra o reconhecimento, seus atos vão se agravando, se tornando ameaçadores para sociedade. Winnicott (1999), em seus estudos sobre a relação entre a privação e a delinquência em adolescentes, refere que é importante também o reconhecimento do inconsciente no envolvimento dos adolescentes com os atos infracionais. O autor explica que “os ladrões estão inconscientemente procurando algo mais importante do que bicicletas e canetas-tinteiro” (WINNICOTT, 1999, p. 128). Os ladrões estão procurando algo além do objeto que foi roubado. O adolescente estaria em busca de referências que não teve durante a infância. O autor refere que na infância são experimentados todos os comportamentos que, futuramente, quando a criança se tornar adulta poderiam signi�car atos de violência. A criança que tem a con�ança nas referências familiares tenta se impor perante elas, “(...) põe à prova seu poder de desintegrar, destruir, assustar, cansar, manobrar, consumir e apropriar-se” (WINNICOTT, 1999, p. 129). A criança busca estabelecer os limites para o seu comportamento por intermédio daquilo que ela percebe como um retorno dos adultos através das palavras, dos olhares, das entoações e dos gestos. Dá-se a relação entre a criança e o adulto produzindo sentidos e contornos para o que a criança faz. Na infância, a criança constrói experiências, encontra e constitui formas de se colocar frente ao Outro. Ela faz isso colocando em questão as pessoas que a referenciam e organizam um contexto de continência para sua vida. Diante disso, a criança também pode apresentar atos transgressivos, como no caso dos adolescentes. Dependendo das vias pelas quais esses atos vão se dando e se inscrevendo na vida da criança podem vir a se desdobrar novos atos de transgressão e/ou de violência quando a criança se tornar adolescente e/ou adulta. [...] se o lar consegue suportar tudo o que a criança consegue fazer para desorganizá- lo, ela sossega e vai brincar; mas primeiro os negócios, os testes têm que ser feitos e, especialmente se a criança tiver alguma dúvida quanto à estabilidade da instituição parental e do lar [...] (WINNICOTT, 1999, p. 129). Os cuidadores possuem um papel fundamental na vida da criança. Se eles conseguem suportar e acolher a criança nos momentos conturbados da infância, em que a criança demonstra atitudes agressivas e impulsivas, ela terá mais chances de estabelecer uma relação de con�ança e o sentimento de segurança. A criança, ao perceber que as referências estão presentes, pode seguir o seu desenvolvimento afetivo, cognitivo e social. Quando essas referências não se constituem na vida da criança, su�cientemente, ela não desiste de buscá-las, direcionando-se para outros lugares, aos quais ela acredita que poderá encontrar. A criança cujo lar não lhe ofereceu um sentimento de segurança busca fora de casa as quatro paredes; ainda tem esperança e recorre aos avós, tios e tias, amigos da família, escola. Procura uma estabilidade externa sem a qual poderá enlouquecer. Fornecida em tempo oportuno, essa estabilidade poderá ter crescido na criança como os ossos em seu corpo, de modo que, gradualmente no decorrer dos primeiros meses e anos de vida, terá avançado, da dependência e da necessidade de ser cuidada, para a independência. É frequente a criança obter em suas relações e na escola o que lhe faltou no próprio lar. (WINNICOTT, 1999, p. 130). Assim, percebe-se que a função de diversas pessoas adultas próximas à criança é importante para a construção de referências, que também proporcionam a ela o reconhecimento das leis. Essas leis permitirão que a criança e, no futuro, o adolescente integrem à realidade e à cultura. Na adolescência, os comportamentos transgressores indicam uma colocação à prova da lei, ou ainda que esta não está su�cientemente inscrita, ou seja, simbolizada. Ao mesmo tempo, esses atos expressam que alguma esperança ainda existe em conseguir a referência. Com os atos de violência, o adolescente convoca os adultos que habitam seu entorno para agir com força sobre ele, proporcionando uma relação de implicação, responsabilidade e de con�ança. Os adolescentes que se envolvem com atos infracionais e que são convocados pelo Poder Judiciário a cumprir uma medida socioeducativa de internação passam a ser submetidos a um enquadramento forte e intenso que visa à manutenção de uma lei que fracassou em suas vidas. Isso �ca visível quando presenciamos no sistema socioeducativo adolescentes que como da noite para o dia passam a valorizar oportunidades de convivência e aprendizagens que até então não faziam parte de suas vidas. Frequentemente, se encontram concepções que levam a crer que tais adolescentes já têm o destino de delinquência traçado em suas vidas, nas opiniões de representantes de diversos segmentos sociais. Ao contrário disso, propõe-se abrir a possibilidade de novas perspectivas de promoção de vida, desenvolvendo a compreensão de que esses adolescentes, com seus atos, também podem estar nos dizendo que têm esperança de alcançar uma referência e, assim, mudar e ressigni�car seu lugar no mundo dos adultos. A fragilidade da lei toma maior visibilidade para os casos de adolescentes ditos delinquentes. Contudo, vale retomar a lei, num lugar estruturante para os adolescentes em geral assim como para os adultos. A lei implica premissas para todos que fazem parte da sociedade. Nesse ponto, ela coloca uma interdição, marca uma assimetria, um limite para a realização dos desejos daqueles que fazem parte do sistema social. E isso não está fora da condição do homem diante das impossibilidades inerentes à vida, principalmente no que refere a manter uma vida em conjunto com o outro. A lei vem a ser uma maneira para o homem organizar a si e a sociedade frente a essas impossibilidades. A lei marca um limite para o possível, dizendo que existe o impossível para determinados tempos e espaços. Para isso, se dão marcações, nomeações e possibilidades de simbolização frente aos limites da vida. Podemos nos perguntar: O que acontece quando não há a marcação da lei e suas nomeações como fronteira para o impossível? Como �cam os limites inerentes à vida sem essas nomeações? Um limite mestre para a existência humana é a morte. Como �caria o homem sem as possibilidades de nomeações da morte? Essas nomeações dizem da morte, mas também apresentam delimitações e possibilidades de vida. Dentro disso, já nos encontramos diante de uma das complexidades quando nos referimos à lei, num sentido simbólico. Refere-se, assim, à lei como sendo simbólica, diferente de uma burocratização, ou da de�nição de códigos que organizam um sistema, ou, ainda, o uso exagerado da lei, que decorreria no autoritarismo. Stiegler (2008) aponta para uma grande importância da lei simbólica na relação entre os adultos e os adolescentes. O autor defende a ideia que o respeito pela lei não é garantido pelo aparelho repressor que a acompanha. O que vai assegurar o respeito à lei é o sentimento de que vai valer, se ela for interiorizada, e para isso ela precisa tomar um sentido de cuidado e de proteção, que faz com que a lei esteja associada ao sentido de �liação. E o cuidado, somente ele é que pode engendrar este sentimento íntimo, e a familiaridade que se forma (como philia), é isso que é fundado sobre uma responsabilidade que é partilhada – ao menos numa sociedade de direito. (STIEGLER, 2008, p. 14, tradução nossa). O cuidado sob o prisma de uma familiaridade com a lei, com as suas nomeações, interdições e proteções da vida é que vem a permitir a sua interiorização. Essa dimensão de cuidado vem a implicar a posição do adulto no que pode ser oferecido e transmitido aosadolescentes. Stiegler (2008, p. 14, tradução nossa) a�rma uma questão importante dentro dessa discussão: “a verdadeira questão é de saber o que merecem os menores, isto é, as crianças e os adolescentes”. A partir da internação do adolescente, demarca-se uma lei externa ao sujeito dado que a internalização dessa lei está com problemas. Ou, ainda, pode-se dizer que a lei não está inscrita para esse sujeito, numa dimensão de interdição e de mediação na relação com o Outro. A internalização da lei coloca questões a serem pensadas como fazendo parte de um processo psíquico complexo. A interrogação sobre como lidar com essa implicação passa a ser uma questão em que o psicólogo pode auxiliar na re�exão e na intervenção. Pode-se perceber que a circulação da palavra é, sem dúvida, um elemento que faz parte desse processo e no qual o psicólogo poderá auxiliar. Considera-se a palavra uma materialidade e o próprio fundamento da vida interior. É através da palavra que se integra a vivência interior na objetividade da vivência exterior. As palavras deslizam na relação com o Outro fazendo parte da dinâmica da constituição do tecido social. Considera-se a palavra ligada às estruturas sociais, uma vez que está relacionada às condições de comunicação. Entre os adolescentes que cumprem medida socioeducativa se evidenciam, com frequência, di�culdades de comunicação e de interação social. Essa situação é manifestada de diversas formas, como, por exemplo, na falta de comunicação entre os pais, os �lhos e outros familiares. A interação social também se coloca com problemas uma vez que são precárias as oportunidades de circulação e de participação em espaços de promoção de vida, educação, saúde, cultura e lazer. A passagem ao ato e à violência acabam sendo formas encontradas de estabelecer relação com o Outro. Veri�ca-se que pessoas da comunidade manifestam o reconhecimento desses adolescentes pelos seus atos transgressores, gerando um lugar de�nido num determinado contexto. Isso faz com que o adolescente responda a esse lugar que lhe é dado. Contudo, os atos de violência manifestam con�ito, uma tentativa de signi�car uma experiência, problematizando a abertura para sua condição como sujeito com outras possibilidades para estabelecer o laço social. Colocar a palavra no lugar dos atos de violência e/ou transformá-los em palavras faz com que se deem rumos para um processo de simbolização e vem a ser uma direção de trabalho para o psicólogo. Uma tarefa delicada, devido à história de rupturas e fragilidades das relações sociais e de referência à lei, que o adolescente, em medida socioeducativa de internação, apresenta. O adolescente somente conseguirá engajar-se num processo de simbolização se for auxiliado por adultos que desenvolvem práticas de cuidado. Incluem-se aí a abertura de espaço para a produção e circulação da fala, primando pela escuta e possibilidades para a emergência de con�itos, de diferenças, de discordâncias, de afeto, de dúvidas e de inseguranças. Falar sobre si e de vivências de antes, durante e outras, que são imaginadas fora do espaço institucional, é uma das formas de ressigni�car a relação com a medida socioeducativa e, consequentemente, com a lei. O valor da palavra será mais potencializado quando transpuser os muros da instituição. Dito de outra forma, ampliam-se as possibilidades de produção de sentidos e de reconhecimento para a palavra do adolescente quando ele percebe que a sua palavra terá validade em outros espaços que não somente na instituição, num sistema de privação de liberdade. O adolescente deve iniciar um processo de fala e de escuta na instituição que deverá ser transposto para fora dela e alcançar o espaço público e a cidade. Ter novas vivências, em diferentes tempos e espaços, pode contribuir para a construção de referências e simbolização das leis. O adolescente, ao se deparar novamente com a ausência de palavras e com os vazios inerentes aos con�itos, pode encontrar, com novos laços sociais constituídos, novas possibilidades de ser e estar no mundo. Cabe ao psicólogo auxiliar, juntamente com a equipe interdisciplinar, na construção de articulação com a rede de atenção entre outros espaços sociais que possam propiciar o diálogo, a interação e o reconhecimento do adolescente como sujeito e cidadão. O psicólogo que integra o sistema socioeducativo de internação se lança para uma visão interdisciplinar e intersetorial que vai implicar também no encontro com outros pro�ssionais no campo externo ao sistema. Entre esses pro�ssionais, encontram-se também psicólogos que poderão auxiliar, compartilhar e contribuir para a construção de uma direção de trabalho que se propõe a intervir com adolescentes na condição de sujeitos e cidadãos. A implicação de outros serviços e pro�ssionais, como das áreas da saúde, da educação, da assistência social, da cultura, do esporte, é fundamental para ampliação da rede de atenção. Acredita-se que a criação de uma rede viva e forte pode auxiliar a apresentar a dimensão de uma exterioridade para adolescentes, contribuindo para a produção da sua diferença. Entende-se que assim aumentam as possibilidades de validação do sistema socioeducativo para a vida dos adolescentes. Os impasses vivenciados por quem passa por uma medida socioeducativa de internação não se encerram ao sair da instituição. Uma vez que isso acontece, é de suma importância que esse adolescente possa encontrar outros espaços para ser acolhido e considerado na sua singularidade. Conforme já mencionado, as ações, como criação de vínculo antecipado em outros serviços de atenção para o adolescente, podem proporcionar outras perspectivas de cuidado e de construção de relação de con�ança. Além disso, busca-se a construção de outros espaços e vivências que ultrapassem as formas tradicionais das técnicas da Psicologia, como entrevista individual, atendimento em grupo, sessão de psicodiagnóstico, entre outros. As propostas de intervenção precisam tomar novas formas, no sentido de se entrelaçarem às marcas que permitam o adolescente se identi�car, manifestar o seu interesse e o seu desejo. A exemplo disso se percebe a riqueza de vivências relacionadas à participação em o�cinas de música, de crochê, de escrita, de esportes. Incluem-se as ações de gra�tagem, de ida ao teatro, de realização de apresentações artísticas, de ida a parques, a sorveterias e também de visitas às famílias. Dentre as ações aqui mencionadas encontram-se possibilidades para o pro�ssional da Psicologia ser um dos protagonistas, guiando-se pela promoção de vida. Ainda, consideram-se essas práticas como oportunidades para experimentações dos adolescentes, de articulação entre as suas vivências internas e externas constituindo, assim, o que foi chamado por Winnicott (1975) de espaço potencial. Chega-se ao conceito de interiorização, que, em nosso caso, interessa pensar as possibilidades de simbolização da lei. A interiorização vem consolidar o cuidado, “quer dizer, uma aprendizagem pela qual se desenvolve uma arte de interiorização – uma arte de viver – a qual Winnicott chama de criatividade” (STIEGLER, 2010, p. 42). O psicólogo precisa encontrar formas criativas de articular a complexidade entre a sustentação da singularidade, que dá condições do sujeito ser tomado como sendo único, e o trabalho pela inserção social, para que o sujeito possa fazer parte de uma rede de atenção, de uma cidade e de um coletivo. Referências BRASIL. Código de Menores. Lei Federal nº 6.697, de 10 de outubro de 1979. Entrou em vigor em 08 de fevereiro de 1980. 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Disponível no blog: <http://ler- umaviagemquesofazbem.blogspot.com.br/2011/06/parnasianismo.html>. Acesso em: 29 dez. 2014 2 Trata-se do Outro, com letra maiúscula, da maneira como é o nomeado na psicanálise Lacaniana, que implica na dimensão de abertura do que se tem como coletivo, cultura e linguagem constituintes do sujeito. “Este ‘espaço de abertura’ apresenta grande importância para o singular, pois diz de uma instância terceira, que podemos entender como faltante e que permite a inserção do sujeito a partir de um processo de permanente constituição/criação no mundo” (MACHADO, 2012, p. 51). “Essa noção de ‘grande Outro’ é concebida como um espaço aberto (...) que o sujeito encontra desde o seu ingresso no mundo; trata-se de uma realidade discursiva (...); o conjunto dos termos que constitui esse espaço remete sempre a outros e eles participam da dimensão simbólica margeada pela do imaginário (...)” (KAUFMANN, 1996, p. 385). CAPÍTULO 8 INCOMPREENSÕES SOBRE A MENTE CRIMINOSA E AS SUAS IMPLICAÇÕES ÉTICAS E JURÍDICAS Silvio José Lemos Vasconcellos Roberta Salvador Silva Thiago Ferreira Mucenecki Jaíne Foletto Silveira Em décadas recentes, principalmente após o advento da ressonância magnética funcional, uma quantidade signi�cativa de pesquisas passaram a explorar, de forma mais direta, a relação cérebro e crime (ROBINSON; SPROOTEN; LAWRIE, 2011). Uma relação que se mostra tão complexa quanto pouco compreendida por parte daqueles que advogam o uso incondicional dos recursos de neuroimagem para explicar o comportamento criminoso, bem como por parte dos seus críticos mais ferrenhos. Faz-se necessário pensar as possibilidades e os limites desses recursos no que se refere a uma explicação neurobiológica para as tendências antissociais humanas ou mesmo para alguns transtornos mentais mais especí�cos que apresentam relação, direta ou indireta, com tais tendências. O presente capítulo vale-se de uma revisão bibliográ�ca capaz de fundamentar a discussão teórica proposta sobre esse mesmo tema. Entende-se que as considerações propostas ao longo deste trabalho permitem apresentar um breve panorama sobre o estado atual de conhecimento sobre o assunto, permitindo, sobretudo, que os achados nesse campo possam ser analisados à luz de outras áreas do conhecimento. Analisar alguns resultados de pesquisas recentes envolvendo o cérebro de criminosos psicopatas ou não psicopatas é, portanto, compatível com o trabalho teórico proposto que, por sua vez, visa considerá-los com base em pressupostos atuais da Filoso�a da Mente. Uma área do conhecimento que, conforme Churchland (2004), ocupa-se principalmente de um debate cientí�co-�losó�co diante do qual soluções de�nitivas e teoricamente satisfatórias ainda não foram alcançadas. Em termos gerais, este trabalho poderá gerar avanços no debate relacionado à validade de pesquisas que se apoiam na Neurociência Cognitiva e estão voltadas para a compreensão de aspectos cerebrais relativos ao comportamento antissocial. Torna-se ainda importante problematizar a implicação ética desses mesmos trabalhos, apontando direções e destacando preceitos fundamentais para novas pesquisas sobre o tema. Considerações desse tipo também integram a presente proposta, conforme será evidenciado na parte �nal do capítulo. Imagens sugestivas, porém não conclusivas Na atualidade, quatro técnicas de imagem e/ou rastreamento funcional fundamentadas na avaliação de parâmetros �siológicos permitem a localização de áreas cerebrais especí�cas relacionadas com populações neuronais ativas (MARCUCCI; FILHO, 2006). A ressonância magnética funcional (RMf ) é uma das técnicas de imagem por ressonância magnética (IRM). De um modo geral, a IRM é o resultado da interação do campo magnético produzido a partir de um dispositivo com os prótons de hidrogênio do tecido cerebral, viabilizando o envio de um pulso de radiofrequência e uma identi�cação posterior da frequência alterada, a partir da sensibilidade de uma bobina ou antena receptora (MAZZOLA, 2009). A RMf decorre de avanços na IRM ocorridos na década de noventa e apoia-se na possibilidade de captar o campo magnético gerado a partir de um estado de maior oxigenação do �uxo sanguíneo arterial que, por sua vez, varia conforme as atividades cerebrais executadas (MAZZOLA, 2009). A Tomogra�a por Emissão de Pósitrons (PET) utiliza radionucleotídeos que emitem pósitrons no momento da sua desintegração. Para tanto, a glicose é ligada a umcomposto radioativo que é injetado no examinando, tornando-se, assim, possível identi�car, por intermédio desse mesmo marcador, as regiões que estão metabolizando a glicose de forma mais proeminente. A Magnetoencefalogra�a (MEG) identi�ca atividades magnéticas e elétricas oriundas das diferentes ocorrências neuronais. Já a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) vale-se da estimulação cerebral por intermédio de uma bobina posicionada próxima ao crânio, gerando um estímulo focal sobre o escalpo (MARCUCCI; FILHO, 2006). Dentre as técnicas citadas, a ressonância magnética funcional é aquela que tem sido amplamente utilizada para investigar o cérebro de indivíduos classi�cados como criminosos, em condições de processamento de estímulos emocionais ou neutros, além de avaliar o desempenho em tarefas de tomada de decisão, memória episódica, ou mesmo a partir de outras situações de processamento. O estudo das diferentes funções cognitivas e de seus correlatos, identi�cados a partir da neuroimagem, estiveram no cerne de uma nova abordagem denominada Neurociência Cognitiva (NEVES, 2006). Essa mesma abordagem tem fundamentado uma série de trabalhos que buscam elucidar como funciona a mente criminosa e, de um modo mais especí�co, como funciona a mente de indivíduos que podem ser diagnosticados como psicopatas. Nesse último caso, objetiva-se investigar especi�cidades cerebrais que possam apresentar relação com um transtorno de personalidade caracterizado por problemas na esfera afetiva e uma maior propensão para o cometimento de atos antissociais (GAUER, 2001; MOSQUERA et al., 2004; VALENCIA, 2007). Observa-se, de outro modo, que uma das técnicas que mais oferece respaldo para a Neurociência Cognitiva apresenta limitações quanto ao seu poder explanatório, conforme problematizaram estudos recentes. Apesar da Ressonância Magnética Funcional (RMf ) apresentar resolução temporal superior a outras técnicas (ROCHA et al., 2001), é na interpretação dos seus resultados que podem surgir dados inconsistentes. Em uma revisão de cinquenta e quatro trabalhos feitos com base na RMf. Vul et al. (2009) destacaram, por exemplo, o fato de existirem dados in�acionados em uma parte signi�cativa desses trabalhos. Para os autores, o problema estaria nos voxels selecionados para �ns estatísticos. Um voxel refere-se à menor unidade de análise da imagem usada a partir desse método. Os problemas apontados dizem respeito a uma seleção enviesada de voxels nos quais é possível vislumbrar uma maior ativação durante a tarefa executada pelo cérebro. Daí decorrem correlações muito altas, próximas a 0.8, 0.9, mas, ao menos em alguns trabalhos analisados, espúrias (VUL et al., 2009). Ressalta-se, no entanto, que o trabalho desses autores não objetivou refutar a validade de técnicas de neuroimagem, mas tão somente destacar a necessidade de que estudos nesse campo possam aprimorar as próprias análises estatísticas realizadas. Nessa mesma direção, apontou o trabalho de Bennett et al. (2012), sinalizando algum nível de negligência metodológica quanto à aplicação dos recursos estatísticos de correção relacionados a falsos positivos. No ano de 2008, por exemplo, destaca-se o fato de que 61,8% dos trabalhos publicados com base na utilização de pacotes estatísticos aplicáveis ao uso da RMf publicados no Journal of Cognitive Neuroscience não se valeram desse recurso corretivo (FRAZZETTO, 2014). Crime, psicopatia e cérebro Devido ao alto impacto social da criminalidade, pesquisas têm sido fomentadas com o intuito de investigar a etiologia do comportamento antissocial. Apesar de a psicopatia não ser um transtorno que apresenta como critério diagnóstico essencial a manifestação de comportamentos criminais (SKEEM; COOKE, 2010), as características nucleares do transtorno, como insensibilidade emocional, dé�cits de empatia e ausência de remorso, favorecem o engajamento em atividades antissociais, muitas vezes com caráter criminal (PATRICK; FOWLES; KRUEGER, 2009). A psicopatia é compreendida como um transtorno de origem multifatorial, sendo desencadeada pela interação entre fatores biológicos, sociais e neuropsicológicos, contudo, as pesquisas de base neurobiológica têm recebido especial destaque a partir da última década. Alguns estudos experimentais veri�caram alterações funcionais no córtex pré-frontal (BLAIR, 2007) e um menor nível de ativação da amígdala de psicopatas quando comparados a grupo controle em tarefas de exposição de imagens de impacto emocional envolvendo a violação de normas morais (HARENSKI, 2010), em experimentos de processamento de emoções negativas (DOLLAN; FULLAM, 2009), durante processo de condicionamento aversivo (BIRBAUMER et al., 2005; RILLING, 2007) e em tarefas de reconhecimento de medo em crianças com tendência à psicopatia (JONES et al., 2009; MARSH et al., 2008). Alguns estudos também identi�caram alterações amigdalares em nivel anatômico, como menor volume e anormalidades estruturais em comparação aos controles (ANDERSON; KIEHL, 2012; WEBER et al., 2008; YANG et al., 2009). Um estudo mais recente também identi�cou alterações morfológicas distintas em diferentes núcleos da amígdala de psicopatas, como os núcleos basolaterais que exercem um importante papel na memória emocional e uma função reforçadora basilar para a introjeção de valores sociais que se apresentam diminuídos; já os núcleos centrais e laterais, envolvidos no circuito de detecção de ameaças, mostraram-se aumentados (BOCCARDI et al., 2012). Essas pesquisas não mencionam tais achados como sendo fatores etiológicos únicos para o desenvolvimento da psicopatia, e sim como alguns dos fatores que podem exercer mais predisposição para a manifestação do transtorno na idade adulta, quando os citados fatores interagem com os desencadeantes ambientais. O que a neuroimagem pode revelar A discussão sugerida no título anterior remete a temas atuais, ainda que inconclusivos no campo da Filoso�a da Mente. Problematizá-los permitirá, de outro modo, que o presente trabalho ofereça re�exões oportunas sobre a necessidade de mais estudos envolvendo a relação entre o cérebro e comportamento antissocial. Em termos gerais, os trabalhos anteriormente destacados evidenciam disfunções ou mesmo alterações anatômicas relacionadas ao cérebro de indivíduos que apresentam uma maior propensão para a manifestação de comportamentos antissociais. Destaca-se, inicialmente, o fato de que os autores optam, neste trabalho, por usar a expressão ‘comportamentos antissociais’, sem equipará-la à categoria de comportamentos criminosos, tal como sugere o título deste capítulo. Essa última denominação remete a uma tipi�cação jurídica que diz respeito a questões de época e lugar. Já a expressão ‘antissocial’ revela- se mais abrangente, considerando o próprio fato de que pode ser pensada a partir de outros parâmetros, incluindo um entendimento evolucionista sobre as suas origens. Em outras palavras, contempla formas de agir e interagir que podem ter sido recorrentes em outras espécies do gênero Homo e, dessa forma, preexistem a qualquer nomenclatura jurídica que sobre elas possa, na atualidade, sobrepor-se. Considera-se, portanto, etimologicamente equivocado o uso da expressão ‘cérebro criminoso’ em trabalhos que objetivam investigar a etiologia das tendências antissociais. Desse modo, em um estudo que objetiva analisar as compreensões e as incompreensões vigentes nesse mesmo campo, tal explicação faz-se necessária. Em contrapartida, a imprecisão semântica destacada pode ser também sinônimo de incompreensão ontológica sobre esse objeto de estudo. Incompreensão essa que parece caracterizar tanto o trabalho de autores que elevam os estudos de neuroimagem à categoria de evidência su�ciente para pensar o comportamento antissocial a partir de uma perspectiva exclusivamente neurobiológica, como também dos seus críticos. Dito de outro modo, observa-se, de um lado, uma redução causal pouco explicativa e, de outro, uma confusão ontológica pouco argumentativa nesse debate. Para explicar o primeirocaso, recorre-se aos preceitos epistemológicos defendidos pelo neurocientista cognitivo William Calvin, para o qual as ciências da mente trabalham, sobretudo, com níveis distintos, porém compatíveis de explicação (CALVIN, 2004). Para ilustrar esses mesmos níveis, o problema da violência e suas implicações sociais revela-se bastante elucidativo, uma vez que sugere um processo de retroalimentação em diferentes esferas. A violência é, sobretudo, um problema social que pode ser explicado a partir dos fatos sociais. Fatos sociais, porém, incidem, como não poderia deixar de ser, sobre eventos cerebrais, reforçando tendências preexistentes ou moldando novas tendências em cérebros que se caracterizam tanto pela plasticidade, como também a partir de regularidades funcionais oriundas de eventos genéticos e epigenéticos. Aceitando-se essas considerações, infere-se daí que qualquer imagem cerebral envolve uma descrição �sicalista sobre as regularidades de um sistema, leia-se, nesse caso, sistema cerebral. Nada revelam, no entanto, sobre a causação dessas mesmas regularidades. Em termos metafóricos, pode-se dizer, portanto, que os estudos de neuroimagem propiciam uma foto ilustrativa de uma realidade orgânica circunscrita, e não uma narrativa cinematográ�ca sobre a vida mental do organismo. Não refutam, por certo, uma compreensão biopsicossocial sobre o problema da violência. A�nal, as in�uências que um organismo processador de informações sociais é capaz de protagonizar não são, em todas as suas instâncias, substancializadas, exceto quando incidem sobre a realidade cerebral desse mesmo organismo. Sendo assim, é a partir da neuroimagem que essas mesmas in�uências podem ser estudadas a partir das suas propriedades físicas. Isso signi�ca dizer que a descrição neurobiológica remete a um dos níveis de explicação válidos para o comportamento violento, porém incapaz de exaurir o problema da sua causação. Os autores do presente trabalho entendem que essa incompreensão está traduzida em alguns equívocos de divulgação cientí�ca que acabam por difundir uma errônea ideia de causação su�ciente em termos neurobiológicos da conduta criminosa. Quando uma escritora como Ana Beatriz Barbosa da Silva encarrega-se de intitular um capítulo de sua obra a partir da expressão: ‘De onde vem isso tudo?’ (SILVA, 2008), explicando, nesse mesmo capítulo, as origens cerebrais da psicopatia, há, nesse entendimento, um sugestivo reducionismo causal. A psicopatia não advém exclusivamente do cérebro, assim como um vento quente não advém exclusivamente da condição cinética das partículas que entram em contato com a pele humana. Já os sintomas que constituem esse transtorno manifestam-se por intermédio do funcionamento dessa estrutura orgânica. Não há, e nem pode haver, condição única e necessária que seja, ao mesmo tempo, su�ciente para a ocorrência de fenômenos complexos. A autora parece ter confundido a expressão ‘De onde vem isso tudo?’ com uma possível e mais realista pergunta: ‘Onde, em termos orgânicos, manifesta-se isso tudo?’. Mas, recorrendo novamente a William Calvin, a ciência e, nesses termos, a própria Neurociência Cognitiva, trabalha com níveis de explicação. Os comportamentos são gerados por intermédio do sistema cerebral, mas esse não é, por certo, um sistema isolado. Além disso, o necessário dualismo, ou mesmo pluralismo conceitual, remete, nesse caso, à complexidade do fenômeno estudado e à própria necessidade de um olhar interdisciplinar sobre essa realidade. Em termos mais simples, e na linguagem da moderna Filoso�a da Mente, pode-se então a�rmar que uma visão funcionalista relativa ao binômio mente e cérebro, que não incorre em nenhum dualismo de substâncias ou mesmo no Materialismo Eliminativo, suporta e, quiçá, fundamenta a necessária interdisciplinaridade para o problema da violência. Ressalta- se, a partir dessas considerações, que é válida, ainda que inevitavelmente insu�ciente em termos etiológicos, a proposta de pensar a neurobiologia da violência. Já o caráter mais ou menos promissor dessa mesma proposta parece depender de um urgente re�namento dos seus métodos, conforme demonstrou o trabalho de Vul et al. (2009). Confusões lombrosianas Algumas recentes lucubrações críticas sobre o empreendimento da Neurociência Cognitiva e de seus métodos passaram a ser feitas em decorrência do número crescente de novos estudos nessa área. No presente capítulo, os autores tecem considerações sobre a pertinência de algumas críticas levantadas nesses trabalhos, tal como será explicado na parte �nal, mas refutam outros pontos considerados pouco conspícuos no que se refere à ontologia dos fenômenos aludidos. Alguns dos trabalhos que visam obliterar os estudos de neuroimagem voltados para uma compreensão neurobiológica das tendências antissociais humanas apoiam-se no pressuposto de que, de algum modo, tais estudos reiteram a compreensão errônea de Lombroso sobre a etiologia da criminalidade. Cesare Lombroso (1835-1909) foi um criminologista italiano que postulou a ideia de um criminoso nato. Veras (2005) diz que, embora os trabalhos em questão não sejam uma repetição sistematizada dos estudos de Lombroso, utilizam-se da possibilidade de identi�cação visual tal qual Lombroso em seus posicionamentos. Zanoni e Neto (2013) trazem em sua pesquisa questões atuais, como reportagens e palestras de pesquisadores, da visão do modelo de Lombroso que o comportamento violento se dá por meio biológico. Gomes (2013) enfatiza que essa concepção de que os comportamentos são manifestados somente por questões cerebrais põe em cheque a questão do livre arbítrio do indivíduo, como se lhe fosse negado o poder de decisão a respeito da manifestação do próprio comportamento, criando, com isso, questões referentes à ética humana. Os autores ainda comentam que a Neurociência tem evoluído e vai evoluir ainda mais, porém, alguns estudos ainda se apoiam nas percepções ‘lombrosianas’ do comportamento. Ao escrever sua mais importante obra, intitulada o Homem Delinquente, esse pensador difunde ideias de que o caráter inato do comportamento criminoso poderia ser identi�cado a partir de um fenótipo especí�co e passível de mensuração. Na referida obra, é possível encontrar a�rmações como: “A �sionomia dos famosos delinquentes reproduziria quase todos os caracteres do homem criminoso: mandíbulas, assimetria facial, orelhas desiguais, falta de barba nos homens, �sionomia viril nas mulheres, ângulo facial baixo” (LOMBROSO, 2007, p. 197). No mesmo trabalho, o autor complementa: “Os dementes morais são infelizes, com a demência no sangue, contraída no ato da concepção, nutrida no seio materno. Faltam-lhe o sentimento afetivo e senso moral, nasceram para cultivar o mal e cometê-lo.” (LOMBROSO, 2007, p. 201). Esses esparsos trechos da obra do criminologista italiano mostram-se su�cientes para evidenciar que os modernos estudos de neuroimagem envolvendo os correlatos neurais do comportamento antissocial não são, por certo, uma retomada das ideias lombrosianas. Se é verdade que há menção a estruturas orgânicas supostamente associadas a esse tipo de comportamento nos dois casos, também é verdade que tais estruturas são ontologicamente incomparáveis e, nesse sentido, seguem percursos ontogenéticos distintos. De acordo com a moderna perspectiva funcionalista, cérebros geram comportamentos a partir das suas regularidades funcionais. A�rmar que a amígdala de um psicopata é, por exemplo, disfuncional no que se refere a processar as emoções alheias é a�rmar que existem ocorrências neuroquímicas geradoras de um padrão hiporresponsivo capaz de ser veri�cado em um exame de neuroimagem. Padrão esse que tende a gerar comportamentos antissociais condizentes com esse mesmo nível de hiporresponsividade. Observa-se, porém, que não há nada, nas a�rmações anteriores, que ateste que esse padrão decorre tão somente de in�uências genéticas. Na verdade, estudos mais recentes indicam que esses padrões não decorrem tão somente dessas in�uências (FALLON, 2006). O ambiente no qualo indivíduo desenvolve-se é, portanto, verdadeiramente capaz de reforçar ou reorganizar essas mesmas in�uências (FALLON, 2006). Em segundo lugar, os correlatos orgânicos buscados por Cesare Lombroso só podem ser pensados a partir de uma compreensão ontológica não dinâmica. Se descrevermos a constituição de crânio adulto hoje ele poderá ser descrito em iguais condições dez ou vinte anos depois, salvo qualquer situação de injúria. Já o binômio cérebro/mente não pode ser pensado a partir de condições estanques. Descrever, em termos dimensionais, essa realidade é, nesse sentido, pouquíssimo explicativo, considerando o estado atual de conhecimento sobre o assunto. Ou seja, os estudos de neuroimagem não geram, ipso facto, explicações calcadas em qualquer determinismo genético para o comportamento. Geram, de outro modo, apenas informações aproximativas sobre padrões dinâmicos de um órgão cujas regularidades podem ou não ser pensadas a partir de uma perspectiva determinista. Tal perspectiva irá depender, no entanto, da interpretação que se faça. Da mesma forma que as fotos oriundas de satélite são capazes de retratar a devastação de uma área qualquer da Floresta Amazônica sem, entretanto, explicitar as causas desse evento, a neuroimagem não evidencia, por si só, as condições geradoras dos padrões vislumbrados. Não há uma redução causal nesse caso. Há tão somente a descrição fenomenológica a partir das associações presumidas entre estados orgânicos e a conduta antissocial ou mesmo outros aspectos da conduta. Não se pode esperar de um exame funcional dessa natureza mais do que ele tem a oferecer. Por outro lado, não se pode imputar a qualquer recurso capaz de retratar uma dada disposição orgânica a meta de evidenciar todas as suas condições antecedentes. Neuroética como uma possibilidade de interlocução Em termos gerais, este trabalho procura evidenciar que não existe a necessidade de defender uma causa producente a partir dos argumentos errôneos. Em outras palavras, rotular os estudos de neuroimagem voltados para o comportamento antissocial como representativos de uma retomada das ideias de Lombroso parece ser uma equiparação, no mínimo, equivocada. Também foi possível destacar, a partir das considerações anteriores, a própria incompletude ou, em muitos casos, imprecisão que perfaz alguns desses estudos. Alguns trabalhos anteriores encarregaram-se de sinalizar as implicações relacionadas ao mau uso da Neurociência no que se refere à Psicologia Jurídica e à Psiquiatria Forense. Fernandez e Fernandez (2010) alertam, por exemplo, para as limitações da neurociência, principalmente em procedimentos atuais de neuroimagem, a partir dos quais se torna possível gerar conclusões precipitadas. Os autores do presente trabalho consideram pertinente esse olhar crítico sobre o empreendimento de investigar a conduta antissocial a partir de seus correlatos neurocognitivos, mas enfatizam a necessidade do devido embasamento sobre as reais possibilidades e os limites dessa mesma proposta. Diante do exposto, a construção teórica proposta objetiva gerar avanços na área e aprimorar o diálogo entre os diferentes campos de conhecimento voltados para a questão cérebro e crime, conforme a expressão recorrente em alguns trabalhos. Os pressupostos éticos que devem nortear todo e qualquer trabalho nesse campo podem ser, portanto, um elemento comum a ser considerado por pesquisadores que produzem achados experimentais sobre o tema, bem como por diferentes pensadores do Direito, da Sociologia e da Psicologia. Dito de outro modo, considerando o quão incipiente ainda é a investigação da relação entre cérebro e tendências antissociais, novas pesquisas tornam-se necessárias. Pesquisas essas que devem ser conduzidas a partir de preceitos éticos fundamentais (ROBINSON; SPROOTEN; LAWRIE, 2011). Deve-se levar em consideração que, embora diversos trabalhos dentro do campo de abrangência da Neurociência apontem evidências do envolvimento cerebral nas atitudes de transgressão e na criminalidade (ADOLPHS; TRANEL; DAMASIO, 1995; BARRASH et al., 2011; BLAIR, 2001; BROWER; PRICE, 2001), tais achados, sem a devida contextualização e relativização, podem afetar as representações construídas pela sociedade em relação ao comportamento antissocial. Os desa�os e os problemas éticos surgidos com a ampliação da capacidade de intervir sobre o cérebro não podem ser ignorados. Será que as pesquisas também estão preparadas para responder às questões éticas emergentes que relacionam especi�cidades neurobiológicas às condutas relacionadas ao crime? Como evitar a possível exclusão social de um ‘criminoso em potencial’ a partir dos achados mencionados? Até que ponto o avanço das pesquisas mencionadas anteriormente traria benefícios coletivos, sem o risco de fomentar práticas de dominação e exclusão? O progressivo avanço das pesquisas em Neurociência acaba produzindo dilemas éticos, uma vez que os resultados decorrentes das investigações podem ser usados para diversas �nalidades. Desse modo, torna-se necessário de�nir critérios e parâmetros claros ao considerar o uso de tecnologias para investigação das relações existentes entre cérebro e tendências antissociais. Um debate multidisciplinar envolvendo as diferentes áreas de abrangência interessadas nas re�exões propostas no presente trabalho poderia resultar na continuidade do avanço cientí�co, sem desconsiderar os riscos e benefícios desse avanço para a sociedade. Conforme destaca Toninato (2007), um dos aspectos centrais a ser pensado pela Neuroética deve ser, portanto, o impacto social dos achados decorrentes da Neurociência. Essa nova abordagem pode ser, conforme Kipper (2011), de�nida como uma disciplina em construção. Seu caráter interdisciplinar envolve aspectos �losó�cos, sociológicos, bem como as diferentes áreas jurídicas e da esfera da saúde. Cita-se como uma questão fundamental para a Neuroética a necessidade de que os achados decorrentes da Neurociência não sejam usados para subsidiar mecanismos de controle comportamental ou exclusão social, capazes de atender apelos mais pueris. Um caso emblemático ocorrido na década de setenta, conhecido como ‘Caso Detroit’, é ilustrativo para as questões destacadas, tendo em vista que foi o primeiro caso a ser julgado pela Corte dos Estados Unidos envolvendo uma tentativa de cirurgia cerebral para �ns reguladores do comportamento (VARGA, 2005). Lou Smith, um agressor sexual, seria submetido a dois métodos experimentais, um envolvendo o uso de drogas e outro a cirurgia cerebral, como forma de conter seus impulsos agressivos. Após a ação de um advogado que atuou no caso, a cirurgia foi suspensa. Porém, quando Smith foi liberado, relatou não ter assinado qualquer autorização voluntária para a referida cirurgia que, conforme as informações fornecidas pela clínica de Detroit, já havia sido autorizada tanto pelo paciente como por seus pais (VARGA, 2005). Constata-se, a partir do relato anterior, que a voracidade de alguns segmentos sociais no que se refere ao uso precipitado e eticamente condenável de intervenções corretivas voltadas para o binômio mente e cérebro gera a necessidade de profundas re�exões. O papel da ciência não é punir transgressores, e os achados que ela já foi capaz de produzir são verdadeiramente insu�cientes para que se possa pensar que propostas invasivas e corretivas dessa natureza obteriam êxito verdadeiro. Se é verdade que o cérebro humano é o substrato para o qual convergem as in�uências genéticas e ambientais relacionadas ao comportamento, é também verdade que objetivar a sua recon�guração com base em achados da Neurociência é um problema ético. Problema esse que deve ser pensado em todas as suas dimensões sem que isso represente uma refutação da validade da Neurociência, mas sim o seu próprio aperfeiçoamento. Considerações �nais O presente capítulo compilou pesquisas em diferentes áreas do conhecimento. O caráter multidisciplinar dessa proposta condiz com a própria ênfase dos autores quanto à necessidade de um entendimentointerdisciplinar sobre o tema abordado no âmbito da Psicologia Jurídica. Buscou-se destacar, ao longo deste capítulo, a necessidade de um olhar crítico sobre as possibilidades e os limites da Neurociência, mas, sobretudo, buscou-se fomentar um debate mais atualizado e ponderado sobre esse tema. As implicações relacionadas ao mau uso de achados relativos ao funcionamento cerebral de um indivíduo classi�cado como psicopata ou como criminoso podem ser socialmente nefastas. A Neuroética, por seu turno, pode apresentar-se como um caminho promissor para pensar essas mesmas questões buscando a convergência de áreas de conhecimento que, a partir de discussões interdisciplinares, busquem reconhecer e re�etir sobre os dilemas éticos relacionados ao campo crescente e mutável da Neurociência. Sendo assim, mais do que apontar incongruências teóricas nesse debate, este capítulo objetivou sinalizar as alternativas para que os pesquisadores e a sociedade como um todo possam superá-las. Daí pode decorrer o avanço sobre um tema cujas implicações não são apenas jurídicas, mas sociais no sentido mais abrangente do termo. Referências ADOLPHS, R.; TRANEL, D.; DAMASIO, A. Fear and the human amygdala. Journal Neuroscience, v. 15, p. 5879-5892. 1995. ANDERSON, N. E.; KIEHL, K. A. 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Com isso, muitas informações sobre esse transtorno acabam sendo veiculadas, porém, algumas sem caráter cientí�co e associadas a conceitos utilizados de forma errônea. Sabe-se que qualquer alteração comportamental se torna alvo de diferentes olhares da população em geral, em especial quando tais alterações estão associadas a formas de violência extrema e demais comportamentos não aceitos socialmente. É nesse contexto que, muitas vezes, a psicopatia é associada a generalizações. Apesar de, muitas vezes, indivíduos com o diagnóstico de psicopatia serem interpretados como incapazes de possuir pleno entendimento sobre seus atos, o psicopata pode ser considerado completamente consciente sobre suas atitudes e plenamente capaz de responder pelas suas ações (HARE, 2013). Estudos também evidenciam que a psicopatia está relacionada com maiores níveis de agressão proativa, salientando a capacidade do indivíduo psicopata em premeditar suas ações (BEZDJIAN et al., 2011; BLAIR, 2001). Apesar do número crescente de publicações sobre psicopatia, os estudos sobre o tema e com populações antissociais de modo geral são realizados prioritariamente com indivíduos do sexo masculino (e.g. DOLAN; VÖLLM, 2009; EISENBARTH et al., 2008). Mesmo que muitos estudos estejam sendo produzidos sobre psicopatia, ainda não se tem dados consolidados sobre a etiologia do transtorno e o papel da genética na sua de�nição. Além disso, os dados mais consolidados que se têm a respeito de correlatos neurocognitivos e comportamentais da psicopatia se baseiam, predominantemente, em amostras masculinas (BLAIR, 2001; 2013; FRICK et al., 2014). De�nindo a psicopatia e sua avaliação A psicopatia é um construto que vem sendo estudado com populações de crianças e jovens, visto que pesquisas apontam que sintomas de psicopatia em adultos apresentam manifestação ainda na infância (LOEBER; STOUTHAMER-LOEBER, 2008; MARSH, 2013; WANG et al., 2012). Adultos psicopatas, em sua maioria, apresentaram diagnóstico de transtorno de conduta quando jovens, porém, o inverso não é completamente verdadeiro, indicando que apenas uma baixa parcela dos jovens com esse transtorno são diagnosticados como psicopatas quando adultos (HARE, 2013). Sobre as de�nições de psicopatia, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5; AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014) não reserva espaço especí�co para esse transtorno, sendo que algumas características sobrepostas à psicopatia são descritas na categoria destinada ao Transtorno de Personalidade Antissocial. Já no manual Classi�cação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2008), os critérios para psicopatia são descritos no Transtorno de Personalidade Antissocial. Porém, antes mesmo da psicopatia ser de�nida nos manuais, o conceito já vinha delineando-se, até chegar aos achados que possuímos atualmente. Pinel (2007) foi o primeiro a detectar que alguns indivíduos que cometiam ações violentas tinham completa noção de suas atitudes, descartando, assim, a ocorrência de alguma doença mental que pudesse prejudicar o sujeito a respeito da sua tomada de consciência. Tendo isso de�nido, Cleckley (1976) contribuiu a respeito da abordagem clínica da psicopatia, ou seja, elaborou critérios básicos para que o transtorno pudesse ser identi�cado. Cabe ressaltar que, com base nos achados de Cleckley, a psicopatia assume sua ocorrência baseada também em critérios relacionados ao comportamento afetivo e interpessoal, ou seja, nesse momento a psicopatia começa a elucidar-se não somente com amostras de comportamentos criminosos, mas principalmente com base no componente afetivo de�citário, como a frieza emocional, ausência de empatia e culpa. Posteriormente, Hare (2003) propõe um instrumento com o intuito de mensurar o nível de psicopatia em amostras forenses. Se, anteriormente, Cleckley contribuiu com abordagem clínica da psicopatia, nesse momento, Hare conduz seus achados para uma abordagem psicométrica, que é de�nida como uma técnica que visa medir os processos mentais de forma mais precisa (PASQUALI, 2009). A Psychopathy Checklist Revised (PCL-R; HARE, 2003) é uma escala pontuada a partir de uma entrevista semiestruturada conduzida por pro�ssionais com treinamento e composta originalmente por dois fatores centrais: o fator 1 é composto por itens referentes aos aspectos afetivos e interpessoais da psicopatia e o fator 2 diz respeito aos comportamentos antissociais do indivíduo psicopata. O modelo fatorial mais atual da escala se baseia em quatro facetas, de�nidas como: interpessoal, afetiva, estilo de vida e antissocial (HARE; NEUMANN, 2006). Apesar da Psicopatia e do Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA), por vezes, serem tratados como equivalentes, a psicopatia apresenta como fator nuclear os dé�cits afetivos que não são critérios diagnósticos para o TPA. Nesse sentido, os dois transtornos costumam apresentar um padrão de comportamento antissocial grave, porém, características como ausência de culpa e remorso, falta de empatia e insensibilidade emocional se constituem como pontos centrais de indivíduos psicopatas, e não de indivíduos com TPA não psicopatas. Corroborando essa categorização, pesquisas têm indicado padrões neuropsicológicos distintos entre os dois transtornos (KOSSON; LORENZ; NEWMAN, 2006; PATRICK, 2010; RISER; KOSSON, 2013). A psicopatia também é comumente associada a comportamentos criminosos graves e à reincidência criminal, sendo que as pesquisas desenvolvidas nessa área são mais comuns no ambiente carcerário e/ou de privação de liberdade, tanto no contexto internacional quanto nacional, devido à maior facilidade de acesso a essa população para realização de pesquisas (e.g. SALVADOR-SILVA et al., 2012; SCHMITT et al., 2006; SERAFIM et al., 2009). Contudo, além da visão com implicação categórica no que se refere à compreensão estritamente da psicopatia, existe também uma visão dimensional do construto, ou seja, as características diagnósticas do transtorno podem ser encontradas em maior ou menor grau na população em geral, e não especi�camente nos indivíduos que cometeram algum tipo de crime ou presidiários. Essa concepção dimensional fornece uma nova visão sobre esse transtorno, sem associá-lo, necessariamente, a comportamentos criminosos e antissociais, dando ênfase também a questões ligadas ao relacionamento interpessoal (HAUCK FILHO; TEIXEIRA; DIAS, 2012). Psicopatia em mulheres O diagnóstico de psicopatia é mais frequentemente identi�cado em homens, porém, esse achado pode estar relacionado ao fato de que os instrumentos que fornecem o diagnóstico foram desenvolvidos e, primariamente, aplicados na população masculina, ou já, com critérios originalmente desenvolvidos para a identi�cação do transtorno em homens (GOMES; ALMEIDA, 2010; NORRIS, 2011; WYNM; HOISETH; PETTERSEN, 2012). De modo geral, os estudos realizados tanto com população antissocial, quanto com amostra de psicopatas, especi�camente, costumam utilizar participantes do sexo masculino, por haver uma prevalência maior de homens com comportamento antissocial explícito, o que facilita o acesso para as pesquisas. Fatores como diferenças biológicas básicas entre os sexos e estereótipos de papéis de gênero podem contribuir para uma frequência mais elevada de psicopatia em homens. De acordo com a perspectiva de estereótipos, entende-se que a sociedade, de modo geral, encoraja os homens, desde a infância, a serem mais agressivos e audaciosos do que as mulheres; de uma perspectiva evolutiva da espécie, essas características, historicamente, foram mais exigidas dos homens para �ns de preservação (PATRICK, 2010; VERONA; VITALE, 2006). Porém, acredita-se que a atribuição do diagnóstico pode ser in�uenciada pelo viés do avaliador ao inferir que características psicopáticas e antissociais, de modo geral, são menos frequentes em mulheres (DOLAN; VÖLLM, 2009;LEHMANN; ITTEL, 2012), ocasionando, até mesmo, um subdiagnóstico. Os achados recentes apontam para diferenças quanto à manifestação da psicopatia em homens e mulheres, principalmente no que diz respeito às características comportamentais. Homens psicopatas demonstram comportamentos mais violentos para atingir seu objetivo, além de maior pontuação no PCL-R, enquanto mulheres psicopatas tendem a manipular outros indivíduos através de comportamentos promíscuos e sexualizados (HICKS; VAIDYANATHAN; PATRICK, 2010; KENNEALY; HICKS; PATRICK, 2007; NORRIS, 2011; PATRICK, 2010). Considerando que homens têm maior probabilidade de apresentar comportamentos antissociais, a genética e o ambiente podem ser variáveis que atuam de forma explicativa sobre essa diferença entre os sexos. Dados sugerem que homens e mulheres podem compartilhar dos mesmos fatores de risco para apresentar comportamento antissocial, porém, por alguma razão, os homens são mais vulneráveis a esses fatores, resultando assim em uma maior prevalência desses comportamentos no sexo masculino (MEIER et al., 2011). Ainda, mulheres podem exigir uma maior carga de fatores de risco para manifestar comportamentos antissociais (HICKS et al., 2012). Uma pesquisa, baseada em uma revisão sistemática sobre comportamento antissocial em meninas adolescentes e mulheres adultas, indica que mulheres adultas com registro de comportamento criminal tiveram histórico de comportamento antissocial na adolescência, porém, a pesquisa ainda salienta os aspectos de gênero como importantes variáveis a serem consideradas (PAJER, 1998). Apesar de tais achados, a pesquisadora citada a�rma que, em nossa cultura, é comum pensarmos que mulheres não são violentas e, nem mesmo, cometem crimes. Sobre o uso da violência, dados coletados a partir de pesquisa feita com mulheres privadas de liberdade na Costa Rica sugerem que a ocorrência de psicopatia não estava diretamente associada ao cometimento de crimes violentos, ou seja, mulheres que cometeram crimes não violentos também apresentaram escores de pontuação para o transtorno (VALVERDE; RAMÍREZ, 2006). Corroborando essa informação, dados indicam que mulheres psicopatas apresentam maior probabilidade de cometer crimes violentos e não violentos (VITALE et al, 2002). Em estudo realizado sobre Transtorno de Personalidade Antissocial, com homens e mulheres, os dados apontam que mulheres apresentaram menor índice de comportamentos violentos se comparados aos homens. Mesmo que o estudo não tenha sido realizado com indivíduos com diagnóstico de psicopatia, �ca evidente a diferença entre os comportamentos manifestados entre homens e mulheres. Além disso, os mesmos autores ainda salientam a importância de avaliar a fenomenologia das diferenças comportamentais entre os sexos, como forma de identi�car o TPA ou, até mesmo, a psicopatia, e ainda para avaliar possíveis estratégias para tratamento desses transtornos (ALEGRIA et al., 2013). Ainda sobre a manifestação dos comportamentos, homens, em uma perspectiva evolucionista, tornaram-se mais adaptados à manifestação de comportamentos antissociais, ligados, anteriormente, à prática da caça. Por outro lado, as mulheres manifestaram comportamentos mais sociais e empáticos, ligados aos cuidados maternos e à convivência em grupos. Percebe-se, portanto, que in�uências sociais, além de genéticas, desempenham papel fundamental na regulação dos comportamentos humanos, até mesmo comportamentos antissociais, que podem estar presentes na psicopatia. Além disso, o desenvolvimento cerebral acompanha o processo de socialização, que, de acordo com a cultura, pode ser diferenciado entre homens e mulheres (SALVADOR-SILVA et al., 2014). Dessa forma, além da diferenciação entre os sexos, a psicopatia também deve ser interpretada de acordo com as manifestações de gênero. Sobre isso, além das características biológicas, o papel social desempenhado por homens e mulheres também é importante no momento da avaliação do transtorno (KENNEALY; HICKS; PATRICK, 2007). Portanto, apesar de pesquisas apontarem a in�uência biológica e genética para a ocorrência da psicopatia, torna-se, atualmente, impossível negar a importância do ambiente na manifestação do transtorno. Essa premissa torna-se ainda mais válida quando estudamos o transtorno nos diferentes sexos, tornando possível vislumbrar que o papel social que a mulher e o homem desempenham na sociedade, bem como as relações que ambos estabelecem, estão diretamente relacionados com o desenvolvimento de sua personalidade. Implicações jurídicas do diagnóstico de psicopatia Ainda que, conforme algumas observações anteriormente explicitadas, as manifestações do Transtorno de Psicopatia possam diferir entre homens e mulheres, quando se trata das implicações jurídicas relacionadas a esse diagnóstico não há diferenças. Nesse sentido, pode-se observar na Constituição Federal, Art. 5º, inciso I, a determinação que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações (BRASIL, 1988). O Código Penal determina que o sujeito (agente) que comete um crime somente poderá ser responsabilizado penalmente se for considerado imputável ou semi-imputável. No primeiro caso, o sujeito é considerado consciente do seu ato e das implicações desse ato, compreendendo o que é ilícito em sua sociedade. Já o sujeito considerado semi-imputável, embora aparentemente são, não tem plena capacidade de entender o caráter ilícito do seu ato ou determinar- se conforme essa mesma compreensão, sendo que a pena privativa de liberdade poderá ser substituída pela internação, ou tratamento ambulatorial. Oposto a esse termo, o mesmo Código (Art. 26) prevê a hipótese de inimputabilidade, descrevendo indivíduos que apresentam doença mental, ou ainda desenvolvimento mental incompleto ou retardado, entendendo assim que, no momento do ato, esses sujeitos eram incapazes de compreender o ato como ilícito ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Nesses casos, é determinada medida de segurança (tratamento ambulatorial ou internação em casas de custódia para tratamento) (DELMANTO et al., 2010). Porém, é a partir da semi-imputabilidade que as principais discussões acerca da psicopatia estão posicionadas. Como os psicopatas têm completa noção sobre os seus atos (CLECKLEY, 1976; HARE, 2013), não podem ser considerados inimputáveis. Por outro lado, embora os psicopatas ajam de forma intencional e saibam a diferença entre certo e errado, apresentam um dé�cit emocional, percebendo as emoções de forma diferenciada (HARE, 2013). Em decorrência dessas asserções, o transtorno pode se encaixar na semi-imputabilidade, sendo que, inúmeras vezes, a decisão irá depender do juiz que avalia o caso. Diante do exposto, é possível eleger diversos pontos a serem debatidos. O primeiro refere-se à escassez de discussões sobre o tema no Brasil, por diversos fatores. No âmbito do Direito, essa escassez é de�nida pela ausência de uma previsão normativa para veri�cação do transtorno, tendo em vista que em outros países, como os Estados Unidos, a psicopatia é mencionada em diversas leis, inclusive prevendo o tratamento para o transtorno. No âmbito da Psicologia, destaca-se a presença de uma corrente contrária a diagnósticos dessa natureza, principalmente nesses casos. Para que se pense em novas alternativas, tanto no âmbito do tratamento da psicopatia, como na esfera jurídica, é necessário reconhecer a psicopatia como um transtorno que, de fato, existe, facilitando assim a busca por estratégias de intervenção (KIEHL; HOFFMAN, 2011). Apesar de achados recentes acerca da etiologia do transtorno demonstrarem a presença de fatores biológicos, compreende-se e salienta-se a importância do ambiente como fator de profunda in�uência no desenvolvimento dos indivíduos, atuando como componente da formação da personalidade. No entanto, existe uma demanda de diálogo entre a Psicologia e o Direito que não está sendo suprida, embora seja de extrema importância promovê-la, tornando-a ainda capaz de abarcar discussões sobre a semi-imputabilidade.